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Ações, Dimensões

e Aplicabilidade do
Instrumental
Técnico-Operativo do
Serviço Social
Prof.ª Andréia Zanluca
Prof.ª Juliana Maria Lazzarini
Prof.ª Vera Lúcia Hoffmann Pieritz

2013
Copyright © UNIASSELVI 2013

Elaboração:
Prof.ª Andréia Zanluca
Prof.ª Juliana Maria Lazzarini
Prof.ª Vera Lúcia Hoffmann Pieritz

Revisão, Diagramação e Produção:


Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI

Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri


UNIASSELVI – Indaial.

361.0023
Z25a Zanluca, Andréia

Ações, dimensões e aplicabilidade do instrumental técnico-operativo


do serviço social/ Andréia Zanluca, Juliana Maria Lazzarini, Vera Lúcia
Hoffman Pieritz.
Indaial : Uniasselvi, 2013.
205 p. : il

ISBN 978-85-7830-819-3

I Serviço social como profissão.


1.Centro Universitário Leonardo da Vinci.
Apresentação
Caro(a) acadêmico(a)!

Iniciamos os estudos de Ações, dimensões e aplicabilidade do


instrumental técnico-operativo do Serviço Social. Entraremos no mundo
intrínseco da instrumentalidade da atuação profissional do assistente social,
no qual estudaremos as dimensões técnico-operativa, teórico-metodológica
e ético-política do trabalho do assistente social. Para isso, vamos perpassar
por seus aspectos históricos e estudar como se processa a aplicabilidade dos
instrumentos e técnicas no exercício profissional do assistente social em seu
cotidiano profissional. Veremos também alguns aspectos ideológicos que
norteiam a aplicabilidade e o uso dos instrumentos e técnicas profissionais do
serviço social e alguns aspectos da natureza, estratégias, particularidades e
implicações do trabalho do assistente social nos diversos campos de atuação.

Na Unidade 1 você verá questões sobre as dimensões técnico-


operativa, teórico-metodológica e ético-política do trabalho do assistente
social, no intuito de compreender as diversas dimensões que norteiam
a atuação profissional do assistente social e desmistificar as diversas
competências dos profissionais do serviço social na atualidade. Verá também
concepções da instrumentalidade do serviço social e as diferentes linguagens
da instrumentalidade do assistente social.

Na segunda unidade você conhecerá a ação profissional e o processo


interventivo do assistente social no cotidiano, promovendo a reflexão
sobre os diferentes aspectos ideológicos que permeiam a aplicabilidade dos
instrumentos, técnicas e ações profissionais do assistente social. Será abordada
também a questão da consciência e intencionalidade da ação profissional
do assistente social em seu cotidiano, além da competência relacional do
assistente social, a racionalidade da práxis profissional no serviço social e
alguns impasses com relação à aplicabilidade do seu instrumental técnico-
operativo. Por fim, abordaremos o significado da mediação e da ação
investigativa no serviço social .

Na terceira unidade você compreenderá a aplicabilidade dos


instrumentos e técnicas no exercício profissional. Veremos a diferença e
importância da teoria versus a prática profissional do assistente social e quais
são os métodos e metodologias aplicados na práxis profissional do serviço
social . Será abordada também qual a aplicabilidade dos instrumentos e
técnicas no exercício profissional do assistente social.

III
Pronto(a) para começar a compreender o significado da ciência
política? Mãos à obra, então.

Bons estudos!
Prof.ª Andréia Zanluca
Prof.ª Juliana Maria Lazzarini
Prof.ª Vera Lucia Hoffmann Pieritz

NOTA

Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para
você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há
novidades em nosso material.

Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é


o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um
formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura.

O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova
diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também
contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.

Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente,


apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.
 
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto
em questão.

Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa
continuar seus estudos com um material de qualidade.

Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de


Desempenho de Estudantes – ENADE.
 
Bons estudos!

IV
V
VI
Sumário
UNIDADE 1 – AS DIMENSÕES TÉCNICO-OPERATIVA, TEÓRICO-METODOLÓGICA
E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL................ 1

TÓPICO 1 – TRAJETÓRIA DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL............................................... 3


1 INTRODUÇÃO................................................................................................................................... 3
2 CONTEXTO GERAL DA TRAJETÓRIA HISTÓRICA DO SERVIÇO SOCIAL
NO BRASIL......................................................................................................................................... 3
3 A CONSTRUÇÃO DO REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO DO SERVIÇO SOCIAL .......... 8
LEITURA COMPLEMENTAR............................................................................................................. 10
RESUMO DO TÓPICO 1..................................................................................................................... 14
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................... 15

TÓPICO 2 – A INSTRUMENTALIDADE DO SERVIÇO SOCIAL ............................................ 17


1 INTRODUÇÃO................................................................................................................................... 17
2 OS CONTEÚDOS DESSA DIMENSÃO NA TRAJETÓRIA DA PROFISSÃO:
O COMO FAZER A PROFISSÃO.................................................................................................... 17
3 RAZÃO E MODERNIDADE............................................................................................................ 19
4 RACIONALIDADE DO CAPITALISMO E SERVIÇO SOCIAL .............................................. 20
LEITURA COMPLEMENTAR............................................................................................................. 21
RESUMO DO TÓPICO 2..................................................................................................................... 32
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................... 33

TÓPICO 3 – AS COMPETÊNCIAS DO SERVIÇO SOCIAL NA


CONTEMPORANEIDADE: POLÍTICA, ÉTICA, INVESTIGAÇÃO E
INTERVENÇÃO ............................................................................................................. 35
1 INTRODUÇÃO................................................................................................................................... 35
2 CONSIDERAÇÕES INICIAIS SOBRE AS COMPETÊNCIAS DO SERVIÇO
SOCIAL NA CONTEMPORANEIDADE...................................................................................... 36
3 COMPETÊNCIA TEÓRICO-METODOLÓGICA........................................................................ 37
4 COMPETÊNCIA TÉCNICO-OPERATIVA.................................................................................... 43
5 COMPETÊNCIA ÉTICO-POLÍTICA.............................................................................................. 50
6 CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE AS TRÊS DIMENSÕES................................................. 54
LEITURA COMPLEMENTAR............................................................................................................. 57
RESUMO DO TÓPICO 3..................................................................................................................... 62
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................... 64

UNIDADE 2 – A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO


ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO............................................................ 65

TÓPICO 1 – ASPECTOS IDEOLÓGICOS NO USO DOS INSTRUMENTOS E


TÉCNICAS ...................................................................................................................... 67
1 INTRODUÇÃO................................................................................................................................... 67
2 INTENCIONALIDADE E CONSCIÊNCIA DA AÇÃO PROFISSIONAL.............................. 67
2.1 A CATEGORIA “CONSCIÊNCIA”............................................................................................. 67

VII
LEITURA COMPLEMENTAR 1 ......................................................................................................... 74
2.2 A INTENCIONALIDADE ENQUANTO CATEGORIA TEÓRICA....................................... 76
2.3 A INTENCIONALIDADE NO SERVIÇO SOCIAL ................................................................. 81
LEITURA COMPLEMENTAR 2 ......................................................................................................... 87
RESUMO DO TÓPICO 1..................................................................................................................... 93
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................... 94

TÓPICO 2 – NATUREZA, ESTRATÉGIAS, PARTICULARIDADES E


IMPLICAÇÕES DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL............................ 97
1 INTRODUÇÃO................................................................................................................................... 97
2 A COMPETÊNCIA RELACIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL.............................................. 97
3 A RACIONALIZAÇÃO DA PRÁTICA DA ASSISTÊNCIA: ASPECTOS
HISTÓRICOS...................................................................................................................................... 101
4 RACIONALIDADE INSTRUMENTAL E TÉCNICA................................................................. 104
LEITURA COMPLEMENTAR............................................................................................................. 132
RESUMO DO TÓPICO 2..................................................................................................................... 135
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................... 136

TÓPICO 3 – IMPASSES DA PROFISSÃO NA APLICABILIDADE DOS


INSTRUMENTOS ......................................................................................................... 137
1 INTRODUÇÃO................................................................................................................................... 137
2 O PROCESSO DE PRODUÇÃO E REPRODUÇÃO SOCIAL................................................... 137
3 O SERVIÇO SOCIAL NO PROCESSO DE PRODUÇÃO E REPRODUÇÃO SOCIAL....... 140
LEITURA COMPLEMENTAR............................................................................................................. 142
RESUMO DO TÓPICO 3..................................................................................................................... 146
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................... 147

UNIDADE 3 – A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS NO


EXERCÍCIO PROFISSIONAL.................................................................................. 149

TÓPICO 1 – TEORIA E PRÁTICA, MÉTODO E METODOLOGIAS........................................ 151


1 INTRODUÇÃO................................................................................................................................... 151
2 TEORIA VERSUS PRÁTICA............................................................................................................ 151
3 MÉTODO E METODOLOGIA........................................................................................................ 155
LEITURA COMPLEMENTAR............................................................................................................. 158
RESUMO DO TÓPICO 1..................................................................................................................... 160
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................... 161

TÓPICO 2 – O MANEJO DO INSTRUMENTAL TÉCNICO-OPERATIVO


DO ASSISTENTE SOCIAL.......................................................................................... 163
1 INTRODUÇÃO................................................................................................................................... 163
2 A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS NO EXERCÍCIO
PROFISSIONAL.................................................................................................................................... 163
2.1 A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS DE TRABALHO DIRETOS OU
“FACE A FACE”............................................................................................................................ 164
2.1.1 Observação................................................................................................................................ 165
2.1.2 Entrevista individual e grupal............................................................................................... 166
2.1.3 Dinâmica de grupo.................................................................................................................. 168
2.1.4 Reunião...................................................................................................................................... 168
2.1.5 Visita domiciliar....................................................................................................................... 169
2.1.6 Visita institucional................................................................................................................... 170
2.1.7 Técnica de encaminhamento.................................................................................................. 171
2.1.8 Perícia social............................................................................................................................. 171
VIII
2.1.9 Parecer social............................................................................................................................. 172
2.2 A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS DE TRABALHO INDIRETOS OU
“POR ESCRITO”........................................................................................................................... 172
2.2.1 Atas de reunião......................................................................................................................... 173
2.2.2 Diário de campo....................................................................................................................... 173
2.2.3 Relatório social.......................................................................................................................... 174
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................ 176
RESUMO DO TÓPICO 2..................................................................................................................... 177
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................... 178

TÓPICO 3 – OUTRAS CARACTERÍSTICAS INSTRUMENTAIS DA AÇÃO


PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL.......................................................... 179
1 INTRODUÇÃO................................................................................................................................... 179
2 MEDIAÇÃO COMO INSTRUMENTO NA MEDIAÇÃO DE CONFLITOS........................ 179
LEITURA COMPLEMENTAR 1.......................................................................................................... 188
LEITURA COMPLEMENTAR 2.......................................................................................................... 192
RESUMO DO TÓPICO 3..................................................................................................................... 198
AUTOATIVIDADE............................................................................................................................... 199
REFERÊNCIAS ...................................................................................................................................... 201

IX
X
UNIDADE 1

AS DIMENSÕES TÉCNICO-OPERATIVA,
TEÓRICO-METODOLÓGICA E
ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO
ASSISTENTE SOCIAL

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir desta unidade você será capaz de:

• compreender as diversas dimensões que norteiam a atuação profissional


do assistente social;

• desmistificar as diversas competências dos profissionais do serviço social


na atualidade;

• entender as nuances e concepções da instrumentalidade do serviço social;

• perceber as diferentes linguagens da instrumentalidade do assistente so-


cial.

PLANO DE ESTUDOS
A Unidade 1 está dividida em três tópicos e, ao final de cada um deles, você
terá a oportunidade de fixar seus conhecimentos realizando as atividades
propostas.

TÓPICO 1 – TRAJETÓRIA DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL

TÓPICO 2 – A INSTRUMENTALIDADE DO SERVIÇO SOCIAL

TÓPICO 3 – AS COMPETÊNCIAS DO SERVIÇO SOCIAL NA


CONTEMPORANEIDADE: POLÍTICA, ÉTICA,
INVESTIGAÇÃO E INTERVENÇÃO

1
2
UNIDADE 1
TÓPICO 1

TRAJETÓRIA DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL


“Quem sabe o que está buscando e aonde quer
chegar, encontra os caminhos certos e o jeito de caminhar”.
Thiago de Melo

1 INTRODUÇÃO
A construção histórica do serviço social passa pelas mudanças e
transformações sociais, às quais os assistentes sociais vêm se adaptando,
atualizando-se constantemente. Neste sentido, o projeto ético-político do serviço
social está se moldando a estas novas realidades sociais que se apresentam pelos
novos tempos.

A luta pela garantia de direitos foi construída e reconstruída na práxis


deste profissional que, diante das demandas sociais, tem uma postura voltada a
possibilitar o acesso aos direitos sociais, na construção da cidadania, parceria da
equidade e da liberdade.

2 CONTEXTO GERAL DA TRAJETÓRIA HISTÓRICA DO


SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL
A partir do século XVII, Badinter (2001) diz que o Estado, em vários países
como Alemanha, Inglaterra, França e Espanha, gradativamente começa a assumir
suas responsabilidades, e o bem-estar do povo é considerado necessidade básica
para que a cidade tenha desenvolvimento, além de outras questões políticas que
necessitam mostrar em números o bem-estar social.

Neste contexto o Estado atuava com ações emergenciais, que atendiam a


população em situações de necessidades básicas e momentâneas.

Por volta de 1870, na Inglaterra e nos Estados Unidos, foram criadas as


Sociedades de Organização da Caridade, que coordenavam inúmeras instituições
sociais, faziam campanhas de fundos e introduziam o controle de assistência à
pobreza.

Conforme afirma Martinelli (2009), neste contexto nasce o serviço social


como profissão, apresentando uma prática humanizada aliada ao Estado e
protegida pela Igreja, com o objetivo de controlar a sociedade.

3
UNIDADE 1 | AS DIMENSÕES T-O, TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

Mas, como se DESENVOLVEU o serviço social enquanto PROFISSÃO?

Vejamos: para autores como Vieira (1989), o serviço social se desenvolveu


conforme a realidade na qual estava inserido, mas sempre com as mesmas
características de ajuda ou auxílio àqueles menos favorecidos. Como as condições
de trabalho, de habitação, de alimentação etc. sofrem mudanças ao longo dos anos,
assim também o profissional deve se transformar; então, ele deixa a caridade e,
muito lentamente, parte para a garantia de direitos.

A partir do século XX, apareceram instituições internacionais com o


objetivo de criar um consenso sobre “a noção de ajuda”, que já era conhecida
internacionalmente como serviço social , mas cada país fazia de um jeito, usando
o mesmo nome.

Assim como a noção de ajuda tinha um sentido diferente, da mesma


forma a atuação era bastante diferenciada, segundo Vieira (1989). Na Europa de
língua francesa, adotou-se o nome de serviço social , nos países de língua anglo-
germânica e nos Estados Unidos, o de Trabalho Social.

ATENCAO

Vieira (1989) diz que houve uma tomada de consciência quanto ao fato
de ajudar. Neste sentido, a palavra serviço, do latim servitium, teria o significado de ser
escravo, enquanto a palavra trabalho, da raiz latina trabs, trales, é trave de carga que se
coloca ao escravo para obrigá-lo a trabalhar.
Nesta linha de raciocínio, o trabalho social deve ser “a atividade realizada em benefício
da sociedade”, enquanto serviço social é “um serviço prestado à sociedade”. Diante de
tantos significados, teremos que falar da função do assistente social, que é a de “assistir”,
pois a tradução do latim para a palavra assistente é “colocar-se à disposição”.

Então, será que o profissional formado em serviço social deve SER


CARIDOSO?

É claro que o fazer do serviço social se ampliou e, em alguns aspectos,


modificou-se, através de todas as reflexões que os anos trouxeram, pois saiu da
caridade para a garantia de direitos. Deixou de ser um serviço da Igreja para
atingir a ação governamental, da atividade desempenhada pelos bons de coração
passou para uma atividade profissional.

Podemos dizer que, entretanto, à medida que a profissão era inserida num
determinado país, ou se avançava nas reflexões onde já existia, sempre surgiam
os retrocessos, pois quando se avançava na garantia de direitos dos idosos, por
exemplo, havia o retrocesso nas leis da previdência, e assim por diante. Aqui no
Brasil não foi diferente.
4
TÓPICO 1 | TRAJETÓRIA DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL

O Brasil foi colonizado por Portugal e, consequentemente, recebeu


influências do colonizador: para um lugar ser designado cidade deveria ter uma
capela e uma santa casa, segundo Vieira (1989), que funcionava gratuitamente e
atendia os doentes.

TUROS
ESTUDOS FU

Você verá mais tarde, na Unidade 2 deste caderno, uma síntese histórica da
racionalização da prática da assistência, na qual apresentaremos as diversas concepções
históricas da prática da Assistência Social.

Então, como SURGIU o serviço social no Brasil?

No Brasil, o serviço social surgiu na década de 1930, num momento de


grandes transformações na sociedade brasileira, pois deixava de ser um país com
economia agroexportadora para se tornar um país em processo de industrialização
nacional.

Uma das mudanças ocorridas na época, conforme Miguel (1980), foi a


transformação do sistema educacional que, impulsionado pela política educacional
do Estado Novo, trouxe reflexos para o serviço social , como: a estruturação das
primeiras universidades e a criação de escolas técnicas, pois assim se criava a mão
de obra especializada e barata em favor da nação, fazendo as assistentes sociais
refletirem sobre a forma de inserção no mundo do trabalho.

Outra mudança foi a promulgação das leis trabalhistas e a criação da


Previdência Social, que representou um progresso para a classe trabalhadora do
país, porém o “pobre” não escolhia, ele tinha que aceitar a “caridade”, pois na
época predominava uma mentalidade curativo-paternalista e nunca preventiva.

ATENCAO

Prezado(a) acadêmico(a), a mentalidade CURATIVA provém de uma filosofia


curativa, que, em passado recente, baseava-se na prática da profissão que tratava apenas as
sequelas dos problemas sociais, e nunca as causas dos problemas.

5
UNIDADE 1 | AS DIMENSÕES T-O, TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

ATENCAO

A mentalidade PATERNALISTA advém do comportamento paternalista, ou seja:


o PATERNALISMO, em um sentido amplo, é um sistema de relações sociais e trabalhistas,
unidas por um conjunto de valores, doutrinas políticas e normas fundadas na valorização
positiva da pessoa do patriarca.

Em um sentido mais concreto, o paternalismo é uma modalidade de autoritarismo, na qual


uma pessoa exerce o poder sobre outra combinando decisões arbitrárias e inquestionáveis,
com elementos sentimentais e concessões graciosas.

Para o Direito Constitucional, o Estado paternalista é aquele que limita as liberdades individuais
de seus cidadãos com base em valores axiológicos que fundamentam as imposições estatais.
Desta maneira, justifica-se a invasão da parcela correspondente à autonomia individual por
parte da norma jurídica, baseando-se na incapacidade ou idoneidade dos cidadãos para
tomar determinadas decisões que o Estado julga corretas.

Ainda mais, o paternalismo é relacionado ocasionalmente com a figura papal da Igreja Católica,
a qual se chama Santo Padre, com o fim de acentuar a supremacia, autonomia e soberania
desta instituição.

Podemos encontrar inclusa uma referência indireta a este termo no âmbito legal, quando
lemos no Código Civil espanhol, em seu artigo 1903, a expressão “bom pai de família”, quando
se enfatiza a diligência com que observarão aquelas pessoas que respondem pelas atuações
de outras (menores ou incapacitados).
FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Paternalismo>. Acesso em: 11 mar. 2010.

Assim, numa mistura de mentalidades colonialistas e escravocratas, nasce


o serviço social brasileiro, enraizado nas ideias paternalistas, com a tradição da
caridade, misturadas aos novos ideais que estavam surgindo no país.

E, quando foi que APARECEU a PRIMEIRA ESCOLA de serviço social no


Brasil?

O primeiro núcleo de serviço social brasileiro foi fundado em 1932, em


São Paulo, relata Lima (1987), local onde se concentrava a maior parte do parque
industrial nacional e, logo depois, em 1936, surgiram as primeiras experiências
no Rio de Janeiro.

Aos primeiros assistentes sociais brasileiros, moças de famílias abastadas,


coube a tarefa de batalhar pela criação de instituições sociais, organizar
e racionalizar a assistência, construir uma profissão e preparar os novos
profissionais, sempre segundo as normas da Igreja.

A atuação da Igreja Católica ficou delimitada com a Constituição de 1937,


já não sendo o ensino confessional uma obrigação da escola. O serviço social
pôde, neste momento, sair da interferência do pensamento católico, embora,

6
TÓPICO 1 | TRAJETÓRIA DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL

conforme Badinter (2001), fosse um processo em construção e muito demorado:


no meio do redemoinho tudo está interligado, a Igreja, a Medicina, os colegas de
profissão que falam e reproduzem a teoria que está colocada.

E quais foram as INFLUÊNCIAS da década de 40 e da RECONCEITUAÇÃO


do serviço social brasileiro?

A década de 40 veio marcada pelo modelo fordista de produção, que


exigia uma nova forma de controle por parte do Estado, pautada no consenso e
coesão entre classes, sabendo que o serviço social tinha sua atuação sob influência
ideológica do Estado, segundo Lima (1987). Assim surgem o serviço social da
Indústria (SESI) e o serviço social do Comércio (SESC).

Tudo devia ser iniciado e desenvolvido ao mesmo tempo, seguindo um


modelo dos Estados Unidos, até o final da década de 50, afirma Barroco (2001),
quando há a incorporação de novas possibilidades teóricas.

Os anos 60 vêm marcados pelo movimento de reconceituação do serviço


social , momento em que são questionados seus referenciais, com uma necessidade
urgente de construir um novo projeto profissional, segundo Yasbek (2008).

Neste momento de reconceituação confrontaram-se as três diferentes


tendências profissionais, afirma Netto (2001): a vertente modernizadora, a vertente
inspirada na fenomenologia e a vertente marxista. Mas a vertente marxista vem
fragilizada, pois foi uma teoria traduzida pela metade e, desta forma, configurou
a profissão até recentemente.

Já APÓS O PERÍODO DA DITADURA MILITAR, o que aconteceu com


o serviço social ?

Os anos enfrentados pela ditadura mostraram a estreita relação entre a


afirmação e a negação da liberdade, uma vez que a realidade brasileira tem suas
especificidades, e neste momento aparece a fragilidade da atuação profissional,
coloca Lima (1987), em que as divergências se mostram através dos movimentos
da assistência/repreensão.

Até a década de 70 o profissional de serviço social tinha uma postura


bastante assistencialista, ainda centrada no indivíduo, valorizando e exigindo
uma postura religiosa, sem nenhuma crítica política e pouca utilização de técnicas
científicas.

Já a década de 70 nos mostra sua força através dos encontros e seminários,


como o Seminário de Araxá-MG, e o de Teresópolis-RJ, que estruturam uma
nova articulação com a sociedade, e garantiam um reconhecimento profissional
enquanto categoria (LIMA, 1987).

7
UNIDADE 1 | AS DIMENSÕES T-O, TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

Para Miguel (1980), todos os documentos resultantes desses encontros


são, na verdade, formas de manipulação da classe trabalhadora através de uma
ideologia da classe produtora, usando o serviço social para dar cumprimento às
finalidades pelas quais foi contratada.

Vieira (1989), no entanto, diz ter sido um momento de grande importância


para a profissão, pois, a partir dos seminários, os assistentes sociais começaram a
ter ideias novas: sair do assistencialismo, avaliar e construir uma ação preventiva,
além de o documento de Araxá apresentar um resumo da evolução do serviço
social no Brasil, através dos sete encontros regionais feitos para avaliar o
documento.

O serviço social nasce e cresce dentro de uma ordem do dever agir, entre
erros e acertos, e não no dever refletir sobre a realidade econômica, política ou
social. Assim, a profissão é marcada pela necessidade de reajustar o indivíduo à
realidade posta. (VIEIRA, 1989).

Uma profissão, com origens num momento de crescimento do Estado


paternalista e atuação centrada em ações imediatas, criou uma imagem de
assistente social que cresceu e, através dos encontros, começou a mudar frente
a algumas situações. Este não é um processo fácil de fazer e muito menos de
aceitação por parte das instituições ligadas ao profissional.

Assim, o serviço social , após as décadas de 70 e 80, procurou encontrar e


construir teoricamente a profissão, saber qual sua ação, qual a intervenção, qual
sua práxis. Procurou a teorização, conforme coloca Yasbek (2008), e assim cria-se,
em São Paulo, o primeiro curso de mestrado em serviço social , que possibilitou
estudar mais profundamente a profissão.

NOTA

A práxis se compõe da atividade teórica (produção de conhecimento e


finalidades) e da prática (transformação da realidade). (VIEIRA, 1989, p. 170).

3 A CONSTRUÇÃO DO REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO


DO SERVIÇO SOCIAL
É na década de 80 que a teoria social de Marx passa a fazer parte da
referência analítica da profissão, conforme Netto (2001). Essa introdução passa por
vários debates e foi a geradora da construção da bibliografia de serviço social .

8
TÓPICO 1 | TRAJETÓRIA DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL

Naquela época, a discussão se centrava nos fundamentos do serviço social


, procuravam-se as particularidades da profissão. Hoje, porém, há uma frágil
linha entre o processo de trabalho e suas dimensões históricas, metodológicas e
éticas. (IAMAMOTO, 2008).

Concordando com Iamamoto, Netto (2001) mostra que a década de


80 marca a ruptura do serviço social com o conservadorismo, porém ele não
foi superado. Houve pequenas brechas para que os assistentes sociais se
posicionassem criticamente, podendo haver uma reflexão sobre as ideologias
políticas que movem o país. Algumas centenas de livros e artigos já foram
publicados sobre o serviço social : entre eles, Netto (2001), que fala sobre a
legitimidade da profissão que hoje perde espaço para outros profissionais que
têm práticas muito semelhantes às do assistente social e, por causa disso, tem-se
a necessidade de ampliar os campos de intervenção desse profissional.

NOTA

Práticas que são semelhantes às do assistente social: Psicologia social,


Administrador de recursos humanos, Sociologias aplicadas etc.

Diante dessa constatação, o autor defende ainda que os profissionais dos


anos 90 não estão adequadamente qualificados para o enfrentamento da nova
realidade, pois o serviço social está com seus parâmetros teórico-ideológicos
ultrapassados. A maioria dos profissionais docentes vive à margem dos anos da
ditadura ou na sombra dos anos 80, e o aluno ingresso nas faculdades também
possui um novo perfil.

NOTA

O novo perfil de aluno é de renda baixa/média e baixo nível cultural.

O final dos anos 80 e o começo dos 90, entretanto, não foram de todo
ruins. Tivemos conquistas como a Constituição Federal de 1988, que garantiu o
ECA, Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, a Lei Orgânica da Assistência Social –
LOAS, Lei nº 8.742, de 1993, e o Sistema Único de Saúde.

Já Antunes (1997) afirma que os anos 90 trazem uma nova realidade


econômica e social ao país, em que o serviço social é obrigado a fazer a leitura

9
UNIDADE 1 | AS DIMENSÕES T-O, TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

e intervir nas novas configurações das questões sociais, que trazem temáticas
relativas à exclusão por causa da precarização do trabalho.

Hoje o assistente social tem deveres com os demandatários principalmente


porque, na articulação entre teoria e prática, decifra a realidade e cria alternativas
que transcendem o individualismo, como está no Código de Ética de 1993,
rompendo com práticas tuteladoras e ampliando os canais de cidadania e
participação dos demandatários como sujeitos políticos.

A Lei Orgânica da Assistência Social define os objetivos da profissão,


colocando no inciso um a proteção à família, à maternidade, à infância, à
adolescência e à velhice; além disso, a Assistência Social deverá ser realizada de
forma integrada a outras políticas, sempre no enfrentamento da pobreza e luta
pela universalização dos direitos sociais.

Toda a mudança do mundo do trabalho transformou a classe que vive do


trabalho numa grande massa dependente de assistência, pois as questões sociais
emergiram de forma rápida, impulsionando os profissionais a atuações urgentes.

Diante de todas as mudanças, temos que repensar o profissional que


começou sua história no Brasil como um instrumento de repreensão por parte do
Estado. Hoje é uma profissão que atua tanto no âmbito público como no privado,
tendo os mais variados tipos de intervenção: desenvolveu-se nas pesquisas,
avançou no nível acadêmico e na organização social (YASBEK, 2008).

LEITURA COMPLEMENTAR

RESGATE HISTÓRICO SOBRE O SURGIMENTO DO SERVIÇO SOCIAL


NO BRASIL

Lívia Carla de Souza Almeida

A história do serviço social está ligada aos fatos históricos, segundo Silva
(1995), pois, “[...] não deve ser entendida como uma cronologia de fatos, mas na
sua ligação com o contexto geral da sociedade [...] isto é, a história dos processos
econômicos, das classes e das próprias ciências sociais.” (p. 35).

Inicialmente, o serviço social se apresenta envolvido com os interesses da


classe dominante, mas, antagonicamente, também está sujeito à classe subalterna,
sendo o mediador entre ambas as classes. A contradição é uma característica
presente em países industrializados, assim como os altos índices de pauperismo
na zona urbana.

Por volta da década de 30, começa a haver no Brasil uma urbanização


crescente, e as contradições da industrialização fazem surgir as lutas reivindicativas,
a classe trabalhadora passa a se organizar, resultando na hostilidade do outro
10
TÓPICO 1 | TRAJETÓRIA DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL

grupo. Nasce, neste momento, através do papel pacificador por parte do Estado,
a institucionalização do serviço social que, movido pelas profundas alterações
sociais através do processo de transição do modelo agrário-comercial para o
modelo industrial, atua frente à “questão social” que é apresentada diante de todos.
Segundo Iamamoto (2004, p. 18) “o debate sobre a ‘questão social’ atravessa toda
a sociedade e obriga o Estado, as frações dominantes e a Igreja a se posicionarem
diante dela”.

A Igreja Católica torna-se fundamental na abertura das duas primeiras


escolas de serviço social : a Escola de serviço social de São Paulo, em 1936, e a
Escola de serviço social do Rio de Janeiro, em 1937, sendo essas duas escolas as
pioneiras do serviço social no Brasil.

Silva (1995) afirma que, desde o ano da criação das primeiras escolas de
serviço social até 1945, são definidos três eixos para a formação profissional do
assistente social. São eles:

• formação científica, na qual era necessário o conhecimento das disciplinas como


Sociologia, Psicologia, Biologia, Filosofia, favorecendo ao educando uma visão
holística do homem, ajudando-o a criar o hábito da objetividade;

• formação técnica, cujo objetivo era preparar o educando quanto à sua ação no
combate aos males sociais; e a

• formação moral e doutrinária, fazendo com que os princípios inerentes à


profissão sejam absorvidos pelos alunos.

A expansão da economia norte-americana na América Latina resultou na


adoção do Brasil pelo desenvolvimentismo que monopolizava a economia e a
política, havendo influência norte-americana também no serviço social .

Foi no âmbito da influência norte-americana que importamos,


progressivamente, os métodos de serviço social de Caso, serviço social de
Grupo, Organização de Comunidade e, posteriormente, Desenvolvimento de
Comunidade. (SILVA, 1995, p. 41).

No decorrer das décadas de 50 e 60, o assistente social é preparado como


mão de obra capaz de colocar em prática os programas sociais, com grande
importância na realização do modelo desenvolvimentista assumido pelo país.
Em meados da década de 60, na América Latina nota-se a ineficácia da proposta
desenvolvimentista; nasce a proposta de transformação da sociedade, onde são
questionados a metodologia, os objetivos e os conteúdos necessários para a
formação profissional. Como resultado, houve muitas escolas em crise ideológica.
Surge assim o movimento de reconceituação, cujo objetivo da ação profissional
do serviço social seriam os problemas estruturais da sociedade, não apenas
relacionados aos problemas individuais, grupais e comunitários.

11
UNIDADE 1 | AS DIMENSÕES T-O, TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

Diante do clima repressivo e autoritário, fruto das mudanças políticas da


década de 60, os assistentes sociais refugiam-se, cada vez mais, em uma discussão
dos elementos que supostamente conferem um perfil peculiar à profissão: objeto,
objetivos, métodos e procedimentos de intervenção, enfatizando a metodologia
profissional. A tecnificação eufemiza o paternalismo autoritário presente na ação
profissional e desenvolve métodos de imposição mais sutis que preconizam a
‘participação’ do ‘cliente’ nas decisões que lhe dizem respeito. (IAMAMOTO,
2004, p. 33).

Surge com o movimento de reconceituação a construção de uma teoria e


de uma prática, compromisso com a realidade latino-americana, ação profissional,
posição ideológica engajada na luta com a classe oprimida e explorada. As
conquistas do movimento de reconceituação foram a interação profissional
continental que respondesse às problemáticas comuns da América Latina sem as
tutelas confessionais ou imperialistas, críticas ao modelo tradicional e inauguração
do pluralismo profissional.

O profissional do serviço social busca, no final da década de 70 e início


da década de 80, novas práticas para atender camadas populares. Iniciam-
se novas discussões em relação à formação profissional, currículo e à questão
metodológica (IAMAMOTO, 2004). Com a Constituição Federal de 1988, inicia-se
um novo tempo, em que a sociedade civil avança em busca da legitimação dos
seus direitos. O assistente social deixa de ser um agente da caridade e caminha
em direção à execução das políticas públicas, atuando no desenvolvimento de
práticas auxiliares, como pesquisa, aconselhamentos, esclarecendo aos seus
usuários os seus direitos e deveres.

FONTE: ALMEIDA, Lívia Carla de Souza. Resgate histórico sobre o surgimento do serviço social
no Brasil. Publicado em: 5 out. 2009. Disponível em: <http://www.webartigos.com/
articles/25916/1/RESGATE-HISTORICO-SOBRE-O-SURGIMENTO-DO-SERVICO-SOCIAL-
NO-BRASIL/pagina1.html>. Acesso em: 28 fev. 2010.

12
TÓPICO 1 | TRAJETÓRIA DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL

DICAS

Para aprofundamento destes temas, sugiro que você leia e assista:

Livro: As Primeiras-Damas e a Assistência Social –


Relações de Gênero e Poder
Autora: Iraildes Caldas Torres.

Livro: Serviço Social , Identidade,


Alienação
Autora: Maria Lúcia Martinelli

Filme: O Nome da Rosa


Autor: Umberto Eco

13
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico abordamos o surgimento da profissão do assistente social,
no qual foram estudados os seguintes itens:

O processo histórico.

As interpretações dos profissionais frente à realidade.


A relação entre o período da ditadura e a liberdade.


A construção bibliográfica do serviço social .


14
AUTOATIVIDADE

1 Descreva com suas palavras como se desenvolveu, historicamente, o serviço


social enquanto profissão.

2 Em que década a teoria social de Marx passa a fazer parte da referência


analítica da profissão?

Assinale a alternativa CORRETA:


a) ( ) Década de 40.
b) ( ) Década de 60.
c) ( ) Década de 80.
d) ( ) Década de 90.

3 Quais são os objetivos da profissão de assistente social definidos na Lei


Orgânica da Assistência Social?

4 No Brasil o serviço social começou vinculado a uma instituição que lhe deu
características até meados de 1940. Qual foi esta instituição?

a) ( ) A Igreja.
b) ( ) O Estado.
c) ( ) A Família Imperial.
d) ( ) O Governo Federal.

15
16
UNIDADE 1
TÓPICO 2

A INSTRUMENTALIDADE DO SERVIÇO SOCIAL


“Para realizar grandes conquistas, devemos não
apenas agir, mas também sonhar; não apenas
planejar, mas também acreditar.”
(Anatole France)

1 INTRODUÇÃO
A profissão de assistente social, ao longo dos anos, foi se redefinindo
conforme as demandas foram aparecendo e exigindo deste profissional nova
postura frente à realidade vivenciada.

A década de 60 traz à tona divergências teóricas e metodológicas entre


os profissionais, fazendo-os refletir sobre suas teorias. Assim nascem os avanços
e retrocessos pelos quais a profissão iria passar, que todos conheceram como
“movimento de reconceituação”. (GUERRA, 2009).

2 OS CONTEÚDOS DESSA DIMENSÃO NA TRAJETÓRIA


DA PROFISSÃO: O COMO FAZER A PROFISSÃO
Podemos observar que na década de 70 começam os muitos
questionamentos de como fazer a profissão?, pois faltam publicações que abordem
a prática profissional com certo rigor, que mostrem com mais clareza a atuação
deste profissional. Melhor dizendo, suas técnicas e habilidades. (GUERRA, 2009).

Refletir sobre as práticas foi o primeiro caminho trilhado pelo profissional,


e, diante das crises governamentais, surgem demandas que necessitam de
intervenções imediatas e em longo prazo. (GUERRA, 2009).

Entretanto, na década de 80 ainda não estava totalmente clara, para os


profissionais de serviço social , toda a particularidade do momento histórico que
o Brasil vivenciou na década de 60 e quais os resquícios que a ditadura deixou
para trás.

Assim, muitos assistentes sociais reproduziam em suas análises “a


visão racionalista e tecnicista que o Estado tenta imprimir às questões sociais”.
(GUERRA, 2009, p.141).

17
UNIDADE 1 | AS DIMENSÕES T-O, TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

Na Constituição de 1988, o serviço social passa a ser instituído como


profissão, introduzindo um novo conceito na seguridade social, montando o
tripé: saúde, assistência social e previdência.

Mas, quais as VERTENTES desta teoria para o serviço social ?

A teoria do serviço social segue basicamente três vertentes:

a
 primeira diz respeito aos profissionais que consideram a PRÁTICA como
determinante para as ações e, neste sentido, a teoria fica para o segundo plano;

a
 segunda diz respeito aos profissionais que consideram a TEORIA como
determinante da prática; este profissional fica sem apoio teórico quando
surgem novas demandas;

a
 terceira diz respeito aos profissionais que utilizam a TEORIA para se
referirem às práticas, porém também faltam indicativos teórico-práticos que
quebrem com a postura conservadora da trajetória da profissão.

Assim, as três vertentes discutem sobre as possibilidades e limites das


teorias em fornecer suporte às práticas profissionais, permitindo que a teoria
construída e reconstruída fique mais próxima da realidade na qual será feita a
intervenção.

Podemos afirmar que NÃO EXISTE SEPARAÇÃO ENTRE TEORIA E


PRÁTICA, devendo uma dar suporte à outra, pois, quando intervimos, temos que
conhecer de forma clara a situação. Neste contexto, somente a conheceremos com
a leitura atualizada das questões sociais existentes, porém, a partir de uma nova
intervenção teremos um novo conhecimento, uma nova história para acrescentar
ou contribuir com a teoria.

ATENCAO

Podemos dizer que, de forma contínua, a teoria e a prática sempre caminharão


juntas, num processo contínuo de maturação intelectual e profissional.

Mas, a que a INSTRUMENTALIDADE está se referindo?

A instrumentalidade refere-se aos instrumentos e técnicas para a ação


profissional, que, de acordo com Guerra (2009, p. 30), [...] “refere-se à DIMENSÃO
que o componente instrumental ocupa na constituição da profissão”. (grifo
nosso).

