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GÉNERO E SEXUALIDADE 109

Começaremos, contudo, por observar algumas das rias que dão particular importância à socialização e à
formas como os estudiosos tentaram explicar as dife- aprendizagem dos papéis de género. Por último,
renças entre homens e mulheres. As diferenças de tomaremos em consideração as concepções dos estu-
género são objecto de grande interesse por parte dos diosos que pensam que nem o género nem o sexo têm
sociólogos, por se encontrarem ligadas a questões de uma base biológica, sendo totalmente construídos a
desigualdade e poder nas sociedades. As mudanças nível social.
dramáticas, iniciadas pelos movimentos feministas
na década de 70, inspiraram novas tentativas para
G é n e r o e b i o l o g i a : d i f e r e n ç a natural
compreender como se geram, se mantém e se trans-
formam os padrões e desigualdades de género nas Até que ponto as diferenças no comportamento dos
nossas sociedades. O estudo do género e da sexuali- homens e das mulheres provêm do sexo, em vez do
dade constitui uma das dimensões em desenvolvi- género? Por outras palavras, até que ponto são o
mento mais rápidas e estimulantes na sociologia con- resultado de diferenças biológicas? Alguns autores
temporânea. defendem que os aspectos da biologia humana - das
hormonas aos cromossomas, do tamanho do cérebro
à genética - são responsáveis pelas diferenças congé-
Diferenças de género nitas no comportamento entre homens e mulheres.
Começaremos por indagar sobre a origem das dife- Estas diferenças, afirmam, são visíveis em todas as
renças entre homens e mulheres. Consideraram-se culturas, o que implica que os factores naturais são
abordagens contrastantes para explicar a formação responsáveis pelas desigualdades entre os géneros
das identidades do género e os papéis sociais basea- que caracterizam a maior parte das sociedades. Estes
dos nessas mesmas identidades. O debate centra-se investigadores irão provavelmente concentrar-se no
nos estudos existentes: alguns estudiosos dão maior facto de, por exemplo, em quase todas as culturas, os
destaque às influências sociais do que outros aquan- homens participarem na caça e na guerra, e não as
do da análise das diferenças de género. mulheres. Será que este facto, afirmam, não indica
que os homens possuem tendências biológicas para a
Antes de revermos estas abordagens contraditó-
agressão que faltam às mulheres?
rias, é necessário fazer uma distinção importante
entre sexo e género. De um modo geral, os sociólo- Muitos investigadores não se deixam convencer
gos utilizam o termo sexo para se referirem às dife- com este argumento. O nível de agressividade dos
renças anatómicas e fisiológicas que definem o corpo homens, dizem, varia bastante de cultura para cultu-
masculino e o corpo feminino. Em contrapartida, por ra, e em algumas culturas esperasse que as mulheres
g é n e r o entendem-se as diferenças psicológicas, sejam mais passivas ou dóceis nalgumas culturas do
sociais e culturais entre indivíduos do sexo masculi- que noutras (Elshtain, 1987). Como os seus críticos
no e do sexo feminino. O género está associado a sublinham, as teorias da «diferença natural» funda-
noções socialmente construídas de masculinidade e mentam-se muitas vezes em estudos sobre o compor-
feminilidade; não é necessariamente um produto tamento animal, em vez de partirem dos indícios
directo do sexo biológico de um indivíduo. A distin- antropológicos e históricos sobre o comportamento
ção entre sexo e género é fundamental, pois muitas humano, o qual varia no tempo e no espaço. Além
diferenças entre homens e mulheres não são de ori- disso, acrescentam, o facto de uma característica ser
gem biológica. mais ou menos universal, não significa que seja de
origem biológica; poderão existir factores culturais
As interpretações sociológicas das diferenças e
generalizados que originem estas características. Por
desigualdades de género têm assumido posições de
exemplo, na maior parte das culturas, a maioria das
contraste nesta questão do sexo e do género. Existem
mulheres passa uma parte significativa das suas vidas
três grandes abordagens que irão ser analisadas
a cuidar dos filhos e não estariam preparadas para
seguidamente. Em primeiro lugar, observaremos os
participar rapidamente na caça ou na guerra.
