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Editora Brazil Publishing VANICLÉIA S.

SANTOS
LEOPOLDO AMADO
Conselho Editorial Internacional
ALEXANDRE ALMEIDA MARCUSSI
Presidente: TACIANA ALMEIDA GARRIDO DE RESENDE
Rodrigo Horochovski (UFPR - Brasil) ORGANIZADORES

Membros do Conselho:
Anita Leocadia Prestes (Instituto Luiz Carlos Prestes - Brasil)
Claudia Maria Elisa Romero Vivas (Universidad Del Norte - Colômbia)
José Antonio González Lavaut (Universidad de La Habana - Cuba)
Ingo Wolfgang Sarler (PUCRS - Brasil)
Milton Luiz Horn Vieira (UFSC - Brasil)
Marilia Murata (UFPR - Brasil)
Hesin-Ying Li (National Taiwan University - China)
Ruben Sílvio Varela Santos Martins (Universidade de Évora - Portugal)
Fabiana Queiroz (UFLA - Brasil)

CULTURA, HISTÓRIA INTELECTUAL E


PATRIMÔNIO NA ÁFRICA OCIDENTAL
(SÉCULOS XV-XX)

IA
O Editora Brazil Publishing
Presidente Executiva: Sandra Heck

Rua Padre Germano Mayer, 407


Cristo Rei - Curitiba PR - 80050-270
+55 (41) 3022-6005

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BRAZIL PUBLISHING

CAPÍTULO 7 FONTES, MÉTODOS E TEORIAS PARA
FATOO KHAN, A AMANTE DO COMISSÁRIO COLONIAL: UM
RELACIONAMENTO AMOROSO NA GÂMBIA COLONIAL................... 183 REPENSAR A HISTÓRIA CULTURAL DO
Hassoum Ceesay OESTE AFRICANO
PARTE 2
PATRIMÔNIO E CULTURA NA ÁFRICA OCIDENTAL. ............... 213
Vanicléia Silva Santos
CAPÍTULO8
Leopoldo Amado
TRADIÇÕES ORAIS NIGERIANAS: HERANÇA HISTÓRICA, UM
PATRIMÔNIO PARA A LITERATURA LOCAL E GLOBAL E PARA Alexandre Almeida Marcussi
Taciana Almeida Garrido de Resende
Felix U. Kaputu

