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As instituições na perspectiva freudiana

The Institutions in the perspective of Freud’s Theory


Patricia Passos Sampaio*

Resumo
Este estudo tem por objetivo analisar o surgimento, a conceituação, a caracterização
e as funções das instituições a partir das seguintes obras de Sigmund Freud: O
Mal Estar na Civilização, Totem e Tabu e Psicologia de Grupo e Análise do Ego.
Desenvolvidas para regular a vida social, as instituições – estado, família, religião,
trabalho, mídia, ciência – têm assegurado certo equilíbrio social a partir de um
consenso que viabiliza a vida em comum - base da nossa civilização.
Palavras-chave: Instituição. Regulação Social. Civilização..

Abstract
The present study’s objective is to analyze the creation, conceptualization,
characterization, and functions of institutions from the following works of Sigmund
Freud: Malaise in Civilization, Totem and Taboo and Group Psychology and
Analysis of the Ego. Developed to regulate social life, the institutions – state, family,
religion, work, media, and science – have assured a certain level of social balance
from a consensus which makes possible the human common life – the basis for our
civilization.
Keywords: Institution. Social Regulation. Civilization.

Introdução
Freud, em seu texto Mal Estar na Civilização, utiliza a palavra
civilização para descrever “[...] a soma integral das realizações e
regulamentos que distinguem nossas vidas das de nossos antepassados
animais[...]”(FREUD, 1980c, p.109). A civilização, pois, tem
basicamente dois objetivos: o de proteger os homens das intempéries
da natureza e o de ajustar os relacionamentos entre eles.
A partir das definições que temos hoje de instituição: “norma
universal ou considerada universal...”(LOURAU,1996, p.09) que se

* Professa Adjunta do Curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza. E-mail: patriciap@unifor.br

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propõe a regular a vida em sociedade, entendemos que, no momento


em que Freud está se referindo à civilização, está, também, se referindo
à instituição. Sendo assim, iremos buscar a origem das instituições
na origem da civilização apresentada por Freud (1980c e 1980a) em
suas obras O Mal-Estar da Civilização(publicada em 1930) e Totem
e Tabu (publicada em 1912-13).
A caracterização das instituições será discutida e terá como
ponto de partida a caracterização de dois grupos artificiais - o Exército
e a Igreja - apresentados no livro Psicologia de Grupo e Análise do
Ego (FREUD, 1980b).
No decorrer do trabalho, serão inferidas, com o auxílio de outros
autores, a conceituação e as funções das instituições, com base nas
três obras acima citadas.

1 O conceito de instituição
O conceito de Instituição tal como o conhecemos hoje passou
por uma evolução: no século XIX, quando alguém se referia ao termo,
falava do direito, da lei, dos sistemas jurídicos.
Durkheim (apud LAPASSADE,1983), no século XX, se apropria
da instituição como objeto de estudo da sociologia, que segundo ele,
deveria ser a ciência das instituições, já introduzindo a noção de
“regulação social”.Para os objetivos deste trabalho, instituição será
conceituada como: “certas formas de relações sociais, tomadas como
gerais, que se instrumentam nas organizações e nas técnicas, sendo
nelas produzidas, reproduzidas, transformadas e/ou subvertidas”
(RODRIGUES & SOUZA,1981,p.42).
Lourau (1995) e Lapassade (1983), quando discutem o assunto
e conceituam Instituição, falam de normas universais, de reprodução
das relações sociais, algo não localizável mas que regula a vida em
sociedade.
Enriquez (1997, p.73) afirma que “as instituições se apresentam
como conjuntos formadores, referindo-se a um saber teórico
legitimado, que tem por função garantir uma ordem e um certo estado
de equilíbrio social”. Freud, em suas obras antropológicas - Mal-
Estar na Civilização, Totem e Tabu, Psicologia de Grupo - quando
se propõe discutir a origem da civilização, a caracterização da massa
organizada bem como o totemismo, se refere o tempo inteiro ao
conceito de instituição enquanto fator de regulação social, vínculos,
regras, limites, ambigüidade, passagem do uno ao coletivo, como
iremos constatar na discussão dos próximos capítulos.

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Vale ressaltar que, o assédio moral é fonte de estresse e frustração


gerando possíveis prejuízos ou debilidades de cunho físico e/ou
psíquico, como já salientado, o que o relaciona diretamente a uma
baixa qualidade do ambiente de trabalho e, consequentemente, a uma
baixa produtividade. Com isso, há que se considerar que os custos
nos âmbitos da saúde e do jurídico decorrentes do assédio causam
prejuízos significativos para os indivíduos e a organização.

