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ANÁLISE LINGUÍSTICO-DISCURSIVA DO ENSAIO “SAUDADE DO

TELEVIZINHO” DE ROBERTO POMPEU DE TOLEDO

Lauro Sérgio Machado Pereira1

A presente análise tem como objetivo colocar em prática os elementos de análise


textual baseados na tradição linguística, esta denominada de descrição, e também os
elementos da análise do discurso (produção, distribuição e consumo) e que está baseada
na tradição interpretativa ou microssociológica de levar em conta a prática social da
linguagem. (Pedrosa, 2009).
O autor do ensaio “Saudade do televizinho”, Roberto Pompeu de Toledo é
jornalista com ampla experiência, tendo trabalhado em vários jornais, rádios e revistas
brasileiras. Atualmente escreve e é editor especial da revista Veja.
O ensaio que servirá como objeto de análise foi publicado pela revista Veja em
fevereiro de 2002, ano em que houve eleições para a presidência da república e também
a Copa do Mundo. Entretanto, outro fenômeno mundial tinha sua estreia na televisão
brasileira, o Big Brother Brasil (Grande Irmão), que era apenas mais uma adaptação
feita pela Rede Globo, de um reality show (show da realidade) cuja primeira temporada
mundial foi realizada em 1999 nos Países Baixos.
Vista a reação positiva da população em geral frente ao novo programa que
apresentava uma “realidade” cheia de prazeres carnais, o jornalista voltou aos
primórdios da história da televisão no Brasil com o intuito de criticar um novo papel ou
função social da televisão. Na verdade, o autor ao mesmo tempo em que discute o
desaparecimento de certas palavras devido a falta de função para elas, propõe uma
provocação ao dizer que para as coisas existirem, necessitam adentrar o mundo
televisivo, ou seja, só há vida na televisão.
Feita essa contextualização pode-se partir para a análise pormenorizada dos
parágrafos que compõem o ensaio. Inicialmente é fundamental considerar o título do
ensaio, “Saudades do Televizinho”, que apresenta duas palavras de conteúdo, “saudade”
e televizinho. A primeira é possuidora de um caráter explicitamente sentimental que
remete possivelmente ao tempo passado e vivido de uma experiência supostamente
positiva por parte do sujeito-autor. Nesse sentido, a saudade está muito ligada à questão
do eterno retorno intrínseco ao homem que sempre deseja experimentar de novo
sentimentos e sensações boas colhidas ao longo da vida. E é aí que passa a existir o que
se denomina de felicidade. Isso também coloca em discussão o fato de que o sujeito-
autor está certamente indignado e insatisfeito com algum fenômeno social
contemporâneo. A segunda palavra, “televizinho”, causa quase que de imediato,
principalmente para os leitores mais jovens e aqueles que desconhecem tal palavra, um
estranhamento consequente e normal quando há o encontro com um termo fossilizado
de qualquer língua. Esse estranhamento com certeza gera muitas indagações por parte
do leitor. Quem será esse ex-participante da sociedade? Será que ele ainda existe,
mesmo que em menor número?
Portanto, ao valer-se das palavras “saudade” e “televizinho” fica evidente que o
sujeito-autor fará suas considerações a partir de um fenômeno social brasileiro
vivenciado por ele há alguns anos. Uma outra questão a ser observada em relação à
estética do texto, é a presença de um recorte do texto em itálico ao lado esquerdo da
página que coloca em destaque algo que será mencionado no corpo do texto
propriamente dito. Assim, o recorte “Não é que a TV tenha ocupado todos os cantos da
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Aluno do curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Lingüística: Leitura e Produção Textual das FASA -
Faculdades Santo Agostinho.

