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RAMOS DE OLIVEIRA Ko A ILUSAO ESPIRITA” TI EDICAO A OF . Waal oF 48a 1951 EDITORA VOZES LIMITADA Petropolis, R. J. Rio de Janeiro Sao Paulo To Me eRe 2 AS ee. POR COMISSAO ESPECIAL DO EXMO. E REVMO, SR. DOM MANUEL PEDRO. DA CUNHA CINTRA, BISPO DE PE- TROPOLIS, FREI LAURO OSTERMANN 0, F. M., PETROPOLIS, 19-6-1951 NEAT L oO 8 8 T wT MONS, JOS2 PERNA, CENSOR AD HOC BELO HORIZONTE, 15 DE FEV, DE 1943 TODOS OS DIREITOS RESERVADOS INTRODUCAO Lendo um trabalho de Lucien Roure (Le Merveilleux Spirite), deparei com uma informa- cao (p. 326), que me encheu primeiramente de cepticismo e, apds outras leituras, de preocupa- cao. E’ uma relacaéo do nimero de jornais es- piritas existentes no mundo em 1913, colhida pe- Jo autor no proprio Bureau Internacional da seita em Bruxelas e assim discriminada: France .. Belgique . Pays-Bas Danemark Norvége . Suéde Grande-Bretagne Allemagne - Suisse Italie . Espagne Portugal Brésil Etats-Unis . Autres Pays TOTAL ....----* Referindo-se ao caso, comenta Tristao de Atai- de: “Como se vé, figurava o Brasil 4 testa de to- das as nacdes do mundo no que diz respeito & im- 5 prensa espirita! Pela primeira vez, sem retérica alguma, curvava-se o universo ante o Brasil...” (Contra-revolugao espiritual, p. 75) De principio, me pareceram um tanto fantas- ticos esses 32 jornais espiritas existentes entre nos. Hoje, porém, ante a documentacéo apre- sentada por varios autores, que tém pesquisado © assunto (v. g. O espiritismo no Brasil, por Leo- nidio Ribeiro e Murilo Campos), estou plenamen- te convencido de que os espiritas possuem, no pais, um dos mais vantajosos aparelhamentos de propaganda. Nao sé numerosos periédicos como importante empresa editora, 4 qual, consta, um milionario do Sul legou cinco milhées de cruzeiros para difusio de livros espiritas. Em Sao Paulo, a seita dispde de poderosa es- tacao de radio, de sua propriedade exclusiva, pa- ra divulgacao discreta de suas doutrinas. Surgem, ali, por toda parte, centros espiritas, conforme os registos publicados no Diario Oficial. Na Capital da Republica, 0 ultimo recensea- mento verificou ser notavel o ntimero de espi- ritas. E foi considerando esta triste situacao, esta assustadora expansio das perniciosas doutrinas kardecistas entre ndés, que resolvi estudar mais de- tidamente o assunto, ampliando os conhecimen- tos obtidos rapida e sumariamente no curso do Seminario. Anotando alguns pontos, que me pareceram essenciais, passo a coligi-los em optisculo para que sejam titeis a quem porventura interessem. 6 CAPITULO I OS FENOMENOS ESP{RITAS E O SEU VALOR AUTENTICO Lucien Roure, antigo redator da revista de ciéncias Etudes, tratando dos maravilhosos fe- nomenos espiritas, refere uma observacado de Port Royal, que Ernest Bersot insere em seu livro Mes- mer, Le magnétisme animal: “Quando se trata de procurar as causas de efeitos extraordinarios, é necessario, antes de tudo, examinar se tais efeitos sao verdadeiros, pois muitas vezes nos fatigamos em buscar razdes de coisas que nunca existiram, e ha uma infinidade delas que podem ser resolvidas como Plutarco resolveu essoutra questao, que ele se propés: Por que os potros ja perseguidos pelos lobos sao mais velozes do que os outros? Apés ex- por varias explicagdes como a de que eles adquiri- ram mais habito de correr'ou de que os menos lestos foram devorados, apresenta uma outra so- lugio quicé mais acertada: E’ que talvez isto nao seja verdade”. Be Esta observacgaéo de Port Royal foi ilustrada por Fontenelle, com a sua histéria do dente de Ouro: “E 1593, correu 0 boato de que, na Silésia, nascera 7 um dente de ouro num menino de 7 anos. Horstius, pro- fessor de medicina da Universidade de Helmstad, escre- veu, em 1595, a historia desse dente, pretendendo que ele fosse em parte natural e em parte miraculoso, isto é, concedido por Deus ao menino para consolar os cristios em luta com os turcos. Imagine-se que género de consolo le. varia tal dente aos cristios com relagéo aos turcos. No mesmo ano, para que ao dente nao faltassem historia- dores, Rullandus escreveu-lhe a histéria. Dois anos mais tarde, um outro sabio da época, Inglosteterus, escreven um tratado contestando o parecer de Rullandus sobre o dente de ouro e Rullandus fez-lhe uma réplica formosa e erudita. Um outro grande homem do tempo, chamado Li- bavius, reuniu tudo o que fora escrito sobre o dente e ajuntou seu modo de ver pessoal. Nada faltava a tao dou- tos tratados senfo que o dente fosse realmente de ouro. Quando um ourives o examinou, yerificou ter sido cui- dadosamente aplicada uma folha de ouro sobre o famo- so dente, que em nada diferenciava dos demais. Mas comecou-se por fazer livros e sé depois se consultou o ourives”. Eis por que parece nunca despicienda a ad- verténcia de Ernest Bersot. Nas regides do ma- ravilhoso, sdi a imaginacéo tomar asas e ascen- der A estratosfera do mito, onde nao é possivel manter argumentacfo equilibrada, em ordem ao discernimento da verdade. Em se tratando, pois, de fenémenos espiritas; toda prudéncia é pouca em assentar as bases reais a um estudo seguro e eficiente. Antes de emitir opinido e pronunciar julgamento sobre qualquer fato ou sua origem natural ou preternatural, é mister ter a certeza da realidade do mesmo, para evitar que, depois de expor razdes e combater idéias, deparemos com essa desconcertante répli- ca ou evasiva: Tal fato nunca existiu. 8 CAPITULO IL OS FENOMENOS ESPIRITAS E 0 SEU VALOR PSICOLOGICO Um dos mais ponderosos detrimentos, que en- fraquecem os fenémenos espiritas, é 0 ambien- te psicologico, em que eles se operam. Os “cren- tes”, que se retinem em sessio, estao inabalavel- mente convictos de que assistem a fendmenos ma- ravilhosos e, com tal disposicao de animo, tudo aceitam como provindo de um mundo de além, sem nenhum vislumbre de exame ou critica. Ora, sabemos que a sugestao tem forg¢a quase domi- nadora sobre os sentidos e sobre todo o sistema nervoso. Um sugestionado chega mesmo a sentir sin- tomas de moléstias que nunca teve, bem como pode reagir contra verdadeiras afeccdes nervo- sas (ainda que sem eficiéncia duravel). E que valor objetivo terfio as testemunhas sugestiona- das das sessdes espiritas, sobre 0 que véem, ou- vem ou sentem? Li algures 0 fato de um jovem casal pari- siense, que perdera seu primogénito. O esposo fo- ra levado a tal estado de acabrunhamento com > 0 golpe moral, que o médico lhe aconselhou um passeio a Londres. Ali, folheando um jornal, deu com um antincio singular: Um fotografo compro- metia-se a fotografar o espirito de qualquer de- funto. O inditoso pai correu séfrego a procura-lo. Queria o retrato de seu filhinho. Dados os infor- mes da idade e os demais, que lhe pediu o mara- vilhoso profissional, recebeu a garantia de que, ao terceiro dia, lhe seria entregue 0 extraordinario do- cumento. E’ facil compreender-se 0 anseio com que aguardou o dia aprazado. Contava as horas e os minutos. Ao receber a almejada fotografia, reconheceu a figura do idolatrado ente falecido. E quis fazer sua esposa participante de seu con- solo. Enviou-lhe 0 retrato envolto em palayras de conforto. Mas esta, que nfo se achava nas mesmas disposicdes de Animo e que, sobretudo, nao so- frera aquela preparacdo psicoldgica de trés dias, nada viu na fotografia que se parecesse com seu filho. Era uma fotografia de uma crianca qual- quer, quica da mesma idade, que, na retina de seu aflito e sugestionado marido, se identificava com a imagem daquele, que de fato nao saia de sua imaginagao. Além do parcialissimo estado psicolégico dos assistentes As sessdes espiritas, 0 préprio meio ambiente em que elas se processam ou seja a meia escuridao, prejudica de muito’o valor de seus fendmenos. Um insigne jornalista, em Be- lém do Para (Rey. P. Floréncio Dubois), no aceso de uma polémica, recebeu o repto de assistir a uma sessao espirita, a fim de certificar-se da apa- 10 rico do ectoplasma ou espectro. Aceitou, com a condigio de acender a luz e examinar a apari- cho, Esta condigfio foi recusada. Efetivamente, por que acreditar que 0 vulto luminoso, que passa entre as filas dos assisten- tes iméveis, conduzindo uma crianga, é um es- pectro do outro mundo e nao a mulher do mé- dium vestida com tecidos fosforescentes (como cér- ta vez foi constatado), segurando uma boneca de palha? Simplesmente porque é proibido tocd-lo e examiné-lo, 4 claridade? Diferem muito, na maneira de conceber e ex- plicar os fenémenos espiritas, um crente e um indiferente. Eis como Edmundo Perrier, da Aca- demia de Ciéncias de Franga, relata uma sessao espirita, a que assistira, a convite de um coronel Rocha, na residéncia de certa familia constituida de mae e duas filhas, desejosa de convencé-lo da sobrenaturalidade dos fendmenos. “Antes, uma das filhas dirigiu uma invocacio ao espirito familiar da casa, o sr. X... velho amigo, falecido ha anos, rogando-Ihe que repetisse a sua visita habitual, tomando em conta a presen¢a de um estranho, que desejava instruir-se; e que fizesse como convencé- lo. Fecharam-se as cortinas, apagou-se a luz e, em meio a uma escuridade profunda, comegou-se a sessio. A mesa pos-se a bater, respondendo in- teligentemente as perguntas. Dai a pouco, era com violéncia que ela trabalhava; explicaram-me que era o espirito de Maturin, — um lobo do mar, morto ha tempos — que, no espago, nao deixava o sr. X... Depois, certa mao pequenina comegou a 11 acariciar-me. Pediu-se ao sr. X... que me ser- visse um pouco de acticar. Eu ouvi abrir 0 aguca- reiro e uma tablete de agticar veio pousar exa- tamente nos meus ldbios. Surpreendido, o deixei cair e, desculpando-me, pedi ao sr. X... que nao reparasse meu desleixo. Felizmente — acrescentei — nao era bebida, senfio eu me teria molhado. O coronel obtemperou: Mas pode-se oferecer-Ihe um grogue. Isto nfo estava esperado; o grogue nao estava preparado; houve um momento de hesi- taciio. Depois, comecou-se 0 arranjo; ouvi abrir- se uma gaveta, remexer as colheres, descobrir- se o acucareiro (a cena passava-se na sala de jantar); destampar-se a garrafa de rum; dei- tar-se Agua no copo; em seguida, sempre na mais completa escuridéo, o copo veio se colocar en- tre meus labios, inclinando-se docemente e eu be- bi o grogue sem que se derramasse uma s0 gota. Eu nunca ouvi dizer que Eusapia tivesse dessas hospitalidades... Neste momento cessou todo 0 mo- vimento e o coronel exclamou: “Nao ha mais flui- do”. Fizeram-se algumas massagens no braco da médium e os fendmenos recomecaram. Era um ban- dolim a vibrar fortemente as cordas. Pedi uma dria, e o bandolim, sem hesitar, tocou o carrilhao “Sinos de Corneville”. Nao podendo toca-lo com minhas miaos, pedi que ele viesse colocar-se sob o meu quei- xo; obedeceu, e eu nao percebi nenhum movimen- to, mas, inclinado-me bruscamente, senti com ni- tidez a mao que o sustinha. Declarei isto, mas me explicaram que era a mao de Maturin. Perguntei © que aconteceria se eu tomasse aquela mao e a 12 examinasse 4 luz de uma pequena lanterna elétrica. “Oh! — exclamou 0 coronel — pode acontecer que a médium seja tomada de uma crise violenta, de que venha a morrer!” Eu nao quis colocar em pe- rigo os dias de uma senhora que, em sua casa, me oferecera acticar, um grogue e atracées tio origi- nais... Nao insisti. Quando se acendeu a luz, um dos espiritos, que vagavam no ar, refugiou-se na mao de uma das filhas da médium e lhe fez es- crever, a meu respeito, uma série de profecias agradaveis, que alias nunca se realizaram. . .” (Jux- ta Lucien Roure, op. cit., p. 212 a 214). Edmundo Perrier, fino e galante escritor, com- preendeu o que se passou nesta sessao e oS es- forcos da amavel dona da casa, a procurar, no meio das trevas, dar-Ihe uma impressio agra- davel... Entretanto, um espirita crente sairia di- zendo que viu e ouviu espiritos. . . CAPITULO III OS FENOMENOS ESPIRITAS E 0 SEU VALOR CIENTIFICO Nada menos propicio 4s pesquisas cientificas do que os fenémenos espiritas. E isto por dois mo- tivos ébvios e flagrantes. 1) A condigao primaria para as pesquisas de carater cientifico é a luz, 0 minucioso exame, 0 rigoroso controle do meio, do sujeito e dos ob- jetos, onde e sobre que se fazem as experién- cias, a fim de se colherem resultados nitidos e incontestaveis. Ora, precisamente a condicao imprescindivel para que se produzam os fenémenos espiritas é a escuridao. O cenario das sessdes é invariavelmen- te uma sala escura com cabine secreta dotada de cortinas (aonde aliads nem sempre é impossivel a introducao clandestina de um conivente do mé- dium). Exige-se sobretudo treva: “Meno luce!” — re- petia incessantemente a célebre médium Eusa- pia Paladino. Em Paris, esta fez varias sessdes, no Institut Général Psychologique, sob o controle dos cientistas Youriévitch, Pourtier, d’Arsonval, Charles Richet, Bergson, Curie e sua esposa. Ve- 14 rificaram-se fendmenos esquisitos. Al que se batesse uma fotografia, com uma lampada elétrica, em meio a sessio, mas ela se opés, ale- gando que qualquer luz, naquele momento, the seria prejudicial (De fato...), Entretanto bateu-se a chapa, de surpresa, e ficou demonstrado que era ela mesma quem soer- guia a mesa com quatro dedos, enquanto em sua fi- sionomia tinha um sorriso irénico (Conf. Boletim do Instituto, Noy. e Dez. de 1908). Allan Kardee acha que “lobscurité nécessai- re a la production de certains effets physiques pré- te sans doute a la suspicion, mais ne prouve rien contre la réalité” (Qu’est-ce le Spiritisme? p. 133). Eu lho concedo. Noto, apenas, que tal escuridade destoa dos foros cientificos, que se atribui o espi- ritismo. Alias, nao é meu intuito negar certas rea- lidades espiritas. N. Vaschide, depois de obser- var que as fotografias dos espectros espiritas tém geralmente a inexpressdo das estatuas ou mascaras, quando nao se apresentam com o rosto velado, lembra que, assim como para a revelacao fotogra- fica se faz mister a auséncia de luz, assim tam- bém talvez sejam necessarias trevas 4s materiali- zacoes espiritas. Mas Lucien Roure acha um tanto dificil introduzirem-se, na Ciéncia, esses fantasmas, apés tio mal acabadas experiéncias. E que dizer dos sabios, que, conhecedores dos tramites cientificos, aceitaram tais fendmenos? Uma observacéo parece oportuna, a respeito: O sibio €m qualquer ramo de Ciéncia nao o é, por isto mes- ™o, em outro setor de conhecimentos. Um 6timo iguém propés 15 astronomo bem pode ignorar completamente a me- dicina ou a psicologia. E, sobretudo, qualquer de- les pode desconhecer por inteiro os truques da prestidigitagao. Cita-se frequentemente o caso de William Croo- kes, da Real Sociedade de Londres, ter reconhe- cido o desdobramento pessoal de miss Cook em miss Katie. Quando, porém, se lé a exposigaéo de W. Croo- kes, pasma-se da extrema credulidade do bondoso sabio. Sempre que esti com miss Cook, desapa- rece miss Katie e vice-versa, ou ele escuta apenas a voz da outra. So uma vez esteve diante das duas simultaneamente. Examinou miss Cook, as escu- ras, pegando-lhe na mao e, quando se julga que ele vai examinar a outra figura, ele se retira cui- dadosamente (!). Lucien Roure acha que ele nao poderia ter sido mais “discreto e galante...” Isto talvez o diga por litotes, para nao repetir o que foi dito com certa insisténcia e recato, isto é, que 0 ilustre homem de ciéncia estava enamorado pela jovem. Seja como for, o que nao ha em seu re- latério é a minima alusdo ou suspeita sobre estas coisas muito simples: prestidigitagao, transformis- mo e ventriloquia. E’ de notar o chamariz com que os espiritas arrastam os homens de letras ao seu credo: 0 sentimento. Coelho Neto perde um filho, esta in- consoliyel; o espiritismo Ihe promete constante comunicagio com o ente querido. Mas sentimento € uma explicagio, nao uma razao cientifica. 