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Ano 42 • N. 154 - Julho/Dezembro - 2019 • ISSN 1676-2630


Publicação semestral de formação para catequistas e agentes de pastoral

Pós-Graduação lato sensu em Catequese


Bacharelado em Teologia

154

Aceita-se permuta - Exchange is solicited

São Paulo, ano 42, n. 153, p. 13-25, jan./jun. 2019. 1


ARTIGOS
CENTRO UNIVERSITÁRIO SALESIANO DE SÃO PAULO
ARTIGOS
UNISAL

REVISTA DE CATEQUESE
Revista de Catequese / Publicação do Centro
Chanceler Universitário Salesiano de São Paulo –
Justo Ernesto Piccinini Unidade São Paulo – Campus Pio XI e
Instituto Teológico Pio XI. – ano 1, nº 0,
Reitor (1977) - . — São Paulo: UNISAL, 1977 –
Eduardo Augusto Capucho Gonçalves
v. ; 23 cm
Pró-Reitora de Ensino, Pesquisa e Pós graduação
Eliana Rodrigues Semestral
ISBN 1676-2630
Pró-Reitor de Extensão, Ação Comunitária e Pastoral
Antonio Wardison C. Silva I Catequese. II Educação Religiosa.
III Evangelização. IV Educação à fé.
Pró-Reitor Administrativo V Pastoral. VI Ensino Religioso Escolar.
Nilson Leis

Coordenador do Curso de Pós-Graduação lato sensu em Catequese


CDU 268
Humberto Robson de Carvalho CDD 268

Coordenador do Bacharelado em Teologia Ficha catalográfica elaborada pela Bibliotecária


Francisco Eliano Bezerra de Queiroz Miriam Ambrosio Silva – CRB 5750/8

Editor
Guilherme Pereira Anselmo Junior

Editor Adjunto
Luiz Alves de Lima

COMISSÃO EDITORIAL
Francisco Eliano Bezerra de Queiroz
Luiz Alves de Lima
Luís Fabiano dos Santos Barbosa Redação, Administração e Permuta
Guilherme Pereira Anselmo Junior Unidade São Paulo - Campus Pio XI
UNISAL - São Paulo Rua Pio XI, 1.100 - Alto da Lapa
05060-001 - São Paulo - Brasil
REVISÃO EDITORIAL Fone: 0xx11 - 3649-0200
Francisco Inácio Vieira Junior Contato: revista.catequese.pio@unisal.br
Edição: catequese.editor@pio.unisal.br
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Universidad Catolica Silva Enriques - Santiago do Chile

Israel José Nery


Universidade La Salle - Rio de Janeiro

Luiz Eduardo Pinheiro Baronto REVISÃO DO PORTUGUÊS


Universidade São Judas - São Paulo Emerson Santana
TRADUÇÃO
Maurício Tadeu Miranda
Luiz Alves de Lima
UNISAL - São Paulo Francisco Eliano Bezerra de Queiroz
Guilherme Pereira Anselmo Júnio
Ronaldo Zacharias
UNISAL - São Paulo CAPA
Renata Lima

DIAGRAMAÇÃO E EDITORAÇÃO ELETRÔNICA


Renata Lima – AN Gráfica
2 São Paulo, ano 42, n. 153, p. 13-25, jan./jun. 2019.
Índice ARTIGOS
ARTIGOS

EDITORIAL
A IV Semana Brasileira de Catequese: Itaici, 14 a 18 de novembro de 2018............................ 4

ARTIGOS
Anunciar-Testemunhar Jesus Cristo num mundo plural: novos interlocutores
Edward Neves Monteiro de Barros Guimarães............................................................................... 8

Seguimento de Jesus e sentido a vida


Vera Ivanise Bombonatto............................................................................................................... 29

O Querigma e a transmissão da fé no contexto atual


Dom Leomar Antonio Brustolin....................................................................................................... 42

Celebrar e iniciar ao mistério: a Liturgia


Thiago Aparecido Faccini Paro....................................................................................................... 52

Do seguimento de Jesus ao encontro do irmão


Dom José Antonio Peruzzo............................................................................................................ 68

A Catequese na cultura digital: novas linguagens, novos processos de comunicação


Moisés Sbardelotto........................................................................................................................ 78

Catequese, catecumenato e nova Evangelização


Dom Octávio Ruiz Arenas................................................................................................................ 96

VIVÊNCIAS
Crônica da IV Semana brasileira de catequese
Marlene Maria Silva e Lucimara Trevisan......................................................................................... 107

Mensagem da IV Semana brasileira de catequese aos catequistas......................................... 122

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Sãoano
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A IV SEMANA BRASILEIRA DE CATEQUESE


Itaici/Indaiatuba (SP), 14 a 18 de Novembro de 2018
Vem se tornando tradição na Igreja do Brasil a realização de tempos em tempos (em geral 10
anos) de uma Semana Nacional de Catequese. Poderiam também ser chamadas de Congresso ou
Assembleia Nacional de Catequese. Na verdade são cinco dias de convivência, partilha, reflexão,
celebração e muita festa dos que formam a cúpula da catequese brasileira, seus responsáveis mais
diretos em nível nacional, regional e diocesano, com suas lideranças. No final de 2018 houve sua
4ª. edição, de 14 a 18 de Novembro em Itaici (SP) reunindo mais de 420 participantes de todos os
17 regionais da CNBB, com suas 275 dioceses ou circunscrições eclesiais. Dela participaram um
ou dois representantes de cada diocese, os coordenadores diocesanos e regionais, membros do
GRECAT, convidados em geral (entre eles os palestristas e condutores das “vivências”), e sobretudo
os bispos referenciais da catequese nos 17 Regionais da CNBB.
Esta quarta Semana Brasileira de Catequese (4ª. SBC) foi organizada por duas Comissões
Episcopais Pastorais (para a Catequese e para a Liturgia), envolvendo os Bispos Referenciais, os
coordenadores regionais, os grupos de reflexão bíblico-catequéticas e os responsáveis nacionais
da Liturgia. Ela teve como lema: “nós ouvimos e sabemos que ele é Salvador do mundo” (Jo 4,42),
expressão que impulsionou a mística e o tema que nela foram vividos pelos participantes.
A ocasião e texto que orientaram esse magno evento foram a publicação, em julho de 2017 do
Documento 107 da CNBB: Iniciação à Vida Cristã – Itinerário para formar discípulos missionários
e os mais de 15 anos de reflexão e experiências em torno da Iniciação acontecidos no Brasil. O
lema, inspirado no Diretório Geral para a Catequese (1997) e no nosso Diretório Nacional (2006),
foi: A catequese a serviço da Iniciação à Vida Cristã. Sua finalidade foi a compreensão da
catequese com inspiração catecumenal, resgatando aquilo que foi vivido nos primeiros séculos da
Igreja e que hoje deve ser: uma verdadeira Iniciação à Vida Cristã (IVC), buscando novas formas
e dinâmicas para a transmissão da fé, nos dias atuais, tão cambiantes, como desafiadores. Esse
foi na verdade seu objetivo geral.
Foram estabelecidos quatro objetivos específicos: 1) Refletir sobre a condição humana, a busca
de sentido e a crise de fé na contemporaneidade; 2) Apresentar a iniciação à vida cristã como eixo
articulador da ação evangelizadora a serviço da qual está a catequese (Doc. 107, 76); 3) Compreender
o querigma e a mistagogia como caminho de renovação da comunidade e da formação do discípulo
missionário de Jesus Cristo; 4) Partilhar experiências significativas da catequese a serviço da iniciação
à vida cristã nos regionais.
Uma maneira de envolver todos os milhares de catequistas de base, espalhados por todo
Brasil, foi confecção de um subsídio1, com cinco encontros a serem realizados nas paróquias,
sintonizando todos catequistas com os grandes temas de reflexão do evento. Foram elaboradas
também celebrações em vista do bom êxito da 4ª. Semana. Criou-se ainda um logotipo da 4ª SBC
com uma cruz ao centro, de cujo lado jorram dois círculos em vermelho e azul, e sinais de pegadas:
1
Comissão Episcopal para a Animação Bíblico-Catequética, Caminho Orante para a 4ª Semana Brasileira de Catequese.
Brasília: Edições CNBB, 2018.

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em sua simplicidade e profundidade, ele ajudou a refletir e a resgatar a essência de nossa fé em
que somos iniciados, unindo experiência e anúncio, fé e vida num processo que nos transformam
em discípulos missionários de Cristo Jesus.
A programação e conteúdos essenciais da 4ª SBC foram organizados com a seguinte dinâmica:
nos três dias centrais, sete grandes palestras foram pronunciadas2, sempre pela manhã (duas por
dia) para todos os participantes. Além delas, organizaram-se 20 “vivências” (oficinas ou seminá-
rios)3 ministradas na tarde do dia 15 (3ª f.) e repetidas pelos mesmos palestrantes no dia 16 (4ª.
f.), de modo que todos participaram de duas dessas “vivências”, à escolha de cada um, com prévia
inscrição. Deu-se o nome de vivências para fugir do estilo e conteúdos acadêmicos e fixar-se mais
na dimensão vivencial e prática. A tarde do dia 17 (5ª. f.) foi dedicada à leitura orante de textos
distintos da Sagrada Escritura referentes à Iniciação Cristã, também de escolha própria.
As noites foram reservadas a três atividades complementares: 1. Na noite do dia 15 foi feita uma
sentida homenagem ao Pe. José Fernandes de Oliveira, scj (Pe. Zezinho), que, com suas centenas
de canções realizou um grande trabalho catequético no Brasil e na América Latina; 2) Uma noitada
de lançamento de vários livros, textos ou manuais de catequese na linha da iniciação à vida cristã4 ;
3) Homenagens a cinco catequetas que, prestaram um longo serviço à catequese no Brasil e cujos
nomes estão ligados intimamente à catequese em nível nacional5.
O grande evento esteve sob a responsabilidade direta da Comissão Episcopal para a Animação
Bíblico-Catequética: Dom José Antônio Peruzzo, arcebispo de Curitiba (presidente), Dom Armando
Bucciol e Dom Waldemar Passini Dalbello, com a participação também de membros da Comissão
para a Liturgia. O assessor que tudo coordenou e acompanhou foi o Pe. Antônio Marcos Depizzoli,
2
As grandes palestras (seus títulos e palestrantes) foram: 1) Anunciar-Testemunhar Jesus Cristo num mundo plural,
novos interlocutores: Edward Neves Monteiro de Barros Guimarães; 2) Seguimento de Jesus e sentido a vida: Vera
Ivanise Bombonatto; 3) O Querigma e a transmissão da fé no contexto atual: Dom Leomar Antonio Brustolin; 4) Celebrar
e iniciar ao mistério (a Liturgia): Thiago Aparecido Faccini Paro; 5) Do seguimento de Jesus ao encontro do irmão: Dom
José Antonio Peruzzo; 6) A Catequese na cultura digital: novas linguagens, novos processos de comunicação: Moisés
Sbardelotto; 7) Catequese, catecumenato e nova Evangelização: Dom Octávio Ruiz Arenas, secretário do Pontifício
Conselho para a Nova Evangelização.
3
Foram essas as vivências apresentadas: (tema e responsável): 1. Palavra de Deus, fonte da Iniciação à Vida Cristã – Frei
Ildo Perondi; 2. Leitura orante na Iniciação à Vida Cristã – Dom Carlo Verzeletti; 3. A dimensão celebrativa da Iniciação
à Vida Cristã, segundo o RICA – Pe. Vanildo de Paiva; 4. O Catecismo da Igreja Católica e Iniciação à Vida Cristã – Pe.
Luiz Alves de Lima; 5. Iniciação à Vida Cristã numa Igreja missionária (Igreja em saída) – Dom Mário Antônio da Silva;
6. Comunidade fonte, lugar e meta da Iniciação à Vida Cristã – Ir. Israel José Nery; 7. Catequese à serviço da Iniciação
à Vida Cristã – Pe. Abimar Oliveira de Morais; 8. Iniciação à Vida Cristã e experiência de Deus – Dom Armando Bucciol;
9. Unidade dos sacramentos da Iniciação à Vida Cristã – Dom Geremias Steimntz; 10. Formação iniciática de catequis-
tas – Débora Regina Pupo de Lima; 11. Metodologia dos processos iniciáticos – Pe. Márcio Martins Rosa; 12. Iniciação
à Vida Cristã e compromisso ético – Laudelino Augusto dos Santos Azevedo; 13. Catequese e a via da beleza – A vida
da beleza como transmissora da fé – Pe. Jordélio Siles Ledo; 14. Itinerários iniciáticos crianças, adolescentes, jovens e
adultos – Pe. Eduardo Antônio Calandro; 15. Itinerários iniciáticos com pais e padrinhos (catequese batismal) – Maria
Erivan Ferreira da Silva; 16. Itinerários iniciáticos com noivos – Pe. Paulo Cesar Gil; 17. Experiências de iniciação com
povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos – Rose Medeiros; 18. Iniciação à vida cristã e situações de diversidade (inclu-
são) – Pe. Marcelo Luiz Machado; 19. Bibliodrama na catequese – Loredana Vigini; 20. Catequese e redes sociais (era
digital, redes midiáticas) – Carla Regina de Miranda.
4
Aqui destaco uma das principais obras lançadas: o volume com vários artigos dos sócios da Sociedade Brasileira de
Catequetas: A catequese a serviço da Iniciação à Vida Cristã, com nove capítulos, 186 pp., Vozes 2018.
5
Foram chamados à mesa do grande salão de atos e receberam estas homenagens os seguintes catequetas: Pe. Luiz
Alves de Lima, sdb; Profa. Therezinha Mota Lima da Cruz; Ir. José Israel Nery, fsc; Profa. Marlene Maria Silva e Dom
Frei Francisco Javier Hernández Arnedo, oar.

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secretário da Comissão. Animadores e Locutores foram a Ir. Maria Aparecida Barboza e o jovem
Vitor Paiva, da Diocese de Castanhal (PA). Também Profa. Marlene Maria Silva e  Lucimara Trevizan
coordenaram a equipe encarregada da Crônica, que aqui está registrada (cf. a seguir à pg. 107),
como também a seleção do material digno de ser guardado nos arquivos e/ou publicados.
Com relação aos conteúdos das grandes palestras6, o Prof. Edward Guimarães em sua palestra
perguntou inicialmente e respondeu: Como anunciar Jesus neste mundo plural? É necessário superar
o combate às demais tradições religiosas, a pretensão de desbancar outras Igrejas cristãs, o desco-
nhecimento dos sem religião e sem fé em Deus, a apologética e o proselitismo, o sentido antigo de
evangelizar. É preciso evangelizar fazendo ver, porque o seguimento precisa entrar pelos olhos e pene-
trar o coração. Viver o cristianismo exercitando o diálogo, o sentido coletivo e humanitário, assumindo
o compromisso ético em defesa da vida, catequizar com leveza, alegria e com coragem profética.
A Ir. Vera Bombonatto afirmou que a finalidade do seguimento de Jesus é assemelhar-se a Ele.
Ter o estilo de Jesus é o mais importante. O ser cristão começa com um encontro que dá sentido
à vida. A história da salvação é uma história de seguimento. Numa catequese a serviço da IVC o
discipulado é o fio condutor que culmina na maturidade do discípulo missionário.
Dom Leomar Brustolin em seu belíssimo pronunciamento sobre o Querigma na IVC destacou:
sucede não poucas vezes que os cristãos sintam maior preocupação com as consequências sociais,
culturais e políticas da fé do que com a própria fé, considerando esta como um pressuposto óbvio
da sua vida diária. Ora, tal pressuposto não só deixou de existir, mas frequentemente acaba sendo
negado. O teste de autenticidade da IVC é o testemunho de vida.
Falando sobre a Liturgia como celebração e iniciação ao mistério da fé, o Pe. Thiago Paro
salientou que é necessário compreender a linguagem própria da liturgia, uma comunicação
simbólico-ritual. Seus gestos simbólicos se transformam em rito. Símbolo é uma representação
que faz aparecer um sentido secreto: ele é a epifania (manifestação) de um mistério. São sinais
sensíveis que nos permitem entrar em contato com uma realidade não ao alcance dos sentidos,
mas que precisa da realidade sensível para se manifestar ao ser humano em busca do mistério, do
Transcendente. Tocando os símbolos e sinais sensíveis, tocamos o mistério. Dai não existir liturgia
sem ritualidade e catequese sem mistagogia. As catequeses dos Santos Padres eram, sobretudo
mistagógicas. O Vaticano II, com a publicação do RICA, quis restaurar o catecumenato antigo
feito sobretudo de mistagogia, que, naturalmente exige adaptação aos nossos tempos, cultura
e linguagem. Os livros litúrgicos são como que a partitura da liturgia, mas não são toda liturgia.
“Do seguimento de Jesus ao encontro do irmão” foi o tema de Dom José Peruzzo. Afirmou que
seguir Jesus na comunidade apostólica era uma realidade possível, cujo início dependia, fundamen-
talmente, de um encontro pessoal com Ele. Sem burocracias, sem pré-requisitos. Desse encontro
pessoal nascia uma comunhão de vida e até de participação plena na mesma causa dele. Seu man-
damento novo “amai-vos como vos amei”  não tem alcance cronológico, mas qualitativo. Por outro
lado, o complemento “assim como eu vos amei” aponta para o fundamento que sustenta a missão
de amar-se uns aos outros. Este decorre da experiência de amor que eles, discípulos, terão tido com
Jesus. É Ele a causa do amor entre eles. A amizade com Jesus, por eles experimentada, não é apenas
comparação. É a realidade fundante. A Igreja toda, mas, sobretudo no Brasil está pedindo a seus filhos
6
Uma síntese dessas grandes palestras pode ser encontrado em: Destaques (do 1º., 2º. e 3º.) no site: http://www.cate-
quesedobrasil.org.br/subeditoria/4-semana-brasileira-de-catequese

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que recomecemos a partir de Jesus. Nossa vocação e missão apontam para o encontro com Ele e
com o irmão, ou seja, para experiências comunitárias e eclesiais de seguimento.
Grande impacto com ricas consequências para a catequese foi o tema: “A Catequese na cultura digi-
tal: novas linguagens, novos processos de comunicação”, exposto pelo prof. Moisés Sbardelotto. Iniciou
esclarecendo: aqui não se fala do uso de tecnologias, mas sim de uma cultura nova que vai nascendo,
indo muito mais além das tecnologias. A Igreja é convidada a repensar os seus processos de comu-
nicação. Depois de alguns dados sobre a atual revolução midiática, acentuou as características dessa
cultura digital: cultura sintética (digitalizada), da convergência, transmidiática, cultura da conectividade
(somos aldeias globais), da ubiquidade (em toda parte e ao mesmo tempo, instantânea), da autonomia
(o amador ignorante convive com o especialista erudito) e participativa. Se o catequista não circula no
espaço digital, amadores o ocuparão: é uma cultura do fazer. Crianças querem fazer, colocar a mão na
massa, e muito mais adolescentes e jovens. Eis uma grande porta aberta à metodologia catequética!
Algumas indicações na linha teológico-pastoral: oração via internet e aplicativos; peregrinação
virtual (visita a museus religiosos, à terra santa, caminhar por ela, sempre via aplicativo); buscar
e encontrar Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus (Santo Inácio); Ele já age nas
redes sociais antes de nós: como perceber sua presença nesses ambientes é nossa tarefa. Dar
testemunho em rede, não com o bombardeio de mensagens religiosas, mas com a vontade de se
doar aos outros, atento às suas questões; ter coerência dentro e fora dos encontros catequéticos.
Por fim Dom Octávio Ruiz Arenas, secretário do Pontifício Conselho para a Nova Evangelização,
presente como ilustre convidado, desenvolveu e finalizou o ciclo de grandes palestras, com o tema:
“Catequese, catecumenato e nova Evangelização”. A partir das características do mundo de hoje,
sobretudo a secularização, acentuou a importância do testemunho de vida individual e comunitário para
a transmissão da fé, seguido do anúncio do querigma, central para a atividade evangelizadora. A fé
transmitida e acolhida deve dar frutos de vida e fraternidade. Virtudes cristãs de que a sociedade hoje
tanto necessita, são a esperança, no meio de tantas incertezas, e otimismo garantido pela mensagem
cristã, dando sentido e beleza à vida. Acentuou que a América latina, continente multicultural e religioso,
necessita de um catecumenato embebido de mistagogia, sólido, seguro e profundo, enfim, uma escola
de cristianismo. Para isso se requer uma completa, integra e sólida formação de catequistas, concluiu.
Por fim, foi elaborada por uma equipe e aprovada pela assembleia, uma Mensagem7 a todos cate-
quistas do Brasil; nela se destaca o objetivo dessa IV Semana: “compreender a catequese de inspiração
catecumenal a serviço da Iniciação à Vida Cristã, buscando novos caminhos para a transmissão da fé,
no contexto atual”. E conclui com otimismo e esperança: os tempos são difíceis, mas as promessas de
Deus são generosas. Tudo passa rápido, mas a fidelidade dele é permanente. E todos nós, catequistas,
vivemos a emocionante alegria de sermos testemunhas deste anúncio do qual o mundo tanto precisa.
Além do conteúdo essencial da IVa. SBC, nesta edição trazemos também uma sentida e grata
memória de dois importantes personagens, recentemente desaperecidos: a Ir. Mary Donzelini e
o Prof. Francisco Catão. A eles nossa admiração e gratidão por tudo o que representaram para a
catequese no Brasil!
Pe. Dr. Dr. h. c. Luiz Alves de Lima, sdb
Editor Adjunto, participante da 4ª. SBC
7
Essa mensagem integral está nessa edição no. 154, pg 122 e pode ser encontrada também em http://www.catequese-
dobrasil.org.br/noticia/mensagem-da-4-sbc-aos-catequistas-do-brasil

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ANUNCIAR-TESTEMUNHAR JESUS CRISTO


NUM MUNDO PLURAL: NOVOS INTERLOCUTORES

Edward Neves Monteiro de Barros Guimarães1

Evangelizar é um dinamismo que provoca a tomada de consciência do Deus


pertinho, Emanuel, sempre conosco, um Deus que faz de tudo para que cada
pessoa descubra no amar a via de salvação e passe a viver consciente e es-
perançado de que caminhamos todos para a futura plenitude de comunhão, de
uns com os outros, em seu amor infinito.

INTRODUÇÃO

Para começo de conversa, o que significa, no contexto atual, seguir Jesus Cristo e evangelizar,
tornando-se uma Igreja em saída, em estado permanente de missão, toda ministerial e participativa,
casa da Iniciação à Vida Cristã, lugar de animação bíblica da vida e da pastoral, hospital de campa-
nha, casa de portas abertas, casa da misericórdia, Igreja pobre e para os pobres, a serviço da vida
plena para todos, como tem nos provocado insistentemente o Papa Francisco (FRANCISCO, 2013) e
a CNBB (CNBB, 2015)? Temos clareza dos desafios e urgências de nosso tempo e de nossa missão
de cristãos, discípulas e discípulos missionários, na Igreja e na sociedade em que vivemos?
Nos últimos tempos, o mundo passou por profundas mudanças que impactaram diretamente sobre
o sentido da vida e na dinâmica de vivência da fé cristã. Estas transformaram completamente o nosso
modo de ser e compreender a vida e, consequentemente, o sentido de experimentar e de viver a fé
cristã. Por isso, com a coragem dos profetas e a força do Espírito Santo, somos chamados a discernir,
enquanto Igreja que somos, que precisamos mudar para permanecermos os mesmos e que rumos
precisamos tomar para sermos fiéis ao Evangelho e ao nosso tempo e contexto.
Há uma rica metodologia que foi consagrada na caminhada de nossa Igreja latino-americana:
o método VER-JULGAR-AGIR. Primeiro, procurar VER a realidade, a partir de análises críticas, e
compreender com profundidade o mundo em que vivemos com seus desafios e urgências. Segundo,
DISCERNIR, pela luz do Espírito Santo e tendo como critério último de juízo a práxis libertadora de
Jesus Cristo, a que somos chamados como cristãos, ou seja, qual a nossa missão. Terceiro, buscar,
com a mesma coragem dos profetas da caminhada da fé, um novo jeito de AGIR que responda à

1
Doutorando em Ciências da Religião, pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC Minas; Mestre em Teo-
logia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE; Licenciado em Filosofia, pela Universidade Federal de Minas
Gerais – UFMG; Professor do Departamento de Ciências da Religião da PUC Minas, onde atua como secretário executivo
do Observatório da Evangelização; Professor do Centro Loyola de Espiritualidade, Fé e Cultura/ FAJE; Professor do Instituto
Regional de Pastoral Catequética – Leste II/ PUC Minas; Membro do Conselho Pastoral Arquidiocesano de Belo Horizonte.
Autor, com João Batista Libanio, de Linguagens sobre Jesus. As linguagens das juventudes e da libertação. Paulus: São
Paulo, 2013 e, com Tânia Dias Jordão e Paulo Sérgio Soares, de A vida dos Santos. Loyola: São Paulo, 2016.

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altura dos desafios e urgências de nosso tempo. Ao longo da caminhada, somos chamados a avaliar
e celebrar os passos dados, voltar às fontes e retomar com novo ânimo e vigor missionário o processo
de conversão a Deus e ao seu Reino de justiça, amor e paz.
Que a 4ª Semana Brasileira de Catequese seja um verdadeiro tempo de abertura, em que nos
fazemos disponíveis à ação do Espírito Santo, Deus em nós, e de sincera busca de conversão a Deus
e de fidelidade ao seguimento de Jesus, no tempo que se chama hoje, e rumo a um futuro que seja
marcado e estruturado pelos valores do Evangelho.
Nossa reflexão, dentro dos limites deste artigo, está organizada em cinco partes. Na primeira, refle-
timos sobre o Cristianismo morno que impera entre nós, ou seja, vivemos um tempo em que predomina
um jeito de ser cristão sem o compromisso diário de conversão a Deus e a uma vida nova, fundada nos
valores do Evangelho; na segunda, debruçamos sobre os desafios de repensar a dinâmica eclesial em
sua busca de formar cristãos adultos na fé; na terceira, analisamos sete das principais mudanças que
transformaram o nosso modo de ser e de conviver com profundas consequências para a vida cristã;
na quarta, chamamos a atenção para os novos interlocutores que a fé cristã encontra em contexto
plural; e, finalmente, na última, tivemos como foco os desafios de repensar a dinâmica da fé cristã
em nossa busca da dupla fidelidade: ao Evangelho do Reino e ao nosso contexto contemporâneo.

1. SER CRISTÃO DEIXOU DE SER UM DESAFIO DIÁRIO DE CONVERSÃO?

De fato, diante do que predomina em nossas comunidades, paróquias, (arqui)dioceses, dá vontade


de perguntar: ser cristão deixou de ser um desafio diário de conversão a Deus e a um novo jeito de
ser e de conviver? Isso porque quando voltamos às fontes da fé cristã, percebemos se tratar de uma
experiência libertadora. Ser cristão é assumir a busca de uma vida nova, impulsionada pelo amor
gratuito de Deus. Vida nova que brota do encontro com a pessoa de Jesus, com seus ensinamentos e
ações. Vida nova que provoca – pela força do Espírito Santo, presença de Deus em nós – a conversão
a Deus e a um jeito de viver e conviver orientado pelos valores do Evangelho.
Quando temos presente a origem e a dinâmica histórica do Cristianismo até nossos dias, notamos
que perdemos muito daquele vigor primeiro. Depois dos três primeiros séculos, vividos em meio a
violentas perseguições e grandes desafios enfrentados ao longo de corajosa caminhada de fé, ao se
tornar a religião oficial do Império, o Cristianismo se transformou. Ele passou a ser a religião domi-
nante e hegemônica no Ocidente. Com isso, em pouco tempo, aglutinou em seu seio grande parte da
população do hemisfério norte e sul. Depois de conquistar praticamente todo o continente europeu;
com o processo histórico da colonização, estendeu os limites de atuação para a América do Norte,
América Central, América Latina, África, além de territórios do Oriente Médio e do continente asiá-
tico. De tal modo concretizou sua expansão, que o impulso missionário de muitos carregava a firme
convicção de que, em um futuro bem próximo, os cristãos dominariam a humanidade inteira e juntos
se tornariam a única religião existente. Com esse expansionismo extraordinário, o “Caminho” para se
tornar cristão, aos poucos, deixou de ser cuidado com esmero. Ser cristão tornou-se uma realidade
sociocultural. Assim, a conversão ao Evangelho do Reino deixa de ser o pressuposto para a acolhida
e inserção de novos membros. Perde centralidade o desconcertante encontro vital com a pessoa de
Jesus Ressuscitado, resultante, geralmente, do querigma, do anúncio-testemunho do Evangelho,

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de uma experiência de fé que suscita profundo processo de conversão a Deus e de adesão ao seu
projeto salvífico universal. A acolhida transformadora do Reino de Deus, vivido na mediação de um
itinerário de inserção em comunidades de fé, de partilha de vida e de concretização histórica da vida
nova, deixa de ser o acesso regular à vida cristã. A fé cristã deixa de ser vivida em comunidade de
pessoas comprometidas: com a acolhida do amor gratuito de Deus; com o cultivo da intimidade com
Deus e da consciência filial; com o desafio de transformar a sociedade em que vivemos pela prática
testemunhal do amor fraterno, da justiça, da partilha e da misericórdia e, sobretudo, pela restauração
da dignidade da vida de cada pessoa socialmente marginalizada ou excluída.
Acontece que o que seduz, encanta e entusiasma os catecúmenos a assumir o seguimento de
Jesus entra pelos olhos para, somente depois, penetrar o coração. É preciso contemplar o Reino de
Deus de forma encarnada na vida de Jesus, mas também na caminhada e no testemunho de uma
comunidade de fé, na qual as pessoas que se assumem como cristãs, por palavras, posturas e ações
proféticas, concretizem o Evangelho anunciado. Portanto, contemplem, de modo visível, práticas
libertadoras no dia a dia da vida em comunidade. Mesmo que tal testemunho seja vivido com altos e
baixos, erros e acertos, os catecúmenos precisam ver, conhecer de perto, o esforço diário da busca de
ser e viver como cristão. Sem esse testemunho histórico, o Evangelho se transforma em mera utopia
distante e perde seu poder de persuasão. Isso porque o ser humano confia mais nas testemunhas do
que nos mestres e doutores.
Aquele otimismo da cristandade, ostentoso, ufanista e ingênuo, que animou o ardor missionário e
apologético de grande parte dos cristãos, sofreu crescentes abalos sísmicos e, por diversos fatores,
arrefeceu o seu vigor. Dentre os fatores que provocaram a crise da cristandade destacamos: a deca-
dência do Império Romano; as crescentes contradições e os cismas internos (clericalismo, conflitos de
poder, autoritarismos, centralismos, exclusões, infidelidades, esquecimentos de princípios estruturantes
do Evangelho, perda de valores, traições, divisões, etc.); a resistência de povos, culturas e de outras
tradições religiosas bastante arraigadas e consolidadas na vida de seus membros; o profundo processo
de secularização provocado pelo Iluminismo, pela Revolução Francesa, pela Revolução Industrial,
pelas duas Grandes Guerras e pelo advento da Modernidade, com a legitimação da subjetividade e
autonomia de cada indivíduo. Diversos processos históricos provocaram crescente perda da centrali-
dade do poder religioso nas sociedades e a separação entre Igreja e Estado. Aconteceu forte perda
da influência do Cristianismo, ou do âmbito religioso, na vida das pessoas em geral e, até mesmo, da
vida privada dos membros de cada tradição religiosa.
Como se não bastasse, o Cristianismo perdeu também a sua unidade e acabou pulverizando-se em
um processo constante de surgimento de novas Igrejas cristãs. No início, violentos conflitos acontece-
ram, com mútuas condenações e perseguições. Mas, com o tempo, a fragmentação do Cristianismo
em uma grande variedade de Igrejas – cada uma com organização e definição própria, seja nos traços
da identidade, seja nos costumes assumidos como expressão de sua doutrina – tornou-se realidade
incontornável.
Outro fenômeno de nosso tempo é o das subdivisões de uma mesma Igreja. Se já não se pode
falar, sem mais, de um único Cristianismo, o mesmo pode ser dito de Igrejas como a Anglicana, a
Batista, a Luterana, a Metodista ou a Presbiteriana. Além disso, surgem movimentos ou dinâmicas
eclesiais que configuram, dentro de uma mesma Igreja, uma diversidade de mentalidades religiosas

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com incontáveis conflitos e estranhamentos, tal como o que acontece, por exemplo, no interior da Igreja
Católica, entre os cristãos católicos caracterizados como mais progressistas e os mais conservadores.
Atualmente, verifica-se, por um lado, nas Igrejas cristãs mais históricas, a tendência de investir na
criação de condições para se avançar no cultivo de posturas ecumênicas e de convivência amistosa
marcada pela suspensão das críticas agressivas. Há um assumido compromisso com a concretização
do diálogo fraterno, caracterizado pelo mútuo respeito, reconhecimento da legitimidade e até mesmo da
aceitação das diferenças, mas com ênfase na convivência pacífica, afirmação do patrimônio comum e
na criação de grupos de estudo, parcerias, etc. O ecumenismo tem caminhado, mas a passos lentos,
com avanços e retrocessos, com inúmeras suspeitas e medos e muitos preconceitos e dificuldades
na transformação de muros em pontes, na superação das barreiras históricas. Por outro, nota-se,
contraditoriamente, com as novas tecnologias, na televisão, na internet (sites, blogs, youtube, etc.)
e nas redes sociais (facebook, twitter, etc.), por parte de alguns líderes religiosos, o crescimento de
uma espécie de neo-apologética, com espírito proselitista, de disputa do legado da Tradição cristã, de
territórios e influências sociopolíticas, com afirmação de identidade eclesial fechada, fundada na crítica
e na negação da autenticidade cristã das demais Igrejas tidas como rivais e inimigas. Fala-se inclusive
de duelo ou de guerra santa. Não faltam publicações de escândalos econômicos e sexuais, bem como
o uso de fake news e outros recursos imorais para destruir a imagem da Igreja que se tem como alvo.
Nas últimas décadas, pesquisas diversas confirmam notável perda do número de cristãos católicos
para outras Igrejas cristãs e, de modo especial entre as juventudes, crescente número dos que se
declaram sem religião. Há um grande número de cristãos que se encontram afastados da Igreja. São
denominados ou se autodenominam como “católicos não praticantes” ou “cristãos desigrejados”, pois
guardam a fé em Deus Pai, Filho e Espírito Santo, fazem suas orações privadas, identificam-se com
alguns símbolos, costumes, ritos e devoções assimilados da experiência cristã, mas vivem a sua fé
sem quaisquer vínculos com alguma Igreja. Há também parcela significativa de cristãos católicos, ainda
que batizados e frequentes na participação de práticas eclesiais tradicionais, tais como sacramentos,
pastorais, grupos de oração, retiros, devoções, procissões, novenas, terços, coroações, dentre outras,
que não tem clareza dos fundamentos da fé cristã, nem dos elementos constitutivos da identidade
cristã católica.
É importante perceber o que se perdeu na caminhada histórica do Cristianismo, a ponto de fazer sur-
gir uma espécie de Cristianismo morno, ou seja, convencional, intimista, espiritualista e sem conversão
a Deus e ao Evangelho. É fundamental entendermos o surgimento de comunidades cristãs focadas nas
regras definidas pela doutrina e na vivência ritual da fé, mas, infelizmente, divorciadas da conversão,
do necessário esforço diário de viver – a vida pessoal, em família e em sociedade, na economia, na
política, no trabalho, enfim, em todos os âmbitos da existência – orientados pelos princípios e valores
do Reino de Deus. É significativo refletirmos sobre as causas históricas do surgimento do que hoje
está disseminado em nossas comunidades: uma realidade de cristãos católicos não suficientemente
evangelizados. Como superar esse contingente de cristãos católicos que percorrem o itinerário ca-
tequético sacramental – Batismo, Eucaristia, Crisma, Penitência, Matrimônio – e que se encontram,
tantas vezes, presentes nos ritos e sacramentos oferecidos pela Igreja, mas que, lamentavelmente,
não vivem a sua fé de forma comprometida com um esmerado processo de conversão a Deus e ao
seu Reino, com o crescimento na corresponsabilidade batismal na vida da Igreja, com a transformação
das estruturas injustas da sociedade e com o cuidado com a casa comum.

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Por que tais situações acontecem? Por que as pessoas sofrem desilusões com as contradições
presentes nas atuais relações eclesiais e, cada vez mais, difíceis de serem abafadas ou mantidas nos
segredos das sacristias? Por que os cristãos não têm sido suficientemente evangelizados? Por que
o mundo passou por tamanhas transformações que o sentido da vida cristã, da ação evangelizadora
e, até mesmo, do modo de organização da dinâmica eclesial já não respondem, com fidelidade, aos
desafios de nosso tempo? Diante de tais questionamentos nos perguntamos ainda: somos capazes
de aprender as lições da história e discernir, com coragem profética e urgência pastoral, o que pre-
cisamos repensar ou ressignificar? Acreditamos que esta alusão inicial aponte perspectivas mais
fecundas para a nossa busca, tão necessária, da dupla fidelidade: à Tradição cristã e aos desafios e
urgências de nosso tempo.

2. AINDA SOMOS CAPAZES DE FORMAR CRISTÃOS ADULTOS NA FÉ?

O cristão adulto na fé, geralmente, é aquele que, por ser evangelizado, procura cultivar a intimidade
com Deus Pai, Filho e Espírito Santo, com a Palavra e busca viver o seguimento de Jesus enquanto
uma vida nova, vivida em comunidade de fé e partilha de vida fraterna, consciente da necessidade de
cuidar do contínuo processo de conversão a Deus e de crescimento na vivência do amor, do diálogo,
do respeito, da misericórdia, da solidariedade e da justiça, no seio da Igreja e na vida em sociedade.
Ele se sente chamado a formular, de forma frequente, para si e para os outros, o núcleo fundamental
de sua fé, o horizonte de sentido de seu viver, além de se mostrar capaz de dar as razões de sua fé
e esperança no Pai, no Filho Jesus e no Espírito Santo (cf. 1 Pd 3, 15). Aqui, emerge a questão: com
nossa atual ação evangelizadora, conseguimos formar cristãos adultos na fé? O que precisamos levar
em conta para aperfeiçoar nossa ação evangelizadora?
A fé cristã tem como alicerce fundante o encontro de fé com a pessoa de Jesus Cristo. A vida
de Jesus de Nazaré nos revela que Deus Pai Criador tem um projeto salvífico universal e não o de
fundar uma religião universal. Não tem sentido uma dinâmica eclesial autocentrada e preocupada,
simplesmente, em aumentar o número de seus membros. A vida de Jesus nos oferece critérios para
discernirmos a vontade de Deus para nós e sintonizarmos com ela em nosso viver e conviver na Igreja
e na sociedade. Através da vida de Jesus, recebemos a boa-nova da proximidade amorosa do Deus
estradeiro conosco. Com Jesus, aprendemos a cultivar intimidade filial com o Pai e, em suas mãos,
confiar a nossa vida, acolher a luz e a força do Espírito Santo enviado aos nossos corações e que,
em nós, faz a sua morada, e a viver confiantes em sua presença de Ressuscitado, sempre conosco
na caminhada da fé. Com Jesus, compreendemos a centralidade da prática da justiça, da acolhida
afetuosa, da misericórdia que perdoa e integra por meio da caminhada e do amor fraterno com quem
nos aproximamos e compartilhamos a vida, pois, nós somos todos irmãos e irmãs, filhos e filhas do
mesmo Pai, amados por Deus.
A experiência autêntica da fé cristã tende sempre a suscitar vida nova, vínculos de fraternidade
e justiça, além de alargar os horizontes de sentido e criar aguçado senso coletivo de amor a toda
humanidade, mas sempre encarnado na realidade social em que vivemos. A fé cristã é fonte de
libertação de pensamentos individualistas e egoístas, estreitos e mesquinhos, de mentalidade
arrogante, agressiva e violenta. A vida nova suscitada pela experiência cristã, necessariamente

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vivida em pequenas comunidades ou em grupos de fé e partilha de vida fraterna, brota, cresce,


frutifica e mantém a sua vitalidade histórica por meio de uma fonte inesgotável: a fé trinitária.
Ela brota do cultivo de fé no Deus da vida, por meio da memória viva da vida de Jesus Cristo,
na luz do Espírito Santo que vem aos nossos corações. Os gestos e ensinamentos proféticos de
Jesus concretizam o Reino de Deus em nossa história e juntos se tornam a baliza da vida cristã.
Viver como Jesus é caminho, verdade e vida que agrada a Deus (cf. Jo 14, 6). De modo que, todo
esforço histórico dos discípulos e discípulas de Jesus, impulsionados pelo encontro de fé com
o Ressuscitado e com o Espírito Santo, é o de formar autênticas comunidades de vida cristã e
concretizar historicamente um poderoso fermento de transformação, pelo testemunho da vida
nova, no seio da Igreja e da sociedade. A Igreja, ao aprofundar o que se revela da parte de Deus,
pela vida de Jesus e a criatividade do Espírito, se autopercebe chamada a ser um sacramento
do Reino, realidade que a ultrapassa infinitamente. O que a fé cristã transmite é bem maior do
que o que cabe no seio de uma religião, pois, a salvação é para toda a criação. Tudo está sob o
dinamismo amoroso da graça de Deus.
Jesus Cristo e o Espírito Santo, as duas mãos do Pai, agem na vida das pessoas, dentro e fora
da Igreja, nas demais mediações religiosas, e na complexidade da vida em sociedade, no sentido
de gerar - cada vez mais - maior qualidade de vida para todos (cf. Jo 10, 10). Vida digna para todos
é o culto maior que agrada a Deus. Isso é maior do que o que qualquer religião abriga e até mesmo
o que todas elas juntas veiculam. Trata-se de uma ação interior e transcendente – consciente em
quem abre o coração para Deus ou inconsciente em quem não tem fé, sem que Deus passe por cima
ou anule a dimensão de autonomia da pessoa – que suscita o desejo de amar, cuidar e promover a
vida. A ação da graça divina é discreta e sutil. Ela supõe, sustenta e interpela, de muitos modos, a
liberdade humana para que cada pessoa, ao deixar-se mover, tenha discernimento, força e coragem
para dizer não ao mal e comprometer-se com a concretização do bem, da justiça, do amor e de tudo
que nos realiza enquanto pessoas, filhos e filhas de Deus. Evangelizar, então, pode ser definido como
um dinamismo que provoca a tomada de consciência do Deus pertinho, Emanuel, sempre conosco,
um Deus que faz de tudo para que cada pessoa descubra no amar a via de salvação e passe a viver
consciente e esperançado de que caminhamos todos para a futura plenitude de comunhão, de uns
com os outros, em seu amor infinito.
Quando os cristãos percebem que o Cristianismo, enquanto sacramento do Reino, veicula em
seus vasos de argila um tesouro, realidade universal, muito maior do que ele próprio, e que pertence a
toda humanidade e que afeta a toda a criação, tornam-se mais humildes e servidores, vocacionados a
concretizar uma mediação histórica para a experiência, anúncio e testemunho do amor de Deus. Deus
não tem religião e ama gratuitamente todos seres humanos como filhos e filhas, e tem como projeto
salvífico que todos aprendam a viver e conviver pautados pela lógica do amor. O amor é o caminho e
o destino último de nossa vida e que é o próprio Deus. Deus é amor e se revela no dinamismo criado
pelo verbo amar.
O nosso desafio é dizer e testemunhar a nossa fé no Deus da vida, que se revela em Jesus, pela
força do Espírito Santo, mas de forma encarnada nas categorias de nosso tempo. Trata-se, portanto,
de uma experiência de liberdade que liberta para amar e praticar a justiça, a misericórdia, o direito e
o respeito mútuo. Uma aliança de liberdade que implica compromisso com a vida nova de quem, pela
graça de Deus, já contempla em cada pessoa um irmão ou uma irmã, um filho ou uma filha amada

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de Deus. Uma experiência que nos leva a fazer a opção primeira pelos últimos, pobres e excluídos da
mesa da dignidade, para que o amor de Deus chegue a todos.

3. O MUNDO PASSOU POR PROFUNDAS TRANSFORMAÇÕES

Passamos por tamanhas transformações socioculturais e os seus impactos afetaram todos os


âmbitos da vida. Podemos afirmar, sem medo de equivocar-nos, que vivemos e convivemos de outra
maneira, nos horizontes de busca e no ritmo da vida, com desafios e urgências incontornáveis. Em
que tais mudanças afetaram e continuam a afetar o jeito das pessoas acolherem e viverem a fé cristã?
O que precisamos, enquanto Igreja, urgentemente, perceber e tentar mudar na dinâmica da fé cristã?

3.1 Subjetividade: a consciência de que cada pessoa é sujeito de sua própria história
As mudanças ocorridas favorecem a tomada de consciência, cada vez mais cedo, de nossa auto-
nomia, de nossa capacidade e do desejo de guiar a própria vida. Trata-se de uma mudança de época.
Ainda que haja pessoas que ainda não passaram pela revolução da subjetividade, podemos afirmar
que, em qualquer grupo e de qualquer natureza, convivência, trabalho, luta, escola, religião ou lazer, as
pessoas desejam participar dos processos decisórios e da construção da resposta às necessidades e
desafios postos. Tudo passa pela decisão pessoal e coletiva, pois, entre sujeitos, o senso de igualdade,
que emerge em cada um, exige outras formas de construção e vivência da autoridade e da liderança.
Impulsionar processos de aprendizagem, de mudança ou de ação implica contínuos espaços de
escuta, conversa e diálogo. Não se educa sujeitos por imposição ou medo. Não se muda alguém que
é sujeito, por determinação ou decreto. Não se consegue levar uma pessoa ou grupo ao nível da ação
por ordem ou resolução de cima para baixo. Repetimos: entre sujeitos tudo passa pela interpelação,
pela sugestão, pelo diálogo, pela provocação que leva a uma adesão pessoal e coletiva.

3.2 Laicidade: no estado laico, o religioso não tem o poder de determinar a vida social
Já houve um tempo em que o poder religioso tinha, praticamente sozinho, o monopólio na deter-
minação da verdade, da moralidade e do que é permitido ou não na dinâmica da vida das pessoas e
da sociedade em todos os seus âmbitos. Com o processo de secularização e de laicização do Estado,
impulsionado, sobretudo, pela razão, pela filosofia, pelo advento das ciências, pelos poderes político e
econômico, como também pelas mudanças culturais advindas do que denominamos de Modernidade, a
religião perdeu de forma crescente o seu espaço central de determinação da vida social. Isso significa
que ela não tem mais o poder de fixar ou impor limites e de decidir o que pode ou não ser considerado
válido na vida das pessoas e da sociedade. De certa forma, nem mesmo na vida de seus membros
ela consegue exercer mais este poder.
Doravante, os postulados, mandamentos, normas, regras ou princípios defendidos por qualquer
religião, seja ela grande ou pequena na sua capacidade de influenciar, terão que passar pelos mesmos
caminhos que qualquer outra instituição, grupo ou pessoa precisa percorrer para influenciar, interpelar,
fazer valer e suscitar a adesão de cada pessoa, grupo ou do todo da sociedade. Uma religião não
pode legislar, a não ser que seus líderes tenham grande poder simbólico sobre a vida das pessoas e

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da sociedade ou, o que tem acontecido com mais frequência em nossos dias, ocupem cadeiras no
poder executivo, legislativo e judiciário e, por isso, consigam maior poder político. Por exemplo, o
posicionamento de um padre, bispo, da CNBB ou do próprio Papa continuam a ter importância ou
relevância na medida em que convence, interpela, provoca e suscita reflexão e adesão dos sujeitos.
Não tem a força da lei em um Estado laico. Os governantes, legisladores e julgadores, ainda que
parciais, pois estão submetidos, de certa forma, à Constituição e à aprovação popular, têm mais
poder político que o religioso. Como quase tudo depende da influência sobre, do convencimento e
da adesão dos cidadãos, os Meios de Comunicação Social adquirem, no contexto de Estado laico,
importância singular, seja para os políticos, seja para os religiosos, pois se tornam formadores de
opinião pública.

3.3 Urbanização: um fenômeno que afeta intensamente a dinâmica da vida das pessoas
Não se trata apenas de morar em cidades. Durante muitos anos, mesmo morando em contexto
urbano, muitos cidadãos conseguiram manter, de forma predominante, a sua cultura rural. Outros
sentem saudade da vida anterior ou sofrem de um saudosismo dos velhos tempos, mas não conse-
guem ou não desejam voltar. Percebem que agora a vida é outra. Aos poucos, a cultura urbana vai
penetrando e modificando o ritmo, o modo de viver no tempo e no espaço, o pensar e o agir, os valores
e os princípios de uma forma singular em cada pessoa. Todos sãos afetados e modificados. Quem
nasce já em contexto urbano tem mais facilidade, não tem dificuldade em se adaptar.
Na cidade, não é possível viver de forma mais isolada, sem se deixar afetar pela iluminação, trânsito,
horário, tempo de deslocamento, alimentação, escola, trabalho, lutas, televisão, contatos, encontros
e grupos de convivência, vivência da família, da amizade, do poder político, do lazer, do adoecer, da
morte e da religião. Há grandes diferenças entre as cidades pequenas, médias e grandes, mas todas
elas criam uma cultura que se torna como que a “segunda natureza” das pessoas. Quem continua a
morar no meio rural, ainda assim, é alcançado pela cultura urbana, seja pelos Meios de Comunicação,
seja pelos familiares que, por diversos motivos, foram viver na cidade.