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vida. É mais: ela tomou o lugar da vida.”, faz com que o leitor comece a lançar
inúmeras inferências ao texto a ser lido referentes ao papel da televisão na sociedade
brasileira, que podem ser confirmadas ou não ao término da leitura do ensaio.
Logo no início do primeiro parágrafo do ensaio, o sujeito-autor remete o seu
pensamento ao passado experienciado e além disso lança perguntas ao sujeito-leitor
como numa verdadeira relação dialógica com o propósito de testar o conhecimento do
leitor sobre a questão a ser tratada. Só nesse parágrafo há quatro perguntas diretas que
principalmente quase que obrigam o leitor a recorrer imediatamente a dois dos melhores
dicionários disponíveis no mercado. Ao assumir esse discurso, o sujeito-autor
estabelece uma posição superior à do leitor, especialmente à dos mais jovens, ao
pressupor que estes não vão saber o que seria o termo “televizinho”, usado por ele
várias vezes nesse parágrafo.

Houve um tempo em que havia o televizinho. Será que sobra algum


televizinho? Será que sobra até mesmo quem saiba o que é televizinho?
Televizinho era a pessoa que, não tendo televisão em casa, se aproveitava
da do vizinho. O jovem leitor duvida? Acha que se está aqui inventando
vocábulo exótico, só para fazer graça? Pois corra aos dicionários. A palavra
ali está, tanto no Aurélio como no Houaiss. Os dicionários têm isso de bom:
conservam as palavras em desuso como os sedimentos conservam os
fósseis. Neles repousam, em sono esplêndido, palavras como bufarinheiro e
alcouceira, mandrana e parvajola. Ou então, diriam os moralistas, palavras
que embora em uso, identificam práticas em desuso: honestidade, vergonha,
intimidade, virgindade...

O sujeito autor não espera muito após lançar as duas primeiras perguntas para
poder explicar o sentido atribuído à palavra televizinho. É sabido que ao fazer isso ele
lançou mão da função referencial da linguagem como forma de facilitar a leitura do
sujeito-leitor. As duas últimas perguntas têm mais a função de provocar o leitor e
manter contato com o seu destinatário de modo a testar o canal de comunicação, isto é,
através do uso da função fática da linguagem. E, não se pode deixar de lado o fato de
que o sujeito-autor ao escrever: “Pois corra aos dicionários” está fazendo uso da função
conativa da linguagem com o objetivo de influenciar o destinatário. Em seguida, inicia
alguns elogios ao amigo dicionário que guarda eternamente palavras que já estão mortas
pelo desuso de seus falantes. Em seguida dá exemplos de vocábulos extremamente
incomuns para leitores contemporâneos mas que segundo ele repousam em sono
esplêndido no dicionário. Ao citar essas palavras, a saber: bufarinheiro, alcouceira,
mandrana e parvajola, que respectivamente possuem o sentido de honestidade,
vergonha, intimidade e virgindade, o sujeito-autor ironiza a realidade da sociedade ao
dizer que embora essas palavras estejam em uso, elas denominam práticas bastante em
falta, em desuso entre os membros dos segmentos sociais.
No segundo parágrafo, após superar o possível sentimento de desconfiança que o
próprio sujeito-autor sabia que dominaria o sujeito-leitor frente a palavra “televizinho”,
procura embasar e reforçar suas colocações através da evocação de um diálogo entre
alguns leitores que possivelmente teriam vivido na época dos primeiros anos da
televisão e consequentemente também teriam sido ou até conhecido algum televizinho.

Quem viveu os primeiros anos da televisão sabe que o fenômeno da


televizinhança não foi desprezível. Poucos tinham televisores em casa. Aos
sem-TV, essa maioria de deserdados, restava correr à casa dos que a
possuíam como os famintos correm aos sopões da caridade. O televizinho
era um tipo social definido e reconhecido em seus direitos e sua

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invidualidade. Os próprios apresentadores da TV se referiam a eles. Davam
boa noite “aos televizinhos”. Depois, desapareceu. Desapareceu como, por
exemplo, a figura do agregado, tão popular nos romances do século XIX. O
agregado, mal comparando, era um televizinho sem televisão.