2 A origem das instituições


Freud nos apresenta duas hipóteses para explicar o surgimento
da civilização e de suas instituições: uma de cunho mais biológico
(Mal-Estar na Civilização) e outra de cunho mais psicossocial (Totem
e Tabu).
Na primeira hipótese, ele apresenta o surgimento da família,
primeira instituição humana, no momento em que a necessidade
de satisfação genital deixou de ser esporádica para se tornar
permanente.
Segundo este ponto de vista, o homem se ergue do chão e assume
uma postura ereta, talvez até pela diminuição dos estímulos olfativos
que são substituídos pela visão - sentido condutor da vida humana.
A visão ampliou o campo de percepção humana, alterando também
a excitação sexual. O homem passa a se excitar a partir da visão dos
órgãos sexuais e não mais a partir dos odores exalados pelos parceiros.
Tal modificação traz em si um imperativo: a formação da
família cuja primeira função é manter os parceiros sexuais unidos.
Especificamente para o homem, tal modificação se apresenta como
uma possibilidade de não privar-se de seu objeto sexual: a mulher.
Com a formação da família, a mulher não precisará se separar daquela
parte de si que dela fora tirada - seu filho.
A este tipo de família primitiva falta ainda uma característica
essencial da civilização: a vida em comunidade. Esta característica é
introduzida quando Freud nos apresenta a segunda hipótese. Segundo
ele, uma “hipótese fantástica” que decorre da horda primitiva de
Darwin e da interpretação psicanalítica do Totem e da refeição
totêmica.
Freud considera Totem e Tabu seu trabalho mais inovador depois
da Interpretação dos Sonhos. Para ele, a compreensão dos fenômenos
totêmicos é a via, por excelência, para exploração do vínculo social.
Nesta obra, Freud apresenta uma teoria radicalmente pessimista. Ele
afirma que, nos povos primitivos, o lugar das instituições sociais e

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religiosas é ocupado pelo sistema totêmico:


O totem via de regra é um animal[...] e mais raramente
um vegetal ou fenômeno natural[...] que mantêm relação
peculiar com todo o clã[...] o totem é o antepassado comum
do clã; ao mesmo tempo é o seu espírito guardião e auxiliar,
que lhe envia oráculos e, embora perigoso para os outros,
reconhece e poupa os seus próprios filhos (FREUD, 1980a,
p.21)
O interessante é que os integrantes do clã não podiam matar,
destruir ou comer a carne do animal totêmico (salvo em rituais
específicos), e a relação dos primitivos com seu totem era a base de
todas as obrigações sociais e restrições morais.
Outro fato curioso é que, na maioria dos lugares em que se
encontravam totens, existia uma rígida lei contra as relações sexuais
entre pessoas do mesmo totem.
Quem violava uma das duas proibições era submetido a castigos
horrendos, pois tratava-se de impedir um perigo que ameaçaria toda
a comunidade. Em algumas tribos, a violação de tais proibições era
punida com a morte.
O totemismo ocupava o lugar da religião entre os povos
primitivos da Austrália, América e África e era a base de toda sua
organização social. O totem protegia o homem, pois proporcionava
relações de respeito e proteção mútua entre um homem e seu totem.
Como sistema social, “consiste nas relações dos integrantes do clã
uns com os outros e com os homens de outros clãs” (FREUD,1980a,
p.129). O totemismo caracterizava-se por ser uma fase de transição
entre o homem primitivo e a civilização mais adiantada.
Intrínseco ao totemismo está o conceito de tabu, termo polinésio
de origem desconhecida e que tem dois significados: sagrado,
consagrado ou misterioso, perigoso, proibido, impuro.
Apesar de não se basear numa ordem divina o tabu é expresso
principalmente em proibições e restrições. Ele é dirigido contra os
anseios mais poderosos a que estão submetidos os seres humanos.
Segundo Freud o desejo de violá-lo persiste no inconsciente, o que lhe
confere uma atitude ambivalente; a renúncia é a base da obediência
ao tabu. Ele parece ser anterior a qualquer espécie de religião, é
revestido de um caráter de naturalidade : diante de um tabu, todos
estavam convencidos de que qualquer violação do mesmo teria
automaticamente a mais severa punição.
Para ficar mais clara a relação entre o totemismo e o tabu,
observemos as três classes de tabu existentes entre os australianos:

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1. animais: não se podia matar nem comer o animal


totêmico;
2. em determinadas ocasiões os homens não podiam ser tocados:
rapazes são tabus em seus ritos de iniciação. São também tabus
mulheres menstruadas, recém-nascidos e mortos;
3. qualquer coisa (árvores, casas, localidades) que provoque
temor ou seja misterioso se transforma em tabu.
Todavia, as mais antigas e importantes proibições ligadas ao tabu
são as duas leis básicas do totemismo: não matar o animal totêmico e
evitar relações sexuais com membros do clã totêmico do sexo oposto.
Fato por demais interessante do totemismo é que em
determinados rituais existiam a matança e a ingestão do animal
totêmico (em qualquer outra ocasião era extremamente proibido
comer tal animal). Na celebração, tem-se a liberdade de fazer o que
via de regra é proibido.
O consumo de animal, nas festas, possibilitava a aquisição
da santidade a partir da identificação com o totem e com os demais
integrantes da tribo.
É a interpretação do totemismo e da refeição totêmica que
leva Freud a levantar a segunda hipótese para explicar a origem da
civilização e de suas instituições. Para ele, a refeição totêmica ato é
o substituto de um ato inaugural. Tal celebração explica a filogênese
: a humanidade nasce a partir de um crime cometido em comum. Um
crime que jamais poderá ser esquecido. Segundo ele é justamente
a presença persistente do desejo de assassinar, um dos fatores que
impede a felicidade humana: para ele, um parricídio é indispensável à
criação e manutenção da cultura, pois a decisão unânime de realizar o
crime representa a passagem de um mundo marcado pelas relações de
força a um mundo de alianças e de solidariedade (passagem do estado
de natureza para o estado de direito).
Freud parte da horda primeva sugerida por Darwim: um pai
violento e ciumento que guarda todas as fêmeas para si e expulsa
os filhos à medida que crescem. Freud acrescenta à explicação de
Darwin que os irmãos que haviam sido expulsos voltam juntos - por
conta de algum avanço cultural, talvez o domínio de uma nova arma,
o que lhes confere um senso de força superior ou “pode ter-se baseado
em sentimentos e atos homossexuais, originados durante o período de
expulsão” (FREUD,1980a, p.173) - matam e devoram o pai colocando
fim à horda patriarcal. Tal fato mostra porque a criação do social é
acompanhado por sentimentos paradoxais: amor, veneração, amizade,
culpa.

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O violento pai primevo, temido e invejado, é também modelo


para cada um do grupo de irmãos; ao devorá-lo identificam-se com
ele.
A interpretação dada por Freud é que o animal totêmico nada
mais é do que um substituto do pai primevo e que a refeição totêmica,
o mais antigo festival da humanidade, comemora o “ato memorável
e criminoso que foi o começo de tantas coisas: da organização social,
das restrições morais e da religião” (FREUD,1980a, p.170).
Segundo Freud o sentimento dos filhos para com o pai é
ambivalente : ao mesmo tempo que o odiavam por ser um obstáculo
ao anseio de poder e aos desejos sexuais, também o amavam e o
admiravam.
“O pai morto tornou-se mais forte do que o fora vivo”
(FREUD,1980a, p.171). Quando eles satisfazem o ódio através
da refeição totêmica , identificam-se com ele, surgindo a afeição
recalcada sob a forma de remorso (sentimento de culpa). Sendo assim,
nenhum dos filhos pode realizar seu desejo original - tomar o lugar do
pai. Desse modo, a refeição totêmica ressalta bem o sentimento de
ambivalência em relação ao pai: recordação do triunfo X tentativa
de expiação.
Freud defende que é a partir desse sentimento de culpa filial que
se originam os dois tabus fundamentais do totemismo:
a) a lei que protege o animal totêmico tem uma base emocional:
“anularam o próprio ato proibindo a morte do totem , o substituto do
pai” (FREUD,1980a, p.172);
b) com relação ao incesto o motivo parece ser mais prático: para
que tudo não se transformasse em uma grande luta, os irmãos não
tiveram outra alternativa senão viverem juntos. A horda patriarcal foi
substituída pela horda fraterna, cuja base da vida em sociedade nada
mais é do que a cumplicidade do crime comum.
Todo o sistema totêmico reproduz um pacto com o pai: por um
lado, proteção, cuidado e indulgência; por outro, o comprometimento
grupal de que não repetiriam o ato que causara a destruição do pai
real.
A partir desse mito, Freud chega a algumas conclusões: “os
começos da religião, da moral, da sociedade e da arte convergem
para o Complexo de Édipo” (FREUD,1980a, p.185) ; “.... a existência
simultânea de amor e ódio para com os mesmos objetos - jaz na raiz
de muitas instituições culturais importantes” (FREUD,1980a, p.186).
Outro fato apontado por Freud é que a raiva que levou os filhos