18
TÓPICO 2 | A INSTRUMENTALIDADE DO SERVIÇO SOCIAL

[...] a complexidade e diversidade alcançadas pela intervenção


profissional, no sentido de atender às demandas e requisitos originais
das classes sociais, colocam-na como dimensão mais desenvolvida da
profissão e, portanto, capaz de indicar as condições e possibilidades
da mesma. Tais demandas e requisições exigem do profissional a
criação e recriação, tanto de categorias intelectuais que possam tornar
compreensíveis as problemáticas que lhe são postas, como de novos
sistemas de mediação que possibilitem a passagem das teorias às
práticas. (GUERRA, 2009, p. 34).

Assim, as dificuldades, limitações e constrangimentos são parte das


situações que o profissional enfrenta no momento de coletar as informações e
chegar próximo da intervenção, como apresenta Guerra.

3 RAZÃO E MODERNIDADE
A RAZÃO está constantemente vinculada à discussão da LIBERDADE:

Pela via da razão foi possível ao homem libertar-se das concepções


religiosas fundamentais na razão divina, encetando uma nova
maneira de conceber o mundo. Esta mesma razão indica ao homem
seu horizonte e limites e porta a capacidade de explicar os processos
que constituem e são constitutivos e constituintes da estrutura social,
iluminando suas condições e possibilidades de autonomia. (GUERRA,
2009, p. 41).

Assim podemos dizer que a razão foi o grande motivo de levar o


homem à sua superação, tirando-o do estágio de ignorância e direcionando-o à
racionalidade. Assim nasce a era moderna, quando o homem procura conhecer
sua própria história e reconstruí-la.

Guerra (2009) expõe que a razão não está totalmente vinculada à realidade
e, sim, à forma como o sujeito a compreende, como reconhece e estabelece uma
relação com o objeto observado.

ATENCAO

Dentre as discussões envolvendo a razão, tivemos Hegel com a preocupação


com a essência, Kant com as contradições entre razão teórica e razão prática. No século XX
vieram juntar-se à discussão Max Weber, Comte e Émile Durkheim.

Sabemos que cada um dos filósofos ou sociólogos trouxe uma receita de


como observar a sociedade, de como intervir diante dos contextos históricos,
culturais e políticos da época.

19
UNIDADE 1 | AS DIMENSÕES T-O, TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

4 RACIONALIDADE DO CAPITALISMO E SERVIÇO SOCIAL


O trabalho nos estudos de Marx passa a ter um significado muito além
daquele pensado até então, pois [...] “o homem transforma a natureza e, ao fazê-
lo, transforma a si mesmo e aos outros homens”. (GUERRA, 2009, p. 102).

Marx fala dos valores de uso e de troca, e mostra como isso fica definido
na sociedade capitalista e de que forma fica o trabalho contido no valor da
mercadoria. Assim, o trabalhador alienado e explorado acaba não entendendo
todo o processo, além de não visualizar o valor do trabalho contido na mercadoria.

Desta forma, as questões sociais estão relacionadas ao processo de


trabalho, que contam, ou deviam contar, com a força do Estado para minimizar
os estragos feitos pela exploração.

Ao tratar de interesse da sociedade, trabalha-se o enfoque coletivo, com


a articulação da Rede Social como possibilidade de enfrentamento da violência
de forma efetiva, buscando construir espaços públicos de discussão e construção
conjunta de encaminhamentos. (HOLANDA, 2010, p. 2).

O pensamento neoliberal diz que todos têm igualdade de oportunidades,


porém, quando se trabalham as questões sociais, verifica-se que a cidadania é um
direito que é composto pela desigualdade econômica.

A sociedade moderna, nas suas mais variadas dimensões, é afetada


pela desestruturação política, sendo a esfera pública uma das
dimensões destacadas como objeto de estudo. Para ela, a história do
mundo moderno é a história da dissolução do espaço público, fazendo
emergir uma sociedade despolitizada e atomizada pela competição
e por uma instrumentalização do mundo. A fundamentação teórica
da noção de espaço público, em Arendt, encontra suporte nas
tradições grega e romana que puderam ressurgir nas experiências
revolucionárias modernas. (ARENDT apud HOLANDA, 2010, p. 2).

E
IMPORTANT

A PRÁXIS é muito além da prática cotidiana, pois “[...] é uma unidade entre
pensamento e ação na cotidianidade. (HELLER apud GUERRA, 2009, p. 180).

Observe a atuação profissional nas situações imediatas e nos fenômenos


emergentes, pois são diferentes, com atuação específica.

20
TÓPICO 2 | A INSTRUMENTALIDADE DO SERVIÇO SOCIAL

O profissional de serviço social , integrante de equipe multidisciplinar,


deve ter sua atuação efetiva, para ser efetiva, conforme disposto no
Código de Ética, de acordo com as exigências que são próprias ao
exercício de um serviço público baseado numa concepção de práxis
com constantes mediações entre teoria e prática, atentando para
a escuta da sociedade, que demanda seus serviços num contexto
jurisdicional. [...]
As respostas a serem dadas a essas demandas colocam o profissional de
serviço social numa perspectiva de responder antes a si mesmo, qual
o uso que faz do seu conhecimento profissional e de sua racionalidade
como profissional da área de conhecimento humano-social, colocadas
nos seguintes termos, segundo Jürgen Habermas:
[...] racionalidade tem mais a ver com a forma em que os sujeitos
capazes de linguagem e de ação fazem uso do conhecimento do
que a ver com o conhecimento ou sua aquisição. No mais, não há
duas razões, a instrumental má e a comunicativa boa. O que parece
haver, à mesma razão no seio da modernidade, é a possibilidade de
um direcionamento para técnica e instrumentalidade de um lado e
direcionamento para o diálogo e consenso por outro. (HOLANDA,
2010, p. 8).

TUROS
ESTUDOS FU

Você verá mais tarde, na Unidade 2 deste caderno, uma discussão mais
aprofundada com relação à RACIONALIDADE da prática profissional do assistente social.

LEITURA COMPLEMENTAR

A INSTRUMENTALIDADE NO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

Yolanda Guerra

INTRODUÇÃO

À primeira vista, o tema instrumentalidade no exercício profissional


do assistente social parece ser algo referente ao uso daqueles instrumentos
necessários ao agir profissional, através dos quais os assistentes sociais podem
efetivamente objetivar suas finalidades em resultados profissionais propriamente
ditos. Porém, uma reflexão mais apurada sobre o termo instrumentalidade nos
faria perceber que o sufixo “idade” tem a ver com a capacidade, qualidade ou
propriedade de algo. Com isso podemos afirmar que a instrumentalidade no
exercício profissional refere-se, não ao conjunto de instrumentos e técnicas (neste
caso, a instrumentação técnica), mas a uma determinada capacidade ou propriedade
constitutiva da profissão, construída e reconstruída no processo sócio-histórico.

21
UNIDADE 1 | AS DIMENSÕES T-O, TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

O objetivo do texto é o de refletir sobre a instrumentalidade no exercício


profissional do assistente social como uma propriedade ou um determinado
modo de ser que a profissão adquire no interior das relações sociais, no confronto
entre as condições objetivas e subjetivas do exercício profissional.

A instrumentalidade, como uma propriedade sócio-histórica da


profissão, por possibilitar o atendimento das demandas e o alcance de objetivos
(profissionais e sociais), constitui-se numa condição concreta de reconhecimento
social da profissão.

1 A INSTRUMENTALIDADE DO TRABALHO E O SERVIÇO SOCIAL

Foi dito que a instrumentalidade é uma propriedade e/ou capacidade


que a profissão vai adquirindo na medida em que concretiza objetivos. Ela
possibilita que os profissionais objetivem sua intencionalidade em respostas
profissionais. É por meio desta capacidade, adquirida no exercício profissional
que os assistentes sociais modificam, transformam, alteram as condições
objetivas e subjetivas e as relações interpessoais e sociais existentes num
determinado nível da realidade social: no nível do cotidiano. Ao alterarem o
cotidiano profissional e o cotidiano das classes sociais que demandam a sua
intervenção, modificando as condições, os meios e os instrumentos existentes, e
os convertendo em condições, meios e instrumentos para o alcance dos objetivos
profissionais, os assistentes sociais estão dando instrumentalidade às suas ações.
Na medida em que os profissionais utilizam, criam, adéquam às condições
existentes, transformando-as em meios/instrumentos para a objetivação das
intencionalidades, suas ações são portadoras de instrumentalidade. Deste
modo, a instrumentalidade é tanto condição necessária de todo trabalho social
quanto categoria constitutiva, um modo de ser, de todo trabalho. Por que dizer
que a instrumentalidade é condição de reconhecimento social da profissão?

Todo trabalho social (e seus ramos de especialização – por exemplo, o


serviço social ) possui instrumentalidade, a qual é construída e reconstruída na
trajetória das profissões pelos seus agentes. Esta condição inerente ao trabalho
é dada pelos homens no processo de atendimento às necessidades materiais
(comer, beber, dormir, procriar) e espirituais (relativas à mente, ao intelecto, ao
espírito, à fantasia), suas e de outros homens. Pelo processo de trabalho os homens
transformam a realidade, transformam-se a si mesmos e aos outros homens.
Assim, os homens reproduzem material e socialmente a própria sociedade. A ação
transformadora que é práxis (ver LESSA, 1999 e BARROCO, 1999), cujo modelo
privilegiado é o trabalho, tem uma instrumentalidade. Detém a capacidade
de manipulação, de conversão dos objetos em instrumentos que atendam às
necessidades dos homens e de transformação da natureza em produtos úteis (e
em decorrência, a transformação da sociedade). Mas a práxis necessita de muitas
outras capacidades/propriedades além da própria instrumentalidade. Neste
âmbito, o processo de trabalho é compreendido como um conjunto de atividades
prático-reflexivas voltadas para o alcance de finalidades, as quais dependem

22
TÓPICO 2 | A INSTRUMENTALIDADE DO SERVIÇO SOCIAL

da existência, da adequação e da criação dos meios e das condições objetivas


e subjetivas. Os homens utilizam ou transformam os meios e as condições sob
as quais o trabalho se realiza modificando-os, adaptando-os e utilizando-os em
seu próprio benefício, para o alcance de suas finalidades. Este processo implica,
pois, manipulação, domínio e controle de uma matéria natural que resulte na
sua transformação. Este movimento de transformar a natureza é trabalho. Mas
ao transformar a natureza, os homens transformam-se a si próprios. Produzem
um mundo material e espiritual (a consciência, a linguagem, os hábitos, os
costumes, os modos de operar, os valores morais, éticos, civilizatórios) necessário
à realização da práxis.

Se trabalho é relação homem-natureza, e práxis é o conjunto das formas de


objetivação dos homens (incluindo o próprio trabalho), num e noutro os homens
realizam a sua teleologia. Toda postura teleológica encerra instrumentalidade,
o que possibilita ao homem manipular e modificar as coisas a fim de atribuir-
lhes propriedades verdadeiramente humanas, no intuito de converterem-nas em
instrumentos/meios para o alcance de suas finalidades.

Converter os objetos naturais em coisas úteis, torná-los instrumentos


é um processo teleológico, o qual necessita de um conhecimento correto das
propriedades dos objetos. Nisso reside o caráter emancipatório do trabalho.
Entretanto, tal conhecimento seria insuficiente se a ele não se acrescentasse a
operatividade propriamente dita, a capacidade de os homens alterarem o estado
atual de tais objetos (GUERRA, 2000). Qual a relação entre postura teleológica e
instrumentalidade? No trabalho o homem desenvolve capacidades, que passam
a mediar sua relação com outros homens. Desenvolve também mediações, tais
como a consciência, a linguagem, o intercâmbio, o conhecimento, mediações
estas em nível da reprodução do ser social como ser histórico, e, portanto, postas
pela práxis. Isso porque o desenvolvimento do trabalho exige o desenvolvimento
das próprias relações sociais, e o processo de reprodução social, como um todo,
requer mediações de complexos sociais tais como: a ideologia, a teoria, a filosofia,
a política, a arte, o direito, o Estado, a racionalidade, a ciência e a técnica.
(LESSA, 1999; GUERRA, 2000). Tais complexos sociais (que Lukács chama de
mediações de “segunda ordem”, já que as de primeira ordem referem-se ao
trabalho) têm como objetivo proporcionar uma dada organização das relações
entre os homens e localiza-se no âmbito da reprodução social.

O que ocorre com a instrumentalidade, com a qual os homens controlam


a natureza e convertem os objetos naturais em meios para o alcance de
suas finalidades, é que ela é transposta para as relações dos homens entre si,
interferindo em nível de reprodução social. Mas isso só ocorre em condições
sócio-históricas determinadas. Nestas, os homens tornam-se meios/instrumentos
de outros homens. O exemplo mais desenvolvido de conversão dos homens em
meios, para a realização de fins de outros homens, é o da compra e venda da força
de trabalho como mercadoria, de modo que a instrumentalidade, convertida em
instrumentalização das pessoas, passa a ser condição de existência e permanência
da própria ordem burguesa, via instituições e organizações sociais criadas com

23
UNIDADE 1 | AS DIMENSÕES T-O, TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

este objetivo. Pelas suas características, o processo produtivo capitalista detém


a propriedade de converter as instituições e práticas sociais em instrumentos/
meios de reprodução do capital. Isso se dá por meio de profundas e substantivas
transformações societárias, as quais não poderão ser tratadas neste texto. Cabe-
nos apenas sinalizar que num determinado tipo de sociedade, a do capital, “o
trabalhador deixa de lado suas necessidades enquanto pessoa humana e se
converte em instrumentos para a execução das necessidades de outrem”. (LESSA,
1999). (Sobre a reificação das relações sociais no capitalismo maduro ver NETTO,
1981). Em que condições sócio-históricas a instrumentalidade como condição
necessária da relação homem-natureza se converte em instrumentalização das
pessoas?

SERVIÇO SOCIAL E INSTRUMENTALIDADE

Como decorrência das formas lógicas de reprodução da ordem burguesa


e como modalidade sócio-histórica de tratamento da chamada questão social,
o Estado passa a desenvolver um conjunto de medidas econômicas e sociais,
demandando ramos de especialização e instituições que lhe sirvam de instrumento
para o alcance dos fins econômicos e políticos que representa, em conjunturas
sócio-históricas diversas. A questão social está sendo entendida como “expressão
do processo de formação e desenvolvimento da classe operária e do seu ingresso
no cenário da sociedade, exigindo seu reconhecimento enquanto classe por parte
do empresariado e do Estado”. (IAMAMOTO; CARVALHO, 1982, p. 77; ver
também NETTO, 1992 e, especialmente, 2001).

É no estágio monopolista do capitalismo, dadas as características que


lhe são peculiares, que a questão social vai se tornando objeto de intervenção
sistemática e contínua do Estado. Com isso, instaura-se um espaço determinado
na divisão social e técnica do trabalho para o serviço social (bem como para outras
profissões). A utilidade social de uma profissão advém das necessidades sociais.
Numa ordem social constituída de duas classes fundamentais (que se dividem em
camadas ou segmentos), tais necessidades, vinculadas ao capital e/ou ao trabalho,
são não apenas diferentes, mas antagônicas. A utilidade social da profissão está em
responder às necessidades das classes sociais, que se transformam, por meio de
muitas mediações, em demandas para a profissão. Estas são respostas qualificadas
e institucionalizadas, para o que, além de uma formação social especializada,
devem ter seu significado social reconhecido pelas classes sociais fundamentais
(capitalistas e trabalhadores). Considerando que o espaço sócio-ocupacional de
qualquer profissão, neste caso do serviço social , é criado pela existência de tais
necessidades sociais e que, historicamente, a profissão adquire este espaço quando
o Estado passa a interferir sistematicamente nas refrações da questão social,
institucionalmente transformada em questões sociais (NETTO, 1992), através de
uma determinada modalidade histórica de enfrentamento das mesmas: as políticas
sociais, pode-se conceber que as políticas e os serviços sociais constituem-se nos
espaços sócio-ocupacionais para os assistentes sociais.

24
TÓPICO 2 | A INSTRUMENTALIDADE DO SERVIÇO SOCIAL

As políticas sociais, além de sua dimensão econômico-política (como


mecanismo de reprodução da força de trabalho e como resultado das lutas
de classes), constituem-se também num conjunto de procedimentos técnico-
operativos, cuja componente instrumental põe a necessidade de profissionais que
atuem em dois campos distintos: o de sua formulação e o de sua implementação.
É neste último, no âmbito da sua implementação, que as políticas sociais fundam
um mercado de trabalho para os assistentes sociais.

Com a complexificação da questão social e seu tratamento por parte do


Estado, fragmentando-a e recortando-a em questões sociais a serem atendidas
pelas políticas sociais, instituiu-se um espaço na divisão sociotécnica do trabalho
para um profissional que atuasse na fase terminal da ação executiva das políticas
sociais, instância em que a população vulnerabilizada recebe e requisita direta e
imediatamente respostas fragmentadas, através das políticas sociais setoriais. É
nesse sentido que as políticas sociais contribuem para a produção e reprodução
material e ideológica da força de trabalho (melhor dizendo, da subjetividade do
trabalhador como força de trabalho) e para a reprodução ampliada do capital.
Como resultado destas determinações no processo de constituição da profissão, a
intencionalidade dos assistentes sociais passa a ser mediada pela própria lógica da
institucionalização, pela dinâmica da instauração da profissão e pelas estruturas
em que a profissão se insere, as quais, em muitos casos, submetem o profissional.
Melhor dizendo: os assistentes sociais “passam a desempenhar papéis que lhes são
alocados por organismos e instâncias [...]” próprios da ordem burguesa no estágio
monopolista (NETTO, 1992, p. 68), os quais são portadores da lógica do mercado.
Assim, o assistente social adquire a condição de trabalhador assalariado com todos
os condicionamentos que disso decorrem. Por isso é importante, na reflexão do
significado sócio-histórico da instrumentalidade como condição de possibilidade
do exercício profissional, resgatar a natureza e a configuração das políticas sociais
que, como espaços de intervenção profissional, atribuem determinadas formas,
conteúdos e dinâmicas ao exercício profissional. A este respeito, considerando
a natureza (compensatória e residual) e o modo de se expressar das políticas
sociais (como questão de natureza técnica, fragmentada, focalista, abstraída de
conteúdos econômico-políticos), estas obedecem e produzem uma dinâmica que
se reflete no exercício profissional através de dois movimentos:

1) interditam aos profissionais a concreta apreensão das políticas sociais


como totalidade, síntese da articulação de diversas esferas e determinações
(econômica, cultural, social, política, psicológica), o que os limita a uma
intervenção microscópica, nos fragmentos, nas refrações, nas singularidades;

2) exigem dos profissionais a adoção de procedimentos instrumentais, de


manipulação de variáveis, de resolução pontual e imediata. (Ver NETTO,
1992, GUERRA, 1995). Quais os vínculos entre as políticas sociais e o serviço
social ? Neste contexto, assim entendida a utilidade social da profissão,
vinculada às políticas sociais, a instrumentalidade do serviço social pode
ser pensada como uma condição sócio-histórica da profissão em três níveis:

25
UNIDADE 1 | AS DIMENSÕES T-O, TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

1. DA INSTRUMENTALIDADE DO SERVIÇO SOCIAL FACE AO PROJETO


BURGUÊS, o que significa a capacidade que a profissão porta (dado o caráter
reformista e integrador das políticas sociais) de ser convertida em instrumento,
em meio de manutenção da ordem, a serviço do projeto reformista da burguesia.
Neste caso, dentro do projeto burguês de reformar conservando, o Estado lança
mão de uma estratégia histórica de controle da ordem social, qual seja, as políticas
sociais, e requisita um profissional para atuar no âmbito da sua operacionalização:
os assistentes sociais. Este aspecto está vinculado a uma das funções que a ordem
burguesa atribui à profissão: reproduzir as relações capitalistas de produção.

2. DA INSTRUMENTALIDADE DAS RESPOSTAS PROFISSIONAIS, no que


se refere à sua peculiaridade operatória, ao aspecto instrumental-operativo das
respostas profissionais frente às demandas das classes, aspecto este que permite
o reconhecimento social da profissão, dado que, por meio dele, o serviço social
pode responder às necessidades sociais que se traduzem (por meio de muitas
mediações) em demandas (antagônicas) advindas do capital e do trabalho. Isto
porque as diversas modalidades de intervenção profissional têm um caráter
instrumental, dado pelas requisições que tanto as classes hegemônicas quanto
as classes populares lhe fazem. Nesta condição, no que se refere às respostas
profissionais, a instrumentalidade do exercício profissional expressa-se:

2.1. Nas funções que lhe são requisitadas: executar, operacionalizar,


implementar políticas sociais a partir de pactos políticos em torno dos
salários e dos empregos (do qual o fordismo é exemplar), melhor dizendo,
no âmbito da reprodução da força de trabalho.

2.2. No horizonte do exercício profissional: no cotidiano das classes


vulnerabilizadas, em termos de modificar empiricamente as variáveis do
contexto social e de intervir nas condições objetivas e subjetivas de vida dos
sujeitos (visando à mudança de valores, hábitos, atitudes, comportamento de
indivíduos e grupos). É no cotidiano – tanto dos usuários dos serviços quanto
dos profissionais – no qual o assistente social exerce sua instrumentalidade,
o local em que imperam as demandas imediatas, e consequentemente, as
respostas aos aspectos imediatos, que se referem à singularidade do eu, à
repetição, à padronização. O cotidiano é o lugar onde a reprodução social
se realiza através da reprodução dos indivíduos (NETTO, 1987), por isso
um espaço ineliminável e insuprimível. As singularidades, os imediatismos
que caracterizam o cotidiano, que implicam a ausência de mediação, só
podem ser enfrentados pela apreensão das mediações objetivas e subjetivas
(tais como valores éticos, morais e civilizatórios, princípios e referências
teóricas, práticas e políticas) que se colocam na realidade da intervenção
profissional.

2.3. Nas modalidades de intervenção que lhe são exigidas pelas demandas
das classes sociais. Estas intervenções, em geral, são em nível do imediato,
de natureza manipulatória, segmentadas e desconectadas das suas
determinações estruturais, apreendidas nas suas manifestações emergentes,
de caráter microscópico.
26
TÓPICO 2 | A INSTRUMENTALIDADE DO SERVIÇO SOCIAL

Nestes três casos (2.1, 2.2, 2.3) são respostas manipulatórias, fragmentadas,
imediatistas, isoladas, individuais, tratadas nas suas expressões/aparências (e não
nas determinações fundantes), cujo critério é a promoção de uma alteração no
contexto empírico, nos processos segmentados e superficiais da realidade social,
cujo parâmetro de competência é a eficácia, segundo a racionalidade burguesa.
São operações realizadas por ações instrumentais, são respostas operativo-
instrumentais, nas quais impera uma relação direta entre pensamento e ação e
onde os meios (valores) se subsumem aos fins. Abstraídas de mediações subjetivas
e universalizantes (referenciais teóricos, éticos, políticos, socioprofissionais, tais
como os valores coletivos), estas respostas tendem a percepcionar as situações
sociais como problemáticas individuais (por exemplo: o caso individual, a
situação existencial problematizada, as problemáticas de ordem moral e/ou
pessoal, as patologias individuais etc.). Quais os níveis em que tem se manifestado
a instrumentalidade do serviço social ?

Se muitas das requisições da profissão são de ordem instrumental (em


nível de responder às demandas – contraditórias – do capital e do trabalho e
em nível de operar modificações imediatas no contexto empírico), exigindo
respostas instrumentais, o exercício profissional não se restringe a elas. Com isso
queremos afirmar que reconhecer e atender às requisições técnico-instrumentais
da profissão não significa ser funcional à manutenção da ordem ou ao projeto
burguês. Isto pode vir a ocorrer quando se reduz a intervenção profissional à
sua dimensão instrumental. Esta é necessária para garantir a eficácia e eficiência
operatória da profissão. Porém, reduzir o fazer profissional à sua dimensão
técnico-instrumental significa tornar o serviço social meio para o alcance de
qualquer finalidade. Significa também limitar as demandas profissionais às
exigências do mercado de trabalho. É também equivocado pensar que para realizá-
las o profissional possa prescindir de referências teóricas e ético-políticas. Se as
demandas com as quais trabalhamos são totalidades saturadas de determinações
(econômicas, políticas, culturais, ideológicas), então elas exigem mais do que
ações imediatas, instrumentais, manipulatórias. Elas implicam intervenções que
emanem de escolhas, que passem pelos condutos da razão crítica e da vontade
dos sujeitos, que se inscrevam no campo dos valores universais (éticos, morais e
políticos). Mais ainda, ações que estejam conectadas a projetos profissionais aos
quais subjazem referenciais teórico-metodológicos e princípios ético-políticos.
Assim, na realização das requisições que lhe são postas, a profissão necessita
da interlocução com conhecimentos oriundos de disciplinas especializadas. O
acervo teórico e metodológico que lhe serve de referencial é extraído das ciências
humanas e sociais (conhecimentos extraídos das áreas de: Administração, Ciência
Política, Sociologia, Psicologia, Economia etc.). Tais conhecimentos têm sido
incorporados pela profissão e particularizados na análise dos seus objetos de
intervenção. Mas a profissão também tem produzido, através da pesquisa e da sua
intervenção, conhecimentos sobre as dimensões constitutivas da questão social,
sobre as estratégias capazes de orientar e instrumentalizar a ação profissional
(dentre outros temas) e os tem partilhado com profissionais de diversas áreas.

27
UNIDADE 1 | AS DIMENSÕES T-O, TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

Foi dito, linhas atrás, que há dimensões da instrumentalidade do exercício


profissional e falamos de duas delas. Mas a terceira condição da instrumentalidade
é a de ser uma mediação. Se é verdade que a instrumentalidade se insere no espaço
do singular, do cotidiano, do imediato, também o é que ela, ao ser considerada
como uma particularidade da profissão, dada por condições objetivas e subjetivas,
e como tal sócio-históricas, pode ser concebida como campo de mediação e
instância de passagem. Diferente disso, seria tomar a instrumentalidade apenas
como singularidade, e como tal, um fim em si mesma, de modo que estaríamos
desconhecendo suas possibilidades como particularidade. No cotidiano, como
o espaço da instrumentalidade, imperam demandas de natureza instrumental.
Nele, a relação meios e fins rompe-se e o que importa é que os indivíduos
acionem os elementos necessários para alcançarem seus fins. Mas pelas próprias
características do cotidiano, os homens não se perguntam pelos fins: a quem
servem? que forças reforça? qual o projeto de sociedade que está na sua base?,
tampouco pelos valores que estão implicados nas ações desencadeadas para
responder imediata e instrumentalmente ao cotidiano.

Por que o cotidiano é o espaço para a realização das ações instrumentais?


A instrumentalidade do exercício profissional como mediação

Tratar-se-á aqui da instrumentalidade como uma mediação que permite a


passagem das ações meramente instrumentais para o exercício profissional crítico e
competente. Como mediação, a instrumentalidade permite também o movimento
contrário: que as referências teóricas, explicativas da lógica e da dinâmica da
sociedade, possam ser remetidas à compreensão das particularidades do exercício
profissional e das singularidades do cotidiano. Aqui, a instrumentalidade sendo
uma particularidade e como tal, campo de mediação, é o espaço no qual a cultura
profissional se movimenta. Da cultura profissional os assistentes sociais recolhem
e na instrumentalidade constroem os indicativos teórico-práticos de intervenção
imediata, o chamado instrumental-técnico ou as ditas metodologias de ação.

Reconhecer a instrumentalidade como mediação significa tomar o


serviço social como totalidade constituída de múltiplas dimensões: técnico-
instrumental, teórico-intelectual, ético-política e formativa (GUERRA, 1997), e a
instrumentalidade como uma particularidade e, como tal, campo de mediações
que porta a capacidade tanto de articular estas dimensões quanto de ser o conduto
pelo qual as mesmas traduzem-se em respostas profissionais. No primeiro caso
a instrumentalidade articula as dimensões da profissão e é a síntese das mesmas.
No segundo, ela possibilita a passagem dos referenciais técnicos, teóricos,
valorativos e políticos e sua concretização, de modo que estes se traduzam em
ações profissionais, em estratégias políticas, em instrumentos técnico-operativos.
Em outros termos, ela permite que os sujeitos, face à sua intencionalidade, invistam
na criação e articulação dos meios e instrumentos necessários à consecução das
suas finalidades profissionais.

28
TÓPICO 2 | A INSTRUMENTALIDADE DO SERVIÇO SOCIAL

Afirmamos que, como particularidade, a instrumentalidade é campo


de mediação, dentre elas, da cultura profissional. No exercício profissional o
assistente social lança mão do acervo ídeo-cultural disponível nas ciências sociais
ou na tradição marxista e o adapta aos objetivos profissionais. Constrói um certo
modo de fazer que lhe é próprio e pelo qual a profissão torna-se reconhecida
socialmente. Produz elementos novos que passam a fazer parte de um acervo
cultural (re) construído pelo profissional e que se compõe de objetos, objetivos,
princípios, valores, finalidades, orientações políticas, referencial técnico, teórico-
metodológico, ídeo-cultural e estratégico, perfis de profissional, modos de
operar, tipos de respostas; projetos profissionais e societários, racionalidades
que se confrontam e direção social hegemônica etc. Deste modo, a cultura
profissional, como construção coletiva e base na qual a categoria se referencia,
é também ela uma mediação entre as matrizes clássicas do conhecimento – suas
programáticas de intervenção e os projetos societários que os norteiam – e as
particularidades que a profissão adquire na divisão social e técnica do trabalho.
Ela abarca forças, direções e projetos diferentes e/ou divergentes/antagônicos e
condiciona o exercício profissional. Na definição das finalidades e na escolha dos
meios e instrumentos mais adequados ao alcance das mesmas, os homens estão
exercendo sua liberdade (concebida historicamente como escolha racional por
alternativas concretas dentro dos limites possíveis). Tais finalidades (ainda que
de caráter individual) estão inscritas num quadro valorativo e somente podem
ser pensadas no interior deste quadro, entendido como acervo cultural do qual
o profissional dispõe e lhe orienta as escolhas técnicas, teóricas e ético-políticas.
Tais escolhas implicam projetar tanto os resultados e meios de realização quanto
as consequências. Isso porque, no âmbito profissional, não existem ações pessoais,
mas ações públicas e sociais de responsabilidade do indivíduo como profissional
e da categoria profissional como um todo. Para tanto, há que se ter conhecimento
dos objetos, dos meios/instrumentos e dos resultados possíveis.

Com isso pode-se perceber que a cultura profissional incorpora conteúdos


teórico-críticos projetivos. Pela mediação da cultura profissional o assistente social
pode negar a ação puramente instrumental, imediata, espontânea e reelaborá-
la em nível de respostas socioprofissionais. Na elaboração de respostas mais
qualificadas, na construção de novas legitimidades, a razão instrumental não dá
conta. Há que se investir numa instrumentalidade inspirada pela razão dialética.

O que significa reconhecer a instrumentalidade do exercício profissional


como mediação?

CONCLUSÃO – SERVIÇO SOCIAL E RAZÃO DIALÉTICA

Ainda que surgindo no universo das práticas reformistas integradoras que


visam controlar e adaptar comportamentos, moldar subjetividades e formas de
sociabilidade necessárias à reprodução da ordem burguesa, de um lado, e como
decorrência da ampliação das funções democráticas do Estado, fruto das lutas
de classes, de outro, o serviço social , entretecido pelos interesses em confronto, vai
ampliando as suas funções até colocar-se no âmbito da defesa da universalidade

29
UNIDADE 1 | AS DIMENSÕES T-O, TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

de acesso a bens e serviços, dos direitos sociais e humanos, das políticas públicas
e da democracia. Pela instrumentalidade da profissão, pela condição e capacidade
de o serviço social operar transformações, alterações nos objetos e nas condições
(meios e instrumentos), visando alcançar seus objetivos, vão passando elementos
progressistas, emancipatórios, próprios da razão dialética. Pressionando a
profissão, tais forças progressistas (internas e externas) permitem que a profissão
reveja seus fundamentos e suas legitimidades, questione sua funcionalidade e
instrumentalidade, o que permite uma ampliação das bases sobre as quais sua
instrumentalidade se desenvolve. Ao desprender da base histórica pela qual a
profissão surge, o serviço social pode qualificar-se para novas competências,
buscar novas legitimidades, indo além da mera requisição instrumental-operativa
do mercado de trabalho. Este enriquecimento da instrumentalidade do exercício
profissional resulta num profissional que, sem prejuízo da sua instrumentalidade,
no atendimento das demandas possa antecipá-las, que habilitado no manejo do
instrumental técnico saiba colocá-lo no seu devido lugar (qual seja, no interior do
projeto profissional) e, ainda, que reconhecendo a dimensão política da profissão,
inspirado pela razão dialética, invista na construção de alternativas que sejam
instrumentais à superação da ordem social do capital.

FONTE: GUERRA, Yolanda. A instrumentalidade no trabalho do assistente social. In: Cadernos


do Programa de Capacitação Continuada para Assistentes Sociais. Capacitação
em serviço social e Política Social. Módulo 4. Brasília: CFESS/ABEPSS – UNB, 2000.
Disponível em: <http://www.danielafonso.com.br/files/Yolanda%20Guerra.pdf>.
Acesso em: 10 fev. 2010.

30
TÓPICO 2 | A INSTRUMENTALIDADE DO SERVIÇO SOCIAL

DICAS

Para aprofundamento destes temas, sugiro que você assista e leia:

- Revista Serviço Social e Sociedade


n.54. São Paulo: Cortez, 1997,
que trata da descentralização,
cidadania e participação.

- GUERRA, Yolanda. A
instrumentalidade do serviço social .
São Paulo: Cortez, 2005.

- Filme: Central do Brasil, de Walter


Salles

- Filme: Casa de Areia, 2005, direção:


Andrucha Waddington

31
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico estudamos acerca do significado da instrumentalidade do
serviço social e foram abordados os seguintes itens:

• Reflexão sobre o fazer profissional desde a década de 70.

• As vertentes da teoria do serviço social .

• A importância da Constituição de 1988.

• O que é a instrumentalidade.

32
AUTOATIVIDADE

1 Relacione as colunas referentes às vertentes em serviço social .

(1) 1ª vertente.
(2) 2ª vertente.
(3) 3ª vertente.
(4) 4ª vertente.

( ) Esta vertente não existe.


( ) Profissionais que utilizam a TEORIA para se referirem às práticas.
( ) Profissionais que consideram a PRÁTICA como determinantes para as ações.
( ) Profissionais que consideram a TEORIA como determinantes da prática.

Assinale a alternativa CORRETA:


a) ( ) A ordem correta é 1-2-3-4.
b) ( ) A ordem correta é 1-4-2-3.
c) ( ) A ordem correta é 4-3-1-2.
d) ( ) A ordem correta é 4-3-2-1.

2 Na Constituição de 1988, o serviço social passa a ser instituído como profissão


e monta o tripé, elevando o serviço à condição de política social. (GUERRA,
2009). Qual é o conjunto que forma o tripé?

Assinale a alternativa CORRETA:


a) ( ) Saúde – Previdência – Assistência social.
b) ( ) Previdência – Assistência – Informática.
c) ( ) Comunicação – Previdência – Segurança.
d) ( ) Segurança – Assistência – Informática.

33
34
UNIDADE 1
TÓPICO 3

AS COMPETÊNCIAS DO SERVIÇO SOCIAL


NA CONTEMPORANEIDADE: POLÍTICA,
ÉTICA, INVESTIGAÇÃO E INTERVENÇÃO
“Se nós não planejarmos o nosso futuro,
outros o farão para nós, por nós ou, pior...,
contra nós.”
(Eliezer Arantes da Costa)

1 INTRODUÇÃO
Sabe-se que atualmente existe uma exigência cada vez maior na
qualificação e atuação profissional, seja do assistente social ou qualquer outra
profissão. E neste sentido trabalharemos neste tópico as diversas dimensões
que norteiam a atuação profissional do assistente social e suas competências na
atualidade. De acordo com Guerra (1999, p. 77),

[...] a nossa profissão, ao longo da sua trajetória, vem se caracterizando


pelo não enfrentamento de algumas problemáticas, o que [...] tem
produzido, reproduzido e alimentado algumas insuficiências de
natureza ÍDEO-TEÓRICAS, POLÍTICAS e PRÁTICO-OPERATIVAS
[...]

Pretendemos desmistificar estes dilemas conceituais, para assim poder


compreender melhor a nossa atuação profissional. Antes de qualquer coisa,
devemos relembrar um pouco do Tópico 4, da Unidade 2, do Caderno de
Trabalho e Contemporaneidade, que tratou da questão da formação profissional
do assistente social na atualidade. O caderno apresentou um quadro analítico
referente aos PRESSUPOSTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS DA PRÁTICA
PROFISSIONAL DO assistente social, que será apresentado por núcleos
separados para, assim, nos aprofundarmos nesta discussão.

35
UNIDADE 1 | AS DIMENSÕES T-O, TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

2 CONSIDERAÇÕES INICIAIS SOBRE AS


COMPETÊNCIAS DO SERVIÇO SOCIAL NA
CONTEMPORANEIDADE
Antes de qualquer coisa, devemos relembrar alguns aspectos históricos
para contextualizar a nossa explanação referente às competências profissionais
do assistente social. Neste sentido, vejamos o que Souza (2008, p. 121, grifo nosso)
tem a nos dizer:

Se, no momento da ORIGEM do serviço social , como uma profissão


inscrita na divisão do trabalho, era apenas a sua DIMENSÃO TÉCNICA que
lhe garantia os estatutos de eficácia e competência profissional (isto é, era a
forma e os resultados imediatos de sua ação que lhe garantiam legitimidade
e reconhecimento da sociedade), o Movimento de Reconceituação buscou
superar essa visão unilateral. No universo das diversas correntes que atuaram
nesse movimento, a principal motivação era dar ao serviço social um estatuto
científico.

E mais propriamente, no âmbito da corrente que Netto (2004) denominou


de “INTENÇÃO DE RUPTURA” (que para ele significa o rompimento
com as visões conservadoras da profissão), foi levantada a necessidade de
que a profissão se debruçasse sobre a produção de um conhecimento crítico
da realidade social, para que o próprio serviço social pudesse construir os
objetivos e (re)construir objetos de sua intervenção, bem como responder às
demandas sociais colocadas pelo mercado de trabalho e pela realidade. Assim,
pôde o serviço social aprofundar o diálogo crítico e construtivo com diversos
ramos das chamadas Ciências Humanas e Sociais (Economia, Sociologia,
Ciência Política, Antropologia, Psicologia).

A partir de então, entramos no período em que os autores


contemporâneos da profissão chamam de “MATURIDADE ACADÊMICA E
PROFISSIONAL DO SERVIÇO SOCIAL ” (NETTO, 1996), que procurou
definir novos requisitos para o status de competência profissional. Iamamoto
(2004), após realizar uma análise dos desafios colocados ao serviço social nos
dias atuais, apontou três dimensões que devem ser do domínio do assistente
social: [dimensão TEÓRICO-METODOLÓGICA, dimensão TÉCNICO-
OPERATIVA e dimensão ÉTICO-POLÍTICA].