CAPÍTULO 9 Apresentação do tema


EDUCAÇÃO ISLÂMICA E PATRIMÔNIO INTELECTUAL:
O DESENVOLVIMENTO DO MÉTODO DE APRENDIZAGEM Ao pensarmos em história intelectual da África Ocidental, ge-
CORÂNICA NA SENEGÂMBIA (SÉCULOS XV A SOS cssameenaaenmanes 249 ralmente somos remetidos para a produção escrita em árabe, em quese
Thiago Henrique Mota destacam autores clássicos como al-Bakri (século XT), al-Idrisi (século
CAPÍTULO 10 XID, Ibn Batrúta, al-“Umari, Ibn Khaldhân (século XIV), al-Sadi, au-
MÉTODOS E FONTES DE PESQUISA EM CABO VERDE: O CASO DA tor do Ta'rikh al-Súdán, e Ibn al-Mukhtãr e seu neto, que escreveram o
REVOLTA DOS RENDEIROS DO INTERIOR DA ILHA DE SANTIAGO Ta'rikhal-Fattash, os dois últimos elaborados por volta de 1655.
(1822-1841)... reteereeeeeerteeertemeereeetrertrertreerarereemecanenrarerrnere rea crariereranasraanass 275 Além dos escritos em árabe de autores andaluzes e de outros que
Eduardo Adilson Camilo Pereira
nasceram ou viveram no oeste da África, como Leo Africano (c. 1494 - c.
CAPÍTULO 11 1554), por exemplo, também são bem conhecidos os autores africanos
TURISMO MEMORIAL NA ÁFRICA OCIDENTAL: DIÁLOGOS que escreveram em línguas europeias. Desde o século XV, acentuou-se a
POSSÍVEIS ENTRE HISTÓRIA PÚBLICA E HISTÓRIA LEIGA......... 317
Sílvio Marcus de Souza Correa
produção de documentos de autoria de africanos do Oeste, em línguas
ocidentais tais como André Alvares Almada (c. 1594), André Donelha”
CAPÍTULO 12 e Francisco Lemos Coelho” (século XVII), nascidos em Cabo Verde. A
PANOS DE PENTE, TRADIÇÃO, CANTO E POESIA: SIMBOLISMO E
LUGAR DA MEMÓRIA COLETIVA QUINEENSE acne cpacesenmno 339
coletânea Monumenta Missionária Africana reúne várias cartas produzidas
Odete Semedo
5 ALMADA,André Álvares de. Tratado Breve dos Rios de Guiné do Cabo Verde dês do Rio de
SOBRE OS AUTORES E ORGANIZADORES............................... 363 Sanagá até os baixos de Santa Ana de todas as nações de negros que há na dita costa e de seus costumes,
armas, trajos, juramentos, guerras. .., [ed. do Ms. 603 da Biblioteca Pública Municipal do Porto, de
1594], leitura, introdução e notas de António Brásio, Lisboa, Editorial L. 1. A. M., 1964.
6 DONELHA,André. Descrição da Serra Leicae dos rios de Guiné do Cabo Verde (1625). Introdução,
notas e apêndices por Avelino Teixeira da Mota e P. E. H. Hair, Lisboa,Junta de Investigações
Científicas do Ultramar, 1977.
7 COELHO,Francisco de Lemos. Discripção da Costa de Guinée situação de todos osportos, e rios della;
eroteyropara sepoderemnavegartodos seus rios, 1684: BNL, Cód. 454. Pub. por Damião PERES, Duas
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por soberanos dareferida região ao longo dos séculos XVI e XVIL* Na Neto (1922-1979), Amílcar Cabral (1924-1973) etc. No Brasil, este tema
realidade, a produção de escritos na costa ocidental aumentou considera- tem sido dos mais estudados nesta década.!?
velmente depois das missõescristãs no oeste africano. Avançando mais na Os exemplos dados acima não significam que a produção escrita
cronologia, alguns dos mais conhecidos nomes da produção oitocentista para a região se resuma às línguas europeias e ao árabe. Prova disso são os
foram os religiosos, nascidos na atual Nigéria, Samuel Ajayi Crowther já clássicos trabalhos de Karin Barber e Paulo Fernando de Moraes Farias,
(1809-1891), autor de várias obras sobre língua iorubá e de registros de autoresque, juntos, prefaciam este livro. Ambos se debruçaram sobre fontes
expedições na região do Niger; e Samuel Johnson (1846 —1901), autor do não-ocidentais para analisar o passado de sociedades oeste-africanas. Barber
clássico The History ofthe Yorubas (1921). concentrou seus estudos na cultura oral e escrita, com especial atenção aos
Contudo, essa produção intelectual no oeste africano não se en- iorubás”, enquanto Farias se dedicou aos estudos sobre o Sahel da África
cerra nos autores que nasceram no continente africano, pois há escritos Ocidental, por meio do cruzamento de fontesescritas medievais e de infor-
de autores afrodescendentes que produziram suas obras em contextos mações escritas tanto em grafites árabes quanto em registros de inscrições
africanos, por exemplo, o padre baiano Vicente Ferreira Pires, que esteve epigráficas em £ifinagh, escrita tuaregue e recolocou os dados epigráficos
no Daomé no final do século XVII? Edward Blyden (1832-1912), que
viveu a maior parte da vida na Libéria como diplomata, político e escritor 12 Para citar alguns trabalhos recentes das duas últimas décadas: BARBOSA, Muryatan. 4
África porela mesma: perspectiva africana na História Geral da África (Unesco). Tese (Doutorado
e tem uma produção extensa; e outros. Há ainda os escritos de africanos em História Social) - FFLCH, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012; GOMES, Raquel
vitimados pelo tráfico transatlântico de escravizados, que escreveram em Gryszezenko Alves. Uma feminista na contramão do colonialismo. Olive Schreiner: literatura
e a construção da nação Sul-Africana, 1880-1902. São Paulo: FAPESP/Annablume, 2013;
contexto diaspórico sobre suas terras de origem, a exemplo de Mohamad CARVALHO FILHO, 5.de À. Pepetela: Fragmentos de umatrajetória. Boletim Tempo Presente
Baquaqua!? (c. 1820 — 1860) e Ouladah Equiano”, mais conhecido como (UFRN), v. 2, p. 14-28, 2013; SANTANA,5. S. Narrativas da Guiné-Bissau: a nação na trilogia
romanesca de Abdulai Sila. 1. ed. Salvador-Ba: EDUNEB, 2014; MORENO, Helena Wakim.
Gustavo Vassa (1745-1797).
Voz d'Angola clamando no deserto: protesto e reivindicação em Luanda (1881-1901). Dissertação
Recentemente, o tema da história intelectual africana tem se (Mestrado em História Econômica) — FELCH, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014;
REIS, Brescia Raissa. Negritude em dois tempos: emergência e instituição de um movimento (1931-
concentrado nos intelectuais que estudaram nas escolas coloniais e que
1956). Dissertação (Mestrado em História Social) - FAFICH, Universidade Federal de Minas
continuaram seus estudos nas respectivas metrópoles. Alguns destes es- Gerais, Belo Horizonte, 2014; REIS, Brescia Raissa. África Imaginada: história intelectual, pan-
tudantes oeste-africanos fizeram a diferença em seus lugares de origem africanismo, nação e unidade africana na Présence Africaine (1947-1966). Tese (Doutorado em
