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ANALISTA

Direito Processual Penal


Nestor Távora
Aula 1

ROTEIRO DE AULA

Tema: Inquérito Policial e Ação Penal

Dica de estudo: Código de Processo Penal para Concursos - Autores: Nestor Távora/Fábio Roque - Ed. Juspodivm.

INQUÉRITO POLICIAL

1- Considerações iniciais

Direito Penal – é estático porque o CP descreve as condutas criminosas com as respectivas sanções;
Direito Processual Penal – é instrumental porque o CPP regula a persecução penal, entenda:

1.1- Enquadramento da disciplina:

O Direito Processual Penal regula a persecução penal (perseguição do crime), composta das seguintes etapas:

a) 1° etapa: Inquérito Policial;


b) 2° etapa: Processo Penal.

1.2- Filtro quanto ao Pacote Anticrime:

O Ministro Luiz Fux, apreciando medida cautelar na ADI 6298-DF, suspendeu os seguintes dispositivos do Pacote
Anticrime:

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a) arts. 3°-A, 3°-B, 3°-C, 3°-D, 3°-E, 3°-F, CPP (juiz das garantias);
b) art. 28, caput, CPP (arquivamento do IP dentro do MP);
c) § 5°, art. 157, CPP (impedimento do juiz que teve contato com prova ilícita);
d) § 4°, art. 310, CPP (ilegalidade da prisão pela não realização da audiência de custódia no prazo legal).

2- Conceito e finalidade:

a) É um procedimento administrativo preliminar;

b) De caráter informativo;

c) Presidido pela autoridade policial;

Obs: Cabe ao delegado de polícia a presidência do Inquérito Policial (art. 2°, Lei 12.830/013).

d) Tendo por objetivo apurar a autoria, a materialidade e as circunstâncias da infração;

Obs.1. A materialidade é sinônima de existência da infração.


Obs.2. Quando a infração deixa vestígios, teremos a realização do exame de corpo de delito (art. 158, CPP).

e) Com prazo;

f) Cuja finalidade é contribuir na formação da opinião delitiva (convencimento) do titular da ação penal.

Conclusão: percebe-se que o IP serve para convencer o titular da ação, quanto ao início (ou não) do processo penal.

3- Características do IP

3.1- Procedimento inquisitivo:

Teremos concentração de poder em autoridade única, afastando-se o contraditório ou a ampla defesa.

Mitigações da característica inquisitória do IP:

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Obs.1. Prerrogativa do advogado: de acordo com o art. 7°, XXI, lei 8906/94- Estatuto da OAB, é direito do advogado
acompanhar o cliente durante a oitiva perante qualquer autoridade investigante.

Conclusão1. O advogado pode formular razões e quesitos.

Conclusão2. Se o suspeito comparecer sozinho, será ouvido normalmente. Já na fase processual, a presença do
advogado é obrigatória, sob pena de nulidade (art. 185, CPP).

Conclusão3. Se o delegado impedir o acesso do advogado, o ato é nulo, assim como todos os demais que dele decorrem
(princípio da consequencialidade = contaminação em cadeia).

Obs.2. Pacote Anticrime: de acordo com o art. 14-A do CPP, os sujeitos listados no art. 144 da CF, ao empregarem força
letal no desempenho das funções, serão intimados a constituir advogado no prazo de 48 horas.

Conclusão1. Não o fazendo, a instituição a qual pertenciam no momento da prática dos fatos será intimada, dispondo
de 48 horas para nomeação de advogado.

Conclusão2. A mesma prerrogativa é aplicada aos sujeitos do art. 142 da CF (forças armadas), quando em missão para a
garantia da lei e da ordem (missão GLO).

3.2- Procedimento discricionário:

O delegado conduz a investigação com margem de conveniência e oportunidade (estratégia), adequando o IP às


necessidades do crime apurado.

Obs.1. As diligências REQUERIDAS (pedido) pela vítima ou pelo suspeito podem ser negadas (art. 14, CPP), salvo o
exame de corpo de delito, quando a infração deixar vestígios (art. 184, CPP).

Mitigação da característica de discricionariedade do IP:

Obs.2. O delegado deve cumprir as diligências REQUISITADAS (ordem) pelo MP ou pelo magistrado, mesmo inexistindo
vínculo hierárquico. Então, o delegado está obrigado porque é uma imposição legal.

3.3- Procedimento sigiloso:

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O inquérito é sigiloso em atenção à eficiência da investigação, cabendo ao delegado velar pelo sigilo (art. 20, caput,
CPP).

Obs.1. As informações do IP não serão apontadas na certidão de antecedentes criminais (art. 20, parágrafo único, CPP).

O sigilo não é absoluto porque o advogado do suspeito tem acesso ao que já foi produzido no IP, ou seja, é um direito
retrospectivo que permite ao advogado ter acesso ao que já foi produzido no IP. Por isso:

Obs.2. De acordo com a súmula vinculante 14 e com o art. 7°, XIV, Lei 8.906/94- Estatuto da OAB, o advogado tem
direito de acessar os autos de qualquer investigação criminal, tendo contato com o que já foi produzido (passado) e está
documentado (direito retrospectivo).