Caro(a) acadêmico(a), neste momento estudaremos cada uma delas, para


compreender melhor estas competências profissionais do assistente social.

36
TÓPICO 3 | AS COMPETÊNCIAS DO S. S. NA CONTEMPORANEIDADE: POLÍTICA, ÉTICA, INVESTIGAÇÃO E INTERVENÇÃO

3 COMPETÊNCIA TEÓRICO-METODOLÓGICA
Com relação à COMPETÊNCIA TEÓRICO-METODOLÓGICA do
assistente social, devemos primeiramente compreender o que Yolanda Guerra
tem estudado e refletido por inúmeros trabalhos, publicações e livros sobre a
instrumentalidade do serviço social .

Guerra (1999, p. 79) expõe primeiramente que “as formulações teórico-


metodológicas de Marx, das quais no serviço social a vertente da intenção de
ruptura é herdeira, entende haver uma autoimplicação entre TEORIA SOCIAL e
MÉTODO.”

Neste sentido, qual seria o PAPEL da TEORIA na construção profissional


do assistente social?

E
IMPORTANT

De acordo com Guerra (1999, p. 79), “o papel da teoria é o de ILUMINAR as


estruturas e as dinâmicas dos processos sociais, as determinações contraditórias dos
fatores e fenômenos, dissolver a positividade dos fatos pela sua negação, mas não
oferece, nem se propõe a isso, uma pauta acerca dos instrumentos de intervenção sobre a
realidade social.”

Mas, onde fica a questão do MÉTODO, na atuação profissional do


assistente social?

E
IMPORTANT

De acordo com Guerra (1999, p. 79-80), “a concepção do método, no âmbito


do referencial marxiano, [é tida] como o CAMINHO DO PENSAMENTO, a direção analítica,
que obedece ao movimento do objeto, afasta-se muito daquela que toma o método como
o conjunto de procedimentos e/ou regras do conhecimento ou, ainda, como meio de
aplicação deste conhecimento.”

Ou seja, o método não é simplesmente a aplicabilidade de um instrumento


de ação, mas é “o COMO FAZER” e a “SISTEMATIZAÇÃO DA PRÁTICA”,
enquanto caminho analítico, advindo de uma análise teórica da realidade
cotidiana e vivencial da questão social a ser trabalhada.

37
UNIDADE 1 | AS DIMENSÕES T-O, TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

Mas, quais são as TENDÊNCIAS que permeiam a trajetória histórica da


profissão do assistente social com relação às teorias e práticas?

Guerra (1999, p. 80) coloca-nos que “existem três tendências que


acompanham a trajetória da profissão, as quais se vêm manifestando de maneira
híbrida” ao longo da história do serviço social , que são:

FIGURA 1 – TENDÊNCIAS QUE PERMEIAM A TRAJETÓRIA HISTÓRICA DA


PROFISSÃO DO ASSISTENTE SOCIAL

FONTE: Pieritz (2010)

PRIMEIRA TENDÊNCIA: A PRÁTICA como base de atuação profissional

Para os profissionais do serviço social

[...] que têm a PRÁTICA como fundamento de determinação de suas


ações, as teorias não passam de construções abstratas, já que se situam
secundariamente frente à prática, cabendo a esta, em última instância,
fornecer indicativos sobre os instrumentos operativos capazes de
possibilitar uma ação efetiva nas situações concretas. (GUERRA, 1999,
p. 80).

Neste sentido, podemos observar que com a experiência prática do dia


a dia, adquirida ao longo da atividade laboral do serviço social , os assistentes
sociais desenvolvem procedimentos técnicos de atuação e intervenção. Ou seja, a
atuação profissional do assistente social se dá por meio da acumulação empírica
de informações obtidas cotidianamente durante as práticas profissionais, e nestas
práticas repetitivas constituem suas ações profissionais.

SEGUNDA TENDÊNCIA: A CONSTRUÇÃO TEÓRICA como base de


atuação profissional

38
TÓPICO 3 | AS COMPETÊNCIAS DO S. S. NA CONTEMPORANEIDADE: POLÍTICA, ÉTICA, INVESTIGAÇÃO E INTERVENÇÃO

Para os profissionais do serviço social , de acordo com Guerra (1999, p.


80), que “consideram que as CONSTRUÇÕES TEÓRICAS são determinantes da
prática, a opção do profissional por uma teoria passa a se constituir na sua ‘camisa
de força’ (ou se limita ao âmbito de mera declaração de princípios), uma vez que
esta aparece como a expressão mais formalizada e completa da realidade, dela
exigindo respostas e instrumentos capazes de colocar a ‘teoria em ação’. Mas, “o
VALOR DA TEORIA, neste caso, consiste em construir um quadro explicativo do
objeto que contemple um conjunto de técnicas e instrumentos de valor operacional.
Concebidas como paradigmas “de explicação da realidade social.” (GUERRA,
1999, p. 80).

Nesta perspectiva, podemos falar que os profissionais que adotam


esta tendência procuram constantemente na teoria as explicações da realidade
cotidiana, ou seja, que a teoria lhes proporcione os modelos de intervenção, de
acordo com cada realidade enfrentada.

TERCEIRA TENDÊNCIA: Uma nova CONCEPÇÃO da TEORIA como


base de atuação profissional

Esta vertente, segundo Guerra (1999, p. 81):

[...] reconhece a TEORIA como processos de re-construção, de re-


figuração da realidade pelo pensamento, vinculada a determinados
projetos de sociedades, à visão de homem e mundo, frente às quais
o profissional assume uma posição, e a determinados métodos de
conhecimento e interpretação da sociedade.

Assim, a atuação profissional do assistente social vem se re-configurando


ao longo dos tempos, pois a própria teoria que embasa a sua práxis profissional
também vem se adequando às novas realidades cotidianas.

Mas, será que é só isto? Será que não há OUTROS ASPECTOS que nos
possibilitem compreender melhor estas três TENDÊNCIAS que permeiam a
atuação profissional do assistente social?

Pois bem, é óbvio que devemos compreender mais alguns aspectos


correlacionados com a nossa atuação profissional, pois ela não é tão simples
assim. Vejamos:

Em primeiro lugar: existe uma

[...] REDUÇÃO na forma de CONCEBER AS TEORIAS, limitando


suas contribuições ao nível de dar respostas imediatas às situações
concretas e, ainda, de fornecer instrumentos para a intervenção. Neste
caso, trata-se de ‘teorias de resultados’ e o pressuposto é o de que há
uma relação direta e imediata entre teoria e prática. (GUERRA, 1999,
p. 81).

39
UNIDADE 1 | AS DIMENSÕES T-O, TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

Em segundo lugar: algumas vertentes de assistentes sociais “NÃO


CONSIDERAM que teoria e prática, pensamento e ação, idealidade e
materialidade, possuem naturezas diversas.” (GUERRA, 1999, p. 81).

Em terceiro lugar: outros “NÃO PERMITEM a elucidação dos princípios


que subjazem às noções de teoria vigentes na profissão e esta questão remete
ao outro polo da relação, qual seja, qual a concepção que se tem do serviço social
(arte, ciência, técnica, prática profissional.” (GUERRA, 1999, p. 81).

Não é só isto. Há mais. Também existem alguns PROBLEMAS com


relação à teoria e prática no serviço social que precisamos compreender.
Segundo Guerra (1999, p. 81-82), são eles:

1. No que tange à requisição dos profissionais por teorias que respondam


às necessidades de intervenção profissional, temos a considerar que entre
teoria e prática não há correspondência direta e imediata. A relação entre
elas se processa por MEDIAÇÕES OU SISTEMAS DE MEDIAÇÕES que
envolvam experiência, representações, concepções de mundo, projetos de
sociedade, relações sociais.

2. Por que não há uma passagem direta da teoria à prática? A problematização


desta questão requer uma remissão à premissa (na qual nos apoiamos) de
que as teorias sociais são reflexões sistemáticas que tendem a elaborar uma
explicação macroscópica sobre a sociedade e, neste sentido, há diferentes
teorias e diferentes métodos que se aproximam mais ou menos da realidade
social.

3. Se concebermos teoria como a (re)figuração dos fatos, fenômenos e


processos, há que se considerar que esta apreensão da realidade pela via
do pensamento se encontra repleta de mediações de diferentes naturezas:
experiências diversas, visões de homem e mundo, projetos de sociedade,
representações, relações sociais.

4. Quanto à natureza destas instâncias. Embora considerando teoria/prática,


pensamento/ação, objetividade/subjetividade como DOIS POLOS de um
mesmo movimento, não há uma identidade entre elas. Tampouco pode
haver preponderância de uma sobre a outra.

5. NÃO se EXTRAI teoria da prática, muito menos é função das teorias sociais
oferecer respostas e procedimentos manipulatórios às práticas profissionais
localizadas e particulares.

40
TÓPICO 3 | AS COMPETÊNCIAS DO S. S. NA CONTEMPORANEIDADE: POLÍTICA, ÉTICA, INVESTIGAÇÃO E INTERVENÇÃO

E
IMPORTANT

“Para que NASÇA UM CONCEITO, é necessário que as percepções importantes


para a vida se tornem autônomas em relação à causa delas.” (LUKÁCS, 1968). Para este autor,
o momento da conceituação se desenvolve no curso do processo de socialização dos
homens. (GUERRA, 1999, p. 83).

Continuando nossa reflexão a respeito de algumas problemáticas na


concepção da atuação profissional do assistente social, podemos observar que, de
acordo com Guerra (1999, p. 83):

[...] a ATIVIDADE PRÁTICA, por sua vez, se constitui numa ação


racional de sujeitos reais. Neste sentido, as atividades práticas
podem ser sistematizadas pelos sujeitos que as realizam, porém
esta sistematização, que é um passo necessário e que antecede as
elaborações teóricas propriamente ditas, não se constitui em teoria.

Mas, “[...] se, por um lado, PRÁTICAS PROFISSIONAIS NÃO


PRODUZEM TEORIA, por outro, PODEM CONTRIBUIR PARA O AVANÇO NO
CONHECIMENTO CIENTÍFICO acerca de algumas questões e de determinados
objetos de intervenção”. (GUERRA, 1999, p. 83).

E
IMPORTANT

Como podemos notar, “[...] há momentos teóricos e momentos práticos. Não


pode haver o primado de um sobre o outro, mas uma hierarquia nas determinações em
situações específicas. A unidade teoria/prática é dada pela REALIDADE, que é a base material
de ambas”. (GUERRA, 1999, p. 83).

ATENCAO

Lembre-se, “[...] as teorias que se baseiam em modelos, e até se gabam disto, não
dão conta de explicar o movimento, as transformações, as alterações sociais, ou melhor, a
realidade, e sequer podem ser pensadas como paradigmas, mas como tipologias, no sentido
mais vulgar do termo”. (GUERRA, 1999, p. 83).

41
UNIDADE 1 | AS DIMENSÕES T-O, TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

Outro fator importante nesta reflexão, segundo Guerra (1999, p. 84), é que
existe uma

[...] DIFICULDADE em estabelecer as mediações entre as teorias sociais


macroscópicas, as práticas sociais e profissionais e as singularidades
da intervenção profissional do assistente social; [isso] nos leva a
incorrer em duas concepções ERRÔNEAS de teoria: ou como modelo
de intervenção ou como justificação da prática, ambas amparadas na
realidade.

E
IMPORTANT

Devemos saber que o serviço social é tido como uma especialização na divisão
técnica do trabalho, portanto “[...] o serviço social NÃO TEM TEORIA PRÓPRIA. Baseia-se
em concepções extraídas das ciências sociais ou da tradição marxista e um conjunto de
procedimentos técnico-instrumentais, muitas vezes recriados pelos profissionais para
responder à sua funcionalidade”. (GUERRA, 1999, p. 84).

Então, conforme Tavares e Pieritz (2010, p. 106), podemos concluir que:

 O domínio teórico-metodológico [do assistente social] só se completa


e se atualiza ao ser frutificado pela história da realidade cotidiana, pela
pesquisa rigorosa das condições e relações sociais particulares em que se
vive.

 Que o pressuposto téorico-metodológico requer o acompanhamento das


diversas dinâmicas dos processos sociais, como condição, inclusive, para
a apreensão das problemáticas cotidianas que circunscrevem o exercício
profissional.

 O domínio de uma perspectiva teórico-metodológica, desconexa com a


realidade, o engajamento político ou uma base técnico-operativa não são
suficientes para descobrir e imprimir novos caminhos para o trabalho
profissional.

42
TÓPICO 3 | AS COMPETÊNCIAS DO S. S. NA CONTEMPORANEIDADE: POLÍTICA, ÉTICA, INVESTIGAÇÃO E INTERVENÇÃO

E
IMPORTANT

O profissional deve ser QUALIFICADO para conhecer a realidade social, política,


econômica e cultural com a qual trabalha. Para isso, faz-se necessário um intenso rigor
teórico e metodológico, que lhe permita enxergar a dinâmica da sociedade para além dos
fenômenos aparentes, buscando apreender sua essência, seu movimento e as possibilidades
de construção de novas possibilidades profissionais. (SOUZA, 2008, p. 122).

4 COMPETÊNCIA TÉCNICO-OPERATIVA
No que tange às questões relativas às COMPETÊNCIAS TÉCNICO-
OPERATIVAS do serviço social , podemos verificar que na trajetória histórica da
práxis profissional do assistente social brasileiro existe uma dimensão bastante
expressiva dos campos de atuação profissional, pois, de acordo com o mundo
do trabalho e as expressões das questões sociais apresentadas pela sociedade,
advindas das relações do trabalho versus capital, o assistente social desenvolverá
suas atividades sócio-ocupacionais baseadas em sua dimensão técnico-operativa.

Mas, nestas dimensões técnico-operativas existe certa complexidade


de interpretação dos instrumentos e técnicas, ou simplesmente a definição das
metodologias de ação e intervenção a serem desenvolvidas em cada caso. Como,
por exemplo, no desenvolvimento e planejamento de um projeto ou programa
social, devem-se buscar instrumentos e técnicas que propiciem resultados para
aquela determinada realidade social, que é objeto de intervenção profissional do
assistente social. Portanto, deve-se selecionar o instrumental técnico-operativo
mais apropriado para aquela demanda social. E estes instrumentos devem ser
analisados e adaptados conforme as necessidades e a realidade de intervenção
profissional.

Mas, o que é realmente esta COMPETÊNCIA TEÓRICO-OPERATIVA do


assistente social?

Segundo Souza (2008, p. 122, grifo nosso),

[...] o profissional deve CONHECER, SE APROPRIAR, e sobretudo,


criar um conjunto de HABILIDADES TÉCNICAS que permitam
ao mesmo desenvolver as ações profissionais junto à população
usuária e às instituições contratantes (Estado, empresas, organizações
não-governamentais, fundações, autarquias etc.), garantindo assim
uma inserção qualificada no mercado de trabalho, que responda às
demandas colocadas tanto pelos empregadores, quanto pelos objetivos
estabelecidos pelos profissionais e pela dinâmica da realidade social.

43
UNIDADE 1 | AS DIMENSÕES T-O, TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

E estas ações profissionais do assistente social, baseadas em suas


habilidades, conhecimentos e competências, propiciarão a este profissional um
trabalho qualificado e necessário para a população e instituições, que se utilizam
de sua competência técnico-operativa para intervirem na realidade cotidiana de
nossa sociedade, no intuito de promoverem o bem social e a democracia.

Para Iamamoto e Carvalho (2008, p. 80),

[...] a existência de uma relação singular no contato direto com os


usuários – “os clientes” – [...] reforça um certo espaço para atuação
técnica, abrindo a possibilidade de se reorientar a forma de intervenção,
conforme a maneira de se interpretar o papel profissional. A isso
acresce outro traço peculiar ao serviço social : a indefinição ou fluidez
do “que é” ou “do que faz” o serviço social , abrindo ao assistente social
a possibilidade de apresentar propostas de trabalho que ultrapassem
meramente a demanda institucional. Tal característica apreendida, às
vezes, como estigma profissional, pode ser reorientada no sentido de
ampliação de seu campo de autonomia, de acordo com a concepção
social do agente sobre a prática.

Então, neste sentido precisamos compreender onde é que RESIDE esta


complexidade da ação profissional no serviço social .

Pois bem, Toso (apud MIOTO e LIMA, 2009, p. 27) expõe que “[...]
a complexidade das ações dos assistentes sociais reside em um conjunto de
fatores que as tornam altamente variáveis, imprevisíveis e sujeitas a contínuas
transformações.”

Mas, que FATORES seriam estes? Segundo Toso (apud MIOTO e LIMA,
2009, p. 27, grifo nosso), são:

 os TIPOS DE DEMANDAS que requerem modalidades operativas


flexíveis e personalizadas;

 a QUANTIDADE e a MULTIDIMENSIONALIDADE dos problemas


sociais dos quais sempre emergem novas demandas e necessidades;

 a multiplicidade de contextos institucionais em interação com os seus


constantes conflitos de competências e coordenação;

 a INCERTEZA em relação aos recursos devido à grande variação da


disponibilidade dos recursos públicos;

 e a COMPLEXIDADE das respostas somada à INCERTEZA sobre seus


efeitos, dado o grande número de variáveis intervenientes e da dificuldade
em controlá-las.

44
TÓPICO 3 | AS COMPETÊNCIAS DO S. S. NA CONTEMPORANEIDADE: POLÍTICA, ÉTICA, INVESTIGAÇÃO E INTERVENÇÃO

E
IMPORTANT

Prezado(a) acadêmico(a), [...] aliado a esses fatores que estão articulados, pode-
se dizer que O PROCESSO INTERVENTIVO NÃO SE CONSTRÓI A PRIORI. Ao contrário,
faz-se no seu próprio trajeto, e essa construção não depende só do assistente social, mas
também dos outros sujeitos envolvidos, dentre eles, o espaço sócio-ocupacional no qual
o profissional está inserido e os destinatários das ações nele desenvolvidas. (MIOTO; LIMA,
2009, p. 27-28, grifo nosso).

Ou seja, é no dia a dia profissional que se desenvolve a competência


técnico-operativa do assistente social, permeada por toda esta complexidade
interventiva do cotidiano profissional do serviço social e suas habilidades de
interpretação da realidade social brasileira ou mundial.

E nesta complexidade profissional, como fica a questão da QUALIDADE


DE INTERVENÇÃO profissional do assistente social?

Guerra (1999, p. 85-87) diz que existem duas perspectivas que precisamos
compreender com relação à qualidade da atuação profissional do assistente
social. São elas:

PRIMEIRO: AS CONDIÇÕES OBJETIVAS NAS QUAIS A


INTERVENÇÃO PROFISSIONAL SE REALIZA:

A operacionalização de qualquer proposta passa pela exigência de


condições objetivas, determinadas pelas relações de causalidade entre os
processos que, dinâmica e contraditoriamente, movimentam os fenômenos
postos na realidade. Não por outras razões, o movimento que dimana da
institucionalização da profissão, a forma pela qual sua inserção na divisão social
técnica do trabalho se realiza, a fluidez posta nas definições sobre a natureza
e atribuições operacionais da intervenção profissional, já se colocariam como
problemáticas suficientes para engendrarem constrangimentos à intervenção
profissional e, consequentemente, constituírem-se em campo de investigação.

Porém, há mais. Sabe-se que as condições nas quais a intervenção


profissional se processa são as mais adversas possíveis:

 pulverização e ausência de recursos de toda ordem para atendimento das


demandas;

 exigência pelo desempenho de funções que muito se afastam do que o


assistente social, ou qualquer outro profissional, se propõe realizar;

45
UNIDADE 1 | AS DIMENSÕES T-O, TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

 baixos salários;

 alto nível de burocratização das organizações;

 fluidez e descontinuidade da política econômica;

 e, ainda, que o tratamento atribuído à questão social, através das políticas


sociais estatais e privadas, é fragmentado, casuístico, paliativo.

Desse modo, as condições objetivas colocadas à intervenção


profissional não dependem, apenas, da postura teológica individual dos seus
agentes e de seus instrumentos de intervenção.

A própria lógica que move a ordem burguesa, pelas fragmentações


e abstrações que produz e a sustentam, constrange qualquer prática que
intencione romper com o conservadorismo que nutre esta mesma sociedade.

E neste sentido compete-nos atuar em direção do estabelecimento de


condições materiais necessárias a uma intervenção profissional que supere a
prática burocratizada, imediatista, reformista. Neste âmbito, a necessidade
de reconhecer as estratégias e táticas políticas de ação secundariza a
preocupação com o instrumental técnico.

SEGUNDO: A PROPOSTA TEÓRICO-METODOLÓGICA


MARXIANA:

Sabemos que Marx se preocupa com a lógica que movimenta um


objeto determinado: a ordem burguesa.

A teoria marxiana consiste em (re)produzir, ao nível do


pensamento, o movimento real do objeto, mas jamais a realidade, uma
vez que esta é muito mais rica e plena de determinações (uma totalidade
inacabada, um vir a ser) que as possibilidades da razão em apanhá-la.

Mas, a razão, já em Hegel, é astuciosa e segue a prática a todo o


momento, guia-a, analisa suas transformações, formula conceitos de acordo
com elas. O que pressupõe uma imbricação necessária entre teoria, prática e
método.

A história, entendida como acumulação de forças produtivas, fornece


o material para a análise da razão. As categorias extraídas da história são
remetidas a ela; a razão se historiciza e a história se racionaliza.

Entre o conhecimento e a ação há mediações de diferentes naturezas,


que incorporam as determinações objetivas da realidade e subjetivas,

46
TÓPICO 3 | AS COMPETÊNCIAS DO S. S. NA CONTEMPORANEIDADE: POLÍTICA, ÉTICA, INVESTIGAÇÃO E INTERVENÇÃO

concorrentes aos sujeitos sociais que, embora desveladas pelo método, não
são por eles solucionadas.

Exigir das formulações marxianas respostas num nível de intervenção


na realidade, referente a um ramo de especialização da divisão social e técnica
do trabalho, é transformá-las numa técnica social ou, no limite, enquadrá-las
na lógica formal.

E
IMPORTANT

Caro(a) acadêmico(a): o que estamos tentando demonstrar aqui é que grande


parte dos PROBLEMAS encontrados pelos assistentes sociais em sua atuação profissional
não está correlacionada ao instrumental técnico em si, mas na sua APLICABILIDADE ou
na sua SISTEMATIZAÇÃO.

Devemos, pois, ir além do simples cabedal de instrumentos técnico-


operativos, ou seja, ultrapassar “a dimensão que o componente instrumental
ocupa na constituição da profissão.” (GUERRA, 1999, p. 87).

Então devemos:

FIGURA 2 – NOÇÕES FUNDAMENTAIS SOBRE A COMPREENSÃO DA DIMENSÃO


TÉCNICO-OPERATIVA

FONTE: Adaptado de Guerra (1999, p. 87)


47
UNIDADE 1 | AS DIMENSÕES T-O, TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

Então, sempre deveremos fazer as seguintes reflexões antes de aplicarmos


os instrumentais técnico-operativos:

PRIMEIRO: PARA QUE e com que propósito será aplicado um determinado


instrumento? (objetivo do projeto, programa ou atuação profissional)

SEGUNDO: PARA QUEM será aplicado o determinado instrumento?


(público-alvo, população usuária, demanda social)

TERCEIRO: ONDE será aplicado o determinado instrumento? (fator


locacional: uma comunidade? Um município? Um bairro? Uma região específica?
etc.)

QUARTO: E QUANDO aplicar o determinado instrumento? (fator


temporal: data, período, ano)

Sempre e constantemente devemos realizar uma ANÁLISE da


aplicabilidade do determinado instrumento ou técnica-operativa e se a mesma
trará os resultados esperados para a transformação social pretendida.

Iamamoto e Simionato (apud MIOTO e LIMA, 2009, p. 28) complementam


expondo que “nessa condição é que se busca delinear a questão da dimensão
técnico-operativa” do assistente social.

Com relação à produção bibliográfica e ao exercício profissional, segundo


Mioto e Lima (2009, p. 28-29), devemos observar que existem diferentes realidades,
e nestas, diferentes sujeitos e indicadores que geram abordagens e intervenção
profissional diferenciadas, que, no decorrer da história e do dia a dia profissional,
colaboram para a construção teórico-metodológica, na qual destacamos os
seguintes indicadores:

(a) os espaços sócio-ocupacionais que se diferenciam desde a natureza desses


espaços (públicos ou privados), até as próprias instituições (judiciárias,
hospitalares, de creches) (DE MARCO, 2000; ANDRADE, 2000; SOUSA,
2000; CESAR, 1999; PAZ, 1999; COUTO, 1999);

(b) as funções tradicionalmente desempenhadas pelos assistentes sociais,


tais como, parecer social, plantão social, levantamento socioeconômico
(SARMENTO, 2000; SILVA 2000);

(c) as classificações a partir da sistematização ou análise das ações que


estão sendo realizadas em áreas de inserção do serviço social – exemplo
importante disso é a pesquisa de Costa (2000) na área da saúde;

(d) as diferentes políticas sociais (saúde, habitação, assistência social)


(VASCONCELOS, 2000; BRAVO 1996);

48
TÓPICO 3 | AS COMPETÊNCIAS DO S. S. NA CONTEMPORANEIDADE: POLÍTICA, ÉTICA, INVESTIGAÇÃO E INTERVENÇÃO

(e) a população-alvo da atenção do assistente social, como idosos, mulheres,


crianças e adolescentes.

Particularmente, no campo do exercício profissional, além dos


indicadores destacados, encontramos outro: a definição do exercício
a partir dos instrumentos técnico-operativos (entrevistas, relatórios,
encaminhamentos, visitas domiciliares etc.).

Ou seja, diante desse cenário, devemos compreender que o assistente


social norteia-se pelos seguintes indicadores sociais básicos:

FIGURA 3 – INDICADORES BÁSICOS DA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL

FONTE: Pieritz (2010)

Conforme a figura anterior, de acordo com a expressão da questão social de


um determinado segmento, seu público-alvo e a realidade cotidiana, o assistente
social buscará identificar em seu cabedal técnico-operativo o instrumento ou
técnica que possibilitará responder à demanda a ser trabalhada. Veja este ciclo na
representação gráfica a seguir:
49
UNIDADE 1 | AS DIMENSÕES T-O, TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

FIGURA 4 – CICLO DA ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO assistente social

FONTE: Pieritz (2010)

E
IMPORTANT

Não podemos nos esquecer de fazer os questionamentos estudados sobre


a aplicabilidade do instrumento (para que, para quem, onde e quando fazer) e analisar a
realidade da questão a ser trabalhada.

Sobre a competência técnico-operativa da prática profissional do assistente


social podemos concluir, então, que, conforme Tavares e Pieritz (2010, p. 106):

 Só o domínio técnico-operativo, desconexo com a realidade, o engajamento


político ou uma base teórico-metodológica não são suficientes para a
atuação profissional do assistente social.

 Ao se descolar dos fundamentos teórico-metodológicos e ético-políticos, a


competência técnico-operativa poderá derivar em mero tecnicismo.

5 COMPETÊNCIA ÉTICO-POLÍTICA
Na competência ÉTICO-POLÍTICA, de acordo com Souza (2008,
p.121-122, grifo nosso):

O assistente social não é um profissional “NEUTRO”. Sua prática


se realiza no marco das relações de poder e de forças sociais da sociedade
capitalista – relações essas que são contraditórias.

50
TÓPICO 3 | AS COMPETÊNCIAS DO S. S. NA CONTEMPORANEIDADE: POLÍTICA, ÉTICA, INVESTIGAÇÃO E INTERVENÇÃO

Assim, é fundamental que o profissional tenha um posicionamento


político frente às questões que aparecem na realidade social, para que possa
ter clareza de qual é a direção social da sua prática.

Isso implica assumir valores ético-morais que sustentam a sua prática


– valores esses que estão expressos no Código de Ética Profissional dos
Assistentes Sociais, e que assumem claramente uma postura profissional de
articular sua intervenção aos interesses dos setores majoritários da sociedade.

Esta premissa ético-política, segundo Santos (2007, p. 75), vem para


consolidar “os valores e princípios legitimados no atual Código de Ética e
possibilitar apreender a prática profissional em sua dimensão teleológica.”

Mas, qual é esta dimensão TELEOLÓGICA?

NOTA

A teleologia (do grego τέλος, fin, y -logía) é o estudo dos fins últimos da sociedade,
humanidade e natureza. Suas origens remontam a Aristóteles, com a sua noção de que as
coisas servem a um propósito.
FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Teleologia>. Acesso em: 1 mar. 2010.

Com relação à dimensão TELEOLÓGICA, podemos observar que,


segundo Nicolau (2004, p. 85-86):

O fazer profissional do assistente social é definido como atividade,


ou o próprio trabalho fazendo parte de determinado processo de trabalho
historicamente construído e socialmente determinado pelo jogo de forças, que
articulam uma dada totalidade social.

A inserção dessa atividade em um processo de trabalho é feita segundo


sua caracterização como forma particular de serviço que se concretiza em
espaços institucionais, visando à reprodução material e espiritual da força de
trabalho no processo de reprodução das relações sociais.

Assumindo esta particularidade, o trabalho do assistente social


incide sobre a consciência dos outros indivíduos sociais e de si próprio,
OBJETIVANDO A MUDANÇA DE ATOS E COMPORTAMENTOS.

51
UNIDADE 1 | AS DIMENSÕES T-O, TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

Tais características circunscrevem, na práxis social, a posição


teleológica deste trabalho profissional: trabalho que, ao ser midiatizado
pelos serviços socioassistenciais demandados pelos setores público e privado,
em respostas às diferentes expressões da questão social, concretiza-se de
forma dominante no nível político-ideológico.

NOTA

Para Lukács (1981, p. 23), a posição TELEOLÓGICA é um “[...] momento efetivo da


realidade material”, por fazer parte e integrar a essência do ser social.

Então, Iamamoto complementa esta análise expondo que:

A prestação desses serviços, que têm valor de uso e consumo privado


pelos seus potenciais usuários, quando viabilizada pelos assistentes
sociais – mediante o processo de trabalho do qual participa no
âmbito institucional –, teleologicamente incide não só na reprodução
material da força de trabalho desses usuários, como também na sua
reprodução espiritual, ou seja, nas formas de consciência social em
suas dimensões jurídicas, religiosas, artísticas ou filosóficas, por
intermédio das quais os usuários dos serviços tomam consciência
das mudanças ocorridas nas condições materiais de produção. (apud
NICOLAU, 2004, p. 87).

Neste sentido podemos compreender que o “FAZER profissional” no dia


a dia do assistente social, na complexidade do mundo de trabalho capitalista,
não está permeado na transformação da natureza, mas na transformação do
HOMEM, enquanto ser social, sujeito de direitos e deveres, ou seja, o fazer
profissional do assistente social se processa no âmbito da consciência social do
homem que vive em sociedade, e está permeado por princípios e valores ético-
morais, que conduzem às diversas formas de pensar, agir e enxergar o mundo.

Segundo Nicolau (2004, p. 87):

[...] na PRÁXIS SOCIAL, essa posição teleológica, considerada


secundária, envolve decisões humanas, as quais são influenciadas por
normas, símbolos, hábitos, atitudes e valores culturais que incidem
diretamente nos atos e comportamentos dos indivíduos, no seu modo
de viver e de trabalhar, socialmente determinado.

52
TÓPICO 3 | AS COMPETÊNCIAS DO S. S. NA CONTEMPORANEIDADE: POLÍTICA, ÉTICA, INVESTIGAÇÃO E INTERVENÇÃO

A autora complementa ainda dizendo que “nessa posição teleológica, que


interfere no modo de viver e de trabalhar dos indivíduos, [...] os profissionais,
com base no conhecimento concreto da realidade vivida por esses indivíduos,
propõem intencionalidades e objetivos a seus projetos iniciais”. (2004, p. 88).

Mas, como poderemos CONCRETIZAR as intencionalidades do agir


profissional do assistente social?

Os objetos e intencionalidades poderão ser “concretizados pela


MEDIAÇÃO do seu trabalho profissional específico”, pois “nesse processo
de objetivação não só novas relações foram construídas, objetivadas, tornadas
reais e concretas no modo de viver, de ser e existir dos indivíduos assistidos –
mesmo que não correspondam por inteiro ao idealizado –, como também novos
conhecimentos, novas formas de ação, novas ideias e propósitos foram construídos
e reconstruídos no profissional que realizou tal trabalho”. (NICOLAU, 2004, p.
88).

TUROS
ESTUDOS FU

Você verá mais tarde, na Unidade 3 deste Caderno de Estudos, o que significa a
MEDIAÇÃO profissional do assistente social.

Mas, como fica o profissional “em si” do serviço social nesta questão da
transformação humana pelas suas relações sociais?

Na sua INDIVIDUALIDADE, o assistente social, segundo Nicolau


(2004, p. 88), “transformou-se, aprendeu, recriou possibilidades de uma ação
no coletivo, com maiores condições de sociabilidade no seu interagir com
os outros homens e com a natureza, em função do seu desenvolvimento, que
é historicamente determinado”. Ou seja, com o seu próprio agir profissional o
assistente social vem se transformando ao longo de sua trajetória profissional,
e assim readequando constantemente a sua práxis profissional, pois, como
sabemos, estamos em constantes transformações.

Portanto, após estas reflexões, qual é o CAMPO POLÍTICO-


IDEOLÓGICO da prática profissional do assistente social?

Podemos dizer que o campo político-ideológico do fazer profissional do


assistente social, sob as concepções teleológicas, pode ser considerado, em sua
essência, a BASE MATERIAL para a práxis profissional do serviço social . Pois,
de acordo com Nicolau (2004, p. 88), é a partir das transformações do homem
enquanto ser social “que se definem intencionalidades ou prévias ideações, ou

53
UNIDADE 1 | AS DIMENSÕES T-O, TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

seja, a natureza objetiva e subjetiva constituída e representada pela problemática


daqueles indivíduos para os quais são dirigidas as ações.” Sob esta base material,
no âmbito da consciência social, o assistente social constitui a sua intencionalidade
de ação, ou seja, desenvolve sua intervenção junto ao público por intermédio
das mais diversas mediações profissionais. E estas mediações devem levar em
consideração a realidade social em que o sujeito está inserido, o referencial
teórico-metodológico, a dimensão técnico-operativa e a base político-ideológica
que norteia o trabalho e a práxis do assistente social.

Então, quanto ao pressuposto ético-político da prática profissional do


assistente social, podemos concluir que:

 O serviço social dispõe de um caráter contraditório, que deriva do caráter


das relações sociais que presidem a sociedade capitalista.

 Nesta sociedade, o serviço social inscreve-se no campo minado por


interesses sociais antagônicos, isto é, interesses de classes distintas e em
luta na sociedade.

 O mero engajamento político, descolado das bases teórico-metodológicas


e do instrumental operativo para a ação profissional, é insuficiente para
iluminar novas perspectivas para o serviço social . (TAVARES; PIERITZ, 2010,
p. 106).

6 CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE AS TRÊS DIMENSÕES


Segundo Souza (2008, p. 122, grifos nossos):

Essas três dimensões de competências NUNCA PODEM SER


DESENVOLVIDAS SEPARADAMENTE – caso contrário, cairemos nas
armadilhas da fragmentação e da despolitização, tão presentes no passado
histórico do serviço social (CARVALHO; IAMAMOTO, 2005).

Contudo, articular essas três dimensões coloca um desafio


fundamental, e que vem sendo um tema de grande debate entre profissionais
e estudantes de serviço social : a necessidade da articulação entre TEORIA
E PRÁTICA, INVESTIGAÇÃO E INTERVENÇÃO, PESQUISA E AÇÃO,
CIÊNCIA E TÉCNICA não deve ser encarada como dimensões separadas
– pois isso pode gerar uma inserção desqualificada do assistente social no
mercado de trabalho, bem como ferir os princípios éticos fundamentais que
norteiam a ação profissional.

54
TÓPICO 3 | AS COMPETÊNCIAS DO S. S. NA CONTEMPORANEIDADE: POLÍTICA, ÉTICA, INVESTIGAÇÃO E INTERVENÇÃO

O que se reivindica, hoje, é que a pesquisa se afirme como uma


dimensão integrante do exercício profissional, visto ser uma condição para
se formular respostas capazes de impulsionar a formulação de propostas
profissionais que tenham efetividade e permitam atribuir materialidade
aos princípios ético-políticos norteadores do projeto profissional. Ora, para
isso é necessário um cuidadoso conhecimento das situações ou fenômenos
sociais que são objeto de trabalho do assistente social. (IAMAMOTO, 2004,
p. 56).

Pensar sob esse ponto de vista significa colocar o serviço social


em um lugar de destaque, tanto no plano da produção do conhecimento
científico (rompendo com o discurso do senso comum) como no âmbito
das instituições públicas e privadas que, de algum modo, atuam sobre a
“questão social”.

O assistente social ocupa um lugar privilegiado no mercado de


trabalho: na medida em que ele atua diretamente no cotidiano das classes e
grupos sociais menos favorecidos, ele tem a real possibilidade de produzir
um conhecimento sobre essa mesma realidade. E esse conhecimento é, sem
dúvida, o seu principal instrumento de trabalho, pois lhe permite ter a real
dimensão das diversas possibilidades de intervenção profissional.

Assim, o processo de qualificação continuada é fundamental para a


sobrevivência no mercado de trabalho. Estudar, pesquisar, debater temas,
reler livros e textos não podem ser atividades desenvolvidas apenas no
período da graduação ou nos “muros” da universidade e suas salas de aula.
Se, no cotidiano da prática profissional, o assistente social não se atualiza,
não questiona as demandas institucionais, não acompanha o movimento e
as mudanças da realidade social, estará certamente fadado ao fracasso e a
uma reprodução mecânica de atividades, tornando-se um burocrata, e, sem
dúvidas, não promovendo mudanças significativas, seja no cotidiano da
população usuária ou na própria inserção do serviço social no mercado de
trabalho.

Mioto e Lima (2009, p. 38) complementam expondo que:

O movimento que se tem em mente consiste na articulação dialética


entre as três dimensões referentes ao serviço social : teórica, ética e técnica. São
considerados:

 o conhecimento/investigação da realidade na qual se intervém;

 o planejamento e a documentação do processo de trabalho;

55
UNIDADE 1 | AS DIMENSÕES T-O, TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

 os objetivos, as formas de abordagens dos sujeitos a quem se destina a ação;

 os instrumentos técnico-operativos e outros recursos implicados na ação.

O esquema da figura a seguir permite-nos visualizar esse movimento


encadeado:

FIGURA 5 – AÇÃO PROFISSIONAL EM MOVIMENTO: ARTICULAÇÃO ENTRE AS DIMENSÕES


TEÓRICAS, ÉTICAS E TÉCNICAS DO SERVIÇO SOCIAL

COMO FAZER:
Definição do Suporte
QUE AÇÃO: teórico da ação;
Definição da ação escolha da abordagem;
PARA QUÊ: Objetivos escolha dos instrumentos
Marco referencial técnico-operativos e
ONDE:
teórico/ analítico demais recursos
Natureza do espaço
sócio-ocupacional

PARA QUEM:
Sujeitos em situação

FONTE: Mioto; (Lima, 2009)

Este movimento encadeado permite avaliação direta: enquanto os


objetivos são concretos, reais, de alcance em tempo determinado e estão ligados
ao mundo dos bens e serviços, permitindo avaliação direta.