argumentos que defendem a existência de uma base
biológica nas diferenças de comportamento entre Embora não seja possível rejeitar liminarmente a
homens e mulheres. Em seguida, focaremos as teo- hipótese dos factores biológicos determinarem
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padrões de comportamento nos homens e nas mulhe- tes - procura-se a explicação numa socialização ina-
res, a investigação de quase um século para identifi- dequada ou irregular. Segundo esta perspectiva fun-
car as origens fisiológicas de tal influência não teve cionalista, os agentes de. socialização contribuem
sucesso. Não há provas dos mecanismos que iriam para a manutenção da ordem social ao supervisionar
associar tais forças biológicas aos comportamentos a socialização natural do género nas novas gerações.
sociais complexos dos homens e das mulheres (Con- Esta interpretação rígida dos papéis sexuais e da
nell, 1987). As teorias que vêem os indivíduos a agir socialização tem sido alvo de críticas em muitos
de acordo com uma espécie de predisposição inata aspectos. Muitos autores afirmam que a socialização
descuram o papel vital da interacção social na forma- do género não é um processo inerentemente harmo-
ção do comportamento humano. nioso; diferentes agentes, como a família, a escola e
o grupo de amigos, poderão entrar em conflito entre
si. Além disso, as teorias da socialização ignoram a
Socialização de género
capacidade dos indivíduos para rejeitar, ou modificar,
Outro caminho a seguir para compreender as origens as expectativas sociais que envolvem os papéis
das diferenças de género é o do estudo da socializa- sexuais. Como Connell afirmou:
ção de género, a aprendizagem dos papéis de género
com o apoio dos agentes sociais, tais como a família «Os agentes da socialização» não geram efeitos mecâni-
e os meios de comunicação. Esta abordagem estabe- cos num ser em crescimento. Pede-se à criança para par-
lece uma distinção entre sexo biológico e género ticipar na pratica social impondo-lhe determinadas con-
social - uma criança nasce com o primeiro e desen- dições. O pedido poderá ser, e é muitas vezes, coercivo
volve-se com o segundo. As crianças, através do con- - acompanhado por uma grande pressão para ser aceite
tacto com diversos agentes de socialização, primários e sem se propor uma alternativa... Mesmo assim, as
e secundários, interiorizam progressivamente as nor- crianças declinam, ou começam mais precisamente a
mas e expectativas sociais que correspondem ao seu tomar a sua própria posição no domínio do género.
sexo. As diferenças de género não são determinadas Poderão rejeitar a heterossexualidade... poderão come-
biologicamente, mas geradas culturalmente. Neste çar a misturar elementos masculinos e femininos, o que
sentido, existem desigualdades de género, pois os ocorre, por exemplo, quando as raparigas persistem em
homens e as mulheres são socializadas em papéis praticar desportos competitivos na escola. Poderão ini-
diferentes. ciar uma ruptura nas suas próprias vidas, por exemplo,
quando os rapazes se vestem a sós com roupas femini-
Os funcionalistas têm favorecido as teorias da
nas. Poderão construir uma vida de fantasia que entra
socialização do género, pois vêem os rapazes e as
em conflito com a sua prática actual, o que é talvez a
raparigas como aprendizes dos «papéis sexuais» e
prática mais comum. (Connell, 1987)
das identidades masculina e feminina - masculinida-
de e feminilidade - que os acompanham (ver abai-
xo, páginas 115-117 «Abordagens funcionalistas»). É importante lembrar que os seres humanos não
Rapazes e raparigas são guiados neste processo por são objectos passivos ou receptores inquestionáveis
sanções positivas e negativas, forças socialmente de uma «programação» do género, como alguns
aplicadas que recompensam ou restringem o compor- sociólogos sugeriram. As pessoas são agentes activos
tamento. Um rapaz poderá ser positivamente sancio- que criam e modificam papéis para si mesmas.
nado no seu comportamento, por exemplo, («És um Embora seja necessário algum cepticismo relativa-
menino muito corajoso!») ou receber uma sanção mente a qualquer adopção na globalidade da teoria
negativa («Os meninos não brincam com bonecas»). dos papéis sexuais, muitos estudos revelaram que as
Estes acompanhamentos positivos e negativos aju- identidades do género são, em certa medida, fruto das
dam os rapazes e as raparigas na aprendizagem dos influências sociais.
papéis sexuais que se espera virem a desempenhar e
As influências sociais na identidade de género
a conformarem-se com eles. Se um indivíduo desen-
fluem de canais muito diversificados; até os pais que
volve práticas de género que não correspondem ao
se dedicaram a educar os filhos de uma forma «não
seu sexo biológico - isto é, comportamentos desvian-
sexista» consideram difícil combater os padrões exis-
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tentes de aprendizagem do género (Statham, 1986). tipo de objectivos e ambições que se espera das rapa-
Os estudos sobre a interacção progenitor-criança rigas e dos rapazes.