3.4 Pluralismo cultural: realidade que se tornou evidente, legítima e desafiante


Com as tecnologias de transporte (carro, trem, navio, avião, etc.) e de comunicação (rádio, telefone,
televisão, internet, etc.), o mundo se tornou uma “aldeia global”. O ser humano encurtou as distâncias,
agora consegue atravessar oceanos e extensas longitudes para, de alguma forma, encontrar com o
outro e fazer algum tipo de intercâmbio: fazer comércio, troca, turismo e estabelecer algum tipo de
relacionamento. Percebemos cada vez mais cedo a beleza enriquecedora da diversidade cultural. A
humanidade engloba um enorme conjunto de diferentes culturas, cada uma com suas cores e formas
de viver, agrupar, conviver, acasalar, amar, alimentar, trabalhar, expressar, compreender a vida, valorar,
julgar, crer, divertir, etc.Toda essa diversidade carrega a potencialidade de enriquecer e ampliar os
horizontes de possibilidades, mas também de relativizar, provocar insegurança e amedrontar. Por isso,
aprender a dar passos, tais como o de aproximar com afeto, abrir-se para acolher, reconhecer, valori-
zar, ouvir, conversar, dialogar, trocar ideias, aprender e compartilhar, é fundamental para a construção
da cultura da paz. A identidade em contexto de pluralismo ou se apresenta como realidade aberta,
incompleta e aprendiz, ou se tornará uma arma assassina, que, movida pelo medo, ameaça, persegue,
combate, agride e mata o outro diferente.

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Acontece que, em contexto de “aldeia global”, não é possível viver isolado dos outros, dos
diferentes. Essa pluralidade cultural está presente em nossas cidades cosmopolitas. Cidades
como São Paulo e Rio de Janeiro acolhem moradores e visitantes dos mais diversos países e
estados deste país continental. Sem aprendermos a conviver com o diferente, a respeitar e a
reconhecer o direito de ser diferente, os conflitos se tornam insuportáveis e a violência passa a
ser a realidade cotidiana.

3.5 Pluralismo religioso: diversidade de tradições,


Igrejas cristãs e mentalidades religiosas
O que dissemos anteriormente sobre o pluralismo cultural pode igualmente servir para captarmos
a complexa realidade do pluralismo religioso. No contexto atual, constatamos facilmente a pluralidade
do fenômeno religioso. A humanidade, ao longo de sua história, criou ricas e distintas tradições de
sabedoria. Isso significa que o Cristianismo é apenas uma entre outras tantas e diversas tradições
religiosas, cada uma com seu conjunto definido de crenças, ritos, experiências, linguagens, símbolos,
princípios, valores, tempos, espaços e costumes doutrinais. Para além dos conflitos históricos e di-
ferenças visíveis, o contexto de “aldeia global” ampliou as oportunidades e os espaços de contato e
interação entre as diversas religiões, seja porque seus membros convivem e são chamados a coexistir
na mesma família, grupo, local de trabalho, universidade, cidade, bairro, prédio, condomínio, seja
porque, nas grandes cidades e nos novos meios de comunicação, elas recorrentemente se encontram
e com cada vez maior proximidade.
Além disso, os grandes desafios, que afetam a humanidade, não escolhem credo ou etnia, todos
são afetados por uma guerra, por uma migração em massa, por uma catástrofe. Em cada país, a
diversidade religiosa, por vários fatores, tende a tornar-se crescente, ainda que algumas sejam pre-
dominantes e outras minoritárias. Por exemplo, se no Japão ou na China, os cristãos são minoria, no
Brasil e na Itália são maioria.
Como se não bastasse, em cada religião, ao longo de sua história, quando se torna presente em
diversos países e acolhe membros muitos distintos culturalmente uns dos outros, surgem conflitos
de ideias. Ela tende a se tornar plural no sentido de haver subdivisões ou tão somente pelo fato de
abrigar mentalidades religiosas muito diferentes. Por tudo isso, formar identidades abertas, tolerantes e
aprendizes, com pessoas capazes de aprender a coexistir e a conviver, com respeito e reconhecimento
mútuos, e a dialogar fraternalmente, é fundamental para a construção da cultura da paz.

3.6 Consciência ecológica: desafio e urgência incontornável de nosso tempo


Há questões que dizem respeito a todos nós. Uma delas é a questão ecológica. Tomamos
consciência de que o nosso planeta Terra possui limites para se manter equilibrado e que estes
estão sendo desprezados e ultrapassados pela humanidade. Estes limites se tornaram, nos últi-
mos anos, cada vez mais conhecidos. O modelo de desenvolvimento extrativista predominante, o
uso de combustíveis fósseis, o uso de agrotóxicos, a poluição dos mares, rios, lagos e aquíferos,
o crescimento desordenado da população mundial, a aguda desigualdade social, dentre outros,
consolidaram uma situação que, de tão grave, ameaça o futuro da vida em nosso planeta. Aos
poucos, fomos nos dando conta de que muitas ações humanas estão afetando drasticamente seu
equilíbrio. Isso significa que o sistema vida, ou seja, o conjunto das condições socioambientais que

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sustenta e mantém a vida na Terra está sendo ameaçado de forma crescente, fazendo com que
seu equilíbrio se torne cada vez mais vulnerável.
Os conhecimentos acumulados pela humanidade, por meio das diversas ciências juntamente com
as tecnologias de ponta que hoje estão disponíveis, indicam que se continuarmos a agir do mesmo
jeito, muito em breve, não teremos mais como reverter o diagnóstico. É como uma doença que em
fase avançada não há mais o que fazer a não ser esperar a morte chegar. A situação é tão grave que
o Papa Francisco organizou um documento, a Laudato Si’(LS), que inseriu definitivamente a questão
ecológica na doutrina social da Igreja.

3.7 O mundo dos pobres: a desigualdade social


e suas consequências não podem ser ignoradas

A realidade de profunda desigualdade social que impera entre nós escancara as contradições que
sempre estiveram presentes nas dinâmicas de construção das estruturas sociais latino-americanas
e denuncia a ineficácia dos processos de transformação na América Latina. A história de nossas
sociedades, apesar de todos os processos de transformação social, de elaboração de novos conheci-
mentos e de inovações tecnológicas, testemunha a nossa incapacidade de garantir a todos e a todas
um lugar na mesa da cidadania ou de assegurar a universalidade do acesso a uma vida digna. Há
uma lógica interna de acumulação do poder econômico nas mãos de poucos e um mecanismo sutil
de perpetuação da exclusão social de muitos e, de modo quase generalizado, dos que são oriundos
de povos indígenas, que aqui foram totalmente dominados, e dos povos africanos, que para cá foram
trazidos sob o peso do chicote da escravidão. Tal realidade cristalizou, ao longo de nossa história,
sólidas estruturas injustas, que conseguem conservar e ampliar, a cada geração, o fosso, quase
intransponível, entre ricos e pobres.
Com o poder econômico cada vez mais concentrado nas mãos de poucos; muitos, para sobreviver,
tornam-se reféns e submetem-se a condições sociais e de trabalho profundamente degradantes. Estas
ampliam, de geração em geração e de forma crescente e duradoura, a triste realidade da exclusão,
seja do exercício legítimo do poder sociopolítico, seja do acesso aos direitos sociais básicos para a
cidadania: saúde, educação, moradia, saneamento básico, terra, transporte, arte e lazer. O resultado
histórico foi a criação de uma democracia formal e nominal, na qual “uns são mais iguais que os ou-
tros”, a depender de sua classe ou casta de pertença social, e que sempre conseguiu naturalizar tal
estrutura injusta, utilizando-se quase sempre da conivência e da bênção das instituições religiosas,
como denuncia a segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, em Medellín, no ano
de 1968. Consequentemente, os empobrecidos, as grandes vítimas do sistema, se tornam, na trágica
expressão cunhada pelo jornalista Gilberto Dimenstein, “cidadãos de papel”, ou, se pode-se dizer
assim, cidadãos de segunda categoria.
Importa reconhecer que tais mudanças provocaram, interpelaram e continuarão a suscitar
inúmeros impactos diretos e indiretos sobre a fé cristã, de tal forma, que já não podemos e nem
poderemos ser cristãos do mesmo jeito. Não dá mais para sermos evangelizados e evangelizar
sem ouvir e acolher o clamor dos mais pobres, nos debruçarmos sobre os desafios e urgências
que provocam, na vida eclesial e nas sociedades latino-americanas, o compromisso de repensar
a dinâmica da fé cristã.

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4. NOVOS INTERLOCUTORES DA FÉ CRISTÃ

Para maior clareza dos desafios e urgências, que temos diante de nós, e, enquanto Igreja,
termos coragem de discernir os novos rumos que precisamos tomar em nossa ação evangeliza-
dora para sermos fiéis a nossa missão, é fundamental refletirmos sobre os novos interlocutores
da fé cristã.
No mundo em que vivemos, quem são as pessoas com as quais nos relacionamos dentro e fora
de nossas comunidades? Qual o perfil predominante em nossas lideranças, agentes de pastoral,
catequistas, membros das comunidades, juventudes e catequizandos em geral?
A seguir apresentaremos, sem qualquer pretensão de completude, as principais características e
cada vez mais predominantes que encontramos nas pessoas de nosso tempo.

4.1 Pessoas transformadas pela cultura secularizada


Por cultura secularizada, nós entendemos a cultura moderna na qual a razão ocupou o centro de
determinação na leitura e compreensão do mundo, da vida e de seus fenômenos diversos. Trata-se do
resultado cultural de uma realidade profundamente marcada pela análise das ciências que, por meios
de métodos e instrumentos de pesquisa e coleta de dados, levam a resultados demonstráveis pela
razão instrumental. Por exemplo, uma seca ou enchente, bem como qualquer outro fenômeno que se
apresente diante de nós, tudo tem uma explicação causal que pode e deve ser buscada, explicitada
e, finalmente, compreendida por nós. Isso depois de um conjunto de rigorosos procedimentos que
chamamos de fazer ciência. Assim, aplicando determinada metodologia, chega-se a um esclareci-
mento das razões ou motivos da seca ou enchente. Com isso, a razão passou a ocupar o lugar central
da fonte de explicação em detrimento da fé, ou seja, a ciência passou a ter maior poder, autoridade,
legitimidade e reconhecimento do que a religião enquanto fonte de explicação última dos fenômenos
e, consequentemente, na determinação da vida em sociedade.
Entre os adultos, homens e mulheres, que tiveram contato direto com o mundo das ciências com
suas técnicas de pesquisa e instrumentos de análise, a mentalidade e a vivência religiosas sofreram
alterações profundas visíveis com a cultura secularizada. Os jovens que, por terem nascidos em
um mundo urbano e com acesso direto à mentalidade científica, ingressam no meio universitário e
acessam às novas tecnologias e mídias sociais, sobretudo a internet, são os que têm a mentalidade
religiosa mais transformada, de modo irreversível, pela cultura secularizada. Talvez, por isso, sejam
os que as nossas atuais ações evangelizadoras estão encontrando maior dificuldade em chegar
ao coração.
Uma experiência religiosa narrada em chave pré-moderna – por exemplo, os sinais que Jesus
realizou, denominados em linguagem religiosa de milagres – provoca tamanhos curtos-circuitos
que precisam ser refletidos e interpretados com muito cuidado, sob pena de não ser compreendida
e acolhida sem deturpações na vivência da fé. Podemos observar que uma parcela significativa dos
jovens, que estão inseridos em nossas comunidades, possuem uma mentalidade religiosa infantil e
praticamente mágica.
A nossa catequese tem se preparado para acolher, dialogar, compreender e evangelizar as pessoas
com mentalidade secularizada?

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4.2 Pessoas transformadas pela experiência com as novas tecnologias


As novas tecnologias de pesquisa, produção, transporte e comunicação transformaram não apenas
o nosso modo de contemplar e compreender o mundo, mas também o jeito de ser, a sensibilidade,
os valores e o próprio modo de pensar das pessoas. As pessoas, que inseriram as novas tecnologias
em suas vidas, passaram a viver e a conviver de outra maneira. Por exemplo, quando têm dúvidas ou
refletem sobre qualquer temática, recorrem, com grande confiança, aos conhecimentos disponibilizados
pela internet ao alcance das mãos. Imagens significativas e provocantes ou pequenos vídeos passam
a ter uma valorização muito maior do que o lento acesso às respostas via leitura de um livro e reflexão.
As pessoas passam a ter maior acesso à informação, mas baixo cultivo da memória histórica, pouca
capacidade de análise ou síntese crítica e relacional. Ao mesmo tempo são mais tolerantes e capazes
de relativizar ou desprezar uma tradição ou preceito moral, sobretudo, quando estão diante de uma
proposta que lhes pareça inovadora, moderna, arrojada e toda atrativa.
Sem qualquer juízo de valor, podemos afirmar que essas mudanças precisam ser refletidas,
conhecidas e levadas em consideração quando discutimos um projeto de evangelização, a dinâmica
da catequese, a homilia, a ação pastoral, os processos de transmissão, recepção, aprofundamento e
vivência da própria experiência religiosa. Isso porque se não fizermos isto não conseguiremos transmitir
de forma significativa a experiência cristã. Não se trata apenas de uma atualização das linguagens
e dos procedimentos técnicos, mas também da concepção, do discernimento dos objetivos a serem
alcançados, dos meios e recursos que serão utilizados ou desprezados, das novas prioridades e opções
pastorais, das críticas que precisam ser feitas para superar ingenuidades, corrigir miopias ou discutir
garantias para que todos tenham acesso sem qualquer forma de exclusão social.
A nossa catequese tem se preparado para acolher, dialogar, compreender e evangelizar as pessoas
com mentalidade tecnicista e moderna, conectada ou internética (“geração google”)?

4.3 Pessoas transformadas pela cidade enquanto um lugar de possibilidades novas


A vida urbana altera profundamente o ritmo e o modo de compreender e concretizar a dinâmica da
vida, mas igualmente transforma o jeito de ser e de conviver das pessoas. Por exemplo, nas experi-
ências vividas no seio da família, nas relações de amizade, na vida escolar, no ambiente de trabalho,
na vida política, nas relações econômicas, no cuidado com a saúde e a alimentação, no tempo e nos
métodos de deslocamento, na vivência do esporte, do lazer, da sexualidade, da religião, etc. Nenhum
âmbito da vida permanece intocado. Tudo é afetado e se modifica. Não dá para alimentar saudosismos
que idealizam um passado que já não volta mais.
O contexto urbano trouxe, é verdade, inúmeros desafios novos e agigantou os que já existiam no
contexto rural – perda da identidade, solidão, consumismo, estresse, desigualdade socioeconômica,
desemprego, violência, exclusão social, preconceitos, drogas, etc. –, mas também multiplicou possibi-
lidades novas – participação em grupos diversos, experiências multiculturais, plurirreligiosas, acesso
à educação, qualificação da mão de obra, tecnologias diversas, saúde, trabalho, viagens, comércio,
lazer, etc. –, e ampliou os horizontes de sentido para a vida das pessoas.
Muitos já disseram que a experiência cristã foi elaborada em contexto rural e analisam que ela
ainda não conseguiu levar a sério as necessárias mudanças que precisam ser feitas em sua própria
dinâmica para que ela continue a ser, no contexto contemporâneo, o que foi, outrora, para a vida das

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pessoas: experiência de humanização, lugar de encontro e crescimento, fonte de novos horizontes


de sentido, experiência de vida nova.
A nossa catequese tem se preparado para acolher, dialogar, compreender e evangelizar as pessoas
com mentalidade urbana?

4.4 Pessoas pertencentes a outras religiões,


Igrejas ou que se tornaram avessos à religião
Em cada país, estado, cidade, bairro, rua, condomínio, grupo de trabalho, família, grupo de amigos,
etc., a diversidade de tradições, posturas e mentalidades religiosas de alguma forma se faz presen-
te. Não é tarefa simples ser cristão católico em meio a uma variedade de mentalidades e posturas
religiosas, que parecem se contradizer no seio da mesma Igreja. A complexidade amplia-se quando
nos reunimos e convivemos com pessoas de Igrejas distintas e, mais ainda, quando com aquelas
pertencentes a tradições religiosas bastante distintas. O que dizer quando, como cristãos católicos,
estamos diante de pessoas afetivamente próximas, mas que se declaram avessas à religião ou, até
mesmo, sem fé em Deus?
O (des)encontro com a diversidade de mentalidade e posturas religiosas não é mais experiência
excepcional, mas cotidiana. O conflito de mentalidades e posturas religiosas não é mais uma realidade
extraordinária de alguns, exceção é quem ainda não se esbarrou no desafio de ser cristão católico
em contexto plural. Nossa identidade religiosa não foi preparada para a tolerância, o respeito mútuo,
a abertura e o aprendizado com o outro diferente.
Precisamos pensar a dinâmica da fé cristã a partir do desafio da cultura da paz. É urgente repen-
sarmos o que entendemos por identidade religiosa de cristãos católicos numa sociedade plural. A
própria configuração histórica da identidade precisa ser refletida. Mais importante ainda é pensarmos
uma evangelização, uma catequese que nos ensine e nos capacite a ser cristãos católicos e a conviver,
de forma respeitosa, tolerante, fraterna, solidária, dialogal e aprendiz com os outros cristãos católicos,
com os cristãos de outras Igrejas, com os membros de outras religiões, com os que se declaram sem
religião e, finalmente, com os que se declaram sem fé em Deus.
A nossa catequese tem se preparado para acolher, dialogar, compreender e evangelizar pessoas
para viver e conviver em um mundo plural?

4.5 Pessoas carentes de afeto e reconhecimento,


desejosas de serem ouvidas e de participarem

Devido ao contexto urbano em que vivemos, no qual impera, frequentemente, a experiência do ano-
nimato e das relações sociais formais, superficiais e, muitas vezes, frias, em realidades verticalizadas,
cada vez mais as pessoas, sobretudo as que passaram pela revolução da subjetividade, as juventudes,
apresentam-se sedentas de espaços de participação, onde sejam, de fato, acolhidas, valorizadas,
respeitadas, ouvidas e se tornem participantes dos processos. Uma evangelização de massa não toca
o mais profundo, não aquece o coração, não provoca conversão ou mudança das estruturas sociais.
Daí a urgência em pensarmos um Cristianismo estruturado em pequenas comunidades, com
dinâmicas participativas em pequenos grupos diversos. Essa transformação de nossas dioceses e
paróquias mostra-se cada vez mais necessária e urgente.

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A fé cristã traz em seu núcleo uma experiência que promove coesão e espírito de família, bem
como uma corresponsabilidade na missão intrínseca à aliança de amor com Deus. Não obstante,
esta constatação estruturante, tornou-se hegemônica, no contexto católico, a configuração de um
Cristianismo clerical, ritualista e intimista, concentrado em seus processos decisivos nas mãos dos
ministros ordenados e de um pequeno conselho ou grupo de lideranças, encontra-se na contramão
dessa realidade social contemporânea e dos anseios da cultura atual. É importante dizer que o Cris-
tianismo tem experiências diversas e, em muitos lugares, já apresenta experiências diferenciadas e
que procuram responder de forma significativa para as pessoas de nosso tempo. Outro Cristianismo
possível, no sentido de, para permanecer o mesmo, pode ser pensado e apresentar-se de outra ma-
neira, respondendo assim aos anseios de seus novos interlocutores.
A nossa catequese tem se preparado para acolher, dialogar, compreender e evangelizar as pessoas
com a consciência de ser sujeitos e portadoras do anseio de participar?

4.6 Pessoas cientes de sua singularidade, liberdade e igual dignidade


Na mesma direção da reflexão anterior, a dinâmica sociocultural do nosso tempo desperta, cada
vez mais cedo, o senso da individualidade, a consciência do valor singular e, ao mesmo tempo, os
ideais de “igualdade, liberdade e fraternidade”, consagrados na Revolução Francesa. Daí a importân-
cia de se discutir outra relação eclesial possível entre clérigos, religiosos e leigos, bem como a plena
cidadania eclesial e social da mulher, a partir da centralidade do Batismo e da Palavra de Deus e,
sobretudo, considerá-lo como critério de legitimidade de todo exercício de poder, no seio da Igreja, e
como lógica do serviço que se presta ao povo de Deus e não o da lógica da dominação e da supe-
rioridade consagrados.
Se quisermos avançar para um Cristianismo que responda aos sinais do tempo, será necessário
investirmos na recuperação da dimensão sinodal e corresponsável de cada Igreja particular na
unidade e comunhão da Igreja universal. Recuperar igualmente o respeito ao senso comum dos
fiéis, além de despertar o senso da corresponsabilidade de cada batizado, da unidade que brota do
diálogo fraterno, do discernimento e do respeito e reconhecimento da legítima pluralidade criativa
que nasce dos distintos dons do Espírito Santo. Além de recuperar, do mesmo modo, o senso da
unidade e da comunhão em torno da pessoa de Jesus Cristo e da prática comunitária da justiça,
da misericórdia e do amor fraterno.
A nossa catequese tem se preocupado com o respeito à individualidade e despertado o sendo de
corresponsabilidade que brota do seguimento de Jesus?

4.7 Pessoas excluídas da mesa da cidadania e da dignidade humana


A lógica de concentração de renda nas mãos de poucos criou um sistema sociopolítico e econômico
profundamente injusto e excludente. Com o neoliberalismo e sua cultura hegemônica do capital espe-
culativo, a cada ano que passa, torna-se ainda mais visível o perverso fosso entre ricos e pobres, de
tal modo que uma parcela cada vez mais significativa da população é excluída da mesa da cidadania
e da vida digna. A apropriação do sistema político pelas elites econômicas impede que aconteçam
necessárias reformas, políticas públicas de transferência de renda, ações afirmativas de inclusão
social e concretização dos direitos sociais garantidos na Constituição Federal. Com isso, muitos ficam

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excluídos do acesso à terra, à água potável, à moradia, ao saneamento básico, à saúde, à educação,
ao trabalho digno, ao transporte, à segurança e ao lazer.
A dimensão social da ação evangelizadora, apesar da clareza solar dos princípios do Evangelho
da justiça e da fraternidade e da Doutrina Social da Igreja, ficou, muitas vezes, enfraquecida ou
esquecida na ação de nossa Igreja latino-americana. Reconhecemos, na Conferência de Medellín,
em 1968, que ficamos quase sempre ao lado dos poderosos deste mundo e não dos pobres e ex-
cluídos em sua luta por libertação. Entre nós, desde a busca de recepção do Concílio Vaticano II,
nos textos das Conferências Episcopais, na dinâmica das CEBs, nas pastorais sociais, na reflexão
engajada da teologia latino-americana, na inserção da vida religiosa, etc., a Igreja tem se mostrado
mais preocupada com a superação dessa deturpação histórica. Reconhecemos, no contexto atual,
a necessidade de múltiplas perspectivas de conversão: pessoal, social, pastoral e eclesial. O Papa
Francisco, Papa do fim do mundo, tem chamado a atenção para isso, de modo singular no capítulo
quatro de sua exortação apostólica Evangelii Gaudium (EG) e em seu magistério dos gestos pro-
féticos, da importância de caminharmos para uma Igreja pobre e para os pobres, para que o amor
de Deus chegue a todos.
A nossa catequese tem se preparado para acolher a centralidade dos pobres e formar cristãos que
ajudem a construir a Igreja pobre e para os pobres, comprometida com o Reino de Deus e a fidelidade
ao Evangelho da justiça e da fraternidade?

5. O DESAFIO DE REPENSAR A DINÂMICA DA FÉ CRISTÃ


EM UM CONTEXTO DE PLURALISMO CULTURAL E RELIGIOSO

Entre as diversas transformações apontadas anteriormente, nos deteremos, agora, no desafio de


ser cristão em um contexto de reconhecido pluralismo religioso. Como anunciar-testemunhar a fé cristã,
cuja pretensão é a de ser portadora de uma boa-nova universal, o projeto salvífico de Deus, em um
cenário de pluralismo de Igrejas cristãs, de religiões e de pessoas que se declaram sem religião ou
sem fé em Deus? Que mudanças precisamos, com coragem, promover em nossa dinâmica eclesial?

5.1 É urgente superar a tentação de combater ou


de ignorar as demais tradições religiosas

É preciso reconhecer que, durante muito tempo, nós, cristãos, compreendemos a missão da
Igreja de maneira ilusória e equivocada. Como a única portadora da verdade plena, seu objetivo
iria sendo alcançado à medida que combatesse e fosse tomando espaço ou convertesse adeptos
das outras tradições religiosas. Desse modo, muitos cristãos se aproximavam das demais religiões
como quem se aproxima de inimigos a serem eliminados ou de falsidades demoníacas a serem
desmascaradas. Cristãos, com tal mentalidade religiosa, não procuravam conhecer, ouvir, dialogar,
compartilhar ou aprender, pois, tinham a pretensão de possuir a plenitude da verdade revelada por
Deus. Não tinham nada a aprender, mas apenas a ensinar. O objetivo maior, consequentemente,
era o de anunciar a verdade plena de Deus e de seu projeto, libertando as pessoas do poder dos
demônios da mentira e da ilusão. Quando o Cristianismo se tornasse a religião universal o mundo
estaria liberto do mal.

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À medida que o pluralismo cultural e religioso foi se tornando evidente, um projeto religiocêntrico
(uma única religião no centro) ou eclesiocêntrico (uma única Igreja no centro) fracassou. Ainda
há muitos cristãos católicos com tal mentalidade religiosa triunfalista, segundo a qual apenas o
Cristianismo é portador da plenitude da verdade, sendo as demais religiões falsas ou, no mínimo,
inferiores na compreensão da verdade e da vontade de Deus. Acreditam que um dia, se Deus quiser,
todos irão reconhecer o Cristianismo como único caminho de salvação. Com a consciência atual,
a ação evangelizadora e a catequese não podem mais ser concebidas de forma tão ensimesmada
ou autocentrada. É importante repensar a identidade cristã como uma realidade aberta e sempre
em construção, chamada a aprender com o outro na busca conjunta pela verdade e, por meio do
cultivo de uma postura de respeito e diálogo fraterno inter-religioso, compartilhar o compromisso
com a construção de uma cultura, coletiva enquanto humanidade; da justiça; do cuidado com a
vida; e da paz.

5.2 É preciso superar a pretensão católica


de desbancar ou ignorar as outras Igrejas cristãs

Como já dissemos, o Cristianismo, infelizmente, se tornou uma religião multieclesial, isto é, formada
por muitas Igrejas. Não nos cabe aqui fazer juízos, mas constatar a realidade. Além da Igreja católi-
ca, há diversas Igrejas cristãs: ortodoxas, protestantes, pentecostais e neopentecostais, umas mais
consolidadas historicamente, enquanto outras mais recentes. Ainda que reconheçamos que juntas,
tais Igrejas formem a única e mesma Igreja fundada na memória viva de Jesus Cristo, conduzida pelo
mesmo Espírito e guiada pela mesma Palavra de Deus, os muros históricos das divisões estão longe
de serem transformados em pontes de encontro, reconhecimento, respeito mútuo e diálogo fraternos.
O ecumenismo é uma busca e uma construção histórica que deve estar acalentado no coração de
todos nós. Isso porque no centro da experiência cristã está o amor gratuito de Deus que nos irmana
e nos desafia a concretizar o amor ao próximo.
Já demos passos importantes de aproximação e diálogo, entre as Igrejas, com a criação do Con-
selho Mundial de Igrejas (CMI) e do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), mas precisamos
avançar na construção de uma outra convivência possível. Com a consciência que temos hoje, não
dá mais para conceber a ação evangelizadora e, portanto, compreender a catequese de forma a
ignorar esse pluralismo de Igrejas, sem construir uma outra mentalidade eclesial possível. Importa
repensar a identidade eclesial como uma realidade aberta, em construção, capaz de aproximar, fazer
parcerias fraternas, dialogar e aprender uns com os outros na busca de concretizar o seguimento de
Jesus e responder aos desafios e urgências de nosso tempo. O Papa Francisco tem nos estimulado
e testemunhado com gestos concretos que é possível dar passos concretos no ecumenismo entre
as Igrejas cristãs.

5.3 Não podemos ignorar a realidade dos sem religião e dos sem fé em Deus
Em um contexto de pluralismo cultural e religioso, com experiência concreta de vivermos em
uma “aldeia global” interligada e conectada, não bastam o reconhecimento, o respeito mútuo e o
diálogo fraterno entre as religiões e as Igrejas. O que importa é avançarmos para a construção de
um senso coletivo, de um humanismo que inclua, de fato, todas as pessoas na mesa da dignidade
de uma cidadania planetária. Hoje, falamos de direitos e deveres humanos universais. Desse modo,

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no esforço de pensarmos valores e princípios para um consenso ético mínimo em nível planetário,
torna-se relevante revermos nossos conceitos e mentalidades em relação aos que se declaram sem
religião ou mesmo sem fé em Deus. Isso porque, em nossa história, muito preconceito, violência
e sangue já foram derramados por intolerância e ódio para com aqueles que se assumem sem
religião e sem fé em Deus.
Com a consciência que temos hoje, não dá mais para conceber a ação evangelizadora e,
portanto, compreender a catequese de forma tão estreita a ponto de excluir de nossa convivência
aqueles que se declaram sem religião ou sem fé em Deus. Importa repensar, inclusive, o conteúdo
da missão cristã enquanto anúncio/testemunho de uma experiência de Deus que nos liberta, de
fato, para uma vida nova fundada na práxis da justiça, da misericórdia e do amor fraterno. Isso
implica o cultivo de um profundo senso coletivo de igual dignidade humana, afinal somos todos e
todas, filhos e filhas, amados de Deus. Assim, interessa cultivarmos identidade mais aberta, ou
seja, planetária, alimentada por valores e princípios que, realmente, nos irmanam e nos capacitam
para o reconhecimento, a convivência, o respeito mútuo e o diálogo fraterno para com qualquer
pessoa, sem juízos de valor, exclusão social ou condenação prévia. A experiência nos mostra que
é possível, enquanto cristãos, concretizarmos ações humanitárias, sociopolíticas e ecológicas,
de mãos dadas com pessoas adeptas de outras tradições religiosas e, igualmente, com pessoas
sem religião e sem fé em Deus. Juntos somos chamados a combater toda forma de preconceito
ou discriminação.

5.4 A apologética e o proselitismo,


ainda que praticados, perderam legitimidade

Em um contexto de pluralismo cultural e religioso, toda forma de apologética, como disputas,


agressões e violências religiosas, bem como práticas proselitistas, ou seja, ações que visem funda-
mentalmente tirar pessoas de outras tradições religiosas e estrategicamente convertê-las à nossa
religião, ainda que praticadas por muitos, perderam toda legitimidade moral e, por bom senso e coe-
rência ética, a sua própria razão de ser. Isso por razões que deveriam ser óbvias para todos: nós não
apenas reconhecemos a legitimidade do pluralismo cultural e religioso, mas também a autonomia de
cada pessoa para buscar a melhor forma de viver, sem prejudicar os demais ou anular o princípio da
reciprocidade, ou seja, se eu tenho o direito de escolher a vida que quero levar, devo reconhecer no
outro este mesmo direito.
Com a consciência que temos hoje, não dá mais para conceber a missão, a ação evangeli-
zadora e, portanto, a catequese como uma disputa de território. É necessário repensar a nossa
identidade cristã pessoal e coletiva, bem como o que entendemos por anúncio do Reino e da
boa-nova de Jesus. O que passa a ser cada vez mais relevante e fonte de atração será o teste-
munho da vida nova que assumimos, com liberdade e entrega, no seguimento de Jesus na vida
eclesial e em sociedade. Mais do que palavras, as pessoas, em sua liberdade, serão atraídas e
desejarão ser cristãs quando perceberem, na nossa vida pessoal e em comunidade, o diferen-
cial, a beleza e a alegria da conversão de quem acolheu e deixou-se transformar pelo encontro
e seguimento de Jesus. O Cristianismo deixará de ser transmitido e propagar-se por convenção
social ou costume, para tornar-se uma experiência de fé que provoca adesão livre e conversão
a Jesus Cristo, tornando-se Igreja viva.

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5.5 É imperativo repensar o sentido de evangelizar


Em uma realidade de legítimo pluralismo cultural e religioso, o sentido de evangelizar precisa ser
profundamente repensado. Não dá mais para conceber a evangelização como uma espécie de pre-
gação moral pública, embasada em conteúdo bíblico, com preocupações autorreferenciais. No fundo,
o que importa é passar uma boa imagem de si para aumentar o número de adeptos. Pode até ser
que muitos sejam atraídos por um eloquente pregador e entrem na Igreja, mas, além deste método
ser cada vez mais questionado em sua legitimidade, estes que entram tão somente pela pregação,
muitas vezes moralista e ameaçadora, tendem a não perseverar ou permanecer, sobretudo, quando
não há comunidades cristãs que encarnam a vida nova anunciada.
Trata-se, em primeiro lugar, de buscar mecanismos e instrumentos públicos – isso significa fora
dos muros da Igreja e com a consciência dos limites de estarmos inseridos num Estado laico e em
um contexto de legítimo pluralismo cultural e religioso – que tornem a pessoa de Jesus cada vez mais
conhecida. A experiência mostra que o melhor caminho para concretizar esta via fundamental está no
testemunho coerente, pessoal e comunitário, de quem vai assumindo, para valer, a fé cristã, o segui-
mento de Jesus, como uma autêntica fonte de vida nova. Portanto, evangelizar passa a ser algo com
conteúdo visível para os olhos, que atrai mais pelas atitudes que se vê do que por palavras bonitas.
Em segundo lugar, importa melhor cuidarmos dos processos eclesiais internos – espiritualidade,
liturgia, pregação, catequese, acolhida fraterna, organização dinâmica e participativa, participação em
atividades concretas, relevantes e significativas, em pastorais sociais sem qualquer autorreferencialidade
(ou seja, ajudar gratuitamente sem olhar a quem), acesso à formação bíblica, coerência ética, etc. – de
tal maneira que eles favoreçam e estimulem, seja o encontro, pessoal e comunitário, de cada membro
com a pessoa de Jesus, seja, igualmente, por uma experiência crescente da beleza e da alegria de viver
significativamente em comunidades de fé e partilha de vida fraterna. A fidelidade e a perseverança exigem
comunidades estruturadas e comprometidas com o processo contínuo de conversão a Deus e uma maior
concretização da vida nova fundada na misericórdia, na justiça e no amor fraterno.

5.6 É tempo de se viver a fé cristã como vínculo de liberdade


Em contexto de pluralismo cultural e religioso, com pessoas conscientes de sua autonomia, não
dá mais que a experiência religiosa pretenda continuar a ser assumida, sob a égide do medo da
condenação eterna, como uma realidade centrada em proibições e obrigações morais, impostas de
fora pela instituição em nome de Deus, ainda que seja apresentada de forma fundamentada em uma
leitura das Escrituras e que tenha funcionado em outros tempos.
Hoje, insistir nessa pedagogia não dará mais certo. Dessa forma, as pessoas experimentam a
vida cristã como uma realidade que as infantiliza. Por isso, não assumem para valer a fé cristã. Não
há fundamentalmente uma adesão, uma conversão, uma convicção pessoal brotada de um encontro
libertador com a pessoa de Jesus e, por isso mesmo, uma realidade que é assumida com alegria e
busca cotidiana de coerência testemunhal. Em outras palavras, não dá mais para manter, sem grandes
perdas, uma realidade eclesial na qual as pessoas vão à igreja sem experimentar e assumir, livremente,
que elas mesmas, como “pedras vivas”, formam a Igreja de Cristo. A identidade precisa ser resultante
de uma experiência significativa para ser assumida, enquanto “vínculos de liberdade”, uma realidade
que passa pela adesão livre e vai tomando conta da vida da pessoa na medida em que vai suscitando
novos horizontes de sentido.

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5.7 É tempo de se viver a fé cristã em pequenas comunidades de fé e partilha de vida


Em um mundo de pluralismo cultural e religioso, com pessoas vivendo em complexos contextos
urbanos e conscientes de sua autonomia, a fé cristã, para ser significativa, precisa ser vivida em peque-
nas comunidades acolhedoras, afetivamente envolventes, participativas e, pelo menos, no esforço e na
busca, coerentes com a prática do amor fraterno, da partilha de vida e da justiça que inclui a todos na
mesa da dignidade dos filhos e filhas de Deus. É preciso superar a compreensão de um Cristianismo
de massa, no qual as pessoas não se conhecem e nem crescem na experiência e na dinâmica da
vida cristã. Esta, para ter credibilidade, exige convivência justa e fraterna no nível interno, enquanto
fermento transformador para a vida em sociedade. A fé cristã vivida em comunidade é chamada a
nos aperfeiçoar enquanto pessoas humanas e cidadãs. Como nos atenta Papa Francisco, há uma
dimensão social estruturante na dinâmica de acolhida do Evangelho do Reino que precisa ser mais
bem cuidada (cf. EG, n. 176-258).
As pessoas não permanecerão onde não são conhecidas pelo nome, valorizadas e acolhidas em
sua singularidade; onde não são estimuladas e desafiadas; onde não se realizam por não desenvol-
verem e exercerem seu potencial de ajudar e participar de uma forma corresponsável da construção
da comunidade cristã, mas também da sociedade justa, solidária e fraterna.
Por tudo isso, não podemos ser cristãos do mesmo jeito. Uma evangelização de conservação da con-
figuração e da dinâmica pré-moderna da fé cristã somente ampliará a crise que atravessamos por não
perceber a necessidade da dupla fidelidade: à Tradição e ao nosso tempo e contexto contemporâneo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Qual o futuro do Cristianismo? Qual o Cristianismo do futuro? Qual Cristianismo terá futuro? Três
questionamentos parecidos na formulação por envolver, de forma recorrente, três termos – “qual”, “Cris-
tianismo” e “futuro” – mas muito diferentes quanto atentamos para o foco que é colocado em questão.
Vale a pena deixar-se interpelar pelas três. A primeira indaga sobre a possibilidade de o Cristianismo,
tal como o conhecemos, continuar com vigor no futuro, ou seja, se o que ele anuncia e testemunha
continuará a ser relevante e exercer atração sobre as futuras gerações. A segunda questiona sobre
as características que o Cristianismo assumirá no amanhã, ou seja, para ser fiel ao tempo do anún-
cio-testemunho qual feição histórica ele revestir-se-á para que seja significativo e atraente para as
próximas gerações. Por sua vez, a terceira, por reconhecer a diversidade de formas e configurações
que o Cristianismo assumiu ao longo de sua história, ao ter presente os desafios e urgências de cada
tempo, interpela a um discernimento fundamental: tendo diante de si a nossa realidade eclesial, o que
já não responde e o que é urgente sublinharmos por sua relevância para o contexto atual.
Como vimos, é indispensável refletirmos e buscarmos clareza sobre a nossa identidade e missão,
bem como avaliarmos os passos já dados em nossa caminhada e a nossa organização e dinâmica
eclesial atual, para, diante das mudanças do mundo, discernirmos o que enfatizar, recuperar ou mudar
para melhor respondermos aos desafios e urgências de nosso tempo.
O futuro do Cristianismo não é uma realidade que virá ao nosso encontro, mas, ao contrário,
será resultante, em grande parte, das consequências de nossas escolhas no presente. Desse modo,

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precisamos, urgentemente, investir na construção de um Cristianismo que, por ser consciente de sua
identidade e missão – a de ser sacramento do projeto salvífico de Deus e a de carregar uma boa-
-nova para toda a humanidade – seja capaz de concretizar uma Iniciação à Vida Cristã radicalmente
aberta para o reconhecimento da beleza do pluralismo cultural, religioso e eclesial. Um Cristianismo
que capacite os cristãos para o diálogo fraterno com os outros cristãos, com os membros de outras
tradições religiosas e com os sem religião. Um Cristianismo que forme um profundo senso coletivo e
humanitário nos cristãos para assumirem compromissos éticos com práticas solidárias e com lutas
multiculturais, ecumênicas e plurirreligiosas em defesa da dignidade da vida e dos direitos humanos.
Um Cristianismo alegre, com leveza na estrutura e com dinamismo interno profundamente partici-
pativo e corresponsável. Um Cristianismo que não ceda diante da tentação do fundamentalismo ou
da autorreferencialidade, mas que, de outro modo, seja profundamente samaritano e com coragem
profética para sair de seus próprios limites ou muros e, pelas estradas, dar as mãos a homens e
mulheres comprometidos, independentemente de suas crenças religiosas, com a cultura da paz, da
justiça e do cuidado com a nossa Casa comum.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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SEGUIMENTO DE JESUS
E SENTIDO DA VIDA

Vera Ivanise Bombonatto1

“Passando junto ao mar da Galileia, Jesus viu Simão e André, o irmão de Simão,
lançando as redes ao mar, pois eram pescadores. Disselhes Jesus: ‘Vinde atrás
de mim, e farei com que vos torneis pescadores de homens’. Logo, tendo deixado
as redes, seguiramno. Avançando um pouco, viu Tiago, filho de Zebedeu, e João,
seu irmão. Eles estavam na barca consertando as redes. Logo os chamou. Eles,
tendo deixado o pai, Zebedeu, na barca com os assalariados, foram atrás dele”
(Mc 1,16-20).

INTRODUÇÃO

Neste tempo de crise generalizada, de mudança de paradigmas, de diversidade cultural e religio-


sa, a catequese a serviço da Iniciação à vida Cristã tem uma desafiadora tarefa: formar discípulos
missionários, redescobrir o sentido da vida e a alegria de amar e servir.
Esta preocupação faz parte da história da catequese no Brasil, marcada recentemente por dois fatos
significativos: a escolha da Iniciação à vida Cristã como uma das urgências na ação evangelizadora
(cf. CNBB, Doc. 102); e a aprovação do documento 107, intitulado Iniciação à vida cristã: itinerário para
formar discípulos missionários, na 55ª Assembleia Geral. Esta 4ª Semana Brasileira de Catequese
situa-se nesta continuidade histórica e tem como tema A serviço da Iniciação à Vida Cristã e como
lema: “Nós ouvimos e sabemos que Ele é o Salvador do mundo” (Jo 4,42).
Inserida na cultura hodierna, a Igreja necessita de processos de iniciação para evangelizar e formar
discípulos missionários que, de fato, assumam o projeto do Reino. “Ou educamos na fé e colocamos
as pessoas realmente em contato com Jesus Cristo e convidando-as para seu seguimento ou não
cumprimos nossa missão evangelizadora” (CNBB, doc. 107, n. 116).
Estamos, portanto, diante de uma encruzilhada: levar as pessoas a um encontro profundo e vital
com Jesus Cristo ou deixar de cumprir nossa missão evangelizadora. Temos uma enorme responsa-
bilidade histórica!
Por conseguinte, é importante refletir sobre o que significa seguir Jesus, hoje, no contexto da
sociedade pós-moderna e da cultura digital? O que significa ser discípulo (a) missionário (a) e dar
sentido à própria vida?

1
Vera Ivanise Bombonatto, pertence à Congregação das Irmãs Paulinas, é doutora em Teologia Dogmática, participa do
Núcleo de Catequese Paulinas (NUCAP). É responsável pela área de Teologia e membro do Conselho da Paulinas Editora.
Autora do livro Seguimento de Jesus e de artigos nas áreas da espiritualidade e da vida religiosa, publicados em revistas.
É membro da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião.

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1. O CHAMADO A SEGUIR: EXPERIÊNCIA FUNDANTE DO CRISTIANISMO

Ao iniciar sua vida pública, Jesus de Nazaré, passando pelas estradas da Palestina, chamou pes-
soas do meio do seu povo para segui-lo e partilhar com ele a vida, a missão e o destino. Ele chamou
com autoridade e sem dar nenhuma explicação. Este evento concentra em si a experiência fundante
do Cristianismo e marca o seu início.
O Cristianismo não teve início a partir de uma doutrina ou de uma pregação. Mas, a partir de
um chamado, no cenário cotidiano da vida, à beira de um mar, e de uma resposta vital e generosa;
de uma relação pessoal, de um movimento dinâmico (cf. Mc 1,16-20; Mt 4, 18-22; Lc 5, 1-11; Jo
1, 35-43). O ser cristão tem início a partir de uma relação pessoal EU-TU: uma voz, um olhar, um
gesto, uma palavra!
Este evento fundante, característico do início, marcou, para sempre, o ser cristão. Ao longo dos
séculos, até hoje e para o futuro, o grande desafio da Iniciação à vida Cristã consiste em levar o iniciante
a estabelecer uma relação profunda e pessoal com Jesus e a assumir o seu projeto.

1.1 A novidade da proposta de Jesus


Em Jesus, Deus se faz carne e vem peregrinar conosco (cf. Jo 1,14). Ele é o rosto compassivo
e misericordioso do Pai. Jesus apresenta-se como servo de todos e como aquele que serve. Com
gestos e palavras, ele diz não à honra, ao poder; e sim ao pequeno e ao desprotegido. Sua atitude
subverte a lógica vigente e provoca mudança radical de mentalidade e uma transformação dos parâ-
metros existentes. Ela altera nossas categorias de primeiro e de último, de grande e de pequeno, de
importante e de insignificante.
Na base de toda a tentativa de compreensão e vivência do seguimento de Jesus está a cons-
ciência do mistério inefável da pessoa de Jesus, o Deus feito ser humano, por meio do qual Deus
entra na vida das pessoas, e da imensurabilidade da experiência cristã, codificada na resposta ao
chamado de Deus.
A novidade da proposta de Jesus está ligada à sua pessoa e à função salvífica do seguimento. Jesus
chamou várias pessoas do meio do seu povo para seguilo em comunhão de vida, missão e destino.
“Vinde em meu seguimento” (Mc 1, 17); “Segueme” (Mc 2,14). Jesus não propõe uma doutrina acerca
do seu seguimento, mas o oferece e o exige: “Quem quiser vir após mim” é um convite; “Segueme” é
um imperativo. O seguimento tem uma especificidade própria e inconfundível, que se expressa na
relaçãocomunicação pessoal com Jesus. Ao chamá-las para seguilo, Jesus de Nazaré faz questão
de deixar claro que o seguimento é, acima de tudo, uma relação profunda e pessoal para com ele, e
implica numa corajosa ruptura com o passado e o misterioso começo de uma existência radicalmente
nova.
Ao chamar, Jesus deixa claro que seu convite tem uma finalidade precisa. O seguidor deve:
• assemelharse a Jesus de Nazaré: “Eu vos dei um exemplo para que, como eu vos fiz, também
vós façais” (Jo13,15);
• reproduzir sua vida histórica: encarnação, missão, cruz e ressurreição (cf. At 10,38);
• exercer a missão como ele exerceu: sem levar pão, nem alforje, nem dinheiro no cinto (cf. Mc 6,8);
• participar do seu destino (cf. Mt 20,23);
• assumir a causa de Jesus e disporse a ser enviado em missão por ele e em lugar dele (cf. Mc 16,15).

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Seguir Jesus supõe dúplice relação: de proximidade e de movimento:


• estar com Jesus (cf. Mc 3,14);
• manterse ao seu lado nas provações (cf. Lc 22,28);
• ter os mesmos sentimentos e atitudes de Jesus (cf. Fl 2,5);
• tornarse filho no Filho (cf. Rm 8,29);
• ter os olhos fixos em Jesus (Hb 12,12).
A dinâmica da nossa relação com Deus passa por nossa história, das nossas alegrias, dos nossos
sofrimentos, das nossas perguntas: Quem sou eu? Que sentido tem a minha vida? Senhor, o que
queres que eu faça? ”Vivemos à procura de resposta sobre a vida, seu sentido e, no fundo, sobre
nós mesmos “ (Doc. 107, n. 4)

1.2 Catequista: chamado a seguir Jesus


A alegria e o compromisso de seguir Jesus passa pelo testemunho qualificado de tantas pessoas
que nos precederam e/ou que vivem ao nosso lado. “Estamos rodeados por uma grande nuvem de
testemunhas” (Hb 12,1). Na catequese, passa também por meio da pessoa do catequista, do seu
testemunho de vida.
Ser catequista é um chamado especial de Jesus Cristo; é uma vocação ao amor e ao serviço, a
exemplo de Jesus. O catequista é, antes de tudo, alguém que respondeu ao chamado de Jesus e se
coloca à disposição do Mestre. Não é uma pessoa que parte de suas ideias e gostos pessoais, mas
deixa-se encantar por Jesus, por aquele olhar que “faz arder o coração” e exclamar, “de fato, o Senhor
Ressuscitou” (Lc 24,34) e está vivo no meio de nós.
Quanto mais Jesus ocupa o centro da nossa vida, tanto mais nos faz sair de nós mesmos. Jesus
nos dá o exemplo: retirava-se para rezar ao Pai e imediatamente ia ao encontro dos famintos e dos
sedentos de Deus para os curar e salvar. “A vida cristã é um processo de crescimento e de integração
de todas as dimensões da pessoa, num caminho comunitário de escuta e de resposta” (EG, n. 166).
É importante cultivar momentos de adoração, de leitura orante da Palavra e de diálogo sincero
com o Senhor, para alimentar o ardor missionário, sem cair na tentação de uma “espiritualidade
intimista e individualista, que dificilmente se coaduna com as exigências da caridade, com a lógica da
encarnação” (EG, n. 262).
Papa Francisco pede que os catequistas sejam criativos, buscando diferentes meios e formas para
anunciar Jesus Cristo. “Os meios podem ser diferentes, mas o importante é ter presente o estilo de
Jesus, que se adaptava às pessoas que tinha à sua frente. É preciso saber mudar, adaptar-se, para
que a mensagem seja mais próxima, mesmo quando é sempre a mesma, porque Deus não muda,
mas renova todas as coisas nele.” (PAPA FRANCISCO, Mensagem ao Simpósio Internacional sobre
Catequese, Buenos Aires, 11-14 de julho 2017).