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TÓPICO 3 | AS COMPETÊNCIAS DO S. S. NA CONTEMPORANEIDADE: POLÍTICA, ÉTICA, INVESTIGAÇÃO E INTERVENÇÃO

LEITURA COMPLEMENTAR

O PROJETO ÉTICO-POLÍTICO DO SERVIÇO SOCIAL : NOVOS


HORIZONTES PARA A ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE
SOCIAL

SUGUIHIRO, Vera Lucia Tieko


BREVILHERI, Eliane Cristina Lopes
TORETTA, Ester Taube
GREGÓRIO, Francieli Jaqueline
TARDIOTO, Isaura Paris Cabanillas
PAIÃO, Ivana Célia Franco
CAMPOS, Luana Garcia
YWATA, Suzana Yuriko
MACHADO, Vanessa Rombola

O projeto ético-político profissional do serviço social no Brasil, vinculado


a um projeto de transformação de sociedade, reitera a teoria crítica como
fundamentação para o agir profissional. Esta teoria vai ao encontro das novas
exigências da profissão, na medida em que possibilita novas investigações, não
naturaliza o real e tampouco reduzindo-o ao que está posto.

O “projeto ético-político pressupõe prática que leve a transitar do reino


das necessidades para o da liberdade, pressupõe também a capacidade de o
homem criar valores, escolher alternativas e ser reconhecido como cidadão.”
(BATTINI, 2008, mimeo.).

Diante de todo este movimento, pode-se constatar que o serviço social é


uma profissão dinâmica inserida no próprio contexto sócio-histórico. Portanto,
cabe ao assistente social modificar a sua forma de atuação profissional, em
decorrência da demanda que lhe é colocada e da necessidade de responder às
exigências e às contradições da sociedade capitalista. É preciso acompanhar o
movimento da sociedade e visualizar os novos espaços como possibilidades de
intervenção sobre uma realidade social concreta.

Na atualidade, os ajustes impostos às políticas sociais no Estado


capitalista, por intermédio da política neoliberal, acirrada no Brasil na década
1990, têm demandado ao assistente social uma visão crítica da realidade. Ou seja,
cabe ao profissional ir além das fronteiras do imediatismo, com distanciamento
necessário das funções pontuais, repetitivas e burocráticas. Cabe um constante
investimento no processo de apreensão da realidade concreta e das mudanças
sociais em movimento, para identificar novas possibilidades de intervenção
profissional, por meio de qualificação continuada para desenvolvimento de novas
competências e habilidades para atender as novas demandas postas à profissão.

Isto significa assumir o pressuposto da ação investigativa como novas


possibilidades de intervenção, na medida em que desvela o contraditório e produz
as condições necessárias para o enfrentamento e superação das questões sociais
que se apresentam cotidianamente.
57
UNIDADE 1 | AS DIMENSÕES T-O, TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

É a atitude investigativa que permite revelar a essência do problema e


pensar o novo, e por isso, teoria e método, mesmo sendo elementos distintos,
devem ser coerentes entre si. A teoria fundamenta a prática e encontra-se no
nível da abstração, e o método, por sua vez, norteia a prática. Ambos devem ser
incorporados no agir profissional.

Entre os assistentes sociais é frequente o discurso da dicotomia entre teoria


e prática, o que revela resquícios de uma fragilidade de fundamentação teórico-
metodológica para uma atuação competente. Os limites se desvelam pela falta
de clareza dos fundamentos que orientam a prática profissional, prevalecendo
posturas conservadoras, autoritárias, discriminatórias, tecnocratas e clientelistas,
enfraquecendo o projeto ético-político cuja defesa de liberdade e da emancipação
dos sujeitos sociais se faz presente.

Portanto, o assistente social tem formação para trabalhar com os serviços


sociais nas mais diversas áreas: órgãos da administração pública e privada, empresas
e organizações da sociedade civil, com políticas sociais na área da saúde, habitação,
educação, assistência jurídica, entre outras. E a habilidade do profissional vai além
de ser somente executivo, inclui a capacidade de propor e implementar políticas
sociais, e ainda, avaliar projetos na área social, realizar perícias técnicas, emitir
pareceres, exercer funções de direção na administração de serviços sociais.

O trabalho destes profissionais deve ser realizado sob a perspectiva da


totalidade, não visualizando apenas o indivíduo, mas as relações mais amplas,
buscando formas de intervenção para sua transformação, a partir de atendimentos
às demandas mais imediatas que se fazem presentes no cotidiano profissional.

Para Faleiros (2005), a construção de estratégias de ação envolve a


disponibilidade de recursos, o poder, a organização, a informação e a comunicação,
para o enfrentamento, pelo sujeito da ação profissional, das questões relacionais.
A luta está centrada na capacidade de fortalecer os sujeitos sociais, por meio do
fortalecimento da condição de cidadãos, desenvolvimento da sua autoestima,
valorização das condições singulares de sobrevivência individual e coletiva, de
modo a capacitá-los para a construção e projeção de sua existência social.

A disposição de estratégias de ação resultará no método de trabalho


empregado pelo assistente social, modificando uma realidade, transformando o
sujeito em ator e autor de sua história. Esta prática profissional é a verdadeira
legitimação da profissão.

Deste modo, compete aos profissionais uma constante e permanente


formação técnica capaz de garantir o aprimoramento de competência técnico-
operativa e intelectual, consolidando o compromisso político com a classe
trabalhadora. (GUERRA, 2005).

Magalhães (2003, p. 47) afirma que “não é possível esquecer que o eixo
técnico-operativo das profissões deve estar relacionado ao seu norte ético-político,
pois mesmo no uso de um instrumento de apoio há uma intencionalidade”.

58
TÓPICO 3 | AS COMPETÊNCIAS DO S. S. NA CONTEMPORANEIDADE: POLÍTICA, ÉTICA, INVESTIGAÇÃO E INTERVENÇÃO

Assim, é preciso ir além da compreensão do instrumental como um conjunto


articulado de técnicas que permite a operacionalização da ação profissional, o
que Guerra (2000) denomina de “instrumentação técnica”, cuja discussão deve
ter o sentido da instrumentalidade enquanto propriedade da profissão, com
capacidade de construí-la e reconstruí-la no processo sócio-histórico.

O cotidiano da intervenção profissional, nos mais diversos campos


de atuação, é marcado pelo atendimento às demandas e requisições da classe
trabalhadora, que exige respostas diretas, na perspectiva imediata. Estas demandas
e requisições dizem respeito ao atendimento às necessidades básicas dos sujeitos,
para as quais se faz necessário proporcionar acessos aos direitos reclamáveis. Para
Guerra (2000), muitas destas requisições da profissão são em nível de responder
às demandas – contraditórias – do capital e do trabalho, colocando a intervenção
profissional numa dimensão instrumental, o que significa reduzir a atuação
funcional à manutenção da ordem no atendimento do projeto burguês.

Por outro lado, muitas vezes o assistente social assume as determinações,


objetivos e práticas do setor e/ou da instituição em que atua, como se fossem
atribuições profissionais específicas, o que pode limitar as demandas profissionais
às exigências do mercado de trabalho. Isso impede a emancipação social e humana,
que é a direção proposta pelo projeto ético-político profissional do serviço social
. “Neste âmbito, a competência profissional fica restrita ao atendimento das
demandas institucionais, e a intervenção profissional se identifica à adoção de
procedimentos formais, legais e burocráticos”. (GUERRA, 2000, p. 12).

É necessário que, pela via do conhecimento, os assistentes sociais


possam desenvolver estratégias capazes de fazer do imediato o seu instrumento
de construção do projeto ético-político profissional, comprometido com a
transformação da sociedade. Isso se dá através da articulação entre o imediato
e o mediato, entre aquilo que representa respostas a uma expressão singular
e respostas sociopolíticas que alavancam condições de empoderamento da
população na construção de autonomia e protagonismo.

Magalhães (2003, p. 69) afirma que o cotidiano do trabalho “deve ser


vivenciado de modo pleno, consciente e compromissado (política e eticamente), para
que a ação profissional apresente-se como uma possibilidade, não de alienação, mas
de construção de valores que deem sentido ético-político à história profissional”.

Em qualquer trabalho desenvolvido no universo institucional, é de suma


importância uma prática consciente e refletida, que não se deixe levar unicamente
pela cotidianidade, que, muitas vezes, configura-se como uma porta aberta para
alienação e que só pode ser superada por meio de uma prática compromissada e
crítico-reflexiva.

Segundo Iamamoto (2005, p. 20), “um dos maiores desafios que o


assistente social vive no presente é desenvolver sua capacidade de decifrar a
realidade e construir propostas de trabalho criativas e capazes de preservar e
efetivar direitos, a partir das demandas emergentes no cotidiano”.

59
UNIDADE 1 | AS DIMENSÕES T-O, TEÓRICO-METODOLÓGICA E ÉTICO-POLÍTICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

Nesta perspectiva, o assistente social precisa investir na aplicação de


instrumental técnico-operativo, de forma a potencializar as ações nos níveis de
assessoria, planejamento, negociação, pesquisa e ação direta, condição estimuladora
da participação dos sujeitos sociais nas decisões que lhes dizem respeito, na defesa
de seus direitos e no acesso aos meios de exercê-los. (BATTINI, 2008, mimeo.).

A instrumentalidade pode ter também a condição de mediação, ao


ser considerada como uma particularidade da profissão, dada por condições
objetivas e subjetivas, e portanto, sócio-históricas.

Reconhecer a instrumentalidade como mediação significa tomar o


serviço social como totalidade constituída de múltiplas dimensões:
técnico-instrumental, teórico-intelectual, ético-política e formativa e a
instrumentalidade como uma particularidade e, como tal, campo de
mediações que porta a capacidade tanto de articular estas dimensões
quanto de ser o conduto pelo qual as mesmas traduzem-se em
respostas profissionais. (GUERRA, 2000, p. 12).

Outro ponto a ser ressaltado é a questão da produção de conhecimento que


parece estar distante da prática profissional cotidiana, dada a baixa tradição em termos
de experiência acumulada em pesquisa entre os assistentes sociais. Isso decorre da
escassa presença de investigação no cotidiano da intervenção profissional. Intervir na
realidade de forma crítica e criativa, associada à produção de conhecimento, é o que
garante ao profissional a capacidade da unidade entre pensamento e ação.

Portanto, é preciso que os assistentes sociais estejam permanentemente


imprimindo, na ação e no conhecimento da realidade, uma atitude investigativa para
garantir maior rigor e consistência teórico-metodológica no cotidiano da intervenção.

Ressaltamos que a atividade teórica, em essência, se distingue da prática,


mas “proporciona um conhecimento indispensável para a transformação da
realidade, ou traça finalidades que antecipam idealmente sua transformação”
(VASQUEZ, 1977, p. 203), constituindo assim, transformações ideais, que, unidas
à prática, geram um novo conhecimento. Por isso, pode-se afirmar que: “Toda
práxis é atividade, mas nem toda atividade é práxis”. (VASQUEZ, 1977, p. 185).

Neste processo, atua-se sobre o objeto e se obtém resultados que refletem


sobre o próprio agente; ou seja, imbrica-se num processo que se inicia a partir
da apreensão dos fatos, analisados idealmente e, assim, é possível projetar uma
resposta futura – um resultado qualitativo –, atingindo uma maior dimensão para
aquilo que se buscava responder. Trata-se de um caminho consciente empregado
pelo ser humano, portanto, vinculado a uma finalidade.

Ao percorrer este caminho é possível superar a aparência e alcançar a


essência dos fatos; partir do singular (concreto aparente), mediado pelo concreto
pensado (particular) para concretização do universal. Para Lukács (1978, p. 103),
tomando por base Marx:

60
TÓPICO 3 | AS COMPETÊNCIAS DO S. S. NA CONTEMPORANEIDADE: POLÍTICA, ÉTICA, INVESTIGAÇÃO E INTERVENÇÃO

[...] isto é, da realidade concreta dos fenômenos singulares às mais altas


abstrações, e destas, novamente à realidade concreta, a qual – com a
ajuda das abstrações – pode agora ser compreendida de um modo cada
vez mais aproximativamente exato [...] O processo de tal aproximação
é essencialmente ligado à dialética de particular e universal: o
processo do conhecimento transforma ininterruptamente leis que
até aquele momento valiam como as mais altas universalidades em
particulares modos de apresentação de uma universalidade superior,
cuja concretização conduz muito frequentemente, ao mesmo tempo, à
descoberta de novas formas da particularidade como a mais próximas
determinações, limitações e especificações de nova universalidade
tornada mais concreta. Esta última, portanto, no materialismo
dialético, não pode jamais se fixar como sendo o coroamento definitivo
do conhecimento, como ocorreu mesmo em dialéticos tais como
Aristóteles e Hegel, mas exprime sempre uma aproximação, o mais
alto grau de generalização obtido em cada etapa da evolução.

Portanto, à medida que a profissão se reconhece na divisão sociotécnica


do trabalho, enquanto profissional com capacidade de apreender o movimento
do singular e do universal, mediado pela particularidade do real presente na
questão social, ampliam-se significativamente as possibilidades de uma atuação
transformadora. Segundo Guerra (2005, p. 15):

Ao clarificar seus objetivos sociais, realizar escolhas moralmente


motivadas, compreender o significado da profissão no contexto da
sociedade, escolher crítica e adequadamente os meios éticos para o
alcance de fins éticos, orientados por um projeto profissional crítico,
os assistentes sociais estão aptos, em termos de possibilidade, a
realizar uma intervenção profissional de qualidade, competência e
compromisso indiscutíveis.

FONTE: SUGUIHIRO, Vera Lucia Tieko et al. O serviço social em debate: fundamentos
teoricometodológicos na contemporaneidade. Saber Acadêmico, Presidente Prudente,
n. 7, jun. 2009. Disponível em: <http://www.uniesp.edu.br/revista/revista7/pdf/2_
servico_em_debate.pdf>. Acesso em: 2 fev. 2010.

DICAS

Para aprofundamento destes temas, sugiro que você leia o


seguinte livro:
ABREU, Marina Maciel. Serviço Social e a organização da cultura: perfis
pedagógicos da prática profissional. São Paulo: Cortez, 2002.

61
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico estudamos sobre o significado das competências do serviço
social na contemporaneidade: política, ética, investigação e intervenção, e
foram abordados os seguintes itens:

O serviço social era tido inicialmente como uma profissão inscrita na divisão

técnica do trabalho e, após o Movimento de Reconceituação, ganhou cunho


científico.

Estudamos as dimensões teórico-metodológica, técnico-operativa e ético-


política da atuação profissional do assistente social.

Com relação à COMPETÊNCIA TEÓRICO-METODOLÓGICA do assistente


social, estudamos que:

ᵒ o papel da teoria na construção profissional do assistente social é o de


iluminar as estruturas e as dinâmicas dos processos sociais, as determinações
contraditórias dos fatores e fenômenos, dissolver a positividade dos fatos
pela sua negação;

ᵒ a concepção do método, no âmbito do referencial marxiano, é tida como o


caminho do pensamento, a direção analítica, que obedece ao movimento do
objeto;

ᵒ existem três tendências e alguns problemas que permeiam a trajetória


histórica da profissão do assistente social.

No que tange às questões relativas às COMPETÊNCIAS TÉCNICO-


OPERATIVAS do serviço social , podemos verificar que:

ᵒ o assistente social desenvolverá suas atividades sócio-ocupacionais baseadas


em sua dimensão técnico-operativa;

ᵒ nas dimensões técnico-operativas existe certa complexidade de interpretação


dos instrumentos e técnicas ou simplesmente a definição das metodologias
de ação e intervenção a serem desenvolvidas em cada caso;

ᵒ os instrumentos devem ser analisados e adaptados conforme as necessidades


e a realidade de intervenção profissional;

ᵒ é no dia a dia profissional que se desenvolve a competência técnico-operativa


do assistente social, permeada por toda esta complexidade interventiva do
cotidiano profissional do serviço social e suas habilidades de interpretação
cotidiana da realidade social brasileira ou mundial;
62
ᵒ de acordo com a expressão da questão social de um determinado segmento,
seu público-alvo e a realidade cotidiana, o assistente social buscará identificar
em seu cabedal técnico-operativo o instrumento ou técnica que possibilitará
responder à demanda a ser trabalhada.

Na COMPETÊNCIA ÉTICO-POLÍTICA, de acordo com Souza (2008, p.121-122,


grifo nosso):

ᵒ o assistente social não é um profissional “NEUTRO”;

ᵒ sua prática se realiza no marco das relações de poder e de forças sociais da


sociedade capitalista – relações essas que são contraditórias;

ᵒ assim, é fundamental que o profissional tenha um posicionamento político


frente às questões que aparecem na realidade social, para que possa ter
clareza de qual é a direção social da sua prática;

ᵒ isso implica assumir valores ético-morais que sustentam a sua prática


– valores esses que estão expressos no Código de Ética Profissional dos
Assistentes Sociais.

Essas três dimensões de competências NUNCA PODEM SER DESENVOLVIDAS


SEPARADAMENTE – caso contrário, cairemos nas armadilhas da fragmentação


e da despolitização, tão presentes no passado histórico do serviço social
(IAMAMOTO; CARVALHO, 2008).

63
AUTOATIVIDADE

1 Caro(a) acadêmico(a), após a leitura e o estudo deste tópico, escreva no


quadro a seguir as principais características de cada COMPETÊNCIA da
atuação profissional do assistente social, seus pontos positivos e negativos.

PONTOS
COMPETÊNCIA CARACTERÍSTICAS PONTOS POSITIVOS
NEGATIVOS

TEÓRICO-
METODOLÓGICA

TÉCNICO-
OPERATIVA

ÉTICO-POLÍTICA

64
UNIDADE 2

A AÇÃO PROFISSIONAL E O
PROCESSO INTERVENTIVO
DO ASSISTENTE SOCIAL NO
COTIDIANO

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir desta unidade você será capaz de:

• reconhecer os diferentes aspectos ideológicos que permeiam a aplicabili-


dade dos instrumentos, técnicas e ações profissionais do assistente social;

• identificar a intencionalidade da ação profissional do assistente social em


seu cotidiano;

• compreender a competência relacional do assistente social;

• compreender a racionalidade da práxis profissional no serviço social;

• conhecer alguns impasses do serviço social com relação à aplicabilidade


do seu instrumental técnico-operativo;

• visualizar como se deu historicamente o processo de produção e reprodu-


ção social;

• compreender alguns aspectos da natureza, estratégia, particularidades e


implicações do trabalho do assistente social, tais como o significado da
mediação e da ação investigativa no serviço social .

PLANO DE ESTUDOS
A Unidade 2 está dividida em três tópicos e, ao final de cada um deles, você
vai realizar as atividades propostas para fixar os conhecimentos.

TÓPICO 1 – ASPECTOS IDEOLÓGICOS NO USO DOS INSTRUMENTOS


E TÉCNICAS

TÓPICO 2 – NATUREZA, ESTRATÉGIAS, PARTICULARIDADES E IMPLI-


CAÇÕES DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

TÓPICO 3 – IMPASSES DA PROFISSÃO NA APLICABILIDADE DOS INS-


TRUMENTOS
65
66
UNIDADE 2
TÓPICO 1

ASPECTOS IDEOLÓGICOS NO USO DOS


INSTRUMENTOS E TÉCNICAS
“O pensamento é apenas um aspecto parcial
de uma realidade menos abstrata: o homem inteiro.”
Lucien Goldmann

1 INTRODUÇÃO
Neste tópico entraremos numa discussão mais ideológica da atuação
profissional do assistente social, trabalhando e desmistificando a questão da
intencionalidade e a consciência que permeia o processo de trabalho do serviço
social .

2 INTENCIONALIDADE E CONSCIÊNCIA DA AÇÃO


PROFISSIONAL
Mas, antes de explanarmos o significado da intencionalidade da prática
profissional do assistente social, devemos compreender o que significa a
CONSCIÊNCIA enquanto categoria teórica. E posteriormente trabalharemos as
questões relativas à intencionalidade das ações profissionais do assistente social.

2.1 A CATEGORIA “CONSCIÊNCIA”


Primeiramente devemos compreender o que é a CONSCIÊNCIA.

Segundo Fontes (2010, p. 1,


grifo nosso), a consciência
diz respeito
“[...] à PERCEPÇÃO
IMEDIATA pelo sujeito
daquilo que se passa nele
FONTE: Disponível em: FONTE: Disponível em:
<www.brasilcultura.com.br>.
mesmo ou fora dele.”
<www.lindarebecca.
Acesso em: 24 fev. 2010. blogspot.com>. Acesso em:
24 fev. 2010.

67
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

Ou seja, segundo a Enciclopédia Wikipédia (2010, p. 1, grifo nosso), a


consciência é:

[...] uma QUALIDADE DA MENTE, considerando abranger


qualificações tais como subjetividade, autoconsciência, sentiência, sapiência,
e a capacidade de perceber a relação entre si e um ambiente. É um assunto
muito pesquisado na filosofia da mente, na psicologia, neurologia, e ciência
cognitiva.

Alguns filósofos dividem consciência em consciência fenomenal, que é


a experiência propriamente dita, e consciência de acesso, que é o processamento
das coisas que vivenciamos durante a experiência. (BLOCK, 2004).

Consciência fenomenal é o estado de estar ciente, tal como quando


dizemos “estou ciente”, e consciência de acesso se refere a estar ciente de algo,
tal como quando dizemos “estou ciente destas palavras”.

Consciência é uma qualidade psíquica, isto é, que pertence à esfera da


psique humana, por isso diz-se também que ela é um atributo do espírito, da
mente, ou do pensamento humano. Ser consciente não é exatamente a mesma
coisa que perceber-se no mundo, mas ser no mundo e do mundo; para isso, a
intuição, a dedução e a indução tomam parte.

NOTA

O termo sentiência foi manifestado pelo filósofo basco José Francisco Xavier
Zubiri Apalategui (1898 a 1983), através da publicação da Inteligencia Sentiente, que foi seu
principal trabalho sistemático e em três volumes: Inteligencia y realidad, Inteligencia y logos
e Inteligencia y razón, no qual traduz o que pensa sobre o inteligir, conhecer e saber.
FONTE: Disponível em: <www.sentiencia.com.br/page2.aspx>. Acesso em: 24 mar. 2010.

Mas, como NASCE a consciência?

De acordo com Sandoval (2009, p. 7, grifo nosso), “os animais tidos


como irracionais não possuem a consciência do mundo, pois reagem segundo os
motivos específicos que fazem com que seus instintos se mobilizem. Portanto, a
consciência é pertinente ao homem e serve a suas necessidades.”

Ainda segundo Sandoval (2009, p. 7), “nos primeiros Homo sapiens a


consciência era rudimentar e servia a percepções e necessidades elementares,
sofisticando-se a partir da evolução.” Neste sentido, “isto significa que as causas

68
TÓPICO 1 | ASPECTOS IDEOLÓGICOS NO USO DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS

que levam à mobilização se sofisticaram de uma forma que estes motivos passam,
então, a agir por meio da inteligência, na medida em que também se sofisticam as
necessidades a fim de mobilização.” (SANDOVAL, 2009, p. 7).

Schopenhauer (1982, p. 195-196) complementa expondo que:

A terceira fórmula da causalidade motora é peculiar ao reino animal,


constituindo a sua característica: trata-se da motivação, isto é, a
causalidade agindo por meio da inteligência. Intervém ela na escala
natural dos seres, no ponto em que a criatura, tendo necessidades mais
complicadas, e consequentemente muito variáveis, não consegue mais
satisfazê-las unicamente sob o impulso dos excitantes que ela deveria
sempre esperar de fora; é preciso, então, que esteja apta para escolher,
colher e também pesquisar os meios para satisfazer essas necessidades
surgidas.

Entretanto, a consciência SE FORMA POR INTERMÉDIO da vivência


humana em sociedade e suas necessidades subjetivas, na sua relação com os
demais integrantes desta mesma sociedade e na satisfação direta e indireta de
seus desejos e anseios.

Então, o que é a CONSCIÊNCIA MORAL?

Segundo Fontes (2010,


p. 1, grifo nosso), a
CONSCIÊNCIA MORAL
“[...] é uma espécie de
"JUIZ INTERIOR" que nos
ordena o que deve ser
feito, desempenhando
um papel crítico no agir.” FONTE: Disponível em:
FONTE: Disponível em:
<www.jornallivre.com.br>. <www.semsofia.blogspot.
Acesso em: 24 fev. 2010. com>. Acesso em: 24 fev.
2010.

Mas, segundo Oliveira (2009, p. 1, grifos nossos):

69
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

Em âmbito geral, CONSCIÊNCIA significa o pensar com, compreender


com.

Dentro da teoria moral, consciência é uma função que permite ao ser


humano distinguir entre o que é BOM e o que é MAU.

Nesse sentido, a consciência é, a todo momento, provocada por interações


maiores que ela. A partir das ciências naturais, da neurociência, entre outras,
fala-se de uma consciência a nível cerebral. Desse modo, as patologias cerebrais
influenciam nas interações que a consciência realiza: seja consigo mesmo, com a
sociedade, com a igreja etc.

Para os neurocientistas, a consciência depende, então, do estado do


cérebro, o que nos leva a questionar o que é a consciência de Deus, de pecado, de
transcendência etc.

E
IMPORTANT

A COMPREENSÃO DAS COISAS e dos FATOS depende do cérebro de cada um, ou


seja, da visão de mundo e da subjetividade de cada ser humano sobre a Terra, mas sempre baseado
nas concepções éticas e morais constituídas pela sociedade em que vive.

Neste sentido, como podemos CONTROLAR a consciência humana?

Ou seja,
como podemos
falar de uma
CONSCIÊNCIA
MORAL CRÍTICA?

FONTE: Disponível em: FONTE: Disponível em: <www.storita.


<www.marcelocoelho.folha. blogspot.com>. Acesso em: 24 fev.
blog.uol.com.br>. Acesso 2010.
em: 24 fev. 2010.

70
TÓPICO 1 | ASPECTOS IDEOLÓGICOS NO USO DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS

Vejamos:

Ao tratar da questão da consciência crítica de cada ser humano, devemos


considerar primeiramente a visão de mundo que temos, ou seja, relativizar nosso
conhecimento e percepção sobre as coisas que acontecem no dia a dia, em nossa
sociedade e no mundo, para assim poder realizar uma análise crítica dos fatos,
sob a luz da consciência moral e ética daquela região ou sociedade.

E
IMPORTANT

Lembra-se do Caderno de Estudos de “ÉTICA PROFISSIONAL DO assistente


social”, da prof.ª Vera Lúcia Hoffmann Pieritz, que na Unidade 1 (páginas 3 a 39) trabalhou a
questão da ética e seus fundamentos, apresentando o significado da ética e seus princípios
norteadores e os valores morais de nossa sociedade? REVEJA ESTE MATERIAL, para assim
compreender melhor a questão da consciência moral crítica.

Neste sentido, ao falarmos da consciência moral dos seres humanos,


como um todo, falamos de como estes homens, mulheres, crianças, adolescentes,
idosos, entre outros, AGEM em seu convívio em sociedade.

Portanto, segundo Oliveira (2009, p. 1, grifos nossos):

Uma consciência crítica DESALIENADA constrói, analisa, critica a


realidade.

Através da análise, ela CRITICA e DENUNCIA, construindo uma


nova realidade.

A modernidade se identifica com o surgimento da consciência, haja


vista o tempo do Iluminismo, do Renascimento, e suas críticas da realidade.

A consciência nasce num mundo de criatividade, saindo do


repetitivo, dos modismos, do corriqueiro. Ao cair nos modismos, não se
notam parâmetros de limites. Tudo se transforma com rapidez e velocidade
assustadoras. A consciência moral não aceita o legalismo, segundo os valores
de hoje. A consciência tem OUTROS VALORES para bem, justiça, verdade,
responsabilidade etc.

71
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

ATENCAO

A CONSCIÊNCIA CRÍTICA é a capacidade de apreciar as atitudes não só do


outro, mas as próprias. (OLIVEIRA, 2009, p. 1).

Oliveira (2009, p. 2, grifos nossos) complementa expondo que a consciência


moral crítica

[...] é a capacidade de JULGAR as decisões tomadas, de ter a


CONSCIÊNCIA DE SI mesmo, de seus projetos e sonhos, pensados com
responsabilidade.

CONSCIÊNCIA é tudo que existe no contexto de cada sujeito, que nos


leva a vivenciar o amor, a liberdade, pois não deve aprisionar.

Assim, a consciência moral TEM QUE SE OPOR à alienação, à


ingenuidade, ao aprisionamento dos que têm poderes.

A consciência funciona a partir do enfoque mental. Tem dificuldades


em entender e compreender o que está do lado de fora da objetividade. O
objetivo assume a condição da coisa em si. Na objetividade as coisas existem
independentemente de nós mesmos. O momento do objeto é fixista, trabalha
as relações consigo mesmo, com o outro, com a natureza, com a sociedade. O
sujeito se compreende como distante do objeto, devendo conformar-se com
a realidade. A imoralidade nasce com a conformidade da realidade, com a
norma, a regra.

O ser humano, inserido em uma família, em uma comunidade,


sociedade, em um contexto, desenvolve uma consciência que se desdobra
num círculo de ideias, que tem teorias e práticas. Para alguns, fica-se mais nas
teorias, para outros, mais nas práticas.

Assim, a CONSCIÊNCIA É INTERPRETAÇÃO, é solução (ou ajuda


a encontrá-la), é compreensão do que acontece no mundo.

A nova realidade deve apontar a consciência a uma nova vida.


Repetir respostas de perguntas antigas para perguntas novas já não mais é
correspondido. Por isso, para se pensar novas respostas, é importante levantar
suspeitas. E o papel de um filósofo, de um moralista, não no sentido pejorativo
da palavra, mas daquele que estuda a moralidade, é inquietar, é levantar
dúvidas, levantar suspeitas para gerar novos pensamentos. Para tanto,

72
TÓPICO 1 | ASPECTOS IDEOLÓGICOS NO USO DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS

precisa-se ter um grau de criticidade muito grande e ser consciente de que


o SABER não é algo pronto, de que NÃO SE TEM UM CONHECIMENTO
ACABADO. Ele está sempre em construção.

A própria capacidade pessoal de cada um, nossas praticidades para


as coisas (para o fazer, o agir, o pensar) também têm que ser colocadas em
suspenso. Assim, a consciência pode sair de seu lugar confortável para
adquirir novos horizontes, novos limites, mais amplitude.

Viver sempre com o mesmo nos acomoda, nos aquieta, nos conforta.
Isso nos impede a buscar ou mesmo a ter medo do que é novo.

A MUDANÇA, para muitos, torna-se algo doloroso. Há que


se confrontar as opiniões, colocar a consciência em debate com outras
consciências, para que se possam rever as posturas e chegar a uma conclusão
nova ou pelo menos mais clara ou mais racional que a que se tinha. Por isso,
abrir-se para os questionamentos ajuda a entender e interpretar a realidade
em que estamos.

NÃO SE PODE deixar que a consciência se acomode, principalmente,


no poder. Temos uma grande tendência, quando no poder, de evitar as
interpelações, os atritos e os conflitos para não se perder o status quo. O efeito
que se gera de tais posturas é o que chamamos de autoritarismo e intolerância
ao outro, impedindo que este questione, proponha, ajude a inovar.

ATENCAO

Quem NÃO ABRE SUA CONSCIÊNCIA, fecha-se ainda mais em seu


autoritarismo. Não se criam os diálogos, a intransigência é dominante e a consciência não
encontra espaços para crescer sabiamente. (OLIVEIRA, 2009, p. 2, grifos nossos).

Para finalizar esta discussão, devemos observar o que Oliveira (2009, p. 2, grifos no
tem ainda para nos expor. Ou seja,

São as MUDANÇAS que promovem diálogos, enriquecimento


da sabedoria. Dessa forma, uma consciência fechada transmite conforto,
tranquilidade, acomodação, mas também despreza e desvaloriza a validade
e a autenticidade do outro. Aqui se abrem grandes sentimentos para
RACISMOS, PRECONCEITOS, XENOFOBIAS, entre outros.

73
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

Entretanto, nem toda divergência permite uma mudança. A busca de


um meio-termo é importante nesses casos, pois o laxismo (deixar-se fazer do
modo que mais convier, sem se preocupar tanto com a ordem e o dever, mas
fazer como se quer, quando se quer e para quem se quer) também acarreta
em comodismo. Nesse sentido, tem-se uma falsa sensação de liberdade de
escolha. Portanto, a consciência não se forma fora da divergência.

LEITURA COMPLEMENTAR 1

A CONSCIÊNCIA E SUA INTENCIONALIDADE

Rafael Sandoval

Segundo vários filósofos da mente e psicólogos empiristas, a palavra


consciência pode ser usada de várias formas. “Por vezes é utilizada para
discriminar estímulos ou para relatar informações, ou para acompanhar estados
internos, ou mesmo para controle do comportamento”. (CHALMERS, 2003). A
consciência possui um caráter de intencionalidade, assim a consciência, tendo em
vista os dados da realidade que se apresentam, e também por seu suposto papel,
dá sentido às coisas e produz representações, todavia, é problemático confundir
intencionalidade com intenção, pois intenção é uma forma de intencionalidade,
mas não a intencionalidade propriamente dita, como bem acentuou John Searle.
Intencionalidade significa que a “consciência está por outra, quando é acerca de
outra coisa, por conseguinte, crenças e desejos são estados intencionais”. (ABATH
2000, apud DENNET, 1987). Desse modo, a consciência possui um papel, por
assim dizer, ativo. A consciência opera segundo “conceitos absorvidos”, ou
a partir de experiências subjetivas conscientes – “qualias” –, criando, desse
modo, novas representações. Há um caráter propriamente ativo da consciência,
estando para outras, ou, outras coisas acerca do mundo, assim, significa que o
ato de desejar significa desejar algo, imaginar significa imaginar algo. Tendo
em vista que a consciência possui operações tanto de “recepção ativa” e, isso,
significa ter consciência de algo, ou seja, daquilo que atravessa nossos sentidos
criando representações e, também, criar novas representações sem um ente
correspondente no mundo real; porém, é possível afirmar que não se trata da
consciência propriamente dita a criar novas representações, mas faculdades
inerentes ao sistema cognoscitivo, a consciência então ficando somente como
mera superfície ativa de contato com os dados da realidade.

As faculdades cognoscitivas e a consciência possuem características que


proporcionam certa reciprocidade. Com efeito, para que haja representações, é
necessária certa quantidade de abstrações de dados da realidade. Assim é pouco
provável os jovens, somente por mera intuição, sem nenhum contato visual e
real com o objeto equivalente, ou mesmo conhecimento prévio, idearem a cor
do macacão de Charlie Chaplin no filme Tempos Modernos. É, porém, possível,

74
TÓPICO 1 | ASPECTOS IDEOLÓGICOS NO USO DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS

tendo como exemplo um macacão do mesmo modelo; assim, retira-se do macacão


o predicado “cor”, seja ele vermelho ou de qualquer cor que seja. Vejamos como
modelo um macacão de cor azul que, supostamente, seria do mesmo modelo e cor
utilizados no filme de Chaplin. Tendo em vista o conhecimento de que o macacão
de Chaplin é azul, imagina-se (representa-se) doravante, ao assistir ao filme, que o
macacão de Chaplin é azul, coisa que outrora não era possível. Diante disso, para
que sejam geradas novas representações, há de haver, no sistema cognitivo, um
número considerado de informações. Destarte, não é possível idear um caminhão
sem ter a ideia do que é um carro, pois o caminhão igualmente está na classe
dos veículos, pois o aparelho cognitivo ajusta-o à categoria de veículos, de que o
carro e o caminhão fazem parte e, que, porém, até então só havia nessa categoria
o conceito “carro”; doravante há mais um veículo, ou seja, o caminhão. Assim,
quando o indivíduo pensa doravante em veículos, poderão sobrevir à mente,
agora, também caminhões. Portanto, conceito e representação são distintos; há,
no entanto, uma adequação do conceito ao fenômeno assim que se apreendem
mais informações da realidade externa. Há uma hierarquização das funções
cognoscitivas para que seja gerada uma representação nova. Dessa forma, a
consciência possui intencionalidade, estando, então, como última instância ou
palco na criação de representações. Ainda há possibilidade de hierarquizar,
por assim dizer, de maneira um pouco rudimentar, as funções cognoscitivas
geradoras de representações: é imediatamente necessário que a memória possua
certa quantidade de conhecimentos e crenças, mesmo como meros conceitos, para
que sejam criadas novas representações e estas se apresentarem na consciência. É
também necessária a imaginação para que se consiga criá-las.

Diante do exposto, é possível afirmar que o sistema cognitivo possui


crenças que são geradas pelo grupo social. Não obstante, mesmo o conhecimento a
priori deriva-se de uma abstração, de um predicado dado como primário, urgente,
caracterizador, contido no sujeito, criando, assim, uma necessidade. Das premissas:
“Todos os homens são mortais, Sócrates é um homem, portanto, Sócrates é
mortal”, é possível analisar (introspectivamente, mesmo sendo problemática e
discutível essa maneira, porquanto o sujeito usa de inferências, mesmo através
da introspecção) que o intelecto abstrai mortal, e o projeta em Sócrates, pois
“Sócrates” “existe” na classe de homens e não se dissocia deste, constituindo,
assim, uma crença e, também, a partir da crença preexistente de que “Todos os
homens são mortais” (premissa maior), criar novas crenças e todo um sistema de
crenças. Da mesma forma, sendo possível saber qual a “classe de macacões de
Chaplin”, é possível deduzir ou mesmo imaginar a cor e, também, cores de outros
macacões da mesma classe. Parece, portanto, que as faculdades cognoscitivas
tendem a armazenar informações, classificando-as automaticamente (aspecto
que veremos mais à frente nesse artigo). Destarte, é facilmente constatável tal
função de armazenamento na imaginação de um suposto futuro se baseando em
acontecimentos passados.

Há entre as correntes de pensamento dos filósofos da mente, que o sistema


cognitivo tende a responder de maneira sui generis dado o aspecto da realidade
que se apresenta:

75
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

[...] “se um determinado padrão simbólico S se forma no interior do


aparelho representacional de um sistema cognitivo K na sequência de este ter
sido causalmente impressionado por um dado aspecto da realidade R, então esse
padrão simbólico S será acerca desse aspecto da realidade R. Evidentemente, é
preciso ter algum cuidado na formulação deste ponto de vista. Nomeadamente,
para determinar que uma dada conexão impacto causal/conteúdo representacional
obtém, é necessário que duas outras condições suplementares se encontrem
reunidas. A primeira é a de que apenas o aspecto da realidade R cause a emergência
do padrão S em K. A segunda é a de que todas as instâncias de R têm que dar
origem à constituição do padrão S sempre que exerçam um impacto causal sobre
K”. (ZILHÃO, Antônio, 2007).