revelaram, por exemplo, diferenças distintas no trata- A socialização do género é evidentemente muito
mento dos rapazes e das raparigas, mesmo quando os forte e desafiá-la pode ser incómodo. Uma vez «con-
pais acreditam ter a mesma reacção com ambos. Os ferido» um género, a sociedade espera que os indiví-
brinquedos, os livros ilustrados e os programas de duos desempenhem a sua função como «homens» e
televisão para crianças tendem a destacar as diferen- «mulheres». É no quotidiano que estas expectativas
ças entre os atributos masculinos e femininos. Embo- se cumprem e se reproduzem (Lorber, 1994; Bour-
ra a situação esteja, de certa forma, a mudar, geral- dieu, 1990).
mente as personagens masculinas excedem em
número as femininas na maior parte da literatura
infantil, contos de fadas, programas de televisão e A c o n s t r u ç ã o social d o g é n e r o e d o s e x o
filmes. As personagens masculinas tendem a desem- Nos últimos anos, as teorias da socialização e do
penhar papéis mais activos e aventureiros, enquanto papel do género têm sido alvo de criticas por parte de
as femininas são representadas como figuras passi- um número cada vez maior de sociólogos. Em vez de
vas, expectantes e orientadas para as actividades considerarem o sexo como um facto determinado
domésticas (Weitzman^M/., 1972; Zammuner, 1987; biologicamente e o género como um facto aprendido
Davies, 1991). Investigadoras feministas demonstra- culturalmente, afirmam que se deveria considerar
ram como os produtos culturais e dos meio de comu- tanto o sexo como o género enquanto produtos cons-
nicação destinados às audiências mais jovens incor- truídos socialmente. Não só o género é uma criação
poram atitudes tradicionais em relação ao género e ao puramente social ao qual falta uma «essência» domi-
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Identidade de género: duas teorias


Duas d a s teorias dominantes sobre a explicação da assume a atitude submissa implícita no reconheci-
formação d a s identidades do género incidam sobre mento de s e ser «segunda».
a dinâmica emocional entre a s crianças e os s e u s Uma vez terminada esta fase, a criança apren-
educadores. Nesta perspectiva, a s diferenças d e deu a reprimir o s sentimentos eróticos. O período
género são formuladas «inconscientemente» duran- entre os cinco a n o s d e idade e a puberdade é (
te os primeiros anos de vida, e não resultam de uma segundo Freud, um período d e (atênda - tende a
predisposição biológica. haver uma Interrupção d a s actividades sexuais até
a s mudanças biológicas da puberdade reactivarem
A teoria de Freud sobre o desenvolvimento os desejos eróticos d e uma forma directa. O perío-
do género do de latência, que abrange a idade d a s crianças
A teoria d e Sigmund Freud é talvez a mais influente q u e frequentam o l . é e 2.° ciclos do ensino básico,
- e controversa - teoria acerca da emergência da corresponde ao período em q u e o s grupos d e ami-
identidade de género. Segundo Freud, a aprendiza- gos d o mesmo sexo s ã o os mais importantes na
gem d a s diferenças de género nas crianças e nos vida d e uma criança.
jovens centra-se na presença ou na ausência do As concepções de Freud suscitaram grandes
pénis. «Eu tenho um pénis» é o mesmo que «eu sou objecções, especialmente da parte d a s feministas,
um rapaz», enquanto que «eu sou uma rapariga» é mas também de muitos outros autores (Mitchell,
o mesmo q u e «eu não tenho pénis». Freud é cuida- 1973; Coward r 1984). Em primeiro lugar, Freud pare-
doso ao afirmar que não são a p e n a s a s distinções ce identificar demasiado estreitamente o género com
anatómicas que estão em questão; a presença ou a consciência genital, estando envolvidos certamente
ausência do pénis é um símbolo de masculinidade e outros factores mais subtis. Em segundo lugar, a teo-
de feminilidade. ria depende da noção de o pénis ser superior à vagi-
Por volta dos quatro ou cinco anos de idade, de na, assumida apenas como a ausência do órgão mas-
acordo com a sua teoria, um rapaz sente-se amea- culino. Todavia, por que razão os órgãos genitais femi-
çado pela disciplina e autonomia que o pai lhe exige, ninos não deveriam ser considerados superiores aos
fantasiando que o pai lhe quer tirar o pénis. O rapaz, masculinos? Em terceiro lugar, Freud representa o pai
em parte conscientemente, m a s sobretudo a um como o agente de disciplina primário, enquanto em
nível inconsciente, reconhece o pai como um rival no muitas culturas é a figura da m ã e quem desempenha
afecto da mãe. Ao reprimir sentimentos eróticos em o papel mais significativo na imposição da disciplina.