O sujeito-autor ao fazer uma comparação direta do fenômeno da televizinhança


com os sopões de caridade, está na verdade comparando o conteúdo transmitido pela
televisão a um alimento que sacia a fome dos seres humanos. Isto é, há aí uma crítica
ferrenha proposta pelo autor no que se refere ao facínio que a TV exerce sobre as
pessoas, como se na verdade as imagens e sons transmitidos em uma tela se
transformassem em alimento materializado, não para o estômago, mas para a mente que
consequentemente seria manipulada pelas mensagens por ela veiculadas. Ao dizer que o
televizinho era um ser social definido, pode-se deduzir que os próprios donos dos canais
de televisão sabiam de tal fato e por isso tinham o objetivo real de manipular o
pensamento das massas como forma de dominação ideológica. Por fim, como todos que
estavam na frente das câmeras, dentro dos estúdios de televisão sabiam da existência da
figura do televizinho, os apresentadores de programas os cumprimentavam diariamente.
Entretanto, como o poder de compra das camadas mais populares aumentou e também
porque certamente o preço de um aparelho de TV foi sendo reduzido gradativamente,
chegou o tempo em que o televizinho pôde adquirir seu próprio aparelho e
consequentemente isso causou o desaparecimento da função da palavra que o
denominava. Ainda nesse parágrafo, o autor compara o desaparecimento do televizinho
ao do agregado do século XIX que passava a morar na casa de uma família não devido à
TV, mas como um ente familiar sem, é claro, televisão.
É interessante ressaltar que o sujeito-autor lança a todo tempo, mão da
comparação para tratar na verdade de temas relacionados às transformações sofridas
pela sociedade brasileira. No terceiro parágrafo, há a comparação da família a uma
empresa que para ser melhor administrada precisa ter seus gastos excessivos cortados.
Com isso, passado o século XIX as famílias se livraram do agregado e em seguida do
excesso de filhos como consequência da aquisição de aparelhos de TV. Ironicamente,
como costumam dizer as más línguas, depois que a televisão passou a fazer parte do
seio familiar e proporcionar prazer para o casal, o número de nascimentos foi reduzido.
As famílias preferiam agora ficar mais enxutas de filhos mas não de aparelhos de TV.
Com o avanço da ocupação da TV nos lares brasileiros, até mesmo os moradores de
barracos em áreas menos favorecidas foram dominados pela maré televisiva que
triunfou sobre todos e culminou no desuso da palavra televizinho.

As famílias livraram-se do agregado. Livram-se em seguida, acrescente-se


de passagem, do excesso de filhos e ficaram mais enxutas, para usar as
palavras que lhes conviria se famílias fossem empresas – se é que não são.
Mas, na medida em que, nos lares, se iam cortando os excessos, em matéria
de seres humanos, iam-se, inversamente, multiplicando os aparelhos de TV.
Ninguém mais deixava de tê-los. Nem mesmo os moradores de barracos.
Triunfo! O televizinho de antes agora tinha seu próprio aparelho. Foi
alcançado por ele, em seu avanço irresistível, como a maré, ao subir,
alcança a praia toda. O vocábulo que o identificava virou forma sem
conteúdo.

Ao afirmar que o vocábulo “televizinho” virou forma sem conteúdo, o ensaísta


confirma a função social da linguagem. As palavras, que vão surgir a partir da
necessidade de comunicação dos falantes, perdem o seu propósito de uso caso haja

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qualquer tipo de mudança nas esferas sociais. Se os participantes do discurso deixam de
usar determinada palavra, esta cai em desuso e se fossiliza de modo a correr o risco de
não mais ser ressuscitada porque é desnecessária para os processos comunicativos.
A dicotomia entre o real e o ficcional, bem como a função da televisão nesse
contexto passa a ser discutida pelo sujeito-autor no quarto parágrafo. Inicialmente a
televisão vivia seus anos de inocência. A vida da televisão era uma e a vida real, a dos
seres humanos era outra. Ainda havia um certo distanciamento por parte dos seus
assistentes domiciliares.

A era do televizinho coincidiu com os anos de inocência da televisão.