Há também a corrente teleossemântica que procura resolver o problema


do comportamento do sistema cognitivo frente ao dado da realidade, com uma
anterioridade de determinado padrão desenvolvido pelo sistema para covariar
a determinado aspecto da realidade e não com outro. Destarte, parece haver,
a segunda corrente, uma maior compatibilidade com a conjectura descrita no
parágrafo acima com a do “macacão de Chaplin”.
FONTE: SANDOVAL, Rafael. Investigação sobre a consciência. Instituição: Universidade Católica
de Brasília. Data de Publicação: 19 jul. 2009. Disponível em: <http://www.notapositiva.
com/br/trbestsup/filosofia/filosmente/investigacao_sobre_consciencia.htm#vermais>.
Acesso em: 4 mar. 2010.

Depois de compreendermos os sentidos da consciência, devemos agora


compreender o significado da INTENCIONALIDADE enquanto categoria
teórica, para depois entender finalmente a questão da intencionalidade da ação
profissional do assistente social.

2.2 A INTENCIONALIDADE ENQUANTO CATEGORIA


TEÓRICA
Pois bem, neste item proporcionaremos uma discussão acerca da
conceituação básica e do significado da categoria “INTENCIONALIDADE”.

A INTENCIONALIDADE, segundo
Fontes (2010, p. 1, grifo nosso),
diz respeito à
“CARACTERÍSTICA DEFINIDORA
DA CONSCIÊNCIA, enquanto
necessariamente voltada para
um objeto”. FONTE: Disponível em:
FONTE: Disponível em: <www.ludicoemsala.
<www.acafic.com.br>. pbworks.com>. Acesso em:
Acesso em: 24 fev. 2010. 24 fev. 2010.

76
TÓPICO 1 | ASPECTOS IDEOLÓGICOS NO USO DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS

O termo “intencional” está diretamente conectado na CAUSA real do fato


ou do objeto, na sua intenção sobre o fato ou realidade, ou seja, no seu propósito
de ação sobre o objeto.

De acordo com Siewert (2006, p. 6), a INTENCIONALIDADE no sentido


filosófico “é o aspecto de estados mentais ou de eventos que consiste no seu ser
de ou sobre as coisas (como se refere às questões: ‘Quais são as coisas que você está
pensando?’ e ‘O que você está pensando?’).”

ATENCAO

Intencionalidade é a SOBRIEDADE ou DIRECIONAMENTO DA MENTE (ou


estados de espírito) para coisas, objetos, estados de coisas, acontecimentos. (SIEWERT,
2006, p. 6, grifo nosso).

Esta concepção de “DIRECIONAMENTO” da intencionalidade se refere


diretamente ao estado de espírito e visão que temos de uma determinada situação
social, ou seja, é como vemos aquela realidade sobre a coisa ou objeto, os seus
acontecimentos.

Mas que tipo de “DADE” ou “DE-DADE” ou “DIRECIONAMENTO”


é este?

Siewert (2006, p. 6, grifos nossos) expõe que “tem sido dito que a
peculiaridade desse tipo de direcionamento sobre ‘DADE’ reside na sua
capacidade de relacionar o pensamento ou experiência de objetos que não
existem.” Por exemplo, “pode-se pensar em uma reunião que não tem, ou nunca
ocorrerá; um pode pensar de Shangri La, ou El Dorado, a Nova Jerusalém; um
pode pensar de suas ruas brilhantes, à sua total falta de pobreza, ou de seus
cidadãos ‘roupagem peculiar’. Pensamentos, ao contrário das estradas, podem
levar a uma cidade que não está lá.” (SIEWERT, 2006, p. 7).

Mas, que PERCEPÇÃO da realidade é esta?

No caso da percepção, segundo Siewert (2006, p. 7, grifo nosso), “o que


torna possível a impressão de ver ou ouvir o que não está lá é uma EXPERIÊNCIA
que pode ser de várias formas imprecisas, não verídica, sujeita à ilusão ou
alucinação.” Ou seja, é a vivência cotidiana e a experiência empírica de vida
que faz com que o ser humano perceba o objeto, a coisa ou o acontecimento que
aparentemente não exista naquele momento.

77
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

Segundo Husserl (apud PAIXÃO, 2010, p. 1), [...] “a ‘intencionalidade’ diz


respeito à direitura da consciência em relação aos seus objetos, à forma como o
conhecimento é posicionado, perspectivado e ativo, constituindo os seus objetos.”

A teoria da “intencionalidade”, segundo Paixão (2010, p. 1, grifo nosso),

[...] defende que a ‘PERCEPÇÃO procede por aspectos’, sendo esta sempre
inerentemente incompleta, porque qualquer OBJETO é sempre apreendido
a partir de um ponto de vista determinado e bem definido. Assim, aquilo
que é observado revela-se através do ato de percepção por meio dos aspectos
dependentes da atitude e da determinação do ponto de vista do observador. Há
uma correlação entre esses aspectos observados e o ponto de vista do observador.

E
IMPORTANT

Na concepção de John Searle (apud SIEWERT, 2006, p. 7, grifo nosso), os


ESTADOS INTENCIONAIS são aqueles com condições de SATISFAÇÃO.

SATISFAÇÃO? Mas, quais são as condições de satisfação?

Vejamos. Segundo Siewert (2006), a satisfação é tida diferentemente


conforme a percepção do objeto, ou seja:

• no caso da CRENÇA sob um determinado fato, a condição para a sua percepção


de satisfação se processa quando a crença é verdadeira;

• no caso da PERCEPÇÃO do objeto, a condição para a sua percepção de


satisfação se processa na experiência sensorial quando é verídica;

• no CASO DE INTENÇÃO do ato ou da ação, a condição para a sua percepção


de satisfação se processa quando a intenção é cumprida ou efetuada.

Viviani (2010, p. 2) afirma que “Husserl identifica dois momentos da


intencionalidade.”

78
TÓPICO 1 | ASPECTOS IDEOLÓGICOS NO USO DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS

E
IMPORTANT

Edmund Husserl (1859-1938), filósofo alemão fundador


da Fenomenologia, um método para a descrição e análise da
consciência através do qual a filosofia tenta alcançar uma condição
estritamente científica. Nasceu a 8 de abril de 1859, em Prossnitz,
Moravia, no então Império Austríaco, hoje Prostejov, na República
Checa, e faleceu em 27 de abril de 1938, em Freiburg im Breisgau, na
Alemanha. (COBRA, 2010).

Mas, que MOMENTOS da intencionalidade são estes?

PRIMEIRO MOMENTO: no ato NOÉTICO, em que, segundo Viviani


(2010, p. 2), “percepcionamos o fenômeno, dotando-lhe de sentido”.

SEGUNDO MOMENTO: o fenômeno NOEMA, em que, segundo Viviani


(2010, p. 2), “depois do ato noético, o preenchemos de significação, tornando-se o
fenômeno noema”.

Com isso, segundo Viviani (2010, p. 2), “ele afasta-se do psicologismo,


que não diferencia esses dois momentos da atividade intencional. Em termos
empíricos, a noese é o ato individual com o fim de conhecer determinada coisa; em
termos transcendentais, a noese é o ato que possibilita a apreensão das significações
pelo sujeito constituinte.”

No exemplo husserliano da MACIEIRA EM FLOR, minha percepção


dela é o correlato da minha vivência no mundo, “é o noema, resultando da noese,
do ato de consciência, pelo qual se reduz à unidade de sentido a multiplicidade
de dados da sensação (hylé). Enquanto a noese e a hylé são elementos da própria
vivência, o noema é seu correlato intencional ou componente intencional.”
(VIVIANI, 2010, p. 3).

No entanto, Siewert (2006, p. 8, grifo nosso) complementa expondo que:

Uma terceira maneira de conceber a IMPORTÂNCIA da


intencionalidade, uma particularmente central para a tradição analítica
derivada do estudo de Frege e Russell, pede-nos a centrar-se na noção
de mental (ou intencional) de conteúdo. Muitas vezes, considera-se:
PARA TER INTENCIONALIDADE É PRECISO TER CONTEÚDO.
E conteúdo mental é frequentemente descrito como outra forma de
representação ou conteúdo informacional – e ‘intencionalidade’ (pelo
menos, como isso se aplica à mente) é vista como apenas uma outra
palavra para o que é chamado de ‘representação mental’, ou uma
certa maneira de rolamento ou carregando informações.

79
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

Mas o que se entende por “CONTEÚDO” nesta discussão referente à


intencionalidade?

Segundo Siewert (2006, p. 8, grifo nosso),

[...] o conteúdo do pensamento, nesse sentido, é o que é relatado ao


responder à pergunta “O que ela pensa?” por algo do formulário,
“Ela pensa que p”. E o conteúdo do pensamento é o que duas
pessoas são ditas partes, quando eu disse que estão a pensar o mesmo
pensamento. (Do mesmo modo, o conteúdo da crença é que duas
pessoas compartilham quando têm a mesma crença.) O conteúdo é
também o que pode ser compartilhado desta forma, mesmo enquanto
“modos psicológicos” de estados de espírito podem ser diferentes.

Viviani (2010, p. 3) expõe ainda que “Husserl fala também de


intencionalidade latente ou operante, que é pré-reflexiva, anterior à temática,
sendo esta consciência da consciência de algo.”

A ideia da INTENCIONALIDADE LATENTE, segundo Viviani (2010), é


tida como aquela que se perpetua no tempo, animando e revelando os significados
dos atos ético-morais do homem no mundo.

Para finalizar a questão da concepção teórica da intencionalidade, de


acordo com Schaefer (2010, p. 2-3, grifo nosso), devemos observar que:

A CONSCIÊNCIA É INTENCIONAL. Sempre temos consciência de


alguma coisa.

Husserl disse: “TODA CONSCIÊNCIA É CONSCIÊNCIA DE


ALGUMA COISA”.

A consciência é consciência de visar àquilo que não é. A CONSCIÊNCIA


É INTENCIONALIDADE, isto é, ela existe sobre o modo de não ser. Ao ver
ou perceber a mesa, eu não sou a mesa. A consciência sempre se constitui
por meio desta negativa essencial, uma vez que ela presentifica um objeto
ausente.

A consciência NÃO TEM CONTEÚDOS. Dela não se pode


simplesmente dizer que é. Ela não é um objeto nem uma coisa.

A consciência tem uma dimensão de IRREALIDADE e, pois, de


LIBERDADE. Ela não está presa às coisas. Ela se destaca das coisas, delas
se evade. Está subtraída dos determinismos espaço-temporais. O não real, o
irreal, é, para ela, um possível. Ela é livre.

A descrição da consciência, pode-se dizer, é uma descrição – e


descoberta – da liberdade.

80
TÓPICO 1 | ASPECTOS IDEOLÓGICOS NO USO DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS

Não podemos DISSOLVER as coisas na consciência. A consciência


não é uma coisa. Ela não é as coisas das quais tem consciência. Se vejo uma
árvore, a árvore é exterior. Ela não é eu. A consciência não é uma substância.
É, antes de tudo, um processo.

O fato de a consciência ter a necessidade de existir como


consciência de outra coisa que não ela mesma é chamado, por Husserl, de
INTENCIONALIDADE.

2.3 A INTENCIONALIDADE NO SERVIÇO SOCIAL


Após estas breves considerações sobre o significado da categoria
“intencionalidade”, precisamos compreender como se processa a intencionalidade
da prática profissional do assistente social, ou seja, a consciência profissional no
processo de trabalho do serviço social .

Primeiramente, devemos
indagar:
O QUE PERMEIA A ATUAÇÃO
PROFISSIONAL DO
ASSISTENTE SOCIAL?, ou
seja, qual é a real intenção da
ação profissional?.
FONTE: Disponível
FONTE: Disponível em: em: <www.
<www.gdprette.blogspot. resistenciademocraticabr.
com>. Acesso em: 24 fev. blogspot.com>. Acesso em:
2010. 24 fev. 2010.

Sabemos que, de acordo com Lopes (2007, p. 1, grifo nosso), o serviço social
IDENTIFICA-SE “como a profissão cujos profissionais COMBATEM, por ofício e
por decisão ético-política, todas as formas de violação de direitos, discriminação
e subalternidade.”

81
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

ATENCAO

“Os assistentes sociais executam suas atribuições com um ensejo claro: uma
sociedade justa, formada por homens e mulheres completos, construída como manifestação
não só de resistência às formas de violência, de ataque à dignidade humana, mas de
consolidação de direitos sociais”. (LOPES, 2007, p. 1).

Baptista (2009, p. 1, grifo nosso) complementa expondo que “na


ESTRUTURA do serviço social brasileiro, como profissão, sempre esteve
presente o DESAFIO DO ENFRENTAMENTO das expressões da questão social
gestadas pelo capitalismo, o que fez com que seus profissionais parametrassem
suas intervenções na relação capital-trabalho.”

O primeiro número da revista Serviço Social , editado em 1993, de acordo


com Baptista (2009, p. 3), dizia em sua apresentação:

O serviço social tem por finalidade primária orientar as obras sociais e


desnudar à sociedade os seus problemas, interessando-a neles, a fim de que, com
maiores recursos, possamos enfrentá-los. Visa também despertar a consciência
de classe dos trabalhadores, a consciência de classe dos trabalhadores sociais,
estabelecer contato entre eles, a fim de formar e criar um bloco cuja ação se
caracterize pela unidade, pela visão...

ATENCAO

Na atuação profissional do assistente social eu posso distinguir, mas jamais


separar, a intencionalidade do resultado. (CORTEZ apud BAPTISTA, 2009, p. 3).

Então, o que tem por trás da prática profissional, como tal? E qual a
CONSCIÊNCIA ÉTICO-MORAL que norteia o projeto ético-político da ação
profissional no serviço social ?

Vejamos. Segundo Netto (2001, p. 116), “no plano da INTENCIONALIDADE


do serviço social , o seu projeto de intervenção, que é medularmente reformista,
mostra-se abertamente condicionado pela perspectiva em que se põe o
desenvolvimento capitalista.”

82
TÓPICO 1 | ASPECTOS IDEOLÓGICOS NO USO DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS

Neste sentido,

Uma das questões fulcrais nas práticas do serviço social é a


intencionalidade do ato. Isto é a consciência refletida da nossa ação
que deve antecipar sempre, em reflexão, ainda mais quando implica
a aplicação, sem mediação, de técnicas ou perspectivas teórico-
empíricas, cujo modelo ou modelos estão desenhados apenas “no
papel”, ou na ilusória perspectiva salvífica que sempre podem
encerrar. (SILVA, 2008, p. 1, grifo nosso).

Podemos expor, assim, que a intencionalidade do agir profissional do


assistente social se processa no ATO, NA AÇÃO INTERVENTIVA da prática
profissional.

Netto (2001, p. 116, grifo nosso) complementa afirmando que “a moldura


da intervenção é, basicamente, ético-moral, em duas direções: na do ATOR da
intervenção (que deve restaurar a ordem perdida) e na do PROCESSO sobre que
age (que deve ser recolocado numa ordem melhor)”, norteado sempre pela sua
instrumentalidade teórico-metodológica, técnico-operativa e ético-política.

Segundo Guerra (2000, p. 2), “a instrumentalidade é uma propriedade


e/ou capacidade que a profissão vai adquirindo na medida em que concretiza
objetivos.” Nesta perspectiva, “a intervenção tem por objetivo um padrão de
integração que joga com a efetiva dinâmica vigente e se propõe explorar as
alternativas nelas contidas – a ordem capitalista é tomada como invulnerável,
sem o apelo a parâmetros pretéritos”. (NETTO, 2001, p. 116).

Por outras palavras, de acordo com Guerra (2000, p. 53), é possível dizer
que a instrumentalidade do serviço social

[...] possibilita que os profissionais objetivem sua intencionalidade


em respostas profissionais, uma vez que é por meio da instrumentalidade que
os assistentes sociais modificam, transformam aquelas condições objetivas e
subjetivas e as relações interpessoais e sociais existentes no nível do cotidiano.

Assim, Netto (2001, p. 116) expõe que:

[...] a moldura da intervenção se desloca visivelmente: o ator


profissional é um prestador de serviços, que reclama uma remuneração,
e se apresenta como portador de uma qualificação técnica – sua
intervenção é exigida pela natureza mesma pela ordem vigente, cuja
estrutura profunda é invulnerável e, deste ponto de vista, só deve ser
objeto de juízos de fato.

Conforme Santos (2010, p. 2):

83
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

[...] ao alterarem o cotidiano profissional e o cotidiano das classes sociais


que demandam a sua intervenção, modificando as condições, os meios e os
instrumentos existentes, e os convertendo em condições, meios e instrumentos
para o alcance de objetivos profissionais, os assistentes sociais estão dando
instrumentalidade às suas ações.”

Netto (2001, p. 117) complementa ainda que:

[...] a intervenção pelo anticapitalismo romântico, inerente à apologia


indireta, defronta-se muito problematicamente com os referenciais científicos
produzidos pelas ciências sociais. De uma parte o positivismo que as enforma
e atravessa parece-lhe repugnante; de outra, é compelida a reconhecer nelas
um mínimo valor cognitivo – daí a sua relação ambígua com o seu sistema de
saber: necessário, mas insuficiente.

O recurso ao sistema de saber é um tributo que se paga à ordem


capitalista, com o seu mecanicismo e o seu materialismo; para as realidades
essenciais da pessoa humana, a via de acesso é outra: a solidariedade, a
comunicação individualizada – enfim, a frieza técnica deve ser subsidiária do
animus pessoal.

[...] na intervenção permeada pelo caldo de cultura anticapitalista


romântico, restaurador, o desprezo pela racionalidade teórica é comandado
não por características que acompanham a intervenção (assistematicidade,
empirismo etc.), mas por um visceral irracionalismo.

Na medida em que os profissionais do serviço social , de acordo com


Santos (2010, p. 2-3),

[...] utilizam, criam e adéquam as condições existentes, transformando-


as em meios/instrumentos para a objetivação das intencionalidades,
suas ações passam a ser portadoras de instrumentalidade. Deste
modo, a instrumentalidade é tanto condição necessária de todo o
trabalho social quanto categoria constitutiva – um modo de ser –, de
todo trabalho.

Neste sentido, segundo Guerra (2000, p. 6-7, grifo nosso),

A UTILIDADE SOCIAL de uma profissão advém das necessidades


sociais.

Numa ordem social constituída de duas classes fundamentais (que se


dividem em camadas ou segmentos), tais necessidades, vinculadas ao capital
e/ou ao trabalho, são não apenas diferentes, mas antagônicas.

84
TÓPICO 1 | ASPECTOS IDEOLÓGICOS NO USO DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS

A utilidade social da profissão está em RESPONDER ÀS


NECESSIDADES das classes sociais, que se transformam, por meio de muitas
mediações, em demandas para a profissão. Estas são respostas qualificadas e
institucionalizadas, para o que, além de uma formação social especializada,
devem ter seu significado social reconhecido pelas classes sociais fundamentais
(capitalistas e trabalhadores).

Considerando que o espaço sócio-ocupacional de qualquer profissão,


neste caso do serviço social , é criado pela existência de tais necessidades sociais
e que historicamente a profissão adquire este espaço quando o Estado passa a
interferir sistematicamente nas refrações da questão social, institucionalmente
transformada em questões sociais (NETTO, 1992), através de uma determinada
modalidade histórica de enfrentamento das mesmas: as políticas sociais, pode-
se conceber que as políticas e os serviços sociais constituem-se nos espaços
sócio-ocupacionais para os assistentes sociais.

As políticas sociais, além de sua dimensão econômico-política (como


mecanismo de reprodução da força de trabalho e como resultado das lutas
de classes) constituem-se também num conjunto de procedimentos técnico-
operativos, cuja componente instrumental põe a necessidade de profissionais
que atuem em dois campos distintos: o de sua formulação e o de sua
implementação. É neste último, no âmbito da sua implementação, que as
políticas sociais fundam um mercado de trabalho para os assistentes sociais.

Com a complexificação da questão social e seu tratamento por parte do


Estado, fragmentando-a e recortando-a em questões sociais a serem atendidas
pelas políticas sociais, instituiu-se um espaço na divisão sociotécnica do
trabalho para um profissional que atuasse na fase terminal da ação executiva
das políticas sociais, instância em que a população vulnerabilizada recebe e
requisita direta e imediatamente respostas fragmentadas através das políticas
sociais setoriais. É nesse sentido que as políticas sociais contribuem para a
produção e reprodução material e ideológica da força de trabalho (melhor
dizendo, da subjetividade do trabalhador como força de trabalho) e para a
reprodução ampliada do capital.

Como resultado destas determinações no processo de constituição


da profissão, a INTENCIONALIDADE dos assistentes sociais passa a ser
MEDIADA pela própria lógica da institucionalização, pela dinâmica da
instauração da profissão e pelas estruturas em que a profissão se insere, as
quais, em muitos casos, submetem o profissional. Melhor dizendo, os assistentes
sociais “passam a desempenhar papéis que lhes são alocados por organismos e
instâncias [...]” próprios da ordem burguesa no estágio monopolista (NETTO,
1992, p. 68), os quais são portadores da lógica do mercado.

Assim, o assistente social adquire a condição de trabalhador assalariado,


com todos os condicionamentos que disso decorre.

85
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

Finalizando, podemos dizer que “IGUALDADE, TRABALHO E


EMPENHO contra todas as formas de violência e exclusão são disposições que
atestam a importância desse profissional na reivindicação e na defesa pública
das políticas sociais, como resultado de seu pacto com os sujeitos protagonistas”.
(LOPES, 2007, p. 1, grifo nosso).

Portanto, o serviço social é “concebido e edificado historicamente,


no palco de contradições sociais; o serviço social hoje é demarcado por essa
INTENCIONALIDADE PROFISSIONAL clara, amadurecida pelas lutas e
conquistas no campo dos direitos, tantas vezes reconhecidos, mas nem sempre
constituídos”. (LOPES, 2007, p. 1, grifo nosso).

No entanto, segundo Lopes (2007, p. 1-2, grifo nosso):

Há um contexto também tríplice de DESAFIOS para a profissão:

1 FORTALECIMENTO de nossas entidades organizativas.


2 INCREMENTO NA QUALIDADE da formação profissional.
3 EMPENHO PELA CONQUISTA DE RESPEITO profissional e
adequadas condições de trabalho.

De saída, é preciso confirmar que a sociabilidade que defendemos


exige uma INTERVENÇÃO QUALIFICADA, desprovida de preconceitos,
municiada com saberes específicos, baseada na inteligência contida nos
princípios éticos fundamentais, a favor da equidade e da justiça social, da
universalidade de acesso aos bens e serviços.

ATENCAO

O compromisso do assistente social com os interesses da população usuária


NÃO SE REALIZA sem competência técnica, ética e política. (LOPES, 2007).

Lopes (2007, p. 1-2, grifo nosso) complementa:

Esse compromisso deve sempre se converter em uma INTERVENÇÃO


direcionada na DEFESA DOS DIREITOS SOCIAIS em uma conjuntura que,
nos dias atuais, merece destaque pela transformação em curso, capitaneada
por um projeto de Estado que tem referência máxima na cidadania e por um
projeto de governo que tem compromisso político-programático, fomentar a
consolidação dos direitos sociais.

86
TÓPICO 1 | ASPECTOS IDEOLÓGICOS NO USO DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS

Para além do discurso, [...] devemos conviver com o processo


contemporâneo de reorganização, racionalização e ampliação de políticas
sociais públicas que conformam hoje uma rede de proteção social no país
nunca antes consolidada.

O TRAÇO FUNDAMENTAL dessa história, escrita dia após dia


no presente, é a mescla dos valores da ÉTICA, da DEMOCRACIA, da
JUSTIÇA SOCIAL e da SOLIDARIEDADE HUMANA, com uma ação
política republicana nascida de um pacto federativo comprometido com a
universalização da cobertura de proteção social à população usuária de
direitos.

Nesse sentido, SER assistente social é rebelar-se contra a história de


predomínio da indiferença e, ao olhar para o passado, construir no presente,
em uma trajetória de responsabilidade civilizatória, o futuro que todos
ambicionamos.

LEITURA COMPLEMENTAR 2

A INTENCIONALIDADE DA CONSCIÊNCIA NO PROCESSO


EDUCATIVO SEGUNDO PAULO FREIRE

Paulo César de Oliveira


Patricia de Carvalho

A intencionalidade da consciência: o homem como corpo consciente

Paulo Freire constata que, na relação homem/mundo, ocorre uma


simultaneidade entre a consciência e o mundo: a consciência não precede o mundo
e o mundo não precede a consciência. O mundo é exterior à consciência, mas, por
essência, é relativo a ela. A consciência do mundo implica o mundo da consciência:

Na verdade, não há eu que se constitua sem um não eu. Por sua vez, o
não eu constituinte do eu se constitui na constituição do eu constituído.
Desta forma, o mundo constituinte da consciência se torna um mundo
da consciência, um percebido objetivo seu, ao qual se intenciona.
(FREIRE, 1970, p. 71).

Afirmando que “o homem é um corpo consciente” (FREIRE, 1970, p. 74),


Paulo Freire coloca a chave para reflexão sobre a intencionalidade da consciência
e a ação conscientizadora. Ao expor o seu pensamento sobre a intencionalidade
da consciência, mostra conhecer a história do problema (FREIRE, 1969). Não se
pode conceber a consciência espacialmente, como um receptáculo vazio, presente
no homem que deve ser preenchido. A consciência intencional provoca uma
aproximação reflexiva à realidade. Não é a realidade que entra na consciência, mas
87
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

a consciência reflexiva que tende à realidade, criando a possibilidade da práxis


com a ação e a reflexão. É sempre uma consciência historicamente condicionada,
sem ser uma mera reprodução da realidade.

A consciência humana se define pela sua intencionalidade; é sempre


consciência de alguma coisa. É sempre ativa, tem sempre um objeto diante de si,
funda o ato do conhecimento, que não deve reduzir-se a uma doxa da realidade,
mas deve aprofundar-se para chegar ao logos, à razão do objeto a ser conhecido,
o que só é possível quando os homens se unem para responder aos desafios que
o mundo lhes propõe.

A consciência não é somente intencionada em direção ao mundo.


Ela possui a propriedade de voltar-se sobre si mesma e ser consciente de sua
consciência. A sua ação ultrapassa o nível do simples reflexo da realidade, da
resposta a estímulos externos, para ser reflexiva, alargando-se na reflexão crítica
sobre os seus próprios atos e na capacidade de superação de suas contradições. O
homem tem a propriedade de transcender a sua atividade: dá sentido ao mundo,
elabora objetivos, propõe finalidades.

A consciência permite ao homem não só separar-se do mundo, objetivá-lo,


mas também separar-se de sua própria atividade, de ultrapassar as situações-limite.

O homem condicionado pela realidade

O homem é um ser em situação. Pensar a sua situacionalidade é


fundamental para a sua compreensão como um ser de práxis. Em relação
ao mundo, o homem pode encontrar-se em três estágios diversos: imersão,
emersão e inserção. O primeiro momento é caracterizado pelo fato de que o
homem encontra-se totalmente envolvido pela realidade; não consegue pensá-
la. O momento de emersão assinala a capacidade humana de distanciar-se da
realidade, de admirá-la objetivando-a. A inserção implica o retorno do homem à
realidade para transformá-la através de sua práxis.

O pensar a situacionalidade do homem permite a Paulo Freire falar de


diversos níveis de consciência. Não é uma discussão teórica ou psicológica, mas
histórica, pois visa colher o homem tal como se apresenta em um momento
específico da sua história. (FREIRE, 1967).

O espaço geográfico de seus estudos é o Brasil que viveu, nas décadas de


50, 60 e 70 do século XX, um especial período de transição. Tal situação encontrava
as suas raízes no passado da história brasileira, mas que no momento apresentava
promissoras perspectivas de mudança, com possibilidades reais de contribuição
para autonomia e libertação do homem e da nação. Simultaneamente, havia o
risco de agravamento da situação de dependência colonial, que reduzia o homem
brasileiro a objeto a ser desfrutado por uma pequena elite, que se sentia a única
responsável pela construção da história e pronúncia do mundo.

88
TÓPICO 1 | ASPECTOS IDEOLÓGICOS NO USO DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS

Para o Brasil, estas três décadas constituem, historicamente, um período


marcado por um espírito nacional desenvolvimentista, que desejava implantar no
país as estruturas industriais modernas existentes no “primeiro mundo”, sobretudo
Estados Unidos da América e Europa. Da parte do Brasil, era uma resposta às novas
exigências do mercado internacional, que constituía uma nova modalidade de
operar a colonização. Internamente, o fenômeno provoca instabilidade econômica,
social e política. A industrialização agravava o problema das migrações internas, que
trazia consigo um processo de descaracterização do homem brasileiro que, ao vir
para as cidades, perdia as suas raízes culturais e não encontrava uma infraestrutura
adequada que propiciasse a sua integração no novo mundo urbano.

É este específico momento de trânsito da sociedade brasileira, com suas


possibilidades, que permite a Paulo Freire falar de diversos níveis de consciência.
Estes níveis podem ser percebidos quando o homem passa do estado de imersão
para um novo estado de emersão, isto é, a passagem de uma intransitividade da
consciência para uma transitividade ingênua (PAIVA, 1980).

Consciência intransitiva

A consciência intransitiva se caracteriza fundamentalmente pelo fato de


que o homem tem o seu interesse voltado para as formas vegetativas de vida; a
sua esfera de apreensão da realidade é limitada à dimensão biológica. Nesta
fase, o homem não age em nível histórico, não se compromete existencialmente
através da decisão, é impermeável aos compromissos que ultrapassam a esfera de
vida vegetativa. O homem assume uma postura mágica diante do mundo e dos
fatos; não consegue discernir a verdadeira causalidade dos eventos. É importante
sublinhar que a situação de intransitividade não destrói no homem a sua abertura
fundamental a ser mais; isto possibilita a passagem para o estado de transitividade.

Esta constatação justificará todo o investimento do processo educativo


– conscientizador que se fundamenta na capacidade estrutural do homem de
educar-se, capacidade que não foi destruída, mas apenas obscurecida. Nesta
perspectiva, afirma Paulo Freire que:

[...] o conceito de ‘intransitividade’ não corresponde a um fechamento


do homem dentro dele mesmo, esmagado, se assim o fosse, por um
tempo e um espaço todo-poderosos. O homem, qualquer que seja
o seu estado, é um ser aberto. O que pretendemos significar com a
consciência ‘intransitiva’ é a limitação de sua esfera de apreensão. É a sua
impermeabilidade a desafios situados fora da órbita vegetativa. Neste
sentido, e só neste sentido, é que a intransitividade representa um quase
descompromisso do homem com a existência. (FREIRE, 1970, p. 60).

Consciência transitiva

O homem, provocado a responder às questões que lhe são propostas, se


impermeabiliza, instaura e aprofunda o processo de diálogo com o seu mundo e
com os homens. As suas preocupações não são restritas à esfera vital, mas é capaz
de comprometer-se. Esta fase se concretiza em momentos distintos: a consciência
89
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

transitiva ingênua e a consciência transitiva fanática.

A consciência transitiva ingênua é aquela que amplia o poder de captação e


de resposta às sugestões que partem do seu contexto. Seus interesses e preocupações
se alongam a esferas bem mais amplas que à simples esfera vital. É a consciência
típica do homem massa que não consegue estabelecer uma progressão intensiva no
diálogo com o mundo e com os homens.

A expressão “homem massa” quer significar a condição do homem


que tem o seu agir determinado por forças sociais. Neste estado, o homem não
consegue agir conscientemente, não intervém substancialmente na vida social,
pois não estabelece uma ação reflexiva e crítica com o mundo e com os outros. É
o homem que não cria a sua identidade, mas vive a que é atribuída pelas forças
determinantes da sociedade.

A sua relação dialogal é caracterizada pela sua “incapacidade” de interpretar


exaustivamente os problemas, de conhecer a causalidade dos fatos, de avançar
a sua investigação, acomodando-se às “explicações fabulosas” da realidade e é
caracterizada pela fragilidade da argumentação. A sua ação é preponderantemente
emocional, não estabelece o diálogo, mas a polêmica, permanecendo marcada
pela nota mágica, própria da intransitividade. Tende a voltar nostalgicamente
ao passado, como se aquele tempo fosse o melhor. Despreza o homem simples e
possui forte tendência gregária. Não é uma consciência investigadora, mas é uma
consciência que se contenta com as experiências vividas; parte do princípio de
que a realidade é estática. (FREIRE, 1981).

A massificação é sempre uma possibilidade para a consciência que,


“transitivando-se”, não consegue a promoção da ingenuidade à criticidade.

Ela se caracteriza por um descompromisso com a existência num nível


mais profundo que o da intransitividade. O homem age à base da emocionalidade,
se acomoda à estrutura existente, é incapaz de realizar opções. Esta situação
pode ser denominada de transitividade fanática, que se caracteriza por seu
aspecto místico, preponderantemente irracional. A possibilidade de diálogo é
praticamente suprimida. O homem se crê livre, mas é conduzido; na verdade,
torna-se um objeto e o seu poder criador é afetado.

Ocorre constatar que o estado do homem massificado é mais grave e


profundo que o estado do homem de consciência intransitiva. A massificação, isto é,
a consciência fanática, é uma distorção da consciência transitiva que deveria evoluir
para ser transitiva crítica. Esta constatação dos diversos níveis de consciência mostra
que eles não são produto de um autodesenvolvimento da racionalidade humana,
com momentos de uma sucessão natural, que acontece independentemente de um
fator externo, mas são resultantes de uma confluência de fatores históricos. Isto
leva a perguntar sobre a relação existente entre a consciência e a estrutura social.

Revela que, se os níveis de consciência são historicamente formados,


podem ser historicamente alterados. É neste processo de amadurecimento da
90
TÓPICO 1 | ASPECTOS IDEOLÓGICOS NO USO DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS

consciência que a educação exerce um papel decisivo: deve estar conjugada


com o processo de mudança social. (FREIRE, 1981).

A transitividade crítica se faz conhecida pela sua capacidade de perceber


a causalidade dos fatos. Às vezes é chamada simplesmente de consciência crítica
e se caracteriza pela profundidade na interpretação dos problemas. A consciência
crítica é o conhecimento ou a percepção que consegue revelar algumas razões
que explicam a maneira como os homens estão sendo no mundo; ela conduz
o homem à sua vocação ontológica e histórica de humanizar-se; fundamenta-
se na criatividade e estimula tanto a reflexão quanto a ação do homem sobre a
realidade, promovendo a transformação criadora.

A consciência transitiva crítica é fruto de uma educação dialogal e ativa


que ofereça ao homem a possibilidade de tornar-se responsável no seu agir
pessoal, social e político.

A criticidade para nós implica a apropriação crescente de sua posição


no contexto. Implica a sua inserção, a sua integração, a representação
objetiva da realidade. Daí a conscientização ser o desenvolvimento
da tomada de consciência. Não será, por isso mesmo, algo apenas
resultante das modificações econômicas, por grandes e importantes
que sejam. A criticidade, como entendemos, há de resultar de
um trabalho pedagógico crítico, apoiado em condições históricas
propícias. (FREIRE, 1981, p. 61).

É interessante perceber dois elementos nestas palavras de Paulo Freire:


primeiro, a ligação de dependência que estabelece entre conscientização,
criticidade e educação; e segundo, a afirmação de que a conscientização é o
desenvolvimento da tomada de consciência. Esta posição será reestruturada nas
suas obras posteriores, reconhecendo que não existe conscientização sem práxis
transformadora da realidade. Esta fase se caracteriza pelo estabelecimento
maduro do diálogo, pela abertura ao novo, construído sobre o que é válido
do velho. Ela existe nos regimes democráticos que possuem formas de vida
interrogadoras e dialogais.

Ressalto o fato de que, para Paulo Freire, a passagem da consciência


transitiva ingênua para a consciência transitiva crítica ocorre através de um
trabalho educativo crítico. Nesta perspectiva, ele afirma:

[...] o que nos parecia importante afirmar é que o outro passo, o


decisivo, da consciência dominantemente transitivo-ingênua para a
dominantemente transitivo-crítica, não se daria automaticamente,
mas somente por efeito de um trabalho educativo crítico com esta
destinação. Trabalho educativo advertido do perigo da massificação,
em íntima relação com a industrialização, que nos era e é um
imperativo existencial. (FREIRE, 1967, p. 62).

FONTE: OLIVEIRA, Paulo César de Oliveira; CARVALHO, Patricia de. A intencionalidade da


consciência no processo educativo segundo Paulo Freire. Paideia, Ribeirão Preto, v. 17, n.
37, maio/ago. 2007. Disponível em: <www.scielo.br/paideia>. Acesso em: 5 mar. 2010.
91
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

DICAS

Para aprofundamento destes temas, sugiro que você leia e assista:

LIVROS:

HUSSERL – por Jean-Michel Salankis


Coleção Figuras do Saber
Tradução de Carlos Alberto Ribeiro de Moura
128 p. | 14 x 21 cm
ISBN-10: 85-7448-114-9
ISBN-13: 978-85-7448-114-2

Introdução à fenomenologia
Autor(es): Angela Ales Bello
Editora: EDUSC
Área(s): Ciências Sociais/Política, Filosofia
ISBN: 8574603295
108 p.

A Ideia de Fenomenologia – por Edmund Husserl


Editora: Edições 70
Coleção: Textos Filosóficos
Tema: Filosofia
Ano: 2008
Tipo de capa: brochura
ISBN 9789724413778 | 136 p.

Intencionalidade
de John R. Searle
Edição/reimpressão: 2002
Páginas: 408
Editor: Martins Fontes
ISBN: 9788533617230
Colecção: Tópicos
Idioma: Português do Brasil

FILME: BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS

Título Original: Eternal Sunshine of the Spotless Mind


Tempo de Duração: 108 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2004
Site Oficial: http://www.eternalsunshine.com/
Direção: Michel Gondry
Roteiro: Charlie Kaufman, baseado em estória de Charlie
Kaufman, Michel Gondry e Pierre Bismuth
Produção: Anthony Bregman e Steve Golin
Música: Jon Brion
Fotografia: Ellen Kuras
Elenco: Jim Carrey, Kate Winslet, Kirsten Dunst, Mark Ruffalo,
Tom Wilkinson, Elijah Wood.

92
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico estudamos acerca do significado dos aspectos ideológicos
no uso dos instrumentos e técnicas, como a consciência e a intencionalidade
da ação profissional do assistente social, e foram abordados os seguintes itens:

• Estudamos a categoria “consciência”, que permeia a atuação profissional do assistente


social.

• A consciência diz respeito à percepção imediata pelo sujeito daquilo que se


passa nele mesmo ou fora dele.

• A compreensão das coisas e dos fatos depende da visão de mundo e da


subjetividade de cada ser humano sobre a Terra, mas sempre baseada nas
concepções éticas e morais constituídas pela sociedade em que vive.

• A consciência crítica é a capacidade de apreciar as atitudes não só do outro, mas as


próprias.

• Realizamos uma discussão acerca da conceituação básica e do significado da


categoria “intencionalidade”.

• A intencionalidade diz respeito à característica definidora da consciência,


enquanto necessariamente voltada para um objeto.

• A intencionalidade é a sobriedade ou direcionamento da mente (ou estados de


espírito) para coisas, objetos, estados de coisas, acontecimentos.

• Os estados intencionais são aqueles com condições de satisfação.

• A consciência é intencional, ou seja, sempre temos consciência de alguma coisa.

• Como se processa a intencionalidade da prática profissional do assistente social,


ou seja, a consciência profissional no processo de trabalho do serviço social .

• A intencionalidade do agir profissional do assistente social se processa no ato,


na ação interventiva da prática profissional.

