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APLICAÇÃO FOLIAR DE Azospirillum brasilense E DOSES DE

NITROGÊNIO EM COBERTURA NO MILHO SAFRINHA

Claudinei Kappes(1), Leandro Zancanaro(2), Alessandro Aparecido Lopes(3),


Cleverson Volnei Koch(3), Gilmar da Rocha Fujimoto(3), Vinicius Eduardo
Nunes Ferreira(4)

Introdução
Dentre os processos biológicos que ocorrem na natureza, a fixação biológica do ni-
trogênio atmosférico é realizada por um grupo restrito de bactérias, denominadas diazo-
tróficas. Dentre estas, as do gênero Azospirillum, principalmente a espécie A. brasilense,
tem sido usada como inoculante em diversas culturas, tais como: cereais, algodão, cana-de-
açúcar, café, braquiárias e outras (REIS, 2007).
A interação positiva entre estas bactérias e o milho tem sido demonstrada por vários
autores e, embora o maior obstáculo para a utilização desta tecnologia é a inconsistência de
resultados em condições de campo, ligada a fatores como condições edafoclimáticas e inte-
rações com a biota do solo (REIS, 2007), diversas pesquisas realizadas no Brasil demons-
tram incrementos de produtividade de milho através da inoculação com Azospirillum
(HUNGRIA et al., 2010; PORTUGAL et al., 2012; KAPPES et al., 2013a). Apesar de mui-
tos anos de pesquisa, ainda se observam respostas muito variáveis, o que mostra a impor-
tância e justifica a realização de experimentos de campo.
A adubação nitrogenada no milho é de grande importância, pois o N é absorvido
em grandes quantidades e um dos nutrientes que apresenta os maiores efeitos no aumento
da produtividade da cultura (FERNANDES et al., 2008). Por outro lado, o seu manejo in-
correto é o que mais interfere na produtividade e mais onera no custo de produção.
Sabe-se que existem interações entre o N e as bactérias diazotróficas na assimilação
e utilização desse nutriente pelas plantas. O conhecimento desta interação pode constituir

1
Engenheiro-Agrônomo, Dr., Pesquisador da Fundação MT, Av. Antônio Teixeira dos Santos, 1559, Parque
Universitário, 78750-000 Rondonópolis, MT. claudineikappes@fundacaomt.com.br
2
Engenheiro-Agrônomo, M.Sc., Pesquisador e Gestor Técnico do PMA da Fundação MT.
leandrozancanaro@fundacaomt.com.br
3
Técnicos Agrícolas, Assistentes de Pesquisa da Fundação MT. alessandrolopes@fundacaomt.com.br;
cleversonvolnei@fundacaomt.com.br; gilmarfujimoto@fundacaomt.com.br
4
Graduando em Agronomia pela faculdade Anhanguera e estagiário do Programa de Novos Talentos da
Fundação MT. vinicius1.3@hotmail.com

[1]
estratégia importante e contribuir com informações valiosas no que se refere à redução de
aplicação de fertilizantes nitrogenados, redução de custos na semeadura e menor contami-
nação do lençol freático por compostos nitrogenados.
Tendo em vista a importância da fixação biológica e do manejo do N, conduziu-se
este trabalho com o objetivo de avaliar o desempenho agronômico do milho safrinha, culti-
vado em sistema de semeadura direta após a soja, em função da aplicação foliar de A. bra-
silense e de doses de N em cobertura.

Material e Métodos
O experimento foi conduzido na Estação Experimental Cachoeira da Fundação
MT/PMA (17° 09' S, 54° 45' W e 490 m de altitude), localizada no município de Itiquira,
MT, na “safrinha” de 2013. A região está sob bioma de Cerrado, cujo clima predominante,
segundo classificação de Köppen, é o do tipo Aw. Os valores diários de precipitação
pluvial e de temperatura mínima e máxima do ar, durante o período experimental, podem
ser observados na Figura 1.

Figura 1. Valores diários de precipitação pluvial e de temperatura mínima e máxima do ar,


registrados durante a condução do experimento. Itiquira, MT (2013).