Conclusão1. O advogado pode tomar apontamentos e copiar os autos.

Conclusão2. O acesso independe de procuração. Todavia, sendo decretado segredo de justiça (sigilo judicial), o acesso é
mantido, mas a procuração passa a ser necessária.

Obs.3. Diante do boicote ao acesso, o advogado pode impetrar [MS], [HC], manejar a [Reclamação Constitucional] ou
atravessar uma [Petição Simples] perante o juiz das garantias* (art. 3°-B, CPP), sem prejuízo da responsabilidade por
abuso de autoridade.

*juiz das garantias (ainda está suspenso), foi trazido pelo pacote anticrime, é o juiz que atua na fase preliminar
despachando com delegado, mas que estará impedido de atuar no processo.

3.4- Procedimento escrito:

Prepondera a forma documental (art. 9°, CPP).

Obs.1. Os atos produzidos oralmente serão reduzidos a termo.

Obs.2. As novas ferramentas tecnológicas podem ser empregadas na documentação do IP, como a captação de som e
imagem (gravações).

3.5- Procedimento indisponível:

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Em nenhuma hipótese o delegado poderá arquivar o IP.

Conclusão: toda investigação iniciada deve ser concluída e encaminhada à autoridade competente (art. 17, CPP).

3.6- Procedimento dispensável:

A deflagração do processo penal independe da prévia elaboração do IP.

Obs. Inquéritos Não Policiais:

I- Conceito: são aqueles presididos por autoridades distintas da polícia judiciária


II- Principais Hipóteses:

a) Inquérito Parlamentar: é aquele elaborado pela CPI.


b) Inquérito Ministerial/ PIC (procedimento investigativo criminal): de acordo com o Pleno do STF, o MP pode presidir
investigação criminal, que conviverá com o eventual IP.

Teoria dos Poderes Implícitos -> a CF deu ao MP, expressamente, o poder de processar e, implicitamente, o poder de
investigar.

Conclusão1. O poder de investigação do MP, na esfera penal, é uma decorrência implícita da CF (art. 129, I, CF).

Conclusão2. O membro do MP que investiga NÃO é suspeito ou impedido para atuar na fase processual (súmula 234 do
STJ).

Conclusão3. A investigação do MP ainda não foi disciplinada por lei federal, nem o Pacote Anticrime disciplinou.

4- Valor probatório

4.1- Conceito: o IP tem valor probatório relativo, servindo de base ao ajuizamento da ação ou a ação de medidas
cautelares. Todavia, o IP não serve sozinho para embasar a condenação criminal, em razão da inquisitoriedade (art. 155,
CPP), ou seja, os elementos do inquérito não se submeteram ao contraditório.

Obs.1. De acordo com o art. 12 do CPP, quando o IP é a base para o ajuizamento da ação, ele deve acompanhar a
petição inicial.

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Obs.2. De acordo com o § 3° do art. 3°-C do CPP, a matéria inerente à competência do juiz das garantias ficará
acautelada na sede deste juízo, não seguindo para a fase processual RESSALVADAS as provas irrepetíveis, os elementos
de obtenção de prova e as provas conseguidas em incidente de produção antecipada.

5- Vícios

5.1- Conceito: são os defeitos do IP provenientes do descumprimento da lei ou das garantias constitucionais.

5.2- Consequências: usualmente, os vícios do IP não contaminam o processo, afinal, estamos diante de um
procedimento investigativo dispensável.

6- Prazo:

6.1- Delegado estadual:

a) Suspeito preso: 10 dias, prorrogáveis por até mais 15 dias, por deliberação do juiz das garantias, provocado pelo
delegado, devendo ouvir o MP (art. 3°-B, § 2°, CPP).
b) Suspeito solto: 30 dias admitindo prorrogação. A lei não aponta o tempo ou a quantidade de vezes.

6.2- Delegado federal:


a) Suspeito preso: 15 dias prorrogáveis por até mais 15 dias.
b) Suspeito solto: a regra é a mesma do delegado estadual.

6.3- Tráfico de drogas:

a) Suspeito preso: 30 dias (duplicáveis).


b) Suspeito solto: 90 dias (duplicáveis).

7- Procedimento:

7.1- 1° Etapa:

o IP é deflagrado por meio de uma portaria.

Obs.1. A portaria é a peça que demarca o início da investigação policial.

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Obs.2. O juiz das garantias deve ser informado da instauração de qualquer investigação criminal (art. 3°-B, IV, CPP).

Obs.3. Notícia crime:

I- Conceito: é a comunicação da ocorrência de uma infração à autoridade com atribuição para agir (nada tem haver com
queixa).

II- Legitimidade:

II.1. Destinatários: a notícia pode ser prestada ao delegado, ao MP ou ao juiz.

II.2. Legitimidade ativa:

a) Vítima ou do seu representante legal: a notícia é formulada por meio de REQUERIMENTO (pedido).