2) E’ sabido que cada principio de ciéncia re- 16 presenta o resultado de uma série de efeitos idén- ticos produzidos pelas mesmas causas, nas mes- mas cireustancias. Ora, nada mais infinitamente variavel do que os fendmenos espiritas provindos das mesmas cau- sas e nas mesmas circunstincias: mesas que se ar- rastam e que se erguem, objetos que se levantam e que tombam, vozes lancinantes e estridulas, gritos de pavor, desmaios e esgares, instrumentos que vibram, fenédmenos subjetivos do médium, quanto aos quais é bem dificil determinar 0 que é pro- duzido por causa estranha e 0 que deriva de sua vontade ou capricho. As vezes, as mesmas cau- sas Nas mesmas circunstancias nada produzem. Vem a pélo o parecer da comissao delegada pela Academia de Medicina de Paris, a respeito das demonstragdes do dr. Luys, que pretendia efetuar curas 4 distancia com substincias medici- nais, por influéncias meditinicas ou hipnoticas: “La commission estime que les effets produits... paraissent dependre plus des caprices, de la fan- taisie et du souvenir du sujet en experience que des substances médicamenteuses” (Cf. Bulletin de l Académie de Médicine, de 1888). No mesmo engano (de equiparar os fenéme- Nos espiritas aos cientificos) parece ter incidido o - coronel Rocha com a sua teoria da exterioriza- so ou sincronizacio da sensibilidade, utilizando- se de um médium e de uma estatueta. Apés 0 fracasso de uma demonstra¢ao, em sua residéncia, diante de alguns médicos e eclesidsticos por ele con- vidados, explicou terem tais fendmenos resultados A Tusio — 2 17 irregulares, indefinidos e caprichosos, que nao caem sob o controle humano, como a eletricidade e 9 magnetismo, © que os assistentes Ihe concederam graciosamente, evilando fazer qualquer insistén- cia, porque... a cortesia tem suas regras. Mas o que nos interessa principalmente é sa- ber em que os fendmenos espiritas foram tteis a ciéncia. Sendo os espiritos muito superiores aos seres mortais, pois suas faculdades intelectivas nao sofrem os embaragos dos érgaos corpéreos, pos- suem conhecimentos que nos falecem e tém incom- paravel facilidade em captar e resolver os pro- blemas, em que nos debatemos. E, por que, nesse convivio tao familiar das sessdes e evocacées, nao elucidam as grandes questées cientificas que preo- cupam o género humano, como a pluralidade dos mundos habitados, a duracgdo de nosso planeta, a época do aparecimento do homem sobre a terra, o futuro da humanidade, etc.? Allan Kardec (Le livre des Esprits) refere as respostas obtidas a tais perguntas e vé-se que séo menos do que sibilinas — sao evasivas. Nunca um espirito nos veio trazer uma des- coberta cientifica, um esclarecimento histérico, um medicamento para as moléstias havidas por incura- veis. O que indicam as suas mensagens sfo os re- médios do nosso conhecimento (ou do conhecimeD- to do médium), manipulados em nossos laborat& rios. Sera que, no mundo de além, nada se conhe- ga afora os produtos Bayer ou Raul Leite? “Mais, en somme, pergunta Lucien, quel ava tage peut nous procurer leur commerce?” 18 CAPITULO IV OS FENOMENOS ESP{RITAS E O SEU VALOR HISTORICO 0 espiritismo, qua talis, é quase tio antigo co- mo a propria humanidade. Apenas seus fendme- nos tém sofrido alteracdes nominais: Necromancia, magia, goetia (do grego goes, feiticeiro), ou ma- gia negra, teurgia (do grego theds, deus, e ergon, trabalho), isto é, agéo divina ou magia branca, feiticaria, bruxaria, espiritismo, sao tudo denomi- nagées varias, com que através dos séculos se tem significado a mesma coisa, ou seja o comércio com as almas dos mortos ou com espiritos de qualquer casta. Tal comércio se tem feito sempre por inter- médio de alguma pessoa ou objeto, cujas desig- nagdes se sucedem no correr dos tempos, tais co- mo ordculo, mago, pitonisa e, mais modernamente, médium. Se consultarmos a histéria dos povos mais an- tigos, como os babilénios, os persas e os etruscos, verificaremos que eles praticaram a necromancia. Herddoto, Sécrates e Plat&io referem tal comér- cio com as almas dos mortos (Cf. Los fendmenos misteriosos del psiquismo, Poot, p. 249). ea 19 Plutarco narra que Calandas evocou 0 espj. rito de Aquilau, por ele assassinado (De sera Ny. minis vindicta, 17). Cicero informa que seu amigo Apio mantinha relagdes com os mortos (Tuse. 1). Conforme T4. cito (Anais, 11, 28), Druso evocava almas do mun. do inferior e a mesma informagao prestam, de Nero, Sueténio (24) e Plinio Sénior (Hist. Nat, XXX, 5), bem como de Caracala. Lucano (Farsalia, 6) e Dion. Cassio (77, 15) afirmam que Sexto Pompeu consultou o magico Ericto, de Tessdlia, para saber o resultado da luta entre seu pai e César. Horacio faz referén- cias desse género (Sdtiras, 1, 8, 25). ~~ Qutrossim, a Histéria registou a existéncia de célebres oraculos, como o de Tropdzia, da Gré- cia, junto ao rio Aqueronte, e Sibila, de Cumas, nas margens do lago Averno, onde, escreve Cice- ro, emergiam as sombras dos mortos (hoje, espec- tros ou ectoplasmas), ainda ensanguentadas (Tusc. 1, 16). Na india, os ginossofistas evocam as almas dos defuntos, utilizando-se de mesas falantes. Entre os israelitas praticava-se também a ne cromancia (Deut. XVIII, 10; Ley, XX, 21; Liv: dos Reis 1, 28, 7 e 8), nao obstante as sever’ proibigdes divinas (Deut. XIX, 10). Saul, v. esteve com a Pitonisa de Endor, rogando-lhe qué evocasse a alma de Samuel, a fim de saber ° proximo resultado de uma batalha com os fr 20 listeus e recebeu a resposta de que perderia a guerra *. Nos primeiros dias do cristianismo, encontra- mos o caso de Simao Mago, expulso da Igreja, 7 causa de seus sucessos diabdlicos. (Atos dos Apost. VIII, 9-29 e S. Justino, Prim. Apolog. 26). No século II, Tertuliano denuncia praticas es- piritas, que em nada diferem das atuais. Fala dos médiuns, que suscitam espectros (fantasmata edunt) e desrespeitam os mortos (ef jam defunc- torum infamant animas); que produzem transes nas criangas para obter comunicagdes (pueros in eloquium oraculi elidunt); que sabem causar 0 so- no (somnia immittunt) e que, por influéncia dia- bolica, conseguem respostas de mesas e animais (per daemones caprae et mensae devinare con- suerunt). Entretanto, salienta j4 o uso das fraudes (multa miracula circulatoriis praestigiis ludunt). Durante toda a idade média, pompeou a bru- xaria ou feiticaria em todas as classes sociais, sem excetuar a nobreza. No século XVIII, a Europa foi agitada pelos tremores de Cévennes e pelas perturbagoes do cemitério de S. Medardo, em Paris. No meio do século passado (1847), no lugar Hydesville, perto da cidade de Arcadia, Condado — .,,1) Divergem os exegetas na interpretagao deste epi- Sédio. Acham alguns, como S. Jerénimo e Teodureto, que a aparicio foi falsa e que Saul foi enganado. Ou- tros atribuem o fdto a arte diabdlica, como S. Basilio, S. Gregorio de Nissa e Tertuliano. A maioria, porém, julga © fato real, por permissao divina, para confu- S80 © castigo de Saul, tais como Josefo, S. Justino, Ori- Benes e Sto, Ambrosio. 21 de Wayne, Estado de Nova York, nos Estados Unidos, nasceu o espiritismo, na forma atual. Em casa dita “mal assombrada”, residia o pastor pro- testante dr. Joao Fox, casado com Margarida Fox, tendo em sua companhia duas filhas: Margari- da (Maggie), com 16 anos e Catarina (Katie) ainda mais jovem. O casal possuia também dois filhos de idade superior — David e Lia, que residiam fora. Certa noite, as duas meninas ouviram os mesmos ruidos que dali haviam afugentado os antigos inquilinos. Maggie correspondeu com pan- cadas e convidou o agente ignoto a responder a suas perguntas com dois golpes no caso afirmativo e€ com um sé no caso negativo. Encetou-se uma conversacgao em que ficou de- clarado vagar por ali o espirito de Carlos Rayan, assassinado e sepultado na dita casa. Foi decla- rado também o nome do assassino, o qual entre- tanto negou conhecer tal fato, ao ser interrogado pela policia, que tudo investigou e nenhum vesti- gio encontrou do denunciado crime. Tal foi o ini- cio do movimento espirita, que em breve empol- gou todo o pais e, anos mais tarde, se propalou por toda a Europa, com a rapidez das epidemias. : 40 anos depois, Margarida Fox concedeu ao jornal New-York Herald esta entrevista: “Quando © espiritismo principiou, Katie e eu éramos crian- gas € minha irma mais velha servia-se de nés como instrumentos. Nossa mie era simploria e fanatica- Dou-lhe este epiteto, porque de boa fé acreditava nessas coisas. O espiritismo surgiu de um nada- Eramos criancas inocentes. 22 “Que é que sabiamos? Eu sabia, entio, certa- mente que cada fato que nds apresentayamos era pura fraude. Néo obstante, tenho procurado o desconhecido quanto pode fazé-lo a vontade hu- mana. Fui aos mortos a fim de saber deles um in- dicio, por pequeno que fosse. Nunca me veio na- da de 14 — nunca!” E declarou Catarina: “O es- piritismo é um logro do principio ao fim. E’ o maior logro do século! Maggie e eu fizemo-lo surgir quan- do criangas; éramos muito novas e inocentes, para compreender o que faziamos. Nossa irma Lia tinha 23 anos mais do que nés. Achamo-nos no caminho da mistificagaéo e continuamos nele, como era na- tural”. Isto foi em Setembro de 1888. Em Outubro do mesmo ano Maggie apresentou-se no palco da Aca- demia de Musica de Nova York, perante um gran- de puiblico e assim falou: “Estou aqui esta noite, eu, uma das fundadoras do espiritismo, para denun- cia-lo como pura falsidade de principio a fim, co- mo a mais frivola das supersticgdes, como a mais iniqua blasfémia conhecida no mundo”. Em seguida explicou como conseguiam, ela e sua irma, formar os estalidos ou pancadas, ora com os dedos dos pés ou das mfos, ora por meio de macs atadas ocultamente a cordéis. No dia seguinte, o Jornal de Nova York, World, referia o fato: “...Um simples tamborete ou me- Sinha de madeira, descansando sobre 4 pés curtos € tendo as propriedades de uma caixa de resso- nancia, foi colocado diante dela. Tirando o cal- Sado, ela colocou o pé direito sobre a mesinha, os 23 assistentes pareciam conter a respiragao e esse gran- de siléncio foi recompensado por uma quantidade de estalidos breves € sonoros: os tais sons misterio- sos, que, por mais de 40 anos, tém assustado e de- sorientado centenas de milhares de pessoas, em nosso pais e na Europa. Uma comissio composta de trés médicos, escolhidos entre os assistentes, subiu ao palco e examinando o pé durante 0 som das “pancadinhas”, concordou, sem hesitar, que os sons eram produzidos pela acéo da primeira junta do dedo grande do pé”. Todavia, um ano depois, as irmas Fox des- mentiram publicamente sua entrevista, declarando terem agido sob ameacas de personalidades ca- tolicas, que as pretendiam internar num conven- to. Mas, como seu pai e elas morreram por exces- sos alcodlicos, supée-se que talvez se tratasse de coloca-las em algum asilo para mulheres alcodli- cas, Eis o que, de Catarina Fox, disse o Jornal Washington Daily Star, de 7-3-1893. “A casa n. 456 Oeste da rua 57, Nova York, se encontra atual- mente quase deserta. Apenas um de seus quartos esta ocupado; habita-o uma mulher que orca pe- los seus 60 anos; verdadeira ruina mental e fisi- vadkiong ae vive da caridade publica e sé tem Hcores intoxicantes. O rosto, em que Se da idade e de uma vida ae aissa inal ea que a8 mulher foi bela. lacios e as cortes Aan sale Peausiiva 7. a - As faculdades desse espirito fo- 24 ram admiradas e estudadas pelo sibios da Amé. rica e da Europa. O nome dessa mulher tornon-se aiternativamente célebre: cantado ou ridiculari- ado numa dizia de linguas, Esses labios, que, hoje 9 articulam banalidades, promulgaram outrora a doutrina de “religiao nova”, que conta ainda seus adeptos e seus admiradores por dezenas de milhares”. No jornal espirita Medium and Davbreak, de 28-3-1893, léem-se as seguintes palavras sobre Ca- tarina Fox, escritas pelo seu correligionario Ja- mes Burns: “Temos aqui debaixo de nossas vis- tas um espetaculo duplamente surpreendente: uma mulher que transmite aos outros manifestagdes es- pirituais e que, em si mesma, esta, sob 0 aspecto es- piritual, perdida e extraviada. JA nao tem nem sen- so moral, nem dominio sobre seus pensamentos, nem desejos. Em tais circunstancias — sem falarmos da embriaguez, da sensualidade, da degenerescéncia moral sob todas as formas — sera de admirar que “essa espécie de coisa” tenha multiplicado os es- candalos e tenha deixado, no decurso de seus 45 anos, um montiéo de imundicies?” E assim terminaram os seus dias as fundado- ras do moderno espiritismo. CAPITULO V OS FENOMENOS ESPiRITAS E SEU VALOR DOUTRINARIO Apés suas vitorias no Egito, Napolefo foi cha- mado a assumir o governo de sua Patria, a fim de soerguer nova Franca sobre os escombros da revolucao que tudo destruira. Uma de suas primei- ras preocupagées foi dotar o pais com uma re- ligido. O olhar perspicaz do Corso percebeu, de logo, que a religiao é o mais forte liame de ordem e de coesao nacional. Uma dificuldade, porém, o deteve: qual reli- giao adotar? O ministro inglés Pitt propusera-lhe oficializar o protestantismo, prometendo-lhe 0 apoio da Inglaterra. Mas ao consul niio pareceu de bom conselho tal alianga. A “Igreja convencional” fez- The também propostas. E, certo dia, apareceram- lhe os teofilantropos. A teofilantropia era a reli- giao fundada por Laréveillére-Lepeaux, de per- feito acordo com o paladar revolucionario. Sua instituigdo fora muito simples. Robespierre, sobra- cando um “bouquet” de flores, acompanhado de Laréveillére-Lepeaux em vestes brancas, —gra- vara no frontispicio de um templo estas palavras: 26 “Le peuple francais reconnait Vexistence de Supréme”. Entretanto, Laréveillére. xava-se, depois, a Barras do insucesso e nenhum progresso de sua religido, apesar de comoda e atra- ente, pois adotava miisicas alegres, bailados coreo- graficos, etc... Barras deu-lhe um conselho: “Citoyen collé- gue, tenez-vous sérieusement 4 reussir comme Je- sus-Crist? C'est simple, faites comme lui. Faites vous crucifier un vendredi et tachez ressusciter le dimanche”. Uma gargalhada da plebe sepul- tara a nova religiao, e o Imperador nao quis exu- ma-la. Limitou-se a perguntar: Quantos sois? E eles lhe responderam: Quatrocentos. Napoleéo retor- quiu: Como poderei impor ao povo a religiao de apenas quatrocentos adeptos?! E adotou a Re- ligido Catdélica, “por ser a religiado da maioria do povo francés e por ser a minha religiao”. Deste episéddio, pretendo fazer apenas uma observacao, isto é, que Allan Kardec, para fun- dar sua religiao, no seguiu o conselho de Barras. Sua investidura, entretanto, foi bem original. A 30 de Abril de 1856, uma cesta passou-lhe o respectivo diploma de fundador do novo credo, escrevendo, entre outras, estas palavras: “Tout sera détruit... If n’y aura plus religion et il en faudra une, mais vraie, grande, belle e digne du Créateur... Les prémiers fondements en sont déja posés. Toi, Rivail, ta mission est 14”. . Um ano mais tarde, em Maio de 1857, a mé- dium vidente, Mme. de Cardonne, lhe revelou ainda: Etre -Lepeaux quei- 27 “Vous étes plus fail pour devenir le centre de déve- loppement immense, que capable de travaux isolés. .. Vos yeux ont le regard de la pensée... Je vois ici le signe de la tiare spirituelle. I est prononcé... regar- dez”. E refere ele, candidamente: “Je regardai et ne vis rien de particulier”. Apesar disso, perguntou, um tanto céptico ante a estranha tiara, com que se Ihe queria cingir a fronte sonhadora: “Qu’entendez-vous par tiare spirituelle? Voulez-vous dire que je serai pape? Si cela devait étre, ce serait cer- tainement pas dans cette existence”. Mas a vidente explicou-lhe: “Regardez que j’ai dit liare spirituelle, ce qui veut dire autorité morale et religieuse, et non pas souveraineté effective”. E foi assim que Leao Hipdlito Denizart Rivail foi sagrado papa do espiritismo, recebendo a tia- ra espiritual das maos de Madame de Cardonne, e passou a chamar-se Allan Kardec, nome que os espiritos lhe revelaram ou que ele imaginou ter si- do o de sua antiga encarnacio, quando fora um poeta celta (cuja existéncia constitui mera hipo- tese gratuita). _ Nao discuto onde se teria decidido envolver Rivail em assuntos de tao leviana gravidade. 0 certo € que, assumindo o exercicio de suas atribui- oes papais, Allan Kardec tratou de escrever uma serie de livros, codifieando 0s pontos cardeais da ae doutrina ou filosofia, a qual assim pode set ators Deus, para conduzir a humanidade 2° indivi, 10 supremo, fez-lhe trés revelagdes: duas ais e uma coletiva, a saber, a de Moisés, # 28 de Jesus Cristo e a das mensagens ou comunicacdes espiritas. A lei de Jesus ab-rogou a lei de Moisés ¢ as comunicagdes espiritas ab-rogam as leis de Jesus, isto é, as leis da Igreja, porque esta ja niio pode acompanhar o progresso da ciéncia e quer ape- nas dinheiro. Nada de inferno. As almas foram criadas por Deus e langadas no espaco, onde, por sucessivas encarnagées, vio atingindo a per- feicio necessaria para entrar na posse de Deus. Entretanto, elas se comunicam com os homens, a fim de instrui-los e informa-los, através dos médiuns, servindo-se do perispirito ou fluido vital, de que sao revestidas. A tinica lei moral é a cari- dade. Examinemos sucintamente estes pontos doutri- narios do espiritismo e consideremos a sua in- consisténcia légica: 1) As evocagdes. 