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ANATOMIA DENTAL
INTERNA E EXTERNA
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A N ATO M I A D E N TA L
INTERNA E EXTERNA

Manoel Eduardo de Lima Machado


Arlindo Di Spana Souza
Raul Capp Pallotta

O campo de atuação do endodontista é basicamente voltado para


uma cavidade contida dentro do órgão dentário, no qual pode ter uma
anatomia variada em função do grupo dentário e de condições fisiológicas
e patológicas. É imprescindível que o profissional tenha um amplo
conhecimento tridimensional desta anatomia dental interna, incluindo
o número de raízes, número de canais por raiz, localização desses canais,
formato de sua secção transversal e curvaturas mais frequentes porque
muitas vezes o tratamento endodôntico é realizado “às cegas”, se guiando
por visões indiretas ou simplesmente por sensibilidade “táctil”. Desta
maneira, este capítulo irá abordar a anatomia dental interna comumente
encontrada, e abordar suas possíveis variações.

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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

1. CAVIDADE PULPAR

A cavidade pulpar é o espaço no interior do dente onde se aloja a


polpa, reproduzindo sua morfologia externa, e é dividida didaticamente
em duas porções, uma coronária e outra radicular, denominadas,
respectivamente, câmara pulpar e canal radicular (Fig. 1).

Figura 1 - Corte proximal do Incisivo Central e Primeiro Pré-molar Superiores e corte vestibular
de um Primeiro Molar Inferior. Note a Cavidade Pulpar reproduzindo a morfologia externa do
dente

O tratamento endodôntico consiste na manipulação dessa


cavidade desde sua abertura até sua completa repleção.

A anatomia dental sofre modificações morfológicas por toda


a vida, devido a fatores fisiológicos e patológicos mencionados. Tanto
a câmara pulpar como o canal radicular, que no início são bastante
amplos, com o passar dos anos, tornam-se gradualmente menores pela
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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

deposição continuada de dentina secundária. A esse respeito, Fischer


elaborou o primeiro trabalho sistemático sobre anatomia interna, e
Hess, aperfeiçoando a técnica, chegou às conclusões tidas até hoje como
definitivas:

- Os canais radiculares geralmente reproduzem a forma exterior da raiz.


Podem apresentar diferenciações motivadas por paredes dentinárias
no seu interior, além disso podem ser observadas ramificações apicais e
canais laterais em diferentes níveis da raiz. Essas diferenciações podem
ocorrer em qualquer dente, mesmo naqueles cuja aparência externa é
normal;

- A forma e o número dos canais são determinados pelas paredes


dentinárias presentes no seu interior;

- A idade interfere na forma e no número de canais.

1.2. CÂMARA PULPAR

A câmara pulpar ocupa a parte interna da coroa e apresenta


forma semelhante à da superfície externa. Suas paredes recebem a mesma
denominação das faces coronárias às quais estão relacionadas.

Em dentes unirradiculares existem 5 paredes denominadas:


vestibular, lingual ou palatina, mesial, distal e incisal/oclusal ou teto (Fig.
2). São assim chamadas por corresponderem às faces de mesmo nome

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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

da coroa dentária. As paredes incisal e


oclusal ou teto correspondem à parede
de dentina que limita a câmara pulpar
em direção incisal ou oclusal.

Na maioria dos dentes


unirradiculares não existe um
limite preciso entre câmara e canal
radicular, diferentemente dos dentes
multirradiculares, que apresentam
Figura 2 - Incisivo Central Superior.
uma divisão característica entre as duas Na imagem as paredes Vestibular (V),
Lingual (L) e o Teto (T)
cavidades, representada pelo assoalho.

O assoalho corresponde à parede de dentina oposta à parede


oclusal ou teto. É convexo, liso e arredondado na sua porção central. A
partir de suas extremidades, pode-se observar os orifícios de entrada dos
canais (Fig. 3).

Figura 3 - Primeiro Molar Inferior. Na imagem as paredes Vestibular (V), Lingual (L), Mesial (M),
Distal (D), Teto (T) e Assoalho (A).