2. A HISTÓRIA DA SALVAÇÃO É UMA HISTÓRIA DE SEGUIMENTO

Deus se revela, em Jesus, no acontecer da história. Só no seguimento é possível conhecer,


verdadeiramente, Deus, relacionar-se com ele e viver na fidelidade ao seu projeto. Não é possível
o seguimento à margem da história. Por isso, a história da salvação é uma história de seguimento.

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Começa com o chamado à vida e tem sua plenitude no chamado a contemplar a face misericordiosa
da Trindade.
O passado nos impulsiona a buscar constantemente novos caminhos para viver com autenticidade
e zelo ardente o seguimento de Jesus e partilhar com ele a missão de fazer acontecer o reino no
mundo de hoje (DOC. 107, n. 39).
Ao chamar para segui-lo, Jesus convoca e envia a anunciar o Evangelho a todas as nações (cf.
Mt 28,19; Lc 24, 46-48). O discípulo é missionário, pois Jesus o torna participante de sua missão ao
mesmo tempo em que o vincula a si como amigo e irmão. Deste modo, como Jesus é testemunha do
mistério do Pai, assim os discípulos são testemunhas da morte e ressurreição do Senhor até que ele
venha. “Cumprir este encargo não é uma tarefa opcional, mas parte integrante da identidade cristã,
porque é a extensão testemunhal da mesma vocação” (DAp., n. 144).
Existe, portanto, uma profunda e íntima relação entre chamado e envio, entre assemelhar-se a
Jesus e ser enviado em missão. Seguimento é colocar-se, como Jesus, a serviço do Reino, anunciando
sua proximidade e realizando os sinais concretos de sua presença; é reproduzir a mesma realidade
de Deus que em Jesus de Nazaré se manifestou como salvação para o povo.
A resposta ao chamado de Jesus faz a pessoa entrar na dinâmica do Bom Samaritano (cf. Lc 10,29-
37), tornando-nos próximos, especialmente dos que sofrem. É um sim que compromete radicalmente o
discípulo e o faz tornar-se, com Jesus e em Jesus, caminho, verdade e vida da humanidade (cf. Jo 14,6).
A dinâmica da vida cristã implica no reconhecimento da voz do Mestre, nas diferentes expressões
de seu chamado, em meio às vicissitudes do cotidiano. Para isto, é preciso recuperar o significado
profundo do seguimento, situando-o no contexto da pessoa, da vida, da práxis e dos ensinamentos
de Jesus.
A partir dos textos neotestamentários é possível identificar diferentes tipos de seguidores de Jesus:
1. Pessoas que, em momentos esporádicos, sem mudar de vida, seguem fisicamente Jesus em
sua itinerância (cf. Lc. 9, 57). São pessoas impulsionadas pelos mais diversos interesses; ouvem a voz
de Jesus, mas não conseguem reconhecê-lo como enviado do Pai, como o Messias esperado. Jesus
não despreza estes seguidores; olha para eles com especial ternura e misericórdia.
2. Pessoas que, percebem o chamado explícito de Jesus, rompem com a situação anterior, ado-
tam uma nova forma de vida e acompanham Jesus de modo permanente, assimilando seu estilo de
vida. Jesus instrui estes seguidores e lhes revela os segredos de seu Pai (cf. Jo 1,35-43) e os torna
participantes de sua vida e missão.
3. Pessoas que, somente em sentido figurado, são chamadas de seguidoras. São os seguidores
de todos os tempos e lugares, os seguidores do Crucificado e Ressuscitado que assumem a causa
de Jesus, são os continuadores de sua missão (cf. Jo 21,19).
Na catequese de Iniciação à vida Cristã, é importante perceber o processo vital do catequizando,
sua passagem pelos vários tipos de seguimento até a experiência profunda de reconhecer Jesus como
aquele que dá sentido à sua vida e decidir viver de acordo com seus ensinamentos.

3. SEGUIMENTO DE JESUS: ENCONTRO QUE DÁ SENTIDO À VIDA

O processo de seguimento é uma resposta ao chamado de Jesus. “Ao início do ser cristão, não
há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa

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que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo” (EG, n. 7). Papa Francisco afirma
que não se cansará de repetir essas palavras do seu antecessor Bento XVI que, segundo ele, “nos
levam ao centro do Evangelho” e nos convocam a viver a espiritualidade do seguimento de Jesus.
“A situação atual do mundo gera um sentido de precariedade e insegurança que, por sua vez, favorece
formas de egoísmo coletivo” (Laudato Sì, n. 204). O encontro com Jesus nos provoca e convoca a sair
do isolamento e da autorreferencialidade, dilata o nosso coração e nos lança na ação evangelizadora e
missionária, pois quem acolhe o amor, que dá sentido à vida, não pode conter essa experiência somente
para si e envolve-se na doce e reconfortante alegria de evangelizar (cf. EG, nn. 8-10).

3.1 Cultura do encontro


O encontro com Jesus Cristo nos leva a entrar no processo de humanização e, quando chegamos a
ser plenamente humanos e permitimos que Deus nos conduza para além de nós mesmos, alcançamos
nosso ser verdadeiro e encontramos a fonte da ação evangelizadora.
A cultura do encontro se opõe à cultura fragmentada e dispersiva, marcada pelo individualismo,
pela autossuficiência e pelo narcisismo, que destrói o ser humano e os seus relacionamentos. Con-
trasta com a contracultura da exclusão, do preconceito, do descartável e da indiferença. Na cultura do
encontro, estão presentes o respeito, o diálogo, a inclusão e a colaboração em vista do bem comum.
O encontro por excelência com o Deus da vida, manifestado em Jesus Cristo e realizado na força
do Espírito, torna-se protótipo de todos os nossos encontros. Nele, fundamenta-se e desenvolve-se a
“cultura do encontro” tão almejada por Papa Francisco e tão necessária em nossos dias. Essa cultura
do encontro consiste, antes de tudo, em sair ao encontro do outro.
Por isso, Papa Francisco insiste que os cristãos e as cristãs devam ser “pessoas em saída”. Na
própria história da salvação, a revelação de Deus, na vida e história de Jesus de Nazaré, realizou-se
em eventos de encontro e com palavras dialógicas.

3.2 Descobrir Jesus no rosto do outro


A mística do seguimento de Jesus nos leva ao encontro com o rosto do outro, com a sua presença
física que interpela, com os seus sofrimentos e suas reivindicações, com a sua alegria contagiosa.
A verdadeira fé no Filho de Deus, feito carne, é inseparável do dom de si mesmo, da pertença à co-
munidade, do serviço, da reconciliação com a carne dos outros. Na sua encarnação, o Filho de Deus
convidou-nos à revolução da ternura (cf. EG 88). Trata-se de “aprender a descobrir Jesus no rosto dos
outros, na sua voz, nas suas reivindicações” (EG, n. 91).
A dinâmica do seguimento de Jesus Cristo não se confunde com o fundamentalismo ou o in-
dividualismo, nem é uma espiritualidade alienante que apresenta “Jesus Cristo sem carne e sem
compromisso com o outro” (EG, n. 89). É uma mística profética que se preocupa com o ser humano
na sua totalidade e, ao mesmo tempo, convoca à comunhão solidária e à fecundidade missionária. É
uma mística de olhos abertos e com um coração misericordioso.
Seguir Jesus significa tomar a cruz e acompanhá-lo em sua jornada, reconhecendo-o presente no
corpo desfigurado dos que vivem à margem da história. Significa percorrer um caminho nada cômodo,
que não é o do sucesso, da glória passageira, mas que leva à verdadeira liberdade e nos livra do
egoísmo e do pecado.
Trata-se de rejeitar a mentalidade contrária ao Evangelho, que coloca o próprio eu e os próprios
interesses no centro da existência: essa atitude está na contramão da proposta de Jesus. Pelo con-

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trário, Jesus nos convida a perder a própria vida por ele, pelo Evangelho, para recebê-la renovada e
ressuscitada. Temos a certeza, graças a Jesus, de que esse caminho leva à vida plena e definitiva
com Deus. Decidir segui-lo, ao nosso Mestre e Senhor que se fez servo de todos, exige caminhar atrás
dele e ouvir atentamente os seus ensinamentos para colocá-los em prática.
Quando falta motivação para anunciar o Evangelho de Jesus, deve-se rezar, pedindo na oração
que ele volte a nos cativar; permanecer com ele e contemplá-lo presente em nós, no próximo, nas
realidades que nos circundam. É urgente recuperar o espírito contemplativo que nos permita redescobrir
que somos “depositários dum bem que nos humaniza, que ajuda a levar a vida nova. Não há nada de
melhor para transmitir aos outros” (EG, n. 264).

4. RECONHECER O MESSIAS

De acordo com o testemunho dos evangelistas, podese afirmar que a expressão “seguir” ou ”ir
atrás de” tem, pelo menos, três significados diferentes:
• Primeiro, seguir Jesus ou outra pessoa fisicamente, sem comprometer a vida. Neste caso, Jesus
não é reconhecido como o Messias, mas somente como um mestre igual aos outros mestres, seus
contemporâneos (cf. Lc 9,59).
• Segundo, seguir fisicamente unido à vinculação espiritual à pessoa de Jesus: o seguidor acom-
panha permanentemente Jesus, adere à sua causa e participa de seu destino, torna-se seu discípulo.
Neste caso, Jesus é reconhecido como o Messias, enviado do Pai, na força do seu Espírito. Este modo
de seguir é irrepetível, pois está relacionado ao Jesus histórico (cf. Jo 1, 35-42).
• Terceiro, seguir simbólico: superada a fase originária da itinerância de Jesus e de seus discí-
pulos, o termo adquire uma densidade própria e um valor simbólico e convertese em expressão da
vida cristã. Neste caso, Jesus é reconhecido como o Crucificado-ressuscitado. Ele inaugura um novo
modo de presença, baseada não mais na experiência física, mas na vivência do mandamento novo e
na continuidade do seu projeto (cf. Jo 21,19).
Os traços característicos do seguimento encontramse, particularmente, nas narrativas da vocação
dos primeiros discípulos e nos ditos (logias) de Jesus a esse respeito. As narrativas das vocações
(cf. Mc 1,16-20; Mt 4, 18-22; Lc 5, 1-11; Jo 1, 35-43) são contextualizadas e trazem informações
acerca dos nomes e da profissão das pessoas que encontraram Jesus; os ditos (logias), em geral,
são anônimos e generalizados. Por exemplo: “Se alguém quer seguir atrás de mim, renuncie a si
mesmo, carregue sua cruz e siga-me” (Mc 8,34). A atenção é centrada na pessoa de Jesus e na
sua tomada de posição.

4.1 Quem é Jesus


Estes diferentes significados do seguimento estão relacionados à pergunta: Quem é Jesus?
Esta questão é sempre atual e provocadora, para quem decidiu seguir o Mestre da Galileia e, à
sua imitação, assumiu a causa do Reino. A resposta a esta pergunta traz consequências marcantes
para a identidade cristã e para a nossa missão e coloca a questão: Quem somos nós? No mistério
de Jesus revela-se o nosso mistério; olhando para ele reconhecemos o melhor de nós mesmos
enquanto seres criados, sustentados e habitados por Deus, que nos chama à confiança nele e à
fraternidade universal.

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Na fé, nós professamos que Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro ser humano. “Ele é a imagem
do Deus invisível” (Cl 1,15) e o mistério do ser humano só se ilumina de fato à luz do Verbo encarnado.
Nele, vislumbramos quem é Deus e quem é o ser humano. Falar de Deus implica também em falar
de nós mesmos, como seres criados à sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,26). Podemos, então,
afirmar que Deus se manifestou a Jesus, em sua condição humana, e em Jesus, na plenitude de sua
autorrevelação (cf. Hb 1,2).
Consequentemente, a pergunta sobre Deus a partir de Jesus, a Palavra encarnada, assume uma
dúplice dimensão. De um lado, Jesus é Deus, portanto, se queremos conhecer o rosto de Deus,
devemos olhar para Jesus. Ele mesmo afirmou: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9). De outro, Jesus é
um ser humano e, como tal, nos revela o amor misericordioso e terno de Deus Pai pela humanidade.
Portanto, olhando para a vida e a missão de Jesus, podemos conhecer o rosto do Pai. Ele é a revelação
da face de Deus para a humanidade, um Deus que nem sempre está em sintonia com as diferentes
imagens concebidas e vividas por nós.
Ao longo dos anos, cada pessoa vai construindo sua imagem de Deus, pautada nas experiências
pessoais, no confronto com a Palavra de Deus e com os ensinamentos de Jesus, nos conhecimentos
adquiridos e nos testemunhos que lhe são transmitidos.
Os diferentes rostos de Deus, que vamos construindo podem aproximar-se ou distanciar-se das
imagens documentadas nos Evangelhos e testemunhadas pelos primeiros discípulos e discípulas que
conheceram Jesus de perto, ouviram seus ensinamentos, partilharam com ele a vida, presenciaram
sua trágica morte e foram testemunhas de sua ressurreição. Por isso, tais rostos precisam ser cons-
tantemente purificados e revigorados.
Jesus, o primogênito do Pai, dirige-se constantemente a ele como filho amado. Ele não nos deixou
longos discursos e reflexões acabadas sobre Deus; falou pouco de Deus e muito com Deus. Por meio
de sua vida, de suas palavras e de sua prática, revelou-nos seu rosto paternal e maternal. Esse rosto
que nós, seguidores de Jesus, somos chamados(as) a revelar hoje aos nossos contemporâneos, de
modo inteligível.
O desafio do processo de Iniciação à vida Cristã está, sobretudo, no modo de apresentar Jesus
como alguém que vale a pena ser seguido, como um amigo muito próximo, Mestre e Senhor da vida.
“Na busca de heróis de todos os tipos, as biografias de santos, sobretudo santos jovens, salientando o
seguimento de Jesus e suas atitudes evangélicas, tendem a ser importantes instrumentos de abertura
à transcendência” (DOC. n. 107, 207).

4.2 Jesus revela o Pai, na força do Espírito


A missão de Jesus e o modo como ele a concretizou tem como pressuposto fundamental uma
experiência íntima e pessoal com Deus. Como todo ser humano, Jesus, o primogênito entre muitos
irmãos (cf. Rm 8,29), defrontou-se com a complexidade da vida e da história e se viu forçado a buscar
e a dar sentido à própria existência. Jesus buscou incessantemente Deus, dialogou com ele, deixan-
do-o ser Deus. Os Evangelhos referem-se à radical experiência de Deus que Jesus fez como algo
absolutamente central em sua vida.
A vida de Jesus é o lugar por excelência da manifestação do Espírito. A história de Jesus, sua
vida, sua práxis, sua atividade e seu destino estão perpassados pelo Espírito. Baseando-nos nos
Evangelhos sinóticos, podemos resumir a relação entre Jesus e o Espírito em três pontos: primeiro,
o Espírito envia Jesus, não como força extrínseca, mas como força interior; segundo, essa força tem

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como objetivo a realização da missão de Jesus, é uma força para proclamar a boa-nova aos cativos,
dar vista aos cegos e libertar os oprimidos (cf. Lc 4,16-19); terceiro, o Espírito é força, energia, vigor,
uma força saía dele (cf. Mc 5,30; Lc 8,46).
A vida de Jesus e sua prática nas quais o Espírito se manifesta são realidades históricas e não
deixam lugar ao intimismo. Jesus fala com Espírito, o qual se expressa em sua vida de forma concreta.
O Espírito nos guia no caminho de seguimento de Jesus. O verbo seguir (akolouthéô) está rela-
cionado com o conceito de discípulo (mathêtês), que designa aquele que ouviu o chamado de Jesus,
reconheceu-o como Mestre e uniu-se a ele por meio de uma resposta ativa que compromete toda a
sua existência.

5. MESTRE E DISCÍPULO

Discípulo é aquele que reconheceu a voz de Jesus como mestre e enviado do Pai, na força do seu
Espírito, e colocou-se a caminho com ele, aderindo ao seu projeto.
Discipulado expressa a relação vital entre Mestre e discípulo. Designa a dinâmica processual e
transformadora que abarca todas as dimensões da realidade humana e todo o arco da existência com
o objetivo de assimilar os ensinamentos de Jesus, tornar-se semelhante a ele, dando continuidade
ao seu projeto. O processo de iniciação cristã é um processo de discipulado de Jesus (cf. DOC.
107, n.12).
Na catequese de Iniciação à vida Cristã de inspiração catecumenal, o discipulado não é apenas
uma etapa, mas o fio condutor de um processo, que culmina na maturidade do discípulo missionário.
Trata-se de assimilar o modo de ser de Jesus, Palavra encarnada que armou sua tenda entre nós e
assumir uma vida pautada no Evangelho. Os tempos e etapas da iniciação cristã passam a ser tempos
e etapas do discipulado.

5.1 Jesus aceita ser chamado de Mestre


Mestre é um conceito simples e vital, que faz parte do patrimônio comum de todos os povos.
Ensinar e aprender faz parte do movimento fundamental da vida humana. Jesus aceita ser chamado
de mestre e age como mestre em três níveis diferentes:
• Primeiro, de exemplaridade: “Vós me chamais de mestre e Senhor e dizeis bem, pois eu o
sou. Eu vos dei um exemplo, para que, como eu vos fiz, também vós façais” (Jo 13,13-15). Jesus
se coloca como modelo, dá exemplo e pede que nós façamos o mesmo. Ele é o nosso modelo
a ser seguido.
• Segundo, do amor como distintivo dos discípulos: “Nisto, todos conhecerão que sois meus dis-
cípulos: se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,35). O distintivo dos discípulos de Jesus é o amor
que se expressa na entrega da própria vida.
• Terceiro, da salvação que vem de Deus: “Mestre sabemos que és veraz e ensinas o caminho
de Deus com veracidade; que não queres ganhar o favor de ninguém, pois és imparcial” (Mt 22,16).
Jesus é reconhecido como o enviado do Pai, na força do seu Espírito.
Esta grande riqueza implícita no conceito de Mestre, nem sempre é percebida e valorizada pela
cultura atual, caracterizada pelo imediato e pelo descartável.

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5.2 O Mestre celebra a Páscoa com seus discípulos


O contato diário com a Palavra de Deus leva o catequizando a descobrir o mestre Jesus de Nazaré,
rosto misericordioso do Pai, e o Espírito que nos ensina a atualizar e a viver o que Jesus fez e ensinou.
A Palavra de Deus forma o discípulo missionário, é o seu alimento cotidiano.
“Em tua casa quero celebrar a Páscoa com meus discípulos” (Mt 26, 17-19). A Palavra de Deus
leva a descobrir a centralidade da Páscoa de Jesus, expressão máxima da misericórdia de Deus para
conosco. A iniciação cristã é a vivência progressiva do evento central da fé cristã: a Páscoa do Senhor.
Sua finalidade é a nossa configuração na Páscoa de Jesus.
Esta centralidade pascal prolonga-se e concretiza-se nos sacramentos, expressão da misericórdia
que cura, perdoa, abençoa, alimenta, redime do mal e fortalece a vida de comunhão com Cristo, na
comunidade.
Os Evangelhos nos ajudam a compreender e a viver o projeto de Jesus e a atualizá-lo constante-
mente, conforme as exigências dos tempos e lugares.

6. TESTEMUNHO DOS EVANGELHOS

A preocupação dos Evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João não foi narrar uma biografia de
Jesus, mas despertar nos que escutavam a mensagem de Jesus uma viva compreensão do segui-
mento e do discipulado, compreensão esta que devia influir diretamente sobre a vida de cada pessoa.
O objetivo de cada um dos Evangelhos é provocar e sustentar o caminho de seguimento, em meio às
dificuldades do cotidiano.
A tradição neotestamentária, no que se refere à experiência do seguimento e do discipulado, é
extremamente rica e plural. Cada evangelista, de acordo com a realidade concreta de sua comunidade
e o objetivo específico do seu Evangelho, salienta determinados aspectos não só do seguimento e do
discipulado, mas do próprio rosto de Jesus de Nazaré.
Os Evangelhos escritos na perspectiva da ressurreição apresentam uma ambivalência. De um
lado, narram o desenvolvimento histórico das atividades de Jesus; de outro, transformam o significado
das palavras seguir e discípulo, com o objetivo de torná-las normativas e correspondentes à realidade
concreta também daqueles cristãos os quais já não mais podem seguir o mestre Jesus nas estradas
da Palestina.

6.1 Evangelho segundo Marcos


A dinâmica que perpassa toda a estrutura deste Evangelho é a tentativa de responder à pergunta:
quem é Jesus? Quem é esse homem extraordinário que cura os doentes, expulsa os demônios, domina
a natureza e enfrenta os que se arvoram em donos da religião?
Entre as respostas apresentadas por Marcos, uma é central: Jesus é aquele que chama para
segui-lo. Marcos não tem uma preocupação doutrinal, sua atenção está centrada na pessoa de Jesus
e o cerne de sua teologia é o “segredo messiânico”, o qual será completamente desvendado, no fim
do Evangelho, ao pé da cruz, com a exclamação do centurião: “De fato, esse homem era filho de
Deus” (Mc 15,39).
A pergunta: quem é Jesus? traz no seu bojo outra indagação fundamental e decisiva: quem é o
discípulo? Ao longo do seu Evangelho, Marcos salienta dois aspectos: a revelação do mistério de Cristo

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e a manifestação do coração humano. Os confrontos entre esses dois aspectos tornam o Evangelho
de Marcos dramático, envolvente, inquietante e atual. Para compreendê-lo é preciso entrar na sua
dinâmica e viver o seguimento.
O evangelista Marcos salienta, de modo particular, a participação no destino do crucificado, refle-
xo, sem dúvida, da situação hostil em que viviam as primeiras comunidades. Considerado o primeiro
catecismo dos catecúmenos, o Evangelho de Marcos é uma viagem progressiva do exterior para o
interior do mistério do Reino de Deus, da periferia para o centro do mistério, do conhecimento inicial
à experiência profunda e pessoal com Jesus.

6.2 Evangelho segundo Mateus


O evangelista Mateus conta a história de Jesus, o Filho de Deus, desde o nascimento em Belém
de Judá até a ressurreição em Jerusalém. No arco dessa trajetória situa-se a história do seu segui-
mento e a formação de seus seguidores. O convite de Jesus é expresso em forma de ordem que exige
obediência incondicional: “Vinde após mim!” (Mt 4,19) . A resposta caracteriza-se pela prontidão. Os
convocados abandonam imediatamente as redes ou o barco.
O objetivo de Mateus é mostrar que Jesus é o Cristo por meio da densidade e alteridade de sua
vida terrena. A partir deste centro, o evangelista estrutura seu Evangelho. Apresenta uma visão de
Deus e dos seres humanos à luz do mistério de Jesus.
Para testemunhar a fé no Filho de Deus, Mateus não escolhe a via da argumentação, mas mostra
sua adesão ao Cristo vivo, contando a história de Jesus, numa alternativa harmoniosa de narrativas e
temas. Mateus estabelece um elo entre o Antigo e o Novo Testamento. Jesus é o novo Moisés.
Na dinâmica deste Evangelho, é preciso voltar ao passado para compreender o presente e abrir-se
ao futuro. Mateus desenvolve uma teologia da história e, portanto, também uma teologia da história
do seguimento: em Jesus, o Filho de Deus, Deus se insere na história humana de maneira única e
decisiva. Pela total submissão à vontade do Pai, ele cumpre a Antiga Aliança e transforma o presente
da humanidade em esperança para sempre.
O Jesus apresentado por Mateus é, sobretudo, o Mestre da justiça. Ele chama os discípulos para
segui-lo. O seguimento se reveste de um caráter profético. Os discípulos devem comprometer-se com
a causa do Reino e ser anunciadores da justiça.

6.3 Evangelho segundo Lucas


O evangelista se propõe a escrever um relato dos acontecimentos sucedidos entre nós (cf. Lc
1,1-4) numa dupla obra histórico-religiosa. O Evangelho, no qual transmite os ensinamentos de
Jesus, seu chamado para segui-lo, sua atividade e seu destino; os Atos dos Apóstolos, em que
narra a atividade missionária dos seguidores de Jesus, suas alegrias e dificuldades e os primórdios
da Igreja nascente.
Tanto a primeira parte da obra de Lucas (o Evangelho), quanto a segunda (os Atos dos Apóstolos)
estão redacionalmente alicerçadas na estrutura do caminho que coloca os seguidores numa dinâmica
de movimento rumo à parusia.
A estrada que leva a Jerusalém é símbolo e, ao mesmo tempo, concretização de toda a história
da salvação, pois conduz ao lugar onde se realizarão as profecias a respeito de Jesus, servo fiel e
profeta rejeitado e perseguido. De Jerusalém partirão os primeiros seguidores com a missão de pregar
o Evangelho até os confins do universo.

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O seguimento acontece no desenrolar do caminho da história da salvação, que se articula em três


fases distintas: passado, o tempo de Israel, desde a criação do mundo até a manifestação de João
Batista, é o tempo da Lei e dos profetas (cf. Lc 1,5 – 3,1); presente, tempo de Jesus, desde o batismo
proclamado por João até a ascensão de Jesus, é o tempo do ministério, da morte e da exaltação de
Jesus (cf. 3,2-24,51); futuro, tempo da Igreja: desde a ascensão de Jesus até sua volta na parusia, é
o tempo da expansão da Palavra (cf. Lc 24,52-53; Atos 1,3-28-31).

6.4 Evangelho segundo João


O evangelista João reafirma a realidade do seguimento como elemento essencial nas relações de
Jesus com os discípulos, já expressa nos Evangelhos sinóticos, mas também abre uma perspectiva
nova em relação à sua compreensão.
João une a visão do crente à intuição do místico e descobre o significado profundo dos atos e das
palavras do Verbo de Deus feito homem que chama as pessoas para segui-lo. A sua obra, além de
ser fruto de uma experiência histórica de seguimento, é o resultado de longos anos de pregação na
comunidade, conduzida pela luz do Espírito.
O seguimento do Jesus histórico é apresentado como uma forma paradigmática de relação-co-
munhão com Jesus. Ao recordar o chamado de Jesus e a resposta radical de seus seguidores, a
comunidade pós-pascal confessa sua fé no Senhor ressuscitado e exaltado, presente no meio dela.
Seguir transforma-se em um termo teológico que caracteriza o ser cristão e assume um significado
que ultrapassa a primitiva acepção concreta; é a resposta de fé ao apelo de Jesus ressuscitado para
dar continuidade à sua causa.
Após a ressurreição de Jesus, as comunidades primitivas conservaram suas palavras e seus
gestos, que chegaram a nós codificados nos escritos do Novo Testamento.
Três temas teológicos constituem os pilares sobre os quais está edificado o quarto Evangelho e,
por conseguinte, a exigência do seguimento: a revelação do amor de Deus ao mundo por meio do
Verbo encarnado, a resposta positiva ou negativa do ser humano e o efeito da revelação divina e da
fé humana: a vida e a salvação.

7. UNIVERSALIDADE DA PROPOSTA DE JESUS

De acordo com os Evangelhos, em relação aos destinatários, o chamado de Jesus para viver em
comunhão com ele evolui progressivamente, passando por três momentos distintos, que pode se
chamar de processo de universalização do seguimento. Jesus dirige seu convite: a algumas pessoas
escolhidas, à multidão e a todos indistintamente.
Depois do batismo, ao iniciar sua vida pública, Jesus dirige o seu convite a algumas pessoas
escolhidas, que vivem em realidades diferentes e exercem as mais variadas atividades. Simão Pedro
e seu irmão André eram pescadores de Betsaida (cf. Jo 1,44); Mateus era cobrador de impostos em
Cafarnaum (cf. Mt 9,9). “Caminhando à beira do mar da Galileia, Jesus viu Simão e seu irmão André,
lançando as redes ao mar, pois eram pescadores. Então, disselhes: ´Seguime, e eu vós farei pesca-
dores de homens´” (Mc 1,16).
Como missionário itinerante, percebendo a presença não só de um pequeno grupo de escolhi-
dos, mas de muitos que o acompanhavam, Jesus estende o seu convite às multidões: “Chamando a

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multidão, juntamente com os seus discípulos, disselhes: ´Se alguém quer vir após mim, neguese a si
mesmo, tome a sua cruz e sigame´” (Mc 8,34).
O chamado de Jesus não se limitou aos “doze”, isto é, aos membros fiéis do povo de Israel. Jesus
chamou também os pecadores, os publicanos, as pessoas excluídas e marginalizadas.
Durante sua vida pública, Jesus dirige o seu convite a todos indistintamente e universaliza o seu
chamado. “Dizia ele a todos: ´Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz
cada dia e sigame´” (Lc 9,23).
Ninguém ficou excluído da possibilidade de seguir Jesus. Ele chamou jovens (cf. Mc 10,20), pobres
e pecadores (cf. Mt 4,1822), doentes e “possuídos pelo demônio” (cf. Mt 8,16; Mc 5,220) e também
mulheres (cf. Mt 9,20; Lc 7,3650; Lc 15, 131; Jo 8, 111). Neste processo de universalização, perce-
bese um crescendo, que inicia com a comunidade dos doze, e chega a abrangência total: todos são
chamados ao seguimento. A partir do grupo dos doze, Jesus universaliza seu chamado.
O chamado de Jesus ao seu seguimento é universal, mas cada um responde, livremente, segundo
a graça que lhe é dada e os dons recebidos. Temos assim, na família de Deus, as diferentes vocações.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Seguir e ser discípulo são dois modos que expressam a totalidade e a abrangência da vida cristã.
Seguimento e discipulado entrelaçam-se reciprocamente e fundem-se num horizonte comum, ambos
identificados pela ação de caminhar ou seguir, sendo em geral usados indistintamente como sinônimos.
Na dinâmica da vida, em nossa labuta cotidiana, enquanto seguimos, vamos assimilando o modo
de ser de Jesus e vamos nos tornando discípulos/discípulas. O seguimento de Jesus é uma proposta
unificadora, que supera todo tipo de dicotomia entre fé e vida, ser e fazer, espiritualidade e ação
pastoral, individual e comunitária.
O processo de seguimento e de discipulado perpassa todas as etapas do itinerário de Iniciação à
vida Cristã e, ao mesmo tempo, é a meta de toda a vida cristã: somos chamados(as) a ser seguidores/
seguidoras, discípulos/discípulas de Jesus Mestre; comunidade seguidora/discipular, querigmática,
missionária, mistagógica e materna.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOMBONATTO, Vera Ivanise. Seguimento de Jesus: uma abordagem segundo a cristologia de Jon
Sobrino, 2ª ed. São Paulo: Paulinas, 2016.
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CELAM. Documento de Aparecida. 6. ed. São Paulo: Paulinas, 2008.
CNBB. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil – 2015-2019. Documento 102.
Brasília: Edições CNBB, 2015.
CNBB. Iniciação à vida cristã: itinerário para formar discípulos missionários. Documento 107, 2ª ed.
Brasília: Edições CNBB, 2017.
GNILKA, J. Jesus de Nazaré: mensagem e história, Petrópolis: Vozes, 2000.

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______, Laudato sì. São Paulo, Paulinas, 2015.
______, Amoris Laetitia. São Paulo: Paulinas, 2016.
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Núcleo de Catequese Paulinas (NUCAP), Celebrações da Iniciação à vida Cristã. São Paulo: Paulinas,
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MENDONÇA, José Tolentino. A mística do instante, 3ª reimpressão, São Paulo: Paulinas, 2017.
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SCHULZ, A. Discípulos do Senhor, São Paulo: Paulus, 1969.

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O QUERIGMA E A TRANSMISSÃO DA FÉ
NO CONTEXTO ATUAL

Dom Leomar Antônio Brustolin1

INTRODUÇÃO
As contínuas mudanças que ocorrem na nossa época produzem um fascínio que tanto fortalece
quanto fragiliza a existência humana neste mundo. Novas tecnologias aproximam e distanciam,
conectam e isolam. A redescoberta e a valorização da individualidade possibilitaram também o
individualismo. O ser humano se acha autossuficiente, pois nega qualquer hierarquia, rompe com
o transcendente e a tradição, descuida do senso de pertença à religião, à comunidade e à família.
Nesse contexto, muitas pessoas procuram a religião de forma privatizada, querendo apenas resolver
problemas imediatos.
Nesse contexto, se altera a nossa percepção da realidade, e isso incide diretamente sobre a trans-
missão da fé às novas gerações. Vivemos, hoje, numa sociedade laica, também plural, secularizada,
que, de fato, não é antirreligiosa, mas que situa todas as suas convicções no terreno da livre-adesão.
Algumas características fundamentais dessa mudança são o pluralismo cultural, a globalização, o
individualismo e a cultura digital. No âmbito religioso, há uma forte tendência a confundir a questão
religiosa com terapias de autoajuda ou instrumentos para amenizar o peso do cotidiano. Dessa forma,
o centro não está num Deus a ser servido, mas no bem-estar da pessoa a ser alcançado, seja ele
físico, seja ele psíquico, seja espiritual.
Há uma multiplicidade de símbolos, teorias, ritos e crenças que se encontram na mesma pessoa.
Ela faz a síntese de acordo com suas buscas. Por isso, “um número surpreendente de pessoas que
afirmam acreditar em doutrinas da Igreja Católica acredita também na reencarnação ou, com efeitos
práticos mais imediatos, pratica o controle da natalidade” (BERGER, 2017, p. 118). Para muitos, mes-
mo se considerando católicos, a questão da fé, dos princípios, dos dogmas e da moral é totalmente
subjetiva e, por isso, relativiza pontos fundamentais da identidade e da experiência cristãs.
O Documento de Aparecida destacou que “nossas tradições culturais já não se transmitem de uma
geração à outra com a mesma fluidez que no passado” (APARECIDA, n. 39). Isso afeta, inclusive, a
experiência religiosa e alcança a própria família que, como lugar de diálogo e de solidariedade entre
as gerações, foi um dos veículos mais importantes na transmissão da fé. Assim, muitos catequistas
encontram crianças batizadas, mas que chegam à catequese sem conhecer sequer o Sinal-da-Cruz
e as demais orações que outrora a família se encarregava de ensinar. E, transcorrida mais de uma
década desde o Documento de Aparecida, percebe-se que, em grandes centros urbanos, muitas
crianças vivem sem uma educação para a transcendência, até mesmo sem nenhuma noção sobre
1
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Porto Alegre. Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Teologia da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Membro da Comissão de Doutrina da Fé da Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil (CNBB) (2016-2019). É Mestre e Doutor em Teologia Sistemática. Foi professor e coordenador de
pós-graduação na PUC de Porto Alegre. Faz parte de várias comissões episcopais pastorais da CNBB. Também é autor
de vários livros.

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Deus. Vive-se o aqui e agora, sem preocupações com um futuro que esteja além dessa realidade
visível. Educar para o invisível, para os valores e para o pertencimento tornou-se um desafio urgente.
A grande pergunta que se impõe é: Como transmitir a fé às futuras gerações e como propor (ou
repropor) o querigma para gerações que têm sede de sentido da vida e de referências, mas que nem
sempre se dispõem a acolher um caminho para seguir?

1. DESAFIOS DO CONTEXTO

Uma das nossas tarefas atuais é tentar situar-nos onde estamos. Ver quais são os sinais de nosso
tempo que provocam novos olhares, discernimento e novas decisões em favor de uma evangelização
querigmática. É necessário um olhar de discípulo para ser capaz de discernir “os acontecimentos,
nas exigências e nas aspirações de nossos tempos [...], quais sejam os sinais verdadeiros da pre-
sença ou dos desígnios de Deus” (Gaudium et Spes, n. 11). Diante da complexidade do momento
atual, não se consegue captar todas as nuanças imbricadas na realidade. São aspectos culturais,
econômicos, sociais e históricos que provocam essa mudança de época. Há muitos desafios, mas
também oportunidades para a fé cristã nesse contexto. Tudo depende de como observamos e da
postura que assumimos. Como Papa Francisco, queremos ter um “olhar do discípulo missionário
que se nutre da luz e da força do Espírito Santo” (Evangelii Gaudium, n. 50) para sermos capazes
de dialogar com essa realidade que Deus deseja salvar, “para que todos tenham vida e vida em
abundância” (Jo 10,10). Nada seria mais estranho aos cristãos do que afastarem-se da realidade,
do que virarem as costas aos desafios e se isolarem. Jesus se encarnou e assumiu concretamente
toda miséria humana, exceto o pecado, por isso, tudo que é verdadeiramente humano, interessa
ao cristão, pois tudo carece da salvação em Cristo. O Evangelho convoca todo cristão para ser sal
da Terra e luz do mundo (cf. Mt 5,13-14).
Analisando a realidade, percebe-se a força do pluralismo cultural e religioso que caracteriza a
sociedade de nosso tempo. O pluralismo permite que cada um recorra às verdades que desejar. Cada
um escolhe o que pensar e em que acreditar. Muitas teorias, crenças e posturas são assumidas sem
a pretensão de buscar uma única verdade. No âmbito religioso, facilmente se diz: “Religião – cada
um tem a sua! E todas levam ao mesmo Deus! O importante é fazer o bem”. Há uma proliferação de
diferentes formas de crer que caracteriza a religiosidade atual. Com isso, cai-se no relativismo.
O relativismo defende a ausência de uma verdade absoluta, pois considera que toda verdade é
relativa. Cada um é livre para acreditar no que quiser, contanto que não queira que a verdade seja única.
Essa realidade afeta diretamente a fé cristã, a verdade revelada na Palavra e o comportamento moral
dos cristãos. Esse é um dos problemas fundamentais da fé atual. Cada pessoa define em que e como
acreditar. Cresce uma espiritualidade sem compromisso com a vida, um culto sem envolvimento com
a ética e uma religiosidade que coloca a pessoa no centro das relações com o sagrado. A prioridade
é a felicidade individual e imediata. Numa realidade plural e relativista, é fácil perder o foco e cair na
tentação de propor caminhos múltiplos para tentar envolver melhor os fiéis.
A afirmação da identidade cristã, numa sociedade plural, contudo, exige a tarefa de se fixar no
essencial, evitando distrações e superficialidades. O Papa Bento XVI, quando proclamou o “Ano da
Fé”, recordou que

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sucede não poucas vezes que os cristãos sintam maior preocupação com as
consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé, considerando
esta como um pressuposto óbvio da sua vida diária. Ora, um tal pressuposto não só
deixou de existir, mas frequentemente acaba até negado. (Porta Fidei, n. 2).
Há muitas causas que conduziram a essa situação, mas uma delas é a opção que deslocou a
um plano inferior o ser humano. Preferiu-se o ter, o fazer e o provar. Na relação entre fé e verdade, a
situação agravou-se, pois a modernidade ensinou que o humano só acessa o conhecimento perfeito
e demonstrável nas ciências matemáticas e nas históricas. Nessa nova concepção de realidade, o ser
humano já não observa mais além de si mesmo, situa-se num antropocentrismo, ou seja, o homem é
visto como centro do universo (RATZINGER, 2005, p. 48).
Quando o ser humano decide deixar Deus de lado, sem negá-lo, mas sem lhe dar prioridade na
vida, ocorre um deslocamento que atrofia a capacidade de ir além da matéria, do visível e do limite da
vida. No fundo, perde a fé, porque não confia em ninguém mais a não ser em si mesmo. Perde, assim,
o sentido de quem é. O humano é essencialmente um ser que precisa do outro para ser completo.
Precisa das pessoas e precisa de Deus para se realizar plenamente. Ao priorizar o saber, o fazer, e
o ter, o homem deixa de se ocupar com o ser, o viver e o crer. É urgente priorizar o ser sobre o fazer.
Também entre os agentes de pastoral cresce o espírito do fazer, do organizar e do planejar, mais
do que o de ser cristão, de testemunhar a fé, de viver a gratuidade da esperança e da dor de quem
segue Jesus. Na Iniciação à Vida Cristã, há muita generosidade, colaboração e empenho. Mas, se
não houver testemunho de fé, encontro com Jesus Cristo e vivência eclesial, tudo cai no vazio de
quem muito faz, mas pouco atrai para o caminho. Evangeliza-se muito mais pelo que somos do que
pelo que fazemos. Afinal, o humano não vive somente de explicações e experiências; ele vive do amor
que é o sentido da vida. Sem isso, o humano pode ter todos os bens, segurança, saúde, domínio do
saber, mas será tão incompleto e infeliz que gerará um vazio existencial bem conhecido na atualidade.
É preciso crer de forma integral. Reconhecer a fé envolve todo o ser do crente: sua vontade, seu
sentimento e seu pensamento. Não poderá ser mero sentimentalismo e tampouco mera explicação
racional. A fé em Cristo não aceita fanatismos e nem fundamentalismos, como alguns tentam
impor como enfrentamento do pluralismo, do racionalismo e do relativismo. Ser cristão exige radi-
calidade no seguimento de Jesus, pois, sem um caminho de discípulos, dificilmente iremos propor
algo consciente e capaz de saciar a sede de tantas pessoas que buscam um sentido para viver e
uma ética para conviver. Não é possível, portanto, transmitir a fé se os anunciadores perderam o
horizonte de sua própria fé, do seguimento e do testemunho. A primeira tarefa é renovar a fé no
seguimento de Jesus Cristo.

2. TRANSMISSÃO DA FÉ

Diante da situação atual, precisamos perceber que estamos numa grande fase de transição cultural
na qual o equilíbrio anterior desapareceu. Nada se livra dessa situação e de nada serve buscar os
culpados. Nem a autoculpabilidade que pesa sobre os padres e os catequistas por vários motivos; nem
a culpabilização que atinge as crianças, os jovens e as famílias por se mostrarem desinteressados
pelos temas da fé (BIEMMI, 2013, p. 21).

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Não é possível transmitir a fé às novas gerações ensinando, primeiramente, costumes, fórmulas


ou práticas religiosas. Em primeiro lugar, essa é uma relação de proximidade, encontro e diálogo que
suscita uma postura: acolher o chamado de Jesus: “Vinde e vede.” Jesus é a Verdade que ilumina todo
ser humano que vem a este mundo. Ele é a presença do eterno no meio do tempo que passa. Em sua
vida, paixão, morte e ressurreição, nós encontramos o sentido da existência de cada ser humano e
de toda a Criação. Sua Boa-Nova é o amor que torna amável a vida.
Quem crê anuncia. Não é possível praticar a fé em Jesus Cristo, ser discípulo do seu Caminho,
sem ser missionário. Anunciar é afirmar, gritar, comunicar; é transmitir a fé com toda a vida. Não se
anuncia uma mensagem fria ou apenas um corpo doutrinal. Anuncia-se, em primeiro lugar, uma pes-
soa, um acontecimento: o Cristo que ama a humanidade e por ela deu sua vida. O anúncio, porém,
depende de um encontro: “Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia,
mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta
forma, o rumo decisivo” (Deus Caritas Est, n. 1).
A Iniciação à Vida Cristã não tem outra missão que não seja a de introduzir a pessoa na dinâmica
do encontro com Jesus: “O discípulo que caminha com Jesus será assim introduzido com Ele na
comunhão com Deus” (RATZINGER, 2007, p. 26).
O anúncio da fé e sua dimensão missionária se relacionam à convicção cristã de que somente
em Jesus os seres humanos podem alcançar a salvação. Essa Boa-Nova deve ser levada a toda a
humanidade. É, por isso, que o anúncio de Jesus Cristo deve ser sempre repensado, reformulado,
anunciado e revivido no seio de cada cultura. O anúncio da fé é sempre uma atitude comunitária. O
encontro pessoal com Jesus não pode separar-se do encontro comunitário com aqueles que percorrem
o mesmo caminho. A fé cristã não propõe somente uma relação entre o eu e o tu, entre a pessoa e
Deus; ela também se relaciona com o nós. Não há fé que não seja vivida na Igreja, em comunidade,
o que exige que o eu se encontre no nós.
Em tempos de crise de pertencimento, será preciso mostrar a beleza do encontro com Jesus em
sua Igreja. Há de se superar uma fé vivida de modo privatizado e intimista. A fé cristã, portanto, não é o
resultado de uma busca solitária em que o eu chega a uma conclusão determinada, mas é “o resultado
de um diálogo, que pressupõe a disposição de ouvir, de receber e de responder, que remete o ser
humano, pela relação do eu com o tu, ao nós daqueles que participam dessa mesma fé” (RATZINGER,
2005, p. 67). Esse vínculo com os demais seguidores de Jesus Cristo faz com que cada cristão jamais
se isole, pois a comunhão supõe sempre saída de si e acolhida recíproca.
A comunidade cristã também não pode se fechar às diversas realidades que afetam o seu contexto.
Não se trata de um grupo que satisfaz apenas sua dimensão religiosa, mas integra toda experiência
pessoal, comunitária e social a partir de sua fé em Jesus Cristo. “A fé não é um fato privado, uma con-
cepção individualista, uma opinião subjetiva, mas nasce de uma escuta e destina-se a ser pronunciada
e tornar-se anúncio” (Lumen Fidei, n. 22).
No atual contexto, é urgente promover a cultura de encontro com os afastados e evangelizar os
ambientes que se tornaram indiferentes à mensagem evangélica. “Quem crê nunca está sozinho; e,
pela mesma razão, a fé tende a difundir-se, a convidar outros para a sua alegria. Quem recebe a fé
descobre que os espaços do próprio ‘eu’ se alargam, gerando nele novas relações que enriquecem
a vida” (Lumen Fidei, n. 39).

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Enfim, considerando os desafios do atual contexto e diante da necessidade de transmitir a fé


às novas gerações, constata-se tanto o valor de renovar a experiência de encontro com Cristo com
aqueles que, embora batizados, ainda não conseguem viver o discipulado, quanto com os que esperam
um anúncio capaz de orientar para o sentido da vida. Para esses últimos será o primeiro anúncio e
para os outros será o segundo anúncio.2 Apesar de interessante, a expressão segundo anúncio pode
gerar dificuldades na compreensão. Melhor é propor o querigma de forma continuada e permanente,
conforme sustenta ao Papa Francisco, pois para ele o fato se designarmos “primeiro anúncio”, não
implica que este se situe apenas no início e que, posteriormente, se esqueça ou se substitua por
outros conteúdos da fé. Diz o Papa: “é o primeiro em sentido qualitativo, porque é o anúncio principal,
aquele que sempre se tem de voltar a ouvir de diferentes maneiras e aquele que sempre se tem de
voltar a anunciar, duma forma ou doutra, durante a catequese, em todas as suas etapas e momentos”.
(Evangelii Gaudium, n. 163).

3. CONVERSÃO PASTORAL E QUERIGMA

Estamos diante de um novo contexto da fé cristã no Ocidente. A emancipação da razão fez uma
ruptura com o Cristianismo, considerado como inimigo do humano, de sua liberdade e de sua realiza-
ção (BIEMMI, 2013, p. 24). Agora segue a indiferença e o esquecimento da fé cristã e de sua história.
As novas gerações não conhecem a proposta cristã que sustentou os valores, a cultura e a vida de
muitas gerações antes de nós.
Nem tudo, porém, foi descartado. A memória cristã e suas manifestações estão, cada vez mais,
dentro de mentalidades secularizadas: os matrimônios, os funerais, os festejos de padroeiros, a
religiosidade aliada à prosperidade. Mesmo que as pessoas busquem novos ritos, novas cerimônias
restaram alguns elementos de referência, especialmente as bênçãos, as peregrinações e as devoções.
Isso representa tanto possibilidade quanto dificuldade para o anúncio do Evangelho. Não é possível
desprezar a situação atual para realizar o querigma. É necessário, contudo, muito discernimento para
que a evangelização não ocorra de maneira decorativa, como aplicando um verniz superficial, mas que
se evangelize de maneira vital, atingindo as raízes da civilização da cultura, alcançando o ser humano
no sentido pleno e amplo (Evangelii Nuntiandi, n. 20).
Há novas chances para o querigma na cultura atual. Não está acabando o Cristianismo. É, apenas,
o fim de uma forma sociológica e cultural de compreendê-lo no Ocidente. A cultura atual não transmite
fé, mas liberdade religiosa. Nesse sentido, os cristãos de amanhã sentirão a fé como um elemento
especial da Graça que favorecerá seu desenvolvimento humano (BIEMMI, 2013, p. 28). Viverão a fé
em meio a pessoas que pensam e vivem de modo diferente deles. Anunciará mais pelo testemunho
do que pelas palavras.

2
O segundo anúncio é a expressão empregada pelo irmão e escritor italiano Enzo Biemmi, presidente das Equipes Europeias
de Catequetas. Ele sustenta a necessidade de renovar o anúncio da fé cristã para quem foi apenas instruído na fé, embora
tenha recebido os sacramentos da Iniciação à Vida Cristã, de fato, não se sente pertencente à comunidade cristã, visto que
carece das noções fundamentais para alguém aderir ao discipulado de Jesus Cristo. Ele insiste numa evangelização mais
atenta aos pais das crianças da catequese sacramental.