História Social — dupla titulação) “Universidade Federal de Minas Gerais e Université Michel de
(as antigas colônias) e em seus Estados-nação, tais como Paul Hazoumé Montaigne Bordeaux 3, Belo Horizonte, 2018; RESENDE, T. A. G. Isso não EÁfrica, é Cabo Verde:
(1890-1980), Léopold Sédar Senghor (1906-2001), Nkwame Krumah o movimento claridoso e a busca por uma identidade crioula. 1. ed. Rio de Janeiro: Multifoco,
2015; MARCUSSI, Alexandre A. Personalidade, raça e nação na África pós-colonial: alguns
(1909-1972), Alioune Diop (1910-1980), Abdoulaye Sadji (1910-1961), apontamentos a partir das ideias de Kwame Nkrumah. In: REIS, Raissa Brescia dos; RESENDE,
Mamadou Dia (1911-2009), Eduardo Mondlane (1920-1969), Agostinho Taciana Almeida Garrido de; MOTA, Thiago Henrique. (Org.). Estudos sobre África Ocidental:
dinâmicas culturais, diálogos atlânticos. 1. ed. Curitiba: Editora Prismas, 2016, p. 259-286;
NASCIMENTO,Washington Santos. Políticas coloniais e sociedade angolana nas memórias e
8 BRASIO,António Pe (Org). Monumenta Missionaria Africana (15 v.). (Sécs. XV, XVI, XVII. discursos do escritor Raul David. ANOS 90, v. 23, p. 265-289, 2017; CARVALHO, W. M. de. 4
defesa incansável da esperança:feições da Guiné-Bissau na prosa de Odete Semedo e Abdulai Sila. 1. ed.
Lisboa: Academia Portuguesa da História, 1988.
9 PIRES, Vicente Francisco. Viagem de África em o Reino de Dahomé (1800). São Paulo: Belo Horizonte - Bissau: CEA/UFMG; Ku Si Mon, 2017; ALVARADO, Guillermo Antonio
Companhia Editora Nacional, 1957. Navarro. África deve-se unir? Àformação da teorética da Unidade e a Imaginação da África nos marcos
10 BAQUAQUA, Mahommah G., Biography ofMabommah G. Baquaqua. À native ofZoogoo, in epistêmicos Pan-negristas e Pan-africanos (Séculos XVHI-XX). Tese (Doutorado em História
the interior ofAfrica. Edited by Samuel Moore, Esq. Detroit: George E. Pormeryand Co., Tribune Social) — Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2018.
Office, 1854. 13 Outras obras referenciais de Karin Barber: 1 Could Speak Until Tomorrow: Oriki, Women and
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(encontrados em rostos de rocha,lápides inscritas, escrita decorativa e pie- como os olifantes, produzidos por artistas do Reino do Benin e de Serra
dosa nas paredes de ruínas abandonadas e outros registros monumentais) Leoa. Esta produção material tem sido utilizada como principal recur-
no centro do debate historiográfico, fazendo com deixassem de ser uma so para a escrita da história de sociedades oeste-africanas, juntamente
fonte subsidiária das fontes árabes.“ com outras fontes.” As pesquisas realizadas no âmbito do projeto inter-
Por outro lado, a abordagem da história intelectual da África nacional “African Ivories in the Atlantic World: a reassessment of Luso-
Ocidental pretendida por esta coletânea e oriunda de um grande semi- African ivories” tem revelado aspectos importantes sobre religiosidade,
nário, é apreender outras perspectivas de narrativas e formas de pensar comércio, política, hierarquais, transformações ocorridas no contato com
o passado e a contemporaneidade que não necessariamente se limitam à os europeus, grandes episódios históricos e vários outros assuntos."
escrita, como mostra o seminal capítulo escrito por Odete Semedo, que A Outra dimensão não-letrada do pensamento intelectual afri-
encontra nos panos da Guiné-Bissau uma linguagem visual por meio da cano reside na chamada“tradição oral”, um dos objetos privilegiados dos
qual se expressa um pensamento sobre a sociedade local. estudos sobre sociedades africanas, pelo menos desde as clássicas análises
As dimensões não letradas do pensamento intelectual africano do malinês Amadou Hampáté-Bá," que chamoua atenção para o caráter
têm sido alvo de investigação há bastante tempo, tanto por meio dos es- sagrado e vivo da oralidade e para a excepcional densidade semântica e
tudos da cultura material, quando pela tradição oral. O uso da cultura performática do falar nas sociedades africanas. É verdade que, no seio de
material como fonte para produção de conhecimento sobre as socieda- uma historiografia do passado africano eivada de um tom heroico,? as
des humanas emergiu no começo do século XIX. Nas últimas décadas, tradições orais foram vistas por vezes como repositórios transparentes de
os estudos de cultura material emergiram como um campo de natureza uma memória cristalizada dos fatos pretéritos, transmitidas e preservadas
transdisciplinar focado na produção material da humanidade, tanto pas- ao longo dos séculos, de um tal modo que sua suposta “autenticidade”, se
sada quanto contemporânea, envolvendo, além da arqueologia e da an- comparada à alegada “distorção” das fontes europeias, tornaria possível
tropologia, disciplinas como a história, a geografia cultural, a sociologia, uma reconstrução mais fiel de um passado africano. Abordagens metodo-
a museologia e os estudos de ciência e tecnologia.” A ênfase nos estudos lógicas mais críticas, sem desprezar a enorme potencialidade da oralidade
de cultura material está relacionada ao reconhecimento de queas relações para a historiografia do continente africano, evidenciaram o caráter per-
humanas são simultaneamente sociais e materiais. formático e ancorado no presente desses relatos, além das surpreendentes
Nessesentido, o mundo material passou a ser reconhecido como transformações da memória social operadas pelos relatos orais, exigindo,
o meio de construção da memória, dando coerência e continuidade à vida
York: Routledge, 1999, p.120; McCALL, John C. Structure, agency, and the locus ofthe social:
social e, assim, à reprodução cultural.!º Um exemplo disso são os estudos why post structural theoryis good for archaeology. In: ROBB, John (org.). Material Symbols:
sobre as placas de bronze e as presas de marfins do Reino do Benin, bem Culture and Economyin Pre-History. Carbondale: Southern Illinois University, 1999, p-16-20.
17 CURNOW, Kathy. Ivory as Cultural Document: The Crushing Burden of Conservation.
Curator, 61: 61-94, 2018.
14 MORAES FARIAS, Paulo Fernando de. Local Landscapes and Construcrions of World
Space: Medieval InscriptionsMedieval Inscriptions, Cognitive Dissonance, and the Course of the 18 SANTOS, Vanicléia Silva, PAIVA, Eduardo França; GOMES,René Lommez (Org.). O