2) A reen- carnagio. 3) O perispirito ou fluido vital. Antes de entrar na apreciacao dos trés pon- tes baisicos da doutrina espirita, convém notar que, segundo os auxiliares, de que se serviu Allan Kardec para a confecc&io do corpo doutrinario espirita, tais teorias apenas reproduzem as idéias do préprio Kardec e dos ditos auxiliares, isto é, sio frutos de suas leituras e conhecimentos. Nada mais. Nao ha, nas mensagens que a originam, re- velacio de alguma doutrina até entéo desconhe- cida. Diz o médium Douglas Home: “As revelagoes de Kardee niio passam de suas proprias idéias impostas aos médiuns (pois cle era magnetiza- 29 dor) e por ele depois corrigidas” (Cf. Guenon, L'er- reur spirite, p. 34). O dr. Dechambre diz que é manifesta a in- fluéncia de Fourier e Pierre Leroux nas idéias de reencarnagio e evolucionismo, que se encon- tram nas revelagées kardecistas (Ibidem). Num artigo de Flammarion, em Annales poli- tiques et parlamentaires (7-5-1899), lé-se a seguin- te gravissima confissio: “J’ai été moi-méme le médium ect Allan Kardee a publié, dans son livre de la Genése, les dissertations que j’écrivais et que signais Galilée. Elles sont, de toute évidence, le reflet de ce que je savais, de ce que nous pen- sions a cette époque sur les planétes, sur les étoi- les, sur la cosmogonie, ete. Elles n’ont rien appris”. Faz notar que o espirito que se entretinha com Vitor Hugo, em Jersei, sob o nome de Ombre du Sépulcre, era o proprio Vitor Hugo dando respos- tas a si mesmo. Victorien Sardou, que, ao surgir do espiritismo, se entregava avidamente aos estudos de filoso- fia, metafisica e astronomia, tendo-se encontra- do um dia, em Paris, na residénéia de Mme. Ja- phet com Allan Kardec, escreveu: Lorsque, de concert avec lui nous demandames esprit pré- sent de déterminer la base du dogme spirite, c'est moi qui rétablis — guidé par mes lectures — le Sena, sles: renoaags mal interpretées ou obscures ells et je dictai ainsi, en trois’ séances; ero de la doctrine qu’Allan Kardec devait, par la suite, développer”. Com razao observou Lucien Roure; “Au sul 30 plus, c'est par emprunts que le spiritisme doctri- nal c’est constitué, c’est d’emprunts qu'il vit. Avant Allan Kardec et les esprits, Jean Reynant, Pierre Leroux, Charles Fourier, Eugéne Sue ont pro- fessé la métempsycose ou la migration des ames. Le spiritisme les a suivi” (Op. cit., p. 346). Acresce que as nocées de Deus e de alma, eles as colheram na Biblia, deturpando-as. A idéia de Deus juntam nogGes panteistas e a alma, no- goes materialistas, em que pese o seu espiritis- mo. Sobre Deus, disse Léon Dénis, um dos fun- dadores da seita: “Para nés, a idéia de Deus nao exprime a idéia de um ser qualquer, mas a idéia do ser que contém todos os outros seres. O mun- do renova-se incessantemente em suas partes; o todo é eterno....” (Aprés la mort, p. 144, 145). Sobre a alma, disse Allan Kardee: “Nao sabe- mos se 0 principio inteligente tem a mesma ori- gem que a matéria... ou se é uma emanacao da Divindade” (Le livre des Esprits, p. 12). “E’ me- nos exato dizer que os espiritos sao imateriais. . - porque o espirito, sendo uma criacio, deve ser al- guma coisa: é a quinta-esséncia da maléria (Ibi- dem, 78, 82), ne E 0 mais original é que tal doutrina se intitula “Espiritismo”. AS EVOCAGGES. ESPIRITAS A velha pretensio de manter relagdes com 0s mortos nfo encontra base légica nem na ae Necromancia nem no moderno espiritismo, pelas razoes seguintes: 31 1) Sabemos, pela filosofia, que o homem é um composto de duas substancias incompletas e unidas, a saber, alma e corpo. A alma anima 0 corpo, e este, por meio de seus aparelhos orga- nicos (os cincos sentidos externos), fornece a al- ma as imagens ou idéias com que ela forma os seus conhecimentos. O corpo sem a alma é ca- daver. E a alma sem o corpo fica privada de obter novos conhecimentos fisicos ou de entrar em re- lagdo com o mundo fisico, 0 que s6 seria pos- sivel aos puros espiritos, isto é, aos espiritos criados como substincias completas em si mesmas, sem dependéncia de qualquer outra substancia. Digo “novos conhecimentos fisicos”, porque a alma se- parada do corpo podera receber conhecimentos sobrenaturais e os recebe na visao beatifica de Deus. Mas com o mundo material ela sé se po- deria comunicar por especial permissio ou dis- posigio do Criador, de quem exclusivamente pas- sa a depender. A alma separada do corpo, com a morte, no tem, pois, conhecimento do que se passa nas ses- sdes espiritas e muito menos pode a elas com- eae aca corpos € pessoas dotadas de 4 So repugna aos principios filosdfi- cos, que estudamos na antropologia. ee aes espirita colide flagrantemente os espiritas es valle an fy sip eae aa 4 a alma, apés a morte, volta 2 alé aleancas emer aeeneannn sucessivamente to. Ora, se a alina inado grau de aperfeigoamen- * volta a encarnar-se, apos a mor- 32 te, como podera assim reencarnada comparecer is sessdes espiritas e ai cometer as traquinadas que se lhe atribuem? 3) Mas a grande e insoltivel dificuldade das evocagdes espiritas consiste na identificacio des- ses espiritos, que se comunicam. Como identificar que 0 espirito que se diz a alma de A ou de B seja de fato a alma de A ou de B e nfo outro espi- rito? Muito se tem feito para conseguir uma iden- tificacio nitida e incontestavel. Mas, segundo o depoimento de eminentes. espiritas, tudo tem si- do baldado. F. W. Meyers, membro da Sociedade de Pes- quisas Psiquicas de Londres, sentindo-se perto de morrer, escreveu uma mensagem, fechou-a num envelope espesso, selou-o e o entregou a Sir Oliver Lodge, membro da mesma entidade cientifica, ro- gando-Ihe que o guardasse em lugar seguro, pois, apds a morte, viria repetir a mesma mensagem através de um médium e assim se teria uma pro- va irretorquivel de identidade. Lodge depositou o envelope no cofre de um banco de Birmingham, e combinou com Marcel Mangin as precaugdes a serem tomadas para que se efetuasse a prova com absoluta garantia. E’ claro que ninguém sabia o contetido da mensa- gem. Isto foi em 1891. Em 1901 faleceu Meyers. Por varias yezes Lodge tentou comunicar-se com ele, através da médium senhorita Piper, nada con- seguindo. Em Dezembro de 1904, a sra. Verral, que nfo era médium profissional, mas praticava escrita automatica, comunicou ter recebido um ser que A Musio — 3 33 se dizia o falecido Meyers. Sir Oliver Lodge con- yocou uma comissio da S. P. P. e diante dela, es- tando em funciéo a médium, foi aberto o docu- mento de Meyers. Verificaram os presentes que nao havia a mi- nima semelhanca entre a mensagem deixada por Meyers e a escrita automatica de Verral. Lodge desculpou seu amigo Meyers, dizendo que este se esquecera do que havia escrito... Outras tentativas deste género nao tém pro- duzido melhor resultado. Lombroso, v. g., prometeu que, depois da mor- te, traria uma prova de identidade, mas nunca a trouxe, talvez também por esquecimento... 0 caso de Hodgson, que Poot supde verdadeiro, foi desmentido pelo professor Hyslop e por E. Funk (Conf. Grasset, Idées médicales, p. 155). Alias, varios médiuns tém declarado catego- ricamente que nunca se conseguiu identificar es- pirito algum. Oucamo-los. Camilo Flammarion atestou: “Nenhuma iden- tificagao ja se fez satisfatoriamente” (Forgas na- turais desconhecidas, p, 583). “Em vao procurei até aqui prova certa de identidade nas comunica- ges medilinicas” (Ibidem, p. 598). L. P. Jacks, professor de Oxford, presidente da S. P. P., afirmou: “Na minha opiniao, o pro- blema da identidade pessoal completa deve ser examinado e pesado detidamente, antes que C0 mecemos a produzir provas em favor da ide? lidade” (Juxta Godfrey Raupert). A. Conan Doyle observou: “Vés estais numé 34 extremidade do telefone; mas nfo sabeis com cer- teza quem esta na outra extremidade” (The New Revelation, p. 21). Aksad definiu: “A prova ab- soluta de identidade para as personalidades que se manifestam é impossivel” (Animisme et Spi- ritisme, p. 623). Gastio Mery opinou: “Seré possivel que um espirito evocado dé provas de sua identidade? Nao o julgo possivel” (Echo du merveilleuz, p. 63, 1906). 4) Alguns médiuns tém mesmo confessado ine- quivocamente que nao sao almas de mortos que se manifestam nas sessdes espiritas. O célebre médium Daniel Douglas Home, pou- co antes de morrer, esclareceu a seu médico Dr. Filipe David: “A verdade é que essa multidao de espiritos, diante dos quais se ajoelham as almas crédulas e supersticiosas, nunca existiram. Eu, pe- lo menos, nunca os encontrei em meu caminho. Ser- vi-me deles para dar as minhas experiéncias essa aparéncia de mistério que sempre agradou As mas- sas, sobretudo as mulheres, mas nunca acreditei em sua intervencaio nos fendmenos que produzi e que eram atribuidos a influéncias de além-ti- mulo. Como poderia eu acreditar neles? Sempre fiz dizer aos objetos que eu influenciava com 0 meu fluido tudo o que me agradava. Nao, um médium nao pode crer nos espiritos. F’ mesmo ° unico que nfo pode crer neles! Como 0 antigo Drui- da, que se ocultava no tronco do caryalho pare fazer ouvir a voz temida do deus Teutalis, 0 médium nao pode crer em seres que nao exis- ae 35 tem senio por sua vontade” (La fin du monde des esprits, Filipe David, p. 171). Camilo Flammarion nao foi menos explicito: “De que espécie sao esses seres? Nenhuma idéia podemos ter a tal respeito. Almas dos mortos? Estamos longe de dar prova disso. Minhas ob- servagoes de mais de 40 anos provam o contrario” (Op. cit., p. 583). 5) Os proprios espiritos, que se manifestam nas sessdes, mais de uma vez tém afirmado que nao sio almas dos mortos. Refere Godfrey Rau- pert que, estando sériamente preocupado com o problema da identidade dos espiritos manifestan- tes, realizava continuas sessdes em casa amiga, tomadas todas as precaugdes para evitar engano. Certa vez, manifestou-se um espirito dizendo ser o de um seu amigo e conhecido dos presen- tes, T. J. Pelas repetidas comunicagées, todos es- tavam ja suficientemente convencidos da iden- tidade, menos ele, o pesquisador. Em dado mo- mento, o espirito cometeu um equivoco. Raupert demonstrou-lhe a inverdade e, levantando-se, im- pos: “Pergunto-te, em nome de Deus, és realmente o falecido T. J.? A resposta foi imediata: Nao. — Entao, pergunto-te, em nome de Deus: On- de obtiveste informagdes, que te tornaram p0s- sivel esta fraude? — Na propria caixa bronca do vosso pensa- mento. Estais sentados ai como idiotas em situa- Gao passiva e eu leio as vossas idéias quase tao Seguradamente como vés, uma pagina de voss° 36 Novo Testamento (Conf. Raupert, O Espiritismo, p. 30 e 31). : O sr. Dejardins, célebre espirita de Angers, na Franga, narra como abandonou o espiritismo, Fazia ele constantes evocagées por intermédio de sua esposa. Tendo evocado, uma tarde, o espiri- to de sua mae, depois de alguns momentos de con- versa, duvidou da identidade do interlocutor, En- tho perguntou: — Queres me dizer 0 teu nome? — Nao. — Por qué? — Nao. — Forecar-te-ei. — Nao. Depois de alguns esforcos, conseguiu colocar um terco sobre a mesa e o espirito: — Rio-me de teu tergo. — Nao tens medo de meu tergo? — Nao. Ele colocou o terco sobre a mfo da médium, que resistia fortemente e a mesa bateu: — Partir. — Queres partir? — Sim. — Quem te faz sofrer? — Teu tergo. — Tu nfo gostas do tergo? — Nao. — Queres sofrer? — Sim. — Em nome de N. S. Jesus Cristo, ordeno-te que me digas quem és. 37 — Satanas. — Tu és Satanas? — Sim. — Quem te forga a confessar? — Deus, ~ — Entféo cada vez que Mas sessoes espiritas consultamos nossos pais, nossos amigos defuntos, eras tu que, para melhor nos enganar, te mani- festavas? — Sim. — Quais os nomes que tomavas? — Os de teu pai, de tua mie, de teus tios, de tais e tais pessoas... — E eras tu sempre? — Sim. — Qual era o fim que tinhas com isso? — Perder-te, seduzir-te. — Pois estas enganado, salvaste-me. Eu tinha até entaéo algumas dtividas sobre minha religiio, mas hoje acabaram-se. E para melhor te pro- var que perdeste o teu tempo, eu e minha mu- lher iremos nos confessar e comungar pelo Natal (Conf. Astral, O espiritismo idiante da ciéncia, da moral e da religido, p. 33, Baia 1899). A mim mesmo uma piedosa senhora narrou, em Teresina, que, tendo uma sua amiga ingres sado no espiritismo, ela fez-lhe uma visita dU- ponte a qual aconselhou-a encarecidamente a aba ih acta ce pois sio condenadas pela Igre- gao. Mas a cise a so7 st postolado a oy Piritas, falava Se epee Se gS BEE ee ‘ seus parentes e que isto The 38 proporcionava muito consolo, Ela Propés A dissi dente que, quando se manifestasse qualquer eas pirito dizendo-se seu parente, esta rogasse instante- mente a Deus que, a fim de melhor orienté-la no caminho da salvac&o eterna, fizesse declarar sey verdadeiro nome. E assim aconteceu. No momento em que o médium comegou a escrever afirman- do ser o espirito de um seu parente, a transfuga orou, com fervor, a Deus que obrigasse o mes- mo a declarar quem era. Imediatamente o médium interrompeu a escrita e assinou: Satands. Como, pois, acreditar que as almas dos mor- tos se manifestam nas sessdes espiritas, se isto repugna aos principios da filosofia, se esta em conflito com a mesma doutrina do espiritismo, se nunca ninguém conseguiu identificar uma des- sas almas e se os préprios espiritos manifestantes, quando intimados em nome de Deus, confessam que nao sao almas de mortos? A REENCARNACAO Nenhuma teoria religiosa é mais antiga do que a reencarnagdo, que tem recebido no fluir dos séculos varias denominagées, tais como, pa- lingenesia — nova existéncia, metempsicose — transmigracao da alma ou metassomatose _— ma danca de corpo. Pitagoras € Platao figuram e! tre seus mais remotos adeptos; Lessing, Sean Jennyus e Fournier, entre os mals pacenloaiaa ot a este Ultimo que Allan Kardec se filiou pai confeccio de seu sistema doutrinario. 39 Entretanto, nenhuma teoria é menos subsis- tente, pois contradiz os mais comezinhos princi- pios da antropologia (sobretudo no que:concerne a psicologia), da moral, da justiga e da_ prépria Escritura, em que modernamente se tem preten- dido apoiar. 1) A reencarnagio supé6e que a alma existe antes do corpo. Mas a alma humana é uma subs- tancia incompleta, criada para formar, juntamen- te com o corpo a que é destinada, uma _ pessoa, O estado de vida erratica nao condiz com a con- digéio incompleta da alma. Para isso seria neces- sario que alma e corpo fossem substancias com- pletas, as quais, unidas, j4 nao formariam uma pessoa, mas uma sociedade ou agregacao. O ho- mem nfo seria uma pessoa responsdavel, mas dois individuos ou duas substancias, cada uma com a sua responsabilidade. A psicologia também repele a teoria da reen- carnacgéo, pois nenhum homem tem _ conscién- cia de ter existido antes de sua vida atual. Possui- mos, além da memoria sensitiva, extensiva aos animais, a memoria racional, propria da alma espiritual. Ora, essa memoria acompanha a alma, pois 6 uma de suas faculdades essenciais. Ea prova esta em que, com a mudanca sucessiva de nos- sas moléculas, nio perdemos a lembranga de nos- so passado. Um homem de 60 anos nao é mais, fisioldgicamente, o mesmo que era aos 20; todas as suas moléculas foram substituidas, Entretanto, ao consciéncia de stia identidade. Se, pois, ‘os existido em outra fase, teriamos diss0 40 a recordagao. Mas nenhum homem tem tal re- cordacio. Logo, nenhum homem teve outra exis- téncia. 2) Se a alma, com a reencarnaciio, expiasse os pecados, tal expiacao seria automatica e a existén- cia seria um estdgio obrigatério, em que desapare- ceria a responsabilidade ou norma de moral. Irres- ponsavel, o homem se poderia entregar indiferen- temente a todas as praticas, boas ou mas, pois a sua existéncia ou suas existéncias seriam sequéncia inevitavel ou peregrinacéo mecdnica e preestabe- lecida. Isto no caso em que, como dizem alguns espiritas, Deus criasse as almas em estado de im- perfeicdo para que elas, com as reencarnacées, se fossem aperfeigoando ou purificando (explica¢io com que eles respondem A objecao de que a pri- meira existéncia humana seria descabida, pois nao Seria expiagdo de nenhuma outra). Cairiamos no fatalismo. 