relação à m ã e e ao aceitar o pai como um ser supe- Em quarto lugar, Freud acredita que a aprendizagem
rior, o rapaz identifica-se com o pai e toma cons- do género s e concentra nos quatro ou cinco anos de
ciência da s u a identidade masculina. O rapaz desis- idade. A maioria dos autores mais recentes destaca-
te do amor da m ã e devido ao medo inconsciente de ram a importância da aprendizagem numa idade pre-
ser castrado pelo pai. Por outro lado, a s raparigas coce, desde a primeira infância
sofrem supostamente de «inveja do pénis», pois não
possuem o órgão visível que distingue os rapazes. A teoria de Chodorow sobre o desenvolvimento
A mãe é depreciada a o s olhos d a s raparigas, pois do género
também não possui um pénis e é incapaz de criar
Embora muitos autores s e tenham servido da abor-
um. Quando a rapariga s e identifica com a mãe,
dagem de Freud para estudar o desenvolvimento do
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género, geralmente modificaram-na em muitos Freud. Não é a feminilidade, mas antes a masculini-
aspectos. A socióloga Nancy Chodorow é um exem- dade a ser definida por uma perda, a privação de
plo (1978,1988). Chodorow afirma que a aprendiza- manter uma ligação de proximidade com a mãe.
gem para um indivíduo s e sentir homem ou mulher A identidade masculina forma-se através da separa-
deriva da ligação da criança com o s pais d e s d e ção; desta forma, os homens sentirão inconsciente-
tenra idade. A socióloga dá muito maior ênfase do mente, um dia mais tarde, a sua identidade amea-
que Freud á importância da mãe em vez do pai. Uma çada c a s o s e envolvam emocionalmente d e modo
criança tende a envofver-se emocionalmente com a íntimo com outras pessoas. As mulheres, por outro
mãe, pois esta é facilmente a influência mais domi- lado, sentirão que a ausência de um relacionamento
nante desde tenra idade. Esta ligação tem d e ser íntimo com outra p e s s o a ameaça a sua auto*estima.
quebrada a determinada altura, para a criança Estes padrões repetenvse d e geração em geração,
adquirir um sentido próprio d e si - é-Ihe exigido que devido ao papei primário que a s mulheres desempe-
s e torne menos dependente. nham no processo d e socialização prematura d a s
Chodorow afirma que o processo d e ruptura crianças. As mulheres exprimem-se e definem-se
ocorre d e maneira diferente em rapazes e rapari- principalmente em termos de relacionamentos. Os
gas. As raparigas mantêm a proximidade com a homens reprimiram e s s a s necessidades adoptando
m ã e - têm a possibilidade de, por exemplo, conti- uma postura mais manipuladora em relação a o
nuar a abraçá-la, a beijá-la e a imitá-la em tudo o mundo.
que faz. Em virtude de não ocorrer uma ruptura O estudo d e Chodorow foi alvo de diversas críti-
abrupta com a mãe, a rapariga, e mais tarde a cas. Janet Sayers, por exemplo, sugeriu que Chodo-
mulher, desenvolve um sentido do «eu» que é mais row não explica a luta d a s mulheres, especialmente
contínuo com outras pessoas. É muito provável que na actualidade, pela autonomia e independência
a sua identidade s e funde (ou dependa) d e outra: (Sayers, 1986). As mulheres (e os homens), salien-
primeiro com a mãe, mais tarde com um homem. Na ta, s ã o mais contraditórias na sua caracterização
perspectiva de Chodorow, este facto tende a gerar psicológica do que é sugerido na teoria d e Chodo-
características d e sensibilidade e compaixão emo- row. A feminilidade pode ocultar sentimentos d e
cional n a s mulheres. agressividade ou asserção, que s e revelam a p e n a s
Os rapazes ganham o sentido do «eu» através d e de forma indirecta ou em determinados contextos
uma rejeição mais radical da sua proximidade inicial (Brennan, 1988). Chodorow foi igualmente criticada
com a mãe, forjando a s u a percepção d e masculini- pela sua concepção redutora de família, b a s e a d a
dade a partir daquilo que não é feminino. Aprendem num modelo d e família branca d a classe média.