Niger. Afriques [online], 02 | 2010. Consultado em 13 abril 2019. Disponível em: URL : http:// comércio de marfim no Mundo Atlântico: circulação e produção (séculos XV ao XIX). Belo Horizonte:
Clio Gestão Cultural e Editora, 2018 (versão e-book).
journals.openedition.org/afriques/896 ; DOI : 10.4000/afriques.896
15 HICKS, Dan & BEUADRY, MaryC. Introduction: material culture studies: a reactionary 19 HAMPATÉ BÁ, Amadou. A tradição viva. In: KI-ZERBO,Joseph (Ed.). História geral da
view. In: HICKS, Dan & BEAUDRY, MaryC. (Orgs.). The Oxford Handbook ofMaterial Culture Africa: v. 1: Metodologia e pré-história da África. 3º ed. Trad. MEC/Centro de Estudos Afro-
Studies. Oxford: Oxford University Press, 2010, p. 1-21; LIMA, Tania A. Cultura material: a Brasileiros da UFSC. São Paulo/Brasília: Cortez/Unesco, 2011, p. 167-212.
dimensão concreta das relações sociais. Boletim do Museu Paranaense Emílio Goeldi, v. 6, n. 1, P- 20 Veja-se, a esse respeito, LOPES, Carlos. À pirâmide invertida - historiografia africana feita
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para sua análise, um conjunto de procedimentos metodológicos familiar semelhante, várias das análises apresentadas nesta coletânea contemplam
ao historiador e aplicável a uma variada tipologia de fontes.” Afinal, as uma concepção ampla de história intelectual e de suas relações com a
tradiçõesorais africanas passaram a ser vistas de forma semelhante a ou- oralidade, com o patrimônio cultural e com as práticas sociais, situando a
tros tipos de narrativas sociais da memória, com sua riqueza, sua criativi- produção intelectual no seio de um universo social mais amplo.
dade, sua sedução e seus perigos para o estudioso.” Este livro contém 12 capítulos, divididos em duas partes. À pri-
Apesar dessa tradição de reflexão sobre osrelatos orais, e a des- meira parte, “história intelectual, intelectuais, literatura e publicações na
peito da centralidade da questão nos projetos de reconstrução do passa- África Ocidental” tem sete capítulos e trata principalmente da produção
do africano, o tema ainda é relativamente sub-representado nas análises intelectual realizada no oeste da África por intelectuais africanos. A se-
historiográficaacerca da produção intelectual africana, que tendem a se gunda parte, “patrimônio e cultura na África Ocidental”, tem cinco capí-
apoiar majoritariamente nas obras escritas. Parte dos motivos,é claro, diz tulos e está concentrada no debate sobre patrimônio e cultura na África
respeito às dificuldades metodológicas impostas pelo trabalho com a tra- Ocidental, em sua concepção mais ampla.
dição oral africana, masisso não é tudo. Para alguns estudiosos, o universo Abrindo a primeira parte, temos o capítulo de autoria do histo-
da oralidadeafricana, caracterizado pelas estratégias conciliatórias e pela riador de Guiné-Bissau, Carlos Cardoso e intitula-se “Produção de co-
produção de consensos,seria essencialmente resistente ao tipo de pensa- nhecimento e o desafio da teorização em Ciências Sociais: a contribuição
mento antagonístico e sistemático que,via de regra, é o objeto da história dos intelectuais da África Ocidental”. Trata-se de umareflexão epistemo-
intelectual.? Uma tal postura dicotômica, que encara o trabalho do inte- lógica de fôlego sobre a produção de conhecimentos em Ciências Sociais
lectual letrado e o do erudito da oralidade como essencialmente distintos, na porção ocidental do continente africano, a partir de uma preocupação
tem sido relativizada por perspectivas que enfatizam a criatividade e o qualitativa, nomeadamente ligada à produção de teorias nos trabalhos
caráter profundamente inovador das práticas da oralidade,” bem como acadêmicos. Sua análise impressiona pela erudição e pela abrangência da
sua articulação, em muitos casos, com a esfera do pensamento letrado. discussão, que inclui não apenas uma abordagem de matrizes do pensa-
Neste volume, um exemplo eloquente dessas articulações que mento africano ocidental atual, mas ainda uma análise das alternativas
borram a fronteira entre o oral e o escrito no trabalho intelectual é a con- epistemológicas oferecidas pelo saber africano de meados do século XX
tribuição de Felix Kaputu, que evidencia como a tradição oral nigeriana (com ênfase para as teorias de Cheikh Anta Diop) e das críticas episte-
se constituiu, ao longo do século XX, como fértil fonte de inspiração para mológicas elaboradas pelo grupo de intelectuais associados ao pensamen-
obras escritas de visibilidade mundial. Analogamente, a contribuição de to decolonial na América Latina. O autor avalia que o conhecimento re-
Luana Akinruli e Samuel Akinruli sobre a tradição intelectual iorubá des- cente produzido porcientistas sociais da África Ocidental, em sua maior
taca o intercâmbio entre a oralidade e teoria social acadêmica. De modo parte, tem enfatizado a recolha de dados, abstendo-se do trabalho de ela-
boração ou de discussão sistemática de teorias. Isso teria como consequ-
21 Veja-se, por exemplo, GOODY,Jack. The interface between the written and the oral. Cambridge:
ência uma dificuldade enfrentada pelo conhecimento acadêmico africano
Cambridge University Press, 1991. para se libertar do papel de reprodutor de matrizes epistemológicas de
22 THIAW,Ibrahima. História, cultura material e construções identitárias na Senegâmbia. 4fro-
outras regiões do globo.
Ásia [online]. 2012, n. 45 [cited 2019-02-17], pp. 9-24. .
23 APPIAH, Kwame Anthony. Velhos deuses, novos mundos. In: Na casa de meu pai: a África na O capítulo de Luana Akinruli e Samuel Akinruli, intitulado
filosofia da cultura. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997, p. 155-192. “Descolonizando práticas e saberes: um exercício de reflexão sobre os es-
24 Veja-se, por exemplo, JANZEN, John M. Ngoma: discourses of healing in Central and
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povo Yorúbá”, também se situa na esfera de uma reflexão sobre as rela- Mistida, de 1997) e elementos do ideário pan-africanista, com destaque
ções do pensamento africano com matrizes epistemológicas globais. Os para as ideias de Marcus Garvey e Amilcar Cabral. O ideal de justiça so-
