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Agrupamento de Escolas de rio Tinto

Escola Secundária de Rio Tinto


Português, 12.º ano turmas C e I

Contos do século XX – “George”, de Maria Judite de Carvalho.

Guião de leitura do conto “George”, de Maria Judite de Carvalho

1. Explique a razão pela qual o título “George” suscita, desde logo, surpresa.

O leitor depara-se com um nome estrangeiro – aparentemente masculino – no


título. Quando começa a leitura do conto, apercebe-se de que a personagem
principal é, afinal, feminina.
2. Comprove a utilização de uma técnica narrativa que se aproxima da linguagem
cinematográfica, nos quatro primeiros parágrafos do conto, referindo-se aos
seguintes aspetos:
a) Localização espácio-temporal;
Se a localização espácio-temporal é vaga – sabemos apenas que as
personagens caminham numa “longa rua” e que George já não vinha a tal
lugar há “mais de vinte anos” – o modo como caminham é revelador,
“Andam lentamente, mais do que se pode, como quem luta sem forças
contra o vento, ou como quem caminha, também é possível, na pesada e
espessa e dura água do mar.”, mostrando o esforço com que se movem e
revelando uma certa renitência em se encontrarem. Tendo em conta estas
subtilezas narrativas, apercebemo-nos de que se trata do regresso de
George a um lugar ao qual não vinha há muito tempo, e de um (re)encontro
nada fácil entre personagens.

b) Perspetivas/planos (ação e personagens)


O conto tem uma abertura comparável ao início de um filme, num plano
geral, à distância, mostra-nos duas personagens femininas que irão cruzar-
se. Como uma câmara que se aproxima, passa-se a uma perspetiva mais
particular, que evidencia o rosto da personagem de quem George se vai
aproximando, se bem que no início a sua imagem esteja desfocada. No
terceiro parágrafo, a focalização centra-se na definição desse rosto, agora
pormenorizadamente retratado.

c) Função do narrador;
A função do narrador é determinante: é quem “segura a câmara” e conduz
o leitor na descoberta inicial da história e das personagens, que apenas
permite entrever. No terceiro parágrafo, parece “oferecer a câmara” a
George e é através da sua focalização que observamos a “jovem”. Por
outro lado, mostra-se omnisciente, dado que é detentor de conhecimento
de pormenores que antecipa (“Quando falar não criará espanto, um simples
mal-estar.”), ou sobre os quais especula (“Perdeu ou largou?”).
d) Papel das sensações.

As sensações desempenham um papel fundamental, conferindo maior


dinamismo descritivo e vivacidade à narrativa, transportando o leitor para
“dentro desta tela”: “na pesada e espessa e dura água do mar”; “Calor e
também aquela água macia”.
3. Explique a relevância da “fotografia que tem corrido mundo” para a
compreensão da relação entre as duas personagens.

Esta fotografia é bastante importante porque permite inferir acerca da


proximidade, mesmo inseparabilidade, das “duas” personagens, apesar da
distância que as separava. No entanto, repare-se que a fotografia nunca se
encontra em lugar de destaque, muito pelo contrário, tem seguido mundo
“numa mala qualquer” ou, ainda, “tem morado no fundo de muitas gavetas”
como que esquecida ou negligenciada.

4. A reação dos pais, ao ouvirem falar de arte, revela a sua condição


sociocultural? Justifique a sua resposta.
A reação dos pais aos momentos em que se conversava sobre cultura era
previsível e resultante da sua pouca instrução. Reagiam com “a superioridade
dessa “ignorância”, “indignados” e talvez “envergonhados” com o facto de a
filha debater assuntos culturais que desconheciam.

5. Releia os parágrafos 5 a 8 e sintetize as metamorfoses da figura feminina aí


referidas.

Nestes parágrafos são referidas várias transformações interiores e exteriores


da personagem George. Para além da mudança constante de residência (“da
vila […] partiu à descoberta da cidade grande”) e “mais tarde partiu por além-
terra, por além-mar, George muda a sua aparência regularmente (“Fez loiros
os cabelos…”).
Interiormente, há evidências de diversas metamorfoses, quer ao nível da
inconstância amorosa quer no desapego aos bens materiais que lhe permitiam
a liberdade necessária para mudar, partir a qualquer momento (“Teve muitos
amores, grandes e não tanto, definitivos e passageiros, simples amores,
casou-se, divorciou-se, partiu, chegou, voltou a partir e a chegar, quantas
vezes?”).

6. Explicite o sentido de “Uma casa mobilada, sempre pensou, é a certeza de


uma porta aberta de par em par, de mãos livres, de rua nova à espera dos
seus pés”, tendo em conta o perfil psicológico de George.

As casas já mobiladas permitem à personagem abandoná-las, sem grandes


preocupações, sempre que deseje mudar (ou se canse?) de um determinado
espaço. Este facto está de acordo com o perfil psicológico de George – tem um
espírito aventureiro, não tem medo de novos desafios, detesta sentir-se presa,
nunca prescindindo da sua liberdade. Por outro lado, revelam desapego pelos
bens materiais.

