Você está na página 1de 2

FiloSoFia PóS-modErna

O fim do projeto da modernidade


O termo pós-moderno tem sido aplicado, no campo da filosofia, aos pensadores das últimas décadas,
especialmente àqueles que produziram uma reflexão marcada pela crítica e pela descrença em relação ao
projeto da modernidade – de que a razão tecnocientífica favoreceria a emancipação humana –, coincidindo
em vários aspectos com os diagnósticos da escola de Frankfurt, especialmente de adorno e Horkheimer.
entre os pensadores pós-modernos mais destacados estão os franceses Foucault e Derrida (que estuda-
remos em seguida), além de outros, como Jean Baudrillard (1929-2007) e Jean-François lyotard (1924-1998).

debilitação das esperanças

JuStIN SullIVaN/
Getty IMaGeS/aFp
“Controlem os bancos!
Fim à ditadura do 1%”,
diz a faixa sustentada
por manifestantes em
passeata de apoio ao
movimento Ocupa Wall
Street, realizada em São
Francisco, Califórnia
(eua), em 2011, no
contexto da crise
econômica internacional
iniciada em 2008. em
que medida essa crise
pode apontar para
o fim de uma época
e a necessidade de
construção de um novo
projeto social e de uma
nova “racionalidade”?

um traço comum entre os filósofos pós-mo-


visão fragmentária
dernos é a debilitação das esperanças – que um
dia dominaram o mundo moderno – de com- Sem a perspectiva de uma transformação social
preensão e de transformação conjunta da vida radical, a filosofia pós-moderna passou a analisar
social. De fato, o cenário tem sido desalentador: os diversos aspectos da vida social, principalmente
miséria, desigualdades sociais extremas, catás- aqueles em que se verifica maior racionalização
trofes ambientais, guerras, dominação dos países rumo ao controle dos indivíduos, denunciando
as formas de opressão que os acompanham em
economicamente desenvolvidos sobre os demais e
sua vida cotidiana.
a situação de barbárie que se verifica em algumas
essa denúncia é feita de forma fragmentária,
regiões do planeta.
isto é, aborda aspectos variados e singulares do
essa desesperança fortaleceu-se a partir da
cotidiano e não se estrutura em uma visão de
segunda metade do século XX, após os sinais de conjunto, uma vez que a filosofia pós-moderna
degeneração das experiências socialistas, as quais abandonou a pretensão de totalidade que orientava
resultaram no chamado socialismo autoritário, o pensamento moderno.
contrariando as teses libertárias das origens desse podemos dizer, portanto, que os filósofos pós-
movimento político. Diante das frustrações histó- -modernos desenvolvem uma visão fragmentada da
ricas – e sem alternativas ao sistema capitalista e vida cotidiana e dos indivíduos, uma visão preocupa-
ao controle da economia global imposto pelas da em captar as singularidades, as particularidades
megacorporações –, o mundo teria se curvado à e as diversidades do real. Seu mérito seria a valori-
onipotência do status quo, sem qualquer perspectiva zação das pluralidades culturais, pelo respeito à
de transformação. diferença do outro.
Cap’tulo 17 Pensamento do sŽculo XX 319
foucault: os micropoderes Seu objetivo, como filósofo, foi o de colocar à
mostra estruturas veladas de poder, tendo
Nietzsche por inspiração. tanto quanto este,
Foucault afirmou a relação entre saber e poder:
Vivemos em uma sociedade que em grande parte mar-
cha “ao compasso da verdade” – ou seja, que produz
e faz circular discursos que funcionam como verdade,
que passam por tal e que detêm, por esse motivo, pode-
GaMMa-rapHO VIa Getty IMaGeS
JeaN pIerre FOuCHet/rapHO/

res específicos. (Microfísica do poder, p. 231.)

MOHaMeD NurelDIN aBDallaH/reuterS/latINStOCK


Foucault nasceu em poitiers, na França. Buscando explicar
as zonas culturais e institucionais que influem diretamente
nas atividades e nos pensamentos cotidianos das pessoas,
produziu uma crítica histórica da modernidade, na qual a
ideia-chave é o poder.

um dos principais pensadores da pós-moder-


nidade foi o filósofo francês Michel Foucault
(1926-1984), que centrou sua investigação em
temas como certas instituições sociais (notada-
mente as educativas, psiquiátricas e carcerárias),
a sexualidade e, principalmente, o poder.
De acordo com Foucault, as sociedades moder- a disciplina social é produto da ação de uma infinidade de
nas apresentam uma nova organização do poder agentes, com seus micropoderes, como os de um funcionário
que fiscaliza e autoriza (ou não) a entrada de pessoas em
que se desenvolveu a partir do século XVIII. Nessa determinado local mediante a apresentação de documento.
nova organização, o poder não se concentra apenas
no setor político e em suas formas de repressão,
mas está disseminado pelos vários âmbitos da vida Genealogia do poder
social. para esse filósofo, o poder fragmentou-se Foucault também desenvolveu seu método de
em micropoderes e tornou-se muito mais eficaz. pesquisa à maneira de uma genealogia, inspirado
em seu livro Microfísica do poder, Foucault explica: em Nietzsche. Como o filósofo alemão, adotou
Por dominação eu não entendo o fato de uma domi- como ponto de partida a noção de que os valores –
nação global de um sobre os outros, ou de um grupo o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, o certo e o
sobre outro, mas as múltiplas formas de dominação errado, o sadio e o doente etc. – são consagrados
que se podem exercer na sociedade. (p. 181.) historicamente em função de interesses relativos
ao poder dentro da sociedade. em outras palavras,
assim, sem se deter apenas no macropoder
a definição do que é bom, verdadeiro ou sadio de-
concentrado no estado, Foucault analisou esses
pende das instâncias nas quais o poder se encontra.
micropoderes que se espalham pelas mais diversas
Na visão de Foucault, esse poder não seria es-
instituições da vida social, isto é, os poderes exer-
sencialmente de repressão ou de censura, mas
cidos por uma rede imensa de pessoas que inte-
antes um poder criador, no sentido de que produz
riorizam e cumprem as normas estabelecidas pela
a realidade e seus conceitos. em seu livro Vigiar e
disciplina social – pais, porteiros, enfermeiros,
punir: uma genealogia do poder, ele explica esse
professores, secretárias, guardas, fiscais etc.
seu entendimento do que é o poder:
adotando essa perspectiva de análise, conhe-
cida como microfísica do poder, ele afirma que “o É preciso cessar de sempre descrever os efeitos do po-
poder está em toda parte, não porque englobe der em termos negativos: ele “exclui”, “reprime”, “re-
tudo” e sim “porque provém de todos os lugares”. calca”, “censura”, “discrimina”, “mascara”, “esconde”.
Na verdade, o poder produz: produz o real; produz os
Na vida cotidiana, segundo o filósofo, esbarramos
domínios de objetos e os rituais de verdade. (p. 110.)
mais com os guardiões dos micropoderes – os
pequenos donos dos poderes periféricos – do que Nessa mesma obra, Foucault acompanha a
com os detentores dos macropoderes. evolução dos mecanismos de controle social e
320 Unidade 3 A filosofia na hist—ria

Você também pode gostar