autores apresentam uma reflexão dividida em duas partes: uma primeira cial, a ideia de unidade dos povos negrose africanos e a revalorização do
abordagem panorâmica da emergência dos chamados “estudos pós-colo- passado continental seriam os traços essenciais desse pan-africanismo de
niais” no mundo acadêmico internacional a partir dos anos 1980, e uma Sila. A análise de Suely Santana,lida em diálogo com as reflexões teóricas
descrição de alguns intelectuais ligados ao pensamento (acadêmico ouli- de Abdulai Sila sobre nação, humanismo e unidade africana. Este e o ca-
terário) produzido por autores iorubás desde o final do século XIX. A su- pítulo anterior oferecem instigante possibilidade de diálogo.
gestiva ideia dos autores é a de que o conhecimento produzido por iorubás O capítulo de Alexandre Tasca e Felipe Malacco, intitulado
poderia contribuir para o projeto epistemológico de “descolonização do “Entre a África Ocidental e o impresso brasileiro: encontros atlânticos
saber” da crítica pós-colonial, na condição de um caso ou exemplo de sa- nas páginas do Sentinela da Liberdade” evidencia circulações interconti-
ber produzido localmente a partir de categorias que não advêm de formas nentais de saberes africanos e suas reapropriações no contexto político da
ocidentais de saber. independência do Brasil no início do século XIX. À partir da perspectiva
O capítulo de Abdulai Sila, “O papel do escritor na construção teórico-metodológica da História Atlântica, os autores discutem os trân-
da identidade nacional”, tem como ponto central o tema das identidades sitos intelectuais e de ideias entre Brasil, Europa e África Ocidental, por
no continente africano, com suas especificidades e também semelhan- meio de uma publicação de Cipriano Barata no periódico Sentinela da
ças com outras experiências no mundo. À partir disso, observa as novas Liberdade na guarita de Pernambuco: Alerta!. Segundo sugerem, Cipriano
identidades em construção, suas hierarquias e interdependências, e tece Barata teria tido conhecimento do episódio do assassinato do herdeiro do
críticas às manipulações políticas e supranacionais dessas identidades pe- trono jalofo, Bemoim Jelem, em 1488, quando das negociações diplomá-
las elites. De maneira contundente, o autor guineense se questiona como, ticas com o rei Dom João II de Portugal. Mostrando como Barata mobi-
diante desse tipo de manipulação do sentimento nacional pelos grupos lizou o episódio para criticar a política brasileira, os autores evidenciam
dominantes, seria possível a consolidação de uma identidade fundamen- circularidades afro-americanas que transcendem o âmbito da escravidão,
tada no humanismoe na justiça social. Com essa preocupação em mente, tema mais recorrente nas relações Brasil-África. A articulação entre a
Sila busca desvendar o tortuoso caminho que vem sendo trilhado pelos história política jalofa e a tratadística político-filosófica ilustrada permite
novos Estados africanos após as independências, cotejando os descom- costurar uma proposta de reflexão “pós-abissal”, retomando os termos de
passos entre os ideais pan-africanistas e a experiência dos “nacionalismos Boaventura de Souza Santos.
restritos”, contemplando ainda os conflitos gerados pela interação com O texto de Wellington Marçal, intitulado “Nesse angu tem
identidades étnicas. Para o autor, o escritor africano ou afrodiaspórico mosquitos: algumas considerações sobre o Boletim Cultural da Guiné
teria papel fundamental a cumprir nesse cenário de conflitos e potenciali- Portuguesa”, toma forma em razão da visita do autor a Bissau, com o in-
dades identitárias em cruzamento. tuito de selar uma parceria institucional entre o Instituto Nacional de
O próprio Abdulai Sila, de autor doterceiro capítulo, converte-se Estudos e Pesquisas (Inep) de Guiné-Bissau e a Universidade Federal de
em tema de estudo do quarto,de autoria de Suely Santanae intitulado “O Minas Gerais. Na ocasião, o pesquisador teve acesso à coleção completa
pan-africanismo na 'trilogia romanesca de Abdulai Sila”. À autora apre- dos 110 fascículos do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, periódico vin-
senta uma análise a respeito dos diálogos entre três romances do escritor culado à administração colonial lusitana e publicado entre 1946 e 1973.
1 «a « 1 1 a pa « 4. 1
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no Boletim. Destacam-se as análises a respeito dos artigos do periódico incorporada a uma miríade de esferas da vida social, em diferentes espa-
que celebram uma suposta superioridade da coisa portuguesa, além de ços e com O envolvimento de diferentes atores, num conjunto de práticas
momentos em que a publicação permite notar uma quebra de tom na e instituições que pensam a si mesmas e refletem sobre a sociedade em
sagração da “europeidade”. que se inserem. Sugere-se, assim, que a escrita está longe de ser o veículo
Por fim,a primeira parte encerra-se com a contribuição do his- exclusivo, ou mesmoprivilegiado,de reflexão sobre o mundo.
toriador gambiano Hassoum Ceesay, em texto intitulado “Fatoo Khan, a No Brasil, a discussão acadêmica sobre patrimônio cultural, his-
amante do comissário colonial: um relacionamento amoroso na Gâmbia tórico e artístico caminha hoje para a desconstrução da ideia de preserva-
colonial”. O autor nos oferece uma convincente análise de um relaciona- ção associada à imutabilidade e também para o alargamento do próprio
mento inter-racial na Gâmbia colonial da década de 1910, envolvendo conceito, a fim de não o limitar a conjuntos arquitetônicos, monumentos
o comissário colonial britânico Mr. J. K. McCallum e uma mulher da ou obras de arte.” Essa perspectiva esbarra ainda nas políticas de patri-
aristocracia uolofe chamada Fatou Khan, sobrinha do chefe uolofe (ou mônio feitas pelos Estados de um modo geral, não apenas o brasileiro,
jalofo) Sawalo Ceesay. O caso levou à demissão do comissário e a uma imbuídos de estratégias de preservação para fins políticos, econômicos e
reforma administrativa liderada por seu sucessor. A partir do episódio, turísticos. Normalmente, como ressalta Maria Cecília Londres Fonseca,
Ceesay busca evidenciar a agência das mulheres africanas na estrutura a escolha dos estados nacionais sobre o que é e o que não é patrimônio