• É possível dizer que a instrumentalidade do serviço social “possibilita que os


profissionais objetivem sua intencionalidade em respostas profissionais, uma
vez que é por meio da instrumentalidade que os assistentes sociais modificam,
transformam aquelas condições objetivas e subjetivas e as relações interpessoais e
sociais existentes no nível do cotidiano.”

• O serviço social hoje é demarcado por essa intencionalidade profissional clara,


amadurecida pelas lutas e conquistas no campo dos direitos.
93
AUTOATIVIDADE

Prezado(a) acadêmico(a), após a discussão relativa à consciência e


intencionalidade da ação profissional do assistente social, solucione as seguintes
PALAVRAS CRUZADAS:

QUESTÕES HORIZONTAIS:
1) A consciência diz respeito a quê?
2) A intencionalidade diz respeito à característica definidora do quê?
3) A intencionalidade é a sobriedade ou direcionamento da mente (ou estados
de espírito) para o quê?
4) A consciência é ______________, ou seja, sempre temos consciência de
alguma coisa.
5) A intencionalidade do agir profissional do assistente social se processa no
_______ e _______ interventiva da prática profissional.
6) É por meio da instrumentalidade que os assistentes sociais modificam,
transformam aquelas condições _______________ e _________________ e as
relações interpessoais e sociais existentes no nível do cotidiano.

94
7) Qual profissão é hoje demarcada por uma intencionalidade profissional
clara, amadurecida pelas lutas e conquistas no campo dos direitos?
8) A consciência moral diz-se de uma espécie de __________________ que nos
ordena o que deve ser feito, desempenhando um papel crítico no agir.

QUESTÕES VERTICAIS:
1) Sabe-se que a compreensão das coisas e dos fatos depende da visão de
mundo e da subjetividade de cada ser humano sobre a Terra. Mas, elas são
baseadas em que concepção?
2) A consciência crítica é a capacidade de apreciar as atitudes do outro, mas
não só dele, de quem também?
3) Os estados intencionais são aqueles com condições do quê?
4) É possível dizer que a ___________________ do serviço social possibilita que
os profissionais objetivem sua intencionalidade em respostas profissionais
no seu cotidiano profissional.
5) A consciência é uma qualidade do quê?
6) A consciência se forma por intermédio da ______________ humana em
sociedade e suas necessidades subjetivas.
7) A consciência é uma função que permite ao ser humano distinguir entre o
quê?
8) O que nasce com a conformidade da realidade, com a norma, a regra?

95
96
UNIDADE 2 TÓPICO 2
NATUREZA, ESTRATÉGIAS, PARTICULARIDADES E
IMPLICAÇÕES DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL
“Chega muito perto da excelência quem
aprende a ver nas pessoas suas verdadeiras
dimensões. Quem consegue amar as pessoas, tanto
pela sua riqueza como por suas promessas intrínsecas.
Quem aprende a ver e ouvir as pessoas, a respeitar, a
irmanar-se e a fazer parceria com elas.”
Flávio Toledo

1 INTRODUÇÃO
Neste tópico discutiremos como se processa a competência relacional
do assistente social no seu cotidiano profissional, além de apresentarmos a
racionalidade que permeia a aplicabilidade do instrumental técnico-operativo
do serviço social .

2 A COMPETÊNCIA RELACIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL


Partindo da perspectiva de que o assistente social deve ter uma gama de
habilidades e competências profissionais, para assim desenvolver sua prática
profissional com objetividade, eficácia e eficiência, devemos, então, compreender
a dinâmica de sua competência relacional no dia a dia de seu processo de trabalho.

Para tanto, segundo Türck (2010, p. 1, grifo


nosso), esta competência relacional é
“o EIXO GERADOR de todo o processo
de trabalho do assistente social. Portanto,
falar sobre competência relacional é
remetê-la para o espaço de formação, não
só como um processo teórico para ser
aprendido, mas também para ser vivido”.

FONTE: Disponível em: <www.


supervisaoclinicanaenfermagem.wikidot.com>.
Acesso em: 24 fev. 2010.

97
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

Ou seja, a competência relacional é compreendida como uma habilidade


profissional que é adquirida ao longo da história profissional do assistente social
por meio da vivência cotidiana de sua prática profissional.

Mas o que é esta tal COMPETÊNCIA RELACIONAL?

Vejamos:

Para Türck (2010, p. 1, grifo nosso), “no desempenho QUALITATIVO de


qualquer profissão e, mais especificamente para o serviço social , as COMPETÊNCIAS
são fundamentais para a garantia da qualificação profissional”, ou seja, “dentre
tantas, a competência relacional é uma das mais importantes, porque é ela que vai
direcionar, em qualquer espaço, institucional ou não, o eixo norteador de todo o
processo de trabalho do assistente social”. (TÜRCK, 2010, p. 1).

O serviço social como uma profissão, segundo Türck (2010, p. 1), que
“enfrenta os desafios cotidianos, em que as expressões da Questão Social se
contextualizam na vida dos sujeitos, a partir do sofrimento, causados pela
exclusão e pela negação de direitos, necessita com certeza exercitar a competência
relacional.” E sob esta perspectiva devemos compreender que a atuação
profissional do assistente social, sob todos os aspectos, “implica troca, respeito,
compartilhamento, flexibilidade e confiabilidade.” (TÜRCK, 2010, p.1). Só assim
o profissional do serviço social , na relação cotidiana com as demandas sociais
e seu arcabouço teórico-metodológico, técnico-operativo e ético-político, vem
constituindo sua competência relacional junto aos demandatários das questões
sociais e suas expressões no decorrer de sua história profissional.

ATENCAO

Lembre-se: a “competência relacional não é exercitar a pieguice, mas


APROFUNDAR O CONHECIMENTO para utilizá-lo com competência técnico-operativa
na garantia de direitos. Não é utilizá-lo como um discurso vazio, fácil, mas utilizá-lo na
GARANTIA DA INTERLOCUÇÃO E DO PROTAGONISMO DOS SUJEITOS do processo de
trabalho do assistente social”. (TÜRCK, 2010, p. 1, grifo nosso).

98
TÓPICO 2 | NATUREZA, ESTRATÉGIAS, PARTICULARIDADES E IMPLICAÇÕES DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

E este conhecimento, junto com a habilidade e atitude do profissional do


serviço social , determina a sua COMPETÊNCIA de ação. Mas, de acordo com Silva
(2007), para atingir esta competência, o profissional deve levar em consideração três
aspectos fundamentais, que são:

• o conhecimento sobre alguma coisa ou algum fato (compreensão de conceitos,


tecnologia, padrões e técnicas de trabalho, metodologias e instrumentos técnico-
operativos, entre outros, tendo a informação do fato, para assim saber o que e
por que fazer);

• a habilidade para a realização de uma determinada tarefa ou ação (a técnica


alinhada ao saber fazer);

• a atitude do assistente social que realiza a ação (o seu interesse em querer fazer
aquela determinada ação).

E este tripé da competência profissional está representado pela figura a


seguir:

FIGURA 6 – COMPETÊNCIA COM A INTEGRAÇÃO DE HABILIDADES, ATITUDES E CONHECIMENTO

FONTE: Silva (2007)

99
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

E
IMPORTANT

Prezado(a acadêmico(a), lembre-se de que, para APRENDER E COMPREENDER


a competência relacional do assistente social, é necessário primeiramente vivê-la antes
de qualquer coisa, ou seja, vivenciar no dia a dia as relações subjetivas do sujeito e suas
problemáticas sociais, nas mais diferenciadas expressões.

Mas, será que é fácil DESENVOLVER esta competência relacional?

De acordo com Türck (2010, p. 2), das competências do assistente social,

[...] essa é a mais difícil, porque é necessário construir com os diferentes,


construir com os opositores, aprender com os inimigos. É necessário controlar
sentimentos negativos que tornam os sujeitos reféns de atitudes mesquinhas,
em que o outro é visto como possibilidade de uso. E, principalmente, aprender
que a humanidade de cada sujeito é frágil e que está sempre sendo testada pela
ambição de ser mais.

NOTA

Ser assistente social, segundo Türck (2010, p. 2), “não é só se apropriar de


habilidades técnicas desprovidas do sentido humano. Por isso a competência relacional
adquire extrema importância para o assistente social.”

ABDICAR desta competência, segundo Roca (2001, p.15), significa:

Deixar para trás o compromisso com o novo, com a criatividade e com


a práxis. É apropriar-se de planos, equipamentos e guias de recursos,
enfraquecendo o “sentir com as entranhas”, permitindo que a ditadura
dos protocolos possibilite confundir o serviço social com a gestão
de um departamento administrativo. Assumir somente habilidades
técnicas, sem o sentido do relacional, é transformar-se em um executor
de tarefas, cujo processo discursivo nunca chegará à ação. Este é o
desafio com que os profissionais assistentes sociais se deparam e que
enfrentam nos espaços institucionais. É a dicotomia entre a teoria e a
prática que não encontra um ponto de conexão, porque também se
distancia da competência relacional que flexibiliza o olhar, que cria
estratégias, que permite ousadias, que desconhece o medo.

100
TÓPICO 2 | NATUREZA, ESTRATÉGIAS, PARTICULARIDADES E IMPLICAÇÕES DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

EXECUTOR DE TAREFAS! Será que é isto que os assistentes sociais


devem ser? É óbvio que não, os profissionais do serviço social são muito mais
do que executores de tarefas burocráticas. Estes profissionais, em seu dia a dia do
processo de trabalho, lidam constantemente “com a humanidade das pessoas”
(TÜRCK, 2010, p. 2), ou seja, com as diversas subjetividades e humanidades, e isto
não pode ser realizado roboticamente e insensivelmente, pois todas as pessoas
possuem sentimentos, necessidades e sonhos que desejam realizar em suas vidas.
E isto não pode ser deixado de lado quando o assistente social desenvolver seu
trabalho junto a estas pessoas, pois, caso contrário, não estaria realizando um
diagnóstico coerente e realista da realidade da população usuária dos programas
e projetos sociais.

E
IMPORTANT

Lembre-se de que é na vida cotidiana e no contexto social que a práxis


profissional do assistente social deve ser pautada e praticada.

Segundo Roca (2001, p.15), “uma profissão, como conjunto de saberes


socialmente instituídos, não substitui nunca os profissionais de carne e osso: por
trás deles existe sempre uma personalidade autônoma, capacidades e aptidões
que modulam uma determinada competência técnica.”

Ainda de acordo com Roca (apud TÜRCK, 2010, p. 2), nasce, sim, “a
convicção de que é necessário liberar o potencial de conhecimento e criatividade
dos homens e mulheres que escolhem as profissões sociais”, pois “a excelência
não recai tanto sobre a profissão em si mesma, quanto nos profissionais, nas
suas motivações e na sua identificação com seu processo de trabalho, sobre seu
talento cooperativo e sua confiança, sobre o apoio mútuo e a capacidade de tomar
decisões conjuntas.” (TÜRCK, 2010, p. 2).

Portanto, para Türck (2010, p. 2), “aliar a competência relacional com


o conhecimento é construir caminhos profissionais qualificados. Porque olhar
para si é, antes de tudo, qualificar o olhar para o outro e possibilitar a qualidade
de vida e a garantia de direitos”.

3 A RACIONALIZAÇÃO DA PRÁTICA DA ASSISTÊNCIA:


ASPECTOS HISTÓRICOS
Neste tópico apresentaremos, no quadro a seguir, uma breve concepção
histórica da racionalização da prática da assistência social, ou seja, as diversas
concepções referentes à prática profissional do assistente social.

101
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

QUADRO 1 – ASPECTOS HISTÓRICOS DA PRÁTICA DA ASSISTÊNCIA

Período Concepções da Dados históricos da racionalização da prática da assistência


histórico assistência

A assistência social era praticada no mundo antigo


Em torno de
Ajuda pelas confrarias, em especial, pelas “CONFRARIAS DO
3000 a.C.
DESERTO”, que já faziam a assistência junto às caravanas.

Ajuda como: As confrarias se estenderam para as cidades, buscando


- Esmolas ajudar a caminhada daqueles que sofriam, seja por
esporádicas e privações, pela dor, por doenças, perdas ou rupturas.
eventuais No sentido de diminuir o sofrimento das pessoas
Época pré-
- Visita domiciliar necessitadas.
cristã
- Concessão
de gêneros
alimentícios,
roupas, calçados

A assistência ampliou sua base, fundamentando-se não


só na caridade, mas especialmente na JUSTIÇA SOCIAL.
Com o
Enfatizava-se também a dimensão espiritual da assistência.
advento do Justiça social
Ao lado da AJUDA MATERIAL, colocava-se a preocupação
Cristianismo
com as questões da vida espiritual, especialmente aos
mais humildes.

Essa tarefa foi delegada aos Diáconos – membros leigos


da Igreja – e logo estendida às confrarias.
Caridade cristã Suas ações se ampliaram, passando a envolver a realização
Com a de INQUÉRITOS SOCIAIS, além das visitas domiciliares para
organização constatação das necessidades dos solicitantes de ajuda.
da Igreja A organização da prática da assistência era tida como
Católica expressão da caridade cristã.
A caridade para
O grande organizador da doutrina cristã foi Santo Tomás de
com os pobres
Aquino (1224-1274), que tinha a CARIDADE como um dos
pilares da fé, imperativo de justiça social aos mais humildes.

A assistência era encarada como forma de controlar


a pobreza e de ratificar a sujeição daqueles que não
detinham posses ou bens materiais.

Desde a era
medieval até
o século XIX
Controle de
pobreza
Então:
- seja na assistência
prestada pela burguesia
- seja naquela realizada
pelas instituições religiosas
} Havia sempre
outras intenções
além da caridade.

O que se buscava era PERPETUAR A SERVIDÃO, ratificar


a submissão.

Na qual a Igreja saiu dividida em dois campos:


o catolicismo
o protestantismo, que tem em Martim Lutero o seu criador.
Reforma
O PROTESTANTISMO proclamava a supremacia da fé em relação à caridade,
religiosa
da religiosidade interna em vez das manifestações externas.
Século XVI
O cumprimento dos princípios da fé era responsabilidade de cada pessoa e
a organização da prática da assistência, RESPONSABILIDADE DO ESTADO
e não da Igreja.
102
TÓPICO 2 | NATUREZA, ESTRATÉGIAS, PARTICULARIDADES E IMPLICAÇÕES DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

Neste período de constantes lutas religiosas, a PRÁTICA


Reforma
da assistência passou por várias alterações, das quais a
Luterana Bases laicas
mais significativa foi a sua organização em BASES LAICAS
Século XVI
e não mais religiosas.

Após a Na França, São Vicente de Paulo tentou restabelecer as


Confrarias e
reforma bases cristãs da assistência, recuperando o esquema das
leigos
Século XVII confrarias e envolvendo os leigos em sua prática.

A organização societária e a ordem jurídica que decorrem


da Revolução Francesa, de natureza meramente política,
deslocaram de novo a base da assistência, posicionando-a
Revolução
Direitos dos como UM DIREITO DO CIDADÃO e atribuindo a todos o
Francesa
cidadãos dever de prestá-la.
Século XVIII
A assistência foi deixada pelo ESTADO na mão de todos,
ou seja, a assistência NÃO FICOU NA MÃO DE NINGUÉM.

Na tarefa de racionalizar a assistência, criou-se uma aliança entre a alta


burguesia inglesa com a Igreja e com o Estado, onde nasceu, sob a iniciativa
da primeira, a SOCIEDADE DE ORGANIZAÇÃO DE CARIDADE. Aí se criou a
primeira proposta de prática para o serviço social .
Entendia-se que só COIBINDO as práticas de classes dos trabalhadores,
impedir-se-iam as manifestações coletivas e se manteria o controle sobre a
“questão social”, pois só assim é que se poderia assegurar o funcionamento
social adequado (FUNÇÃO ECONÔMICA da assistência).
Século XIX
A FUNÇÃO IDEOLÓGICA da assistência, que aderiu fortemente à prática
social, que se expressava por intermédio da tácita ou explícita repressão sobre
a organização da classe trabalhadora e sobre sua expressão política – na
tentativa de coibir as ameaças do movimento operário.

A FUNÇÃO DE CONTROLE da assistência – no sentido de exercer um controle


rigoroso sobre o processo social e das condições de vida da massa pauperizada,
AJUSTANDO-AS aos padrões estabelecidos pela sociedade burguesa, ora
constituída.

A SOCIEDADE DE ORGANIZAÇÃO DE CARIDADE era considerada a instituição


de maior porte no âmbito da assistência social.

Sua principal bandeira de luta era a ORGANIZAÇÃO CIENTÍFICA DA


ASSISTÊNCIA, o que levava a uma posição bastante alienada do agravamento
Início do da questão social propriamente dita.
século XX
A atividade assistencial desta época:
- a visita domiciliar: que era a prática mais usual, situando-se como um
instrumento que permitia atingir um duplo objetivo: conhecer in loco as
condições de moradia e da saúde da classe trabalhadora e de socializar o
‘modo capitalista de pensar’.

FONTE: Adaptado de Martinelli (2009, p. 96-106)

103
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

UNI

Olhe, caro(a) acadêmico(a), “em nome da verdade histórica, é indispensável que se


revele que muitas práticas de exploração, de repressão e dominação política e ideológica foram
realizadas sob a denominação de CARIDADE. (MARTINELLI, 2009, p. 97, grifos nossos).

4 RACIONALIDADE INSTRUMENTAL E TÉCNICA


Nesta discussão pertinente à racionalidade, partiremos do seu conceito
que é apresentado pelo Dicionário Informal (2007, grifo nosso), que expõe que
a RACIONALIDADE “significa tornar reflexivo, empregar o raciocínio para
resolver problemas. Trata-se de uma operação mental complexa que consiste em
estabelecer relações entre elementos e dados”.

Tradicionalmente, de acordo com Regner (2010,


p. 1, grifo nosso),
“o significado de ‘racionalidade’ é associado à
nossa capacidade de discernir propriedades,
estabelecer relações e construir argumentos
para apresentar e defender nossas crenças,
exibindo uma dupla e mutuamente relacionada
dimensão. De um lado, é o exercício de uma
faculdade cognitiva – chamemo-la ‘razão’. De
outro, é o resultado da ação da ‘razão’ e torna-se
a propriedade que perpassa os produtos dessa FONTE: Disponível em:
<www.baterdocoracao.
‘faculdade’.” blogspot.com>. Acesso em:
24 fev. 2010.

Mas, o que é a racionalidade instrumental?

De acordo com Souza (2010, p. 1, grifo nosso),


a RACIONALIDADE INSTRUMENTAL é “a
faculdade subjetiva do pensar que é a RAZÃO,
ou seja, é a faculdade que julga, discerne, compara,
relaciona, calcula, ordena e coordena os meios com
os fins. Esta faculdade tornou-se, em sua  evolução,
um instrumento formal”. FONTE: Disponível
em: <www.filosofonet.
wordpress.com>. Acesso
em: 24 fev. 2010.

104
TÓPICO 2 | NATUREZA, ESTRATÉGIAS, PARTICULARIDADES E IMPLICAÇÕES DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

Então, o que é a RAZÃO?

Segundo Souza (2010, p. 1), a RAZÃO “não é apenas a faculdade interior


do homem, mas ela se personificou nos próprios objetos deste mundo”.

ATENCAO

A RAZÃO tornou-se RACIONALIDADE. (SOUZA, 2010, p. 1).

Ou seja, a RAZÃO “está presente no aparelho produtivo, no aparelho


tecnológico e científico, nas instituições políticas, no hospital, na escola, no trânsito
e na mídia.  Em todos os empreendimentos humanos há a relação calculada entre
meios e fins. A operação, a coordenação, a ordem, o sistema, o cálculo, a busca da
unidade definem a racionalidade em sua eficácia”.   (SOUZA, 2010, p. 1).

E, quem foi que FALOU PELA PRIMEIRA vez sobre a


RACIONALIDADE?

Pois bem, de acordo com Souza (2010, p. 1):

O primeiro pensador que desvelou o


fenômeno da racionalidade no mundo
ocidental foi MAX WEBER.
Weber, em seu livro “A ética protestante e
o espírito do capitalismo”, publicado em
1905, diagnosticou que a característica
fundamental específica da sociedade
FONTE: Disponível em: <http://images. ocidental é a racionalização.
google.com.br/images?hl=pt-BR&q=max%20
weber%20imagem&lr=lang_pt&um=1&ie=UTF-
8&sa=N&tab=wi>. Acesso em: 24 fev. 2010.

ATENCAO

MAX WEBER entende a racionalização como uma “REGULARIZAÇÃO DA AÇÃO


HUMANA” na busca de certos fins específicos. (SOUZA, 2010, p. 1).

105
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

Em outros termos, Max Weber observou enfaticamente, em seus estudos,


que estavam acontecendo no Ocidente alguns fenômenos culturais diferenciados
do Oriente, e, de acordo com ele, estes fenômenos culturais estavam repletos de:

[...] DESENVOLVIMENTO UNIVERSAL em seu valor e significado.


Por exemplo, a ideia de um Estado racionalmente organizado como
uma entidade política, com uma Constituição racionalmente redigida,
um direito racionalmente ordenado, uma administração orientada por
regras racionais e com funcionários especializados somente existiu no
Ocidente.  Da mesma forma, a apropriação capitalista racionalmente
efetuada e calculada em termos de capital. Tudo sendo feito em termos
de balanço, onde a ação individual das partes, baseada no cálculo, só
existiu no Ocidente. (SOUZA, 2010, p. 1, grifo nosso).

O que Max Weber faz, então?

Segundo Freitag (1994, p. 90, grifo nosso), Weber postula “como racional
toda a ação que se baseia no CÁLCULO, na ADEQUAÇÃO DE MEIOS E FINS,
procurando obter com um mínimo de dispêndios um máximo de efeitos desejados,
evitando-se ou minimizando-se todos os efeitos colaterais indesejados”.

Mas, de onde teria NASCIDO esta racionalidade que hoje fundamenta


toda a vida em sociedade? 

De acordo com Weber (1993), o conceito de RACIONALIZAÇÃO advém


das concepções científicas ocidentais referentes a uma racionalização técnico-
científica dos fatos.

Então, segundo Souza (2010, p. 1-2, grifo nosso),

}
O desenvolvimento de uma ciência racional fundamentada em
princípios racionais e no método científico é um produto do Ocidente.

A ASTRONOMIA fundamentada
matematicamente;

a GEOMETRIA demonstrada através são


da  prova racional; descobertas
da cultura
as CIÊNCIAS NATURAIS  fundamentadas ocidental.
na observação e no método experimental;

a MEDICINA desenvolvida empiricamente


com fundamentos biológicos e  bioquímicos

Esse processo de racionalização das ciências atingiu todas as esferas da vida


social e tornou o “mundo desencantado”.  Tudo o que existe poderia ser explicado
pelo conhecimento racional. O MUNDO DEIXOU DE SER MISTERIOSO.

106
TÓPICO 2 | NATUREZA, ESTRATÉGIAS, PARTICULARIDADES E IMPLICAÇÕES DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

CIÊNCIA RACIONAL!!! Mas, o que é CIÊNCIA ou CONHECIMENTO


CIENTÍFICO? E o que NÃO é ciência/científico?

Pois bem, agora delinearemos algumas considerações a respeito da


revisão teórica sobre a problemática do CONHECIMENTO CIENTÍFICO E
NÃO CIENTÍFICO.

UNI

Para situar-nos em relação a esta questão, primeiramente traçaremos


considerações a respeito das visões e divisões do problema do conhecimento, perpassando
por algumas abordagens tradicionais do conhecimento, tais como o POSITIVISMO LÓGICO
e o PRINCÍPIO DA VERIFICAÇÃO. Na sequência serão abordadas questões do RACIOCÍNIO
CRÍTICO E O PRINCÍPIO DE REFUTAÇÃO, além de expor considerações referentes a outras
abordagens alternativas do conhecimento, como as REVOLUÇÕES CIENTÍFICAS, de Thomas
Kuhm, e a ANT e controvérsias científicas de Bruno Latour. Temos como propósito aplicar
este conhecimento na constituição da racionalidade instrumental no serviço social .

Então, qual o PROBLEMA DO CONHECIMENTO, suas VISÕES E


DIVISÕES?

Como nos mostra Mattedi (2006), o conhecimento científico ou a


ciência diferencia-se de outros por ser sustentado numa LÓGICA RACIONAL
que permite a verificação dos fatos e dos fenômenos da realidade de forma
sistemática e generalizada.

Portanto, o que diferencia o conhecimento científico do não científico é o


MÉTODO.

Além disso, a ciência não produz verdade porque ela está em constante
transformação, e a pesquisa, por causa disso, é dinâmica. E toda atividade científica
é uma atividade social.

Sobre isto vale lembrar que a ciência constitui uma forma específica de
produção do conhecimento, que opera através da aplicação do método científico.

Como se pode visualizar na Figura 7, o conhecimento é dividido em


científico e não científico, e no conhecimento científico temos duas correntes
científicas, a ciência aplicada e a ciência básica; a ciência se diferencia em função
de sua finalidade.

107
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

FIGURA 7 – CONHECIMENTO CIENTÍFICO E NÃO CIENTÍFICO

FONTE: Adaptado de Mattedi (2006)

De acordo com Mattedi (2006), o espaço acadêmico é formado através


da universidade tradicional e da universidade moderna, como se pode observar
na Figura 8. Na universidade tradicional não havia pesquisa científica, a ciência
estava fora da universidade. Já na universidade moderna é implantada a pesquisa
científica por Alexander von Humboldt.

108
TÓPICO 2 | NATUREZA, ESTRATÉGIAS, PARTICULARIDADES E IMPLICAÇÕES DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

UNI

ALEXANDER VON HUMBOLDT (Berlim, 1769 - idem,


1859)
Naturalista e geógrafo alemão. Estuda nas melhores universidades
alemãs e prepara conscienciosamente a sua expedição científica
à América. A viagem, que dura cinco anos, origina numerosas
observações científicas. No regresso, instala-se em Paris até 1827 e,
posteriormente, em Berlim. Em 1829 inicia outra expedição à Ásia.
Estas expedições, de grande rigor científico, dão-lhe fama universal.
Influenciado pelos grupos liberais alemães, inclina-se pela ajuda
aos oprimidos. Como cientista investiga a conexão profunda de
todos os fenômenos da natureza. Dentre as suas muitas obras
destacam-se: Do Orenoco ao Amazonas, Ensaio Político sobre o
Reino da Nova Espanha e Viagem às Regiões Equinociais do Novo
FONTE: Disponível
Continente, realizada de 1799 a 1804, escrita em colaboração com
em: <www.library2.
o botânico Aimé Bonpland, em trinta volumes, onde expõe os
binghamton.edu>.
resultados das suas investigações americanas.
Acesso em: 10 mar.
FONTE: Disponível em: <www. http://www.vidaslusofonas.pt/von_
2010.
humboldt.htm>. Acesso em: 10 mar. 2010.

FIGURA 8 – ESPAÇO ACADÊMICO

FONTE: Adaptado de Mattedi (2006)

109
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

Como diz Mattedi (2006), as CIÊNCIAS SOCIAIS nasceram depois das


ciências naturais e humanas, portanto as ciências sociais sofrem influência destas
duas áreas do conhecimento científico, de acordo com os modelos diferentes de
compreensão e explicação de cada área.

Mas qual a DIFERENÇA entre uma ciência básica e uma aplicada?

A CIÊNCIA BÁSICA: procura conhecer; podemos caracterizá-la como a


parte da pesquisa científica que se propõe enriquecer o conhecimento humano
sobre o assunto em questão. Ela não tem por objetivo modificar a sociedade.

A CIÊNCIA APLICADA: procura ajudar o homem a agir bem, objetiva


a aplicação da pesquisa científica visando resolver um problema de utilidade
prática do homem.

E qual é a ABORDAGEM TRADICIONAL DO CONHECIMENTO?


E como estabelecer uma demarcação entre conhecimento científico e não
científico?

Mattedi (2006) expõe que existem algumas tradições que tratam da


questão do conhecimento científico e não científico. Vejamos:

Primeira tradição: O POSITIVISMO, que teve quatro fases:

1ª Fase: o proto-positivismo, em que a origem do conhecimento é o intelecto e


não a experiência;

2ª Fase: o positivismo clássico foi um período em que as ideias foram agrupadas


e condensadas na obra de Auguste Comte, que foi o fundador do
Positivismo e da Sociologia;

3ª Fase: o positivismo crítico foi um período de revisão e radicalização;

4ª Fase: o positivismo lógico e o verificacionismo, em que o fundamental é a


noção de verificação, ou seja, realizar um teste metodológico.

ATENCAO

Os juízos de valores e estéticos são excluídos da ciência positivista, e a ciência


só se preocupa com os fatos. (MATTEDI, 2006).

110
TÓPICO 2 | NATUREZA, ESTRATÉGIAS, PARTICULARIDADES E IMPLICAÇÕES DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

A CIÊNCIA É DIFERENTE DA NÃO CIÊNCIA porque foram constituídas


sobre lógicas diferentes. E a cientificidade (o conhecimento científico), segundo
os positivistas, é única e verdadeira, porque:

• possui objetividade;

• é metódica, porque todo experimento pode ser replicado, controlado e


reproduzido;

• é vista como conhecimento preciso, porque quanto mais clara e metódica,


facilitará a crítica do conhecimento;

• é vista como conhecimento mais perfeito, porque é a melhor invenção do


homem;

• é um conhecimento progressivo e cumulativo, porque sempre vamos


aumentando o conhecimento;

• é um conhecimento imparcial e desinteressado, porque os cientistas são


desinteressados e imparciais, pois almejam o incremento contínuo do conhecimento
humano. (MATTEDI, 2006).

Segunda tradição: o RACIONALISMO CRÍTICO e a FALSIFICAÇÃO:


de acordo com Mattedi (2006), a base desta concepção advém de KARL POPPER,
que, primeiramente, critica o método indutivo, que parte de um fato ou ideias
específicas para o geral. O SENSO COMUM da sociedade civil é indutivo,
portanto a maioria da ciência que é produzida advém do método indutivo.

Mas Popper (2003) sugere que a ciência deve se fundamentar no MÉTODO


DEDUTIVO, ou seja, devemos partir dos aspectos gerais para chegarmos aos
específicos.

111
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

UNI

KARL POPPER (Viena, 28 de julho de 1902 – Londres, 17


de setembro de 1994) foi um filósofo da ciência, austríaco naturalizado
britânico. É considerado por muitos como o filósofo mais influente
do século XX a tematizar a ciência. Foi também um filósofo social e
político de estatura considerável, um grande defensor da democracia
liberal e um oponente implacável do totalitarismo.
Ele é talvez mais bem conhecido pela sua defesa do falsificacionismo
como um critério da demarcação entre a ciência e a não ciência, e Karl Popper (1902-
pela sua defesa da sociedade aberta. 1994) definiu os
limites da atividade
FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Popper>. científica
Acesso em: 10 mar. 2010. FONTE: Disponível
em: <http://
educacao.uol.com.
br>. Acesso em: 10
mar. 2010.

De acordo com Mattedi (2006), existem algumas ETAPAS DO MODELO


HIPOTÉTICO-DEDUTIVO. Para Popper (2003), o método científico parte de
um problema (P1), ao qual se oferece uma hipótese (H) explicativa, que é testada
(T), originando o surgimento de um novo problema (P2), como se pode visualizar
na Figura 9.

FIGURA 9 – MODELO POPPERIANO

FONTE: Mattedi (2006)

Sobre isto vale lembrar que, para Popper (2003), é através da


FALSIFICAÇÃO (que deve haver comparação, ensaio e erro) que a ciência
se diferencia da não ciência, ou seja, uma teoria só pode ser científica se for
constatada com os fatos.

Vejamos agora o que Hahn, Neurath e Carnap (1986) falam sobre o


positivismo lógico e o princípio da verificação e o que Popper (2003) expõe sobre
o racionalismo crítico e o princípio da refutação.

112
TÓPICO 2 | NATUREZA, ESTRATÉGIAS, PARTICULARIDADES E IMPLICAÇÕES DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

Pois bem, com relação ao POSITIVISMO LÓGICO E O PRINCÍPIO DE


VERIFICAÇÃO, podemos expor que, através do pensamento de Hahn, Neurath
e Carnap (1986) referente à concepção de mundo, na qual abordam a questão da
concepção científica de mundo sob a ótica/visão adotada pelos frequentadores do
Círculo de Viena. Estes autores tiveram como propósito buscar uma explicação
referente à concepção científica do mundo e convencer o leitor de que esta é a forma
correta de ver o mundo, numa perspectiva empirista, lógica e verificável.

Hahn, Neurath e Carnap determinam que a MODERNA CONCEPÇÃO


CIENTÍFICA do mundo deva ser desenvolvida através do desenvolvimento
do método da construção de hipóteses e, posteriormente, o desenvolvimento
do método axiomático e da análise lógica, o que permitiu dar à construção dos
conceitos, clareza e rigor sempre maiores.

Desta forma, estes autores (1986, p. 18) expõem que “a análise lógica e
epistemológica não quer impor limitações à pesquisa científica; pelo contrário,
põe-lhe à disposição um domínio, o mais completo possível, de possibilidades
formais, das quais deve escolher a adequada e respectiva experiência”.

Estas concepções mostram que esta forma de conceber o mundo está


em sintonia com a realidade, quando Hahn, Neurath e Carnap afirmam que
“este desenvolvimento se associa ao do moderno processo de produção, que se
configura de um modo cada vez mais mecanizado e técnico, deixando sempre
menos espaço a representações metafísicas”. (1986, p. 18).

Hahn, Neurath e Carnap (1986) desenvolvem sua explicação desta


problemática, como um manifesto à sociedade, onde os seguidores da concepção
científica do mundo procuram mostrar que é com esta forma de ver o mundo que
o conhecimento se processa, dando origem a um movimento conhecido como
Empirismo Lógico ou Neopositivismo.

Os autores nos mostram que “para isso empreendeu um ataque aos


fundamentos metafísicos do discurso filosófico, que eram descritos como sem
sentido: não diziam nada de falso ou verdadeiro acerca do mundo e, portanto,
em nada contribuíam para o aumento do conhecimento”. Desta forma, “os
representantes da concepção científica do mundo [...] lançam-se confiantemente
ao trabalho de remover do caminho o entulho metafísico e teológico dos séculos”.
(1986, p. 18, grifo nosso).

Como método científico baseado no empirismo lógico, afirmam que,


para que uma afirmação tenha validade científica, ela deve ser passível de
verificação. Ou seja, a demarcação entre o pensamento sem sentido (metafísica)
e com sentido (ciência) era estabelecida pelo princípio da verificação.

Conforme Hahn, Neurath e Carnap (1986, p. 19),

113
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

[...] presenciamos a penetração, em crescente medida, do espírito da


concepção científica do mundo nas formas de vida privada e pública,
do ensino, da educação, da arquitetura, e a sua contribuição na
configuração da vida econômica e social, segundo princípios racionais.
A concepção científica do mundo serve à vida, e a vida a acolhe.

Finalmente, buscamos a aceitação da sua teoria pela sociedade


quando afirmamos que a concepção científica do mundo está próxima à vida
contemporânea.

E, do que se trata o RACIONALISMO CRÍTICO E O PRINCÍPIO DA


REFUTAÇÃO?

No que tange ao racionalismo crítico e ao princípio da refutação, Popper


(2003), em sua obra denominada “Conjecturas e refutações”, aborda o critério de
demarcação científica, que é igual à cientificidade, para assim propor um critério
de demarcação. E para isto ele afirma que o seu critério da constatação é o critério
da falsificação.

Popper (2003) explica seu raciocínio através de dez operações. São elas:

Primeira operação: Formulação do problema

Na introdução, ele formula o problema, contrastando a psicanálise com


a psicologia, e o marxismo com a relatividade geral. Mas como separar estas
teorias?

Popper (2003, p. 63) faz o seguinte questionamento: “quando pode uma


teoria ser classificada como científica?”, ou “existe um critério para classificar
uma teoria como científica?” Ele “desejava traçar uma distinção entre a ciência
e a pseudociência, pois sabia muito bem que a Ciência frequentemente comete
erros, ao passo que a pseudociência pode encontrar acidentalmente a verdade”.
Mas Popper (2003, p. 63) “conhecia, evidentemente, a resposta mais comum
dada ao problema: a CIÊNCIA se distingue da PSEUDOCIÊNCIA – OU
“METAFÍSICA” – pelo uso do método empírico, essencialmente indutivo, que
decorre da observação ou da experimentação”.

Através deste raciocínio, Popper (2003, p. 63) diz que “o método que,
embora se utilize da observação e da experimentação, não atinge o padrão
científico. Um exemplo deste método seria a astrologia, que tem um grande
acervo de evidência empírica baseada na observação: horóscopos e biografias”.
Mas Popper (2003, p. 64) questiona: “o que estará errado com o marxismo, a
psicanálise e a psicologia individual? Por que serão tão diferentes da teoria de
Newton e especialmente da teoria da relatividade?”.

Sob estas indagações, Popper (2003, p. 64) citava que o que o

114
TÓPICO 2 | NATUREZA, ESTRATÉGIAS, PARTICULARIDADES E IMPLICAÇÕES DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

[...] preocupava, portanto, não era, pelo menos naquele estágio, o


problema da veracidade, da exatidão ou da mensurabilidade. Sentia
que as três teorias, embora se apresentassem como ramos da ciência,
tinham de fato mais em comum com os mitos primitivos do que com
a própria ciência, que se aproximava mais da astrologia do que da
astronomia.

Popper (2003, p. 66) chega a algumas conclusões, como:

(1) É fácil obter confirmações ou verificações para quase toda teoria; (2)
as confirmações só devem ser consideradas se resultarem de predições
arriscadas; (3) toda teoria científica “boa” é uma proibição; (4) a
teoria que não for refutada por qualquer acontecimento concebível
não é científica; (5) todo teste genuíno de uma teoria é uma tentativa
de refutá-la; (6) a evidência confirmadora não deve ser considerada
se não resultar de um teste genuíno da teoria; (7) algumas teorias
genuinamente “testáveis”, quando se revelam falsas, continuam a ser
sustentadas por admiradores, que introduzem, por exemplo, alguma
suposição auxiliar ad hoc, ou reinterpretam a teoria ad hoc de tal
maneira que ela escapa à refutação.

Popper conclui dizendo “que o critério que define o status científico


de uma teoria é sua capacidade de ser refutada ou testada”. (2003, p. 66, grifo
nosso).

Segunda operação: exemplos do critério da falsificação

Popper (2003, p. 67) exemplifica o critério da falsificação com a comparação


da teoria de Einstein e Marx. Diz que “Einstein satisfazia nitidamente o critério
da refutabilidade” e que “a astrologia não passou no teste, os astrólogos estavam
muito impressionados e iludidos com aquilo que acreditavam ser evidência
confirmadora – tanto assim que pouco se preocupavam com qualquer evidência
desfavorável”. Nas palavras de Popper (2003, p. 67):

[...] em algumas de suas formulações anteriores [...] as predições eram


“testáveis” e foram refutadas. Mas em vez de aceitar as refutações, os
seguidores de Marx reinterpretaram a teoria e a evidência para fazê-
las concordar entre si. Salvaram assim a teoria da refutação. E que as
duas teorias psicanalíticas pertencem a outra categoria, por serem
simplesmente não intestáveis e irrefutáveis. Não se podia conceber um
tipo de comportamento humano capaz de contradizê-las.