3) Pessoa é o ser responsavel. Ora, a pessoa humana é composta de alma e corpo. Logo, a responsabilidade humana recai sobre essas subs- tancias incompletas, que unidas formam o homem. A pessoa humana, pois, compete o prémio ou 0 castigo de seus atos. Mas, pela teoria kardecista, uma pessoa sofreria o castigo pelos atos de outras Pessoas, porquanto em cada encarnacao, a alma, unindo-se a um corpo diferente, tornar-se-ia uma Pessoa diferente. Alias toda punigao, para ser cor Tetiva, deve ser consciente, isto é, torna-se ™mIS- ter que o paciente conheca 0 motivo ou o crime Por que é punido. Mas, ninguém tem consciéneia de 41 outra existéncia nem dos atos que teria cometido nela. Logo, a reencarnacao seria sangao injusta ¢ quimérica. 4) A Sagrada Escritura, em que alguns espi- ritas pretendem apoiar sua doutrina, nao con- tém um 86 trecho que demonstre ter 0 homem mais de uma existéncia. Pelo contrario, o que S. Paulo afirma insofis- mavelmente é que “foi estabelecido por Deus que o homem morra uma s6 vez — statutum est omni- bus hominibus semel mori” — e que, “depois da morte, se seguira o Juizo — post hoc autem judi- cium. No Evangelho, Jesus repete frequentemente que todos devem estar preparados para a morte e nao faz a minima referéncia a outra vida terrena. Esclarecendo qualquer dtivida a este respeito, ele explicou a Nicodemos que o homem sé renas- ce espiritualmente, isto é, pelo batismo. Onde os espiritas julgam estar dito que Joao Batista era a reencarnacdo de Elias, nada se po- de aduzir em favor de sua assertiva: a) porque esta na Escritura que Elias nao morreu (Livro dos Reis, V, 2-11); b) porque, no monte Tabor, apareceu Elias, durante a transfiguracdo, tendo ja morrido Joao Batista, o qual era quem deve- ria ter aparecido, se fosse a reencarnacio de Elias; ¢) porque os fariseus perguntaram a Jodo Batista se ele era Elias (Elias es tu?) e ele respondeu peremptoriamente: Nao sou (Non sum). 5) Os proprios espiritas nfo estio concordes neste ponto da reencarnacio. Alguns dela discoT dam. Richet, que os espiritas julgam participar de 42 suas teorias, afirmou: “Sobre a reencarnacio s6 temos dados tao frageis e tio incompletos que, sob 0 ponto de vista cientifico, podemos dizer que estio no vacuo” (Traité de Métapsychique, p. 465). O Congresso Espirita Internacional, reunido em Liége, no ano de 1923, registou o seguinte dia- logo entre dois préceres espiritas: Drouille — Em geral diz-se que a reencarna- cio é uma lei gragas 4 qual o espirito evoluciona e se eleva, expiando as faltas cometidas em exis- téncias precedentes. O que eu queria saber é a razao por que o espirito tem necessidade de ma- téria para evolucionar e elevar-se, e, sobretudo, como pode ser admitido por alguém que, estando apagada a idéia do passado, seja possivel ex- piagdo. A. Dragon — Posso dizer: A reencarnagio, tal como tem sido exposta hoje, nado passa de uma teoria para meninos de escola primaria. O PERISPiRITO Nao é de estranhar a hibridez do vocabulo, pois hibrida é também a idéia, que ele repre- senta. Imagina-se uma substancia, ao mesmo tem- Po corpérea e incorporea, material e imaterial, com figura e sem figura, extensa e inextensa, racio- nal e irracional, simples e composta, isto é, dotada de todos os atributos do corpo e dos da alma — tal seria a estranha subst&ncia, a quem os espiri- tas, por supina infelicidade morfolégica ou igno- rancia de linguistica e semantica, deram essa de- nominagao meio grega e meio latina de peris- 43 pirito. Entretanto, outras denominagoes lhe tém sido impostas: corpo astral, corpo psiquico, corpo 6dico, od, ectoplasma, mediador plastico, forga ecténica, fluido vital, fluido humano, fluido espi- ritual, ete. A idéia nao é nova, pois refere Santo Tomas terem afirmado certos platénicos que a alma inte- lectual possui um corpo incorruptivel que lhe es- ta unido por natureza — corpo de que ela nao se separa nunca e pelo qual esta unida ao corpo hu- mano corruptivel (Summa Theologica, p. 1, q. 76, a 7). Mainage (La religion espirite, p. 112) lembra que essa concepcao é a mesma do Ka egipcio, do Manas védico e do Lingua Cherira pré-bidico. E Poodt (Los Fendémenos misteriosos) acha-lhe afi- nidade com o Koma teoséfico. Também alguns Santos Padres, como S. Ci- rilo de Alexandria, conjecturaram a existéncia de uma substancia corpérea inerente as almas, com o que tentaram explicar as aparigdes dos santos e dos anjos, de preferéncia 4 hipétese da formag&o momentanea de uma figura material. Nao ha, porém, nenhuma razao de ordem filosé- fica ou experimental que sustenha a hipétese do perispirito que, alias, sorriu a alguns filésofos antigos e modernos, como Occam, Bacon, Gas- sendi, Guenther, Beltzer, etc. = Tal fluido vital criaria no homem duas fon- tes de vida ou duas almas: a racional e a végeto- Snaitive ou animal. Teriamos dois principios de Peracées, entre si independentes. Ora, bioldgica- mente nio ha duplicidade vital no homem. H4 44 entre as operagoes psiquicas e organicas a mais estreita correlagao, a tal ponto de repercutirem in. tegralmente em nossas funcoes animais as emo- Ses meramente espirituais. Quantas perturbacées fisioldgicas se registam didriamente e até sincopes cardiacas ou paralisias organicas provocadas por traumatismos puramente morais ou psiquicos? Tal nao, aconteceria se o principio vital do corpo fosse independente do principio espiritual, isto é, se existisse 0 perispirito. A consciéncia nao nos indica duplicidade, mas identidade de sujeitos, isto é, temos consciéncia de que somos 0 mesmo que pensa e que sente, no di- zer de S. Tomas: “Idem homo percipit se sentire et intelligere” (Summa Theologica, p. 1, a. 76). Alids, se existisse em nés um principio vital distinto do racional, ou seja, o perispirito, nio conheceriamos a dor, isto é, nfo teriamos dela conhecimento inte- lectual, pois ela nao passaria além de nossa vida senséria. Mas a consciéncia nos diz que 0 eu pen- sante 6 o mesmo que sente a dor. A alma é, pois, a forma-substancial do corpo e o principio radical e wmico da vida intelecti- va, da vida sensitiva e da vegetativa, sem inter- mediario de qualquer espécie. O perispirito é uma hipdtese absolutamente gratuita. E o que gratui- tamente se afirma, gratuitamente se nega. A propria Sagrada Escritura, em que 0s es Piritas baseiam a sua doutrina, nenhuma refe- réncia, direta ou indireta, fez jamais 4 existéncia do perispirito. Narrando a origem do homem, des- creve como Deus o criou, sem a minima alusio a 45 essa hipotética substancia’ intermediaria. eg for- malmente que Deus fez 0 homem de argila e so- prou nele o espirito, sem dar mergenaya qualquer interpretacio de perispirito: “Formavit Deus ho- minem de limo terrae et inspiravit in faciem ejus spiraculum vitae”. Sobretudo, se existe em nosso corpo tal subs- tancia, ela sera necessariamente registada por al- gum aparelho mecanico. Temos tantos aparelhos sensibilissimos, por que nao haveriamos de cap- tar o perispirito, de vez que haja nele qualquer par- te material? E é precisamente nisso, que se tém empenhado alguns resolutos cientistas. Vejamos o que tém eles conseguido. Em 1893 o dr. H. Baraduc publicou o seu livro La force vitale, notre corps vital fluidique, sa formule biométrique. Todo ele versava em torno da exteriorizacao do dinamismo humano, teoria ilustrada com experiéncias feitas por meio de um aparelho denominado magnetémetro, mais tar- de aperfeicoado e substituido por outro que re- cebeu de seu inventor o nome de bidmetro. Es- te aparelho, dotado de bobinas, electro-ima, qua- drante dividido em 360 graus e do respectivo pon- teiro indicador, tinha por fim marcar com exa- tidao a intensidade do fluido vital nas maos com que estivesse em contacto. Cerca de trezentas ex- periéncias foram feitas com pessoas diversas, va- riando os efeitos com as disposicdes fisiolégicas dos sujeitos. Trés anos depois, o dr. Baraduc lan- gou outro livro, desfazendo ou respondendo as ob- Jecgoes atiradas ao seu primeiro trabalho, Ess@ 46 segunda obra tinha por titulo L’éme humaine, ses mouvements, Ses lumiéres, Nela o autor demons- trava, com farta argumentagio cientifica, que o movimento da agulha de seu aparelho nao era determinado pelo calor nem pela eletricidade, mas yerdadeiramente pelo fluido vital. Novos aperfei- coamentos foram introduzidos no aparelho, a fim de evitar todo e qualquer equivoco. As experién- cias, que se sucediam ininterruptamente, eram re- gistadas e fichadas com data e hora especificadas. Tomemos, ao acaso, 0 registo de uma delas — a realizada com a mao do sr. Majewski, a 28 de Abril de 1901: Indicagiio inicial da agulha .. . 83,9 Apés 3 minutos de contacto . 84,2 Apés 5 minutos de contacto .. . 86,6 Diferenga. sc. socee/s-sisis vie wales o's 2,7 Tais demonstragdes tornaram-se objeto de vio- lentas contendas, no mundo cientifico, despertan- do geral interesse e, ao mesmo tempo, novos e mais aperfeicoados aparelhos, como o estendme- tro do dr. Joire, o galvanémetro do conde Puyfon- taine e o invento do sr. Fayol, até que o sr. Branly, tomando uma luva de couro, encheu-a de agua ele- vada 4 temperatura de 37 graus, aplicou-a ao bid- metro e a agulha registou a mesma oscilacg&o das experiéncias feitas com a mao humana... Mas ao dr. Max Dougail, americano, acudiu cutra idéia mais pratica, ou melhor, mais ameri- cana, Se o fluido vital ou perispirito tem algo de material, é ponderavel e por que nao pesa-lo? Isto nfo seria das coisas mais dificeis. Tomando um 47 moribundo tuberculoso, colocou-o com o leito sobre uma balanga e verificou que ele perdia 30 gramas por hora, o que atribuiu 4 evaporizacao pela trans- piraciio e respiragao. No momento em que o doen- te expirou, a balanga registou o decréscimo de 22,50 gr. Tomando outro moribundo, registou que, du- rante trés horas, ele perdeu 22 gr por hora e, no momento de expirar, 15 gramas. Dez minutos de- pois, a diferenga era de 47,655 gr, O sr. Pedro Piob (conde Vicenti), presidente da “Sociedade de cién- cias antigas”, narrando com maxima seriedade o caso, na revista Ano ocultista e psiquico (1907), julga que aquela perda corresponde ao peso do flui- do vital ou perispirito. O mais original, em tudo isso, é que os an- tigos gregos de Alexandria procederam a idén- ticas pesagens de moribundos e constataram que, com a morte, eles aumentavam de peso, o que um tal Sorano de Efeso explicava com o fato de cessar o corpo de ser sustido pela alma, a semelhanca do navio que, retirado da agua, aumenta o seu pe- so por cessar de ser sustido pelo liquido (Conf. Tertuliano, De anima, VII1). Em que acreditar? S. Tomas classificou a essa espécie de goma arabica, com que os antigos platénicos e os m0- dernos espiritas pretendem ligar a alma ao cor- po humano, de ficgdo ridicula. CAPITULO VI OS FENOMENOS ESP{RITAS E SEU VALOR INTRINSEGO Se atendermos ao valor real dos fenédmenos chamados espiritas, os, dividiremos em trés ca- tegorias: ou eles resultam de fraudes, ou sao pro- duzidos por forcas naturais ainda pouco conhe- cidas, ou provém de causas preternaturais. Efetivamente tudo quanto se tem dito e escrito a respeito de espiritismo nao saiu ainda dessas trés esferas mais ou menos ampliadas. Alguns au- tores — os cépticos — pretendem tudo explicar pela fraude ov prestidigitagao; outros — os ani- mistas — atribuem todos os fatos a forgas naturais pouco estudadas; enquanto uma grande parte — abrangendo sobretudo os espiritas het vé em tudo a intervencfio de entes sobrenaturais, Masa ver- dade é que ha um pouco de tudo. Fagamos algu- mas rapidas consideragoes sobre cada ponto de Per si. FRAUDES Inegavelmente a quase generalidade dos fe- hémenos ocorridos nas sessdes espiritas silo frau des. HA disso relacdes documentadas de autores 49 A Musto — 4 varios, que se deram ao trabalho de coligi-las en- tre os mais célebres médiuns do universo. Alias alguns casos de fraudes meditnicas tem atraido a atengio publica por terem chegado as barras dos tribunais. Nao ha, pois, como recusar ou escusar as fraudes das sessdes espiritas, sem detrimento da verdade e da justicga, Allan Kardec mesmo, em seu Livro dos médiuns, consagra 0 capitulo XXVIII a apontar as fraudes, charlatanismos e prestidigi- tagdes de muitos médiuns. O espirita Geley em seu livro Essai de revue générale du Spiritisme, observa que o médium, qualquer que seja a confianga que inspire, de- ve ser sempre fiscalizado, pois pode ser induzido a cometer fraudes. P. G. Leymarie, sucessor de Allan Kardec na direcéo de Revue spirite, mais de uma vez se in- digna contra os médiuns mistificadores. Hudson Tutle, médium americano, julga que devemos re- jeitar a metade dos dois tergos das manifestacgdes que passam por ser fenémenos espiritas. Azsakof, o maior dos espiritas russos, nado hesita em chamar certas mensagens espiritas de “falsidade impuden- te”. R. Fischner, ocultista, afirma: “Um médium honesto nao existe e falando paradoxalmente, po- demos dizer que nfo é suspeito 0 médium que en- gana, mas o que nao engana”. Paul Heuzé, um dos autores que tém examinado os fendmenos, afirma, em seu livro Ow est la métapsychique? (p. 142) : “Todos os grandes médiuns praticaram frau- des, desde as irmas Fox até Erto, passando por 50 Home, Florence Cook, Slade, Eglinton, Linda Ga- zera, Miller, Bailey, Mme. Williams, Ch. Eldred Craddok, Sambor, Ana Roth, de Sarrak, Marta Béraud, Lucia Sordi, Eusdpia Palladino, Miss Go- ligher, Ejnet Nielsen, Mascaras, Elizabeth Tomson, Lasslo, Guzik, etc”. Informa que Craddok, tendo como ctimplice sua esposa, foi desmascarado pelo coronel Mark Maygew e condenado; que Liicia Sordi foi desmascarada pelo barao Schrenck-Not- zing; e que Elizabeth Tomson envolvia-se em ga- ze de seda para simular espectro e foi desmascarada por um jovem, que, no momento da “materiali- zagao”, Ihe aplicou uma forte dentada no braco. R. Fischner informa que H. Slade foi apa- nhado em fraude e condenado a trabalhos for- cados e que Buguet, intitulando-se fotografo de espiritos, teve que confessar que suas fotografias sofriam duas exposigdes a fim de simularem pre- senga de espiritos. C. Richet diz: “Eu pude provar a fraude de Ana Roth: é fato que escondera as flores debaixo dos vestidos. Antes da experiéncia, pesou 58 qui- los e depois 57: as flores aparecidas pesavam exa- tamente 1 quilo” (Grundriss, p. 352). Eldred escondia, no espaldar de uma poltro- na, o de que precisava para suas apresenta¢oes. 0 fatégrafo de espiritos Bournel foi condenado pelo tribunal. Mme. Williams foi desmascarada em Paris, tendo em seu poder varios objetos que em- Pregava para produc&io de fantasmas. Um amigo aparentemente sério de Sambor o auxiliava. Bailey a 51 foi surpreendido, em Grenoble, quando compra- va os passarinhos, que dizia Ihe virem direta- mente da {ndia por via transcendental. Medoh foi condenado por fraude. Lasslo produzia ectoplasmas de algodao e gordura. Eusdpia perdeu, em Paris, um pedago de ferrocerium, com que produzia fe- némenos luminosos. Von Guzik foi apanhado em fraude por uma fotografia instantanea. Os célebres irmios Devepport, Ira Erastus e William, depois de percorrer os E. U. e a Inglater- ra, instalaram em Paris suas sensacionais ses- sdes no saléo Herz, ai pelo més de Setembro de 1865. O ntimero quic¢a mais maravilhoso consistia em se deixarem atar a uma cadeira, colocada dentro de um armario. Fechado este por alguns momen- tos depois reaberto, eles se mostravam inteira- mente desembaragados das ataduras (pelos espi- ritos). Mas um assistente um tanto indiscreto, su- bindo ao palco, apés o prodigio, mostrou ao pu- blico que uma das traves da cadeira era mével, deixando cairem as cordas. Houve um tumulto in- descritivel, que sé cessou quando o comissario de policia anunciou em voz alta: “Messieurs! on va vous rendre votre argent” (L. R., p. 204). Alias, ha, em Nova York, “escolas de mediuni- dade” ?, Essas constantes reincidéncias em fraudes tio Srosseiras tém levado alguns autores a concluir et ie ) Eine, tabela de uma delas, enviada ao Padre He- Baus Gaagpelatn em seu interessante trabalho: Alfredo i So Completo de Espiritualistica Moderna. 52 ue tudo, nas sessoes espiritas, sio fraudes, que se hoje nao foram ainda desvendadas 0 seraio ama- pha necessariamente. Tal é o pensar, v. g., de Bappert, A. Moll, M. Dessoir, A. Seltz, V. Bruech e outros. Nao é justo nem légico. Assim como é abso- lutamente certo que existem fraudes, é outros- sim absolutamente certo que existem fenédmenos produzidos por forgas naturais ainda pouco co- nhecidas, mas reais, de que a ciéncia nao duvida. Herbert Thurston S. J., membro da Society for Psychical Research, de Londres, escreveu a Gatte- rer: “A meu ver, a opiniaéo segundo a qual todos os fendmenos ocultos fisicos devem atribuir-se 4 impostura, nao sé é inveridica como também pe- rigosa para a sa apologética” (Conf. O Espiritismo @ luz da razao, p. 130). FORCAS NATURAIS POUCO CONHECIDAS Parece n&o padecer mais dtivida sincera e razoavel a existéncia de energias naturais, que atuam sobre o ser humano ou dele se despren- —_—__. _ Prego de Iniciag&io 1.000 délares — Consta do se- guinte: Escrita na ardésia . +. $350.00 Sessio de gabinete «$250.00 Sessio publica .. - $150.00 Fotografia de espi - 850.00 Materializacgio ...... $300.00 Ensaios de escrutinio $200.00 Vasos de Isis . $100.00 Mios atadas ... $25.00 dem, se bem que ainda nao suficientemente ely- cidadas ou controladas pela ciéncia. Alias, a Na- tureza, que nos envolve, impregnada de tantas for- gas, que a cada passo nos surpreendem © que aos poucos vamos regulando — ja elétricas, ja magné.