da administração britânica e sua capacidade de manipular e contestar o obedece a padrões estéticos hegemônicos entendidos como expressão da
poder colonial. O papel de Fatoo Khan também evidencia a influência cultura ou identidade nacionais. Como toda seleção, a força dos estados
dos intermediários e intérpretes africanos dentro da burocracia colonial, de nomearem legislarem é também responsável por invisibilizar outros
motivo pelo qual o autor analisa sua figura — juntamente com outrosato- espaços, grupos sociais e práticas incompatíveis com um discurso sobre o
res históricos em posição semelhante — como uma intelectual africana passado que se busca consolidar.
imersa na estrutura do poder colonial, na interface entre a cultura oral Há,ainda, a difícil tarefa de conciliar a materialidade dos espa-
e a cultura letrada. Considerando interesses políticos, códigos culturais ços físicos entendidos como patrimônio com as complexidades sociais do
e agentes sociais em uma tensa rede de negociações e conflitos, o artigo passado e do presente que ali se encontram. Muitas vezes, preservam-se
de Cessay oferece uma robusta análise micro-histórica articulando um as características arquitetônicas sem o devido diálogo com seus usos no
evento aparentemente secundário com estruturas políticas e culturais da passado, e o objeto toma maior relevância do que propriamenteseussen-
história colonial da Gâmbia. tidos dados pelas pessoas nas temporalidades.?* Essa concepção restrita
A segunda parte desta obra, “patrimônio e cultura na África de preservação, baseada na garantia da permanência e na imutabilidade
Ocidental”, tem cinco capítulos e lida mais diretamente com questões física,é atribuída por José Reginaldo Gonçalves à noção de História como
relacionadas ao patrimônio cultural em suas diversas expressões, contem- perda ou destruição inexorável pelo tempo. Para o autor, esse entendimen-
to é problemático, pois desconsidera recriações ou variedades de sentidos
plando desde a cultura material, com toda sua densidade semântica e sua
capacidade de articular uma bagagem de práticas culturais e concepções construídos ou sobrepostos ao longo do (e no) tempo.”
imateriais, até os problemas relacionados aos usos da memória histórica, Biden
25 FONSECA, Maria Cecília Londres. Para além da pedra e cal: por uma concepção ampla
passando pela riqueza das tradições culturais imateriais orais africanas.
de patrimônio cultural. In: ABREU, Regina; CHAGAS, Mário (Orgs.). Memória e Patrimônio:
Apresenta-se dessa forma um itinerário de estudos capaz de evidenciar Ensaios contemporâneos. Rio de Janeiro: Lamparina, 2003, p. 59-66.
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Em reflexão sobre a relação entre o conhecimento histórico e o forte crítica a essa abordagem da cultura material africana foi feita no
patrimônio cultural muscalizado, Ulpiano Bezerra de Meneses sugeriu curta-metragem Àsestátuas também morrem, dirigido por Alain Resnais e
que “a História não podeser visualizada”, não sendo “algo que possa ser Chris Marker, em 1953. Trechos como“a arte negra: nós a olhamos como
apreendido sensorialmente”.?* Exige-se da materialidade do patrimônio se tivesse sua razão de ser no prazer que nos dá [...] Tomamos seu pen-
cultural, portanto, que seja mediada por reflexões, conceitos e operações samento [dos negros] por estátua” tocavam em pontos bastante descon-
culturais para que adquira sentido para os estudiosos ou paraas coletivida- fortáveis para as sociedades colonizadoras, e o fato de sua exibição ficar
des. Dessa relação entre patrimônio material e as dimensões imateriais da proibida durante 10 anos na França, por exemplo, é sintomático de como
cultura e da sociedade emerge um fértil campo de reflexões a respeito das o assunto era delicadoe trazia à tona questões cruciais das relações de po-
várias maneiras por meio das quais os significados sociais são negociados der nas quais o sistemase baseava. Portanto, a patrimonialização desgar-
em torno de práticas, de concepções e de heranças materiais e imateriais. rada de reflexão histórica sobre os artefatos coletados, somada a um quase
Nocaso africano, a questão se complexifica em virtude do pas- total alienamento das populações produtoras e detentoras dos elementos a
sado colonial. À colonização do continente implicou a coleta de inúmeros serem patrimonializados, estava presente nessas relações coloniais.”
artefatos da cultura material da África Ocidental e sua transposição para a Esta musealização a serviço da colonização na África Ocidental,
Europa,o que mobilizou cientistas e pesquisadores em um amplo esforço especificamente, ocorreu no XIX, quando pesquisadores e administrado-
do que se chamou de preservação.” A ideia de salvar do desaparecimento res europeusiniciaram uma busca mais sistemática com o intuito de “co-
um passadoafricano implicou, porém, em métodos bem pouco ortodoxos, lecionar para conhecer” o continente. O interesse pelo exótico se deu à
que nem sempre respeitaram critérios aceitáveis de catalogação listagem custa do envio desses artefatos para museus europeus, como foi feito pelo
sistemática de usos e costumes, como descreveu o etnólogo Michel Leiris, explorador britânico Seton Karr, que viajou inúmeras vezes ao chifre da
em seu livro 4 África Fantasma, lançado em 1934, após sua participação África no período para recolher objetos das culturas locais e os vendeu
na missão Dakar-Djibouti, na década de 1930. Em um trecho significati- para cinquenta museus no mundo;pelosoficiais do exército britânico que,
vo, Leiris concluiu, por exemplo: “pilhamos os Negros, sob pretexto de en- ao invadirem a cidade do Benin, em 1897, na chamada “expedição britã-
sinar às pessoas a lhes conhecere lhes amar, isto é, no final das contas, para nica”, saquearam o palácio do Obá, altares e túmulos, e posteriormente
formar outros etnógrafos queirão eles também os 'amar' e os 'pilhar”"º. venderam os objetos (centenas de esculturas de bronze e marfim) para
Além disso, a posterior alocação desses espólios nos espaços ofi- colecionadores e museus. As coleçõesde arte africana do British Museum
ciais de preservação europeus envolvia sua integração a discursos muse-
ológicos que, muitas vezes, baseavam-se em pressupostos raciais e evolu-
eee