Basicamente, tal inocência consistia na crença de que televisão era uma
coisa, e vida era outra. O televizinho, assim como a amável família que a
acolhia, olhava para aquela caixinha luminosa com deslumbramento, sim,
mas também com suave distanciamento. Apreciavam seus truques como se
apreciam os truques do mágico no circo, mas depois iam cuidar de suas
existências. Reinava a ilusória impressão de que a TV ocupava um lugar
determinado no mundo, um pedaço pequeno e restrito, de onde não tinha
como extrapolar. Admitir o contrário seria convir com a hipótese absurda
de o caleidoscópio proporcionar algo mais, na existência de uma pessoa, do
que um divertimento ligeiro para os olhos. Ou de o gramofone ir além de
produzir alguns breves instantes agradáveis – ou desagradáveis – para o
ouvido.

Percebe-se que a palavra televisão passa, nesse parágrafo, a receber um nome no


diminutivo “caixinha luminosa”, de modo carinhoso em um primeiro momento, mas
que apresenta uma mensagem subliminar carregada de ironia por parte do sujeito-autor
que quer na verdade criticar a importância exagerada que a sociedade dá à televisão.
Com o desenvolvimento rápido e crescente dos meios de comunicação e a possibilidade
de o telespectador interagir com a televisão e sua programação termina por contribuir
para o aumento do facínio dos seres humanos pela caixinha que hoje não é mais um
objeto inocente que proporcionava um rápido divertimento para os olhos das famílias.
Entretanto, no quinto parágrafo, o aparelho passa a ser denominado de maneira mais
séria como “caixa de luz”, e que não era tão inocente como se pensava e que por isso
aprontou grande surpresa para aqueles que pensaram que ela não era capaz de nada.
Desse modo, ao passar a ser possuidora do elemento surpresa, o autor dá-lhe nomes
como caixa de Pandora e caixa-preta com o objetivo de expressar sua perplexidade ao
ter vivenciado tal fenômeno relativo à televisão. Mesmo que a relação com o sujeito-
leitor já tenha sido estreitada, o sujeito-autor ainda opta por continuar testando o canal
comunicativo e por isso convida o leitor a escolher o nome que ele achar melhor para a
televisão.

Aquela inocente caixa de luz revelou-se muito mais que uma caixa de luz,
porém. Revelou-se uma caixa de surpresas, caixa de Pandora, caixa-preta –
escolha o leitor a caixa de sua preferência. Cedo transbordou para muito
além de seu suposto lugar certo e determinado. Hoje se conhece todo seu
alcance. Não é que a televisão tenha ocupado todos os cantos da vida. Essa
também não deixa de ser uma visão ingênua. É outra coisa: a televisão
tomou o lugar da vida. Substituiu-a. Engoliu-a e vomitou-se a si mesma no
lugar.

Reveladas todas as surpresas provenientes da televisão, o sujeito-autor explica que


ela não alcançou simplesmente todos os lugares da sociedade, ela fez muito mais do que

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isso ao tomar o lugar da própria vida. Com o intuito de materializar o máximo possível
a sua imagem mental dessa dominação da televisão sobre a vida, ele faz uma construção
de sentido a partir da utilização de uma figura de linguagem para intensificar tal
fenômeno. Ao dizer que a televisão engoliu a vida e vomitou-se a si mesma no lugar, o
autor faz uso da prosopopeia (personificação), figura de linguagem que consiste em
atribuir a seres inanimados predicativos que são próprios de seres animados.
Definitivamente, o sujeito-autor não está nada satisfeito com os novos rumos que
a televisão tem tomado nos últimos anos. Ao iniciar o sexto parágrafo com a colocação
“No doce tempo do televizinho, (...)”, que apresenta a palavra “doce” como qualidade
positiva atribuída àquela época, o autor expressa o amor que tinha pela figura do
televizinho e a possibilidade de interação que ele trazia aos lares.
A situação contemporânea em torno da televisão está tão mudada que o sujeito-
autor enche-se de sarcasmo para dizer que a vida real ainda pulsava e se sobrepunha à
influência da TV, esta que ainda não havia sugado tudo que pairava à sua volta. Mesmo
que o homem se sentisse vislumbrado com o novo aparelho, ainda era possível realizar
outras atividades mais dinâmicas e interativas como jogar futebol no campo e pular o
Carnaval na rua. Algo que hoje soa quase que como pertencente a outro mundo,
principalmente para os moradores das grandes cidades que vivem praticamente isolados
em seus apartamentos e se contentam em assistir à partida de futebol na TV. Os
telespectadores da contemporaneidade gozam ao serem convidados pela Rede Globo
para assistirem a seleção brasileira dar o melhor de si, porque é lá na tela da TV que a
verdadeira emoção acontece. Assim, não é raro, caso se experimente sair em frente de
casa no horário de uma partida televisionada, perceber que a rua está menos
movimentada porque os seres humanos estão todos hipnotizados pela imagem
televisionada, pela representação da verdadeira realidade.