Obs.1. Havendo denegação quanto à instauração do IP, caberá Recurso Administrativo endereçado ao Chefe de Polícia
(art. 5°, § 2°, CPP). O Recurso Administrativo não passa pelo judiciário ou MP.

Obs.2. Nos crimes de Ação Privada e de Ação Pública Condicionada a instauração do IP depende de prévia manifestação
de vontade do legítimo interessado (art. 5°, §§ 4° e 5°, CPP).

b) MP ou juiz: eles oficiam ao delegado por meio de REQUISIÇÃO (ordem), que deverá ser atendida (art. 5º, II, CPP).

c) Qualquer pessoa do povo: ela é cabível nos crimes de Ação Pública Incondicionada (art. 5°, §3°, CPP), pois o delegado
deve instaurar a investigação de ofício (art. 5°, I, CPP).

Obs. Notícia crime apócrifa ou inqualificada: é o que chamamos de notícia anônima ou denúncia anônima. Mas, como a
CF proíbe o anonimato, se o delegado instaurar o IP, sem as cautelas necessárias, o ato pode caracterizar abuso de
autoridade.

Conclusão: de acordo com o STF, deve o delegado primeiro aferir, colhendo elementos prévios, para só então, se for o
caso, deflagrar o IP.

7.2- 2° Etapa:

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A evolução da investigação: o IP evolui por meio do cumprimento de diligências, realizadas de forma discricionária (é
uma liberdade dentro da lei).

Obs. Os artigos 6° e 7° do CPP, de forma não exaustiva, apontam inúmeras diligências que podem ou devem ser
realizadas durante o IP: isolamento da área, apreensão dos instrumentos do crime, colheita de provas, oitivas, perícias
complementares, acareações, identificação criminal do suspeito, reconstituição do crime, e outras.

7.3- 3° Etapa:

Encerramento: o IP é concluído por meio da elaboração de um Relatório.

Obs. O Relatório descreve as diligências que foram realizadas e eventualmente justifica as que não foram feitas por
algum motivo relevante (art. 10, CPP).

7.4- Desdobramento do Procedimento:

a) Autos do IP com o relatório;


b) Remessa ao juiz das garantias;
c) Abertura de vistas ao MP;
d) Diante dos autos do IP, o membro do MP terá as seguintes alternativas:

d.1) 1° alternativa: havendo indícios de autoria, da materialidade e das circunstâncias da infração, cabe ao MP a oferta
da denúncia (petição inicial), com o objetivo da deflagração do processo (art. 24, CPP).

d.2) 2° alternativa: diante da ausência de lastro indiciário, o membro do MP pode entender que há esperança de que
tais elementos sejam rapidamente colhidos. Assim, poderá requisitar novas diligências consideradas imprescindíveis ao
início do processo (art. 16, CPP).

7.3- 3° alternativa: (pacote anticrime)

Inexistindo viabilidade para o início do processo, cabe ao membro do MP ordenar o arquivamento.

Obs.1. Percebe-se que o arquivamento não é mais de atribuição do juiz, cabendo ao membro do MP determinar o
arquivamento do IP.

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Obs.2. determinado o arquivamento, cabe ao membro do MP encaminhar os autos para a instância de revisão, com o
objetivo de que ocorra a homologação, conforme regulação legal.

Obs.3. O caput do art. 28 do CPP está suspenso por deliberação do Ministro Luiz Fux. Todavia, cabe ao MP determinar o
arquivamento dos autos da investigação.

Obs.4. Se a vítima ou o representante legal estiverem insatisfeitos com o arquivamento, podem provocar a instância de
revisão no prazo de 30 dias, contados da comunicação feita pelo promotor sobre a determinação do arquivamento.

Obs.5. Quando a vítima é a União, Estados ou Municípios, a provocação, à instância de revisão, pode ser formulada pela
Chefia do Órgão a quem couber a representação judicial do ente afetado.

8- Questões complementares:

8.1- De acordo com a súmula 524 do STF, o arquivamento do IP não faz coisa julgada material. Logo, surgindo novas
provas antes da extinção da punibilidade pela prescrição ou por qualquer outra causa, caberá ao MP o oferecimento da
denúncia.

Obs. Vingando a tese do arquimento dentro do MP, não haverá coisa julgada material para as hipóteses de
arquivamento pautado na certeza da atipicidade ou da extinção da punibilidade, que ocorriam quando o arquivamento
era feito por deliberação do juiz.

8.2- Atuação da polícia: o art. 18 do CPP autoriza que a polícia (mesmo após arquivamento) cumpra diligência para
colheita de novas provas que viabilizem a oferta da denúncia.

8.3- Infrações de menor potencial ofensivo: nos crimes com pena máxima de até 2 anos e nas contravenções, teremos a
elaboração do TCO (termo circunstanciado de ocorrência), funcionando com uma investigação simplificada (art. 69, Lei
9099/95).

8.4- Indiciamento: ele é feito pelo delegado de polícia, em análise técnico-jurídica, apontando os indícios de autoria, da
materialidade e das circunstâncias da infração, convergindo a investigação em face de determinada pessoa (art. 2°, Lei
12.830/013).

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