Popper (2003, p. 68) expõe que, deste modo,

[...] o problema que eu procurava resolver propondo um critério de


refutabilidade não se relacionava com o sentido ou significado, a veracidade
ou a aceitabilidade. O critério da “refutabilidade” é a solução para o problema
da demarcação, pois, para serem classificadas como científicas, as assertivas ou
sistemas de assertivas devem ser capazes de entrar em conflito com observações
possíveis ou concebíveis.

115
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

Terceira operação: Critérios de falsificação

Popper vai estabelecer os critérios de falsificação e cita que “é claro que


esse critério de demarcação – o critério de ‘testabilidade ou refutabilidade’ – está
longe de ser óbvio; ainda hoje seu significado é raramente compreendido”. (2003,
p. 69).

Toda proposição genuína (ou significativa) deve ser função da verdade


de proposição elementar ou atomística, que descreva fatos atômicos, isto é,
fatos que em princípio podem ser verificados pela observação. As proposições
significativas são totalmente redutíveis a proposições elementares ou
atomísticas, afirmações simples descrevendo em possível estado de coisas que
podem, em princípio, ser estabelecidas ou rejeitadas pela observação.

Há uma coincidência da verificabilidade, do significado e do caráter


científico. O critério de demarcação de Wittgenstein [...] é o da verificabilidade,
da capacidade de deduzir a teoria de afirmações derivadas da observação.
Os membros do Círculo, no entanto, classificaram minha contribuição como
uma proposta para substituir o critério de significado para verificação por um
critério de significado para determinar a refutabilidade. (POPPER, 2003, p. 69-
70).

Quarta operação: Crítica ao princípio de verificação positivista

Popper (2003) trata da questão da indução em David Hume, para criticar


o princípio de verificação positivista.

Conjecturas X Refutação
Ensaio X Erro
Hipótese X Teste

116
TÓPICO 2 | NATUREZA, ESTRATÉGIAS, PARTICULARIDADES E IMPLICAÇÕES DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

UNI

DAVID HUME
David Hume nasceu em Edimburgo, em 1711. Foi um
filósofo e historiador escocês. Após frequentar estudos
literários ainda na adolescência, foi para a França, onde
escreveu o seu livro Investigação sobre a Natureza
Humana. Pouco depois escreve os Essays, Moral and
Political. Quando nomeado bibliotecário do colégio
de advogados de Edimburgo, escreve uma História de
Inglaterra que vai publicando pouco a pouco, o que lhe
proporciona alguma fortuna e fama.
Viaja para França como secretário do embaixador inglês
e, antes de se retirar para Edimburgo, é subsecretário
de Estado. Devido à sua reputação, exerce grande
influência sobre os estudiosos e pensadores de França
e Inglaterra.
A filosofia de Hume tem origem tanto no empirismo
de Locke como no idealismo de Berkeley. Tenta reduzir
os princípios racionais, a associações de ideias que o hábito e a repetição vão fortalecendo.
Tal é, por exemplo, o caso do princípio de causalidade. Fazem dele uma lei sobre as coisas,
quando na realidade não expressa mais que uma coisa que nós esperamos, uma necessidade
completamente subjetiva desenvolvida pelo hábito.
As leis científicas resumem a experiência passada, mas não comportam certeza alguma no
que ao porvir se refere. A substância, seja material ou espiritual, não existe. Os corpos não
são mais que grupos de sensações ligadas entre si pela associação de ideias. Também o eu
é somente uma coleção de estados de consciência. Por esta via, Hume chega ao cepticismo
e ao fenomenismo absoluto.
FONTE: Disponível em: <http://www.pensador.info/autor/David_Hume/biografia/>. Acesso
em: 10 mar. 2010.

A teoria se sustenta até que se prove o contrário.

Popper (2003, p. 71) discutiu “o problema da demarcação detalhadamente


porque acredita que sua solução dá uma chave para a maioria dos problemas
fundamentais da filosofia da ciência”.

Hume sustenta que não pode haver argumentos lógicos válidos que
nos permitam afirmar que aqueles casos dos quais não tivemos experiência
alguma assemelham-se àqueles que já experimentamos anteriormente”.

A tentativa de justificar a prática da indução apelando para a experiência


deve levar a um regresso infinito. Como resultado, podemos dizer que as
teorias nunca podem ser inferidas de afirmações derivadas da observação, ou
racionalmente justificadas por elas. (POPPER, 2003, p. 72).

117
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

A psicologia de Hume – que é a psicologia popular – estava errada


em pelo menos três pontos: (a) o resultado típico da repetição; (b) a gênese
dos hábitos; e especialmente (c) o caráter daquelas experiências e tipos de
comportamento que podem ser descritos como “acreditar numa lei”, ou
“esperar uma sucessão ordenada de eventos”.

Popper cita ainda que a “ideia central da teoria de Hume é a


da REPETIÇÃO BASEADA NA SIMILARIDADE (ou ‘semelhança’)”.
Continuando, diz que “o tipo de repetição imaginado por Hume jamais pode
ser perfeito; os casos que ele expõe não são casos de similaridade perfeita; são
apenas casos de semelhança. Logo, são repetições”. (2003, p. 74, grifo nosso).

Popper afirma: “[...] o que demonstra que a teoria psicológica de Hume


nos leva a uma situação de regresso infinito”. (2003, p. 75).

Quinta operação: Objeções à teoria de Popper

Popper (2003) descreve eventuais objeções à sua teoria e faz uma crítica do
empirismo com base na teoria kantiana, para sustentar o modelo de ensaio e erro.

UNI

IMMANUEL KANT ou EMANUEL KANT


(Königsberg, 22 de abril de 1724 – Königsberg, 12 de fevereiro de 1804)
Kant foi um filósofo alemão, geralmente considerado como o último
grande filósofo dos princípios da era moderna, indiscutivelmente
um dos seus pensadores mais influentes.
Depois de um longo período como professor secundário de
Geografia, começou, em 1755, a carreira universitária ensinando
Ciências Naturais. Em 1770 foi nomeado professor catedrático da
Universidade de Königsberg, cidade da qual nunca saiu, levando
uma vida monotonamente pontual e só dedicada aos estudos
filosóficos. Realizou numerosos trabalhos sobre ciência, física,
matemática etc.
Kant operou, na epistemologia, uma síntese entre o Racionalismo
continental (de René Descartes e Gottfried Leibniz, onde impera a
Kant: filósofo que
forma de raciocínio dedutivo), e a tradição empírica inglesa (de David
lançou as bases da
Hume, John Locke, ou George Berkeley, que valoriza a indução).
ética moderna
Kant é famoso sobretudo pela elaboração do denominado
idealismo transcendental: todos nós trazemos formas e conceitos
a priori (aqueles que não vêm da experiência) para a experiência concreta do mundo, os
quais seriam de outra forma impossíveis de determinar. A filosofia da natureza e da natureza
humana de Kant é, historicamente, uma das mais determinantes fontes do relativismo
conceptual que dominou a vida intelectual do século XX. No entanto, é muito provável
que Kant rejeitasse o relativismo nas formas contemporâneas, como, por exemplo, o Pós-
modernismo.
Kant é também conhecido pela filosofia moral e pela proposta, a primeira moderna, de uma
teoria da formação do sistema solar, conhecida como a hipótese Kant-Laplace.
FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Immanuel_Kant>. Acesso em: 10 mar. 2010.

118
TÓPICO 2 | NATUREZA, ESTRATÉGIAS, PARTICULARIDADES E IMPLICAÇÕES DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

Popper (2003, p. 76) cita que:

A crença de que a ciência avança da observação para a teoria provoca


muitas vezes reação de incredulidade. E que a observação é sempre
seletiva: exige um objeto, uma tarefa definida, um ponto de vista, um
interesse especial, um problema. Para descrevê-la, é preciso empregar
uma linguagem apropriada, implicando similaridade e classificação
– que, por sua vez, implicam interesses, pontos de vista e problemas.
Além de que, de modo geral, os objetos mudam... de acordo com as
necessidades do animal. De acordo com as necessidades e interesses os
objetos podem ser classificados, assemelhados ou diferenciados.

A resposta de Kant a Hume estava quase certa: a distinção entre uma


expectativa válida a priori e uma outra, genética e logicamente anterior à
observação, sem ser contudo válida a priori, é de fato bastante sutil. Kant tinha
razão ao dizer que nosso intelecto não deriva suas leis da natureza, mas impõe
suas leis à natureza.

Muitas vezes a natureza resiste com êxito, forçando-nos a rejeitar nossas


leis – o que não nos impede de tentar outras vezes. (POPPER, 2003, p. 78).

Sexta operação: Comportamento dogmático

Popper (2003) procura criticar o fenômeno psicológico do pensamento-


dogmático, ou seja, o comportamento dogmático. Diz que “nossa inclinação para
procurar regularidades e para impor leis à natureza leva ao fenômeno psicológico
do pensamento-dogmático ou, de modo geral, do comportamento dogmático.

Esse dogmatismo é, em certa medida, necessário [...], mas a atitude


dogmática que nos leva a guardar fidelidade às primeiras impressões indica
uma crença vigorosa; por outro lado, uma atitude crítica, com a disponibilidade
para alterar padrões, admitindo dúvidas e exigindo testes, indica uma crença
mais fraca. (POPPER, 2003, p. 79).

Sétima operação: Distinção entre o pensamento crítico e dogmático

Popper procura distinguir o pensamento crítico do pensamento


dogmático. Ele afirma que:

A distinção entre o pensamento crítico e o dogmático está relacionada


diretamente com a tendência da verificação de nossas leis e esquemas,
buscando aplicá-los e confirmá-los sempre, a ponto de afastar as
refutações, enquanto a atitude crítica é feita de disposição para
modificá-los – a inclinação no sentido de testá-los, refutando-os,
se isso for possível. O que sugere a identificação da atitude crítica
com a atitude científica e a atitude dogmática com a que descrevi,
qualificando-a de pseudocientífica. Acha também que geneticamente a
atitude pseudocientífica é mais primitiva do que a científica, e anterior
a ela: é uma atitude pré-científica. [...]. Com efeito, a atitude crítica não
se opõe propriamente à atitude dogmática; sobrepõe-se a ela: a crítica

119
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

deve dirigir-se contra as crenças prevalecentes, que exercem grande


influência e que necessitam uma revisão crítica. [...] A atitude crítica
requer – como ‘matéria-prima’, as teorias ou crenças aceitas mais ou
menos dogmaticamente. E que a ciência começa, portanto, com os
mitos e a crítica dos mitos; não se origina numa coleção de observações
ou na invenção de experimentos, mas, sim, na discussão crítica dos
mitos, das técnicas e práticas mágicas. (2003, p. 80).

No entanto, de acordo com Popper (2003, p. 80-81):

[...] o argumento lógico, o raciocínio lógico dedutivo, continua a


.exercer uma função de grande importância na abordagem crítica; não
porque nos permite provar nossas teorias ou inferi-Ias de afirmativas
derivadas da observação, mas porque é impossível descobrir as
implicações dessas teorias (para poder criticá-las efetivamente)
empregando exclusivamente o raciocínio dedutivo.

Segundo Popper (2003, p. 81), “a crítica é uma tentativa de identificar os


pontos fracos das teorias – pontos que, de modo geral, só vamos encontrar nas
suas consequências lógicas mais remotas. É aí que o raciocínio puramente lógico
desempenha um papel importante”. E que “não há nada de irracional na aceitação
de uma teoria, como nada há de irracional na admissão de teorias bem testadas,
para fins práticos – nenhum outro tipo de comportamento é mais racional”.
Complementa citando que, “se essa é nossa tarefa, o procedimento mais racional
é o método das tentativas – da conjectura e da refutação”.

Deste ponto de vista, afirma que:

Todas as leis e teorias são essencialmente tentativas conjecturais,


hipotéticas – mesmo quando não é mais possível duvidar delas. O
método das tentativas não se identifica simplesmente com o método
crítico ou científico – o processo de conjecturas e refutações. O primeiro
é empregado não só por Einstein, mas – de forma mais dogmática –
pela ameba; a diferença reside não tanto nas tentativas, mas na atitude
crítica e construtiva assumida com relação aos erros. (POPPER, 2003,
p. 81).

Popper finaliza expondo que “a atitude crítica pode ser descrita como uma
tentativa consciente de submeter nossas teorias e conjecturas, em nosso lugar, à
‘luta pela sobrevivência’, em que os mais aptos triunfam”. (2003, p. 81).

Oitava operação: Questão da lógica da ciência

Popper (2003) volta a discutir o problema da lógica da ciência e critica

[...] a lógica da psicologia da experiência para nosso problema real: o problema


da lógica da ciência. Embora algumas das coisas que comentei aqui possam
ajudar-nos, na medida em que eliminaram certos preconceitos em favor
da indução, o tratamento a que me proponho do problema lógico da indução

120
TÓPICO 2 | NATUREZA, ESTRATÉGIAS, PARTICULARIDADES E IMPLICAÇÕES DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

independe totalmente da crítica que fizemos e de todas as considerações


psicológicas expostas. Era fácil entender que o método da ciência é a crítica,
isto é, as tentativas de refutação. (2003, p. 82).

Popper aponta algumas conclusões:

(1) A indução – isto é, a inferência baseada em grande número de observações


– é um mito: não é um fato psicológico, um fato da vida corrente ou um
procedimento científico.

(2) O método real da ciência emprega conjecturas e salta para conclusões


genéricas, às vezes depois de uma única observação (conforme o
demonstram David Hume e Max Born).

(2) A observação e a experimentação repetidas funcionam na ciência como


testes de nossas conjecturas ou hipóteses – isto é, como tentativas de
refutação.

(3) A crença errônea na indução é fortalecida pela necessidade de termos


um critério de demarcação que – conforme aceito tradicionalmente, e
equivocadamente – só o método indutivo poderia fornecer.

(5) A concepção de tal método indutivo, como critério de verificabilidade,


implica uma demarcação defeituosa.

(6) Se afirmarmos que a indução nos leva a teorias prováveis (e não certas)
nada do que precede se altera fundamentalmente. (2003, p. 83).

121
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

UNI

MAX BORN nasceu na Alemanha a 11 de


dezembro de 1882. Foi um físico alemão naturalizado britânico.
Ganhou o Prêmio Nobel da Física, em 1954, devido ao seu
trabalho sobre a Teoria Quântica (conjuntamente com Walter
Bothe).
Inicialmente educado no König-Wilhelm-Gymnasium, Born
prosseguiu os seus estudos superiores na Universidade de
Breslau e depois nas Universidades de Heidelberg e Zurique.
Durante este período ele conheceu cientistas e matemáticos
proeminentes, como Klein, Hilbert, Minkowski, Runge,
Schwarzschild e Voigt.
Em 1909 foi nomeado professor na Universidade de Göttingen,
onde trabalhou até 1912, altura em que foi para a Universidade Prêmio Nobel da Física em
1954
de Chicago.
Em 1919, após um período no exército alemão, tornou-se
professor na Universidade de Frankfurt am Main e, em 1921, foi novamente professor em
Göttingen.
Durante este período, formulou a, hoje aceite, interpretação da densidade da probabilidade
para ψ*ψ na equação de Schrödinger da mecânica quântica, pela qual recebeu o Prêmio
Nobel de Física, de 1954, três décadas mais tarde.
Em 1933 (ano em que Hitler assumiu o poder), deixou a Alemanha para escapar ao
antissemitismo. Foi então ensinar na Universidade de Cambridge até 1936, e posteriormente,
na Universidade de Edimburgo.
Em 1954 regressou à Alemanha.
Albert Einstein era um amigo de Born e foi numa carta escrita a Born, em 1926, que Einstein
formulou, referindo-se à mecânica quântica, a famosa frase: “Deus não joga dados com o
universo”.
FONTE: Disponível em: <http://www.explicatorium.com/Max-Born.php>. Acesso em: 9 mar.
2010.

Nona operação: Origem do problema lógico da indução

Popper expõe o problema lógico da indução e diz que

[...] o problema lógico da indução se origina: (a) na descoberta de Hume


de que é impossível justificar uma lei pela observação ou por meio de
experiências, uma vez que ela transcende sempre a experiência; (b) no
fato de que a ciência enuncia e usa leis todo o tempo. Acrescentaríamos
também o princípio do empirismo, (c) o fato de que na ciência só a
observação e a experiência podem decidir a respeito da aceitação ou
rejeição das afirmativas, inclusive das leis e teorias.
Hume demonstrou que não é possível inferir uma teoria de afirmativas
derivadas da observação; mas isso não afeta a possibilidade de refutar
uma teoria por meio de afirmativas desse tipo. (2003, p. 84).

122
TÓPICO 2 | NATUREZA, ESTRATÉGIAS, PARTICULARIDADES E IMPLICAÇÕES DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

Décima operação: Como saltamos de uma afirmativa derivada da


observação para uma teoria?

Popper (2003) busca responder como “SALTAMOS” de uma afirmativa


derivada da observação para uma teoria?”. Ele diz (2003, p. 85, grifo nosso)
que “Wittgenstein e seus discípulos sustentavam que não existem problemas
filosóficos genuínos; de onde se conclui que eles não podem ser solucionados”.
E que “Uma indagação que se pode fazer é a seguinte: como “saltamos” de uma
afirmativa derivada da observação para uma teoria?”.

UNI

LUDWIG JOSEPH JOHANN WITTGENSTEIN


(26 de abril de 1889 – 29 de abril de 1951)

Foi um filósofo austríaco que contribuiu com numerosas colocações


inovadoras na filosofia moderna, mais especificamente nos campos
da lógica, filosofia da linguagem e filosofia da mente. Ele é largamente
considerado um dos mais influentes filósofos do século XX.

FONTE: Disponível em: <www.olharvirtual.ufrj.br/2006/index.php?id_


edicao...>. Acesso em: 24 fev. 2010.
Ludwig Wittgenstein
dedicou-se à alta
filosofia e ao trabalho
humilde.

Segundo Popper:

Há outras perguntas que são também propostas. Já se disse que o


problema original da indução é o da sua justificação – como justificar a evidência
indutiva. Se respondermos alegando que a chamada “inferência indutiva” é
sempre inválida – que, portanto, não pode ser justificada – surge imediatamente
um novo problema: como justificar o método das tentativas. A resposta será:
esse método elimina as teorias falsas por meio de afirmativas derivadas da
observação; sua justificação é a relação puramente lógica da dedutibilidade que
nos permite afirmar a falsidade de assertivas universais se aceitamos a verdade
de afirmativas singulares.

Outra pergunta que também se ouve é a seguinte: por que razão é


razoável preferir afirmativas que não foram refutadas a outras que puderam
ser refutadas? Tem havido respostas bastante peculiares a essa pergunta –
por exemplo, respostas pragmáticas. Do ponto de vista pragmático, porém, o
problema não existe, já que as teorias falsas muitas vezes são eficazes; assim,
por exemplo, muitas das fórmulas usadas em engenharia e em navegação

123
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

são reconhecidamente falsas, mas, como oferecem excelentes aproximações e


são fáceis de usar, são empregadas com toda confiança por pessoas que não
ignoram sua falsidade. (POPPER, 2003, p. 86).

Popper (2003, p. 86) cita que “a única resposta correta, portanto, é a mais
direta: porque estamos sempre buscando a verdade (embora nunca possamos
ter a certeza de havê-la encontrado) e porque a falsidade das teorias refutadas
é conhecida ou aceita, enquanto as teorias ainda não refutadas podem ser
verdadeiras”.

Popper (2003, p. 87) finaliza dizendo que

Na verdade, deveríamos dividir o problema em três partes – o


conhecido problema da demarcação (como distinguir a ciência da
mágica primitiva); o problema da racionalidade do procedimento
crítico ou científico (e o papel exercido pela observação); finalmente,
o problema da racionalidade da nossa aceitação das teorias, para fins
práticos e científicos. Tivemos a ocasião de propor soluções aqui para
esses três problemas.

E qual a ABORDAGEM ALTERNATIVA DO CONHECIMENTO?

Agora ressaltaremos uma visão abrangente referente a outras formas


alternativas de conceber a cientificidade do trabalho acadêmico. Para isto
subdividiremos a tarefa em duas etapas: primeiramente abordaremos as
revoluções científicas, de Thomas Kuhn, na sequência mostraremos o que são
a ANT (Actor Network Theory: o ator-rede) e as controvérsias científicas sob o
enfoque de Bruno Latour.

Portanto, o quem tem THOMAS KUHN para nos dizer com relação às
REVOLUÇÕES CIENTÍFICAS?

Thomas Kuhn (2003), em sua obra “As estruturas das revoluções


científicas”, aborda as dificuldades que geram o conceito de PARADIGMA,
a aplicação do conceito de paradigma (denota a questão da cientificidade)
e pretende dar respostas às principais objeções levantadas pelo conceito de
paradigma. Para isto traz como problemática “as críticas ao livro”, no qual as
estruturas das revoluções científicas se devem a dificuldades de interpretação do
próprio conceito de paradigma.

124
TÓPICO 2 | NATUREZA, ESTRATÉGIAS, PARTICULARIDADES E IMPLICAÇÕES DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

UNI

THOMAS SAMUEL KUHN


(Cincinnati, 18 de julho 1922 - Cambridge, 17 de junho 1996)
Foi um físico dos Estados Unidos da América cujo trabalho
incidiu sobre história e filosofia da ciência, tornando-se
um marco importante no estudo do processo que leva ao
desenvolvimento científico.
Kuhn nasceu a 18 de Julho de 1922, em Cincinnati, em
Ohio, EUA. Formou-se em Física (summa cum laude) em
1943, pela Universidade de Harvard. Recebeu desta mesma
instituição o grau de Mestre em 1946 e o grau de Doutor em
1949, ambos na área de Física.

Após ter concluído o Doutoramento, Kuhn tornou-se


professor em Harvard. Leccionou uma disciplina de Ciências
para alunos de Ciências Humanas. A estrutura desta disciplina
baseava-se nos casos mais famosos da História da Ciência, pelo que Kuhn foi obrigado a
familiarizar-se com este tema. Este fato foi determinante para o desenvolvimento da sua obra.
Em 1956 Kuhn foi lecionar História da Ciência na Universidade da Califórnia, em Berkeley.
Tornou-se professor efetivo desta instituição em 1961. Em 1964 tomou a posição do Professor
M. Taylor Pyne, de Filosofia e História das Ciências, na Universidade de Princeton. Em 1971
Kuhn foi leccionar para o MIT, onde permaneceu até terminar a sua carreira acadêmica.
Kuhn morreu a 17 de junho de 1996, vítima de cancro.
FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Thomas_Kuhn>. Acesso em: 9 mar.
2010.

Kuhn (2003) demonstra seus argumentos através dos seguintes capítulos:

No prefácio de seu livro, Kuhn (2003) nos apresenta sua problemática e o


sentido do uso do termo paradigma, que são vários: (1º sentido) – crenças, valores
e técnicas; (2º sentido) – as soluções concretas dos problemas.

No capítulo dos paradigmas e a estrutura da comunidade, Kuhn nos traz


a definição de PARADIGMA: “um paradigma é aquilo que os membros de uma
comunidade partilham e, inversamente, uma comunidade científica consiste em
homens que partilham um paradigma”. (KUHN, 2003, p. 219).

Além de abordar dois temas da estrutura comunitária, que são: (1) “a


transição do período pré-paradigmático para o pós-paradigmático durante o
desenvolvimento de um campo científico; (2) a identificação biunívoca entre as
comunidades científicas e os objetos de estudo científicos”. (KUHN, 2003, p. 222-
223).

No capítulo dos paradigmas com a constelação dos compromissos de


grupo, Kuhn nos apresenta os dois usos do termo paradigma: (1) “o emprego
mais global; (2) e os problemas dos exemplos compartilhados” (KUHN, 2003,

125
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

p. 226), além de apresentar os componentes da matriz disciplinar, que são: (1)


generalizações simbólicas; (2) paradigmas metafísicos; (3) valores compartilhados;
e (4) as predições (antecipar o que vai acontecer).

No capítulo dos paradigmas como exemplos compartilhados, Kuhn


(2003) nos mostra como resolver os problemas, em que os paradigmas são algo
compartilhado pelos membros de comunidades.

Afirma Kuhn (2003) que o paradigma, enquanto exemplo compartilhado,


é um elemento central daquilo que atualmente parece ser o aspecto mais novo e
menos compreendido. Fazendo é que compartilhamos situações, informações ou
educações semelhantes, as quais levariam a uma certa uniformidade de sensações
apreendidas em determinado grupo ou comunidade.

No capítulo do conhecimento tácito e intuição Thomas Kuhn (2003)


nos mostra dois pontos essenciais a compreender: (1) as instituições não são
individuais e, sim, compartilhadas; (2) e são passíveis de análise.

No capítulo referente aos exemplares, incomensurabilidade e revoluções


ele nos mostra que a incomensurabilidade das teorias é justamente os saltos ou
rupturas que ocorrem na ciência (aquilo que não podemos medir).

No capítulo referente às revoluções e relativismo, ele coloca-nos que o


reconhecimento dos paradigmas de outras comunidades, ou seja, “reconhecer
estes paradigmas paralelos, sugere, em certo sentido, que ambos os grupos
podem estar certos. Esta posição é relativista, quando aplicada à cultura e seu
desenvolvimento”. (KUHN, 2003, p. 251).

E, por fim, no capítulo referente à natureza da Ciência, Kuhn retrata a


ciência normal como uma atividade de resolução de problemas, governada pelas
regras de um paradigma. A ciência normal implica tentativas detalhadas de
articular um paradigma com o objetivo de melhorar a correspondência entre ele
e a natureza.

NOTA

Caro(a) acadêmico(a), para aprofundar os seus conteúdos sobre as REVOLUÇÕES


CIENTÍFICAS de Thomas Kuhn, sugerimos a leitura das páginas 217 a 257 do livro “As
estruturas das revoluções científicas”.
Referência: KUHN, Thomas. As estruturas das revoluções científicas. 7. ed. São Paulo:
Perspectiva, 2003, p. 217-257.

126
TÓPICO 2 | NATUREZA, ESTRATÉGIAS, PARTICULARIDADES E IMPLICAÇÕES DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

E, o que BRUNO LATOUR tem a nos dizer sobre a ANT (Actor Network
Theory: o ator-rede) E AS CONTROVÉRSIAS CIENTÍFICAS?

Latour (2001) trata do tema “A CIÊNCIA EM CONSTRUÇÃO”, que


pode ser definida como pesquisa científica, pretendendo realizar uma crítica da
visão tradicional das operações de descrição da ciência (o caso da epistemologia).

UNI

BRUNO LATOUR (Beaune, 22 de junho de 1947) é


um filósofo francês.
A sua principal contribuição teórica é – ao lado de outros autores
como Michel Callon – o desenvolvimento da ANT – Actor
Network Theory (Teoria ator-rede) que, ao analisar a atividade
científica, considera, enquanto variáveis, tanto os atores humanos
como os não humanos, estes últimos devido à sua vinculação ao
princípio de simetria generalizada.
Conhecido pelos seus livros que descrevem o processo de
pesquisa científica, dentro da perspectiva construtivista, que
privilegia a interação entre o discurso científico e a sociedade, os
de maior destaque são: Jamais Fomos Modernos e Ciência em
Ação.
FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Bruno_Latour>. Acesso em: 10 mar.
2010.

Latour (2001), ao determinar a problemática, afirma que a construção


da ciência se processa tanto ao estudar os fatos científicos em construção (ou as
controvérsias), como o destino das máquinas é fato científico, que está nas mãos
de seus usuários.

Para Latour existe um esquema de análise da ciência, o qual divide em


seis etapas:

Primeira etapa: A MICROANÁLISE DA CIÊNCIA:

Ressalta que a microanálise da ciência deve descrever a ciência como ela


acontece na realidade, além de estudar a ciência atual. A microanálise da ciência
utiliza-se do MÉTODO ETNOGRÁFICO, que realiza a descrição das práticas
científicas de forma independente do que os cientistas pensam da ciência, ou seja,
como de fato ela é na realidade.

Segunda etapa: A ANÁLISE SISTÊMICA:

Para Latour devemos analisar sistematicamente o que se faz para que


algumas teorias sejam aceitas e outras rejeitadas. Por que um cientista acerta e

127
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

outros se enganam? Através do pensamento de Bruno Latour, podemos dizer que


devemos tratar da mesma forma os termos “acerto e erro”, “verdadeiro e falso”,
pois eles possuem o mesmo valor.

Terceira etapa: IMPLICAÇÕES:

Segundo Bruno Latour, existem algumas implicações na construção


da ciência, ou seja, há a quebra do privilégio epistemológico da ciência; existe
um rompimento com o universo místico que norteia a ciência; e, para finalizar,
devemos entender como a ordem científica é estabelecida a partir do caos da
realidade.

Quarta etapa: ANT – ACTOR NETWORK THEORY:

Latour descreve a teoria ator-rede (ANT) em quatro momentos:

a) a problematização, na qual a ciência procura definir o objeto;

b) o interessamento, em que a criação de um sistema de alianças em


formato de estruturas específicas que interrompam estratégias concorrentes;

c) o envolvimento, no qual existe um mecanismo por meio do qual um


papel é definido e atribuído a um ator que o aceite;

d) a mobilização, na qual os atores são associados uns aos outros por meio
de seus porta-vozes.

Quinta etapa: COMO LATOUR PENSA A CIÊNCIA:

Latour descreve os cientistas como estrategistas, negociadores,


calculadores, mobilizadores de recursos em permanente competição. Os cientistas
observam apenas a tradição disciplinar em que estão inseridos e os recursos
utilizados devem ser reconhecidos por todos. A formação do conhecimento se dá
através de dados reais e concretos, sem esquecer que a ciência também é política.

Sexta etapa: PROGRESSO DA CIÊNCIA:

A disputa entre ciência, laboratório e instituições se dá na fronteira do


conhecimento, que é muito semelhante à esfera política e ao mercado. Quanto
melhor o estrategista e o cientista, melhor será a sua ciência.

128
TÓPICO 2 | NATUREZA, ESTRATÉGIAS, PARTICULARIDADES E IMPLICAÇÕES DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

NOTA

Caro(a) acadêmico(a), para aprofundar os seus conteúdos


sobre a A CIÊNCIA EM AÇÃO, de Bruno Latour, sugerimos a leitura das
páginas 39 a 104 do seguinte livro:
Referência: LATOUR, Bruno. Literatura. In: LATOUR, Bruno. A ciência em
ação. São Paulo: Editora UNESP, 2001, p. 39-104.

E, para FINALIZAR esta discussão referente à problemática do


CONHECIMENTO CIENTÍFICO E NÃO CIENTÍFICO, podemos concluir que:

Com relação à ABORDAGEM TRADICIONAL DO CONHECIMENTO,


através do positivismo lógico (e o princípio da verificação) e o racionalismo
crítico (e o princípio de refutação), podemos dizer que ambas as abordagens do
conhecimento têm em comum em que o desempate de um argumento só se dá
através da realidade dos fatos. E que a realidade é independente das concepções
do analista, do pesquisador, pois a realidade é neutra, independentemente do
que achamos dela.

A solução encontrada pelo positivismo lógico foi introduzir o princípio


da verificação, pois o científico pode ser verificado, e no racionalismo crítico este
princípio foi substituído pelo princípio da falsificação, no qual o fato científico
pode ser refutado.

Quanto a outras formas alternativas de conceber a cientificidade do


trabalho acadêmico, temos as revoluções científicas de Thomas Kuhn. Para Kuhn,
o que determina a realidade é o mapa mental que temos (nossos paradigmas), ou
seja, a ciência é a possibilidade de formular questões e dar respostas a elas, além
de este desenvolvimento ser uma questão histórica e social.

Acerca das considerações sobre as controvérsias científicas, Bruno Latour


se baseia em três princípios para a construção da ciência, ou seja, o primeiro se
refere ao agnosticismo em relação às ciências sociais, não só da natureza como
também da sociedade. Outro princípio trata da simetria generalizada, que afirma
que não devemos partir de qualquer noção do que é natureza e o social. Devemos,
sim, partir da elaboração. Para finalizar, Latour cita que o terceiro princípio para
a construção da ciência é a livre associação.

129
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

Portanto, pode-se dizer que um conhecimento é científico, ou não, através


do modelo de interpretação que empregarmos.

Com relação à RACIONALIDADE INSTRUMENTAL, vemos que “apesar


de a racionalização ter começado com as ciências, foi somente com os protestantes
que ela adquiriu valor e significado. Foi graças à ÉTICA PROTESTANTE que
a racionalidade tornou-se universal, impulsionando o capitalismo.   Com os
protestantes o capitalismo ganhou consistência, assumiu formas e direções. Foi
com o protestantismo que surgiu a organização capitalista assentada no trabalho
livre. (SOUZA, 2009, p. 2, grifo nosso). 

Souza (2009, p. 2) diz que Horkheimer  define mais amplamente o


conceito  racionalidade instrumental, em seu livro “Eclipse da Razão”, publicado
em 1955. Ele distingue duas formas de razão: a razão subjetiva (interior) e razão
objetiva (exterior).      

Mas, o que é a RAZÃO SUBJETIVA?

De acordo com Horkheimer (apud SOUZA, 2009, p. 2),  “a razão subjetiva


(instrumental) é a faculdade que torna possíveis as nossas ações. É a faculdade
de classificação, inferência e dedução, ou seja, é a faculdade que possibilita o
“funcionamento abstrato do mecanismo de pensamento”.  Essa razão se relaciona
com os meios e fins. Ela é neutra, formal, abstrata e lógico-matemática.

E a RAZÃO OBJETIVA, o que significa?   

“A razão objetiva se revela como a capacidade de calcular probabilidades


e desse modo coordenar os meios corretos com um fim determinado”.
(HORKHEIMER apud SOUZA, 2009, p. 2).

   Por sua vez, a RAZÃO OBJETIVA  (logos) é

[...] conhecida desde a época clássica da história da Grécia, era


considerada o principal conceito da filosofia.  A razão não é somente
uma faculdade mental, mas é também do mundo objetivo. Existe
uma ordem, uma harmonia por trás do mundo, uma racionalidade
objetiva.  A razão se manifesta nas relações entre os seres humanos,
na organização da sociedade, em suas instituições, na natureza e no
cosmo. As teorias de Platão, Aristóteles, o escolasticismo e o idealismo
alemão se fundamentam sobre uma teoria objetiva da razão. (SOUZA,
2009, p. 2).  

ATENCAO

Durante a evolução do conhecimento, segundo Souza (2009, p. 3),  “a faculdade


subjetiva do pensar foi tomando o lugar da razão objetiva.”

130
TÓPICO 2 | NATUREZA, ESTRATÉGIAS, PARTICULARIDADES E IMPLICAÇÕES DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

A FACULDADE SUBJETIVA de pensar, segundo Souza (2009, p. 3),  


“foi o instrumento crítico que dissolveu os conceitos da mitologia e da filosofia
(razão objetiva) como mera superstição”, pois “a luta da razão subjetiva contra
a mitologia e a filosofia, ao denunciá-las como falsa objetividade, teve que usar
conceitos que reconheceu como válidos, como a lógica formal e a matemática”.
(SOUZA, 2009, p. 3). Ou seja, “o resultado disso foi que nenhuma realidade
particular pode ser vista como racional. A razão na busca de uma objetividade
cada vez maior se formalizou. Em sua formalização a razão foi transformando o
pensamento em um simples instrumento.” (SOUZA, 2009, p. 3).         
 
Souza complementa expondo que:

O livro “Dialética do Esclarecimento”, publicado em 1947, escrito a


quatro mãos por Adorno e Horkheimer, também nos mostra  como a razão
emancipatória objetiva se converteu em razão instrumental subjetiva. O objetivo
deste livro foi o de investigar a autodestruição da razão. Por que a humanidade
através do progresso técnico e científico não alcançou sua maioridade e, sim,
sucumbiu a um estado de barbárie?  Sua tese principal nos revela o lado oculto
do esclarecimento, sua história subterrânea. Para Adorno e Horkheimer a razão
não atingiu seu fim, pois a razão é, em sua própria essência, um mito: “O mito
é esclarecimento, e o esclarecimento acaba por converter-se em mito”.  Esses
pensadores analisaram o conceito de razão em seu desdobramento dialético,
que em sua evolução buscava se emancipar da mitologia e da metafísica,
conduzindo à sua autonomia e à sua autodeterminação. Contudo, essa razão
onipotente, dominadora da natureza, emancipatória,  que buscava submeter a
natureza e a sociedade à objetividade da razão não atingiu seu fim. A razão se
transformou em mera abstração, mero instrumento formal. 

Razão significa triunfo da máquina, do trabalho, da natureza útil e


grátis, razão mistificada que se realiza  como razão instrumental,  pela qual a
natureza, o útil-grátis, é espoliada pela máquina e pelo trabalho. Mistificada
porque é o lado abstrato da regularidade, da disciplina  do trabalho legitimador
dessa prática de pilhagem – prática do trabalho para o capital, da exploração
dos homens para o capital. (MATOS apud SOUZA, 2009, p. 3).

ATENCAO

A grande CONSEQUÊNCIA da racionalidade instrumental foi a perda da


autonomia do indivíduo. (SOUZA, 2009, p. 3, grifo nosso).         

131
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

Nós vivemos na eterna


CONTRADIÇÃO
entre
PRODUTIVIDADE E DESTRUIÇÃO,
DOMINAÇÃO E PROGRESSO,
PRAZER E INFELICIDADE.
Não houve a síntese libertadora de
uma sociedade livre e feliz.
(SOUZA, 2009, p. 3).

FONTE: Disponível em: FONTE: Disponível em:


<www.dreamsinmoon. <WWW.meme.yahoo.
blogspot.com>. Acesso em: com>. Acesso em: 24
24 mar. 2010. mar. 2010.

LEITURA COMPLEMENTAR

DETERMINAÇÕES LÓGICAS E ONTOLÓGICAS


DA CATEGORIA “RACIONALIDADE”
Yolanda Guerra

Como uma das categorias intelectivas priorizadas neste estudo, temos a


RACIONALIDADE – do latim rationalitatis – significando a qualidade do que é
racional.

No sentido filosófico RACIONAL é “aquilo que pertence à razão ou é


derivado dela”. (JAPIASSU; MARCONDES, 1991, p. 208).

De outra parte, pode ser designado como “aquilo que está de acordo com
a razão” (idem, ibidem), e aqui a referência à realidade torna-se secundária.

RACIONALIDADE é, ainda, a “característica daquilo que é racional”, e


considerando que racional é “o que se deduz da razão”, encontramo-nos diante
de uma tautologia.

Deste modo, entendemos que a busca pela significação da palavra


“RACIONALIDADE” acaba por limitá-la à sua definição lógico-formal e
consensual, não nos permitindo saltar das abstrações mais simples e gerais que,
de outro modo, a apreensão das suas determinações ontológicas nos possibilita.