- ticas, ja imaticas, ja raditimicas — nao poderia deixar de influir mais ou menos sensivelmente em nosso ser e érgdos corporeos. Verdade é que desconhecemos a natureza in- tima de tais forcas, cujos fendmenos averiguamos, como desconhecemos a natureza intima da eletri- cidade, cujos efeitos utilizamos quase a nosso bel- prazer. Mas a nao-explicacéio desses fendmenos nao é razdo para os negarmos ou negarmos a existéncia das causas que os produzem. Seja influéncia at- mosférica, seja predisposigao organica, o fato é que ha individuos dotados de propriedades in- comuns. Os rabdomantes, sem auxilio de aparelho, véem as correntes de Agua ou jazidas de minérios existentes no sub-solo. O conde Beausoleil des- cobriu 172 jazidas de varios metais, na Franca (1641), algumas das quais s&io exploradas até hoje. Jacques Aymard descobriu grandes correntes de aguas. Moineau descobriu os abundantes manan- ciais que permitiram a cidade de Toulon aumen- tar o abastecimento piiblico. O prof. Reese des- cobriu as jazidas de Petréleo de Rockefeller. Emi- lio José descobriu as da propriedade da princes’ Radsiwil e as de carviio nas terras do conde Potoki, da Polonia. 4 : ae sua faculdade radiestésica os rabdomal- es P. Marmaet e P. Bault localizaram os obuseS 54 soterrados pelos alemaes em terreno francés, apés o armisticio de 1918, prestando com isso inestimavel peneficio 4 causa publica. Quer 08 chamem de ele- tromotores, radiestesistas ou criptesistas, os rab- domantes existem e sfio de nimia utilidade, pela sua extraordinaria sensibilidade ou dom divina- tério, se bem que nado saibamos explicar o porqué de sua singular faculdade. Ha mesmo regides geo- graficas, em que é frequente tal propriedade, y. g, a Escdcia, o Tirol e Westfalia, na Europa (Conf. O Espiritismo a luz da razdo, p. 138 e ss.). Como a rabdomancia, ha outras forgas desco- nhecidas inerentes a sujeitos determinados, as quais poderao ser divididas em dois grupos gerais a saber: forcas hipnoticas e forcas telepaticas. Em 1778, 0 médico alemaio A. Mesmer insta- lou, em Paris, no hotel Bouillon, seus trabalhos hipnéticos, que tiveram retumbante éxito, pois, em poucos meses, magnetizou cerca de 8.000 pes- soas; mas lhe valeram. vigorosa oposi¢ao dos sa- bios e médicos, que finalmente conseguiram sua expulsio da cidade. Uma coisa, porém, ficou de pé, embora sem explicacéo: o fato inconteste e publicamente demonstrado da hipnotizagio. Refe- re L. Roure (op. cit., p. 5), baseando-se em Ernest Bersot (Mesmer et le magnétisme animal, p. 6-9): “Les effets sont divers. Quelques malades restent calmes et paraissent ne rien ressentir. Diautres toussent, crachent, sentent quelque légére dou- leur, une chaleur locale ou une chaleur par tout le corps et ont des sueurs. D’autres sont agités et tourmentés par des convulsions. Celles-ci 55 durent parfois plus de trois heures. Elles se ma. nifestent par des mouvements de tout le corps, par le resserrement de la gorgenpar des soubre- sauts des hypochondres et de l’épigastre, par le trouble et P’égarement des yeux, par des cris per- cants, des pleurs, des hoquets et des rires immo- dérés. Elles sont précédées ou suivies d’un état d’a- battement et méme d’assoupissement. Mais les ma- lades restent sous empire du magnétiseur. Quel- que soit leur état de torpeur, une parole, un re- gard, un signe de lui les en tire soudain”. E tais sao, em geral, os efeitos do hipnotismo, acrescentam alguns autores, que uma vez hipno- tizado, o sujeito passa a depender integralmen- te da vontade do hipnotizador, o qual, mesmo dis- tante, continua a exercer sobre ele eficaz influén- cia e pode fazé-lo dormir e agir mecanicamente durante o sono. Entre os sdbios ou pesquisadores, que desenvolveram o assunto, em estudos que po- dem ser consultados pelos interessados, figuram: Charcot (Les lecons sur maladies du systeme ner- veur); Ch. Richet (L’homme et Tintelligence); P. Richer (Etudes cliniques sur la grande hystérie, Paris, 1885); Meric (Le merveilleux et la science): Tourinde (L’hypnotisme) ; Moutin (Le nouvel hyp- notisme); Bernheim (De la suggestion et de ses applications 4 la thérapeutique) ; A. Moll (Der HyP- notismus, ou em inglés: Hypnotism, 1893); Eurice Morselli (Il magnetismo animale, la fascinazione ¢ a stati ipnotici); Lelong (La vérité sur Uhypn isme); P. Conconnier (L’Hypnotisme franc., Pa ris, 1898), que indica muitos outros trabalhos 50 56 re a matéria; Grasset (L’Hypnotisme cation, Paris, 1903). ie et la Sug- HA outrossim autores que admitem que, além da mente consciente, possuimos a mente subcons- ciente, onde sao gravados indelévelmente todos os conhecimentos, nogdes ou impressdes captadas durante a vida, as quais podem vir a tona, no esta- do de sonambulismo. Ita, Flournoy, Janet, Heredia, o dr. Alberto Seabra (Alma e sonambulismo) e o espirita Gabriel Delanne, os quais desse modo pretendem explicar muitas das mensagens obtidas nas sessdes espiritas (Conf. D. Otavio, op. cit., p. 28). Como o hipnotismo, atuando sobre o sistema nervoso, baseia-se num alto poder sugestivo do operante, a medicina se tem aproveitado dele pa- ra fins terapéuticos. Entre os médicos que o es- tudaram com este intuito, conta-se o inglés dr. Braid bem como o portugués Faria. No Brasil, dedicou-se, por largo tempo, ao emprego do hi- pnotismo para fins terapéuticos o dr. Antonio Fe- licio dos Santos, que publicou posteriormente um trabalho, expondo alguns casos encontrados nessa sua clinica e os motivos por que a abandonou (Casos reais a registar, passim). Alias, tal tera- péutica nao tem seduzido muito a classe médica, por serem os seus resultados um tanto caprichosos e de curta duragio. y Alguns tedlogos nfo reconhecem que os fend- menos hipnéticos sejam produzidos por causas haturais e os atribuem indistintamente a artes de- moniacas. Ita Ballerini, Franco e outros. Mas geralrhente os médicos, bem como os que 57 nao acreditam no sobrenatural, os atribuem a for- cas naturais e formulam variadas hipoteses, den- tro desse Ambito, para explica-los. A maioria dos tedlogos adere ao meio termo entre essas opinides opostas e divide tais fendme- nos em duas categorias: 1) Efeitos provavelmente naturais de hipnotismo inferior ou vulgar. 2) Efei- tos de hipnotismo superior ou ocultismo. Ita Lehm- kuhl, Génicot, Conconnier, Castelin, Matharan, Joannes Mir, ete. Eis alguns fendmenos que Ferre- res apresenta como atribuidos a meras forgas na- turais: Sob o império do hipnotizante, o hipno- tizado move o pé, a mao ou outro membro, ou o enrijece; levanta-se, ri ou chora; perde comple- tamente a sensibilidade, a tal ponto de nao sentir as mais acerbas dores (anestesia ou analgesia), ou, pelo contrario, intensifica a sensibilidade (hi- perestesia). Dai as curas de moléstias ou afeccdes do sistema nervoso, se bem que efémeras; dai as alucinagées positivas, pelas quais o hipnotizado, por sugestio do hipnotizante, sente o que nao existe como o fric ou o calor, e vé o que nao esta presente; dai as alucinacdes negativas, a tal ponto de que ele nfo veja o que lhe esta diante dos olhos nem ouca os maiores ruidos, que © cercam. Algumas vezes, mixime com os mais pe- ritos hipnotizadores, se podem dar ainda: 1) Su- gestdes pds-hipnoticas (ou sugestées a prazo), Pe- las quais o hipnotizado, num. determinado tempo marcado pelo hipnotizante durante o transe, V. 8» tantas horas, tantos dias e mesmo um ano depois, executa fielmente a sugestio recebida, embora, 58 cessado o transe, 0 ignore. 2) Duplicidade ou apa- rente mudanga de personalidade, quando 0 crisia- co (como chamam o hipnotizado) se julga ou- tra pessoa e age como tal, v. g., uma jovem jul ga-se um sacerdote ou militar e os imita (ou vice- versa). 3) Efusio de sangue na parte do corpo determinada pelo hipnotizante (Conf. Compendium Theologiae Moralis, n. 363, T. I). O mesmo autor apresenta alguns fendmenos atribuidos ao hipnotismo superior: Claro conheci- mento de coisas e ciéncias completamente ignora- das antes da hipnose, de tal sorte que um crisia- co rude e ignorante disserte proficientemente so- bre assuntos dificilimos ou fale linguas, que des- conhece; descubra moléstias e o lugar onde se encontram objetos ocultos; pela roupa ou por um fio de cabelo de pessoa ausente descubra sua moléstia. Transposicio dos sentidos de tal sorte que o paciente venha, v. g., a ver, ouyir ou chei- rar com o pé (Ibid.). Informa ainda Ferreres que os autores costu- mam distinguir varios estados durante o hipnotis- mo, porém que nfo estio de acordo quanto a ma- neira de distingui-los. Alguns supdem cinco es- tados: sonoléncia, sono leve, sono profundo, so- no profundissimo-e sonambulismo. Outros, seis; outros, nove estados. ‘ Charcot distinguiu trés estados durante a hip- Rose: a) catalepsia; b) letargia; c) sonambulis- mo. Pesch acha que esses fendmenos se produzem “segundo leis de associagao automatica, pelas quails 50 as afeccdes psiquicas se conjugam por natural coe- réncia” (Juxta Ferreres, Ibidem) y A Igreja, consultada sobre a liceidade do em- prego do hipnotismo para fins medicinais, reco- mendou mixima prudéncia em tal terapéutica, mas deixou margem para as pesquisas cientificas (Rescrito do Santo Oficio de 26-7-1899). A reserva da Santa Sé, a respeito, baseia-se no fato de se- rem frequentemente os fenémenos hipnoticos in- timamente ligados a fendmenos meditnicos. E foi precisamente por té-lo verificado de maneira ine- quivoca que o dr. Felicio dos Santos abandonou sua clinica hipnéotica e o espiritismo, passando- se 4 Igreja Catélica. Segundo informa ele em seu valioso optisculo, encontrou, nos fenémenos hip- néticos, frequente intervencfio positivamente dia- bélica. A telepatia, que alguns autores dividem em televisao, rabdomancia, psicometria, cumberlandis- mo, etc., ou subordinam tudo isso a criptestesia, tem sua vasta literatura prestigiada por nomes de real valor cientifico. Entre outros, figuram: A- N. Couvin (Experimentelle Untersuchungen) ; Char- les Richet (Grundriss der Parapsychophysik) ; G. Geley (Hellsehen — Teleplastik); Dr. Poodt (Los fendmenos misteriosos del psiquismo); H. Driesch (Psychische Forschung, Akademische Wissenschaft. 1926); Fischner (Einfithrung in den Okkultismus. 3) Tanquerey divide os fendmenos hipnoticos em somdticos, intelectuais ou mistos, segundo ctectam ape- TES 0 Corpo ¢ seus drgios, atingem a mente pela suses- e mental ou abrangem uma e outra coisa (Synopsis theo- giae dogmaticae ad usum seminartorum, T. 1, p. 495)- 60 + Spiritismus, Bergman, Munique 1921 & ss wald (Die intellektuellen Plisnonata ie, One jismus in Urkunden, Ulstein, Berlin, 1925); T. K. Gesterreich (Der Okkultismus im modernen Welt. pitd, Sibyllen-Verlag, Dresden 1923); E, Bozzano (Les phenoménes de Hantise, Alcan, Paris, 1920) Brabinski (Spuk-Geisterscheinung, Hildesheim, 1922), J. Mey (Ewiges Schweigen? Stuttgart, 1924), R. Lambert (Spuk, Gepenster, Apportphaenomene, Berlim, 1922), Kemmerich (Gepenster, Spuk, Lud- wigshafen, 192t). Como nao pretendo fazer aqui um estudo so- bre o assunto, limito-me a indicar as fontes, on- de os interessados poderiam encontrar os devi- dos conhecimentos. Quanto aos fenémenos, que se acham relatados e documentados nos traba- lhos supracitados, deixo-os ao juizo dos estudio- sos e apenas referirei um fenédmeno espontineo, por fazer parte de nossa literatura. E’ 0 caso telepatico do poeta-filésofo Tobias Barreto, nar- rado por seu amigo, o critico Silvio Romero: “Era em Dezembro de 1867. O poeta estava no engenho “Recreio” do coronel Joao Félix dos Santos, que veio mais tarde a ser seu sogro. Es- fava passando a festa, como se diz no norte. Era uma tarde, havia alegria, mogas, dangas € musica. Num momento, o émulo de Laurindo, que en- tao estava a cantar, caiu repentinamente em cho- To convulsivo. “Que é isto? Que tem, doutor?” bradaram to- dos os circunstantes, que se acercavam dele. 61 “Nao sei; alguma desgraga me aconteceu”. ° Foi a resposta do sergipano. Pouco depois recitava ele estes belos versos espontineamente ideados debaixo da comogao: Meu Deus! nao mais este laurel de espinho, Nao mais a dor, que o coragao devasta; Minh’alma é farta de martirios... basta! Deixa esta ave procurar seu ninho, No meu sepulcro nfo terei mais rosas, As doces preces que os felizes tém, Pobres ervinhas brotarao vigosas E o esquecimento brotaré também. Tudo conspira para o meu tormento, Sofrendo aos poucos, minha fé se apaga. Morto! é a frase que profere a vaga Triste noticia, que me traz o vento... Nem sobre a campa colherei saudosas Gotas de pranto que derrame alguém. Pobres ervinhas brotarao vigosas E o esquecimento brotara também. Estranha nuvem denegriu-me a sorte, Do mar da vida revoltou-me as aguas, As ondas batem sobre as minhas maguas E as brisas falam sobre a minha morte. No chao dos timulos: expansdes penosas Para dizé-las nao vira ninguém. Pobres ervinhas brotarao vigosas E o esquecimento brotara também. Meu Deus! Nao posso caminhar sdzinho Por entre as sombras, que esta vida encerra, Minha alma ansiosa quer voar da terra, No pd que habito nao terei as rosas, As doces preces que os felizes tém. Pobres ervinhas brotar&o vicosas E o esquecimento brotara também. - € a frase que profere a vaga, ‘oticia que me traz o vento... Morto! Triste 62 * “gB verao que foi um Derfeito caso que hoje se chama comunhio intuitiva. Tobias Barreto pas- sou ainda algum tempo no engenho de Joao Fé- lix, mas quando voltou ao Recife, recebeu cartas de Campos, em Sergipe: Seu pai tinha falecido no dia e hora em que ele sentiu o “nao sei que” que o fizera chorar”. INTERVENCAO PRETERNATURAL Nem todos os fenémenos chamados espiritas padecem explicacéo pela fraude ou pelo subcons- ciente do médium e dos circunstantes, a que alguns autores reduzem as mensagens e mesmo as mate- rializagdes_verificadas nas sessdes. Ha-os emba- racosos e insoltiveis, sob um critério meramente cientifico ou natural. E, é bem notar, registam-se, neste género, fatos pliblicos e notérios, testemunhados por populacgdes heterogéneas de grandes metrépoles, onde seria ina- ceitavel a hipdtese de alucinacao coletiva. Em principios do ano de 1846, a cidade de Paris foi agitada por fendmenos, que o orgito ofi- cial da policia francesa — Gazette des Tribunaux — registou em minuciosa nota, no seu n. de 2 de Fevereiro: “Fato extraordinario que nas trés ulti- mas semanas se repetiu toda tarde e toda noite, sem que as mais ativas investigagoes, a mais ex- tensa e constante vigilancia, fossem capazes de Thes descobrir a causa. Tem sido muito agitado o Populoso bairro de La Montaigne Sainte Genevieve, da Sorbona e da Place Saint Michel. O que, pois. 63 e aconteceu é o seguinte: Na regiao das demoli¢ées, empreendidas para abrir nova rua, que deve li- gar a Sorbona com o Panteao, encontra-se um pa- tio com madeiramento e carvio, pertencente a uma casa de um sé andar. Essa casa, que fica a pouca distancia da rua, e é separada das demais casas por largas escavagées, todas as tardes e du- rante as noites tem sido atacada com uma chuva de projéteis, os quais, em consequéncia do nime- ro e da veeméncia com que sao atirados, perfu- ram as paredes em varios lugares, e destrogam portas e janelas com suas guarnigées, como se ali tivesse havido um cerco realizado com baterias de pedras e tiros de granadas. ; Esses projéteis consistem em paralelepipedos e fragmentos das paredes derrubadas, e em pe- dras inteiras de construcao, que, a julgar pelo peso e pela distancia donde sao atiradas, sé 0 po- dem ser 4 mao. De onde procederiam eles? A res- posta fica ainda a espera de solucdo. Debalde houve vigilancia dia e noite, sob a direc&o pessoal do comissario de policia. Em vao foram soltos ces policiais nas vizinhangas. Nada pode explicar os fendmenos atribuidos pelo povo a autores misteriosos. Os projéteis choviam con- tinuamente, com grande ruido, sobre a casa, & eram atirados, de