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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

A configuração
da câmara pulpar, como
já mencionado, varia com
a idade e/ ou estímulos
a que o órgão dental é
submetido ao longo dos
anos. Os fatores que podem

Figura 4 - Dentes Anteriores de um paciente jovem e


modificar a anatomia da
adulto. Note a diferença da câmara pulpar e do ápice câmara pulpar são:

Fisiológicos - estão relacionados à idade e à deposição de dentina feita


pelos odontoblastos durante toda a vida do dente, diminuindo o volume
e a permeabilidade dentinária (Fig. 4). Por um lado, essa redução pode
ser útil, pois diminuindo a permeabilidade dentinária, teremos menos
chances de agressões externas. Em contrapartida, o tecido pulpar estará
sujeito a uma diminuição na sua capacidade de reação e auto reparação
devida à redução do seu número de células viáveis. Consequentemente,
com essa redução do metabolismo, observa-se também uma redução da
vascularidade. Também podem aqui ser agrupados outros estímulos tais
como: erosão, abrasão e atrição.

Patológicos - a polpa submetida a estímulos anormais deposita dentina


reacional, ocorrendo, em alguns casos, sua total obliteração. Para tanto é
fundamental um estudo minucioso da radiografia, identificando os fatores
que eventualmente provocaram alterações na anatomia. Tais alterações
seriam cáries, doenças periodontais, preparos cavitários e restaurações
profundas e traumatismos (Fig. 5).
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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

Figura 5 - Câmara Pulpar alterada pela cárie e vários pontos de calcificação tanto na câmara
pulpar como no canal radicular

1.2. CANAL RADICULAR

No que se refere ao canal radicular, assim como à câmara pulpar,


a anatomia interna segue a anatomia externa. Dessa forma, numa raiz
achatada, o canal também se apresenta achatado. É importante salientar,
no entanto, que existe uma tendência à circularidade apical, pois, mesmo
numa raiz achatada, o canal tende a se apresentar circular à medida que
seguimos em direção apical.

Histologicamente, pode-se dividir o canal em dois cones truncados


unidos pelo seu vértice. Um deles é longo com seu maior diâmetro voltado
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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

para a câmara pulpar, denominado cone dentinário. O outro é curto e


mede de 0,5 a 3 mm, abrindo-se para a região apical, denominado cone
cementário. A união dos dois cones justapostos recebe o nome de limite
cemento-dentina-canal (CDC) e se encontra em média de 0,5 a 0,75 mm
do ápice anatômico dental.

O canal dentinário representa quase a totalidade do ducto radicular


e abriga o tecido pulpar. É dentro de seus limites que o endodontista deve
trabalhar. Seu diâmetro tende a diminuir com a idade devido à constante
deposição de dentina.

O canal cementário aumenta de diâmetro com o passar do tempo,


devido à contínua deposição de novas camadas cemento que respeitam
o trajeto do feixe vásculo nervoso, ou seja, que se depositam em leque.
Abriga em seu interior um tecido conjuntivo chamado erroneamente de
coto pulpar, que possui características tanto do ligamento periodontal
como do tecido pulpar, sendo, porém, isento de odontoblastos.

Na terapia endodôntica o profissional não deve intervir no canal


cementário, pois é a partir do tecido que o preenche que teremos o início
da tão almejada reparação fisiológica pós-tratamento endodôntico, que é
constatada microscopicamente pela deposição de cemento em torno do
forame apical. Maiores detalhes sobre a anatomia apical serão abordados
mais adiante no capítulo de odontometria.

Didaticamente, o canal radicular se divide em terços cervical,


médio e apical.

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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

O canal radicular pode apresentar ramificações que são vias de


comunicação entre a polpa e o ligamento periodontal. Elas se formam
quando uma área localizada na bainha radicular é fragmentada antes
da formação dentinária ou então quando os vasos sanguíneos se tornam
aprisionados na bainha epitelial em proliferação. As ramificações podem
ser grandes ou pequenas, únicas ou múltiplas e podem ocorrer em
qualquer ponto da raiz, podendo ser visualizadas em cortes histológicos,
ou em dentes diafanizados e, ainda mais dificilmente, em radiografias.