O solo da Estação Experimental é classificado como Latossolo Vermelho distrófico


e de textura muito argilosa, cujos atributos químico-físicos na camada de 0,0 a 0,2 m,
apresentaram os seguintes valores: pH (CaCl2) = 4,8; P, K, S, Zn, Cu, Fe, Mn e B = 15, 82,

[2]
14, 9,5, 2,2, 80, 25 e 0,5 mg dm -3, respectivamente; Ca, Mg, H+Al e CTC = 2,5, 0,9, 5,6 e
9,2 cmolc dm-3, respectivamente; V = 39%; MO = 40 g dm -3; argila, areia e silte = 658, 192
e 150 g kg-1, respectivamente.
Foram estabelecidos dez tratamentos com quatro repetições, resultantes da
combinação dos fatores A. brasilense e doses de N. O delineamento experimental utilizado
foi o de blocos ao acaso, com os tratamentos dispostos em esquema fatorial 2 x 5 (com e
sem aplicação de A. brasilense via foliar x doses de N em cobertura: 0, 30, 60, 90 e 120 kg
ha-1, via ureia). O inoculante utilizado continha estirpes de A. brasilense (1 x 109 células
viáveis mL-1) e a dose utilizada foi de 250 mL ha -1 do produto comercial. Tanto a aplicação
do inoculante quanto a do N foram realizadas quando 50% das plantas apresentavam-se em
V5 (RITCHIE et al., 2003). O inoculante foi aplicado com pulverizador costal pressurizado
por CO2, munido de barra com pontas jato cone vazio, pressão constante de 3,0 kgf cm -2 e
vazão de calda aproximada de 120 L ha-1. As parcelas foram constituídas por 14 linhas de
10 m de comprimento, espaçadas de 0,45 m.
O híbrido de milho utilizado foi o DOW 2B587 Hx (tipo simples, 815 graus dias) e
a semeadura realizada no dia 22/02/2013. Em pré-semeadura da soja (cultura antecessora
do milho), foram aplicados 120 kg ha-1 de K2O, via cloreto de potássio (a lanço). No sulco
de semeadura do milho foram aplicados 52 kg ha -1 de P2O5 e 10 kg ha-1 de N via fosfato
monoamônico (MAP) e 1,0 kg ha-1 de Zn via Zincodur. Utilizou-se semeadora equipada
com mecanismo de distribuição de sementes pneumático.
Na colheita, realizada no dia 23/07/2013, mensurou-se: população final de plantas;
diâmetro de colmo (2º internódio a partir da base da planta); altura de planta; massa de mil
grãos (pesagem de uma subamostra de 500 grãos por parcela, extrapolando-se para mil
grãos) e; produtividade. A massa de grãos foi corrigida para 13% de umidade (base
úmida). Os resultados foram submetidos ao teste F, comparando-se as médias dos
tratamentos com A. brasilense pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade e as médias de
doses de N pela análise de regressão.

[3]
Resultados e Discussão
A população final de plantas, a altura de planta e a massa de mil grãos não foram
influenciadas pelos tratamentos considerados no presente trabalho (Tabela 1). Por outro
lado, o diâmetro de colmo e a produtividade foram influenciados, isoladamente, pelas
doses de N em cobertura.

Tabela 1. Valores médios e resumo da análise de variância para população final de plantas
(PFP), diâmetro de colmo (DC), altura de planta (AP), massa de mil grãos (MMG) e
produtividade (PROD) de milho safrinha em função da aplicação foliar de A. brasilense e
doses de N em cobertura. Itiquira, MT (2013).

PFP DC AP MMG PROD


Tratamentos
plantas ha-1 mm cm g kg ha-1
A. brasilense (A)
Com 63.057 18,5 228,4 260,3 6.052
Sem 65.285 18,7 228,6 266,4 5.960
Doses de N (D)
0 kg ha-1 63.426 17,9 226,2 262,2 5.695
30 kg ha-1 64.125 18,4 228,1 262,2 5.960
60 kg ha-1 65.278 18,8 227,6 267,7 6.033
90 kg ha-1 65.278 19,0 229,1 262,9 6.199
120 kg ha-1 62.750 19,1 231,4 261,8 6.143
Média geral 64.171 18,6 228,5 263,3 6.006
A ns ns ns ns ns
Teste F D ns * ns ns *
AxD ns ns ns ns ns
CV (%) 8,01 4,30 1,56 4,08 5,19
Legenda: * e ns – significativo a 5% de probabilidade e não significativo, respectivamente. CV – coeficiente
de variação.