altura consideravel, sobre a ca- beca daqueles que se tinham postado nos tetos das casas vizinhas mais baixas. As pedras pareciam vir de grande distancia, Nao obstante, atingiam © alvo com precisiio matematica sem se desvia- rem de sua curva parabdlica. Nao queremos en- 64 trar em todos os pormenores destes fatos, que sem dtivida, receberdo esclarecimento rapido, gra. gas a atengao geral que provocaram. No entanto, é de notar que em circunstancias andlogas, que despertaram, em Paris, grande atengao, se viu uma chuva de dinheiro que atraia os vadios de Paris, todas as tardes, para a Rua Montesquieu; ao mesmo tempo, as campainhas de uma casa de rua Malte foram puxadas por mio invisivel. E sabe-se que foi impossivel descobrir alguém ou al- guma causa tangivel para explicar os fenémenos. Queremos esperar que, desta vez, cheguemos a um resultado melhor”. Mas, dois dias depois, ain- da escrevia o mesmo periddico: “O fato singular nao péde até hoje ser elucidado, tendo-se repe- tido a chuva de pedras, apesar da continua vigi- lancia sob que se acha toda a regiao. Portas e ja- nelas da casa foram substituidas por tabuas, pre- gadas de dentro para proteger os moradores contra as pedras que destrocaram todos os méveis”. O Sr. Merville, em seu livro Les esprits et leurs manifestations, di maiores detalhes do es- tranho caso. _. Iguais chuvas de pedras ou telecinesias se ve- rificaram em Berlim (Fev. de 1887), na casa n. 55 da rua Elisabet, durante 4 semanas (Conf. Puls, Berliner Lokalanzeiger, n. 33-35), bem co- ee Antuérpia, na rua César Paipe (Conf. aionalrat Joller, 8-2-1913) em que morava 0 ST. wll Zanten, e em Java (1831), em casa do as- si ente nas Regéncias de Pranger, 0 sr. Van Kes- "ger, conforme seu relatério ao Goyerno Ge- A Tusto — 5 “ie ral, conservado no Departamento Colonial Holan- dés e publicado em 1887 por A. L. Riko de Haag, em alemao, nos Psychische Studien (Conf. O es- piritismo 4 luz da razdo, p. 81 € ss). O sr. E. Bozzano, em seu documentado livro de pesquisas parafisicas e parapsiquicas Fendmenos de assombramento, regista 532 casos devidamen- te autenticados*. Também o sr. Tlig, editor do diario Der Hohenstaufen, de Goettingen (Alema- nha), faz relatérios desse género, sendo de notar que ele era racionalista e, antes de evidenciar inex- plicaveis fenémenos passados consigo mesmo, ti- nha prazer em desrespeitar irénicamente tudo o que cheirasse a dogma, segundo sua confissao (Ib., p. 79). O sr. Podmore, um dos fundadores da Society for Psychical Research, de Londres, dez anos apos a fundagaéo dessa sociedade cientifica, afirmava: “Possuimos ja duzentos relatérios sobre aparicdes de chamados espiritos, que foram vistos em di- versos tempos, por pessoas diversas, no mesmo lugar, ou por diversas pessoas ao mesmo tempo, ou por uma sé pessoa em circunstancia tal que exclui a hipétese de alucinac&o”. (Ib., p. 77). Autores de idoneidade moral comprovada ¢ de responsabilidade cientifica tém pesquisado 0s _ ADA explicagao com que os animistas julgam solu- cionar as misteriosas aparicées autenticadas nesses tra- balhos, isto ¢, que tais espectros sfio projecdes telep’- ticas emitidas por alguma das pessoas presentes ou mes- mo ausentes, carece de base, pois contraria um dos principios estabelecidos pela telepatia: Ninguém pode emitir telepiticamente a imagem de outrem, mas somen- te a sua prépria imagem. 66 fendmenos espiritas e tém chegado a conclusio de que ha entre eles alguns: que requerem indu- pitavelmente uma intervencao preternatural, pa- ra sua explicagao razoavel, pois estéo acima de qualquer hipétese de fraude ou de causa natural. O médico italiano, Venzanno, apds longa e mi- nuciosa experiéncia, escreveu na revista ingle- sa Annals of Psychical Science: “Vemos por is- so que esses fendmenos sé podem ser possiveis me- diante a intervengao de uma personalidade ou de uma vontade estranha; de uma vontade indepen- dente da dos presentes em oposicéo franca com a do médium; uma vontade cuja natureza nao nos é conhecida e sobre a qual nds, para nao ul- trapassar os limites da ciéncia, nfo queremos pes- quisar” (Juxta Raupert, p. 13). O professor de fisica da Universidade de Na- poles, dr. Botazzi, assegura: “Os resultados fo- ram extremamente satisfatorios, pois nao deixa- ram a menor possibilidade de fraude ou de incer- teza quanto 4 autenticidade dos fenédmenos. Alean- ¢amos 0 mesmo grau de certeza, que nos é dado obter nos fenédmenos fisicos, quimicos ou biold- gicos. Nao pode mais o céptico negar os fatos, acusando-nos de fraude ou de charlatanismo” (Ib-)- O dr. Hereward Carrington afirmou, numa de suas varias obras sobre pesquisas psiquicas, The coming science: “Um forte motivo para admis- Sao da teoria espirita (em contrario 4s explica- 0es haturalistas) esta em que, muitas vezes, Co- Municagées feitas por um médium foram inter- rompidas e mais tarde continuadas ou concluidas Pp 67 por outro médium, em outra parte do errs ou mesmo em outra parte do mundo” (Ib., p. 14). Carlos Richet admite a possibilidade da in- tervenciio de inteligéncias diferentes da _inteli- géncia humana, mas “suporia mais facilmente uma inteligéncia humana, distinta da inteligéncia do médium, que a sobrevivéncia mental do desencar- nado” (Traité de métapsych., p. 784). Os mais cépticos animistas reconhecem que nem as forgas naturais, nem o subconsciente ex- plicam certos fendmenos e que é necessario ad- mitir uma intervencdo preternatural. E os autores catélicos mais refractarios 4 ex- plicagiio intervencionista tém sido levados pela evidéncia a reconhecer sua realidade. Diz, v. g.. o Padre Heredia, Jesuita, em seu conhecido trabalho: “Nao pretendo que todos os fenémenos sejam fraudulentos” (P. 98). “Havera fenémenos realmente supranormais? Em _presen- ga de todo o material acumulado durante sécu- los, parece que se deve responder que sim” (P. 136). “Assim como Deus emprega as causas secundarias, a fim de dirigir os nossos passos pa- ra o Céu e raras vezes pratica milagres, do mes- mo modo o deménio emprega causas secundarias e raras vezes exerce o seu poder diretamente. Dai a necessidade de distinguir-se a influéncia mo- rai do deménio em nossa vida cotidiana da sua intervencao fisica... O deménio pode intervir € interviré direta e fisicamente. Mas é preciso que fat faca uma investigacio muito escrupulosa antes declarar que haja tal intervencdo...” (P. 24)- 68 “A explicagao diabolica para este ou aquele caso particular bem autenticado pode ser mais do que ssivel...” (P. 155), O Padre Mainage (dominicano), néo menos notoriamente céptico, nao é menos explicito: “Con- fesso, simplesmente e sem esperar o veredito de- finitivo da ciéncia, confesso acreditar na objeti- vidade dos fenédmenos espiritas. Ha mesas que giram e que falam. A escritura meditinica nao é invengio de imaginagdes em delirio. Nem todas as aparigdes sao o resultado de alucinagées falsas, nem todas as materializagdes obtidas pelo Dr. Geley sfio puras quimeras” (La religion spirite, p. 87). “Sob a condic&éo de nao encararmos o exame dos fenédmenos com a idéia preconcebida de negar tudo e sem sermos, de nenhum modo, obri- gados a partilhar o ponto de vista espirita, po- demos conceder um lugar, no estudo filosdfico da sobrevivéncia da alma, a este conjunto de fa- tos singulares, agrupados hoje sob 0 termo de me- tafisica” (L’immortalité, passim.) “Admitindo que os falados fenémenos espiritas, em grande parte, assentem em forcas naturais, nao sao, entretanto, essas forcas bastante conhecidas para excluirem a participacdio das poténcias infernais. Onde esta o limite do poder do deménio?... Quem observa como numerosos espiritas, a pouco e Ppouco, per dem a razéio, a Fé e a virtude, formaré a sua opr nido” (La religion des esprits, passim). Outro jesuita considerado um dos lideres do anti-intervencionismo é Lucien Roure. Entretan- 'o, eis o que ele escreveu, A pagina 182 de seu cl 69 tado livro: “On a dit et répété que les faits étran- ges, déconcertants, du spiritisme et du psychisme, sous toutes leurs formes, sont en tel nombre, attes- tés par des témoins tellement graves, que ne Pas Jes admettre, c’est renoncer a toute certitude his- torique. Attribuer tous ces faits 4 une colossale mys- tification, s’en débarrasser en bloc par les mots de supercherie ou hallucination, n’est pas un pro- cédé que la raison puisse approuver. Tel est bien notre sentiment”. Do exposto, ja se infere que ha fendmenos cuja causa é superior as forgas naturais. A 16- gica requer para eles uma causa preternatural, pois, segundo um principio fundamental de filo- sofia, “o efeito nao pode ser maior que a causa”. Essa causa preternatural nao podera ser almas de mortos, porquante, como vimos, estas separa- das do corpo passam a depender exclusivamente de Deus — “animae separatae non possunt co- gnoscere... nisi... per divinam ordinationem...” (S. T. 1 p., q. 89, a. 4, c.). Muito menos, tais fe- némenos poderiam ser causados por Deus, ou pe- los anjos com sua permissao, visto como equiva- leria a homologar Deus uma doutrina por Ele mesmo taxativamente condenada (Fx 22, 18; Dt 18, 10-13; Ley 20, 6) e baseada nos mais crassos erros e contradigées, 0 que repugna a santidade e veracidade divinas. 0 unico agente capaz de intervir neles é Sa- tanas, o pai da mentira. Objeta-se que o Demé- mio nao pode intervir numa religido que prescre- ve a esmola, nem podera ser autor de mensagens 70 assinadas com o nome de santos da Igreja e que muitas vezes contém pedidos de missas, em ses- goes que se iniciam e se concluem com oragdes rituais. Mas é necessirio reconhecer que o Demé- nio nao é nenhum imbecil, mas espirito luicido, in- teligente, ladino e astuto, “cunetis callidior”. Nao sera revelando os seus intentos de perder as al- mas que ele conseguird adeptos, porém iludindo, explorando a boa fé e os bons sentimentos. Nisso nao lhe faltam ativos auxiliares na terra. Diz S. Paulo aos corintios (II, c. 11, v. 13-14): “Os falsos apostolos sio obreiros dolosos, que se transfor- mam em apostolos de Cristo. E nao é de espan- tar porque o mesmo Satands se transforma em anjo de luz”. O que resta saber é se ele tem poderes para operar os fendmenos aludidos. Ora, sabemos que o deménio é anjo, embora decaido, pois nao per- deu sua natureza angélica, e sabemos que 0 an- jo, sendo um puro espirito, isto é, destituido de corpo material, tem poderes bem notaveis sobre a natureza, que nos cerca. O cardeal Lépicier, em seu livro I] mondo invisibile (ce. 1, sez. 3, 2), fez uma resenha dos poderes que competem a na- tureza angélica, isto é, aos anjos bons e maus: “A produc&o espontanea de luz e som, a transfe- réncia automatica de objetos de um lugar para outro, a subitanea aparicio de imagens fantas- ticas, a produgio de plantas vivas e até formacao de corpos humanos com todas as aparéncias de Movimentos, a manifestacio de acontecimentos Scultos ou Jonginquos, a infusio de conhecimentos 7 linguisticos no médium — esses e outros muitos fendmenos semelhantes nféo excedem os poderes dos espiritos angélicos, sejam bons, sejam maus, e a estes, como a causas adequadas, podem ser atribuidos com toda certeza tais efeitos. “TIgualmente nao excede o ambito do poder angélico 0 promover a correspondéncia mental de dois amigos grandemente afastados um do ou- tro; o manifestar, por via do médium, as causas de varias enfermidades ‘e os remédios necessarios; o executar uma pessoa adormecida um plano com- binado anteriormente para ser realizado em tem- po e lugar definidos, no meio de circunstancias minuciosamente estabelecidas, como sucede a su- gestao; o predizer certos acontecimentos depen- dentes de causas materiais, v. g., terremotos, erup- goes vulcdnicas e, de modo geral, os fenédmenos atmosféricos, cujas causas nos podem ser des- conhecidas a nés, mas perfeitamente conhecidas pelos espiritos angélicos. “Muitos sio também os fendmenos que A sati- de se referem e que a medicina é, As vezes, in- capaz de remediar, podendo tais fenémenos, em determinadas circunstancias, atribuir-se aos pu- ros espiritos. Assim esta no poder do anjo cau- sar paralisias parciais e até totais, privar da lin- Se incapaz de pronunciar discur- » provocar irregularidades no funcio- namento de dérgiios vitais, desmaios e outras de- Sordens andlogas, dependentes do sistema nervoso como a causa préxima”, 72 CAPITULO VII OS FENOMENOS ESPIRITAS E SEU VALOR REAL Ao referir-me a terceira explicagéo dos fené- menos espiritas, isto é, & intervengéo diabdlica, percebo 0 escarninho misturado de escandalo de certos espiritos “adiantados”: Ora, o Diabo... Quem acredita hoje nesses arcaismos medievais?. . . Efetivamente o diabo, em nossos eletrificados dias, um diabo de cauda, chifres e asas membra- nosas, nao pode coexistir com as asas metalicas do aviao. O diabo, tal qual o imaginavam nossas yo- vos, nao passa hoje de uma figura de opera. “E’ com um sorriso irénico de desdém e displicéncia que as matronas do século XX, as vovés de cabe- lo d la homme, baton e rouge, através de seus cus- tosos lorgnons, bem como as meninas faceiras, atra- vés de suas lunetas mintsculas, 0 véem saltar a cena, exibindo os recirsos de sua voz de baritono ou baixo. “E é tudo o que ainda resta do dominio de Satands para muitas inteligéncias deste de- cantado século, meaneda obstante, o Deménio existe, tal como rem os livros Sagrados — anjo de luz, bran- 73 dindo 0 archote revoluciondrio do Non serviam! e precipitado no abismo criado para ele e seus sequazes. Existe, tal como o descreve o Génesis — serpe astuta a perturbar falaciosamente a felici- dade do homem apenas saido das maos do Cria- dor, infundindo nele e em sua companheira 0 toxico da vaidade e do orgulho: “Eritis sicut dii!” Perigoso téxico, que despertou a vaidade da mu- lher e fé-la sonhar-se uma deusa cercada de ado- radores, a deslumbrar com o brilho de sua bele- za e dominar com o fulgor de sua opuléncia. Té- xico fatal, que excitou, com veeméncia, no espiri- to do homem, a prepoténcia, a empafia, a Ansia de conquista e de dominio, todos os instintos béli- cos de destruicio, todas as maquinacées pérfidas da politica e da diplomacia, que geram as guerras. 