Dependendo da localização, essas ramificações recebem diferentes


denominações:

Canal Principal - aloja a polpa radicular


desde o terço cervical até o terço apical
(Fig. 6).

Canal Lateral - ramificação que vai


desde o canal principal até a superfície
Figura 6 - Canais Principais de um
externa do dente (Fig.7).
Molar Superior

Canal Secundário - sai diretamente do


canal principal em direção ao periodonto
apical, sua localização é sempre no terço
apical (Figs. 7 e 8).

lnterconduto - pequeno canal que


comunica canais principais entre si,
ou um principal e um bifurcado; não Figura 7 - Canal Lateral (seta vermelha)
e Canal Secundário (Seta Azul).
atingem o cemento radicular.
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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

Cavo - ramificação no nível do assoalho


pulpar em direção ao periodonto da
forca.

Recorrente - sai do canal principal,


segue um trajeto independente e volta a
desembocar no canal principal antes de
atingir o terço apical (Fig. 9). Figura 8 - Canal Secundário

Acessório - deriva do canal secundário


e atinge o cemento radicular.

Colateral ou Bifurcado - corre


paralelamente ao canal principal
podendo alcançar independentemente
o ápice (Fig. 10);

Delta Apical - múltiplas


terminações do canal principal Figura 9 - Canal Recorrente

determinando o aparecimento de
múltiplas foraminas em substituição
do forame único. Essas ramificações
são mais frequentes no terço apical,
menos numerosas no terço médio e
mais raras no terço cervical. Os estudos
de Hess concluíram que não existem
ramificações apicais em dentes recém-
Figura 10 - Canal Colateral na raiz
erupcionados, elas só vão aparecer
vestivular de um 1° Pré-molar Superior
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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

após o enceramento do forame. Entre as idades de 12 e 20 anos poucas


ramificações são encontradas. Há um aumento delas entre as idades de 20
e 40 anos e uma diminuição entre 40 e 55 anos. Desse modo, é marcante
a influência da idade na terapia endodôntica. Nos casos de dentes jovens,
deve-se avaliar radiograficamente a quantidade de estrutura radicular
presente para a realização do tratamento convencional.

2. ANATOMIA DENTAL EXTERNA E INTERNA DOS


DIFERENTES GRUPOS DENTAIS

2.1. ARCADA SUPERIOR

INCISIVOS CENTRAIS SUPERIORES

A câmara pulpar desses


dentes é menor no sentido
vestíbulo-lingual e maior no
sentido mésio-distal, podendo
apresentar dois ou três cornos
pulpares. A forma da câmara
pulpar coronária é triangular
com a base maior para incisal.

Figura 11 - Incisivo Central Superior

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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

Apresenta uma raiz de forma cônica, com um canal radicular


único, amplo, central e reto. Em cortes transversais, apresenta-se mais
largo no sentido vestíbulo-lingual do que no mésio-distal. Sua secção
transversal é triangular na região cervical e à medida que se direciona
para o ápice torna-se circular.

A inclinação média desse dente no arco é de 3° no sentido mésio-


distal e 15° no sentido vestíbulo-lingual. O seu comprimento médio é de
22 mm.

INCISIVOS LATERIAIS SUPERIORES


Sua anatomia interna
é semelhante à do incisivo
central superior só que com
diâmetros menores. A câmara
pulpar tem forma triangular,
com a diferença de que é
aguda, com a base maior para
incisai.

Apresenta uma raiz


Figura 12 - Incisivo Lateral Superior
cônica ligeiramente achatada

no sentido mésio-distal, com canal radicular único. Em cortes transversais,


apresenta-se mais largo no sentido vestíbulo-lingual do que no sentido
mésio-distal. Sua secção transversal do canal no terço cervical é ovoide e
à medida que caminha para o ápice torna-se circular.
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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

A porção apical da raiz é


normalmente curva no sentido disto-
palatino. Essa curvatura pode ser
bastante acentuada e, muitas vezes,
não visível na análise radiográfica,
por isso um cuidado especial deve ser
tomado durante o preparo do canal,
evitando a formação de degrau e a de
perfurações indesejáveis.