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a cometer o parricídio vai, com o passar do tempo, cedendo lugar à


saudade. Este sentimento possibilita surgir “um ideal que corporificava
o poder eliminado do pai primevo contra quem haviam lutado, assim
como a disposição de submeter-se a ele”(FREUD, 1980a, p.177). Esta
mudança de atitude para com o pai tanto explica o surgimento dos
deuses quanto influencia uma nova organização social - a organização
em base patriarcal. Ele, inclusive, considera que a evolução se deu da
seguinte forma: pai tirânico, horda sem pai, organização matriarcal e
organização patriarcal.
Ao se indagar se tudo isso realmente aconteceu, Freud contrapõe
realidade psíquica e realidade concreta quando afirma que “...o simples
impulso hostil contra o pai, a mera existência de uma fantasia plena de
desejo de matá-lo e devorá-lo, teriam sido suficientes para produzir a
reação moral que criou o totemismo e o tabu” (FREUD,1980a, p.189).
No seu texto Psicologia de Grupo, Freud (1980b) constrói ,de
forma também esplêndida, uma teorização sobre a influência decisiva
do grupo sobre a vida mental do indivíduo; ele chega a concordar com
outros autores sobre a existência de uma mente grupal, no entanto
explica a sua essência a partir das relações amorosas - é o laço libidinal
que mantém um grupo.
Para ele, quase toda relação emocional íntima, entre duas
pessoas, que perdura muito (casamento, amizade, relação pai-
filho), contém sentimentos de aversão e hostilidade só que de forma
recalcada. Podemos observar bem esta argumentação quando voltamos
nossa atenção para a horda primeva. A mais remota expressão de
um laço emocional com outra pessoa é a identificação. Como vimos
anteriormente, este processo é ambivalente, pois, ao mesmo tempo
que é expressão de ternura, é também desejo de afastamento.
Outra tese freudiana é que o processo de identificação está na
origem das instituições. “A identificação esforça-se por moldar o
próprio ego de uma pessoa segundo o aspecto daquele que foi tomado
como modelo” (FREUD, 1980a p.134 ). Na horda primitiva, há uma
identificação dos filhos em relação ao pai, e dos filhos entre si. É, pois,
o processo de identificação aliado ao processo de idealização que
possibilitam a vida em comunidade - aspecto significativo da vida
civilizada.
Como já foi mencionado anteriormente, a civilização tem como
macro objetivos “proteger os homens contra a natureza e o de ajustar
os seus relacionamentos mútuos” (FREUD,1980b, p.109). Desse
modo, os pais da civilização humana seriam EROS e ANANKE (
Amor e Necessidade). O impulso de controlar forças da natureza e de

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satisfazer as necessidades humanas resultariam em uma verdadeira


compulsão ao trabalho. Ao mesmo tempo, o poder do amor faz com
que o homem não queira privar-se de seu objeto sexual nem a mulher
queira privar-se de parte de si - seu filho.

3 Caracterização das Instituições


No texto Psicologia de Grupo Freud (1980b) caracteriza dois
grupos artificiais : o Exército e a Igreja. Ao caracterizá-los, ele faz a
equivalência entre massas organizadas e instituições.
As características apresentadas por ele são:
• durabilidade (permanência): a sensação que temos é que tais
instituições existem desde que o homem é homem ;
• artificialidade: estes grupos exigem força externa para manter
seus integrantes reunidos e para evitar alterações em sua estrutura;
fortes mecanismos de coerção mantêm as pessoas presas a tais grupos;
• organização e estrutura bem definidas: os papéis e hierarquias
são claramente estabelecidos ;
• a pessoa não é consultada ou não tem escolha sobre se deseja
ou não ingressar nesses grupos;
• qualquer tentativa de abandono é logo seguida de perseguição
ou de severas punições;
• presença do líder: ele é a referência que mantêm as pessoas
vinculadas;
• a ilusão de amor do líder: um cabeça que a todos ama de igual
modo - na igreja, Cristo; no Exército, o comandante maior. Esta ilusão
é muito poderosa no sentido de manter a união em tais grupos. Nesses
grupos artificiais cada indivíduo está ligado por fortes laços libidinais
ao líder e aos demais membros do grupo.
Enriquez (1997), a partir de uma leitura desse texto de Freud,
aponta ainda como características das instituições:
elas se fundamentam em um saber que tem a força de lei, que é
a expressão de uma verdade inquestionável: as obras de Freud para a
Psicanálise; a Bíblia para os cristãos, por exemplo;
a lei deve se interiorizar nos comportamentos concretos, nas
regras de vida organizadas. E a obediência não é consequência da
obrigação e coação mas da interiorização de um ideal. O interessante é
que a instituição estabelece tanto a relação de submissão quanto a alegria
dessa submissão;toda instituição tem um caráter reprodutor, educativo
e formador: refere-se a um tipo de homem e tipos de comportamentos