No doce tempo do televizinho, ocorriam fenômenos que hoje parecem nada


menos que prodigiosos. Enquanto a televisão tinha sua sede na sala do
vizinho, o Carnaval era na rua e o futebol era no campo. Sim, meninos: o
Carnaval era na rua e o futebol era no campo! Aos poucos, tudo foi
entrando TV adentro, como se aquela caixa tivesse um ímã, ou como se
fosse um buraco negro a atrair a matéria cósmica à sua volta. Hoje, tanto o
Carnaval como o futebol são na TV. Tire-se deles a TV, e será como cortar-
lhes o ar. Não sobreviverão. E a eleição? No tempo do televizinho, a
televisão ficava lá na sala, quieta, enquanto o comício era na praça. Eleição
agora também foi sugada pelo campo gravitacional da televisão. Neste ano
haverá Copa do Mundo e eleição. Se por alguma espécie de desgraça a
televisão sumir do mundo, não haverá nem uma nem outra. Ou melhor,
pode até haver, mas serão coisas de naturezas tão diversas das que nos
habituamos que não merecerão os mesmos nomes.

A comparação entre o passado e o presente é nítida desde o início do texto, mas é


no sexto parágrafo que a materialização da descrição fica ainda mais perfeita. É possível
visualizar como as pessoas antigamente interrompiam o momento de prazer frente à TV
e partiam para outros ambientes porque a vida gritava mais alto do lado de fora. Porém,
hoje as pessoas fazem da TV o seu oxigênio, tudo só existe se for dentro dela, o futebol,
o carnaval e inclusive as eleições. O possível desaparecimento da televisão poderia vir a
gerar o caos que desencadearia, inclusive, mudanças nos nomes daquilo que hoje se
conhece como Eleição e Copa do Mundo.
No último parágrafo, o sujeito-autor confessa que fez uma opção proposital ao
historicizar ironicamente, através de comparações explícitas entre presente e passado ao
escrever “Dito o que, chegamos aos programas de TV”; para na verdade criticar o tão

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assistido e venerado Big Brother e todas as outras mídias que vão entrar em voga depois
dele como os sites de relacionamento: Orkut, Second Life, Sonico e outros nos quais o
objetivo é se mostrar e deixar ser visto. Foi necessário que o sujeito-autor fizesse todo
esse retorno ao passado, à época do querido televizinho, para que o sujeito-leitor
pudesse compreender pelo menos um pouco do seu sentimento de pesar.

Dito o que, chegamos aos programas de TV como o chamado de Big


Brother. O Big Brother original, do romance 1984, de George Orwell,
espionava os cidadãos de modo tão sufocante que a vida ficava irrespirável.
O Big Brother de hoje é o contrário. Sem a presença dele, sem seu olho
benfazejo, aí sim é que a vida some. Estou na TV, logo existo. A vida é
representar para a câmara, e representar para a câmara é a vida. Estar na
TV, mesmo que seja a troco de nada, sem ter nada a dizer, nem habilidade a
demonstrar, eis o programa supremo da existência. O televizinho ficaria
intrigado. Exitaria em voltar à sala onde reinava aquela caixa.