Mais raramente, esses dentes Figura 13 - Dens in Dente

podem sofrer variações anatômicas,


como a presença de um segundo canal.
Nesses casos, um estará na vestibular e
outro na palatina, mas possivelmente
terminando em forame único. Outra
variação anatômica característica
desse grupo é uma maior incidência de
dens in dente na cavidade pulpar (Fig.
13), ou ainda a presença de um sulco
na porção palatina da raiz (Fig. 14). Figura 14 - Sulco na porção palatina da
raixIncisivo Central Superior
A inclinação média desse dente
no arco é de 5° no sentido mésio-distal e 20° no sentido vestíbulo-lingual.
Seu comprimento médio é de 22,5 mm.

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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

CANINOS SUPERIORES

É o dente mais longo


da arcada dentária. Sua câmara
pulpar é a mais volumosa dos
dentes anteriores. Com forma
de uma chama de vela, possui
seu maior diâmetro no sentido
vestíbulo-lingual, é maior no
colo dentário e afunila-se em
direção incisal.

Figura 15 - Canino Superior

Apresenta raiz cônica com canal único, amplo e reto, sendo que
a porção final da raiz é fina e alongada, podendo apresentar curvatura
do terço apical para a distal, ou ainda tomar direção vestíbulo-distal. Em
cortes transversais, apresenta-se mais largo no sentido vestíbulo-lingual
do que no sentido mésio-distal. Possui secção transversal ovoide no terço
cervical e à medida que caminha para o ápice apresenta-se circular.

Atenção especial deve ser tomada no preparo dos dois terços


iniciais do canal, devido à presença do cotovelo de dentina (concrescência)
causado pela projeção do cíngulo.

A inclinação média desse dente no arco é de 6° no sentido mésio-


distal e 17° no sentido vestíbulo-lingual, sendo seu comprimento médio
de 27 mm.

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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

PRIMEIRO PRÉ-MOLAR SUPERIOR

A câmara pulpar
acompanha a forma externa da
coroa com grande achatamento
no sentido mésio-distal.
Possui, normalmente, dois
cornos pulpares, um vestibular
e outro palatino.

Apresenta geralmente
duas raízes com forma cônica

Figura 16 - 1° Pré Molat Superior e dois canais, tendo estes


secção transversal circular
desde o terço cervical até o
ápice. Pode ainda ter uma
única raiz bastante achatada
no sentido mésio-distal, com
dois canais arredondados
ou ainda uma raiz com
único canal, que apresenta a
secção transversal dos canais
fortemente achatada no
sentido mésio-distal.
Figura 17 - 1° Pré Molat Superior com duas raízes
vestibulares e uma palatina

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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

A localização do assoalho pode ser nos três níveis das raízes:


cervical, médio ou apical. Esses dentes podem sofrer variações anatômicas
como a presença de três raízes, sendo duas vestibulares e uma palatina
(Fig. 17).

A inclinação média desse dente no arco é de 7° no sentido mésio-


distal e 11 ° no vestíbulo-lingual. Seu comprimento médio é 21 mm.

SEGUNDO PRÉ-MOLAR SUPERIOR

Sua anatomia é
semelhante à do primeiro
pré-molar superior. Com
grande frequência, esse
dente apresenta uma única
raiz, podendo ter um ou
dois canais. Sua secção
transversal segue a mesma

Figura 18 - 2° Pré Molat Superior


condição do primeiro pré-
molar superior. Quando da

presença de dois canais, esses podem terminar totalmente independentes


ou podem convergir e acabar em um único forame. Isso ocorre pela
presença de uma ilhota de dentina que acaba por dividir o canal em dois.

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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

A inclinação média desse dente no arco é de 7° no sentido mésio-


distal e de 7° no sentido vestíbulo-lingual. Seu comprimento médio é de
21,5 mm.

PRIMEIRO MOLAR SUPERIOR

A câmara pulpar é ampla e maior no sentido vestíbulo-lingual


com ligeiro achatamento do sentido mésio-distal.