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Isso implicará também a conversão pastoral das comunidades cristãs. É preciso arrepender-se
de um estilo de pastoral de manutenção para assumir nova postura missionária. Há muitos batizados
e até agentes de pastoral que não fizeram o encontro pessoal com Jesus Cristo que muda a vida e
converte a pessoa.
O desafio consiste em passar de uma religião de herança social para uma religião de opção pessoal;
de uma sociedade unificada pela fé católica para uma sociedade constituída na liberdade democrática
e no pluralismo de ideologias. De uma Igreja de massa a uma Igreja diferenciada e articulada em
pequenas comunidades de discípulos missionários. As comunidades cristãs deverão apresentar uma
proposta de maternagem eclesial, pois a Igreja é mãe acolhedora que gera filhos santos.

4. O PRIMEIRO ANÚNCIO

A crise do contexto atual desafia a fé e, mais concretamente ainda, a proposta do primeiro anúncio.
Não é possível estabelecer um caminho de catequese se a pessoa não está motivada a percorrê-lo.
É preciso que crianças, jovens e adultos tenham um mínimo de interesse em aprofundar a fé cristã,
mas isso só ocorrerá depois de receberem o primeiro anúncio, o querigma.
Para definir o querigma, convém evitar tanto uma concepção muito ampla quanto uma noção
reduzida. A definição ampla consiste em afirmar que a pregação do Evangelho já é um primeiro
anúncio, porque o Evangelho ressoa de maneira sempre nova, inclusive na vida do cristão. Ora,
dizer que sempre e em todos os momentos estamos no primeiro anúncio seria esvaziar o conceito
específico de querigma. A definição reduzida, pelo contrário, consiste em limitar o primeiro anúncio à
proclamação da fé, calorosa e breve, de tipo querigmático, com o objetivo de suscitar uma conversão
imediata, sem debate, sem mediações.
Nesse caso, o primeiro anúncio se reduz a um estilo direto de pregação tanto na praça pública
como nas relações interpessoais. É a ideia de que a pessoa se converteu imediatamente após ouvir a
Palavra. Recorde-se de que toda conversão acontece dentro de um processo que pode ter um ponto
determinante, mas desencadeia novo olhar sobre a realidade a partir da adesão a Jesus Cristo.
O querigma é um anúncio direto, profético, testemunhal, que parte da experiência do encontro com
Jesus Cristo: o Crucificado-Ressuscitado. Surge de uma experiência, a tal ponto vital e positiva, que faz
com que ela seja compartilhada com outras pessoas. “Não podemos calar o que vimos e ouvimos, o
que as nossas mãos tocaram da Palavra de Vida” (1Jo 1,1). É uma evangelização que toca e mobiliza
a pessoa por inteiro, num processo de busca por aquilo que dá sentido à sua vida.
O querigma é, primeiramente, anúncio. Aquele que o recebe percebe que é um convite para dar
os primeiros passos na fé. Isso implica, por parte da testemunha que o anuncia, uma atitude espiritual
de esvaziamento. A testemunha não tem o poder de transmitir a fé e de converter. Está lançada ao
imprevisto, ao inesperado, ao risco da liberdade. Tudo é graça de Deus, e a difusão da fé é obra do
Espírito Santo.
O destinatário do primeiro anúncio é também um interlocutor que se escuta, que se vai aprendendo
a conhecer, que tem direito à palavra, com quem se estabelece uma relação de amizade. Especialmente
em meio ao pluralismo e relativismo do nosso tempo, é improvável que tenha bom efeito um anúncio

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imposto e fechado, sem diálogo. Essa atitude supõe a capacidade de perceber que o Espírito Santo
precede, acompanha e dá continuidade à obra do querigma.
Quem realiza o querigma deve ser uma pessoa que fez a experiência do encontro com o Senhor,
que se sente sua discípula e, por isso, entende que quem crê anuncia. Mas não faz de forma isolada,
faz sempre em nome da Igreja. A Igreja é reunião de fiéis que se colocam no Caminho de Jesus Cristo
rumo à pátria definitiva. Não são pessoas prontas ou perfeitas no discipulado, mas membros da co-
munidade cristã, os quais desejam que outros participem da alegria de seguir o Caminho, a Verdade
e a Vida. As comunidades cristãs são portadoras do primeiro anúncio pelo seu estilo de vida, seu
espírito, suas assembleias, suas celebrações, seus projetos e compromissos.
Alguns pontos fundamentais do querigma podem ser identificados, embora não seja possível es-
gotar as muitas possibilidades que a criatividade divina encontra para se revelar ao coração humano.
Podem-se destacar os seguintes elementos do querigma: a) a revelação do amor de Deus que tudo
criou por amor; b) o pecado humano que impede a pessoa de responder a esse amor; c) Jesus Cristo
é a revelação do rosto amoroso de Deus que nos salva da morte e permite ao ser humano acolher e
responder ao amor de Deus, pois ele reconcilia o mundo com Deus por meio de sua cruz e ressur-
reição; d) a resposta humana a esse amor é crer e mudar de vida, conversão; e) quem garante essa
experiência atualizada do amor de Deus é o Espírito Santo; e f) ao acolher o amor de Deus, a pessoa
encontra irmãos e irmãs para caminhar nessa estrada: é a comunidade cristã – a Igreja.
Em Amoris Laetitia, o Papa Francisco prioriza o querigma como a ação mais importante na evange-
lização. Ele declara que o primeiro anúncio é “mais belo, mais importante, mais atraente e, ao mesmo
tempo, mais necessário” e “deve ocupar o centro da atividade evangelizadora” (n. 48). Defende, ainda,
que toda formação cristã é prioritariamente o aprofundamento do querigma.

5. O QUERIGMA NUMA “IGREJA EM SAÍDA”

A ousadia querigmática supõe uma Igreja em saída, afinal, não é possível propor uma Iniciação
à Vida Cristã alheia às periferias geográficas e existenciais dos diversos contextos nos quais se
encontram as pessoas. É urgente acolher o apelo que faz o Papa Francisco “Prefiro mil vezes uma
Igreja acidentada que uma Igreja doente! Prefiro uma Igreja, um catequista que corra corajosamente
o risco de sair, que um catequista que estude, saiba tudo, mas sempre fechado: este está doente.”3
Esse destaque, para sair ao encontro das diferentes periferias para o primeiro anúncio, parte da
constatação de que há muitos batizados que não vivem as exigências de seu Batismo, perderam o
senso de pertencimento à Igreja e já não sentem a consolação da fé. Igualmente, desafia a quantidade
de pessoas que não conhecem Jesus Cristo ou que sempre o recusaram, a conhecê-lo (EG, n. 14).
O querigma supõe uma evangelização orientada à periferia. Quando a ação da comunidade e do
catequista se reduz a questões internas, a catequese perde a força do querigma.
O Papa Francisco, quando ainda era cardeal em Buenos Aires, alertava aos seus catequistas que tal
fechamento torna a catequese um ensinamento insípido da doutrina, transmissão frustrante de normas

3
Discurso do Papa Francisco aos Catequistas em Peregrinação por ocasião do Ano da Fé e do Congresso Internacional de
Catequese. 27 de setembro de 2013.

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morais, experiência insípida de estar semeando inutilmente. Para superar essa tentação, é preciso,
continuamente, peregrinar até as periferias e não temê-las, não fugir delas, pois lá está o Mestre que
precede a todo evangelizador, como ele precedeu aos discípulos na Galileia (BERGOGLIO, 2013, p. 58).
A realidade pastoral tem urgência em levar o querigma, sem pressupor ou dar por descontado
nada em questão de fé, apenas considerar a presença do Cristo que precede ao catequista no ato de
evangelizar. Essa realidade é destacada pelo Papa Francisco em seu discurso no Congresso Interna-
cional de Catequese, ocorrido em Roma, em 27 de setembro de 2013, quando retomou o neologismo
primeirear: “O Senhor sempre nos primeireia!  [...] Deus sempre nos precede! [...] Vós sabeis uma das
periferias que me faz tão mal, tão mal que me faz doer [...] é a das crianças que não sabem fazer o
Sinal-da-Cruz”. (PAPA FRANCISCO, 2013).
O desafio de alcançar quem se afastou ou desconhece o Caminho de Cristo, implica nova pedagogia
para ir ao encontro das pessoas. Isso supõe proximidade, abertura ao diálogo, paciência e acolhimento
cordial que não condenam (EG, n. 165).  
O querigma tem, igualmente, desdobramentos que implicam a participação social do cristão. Não
se trata de uma fé e de uma catequese que formam apenas para o interior da comunidade cristã.
Afinal, “no próprio coração do Evangelho, aparece a vida comunitária e o compromisso com os outros.
O conteúdo do primeiro anúncio tem uma repercussão moral imediata, cujo centro é a caridade” (EG,
n. 177). É necessário ter um olhar diferenciado para com os pobres, seja pela abertura que têm à
fé, seja pela necessidade que sentem de Deus. “A opção preferencial pelos pobres deve traduzir-se,
principalmente, em solicitude religiosa, privilegiada e prioritária” (EG, n. 200).  

CONCLUSÃO

Após identificar alguns sinais de nosso tempo, os quais clamam por um olhar de discípulos mis-
sionários, percebemos uma crise atual para a transmissão da fé às novas gerações. Diante disso,
o querigma há de ser um primeiro anúncio fundamental, de modo que proporcione uma experiência
de encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo a todos os que buscam um caminho, um ideal
de vida, um sentido para viver. Por outro lado, não podemos deixar de propor um segundo anúncio a
quem já recebeu os sacramentos de Iniciação à Vida Cristã, mas não vivenciou o encontro com Jesus
Cristo que transforma a vida. Esse querigma aos afastados da Igreja se faz com atitudes de uma
“Igreja em saída” que não teme ir ao encontro das periferias geográficas e existenciais, na linguagem
do Papa Francisco.
Ao concluir esta reflexão, importa apresentar alguns indicadores que podem sugerir oportunida-
des e possibilidades de realizar esse querigma tanto como primeiro, quanto como segundo anúncio.
Trata-se, apenas, de algumas sugestões para a comunidade cristã, especialmente aos ministros
ordenados e aos catequistas, de que aprofundem e vivenciem a prática do querigma. Amparamo-nos
em ensinamentos do Papa Francisco para propor essas recomendações.
Em primeiro lugar, precisamos apresentar a Boa-Nova de forma alegre e propositiva. De nada
serve condenar o mundo e o momento atual. É preciso evitar dualismos e antagonismos, pois o
anúncio supõe uma transmissão alegre, capaz de atrair os que da Igreja se afastaram. Observe-se

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que a maioria dos textos do Papa Francisco ou se intitula com o termo alegria ou se estrutura de forma
propositiva que suscita uma acolhida de seu pensamento. A Evangelii Gaudium pede que os cristãos
sejam mensageiros alegres, guardiões do bem e da beleza que resplandece do Evangelho.
Outro aspecto importante é a metodologia a ser empregada. Trata-se de procurar manter uma
maior proximidade com as pessoas. Não bastam as doutrinas e a instrução. Elas são indispensáveis,
mas pressupõem uma “pedagogia da presença”, de quem procura estar sempre mais próximo das
pessoas, especialmente dos que mais sofrem. Para o Papa Francisco a “pedagogia da presença” se faz
com proximidade e escuta. Essas atitudes não se constituem apenas num estilo de fazer catequese,
tampouco uma tática para evangelizar, mas delineiam o próprio conteúdo da catequese seguindo a
pedagogia de Jesus Cristo (BERGOGLIO, 2013, p. 25-27).
O querigma não se impõe, mas se propõe. Para tanto, é indispensável o diálogo que se estabelece
por meio de uma verdadeira “pedagogia da escuta”. Esta pedagogia se baseia no valor que há em
escutar mais do que ouvir. Somente na escuta atenta ao outro é possível vencer as distâncias e criar
empatia. Somente a escuta possibilita o encontro. “Escutar é mais que ouvir. Este último está na linha
da informação. O primeiro está na linha da comunicação, na capacidade do coração que possibilita a
proximidade, sem a qual não é possível um verdadeiro encontro.” (BERGOGLIO, 2013, p. 49).
Uma decorrência da pedagogia da escuta é a revisão da linguagem. Somos chamados a anunciar
Jesus Cristo em linguagem acessível e atual. Porém, o fazemos mediante abstrações e fórmulas, sem
comunicar experiências de fé. Presos a conceitos de difícil compreensão, muitas vezes, não somos
capazes de estabelecer relações entre a vida dos que creem e o Mistério de Deus (CNBB, 2014, n. 47).
Enfim, o querigma exige uma conversão pastoral que supere, também, uma pastoral de manutenção.
Somente assim, será possível enfrentar as transformações culturais que dificultam a transmissão da
fé às novas gerações. Somente uma catequese “em saída”, isto é, essencialmente missionária, será
capaz de romper as barreiras que impedem a comunicação da fé às diversas periferias geográficas e
existenciais que conhecemos. Ir ao encontro do outro é a urgência que tem a catequese querigmática.

REFERÊNCIAS
BENTO XVI. Carta Encíclica Deus Caritas Est sobre o amor cristão. São Paulo: Paulinas, 2005.
BENTO XVI. Carta Apostólica sob forma de Motu Proprio Porta Fidei. São Paulo: Paulinas, 2011.
BERGER, Peter L. Os múltiplos altares da modernidade: rumo a um paradigma da religião numa época
pluralista. Petrópolis: Vozes, 2017.
BERGOGLIO, Jorge Mário. Queridos catequistas: cartas, homilías y discursos. Madrid: PPC Cono
Sur, 2013.
BIEMMI, Enzo. El segundo anuncio: la gracia de volver a empezar. Maliaño: Sal Terrae, 2013.
CONSTITUIÇÃO PASTORAL Gaudium et Spes. Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II.
São Paulo: Paulus, 1997.
CNBB. CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Comunidade de Comunidades: uma
nova paróquia: a conversão pastoral da paróquia. São Paulo: Paulinas, 2014.

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PAPA FRANCISCO. Carta Encíclica Lumen Fidei. São Paulo: Paulinas, 2013.
PAPA FRANCISCO. Discurso do Papa Francisco aos catequistas em peregrinação por ocasião do Ano
da Fé e do Congresso Internacional de Catequese. 27 set. 2013.
PAPA FRANCISCO. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. São Paulo: Paulinas, 2013.
PAPA FRANCISCO. Exortação Apostólica Amoris Laetitia. São Paulo: Paulinas, 2016.
PAULO VI. Exor tação Apostólica Evangelii Nuntiandi. São Paulo: Paulinas, 1975. 
RATZINGER, Joseph. Introdução ao Cristianismo: preleções sobre o Símbolo Apostólico com um novo
ensaio introdutório. Trad. de Alfred J. Keller. São Paulo: Loyola, 2005.
RATZINGER, Joseph. Jesus de Nazaré: primeira parte do batismo no Jordão à transfiguração. Trad.
de José Jacinto Ferreira de Farias. São Paulo: Planeta, 2007.

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CELEBRAR E INICIAR AO MISTÉRIO: A LITURGIA

Pe. Thiago Faccini Paro1

INTRODUÇÃO

É muito comum, ouvir de fiéis que participam semanalmente de nossas celebrações eucarísticas,
sobretudo os mais jovens, dizerem: “a missa é muito chata, repetitiva e monótona”. E na maioria das
vezes eu dou razão a eles. Mas onde está o problema? Sem dúvida não está nas ações simbólico-ri-
tuais, ou na estrutura celebrativa da liturgia.
A liturgia tem sua linguagem própria, e sua comunicação se dá através de ritos e símbolos. Se não
formos educados para compreender a linguagem simbólico-ritual, dificilmente as celebrações, como
previstas nos livros litúrgicos, serão “interessantes”. Costumo dizer que para muitos, as celebrações
são como um filme em mandarim, que assistimos sem legenda, ou seja, estamos vendo a imagem,
porém, não compreendemos o diálogo que ali se estabelece por não sabermos o idioma.
Para mudar esse contexto é preciso ter clareza sobre o papel e função da catequese na iniciação
à vida cristã. Esta deve superar a transmissão da fé feita apenas de maneira oral, doutrinal e de
práticas escolares que já são ultrapassadas até pela escola. É preciso que seu itinerário contemple a
possibilidade de fazer com que a fé seja experimentada pelos sentidos, pela vivência e compreensão
de toda ação ritual, tornando-se uma catequese que ensine e ajude a compreender a linguagem
própria da liturgia.
Com a intenção de contribuir com o papel e missão da catequese apresentamos neste texto, o
mistério que celebramos na liturgia e seu significado, a compreensão do termo iniciação e da Iniciação
Cristã da Igreja primitiva, identificando os fundamentos antropológicos, culturais e teológicos para uma
“iniciação” permeada por ritos e símbolos. A partir desses referenciais, motivamos a uma mudança de
mentalidade e de prática, sugerindo pequenas ações, que em longo prazo, poderão contribuir para for-
mar uma nova assembleia celebrante: ativa, participante e consciente do mistério que está celebrando.

“FAZEI ISTO EM MEMÓRIA DE MIM”

Desde a criação do mundo e do pecado do homem, Deus propõe um Projeto de Salvação e se


revela à humanidade. Propõe um caminho de arrependimento, reconhecimento, conversão e aliança.
Nesta trajetória, com o chamado de Abraão, Deus elege um povo como sinal de seu amor, mos-
1
Pe. Tiago Aparecido Faccini Paro possui mestrado em teologia e especialização em Liturgia, Ciência e Cultura pela PUC-SP,
graduado em Pedagogia, especialização em Espaço Litúrgico e Arte Sacra. É secretário da ASLI (Associação dos Liturgistas
do Brasil) e assessor do Setor de Espaço Litúrgico da Comissão Episcopal Pastoral para Liturgia da CNBB. É também autor
de vários livros e textos de catequese.

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trando sua paciência e fidelidade para com a humanidade que constantemente lhe volta às costas.
O povo hebreu experimenta Deus e sua misericórdia em diversos momentos de sua história, quando
então, escravo no Egito, faz a experiência da libertação. Deus que escuta o clamor do seu povo, vê
o seu sofrimento e se compadece, faz sair e atravessar a pé enxuto o mar, fazendo a passagem da
escravidão para a libertação. Este momento tão importante e significativo na vida e na história de um
povo não pode ser esquecido. É necessário fazer memória, não no sentido apenas de lembrar, mas de
atualizar. Este evento, portanto, é vivido e atualizado a cada ano, em um conjunto de ações, palavras
e gestos: a páscoa judaica!
Jesus era judeu, celebrava anualmente este acontecimento da libertação do povo de Israel da
escravidão do Egito. Porém, em sua última ceia pascal, Jesus ao celebrá-la com os discípulos, dá um
novo sentido ao rito. Torna-a prefiguração da nova libertação, da nova e eterna aliança: Paixão, Morte
e Ressurreição. Nos ritos judaicos, experimentam a presença do mistério pascal de Cristo! Agora não
mais a passagem do mar para libertar da escravidão do Egito, mas a passagem (Páscoa) da morte
para a vida que liberta da escravidão do pecado.
Este evento tão importante, que só foi entendido pelos discípulos após a ressurreição do Senhor,
não podia ser esquecido, pois o próprio Cristo havia deixado o mandato: “fazei isto em memória de mim”
(Lc 22,19). Para entender isso é preciso voltar para o que Jesus disse, fez e mandou fazer: “Mandou
que se faça a mesma coisa que fez naquela ceia derradeira” (Oração Eucarística V).
- Tomou o pão/vinho (Preparação das oferendas)
- Deu graças (Prece Eucarística)
- Partiu e repartiu (Rito da Comunhão)
Neste sentido podemos perguntar: Que mistério da fé é proclamado a cada celebração da Eucaris-
tia: “Eis o mistério da fé!”?. Essa pergunta pode facilmente ser respondida pela aclamação memorial
reintroduzida pelo Concílio Ecumênico Vaticano II: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte! Proclamamos
a vossa ressurreição! Vinde, Senhor Jesus!” que tem sua origem em 1 Coríntios 11,26.
O mistério da fé não é só acreditar que Jesus está presente nas espécies eucarísticas. É muito
mais que isso, é ter a certeza que Deus enviou seu Filho ao mundo, que se encarnou no seio de uma
mulher, se fez homem, morreu e ressuscitou para nos salvar e vai voltar em sua glória. Celebrar a Eu-
caristia não é recordar a última ceia. É estar hoje aos pés da cruz e no jardim da ressurreição. É fazer
memória, atualizar o único e eterno sacrifício. “Eis o mistério da fé” é celebrar a PÁSCOA do Senhor!
Esse é o papel da liturgia... De origem grega, o termo liturgia, LIT (povo, comunidade), + URGIA
(serviço, obra, ação), expressa a ação do povo e a ação em favor do povo. Neste sentido, o primeiro e
maior liturgo é a Santíssima Trindade: Deus Pai com a CRIAÇÃO; Deus Filho com a SALVAÇÃO; Deus
Espírito Santo com a SANTIFICAÇÃO (Cf. CIC, nn. 1069-1109). Essa ação da Trindade em favor da
humanidade é a primeira e mais perfeita liturgia. Ao experimentar esse Deus que se inclina em favor da
humanidade gera em nós também a liturgia, quando gratuitamente nos colocamos a serviço do outro.
Liturgia é também celebração. Celebrar é tornar célebre, importante, valorizar algum acontecimento.
É uma necessidade humana, é expressar e aprofundar o sentido da existência: num aniversário, pro-
clamamos o sentido da vida, nos jogos olímpicos, a unidade e integração entre os povos, nas festas
religiosas o olhar de Alguém para nós.

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A liturgia cristã nasce dessas duas perspectivas: celebramos a ação de Deus em favor do seu povo.
Tornamos célebre a obra salvífica de Deus, o Mistério Pascal: Celebração da obra de Deus realizada
em Cristo (sua paixão, morte, ressurreição e glorificação). É este o acontecimento central de nossa
fé. E é em torno dele que, em algum lugar do mundo e neste exato momento, há uma comunidade
reunida para celebrar... seja para partir o pão na Eucaristia, para acolher os nascidos pela água do
Batismo, para selar a união do Matrimônio, ou ainda para rezar a Liturgia das Horas, ou pelas exéquias
celebrar a páscoa de um ente querido.
Liturgia significa que o povo de Deus toma parte na “obra de Deus”, e pela liturgia, Cristo, nosso
Redentor e Sumo Sacerdote, continua na Igreja, com ela e por ela, a obra de nossa redenção. Na
celebração litúrgica, a Igreja é serva à imagem do seu Senhor, o único “liturgo”, participando do seu
múnus sacerdotal (culto), profético (anúncio) e régio (serviço da caridade). Assim, em nós e por nós,
membros do seu Corpo, Cristo continua sua obra de santificação do ser humano e glorificação do
Pai. Sua “Liturgia” continua sendo “celebrada” de inúmeras maneiras, “mediante sinais sensíveis”.
Portanto, Liturgia é, muito mais que um conjunto de ritos. Participar dela, vai muito além de fazer
uma leitura, ou levantar os braços e bater palmas. Liturgia é tornar celebre o mistério da nossa salva-
ção, atualizando, fazendo sua memória, cumprindo o mandato de Jesus: “Fazei isto em memória de
Mim” (Lc 22,19), é “o lugar privilegiado da catequese do povo de Deus. [ Nesse processo] a catequese
está intrinsecamente ligada a toda ação litúrgica e sacramental, pois é nos sacramentos, e, sobretudo,
na Eucaristia, que Cristo Jesus age em plenitude para a transformação dos homens” (CIC, n. 1074).

COMUNICAÇÃO LITÚRGICA: DO VISÍVEL AO INVISÍVEL

Jesus era judeu, celebrava anualmente a Páscoa Judaica, que fazia memória da libertação do
povo de Israel da escravidão do Egito. Porém, em sua última ceia pascal, Jesus ao celebrá-la com os
discípulos, dá um novo sentido ao rito, não mais como libertação do Egito, mas agora como libertação
total do pecado, da morte. Torna-a prefiguração da nova libertação, da nova e eterna aliança: sua
Paixão, Morte, Ressurreição.
Com o gesto simbólico, na última ceia, em que usou pão e vinho, Jesus expressou, sua entrega
total ao Pai, a realização da nova e terna aliança e a vinda do Reino... Esse gesto entrou depois para
a história. Pois, cumprindo o seu mandato, os discípulos de Jesus continuaram e continuam a realizar
o mesmo gesto para fazer memória de Jesus, de sua morte e ressurreição. O GESTO VIROU “RITO”.
Etimologicamente a palavra rito vem do latim ritus, que indica ordem estabelecida. Nesse sentido, rito
é a ordem estabelecida ou prescrita por um grupo, trazendo harmonia e ritmo, fazendo com que a ação
flue ordenadamente. O termo faz referência a uma ação realizada em um determinado tempo e espaço,
diferente das ações da vida e do comportamento cotidiano, realizadas no seio de uma religião ou de uma
cultura e reconhecidos como tais. Foi o caso da última ceia celebrada por Jesus, uma ação diferente,
que marcou a vida dos discípulos, que repetida de maneira ordenada, ou seja, ritual, feita com arte e
ritmo, que nos remete ao evento originário e fundante: a Páscoa Cristã, o mistério da nossa salvação.
Pensemos numa orquestra com vários instrumentos. Cada instrumentista tem uma partitura.
Essa partitura não é a música. Esta se tornará música a partir do momento em que cada instrumento

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for tocado, respeitando cada nota e o seu tempo. Do mesmo modo os ritos litúrgicos, descritos nos
livros, só se tornarão liturgia à medida que forem executados, de maneira consciente, respeitando sua
sequência e ritmo. Para isso, como numa orquestra, é preciso muito ensaio, é preciso distribuir com
antecedência cada serviço e ministério, para que o rito flua de maneira ordenada e alcance a mente
e o coração de cada fiel que ali celebra. O rito em sua dinâmica é, portanto, a linguagem própria da
liturgia indispensável para expressar e experimentar a fé. Assim pode-se dizer que não existe rito sem
tradição e não existe liturgia sem ritualidade!
A liturgia, além de ser constituída por ritos, é formada também por símbolos. A palavra “símbolo”
tem atualmente muitos usos e significados dentre as diversas ciências e ambientes. Em nossa reflexão
interessa-nos o sentido antropológico atual: um sinal visível que evoca e traz presente uma realidade
invisível. O símbolo, portanto, em seu sentido antropológico é um conjunto de elementos sensíveis
em que os homens, seguindo o dinamismo das imagens, captam significados que transcendem as
realidades concretas.
O símbolo mais profundo e último da liturgia cristã é o próprio Cristo que se tornou humano, o Verbo
encarnado. Nele, a Palavra, a realidade impalpável de Deus como fundamento primeiro do mundo,
encarnou-se, de modo que pudéssemos de modo sensível contemplar a sua glória. Essa corporeidade
de Deus continua presente na Igreja, na comunidade reunida pelo Espírito e sustentada pelo amor de
Cristo. A liturgia por excelência, através dos seus ritos e símbolos, torna-se reveladora de sua presença
em nosso meio. “Símbolos e ritos realizam o encontro com Deus, ajudam a perceber a presença do
mistério divino em todas as coisas” (CNBB, 2017, n. 82).
A liturgia é, portanto, uma ação, uma comunicação plena, feita de palavras, com uma linguagem
mais intuitiva e afetiva, mais poética e gratuita, como também de gestos, movimentos, símbolos, ação. A
liturgia é assim uma celebração na qual por si só prevalece a linguagem dos símbolos. Em cada símbolo
e ação simbólica, pode-se distinguir um gesto corporal, um sentido teológico e um sentimento, um afeto.
Assim, todas as celebrações cristãs têm um sentido e significado que vão muito além do momento
da celebração. A partir do visível, ritos e símbolos, comunica-se uma realidade invisível escondida em
cada gesto, ação, palavra ou elemento. Esse processo e dinâmica são estudados e explicados por
vários autores que usam termos diversos, mas com o mesmo sentido e compreensão. Leonardo Boff
(1975) usa três termos: imanente – transcendente – transparente. Imanente é o que se vê, o que, a
partir da ação ritual e da fé do fiel, se tornará transparente e revelará o transcendente, aquilo que não
vê. Falando especificamente de um símbolo sacramental, citamos a Eucaristia, como exemplo, em
que o pão e o vinho é o que eu vejo(imanente) e que, na ação ritual, provoca uma reação no indivíduo
e evoca uma realidade transcendente, além do que vejo, Corpo e Sangue de Cristo (transcendente),
e provoca um encontro. Então, o imanente se torna transparente e revela o transcendente. É assim
que a liturgia se comunica e revela o mistério de Cristo, o mistério da nossa Salvação.

O TERMO INICIAÇÃO E SUAS CARACTERÍSTICAS

O termo “iniciação”, de origem pagã, provém do latim “in-ire”, que significa “ir bem para dentro”.
Ou seja, é o processo de imersão, que insere, esclarece e forma o indivíduo em novo jeito de ser de

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uma cultura ou novo grupo; sinaliza uma mudança de vida, de comportamento, com a inserção numa
nova religião (cf. CNBB, 2009, n. 46).
Assim, pode-se dizer, com o grande estudioso das religiões, Mircea Eliade (1989. p. 187), que
iniciação é
um conjunto de ritos e ensinamentos orais, visando realizar uma transformação do
estatuto religioso e social do iniciado. Do ponto de vista filosófico, a iniciação equi-
vale a uma mutação ontológica existencial. Ao final do período de provas, o neófito
goza de uma existência totalmente diferente da que possuía antes: transforma-se
noutra pessoa.
Diante dessas definições, podemos identificar algumas características do processo iniciático em
toda e qualquer religião. De acordo com Mircea o processo iniciático pressupõe dois movimentos: um
oral, com a transmissão da doutrina e um simbólico-ritual, com a transmissão do sentido teológico
dos ritos e símbolos, que constitui a ação celebrativa dando-lhes autonomia para sua compreensão,
pois, toda e qualquer religião se manifesta principalmente através de ritos e símbolos. Eles revelam
os fundamentos e a identidade da religião. Neste sentido, todos os que estão sendo iniciados na fé,
para serem incorporados ao grupo, devem receber as bases para a compreensão, os códigos que
revelarão os mistérios e a crença escondida nos ritos. O significado teológico de um rito dá possibi-
lidade à sua interpretação e, ao mesmo tempo, inspira a vitalidade de sua execução. Sendo assim,
não basta apenas uma transmissão oral.
Outra característica, é provocar uma mudança no estatuto social e religioso do iniciado. Ele deve
entrar de uma forma e, ao final do processo, ser uma outra pessoa, ou seja, no cristianismo, por
exemplo, deverá haver uma transformação pessoal, assumindo os valores evangélicos, sendo ético
e não se deixando corromper e uma transformação religiosa, se comprometendo com a comunidade
eclesial, colocando os seus dons a serviço da Igreja.
E, por fim, é preciso compreender a iniciação como um processo único e gradativo, como um
itinerário sem divisões ou rupturas, de modo que os envolvidos possam ter ciência do todas as suas
fases e conteúdo.
Para nós católicos, a iniciação é o processo pelo qual uma pessoa não batizada é introduzida no
Cristianismo, ou mais especificamente na Igreja Católica Apostólica Romana, assumindo o modo de
viver de Cristo, na sua Igreja, dando-lhes condições de compreenderem e celebrarem de maneira
consciente o mistério revelado pela ação litúrgica.

A INICIAÇÃO DA IGREJA NOS PRIMEIROS SÉCULOS

A iniciação da Igreja primitiva, que inseria os cristãos na comunidade eclesial, que teve seu auge
entre os séculos II e IV ficou conhecida como catecumenato e era destinada apenas a adultos. Este
processo de preparação, de compreensão vital e de acolhimento dos grandes mistérios da vida revelada
em Jesus Cristo, estava composto por quatro tempos (pré-catecumenato, catecumenato, iluminação ou
purificação e mistagogia), e três etapas (admissão, eleição e celebração dos sacramentos), e podem
ser comparados aos degraus de uma escada.

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Discípulo Missionário
de Jesus Cristo

4º TEMPO - Mistagogia

3ª ETAPA - Celebração dos sacramentos da Iniciação

3º TEMPO - Purificação ou iluminação

2ª ETAPA - Rito da Eleição

2º TEMPO - Catecumenato

1ª ETAPA - Rito de admissão

1º TEMPO - Pré-catecumenato

O itinerário catecumenal das primeiras comunidades unia catequese e liturgia num único processo.
Assim, depois de um longo período, marcado por tempos e etapas os que foram acolhidos na família
cristã estavam preparados para seguir Jesus Cristo, abraçando o compromisso de viver em comunidade
e de fazer Sua memória comendo do Pão e bebendo do Cálice. O fim não eram os sacramentos, mas
sim o discipulado: ser discípulo missionário de Jesus Cristo.
Do itinerário da Igreja primitiva, o que mais interessa para nossa reflexão é o tempo da mistagogia. O
termo “mistagogia”, derivado da língua grega, pode ser traduzido como: a ação de guiar, conduzir, para
dentro do mistério, ou ainda, ação pela qual o mistério nos conduz. No catecumenato da antiguidade
cristã, o termo designa, sobretudo, a explicação teológica e simbólica dos ritos litúrgicos da iniciação.
O tempo da mistagogia se destinava aos neófitos durante a oitava da páscoa. “A prática predominante
entre os padres era expor o significado dos ritos e símbolos dos sacramentos, isto é, os ‘mistérios’,
somente depois que tivessem sido celebrados” (CHUPUNGCO, 2008. p. 154).
Nesta época, portanto, as celebrações dos sacramentos, eram reservadas aos iniciados. Quem
não era batizado, não podia participar das celebrações. Sendo assim, participavam pela primeira
vez na vigília pascal, onde o primeiro batizado e crisma a presenciarem é o seu próprio, momento
também, em que se aproximavam pela primeira vez da mesa da Eucaristia. Essa prática era chamada
de “disciplina arcani” ou “disciplina de sigilo”. Dois motivos podem ser identificados para o surgimento
deste costume: o primeiro de cunho pedagógico, como afirma Chupungco: “para compreender mais
plenamente as implicações doutrinárias e espirituais dos ritos sacramentais, nada é mais útil do que
aludir a uma experiência anterior dos ritos” (CHUPUNGCO, 2008. p. 157). Cirilo de Jerusalém já
atestava isto, como se pode ler em uma de suas catequeses
Desde há muito tempo desejava falar-vos, filhos legítimos e muito amados da Igreja,
sobre estes espirituais e celestes mistérios. Mas como sei bem que a vista é mais fiel
que o ouvido, esperei a ocasião presente, para encontrar-vos, depois desta grande noite,
mais preparados para compreender o que se vos fala e levar-vos pelas mãos ao prado
luminoso e fragrante deste paraíso (CIRILO DE JERUSALÉM. 2004. p. 25).

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Cirilo deixa claro, que a ação simbólico-ritual é mais bem compreendida depois de vivida como
experiência. Ou seja, antes de falar e explicar algum símbolo ou rito, é preciso experimentá-lo na vida,
visualizá-lo, deixando-o passar pelos sentidos do corpo, para chegar à mente e ao coração.
A segunda razão para a Igreja manter o segredo quanto à natureza dos sacramentos era por
medo de que os pagãos pudessem não compreender ações rituais e simbólicas, fazendo uma má
interpretação, ligando-as a cultos pagãos.
Apesar de nunca terem participado de nenhuma celebração antes, e não tivessem plena compre-
ensão de toda riqueza simbólico-ritual, os candidatos estavam espiritual e moralmente preparados
para delas participar. Apesar disso, era necessário lhes dar as chaves, os códigos necessários para
a compreensão dos ritos vividos naquela grande noite. Essa era a função do tempo da mistagogia.
As catequeses mistagógicas feitas pelos Padres não se preocupavam em dar explicações de
maneira sistemática. Partiam das celebrações litúrgicas, dos ritos e símbolos experienciados pelos
agora neófitos, valorizando-os e interpretando-os à luz das Sagradas Escrituras, mostrando o plano de
salvação realizado por Deus na história. Daí identificavam o compromisso cristão que o neófito agora
era chamado a assumir perante a Igreja e a sociedade, como sinal de sua nova vida.
Essa prática mistagógica tem sua origem na tradição litúrgica hebraica, que ainda hoje a preserva
durante os ritos da páscoa hebraica. Durante a celebração, no momento do anúncio pascal e ceia, o
filho mais novo pergunta ao pai: “Por que esta noite é diferente de todas as noites?”. A pergunta do
filho, pode ser traduzida por: “O que significa esse rito?” A resposta é o anuncio salvífico da libertação
da escravidão até a chegada à Terra Prometida. Com este rito se cumpre a prescrição descrita no livro
do Êxodo 13,14, de se transmitir de geração em geração o anúncio da libertação (GIRAUDO, 2003,
p. 105): “O que nós ouvimos, o que aprendemos, o que nossos pais nos contaram, não ocultaremos
a nossos filhos; mas vamos contar à geração seguinte as glórias do Senhor, o seu poder e as obras
grandiosas que Ele realizou” (Sl 78,3-4). Com este rito, o pai preserva o fundamento e historicidade de
sua fé. O relato esclarece os sentidos do rito que compõe aquela celebração, e impede que a liturgia
daquela noite se torne magia (BOSELI, 2014, p.21).
Essa pergunta também era feita pelos neófitos à Igreja dos primeiros séculos. Esta lhes respondia
através do tempo da mistagogia, com suas catequeses. O Santos Padres , mostravam aos novos
cristãos, que, em toda ação simbólico-ritual, estão presentes os eventos da salvação narrados pelo
Antigo e Novo Testamento. Que por detrás de todos os ritos litúrgicos há o evento histórico , de nossa
libertação realizada por Jesus Cristo com sua morte de cruz e ressurreição. Os Padres tinham medo,
como os judeus, de perder a origem e significado das ações litúrgicas, de esvaziá-las, sem a sua
compreensão. A mistagogia é a revelação do mistério narrado pelas Escrituras e celebrado pela liturgia
(BOSELI, 2014, p.28-29).
Exemplificando esta prática, citamos um trecho das catequeses mistagógicas sobre o Batismo, no
qual Cirilo de Jerusalém explica o sentido da renúncia a satanás como sinal de libertação da escravidão,
realizado no Antigo Testamento:
Entrastes primeiro no adro do batistério. Depois vos voltastes para o Ocidente e atentos
escutastes. Recebestes então a ordem de estender a mão, e renunciastes a satanás
como se estivesse ali presente. É preciso que saibais que na história antiga há uma figura
deste gesto. Quando o faraó, o mais inumano e cruel tirano, oprimia o povo livre e nobre

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dos hebreus, Deus enviou Moisés a tirá-los desta penosa escravidão dos egípcios. Com
sangue de cordeiro eram ungidas as ombreiras das portas, a fim de que o exterminador
passasse pelas casas que ostentassem o sinal do sangue. Assim, o povo dos hebreus
foi admiravelmente libertado. Quando, depois da libertação, faraó os perseguiu e viu o
mar abrir-se maravilhosamente diante deles, avançou mesmo assim ao encalço deles
e, submerso instantaneamente, foi engolido pelo Mar Vermelho.
Passai agora comigo das coisas antigas às novas, da figura à realidade. Lá Moisés foi
enviado por Deus ao Egito; aqui Cristo, do seio do Pai, foi enviado ao mundo. Aquele para
tirar o povo oprimido do Egito; Cristo para livrar os que no mundo são acabrunhados pelo
pecado. Lá o sangue do cordeiro afastou o anjo exterminador; aqui o sangue do Cordeiro
Imaculado, Jesus Cristo, constitui um refúgio contra os demônios. Aquele tirano perseguiu
até o mar este povo antigo; e a ti, o demônio atrevido, impudente e príncipe do mal, te
segue até as fontes mesmas da salvação. Aquele afogou-se no mar; este desaparece
na água da salvação (CIRILO DE JERUSALÉM. 2004. p. 26)
É um ensinamento que parte da prática, da vivência, da iluminação da fé que brota dos próprios
sacramentos. Impossível reduzir a relação da pessoa de fé com o mistério de Deus e de seu Reino,
revelado por Jesus a conceitos racionais, dogmas ou a um código moral, ou ainda a uma mera expli-
cação. É necessário ser iniciado no conhecimento do mistério, na comunhão com Deus, não somente
com palavras, mas principalmente através de uma experiência eclesial e ritual do mistério de Cristo
que leve o fiel a uma vida de fé, centrada na pessoa dele. Assim, os Padres da Igreja, partindo de
cada rito e símbolo, explicitavam a mistagogia própria da ação litúrgica, mostrando como a ritualidade
incorporada de seus símbolos, conduz os fiéis para dentro do mistério celebrado.
O rito é para a liturgia aquilo que a letra é para a Escritura. Por isso, a liturgia, como as
Escrituras, exige uma compreensão espiritual, uma penetração em profundidade. Quanto
mais lemos os textos mistagógicos, mais nos damos conta de como a mistagogia não
era para os Padres uma simples iniciação à liturgia, antes, a partir da liturgia, uma com-
preensão do mistério, do único mistério contido nas Escrituras e celebrado na liturgia: o
mistério de Cristo (BOSELI, 2014, p. 24)

Por isso, faz-se urgente, redescobrir as catequeses mistagógicas dos Padres, não apenas como
um tempo, mas como um método, não para ser aplicado tal e qual, mas para servir de inspiração e
modelo à formação cristã atual, que permita aos cristãos conhecerem os significados dos textos e
gestos litúrgicos, a fim de experimentarem o mistério que celebram na liturgia.

O MÉTODO MISTAGÓGICO E A CATEQUESE

Ao longo da história, a Igreja abandonou a disciplina do sigilo e o itinerário catecumenal dos


primeiros séculos. Catequese e liturgia se distanciam e, sobretudo para combater as heresias, a
fé começa a ser racionalizada e explicada com conceitos filosóficos e teológicos. A metodologia
mistagógica é esquecida, e o rito litúrgico aos poucos passa a ser repetido sem se compreender o
seu significado. A falta de compreensão faz com que o “devocionalismo” e o “piedosismo” surgis-
sem com suas práticas, ofuscando e escondendo toda a riqueza simbólico-ritual da celebração do
mistério de Cristo.

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Atenta a este desvio de eixo, a Igreja, sabiamente, tendo como porta voz o saudoso São João
XXIII, convoca o Concílio Ecumênico Vaticano II, que nos propõe o retorno e volta à origem da Igreja.
O primeiro documento promulgado , é o da Sagrada Liturgia, que se propõe a fomentar cada vez mais
entre os fiéis a vida cristã e julga, por isso, providenciar de maneira especial a reforma e o incremento da
Liturgia, para que os fiéis possam dela participar de maneira consciente, ativa e frutuosa (cf. SC, n. 11).
Participar, para a Sacrosanctum Concilium, significa compreender e ter consciência do que se
celebra, e não no sentido de fazer algo. Isto porque muitos podem desempenhar alguma função na
liturgia sem saber seu significado. A participação na liturgia só será ativa e frutuosa, se tivermos sidos
iniciados, em sua linguagem, na compreensão de seus ritos e símbolos.
Diante disso, é urgente buscarmos um processo que favoreça a aproximação entre catequese e
liturgia, e que o método mistagógico seja assumido em seu itinerário. Assim, é preciso buscar uma
mudança de mentalidade em nossa maneira de catequizar, mudar paradigmas e visualizar novas
maneiras no processo de iniciação à vida cristã. Ao falarmos de método mistagógico, empregamos
o sentido mais amplo do termo, sem nos referir apenas ao “tempo da mistagogia” que era, como já
vimos, um aprofundamento na explicação dos ritos litúrgicos dos sacramentos da iniciação, vivenciados
pelos catecúmenos na Vigília Pascal. Uma vez, que não se guarda mais a disciplina arcani, ou seja,
não se tem mais o sigilo, visto que a maioria dos catequizandos já são batizados e boa parte dos não
batizados já “assistiu” a uma missa ou esteve presente na celebração de algum outro sacramento
(Batismo, Crisma e Matrimônio por exemplo), como também muitas destas celebrações estarem na
programação das redes de televisão e publicadas nas redes sociais, cabe-nos compreender que não
faz sentido reservar a mistagogia apenas para o último tempo, como previsto pelo catecumenato da
Igreja Primitiva. É preciso que atualizemos a prática sem perder a referência inspiradora.
É preciso compreender e assimilar o método mistagógico e aplicá-lo em nosso itinerário cate-
quético. Isto significa que é necessário transformar nossos encontros em uma verdadeira catequese
mistagógica garantindo aos catequizandos/interlocutores a compreensão dos elementos que compõem
a fé celebrada.

CATEQUESE MISTAGÓGICA

Falar em catequese mistagógica significa sair do campo puramente verbal, com explanações
doutrinais e morais, para tornar-se uma catequese que fomente a participação ativa, consciente e
genuína nas ações litúrgicas. Esse processo é possível, se não se reduzir simplesmente a explicar o
sentido das celebrações, mas também formar a mente dos fiéis para a oração, a gratidão, a penitên-
cia e reconciliação, o espírito comunitário e o correto sentido da linguagem simbólica, uma vez que
tudo isso é necessário para a experiência de uma autêntica vida litúrgica (CONGREGAÇÃO PARA
O CLERO, 1998, n. 85).
Na prática, é preciso que os catequistas “elucidem como a Igreja vive sua fé quando celebra a litur-
gia. A Palavra de Deus, os textos eucológicos (as orações da liturgia dirigidas a Deus), e os diferentes
símbolos usados na liturgia oferecem aos catequistas material eminente e verdadeiramente valioso
para a instrução” (CHUPUNGCO, 2008. p. 151). Lubienska de Lenval, em 1959, ao escrever sobre uma

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proposta de educação para a ritualidade, reconhece a liturgia como método pedagógico ideal para ser
utilizado por um sistema de educação mais integral, pois integra todas as dimensões do ser humano.
...método pedagógico no sentido estrito, a liturgia comporta todos os elementos essenciais
constituintes de um sistema de educação coerente — um meio favorável ao recolhimento
(a Igreja), uma disciplina muscular e sensorial (atividades e gestos) e uma cultura inte-
lectual (leituras bíblicas) (LUBIENSKA DE LENVAL, 1959, p. 42).
Ao elaborar um itinerário catequético, é necessário propor em alguns encontros uma sen-
sibilização para os ritos e elementos utilizados nas ações litúrgicas. Em se tratando de uma
catequese voltada a crianças e adolescentes, por exemplo, sugerimos iniciar por lhes apresentar
nos encontros, dentro das temáticas refletidas, os elementos que constituem os vários símbolos.
O catequista pode começar falando da água como elemento natural que gera vida e morte, por
exemplo, ressaltando sua importância para o homem e para a natureza. Dedicar-se, então, a
mostrar porque preservá-la, como criação de Deus. Posteriormente, recorrer à literatura bíblica,
indicando que Deus utilizou a água de diversas formas até escolhê-la como principal elemento
para visualizar o Batismo. Assim, a água, o óleo, o fogo, a luz, as velas, as cinzas, os ramos, as
flores, o pão e o vinho podem ser apresentados e explicados nos encontros de catequese devido
ao seu valor simbólico. Também os gestos e uma sensibilização corporal devem ter seu lugar
durante os encontros: o estar de pé, o sentar-se, o ajoelhar-se, a inclinação, o beijo, o lavar, a
imposição ou o erguer das mãos, o olhar, o sentir, o cheirar, enfim, todos os sentidos devem ser
resgatados nos encontros (PARO, 2018. p. 68-69).
Ainda, alguns símbolos litúrgicos “menores” podem ser levados para os encontros de catequese.
Pode-se propor aos catequizandos, por exemplo, que confeccionem um círio pascal, explicando-lhes o
significado e sentido de cada letra e número, da luz, da cera virgem da abelha... Posteriormente, então,
abençoado e aceso na Vigília Pascal, esse tornar-se-á símbolo do Ressuscitado. Da mesma forma,
o pão ázimo sovado pelos catequizandos, enchendo suas mãos de farinha, próximo à celebração da
Primeira Eucaristia, pode dar mais sentido ao rito da comunhão.
E por fim, para que as catequeses mistagógicas se tornem uma realidade e introduzam os
catequizandos no mistério da fé celebrado, recorramos ao costume dos Padres em habitualmente
combinarem em seus escritos mistagógicos a tipologia bíblica e a teologia dos mistérios, para
revelar os significados profundos dos ritos litúrgicos, vinculando a celebração dos sacramentos à
História da Salvação e, por assim dizer, mergulhando os catequizandos e catecúmenos no plano
salvífico de Deus.
Este percurso é explicitado pelo Catecismo da Igreja Católica ao abordar o tema “como celebrar” (cf.
CIC n. 1154 - 1152), em que nos orienta ser uma celebração sacramental tecida de sinais e símbolos
e que segundo a pedagogia divina da salvação, os seus significados têm raízes na obra da criação e
na cultura humana, adquirindo pleno sentido na pessoa e na obra de Jesus Cristo. Assim apresenta
quatro níveis de camadas, que necessitam ser reveladas para compreensão de seu significado. A
primeira são os sinais do mundo dos homens, pois na liturgia tudo é sinal da vida do ser humano
(gestos e ações humanas), ganhando valor tudo o que vem da criação. “A liturgia da Igreja pressupõe,
integra e santifica elementos da criação e da cultura humana conferindo-lhes a dignidade de sinais da
graça, da nova criação em Jesus Cristo” (CIC n. 1149).