0) Demdnio existe, tal como o demonstra o Evan- gelho a oferecer seu auxilio para o éxito, em tro- ca de qualquer transgressaéo ou queda de carater: “Omnia tibi dabo si cadens me adoraveris”. O De- monio existe, tal como o vimos na Paixao do Se- nhor e como o vemos ainda, na vida cotidiana, a acular injustamente os maus contra os bons, o traidor contra o inocente; a preferir Barrabas a Cristo e a condenar Aristides ao degredo tnica- mente por ser varao honesto. Sim, 0 Deménio exis- te. E, se ji nfo entra no éden de nosso lar na for- ma escorregadia da serpente, penetra na lisura do amigo distinto, correto e dedicado, que ali dei- xa oO veneno da suspeita, da desarmonia e do dio. E, tao certo como a existéncia do Deménio, é 74 seu interesse em negi-lo. Bem conhece ele a importancia de sua acio nefasta nos eternos des- tinos da humanidade. Por sua influéncia — sabe- o ele — perturbou-se todo o plano divino relati- yo ao género humano. No houvesse o homem pre- varicado, por sugestao diabdlica, e se nao teriam seguido os mistérios da Redengiio. Negar o Demonio é negar a Cristo e sua mis- sio redentora na terra, é negar a Igreja, é ne- gar o cristianismo. Sintetizou-o Voltaire: “Satan est le Christianisme tout entier; pas de Satan, pas de Sauveur”. E Monticelli explanou a frase: “Es- sa sentenga € um compéndio de toda a Teologia da Redengaéo... pois, se Satands nao existe ou nao se interessa pelo mundo, entéo nao é verdade o que S. Joao escreveu sobre Cristo, isto é, que esse veio para destruir as obras de Satanas (ut dissolvat opera diaboli; 3, 8). Assim, pois, sem Satands nfo ha pecado original, nao ha Redengao, nao ha salvacéo; sem Salvador nao ha Cristianis- mo, sem Cristianismo nao ha religiao; sem Reli- giio nao ha Deus. Desde que comegaram os fi- lésofos, tanto os antigos como os modernos, a zom- bar de Satands e a negar-lhe a existéncia, entra- ram logo a zombar de Deus, negando-lhe tam- bém a existéncia. Por ai se vé quanto deve estar no interesse de Satands e dos seus satélites 0 serem des- conhecidos e negados”. (Juxta Perrone, De virtute religionis, p. 289). Alids, Bayle, que nao morria de amores pelo cristianismo, compreendeu a mesma coisa: “Fazei aos incrédulos a demonstracao da existéncia dos maus espiritos e 08 obrigareis a re- 75 conhecerem a verdade de todos os vossos dogmas” (The Christian Religion). : Paralelamente, nao poderé haver maior peri- go para o homem do que desconhecer, negar ou desprezar a existéncia do Deménio. Observa um tedlogo (Dr. J. H. Oswald) : “Com Tazho se com- para quem nao quer saber de Satanas, com 0 aves- truz, o qual, ao aproximar-se 0 inimigo, esconde a cabega nos ramos e, como nao esta vendo, julga que nao é visto e assim melhor se oferece 4 pon- taria. Nao duvidamos que Satands, conforme a ocasiaio, empregue a sua arte para espalhar a in- eredulidade quanto 4 sua existéncia, para apa- nhar mais facilmente a sua presa. Como diz Klee (Dom. vol. II, p. 254), a mais habil diplomacia de Satands é convencer que nao existe” (Angelo- logie, p. 144). A pagina 166, acrescenta: “E como nao poderia Satands aproveitar-se da negacio de sua existéncia, uma vez que efetivamente evita ele a sua aparigéo exterior, para melhor e mais eficazmente tentar os homens, do interior? Quem nos contestarad que as tentagdes interiores do De- m6énio, afinal mais perigosas do que as suas mani- festagdes exteriores, nfio se tenham tornado ho- je muito mais frequentes? Poder-se-a explicar, se- nao como influéncia diabdlica, tantos fatos de atualidade, como, v. g., o 6dio estuante de muitos nao sé contra o Cristianismo, mas contra tudo 0 que é divino? O espiritismo, que hoje, depois do periodo de insossa renascenca, tanto impulso to- mou, 0 que em parte deve ser atribuido ao influ- xo de espiritos maus, mostra claramente, a meu 76 yer, que © Deménio, sem se trair como tal, pre- tende seduzir por meio de toda sorte de fantasma as almas desviadas da sa doutrina do Cristianis- mo, confirmando-as na repulsa 4 Fé cristé” (Jux- ta Raupert). Ademais, a existéncia do Demdénio, principio do Mal, ou dos espiritos maus, em oposigio ao principio do Bem e aos espiritos bons, tem sido erenga inabalavel de todas as geragdes e povos. Os poetas antigos chamaram-no “divindade cruel e nefasta — dirae, infaustae immanesque deitates”. Ora, — permita-se uma digressao — se bem que tenhamos progredido consideravelmente no que diz respeito as ciéncias fisicas e 4 industria, em filosofia como em arte o pensamento huma- no em nada avangou além da civilizagio gre- ga e romana. Tudo o que se tem feito é repetir ou imitar as teorias filosdficas e as obras dos gran- des mestres da antiguidade. O proprio S. Tomas, se omitirmos o que hauriu nas fontes da Revelagao, filiou-se & escola de Aristételes. Pondera o dr. Gutberlet, professor de filoso- fia e teologia em Fulda: “A existéncia de espiritos foi admitida pela humanidade em todos os tempos € em todos os lugares; a revelagao confirma a crenga natural, Os incrédulos rejeitam 0 teste- munho da Revelagfio; mas essa crenga milenaria da humanidade, da cristandade e dos grandes pen- sadores cristios, tem muito mais peso do que os Preconceitos dos filésofos incrédulos modernos, que Pagam tributo-ao espirito do tempo. A existéncia € espiritos puros (isto ¢, destituidos de corpo) ¢ 77 exigida pela lei eosmica da continuidade. Nao ha saltos na série gradual dos seres; toda lacuna é preenchida; a criagdo mostra uma _prodigalidade de riqueza. Portanto, nao pode a série se ter en- cerrado com 0 homem; o grande vacuo acima do homem devia ser preenchido; existe necessaria- mente um reino de espiritos, com numerosos graus. A natureza humana, que retine em Si 0 espiritual e © corporal, tem acima de si um reino puramen- te espiritual, que € um syndesmo panton, tem o lugar médio entre o espirito e a matéria. Assim uma consideracéo meramente filosdfica torna ja verossimil a existéncia de espiritos e confirma a erenga geral da humanidade” (De um artigo so- bre Parapsicologia, no Anudrio Filoséfico de 1921). A Revelacgéio ensina que Deus criou espiritos bons ou anjos para sua gléria e seu servico e que alguns deles se revoltaram sob a chefia de Lucifer ou Lusbel (depois denominado Deménio, Satanas, Belzebu ou Principe das trevas) e que Deus cas- tigou os revoltosos lancando-os num abismo de fogo (ou inferno). A tradic&o cristé afirma que muitos desses espiritos vagam pelo mundo no em- penho de perder as almas — “ad perditionem animarum pervagantur in mundo”. Opinam mes- mo alguns Santos Padres que eles presidem os va- rios elementos ou lugares da natureza. _ Manuel Bernardes, encarecendo essa tradigao, pave ® generalizada crenca, em paises e épocas Sa existéncia de certas entidades, cujos mont ram conforme os lugares, as quais se © dominio de determinadas zonas ou ele- 78 entos da natureza: “Quando foram precipitados das alturas, todo este mundo sublunar encheram. Uns ficaram nestas vastissimas regides do ar... Outros ficaram n’Agua, outros na superficie da terra, outros nas cavernas dos montes, outros fi- nalmente desceram as profundezas do abismo... A cega gentilidade, cujos deuses todos eram de- ménios, dava-lhes diferentes nomes conforme pa- reciam, crendo que ali tinham particular presidén- cia”. E passa a enumerar extensa nomenclatura, corroborando o seu parecer (Confer Nova Flo- resta, p. 400 e ss. — Ed. Arb. S. A., S. Paulo, 1945). * A atuagao do Deménio sobre as pessoas, ja in- ternamente pelas tentagdes, ja externa e fisica- mente pelas obsessGes, circunsessdes ou posses- 5) Tal crenca assume, algures, as proporedes de ver- dadeiro culto. Em plena Capital Federal, atesta Gus- tavo Barroso ter assistido a impressionante manifesta- ¢ao desse estranho culto. Na barca de meia-noite de 31 ‘de Dezembro, para Niterdéi, grande multidao de passa- geiros, em determinado ponto da viagem, atira ao mar profusao de flores e presentes... para a Mde d’dgua (!) Confer. A Manha de 16-1-42), Alias, em Salvador existe a mesma superstigaéo. —- Exorcismando, certa vez, uma Daciente que apresentava inequivocos sinais de possessao diabélica desde que estivera 4 margem de determinado Tio, observei algo que parece abonar aquele ponto de vis- ta. Ao recitar a formula latina, no momento em que pro- hunciei as palavras que correspondem a uma intimacao, em nome de Deus, ao espirito maligno possuidor do ‘nergimeno a que diga o seu nome (“Praecipio tibi, (uicumque es, spiritus immunde, ut... dicas mihi no- a tuum”), a infeliz mulher, completamente analte gues .respondeu incontinenti: “Eu_sou a Rene be Wee, Quando terminei as oracdes, ela, curvan lo-se Buen” ;itou o focinhar dos porcos. Em seguida er ‘se inteiramente normalizada. 79: soes, ¢ fato real, que nao afeide ase ccun eas a Fé crista®. Nao ha como classificar de satani- zantes os autores, que registam ou reconhecem tal influéncia diabolica. Tenhamos assente ao es- pirito que os Livros Sagrados fazem frequentes narragdes desse género. Sera que, para acompa- nhar o progresso, deyemos fechar os olhos, como os avestruzes, a fim de nao ver a influéncia dia- bélica? E’ claro que, em tal assunto, convém nos armemos de maxima prudéncia ao examinar e julgar singularmente cada caso. Mas, se € paten- te a aco demoniaca, por que negi-la? Somente para sermos atuais e hodiernos? Alega-se que Jesus destruiu o império do De- moénio e invocam-se em apoio as palavras do Con- cilio de Baltimore. Todavia é necessario obser- var: a) que o referido Concilio, assim como o Con- cilio Plenario Latino Americano, nao nega a inter- vencgao diabdlica no espiritismo, mas reconhece a sua possibilidade; b) que N. S. Jesus Cristo, pe- la sua Sagrada Paixao e Morte, destruiu o domi- nio do Deménio, que mantinha o género humano sob o seu julgo e impedido de ingressar na Gl6é- ria de Deus, enquanto nos reabilitou para a vi- da da graca, abrindo-nos as portas do Céu, pe- los Sacramentos e colocando-nos nas maos 0s melos necessérios para vencermos as tentacdes que #) penlers © estranho caso do homem_ misterioso, Caridosame ribo te Londres, cardeal Vaughan, tentou {iritesamente batizar, por té-lo reconhecido em lamen- ‘ado de possessio permanente, e nao conseguiu, visto haver ele desa ; i ? ect Op. cit, p. 147 ¢ Tea rectao enigmaticamente (Raupert, 80 giabolicas, que Ele também sofreu — “raptus est ut tentaretur a diabolo ; ¢) que a Redencao nao jmobilizou a agao tentadora de Satands, pois ele continua a envidar esforgos para perder os ho- mens — “tanquam leo rugiens circuit quarens quem devoret”; d) que Jesus nao afirmou ter extinto tal agio tentadora do Deménio, mas re- comendou vigilancia e oragao contra ela — “vigi- late et orate ut non intretis in tentationem”, e incluiu, na oracgdéo dominical, a petic¢fo “nao nos deixeis cair em tentagao, mas livrai-nos do (es- pirito) mau”; e) que Jesus deixou patente a agao diabélica, quando prometeu a seus discipulos o poder de expulsarem os deménios em seu nome; f) que S. Paulo instantemente recomenda: “Re- vesti-vos com a armadura de Deus, para que pos- sais resistir 4s insidias do Diabo” (Ef 6, 10-12)... Eyitem os lacos do Deménio que os conserva ca- tivos sob sua vontade” (Tito 2, 26); g) que o mes- mo faz S. Tiago: “Sede submissos a Deus e resisti ao Diabo”. Disse Gladstone, antigo Presidente do Conse- lho britanico: “Tenho para mim que a maioria dos cristaos, que observam atentamente a sua pré- pPria experiéncia espiritual intima, est&éo conven- cidos de que se acham em luta contra poténcias e violéncias, contra os “dominadores universais das trevas”: e gue sao oprimidas por uma grande lnteryencio pessoal, malévola, cujos processos, me- diante 9 emprego de meios bons ou maus, porém adequados ao seu objetivo, atingem uma tremen- da perfeictio, trazendo consigo a seducio e ruina”. A Tlusto — ¢ 81 Mais do que isso, sabemos que o Deménio teve sempre o seu culto, a sua. religiao, os seus servi- cais e adoradores. Sob a figura de Baal, Moloc ou Jupiter, recebeu adoragio direta e mesmo sacri- ficios humancs. Ele falou pessoalmente pela bo- ca de ordculos e estatuas, em épocas remotas de outras civilizagdes. E nao serao a voz do radio e o ruido dos avides nem as ondas hertzianas, que faraio sus- tar a sua acao pervertedora junto 4 humanidade. O espiritismo é 0 mais recente modelo da re- ligido e do culto de Satanas. Adverte S. Paulo a Timéteo: “O espirito diz manifestamente que, nos Ultimos tempos, alguns abandonarao a Fé, seguindo os espiritos do erro e as doutrinas do Deménio, falando mentira com hipocrisia...” Todo o sistema doutrinario espiri- ta é obra positiva do Deménio, que, se bem nao esteja pessoalmente em todas as sessdes, esta to- davia virtualmente. Objeta-se que o espiritismo nfo é obra diabé- lica, porque ha nele muitas fraudes e eu julgo que o espiritismo é auténtica e genuina obra dia- bolica, precisamente por conter muitas fraudes. Nada demonstra mais convincentemente ser 0 es- piritismo obra do deménio que 0 excesso de fraudes que emprega, pois fraude é mentira e “o Demé- nio € o pai da mentira”. a Certo nao foi o Espirito Santo quem inspirou as meninas Fox a baterem pancadinhas no soalho, aids de iludir sua mie e os demais. Muito me- por obra do Espirito Santo que se promo- 82 vent prestidigitagdes e ‘Tecursos hipnéticos, nas gessoes espiritas. Tudo isto é urdido e inspirado pelo “pai da mentira”. Nao interessa calcular se ele atua diretamente uma vez por cem, por mil ou por um milhio de vezes. Ele atua moralmente toda vez que nao atua fisicamente. Ou nos acreditamos que o Demonio existe, tem interesse em perder as almas e jé alguma vez se manifestou no espiritismo, e, neste caso, somos “satanizantes” (se ha preferéncia deste ter- mo), ou rejeitamos sua existéncia ou interven- cao, atribuindo todos os fenédmenos a fraudes ou forcas naturais, e entéo somos animistas. Bastaria termos reconhecido um sé caso de intervengao preternatural, para termos transpos- to a esfera das forcas naturais e ja nao seriamos animistas, porém... “satanizantes”, visto ser in- sustentavel a teoria espirita das manifestagdes dos desencarnados. Em suma, ou o Deménio intervém ou nunca interveio. Se intervém, o faz para alguma fina- lidade e esta nés sabemos que é a perdicio das almas, isto 6, a difusio de seu reino e o afasta- mento de Deus. Neste caso, néo nos assiste a nds marcar-Ihe ou limitar-Ihe a aco pessoal, pois es- ‘ara na razdo direta daquela finalidade. Ele inter- ira toda vez que isso se fizer necessdrio para * conquista de novos terrenos ou garantia dos con- quistados, a auendo isso nfio esteja em jogo, ele bem po- A ee tudo por conta de causas segundas, » de seus asseclas ou satélites. Seu tinico obs- - 83 ticulo é o poder de Deus, impetrado pela oracio confiante. ? Assim, qui ga a conquistar, anto mais importante for a nova pra- tanto mais positiva sera a aco direta ou mesmo pessoal do Deménio, pelo que, em certos casos, bem pode ele agir mil vezes ou diariamente e, em outros, bem pode nunca ter agido senaio de maneira mediata ou virtual. Tu- do depende da importancia da presa, da extensio do mal ou distirbio moral em prejuizo das almas e da causa de Deus ou da Igreja. 5 Concluindo: Prudéncia, sim, muita prudén- cia. Mas nao cepticismo ou negagao sistematica. Imitemos 0 cuidado da Igreja em reconhecer o 7) Pertence aos insondaveis designios de Deus o motivo por que permite as aflicdes do Deménio as cria- turas. Nao sabemos quando Ele o permite por sua jus- tiga ou por sua misericérdia. O certo é que varios san- tos foram atormentados pelo Deménio, como S. Geral- do e Santo Ant&o. Escreveu o P. Monin em sua Vida do Cura d’Ars: “As opressdes, que o Cura sofreu do De- ménio, eram assunto frequente de palestras entre os sa- cerdotes, que o visitavam e que zombavam do caso. — Ouga, amado Cura, diziam, faga como os outros homens: alimente-se melhor e todas essas diabruras desapare- cerfo”. Em. seguida narra como o P. Chevalon, depois de muito zombar, pernoitou em casa do Cura e formou sua conviccéo, chegando a afirmar: “Jurei néo zombar mais dessas aparig6es e desses fenédmenos; e quanto ao Cu- ra d’Ars, estou convencido de que é um santo”. x 8) AAD Sst narra que, estando certa vez em Londres, ey cpyite do cardeal Vaughan, para efetuar algumas. eset Ponte © espiritismo no seminario e ou- See secretin ce observou que um jovem monse- do viveeretario de S. Eminéneia, se vinha interessan- deal, cle mene lo assunto, Anos depois, falecido o Car- eatudon ney a uma sessio para suas observagdes » quando o médium afirmou estar presente um 84 atural, nfo lhe fujamos pela evasiva da acao. Armemo-nos de coragem para enfren- fan com a fortaleza crista, que a Fé nos infun- ia Tenhamos confianga na Igreja, vinte vezes secular, que os erros antigos nem as teorias mo- dernas jamais conseguiram submergir. “Portae inferi non praevalebunt adversus eam”. sobrem J sacerdote catélico. Baseado na proibigdo da Igreja, Raupert contestou, julgando encontrar uma fraude. Mas o médium, em transe, ergueu-se, andou alguns passos e parou ante um dos assistentes, apontando-o. Raupert verificou ser o antigo secretario do Cardeal Vaughan. Conversando com ele, veio a saber o motivo de sua passagem para o espiri- tismo. E’ que tendo assistido a algumas sess6es, em obser- vacio, nelas Ihe aparecera repetidas vezes a figura do falecido Cardeal e lhe apresentara provas tais de identidade que o convenceram. Raupert mostrou-lhe o seu equivoco e enviou-lhe alguns de seus trabalhos so- bre o assunto. Lendo-os aquele malogrado sacerdote ve- rificou ter sido Satands em pessoa que conversara consi- 0, sob a mais convincente semelhanca do falecido Car- deal Vaughan. E’ ébvio que a presa era importante, pois tratava-se de inutilizar um Sacerdote. Compreende-se 0 interesse de Satands e o motivo de sua intervencio fi- sica e pessoal, * CAPITULO VIII OS FENOMENOS ESP{RITAS E SEU VALOR MORAL Jacta-se o espiritismo de ser doutrina de aper- feicoamento moral para o individuo. Sua propria concepeao da vida constituiria um ponto basico de aperfeicoamento, pois a existéncia humana se- ria apenas um estagio forgado de aperfeicoamen- to do espirito. Entretanto, a seita nao apresenta uma forma precisa de moral ou cédigo de preceitos para se conseguir a aspirada perfeig&éo. Quer nas mensa- gens cotidianas, quer nas obras de Kardec, nao se encontra uma orientagéo segura e generali- zada que fixe a moral espirita. Algum ou outro conselho particular, nem sempre plenamente jus- to e honesto, e nada mais. Langando mio do Evangelho, Allan Kardec adaptou-o a seu jeito € escreveu o Evangelho Segundo o Espiritismo, no qual tira toda a forga aos preceitos cristaos, Dees a sangao eterna, sob pretexto de que teen demels bom para punir irremissivel- aélicns ae = atures. As principais maximas evan- ° eduz ou omite. E assim, com exé€- 86 “se flacida e benigna, oblitera todo o vigor dos temas de Cristo aos pecados da carne e ao SR RMO (mesmo em pensamento), bem como suas a tantes solicitagoes A peniténcia. Isto o faz, tal- a fim de que em nada se sintam contrangidos ‘ seus burgueses leitores e adeptos. A indissolu- pilidade matrimonial ¢é apresentada como “uma Jei humana muito contraria 4 lei natural; os ho- mens podem mudar suas leis; as da natureza sio imutaveis” (P. 318).) A infecundidade voluntaria, Kardec nao a condena sob muita gravidade (Le livre des Esprits, p. 693). E, quando Jesus anun- cia a necessidade para cada um de combater os maus instintos: “nao vim trazer a paz, mas a es- pada”, o autor do Evangelho Segundo o Espiri- tismo acha que tal luta se refere ao combate mo- vido contra o espiritismo. Pontos gravissimos de moralidade social so considerados de somenos importancia. O suicidio nao tem consequéncia al- guma nem sofre penalidade; o tinico castigo que aguardara © suicida sera certo desapontamento, pois, durante algum tempo, ele, no além, igno- rara ‘Se j4 morreu... “une conséquence A laquelle le suicide ne peut échaper, c’est le desapointement” (p. 957), ee das peas passarmos aos fatos e inquirir- me tados morais da doutrina espirita na ae ae e Sobretudo, se buscarmos © testemunho 4 eee espiritas quanto A eficiéncia moral atonnen outrinas, chegaremos a evidéncias pouco 8 as teorias kardecianas. 