a não ser «mariquinhas» ou «meninos da mamã». O que acontece, por exemplo, numa família mono-
Consequentemente, os rapazes têm relativamente parental ou quando a s crianças s ã o educadas por
pouca habilidade para s e relacionarem intimamente mais de um adulto?
uns com o s outros, desenvolvendo formas mais ana- Estas críticas não deitam por terra a s concepções
líticas de olhar o mundo. Adquirem uma perspectiva de Chodorow, cuja importância $e mantém. As s u a s
mais activa d a s s u a s vidas, dando ênfase à concre- concepções ensinam muito sobre a natureza da
tização, mas reprimem a s u a capacidade para com- feminilidade e ajudam-nos a compreender a s ori-
preender o s s e u s próprios sentimentos e os dos g e n s da chamada inexpresslvidade masculina - a
outros. dificuldade que o s homens sentem em revelar o s
Chodorow inverte, até certo ponto, a ênfase d e s e u s sentimentos a o s outros.
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cia de qualquer base biológica nas diferenças de


género. As identidades do género surgem, assim afir-
mam, relacionadas com as diferenças de sexo per-
cepcionadas na sociedade e, por sua vez, ajudam a
moldar essas mesmas diferenças. Por exemplo, uma
sociedade onde a noção de masculinidade é caracte-
rizada pela força física e atitudes «rudes» incentivará
os homens a desenvolver uma determinada imagem
do corpo e um conjunto de maneirismos adequados.
Por outras palavras, as identidades do género e as
diferenças de sexo encontram-se intimamente asso-
ciadas em cada corpo humano (Connell, 1987;
J. Butler, 1999; Scott e Morgan, 1993).

Perspectivas s o b r e a d e s i g u a l d a d e
de g é n e r o

Observou-se que o género é um conceito socialmen-


te criado que atribui aos homens e às mulheres papéis
"Qual é o s e u género?"
sociais e identidades diferentes. Todavia, as diferen-
Q T h e t t e w t t y k d r Collectori 1999 Edward Korem fíon> cartoonbank. com. Ali ças de género raramente são neutras - em quase todas
righte reserved
as sociedades, o género é uma forma significativa de
estratificação social. O género é um factor crítico na
estruturação dos tipos de oportunidade e das hipóte-
nante, mas o próprio corpo humano está sujeito às ses de vida que os indivíduos e os grupos enfrentam,
forças sociais que o moldam e o alteram de várias influenciando fortemente os papéis que desempe-
maneiras. É possível atribuir aos nossos corpos signi- nham nas instituições sociais, da família ao Estado.
ficados que desafiam o que é geralmente considerado Embora os papéis dos homens e das mulheres variem
como «natural». Os indivíduos poderão optar por de cultura para cultura, não se conhece nenhuma
construir ou reconstruir os seus corpos conforme a sociedade em que as mulheres tenham mais poder do
sua vontade - recorrendo desde a actividade física, à que os homens. De um modo geral, os papéis dos
dieta, ao piercing e ao estilo pessoal, até à cirurgia homens são muito mais valorizados e recompensados
plástica e às operações de mudança de sexo. A tecno- do que os das mulheres: em quase todas as culturas,
logia estará a dissipar os limites dos nossos corpos. as mulheres assumem a responsabilidade primária de
Assim, argumentam, o corpo humano e a biologia educar os filhos e ocupar-se das actividades domésti-
não são dados adquiridos, mas estão sujeitos à acção cas, enquanto os homens assumem tradicionalmente
humana e à escolha pessoal em contextos sociais a responsabilidade de sustentar a família. A divisão
diferentes. de trabalho prevalecente entre sexos levou os homens
e as mulheres a assumirem posições desiguais em ter-
Nesta perspectiva, os autores que centram a sua
mos de poder, prestígio e riqueza.
abordagem nos papéis de género e na sua aprendiza-
gem aceitam implicitamente a existência de uma base Apesar dos progressos das mulheres em países de
biológica nas diferenças de género. Na abordagem todo o mundo, as diferenças de género continuam a
centrada na socialização, uma distinção biológica servir de base para as desigualdades sociais. Investi-
entre os sexos fornece um enquadramento que será gar e explicar a desigualdade de género tornou-se
«culturalmente desenvolvido» na própria sociedade. uma preocupação central para os sociólogos. Surgi-
Em contrapartida, os teóricos que defendem a cons- ram muitas teorias para explicar o domínio duradou-
trução social do sexo e do género rejeitam a existên- ro dos homens sobre as mulheres - nas áreas da