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A segunda camada, são os sinais da aliança, onde os sinais cósmicos ganham uma função no
Antigo Testamento (a unção e a consagração dos reis e dos sacerdotes, a imposição das mãos, os
sacrifícios...), não são mais apenas celebrações de ciclos cósmicos e gestos sociais, mais sinais da
aliança. A Igreja vê nesses sinais, uma prefiguração da salvação em Jesus Cristo.
Os sinais assumidos por Cristo constituem a terceira camada. Em sua vida pública, Jesus utiliza
muitos sinais da criação para revelar os mistérios do Reino de Deus, dando “um sentido novo aos
fatos e sinais da Antiga Aliança, particularmente ao êxodo e à Páscoa, por ser ele mesmo o sentido
de todos esses sinais” (CIC n. 1151).
É importante compreender essas três primeiras camadas, pois são elas responsáveis em revelar
os sinais sacramentais. Já a quarta e última camada tecem toda celebração sacramental, pois os
sacramentos da Igreja não suprimem, antes purificam e integram toda a riqueza dos sinais e dos sím-
bolos do cosmo e da vida social. Compreende-se que há uma significação não imposta, mas assumida
pela história e tradição da Igreja. Não é criado do nada, de maneira alegórica. Ajudar nossos fiéis a
compreenderem esses quatro níveis será fundamental para sua plena participação na celebração do
mistério da Páscoa, da nossa salvação.
Assim, ao trabalhar os sentidos e significados dos sacramentos da Igreja, propõe-se partir do
rito litúrgico de cada um, na lógica bíblica e na tradição dos Padres. Para tanto convém levar os ca-
tequizandos a participarem da celebração dos sacramentos e sacramentais. Após esta experiência,
partindo do rito vivenciado, explicar-lhes a simbologia e o significado do que viram e ouviram. Quão
enriquecedor seria se os catequizandos, por exemplo, pudessem com seus catequistas acompanhar o
padre na visita a um enfermo ou idoso para, ali, participar da celebração da Unção dos Enfermos. Ao
testemunhar a realidade do doente e as limitações da idade, na prática, pode-se entender a necessi-
dade deste sacramento na vida de quem o recebe. E durante os próximos encontros, se o catequista
atenciosamente fizer perguntas a respeito da compreensão e interpretação dos catequizandos — Que
rito é este? Entenderam o que o padre fez? Como o padre ungiu o doente? Por que lhe impôs as mãos?
Qual foi sua oração? —, com certeza a catequese sobre este sacramento se encherá de sentido e o
momento vivenciado ficará guardado na mente e no coração dos catequizandos (PARO, 2018. p. 71).
Ainda, seria interessante que os batizados na infância, caso já não se recordassem de seu
Batismo, pudessem, com seus catequistas, participar de uma celebração batismal na comunidade.
Depois, nos encontros seguintes, pode-se pedir para trazerem uma foto de seu batizado e convi-
dá-los a imaginar como foi este dia. Depois lhes será perguntado: “Entenderam o que aconteceu
nesta ocasião? Quais ritos foram realizados? O porquê da água, da veste branca, da unção com
o óleo?”. Disponibilizar todos estes elementos no encontro para serem sentidos, olhados, cheira-
dos e tocados enriquecerá o momento. Para o sacramento da Ordem, na impossibilidade de uma
ordenação próxima, pensemos em quão rico seria selecionar gravações da ordenação diaconal e
presbiteral dos padres da paróquia, de modo que eles mesmos possam contar aos catequizandos
como foi este dia, o que sentiram...
De maneira gradativa, buscamos uma proposta pedagógica e mistagógica que revalorize os
símbolos e ritos, fazendo-os passar pela mente e pelo coração dos fiéis. Assim, mais conscientes,
esperamos transformar nossas celebrações em momentos significativos e autênticos de encontro
com o Mistério.

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INICIAR A PARTIR DO RITO, DA CELEBRAÇÃO

A partir do visível, ritos e símbolos, comunica-se uma realidade invisível escondida em cada gesto,
ação, palavra ou elemento. Esta comunicação é feita de forma gradativa, em que um rito vai “puxan-
do” o outro. Porém, todas as celebrações, para que de fato se tornem um momento de mistagogia,
devem ser bem preparadas e celebradas. Que triste seria um rito de Batismo sem imersão! Ou um
momento de entrega da veste, sem veste e sem vestir! Para existir uma catequese mistagógica é
preciso primeiro, conscientizar e iniciar aqueles que cuidam, preparam e presidem as celebrações dos
sacramentos e sacramentais, para que as celebrações não sejam mero cumprimento de um rito, mas
verdadeiramente celebração do mistério de Cristo, em que os sinais sensíveis atinjam a sensibilidade
a partir da corporeidade e revelem o invisível presente.
A liturgia não é apenas expressão intelectual, e por isso, a participação corporal tem função decisiva
na celebração, exigindo que corpo e mente não sejam dissociados na oração. Os gestos, atitudes e
expressão corporal de quem preside ou exerce algum ministério devem comunicar e manifestar a fé, e
o mistério celebrado. Desta forma, é preciso sobretudo uma conversão de nós padres, que presidimos
dominical e cotidianamente a celebração Eucarística, os sacramentos e sacramentais, superando o
ritualismo, o rito pelo rito... redescobrindo a teologia e espiritualidade litúrgica, reconhecendo que
somos meros servidores da Igreja.
A liturgia não deve ser manipulada e vista como gosto pessoal do padre, ou de um movimento ou
espiritualidade de um grupo específico. É preciso ainda, investir na formação dos seminaristas e na
qualidade do ensino da liturgia nas faculdades. Infelizmente, muitos dos professores de liturgia não
têm formação específica. Acredita-se que “qualquer um” pode lecionar as disciplinas das ciências
litúrgicas... É preciso investirmos mais na formação e capacitação de professores que se dedicam ao
ensino da liturgia e da teologia dos sacramentos, unindo cada vez mais estas duas áreas do conhe-
cimento teológico.
Redescobrir a ritualidade e a arte de celebrar, só assim, a liturgia com sua linguagem ritual expressa
simbolicamente as ações de Deus realizadas na história, comunicar-se-á de maneira eficaz e revelará
o seu sentido e significado preservado e repetido ao longo da história, e que nos permite ‘voltar’ até
estes acontecimentos e deles participar, deixando que transformem nossa vida. Assim, fundamenta-se
a busca de uma iniciação cristã, que eduque para uma sensibilidade simbólico-ritual, que prepare os
catequizandos, catecúmenos e neófitos para celebrar, a partir da própria celebração.

O RITUAL DE INICIAÇÃO CRISTÃ DE ADULTOS E A CATEQUESE

Ao determinar a revisão do Rito de Batismo de Adultos, decretando a restauração do cate-


cumenato feito em etapas, o Concílio Ecumênico Vaticano II recorre à iniciação feita pela Igreja
primitiva como um modelo inspirador que deve ser reconhecido e valorizado. Assim, publicado
em 1972, o Ritual de Iniciação Cristã de Adultos - RICA, tendo como base organizacional o itine-
rário das primeiras comunidades, torna-se o principal instrumento de apoio e transformação do
processo iniciático da Igreja de nossos tempos, e valioso instrumento de diálogo e aproximação
entre catequese e liturgia.

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O itinerário catecumenal apresentado pelo RICA desenvolve uma adequada arti-


culação entre a proclamação da Palavra (doutrina), a celebração litúrgica (ritos) e
o compromisso de vida (caridade), envolvendo liturgia e catequese, ambas ligadas
ao processo de transmissão e de crescimento da fé, tão próximos um do outro
que, de modo algum, podem ser considerados como realidades distintas (PARO,
2017, p. 21).
Sendo um livro litúrgico, o Ritual apresenta as celebrações próprias do itinerário a ser per-
corrido pelos adultos não batizados. As celebrações são gradativas e podem ser divididas em
dois grupos: celebrações que marcam a transição de uma etapa a outra, vistas como ritos de
passagem (Rito de Admissão, Eleição...) e outras que acontecem no decorrer dos tempos (en-
tregas do Credo, Pai-Nosso, Escrutínios...). Ainda, além do itinerário celebrativo comum, o RICA
apresenta adaptações e orientações às diversas realidades, como o Rito Simplificado, o Rito
em Perigo de Morte, preparação para a Confirmação e a Eucaristia de Adultos já batizados na
infância e que não receberam a devida catequese e Rito de Iniciação de Crianças (catecúmenas)
em Idade de Catequese.
Apesar de ser um livro litúrgico, sua dinâmica celebrativa está condicionada ao contexto da
catequese, para que tenham sentido e significado aos candidatos. Mesmo não apresentando
explicitamente um itinerário de conteúdos e temas catequéticos, suas celebrações nos ilumi-
nam em sua construção. Tomemos como exemplo, as celebrações de entrega do Símbolo e do
Pai-Nosso. Podemos refletir que se o Ritual prevê a entrega destas duas fómulas, significa que
elas são importantes, então podemos deduzir que não basta entregá-las, é preciso também
compreender cada parágrafo do Credo e cada petição da oração deixada pelo Senhor. Sem
dúvida esse conteúdo poderá fazer parte dos temas refletidos na catequese. Pois fazer as
entregas, desconexas do conteúdo catequético, esvaziará o rito transformando-o apenas em
mais uma celebração.
Além do mais, vale recordar a riqueza teológica e simbólica das celebrações. A eucologia
(conjunto de orações litúrgicas), por exemplo, é uma fonte inesgotável de catequese. Ao falar do
Batismo, se poderá tomar a oração de bênção da água batismal, sua estrutura literária e teológica,
as seis anamneses da água presentes na oração, recordando que a água foi utilizada por Deus ao
longo da história para comunicar ao ser humano a sua graça e salvação. Assim, a oração recorda
seis pontos importantes desta ação, três do Antigo Testamento (Criação, Dilúvio e Mar Vermelho)
e três do Novo Testamento (Batismo de Jesus, lado de Cristo transpassado na Cruz e mandato
batismal de Jesus). Após desenvolver uma bela catequese sobre a água e recordar a ação de Deus
ao longo da história, o texto passa à parte epiclética, que se une à parte anamnética em estreita
relação. Como parte da mesma bênção sobre a água, pede-se a Deus, que realize também hoje
toda obra de purificação e renascimento essenciais à vida. Inúmeras outras orações nos oferecem
valiosas catequeses...
Assim afirma o Documento 107 da CNBB, n. 182: “A liturgia é fonte inesgotável de formação
do discípulo missionário, e as celebrações, pela riqueza de suas palavras e ações, mensagens
e sinais, podem [devem] ser consideradas como ‘catequese em ato’”. Que bom seria ajudar
nossos catequizandos e catecúmenos a compreenderem a riqueza e profundidade de nossos
ritos e preces.

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ITINERÁRIOS DE INSPIRAÇÃO CATECUMENAL

Conhecer o itinerário celebrativo proposto pelo RICA, e suas diversas possibilidades de aplicação,
é fundamental para a construção de um itinerário catequético que responda às diversas necessidades
da Igreja atual. Diferentemente da Igreja primitiva, que só iniciava adultos não batizados (catecúme-
nos), nos deparamos hoje com diversas realidades em nossas comunidades paroquiais: crianças,
adolescente, jovens e adultos, alguns batizados na infância e outros não. A cada grupo, é necessário
pensar e constituir um itinerário específico que supere a visão reducionista de iniciação, onde o fim
não seja receber os sacramentos, mas formar discípulos missionários de Jesus Cristo.
O n. 139 do Documento 107 da CNBB nos diz: “Sob a inspiração do RICA, é possível propor um
itinerário que avance por etapas e tempos sucessivos, garantindo que a iniciação de adultos, jovens
e crianças se processe gradativamente, no seio da comunidade”. É claro que para adultos e crianças
catecúmenos, o itinerário deve ser o proposto pelo próprio RICA, porém, para adultos batizados na
infância e que não receberam a devida catequese, e crianças em idade de catequese, batizadas na
infância é possível construir um itinerário que tenha os Tempos e Etapas como base, omitindo o que é
próprio dos catecúmenos. O capítulo IV do RICA faz essa ressalva ao falar dos adultos já batizados e
que irão receber a preparação para a Confirmação e a Eucaristia: “Embora esses adultos não tenham
ainda ouvido o anúncio do mistério de Cristo, sua situação não é igual à dos catecúmenos, porque já
foram introduzidos na Igreja e se tornaram filhos de Deus pelo Batismo” (n. 295).
Sendo assim, não tem sentido realizar o rito de admissão e eleição com quem já é batizado, seja
adulto, adolescente ou criança. Nada impede que o conteúdo catequético seja o mesmo, porém, o
itinerário celebrativo precisa ser adaptado a cada realidade. Por exemplo, para os já batizados se poderia
pinçar o rito de entrega da Bíblia da celebração de admissão e entregá-la aos catequizandos. Assim
se tivermos turmas mistas, a primeira parte da celebração será destinada apenas aos catecúmenos,
onde os catequizandos (já batizados) participam junto com a assembleia, por já serem fiéis, e após a
entrada na igreja, todos participam juntos da segunda parte da celebração que consta da entrega da
Palavra de Deus. Ainda todos podem participar das entregas do Credo e do Pai-Nosso, por exemplo,
porém, o mesmo não deve acontecer com a celebração dos escrutínios.
Inspiração, significa “criar a partir de”, e não copiar simplesmente. Portanto, os Tempos e Etapas
previstos pelo RICA, devem ser aplicados sobretudo a catecúmenos, e aos demais, deverá servir de
inspiração, ou seja, compreendendo sua essência, aplicá-los num itinerário gradativo que ajude os
catequizando a chegar a uma maturidade de fé e a enraizar-se profundamente numa comunidade
eclesial. Portanto, dividir em Tempos e Etapas um itinerário , não significa que ele seja de inspiração
catecumenal. Por exemplo: pega-se a catequese tradicional e divide-se os encontros em “pré-cate-
cumenato, catecumenato, purificação e iluminação, e mistagogia”, e depois se faz o mesmo com a
perseverança e com a catequese da crisma... Quantas vezes o catequizando fará o pré-catecume-
nato? E o tempo de purificação e iluminação? Irá se repetir isso quantas vezes? Não, não é isso uma
catequese de inspiração catecumenal.
“O processo total da Iniciação à Vida Cristã é pensado como uma grande celebração que progride
e amadurece através de sucessivas etapas e momentos precisos” (CNBB, 2017, n. 104). É resgatar a
unidade teológica, litúrgica e pastoral dos três sacramentos da iniciação, integrando-os como etapas

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de um único caminho (cf. CNBB, 2017, n. 126-127), propondo um itinerário sem rupturas, onde uma
etapa seja consequência da outra, e a celebração dos sacramentos sejam realizadas ao longo do
itinerário, no caso de crianças e adolescentes em idade de catequese. Porém, já para os adultos, a
unidade seja prevista e experimentada numa única celebração, como ponto alto da iniciação. É também
superar uma metodologia escolar, seja na linguagem e estrutura dos encontros, bem como dos espaços
em que são realizados. É a mística e espiritualidade que deverão envolver os encontros, tendo como
fundamento a Palavra de Deus e a experiência e encontro pessoal com Jesus Cristo.
Neste processo, é fundamental envolver toda a comunidade eclesial, onde cada pastoral, movi-
mento, associação tenha uma função dentro do processo, pois só assim compreenderemos o que é
uma Igreja, como casa da iniciação cristã (cf. DGAE, 2015-2019, n. 41-46).

CONCLUSÃO

Celebrar e iniciar ao mistério significa primeiramente compreender que o fundamento e centro de


nossa fé, é Jesus Cristo, que com sua morte de cruz e ressurreição salvou nossa humanidade decaída.
Mistério este, que se revela e atualiza na celebração dominical e cotidiana da Eucaristia, dos demais
sacramentos e sacramentais.
É compreender a linguagem própria pela qual a sagrada liturgia se comunica e assim, transmiti-la
aos catecúmenos e catequizandos. É possibilitar a participação em celebrações bem preparadas
e executadas, dando o máximo permitido e não o mínimo necessário para a validade do rito. Da
ação simbólico-ritual, bem celebrada e vivenciada, nasce a catequese mistagógica, possibilitando a
compreensão, interpretação e revelação do sentido teológico, do mistério celebrado. “A catequese
litúrgica tem em vista introduzir no mistério de Cristo (ela é ‘mistagógica’), procedendo do visível para
o invisível, do significante para o significado, dos ‘sacramentos’ para os ‘mistérios’” (CIC n. 1075).
É iniciar para a liturgia, a partir da própria liturgia, encontrando nela a identidade da Igreja. É unir
liturgia e catequese num único dinamismo, num único itinerário, capaz de formar discípulos missio-
nários de Jesus Cristo.

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DO SEGUIMENTO DE JESUS
AO ENCONTRO DO IRMÃO

Dom José Antonio Peruzzo1

INTRODUÇÃO

Quem olha para o futuro, seja sob qualquer perspectiva, certamente se espanta com o grau de
mudanças culturais e de civilização que se avizinham. Elas são anunciadas todos os dias. Vêm como
um tsunami. Irrefreáveis. Tal olhar, se lançado com responsabilidade, não apenas impressiona, mas,
mais do que isso, interroga, inquieta, atemoriza e talvez angustia. As respostas afiguram-se insuficientes.
As maravilhas que se vislumbram também deslumbram. Mas há também perigos a caminho. Entre
eles estão perguntas, até agora quase sem respostas, para questões como as relações interpessoais,
os anseios humanos mais profundos e, especialmente, a do sentido da vida. Quando se tornou usual
a expressão “mudança de época”, certamente jamais se pensou que fosse tão radical e totalizante o
seu alcance.
E para a evangelização, que caminhos palmear? Uma resposta segura como de um receituário
não seria dialógica. Ofereceria caminhos submissivos, não libertadores. Não se pareceriam com
aqueles do Senhor Jesus. Na realidade, as melhores vias para apresentar as boas notícias da parte
de Deus parecem depender bem mais das experiências partilhadas dos enunciados. Atualmente,
as seguranças mais criativas não chegam das verdades já garantidas. A grande certeza é a pessoa
de Jesus Cristo. Sua presença, suas palavras e gestos, estes ninguém pode tirá-los da história
humana. Em um contexto dos mais “plurais pluralismos”, há muitos testemunhos a nos mostrar
que Ele é o melhor caminho.
A presente reflexão, preparada para a IV Semana Brasileira de Catequese não é acadêmica. Não
é pesquisa. Tampouco se apresenta com ares de debate teológico. É apenas “reflexão” orientada a
ajudar os participantes a se deixarem perguntar sobre a questão da vida comunitária para os seguidores
de Jesus Cristo. Os subjetivismos do nosso tempo entorpecem o coração dos que creem. Também
os evangelizadores sofrem destes golpes. Desde Aparecida veio a recomendação: recomeçar a partir
de Cristo. E uma preciosa possibilidade para tanto é a Iniciação à Vida Cristã. Por isso mesmo, o que
está escrito abaixo são parágrafos inspirados em páginas dos Evangelhos.

1a PARTE – “SEGUIMENTO”: DE QUÊ SE FALA?


Os evangelistas nos apresentam a temática do “seguimento a Jesus” com grande frequência e
ênfase. Ela está presente em todos os Evangelhos. E não se trata de um mero modismo de grande

1
Dom José Antonio Peruzzo é Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico e Doutor em Teologia Bíblica pela
Pontifícia Universidade São Tomás de Aquino, ambas de Roma. É atual Arcebispo Metropolitano de Curitiba e Presidente da
Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB.

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circulação no tempo dos escritos. Muito mais do que isso, foi este o modo originário para referir-se
à mudança na vida dos que estiveram próximos de Jesus, conheceram-no e se deixaram influenciar
por Ele. Foi uma experiência tão marcante que o emprego do substantivo “seguimento” ou do verbo
“seguir” não se limitou à experiência daqueles primeiros companheiros de Jesus. Também depois,
nos primeiros séculos da Igreja, empregava-se o mesmo palavreado para mencionar a nova realidade
pessoal de quem o conhecera. Tornou-se um termo pronunciado até com afeto.
A forma nominal “seguimento” não se encontra nos Evangelhos. Seus autores empregam o verbo
“seguir”. Este parece ser um detalhe sem maior relevância. Mas ajuda a perceber que mais do que um
pensamento, mais do que uma ideia ou conceito, já desde os primeiros dias do Cristianismo, se reco-
nhecia uma experiência vivida. Não se tratava de uma reflexão teológica originada de uma inteligência
privilegiada. “Seguir Jesus” era uma realidade possível, cujo início dependia, fundamentalmente, de
um encontro pessoal com Ele. Sem burocracias, sem pré-requisitos. A mesma percepção se viu em
Aparecida (DAp), repetindo as palavras do Papa Bento XVI: “Não se começa a ser cristão por uma
decisão ética ou uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que
dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva” (DAp, n. 12).
Mas, deixemo-nos ensinar pelos evangelistas. Ainda que não tenham usado o termo “seguimento”,
foram generosos com o verbo “seguir”. São eles os que melhor podem nos apresentar o que aconteceu
na vida daqueles primeiros que seguiram Jesus. Eles, os autores dos Evangelhos, não se valem de
esquemas teóricos. Mas são mestres em referir como tudo começou e o que aconteceu com aqueles
primeiros seguidores. Eles nos colocam diante daqueles pontos de partida, que depois se aprofunda-
ram e se alargaram, até chegarem ao grau de partilhar com Jesus os mesmos caminhos e destino.
O que se afigurava um encontro ocasional se tornou comunhão de vida e até participação plena na
mesma causa dele. Nestas linhas, além de dialogar com os evangelistas, tendo diante dos olhos a
suas palavras, é a Palavra de Deus que nos vai ensinar sobre o seguimento.

1. SEGUIMENTO: O ENCONTRO

Alguns parágrafos acima, encontramos a recordação do Documento de Aparecida. Este lembrava


que o ponto de partida não é um conceito, não é um discurso, não é uma dedução iniciada com uma
investigação científica. Estes são elementos que podem ajudar. Mas o ponto de partida, a realidade
que dá início a uma nova história, tem outro começo: é o encontro pessoal. Nesta experiência, nenhuma
pessoa substitui a outra. É a singularidade, isto é, o que conta são aqueles elementos que tipificam
cada pessoa. Uma comparação pode ajudar: ninguém se torna amigo de outro por ter lido uma bela
página sobre a amizade. Ainda um outro exemplo: nenhuma pessoa se apaixona por outra porque leu
uma clara explicação sobre o sentimento passional. No caso dos discípulos, tudo se iniciou e continuou
mediante encontros vivenciados. Vamos a alguns deles.

1.1 Como tudo começou? A percepção de Marcos


Na realidade, é o evangelista Marcos quem, por primeiro, apresentou o acontecimento inicial.
Mateus o acompanhou em redação muito semelhante. O texto de interesse por agora é Mc 1,16-20.
Porém, antes de ler os versículos indicados, importa voltar a atenção para alguns detalhes significa-

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tivos. Eis o primeiro: o tema do seguimento está entre as primeiras palavras pronunciadas por Jesus.
Isto já é um sinal de que estamos ante uma das questões mais caras aos evangelistas. Afinal, além
de este estar entre os primeiros assuntos, ele perpassa todo o escrito dos Evangelhos, até o final de
cada obra. Com isso, estão eles, evangelistas, a dizer que não se trata, portanto, de uma entre outras
abordagens. Muito mais, revelam um dos seus grandes temas de interesse do próprio Salvador. Pro-
vavelmente, eles, os autores, percebiam que seguir Jesus era uma das inquietações mais urgentes
para as primeiras comunidades cristãs.
Agora, o segundo detalhe. Se o leitor lê Marcos desde o seu começo, isto é, a partir de 1,1, ao chegar
a 1,16-20, quando se depara com Jesus a chamar os primeiros discípulos, ele já tem algumas notícias
muito importantes. Vejamos a primeira: quem chama ao seguimento (1,17.20) não é simplesmente
“Jesus”. É muito mais. Desde Mc 1,1, o leitor sabe que é “Jesus Cristo, Filho de Deus”. E este título
não é, apenas e tão somente, uma informação de princípio por parte do evangelista. É a identidade
teológica de Jesus que recebe evidência. Isso confere um sentido muito mais alargado ao convite. Há
ainda outros dados a apreciar: João Batista falara que “depois de mim, vem aquele que é mais forte
do que eu” (Mc 1,7). O leitor também sabe sobre o batismo: o céu se abriu e o Espírito desceu sobre
ele. Uma voz ressoou: “Tu és o meu filho amado; em ti está o meu agrado” (Mc 1,10-11).
Por que lembrar desta sequência de eventos? Afinal, ao menos aparentemente, são fatos que
não tiveram algum efeito imediato sobre aquele acontecimento bem distinto, aquele do chamado ao
seguimento. Na realidade, o evangelista tem em mente o seu leitor. Ele é instado a perceber que o
convite ao seguimento não foi dirigido simplesmente por um “tal” de Jesus. Os convidados a seguir,
isto é, os primeiros discípulos, ainda não estão cientes da grandeza do que lhes sucedera: eles não
sabem que o passante a convidá-los é o Filho de Deus (1,1). Mas o leitor sabe. Eles desconhecem
tudo acerca daquele batismo no qual o céu se abriu... o Espírito desceu... uma voz ressoou (1,10-11).
Tais realidades, cuja magnitude jamais fora sequer suposta, faz-se compreensível ao leitor. Ele, mais
que os personagens, sabe quem é aquele que o chama.
Sigamos adiante. Em 1,16, o leitor está diante de uma informação quase banal: “Caminhando
à beira do mar da Galileia, Jesus viu Simão e o irmão deste, André...”. Na realidade, é o Filho
de Deus que passa. Ele é imprevisível, surpreendente, com desconcertante simplicidade. E ele
“viu”. É ele quem “vê”. Algo semelhante já acontecera com Moisés (cf. Ex 3,14ss). Mas, agora, a
proximidade é incomparavelmente maior. É o “Filho amado” que, com todos os traços humanos, vê
e se deixa ver. Nunca Deus estivera tão próximo da humanidade. Aqueles eram pescadores. Uma
profissão sem relevância social, sem qualquer projeção. Sua única importância vem de Jesus; que
fixou o olhar sobre eles. Viu e lhes pronunciou a palavra-convite. Aquele olhar e aquela palavra
assinalaram um fim e um começo: deixaram de ser pescadores de peixes. Começou o caminho
dos pescadores de homens.

1.2 Como tudo começou? A percepção de João


No quarto Evangelho pode-se constatar algo semelhante ao já verificado no caso citado ante-
riormente, ou seja, o leitor está em vantagem em relação aos protagonistas. Quando os discípulos
de João passam a saber que Jesus é “o Cordeiro de Deus” (Jo 1,35), o leitor já dispõe de notícias
bem mais completas. Sabe que Jesus é a Palavra viva de Deus (cf. Jo 1,1); sabe também que é a

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“Palavra (que) se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14). Os discípulos de João Batista sabem
que Jesus é o Cordeiro de Deus. Mas as informações disponíveis ao leitor são bem mais amplas:
é o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Ademais, ele, o leitor, conta com
uma explicação decisiva. Ela vem do testemunho do Batista: “Aquele sobre quem vires o Espírito
descer e permanecer, é ele quem batiza com o Espírito Santo. Eu vi, e por isso dou testemunho:
ele é o Filho de Deus!” (1,33-34).
Se o evangelista se mostra tão favorável ao leitor é porque quer prepará-lo para aderir às experiên-
cias de encontro com Jesus que virão a seguir. E elas chegam logo. Motivados pelo Batista, os primeiros
dois foram atrás de Jesus. O diálogo inicial foi quase imediato. A iniciativa foi de Jesus. Uma conversa
muito breve, mas densa: “Jesus voltou-se para trás e, vendo que eles o seguiam, pergunta-lhes: “Que
procurais?” (1,38). Vale observar o uso verbal “pergunta-lhes” (no presente). Há uma intenção clara
do evangelista. Ao escrever assim, ele pretende que a indagação valha para todos os momentos em
que for lida. Também para o leitor de hoje a mesma pergunta está a esperar uma resposta. Não basta
ler. É preciso dialogar com o texto.
Observemos como o diálogo continuou. Aqueles primeiros dois “seguidores” não responderam
sobre o que procuravam. Suas palavras apontaram para um novo passo: “Rabi... onde moras?” “Rabi”
é um título respeitoso. Era um codinome aplicado aos mestres admirados pelos ensinamentos que
transmitiam. Mas, por que eles não respondem diretamente à indagação de Jesus? Sua reação é
com outra pergunta: “Onde moras?” (Jo 1, 38). Vislumbra-se aqui o anseio de conhecer, de conviver,
de estar perto, de participar do seu círculo de Jesus. A resposta de Jesus, por sua vez, tem forma de
convite: “Vinde e vede” (1,39). Ele não propõe um endereço. Oferece-lhes sua relação de convívio.
Isso não se aprende por informação, nem por lição vinda de um mestre. É por experiência, é mediante
o encontro pessoal.
De fato, o texto não explicita para onde eles deverão ir. Tampouco destaca o que verão. O autor é
direto e sintético: “Foram, viram onde morava e permaneceram com ele aquele dia. Era a hora décima”
(1,39b). Toda esta sequência de verbos indica que o convite fora aceito. Mas, o destaque é para a
frase complementar: “Permaneceram com ele aquele dia”. Eis que uma nova comunidade começa. É
composta pelos que aceitaram o convite de Jesus. Os próprios discípulos encontraram a resposta da
pergunta por eles formulada. A partir de então, eles sabem onde Jesus pode ser encontrado. Aquele
episódio primeiro foi tão importante que o redator até determinou a hora do acontecimento. Ao leitor
fica a recordação do que lera em Jo 1,14: “E a Palavra se fez carne e veio morar entre nós. Nós vimos
a sua glória...”.

2. SEGUIMENTO: COMO CONTINUOU?

O leitor atento dos relatos de chamado ao seguimento de Jesus, provavelmente, atinará para a
reação imediata da resposta dos primeiros discípulos. Dos Evangelhos temos algumas notícias até
breves, mas claras. Marcos foi quem ofereceu as primeiras informações. Jesus, caminhando à beira
do mar, viu... chamou... E eles, imediatamente deixaram... e o seguiram (cf. Mc 1,16-18). Assim,
também com Levi: “Ele se levantou e seguiu-o” (Mc 2,14). Algo semelhante aconteceu nos relatos de
João. Apenas um exemplo: “Os dois discípulos ouviram esta declaração de João e passaram a seguir

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Jesus” (Jo 1,37). Na realidade, os evangelistas querem estimular o leitor à adesão a Jesus. Por isso,
aceleram o tempo da história. Mas houve um processo. Houve um caminho começado e continuado
até com dificuldades. Vejamos.
2.1 Seguimento, um caminho exigente: o Evangelho de Marcos
Tudo assinalava para um caminho plano no seguimento. Parecia até que um tempo de generosas
facilitações se aproximara. Talvez, nem fosse necessário um processo de mudanças a partir de dentro,
de conversão a partir do coração. O maravilhamento com os admiráveis feitos de Jesus fascinava muito
as multidões. Isso parecia bastar aos discípulos, pois participavam do seu círculo mais próximo. Apenas
alguns breves exemplos: eles viram que as “multidões ficaram admiradas com seu ensinamento” (Mt
7,28). Ainda outra situação: nenhum ser humano é capaz de frear a menor brisa. Mas eles o viram
conter o vento e o mar tempestuosos. Perplexos, diziam: “Quem é este que até o vento e o mar lhe
obedecem?”(Mc 4,41). Mais uma: voltando da missão, alegres, diziam: “Senhor, até os demônios nos
obedecem por causa do teu nome” (Lc 10,17).
Nas primeiras experiências, a estrada se afigurava larga e reta. Entretanto, para as conquistas
humanas, para aquelas que asseguram projeção e prestígio, é preciso, mais do que tudo, competência
e brilhantismo. Os que têm muitos dotes podem alcançá-las até sem precisar amar ou ter fé. Inclusive
voltar-se solidariamente para os pequenos e fracos é possível para as pessoas de nobre altruísmo.
Chega-se a isso, cultivando os sentimentos humanos mais elevados. Todavia, o seguimento de Jesus
Cristo requer do discípulo não somente formas inteligentes de concordância com pensamentos de
Jesus. Há que se configurar a ele, isto é, que o discípulo se torne figura viva da presença de seu Senhor.
Neste caso, trata-se de conversão profunda, de vivência de fé, de entrega totalizante.
Tudo isso reclama despojamentos e recomeços. Eles não acontecem sem contrastes e sem
combates. São fases, etapas, processos; enfim, o caminho é exigente. Surgem até mesmo crises.
Sobre tais questões, os Evangelhos nos oferecem valiosas lições. Agora Marcos é o nosso guia. Em
Mc 8,31-33, pela primeira vez, aflorou o diálogo sobre a cruz. Pedro, em nome do grupo, manifestou
seu desapontamento. Sobrou para ele uma dura repreensão: “Vai para trás de mim, satanás! Pois
não tens em mente as coisas de Deus, e sim, as dos homens” (Mc 8,33). No passo seguinte, em Mc
8,34, o desafio estendeu-se a todos, multidão e discípulos: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a
si mesmo, tome sua cruz e siga-me”. Duas curiosidades: este texto está bem no centro do Evangelho
de Marcos. E vale para todos (“Se alguém...”). Não só para os Doze.
A partir de então, aqueles iniciados, os discípulos, são chamados a novos aprofundamentos, a novas
maturações, a novos despojamentos. E o tema da cruz reaparece em Mc 9,30-31. É acentuado pelo
evangelista. Ele informa que Jesus não queria que soubessem de sua passagem, pois “ensinava os
seus discípulos”. Ou seja, a um certo momento, aprofundar a iniciação dos discípulos era de urgência
mais relevante do que atender às multidões. No futuro, seriam enviados. Mas “Eles não compreendiam
o que lhes dizia e tinham medo de perguntar” (Mc 9,32)2. Este é um dado até compreensível para sua
fragilidade humana. Na realidade, a situação ficou melhor explicada logo depois, em Mc 9,34, isto é,
questão era outra: “Ficaram calados porque no caminho haviam discutido quem era o maior”.

2
Esta é a única vez que o evangelista usa este verbo. É o único tema que os discípulos não compreendem. Notar também
o emprego do pretérito imperfeito, sublinhando, assim, o aspecto durativo da incompreensão.

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Do lado dos discípulos havia pretensões de grandeza. Até desejavam um discipulado que lhes
assegurasse “um à direita e outro à esquerda” de Jesus. Mas não na cruz. A direita e a esquerda
seriam para quando ele estivesse na sua glória (cf. Mc 10,37). Da parte do Senhor, a direção era bem
outra. Ele se pautava pelos “pensamentos de Deus” (cf. 8,33). Sua lógica era a de “fazer-se o último de
todos, aquele que serve a todos” (Mc 9,35). Claro, as forças humanas pareciam faltar aos discípulos.
Reconheciam suas insuficiências. Em certo momento, inquietos e assustados3, questionaram: “Quem
então poderá salvar-se?” (Mc 10,26)4. A resposta veio solene, mas requer uma profunda experiência
de fé e de mistério: “Para Deus tudo é possível”. Eis o lugar da liturgia, melhor ainda, da mistagogia.

2.2 Seguimento, um caminho exigente: o Evangelho de João


O quarto Evangelho tem particularidades bastante marcantes de linguagem, de estilo, de compreen-
são teológica. Em relação aos sinóticos, ele foi escrito mais tarde. E muitos dos seus leitores já tinham
acedido às portas de uma primeira iniciação. A despeito das diferenças com os outros evangelistas,
quando se trata do caminho do seguimento, há alguns traços de fundo, já vistos em Marcos, que se
reapresentam agora. No começo, a adesão resulta do maravilhoso encontro pessoal com Jesus.
Vemos que, em Caná, os primeiros discípulos “creram nele” (Jo 2,11); também os samaritanos (cf. Jo
4,40-42); o mesmo se deu com o funcionário real e sua família (cf. Jo 4,53-54). Em certo momento
até quiseram fazê-lo rei (cf. Jo 6,15). Todavia, os caminhos de Jesus contemplavam outros rumos.
Alguns capítulos a mais e o leitor já percebe que o evangelista propõe mais do que entusiasmo
por Jesus. Será preciso modelar a própria liberdade em favor de sua pessoa. Tensões surgiram com
frequência: “Que sinais realizas para que possamos ver e crer em ti?” (6,30); “Os judeus começaram
a murmurar contra Jesus...” (6,41); “Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?” (6,59); “Muitos
discípulos o abandonaram e não mais andavam com ele” (6,66). É importante observar, neste último
exemplo, o emprego do verbo ‘abandonar’. Não se trata apenas de um distanciamento físico. Há uma
opção de fundo, com nuance de medo e de rejeição. Também a outra frase é relevante. Ela noticia
uma ruptura. Não andavam mais “com ele”, isto é, a iniciação não continuou.
É muito interessante observar que a palavra de Jesus, considerada dura por “muitos discípulos”,
recebeu outro reconhecimento por parte de Pedro: “A quem iremos Senhor? Tu tens palavras de vida
eterna” (Jo 6,68). Como explicar reações tão diferenciadas? Ao que parece, os primeiros fascinaram-
-se pelas obras de Jesus. Mas, é a relação com a sua pessoa que decide o seguimento. Está aqui o
lugar da Leitura Orante e da Mistagogia nos processos de iniciação cristã. O evangelista apresenta
Jesus a ‘pro-vocar’ os Doze à adesão a ele. Em 1,38, Jesus indagou os seus primeiros seguidores
sobre “o quê” procuravam. Pedro fora um daqueles primeiros. Agora está ele a afirmar, em forma de
interrogação enfática: “A quem iremos...?”. Nem tudo ainda está claro, mas seu passo foi decisivo:
“Nós cremos...” (Jo 6,69).
O evangelista tem sempre ante seus olhos o leitor. A ele quer aproximar a história e os passos dos
discípulos. Expõe seus caminhos, tropeços e novos caminhos. E Pedro a protagonizar. Chegamos ao
3
A expressão adverbial equivalente a “muito desconcertados”, empregada pelo redator, revela um estado de total desorien-
tação e paralisia originada pelo temor suscitado.
4
Sob o ponto de vista retórico, uma tal pergunta não pode ter outra resposta que não negativa. Na perspectiva do Evange-
lho, o leitor pode vislumbrar uma possibilidade: “Ninguém... a não ser que...” (Benoit Standaert).
5
É a terceira vez que nesta narrativa do ‘jovem rico’ Jesus fixa os olhos. Destaque para o olhar penetrante de Jesus.

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Lava-pés (Jo 13,1-11). Impressionam os vs. 4-5. São vários verbos no presente: “Levanta-se... depõe
o manto... cinge-se... derrama água na bacia...pôs-se a lavar... a enxugar”. Na língua grega, isso
significa que aqueles mesmos gestos e significados continuam a valer para o tempo do leitor. Pedro
não entendera todos aqueles ritos. Referiu-se a Jesus como “Senhor”, mas custava-lhe ver Jesus com
avental, água, toalha... Vê-lo como soberano não requer nova mentalidade. No seguimento, Pedro
seria interpelado a colocar o avental, fazer-se e lavar os pés dos irmãos (Jo 13,13-17). É o caminho
do discípulo.

2a PARTE

1. DE JESUS AO IRMÃO

Na primeira parte, nossos olhos estiveram focados em algumas experiências de encontro com Jesus
e seguimento. Foram apenas algumas, tomadas de Marcos e João. Mas ilustraram que o encontro
pessoal com Ele começa sim com a alegria de conhecê-lo. Todavia, o entusiasmo não é suficiente.
Se faltar a adesão à sua pessoa, ou seja, sem a experiência de fé, será grande o risco de repetir o
que já se verificou, já nos tempos de Jesus: “Muitos discípulos o abandonaram e não mais andavam
com ele” (Jo 6,66). Andar com Ele não é um seguimento com metas imprecisas. Há que segui-lo na
busca do irmão. São palavras suas: “Se eu, o Senhor e Mestre vos lavei os pés, também vós deveis
lavar uns aos outros” (Jo 13,14). Não se trata de uma realidade pronta, fechada. São relações de
fraternidade a cultivar.
A vida comunitária não deriva de mero bom senso em torno de projetos ou ideias associativas.
Se assim fosse, até se poderia dispensar a experiência de fé. Bastariam os nobres idealismos hu-
manos. Afinal, a fraternidade pode ser buscada também por outros motivos que não o discipulado.
Também metas de filantropia são nobres. Cultivam-nas igualmente os que não são discípulos de
Jesus. Entretanto, por escolha do próprio Senhor, a vida fraterna é um dos sinais mais evocativos de
que o seguimento de Jesus imprime mudanças a partir de dentro, a partir do coração do discípulo.
A fraternidade entre os discípulos foi um dos traços mais destacados da Igreja dos primeiros dias. A
pertença à comunidade lhes conferia o reconhecimento de “cristãos” (At 11,26; At 4,32-34).

1.1 Mateus e a vida comunitária dos seguidores: o irmão


A fraternidade entre os seguidores de Jesus é uma verdade constitutiva do discipulado. Ou seja, se
esta faltar é como se não mais fosse seguimento. Não é, pois, um detalhe, ou uma característica exterior.
Com diferentes linguagens, esta temática está presente em todos os escritos do Novo Testamento.
Em outras palavras, é Deus que assim o quer. Entre os evangelistas, Mateus é quem mais lhe confere
destaque. Por isso, aqui se faz uma breve visita ao seu Evangelho. Nele é possível encontrar o termo
“irmão” nada menos do que 39 vezes. Em alguns casos é para referir aos irmãos por consanguinidade
ou parentesco (cf. Mt 4,18.21; 12,46). Entretanto, é digno de notação que na maior parte dos usos, o
tema de fundo é o respeito pelo “irmão” ou o perdão/reconciliação com ele.
Pode ser lembrado aqui o Discurso da Montanha. Vale mencionar o seu início. Jesus subiu a

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montanha, sentou-se... os discípulos se aproximaram (cf. Mt 5,1). É a primeira vez que Jesus se põe
a ensiná-los. Na tradição judaica, a montanha é o lugar de encontro com Deus. “Sentar-se” é a posição
do mestre que transmite um importante ensinamento aos seus discípulos. São palavras colocadas
nos lábios de Jesus. Elas são dirigidas diretamente aos discípulos, em segunda pessoa. Estes traços
apontam para uma particular sensibilidade do evangelista pelo tema da vida comunitária entre seus
seguidores. Muito significativo ainda é perceber a matização para “irmão”: trata-se de respeito e,
especialmente, reconciliação com ele.6 Até mesmo o valor do sacrifício no templo está vinculado à
reconciliação com o irmão (cf. Mt 5,23-24).
Outro texto muito importante para ilustrar que a vida comunitária é linguagem por excelência,
evidencia-se o seguimento de Jesus por meio da chamada Parábola do Servo Implacável (cf. Mt
18,23-35). A comunidade cristã estava imersa em uma profunda crise. Carreirismos (cf. Mt 18,1-5),
escândalos (cf. Mt 18,6-11) e conflitos (cf. Mt 18,15-35) desfiguravam gravemente o convívio entre os
seguidores. E o evangelista colocou ante os olhos dos seus leitores, em forma de diálogo entre Jesus
e Pedro, o que era uma das maiores urgências da comunidade: o perdão. A leitura é comovente. O
devedor pedira um prazo para pagar um débito impossível (cf. Mt 18,26). O rei-credor, tendo-se com-
padecido, concedeu-lhe muito mais: perdoou a dívida. Ora, a compaixão é uma das mais lembradas
características do amor de Deus.
Não se deve esquecer que nos Evangelhos sinóticos, com exceção das narrativas de parábola, o
verbo “sentir compaixão” é sempre aplicado a Deus ou ao comportamento de Jesus. Mas, com apenas
uma exceção, sempre que Jesus “sente compaixão”, os discípulos são chamados a participar de suas
ações e reações.7 No caso da parábola, se o senhor daquele servo moveu-se de compaixão e perdoou
(cf. Mt 18,27), isso não foi porque o servo fora persuasivo. É o senhor que queria mantê-lo unido a si.
Era-lhe mais importante a comunhão com o servo do que o direito ao ressarcimento. Quanto àquele
que não perdoou, valeu-lhe o título de “servo malvado... Não devias tu também ter compaixão do teu
companheiro?” (Mt 18,32-33). Seu pecado maior não foi a dívida. Foi recusar-se ao perdão.

1.2 João e a vida comunitária dos seguidores: “Amai-vos uns aos outros”
O tema do amor recíproco é um dos mais destacados do quarto Evangelho. É uma questão que
permeia capítulos inteiros. Nos quadros da IV Semana Brasileira de Catequese, centrada na Iniciação
à Vida Cristã, a temática do amor fraterno desperta para a consciência de que não é possível qualquer
Iniciação que não contemple o amor ao próximo. A vida comunitária é um dos grandes eixos unificadores
da obra joanina. A assim chamada “comunidade do discípulo amado” é desdobramento histórico do
ideário de vida comunitária acalentado por Jesus. O evangelista, por sua vez, escrevendo a cristãos
que tinham à sua volta muitos contrastes, vindos de dentro e de fora da comunidade, propôs o amor
fraterno como a melhor resposta aos desafios que os assaltavam.
E entre muitos textos, há um muito saliente sobre a vida comunitária dos Iniciados no discipulado.
Trata-se de Jo 15,12: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns ao outros como eu vos amei”. A
unidade literária na qual está inserido é 15,1-17. É preciso recordar, porém, que o cenário é aquele do
Lava-pés. Após este gesto, Jesus recolocou o manto (cf. Jo 13,12), mas não tirou o avental. Ou seja, o

6
Eis as recorrências para o termo “irmão” no Discurso da Montanha: 5,22.23.24.47; 7,3.4.5.
7
Vale verificar em Mt 9,36; 14,14; 15,32.

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narrador deixa entrever ao leitor, que as palavras de Jesus sobre o amor mútuo encontram sua lógica
em um contexto de servos. Para aceitar fazer-se servo, como o Mestre e Senhor, é preciso profunda
sensibilidade mistagógica. É neste quadro que surge a metáfora da videira e dos ramos. A videira e
os ramos são uma mesma planta, vivem da mesma linfa, produzem os mesmos frutos.
Para melhor compreender o “mandamento” do amor de Jo 15,12, muito ajuda visitar Jo 13,34: “Eu
vos dou um novo mandamento: amai-vos...”. São exortações muito vizinhas no conteúdo. Tanto em uma
como em outra citação, o sentido de “mandamento”, usado na forma singular, aponta para uma pers-
pectiva de vida. Não é regra a observar. É relação a cultivar e aprofundar. Seu sentido é experiencial. O
mandamento é “novo” não em seu alcance cronológico, mas qualitativo. Ademais, o complemento “assim
como eu vos amei” aponta para o fundamento que sustenta a missão de amar-se uns aos outros. Este
decorre da experiência de amor que eles, discípulos, terão tido com Jesus. É ele a causa do amor entre
eles. A amizade com Jesus, por eles experimentada, não é apenas comparação. É a realidade fundante.
Pouco depois, no v.17, o mesmo mandamento se reapresenta. Parece que o evangelista não se
apercebe de que é repetitivo: “O que eu vos mando é que vos ameis uns aos outros”. Melhor deixá-lo
explicar-se. Desde o v. 13, Jesus fala aos discípulos sobre sua amizade com eles: amizade que dá a vida
por eles; que “manda” a obediência à relação com ele; amizade cuja escolha partira dele; que com eles
partilhava a intimidade com o Pai. Atenção ao verbo “mandar”. Vem de “mandamento”. É pronunciado por
quem dá a vida, ou “ama até o extremo”. É pronunciado por quem lhes “lavou os pés” e ainda não tirou o
avental. Ou seja, não se trata de um mando “moralista”, próprio para ser cumprido por subordinados. Longe
disso. Da parte de um amigo que muito ama se pode esperar que faça de sua vida um dom amoroso.

1.3 A comunidade dos “reencontrados”


O fato de que há muitos filhos da nossa Igreja que abandonam a comunhão eclesial é preocupante.
Algo do que precisariam hoje para sua fé não lhes foi proporcionado ontem. Talvez ainda não lhes seja
oferecido. Foram trôpegas suas vivências de Iniciação na fé. Recebidos os sacramentos de Iniciação,
muitos se despediam. Já tinham recebido todas as “lições de catequese”. Perderam-se ou foram
cooptados. A consciência de pertença à comunidade cristã, e de identidade com ela, era mais formal
e social do que vivencial. Mas isto não é de hoje. Até os Evangelhos, ao tempo do seu escrito, eram
respostas às comunidades imersas em situações críticas e conflitivas. Para aquelas comunidades o
Espírito Santo suscitou, na Igreja, a oferta da Palavra e da comunhão.
Um exemplo inspirador está em Jo 21,1-14. Há até quem diga que é um texto tardio, escrito bem
mais tarde, que teria sido inserido no Evangelho como meio para destacar a necessária unidade da
comunidade de seguidores. Havia rivalidades e contrastes entre as comunidades petrinas e joaninas.
Observemos o evangelista: “Eu vou pescar... iremos contigo” (Jo 21,3). Na simbologia do quarto
Evangelho a “pesca” é retrato da missão. A barca, com os discípulos, é imagem da Igreja. Trabalharam
toda a noite. Nada pescaram. Ou seja, sem encontros com o Senhor Ressuscitado a comunidade de
discípulos se divide. Quanto à missão, por mais que se lancem as redes, é infrutífera. A informação
de que era noite também é bastante evocativa.8 Lembra trevas.