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que devem ser reproduzidos segundo uma forma dada e de uma vez
por todas; nesta educação, a coação é um elemento forte; um sistema
de interdições, de limites, de regras está constantemente em jogo. O
curioso é que se trata de uma violência disfarçada para aqueles que
prontamente obedecem e uma violência manifesta contra os traidores;
as instituições se originam a partir de uma pessoa: Deus, pai de família,
líder militar - está sempre presente a questão da paternidade.

4 Funções das instituições


1. Regulação Social: como já foi mencionado anteriormente, “o
tabu tornou-se o método comum de legislação nas comunidades por
ele afetadas e veio a servir a objetivos sociais” (FREUD,1980a, p.56).
De que forma entendemos a regulação social? Um assassino vitorioso
era submetido a restrições sentidas na dieta, no relacionamento
sexual e na distância da tribo e dos amigos. Na ilha Timor, quando os
guerreiros chegavam de uma guerra, com a cabeça do inimigo, eram
oferecidos sacrifícios a fim de apaziguar as almas dos mortos e o chefe
da expedição era submetido a uma série de restrições: ele ficava em
uma cabana especial, preparada para este fim, passava dois meses
submetido a uma purificação espiritual e corporal. E, para isso, não
podia se encontrar com a esposa, e a comida devia ser colocada, por
outra pessoa, em sua boca.
Apesar dos privilégios, existiam uma série de restrições aos
governantes e reis: restrições impostas à liberdade de movimento e
à dieta. Por exemplo: um micado japonês, nos primeiros séculos, não
podia tocar o chão - prejudicial para sua dignidade e santidade – só se
deslocava nos ombros dos servos; não podia ficar ao ar livre, pois o sol
não era considerado digno de brilhar sobre sua cabeça; todas as partes
de seu corpo eram santas, por isso não podiam ser tocadas - não cortava
cabelo, barba ou unhas. Para não ficar muito sujo, podiam limpá-lo à
noite enquanto dormia; tinha que ficar algumas horas imóvel no trono,
sem se mexer, a fim de trazer paz e tranquilidade para o reino.
Em algumas tribos africanas, quanto mais poderoso o rei, mais
tabus tinha de observar. O herdeiro do trono estava sujeito a tabus
desde a infância. Não se torna, pois, estranho o fato de alguns herdeiros
fugirem para não se tornarem reis.
Através do exercício do poder, a instituição assegura uma
regulação e um consenso social sobre o que é possível fazer, o que é
desejável fazer, o que é obrigatório fazer,etc.
2. Manutenção do “status quo”: neste sentido, a instituição tem

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também por objetivo manter um estado de coisas e assegurar a sua


