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GOMBRICH, Ernst H.. A história da Arte. Rio de Janeiro: Guanabara/Koogan, 1993.

Prefácio

“Quando o jovem Mozart chegou a Paris, deu-se conta – conforme escreveu ao pai – de que
todas as sinfonias em grande voga, ali, terminavam com um rápido finale; assim, decidiu
surpreender sua plateia com uma lenta introdução no último movimento. Esse é um exemplo
trivial, mas revela o sentido em que uma apreciação histórica de arte deve caminhar. O
impulso para ser diferente pode não ser o mais elevado ou o mais profundo fator no
equipamento do artista, mas é raro estar totalmente ausente. E a apreciação dessa diferença
intencional propicia amiúde a mais fácil abordagem da arte do passado. Tentei fazer dessa
constante mudança de propósitos a chave da minha narrativa e mostrar como cada obra está
relacionada, por imitação ou contradição, com o que passou antes.” P. X

“Refiro-me à interpretação ingênua e errônea da constante mudança na arte como um


progresso contínuo. É verdade que todo artista sente ter superado a geração que o precedeu
e, do seu ponto de vista, ter feito progressos em relação a tudo o que se conhecia antes. Não
podemos alimentar a esperança de entender uma obra de arte sem compartilhar desse
sentimento de libertação e triunfo que o artista experimenta quando avalia as próprias
realizações. Mas devemos compreender que cada ganho ou avanço numa direção acarreta
uma perda em outra, e que esse avanço subjetivo, apesar da sua importância, não
corresponde a um incremento objetivo em valores artísticos.” P.X e XI

“Nada existe realmente a que se possa dar o nome de Arte. Existem somente artistas. Outrora,
eram homens que apanhavam terra colorida e modelavam toscamente as formas de um bisão
na parede de uma caverna; hoje, alguns compram suas tintas e desenham cartazes para os
tapumes; eles faziam e fazem muitas outras coisas. Não prejudica ninguém dar o nome de arte
a todas essas atividades, desde que se conserve em mente que tal palavra pode significar
coisas muito diversas, em tempos e lugares diferentes, e que Arte com A maiúsculo não existe.
Na verdade, Arte com A maiúsculo passou a ser algo como um bicho papão, como um fetiche.
Podemos esmagar um artista dizendo-lhe que o que ele acaba de fazer pode ser excelente a
seu modo, só que não é “Arte”. E podemos desconcertar qualquer pessoa que esteja
contemplando com deleite uma tela, declarando que aquilo que ela tanto aprecia não é Arte
mas uma coisa muito diferente.” P. 3

“O que perturba e deixa perplexo o público em relação à arte expressionista talvez seja menos
o fato de a natureza ser distorcida do que o resultado implicar num distanciamento da beleza.
Que o caricaturista mostre a fealdade do homem é ponto pacífico; feitas as contas, é esse o
objetivo do seu trabalho. Mas que homem que pretenderam ser artistas sérios esqueçam que,
se tiverem de alterar a aparência das coisas, deve, idealizá-las e não enfeá-las, foi algo
profundamente doloroso. Entretanto, Munch poderia ter replicado que um grito de angústia
nada tem de belo, e que seria falta de sinceridade olhar apenas o lado agradável da vida. Pois
os expressionistas alimentavam sentimentos tão fortes a respeito do sofrimento humano, da
pobreza, violência e paixão, que eram propensos a pensar que a insistência na harmonia e
beleza em arte nascera exatamente de uma recusa em ser sincero.” P.448-449

“Talvez a melhor maneira de compreender essa situação [da experimentação das formas por
Picasso] seja, uma vez mais, considerar a sua origem. Para os artistas dos ‘bons tempos
antigos’, o tema vinha em primeiro lugar. Recebiam uma encomenda para pintar, digamos,
uma Madona ou um retrato, e mergulhavam então no trabalho a fim de o executarem o
melhor possível. Quando as encomendas desse gênero ficaram mais raras, os artistas tiveram
que escolher seus próprios temas. Alguns se concentraram em temas que pudessem atrair
eventuais compradores. Pintaram frades empanturrados ou amantes ao luar ou um evento
dramático da história pátria. Outros recusaram-se a ser ilustradores dessa espécie. Se tinham
eles mesmos que escolher um tema, optavam por um que lhes permitisse estudar algum
problema definido do ofício. Assim os impressionistas, que estavam interessados nos efeitos
da luz ao ar livre, chocaram o público ao pintarem ruas suburbanas ou medas de feno, em vez
de cenas como atrativos ‘literários’. […] Recordemos que a sua [de Cézanne] natureza-morta
só pode ser entendida como uma tentativa de estudar os vários problemas de sua arte. Os
cubistas prosseguiram a partir de onde Cézanne tinha parado. Daí em diante, um crescente
número de artistas passou a considerar ponto pacífico que o que importa em arte é
encontrar novas soluções para os chamados problemas de ‘forma’. Para esses artistas,
portanto, a ‘forma’ vem sempre em primeiro lugar, deixando o ‘tema’ em segundo.” P.461

“Poucas pessoas que gostam de um móbile irão pensar muito no equilíbrio universal, nem
aquelas que aplicaram as composições retangulares de Mondrian à confecção de colchas e
toalhas pensam na filosofia que originou tais padrões. Talvez seja precisamente esse
sentimento de futilidade o que ajuda a explicar melhor como outros artistas do século XX
passaram a rejeitar a ideia de que a arte deve preocupar-se exclusivamente com a solução de
problemas de ‘forma’. Essa preocupação com quebra-cabeças de equilíbrio e método, por mais
sutis e absorventes que sejam, deixou-os com uma sensação de vazio que eles tentaram,
quase com desespero, superar. Tal como Picasso, buscaram algo que fosse menos sofisticado,
menos arbitrário. Mas se o interesse não devia residir no ‘tema’ – como outrora, nem na
‘forma’ – como recentemente, então, o que pretendiam essas obras representar?
A resposta é mais facilmente sentida do que expressada, pois tais explicações se deterioram e
redundam com facilidade em pseudoprofundidade ou puro e simples absurdo. […] o artista
moderno quer criar coisas. A ênfase está em criar e em coisas. Ele quer sentir que realizou algo
que antes não existia. Não apenas a cópia de um objeto real, por mais habilidosa, não apenas
uma peça de decoração, por mais engenhosa, mas algo mais importante e duradouro do que
ambas, algo que ele sente ser mais real do que os objetos vulgares da nossa trivial existência.
P.466-467

p.471 surrealismo

p.474 arte como imitação


arte como expressão
arte como construção

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