Esse dente possui normalmente três raízes, na maioria das


vezes bem diferenciadas, sendo duas vestibulares e uma palatina. A raiz
mésio-vestibular é maior no sentido vestíbulo-lingual do que a raiz disto-
vestibular e bastante achatada no sentido mésio-distal, por isso poderá se
apresentar com dois condutos (Fig. 19). Normalmente esta raiz apresenta-
se com curvatura no sentido distal ou ainda pode apresentar-se reta. Já
a raiz disto-vestibular apresenta-se reta, geralmente possui somente um
canal com secção circular. A raiz palatina é a maior e mais volumosa,
podendo ser reta ou curva em direção vestibular (Fig. 19).

Figura 19 - 1° Molat Superior - Raízes mésio vestibular (MV), disto vestibular (DV) e palatina (P)
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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

A inclinação média desse dente no arco é de 0° no sentido mésio-


distal e 15° no sentido vestíbulo-lingual. O comprimento médio de suas
raízes vestibulares é 19 mm e da raiz palatina é 21 mm.

SEGUNDO MOLAR SUPERIOR

Possui anatomia semelhante à do pnme1ro molar superior, só


que com dimensões menores. Sua coroa possui grande achatamento
mésio-distal. Maiores dificuldades podem surgir na localização do canal
disto-vestibular dada a sua posição inconstante devido ao achatamento
da coroa.

Suas raízes estão mais próximas umas das outras, podendo


apresenta fusão entre elas, principalmente entre as raízes mésio-vestibular
e a palatina. É preciso salientar que essa fusão pode ocorrer entre as
três raízes, dando origem a um único canal. Nesse caso, o conduto será
bastante amplo nos terços cervical e médio e mais constrito no apical.

A inclinação média desse dente no arco é de 5° no sentido mésio-


distal e 11 ° no sentido vestíbulo-lingual. Seu comprimento médio é de
20mm.

TERCEIRO MOLAR SUPERlOR

Não existe padrão definido quanto ao número, forma, volume e


direção de suas raízes, podendo apresentar de uma a cinco raízes com
um, dois, três, quatro ou até cinco canais.
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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

Figura 20 - 3° Molat Superior

Sua inclinação no arco dentário é de 11 ° no sentido mésio-distal


e 17° no sentido vestíbulo-lingual. Seu comprimento médio é de 18 mm.

2.2. ARCADA INFERIOR

INCISIVOS INFERIORES
Possuem câmara
pulpar semelhante à de seu
homólogo superior, porém
com dimensões bem menores.
No entanto, essa se apresenta
bastante achatada no sentido
próximo-proximal.

Geralmente, possuem
Figura 21 - Incisivo Inferior uma raiz com um canal
fortemente achatado no
sentido mésio-distal. Por essa razão podem apresentar bifurcação,
apresentando dois canais. Quase sempre os canais terminam em forame
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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

único. Sua secção transversal é achatada no terço cervical e ligeiramente


circular à medida que caminha para o ápice.

Sua inclinação no arco dentário é de 0° no sentido mésio-distal e


15° no sentido vestíbulo-lingual. Seu comprimento médio é de 20,5 mm.

No caso dos incisivos laterais, é menor a incidência de dois canais.


Sua inclinação no arco dentário é de 0° no sentido mésio-distal e 10° no
sentido vestíbulo-lingual. Seu comprimento médio é de 21 mm.

CANINOS INFERIORES

São semelhantes aos caninos superiores, porém com menores


dimensões e maior achatamento mésio-distal. Normalmente apresentam
uma raiz com um canal, podendo apresentar ainda dois canais ou duas
raízes, sendo uma vestibular e outra lingual. A secção transversal é ovoide
no terço cervical e circular à medida que caminha para o ápice.

A inclinação desse
dente no arco é de 3° no
sentido mésio-distal e 2° no
sentido vestíbulo-lingual. Seu
comprimento médio é de 25
mm.