transmissão. E isso só é possível a partir de mecanismos de poder;
3. é função das instituições , a fim de fazer surgir a harmonia
, o consenso, a solidariedade, mascarar os conflitos e as violências
possíveis e por outro lado exprimi-las quando se fizer necessário;
4. Proteção do homem contra o próprio homem: Freud vai
defender a tese da inclinação “natural” do homem para a agressão.
Consequentemente o outro não é visto só como ”ajudante potencial”ou
um “objeto sexual”:
Os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas
e que, no máximo, podem defender-se quando atacados; pelo
contrário, são criaturas entre cujos dotes instintivos deve-
se levar em conta uma poderosa quota de agressividade.
( FREUD, 1980c, p .133).
[...] mas também como alguém que tenta satisfazer sobre
o outro a sua agressividade, a explorar sua capacidade de
trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o
seu consentimento, apoderar-se de suas posses, humilhá-lo,
causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo (FREUD,1980c,
p. 33).
A civilização se apresenta para aplacar tal furor, estabelecendo
limites para a agressividade humana a fim de manter suas manifestações
sob controle.
Podemos compreender então a causa de tamanho desconforto e
mal-estar: a civilização impõe sacrifícios não somente à sexualidade
humana mas também à sua agressividade. Além do que as instituições
se apresentam como uma proteção contra o desamparo infantil: “a
experiência vivida nas instituições é a de um poder totalitário mas que
esconde a violência com toda uma série de cerimônias feitas para o
bem do indivíduo” (ENRIQUEZ, 1997, p.73 )
5. Além de impor determinados limites, ela também propicia o
alívio às proibições, por exemplo, através dos festivais totêmicos. No
Brasil, temos o carnaval - quando tudo é permitido.
6. As instituições proporcionam ao sujeito um sentimento de
pertinência, quando possibilita que ele se aferre às suas origens.
7. As instituições oportunizam a vida em comum, que é,
então, estabelecida como direito. Segundo Freud (1980c), é essa
substituição do poder do indivíduo pelo poder de uma comunidade
que faz a diferença quando se fala de civilização. Tal postura apresenta
restrições nas possibilidades de satisfação individual dando origem
a uma das primeiras exigências da civilização - a justiça ou seja, a

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garantia de que uma lei não será quebrada em favor de um indivíduo.


Essa exigência de igualdade é a raiz da consciência social e
do senso de dever .O sentimento social, assim se baseia na inversão
daquilo que a princípio constitui um sentimento hostil , em uma
ligação de tonalidade positiva, da natureza de uma identificação
(FREUD,1921, p.153).

Considerações finais
Freud, ao citar Trotter, parte do pressuposto que o homem não
é um animal gregário, discordando deste autor que afirma existir um
instinto gregário que se manifesta como senso de justiça, igualdade,
falta de necessidade de líder. Para Freud, o homem é “ um animal
de horda, uma criatura individual numa horda conduzida por um
chefe”(FREUD,1980a, p.154).
Para ele, os primórdios da religião, da moralidade e da
organização social podem ser encontrados no totemismo. A
comunidade totêmica é compreendida como “todos os direitos iguais
e unidos pelas proibições totêmicas que se destinam a preservar e a
expiar a lembrança do assassinato” (FREUD,1980a, p.170).
Outro fato apontado por Freud, que merece nossa atenção, é
que a Instituição falha em sua missão. Ela demonstra certa fragilidade
no momento em que contraria a finalidade para a qual foi criada - a
justiça legitima a injustiça; a saúde não promove saúde – gerando o
mal-estar e o desassossego estrutural a que estamos submetidos.
A guisa de conclusão, gostaríamos de destacar algumas questões
que foram apresentadas por Enriquez (1990, p. 12-16) e que merecem
nossa reflexão:
Por que a obediência é tão fácil, a servidão voluntária tão
freqüente e a revolta tão difícil? Que relações existem entre
o destino individual e o destino da sociedade? Por que os
homens temendo a luta de todos contra todos, multiplicam
as instituições que outorgam ao Estado as bases para
transmissão de seu poder? Por que as instituições que os
homens edificam funcionam mais como órgãos de repressão
do que como conjuntos que favorecem a vida comunitária,
paz, liberdade e expressão da individualidade e felicidade
para todos? Como falar de um vínculo onde a reciprocidade
não seja um engodo e a solidariedade apenas uma aparência?
Somos atravessados por instituições que regulam nossas ações
em sociedade: estado, família, religião, mídia, ciência, mercado.
Instituições que, apesar de suas fragilidades, e em nome da ilusão de

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segurança e equilíbrio social, nos desencorajam a questionar a nossa


lealdade ao instituído (LAPASSADE,1983).

Referências
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ENRIQUEZ, E. Da horda ao estado: psicanálise do vínculo social.
Rio de Janeiro: Zahar,1990.
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FREUD, S. Psicologia de grupo e a análise do ego. Rio de Janeiro:
Imago,1980b. (Obras completas, v.18).
FREUD, S. Totem e tabu. Rio de Janeiro: Imago,1980c. (Obras
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LAPASSADE, G. Grupos, organizações e instituições. Rio de Janeiro:
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LOURAU, R. Análise institucional. Petrópolis: Vozes,1996.
RODRIGUES, H. B. C.; SOUZA,V. L. B. A análise institucional e
a profissionalização do psicólogo. In: KAMKHAGI, V. R.; SAIDON,
O. (Org.). Análise institucional no Brasil. Rio de Janeiro: Espaço
Tempo, 1991. p. 27-45.

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