8
Na realidade, no evangelho de João também a “noite” tem valência simbólica: Nicodemos, por temor, procurou Jesus
durante a noite (3,2; cf. 19,39). Judas deixou de noite o lugar do Lava-pés (13,30). Mais eloquente é Jo 9,4: Jesus age
enquanto é dia. Quando vier a noite (sua morte) já não será possível.

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Mas sigamos. No v. 4, há um outro detalhe, que não é apenas narrativo, mas especialmente teo-
lógico e é de grande força hermenêutica: “Já de manhã, Jesus estava aí na praia, mas os discípulos
não sabiam que era Jesus”. O que está traduzido por “de manhã”, na realidade, aponta para alta
madrugada. Ainda é escuro, mas os primeiros indícios de luz, embora frágeis, já se anunciavam.
Este é um tema caro à tradição bíblica: é a hora da intervenção de Deus (cf. Ex 14,24), da oração (cf.
Sl 30,6; 88,14). Mas é, especialmente, o tempo da comunidade “deixar-se encontrar” pelo Senhor. O
evangelista pretende de seu leitor que observe daqueles discípulos, já bem “iniciados” no seguimento,
a necessidade de cultivar os encontros com o ressuscitado como caminho para a unidade. Eis o lugar
da mistagogia e da Leitura Orante da Palavra.
Vale reparar um pouco mais nos versículos seguintes. Em Jo 21,6, encontramos “lançai a rede…
e achareis… Eles lançaram a rede e não conseguiam puxá-la…”. O evangelista é muito esmerado
em mostrar a relação entre palavra pronunciada e palavra obedecida (“lançai… lançaram)”. No quarto
Evangelho, sempre que a palavra de Jesus encontra eco, a sua presença viva deixa claros sinais.
Aqui a rede se tornou repleta. Já não eram os mesmos pescadores esforçados, mas sem resultados.
Não foi sua competência a evidenciar-se. Foi sua obediência a alargar as possibilidades da Palavra.
O mesmo se verificou em Caná e, por duas vezes: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5), ou “O
homem creu na palavra de Jesus e se pôs em caminho” (Jo 4,50).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Quando algum caminho para a evangelização contempla, especialmente, testemunhar e propor-


cionar experiências de fé, melhor deixar tudo em aberto, como se se tratasse de começar o percurso.
Mais adiante se pode falar do que se viveu. Aliás, foi esta a opção até mesmo dos evangelistas. A
redação terminou, a obra não. A Igreja no Brasil está a pedir a seus filhos que recomecemos a partir
de Jesus Cristo. Nossa vocação e missão apontam para o encontro com Ele e com o irmão. Ou seja,
para experiências comunitárias e eclesiais de seguimento. Sobre isso, quanto já se falou! Quanto já
se escreveu! Uma evangelização em estilo catecumenal é, provavelmente, a melhor resposta que os
cristãos já apresentaram. Se ela foi esquecida, cumpre-nos resgatar. Do que não evangeliza já sabemos
bastante. É hora da fé e da esperança no caminho da Iniciação à Vida Cristã. Os evangelistas parecem
ter percebido isso desde seus primeiros escritos. Pedem que não nos atrasemos.

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A CATEQUESE NA CULTURA DIGITAL:


NOVAS LINGUAGENS, NOVOS PROCESSOS DE COMUNICAÇÃO
Moisés Sbardelotto1

INTRODUÇÃO

O princípio da vida cristã é uma Palavra que fala, que dialoga, que interage, que se comunica com
o ser humano: o Verbo de Deus (cf. Gn 1, 3; Jo 1, 1). E Jesus, Deus-Palavra encarnado, deixa-nos
como missão “ir por todo o mundo e anunciar a Boa Notícia para toda a humanidade” (Mc 16, 15). Por
isso, a própria história da Igreja é uma história profundamente comunicacional.
Como aponta o Diretório Nacional de Catequese (DNC), “é algo de extraordinário o fato de Deus,
transcendente e onipotente, querer comunicar-se com os seres humanos” (n. 16). A partir dessa relação
divino-humana, a comunicação “permeia as dimensões essenciais da Igreja” (JOÃO PAULO II, 2005,
n. 6), é o seu eixo fundamental de experiência, vivência e anúncio. E particularmente pela catequese
“essa Palavra de Deus continua a chegar às pessoas. Essa comunicação da fé, hoje, segue o mesmo
processo pelo qual Deus, no passado, se revelou” (DNC, n. 18).
Ao longo da história humana, as formas e os códigos dessa comunicação foram mudando, evoluindo,
se diversificando e se complementando. Tais práticas comunicativas da sociedade sempre foram
acompanhadas de técnicas e tecnologias, que se desenvolveram cada vez mais, até chegarmos às
mídias digitais contemporâneas. O processo de digitalização, contudo, não envolve apenas inovações
tecnológicas, mas também invenções humanas e sociais sobre as tecnologias, a partir dos interesses,
desejos e necessidades das pessoas. E isso nos mais diversos âmbitos: na família, na educação, na
política, no esporte, na saúde etc., e também na religião.
Contudo, “a mudança que se dá hoje nas comunicações implica, mais que uma simples revolução
técnica, a transformação completa de tudo o que é necessário à humanidade para compreender o
mundo que a envolve, e para verificar e expressar a sua percepção” (PONTIFÍCIO, 1992, n. 4). Hoje,
nascem novas formas de comunicação e de relação da sociedade com a própria sociedade, em uma
verdadeira “cultura digital”.
Diante dessa nova cultura das crianças, adolescentes e jovens de hoje, a catequese também
precisa “avançar no caminho de uma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas
como estão”, como afirma o Papa Francisco em sua exortação apostólica Evangelii gaudium (EG, n.
25). Como ministério da Igreja, a catequese deve levar em conta “as situações específicas de cada
1
Mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), com estágio doutoral
na Università di Roma “La Sapienza”, na Itália. Possui graduação em Comunicação Social - Jornalismo pela Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É autor de E o Verbo se fez rede: religiosidades em reconstrução no ambiente
digital (Paulinas, 2017) e de E o Verbo se fez bit: A comunicação e a experiência religiosas na internet (Santuário, 2012).
Colaborador do Instituto Humanitas Unisinos (IHU). Colunista das revistas Família Cristã e O Mensageiro de Santo Antônio.
Foi membro da Comissão Especial para o Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil, da CNBB. De 2008 a 2012, coordenou
o escritório brasileiro da Fundação Ética Mundial (Stiftung Weltethos), fundada por Hans Küng.

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lugar e as condições próprias de cada grupo de catequizandos” (DNC, n. 59), ou seja, de modo mais
amplo, “é chamada a anunciar com vigor o Evangelho ao coração da cultura e das culturas” (DNC, n.
224). E isso também vale para a cultura digital.
Tal cultura demanda, por sua vez, um processo de inculturação por parte da Igreja. Na Evangelii
gaudium, o Papa Francisco inverte a compreensão comum desse processo, oferecendo intuições
significativas para se refletir sobre uma “inculturação digital”. “Pela inculturação, a Igreja ‘introduz os
povos com as suas culturas na sua própria comunidade’, porque ‘cada cultura oferece formas e valores
positivos que podem enriquecer o modo como o Evangelho é pregado, compreendido e vivido’” (EG,
n. 116). Ou seja, não é um movimento apenas de evangelizar a cultura, mas também de se deixar
evangelizar por ela, a partir de suas “formas e valores positivos”.
Hoje, o Papa Francisco deseja uma “Igreja em saída”, uma Igreja “acidentada, ferida e enlameada por
ter saído pelas estradas” (EG, n. 49) do mundo onde as pessoas vivem. E, entre essas estradas, “estão
também as digitais, congestionadas de humanidade, muitas vezes ferida” (FRANCISCO, 2014b, s/p).
Diante desse cenário, como discípulos e missionários de Jesus Cristo, desafiados a promover
uma evangelização renovada, queremos, aqui, contribuir com uma reflexão voltada à ação na, com
a e a partir da cultura digital. Sabemos que a realidade da Igreja brasileira é bastante diferenciada,
com comunidades muito avançadas tecnologicamente, e outras com pouco ou nenhum acesso. Mas
não se trata simplesmente de promover ou defender uma “inclusão digital” das comunidades, embora
importante. Viver na cultura digital não depende exclusivamente de se ter ou não um celular de última
geração: trata-se, antes, de lógicas e dinâmicas novas de pensar e experimentar o mundo, que
acompanham as novas gerações. Por isso, pedagogicamente, é importante reconhecer tais lógicas e
dinâmicas e, com discernimento, formar os catequizandos e catequizandas na fé a partir dessa sua
experiência de vida e de mundo, com criatividade.
“O problema fundamental – afirma o Papa Francisco (2013b, s/p) – não é a aquisição de tecnologias
sofisticadas, embora necessárias para uma presença atual e válida” da Igreja na cultura atual. “O
Deus em quem acreditamos, um Deus apaixonado pelo ser humano, quer manifestar-se através dos
nossos meios, ainda que pobres, porque é Ele que opera, é Ele que transforma, é Ele que salva a
vida do ser humano”. Para o papa, “independentemente das tecnologias, o objetivo é saber inserir-se
no diálogo com os homens e as mulheres de hoje, para compreender as suas expectativas, dúvidas,
esperanças” (idem).
Por isso, contamos com a leitura crítica de cada um/a, para que possa “reler” nossas considerações
a partir da sua realidade local, concreta. Dentro da realidade local, comunitária, paroquial, diocesana
de cada catequista e de seus catequizandos e catequizandas, será possível cotejar até onde estamos
muito à frente ou muito atrás da nossa realidade. O desafio, porém, é não se contentar com as coisas
do jeito como estão e promover a “conversão” necessária, à luz do Evangelho.
Neste texto, refletiremos sobre algumas perspectivas centrais para a compreensão do fenômeno
da cultura digital em alguns de seus aspectos “revolucionários” e da necessidade de uma mudança de
mentalidade pastoral. Para que uma “conversão pastoral e missionária” da catequese seja coerente
com os tempos em que vivemos, precisamos, primeiro, conhecê-los e entendê-los, pois “uma solícita
compreensão desse ambiente [digital] é o pré-requisito para uma presença significativa dentro dele”
(BENTO XVI, 2013, s/p).

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Por fim, indicaremos algumas dimensões gerais em que a catequese é convidada e desafiada a
repensar a sua práxis comunicacional a partir da cultura digital. Assim, será possível promover uma
“inculturação digital” (SBARDELOTTO, 2017) da catequese, alimentando “o ideal de propor o Evangelho
de maneira viva e tocar nas raízes da cultura e das culturas” (DNC, n. 225), também na internet e nas
redes sociais digitais.

1. REVOLUÇÃO COMUNICACIONAL E MUDANÇA DE MENTALIDADE PASTORAL

As últimas décadas têm revelado uma “reviravolta comunicacional”. Um processo que começou há
não muito mais do que 10.000 dias: desde o surgimento da interface gráfica digital com o computador
Macintosh, da Apple, em 1984, e de um protocolo de comunicação entre computadores, a WWW,
World Wide Web, em 1992 (SCOLARI, 2013). Desde então, a produção, o armazenamento, a gestão,
a distribuição, o consumo e a circulação de informações se “socializaram” por todo o tecido social,
com grande repercussão para a vida de fé, inclusive.
Alguns dados nos ajudam a ter uma dimensão do que está em jogo. A pesquisa Social Media,
Social Life: Teens Reveal Their Experiences, realizada nos Estados Unidos, comparou dados de 2012
e de 2018 referentes à vida social de adolescentes e jovens de 13 a 17 anos em sua relação com as
mídias sociais. A constatação foi de que em 2012, 40% deles possuíam smartphones. Em 2018, eram
quase 90%. Em 2012, 34% declararam usar as mídias sociais mais de uma vez por dia. Em 2018,
eram 70%, e 16% indicaram estar constantemente nas plataformas (KNORR, 2018).
Um estudo realizado pela Google (2018) sobre a chamada “geração Z” – pessoas nascidas a
partir de 2001 –, constatou que para esses jovens, adquirir um celular é um dos três principais marcos
de suas vidas (junto com formar-se na escola e fazer a carteira de motorista). Segundo a pesquisa,
a maioria desses jovens, quando estão ao celular, passam o tempo assistindo vídeos online (71%
disseram que passam três horas ou mais nessa atividade). Em seguida vêm o uso de aplicativos de
mensagens, redes sociais digitais e jogos.
Já no Brasil, a pesquisa TIC Kids Online constatou que o número de crianças e adolescentes que
usa a internet apenas pelo celular vem crescendo (MELLO, 2018). Em 2018, o percentual de jovens
entre 9 e 17 anos que acessava a rede somente pelo telefone móvel chegou a 44%. No levantamento
anterior, com dados de 2016, o índice era de 37%. O estudo aponta ainda que 85% da população
nessa faixa etária utilizou a internet ao menos uma vez em três meses, um total de 24,7 milhões de
crianças e adolescentes.
Em suma, a internet, hoje, “não é um ‘instrumento’ de comunicação que pode ser usado ou não;
é um ‘ambiente’ cultural”, que gera “novas formas de educação, contribuindo para definir também um
novo modo de estimular as inteligências e de estreitar as relações” (SPADARO, 2012, p. 15). Assim
como com o livro, o rádio, o cinema, a TV, hoje, a internet permite que as pessoas e a sociedade em
geral possam se comunicar e se relacionar de formas novas, desencadeando processos sociais que
geram uma nova cultura. Reduzindo tempos e encurtando espaços, tais conexões levam a transformar
a relação tradicional das pessoas consigo mesmas, com os outros e com o mundo. Gera-se assim um
novo ambiente existencial, antropológico, social, eclesial.

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Em termos pedagógicos, é preciso atentar para essas mudanças, pois é nessa nova cultura que
se forma e desdobra a existência humana, como “a formação da personalidade e da consciência,
a interpretação e a estruturação dos vínculos afetivos, o desenvolvimento das fases educativas e
formativas” (JOÃO PAULO II, 2005, n. 3), fenômenos todos relacionados com a catequese e embebidos
em processos midiáticos.
Em um encontro com os participantes do Congresso Internacional da Pastoral das Grandes Cidades,
em novembro de 2014, o Papa Francisco comentava essa situação com as seguintes palavras:
Vimos de uma prática pastoral secular, em que a Igreja era o único referente da cultura.
(...) Mas não estamos mais nessa época. Ela passou. Não estamos na Cristandade,
não mais. Hoje não somos mais os únicos que produzem cultura, nem os primeiros,
nem os mais ouvidos. Precisamos, portanto, de uma mudança de mentalidade pastoral
(FRANCISCO, 2014a, s/p).
A internet trouxe novas rotinas e novas formas de se relacionar com as pessoas e o mundo. Se a
“in-formação” mudou, a “formação” também precisa mudar. Bento XVI (2011, s/p) afirmava que, “com
este modo de difundir informações e conhecimentos, está a nascer uma nova maneira de aprender
e pensar”. A digitalização demanda novas formas de comunicação e de educação. Como afirma o
Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil (DCIB, n. 182), “a cultura participativa e colaborativa,
sobretudo com as redes sociais digitais, pede uma revisão dos métodos pastorais”. Em meio aos
avanços tecnológicos e às novas práticas sociais em torno da comunicação e do fenômeno midiático,
é preciso também repensar a formação das crianças, adolescentes e jovens hoje com novos processos
educativos e pedagógicos.
Para isso, indicaremos alguns âmbitos de inter-relação entre a cultura digital e a catequese, como
indicações para uma possível “inculturação digital” da iniciação à vida cristã.

2. EIXOS DE INTERFACE ENTRE A CULTURA DIGITAL E A INICIAÇÃO À VIDA CRISTÃ

Como ambiente da vivência cotidiana das crianças, adolescentes e jovens de hoje, as redes digitais
favorecem diferentes possibilidades de comunicação e de relação em sociedade. “Isso exige que o
comunicador cristão descubra métodos adequados ao ambiente digital para desenvolver a evangelização
e a ação pastoral” (DCIB, n. 178).
Aqui, queremos propor algumas ideias gerais, a partir de alguns eixos de interface do caminho
catequético no ambiente digital. A divisão nesses diversos âmbitos, como se verá, muitas vezes
pode parecer artificial. Não se trata de eixos estanques e isolados, mas sim interdependentes e
inter-relacionados. Como um processo complexo, a educação para a fé é uma atividade transversal
a todas as dimensões explicitadas. Cabe a cada leitor e leitora perceber os pontos de encontro e de
distanciamento a partir da sua realidade local, dando novos sentidos ao que propomos.
Não temos a pretensão de definir uma “receita de bolo” facilmente empregável, sabendo que
qualquer processo educativo não é fácil nem automático. Acima de tudo, é um processo criativo e
criativamente desafiador – e que, portanto, demanda o nosso envolvimento pessoal e apaixonado
pelos catequizandos e catequizandas. Em termos cristãos, um envolvimento espiritual e pastoral.

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2.1 Eixo didático-informativo


Hoje, com as redes digitais, a produção de informações se exponenciou. A internet se converte,
cada vez mais, em um grande “banco de dados”, que, ao mesmo tempo, oferece acesso ubíquo a
uma “memória sociocultural”, onde está arquivada praticamente toda a produção cultural e simbólica
do mundo inteiro, seja em textos, áudios, imagens ou vídeos. Não é por acaso que a sociedade
contemporânea ganhou o apelativo de “sociedade da informação”. Nunca como hoje se teve tanta
facilidade para acessar, produzir e fazer circular informações, aqui e agora – onde quer que seja esse
“aqui” e quando quer que seja esse “agora”.
Nesse sentido, a internet e as redes sociais digitais podem ser um ambiente para despertar o
interesse pelo aprofundamento e pelo estudo sobre os diversos aspectos essenciais da fé cristã,
tanto como parte da formação dos/as catequistas, quanto da aprendizagem de catequizandos e
catequizandas.
A Igreja reconhece a internet como uma fonte para o estudo da fé cristã. Para o Papa São João
Paulo II (2002, s/p), a rede pode favorecer a continuidade da evangelização mediante “a instrução e
a catequese permanentes”. A internet, afirma o pontífice, oferece “inúmeras fontes de informação,
documentação e educação sobre a Igreja, a sua história e a sua tradição, a sua doutrina e o seu
compromisso em todos os setores, em todas as partes do mundo” (idem). Já Bento XVI (2011, s/p)
afirmava ainda que a internet “pode certamente contribuir com um suplemento e um apoio singulares,
tanto preparando para o encontro com Cristo na comunidade, como ajudando o novo crente na
caminhada de fé, que então tem início” (idem).
Na infinidade de materiais disponíveis em rede, catequistas e catequizandos podem encontrar
elementos para enriquecer a experiência do discipulado de Jesus. A internet oferece um acesso
facilitado a importantes recursos religiosos e espirituais, como “livrarias grandiosas, museus e lugares
de culto, os documentos do ensinamento do Magistério, os escritos dos Padres e dos Doutores da
Igreja, assim como a sabedoria religiosa de todos os tempos” (PONTIFÍCIO, 2002, n. 5).
Diversos sites e aplicativos católicos também oferecem vários conteúdos e serviços específicos
voltados para a formação na fé e para a experiência religiosa, com linguagens novas e mais
compreensíveis por parte das crianças, adolescentes e jovens. Citamos como exemplo, dentre
inúmeros outros, os aplicativos Docat, sobre a Doutrina Social da Igreja em linguagem jovem, e o Click
to Pray, da Rede Mundial de Oração do Papa, que apresenta modos inovadores para se rezar pelas
intenções mensais de oração. Tais materiais podem contribuir para tornar os encontros catequéticos
mais “conectados” com a vivência cotidiana dos catequizandos e catequizandas, por serem parte da
sua cultura comum.
As diversas linguagens que vão surgindo na cultura de hoje, especialmente entre os jovens, nos
ambientes digitais, também podem “permitir que a riqueza infinita do Evangelho encontre formas de
expressão que sejam capazes de alcançar a mente e o coração de todos” (BENTO XVI, 2013, s/p).
Hoje, quando muitas crianças já possuem os seus próprios celulares conectados à internet, por que
não os usar como recurso de sala de aula, para pesquisas, jogos educativos, produção de fotos e
vídeos relacionados com as temáticas da catequese?
Textos, imagens, áudios e vídeos disponíveis na internet e na cultura digital podem enriquecer a
compreensão de inúmeras situações humanas no mundo, que encontram eco nos relatos evangélicos

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e na experiência de Jesus. Os “assuntos do momento”, as hashtags, aquilo que “bombou na net”


podem ser lidos, refletidos e iluminados à luz da Palavra e da fé cristã, como “sinais dos tempos” de
algo que Deus possa estar querendo nos comunicar no hoje da história. Por ser resultado de uma
construção colaborativa, a internet e as redes sociais digitais também são expressão da sociedade
contemporânea, dos seus desejos, das suas necessidades e dos seus anseios mais profundos. O/a
catequista pode se deixar provocar e, por sua vez, provocar os catequizandos e catequizandas a lerem
tais fenômenos a partir da perspectiva cristã. Diante de tais informações e situações, o que cada um
e cada uma, como discípulos-missionários de Jesus, em formação permanente na fé, têm a dizer e a
fazer? Como Deus se “encarna” nessas realidades?
Contudo, é necessário prezar por um bom discernimento por parte dos/as catequistas em relação
aos materiais a serem trabalhados. Mesmo em contextos católicos, são diversas as teologias propostas,
assim como são diversas as imagens sobre Deus e os pontos de vista sobre a Igreja. “A linguagem
sobre Deus é uma das mais difíceis e perigosas com que trabalhar, porque pode resultar em estruturas
opressivas ou ser um trampolim para a libertação” (HUNT, 2012, p.6). O discernimento, como explicita
o papa em sua exortação apostólica Amoris laetitia, busca identificar, criticamente, “elementos que
possam favorecer a evangelização e o crescimento humano e espiritual” (AL, n. 293).
Devido à intensa digitalização, também pode ocorrer um processo de hiperinformação ou até de
infoxicação, ou seja, de intoxicação informacional, por causa das imensas quantidades de informação
que recebemos a todo o momento. Vivemos hoje, segundo o Conselho da Europa, um período de
“desordem informacional”, um “caos” de dados e informações, muitas vezes marcados por falsidades,
mentiras, intolerância, difamação, calúnia, ódio, como naquelas que se costumou chamar de “fake news”.
Isso tem relevância também no âmbito catequético, pois, do ponto de vista pedagógico, a informação é
apenas parte de um processo mais amplo e complexo. “Não é a quantidade de informação que importa, é
a organização da informação” (MORIN, 2002, p. 379). Ou seja, mesmo que tenhamos massas enormes de
dados e informações à disposição, isso não significa conhecimento. Para gerar conhecimento, precisamos
inter-relacionar tais dados e informações, organizá-los dentro de um quadro de sentido, recombiná-los
com o contexto pessoal e social. Se o conteúdo da catequese também não é apenas a formulação da
fé, mas a sua interação com a experiência da vida, busca-se cada vez mais um “deslocamento de uma
catequese simplesmente doutrinal para um modelo mais experiencial” (DNC, n. 13).
Daí a importância do papel do educador e da educadora e de sua relação com o educando e a
educanda, na construção de sentido sobre, a partir e para além dos meros dados e informações
disponíveis. O que importa é como tais informações, abundantes e infindáveis em rede, são articuladas,
contextualizadas e organizadas pelas próprias crianças, adolescentes e jovens na sua vida pessoal:
isto é, como cada um de nós “significa” o mundo em que vive, dando-lhe sentido. Isto é, ajudar no
salto do “aprendido” ao “apreendido” (FREIRE, 2011).
Por outro lado, tornar os encontros catequéticos mais “conectados”, atrativos e envolventes não
significa “baratear” a formação na fé, tornando-a mero “espetáculo” colorido e chamativo.
Em um ambiente marcado pela rapidez da informação e pela abrangência do contato,
o testemunho do Evangelho por parte de todo o povo de Deus não deve se basear
em critérios como popularidade, celebridade, aceitabilidade, persuasão, atratividade.
A verdade do Evangelho não é algo que possa ser objeto de consumo ou de fruição
superficial, mas dom que requer uma resposta livre (DCIB, n. 194).

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Por isso, o desafio é reconhecer, aprender e apropriar-se das práticas comunicacionais de hoje,
em seus valores e sentidos positivos, para mais bem inculturar a catequese na cultura digital do
século XXI. Mas a “inculturação digital” vai além da tecnologia. “A comunicação é uma conquista mais
humana que tecnológica” (FRANCISCO, 2014b, s/p). As redes sociais digitais, como reitera o Papa
Francisco, não são só um emaranhado de fios e cabos, mas principalmente de relações humanas, de
redes sociais. Por isso, no caso de comunidades que não possuam uma estrutura física adequada, a
falta de aparelhos tecnológicos não deve servir de álibi para a estagnação e o conformismo. A cultura
digital não é constituída apenas de “cima para baixo” – das empresas tecnológicas sobre cada um de
nós –, mas também de “baixo para cima”, a partir dos usos e das práticas criativas que cada pessoa
faz e inventa, para ter acesso à cultura – ajudando, assim, também, a construí-la. Ou seja, a cultura
digital, para além das tecnologias físicas, perpassa toda a sociedade, em suas práticas e valores. O
desafio catequético, portanto, é como reconstruir essa cultura didaticamente e relê-la pedagogicamente
a partir da fé cristã.
Nesse sentido, há um desafio didático também à figura do/a catequista como o conhecemos e do
próprio encontro catequético.
O caráter interativo e bilateral da internet já está a ofuscar a antiga distinção entre
aqueles que comunicam e os destinatários da comunicação, e a dar forma a uma
situação em que, pelo menos potencialmente, cada um pode desempenhar ambas as
funções. Já não se trata da comunicação unilateral e vertical do passado (PONTIFÍCIO,
2002, n. 6).

Ou seja, “a interatividade das pessoas com as mídias, caracterizada pela autonomia e pelo
protagonismo, exige cada vez mais relações de respeito, diálogo e amizade marcadas pelo espírito
colaborativo e cooperativo” (DCIB, n. 180). Fala-se até de uma “cultura maker”, ou seja, “fazedora”, que
quer “pôr a mão na massa”. Por isso, é preciso repensar, a partir das dinâmicas e lógicas da cultura
digital, a própria a noção de “aula”, o espaço-tempo das “aulas”, as relações entre os sujeitos do
processo educativo, as materialidades didático-pedagógicas, para que a catequese seja um ambiente
de aprender-fazendo, de aprender-brincando, de aprender-ensinando etc.
No fundo, catequista e catequizandos co-educam, ambos co-formam para a fé: “Toda a experiência
de fé vivenciada na catequese deve acontecer na dimensão dialógica” (DCIB, n. 70). Reconhecer e
praticar uma pedagogia comunicativa e dialógica, a partir das práticas emergentes no ambiente digital,
é essencial para a formação das gerações de hoje.

2.2 Eixo psicopedagógico


Há ainda uma perspectiva mais ampla, que extrapola a “sala de aula”. Como parte do processo
de formação na fé, encontra-se também a formação de um sujeito específico: o “cristão” e a “cristã”.
Mas a iniciação à vida cristã não envolve apenas o processo de construção de um “conhecimento”
sobre uma “doutrina” religiosa. O Papa Francisco deixa claro que a evangelização não deve ser
interpretada, “exclusiva ou prioritariamente, como formação doutrinal” (EG, n. 161). A catequese,
como parte da ação evangelizadora, deve ser querigmática, isto é, pensada e praticada em torno
do querigma, do primeiro e principal anúncio do “Deus que manifestou o seu amor imenso em Cristo
morto e ressuscitado” (EG, n. 11).

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Esse anúncio, afirma o papa, “deve desencadear também um caminho de formação e de


amadurecimento. A evangelização procura também o crescimento” (EG, n. 160). Por isso, Francisco
solicita uma “vitalidade e uma integralidade harmoniosa que não reduza a pregação a poucas doutrinas,
às vezes mais filosóficas do que evangélicas” (EG, n. 165). Isso exige do/a catequista algumas atitudes
que ajudem o catequizando e a catequizando nesse caminho: proximidade, abertura ao diálogo,
paciência, acolhimento sem condenação.
Acompanhando a “pedagogia interior do coração”, a catequese “procura a síntese entre o
conhecimento intelectual e a experiência amorosa da vida em Deus” (DNC, n. 143). É dentro desse
panorama que os/as catequistas são chamados a “inculturar” a iniciação à vida cristã em sua realidade
local mais próxima e, também, na cultura digital mais ampla em que todos vivemos hoje.
Um dos primeiros aspectos da dimensão psicopedagógica da catequese é a “descoberta de si
mesmo” por parte do catequizando e da catequizanda, dentro do “longo processo vital de introdução
dos cristãos ainda não plenamente iniciados (...) nos diversos aspectos essenciais da fé cristã” (DNC,
n. 38). Grande parte dessa experiência de si mesmo, hoje, se dá em redes sociais digitais: é nelas que
construímos nossos “perfis”, onde nos pronunciamos e pronunciamos o nosso mundo: é onde se dá
a identificação e a significação do próprio “eu” e da própria realidade. É em rede que as crianças, os
adolescentes e os jovens de hoje se definem como “um projeto simbólico reflexivo, de cuja construção
o sujeito participa ativamente” (PADRINI, 2014, p. 37, trad. nossa). Trata-se de um processo de
“construção do eu” – também religioso – que merece a atenção e o acompanhamento do/a catequista.
Em termos catequéticos, as redes sociais digitais têm uma importância significativa como um
ambiente em que é possível conhecer mais os catequizandos e catequizandas: não apenas de “dados”
soltos sobre as suas vidas, mas, a partir daquilo que “postam” e comunicam, é possível conhecer
principalmente os seus medos e esperanças, as suas alegrias e tristezas. E podem ser detectados
sinais e indícios de problemáticas que possam estar afetando a vida das pessoas: ciberbullying,
pornografia, dependência tecnológica, depressão, mensagens que instiguem ao ódio, disseminação
de boatos, autoisolamento, podendo chegar ao perigoso fenômeno dos jovens “eremitas sociais”, que
“correm o risco de se alhear totalmente da sociedade” (FRANCISCO, 2019, s/p).
No ambiente digital, em suma, não se partilham apenas ideias e informações, mas em última
instância a pessoa comunica-se a si mesma” (BENTO XVI, 2013, s/p). A postura dos catequizandos
e catequizandas dentro da rede “expressa a necessidade do ser humano de se reencontrar na
comunicação e, nela, de ser identificado; em última análise, expressa a necessidade de encontrar na
arena comunicativa um lugar que dê existência a si e à própria individualidade em relação” (PADRINI,
2014, p. 36, trad. nossa). Para isso, demanda-se do/a catequista
um esforço contínuo para conhecer o perfil sociopsicológico dos catequizandos e o
contexto cultural em que estão inseridos. Isso leva a identificar os elementos da cultura
que diretamente impactam em sua subjetividade. Tal postura pressupõe abertura e
acolhida ao outro, considerando-o em sua diversidade de visões de mundo, interesses
e desejo de vivenciar a fé (DCIB, n. 71).
Acompanhar o crescimento e o amadurecimento pessoal e espiritual das pessoas no seu cotidiano
também envolve, hoje, acompanhar a sua ação e participação no ambiente digital. Sendo a catequese
um processo pedagógico libertador e transformador, é importante que o/a catequista ponha em prática

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a “vontade de se doar a si mesmo aos outros através da disponibilidade para se deixar envolver,
pacientemente e com respeito, nas suas questões e nas suas dúvidas, no caminho de busca da
verdade e do sentido da existência humana” (BENTO XVI, 2013, s/p).
Mas isso não significa controle e vigilância sobre aquilo que os jovens postam e fazem na internet.
Também não se trata de impedir que eles tenham acesso a certas tecnologias ou deixem de fazer
parte de determinada rede social digital, afinal, em geral, é aí que se dão as relações interpessoais das
gerações de hoje. Ao contrário, tais posturas por parte dos formadores podem gerar receios, sigilos,
ocultamentos e perda de confiança.
Ao contrário, “somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las” (AL, n.
37): e isso também vale para a relação catequista/catequizando. Por isso, é preciso promover uma
formação para o discernimento, para a modulação da liberdade e da responsabilidade de cada pessoa
em suas práticas comunicativas. É preciso uma formação para uma presença significativa, crítica e
autocrítica no ambiente digital por parte dos catequizandos e catequizandas.
A formação sobre a Internet e as novas tecnologias exige muito mais do que o ensino
das técnicas; os jovens têm necessidade de aprender como agir corretamente no
mundo do espaço cibernético, discernir os juízos de acordo com critérios morais sólidos
a respeito daquilo que nele encontram e lançar mão das novas tecnologias para o seu
desenvolvimento integral e o benefício dos outros (PONTIFÍCIO, 2002, n. 7).
Cabe ao/à catequista, junto com o catequizando e a catequizanda e seu ambiente familiar,
promover a escuta e o discernimento das luzes e das sombras da realidade midiática em que crianças,
adolescentes e jovens vivem hoje, a partir da perspectiva cristã.
Além disso, é importante que o/a catequista ajude as pessoas a não se deixarem tomar pela chamada
dependência tecnológica, caracterizada pelo uso excessivo de aparelhos e dispositivos, “que fragiliza
a convivência presencial e traz riscos efetivos de empobrecimento da experiência imediata da pessoa
com o mundo. Diante de tais desafios, a Igreja tem a missão de formar, sobretudo, os agentes pastorais,
para uma postura crítica e uma atuação segundo os valores éticos e cristãos” (DCIB, n. 186). A própria
tradição da Igreja, nesse sentido, oferece exercícios espirituais para educar à moderação e à sobriedade,
especialmente em períodos como a Quaresma. Então, por que não aproveitar tais momentos para vivenciar
também um “jejum tecnológico” ou um período de “deserto digital”? Certamente, mediante tal esforço,
muitas coisas podem ser aprendidas e descobertas sobre si mesmo e a realidade em que vivemos.
Além disso, no ambiente digital, muitas vezes,
a velocidade da informação supera a nossa capacidade de reflexão e discernimento,
e não permite uma expressão equilibrada e correta de si mesmo. A variedade das
opiniões expressas pode ser sentida como riqueza, mas é possível também fechar-
se numa esfera de informações que correspondem apenas às nossas expectativas
e às nossas ideias, ou mesmo a determinados interesses políticos e econômicos. O
ambiente de comunicação pode ajudar-nos a crescer ou, pelo contrário, desorientar-
nos (FRANCISCO, 2014b, s/p).
Trata-se daquilo que se costuma chamar de “bolhas informacionais”, que nos encerram em um
ambiente onde só temos acesso a “mais do mesmo”, o que empobrece o crescimento pessoal em
vários sentidos. Sobrevaloriza-se tudo o que é atual, contemporâneo, imediato, efêmero, transformando
em passado remoto tudo aquilo que não é deste ano, deste mês, deste instante. O risco é provocar

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uma espécie de esquizofrenia temporal dos mais jovens diante da própria tradição milenar da Igreja,
que “conserva a memória de Jesus, suas palavras e gestos” (DNC, n. 51).
O desafio catequético é recorrer aos recursos digitais para “entrar em contato com as próprias
raízes, a própria herança cultural e o senso vivo da tradição” eclesial (DCIB, n. 225). Se “as novas
tecnologias permitem que as pessoas se encontrem para além das fronteiras de tempo e espaço e das
próprias culturas” (DCIB, n. 179), é importante recorrer a elas para que o catequizando e a catequizanda
possam conhecer a história e reavivar a memória do seu povo e da sua Igreja, aprendendo a saborear
a lentidão e a calma, a experimentar a realidade do tempo, dos “séculos dos séculos”, em uma “história
da salvação” que não é imediatista nem efêmera.
Em um encontro com os bispos brasileiros no Rio de Janeiro, em 2013, o Papa Francisco advertiu
contra esse risco, inclusive dentro da própria missão da Igreja:
A busca do que é cada vez mais rápido atrai o homem de hoje: internet rápida, carros
velozes, aviões rápidos, relatórios rápidos... E, todavia, se sente uma necessidade
desesperada de calma, quero dizer, de lentidão. A Igreja sabe ainda ser lenta: no tempo
para ouvir, na paciência para costurar novamente e reconstruir? Ou a própria Igreja já
se deixa arrastar pelo frenesi da eficiência? (...) Precisamos de uma Igreja que volte a
dar calor, a inflamar o coração (FRANCISCO, 2013c, s/p).
Em suma, “a catequese não pode ser desencarnada da história. Sua missão é, também, contribuir
para a formação de cristãos como cidadãos, justos, solidários e fraternos, corresponsáveis pela pátria
comum e pelo planeta terra” (DNC, n. 64). Se “as redes sociais são o fruto da interação humana”
(BENTO XVI, 2013, s/p), os catequizandos e catequizandas têm um papel relevante nesse contexto.

2.3 Eixo sociocomunitário


A iniciação à vida cristã não é a formação de um “indivíduo isolado” em relação com Deus. Além
de “fonte viva” da catequese, a comunidade também “é fermento de libertação da pessoa e de
transformação da sociedade” (DNC, n. 53). O próprio Deus “se revela no dia a dia de pessoas que
vivem em comunidade. A catequese é concebida como uma iniciação à fé em sua dimensão pessoal e
comunitária” (ibid., n. 13). O ambiente da catequese é a comunidade eclesial: “Onde há uma verdadeira
comunidade cristã, ela se torna uma fonte viva da catequese, pois a fé não é uma teoria, mas uma
realidade vivida pelos membros da comunidade” (ibid., n. 52).
Por isso, pensar a catequese do ponto de vista comunitário é pensá-la também como um processo
de comunicação: “A comunicação tem como objetivo primordial criar comunhão, estabelecer vínculos de
relações, promover o bem comum, o serviço e o diálogo na comunidade. […] Sem essa ação, não há nem
comunhão nem comunidade” (DCIB, n. 13). Hoje, em um momento histórico em que as relações se dão
principalmente mediadas por processos tecnológicos digitais, a comunicação também pode contribuir
para a construção de comunhão e comunidade, na rede e fora dela. Mas é preciso superar alguns
“pré-conceitos” em relação às redes digitais, como se fossem ambientes individualistas, antissociais
ou “fora da realidade”. Por isso, é importante reiterar aquilo que o Papa Bento XVI já dizia em 2013:
O ambiente digital não é um mundo paralelo ou puramente virtual, mas faz parte da
realidade cotidiana de muitas pessoas, especialmente dos mais jovens. As redes sociais
são o fruto da interação humana, mas, por sua vez, dão formas novas às dinâmicas da
comunicação que cria relações (BENTO XVI, 2013, s/p).

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Como parte da cultura contemporânea, é importante que os/as catequistas estejam atentos a essas
novas formas de ser pessoa e de se relacionar. Isso não significa que devamos optar ou por uma
comunidade “real” ou por uma comunidade “digital”: ambas podem conviver e se ajudar. Em tempos
de rede, embora reconhecendo que as relações via internet não substituem a vida em comunidade, a
Igreja afirma que as mídias digitais “podem completá-la, atraindo as pessoas para uma experiência mais
integral da vida de fé e enriquecendo a vida religiosa dos usuários” (DCIB, n. 176). O Papa Francisco
(2014b, s/p) vai além e afirma: “Particularmente a internet pode oferecer maiores possibilidades de
encontro e de solidariedade entre todos; e isto é uma coisa boa, é um dom de Deus”.
Além disso, as redes sociais digitais nos recordam que não “estamos” em rede, mas “somos”
rede, somos seres em relação, seres em comunicação, seres em comunidade – também no âmbito
eclesial. A própria identidade cristã se fundamenta na comunhão e na alteridade. “O panorama atual
convida-nos, a todos nós, a investir nas relações, a afirmar – também na rede e através da rede – o
caráter interpessoal da nossa humanidade. Por maior força de razão nós, cristãos, somos chamados
a manifestar aquela comunhão que marca a nossa identidade de pessoas de fé” (FRANCISCO, 2019,
s/p). Por isso, o desafio pastoral de uma inculturação digital se justifica pela própria missão da Igreja
de ir ao encontro de todos/as e de cada um/a, quem quer que sejam, onde quer que estejam – e,
portanto, também no ambiente digital –, para caminhar com eles e lhes anunciar a Boa-Nova, acima
de tudo com o próprio testemunho de vida.
Isso pode ocorrer em um duplo movimento. Primeiro, de fora para dentro da “sala de catequese”.
A internet possibilita “ultrapassar a distância e o isolamento, levando os indivíduos a entrarem em
contato com as pessoas de boa vontade que nutrem os mesmos interesses e que participam nas
virtuais comunidades de fé para se encorajarem e auxiliarem umas às outras” (PONTIFÍCIO 2002, n. 5).
Por meio da rede, é possível “expandir” a sala de catequese, trazendo para os encontros, via internet,
o próprio mundo, em sentido amplo. Questões como a ecologia, o compromisso na construção da
paz, do desenvolvimento, da libertação dos povos; a área da defesa dos direitos humanos, sobretudo
das minorias, das mulheres e das crianças; a área das investigações científicas e das relações
internacionais (cf. DNC, n. 228) podem ser debatidas por meio das mídias digitais, sem a necessidade
de deslocamentos ou formalismos próprios de algumas instituições.
Por outro lado, o ambiente digital ajuda a catequese a romper seus muros, abrindo-se de dentro
para fora. A catequese é convidada a “ir aonde as pessoas vivem, em particular na família, na escola,
no trabalho e no lazer” (DNC, n. 227), e a internet pode contribuir com isso. “Em alguns contextos
geográficos e culturais onde os cristãos se sentem isolados, as redes sociais podem reforçar o sentido
da sua unidade efetiva com a comunidade universal dos fiéis” (BENTO XVI, 2013, s/p). Nesse sentido,
com as facilidades de comunicação, por que não promover alguns “intercâmbios catequéticos” – via
internet – com outras paróquias, dioceses e comunidades não apenas da mesma região, mas também
de outros Estados, para partilhar o caminho de iniciação à vida cristã mediante testemunhos via
videoconferência? Existem diversos softwares e sites da internet que possibilitam transmissões ao
vivo e teleconferências pela internet.
Também é possível organizar conversas online, ao vivo, com lideranças da Igreja que não possam
estar fisicamente presentes ou cuja presença envolveria custos elevados e uma grande organização.
Ou ainda é possível convocar as mais diversas lideranças e autoridades civis e religiosas, locais

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ou regionais – como representantes eclesiais, políticos, escolares, associativos – para se “fazerem


presentes” no encontro de catequese via internet, para dialogar com os catequizandos e catequizandas
e incrementar o debate e a reflexão sobre determinadas temáticas.
Ou, ainda, por que não promover um momento de “bate-papo” das crianças e jovens com o seu
bispo, também via internet, para facilitar um contato que, infelizmente, em muitas dioceses, ou nunca
ocorre, ou ocorre uma única vez na vida, apenas na celebração da Crisma? Ou, então, a participação
via internet de algum pensador e artista católico, ou formador espiritual, que, por distância ou custo,
não pode estar presente na sala de catequese?
A internet também contribui com aquilo que o Diretório Nacional de Catequese chama de “catequese
na diversidade”, por exemplo para os indígenas, as pessoas com deficiência, as pessoas em situações
canonicamente irregulares, dentre outros. O ambiente digital favorece o acompanhamento de “grupos
específicos — adolescentes e jovens, idosos e pessoas cujas necessidades as obrigam a permanecer
em casa, indivíduos que vivem em regiões remotas e membros de outros organismos religiosos — que,
de outra forma, podem ser difíceis de alcançar” (PONTIFÍCIO CONSELHO PARA AS COMUNICAÇÕES
SOCIAIS, 2002, n. 5). Seja por dificuldade de transporte, de deslocamento ou de outros fatores, as
mídias digitais podem ajudar na promoção de uma catequese renovada também nos seus métodos.
E o exemplo, nesse sentido, vem do próprio Papa Francisco. Em setembro de 2014, o pontífice
participou, de forma inédita na história do papado, de um encontro via Google Hangout, plataforma
de videoconferência via internet, justamente com adolescentes e jovens do mundo inteiro, promovido
pela rede Scholas Ocurrentes. A conversa online contou com a presença de estudantes da África do
Sul, Austrália, El Salvador, Israel e Turquia2. Como sinal da importância da experiência, o encontro via
internet com a presença do pontífice se repetiu em fevereiro de 2015, quando Francisco participou de
uma nova teleconferência, desta vez com crianças portadoras de deficiência, de escolas do Brasil,
Espanha, Estados Unidos e Índia3. Então, se o papa pode, por que nós também não podemos?
Mas é preciso frisar novamente que isso não significa “substituir” ou equiparar o encontro
presencial com uma troca de mensagens via computador ou celular. São ambientes diferentes,
mas ambos contribuem, em suas especificidades, para construir relações e comunidade. Trata-se
de complementaridade. O desafio é possibilitar uma “ampliação” do ambiente educativo, fraterno e
social de convivência dos catequizandos e catequizandas com a sua comunidade eclesial também
no ambiente digital.
O Papa Francisco nos convida a ser uma “Igreja em saída”, “com as portas abertas”, que “sai em
direção aos outros para chegar às periferias humanas” (EG, n. 46), e isso também nos contatos digitais.
Nesse sentido, no processo formativo da iniciação cristã, é preciso levar em conta uma forte tendência
negativa da cultura digital que pode afastar os catequizandos e catequizandas dessa abertura e levar,
ao contrário, a uma consciência isolada e à autorreferencialidade (cf. EG, n. 8). É preciso reconhecer
que “a velocidade da informação supera a nossa capacidade de reflexão e discernimento, e não
permite uma expressão equilibrada e correta de si mesmo” (FRANCISCO, 2014b, s/p). O risco é de
se fechar não apenas em “bolhas informacionais”, mas também em “bolhas relacionais”, entrando em
contato apenas com os mesmos de sempre, que falam sempre a mesma “língua” (religiosa, cultural,

2
O vídeo desse encontro está disponível no YouTube, em: <https://goo.gl/VUjqJ0>.
3
O vídeo desse segundo encontro também está disponível no YouTube, em: <https://goo.gl/k6f8Vp>.

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política...). Dessa forma, o “outro”, o diferente, o contraditório são excluídos do nosso alcance, são
“excomunicados” da nossa comunicação.
Como reconhece Francisco, no ambiente digital, muitas vezes, a identidade pessoal e também
comunitária se define a partir da contraposição ao “outro”, ao diferente, mais a partir daquilo que divide
do que daquilo que une, dando espaço à suspeita e à explosão de todo o tipo de preconceito (étnico,
sexual, religioso e outros). “Essa tendência alimenta grupos que excluem a heterogeneidade, alimentam
no próprio ambiente digital um individualismo desenfreado, acabando às vezes por fomentar espirais
de ódio. E, assim, aquela que deveria ser uma janela aberta para o mundo, torna-se uma vitrine onde
se exibe o próprio narcisismo” (FRANCISCO, 2019, s/p).
Na exortação apostólica Gaudete et exsultate, o Papa Francisco adverte com ainda mais força:
“Pode acontecer também que os cristãos façam parte de redes de violência verbal através da internet
e vários fóruns ou espaços de intercâmbio digital. Mesmo nas mídias católicas, é possível ultrapassar
os limites, tolerando-se a difamação e a calúnia e parecendo excluir qualquer ética e respeito pela
fama alheia” (GE, n. 150).
Ao contrário, na Igreja de hoje, o desafio é construir uma cultura do encontro, marcada pela ternura
e pelo diálogo, como pede o papa. E dialogar, segundo Francisco, “significa estar convencido de que o
outro tem algo de bom para dizer, dar espaço ao seu ponto de vista, às suas propostas. Dialogar não
significa renunciar às próprias ideias e tradições, mas à pretensão de que sejam únicas e absolutas”
(2014, s/p).
Para evitar esse fechamento ao “outro”, a relação entre catequista e catequizandos, especialmente
no âmbito digital, deve ser pautada por formas de encontro, diálogo e debate marcadas pelo respeito
e cuidado pela privacidade, com responsabilidade e empenho pela verdade. “Assim, a troca de
informações pode transformar-se numa verdadeira comunicação, os contatos podem amadurecer em
amizade, as conexões podem facilitar a comunhão” (DCIB, n. 189). É preciso, portanto, humanizar as
redes, promovendo uma comunicação que ajude a construir uma rede segura, respeitosa e civilizada.
Um modo concreto de praticar isso, por exemplo, são os 10 princípios do “Manifesto da Comunicação
Não Hostil”4.
Em tais contatos e relações via internet, espera-se – principalmente do/a catequista – a devida
maturidade humana, que se explicita em equilíbrio afetivo, senso crítico, unidade interior e capacidade
de relações e de diálogo, no espírito construtivo (DNC, n. 263). Mais do que mera maturidade humana,
é necessário, primordialmente, o verdadeiro testemunho cristão. A experiência comunitária e a
comunicação catequética só farão sentido se estiverem fundamentadas na coerência de vida, que é
uma “pregação” que vai muito além das palavras.
A vida de cada comunidade eclesial precisa ser coerente com o Evangelho, mobilizadora
pela própria maneira de ser, de agir. Sem isso, a melhor catequese estaria exposta
a uma crise, caso o catequizando não encontre na face concreta da Igreja particular
e local um sinal de que é possível viver com autenticidade o seguimento de Jesus
(DNC, n. 145).