31 São vários o exemplossobre isso. Por meio do Institut Français de 1 Afrigue Noire,o IFAN, criado
cionistas pouco interessados nas sociedades das quais eram retirados. Uma cm 1936 pelo governo colonial, com sede em Dakar, muito do material resultante de expedições
científicas promovidas pelo Estado francês a partir do Ministério das Colônias foi herdado pelo
Senegal independente em 1960, por exemplo. O presidente senegalês Léopold Sédar Senghor fez
Rio de Janeiro: Ed. UFR]J| Iphan, 1996, p. 22.
28 MENESES, Ulpiano T. Bezerra de. Do teatro da memória ao laboratório da História: a uso desse mesmoacervo em 1960, quando o Departamento de Etnologia do IFAN é incubido da
exposição museológica e o conhecimento histórico. Anais do Museu Paulista, São Paulo: Museu mudança da decoração do Palácio da Presidência da República, e o gesto é bastante sugestivo nesse
sentido. cf. REIS. Raissa Brescia dos. África imaginada:história intelectual, pan-africanismo, nação e
Paulista/USP, v. 2, p. 9-42, jan-dez 1994,p. 38.
unidade africana na Présence Africaine (1947-1966). Tese de doutorado. História, Departamento de
29 A musealização de objetos africanos é bastante antiga, obedeceu a relações assimétricas de
História, Universidade Federal de Minas Geral, 2018, p. 103-104. Situações como a narrada foram
podere a concepções ocidentais de arte e cultura. Vale lembrar que o saque deartefatosafricanos
Satirizadas pela produção cinematográfica de Ousmane Sembêne, como no filme Xala, lançado
para o “enriquecimento cultural” da Europa pode ser estendido aos tempos napoleônicos, por
exemplo, cujos espólios dos ataques ao norte da África estão expostos nas pacíficas galerias do Em 1975, o qual demonstra como a criação de coleções e o ideal de preservação distanciados de
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e de vários outros museus europeus e norte-americanos são resultantes Nessa reflexão, o patrimônio material africano ganhou função retórica
desse ataque; assim como pelo antropólogo alemão Leo Frobenius”?, que primordial: edificações seculares, monumentos de “grandes civilizações”
também retornou à Europa com muitos objetos de Ifé. É preciso lembrar (sobretudo mediterrâneas) e um extenso conjunto de obras de arte mu-
ainda do Museu do Homem, em Paris, que retomou suas atividades em sealizadas em acervos coloniais europeus eram apresentados na condição
2015, e do Museu do Quai Branly/Jacque Chiracê, criado já no século de uma espécie de atestado comprobatório da riqueza cultural, da sofisti-
XXI na mesmacidade, o que nos mostra como a posse e a leitura europeias cação e da grandiosidade das sociedadesafricanas — porvezes, até mesmo
da África por meio de seus patrimônios culturais ainda é uma questão que de sua superioridade em relação às sociedades europeias!” Se essas ideias
deve ser discutida. E está sendo. Prova disso foi a intensa mobilização representavam uma salutar oposição a modelos evolucionistas e euro-
realizada nas redes sociais em 2010 a favor do embargo da venda em- cêntricos, também não se deixou de notar que elas reproduziam alguns
preendida pela Sotheby's, gigante inglesa no mercado de leilões, de uma paradigmas normativos do pensamento colonial europeu.” A superação
máscarareal do Benin do século XVI. O artefato foi enviado leilão pelos desses paradigmas requer, entre outras coisas, que a noção de “patrimônio
descendentes de Henry Lionel Galway, presente no ataque à cidade do cultural”africano seja considerada na totalidade de suas dimensões, para
Benin de 1897. O episódio levantou questionamentos importantes, como além apenas do seu caráter material e de sua beleza e grandiosidade.”
o direito dos descendentes de Galway de lucrarem com a venda,a ética de Em 1939, o escritor martinicano Aimé Césaire publicou a pri-
vender um objeto que alguns consideram ter sido adquirido ilegalmente, meira versão do poema Diário de um retorno ao país natal, considerado um
a posse legal de artefatos de patrimônio cultural de outros povose o papel texto fundador do movimento da Négritude, que buscava revalorizar as
e responsabilidade do Estado britânico diante disso, afinal, se o Estado culturas negrase africanas. No poema, o eu-lírico cantava: “minha negri-
britânico atual não compartilha mais dos entendimentos coloniais, o que tude não é uma torre nem uma catedral”.À ideia de uma “negritude-
significa permitir a precificação de um objeto adquirido no contexto da -torre”, pétrea e estática, e de uma “negritude-catedral”, lugar de culto a
colonização e sem a consulta ao Estado de origem deste objeto?” A re-
percussão nas redes impactou na decisão pela suspensão doleilão da peça. 35 Para um exemplo paradigmático de revalorização da África ligada à exploração da escultura
africana, veja-se SENGHOR, Léopold Sédar. O contributo do homem negro. Tn: SANCHES,
Os africanos e seus descendentes na diáspora, é preciso pontuar, Manuela Ribeiro (Org). Malhas que os impérios tecem: textos anticoloniais, contextos pós-coloniais.
não foram passivos a essas narrativas museográficas nascidas na Europa a Lisboa: Edições 70, 2012, p. 73-92. Para uma defesa da superioridade africana, vide as análises
fundamentais de DIOP, Cheikh Anta. 4 unidade cultural da África negra: esferas do patriarcado e
partir do contato com o continente. No século XX,sobretudo a partir da do matriarcado na Antiguidade clássica. Luanda/Ramada (Portugal): Edições Mulemba/Edições
década de 1930, algumas correntes do pensamento africanoe afrodiaspó- Pedago, 2014.
36 FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Trad. Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA,
rico lançaram-se a uma ambiciosa empreitada de revalorização da história 2008; MUDIMBE, Valentin-Yves. 4 invenção deÁfrica: gnose,filosofia e a ordem do conhecimento.
da África a partir do resgate da grandiosidade do passado do continente. Luanda/Mangualde (Portugal): Edições Mulemba/Edições Pedago, 2013.
37 Nesse sentido, a Unesco vem tomando parasi a responsabilidade de auxiliar as políticasestatais a
32 SAID, Hasen. The history and current situation of cultural heritage care in sub-saharan partir de umacrítica ao eurocentrismo da noção tradicional de patrimônio histórico e artístico vinda
Africa. Asian African Studies. 8,1, 1999, p. 91. de grupos e sociedades não europeias no mundo. Longe de ser uma conduta perfeita, o órgão da
33 O Museu do Homem foi fruto do remanejamento, feito em 1938, das coleções do antigo ONU trabalha também pela ampliação da própria noção da palavra para além do âmbito nacional,
Museu de Etnografia do Trocadéro, criado em 1878 para abrigar os objetos que a França havia apagando fronteiras nacionais no que diz respeito à responsabilidade mundial de cuidar e preservar,
acumulado por mcio de missões científicas e expedições militares à África. O Museu do Quai daí a África reunir atualmente mais de 103 patrimônios mundiais da humanidade. Unesco, World
Branly possui um acervo de arte não europeia vinda, em parte, do Museu do Homem. Heritage List. Disponível em hrtp://whc.unesco.org/en/lis/CID=31&SEARCH=&SEARCH
34 Cf OGBECHIE.Sylvester Okwunodu. Who Owns Africas Cultural Patrimony? Critical BYCOUNTRY=&REGION=5&ORDER=&TYPE=Sorder=year. Acesso em 11 de nov. 2018.
Interventions: Journal ofAfrican Art History and Visual Culture, 42,253, 2010. Para acompanhar 38 CÉSAIRE, Aimé. Cahier d'un retour au pays natal, Diário de umretorno ao país natal. Trad.,
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um ideal absoluto e imutável, o eu-lírico opunha a noção viva e dinâmica O capítulo de autoria de Thiago Mota é uma análise, em uma
de uma “negritude-árvore”, em constante movimento ascendente. A li- perspectiva de longa duração que vai do século XV (primórdios da edu-
ção poética de Césaire deve chamar nossa atenção para a necessidade de cação islâmica na região da Senegâmbia) até o século XX, contemplando,
transcender a dura e inerte materialidade — ou melhor, para enchê-la de assim, também sua expansão e institucionalização. Tendo como base nar-
vida ao infundi-la com a seiva das práticas sociais e culturais. rativas orais, escritas e imagéticas, produzidas por africanos e europeus,
Nesse sentido, convém nos afastarmos de uma noção de patrimô- o autor explora o desenvolvimento dos métodos de ensino islâmico na
nio cultural que privilegie sua “cristalização” e que proponha um perigoso região, que teve sua base nos pregadores nômades, como bexerins e ma-
ideal de “preservação” em que a imutabilidade se sobreponha ao dinamis- rabutos mandingas e jalofos, e depois a popularização das escolas coráã-
mo da cultura e dos usos sociais. À uma percepção cristalizada e fossiliza- nicas que levaram paulatinamente à islamização das camadas populares.
da do patrimônio material edificado — a “torre” de Césaire —, preocupada As fontes orais mostram claramente que, diferentemente do que a his-
meramente com a preservação de sua forma material em detrimento de
toriografia tradicionalmente defendeu, a construção e a consolidação do
seus usos e recriações sociais, a historiadora francesa Françoise Choay deu
patrimônio cultural do islamismo na Senegâmbia, bem como a densidade
o nome de “síndrome patrimonial”. Em seu lugar, ela enfatizou a “compe-
da conversão religiosa e a popularização da religião na região, não se expli-
tência de edificar”, que consiste em uma relação criativa que as sociedades
cam pela prática dajibad menor(guerra), mas pelajihad maior (pregação
mantêm com seus legados materiais e culturais.” São justamente esses
e aprendizadoreligioso, a partir de uma variedade de práticas que vão de
múltiplos lugares sociais de atribuição de sentido do patrimônio que os
textos dessa coletânea buscam enfatizar. atos cerimoniais ao debate teórico e intelectual).
O primeiro capítulo dessa segunda parte, “Tradições orais nige- O texto de Eduardo Adilson Camilo Pereira, intitulado “Métodos
rianas: herança histórica, um patrimônio para a literatura local e global e e fontes de pesquisa em Cabo Verde: o caso da revolta dos rendeiros do
para asartes”, é de autoria de Felix Kaputu e apresenta umatransição en- interior da ilha de Santiago (1822-1941)” defende a hipótese do caráter
tre os problemas da cultura letrada e as temáticas do patrimônio cultural, político e organizado das revoltas dos engenhos em Cabo Verde no século
aqui especificamente representado pelo patrimônio imaterial composto XIX, contrastando com uma tradição historiográfica que sustentava uma
pelas tradições orais nigerianas. O autor apresenta ampla exploração dos deficiência de organização prático-política dos rendeiros em face à orga-
canais através dos quais essas tradições orais da Nigéria — e especifica- nização fundiária no arquipélago. A contestação dos rendeiros em Cabo
mente aquelas reunidas no Mercado de Onitsha, no coração da “ibolân- Verde, defendeo autor, só teria o resultado esperado se estivesse articulada
dia” — foram incorporadas à literatura mundial porescritores e intelectuais à sua contestação e organização política, tendo em vista que as arbitrarie-
nigerianos dos séculos XX e XXI. As obras de Amos Tutuola, Cyprian dades e o monopólio da terra estavam assentes no regime colonial vigen-
Ekwensi, Chinua Achebe, Wole Soyinka e Chimamanda Ngozi Adichie te. Para atestar as explorações cotidianas, as estratégias, práticas sociais e
são analisadas na condição de sínteses literárias que incorporaram com reivindicações do reconhecimento dos direitos políticos dos envolvidos, o
sucesso as estratégias performativas das tradições orais na linguagem es-
autor compara diferentes tipos documentais, como requerimentos, autos
crita, criando novos campos de expressão. O seu impacto global aponta
de devassa, correspondências e autos judiciais, demonstrando acuidade na
para o modo comoas tradições orais nigerianas podem ser consideradas
ampla pesquisa documental e no desenvolvimento argumentativo.
como um importante recurso para o desenvolvimento de novas lingua-