O sujeito-autor realmente não abre mão da comparação e portanto evoca as vozes


de outros textos como o romance 1984 de George Orwell. O que ocorre na verdade é
uma relação intertextual entre a narrativa da obra mencionada e a realidade
contemporânea. A única diferença é que a espionagem se dá de forma invertida. No
romance de Orwell o olho que tudo controlava sugava a vida e hoje o Big Brother
Brasil da Rede Globo proporciona o mais elevado nível de gozo e vida para aqueles
incapazes de lançar um olhar mais crítico sobre o que a TV verdadeiramente faz com os
seres humanos. Ela torna-os escravo de um mundo que na verdade inexiste. Entretanto,
a sociedade não precisa nem pensar para existir, basta estar na TV ou na Internet e
escancarar toda a sua privacidade que por esse motivo é quase que artigo raro
atualmente. A construção “Estou na TV, logo existo.” é escrita pelo sujeito-autor com o
intuito de evocar a voz de outro texto, desta vez um filosófico, de René Descartes que
disse “Penso, logo existo.” Entretanto, isso não faz mais sentido para o homem
contemporâneo e precisou ser reescrito pelo sujeito-autor. Ao fazer a rescrita de um
pensamento filosófico bastante conhecido e citado, pode-se pensar que ele quis chamar
a atenção do leitor através de um possível estranhamento que este último sentiria frente
ao novo, via intertextualidade.
Em conclusão, todo o ensaio de Roberto Pompeu de Toledo é marcado por um
emaranhado de vozes e intertextos que expressam a indignação do sujeito-autor frente à
falta de comunicação da sociedade mundial contemporãnea. Além disso, para Pompeu,
a vida tornou-se artigo supérfluo e o gostoso mesmo é olhar e ser olhado, ainda que
esses contatos se dêem de forma monótona, monológica e passiva entre as partes
envolvidas nesse tipo de discurso. Nesse contexto, no qual impera o despropósito dos
programas como o Big Brother, não é preciso que a pessoas filmadas tenham uma
habilidade a demonstrar, basta representar para a câmera um jogo sucessivo de
situações, gestos e comportamentos irreais.
A propósito, ainda bem que alguns campos artísticos como o cinema propõe
discutir a questão da falta de comunicação entre as sociedades e até a criticar
diretamente a indústria dos programas de reality shows que optam por chamar a atenção
dos telespectadores ao mostrar o show da vida real como dizem os seus apresentadores.
Recentemente foram lançados filmes como Babel do diretor mexicano Alejandro
Gonzáles Iñárritu que apresenta um leque de personagens que vivem em direferentes
continentes, mas que compartilham uma enorme perturbação provocada pela falta de
comunicação. É até mesmo irônico observar a solidão dos personagens que vagueiam
pelos “cabarés sociais” repletos de tecnologias de ponta e suas parafernálias eletrônicas,

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mas que não proporcionam ao ser humano o contato com a vida. Outro filme que desta
vez critica a produção dos reality shows é O Show de Truman do diretor Peter Weir, que
mostra a vida de um cidadão chamado Truman que desde o seu nascimento foi criado
em um estúdio de TV comandado por um diretor que controla cada segundo de sua vida
e a transmite para milhões de pessoas. O filme é uma excelente parábola do mundo
moderno dominado pela mídia e pela imagem. Por fim, já no Brasil, seria preciso
ressuscitar o espírito do televizinho, este que possivelmente para o autor poderia ser o
salvador da pátria para a situação incomunicável e de falta de solidariedade em que o
mundo se meteu. O televizinho seria quem resgataria o processo comunicativo frente à
TV. Pena que hoje, todos podem se deleitar com seu aparelho individual.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BETO, Frei. Reality Show. Correio da Cidadania, 02/02/2002. Disponível em:


http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/asp060220026.htm. Acesso em:
23/06/2009

PEDROSA, Cleide Emília Faye. Análise Crítica do Discurso: Uma Proposta para a
Análise Crítica da Linguagem. Disponível em:
http://www.filologia.org.br/ixcnlf/3/04.htm. Acesso em 23/06/2009

TOLEDO, Roberto Pompeu de. Saudade do televizinho. Veja. São Paulo, p.122, edição
1740, 27 fev. 2002.

SITE CONSULTADO

http://pt.wikipedia.org/wiki/Roberto_Pompeu_de_Toledo. Acesso em: 29/06/2009

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