4
Disponível em: <https://goo.gl/jZddjP>.

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Dentro da perspectiva da Igreja Católica no Brasil, que vê a catequese como “transformadora e


libertadora”, em que a mensagem da fé ilumina a existência humana, “forma a consciência crítica
diante das estruturas injustas e leva a uma ação transformadora da realidade social” (DNC, n. 13), é
preciso refletir ainda sobre a problemática social do acesso aos meios digitais. Como afirma o Papa
Francisco (2014b, s/p), “a pessoa que, pelas mais diversas razões, não tem acesso aos meios de
comunicação social corre o risco de ser excluída” – não apenas da sociedade em geral, mas também
da própria comunidade eclesial.
As redes sociais digitais são também um instrumento político e econômico, que depende do acesso
ou não às tecnologias. “É imperativo que a brecha entre os beneficiários dos novos meios de informação
e expressão, e os que ainda não tiveram acesso a eles, não se converta em outra obstinada fonte de
desigualdade e discriminação” (DCIB, n. 185), especialmente na pequena comunidade formada por
catequista e catequizandos. A luta pelo acesso e pela democratização da mídia e das tecnologias
comunicacionais deve estar no horizonte da catequese.
Nesse sentido, as mídias digitais podem se converter também em um chamado ao debate, à
reflexão e à própria ação evangelizadora, no contexto local, voltados à mudança das estruturas sociais
injustas em torno da comunicação. A catequese pode contribuir com o engajamento dos catequizandos
e catequizandas, indo além da mera fruição individualista e muitas vezes egoísta dos benefícios da
tecnologia, problematizando as causas da pobreza e da falta de acesso às tecnologias. “A aceitação
do primeiro anúncio, que convida a deixar-se amar por Deus e a amá-Lo com o amor que Ele mesmo
nos comunica, provoca na vida da pessoa e nas suas ações uma primeira e fundamental reação:
desejar, procurar e ter a peito o bem dos outros” (EG, n. 178).
E toda essa reflexão pode encontrar um importante embasamento na Doutrina Social da Igreja. Uma
possibilidade, nesse sentido, pode ser o uso do aplicativo Docat. O aplicativo descreve em linguagem
jovem e digital a Doutrina Social da Igreja Católica. Dialogicamente, com perguntas e respostas, o
aplicativo permite que os jovens reflitam sobre como podem mudar o mundo através da ação social
e política a partir do Evangelho.
Um gesto concreto também pode ser incentivar catequistas e catequizandos à comunhão e à
solidariedade, por exemplo, no período da Campanha da Fraternidade. Pode-se fomentar a doação
de equipamentos tecnológicos em bom estado que não estejam sendo usados e que podem ser de
grande utilidade para outras pessoas.

2.4 Eixo teológico-pastoral


A Igreja aproxima-se da internet “com realismo e confiança”, voltada especialmente ao “seu potencial
para proclamar a mensagem evangélica” (JOÃO PAULO II, 2002, s/p). Desse modo, o ambiente digital
“torna possível um encontro inicial com a mensagem cristã, de maneira especial entre os jovens” (idem).
Reconhecendo que a experiência humana hoje também é vivida mediante os meios de comunicação,
a Igreja afirma que, “não obstante a realidade virtual do espaço cibernético não possa substituir a
comunidade interpessoal concreta, a realidade da encarnação dos sacramentos e a liturgia, ou a
proclamação imediata e direta do Evangelho, contudo pode completá-las, atraindo as pessoas para
uma experiência mais integral da vida de fé e enriquecendo a vida religiosa dos usuários” (PONTIFÍCIO
CONSELHO PARA AS COMUNICAÇÕES SOCIAIS, 2002, n. 5). Ou seja, “as redes facilitam a partilha

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dos recursos espirituais e litúrgicos, tornando as pessoas capazes de rezar com um revigorado sentido
de proximidade àqueles que professam a sua fé” (BENTO XVI, 2013).
Na vivência e no anúncio da fé, “a Igreja utiliza os processos e meios de comunicação de cada
época, incorporando as diversas riquezas culturais. Para os dias atuais, marcados pela incidência das
mídias tradicionais e digitais, é vital essa incorporação” (DCIB, n. 80). Hoje, as pessoas encontram
uma oferta de experiência religiosa não apenas nas igrejas de pedra, nos padres de carne e osso e
nos rituais palpáveis, mas também na “religiosidade existente e disponível nos bits e pixels da internet.
Formam-se, assim, novas modalidades de percepção e de expressão do sagrado em novos ambientes
de culto” (SBARDELOTTO, 2012, p. 321).
Por isso, um grande desafio posto pelas redes digitais é o de repensar “o modo no qual a lógica da
rede, com suas potentes metáforas que trabalham o imaginário, além da inteligência, possa modelar
a escuta, a leitura da Bíblia, o modo de compreender a Igreja e a comunhão eclesial, a Revelação, a
liturgia, os sacramentos” (SPADARO, 2012, p. 40). Podemos aqui incluir ainda momentos de oração
com o grupo de catequizandos e catequizandas via internet (em redes sociais digitais, em aplicativos),
pedidos de oração entre os companheiros de caminhada na fé etc. Podemos mencionar aqui, além do
aplicativo “Click To Pray”, também o projeto “O Vídeo do Papa”, que “traduz” as tradicionais intenções
mensais do papa para a linguagem audiovisual do YouTube. São vídeos curtos que ajudam a rezar
juntos, como comunidade, como Igreja, em nível mundial, também em rede.
Além disso, diversos locais de culto da Igreja, como basílicas, museus e mosteiros, oferecem
ambientes online para “peregrinações” e “visitas” via internet. Ou mesmo é possível “viajar” à
Terra Santa com o apoio de mapas online. Com tais recursos, a experiência catequética pode ser
enriquecida, tornando conceitos teológicos mais próximos da realidade cotidiana dos catequizandos
e catequizandas.
Em contextos geográficos e culturais distantes ou onde os cristãos se sentem isolados, “as redes
sociais podem reforçar o sentido da sua unidade efetiva com a comunidade universal dos fiéis”
(BENTO XVI, 2013, s/p). Aqui, levando-se em consideração as dimensões continentais do Brasil,
podemos perceber as possibilidades das mídias digitais para uma catequese renovada também em
seus métodos, indo ao encontro e mantendo o vínculo com catequizandos e comunidades distantes
ou de difícil acesso.
Como aponta Bento XVI, graças a um contato inicial feito em rede é possível mostrar ainda
a importância do encontro direto, de experiências de comunidade ou mesmo de
peregrinação, que são elementos sempre importantes no caminho da fé. Procurando
tornar o Evangelho presente no ambiente digital, podemos convidar as pessoas a viverem
encontros de oração ou celebrações litúrgicas em lugares concretos como igrejas ou
capelas (BENTO XVI, 2013, s/p).
O ambiente digital também possibilita o “pastoreio” dos jovens em rede. As redes sociais digitais
podem nos ajudar a crescer no amor recíproco, naquilo que o Papa Francisco chama de “fraternidade
mística, contemplativa, que sabe ver a grandeza sagrada do próximo, que sabe descobrir Deus em cada
ser humano” (EG, n. 92). Nas redes, expressamos quem somos, do que gostamos, o que queremos, o
que sonhamos. É um campo fértil para a evangelização: reconhecer e contemplar o “outro” nas suas
postagens, nas suas “curtidas”, nos seus comentários. Perceber aí a presença de um Deus amoroso

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já atuante e o chamado de Deus à nossa ação evangelizadora. Como já dizia Santo Inácio de Loyola,
é preciso “buscar e encontrar Deus em todas as coisas”, também nas redes.
Para o/a catequista, as redes podem ser um espaço privilegiado de escuta. Parafraseando aquilo
que o Papa Francisco escreve sobre o pregador, é possível dizer que, também em rede, o/a catequista
deve se pôr à “escuta do povo, para descobrir aquilo que os fiéis precisam de ouvir. Um pregador [ou
catequista] é um contemplativo da Palavra e também um contemplativo do povo (...) Recordemos que
nunca se deve responder a perguntas que ninguém se põe” (EG, nn. 154-155).
Com um olhar solidário, respeitoso e cheio de compaixão voltado ao “outro”, também em rede,
o/a catequista poderá, ao mesmo tempo, curar, libertar e animar o catequizando e a catequizanda a
amadurecerem na vida cristã. Com isso, pode desenvolver aquilo que o Papa Francisco chama de
“arte do acompanhamento espiritual”, aprendendo a “descalçar sempre as sandálias diante da terra
sagrada do outro” (EG, n. 169).
Por outro lado, os catequizandos e catequizandas podem ser desafiados a “traduzir” a fé cristã nas
linguagens do ambiente digital. Bento XVI já exortava especialmente os jovens a “levarem para o mundo
digital o testemunho da sua fé”, convocando-os à “tarefa da evangelização deste ‘continente digital’”
(BENTO XVI, 2009, s/p). Ao convidar os jovens a “assumir com entusiasmo o anúncio do Evangelho
aos seus coetâneos” nas mídias digitais, o papa emérito também os animava a conhecer os seus
medos e as suas esperanças, os seus entusiasmos e as suas desilusões. “O dom mais precioso que
vocês podem lhes oferecer é partilhar com eles a ‘boa-nova’ de um Deus que se fez homem, sofreu,
morreu e ressuscitou para salvar a humanidade” (BENTO XVI, 2009, s/p).
Mas como “evangelizar em rede”? O papa emérito oferece uma resposta:
Comunicar o Evangelho através das novas mídias significa não só inserir conteúdos
declaradamente religiosos nas plataformas dos diversos meios, mas também testemunhar
com coerência, no próprio perfil digital e no modo de comunicar, escolhas, preferências,
juízos que sejam profundamente coerentes com o Evangelho, mesmo quando não se
fala explicitamente dele. Aliás, também no mundo digital, não pode haver anúncio de
uma mensagem sem um testemunho coerente por parte de quem anuncia (BENTO
XVI, 2011, s/p).
O Papa Francisco, com sua linguagem ainda mais direta, enfatiza:
O testemunho cristão não se faz com o bombardeio de mensagens religiosas (...)
Pensemos no episódio dos discípulos de Emaús. É preciso saber-se inserir no diálogo com
os homens e mulheres de hoje, para compreender os seus anseios, dúvidas, esperanças,
e oferecer-lhes o Evangelho, isto é, Jesus Cristo, Deus feito homem, que morreu e
ressuscitou para nos libertar do pecado e da morte. O desafio requer profundidade,
atenção à vida, sensibilidade espiritual (FRANCISCO, 2014, s/p).
Ou seja, o “segredo” está na coerência de vida e no testemunho pessoal, explicitando a unidade
entre a expressão da nossa fé e aquilo que fazemos na realidade onde somos chamados a viver, seja
ela física ou digital. “Sempre e de qualquer modo que nos encontremos com os outros, somos chamados
a dar a conhecer o amor de Deus até aos confins da terra” (BENTO XVI, 2013, s/p).
Comunicar a fé envolve não apenas palavras, mas também gestos, atitudes, até mesmo silêncios e
ausências. “Uma pessoa fala com tudo o que é e faz. Todos nós estamos em comunicação, sempre”,
disse Francisco, na Audiência geral do dia 14 de novembro de 2018.

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CONCLUSÃO

Concluindo para começar


Um dos grandes desafios catequéticos hoje é pensar, habitar e viver as redes como “lócus teológico”,
como ambiente de missão, como “periferia existencial” à qual devemos sair ao encontro, com coragem.
Não é uma missão fácil, e não há soluções mágicas.
Mas, acima de tudo, é bom recordar que
se a nossa partilha do Evangelho é capaz de dar bons frutos, fá-lo em última análise pela
força que a própria Palavra de Deus tem de tocar os corações, e não tanto por qualquer
esforço nosso. A confiança no poder da ação de Deus deve ser sempre superior a toda
e qualquer segurança que possamos colocar na utilização dos recursos humanos (Bento
XVI, 2013, s/p).
A realidade da cultura digital pede uma evangelização renovada. Mas evangelizar não é uma
“missão impossível”. O Papa Francisco, de certo modo, sintetizou o desafio da catequese na cultura
digital recorrendo à própria linguagem das redes. E o fez em um tuíte com menos de 140 caracteres.
No Twitter, ele escreveu: “Que quer dizer evangelizar? Testemunhar com alegria e simplicidade o que
somos e aquilo em que acreditamos”5.
Também – e especialmente – na internet.

REFERÊNCIAS
BENTO XVI. Novas tecnologias, novas relações: promover uma cultura de respeito, de diálogo, de
amizade. Mensagem para a Celebração do 43° Dia Mundial das Comunicações Sociais. Cidade do
Vaticano, 2009. Disponível em <http://migre.me/8MbKN>.
______. Verdade, anúncio e autenticidade de vida, na era digital. Mensagem para a Celebração do
45° Dia Mundial das Comunicações Sociais. Cidade do Vaticano, 2011. Disponível em <http://migre.
me/8MbIX>.
______. Redes sociais: portais de verdade e de fé; novos espaços de evangelização. Mensagem para
a Celebração do 47° Dia Mundial das Comunicações Sociais. Cidade do Vaticano, 2013. Disponível
em <http://goo.gl/PzJW9M>.
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Diretório Nacional de Catequese. 5ª ed. São
Paulo: Paulinas, 2007.
______. Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil. Documento 99. Brasília: Edições CNBB, 2014.
FRANCISCO. Exortação apostólica Evangelii gaudium sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual.
Cidade do Vaticano, 24 nov. 2013a. Disponível em: <http://goo.gl/FCZf87>.
______. Discurso aos participantes na Assembleia Plenária do Pontifício Conselho para as
Comunicações Sociais. Cidade do Vaticano, 21 set. 2013b. Disponível em <http://goo.gl/WM2z74>.
______. Discurso ao episcopado brasileiro. Cidade do Vaticano, 27 jul. 2013c. Disponível em <https://
goo.gl/hTxEd7>.
5
Disponível em <http://goo.gl/OTctf4>.

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______. Discurso aos participantes do Congresso Internacional de Pastoral das Grandes Cidades.
Cidade do Vaticano, 27 nov. 2014a. Disponível em: <https://goo.gl/vh5mB8>.
______. Comunicação ao serviço de uma autêntica cultura do encontro. Mensagem para a Celebração
do 48° Dia Mundial das Comunicações Sociais. Cidade do Vaticano, 2014b. Disponível em <http://
goo.gl/fQslnc>.
______. Exortação apostólica pós-sinodal Amoris lætitia sobre o amor na família. Cidade do Vaticano,
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CATEQUESE, CATECUMENATO E NOVA EVANGELIZAÇÃO


ITAICI, BRASIL, 17 /11 /2018
Dom José Octavio Ruiz Arenas1
Arcebispo emérito de Villavicencio (Colômbia)
Secretário do Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização

INTRODUÇÃO

Caríssimos irmãos no episcopado e demais participantes,


É com muita alegria que vim acompanhá-los neste encontro de reflexão que se está realizando na
ocasião da Quarta Semana Brasileira de Catequese, para deixar-me contagiar do ímpeto evangelizador
e do entusiasmo que, como catequistas e autênticos discípulos missionários, os senhores todos têm
ao proclamar e gritar com ardor a grande verdade que o Senhor lhes permitiu experimentar no mais
profundo do próprio ser; um ardor tal que os enche de imensa alegria: Deus, que é amor, está sempre
ao nosso lado, ama-nos profundamente e quer o melhor para cada um de nós!
Conhecemos essa verdade quando encontramos Jesus na nossa vida, pois o encontro com Ele
foi um encontro com o Filho de Deus feito homem, ou seja, com Aquele que o Pai enviou para nos
resgatar do pecado e da morte e que, ao entregar sua vida na cruz, fez com que pudéssemos ter
novamente esperança e ser, de verdade, filhos de Deus. Jesus ressuscitou dos mortos e segue vivo no
meio de nós para que, Nele, tenhamos a verdadeira Vida. Essa é a verdade que, ao ser proclamada,
faz-nos sentir, como disse São Paulo VI, “a suave e reconfortante alegria de evangelizar”; a verdade
que devemos proclamar “mesmo quando for preciso semear com lágrimas”2.

1. OS NOVOS DESAFIOS DA CATEQUESE EM UMA CULTURA PÓS-MODERNA

A catequese vai assumindo, hoje, novos programas com o objetivo de responder aos grandes desa-
fios que se apresentam à Igreja para a transmissão da fé cristã. Diante do fenômeno da secularização,
que vai corroendo os fundamentos e os valores que brotam do Evangelho, bem como ante a indiferença
religiosa que se propaga de maneira acelerada, mas, ao mesmo tempo, diante da sede de Deus que
surge no coração de tantas pessoas que se haviam distanciado da Igreja e dos sacramentos, não
podemos pensar que estamos diante de uma vela fumegante prestes a se apagar, senão que estamos
ante um novo desafio evangelizador que requer criatividade, audácia, entusiasmo, convicção, alegria
e um testemunho de vida capaz de tornar atraente a fé que queremos transmitir.

1
Dom José Octavio Ruiz Arenas foi Reitor do Seminário Menor de Bogotá (1981-1984), oficial da Congregação para a
Doutrina da Fé (1985-1996), Bispo auxiliar de Bogotá (1996-2002), Arcebispo de Villavicencio (Colômbia) de 2002 a 2008).
Em 31 de Maio de 2007 foi nomeado vice-presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina e de Maio de 2011 até
hoje é Secretário do Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização, da Cúria Romana.
2
São Paulo VI, Exortação apostólica Evangelii nuntiandi, 80.

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Estamos num mundo que temos que evangelizar, com o qual é necessário dialogar abertamente
sem preconceitos nem prevenções, partindo do reconhecimento da sua bondade interior, e que deseja
o sal e a luz que brotam do Evangelho (cf. Rm 8,19). São Paulo VI nos dizia com grande clarividência
na sua primeira Encíclica que “a Igreja deve partir para o diálogo com o mundo no qual lhe cabe viver”
e que, acrescentava, “antes de convertê-lo, ou melhor, para poder convertê-lo, o mundo necessita que
dele nos aproximemos e que lhe falemos”3 Tudo isto sem ignorar de que se trata de um mundo terrivel-
mente sujeito a mudanças e que, na atualidade, sofre as consequências de uma série de crises que
foram se formando desde alguns séculos. Bem foi expresso no Documento de Aparecida: “A pastoral
da Igreja não pode prescindir do contexto histórico onde vivem seus membros. Sua vida acontece em
contextos socioculturais bem concretos”4
A maioria de nós percebe a mudança que significou a pós-modernidade, a qual tornou tudo relativo,
acelerado e instável, negando a possibilidade de verdades absolutas capazes de dar firmeza e segu-
rança e a qual, além disso, coloca em crise a tradição do passado e a esperança que pode oferecer o
futuro. No meio disso tudo, foi-se perdendo o sentido da vida humana e a própria vida se tornou objeto
de manipulação biológica e genética, gerando consequências inimagináveis. O avanço da ciência e da
técnica, que trouxe respostas acertadas para tantas inquietações seculares da humanidade, colocou,
também, em crise, ao mesmo tempo, a própria concepção de Deus, o que, em última instância, indica
uma crise profundamente antropológica. Com efeito, tudo passou a girar em torno do humano, segundo
um antropocentrismo desviado – como o chama o Papa Francisco – que acaba dando prioridade às con-
veniências circunstanciais, enquanto tudo o mais torna-se relativo; um antropocentrismo que alimenta a
degradação ambiental e social5. Por isso, o Santo Padre nos previne contra esse relativismo que brota do
paradigma tecnocrático e da adoração do poder humano sem limites, pois, “se não há verdades objetivas
nem princípios estáveis, fora da satisfação das aspirações próprias e das necessidades imediatas, que
limites pode haver para o tráfico de seres humanos, a criminalidade organizada, o narcotráfico, o comércio
de diamantes ensanguentados e de peles de animais em vias de extinção?”6
O influxo da secularização foi transformando todos os ambientes que nos rodeiam, e foi deixan-
do profundas lacerações em instituições tão fundamentais como a família, a qual, durante séculos,
constituiu uma base sólida para a transmissão da fé. A crise da família abarca não somente comporta-
mentos e mudanças de atitudes, mas também reconsiderações ideológicas que vão destruindo a sua
própria essência. Cada vez mais, propaga-se uma mentalidade que exclui compromissos definitivos:
o número de casais, de fato cresce, mas o mesmo acontece com a quantidade de uniões de pessoas
do mesmo sexo, divórcios e adultérios. Pretende-se reformular o próprio conceito de família, abando-
nando e ignorando a sacralidade do matrimônio. A partir da rejeição de Deus, considerado um mito
inútil, pretende-se negar que a família seja uma instituição natural, uma comunidade estável, um bem
indispensável e um patrimônio da humanidade7. Tudo isso leva a que sejam perdidos, em grande parte,
3
São Paulo VI, Encíclica Ecclesiam suam, 27.
4
Documento de Aparecida, 367.
5
Cf. Papa Francisco, Encíclica Laudato si’, 122.
6
Cf. Laudato si’, 123.
7
O Cardeal Alfonso López Trujillo já expunha tal denúncia durante o III Encontro de Políticos e Legisladores da América,
realizado em Buenos Aires, de 3 a 5 de agosto de 1999. Cf. A. López Trujillo, “Familia, familias y uniones de hecho”, in: Pon-
tificio Consejo para la Familia, Familia y Vida. A los 50 años de la declaración universal de los derechos humanos, 128-137.

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os valores familiares, e a que se esqueça que a família não só é núcleo essencial da sociedade, mas
constitui o ambiente primário e ideal para a transmissão inicial da fé.
Este mundo tão conturbado é o lugar onde a Igreja é chamada a evangelizar e fazer presente a
Palavra que dá vida e que infunde verdadeiro sentido à existência humana.
Não podemos ceder à tentação de separar radicalmente a Igreja do mundo, a ponto de pensar que
o mundo que nos rodeia seja simplesmente hostil à Igreja e esta, uma espécie de oposição ao que ele
nos oferece e às suas multiformes culturas. Não podemos continuar sustentando uma ruptura entre fé
e vida, já que a fé transmitida pela Igreja é uma fé que deve ser profundamente inculturada e conhe-
cer a realidade humana dos povos ou comunidades a que se dirige. O documento final de Aparecida
indicava, precisamente, a necessidade de buscar linguagens que sejam significativas para a cultura
atual, e, em particular, para os jovens, pois “muitas vezes, as linguagens utilizadas parecem não levar
em consideração a mutação de códigos existencialmente relevantes nas sociedades influenciadas
pela pós-modernidade e marcadas por amplo pluralismo social e cultural”8.
Inserida nesse contexto, a América Latina, apesar de ter recebido a graça do Evangelho há mais
de 500 anos, enfrenta atualmente uma realidade que não é possível ignorar. Por um lado, há grandes
camadas da população que foram batizadas, mas que não sabem em que consiste a sua fé cristã, ou
seja, o seu conteúdo e exigências; por outro, verifica-se uma crescente perda de sentido de pertença
à Igreja e de indiferença religiosa, o que leva a uma rejeição, nem sempre de forma consciente e de-
liberada, da moral cristã e das normas de conduta estabelecidas pela Igreja. A observação feita pelo
Papa Francisco em sua Exortação Apostólica sobre A alegria do Evangelho pode ser vista à luz da
situação vivida por nossas comunidades latino-americanas: “Não podemos ignorar que, nas últimas
décadas, se produziu uma ruptura na transmissão geracional da fé cristã no povo católico. É inegável
que muitos se sentem desiludidos e deixam de se identificar com a tradição católica, que cresceu o
número de pais que não batizam os seus filhos nem os ensinam a rezar, e que há um certo êxodo
para outras comunidades de fé”9. A Igreja, portanto, tem entre seus fiéis muitíssimas pessoas que não
fizeram uma clara opção de fé, e que desconhecem a importância de um encontro pessoal com Cristo.
Em uma reunião da Sociedade de Catequistas Latino-Americanos, refletia-se sobre as mudanças
de paradigmas socioculturais e antropológicos que estão marcando o caminho da Igreja na América
Latina, mostrando como estamos passando de uma cultura de colunas monolíticas estáveis a uma
cultura que alguns chamam “líquida”, a uma cultura de redes já não sustentada por verdades, ideais
e utopias como Pátria, Igreja, Escola, Família. Trata-se de uma nova cultura, marcada pelo fenômeno
da secularização, de que nossos povos não poderão escapar e dentro da qual teremos que buscar
novas formas de transmitir o Evangelho, em particular, com a irradiação da vivência de nossa con-
vicção cristã10. Este processo de secularização está levando a uma forma de “neopaganismo”, muito
difuso no mundo ocidental secularizado, mas que também está presente entre os cristãos do Sul que,
embora menos secularizados, sem dúvida, apresentam “uma mescla híbrida do pensamento moderno
com resquícios de comportamentos religiosos populares pré-modernos, muitas vezes, carregados de
valores e convicções pré-cristãs (vejam-se os setores indígenas, mestiços e afro de nosso continente),
8
Documento de Aparecida, 100 d.
9
Papa Francisco, Exortação apostólica Evangelii gaudium, 70
10
Cf. Arnold Simón Pedro, “La iniciación cristiana ante el cambio de época”, pp. 5-6. Conferência realizada no encontro de
SCALA: Iniciación cristiana, cambio de época, familia y comunidad cristiana (maio 2015).

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o que representa um desafio ainda mais sutil, apesar de (ou precisamente por causa) do pano-de-fundo
supostamente religioso destas culturas em transição fulgurante”11.
Há certamente uma forte presença nas várias expressões da piedade popular, e uma participação
mais de tipo sentimental e de vivência individual, pessoas que têm uma fé fraca, o que leva à urgência
de encontrar a maneira de valer-se de sua participação para fazer um válido primeiro anúncio que
lhes permita reforçar a sua fé.

2. A CATEQUESE A SERVIÇO DA NOVA EVANGELIZAÇÃO

O Magistério da Igreja, ao longo dos principais documentos catequéticos publicados a partir do


Concílio Vaticano II, considera que “a catequese representa um passo significativo na vida cotidiana
da Igreja para anunciar e transmitir de modo vivo e eficaz a Palavra de Deus”12 Fica claro, assim, que
a catequese é parte fundamental e prioritária da evangelização13, através da qual é dada fundamenta-
ção para a adesão a Jesus Cristo, meta primordial de todo o processo de anúncio do Evangelho. São
Paulo VI, além de indicar a grande complexidade da ação evangelizadora e assinalar que nenhuma
definição parcial e fragmentária reflete sua rica realidade14, apontava que “evangelizar significa para a
Igreja levar a Boa-Nova a todos os ambientes da humanidade e, com seu influxo, transformar a partir
de dentro, renovar a própria humanidade”, de modo tal que “a finalidade da evangelização é, portanto,
precisamente esta mudança interior”15. Sua preocupação era também, sem dúvida, mostrar “como”
evangelizar, uma vez que este é um problema sempre atual, “porque as maneiras de o fazer variam
em conformidade com as diversas circunstâncias de tempo, de lugar e de cultura, e lançam, por isso
mesmo, um desafio à nossa capacidade de descobrir e de adaptar”16 Aqui se insere, então, a impor-
tância da catequese, chamada a ser um instrumento, ou melhor, parte fundamental da evangelização,
para semear nos corações dos fiéis a própria Palavra de Deus.

2.1 Anúncio e testemunho


No momento atual, para realizar tal tarefa, é necessário, como indicado pelo Papa Francisco, reco-
nhecer o papel primordial que o primeiro anúncio ou o “querigma” tem dentro da catequese, a qual deve
ser central para a atividade evangelizadora e para qualquer tentativa de renovação eclesial. O Papa,
ao olhar de modo mais abrangente para o processo catequético, indicou que o primeiro anúncio e a
iniciação mistagógica são aspectos que se complementam mutuamente e que, sempre que possível,
devem ser acompanhados por aquilo que ele chama de “caminho da beleza” (via pulchritudinis) para
mostrar que crer em Jesus e segui-Lo não é somente algo verdadeiro e justo, mas é, também, belo17

11
Ibid., 6.
12
Bento XVI, Carta Apostólica Fides per doctrinam; cf. Catecismo da Igreja Católica n. 4.
13
Cf. São João Paulo II, Exortação apostólica Catechesi tradendae 19; Diretório Geral para a Catequese, 64.
14
Cf. Evangelii nuntiandi, 17.
15
Evangelii nuntiandi, 18.
16
Evangelii nuntiandi, 40.
17
Cf. Evangelii gaudium, 163-168.

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Um dos trabalhos a serem realizados pela Igreja para implementar a nova evangelização é, por-
tanto, o de esforçar-se para tornar sempre mais compreensível a necessidade da catequese para que
se atinja uma vida coerente de fé, capaz de arrastar, de contagiar, de criar nos outros o desejo e, até
certo ponto, a curiosidade que os leve a questionar-se sobre o porquê de uma tal convicção de fé e
coerência de vida. Os bispos em Aparecida consideraram essas questões de forma clara e concisa:
Aqui está o desafio fundamental que enfrentamos: mostrar a capacidade da Igreja de
promover e formar discípulos e missionários que respondam à vocação recebida e
comuniquem, por toda parte, transbordando de gratidão e alegria, o dom do encontro
com Jesus Cristo. Não temos nenhum outro tesouro a não ser este. Não temos outra
felicidade nem outra prioridade, senão a de sermos instrumentos do Espírito de Deus
na Igreja, para que Jesus Cristo seja encontrado, seguido, amado, adorado, anunciado e
comunicado a todos, não obstante todas as dificuldades e resistências. Este é o melhor
serviço – o seu serviço! - que a Igreja deve oferecer às pessoas e nações18.
Esse comunicar “transbordando de gratidão e alegria” não se limita unicamente à transmissão
da Palavra, mas deve ser íntima e previamente acompanhado de uma vivência alegre e convicta da
Boa-Nova, uma vivência de amor e de serviço que deixe transparecer que o amor de Cristo nos impele
(cf. 2Cor 5,14), nos impulsiona a uma caridade constante e criativa, a um amor real, solidário e pró-
ximo dos pobres e marginalizados, ao respeito pela natureza, a uma participação ativa e responsável
na vida da cidade. Usando a terminologia do Papa Francisco, podemos dizer que, para evangelizar e
catequizar, precisamos “sair” e “primeirear”, ou seja, como ele mesmo explica, é necessário envolver-se,
acompanhar, frutificar, festejar19.
A  catequese e toda a missão evangelizadora devem, então, estar fortemente imbuídas de um
impulso missionário que, através da ação dos evangelizadores, permita que a força regeneradora do
Espírito Santo chegue ao mundo. Só assim será possível realizar a tão sonhada “nova evangelização”.
A catequese, nesse contexto, é como uma escola da fé, uma escola viva de discipulado em que se
realiza a aprendizagem e a preparação para toda a vida cristã20, que estabelece as bases do edifício
espiritual do cristão, alimenta as raízes de sua vida de fé, fortalece os seus vínculos com a comunidade
cristã e deve levar a que se perceba a alegria de um encontro pessoal com o Senhor tal que dê pleno
sentido à existência.

2.2 Rumo à renovação na catequese


A nova evangelização exige-nos também uma renovação profunda na catequese, não só por causa
da importância que deve ser dada à verdadeira iniciação cristã e ao anúncio do querigma, mas também
porque temos que estar plenamente conscientes da necessidade de passar de uma catequese destinada
à preservação da fé a uma catequese de proposição da fé. Na França, onde se está tentando orientar
a renovação da catequese de modo tal a responder ao processo de descristianização que atingiu tão
fortemente àquela que, uma vez, foi considerada “a filha predileta da Igreja”, os catequistas indicam
que a catequese hoje não pode simplesmente responder à pergunta: “O que quer dizer cristão?”, mas

18
Documento de Aparecida, 14.
19
Evangelii gaudium, 24.
20
Cf. Diretório Geral para a Catequese, 30.

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deve indicar “Como ser cristão num mundo que perdeu a gramática da fé” e “Como o testemunho em
favor de Deus poderá permitir uma vida humana digna e feliz?”21 Essas questões são semelhantes às
já apresentadas pelo Cardeal Ratzinger aos catequistas de Roma:
A vida humana não se realiza por si mesma. Nossa vida é uma questão em aberto, um
projeto incompleto que é preciso continuar realizando. A pergunta fundamental de cada
ser humano é: como acontece esse projeto de realização do homem? Como se aprende
a arte de viver? Qual é o caminho para a felicidade?
Evangelizar significa mostrar esse caminho, ensinar a arte de viver. Jesus diz no início
da sua vida pública: “Vim para evangelizar os pobres” (cf. Lc 4, 18). Isso significa: eu
tenho a resposta para a vossa pergunta fundamental; Eu vos mostro o caminho para a
vida, o caminho que conduz à felicidade; mais ainda, Eu sou esse caminho [...] Por isso,
precisamos de uma nova evangelização. Se a arte de viver é desconhecida, tudo o mais
já não funciona. Mas essa arte não é objeto da ciência; só pode comunicá-la quem tem
a vida, Aquele que é o Evangelho em pessoa22.
A catequese, portanto, não deve preocupar-se apenas em ir ao encontro da formação dos fiéis,
mas, também, em responder aos que se interrogam sobre o sentido da vida. Em ambos os casos, de
qualquer maneira, é cada vez mais evidente a exigência de um renovado impulso missionário e de
dar importância a um anúncio do querigma que permita a percepção da novidade da fé e a sua cen-
tralidade para a vida. A catequese é, contudo, igualmente chamada a infundir esperança nos homens
e mulheres de hoje que se debatem em meio a grandes incertezas.

2.3 Catequese e cultura digital


Uma das inquietudes que mais fortemente vieram à tona no recente Sínodo dos Bispos sobre
Os jovens, a fé e o discernimento vocacional foi a questão de como evangelizar a cultura digital na
qual estamos imersos atualmente. No cotidiano dos jovens, a presença das redes digitais e sociais
é incisiva e, por conseguinte, o impacto das mesmas não pode ser subestimado, uma vez que elas
constituem uma parte significativa da identidade e do estilo de vida da juventude. Elas constituem
um mundo onde informações, ideais, preocupações, interesses comuns são intercambiados; entre-
tanto, são, ao mesmo tempo, um campo demasiadamente ambíguo, no qual os jovens isolam-se,
encerram-se em relações quase exclusivamente virtuais. Trata-se de uma cultura na qual os jovens
podem ser facilmente manipulados e bombardeados por correntes ideológicas, que os aglutinam
e semeiam entre eles ideias que, em muitos casos, são contrárias aos valores do Evangelho. A
quantidade de informações que eles continuamente recebem através das redes é tão grande que
a verdade fica relativizada e dá-se, então, maior valor ao efêmero, ao passageiro. A Internet ofe-
rece uma vastidão de conhecimento, mas não ensina valores, pois a atenção se concentra sobre
o tangível, sobre o útil e imediatamente tangível. Na verdade, é necessário aprender a usar a web
sem deixar-se usar por ela.

21
Moog F., “Aux sources de la Nouvelle évangelisation”, in: La catéchèse au service de la Nouvelle évangelisation, Actes du
VIe Colloque International de l’ISPC (Paris, 5 a 8 de março 2013), 31.
22
Ratzinger J., A nova evangelização, Conferência no Congresso de Catequistas e Professores de Ensino Religioso, Roma,
10 de dezembro de 2000, in: L’Osservatore Romano, 19 de janeiro de 2001.

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Essa cultura digital, que dispõe de sua própria linguagem, é bastante desconhecida pelo mundo
adulto, seja em virtude de ignorância ou pouca formação a respeito, seja pela consequente não tomada
em consideração da mesma quando se trata de pensar na evangelização, já que, até certo ponto, tal
cultura é temida e vista como um “inimigo invisível e onipresente”23.
São João Paulo II já havia prestado atenção a esse fenômeno e, por causa dele, dizia que a Igreja
também teve que ultrapassar muitos confins culturais, cada um dos quais exigiu novas energias e
imaginação na proclamação do único Evangelho de Jesus Cristo. E, da mesma maneira, em nossos
dias, a Internet constitui um novo “foro”, outro caminho decisivo em complementariedade com outras
vias já existentes: trata-se de um meio, não de um fim em si mesmo, que pode oferecer magníficas
oportunidades para a evangelização. Diante desse fenômeno, o Papa se perguntava: “Como é que a
Igreja pode estabelecer, a partir do contato propiciado pela Internet, uma comunicação mais profunda,
aquela exigida pela proclamação do Evangelho? 24
Em vista de tais preocupações, Bento XVI alertava que as redes devem superar toda tentação
de manipular o ser humano para pôr-se verdadeiramente a serviço da formação e da construção de
um mundo mais justo e solidário25 e, igualmente, da promoção de uma cultura de respeito, diálogo e
amizade. Sobre este último aspecto, dizia que a dedicação às amizades on-line não pode, de modo
algum, subtrair o tempo e a disponibilidade necessários para propiciar o encontro pessoal e direto
com a família, os vizinhos, os companheiros de trabalho e de estudo26. Para responder, então, à ne-
cessidade de evangelizar essa cultura, o Papa apontava que era preciso compreendê-la, conhecer os
medos e as esperanças, as ilusões e os fracassos dos jovens de hoje, para, a partir daí, como fizeram
os primeiros cristãos com a cultura greco-romana, compartilhar a Boa-Nova que nos trouxe o Senhor.
A presença dos discípulos missionários na Internet deve ser uma presença evangelizadora, cheia de
criatividade, de proximidade, capaz de expressar a visão de mundo que lhes é própria, suas esperanças
e seus ideais, dando um testemunho coerente da própria fé tal que conduza, no fim das contas, a um
conhecimento do Evangelho e à vivência real e física de uma participação ativa na comunidade cristã.
Estamos, pois, diante da urgente tarefa de renovar a catequese para responder a essas inquietudes
que não nos podem deixar na indiferença. Esse é um dos grandes campos aos quais se deve dirigir
uma conversão pastoral que responda a uma Igreja em saída.

3. FORMAR DISCÍPULOS MISSIONÁRIOS ATRAVÉS DE UM PROCESSO CATECUMENAL

Quando o Papa Bento XVI convocou a Igreja para realizar o Ano da Fé, ele fez uma observação
que deve ser levada em conta: “Enquanto, no passado, era possível reconhecer um tecido cultural

23
Cf. Sínodo dos Bispos, XV Assembleia Geral Ordinária: Os jovens, a fé e o discernimento vocacional. Instrumentum
Laboris, n. 34-35.
24
São João Paulo II, XXXVI Dia Mundial das Comunicações Sociais (2002): Internet: um novo foro para a proclamação do
Evangelho, n. 1-6.
25
Cf. Bento XVI, XLII Dia Mundial das Comunicações Sociais (2008): Os meios de comunicação social: na encruzilhada
entre protagonismo e serviço. Buscar a verdade para partilhá-la, n. 2.
26
Cf. Bento XVI, XLIII Dia Mundial das Comunicações Sociais (2009): Novas tecnologias, novas relações. Promover uma
cultura de respeito, de diálogo, de amizade.

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unitário, amplamente compartilhado no seu apelo aos conteúdos da fé e aos valores por ela inspirados,
hoje parece que já não é assim em grandes setores da sociedade devido a uma profunda crise de fé
que atingiu muitas pessoas”27. O mesmo está acontecendo na América Latina, um continente cada
vez mais multicultural e multirreligioso, onde convergem distintas fases de imigração e que recebe
o permanente influxo das tecnologias digitais do imprevisível mundo das redes que colocam em
comunicação e intercâmbio contínuo as culturas de todos os povos. Daí, portanto, não ser possível
pensar o perfil de um modelo único e uniforme de catequese. É necessário aceitar o desafio de tentar
inculturar o Evangelho, tentando responder com grande abertura e disponibilidade às inquietudes,
valores e problemáticas das várias culturas que se encontram em cada território e, ao mesmo tempo,
saber assegurar a imutabilidade interna da mensagem cristã.
O desafio para a catequese é enorme e exige que se faça um esforço sério de renovação. Esta
renovação, com a ajuda de alguns catequistas latino-americanos que trabalham nas Conferências
Episcopais e no CELAM, já está sendo gerada e já produz linhas indicativas de ação e de itinerários
de iniciação cristã capazes de romper com os velhos moldes estáticos e rígidos, normalmente de es-
tilo escolástico, mais focados na aquisição de conhecimentos, e não tanto numa verdadeira iniciação
e acompanhamento permanente para permitir o crescimento e amadurecimento da vida de fé, que
conduza e fortaleça o alegre encontro com o Senhor ressuscitado. A Conferência Geral celebrada
em Aparecida foi, nesse campo, muito esclarecedora ao apontar a necessidade de formar discípulos
missionários, ou seja, cristãos que, a partir de seu encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo,
alcancem uma conversão sincera, vivam o discipulado alimentando-se da Palavra de Deus, e reco-
nheçam a Cristo como o Mestre que os conduz e acompanha. Discípulos que, integrados de forma
fraterna na comunidade, anunciem com alegria a Jesus Cristo, morto e ressuscitado, e tornem visível
o amor deste mesmo Cristo, no serviço dos mais necessitados28.
Estamos diante de um desafio muito grande, pois, apesar dos esforços empreendidos, ainda
há, sem dúvida, resistências para implementar processos e itinerários catequéticos pensados
para iniciação cristã que não sejam somente preparação para os primeiros sacramentos, mas um
processo permanente de formação e suporte para a vida de fé. Tudo isso implica na necessidade
de seguir as orientações que o Magistério da Igreja vem indicando ao convidar insistentemente
a que se dê forças ao anúncio querigmático, retomado pelo Papa Francisco com grande vigor na
Evangelii gaudium, na qual se mostra claro o papel muito importante do querigma na catequese.
Frente ao perigo de que alguns cheguem a considerar que este primeiro anúncio possa ser algo
passageiro e superficial, diz o Papa:
Não se deve pensar que, na catequese, o querigma é deixado de lado em favor duma for-
mação supostamente mais “sólida”. Nada há de mais sólido, mais profundo, mais seguro,
mais consistente e mais sábio que esse anúncio. Toda a formação cristã é, primariamente,
o aprofundamento do querigma que se vai, cada vez mais e melhor, fazendo carne, que
nunca deixa de iluminar a tarefa catequética, e permite compreender adequadamente o
sentido de qualquer tema que se desenvolve na catequese. É o anúncio que dá resposta
ao anseio de infinito que existe em todo o coração humano29

27
Bento XVI, Exortação apostólica Porta fidei, 2.
28
Cf. Documento de Aparecida, 278.
29
Evangelii gaudium, 165.

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Esta abordagem querigmática exige uma séria formação catecumenal, chamada a “inspirar nos
seus objetivos e no seu dinamismo a outras formas de catequese”30 O Diretório Geral para a Catequese
insiste nisso e afirma que a “missão ad gentes” é a responsabilidade mais especificamente missionária
que Jesus confiou à sua Igreja e, uma vez que “é o paradigma de toda a missão evangelizadora da
Igreja, o catecumenato batismal, que lhe é inerente, é o modelo inspirador da sua ação catequizadora.
Por isso, é oportuno sublinhar os elementos do Catecumenato que devem inspirar a catequese atual
e o significado metodológico dos mesmos”31.
No encontro dos catequistas da América Latina, já mencionado, refletindo sobre a transformação
missionária da Igreja, ressaltava-se que, tendo vivido tanto tempo no regime de cristandade, acabamos
por ignorar a pedagogia do nascimento da fé, esquecendo o que é próprio e mais característico do
catecumenato: “estar a serviço dos recém-chegados à fé, os que estão no ponto de partida, começam
ou recomeçam. Ou seja, prestar um serviço de acolhida comunitária aos que, em resposta ao primeiro
anúncio, manifestam o desejo de se tornar discípulos de Jesus”32. Nesta linha, explicitava-se o que haviam
sugerido os bispos em Aparecida em relação à importância da forma catecumenal na iniciação cristã:
Aparecida, ao solicitar que, na América Latina, se torne comum o modelo catecumenal
para iniciar na fé, pede para considerar o quê, o como, o para quê, o porquê e o com
quem como perguntas de base que permitam estruturar de modo pertinente a proposta.
Apegados a formas costumeiras de fazer, continuamos ainda estruturando propostas
em que só se considera o quê, ou deixando de lado outras perguntas, ou tratando-as de
modo marginal. Ao enfatizar, ainda, o aspecto nocional e de cursos nas formas catecu-
menais de hoje, esquecemos que a finalidade do catecumenato não é apenas “aprender
a respeito ou sobre o cristianismo”, mas é “aprender a ser cristãos”. Por isso, afirma-se
que a pedagogia da iniciação é uma verdadeira e autêntica mistagogia, porque o que
está em questão é dar a mão ao outro para adentrar numa experiência33
Como nos primeiros tempos do cristianismo, esse processo não pode ser algo isolado e solitário.
Toda a comunidade deve estar envolvida para acolher, acompanhar e incentivar quem se encontra
na busca pelo encontro com Jesus. Certamente, quem, seguindo um itinerário catecumenal de nova
evangelização, está redescobrindo a Cristo em sua vida precisa ser apoiado em sua fé pelo testemunho
vivo dos membros da sua comunidade paroquial, uma comunidade em que cada um se esforça para
viver com alegria a vida da graça que lhe foi dada no batismo. Assim, pois, o testemunho do amor
constitui a primeira coisa que cada catequista e cada membro da comunidade cristã é chamado a
oferecer: a vivência do novo mandamento que nos deixou o Senhor (cf. Jo 13, 34).

CONCLUSÃO

Indubitavelmente, toda a Igreja está tratando de pôr em marcha a nova evangelização, o que implica
na necessidade de formar muitos agentes pastorais para responder às exigências de uma evangelização

30
Diretório Geral para a Catequese, 59.
31
Diretório Geral para a Catequese, 90.
32
Jiménez R. Manuel José, “Iniciación cristiana y tranformación misionera de la Iglesia” p. 11. Conferência realizada no
Encontro de SCALA: Iniciación cristiana, cambio de época, familia y comunidad cristiana” (maio de 2015).
33
Ibid, 12-13.

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capaz de infundir entusiasmo e esperança a tantas pessoas que se distanciaram da Igreja e que sentem,
não obstante, uma profunda sede de Deus. Daí surge a exigência de repensar aquilo que a catequese tem
sido até o momento atual e a audácia para uma verdadeira conversão pastoral. É necessário redefinirmos
questões como: o que é que a catequese busca como tal; como implantar um processo querigmático
de evangelização; como realizar os itinerários de um verdadeiro catecumenato; como promover uma
catequese que chegue com impulso evangelizador ao mundo digital. Tratam-se de interrogações que
exigem uma profunda revisão, mas que, todavia, permanecerão ineficazes se ficarem apenas reduzidas
às definições de como fazê-lo, como se fossem simples estratégias de transmissão.
A inspiração catecumenal que deve impregnar a catequese nos dias de hoje não diz respeito unica-
mente a ela, mas, no fim das contas, propõe uma séria interrogação para toda a ação pastoral e, em última
instância, convida a própria Igreja a redefinir seu rosto e seu estilo de presença no mundo, a assumir
uma consciência clara de que a fé não é mais pressuposta como algo adquirido e que ela não deve ser
simplesmente mantida, mas deve ser proposta e suscitada. O Papa Francisco resume a identidade da
Igreja nesta época de transição com a expressão “Igreja em saída”34. Nesta, a catequese tem a função
de formar para a missão, de impulsionar a ativação de uma “pastoral em chave missionária”35, suscitando
e fortalecendo a paixão evangelizadora na comunidade cristã e em todos os batizados.
Por muitas razões, já mencionadas, fica evidente que o catecumenato é uma escola de encultu-
ração, chamada para tratar da complexidade das muitas variáveis culturais e existenciais que podem
ser encontradas. Tal complexidade poderia causar desalento, quando comparada com outros tempos,
em que tudo parecia mais claro. Todavia, ela indica a própria complexidade da vida cristã e quem
realmente deseja caminhar em uma “iniciação à vida cristã” não pode deixar de confrontar-se com ela.
Para processos de iniciação são necessários catequistas muito bem formados em tal âmbito: cate-
quistas que entendam os itinerários formativos e as metodologias próprias da iniciação à vida cristã e
que tenham uma mente com a abertura necessária para conhecer e acompanhar a pessoa concreta na
sua descoberta de Cristo na própria vida; catequistas que sejam verdadeiras testemunhas, que vivam
sua fé autenticamente e, assim, tornem-na digna de credibilidade num mundo cada vez mais hostil;
catequistas que sejam verdadeiros discípulos missionários, capazes de contagiar com sua alegria e
sua profunda convicção de fé aqueles que o Senhor coloca em seu caminho.
Pois bem, se desejamos uma renovação na catequese, devemos reconhecer que se trata de uma
tarefa eclesial que existe desde o início da Igreja, quando se começou a sentir a necessidade de um
ensino sistemático dos conteúdos da fé que se apoiasse na experiência viva dos Apóstolos e no seu
alegre encontro com o Ressuscitado. A catequese constitui, portanto, uma responsabilidade inerente
à missão da Igreja, direcionada a dar suporte e a animar permanentemente a adesão a Jesus Cristo.
Daí decorre a grande importância do papel do catequista, do seu ser e do seu agir. Com efeito, trata-se
de uma vocação; ou seja, de uma chamada do Senhor para cumprir uma valiosa tarefa eclesial. O
Papa Francisco nos recorda que “ser catequista” é uma “vocação”, portanto, não basta trabalhar como
catequista, mas é necessário ser catequista, o que “significa dar testemunho da fé; ser coerente na
própria vida36. São João Paulo II, em diversas ocasiões, reconheceu o lugar privilegiado que ocupam os

34
Cf. Evangelii gaudium, 24.
35
Cf. Evangelii gaudium, 33-35.
36
Papa Francisco, Discurso aos participantes do I Congresso Internacional de Catequese, Vaticano, 27 de setembro de 2013.