Figura 22 - Canino Inferior

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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

PRIMEIRO PRÉ-MOLAR INFERIOR

Geralmente apresenta
uma raiz com um canal amplo
no sentido vestíbulo-lingual,
porém achatado no sentido
mésio-distal resultando numa
secção transversal ovoide. Nos
casos de canais bem ovais, é
comum a bifurcação do canal
Figura 23 - 1° Pré-Molar Inferior no terço cervical ou médio

(Fig. 24). Podemos encontrar dificuldades para acessar estes canais, e


quanto mais apical for sua divisão, maior será a dificuldade. Às vezes só
conseguimos detectar a presença dos dois canais no momento da manobra
exploratória - faz-se então um desgaste compensatório na parede oposta
ao canal para facilitar sua manipulação (Fig. 24). Outra situação que

Figura 24 - Um canal bifurcando em dois Figura 25 - Dois canais se unindo


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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

acontece neste grupo dentário é iniciar em dois canais circulares distintos


que se unem formando um canal nos terços inferiores (Fig. 25) , ou ainda
apresentar duas raízes sendo uma vestibular e outra lingual.

Sua inclinação no arco é de 5° no sentido mésio-distal e de 3° no


sentido vestíbulo-lingual. Seu comprimento médio é de 21,5 mm.

SEGUNDO PRÉ-MOLAR INFERIOR

É muito semelhante anatomicamente ao primeiro pré-molar


inferior, porém com menores chances de possuírem mais de uma raiz.

Sua inclinação no arco dentário é de 5° no sentido mésio-distal


e 9° no sentido vestíbulo-lingual. Seu comprimento médio é de 22 mm.

Um cuidado que deve ser tomado quanto aos pré-molares


inferiores diz respeito à inclinação existente entre a coroa e a raiz que faz
com que a câmara pulpar e o
canal radicular não se situem
no mesmo eixo. Isso poderá
levar a desvios ou até mesmo
a perfurações.

Figura 26 - 2° Pré-Molar Inferior

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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

PRIMEIRO MOLAR INFERIOR

Geralmente apresenta
duas raízes, uma mesial e outra
distal. Na maioria das vezes,
tem três canais, sendo dois
na raiz mesial denominados
mésio-vestibular e mésio-
lingual, e um canal na raiz
distal, achatado no sentido
Figura 27 - 1° Molar Inferior mésio-distal, porém amplo.
De um modo geral, a secção transversal dos canais desse dente é
achatada no sentido próximo-proximal, sendo que o canal distal é mais
amplo. Na presença de dois canais na mesma raiz, esses podem terminar
independentemente ou em forame único.

Pode ainda apresentar dois canais, um na raiz mesial e outro na


raiz distal amplos no sentido vestíbulo-lingual. Pode ainda ter quatro
canais, sendo dois na raiz mesial e dois na raiz distal, denominados de

Figura 28 - 1° Molar Inferior apresentando 4 canais

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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

disto-lingual e disto-vestibular
que terminam em forame
único ou distinto (Fig. 28).

Quando da presença
do quarto canal, este assume
uma posição disto-lingual e é
facilmente visualizado. Outra
variação possível neste grupo
dental é a presença de uma
Figura 29 - 1° Molar Inferior apresentando três terceira raiz na posição mesial
raízes
(Fig. 29).

A inclinação desse dente no arco dentário é de 10° no sentido


mésio-distal e 13° no sentido vestíbulo-lingual. Seu comprimento médio
é de 21 mm.

SEGUNDO MOLAR INFERIOR

Tem anatomia semelhante ao primeiro molar, podendo apresentar


fusão parcial ou total de suas raízes.

Sua inclinação no arco é de 15° no sentido mésio-distal e 12° no


sentido vestíbulo-lingual.

Seu comprimento médio é de 20 mm.

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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

TERCEIRO MOLAR INFERIOR

Na maioria das vezes, esse dente apresenta duas raízes


diferenciadas ou fusionadas com dois canais. Mas, como o superior, sua
anatomia é bastante variável, podendo apresentar três ou quatro raízes
com um, dois, três ou quatro canais.

Sua inclinação no arco no 20° no sentido mésio-distal e 25° no


sentido vestíbulo-lingual. Seu comprimento médio é de 19 mm.

3. VARIAÇÕES NA ANATOMIA RADICULAR PULPAR

DENS INVAGINATUS

Dens invaginatus (dens in dente) resulta de uma dobradura


interna do órgão do esmalte durante a proliferação. É uma anomalia
morfodiferencial (Fig. 13).