Obteve-se incremento linear do diâmetro de colmo à medida que se aumentou as


doses de N em cobertura (Figura 2A). O aumento do diâmetro de colmo com a dose de N
mostra-se ser vantajoso, pois esta característica morfológica é uma das que mais tem sido
relacionada com o percentual de acamamento ou quebramento de planta na cultura do
milho. Além disso, o diâmetro de colmo é importante para a obtenção de alta
produtividade, pois quanto maior o seu diâmetro, maior a capacidade da planta em
armazenar fotoassimilados que contribuirão com o enchimento dos grãos. Aumento no
diâmetro de colmo em resposta as doses de N no milho também foram evidenciados por
Cruz et al. (2008) e Lana et al. (2009).
[4]
Figura 2. Diâmetro de colmo (A) e produtividade (B) de milho safrinha em função de
doses de N em cobertura. Itiquira, MT (2013). Teste F: ** – significativo a 1% de
probabilidade.

A produtividade aumentou linearmente com o incremento nas doses de N em


cobertura (Figura 2B), cujo modelo de regressão permitiu estimar que para cada 30 kg ha -1
de N aplicado, obteve-se incremento de 113 kg ha -1 na produtividade da cultura. Diversos
pesquisadores constataram aumento na produtividade de milho com a aplicação de N em
cobertura (OHLAND et al., 2005; LANA et al., 2009; KAPPES et al., 2013b). No presente
estudo, ressalta-se que mesmo no tratamento sem aplicação de N em cobertura, obteve-se
boa produtividade, a qual pode ser atribuída ao N oriundo do fertilizante utilizado na
semeadura (10 kg ha-1 de N) e à rápida decomposição dos restos culturais da soja (cultura
antecessora), com consequente disponibilidade de N às plantas.
A aplicação foliar de A. brasilense não proporcionou resultados positivos à cultura
do milho. Contudo, novas pesquisas devem ser realizadas, uma vez que fatores como
genótipo, condições edafoclimáticas e estirpe da bactéria utilizada, podem influenciar no
resultado. Portugal et al. (2012) observaram incremento de 14,7% na produtividade de
milho quando este recebeu aplicação foliar de A. brasilense em V6.

Conclusões
A aplicação foliar de A. brasilense, nas condições edafoclimáticas em que o
trabalho foi realizado, não proporcionou resultados positivos à cultura do milho.
O aumento nas doses de N em cobertura resultou em incremento linear no diâmetro
de colmo e na produtividade de milho, independente da aplicação foliar de A. brasilense.

[5]
Referências
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PEREIRA, R. G. Adubação nitrogenada para o milho cultivado em sistema plantio direto,
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Campina Grande, v. 12, n. 1, p. 62-68, 2008.
FERNANDES, F. C. S.; LIBARDI, P. L.; TRIVELIN, P. C. O. Parcelamento da adubação
nitrogenada na cultura do milho e utilização do N residual pela sucessão aveia preta -
milho. Ciência Rural, Santa Maria, v. 38, n. 4, p. 1138-1141, 2008.
HUNGRIA, M.; CAMPO, R. J.; SOUZA, E. M. S.; PEDROSA, F. O. Inoculation with
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KAPPES, C.; ZANCANARO, L.; LOPES, A. A.; KOCH, C. V.; FUJIMOTO, G. R.;
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Florianópolis. Programa & Resumos... Florianópolis: EPAGRI/SBCS, 2013b. (CD-
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LANA, M. C.; WOYTICHOSKI JÚNIOR, P. P.; BRACCINI, A. L.; SCAPIM, C. A.;
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OHLAND, R. A. A.; SOUZA, L. C. F.; HERNANI, L. C.; MARCHETTI, M. E.;
GONÇALVES, M. C. Culturas de cobertura do solo e adubação nitrogenada no milho em
plantio direto. Ciência e Agrotecnologia, Lavras, v. 29, n. 3, p. 538-544, 2005.
PORTUGAL, J. R.; ARF, O.; LONGUI, W. V.; GITTI, D. C.; BARBIERI, M. K. F.;
GONZAGA, A. R.; TEIXEIRA, D. S. Inoculação com Azospirillum brasilense via foliar
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NACIONAL DE MILHO E SORGO, 29., 2012, Águas de Lindóia. Resumos... Campinas:
IAC/ABMS, 2012. p. 1413-1419.
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em gramíneas. Seropédica: Embrapa Agrobiologia, 2007. 22 p. (Documentos, 232).
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desenvolve. Piracicaba: Potafós, 2003. 20 p. (Informações Agronômicas, 103).

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