gens literárias e artísticas. A contribuição de Sílvio Marcus de Souza Correa, no texto inti-
tulado “Turismo memorial na África Ocidental: diálogos possíveis entre
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África do Oeste e traz umareflexão sobre o turismo memorial e os usos o círculo proposto por esse volume, voltando a reconectar o patrimônio
do patrimônio cultural pelo turismo. A partir da problematização sobre cultural, material e imaterial, à reflexão intelectual sobre as sociedades
história pública e história leiga, o autor analisa comoesta última tem tido africanas, tal como ela é produzida,vivida e difundida cotidianamente.
importante interface com a história acadêmica desde os anos 1950 na Esperamos que os estudos aqui contidos ajudem a apresentar
África Ocidental. Por outro lado, coloca em debate os sentidos da criação uma visão mais complexa das dinâmicas culturais da África Ocidental.
de lugares de memória por atores internacionais — a exemplo do projeto Por um lado, o recorte geográfico coeso e relativamente restrito (em com-
da Unesco “A Rota do Escravo” —, que instituem artificialmente novos paração com estudos que pretendem abrangera totalidade do continente),
lugares de memória e determinam o que deve ser lembrado. Correa em- abarcando a grande região compreendida entre o Mediterrâneo (ao nor-
prega a noção de “retorno do recalcado” para analisar a rememoração da te), o Atlântico (a oeste e sul) e o lado Chade (a leste), permite evidenciar
experiência traumática da escravidão no âmbito do turismo patrimonial, e particularidades e conexões históricas concretas, fugindo ao risco de uma
argumenta que a história pública e a história leiga da escravidão (no caso, excessiva generalização a partir de categorias abstratas de uma suposta
narrativas produzidas por guias turísticos) tendem a privilegiar um dis- “africanidade” genérica. Por outro lado, porém, as articulações entre a pro-
curso emocional e obliterar a agência africana no período da escravidão, dução intelectual, as diversas formas de patrimônio cultural (material e
bem como as complexidades das relações entre africanos e estrangeiros, imaterial) e as práticas da vida social sugerem e permitem captar relações
distanciando-se do conhecimento histórico produzido nas universidades. históricas e culturais e estabelecer conexões entre domínios da sociedade,
O capítulo que fecha a coletânea é de autoria de Odete Semedo e ampliando a perspectiva das análises historiográficas. Se é verdade que a
intitula-se “Panos,tradição e canto-poema: simbolismoe lugar da memó- história da África Ocidental é, desde a Antiguidade, uma história carac-
ria coletiva guineense”. Nele, a escritora guineense explora a tradição de terizada fundamentalmente por trânsitos e mobilidades, esperamos que
tecelagem dos panos de pentes e os usos desses objetos na Guiné-Bissau a esses estudos possam contribuir para dar relevo à circulação de atores,
partir da perspectiva da memória coletiva e da sua função social na vida da grupos,práticas e sentidos ao longo de todo esse vasto território.
comunidade. Evidenciam-se os sentidos criados em torno dos panos: seus Finalmente, esta obra é resultado do diálogo entre diferentes es-
motivos, suas cores, seus padrões, seu tamanho, as formas comoeles são tudiosos de temáticas africanas — cientistas sociais, historiadores, roman-
utilizados no corpo ou nacasa, tudo isso produz discursos a partir de códi- cistas, escritores, antropólogos, especialistas em crítica literária escrita em
gos culturais que distinguem pessoas e que podem ser decodificados pelos língua portuguesa, historiadores da arte — localizados dos dois lados do
membros da comunidade. O texto da autora ainda mostra como os panos Atlântico. A natureza interdisciplinar desse trabalho se completa pelas
são representados em diversas expressões culturais guineenses, como as diversas fontes mobilizadas pelos profissionais — desde fontes escritas em
cantigas de partidos políticos ou os textos de escritores e poetas modernos Português, como relatos de viagens, relatórios policiais, documentos de
guineenses. Nesses suportes, os panos ganham vida como sujeitos poéti- revoltas, escritos árabes, paisagens e ruínas, panos bordados com narrati-
cos, representando umasérie de figuras sociais, como a mulher, o homem, Vas, tradições orais, cantos-poemas, artes, romances, fotos e, até, roman-
o morto, a criança, a nação, entre outros. O estudo a partir de uma epis- ces escritos contemporaneamente pela intelligentsia africana. Assim,as
temologia descolonizada permite situar essas produções culturais e esse múltiplas fontes, métodos e teorias utilizados pelos autores e autoras para
rico patrimônio material e imaterial em seu contexto social e histórico, Pensar a história cultural do oeste africano trazem umarica contribuição
evidenciando seus sentidose as reflexões que eles albergam em si e fazem Para a construção de uma nova agenda metodológica e interdisciplinar
s Es E e
VANICLÉIA S. SANTOS | LEOPOLDO AMADO
42 ALEXANDRE ALMEIDA MARCUSSI | TACIANA ALMEIDA GARRIDO DE RESENDE

África é parte da história global e os métodos para escrever a história da


África podem e devem ser aplicados para escrever e estudar outras histó-
rias de qualquer parte do mundo.

PARTE 1

HISTÓRIA INTELECTUAL /
INTELECTUAIS, LITERATURA E
PUBLICAÇÕES NA ÁFRICA OCIDENTAL

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