DENS EVAGINATUS

É uma proeminência pequena aberta na superfície oclusal.

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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

SULCO LINGUAL

O sulco lingual é uma


prega interna superficial de
dentina orientada desde a
região cervical em direção
apical. Ocorre principalmente
nos incisivos laterais
superiores (Fig. 30). Figura 30 - Sulco Lingual

DILACERAÇÃO RADICULAR

Curvatura radicular complexa ou severa resultante da deflexão


do diafragma epitelial provocada pela cortical óssea do seio maxilar, do
canal mandibular, ou da fossa nasal (Fig. 31).

Figura 31 - Dilaceração Radicular

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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

CANAIS EM FORMA DE “C”

Canais em forma de “C” é a


denominação dada a raízes e canais
que apresentam secção transversal
em forma de “C”. Em vez de a
câmara coronária apresentar os
três ou quatro orifícios da entrada
dos canais, apresenta uma entrada
que caminha em arco de 180° da Figura 32 - Anatomia externa de um dente
apresentado Canal em forma de “C”
mésio-lingual para distal passando
pela vestibular (Fig. 32).

FUSÃO

A fusão é uma união de


dois germes dentários, em que há,
caracteristicamente, a presença de
duas câmaras pulpares (Fig. 33).

Figura 33 - Dente apresentando Fusão

GEMINAÇÃO

A geminação é a união de dois germes dentários. Caracteristicamente


há a presença de uma única câmara pulpar.

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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

CALCIFICAÇÃO

As calcificações podem ser didaticamente divididas em verdadeiras


e falsas. As primeiras são resultado da ação dos odontoblastos que, por
algum estímulo, passam a depositar dentina, diminuindo ou modificando
a forma e o volume da cavidade pulpar. Dentre os estímulos podemos
citar a presença de cáries, abrasões e atrições, bruxismo e a ocorrência de
traumatismos dentais. Nesse último caso, pode-se verificar que a luz do
canal pode-se apresentar totalmente obliterada na imagem radiográfica.
É importante salientar que dificilmente essa calcificação é completa, pois,
como vimos, ela é fruto da ação do odontoblasto, então deve existir pelo
menos o espaço ocupado por ele. Isso explica porque, em alguns casos,
não visualizamos radiograficamente a luz do canal radicular, mas o dente
apresenta lesão apical. O que acontece, via de regra, é que a luz do canal
é tão estreita que o nosso menor instrumento é muito volumoso para
acessá-lo.

A chamada calcificação falsa é resultado da deposição de sais de


cálcio em áreas de macroabscessos intrapulpares. Formam-se verdadeiros
nódulos no interior do conduto que podem dar a impressão de que este
está totalmente obliterado. São os chamados falsos nódulos, pois não
estão aderidos às paredes dentinárias. Esses nódulos estão relacionados
a processos crônicos como patologias periapicais, cáries crônicas e
até mesmo a alterações vasculares sistêmicas como, por exemplo, a
arteriosclerose.

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Anatomia Dental Interna e Externa - Cap. 2

REABSORÇÕES INTERNAS

As reabsorções internas alteram a forma da câmara pulpar e do


canal radicular, aumentando o seu volume. O seu mecanismo de formação
ainda não é bem conhecido, mas acredita-se que, devido a um processo
inflamatório crônico, a polpa dental aumenta de volume e esse aumento
faz com que ocorra a reabsorção da parede dentinária. Verificamos
radiologicamente uma área circunscrita no interior da raiz do dente,
simétrica e que engloba o canal radicular. Para que ela ocorra, é necessário
que tenhamos a polpa com vitalidade e seu tratamento consiste em
extirpação desse tecido e no total preenchimento do conduto, o que talvez
seja a parte mais difícil da terapia. Algumas vezes, no entanto, podemos
nos deparar com casos de reabsorção interna e polpa mortificada. Nesse
caso, houve a modificação da polpa como consequência do processo
inflamatório e a reabsorção estará estacionada.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
• Barker BC, Lockett BC, Parsons KC. The demonstration of the root canal anatomy.
Aust Dent J. 1969;14:37-41.

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