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catequistas entre os agentes especializados de pastoral. Ele considerava que, “entre os leigos que se
tornam evangelizadores”, eles se encontram em primeiro lugar e que seu ministério não só é necessá-
rio, como também tem características peculiares, enquanto “são agente especializados, testemunhas
diretas, evangelizadores insubstituíveis, que representam a força basilar das comunidades cristãs” 37.
Entretanto, essa tarefa compete, em primeiro lugar, aos bispos, enquanto “cada qual na sua diocese
e juntos como colégio, em comunhão com o Sucessor de Pedro, têm a máxima responsabilidade pela
catequese na Igreja”38. Todavia, a mesma responsabilidade recai sobre os párocos, os quais precisam
animar, acompanhar e dar exemplo nas suas comunidades.
Recordemos que, desde os primórdios da Igreja, a transmissão da fé encontrou um lugar natural
na família, na qual os sinais da fé e a comunicação das principais verdades conduziram, de geração a
geração, ao crescimento da comunidade eclesial. Atualmente, contudo, precisamos nos esforçar para
que ela recupere a sua vocação de ser a primeira evangelizadora dos filhos através do testemunho, da
alegre participação na eucaristia, da oração quotidiana, da leitura e reflexão da Palavra de Deus e do
ensinamento dos princípios básicos da fé. É à família que corresponde, em primeiro lugar, realizar o
anúncio querigmático, de modo tal que as crianças e os jovens sejam iniciados no caminho da fé e do
compromisso do amor cristão. Isso requer, então, que pensemos em bons e adequados processos de
formação para os adultos, a fim de capacitá-los para tal tarefa. Não se trata de uma instrução acerca
de conteúdos, a qual, entretanto, é também importante e pode ser, em muitos casos, absolutamente
necessária; todavia, referimo-nos melhor e de maneira prioritária a um acompanhamento e a um impulso
para a vivência de sua fé, de seu exemplo de vida, de sua inserção na comunidade e da tomada de
consciência sobre a importância que possui essa transmissão vivencial da fé.
A contribuição da catequese para a atividade evangelizadora da Igreja vai se tornar realidade à
medida que todos os agentes pastorais e, em especial, os catequistas permitirem que se irradie a
força e a luz que o Espírito Santo infunde para o cumprimento da missão que o Senhor lhes confiou.
Nunca podemos nos esquecer de que estamos cumprindo uma tarefa eclesial, cujo principal agente é
o Espírito Divino. É a sua força e o seu alento que possibilitarão que o testemunho dos pastores e dos
catequistas suscite em todos os membros do povo fiel um maior entusiasmo para viver, com grande
alegria, a sua vocação a ser discípulos missionários.
Para concluir, lembremo-nos do que nos diz o Papa Francisco: “Para manter vivo o ardor missionário,
é necessária uma decidida confiança no Espírito Santo, porque Ele ‘vem em auxílio da nossa fraqueza’
(Rm 8, 26). Mas esta confiança generosa tem de ser alimentada e, para isso, precisamos de invocá-lo
constantemente. Ele pode curar-nos de tudo o que nos faz esmorecer no compromisso missionário”.39

37
São João Paulo II, Encíclica Redemptoris missio, 73.
38
Diretório Geral para a Catequese, 136.
39
Evangelii gaudium, 280.

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CRÔNICA DA IV SEMANA BRASILEIRA DE CATEQUESE


ITAICI-SP – 14 A 18 DE NOVEMBRO DE 2018
Marlene Maria Silva e Lucimara Trevisan

DIA 14 DE NOVEMBRO

A 4ª Semana Brasileira de Catequese (SBC) teve início às 20h, no mosteiro de Itaici-Indaiatuba-SP.


Ir. Maria Aparecida Barbosa e Victor Hugo Paiva, apresentadores da SBC, acolheram os participantes
e convidaram para compor a mesa: Dom Leonardo Steiner, bispo auxiliar de Brasília e secretário geral
da CNBB; Dom José Antônio Peruzzo, arcebispo de Curitiba e presidente da Comissão Episcopal
Pastoral para Animação Bíblico-Catequética da CNBB; Dom Otávio Ruiz Arenas, secretário do Pontifício
Conselho para a Promoção da Nova Evangelização da Santa Sé; Dom Geremias Steiner, membro
da Comissão Episcopal Pastoral de Liturgia; Pe. Antonio Marcos Depizolli, assessor da Comissão
Episcopal Pastoral para Animação Bíblico-Catequética; Ir. Israel José Nery, presidente da Sociedade
Brasileira de Catequetas e representante da SCALA (Sociedade dos Catequétas da América Latina;
Pe. Thiago Faccini, representando os assessores da Comissão Nacional de Liturgia; Lucimara Trevizan,
leiga da Arquidiocese de BH, representando os coordenadores regionais da catequese; Marlene Maria
Silva, leiga da Arquidiocese de Pouso Alegre, coordenadora da Revista Ecoando, representando os
homenageados da catequese no Brasil.
A memória das Semanas Brasileiras de Catequese foi feita, em seguida, por Lucimara Trevizan.
Em seguida, Dom Leonardo acolheu os participantes em nome da presidência da CNBB e destacou
a importância do tema da Iniciação à Vida Cristã para a Igreja no Brasil.
Dom Otávio ressaltou que essa Semana Brasileira de Catequese representa um sinal concreto do
empenho para a nova evangelização. Lembrou também do Congresso Internacional de Catequese,
que foi realizado no final de setembro, em Roma, e da importante participação dos representantes
da catequese do Brasil. Destacou a importância da inspiração catecumenal para a catequese hoje.
Dom José Antônio Peruzzo valorizou a missão do catequista, destacou a importância do tema, e
declarou aberta a 4ª SBC e presidiu a celebração inicial.
Pe. Antonio Marcos Depizolli fez os encaminhamentos práticos da SBC, comentando também a
programação e encerrou, em seguida, os trabalhos.

DIA 15 DE NOVEMBRO

A Celebração Eucarística, presidida por Dom Mário Antônio Silva, arcebispo de Boa Vista-RR, às
7h, abriu os trabalhos do primeiro dia da SBC. Às 9h, Ir. Maria Aparecida e Victor Paiva acolheram
os participantes e convidaram, para proferir a primeira conferência, o professor Edward Guimarães,

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da PUC-Minas, com o tema “Anunciar-testemunhar Jesus Cristo num mundo plural: novos
interlocutores”.
Alguns temas abordados no conteúdo apresentado:
 Características do mundo em mudança
 Os novos interlocutores
 Repensar a fé num mundo plural
O professor Edward ressaltou que ser cristão deixou de ser um desafio diário de conversão e que
a vida cristã não tem provocado mudança no agir das pessoas. A conversão deixou de ser critério de
inserção na comunidade que não exige um itinerário de fé. As mudanças do mundo atual exigem que
se mude o jeito de acolher e viver a fé cristã.
O cristianismo não tem evangelizado, está morno. Há a necessidade de se superar ritos e de
provocar a intimidade com Deus, uma vida nova de fraternidade e justiça, de cultivar a fé de Jesus e
não simplesmente a fé em Jesus. A vida digna é o culto maior a Deus. Deus é amar e não só amor.
Os interlocutores de hoje são pessoas transformadas pela cultura secularizada; pela experiência
de novas tecnologias; pertencentes a outras religiões e outras Igrejas; avessas à religião; carentes de
afeto e reconhecimento; cientes da sua liberdade e igual dignidade; excluídas da mesa da cidadania
e da dignidade humana.
Como anunciar Jesus neste mundo plural? É necessário superar o combate às demais tradições
religiosas, a pretensão de desbancar outras Igrejas cristãs, o desconhecimento dos sem religião e
sem fé em Deus, a apologética e o proselitismo, o sentido antigo de evangelizar. É preciso evangelizar
fazendo ver, porque o seguimento precisa entrar pelos olhos e penetrar o coração. Viver o cristianismo
exercitando o diálogo, o sentido coletivo e humanitário, assumindo o compromisso ético em defesa da
vida, catequizar com leveza, alegria e com coragem profética.
Após o café, às 11h, Ir. Vera Bombonatto apresentou a 2ª conferência sobre “Seguimento de
Jesus e sentido da vida”. Começou questionando o que significa seguir Jesus, hoje, na socie-
dade pós-moderna e na cultura digital. Destacou, entre outras coisas, que o evento fundante do
cristianismo é a relação profunda e pessoal com Jesus e seu projeto. A finalidade do seguimento
é assemelhar-se a Jesus. Ter o estilo de Jesus é o mais importante. O ser cristão começa com um
encontro que dá sentido à vida. A história da salvação é uma história de seguimento. Na catequese
à serviço da Iniciação à Vida Cristã (IVC) o discipulado é o fio condutor que culmina na maturidade
do discípulo missionário.
Ir. Vera concluiu sua fala apresentando o vídeo com a mensagem do Papa Francisco, no Congres-
so Internacional de Catequese, em Roma, em 2013. Este vídeo ressalta a necessidade de viver sob
o olhar de Jesus e o “ir”, sair ao encontro do irmão. O catequista não é um mero funcionário. “Ser”
catequista é o mais importante.
Em seguida, houve um tempo de interação dos participantes com os assessores, que responderam
algumas perguntas.
Após o almoço, durante toda a parte da tarde, foram realizadas 20 oficinas, a saber:
1. Palavra de Deus, fonte da Iniciação à Vida Cristã – Frei Ildo Perondi
2. Leitura orante na Iniciação à Vida Cristã – Dom Carlo Verzeletti

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3. A dimensão celebrativa da Iniciação à Vida Cristã, segundo o RICA – Pe. Vanildo de Paiva
4. O Catecismo da Igreja Católica e Iniciação à Vida Cristã – Pe. Luiz Alves de Lima
5. Iniciação à Vida Cristã numa Igreja missionária (Igreja em saída) – Dom Mário Antônio da Silva
6. Comunidade fonte, lugar e meta da Iniciação à Vida Cristã – Ir. Israel José Nery
7. Catequese à serviço da Iniciação à Vida Cristã – Pe. Abimar Oliveira de Morais
8. Iniciação à Vida Cristã e experiência de Deus – Dom Armando Bucciol
9. Unidade dos sacramentos da Iniciação à Vida Cristã – Dom Geremias Steimntz
10. Formação iniciática de catequistas – Débora Regina Pupo de Lima
11. Metodologia dos processos iniciáticos – Pe. Márcio Martins Rosa
12. Iniciação à Vida Cristã e compromisso ético – Laudelino Augusto dos Santos Azevedo
13. Catequese e a via da beleza – A vida da beleza como transmissora da fé – Pe. Jordélio
Siles Ledo
14. Itinerários iniciáticos crianças, adolescentes, jovens e adultos – Pe. Eduardo Antônio
Calandro
15. Itinerários iniciáticos com pais e padrinhos (catequese batismal) – Maria Erivan Ferreira da Silva
16. Itinerários iniciáticos com noivos – Pe. Paulo Cesar Gil
17. Experiências de iniciação com povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos – Rose Medeiros
18. Iniciação à vida cristã e situações de diversidade (inclusão) – Pe. Marcelo Luiz Machado
19. Bibliodrama na catequese – Loredana Vigini
20. Catequese e redes sociais (era digital, redes midiáticas) – Carla Regina de Miranda
Os participantes escolheram previamente as oficinas do seu interesse.
À noite, às 20h30, foi realizada uma homenagem ao Pe. Zezinho-scj, grande catequista do Brasil,
que através de suas músicas e livros evangelizou a muitos.
Pe. Joãozinho contou que Pe. Zezinho leu atentamente o Diretório Geral para a Catequese e o
rabiscou inteiro, nele se inspirou e fez canções. Convidou o grupo a cantar a música “Meu Catecismo”
e “Que direi?”. Em seguida, Pe. Zezinho agradeceu a homenagem, falou um pouco de sua história
como catequista, destacou a importância do papel da catequese em repercutir a Palavra de Deus e
estar em diálogo com o mundo. Ir. Israel Nery entregou ao Pe. Zezinho uma placa de homenagem.
Os participantes da 4ª SBC aplaudiram de pé este grande catequista mistagogo que é Pe. Zezinho.

16 DE NOVEMBRO DE 2018

O dia teve início com a Celebração Eucarística, às 7h, presidida por Dom Armando Bucciol, bispo
da diocese de Livramento de Nossa Senhora-BA. Após o café, no auditório, Ir. Maria Aparecida deu a
palavra a Dom Leomar Antônio Brustolin, bispo auxiliar de Porto Alegre-RS, para a primeira conferência
do dia sobre “O Querigma e a transmissão da fé no contexto atual”.
Alguns destaques do conteúdo apresentado:
• Em cada nova etapa da história, a Igreja, impulsionada pelo desejo de evangelizar, não tem senão
uma preocupação: quem enviar para anunciar o mistério de Jesus? Em que linguagem anunciar? Como
conseguir chegar a todos? (cf. EN 22).

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VIVÊNCIAS
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• Desafios do contexto:
- Olhar do discípulo missionário (cf. EG 50).
- Dialogar com essa realidade que Deus deseja salvar, para que todos tenham vida e vida em
abundância.
• Características deste tempo:
- Geração 4.0 – inteligência artificial (digital, físico, biológico).
- Sociedade do cansaço.
- Crise de alteridade e estranheza.
- Pluralismo cultural e religioso.
- Cresce uma espiritualidade sem compromisso com a vida.
- Culto sem envolvimento com a ética.
- Religiosidade que coloca a pessoa no centro das relações com o sagrado.
• E a Fé?
- Sucede não poucas vezes que os cristãos sintam maior preocupação com as consequências
sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé, considerando esta como um pressuposto
óbvio da sua vida diária. Ora, um tal pressuposto não só deixou de existir, mas frequentemente acaba
até negado (cf. PF 2).
- O teste de autenticidade da IVC é o testemunho.
• Entre nós....
- Também cresce o espírito do fazer, organizar e planejar, mais do que o de ser cristão, testemunhar
a fé, viver a gratuidade, a esperança e a dor de quem segue Jesus.
- Somos tentados a fazer mais do que ser.
• Crer de forma integral
- A fé envolve todo o ser do crente: vontade, sentimento e pensamento.
- Não pode ser mero sentimentalismo ou mera explicação racional.
- A fé cristã não aceita fanatismos, nem fundamentalismos.
- Ser cristão exige seguimento de Jesus Cristo.
- Estamos formando discípulos ou adeptos?
O Instrumentum Laboris do Sínodo de 2012 alertava: muitas comunidades cristãs não perceberam
plenamente o alcance do desafio e a natureza da crise gerada por este ambiente cultural também no
interior da Igreja.
• Chances para o querigma
- Não está acabando o cristianismo.
- A cultura atual não transmite a fé, mas liberdade religiosa.
- Os cristãos de amanhã sentirão a fé como elemento especial da Graça que favorecerá seu
desenvolvi mento humano.
- Os cristãos viverão a fé em meio a pessoas que pensam e vivem de modo diferente deles.
- Anunciarão mais pelo testemunho do que pelas palavras. É um cristianismo com mais qualidade
de seguimento...

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ARTIGOS
VIVÊNCIAS
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- Toda IVC sem renovação da comunidade não funciona. Não adianta. Não adianta mudar os
iniciados e colocar numa comunidade não iniciada...
• O Encontro com Cristo
- Relação de proximidade, encontro e diálogo.
- Acolher o chamado de Jesus: vinde e vede.
- Jesus – presença do Eterno no meio do tempo que passa.
- Em sua vida, paixão, morte e ressurreição, encontramos o sentido da existência.
- Sua boa-nova é o amor que torna amável a vida.
• “No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com
um acontecimento, com uma pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo”
(Deus caritas est, 1).
O encontro com o Cristo não é abstrato ou teórico, nem afasta do irmão mais pobre. A comunidade
dos seguidores de Jesus é missionária.
• Quem crê anuncia
- Ser discípulo é ser missionário.
- Anunciar é afirmar, gritar, comunicar. É transmitir a fé com toda a vida. Anunciar com toda alegria.
- Não se anuncia uma mensagem fria ou apenas um corpo doutrinal.
• ...E a comunidade?
- O anúncio da fé é sempre uma atitude comunitária.
- O encontro pessoal não está separado do encontro com aqueles que percorrem o mesmo caminho
- Há uma relação entre o eu e o tu, entre a pessoa e Deus, que se relaciona com o nós.
- A fé exige que o eu se encontre no nós. A primeira catequista é a comunidade.
• Propor e repropor o Querigma
- De forma continuada e permanente.
- O primeiro anúncio não implica que este se situe apenas no início.
- “É o primeiro em sentido qualitativo, porque é anúncio principal, aquele que sempre se tem de
voltar a ouvir de diferentes maneiras e aquele que sempre se tem de voltar a anunciar(...) em todas
as suas etapas e momentos” (EG 163).
• Conversão
- É preciso arrepender-se de um estilo de pastoral de manutenção para assumir nova postura
missionária.
- Superar um estilo de vida que não pode ser tido como “cristão”.
- Há batizados e até agentes de pastoral que não fizeram o encontro com Jesus que muda a vida.
• Desafios
- Passar de uma religião de herança social para uma religião de opção pessoal.
- De uma sociedade unificada pela fé católica para uma sociedade constituída na liberdade demo-
crática e no pluralismo de ideologias.
- De uma Igreja de massa a uma Igreja diferenciada e articulada em pequenas comunidades de
discípulos missionários.

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VIVÊNCIAS
ARTIGOS
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• O que é querigma?
- Para definir, evitar tanto uma concepção muito ampla quanto uma noção reduzida.
- Ampla – afirmar que a pregação do evangelho já é um primeiro anúncio e que tudo é anúncio,
significa que nada é anúncio.
- Reduzida – se limita a uma pregação calorosa.
• O querigma é anúncio
- Convite para dar os primeiros passos na fé.
- Implica na pessoa que testemunha uma atitude espiritual de esvaziamento.
- Ela não tem o poder de transmitir a fé e de converter.
- Há o imprevisto, o inesperado, o risco da liberdade.
- Tudo é graça de Deus.
- A difusão da fé é obra do Espírito Santo.
O querigma vem de onde não esperamos. É obra do Espírito.
• O destinatário
- É também um interlocutor que se escuta.
- Que se vai aprendendo a conhecer.
- Que tem direito à palavra.
- Com quem se estabelece uma relação de amizade.
- Em meio ao pluralismo e relativismo do nosso tempo, é intolerável que tenha bom efeito um
anúncio imposto e fechado, sem diálogo.
• Quem realiza o querigma
- Quem fez o encontro com o Senhor.
- Se sente discípulo.
- Não o faz de forma isolada, mas em nome da Igreja.
- As comunidades cristãs anunciam pelo seu estilo de vida, seu espírito, suas assembleias, suas
celebrações, seus projetos e compromissos com os pobres.
• Pontos fundamentais do querigma:
a) A revelação do amor de Deus que tudo criou por amor.
b) O pecado humano que impede a pessoa de responder a esse amor.
c) Jesus Cristo é a revelação do rosto amoroso de Deus que nos salva da morte e permite ao ser
humano acolher e responder ao amor de Deus.
d) A resposta humana a esse amor é crer e mudar de vida, conversão.
e) Quem garante essa experiência atualizada do amor de Deus é o Espírito Santo.
f) Ao acolher o amor de Deus a pessoa encontra irmãos e irmãs para caminhar nesta estrada, é
a comunidade eclesial – a Igreja.
• O querigma numa Igreja em saída
- Ir às periferias, sair ao encontro das diferentes periferias.
- Há muitos batizados que não vivem as exigências de seu batismo, perderam o senso de perten-
cimento à Igreja e já não sentem a consolação da fé.
- Buscar os socialmente excluídos e os moralmente perdidos, como Jesus fez.

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• Querigma e sociedade: Querigma implica compromisso social. Resgatar a Doutrina Social da


Igreja e a opção preferencial pelos pobres.
• Indicações finais
- Apresentar a boa-nova de forma alegre e propositiva (Evangelho da alegria).
- Ir ao encontro do outro já. É missão.
- Procurar manter uma maior proximidade com as pessoas. Pedagogia da presença.
- Propor o diálogo que estabelece uma verdadeira pedagogia da escuta.
- Anunciar Jesus Cristo em linguagem acessível e atual.
- Uma conversão pastoral que supere uma pastoral de manutenção
“Conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o
melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria”
(DAp 29)
Após o intervalo do café, Pe. Thiago Faccini Paro, proferiu a segunda conferência da manhã
com o tema “Celebrar e iniciar ao mistério: a Liturgia”.
Alguns destaques do conteúdo apresentado:
 Iniciação... A necessidade da Iniciação na compreensão da vivência da Liturgia.
 O que nos dá identidade são também sinais e símbolos. E só pode perceber os significados
deles quem foi iniciado.
 A iniciação é um conjunto de ritos, de ensinamentos orais que provocam uma transformação
no estatuto religioso e social do iniciando. A iniciação realiza uma segregação, separação, um tempo
de processo iniciático e a incorporação na identidade do grupo/comunidade e mudança de identidade.
Entra-se de um jeito e se sai de uma maneira nova.
 Eis o mistério da fé! Fazei isto em memória de mim – É o mistério da ressurreição. Me-
morial. Fazer a experiência do tempo de Deus, um tempo que não nos limita. Através do rito da última
ceia, fazer experiência de passar a pé enxuto no mar...
O rito nos faz entrar em outra dimensão e celebrar a memória da libertação.
 Fazer isso em memória de mim – não é só recordar a última ceia, mas celebrar o
mistério de nossa libertação: paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor. O mistério de nossa
salvação.
 A comunicação simbólico-ritual:
- Compreender a linguagem própria da liturgia.
- Os gestos simbólicos se transformam em rito.
- Os livros litúrgicos são a partitura da liturgia, mas não são a liturgia.
- A liturgia ou rito têm um ritmo que acompanha o corpo humano.
 O que é um símbolo e como funciona? Símbolo é uma representação que faz aparecer
um sentido secreto, ele é a epifania (manifestação) de um mistério. São sinais sensíveis que nos
permitem entrar em contato com uma realidade que não está ao alcance dos sentidos, mas que
precisa da realidade sensível para se manifestar ao ser humano em busca do sentido da vida, em
busca do mistério.

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 Tocando os sinais sensíveis, tocamos os mistérios. Não existe liturgia sem ritualidade.
 O tempo da mistagogia e o método mistagógico.
Na Igreja primitiva a catequese feita pelos Padres especula as celebrações e a partir das celebra-
ções. Não estavam preocupados em dar explicações e formas sistemáticas.
Tempo para explicar o rito (vivenciavam o rito e depois explicavam).
 Vat. II restaura o catecumenato em etapas, o RICA.
 RICA é modelo inspirador que deve ser reconhecido e valorizado. O tempo e etapas são
para catecúmenos...
 Inspiração catecumenal – o segredo não é criar tempos e etapas, mas um itinerário...
 Catequese e Liturgia
- Inicia-se pela Liturgia, pela arte de celebrar.
- Espiritualidade litúrgica.
- Ano Litúrgico.
- Eucologia (uso das orações).
- Sinais sensíveis.
- Música litúrgica.
- Espaço Litúrgico.
- Arte Litúrgica.
Em seguida, abriu-se o debate com os dois conferencistas que fizeram algumas considerações:
- A liturgia é iniciática.
- Queremos resolver a iniciação sem o discipulado.
- Não seguir caminhos trilhados por outros que não fazem o que Jesus fez, como no caso de
pregadores midiáticos.
- A geração 4.0 é carente de sentido, do sentido da vida.
- A formação de discípulos concentra-se no coração do mistério pascal.
- Inspiração é ver a essência do que está no processo. Não é simplesmente repetir os tempos e
etapas do catecumenato; temos batizados na catequese. O itinerário ainda é sacramental e não tem
uma sequência. A finalidade é tornar discípulos. O itinerário precisa ajudar a fazer discípulos. É preciso
ter um único itinerário que gradativamente vai se encaminhando. O sacramento é parte do processo.
- Trocamos o nome para Iniciação à Vida Cristã, em tempos e etapas, mas não há um itinerário
único, cujo fim é formar discípulos.
- O processo catecumenal não é cópia do início do cristianismo. É preciso adaptar à realidade
atual.
Na parte da tarde, após o almoço, os participantes se reuniram para as 20 oficinas oferecidas.
Cada um escolheu uma oficina diferente da que fez no dia anterior (a lista das oficinas se encontra
no relatório do dia anterior).
Após o jantar, às 20h30, houve o lançamento de livros de catequese das editores Vozes, Paulinas,
Paulus, Ave Maria e Edições CNBB, seguido de um coquetel.

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17 DE NOVEMBRO

A Celebração Eucarística foi presidida por Dom Carlo Verzeletti, bispo de Castanhal-PA. Após o café,
às 9h, Dom José Peruzzo, arcebispo de Curitiba e presidente da Comissão Bíblico-Catequética da CNBB,
proferiu a conferência “Do encontro com Jesus ao encontro com o irmão: viver em comunidade”.
Alguns destaques do conteúdo apresentado:
• A forma nominal “seguimento” não se encontra nos evangelhos. Seus autores empregam o verbo
“seguir”.
• “Seguir Jesus” era uma realidade possível, cujo início dependia, fundamentalmente, de um en-
contro pessoal com ele, sem burocracias, sem pré-requisitos.
• O que se afigurava um encontro ocasional se tornou comunhão de vida e até participação plena
na mesma causa dele. Nestas linhas, além de dialogar com os evangelistas, tendo diante dos olhos
a suas palavras, é a Palavra de Deus que nos vai ensinar sobre o seguimento.
• No evangelho de Mc 1,16-20 o tema do seguimento está entre as primeiras palavras pronunciadas
por Jesus. Isto é já sinal de que estamos ante uma das questões mais caras aos evangelistas. Viu e
lhes pronunciou a palavra-convite. Aquele olhar e aquela palavra assinalaram um fim e um começo:
deixaram de ser pescadores de peixes. Começou o caminho dos pescadores de homens.
• Em Jo 1,35-39 – a resposta “Vinde e vede” (1,39) não propõe um endereço. Oferece-lhes sua
relação de convívio. Isso não se aprende por informação, nem por lição vinda de um mestre. É por
experiência, é mediante o encontro pessoal.
• Jesus, caminhando à beira do mar, viu... chamou... E eles, imediatamente deixaram... e o segui-
ram (Mc 1,16-18). Assim também com Levi: “Ele se levantou e seguiu-o” (Mc 2,14). Algo semelhante
aconteceu nos relatos de João. Apenas um exemplo: “Os dois discípulos ouviram esta declaração de
João e passaram a seguir Jesus” (Jo 1,37). Na realidade, os evangelistas querem estimular o leitor à
adesão a Jesus. Por isso aceleram o tempo da história. Mas houve um processo. Houve um caminho
começado. E continuado até com dificuldades.
• O evangelista tem sempre ante seus olhos o leitor. A ele quer aproximar a história e os passos
dos discípulos. Expõe seus caminhos, tropeços, e novos caminhos. Chegamos ao Lava-pés (cf. Jo
13,1-11). Impressionam o vs. 4-5. São vários verbos no presente: “Levanta-se... depõe o manto...
cinge-se... derrama água na bacia...pôs-se a lavar... a enxugar”. Na língua grega isso significa que
aqueles mesmos gestos e significados continuam a valer para o tempo do leitor. Pedro não entendera
todos aqueles ritos. Referiu-se a Jesus como “Senhor”, mas custava-lhe ver Jesus com avental, água,
toalha... Vê-lo como soberano não requer nova mentalidade. No seguimento Pedro seria interpelado
a colocar o avental..., fazer-se e lavar os pés dos irmãos (cf. Jo 13,13-17). É o caminho do discípulo.
• A fraternidade entre os seguidores de Jesus é uma verdade constitutiva do discipulado. Ou seja,
se esta faltar é como se não mais existisse seguimento.
• O mandamento novo “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos...” não tem alcance cronológico,
mas qualitativo. Por outro lado, o complemento “assim como eu vos amei” aponta para o fundamento

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que sustenta a missão de amar-se uns aos outros. Este decorre da experiência de amor que eles,
discípulos, terão tido com Jesus. É ele a causa do amor entre eles. A amizade com Jesus, por eles
experimentada, não é apenas comparação. É a realidade fundante.
• A Igreja no Brasil está a pedir a seus filhos que recomecemos a partir de Jesus Cristo. Nossa
vocação e missão apontam para o encontro com ele e com o irmão. Ou seja, para experiências co-
munitárias e eclesiais de seguimento.
• Do que não evangeliza já sabemos bastante. É hora da fé e da esperança no caminho da Iniciação
à Vida Cristã. Os evangelistas parecem ter percebido isso desde seus primeiros escritos. Pedem que
não nos atrasemos.
Após o intervalo, a palavra foi dada ao professor Moisés Sbardelotto para a conferência: “A cate-
quese na era digital: novas linguagens, novos processos de comunicação”.
Alguns destaques do conteúdo:
 Não está em questão o uso de tecnologias, o que está em jogo é uma cultura nova
que vai além do uso de tecnologias. A Igreja é convidada a repensar os seus processos de
comunicação.
 Não é uma questão de oferecer receitas para a catequese. Temos uma Igreja diversa, não
adianta dar receitas porque, a longo prazo, não servirão. Não iremos refletir sobre o uso de maquinário
técnico, o mais importante é entender as lógicas que movimentam isso. A cultura digital tem facetas
próprias em vários locais.
 Em 30 anos a transformação no mundo foi enorme. Também a Igreja mudou sua maneira
de fazer comunicação. Alguns dados importantes:
• 90% dos jovens têm smartphones nos EUA, 70% estão constantemente em mídias digitais.
• Geração Z – para o adolescente ter um celular é um evento (um marco) que muda a vida.
Muito interessante é o tempo gasto no celular: passam 3 horas a mais assistindo vídeos, depois
mensagens...
• Dados sobre o Brasil
- Dos 210 milhões de habitantes, metade usa internet.
- 130 milhões usam mídias sociais
- O tempo médio de uso da internet é de 9 horas de uso por dia.
- Uso específico em mídias sociais: 4 horas por dia.
É importante pensar esses dados à luz da fé.
 A ferramenta mais utilizada é o YouTube, depois Facebook, Messenger, Instagram. São
as principais.
 Cresce o número de crianças e adolescentes conectados só pelo celular. A
maioria não assiste televisão. O computador fixo também diminuiu o uso. 44% consome
informações via celular. 85% usou a internet ao menos uma vez em 3 meses. Também em
classes de renda baixa.
 Os maiores medos das novas gerações: não ter WiFi, ficar sem internet, ficar sem
bateria.

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I. CARACTERÍSTICAS DESSA CULTURA

1. Cultura sintética (digitalização de tudo).


- Cultura da convergência.
- Da multimídia à transmídia.
Vivemos nessa cultura digital, do link. Fala-se em transmídia. Verificar como cada uma pode ajudar
no processo comunicacional.
2. Cultura da conectividade
- Somos aldeias globais.
- Mutação da relação com o conhecimento e com o outro: “inteligência coletiva” e “intercriatividade”
3. Ubiquidade
- A rede em toda parte, ao mesmo tempo. “Aqui, agora, já”. Mobilidade.
- Cultura instantânea, simultânea, “presenteísta”.
4. Autonomia
- “Autocomunicação de massa” (M. Castells)
- “O amador ocupa o espaço livre entre o profano e o especialista” (P. Flichy)
- Cultura da participação.
- Cultura maker.
Se a catequese não circula no espaço digital, amadores ocupam este espaço. Quem é da cultura da
participação não suporta ficar sentado, precisa participar. O debate é mais precioso. É uma cultura do fazer.
Crianças querem fazer, colocar a mão na massa, também adolescentes e jovens.

II. INCULTURAÇÃO DIGITAL

- Pela inculturação, a Igreja “introduz os povos com as suas culturas na sua própria comunidade”,
porque “cada cultura oferece formas e valores positivos que podem enriquecer o modo como o Evan-
gelho é pregado, compreendido e vivido” (EG 116).
- É preciso ver o que há de positivo na cultura digital e como ela pode enriquecer a catequese. Não
significa trazer tecnologia para dentro da Igreja e da catequese, mas as formas, os valores dessa cultura...
- A Igreja tem reflexão interessante sobre isso. Basta acompanhar as mensagens dos dias mundiais
das comunicações sociais, por exemplo. A mensagem do próximo ano irá tratar sobre “Comunidades
em rede e comunidades eclesiais”.
- A Igreja não só reflete, mas tenta encarnar o que propõe:
• março 95 – Vaticano lança um site.
• Papa João Paulo II – enviou um primeiro e-mail, em novembro 2001, aos bispos do mundo inteiro.
• Papa Bento XVI inaugura sua página no Twitter – o papa que fala em nome próprio na cultura
digital (dezembro de 2012).

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• Papa Francisco continuou usando essa página no Twitter – O papa é o primeiro colocado na lista
de líderes mundiais mais seguidos. Em março de 2016, criou sua conta no instagram.
• É a tentativa de aproximar a Igreja nas redes.

III. INTERFACES ENTRE A CATEQUESE E A CULTURA DIGITAL

1. DIDÁTICO-INFORMATIVA
- A internet é um “banco de dados” e “memória sociocultural”. Que bom seria se a catequese
pudesse se aproveitar disso, das imagens, dos textos. Os assuntos do momento também podem ser
utilizados como sinais dos tempos...
- O celular pode ser utilizado como recurso. Como aproveitar o celular como recurso catequético?
Usar para fotos, para pesquisa...
-Aplicativos podem ser desenvolvidos.

Sombras:
• Hiperinformação e infoxicação
• Fake News e desordem informacional (falso + nocivos). Mistura maldade, agressão.
“Na atualidade temos excesso de informação e insuficiência de organização, logo carência de
conhecimento” (E. Morin).
Os nativos digitais sabem usar a tecnologia, mas precisam ser educados no uso delas. Temos
muita informação, mas o que se faz com ela para gerar conhecimento é que é a questão.

Luzes:
- Que os encontros possam organizar e ressignificar: deslocamento do doutrinal para o experiencial/
vivencial. Ensinar a exigência irrenunciável do amor ao próximo (EG 161)
- Catequese querigmática e mistagógica (EG 160). A catequese pode ajudar a ler o que se vivencia
em rede.
- Alfabetização midiática, presença significativa, ativa, autocritica e cristã. Formar para a informação.
- Discernimento: examinar, priorizar, escolher, decidir. Ajudar a ver quais prioridades tenho no dia
a dia, a quem seguir, a quem bloquear.
- Verdade – beleza – bem comum – são os critérios.

2. PSICOPEDAGÓGICA
- Identificação e significação da pessoa. Fazer esforço para conhecer o perfil dos catequizandos
e o contexto cultural em que estão inseridos. Podemos conhecer mais coisas das pessoas do que no
presencial. Não é fuxicar a vida dos catequizandos, mas ver o que a rede nos apresenta sobre essa
pessoa, se comunica a pessoa do catequizando. Tudo que se faz em rede não é neutro. Estamos
falando sobre nós mesmos quando falamos em rede.

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- É preciso colocar um ouvido no megafone que são as redes sociais e ouvir o que os catequizandos
estão confessando sobre si. Captar a riqueza, valores, possibilidades...
- Ficar à escuta do povo para descobrir aquilo que os fiéis precisam ouvir. Um pregador é um
contemplativo da Palavra e também um contemplativo do povo. Nunca se deve responder a per-
guntas que ninguém se põe (EG 154-155). Olhar as redes e ver quais perguntas aparecem sobre
os catequizandos.
Sombras:
- Quanto sofrimento há na rede, ciberlullyng, pornografia, boatos, fraudes, isolamento...
- Supervelocidade: aceleração do tempo e perda de memória.
- Bolhas informacionais: mais do mesmo.

Luzes:
- Arte do acompanhamento espiritual: também nas redes sociais...Ajudar a refletir o que se viu, o
que os catequizandos postam.
- Nem tudo é bobagem no que a pessoa posta na rede. É ela que está se revelando.
- Somos chamados a formar as consciências, não pretender substituí-las (AL 37).
- Num tempo tão veloz podemos propor a lentidão, propor o jejum tecnológico, o deserto digital.

3. SOCIOCOMUNITÁRIA
- Como a rede pode nos alimentar nas relações? É preciso ver as redes como facilitadoras e
potencializadoras de comunidades.
- Podemos fazer teleconferências e intercâmbios catequéticos: uma catequese na diversidade,
encontro com lideranças.
- Sala de catequese expandida: abertura à sociedade e ao mundo. Ruas e redes....
- “Gesto concreto digital”: doar tecnologias para periferias.
O Papa Francisco falou com um grupo de crianças do mundo inteiro. A maneira como foi realizada
a preparação para o sínodo com seminários online também foi uma inovação.

4. TEOLÓGICO PASTORAL (ALGUMAS INDICAÇÕES)


- Oração via internet e aplicativos.
- Peregrinação virtual (visita a museus religiosos, viagem online à Terra Santa, caminhar pela Terra
Santa via aplicativo)
- Buscar e encontrar Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus (Santo Inácio).
Deus já age nas redes sociais antes de nós. Como perceber sua presença nesses ambientes é
nossa tarefa.
- Dar testemunho em rede. O testemunho cristão nas redes não se faz com o bombardeio de men-
sagens religiosas, mas com a vontade de se doar aos outros, atento às suas questões. Ter coerência
dentro e fora dos encontros catequéticos.

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Após o almoço, os participantes foram divididos em 20 novos grupos para uma experiência de
vivência bíblica. Cada grupo recebeu um texto bíblico e teve um assessor(a) para aprofundar reflexão
e vivência do mesmo.
Após o café, às 16h30, os participantes retornaram ao auditório para uma conferência de Dom
Otávio Ruiz Arenas, secretário do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização.
Alguns destaques do conteúdo abordado por Dom Otávio:
- É preciso estar atento aos novos desafios da catequese em uma cultura pós-moderna. Estamos
diante de um novo desafio evangelizador que requer audácia e testemunho que torne atraente a
transmissão da fé.
- Este mundo plural e complexo é o lugar onde a Igreja é chamada evangelizar e dizer uma palavra
de vida.
- A iniciação mistagógica necessita do caminho da beleza.
- A transmissão da fé deve ser acompanhada de vivência alegre da fé, que nos impulsiona à
caridade e à vivência da fraternidade com os pobres...
- A catequese precisa responder a pergunta fundamental de cada ser humano: Qual é o caminho da
felicidade? Evangelizar significa encontrar a arte de viver. Isso significa ter a resposta para a pergunta
fundamental... Jesus é o caminho. Precisamos de uma nova evangelização. Sem a arte de viver tudo
o mais não funciona.
- A catequese não de apenas ir ao encontro da formação dos crentes, mas também em responder
aos que se interrogam sobre o sentido da vida. Mas a catequese está igualmente chamada a infundir
esperança nos homens e mulheres hoje.
Dom Otávio abordou também a questão da catequese na era digital e a importância do investimento
na formação de catequistas para uma catequese iniciática. Concluiu chamando a atenção para a
necessidade de investir em bons processos de catequese com adultos.
Após o jantar, às 19h30, a SBC homenageou algumas pessoas especiais para a catequese no
Brasil. São elas: Pe. Luiz Alves de Lima, Therezinha Motta Lima da Cruz, Marlene Maria Silva, Ir. Israel
José Nery, Dom Francisco Javier Hernández Arnedo. Durante anos foram membros do antigo Grupo de
Reflexão Catequética (GRECAT). Atuaram e ainda atuam na reflexão, na formação de catequistas, na
produção de documentos da catequese. Foi feita a apresentação de um vídeo com homenagens para
cada um e destacada a atuação de todos na catequese do Brasil. O catequista Vitor Paiva, apresen-
tador da SBC, assim se referiu aos homenageados: “Que bom seria ter a alegria do Ir. Nery, a entrega
de Dom Javier, o dinamismo da Marlene, a profundidade do Pe. Lima, o amor à vida da Therezinha”.
Foi feito agradecimento carinhoso e especial a cada um pela marca que deixa no processo cate-
quético nacional.

DIA 18 DE NOVEMBRO

A missa de encerramento foi presidida pelo Dom José Antônio Peruzzo, às 8h. No final da cele-
bração, Dom Peruzzo pediu a Dom Otávio que levasse o abraço de todos os catequistas do Brasil ao

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Papa Francisco e dissesse a ele que é muito amado por nós.


Após a celebração, já no plenário, às 9h30, Dom Peruzzo lembrou que a SBC não é um evento,
mas um acontecimento com o objetivo de estimular a reflexão sobre a catequese a serviço da Iniciação
à Vida Cristã.
Dom Peruzzo narrou como se deu o processo de organização da SBC, o envolvimento de equipes
de catequetas, liturgistas, sob a coordenação do Pe. Antonio Marcos Depizzoli, que percorreu o Brasil
inteiro em formações, assessorias e foi tecendo relacionamentos, além de acalentar o processo de IVC.
Dom Peruzzo agradeceu o trabalho enorme e o empenho do Pe. Antonio na preparação da SBC.
Agradeceu também a Ir. Maria Aparecida, Victor, pela animação e coordenação dos trabalhos, bem
como ao Pe. Thiago, pela Liturgia da SBC. Destacou que houve um envolvimento de muita gente,
sobretudo dos coordenadores regionais de catequese. Houve um trabalho que não “apareceu”, mas
foi feito por muitos irmãos.
Foi lida, em seguida, a mensagem dos participantes da 4ª SBC aos catequistas do Brasil. Em
seguida, foi pedido que cada participante fizesse uma avaliação da SBC por escrito.
No final, Dom Peruzzo pediu que todos rezassem pelos que colaboraram pela realização da SBC
e também por todos que participaram. Pediu a proteção de Maria e enviou a todos para a missão de
orientar uma catequese à serviço da Iniciação à Vida Cristã.

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MENSAGEM DA IV SEMANA BRASILEIRA


DE CATEQUESE AOS CATEQUISTAS

“Nós ouvimos e sabemos que ele


é o Salvador do mundo” (Jo 4, 42)

Queridos (as) catequistas,

A 4ª Semana Brasileira de Catequese a serviço da IVC, cujo o


lema,  nós  ouvimos e sabemos que Ele é o Salvador do mundo, mer-
gulhou-nos em temas sobre a Iniciação à Vida Cristã.  Eis seu objetivo
geral: compreender a catequese de inspiração catecumenal a serviço da
Iniciação à Vida Cristã, buscando novos caminhos para a transmissão
da fé, no contexto atual. Gostaríamos que esta mensagem chegasse a
vocês antes do nosso retorno. Afinal, nada do que refletimos aqui se torna
realidade sem o trabalho dedicado de vocês aí.
Algumas questões muito relevantes abordamos aqui:
• A transmissão da fé às novas gerações nos novos contextos e com
novos interlocutores;

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• A mudança que o seguimento de Jesus traz à nossa compreensão


do sentido da vida;
• A importância da liturgia para mergulhar no segredo de Deus, isto
é, no seu mistério e no compromisso com a vida;
• O Senhor Jesus Cristo é a Palavra humana por Deus pronunciada.
A Leitura Orante é a grande experiência de deixá-Lo falar.
• Acolher essa palavra nos aproxima do irmão e nos faz viver em
comunidade,
• Os tempos mudaram, a linguagem digital domina os movimentos e
os relacionamentos. Nós, catequistas, somos desafiados e desafiadas a
comunicar nesta realidade, a alegria do Evangelho.
Como aconteceu com a Samaritana depois do encontro com Jesus
Cristo,  queremos voltar para  comunicar a experiência que tivemos com
Ele. Assim esperamos que muitas pessoas possam conhecer e acolher
com alegria as boas notícias da parte de Deus. Os tempos são difíceis,
mas as promessas de Deus são generosas. Tudo passa rápido, mas
a fidelidade dele é permanente. E todos nós, catequistas, vivemos a
emocionante alegria de sermos testemunhas deste anúncio do qual o
mundo tanto precisa.
Se quisermos ser fieis à Igreja do Evangelho e ter criatividade ao em
transmitir a pessoa de Jesus Cristo, o melhor caminho será abraçar a
possibilidade de processos iniciáticos nas nossas comunidades. Onde
já se começou, comunidades novas surgem. Quem é iniciado assume
uma nova identidade.
Queridos catequistas, que Deus lhes multiplique em bênçãos a bênção
que são vocês para a formação de novos discípulos, novos missionários
e muitos novos iniciados.  São grandes os problemas, mas são maiores
as nossas esperanças.
Hoje é fácil encontrar más notícias. Mas a Iniciação à Vida Cristã é
uma grande geradora de boas notícias. Vocês, catequistas, são Palavras
da Igreja na construção do mundo melhor que Deus sonha para todos
os seus filhos.
Que Maria, a catequista de Nazaré, lhes seja uma grande fonte de
inspiração na experiência do discipulado. Que ressoe em seus ouvidos a
frase pronunciada em Caná: “fazei tudo o que Ele vos disser!” (Jo 2, 5) e
assim nunca  faltará o vinho da alegria na festa da vida.

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Orientações para publicação na Revista de Catequese

A Revista de Catequese está aberta para a contribuição de todos os pesquisadores na área de Teologia,
particularmente de catequética e teologia pastoral em geral. Os textos podem ser artigos, comunicações,
traduções, resenhas, experiências, documentos, entre outros. Os textos, de inteira responsabilidade dos
autores, devem ser inéditos, reservando-se à Revista a prioridade de sua publicação. Os autores que tiverem
seus textos publicados receberão três exemplares daquela edição da Revista.
1 Os textos deverão ser escritos em português, espanhol, italiano ou inglês.
2 Os textos submetidos receberão a avaliação de dois examinadores (neutros), cabendo ao Conselho da
revista o direito de publicação ou rejeição do trabalho.
3 Para a apresentação de artigo, devem ser observadas as seguintes orientações técnicas: formato A4,
fonte Times News Roman 12; espaçamento entre linhas 1,5; espaçamento simples entre parágrafos, total
de 8 a 10 páginas. Margens: superior e esquerda, 3cm; inferior e direita, 2 cm.
4 As citações diretas no texto, com até três linhas, devem ser contidas entre aspas. As citações diretas no
texto com mais de três linhas, devem ser destacadas com recuo de 4 cm da margem esquerda com fonte
11, sem aspas.
5 As referências bibliográficas deverão ser colocadas em notas de rodapé (fonte 10), com dados bibliográficos
completos das obras citadas (inclusive com numeração das páginas), isso em cada nova obra.
5.1 Citação de livros CODA, Piero. O evento pascal: Trindade e história. São Paulo: Cidade Nova, 1987, p. 10.
5.2 Citação de periódicos (revistas, jornais, etc.): Alves de Lima, Luiz. A situação da catequese hoje no Brasil.
Revista de Catequese 37 (2014)143. [37 é o volume da Revista; 143 é o número].
Forma Alternativa:
NERY, José Israel. Formação de catequistas: uma urgência no Brasil. Revista de Catequese 121 (2008), p.
2. [121 é o número da revista].
5.3 citação de monografia, livros e afins:
CALIMAN, Cleto. A eclisiologia do Concílio Vaticano II e a Igreja no Brasil. In: GONÇALVES, Paulo Sérgio
Lopes;
BOMBONATTO, Vera Ivanise (org.). Concílio Vaticano II: análise e prospectivas. São Paulo: Paulinas, 2004,
p. 229-248.
6 A numeração das seções segue o sistema decimal, em algarismos arábicos (como na descrição destas
normas).
7 Os artigos deverão apresentar, obrigatoriamente: título, resumo (de 100 a 150 palavras), palavras-chave
(no total de 5), introdução, corpo (com subdivisões), considerações finais e referências bibliográficas.
8 Os seguintes dados do autor deverão ser enviados: a última titulação (com indicação da instituição), bem
como, atualmente, em qual área atua e onde (instituição ou organização).
9 Os autores serão avisados por e-mail da decisão dos membros da comissão editorial sobre a publicação
do texto proposto.
10 Os textos devem ser enviados ao seguinte endereço: catequese.editor@pio.unisal.br.

UNISAL
Centro Universitário Salesiano de São Paulo
Unidade São Paulo, Campus Pio XI
Rua Pio XI, 1.100 - Alto da Lapa - São Paulo - SP. - 05060-001
catequese.editor@pio.unisal.br

124 São Paulo, ano 42, n. 153, p. 13-25, jan./jun. 2019.

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