7. Selecione três indícios de que Gi pode ser considerada um alter ego (outro eu)
de George, fundamentando.
8.
Há fortes indícios de que Gi é um outro “eu” (ainda jovem, de dezoito anos) de
George: por exemplo, a simultaneidade dos atos (“param ao mesmo tempo,
espantam-se em uníssono”), a habilidade e necessidade de desenha e pintar
(“Se não desenhasse, dava em maluca”) e, finalmente, o pregador de ouro que
George havia penhorado em Lisboa encontra-se ainda com Gi (“Gi com um
pregador de ouro que um dia ficou, por tuta e meia, num penhorista qualquer
de Lisboa..
Por tudo isto, podemos inferir que que Gi é George, uma memória da sua
juventude, aqui recordada em diálogo consigo mesma.

9. Estabeleça a relação entre o parágrafo “Mas é uma pergunta que não pede
resposta. Gi fá-la por fazer e sorri […] sobre ambas” e o início do conto.

É possível verificar que há uma relação de semelhança. No fim deste


parágrafo, as personagens “começam a mover-se ao mesmo tempo, devagar,
como quem anda na água ou contra o vento. Vão ficando longe, mais longe.”
Na parte inicial do conto, “Andam lentamente, mais do que se pode, como
quem luta sem forças contra o vento, ou como quem caminha, também é
possível, na pesada e espessa e dura água do mar”. Fecha-se um círculo: a
revisitação ao tempo da sua juventude, através da memória e introspeção,
terminou. Simbolicamente, o tempo da juventude ficou irremediavelmente
perdido.

10. Refira três elementos linguísticos ou estilísticos típicos da prosa de Maria


Judite de Carvalho.
Pode referir-se o uso da ironia “triste”; do sarcasmo (“os pais tinham sido
condenados pelas instâncias supremas à quase ignorância, gente de trabalho,
diziam como se os outros não trabalhassem”); das interrogações retóricas (“sê-
lo-ão?); das reiterações (“cheira a queimado, o ar”).

Releia o conto desde a linha 113 até ao fim: “Agora está à janela a ver o
comboio fugir de dantes […] com o último dos seus amores”.
1. Preencha o esquema seguinte: George encontra-se no _________________
com o propósito de ____________________; simbologia ________________.
A mulher gorda localiza-se na ____________; questão colocada: _________;
simbologia.
George encontra-se no comboio com o propósito de fugir de dantes; simbologia
– encerrar a revisitação à sua juventude, aos locais onde viveu e à pessoa
que foi.
A mulher gorda localiza-se na passagem de nível, “será a mesma ou uma
filha ou uma neta igual a ela?” Simbologia: as pessoas que se acomodaram à
vida na vila não evoluíram, estagnaram, a geração seguinte é igual à anterior.
2. Explique como a construção da “figura” está em sintonia com a profissão da
personagem.
Como se assistíssemos à pintura de uma tela, o retrato desta “figura” vai
ganhando contornos aos nossos olhos, até se tornar nítido e ser descrito com
algum detalhe. Podemos dizer que a técnica descritiva (desenhar retratos
através das palavras) se harmoniza com a profissão de pintora de George.

3. Identifique o recurso expressivo presente em “nítido ainda, mas esfumado” e


explicite o seu valor.
A antítese reforça a indefinição dos contornos do rosto da “figura” que se
descreve, bem como o esforço necessário para o delinear com clareza.
4. Caracterize esta nova personagem.
Esta nova personagem, diante de si, no comboio, tem cerca de setenta anos, é
reservada (“sorri de si para consigo”), e exibe uma certa sofisticação discreta
(uma carteira cara, maquilhagem, cabelos pintados). Autocaracteriza-se como
solitária e considera que o único crime que cometeu foi ter envelhecido.
5. Retire dois elementos que indiciem que Georgina é uma réplica de George,
justificando.
Há alguns indícios de que Georgina é um outro “eu” de George: a confissão de
que possui uma única fotografia sua em “rapariguinha”, como memória do seu
passado, e ainda o facto de “adivinhar” que George vive em casas mobiladas.

6. Refira os efeitos do diálogo em George e interprete as suas reações.


George sente-se incomodada com o diálogo travado com Georgina, apesar de
não o querer admitir explicitamente (“Estou a incomodá-la, parece-me. – Dói-
me simplesmente a cabeça.”. Prefere pensar em algo mais aprazível, como
nas suas exposições e nas viagens que gostaria de realizar (“deixa-se embalar
por pensamentos mais agradáveis, […] a exposição que vai fazer, aquele
quadro que vendeu muito bem o mês passado, a próxima viagem aos Estados
Unidos”.

7. Explicite o contraste existente entre os excertos seguintes:

a) “Há um breve silêncio, depois George diz devagar: “– Que calor, cheira a
queimado, o ar. Terá sido sempre assim?”
b) “O calor de há pouco foi desaparecendo e agora já não há vestígios
daquela aragem de forno aberto. O ar está muito levemente morno e quase
agradável”.
O calor, o “cheiro a queimado” que sentiu e que tanto a incomodou,
aquando do encontro com Gi – expresso em a) –, dissipa-se no excerto
final – b). A personagem “suspira”, respira “tranquila”, após os dois
encontros com os seus duplos.
8. Explique a relevância do último parágrafo enquanto conclusão da narrativa,
tendo em conta as “viagens” de George pela memória e pela imaginação, ao
longo do conto.
O último parágrafo vem esclarecer o estado de espírito da personagem, na
sequência das “viagens” interiores, que vão da memória da sua juventude à
projeção de si própria num futuro, ainda longínquo, porém perturbador.
Reencontra-se e, com alguma serenidade, escolhe viver a realidade que a sua
profissão e condição social lhe permitem, numa atitude de aceitação do curso
do tempo, que a marcha do comboio, afinal, simboliza.

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