0 ar. Gibier, em seu livro Le Spiritisme (p. 87 385), atesta: “Nao é somente o desequilibrio men. tal que o espiritismo provoca, é também o dese- quilibrio moral, como eles mesmos ainda o con- fessam”. O insuspeito dr. Gauthier acrescenta: “Um dos efeitos origindrios do espiritismo é inspirar, naqueles que padecem o seu influxo, a impacién- cia e o desgosto de viver, levando-os ao suicidio, como uma espécie de fatalidade”. O dr. Harthe, esposo da médium americana Cora Harthe, depos: “A grande oportunidade, que tenho tido nas minhas relagdes com os melhores espiritas de conhecer a natureza e as consequéncias do espiritismo torna-me, creio eu, merecedor de ser considerado um testemunho competente na matéria. Receio muito que as coisas, que hei de dizer, ofendam os melindres de muitas pessoas menos conhecedoras, que eu, dos fenédmenos. Per- guntam-me frequentemente se acredito nos fendé- menos do espiritismo e respondo que sim. Consi- deraria tempo perdido e trabalho inttil escrever coisa que nao existe. Tenho tido ocasiao de conhe- cer muitos individuos que, pela inteireza de ca- rater e retidéo de intencdes, granjeavam estima de quantos os conheciam de perto; estes, porém, no dia em que se converteram em médiuns, per- deram todo sentimento de honestidade. Milhares de espiritas inteligentes e dotados de grande ta- lento conviraéo comigo em que nio é caltnia di- zer que nenhuma teoria tem produzido, na Amé- rica, desastres morais e resultados sociais mais as- sustadores e terriveis que as teorias espiritas”. Sir William Barreth assevera: “Como regra, 88 tenho observado a decadéncia progressiva dos mé- diuns que dio sessdes regularmente”. O auxiliar das irmis Fox, Horace Greely, ob- servou: “Enfim — embora diga com pesar — pa- rece-me que o espiritismo nfo tem tornado me- lhores os maridos, as esposas, os pais, os filhos... pela sua nova fé. Julgo que nogées mais relaxa- das a respeito do matriménio, do divorcio, da cas- tidade... penetraram com o espiritismo (Juxta Os segredos do espiritismo). Para confirma-lo os jornais publicam repeti- damente crimes oriundos das teorias espiritas ou perpetrados por mando dos espiritos. Alias, 0 pré- prio ambiente das sessdes, conforme testemunhos insuspeitos, é impregnado de certa corrup¢féo mo- ral. Confessa Elias Levy: “Nas assembléias vulga- res, certos espiritos desenham frequentemente, nas lousas e no papel, obscenidades imundas e vis, como as com que os moleques viciosos sujam as paredes das casas... Maos invisiveis saem ou pa- recem sair das mesas... Mostram-se principal- mente na escuridfio... Os circunstantes sentem-se tocar e apertar por mios invisiveis. Estes contac- tos parecem dar preferéncia 4s damas, carecem de seriedade e mesmo de decéncia (La clef des grands mystéres, Paris, 1871, p. 248). Por amor a... brevidade, abstenho-me de re- ferir os numerosos casos publicados pela impren- sa periddica e catalogadas por -tratadistas diver- sos (D. Otavio Chagas de Miranda, P. Julio Ma- ria, Pascoal Lacroix, Bueno de Siqueira e outros). A Musto — 7 89 CAPITULO IX OS FENOMENOS ESP{RITAS E SEU VALOR TERAPEUTICO Notavel prestigio exercem sobre as massas incautas os proclamados recursos terapéuticos do espiritismo. Tais recursos ora sao ministrados em sessao pelo medium em transe, ora ptblicamente por individuos que se dizem investidos de pode- res maravilhosos. O médium em transe ou fornece receituario ou usa passes, dizendo-se possuido de algum mé- dico do espaco. Mas geralmente nao ha fortes mo- tivos para se acreditar que o receituario emitido das sessées espiritas provenha dos “médicos do espacgo” e nao de médicos deste planeta ou da par- voice do médium. Trata-se, em via de regra, de indicagdes corriqueiras ou anddinas quando nao disparatadas. Nunca das sessdes espiritas saiu uma descoberta cientifica para minorar os males da humanidade. O que por 14 se prescreve néo vai além dos conhecimentos de qualquer médico me- diocre ou ignorante. Para isso nfio ha mister re- correr a entidades fluidicas. E tenham-se em vis- ta as fraudes, nos casos de diagnésticos median- 90 te o simples nome e idade do enfermo. Nio me refiro aos “médicos do espacgo”, que soem. apa- recer ao lusco-fusco das sessdes espiritas onde até operam, por parecer isto supinamente ingénuo. Quanto a alguma cura real (nao apenas in- fluéncia sugestiva) e auténtica, efetuada, por meio de passes, pelo médium em transe (0 que apenas seria possivel por interven¢gao diabélica), s6 mui- ta prudéncia e um meticuloso exame poderia dis- cernir. Raupert refere um fato encontrado em suas observagoes. E’ 0 caso de um jovem atingido por uma de- generacao progressiva do nervo dético, o que ne- nhuma ciéncia humana pode jamais curar. Ape- lando para o espiritismo, um médium em transe garantiu-lhe ser possivel ao “médico do espago” o que nao é possivel aos da terra. Efetivamente, apés algumas sessées, verificou que o seu poder visual aumentou de modo admiravel, mas acres- centava ele: “Com esse melhoramento, sobreveio um estado que nao consigo explicar e que é di- ficil descrever. Toda minha conviccao religiosa, em que sempre encontrei tranquilidade e satis- fagdo, sofreu grande transformagao. Perdi todo interesse pelas coisas religiosas e, para ser sin- cero, devo dizer que perdi a fé nas verdades cris- tas. Nao posso orar nem frequentar os sacramen- to; tenho procurado combater essa inexplicdvel ma vontade contra essa praticas”. Advertido pe- lo mesmo Raupert sobre o perigo espiritual em que se colocara, resolveu abandonar o tratamento espirita e voltar 4 sua religido. E, coisa esquisita, ge 91 no mesmo momento em que tomou esta delibe. ragio, ficou completamente cego. O Deménio 6 age em proveito de sua causa: 0 afastamento de Deus e a perdigao da alma. As propriedades terapéuticas, de que se dizem possuidores alguns asseclas do espiri smo, redu- zem-se a mera sugestdo ou ao que a medicina clas- sifica de psicoterapia, cuja eficéncia é muito re- lativa e foi assim delimitada por Robert Van- der Elst: “Nao age (a sugestéo) sobre a matéria, modifica apenas a energia. Pode restabelecer as fungdes gastricas, hepaticas, urinarias, a secre- cao lactea, a sensibilidade de uma paralisia, uma caimbra, uma surdez, mas com a condicao de que os nervos que presidem as fungdes permanecam sos e que apenas uma preguica momentanea de seu funcionamento tenha interrompido o traba- Iho dos érgaos (Vraies et fausses guérisons~ mira- culeuses, p. 83, juxta D. Otavio). Dai se infere quan- to ha de audacia e de charlatanismo nos tauma- turgos, que, de quando em vez, o espiritismo yvo- mita de seu seio em missio milagrenta, para ilu- dir a plebe sob retumbante propaganda, v. g., 0S Mozart e os Neumeyer. . Entretanto, 0 que se tem sobejamente averi- eT f 08 ° espiritismo constitui um perigo imi- A AUR TE 4 satide. Li algures, em mterGiier its ete uma reflexdo judiciosa. Sem- WeHlativa uaa aes diante do mistério ou ma ex- pdigcait Se a rar o desconhecido, altera-se WOUBUSK: siryplen eae mets © nosso sistema ner- ‘ecepgao de um telegrama nos 92 inquieta, enquanto nao sabemos o seu contetido. Ora, tudo nas sess6es espiritas contribui para man- ter o assistente em continuo estado de expectativa e excitagio, ante o que supde provir do além-ti- mulo. Apés uma série de excitagdes desse género, é natural que o sistema nervoso se ache super- excitado e dai 4 loucura dista pouco. Disse Lom- broso aos seus amigos, depois de assistir a uma sessao de Eusapia Paladino: “Agora é preciso que eu me retire, pois sinto que ficaria louco; tenho necessidade de repousar o espirito” (Conf. Gué- non). Efetivamente, os mesmos médicos espiritas, sem excluir os mais eminentes nem os prdéprios fundadores da seita, reconhecem quanto ela é per- niciosa 4 satide de seus adeptos. Allan Kardec, no cap. XXII de seu Livro dos Médiuns, adverte so- bre o perigo de obsessio, fascinacgado ou subjugacao, exercida pelos espiritos, embora, em seu Livro dos Espiritos, estenda o perigo de loucura a todas as grandes idéias e religides. Léon Dénis, no livro Aprés la mort (p. 230), observa: “Espiritos inferiores, 4s vezes, dominam e subjugam as pessoas fracas... Em certos casos podem eles levar suas vitimas 4 loucura”. O dr. Gibier escreveu, 4 p. 385 de seu livro Le Spiritisme: “E’ necessario desaconselhar as pra- ticas espiritas... De fato, é preciso ter uma cons- tituicio forte e bons antecedentes hereditarios sob © ponto de vista cerebral, se niio se quer ver a razao nao voltar mais, em seguida a um desses abalos. .. 93 FE’ do nosso dever assinalar o perigo inerente as experiéncias de psiquismo, com as quais se brin- ca sem pensar no grande risco que elas oferecem!” O espirita brasileiro, dr. Seabra, em seu livro Alma e Subconsciente (p. 94), nota: “O aspecto religioso, que assume (o espiritismo) nas sessdes correntes, podera ter servido de consolo a mui- ta gente, que ndo encontrou pabulo espiritual em outra religiao, mas expde muitos dos seus pra- ticantes a desordens mentais e nervosas, e com semelhantes desagregagdes desaparecem a paz, a tranquilidade, o consolo, que tinham encontrado em outros tempos”. O sr. Carlos Imbassai, em seu livro O Espiri- tismo a Luz dos fatos (p. 182), depde: “A debili- dale dos nervos é, algumas vezes, téo somente efeito, consequéncia do esgotamento fisico do pa- ciente, esgotamento produzido pelo esforco em- pregado, pela perda constante de fluidos, pelo abuso das sessdes, sem pensar no grande risco que oferecem”. A esses testemunhos insuspeitos de autorizados espiritas, se podera acrescentar 0 depoimento de grandes alienistas e psiquiatras es- trangeiros e nacionais de absoluta idoneidade. O sr. Marcel Violet, médico do asilo de alie- nados de Paris, chamou o espiritismo de “étimo caldo de cultura para todos os erros, para toda espécie de desequilibrio e para toda espécie de loucura” (Le spiritisme dans son rapport avec la folie, p. 38). O dr. Mirville atestou que “grande numero de pessoas foram recolhidas em Bicétre, tendo enlouquecido em consequéncia de se terem 94 dado imprudentemente as praticas espiritas” (Ques- tion des esprits, p. 555). O dr. Hudson, em seu livro Demonstragées cientificas, frisou que “o uso habitual das praticas espiritas traz consigo infa- livelmente um desequilibrio nervoso e, quando con- tinuadas durante muito tempo, déo como resulta- do a loucura ou a imbecilidade”. O dr. Winslow, em Espiritualista (1877), afirmou: “Dez mil pes- soas estao atualmente encerradas em manicémios dos Estados Unidos por se terem imiscuido com o sobrenatural”. O dr. Robertson, médico do asilo de Edinbur- go, em relatério (de I a XVI) recomendava: “De- sejo avisar a todos os que tém alguma tendéncia a desordens nervosas que nao pratiquem o espiri- tismo, para nao acabarem de transtornar os mio- Jos!” Notou o jornal americano The Boston Pilot (1-7-1882) : “A maior parte dos médiuns acabam, com 0 tempo, por tornar-se intratdveis, loucos, idiotas e o mesmo sucede também aos ouvintes. Nao passa semana em que nfo tenhamos ocasifio de ver alguns desses desgragados suicidar-se ou entrar para alguma casa de satide. Os médiuns dao sinais inequivocos de estado anormal de suas faculdades mentais e nfo poucos deles apresen- tam sintomas bem pronunciados de verdadeira possessio diabdlica”. Eis algumas sentencas ja bem conhecidas, com que os nossos maiores especialistas em mo- léstias nervosas responderam a “enquétes” de jor- nais cariocas, sobre o espiritismo. “O espiritismo é no Rio de Janeiro uma das causas predisponentes mais comuns da loucura”, — Dr. Austregésilo. “O espiritismo é, pode-se dizer sem exagero, uma verdadeira fabrica de _loucos. Entre os de- mentes que didriamente dao entrada no hospi- cio, grande parte. vem de centros espiritas”, — Dr. Henrique Roxo. Considero o espiritismo, como praticam, um grande fator de perturbacées mentais; atualmen- te o espiritismo concorre com a heranga, com a sifilis e com o alcool no fornecimento dos hos- picios e casas de satide; acho tao forte 0 seu con- tingente que a lei devia tolher-Ihe a marcha”. — Dr. Homem de Melo. “Tratando-se de nevropatas predispostos, reu- nidos em uma sala a meia claridade tudo em siléncio, nada hi que admirar nas consequéncias. O estado de emogéo, a excitagéo geral e as mo- dificagées circulatérias provocam, principalmen- te nas mulheres, os ataques histéricos e as desor- dens e vio mesmo além — a perda completa da razio. E’, portanto, de uma imprudéncia lastima- vel essa nova religido, que sé tem servindo para aumentar o numero de loucos”: — Dr. Franco da Rocha. “Tenho visto muitos casos de perturbagées nervosas e mentais evidentemente despertadas por sessoes espiritas. No Hospicio Nacional nao raro aparecem tais casos. Até hoje nao tive a fortuna de ver um médium, principalmente dos chama- dos videntes, que nfio fosse nevropata”. Dr. Julia- no Moreira (O Jornal, Marco de 1926). 96 Em 1927, o dr. Leonidio Ribeiro e o dr. Mu- rilo Campos promoveram nova “enquéte” entre especialistas: “A pratica do espiritismo pode tra- zer danos & satide do individuo? O exercicio abu- sivo da arte de curar pelo espiritismo acarreta pe- rigos 4 satide publica?” Responderam afirmativamente, com explica- ¢des cientificas, que omito por brevidade, os se- guintes autorizados clinicos: Anténio Austregésilo, Henrique Roxo, Esposel, Tanner de Abreu, Julio Porto Carrero, Jofio Fréis, Carlos Seidl, Raul Lei- tao da Cunha, Franco da Rocha, Pacheco da Sil- va, Pernambuco Filho, Miguel Osério de Almei- da, todos catedraticos de nossas universidades e, alguns, diretores de estabelecimentos de psiquia- tria (O Espiritismo no Brasil, contribuigio ao seu estudo clinico legal 1931. Leonidio Ribeiro e Muri- lo Campos). Quanto aos intimeros casos de perturbagdes mentais provocadas pelo espiritismo e mesmo de Joucuras coletivas, relatados pela imprensa diaria, nao os incluo neste trabalho por os haverem regis- tado varios de nossos autores em excelentes estu- dos (Conf. Os Fenémenos Psiquicos e o Espiritis- mo perante a Igreja, por D. Otavio Chagas de Mi- randa; O Espiritismo a Luz da Razdo, por Pas- coal Lacroix e Bueno de Siqueira; Os Segredos do Espiritismo, por Julio Maria e outros). 97 CAPITULO X OS FENOMENOS ESP{RITAS E SEU VALOR LEGAL Alguns paises tém considerado os prejuizos pro- vindos das praticas espiritas para a coletividade e as tém colocado fora da lei. Assim é que o hip- notismo — caldo de cultura em que se desenvol- vem tais praticas — é proibido na Austria, na Italia e na Bélgica e restrito aos médicos na Ale- manha e Dinamarca. O cédigo penal brasileiro, em seu artigo 157, prescreve: “Praticar o espiri- tismo, a magia e os seus sortilégios, usar talis- ma e cartomancia, para despertar sentimentos de édio ou amor, inculcar curas de moléstias curaveis ou incurdyeis, enfim, para fascinar e subjugar a credulidade ptiblica: prisao celular por seis me- ses e multa de 1003000 a 500$000. § 1° Se, por influéncia ou consequéncia de qualquer destes meios resultar ao paciente pri- vacao ou alteracgio temporaria ou permanente das faculdades fisicas, prisio celular de um a seis meses e multa de 2003000 a 500$000. See Em igual pena e mais na privacio do a profissio por tempo igual ao da con- 98