Captar as determinações lógicas e ontológicas da categoria


“RACIONALIDADE” implica não apenas estabelecer o confronto entre os
conteúdos e significados que adquire na história, como sua vinculação ideológica,

132
TÓPICO 2 | NATUREZA, ESTRATÉGIAS, PARTICULARIDADES E IMPLICAÇÕES DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL

uma vez que não há palavras vazias de conteúdo, tampouco isentas de um


significado ideológico e, sobretudo,

Não há ideologia inocente [...] porque a razão mesma não é nem


pode ser algo que brota acima do desenvolvimento social, algo
neutro ou imparcial, senão que reflete sempre o caráter racional
(ou irracional) concreto de uma situação social, de uma tendência
do desenvolvimento, dando-lhe claridade conceitual e, portanto,
impulsionando-a e entorpecendo-a. (LUKÁCS, 1968b, p. 5).

Adotando uma determinada maneira de conhecer a razão, vemos que ela


é por si só determinante, não da realidade, mas de uma forma de apreensão e
compreensão do real.

É a via que (re)estabelece a unidade entre o sujeito que conhece e o objeto


a ser conhecido. Esta concepção supõe uma unidade entre sujeito/objeto, que
não se confunde com identidade, uma vez que a realidade é sempre mais rica
de determinações que a capacidade do sujeito de apanhá-las. Mas este, dadas
as possibilidades da razão, é capaz de (re)figurar, pela via do pensamento, a
processualidade da realidade.

A RAZÃO é o que dá inteligibilidade aos fatos e estes constituem-


se nos seus fundamentos, ao mesmo tempo em que os fatos são constituídos,
constitutivos e constituintes de relações racionais que obedecem aos princípios
de causalidade e contradição.

O procedimento da razão é o “vir a ser”. Ela é uma condição ou momento


do pensamento que busca apreender a realidade como movimento e por isso
tem que caminhar de abstrações mais simples, dadas pelo intelecto, no sentido
de determiná-las por meio das mediações que vinculam os fatos a determinados
processos, saturados de determinações. Atinge seu ápice ao encontrar o substrato
material, que é a realidade.

O conhecimento pela via da razão opõe-se ao conhecimento imediato;


pressupõe a síntese de elementos contraditórios, numa relação de continuidade
e rupturas, mas que mantém um núcleo imanente, sua essência ou substância.

A razão porta em seu interior não apenas as possibilidades de apreender


as condições objetivamente dadas, como de estabelecer relações, (re)conhecer,
(re)construir.

A razão, entendida de forma “INCLUSIVA”, incorpora tanto os elementos


do senso comum, necessários às ações cotidianas, como aqueles fornecidos pelos
procedimentos que o intelecto realiza, superando-o. Ela apanha as conexões
causais da realidade na própria PRÁXIS que, ao engendrar novas conexões na
realidade, permite a (re)figuração da realidade pelo pensamento. É na ação que a
razão encontra sua orientação e o seu caminho. (cf. LUKÁCS, 1989, p. 35).

133
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

A “racionalidade”, ENQUANTO UMA PROPRIEDADE DA RAZÃO,


vincula-se às formas de concebê-la; por isso, tem na razão o seu fundamento de
determinação, que é expressão da própria realidade. A racionalidade dada pela
razão dialética é síntese de procedimentos ativos e intelectivos e torna-se um adjetivo
da razão que desaliena, desmistifica, nega o dado na sua aparência e é capaz de
engendrar ações que ultrapassem a dimensão manipulatória e instrumental.

Enquanto CATEGORIA INTELECTIVA, a “racionalidade” contempla um


nível de generalidade tal que nos possibilita captar a UNIDADE OBJETIVA dos
processos sociais, remetê-los aos marcos do sistema capitalista, apanhar tanto as
determinações que se matem quanto aquelas que se transformam, as conversões,
condições e possibilidades contidas nos processos sociais. Mais ainda, por ser
uma categoria ontológica, a racionalidade incorpora o nosso objeto de estudo – a
instrumentalidade da intervenção profissional do assistente social –, é construída
no seu movimento, medeia-o, articula-se a ele, expressa sua lógica de constituição.

As concepções referentes à razão, e com ela seus atributos, vêm recebendo


distintivos tratamentos no decorrer da trajetória histórica da humanidade, pelas
diferentes correntes do pensamento filosófico. A essas concepções vinculam-
se diferentes modos de inteligir a relação sujeito/objeto no processo do
conhecimento, bem como diversas formas de conceber história e liberdade. Assim,
vemos que a filosofia não se aliena dos problemas concernentes ao progresso, ao
desenvolvimento das forças produtivas, ao desenvolvimento social e à luta de
classes. (cf. LUKÁCS, 1968, p. 3).

Urge, pois, situar no contexto sociopolítico e cultural, em que surgem as duas


pilastras que sustentam o pensamento filosófico da modernidade: o sistema ético-
filosófico kantiano e a filosofia especulativa de Hegel. Nossa escolha se fundamenta
em duas ordens de razões. A primeira, para torná-las como representativas das
polêmicas sobre as condições de possibilidades da razão antropocêntrica que
se estabelece entre racionalistas e empiristas e dos esforços epistemológicos e
ontológicos atribuídos à temática. A segunda, por representarem a oposição mais
significativa no combate ao pensamento formalizador das vertentes positivistas.

FONTE: Guerra, 2009, p. 42-45

DICAS

Para aprofundamento destes temas, sugiro que você leia o Tópico 2 “Matrizes
fundantes das concepções da razão moderna – continuidades e rupturas” (p. 45-
54) e o tópico “O racionalismo no século XX” (p. 54-100), além de toda a Unidade II –
“Racionalidade do Capitalismo e Serviço Social ” (p. 101 a 184), do livro: GUERRA, Yolanda.
A instrumentalidade do Serviço Social . 7. ed. São Paulo: Cortez, 2009.

134
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico estudamos a competência relacional e a racionalidade
enquanto razão dialética na aplicabilidade do instrumental técnico-operativo
do serviço social , no qual foram abordados os seguintes itens:

• Como se processa a competência relacional do assistente social no seu cotidiano


profissional.

• O assistente social deve ter uma gama de habilidades e competências


profissionais, para assim desenvolver sua prática profissional com objetividade,
eficácia e eficiência.

• Acompetência relacional é o eixo gerador de todo o processo de trabalho do


assistente social.

• As diversas concepções históricas da racionalização da prática da assistência


social, ou seja, as diversas concepções referentes à prática profissional do
assistente social.

• Como se processa a racionalidade instrumental.

• Apriori, a racionalidade significa tornar reflexivo, empregar o raciocínio para


resolver problemas.

• Estudamos que a racionalidade é uma operação mental complexa que consiste


em estabelecer relações entre elementos e dados.

• Osignificado de “racionalidade” é associado à nossa capacidade de discernir


propriedades, estabelecer relações e construir argumentos para apresentar e
defender nossas crenças.

• Aracionalidade instrumental é a faculdade subjetiva do pensar, que é a razão,


ou seja, é a faculdade que julga, discerne, compara, relaciona, calcula, ordena e
coordena os meios com os fins. Esta faculdade tornou-se, em sua  evolução, um
instrumento formal.

• MaxWeber entende a racionalização como uma “regularização da ação


humana” na busca de certos fins específicos.

• Fizemos uma revisão teórica sobre a problemática do conhecimento científico e


não científico.

• A racionalidade instrumental só ganhou valor e significação com os protestantes.

• Foigraças à ética protestante que a racionalidade tornou-se universal,


impulsionando o capitalismo.  

• A razão pode ser subjetiva (interior) ou objetiva (exterior).

• A grande consequência da racionalidade instrumental foi a perda da autonomia


do indivíduo.
135
AUTOATIVIDADE

1 Pesquise a diferença entre racionalidade e razão.

2 Como você correlaciona a competência relacional do assistente social em sua


prática profissional?

3 Quais as diferenças entre o conhecimento científico e o não científico?

4 Como você vê a racionalidade instrumental em sua profissão?

136
UNIDADE 2
TÓPICO 3

IMPASSES DA PROFISSÃO NA APLICABILIDADE DOS


INSTRUMENTOS
“Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento.
Mas ninguém chama de violentas as margens que o
comprimem.”
Bertolt Brecht

1 INTRODUÇÃO
A trajetória do serviço social no Brasil já é um fator conhecido por nós,
pois, como vimos anteriormente, a profissão nasce dentro das normas da Igreja
Católica, cresce subordinada às obrigações do Estado. A partir das décadas de
70 e 80 começa a refletir sobre as suas práticas, procurando bibliografias para
embasar sua intervenção.

A primeira reflexão necessária para o profissional eram as questões que


envolvem o trabalho, não só como forma de sustento da família, mas também
como a alienação do trabalhador diante do valor de seu trabalho e o valor da
mercadoria.

Muitos trabalhadores pensam que esta alienação não existe, porém,


quando passamos a refletir sobre estas questões, vimos que esta é uma etapa para
a reprodução do capital, pois quanto menos o trabalhador pensa ou sabe, menos
o trabalhador exige.

Neste contexto passamos de forma breve sobre alguns pontos necessários


para começar o processo de reflexão, pois repensar o capital, o trabalho, a
mercadoria, a alienação do trabalhador não é uma tarefa fácil.

2 O PROCESSO DE PRODUÇÃO E REPRODUÇÃO


SOCIAL
Você sabe o que é o capital?

É a relação social determinante que dá a dinâmica e a inteligibilidade de


todo o processo da vida social. (IAMAMOTO; CARVALHO, 2009, p. 30).

137
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

Capital é um fator de produção que representa o poder ou a capacidade


de ser transformado ou transformar algo de maneira produtiva. Não
representa um produto ou serviço no presente, mas a capacidade
de produzi-lo ao longo do tempo. Seu conceito está ligado com o de
investimento, por existir um custo de oportunidade de seu uso ou não
uso no tempo. O capital é um estoque que pode ser convertido em
fluxo de riquezas. (WIKIPEDIA, 2010, p. 1).

O que faz o capital para a sociedade capitalista?

Na sociedade capitalista é o CAPITAL que determina a relação social de


produção, nos mostram Iamamoto e Carvalho (2009), pois corresponde a todo
processo histórico de um determinado lugar.

Os meios de produção são construídos e produzidos através do capital,


que é identificado pela forma material, assim os meios de produção e de vida,
expressos no dinheiro, mostram e mascaram as divergências entre as classes
sociais diferentes.

[...] após sua transformação nos fatores do processo de trabalho – em


meios de produção, capital constante – e em capacidade de trabalho
– em que se converteu o capital variável –, a soma de dinheiro ou
de valor adiantado somente em si, só potencialmente é capital; e o é
somente antes de sua transformação nos fatores do processo real da
produção. Tão somente, dentro do mesmo, graças à incorporação real
do trabalho vivo nas formas objetivas de existência do capital; tão
somente, por força da absorção real  do trabalho adicional é que, não só
esse trabalho se transforma em capital, mas a soma de valor adiantado
se transforma de capital possível, segundo sua determinação, em
capital real e atuante. Neste processo total o operário vendeu a
disponibilidade sobre a sua força de trabalho, para conseguir os meios
necessários de subsistência, por um valor dado, determinado pelo
valor de sua força de trabalho. (MARX, 2010, p. 1).

As mercadorias têm incutidos os valores da quantidade de tempo humano


que levou para serem construídas. Assim, toda mercadoria tem seu valor atribuído
a um valor de uso, um valor de troca e um valor social, porém esta relação social
está mascarada atrás dos outros dois valores.

NOTA

Podemos então falar da mais-valia, que é o valor excedente que a mercadoria


recebe ao final da produção, isto é, o valor a mais que é agregado ao produto, assim o valor
de troca tem um valor muito maior que o de uso, ou, na sua grande maioria, o valor de uso
nem existe. (IAMAMOTO; CARVALHO, 2009).

138
TÓPICO 3 | IMPASSES DA PROFISSÃO NA APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS

Quem vende a força de trabalho?

Assim, para a pessoa sobreviver, é obrigada a vender sua força de trabalho,


pois “o capital supõe o trabalho assalariado e este, o capital”, colocam Iamamoto
e Carvalho (2009, p. 36), e desta forma produz e reproduz o capital:

[...] ao trabalhador, como propriedade alheia monopolizada por


uma parte da sociedade – a classe capitalista – não lhe resta outra
alternativa, senão vender parte de si mesmo em troca equivalente aos
meios necessários para sua subsistência e de sua família, expressos
através da forma do salário. A condição histórica para o surgimento
do capital e o pressuposto essencial para a transformação do dinheiro
em capital é a existência no mercado da força de trabalho como
mercadoria. (IAMAMOTO; CARVALHO, 2009, p. 39).

Muito bem colocado por Iamamoto e Carvalho(2010) em seu resumo


sobre Relações Sociais e serviço social no Brasil: Esboço de uma interpretação
histórico-metodológica.

Tendo o trabalho como potência que só se exterioriza em contato com


os meios de produção, só sendo consumido, ele cria valor. O consumo
dessa força de trabalho pertence ao capitalista, do mesmo modo que
lhe pertencem os meios de produção. Onde o trabalhador sai do
processo de produção da mesma maneira como entrou, como mera
força de trabalho, como fonte pessoal de riqueza para outros e assim
se verifica que até os seus meios de vida estão monopolizados também
pela classe capitalista, onde os trabalhadores entregam diariamente o
valor de uso de sua força de trabalho, gerando na classe trabalhadora
uma antítese consigo mesma, os próprios meios de sua dominação, é a
sua condição de sobrevivência.

Assim o trabalhador sai da atividade produtiva com o desgaste de sua


força de trabalho, o valor de uso de sua força de trabalho. O contrário acontece
com o capital que, ao sair do processo produtivo, se transformou em capital real,
tem um valor que se valoriza a si mesmo.

Neste contexto, o trabalho vivo somente tem um valor mediante sua


necessidade de absorção nos meios de produção, pois é o trabalho vivo que
mantém e aumenta o valor de troca do trabalho acumulado, pontuam Iamamoto
e Carvalho (2009).

NOTA

Trabalho vivo é o trabalho executado pelo trabalhador, assim como o trabalho


morto é executado pelas máquinas, e o trabalho acumulado é a mais-valia.

139
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

O trabalhador produz riqueza?

Podemos dizer então que é o trabalhador que produz a riqueza, pois


o resultado de sua jornada de trabalho são as mercadorias, que não revertem
em riqueza para o trabalhador e, sim, vendidas no mercado, deixam ricos os
proprietários.

O trabalhador no final de sua jornada recebe o salário, que nada mais é do


que o preço da força de trabalho, jamais podendo ser considerado que o salário é
o preço do trabalho, pois este não é uma mercadoria.

O salário é o preço da força de trabalho, em que se traduz o capital


variável do capitalismo. Mas o valor da força do trabalho é diferente do
seu rendimento, quando colocada em ação, torna-se uma magnitude
variável, a força de trabalho em realização é um mesmo processo
de valorização que não só transfere o valor dos meios e produção
ao produto, mas repõe o valor do capital variável e cria novo valor.
(IAMAMOTO; CARVALHO, 2009, p. 48).

Os autores colocam que o salário esconde as desigualdades existentes entre


o tempo usado para executar um serviço e o tempo pago pelo serviço executado,
mostrando que o lucro está em o trabalhador fazer a maior quantidade de serviço
pelo menor preço, ou melhor, no menor tempo, pois é neste momento que aparece
o lucro do proprietário, que fica camuflado nestas relações de tempo e preço.

NOTA

O trabalho não tem um preço, pois não é uma mercadoria, que, de acordo com
Iamamoto e Carvalho (2009), para o trabalho ser uma mercadoria, o trabalhador deveria
mostrá-lo antes de vendê-lo, o que é impossível, pois, assim que se coloca o trabalho em
ação, ele deixa de pertencer ao trabalhador e passa a ser do proprietário.

3 O SERVIÇO SOCIAL NO PROCESSO DE


PRODUÇÃO E REPRODUÇÃO SOCIAL
O que faz o serviço social na reprodução das relações sociais?

Assim, na reprodução das relações sociais está a reprodução da totalidade


do processo social, momento em que o profissional de serviço social configura
seu tipo de especialização, sua prática no conhecimento do trabalho coletivo no
contexto da divisão social do trabalho.

140
TÓPICO 3 | IMPASSES DA PROFISSÃO NA APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS

NOTA

Para entendermos a reprodução das relações sociais comentada por Iamamoto


e Carvalho (2009), temos que ter claro que a reprodução é mais que a questão econômica:
é toda uma reprodução cultural, política, religiosa, educacional.

Podemos dizer, então, que o trabalhador saudável e forte cria e recria


a riqueza através do seu trabalho, porém, quando já não produz o excedente,
devem ser verificadas as condições mínimas para este trabalhador retornar à
produção anterior.

O serviço social nasce e cresce dentro de uma trajetória histórica para


atender as demandas do capital ou do trabalho, nos mostram Iamamoto e Carvalho
(2009); para tanto este profissional tem uma atuação mediadora e interventiva.

Com o desenvolvimento industrial o serviço social cada vez mais se


desenvolvia enquanto profissão, por causa das “novas classes sociais emergentes”,
assim as questões sociais se tornam a justificativa de trabalho para o profissional
de serviço social , pontuam Iamamoto e Carvalho (2009, p. 77).

A questão social é a expressão do processo de formação e


desenvolvimento da classe operária e de seu ingresso no cenário
político da sociedade, exigindo seu reconhecimento como classe por
parte da empresa e do Estado. (IAMAMOTO; CARVALHO, 2009, p.
77).

Aqui cabe relembrar que as questões sociais aparecem no momento em


que o trabalho escravo sai e começa o trabalho denominado livre, assim foram
aparecendo demandas que até então eram inexistentes.

A relação trabalho x capital ficava cada vez mais longe da compreensão,


assim aparecem os movimentos que procuram refletir sobre toda a complexidade
das questões que estavam por detrás da aparência.

Aqueles movimentos refletem e são elementos dinâmicos das


profundas transformações que alteram o perfil da sociedade a partir
da progressiva consolidação de um polo industrial, englobando-se
no conjunto de problemas que se colocam para a sociedade naquela
altura, exigindo profundas modificações na composição de forças
dentro do Estado e no relacionamento deste com as classes sociais.
(IAMAMOTO; CARVALHO, 2009, p. 126).

Diante da complexidade das reflexões e a falta de bibliografias que dessem


suporte à prática, os profissionais de serviço social se dividiram em dois grupos
distintos: os conservadores e os progressistas, conforme Silva (2008).

141
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

O resultado desta divisão foi vários enfrentamentos de profissionais que


defendiam um lado ou outro, sem conseguir mediar os próprios conflitos, porém,
destes enfrentamentos surgiram outras reflexões que lançaram um novo olhar
sobre a sociedade e seus conflitos.

Somente a partir da década de 30, depois da Guerra, que o Estado incorporou


muito timidamente sua responsabilidade diante das questões sociais, na tentativa
de garantir um mínimo à sociedade, assim como a Igreja, a partir de então, passa
somente a cuidar dos males da alma.

Esse direito deverá independentemente da ação do Estado, integrar


os indivíduos dentro de uma ordem comunitária em que capital e
trabalho, consumidor e fornecedor, terão sua apetitividade pautada
através do lucro e salário justos, a fim de atender as necessidades
materiais e espirituais da sociedade. A economia, o livre jogo do
mercado, deve se submeter ao direito para a preservação do bem
comum. (IAMAMOTO; CARVALHO, 2009, p. 272).

O direito do trabalhador foi, na época, o mínimo a ser garantido para


continuar a ter a mão de obra numa reprodução de capital, assim o Estado intervém
contra a escravidão, ou melhor, a forma escrava com que alguns trabalhadores
são tratados, para o mercado continuar no seu processo de lucros.

LEITURA COMPLEMENTAR

TRABALHO E RIQUEZA

Armando Medeiros

Dizia Marx que o trabalho é o pai e a natureza é a mãe de toda a riqueza.


Mas nas sociedades divididas em classes, o trabalho empobrece e brutaliza o
trabalhador e enobrece aquele que menos trabalha ou que não trabalha de forma
nenhuma.

Suponhamos dois senhores de escravos que possuam a mesma quantidade


de escravos, os quais têm jornadas e produtividades de trabalho iguais; os dois
senhores de escravos têm a mesma quantidade de terras e a mesma área cultivada. A
terra de um deles é mais fértil do que a terra do outro. Nestas condições, ao final de
um ano, qual dos senhores terá maior produção? O senhor que tem o solo mais fértil.

Antes que a sociedade se dividisse em classes, ‘tudo’ era de todos e ninguém era
de ninguém.

Com a introdução da agricultura, a produtividade do trabalho aumentou,


havendo a produção de excedente, o que permitiu a divisão do trabalho e,
posteriormente, a troca. Surgiu a família e a propriedade privada. Já nessa fase,
alguns homens passaram a ser propriedade de outros e nem tudo era de todos. Os
142
TÓPICO 3 | IMPASSES DA PROFISSÃO NA APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS

trabalhadores, os instrumentos de produção e os produtos do trabalho pertenciam


aos senhores de escravos. Devido à baixa produtividade do trabalho, quanto mais
escravos tivesse um senhor, mais rico ele seria, tanto porque sua produção seria
maior quanto pelo fato de o escravo ser um bem.

No Feudalismo, o senhor feudal tinha sua propriedade fundiária e a


propriedade comunal. Em troca de segurança, o servo trabalhava para o senhor
feudal. Era a corveia.

No capitalismo, o burguês é dono dos meios de produção, de parte do


tempo de trabalho dos trabalhadores e dos produtos do trabalho. Devido à alta
produtividade do trabalho, em razão da quantidade de trabalho morto acumulado,
isto é, em razão do capital, quanto menos trabalhador um burguês tiver, melhor
para ele e pior para o sistema capitalista como um todo, pois quanto menor o
número de trabalho vivo, menor a taxa de lucro, mas, em compensação, quanto
maior a quantidade de trabalho morto, isto é, quanto maior a composição técnica
do capital, maior a massa de lucro. Assim, os capitalistas preferem investir mais
em capital constante e dispensar trabalhadores, aumentando a produtividade do
trabalho, o que lhes permite fabricar uma mercadoria em menos tempo do que
seus concorrentes e permitindo-lhe vender mais barato do que eles.

As relações burguesas de produção ocultam a exploração do trabalhador,


pelo fato de, na produção burguesa, a divisão do trabalho ser atômica, não
molecular, como nos demais modos de produção pré-capitalistas, onde cada
trabalhador produzia, por exemplo, um par de sapatos completo, do qual era
expropriado. No capitalismo a expropriação do trabalhador não é tão visível,
visto que ele não produz uma mercadoria completa, mas apenas um elemento
da mercadoria. A divisão atômica do trabalho fez aumentar enormemente a
produtividade do trabalho e a produção.

Inicialmente a burguesia tentou justificar sua riqueza afirmando que ela


era produto do seu trabalho. Adam Smith refutou essa ideia:

O lucro ou ganho do capital é absolutamente diverso do salário do


trabalho. A diferença revela-se de duas formas: primeiramente, os
lucros do capital são inteiramente regulados pelo valor dos recursos
empregados, embora o trabalho de vistoria e de direção possa ser
idêntico para diferentes quantias de capital. Ademais, nas grandes
fábricas, todo o trabalho é creditado a algum empregado principal,
cuja remuneração não está relacionada ao capital cuja gestão gerencia.
Apesar de o trabalho do proprietário ficar nesse caso diminuído a
quase nada, ele ainda exige lucros proporcionais ao seu capital.
Por que o capitalista determina essa proporção entre o lucro e o capital?
Ele não teria empenho em dar emprego aos trabalhadores, a não ser que
esperasse da venda de seu trabalho algo mais do que o que é necessário
para reembolsar os recursos por ele antecipados como salários, e não
teria interesse em empregar uma grande soma, de preferência uma
pequena soma, de recursos se o seu lucro não estivesse proporcional
ao volume dos recursos aplicados.
Assim, primeiramente, o capitalista alcança um lucro sobre os salários
e, em seguida, sobre as matérias-primas que ele adianta.
143
UNIDADE 2 | A AÇÃO PROFISSIONAL E O PROCESSO INTERVENTIVO DO ASSISTENTE SOCIAL NO COTIDIANO

Se o trabalho próprio fosse a fonte da riqueza do capitalista, o trabalhador


também seria rico, pois trabalha tanto quanto ou até mais do que o capitalista, isto
quando o capitalista trabalha.

Superada essa discussão, o capitalista tentou justificar sua riqueza


afirmando que ela era fruto do seu sacrifício. Coube a Marx demonstrar que a
burguesia estava agindo como um cão que persegue o próprio rabo.

De acordo com Karl Marx:

[...] a acumulação do capital pressupõe a mais-valia, a mais-valia a


produção capitalista, e esta a existência de grandes quantidades de
capital e de força de trabalho nas mãos dos produtores de mercadorias.
Todo esse movimento tem assim a aparência de um círculo vicioso
do qual só poderemos escapar admitindo uma acumulação primitiva,
anterior à acumulação capitalista (‘previous accumulation’, segundo
Adam Smith), uma acumulação que não decorre do modo capitalista
de produção, mas é o seu ponto de partida.
Essa acumulação primitiva desempenha na economia política um
papel análogo ao do pecado original na teologia. Adão mordeu a maçã
e, por isso, o pecado contaminou a humanidade inteira. ... A lenda
teológica nos conta que o homem foi condenado a comer o pão com o
suor de seu rosto. Mas a lenda econômica nos explica o motivo por que
existem pessoas que escapam a esse mandamento divino. Aconteceu
que uma elite foi acumulando riquezas, e a população vadia ficou
finalmente sem ter outra coisa para vender além da própria pele.
Temos aí o pecado original da economia.

A essa visão idílica, Marx contrapõe “o grande papel desempenhado


na verdadeira história pela conquista, pela escravização, pela rapina e pelo
assassinato, em suma, pela violência”. Diz que “a expropriação do produtor
rural, do camponês, que fica assim privado de suas terras, constitui a base de
todo o processo” na Europa Ocidental. Mas a “marcha lenta do período infantil
do capitalismo não se coadunava com as necessidades do novo mercado mundial
criado pelas grandes descobertas dos fins do século XV”.

Portanto, não foi o suor do rosto da burguesia, mas o suor do rosto alheio
a fonte de sua riqueza primitiva.

Superada essa nova discussão, a burguesia tentou demonstrar que sua


riqueza era oriunda não dos trabalhadores, mas dos consumidores, que a sua
riqueza era originada do comércio, não da produção. Marx puxou-lhes o tapete
alegando e provando que o lucro é extraído na produção e apenas realizado na
circulação de mercadoria.

FONTE: MEDEIROS, Armando. Disponível em: <www.midiaindependente.org/pt/.../445611.


shtml>. Acesso em: 27 mar. 2010.

144
TÓPICO 3 | IMPASSES DA PROFISSÃO NA APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS

DICAS

Para aprofundamento destes temas, sugiro que você leia e assista:


Filme: As irmãs de Magdalene, de Peter Mullian
Conta a história, a partir do relato de quatro mulheres, da brutalidade praticada
em conventos irlandeses por uma ordem religiosa.
Artigo: Notas de reconstrução da história do serviço social na Região Sul I, na
Revista serviço social & Sociedade, n. 95, 2008.
Artigo: serviço social e estratégias, saúde da família: contribuição ao debate,
na Revista serviço social & Sociedade, n. 98, 2009.

145
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico estudamos a relação trabalho e sociedade, e foram
abordados os seguintes itens:

• O capital como determinante da relação social de produção.

• As
mercadorias têm incutidos os valores da quantidade de tempo humano que
levou para serem construídas.

• A emersão do serviço social por causa das novas demandas.

146
AUTOATIVIDADE

1 Diante do que vimos neste tópico, de que forma você descreve o trabalho?

2 Qual era a intenção dos movimentos sociais na época de seu aparecimento?


Existe alguma diferença com os dias atuais?

3 Complete as lacunas da sentença a seguir:

As __________ sociais aparecem no momento em que o trabalho __________


sai e começa o trabalho denominado __________, assim foram aparecendo
__________ que até então eram __________.

I – questões – escravo – livre – demandas – inexistentes.


II – relações – digno – registrado – oportunidades – aparentes.
III – práticas – animal – humano – doenças – mínimas.

a) ( ) A opção correta é a III.


b) ( ) A opção correta é a II.
c) ( ) A opção correta é a I.

147
148
UNIDADE 3

A APLICABILIDADE DOS
INSTRUMENTOS E TÉCNICAS NO
EXERCÍCIO PROFISSIONAL

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

A partir desta unidade você será capaz de:

• compreender a diferença e importância da teoria versus a prática profis-


sional do assistente social;

• entender quais são os métodos e metodologias aplicados na práxis profis-


sional do serviço social;

• identificar a aplicabilidade dos instrumentos e técnicas no exercício profis-


sional do assistente social.

PLANO DE ESTUDOS
A Unidade 3 está dividida em três tópicos e, ao final de cada um deles, você
terá a oportunidade de fixar seus conhecimentos realizando as atividades
propostas.

TÓPICO 1 – TEORIA E PRÁTICA, MÉTODO E METODOLOGIAS

TÓPICO 2 – O MANEJO DO INSTRUMENTAL TÉCNICO-OPERATIVO


DO ASSISTENTE SOCIAL

TÓPICO 3 – OUTRAS CARACTERÍSTICAS INSTRUMENTAIS DA AÇÃO


PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL

149
150
UNIDADE 3
TÓPICO 1

TEORIA E PRÁTICA, MÉTODO E


METODOLOGIAS
“A vida consiste de três fases:
vinte anos para aprender, vinte anos para lutar e vinte anos
para atingir a sabedoria”.
(Provérbio chinês)

1 INTRODUÇÃO
Neste tópico discutiremos a polêmica discussão relativa à teoria versus a
prática profissional, além de abordarmos a questão do método e das metodologias
empregadas pelos assistentes sociais no seu dia a dia da práxis profissional.

2 TEORIA VERSUS PRÁTICA


Iniciaremos esta discussão referente à teoria versus a prática fazendo uma
reflexão sobre a seguinte história:

Certo dia, um discípulo perguntou ao mestre:


“Quanto tempo vou levar para me tornar um sábio?”
O mestre respondeu: “Cerca de dez anos”.
Inconformado, o discípulo insistiu:
“Mas eu vou estudar todos os dias e gastar cada minuto de meu tempo
lendo e pesquisando pergaminhos e escrituras”.
O mestre disse: “Bem, nesse caso você vai levar uns vinte anos”.
(BARROS, 2010).

Esta história, segundo Barros (2010), nos chama a atenção para a


importância de colocarmos os conhecimentos em prática. Para o discípulo,
tudo era uma questão de se aprofundar na teoria, de acumular informações,
de mergulhar nos livros e nos estudos. Nem uma única vez ele mencionou a
prática, o desejo de colocar em ação tudo o que se dispunha a aprender.

151
UNIDADE 3 | A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS NO EXERCÍCIO PROFISSIONAL

ATENCAO

De nada adianta transformar-se em uma enciclopédia ambulante e não ser


capaz de concretizar uma única ideia, de usar seu conhecimento para modificar, para
melhorar a realidade à sua volta. (BARROS, 2010).

Lembre-se: “não existe empreendedor teórico. QUEM SABE, FAZ. E


quem não sabe, aprende fazendo.” (BARROS, 2010, grifo nosso). Ou seja, não
existe assistente social, psicólogo, pedagogo, engenheiro, administrador só com
as bases teóricas, pois é no seu dia a dia que se constitui como tal, é no fazer
profissional técnico-operativo e ético-político, conjuntamente com seu cabedal
teórico-metodológico, que o profissional se especializa e se torna profissional.

Segundo Lima (2010, grifo nosso):

A tradição acadêmica é sustentada por um rígido conjunto de valores


teóricos predefinidos. Esses valores não são explicitamente divulgados aos
recém-chegados, mas são apreendidos através da sua experiência ao longo dos
anos, de tal modo que é vulgar dizer “a práxis não se explica, vive-se”.

Mas será que essa TEORIA se torna uma PRÁTICA?

A sociedade atual vive uma grave crise de valores... Por um lado, NÃO
EXISTEM atualmente CRITÉRIOS SEGUROS para distinguir o justo do
injusto, o bem do mal, o belo do feio. Por outro lado, também não existem
valores fortes, tudo depende das circunstâncias e dos interesses em jogo. Enfim,
é tudo relativo, todos os meios justificam os fins.

A práxis não fica imune a esta crise de valores, uma vez que, como
alguns a consideram, é um “reflexo da sociedade”...

A práxis perpetua VALORES tais como a solidariedade, amizade,


união, respeito pela hierarquia e pela tradição, mas, acima de tudo, amor pela
“capa e batina”... valores que são fruto da vivência do dia a dia.

Contudo, nestes últimos anos, estes valores sofreram um profundo


e acentuado desgaste, fruto do individualismo excessivo e egoísta de certos
praxistas, mas também da sua desmedida sede de poder e de protagonismo.

Não vou aqui generalizar, e tomar o todo pelas partes, não me parece
sensato ou mesmo correto, embora seja fácil fazê-lo, porque a “parte” não é
assim tão pequena e porque o todo também não é assim tão grande. A realidade
é que muitos são os acadêmicos que utilizam a práxis apenas como veículo de
afirmação social.
152
TÓPICO 1 | TEORIA E PRÁTICA, MÉTODO E METODOLOGIAS

A solidariedade é cada vez mais apenas uma utopia em práxis,


embora muitos o tentem negar. Cada vez mais acadêmicos optam por uma
posição egoísta em práxis, em que o “eu” predomina sobre o “nós”, e este
último somente é usado segundo os interesses que se colocam por cima da
mesa (ou até mesmo por baixo). Assim como também não podemos dizer
que exista união, se o “nós” é negligenciado, deixa pura e simplesmente
de existir como tal, uma vez que ninguém se preocupa com ele. Também
não podemos falar em respeito no sentido amplo da palavra, uma vez que
muitos acadêmicos apenas se lembram de o pedir e esquecem-se de o dar.
Não existe verdadeira amizade, mas apenas uma amizade aparente, que se
edifica para reforçar ligações de poder e de força... Nada é espontâneo ou
verdadeiramente sentido, tudo é cuidadosamente planeado para que o “eu” e
a vontade do “eu” não seja contrariada... A finalidade de um gesto sobrepõe-se
ao puro e simples ato de agir.

A práxis, contrariamente àquilo que alguns afirmam, não é feita apenas


pela elite dos mais fortes, mas também pela elite dos mais falsos, dos mais
prepotentes, dos mais egoístas, dos mais arrogantes.

A práxis, e engana-se quem pensa o contrário,


VIVE DA SUA TEORIA, mas ensina a sua prática, que em
nada reflete os valores inerentes às tradições acadêmicas.

Teoria e prática são dois conceitos que deviam ser dependentes um do


outro, mas que, com o passar do tempo, infelizmente, cada vez mais se afastam.

Muitos preferem responsabilizar a sociedade e a crise de valores em


que ela está mergulhada, mas a verdadeira culpa é das pessoas que a fazem
e que, inertes, preferem seguir a maré de cabeça baixa, porque não têm força
suficiente de lutar contra ela de cabeça levantada, ou porque, talvez, como
própria experiência, são imediatamente esmagados.

O que podemos entender como TEORIA?

Segundo Ferreira (2008, p. 771), entende-se por teoria:

1) Conhecimento especulativo, meramente racional.


2) Conjunto de princípios fundamentais duma arte ou duma ciência.
3) Doutrina ou sistema fundado nesses princípios.
4) Hipótese, suposição.

Ou seja, aqui podemos compreender a teoria como sendo um CONJUNTO


DE PRINCÍPIOS QUE FUNDAMENTAM O AGIR PROFISSIONAL DO
assistente social.

153
UNIDADE 3 | A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS NO EXERCÍCIO PROFISSIONAL

Neste sentido, Kant (2008) diz que se chama TEORIA um conjunto de


regras práticas que são pensadas como princípios numa certa universalidade,
e aí se abstraem de um grande número de condições as quais, no entanto, têm
necessariamente influência sobre a sua aplicação.

Assim, vejamos o que Pereira (2010, grifo nosso) tem a nos dizer referente
à questão da teoria:

De uma forma geral e abrangente, a teoria pode ser compreendida sob a


perspectiva da ETIMOLOGIA DA PALAVRA nos dicionários.

Para o pensamento clássico, teorizar significa quase que somente


abstrair, e, para compreender teoria, é preciso considerar a lógica e a metafísica.
A Ciência Moderna (e seu método) pode ser compreendida em quatro etapas
(observação, hipótese, experimentação e lei); faz, também, uma distinção entre
indução (visão do particular para o geral) e dedução (do geral para o particular),
análise (decomposição de um todo em suas partes) e síntese (reconstituição do
todo decomposto).

Na essência, segundo Pereira (2010), para entender o que é teoria em um


plano mais amplo, é preciso compreender várias questões afins (experiência,
natureza, objeto, visão total da realidade, presença do homem...) que nem a
Ciência Clássica e nem a Ciência Moderna são totalmente capazes de abordar.
A primeira exagerou o lado da teoria da realidade como abstração, esquecendo
a síntese (que liga pensamento e realidade), e a segunda se prendeu demais à
experimentação do objeto concreto.

A autora discorre, ainda, sobre a teoria nas ciências empírico-


formais (física, química, biologia), ciências formais (matemática) e ciências
humanas e enfatiza que, para falar em teoria, é necessário focalizar aquele
significado cultural básico da ação. Esta relação implica dependência
da teoria com referência à prática, dependência de fundamentação.
Destarte, prática e teoria não podem ser separadas, pois se incorreria no vício
idealista (priorizando a teoria e dissociando-a da prática) ou no do praticismo
(acentuando ou separando a prática em detrimento da teoria), o que levaria a
um vício ainda maior: o do senso comum, que tende a menosprezar a teoria e a
simplificar a realidade, ou seja, ele, assim como os aspectos ideológicos, interfere
no ato teórico.

Então o que é realmente a PRÁTICA?

Segundo Ferreira (2008, p. 647), entende-se por prática:

154
TÓPICO 1 | TEORIA E PRÁTICA, MÉTODO E METODOLOGIAS

1) Ato ou efeito de praticar.


2) Uso, exercício.
3) Rotina, hábito.
4) Saber provindo da experiência.
5) Aplicação da teoria.
6) Discurso rápido; conferência. [...]

De acordo com Kant (2008), denomina-se PRÁTICA não toda a operação,


mas apenas a efetuação de um fim conseguida como adesão a certos princípios de
conduta representados na sua generalidade.

Neste sentido, podemos dizer que a PRÁTICA PROFISSIONAL do


assistente social se processa no decorrer do seu exercício profissional, ou seja,
na aplicação direta do seu instrumental teórico-metodológico, ético-político e
técnico-operativo.

Então, para finalizar, podemos dizer que a TEORIA versus PRÁTICA


nada mais é do que a construção de estratégias técnico-operativas para o exercício
da profissão, ou seja, preencher o campo das mediações entre a base teórica já
acumulada e a operatividade do trabalho profissional do assistente social.
(IAMAMOTO, 2008).

3 MÉTODO E METODOLOGIA
Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa Aurélio (2008, p. 552), método
e metodologia podem ser assim definidos:

Procedimento organizado que conduz a um certo resultado.


Processo ou técnica de ensino.
MÉTODO Modo de agir, de proceder.
Regularidade e coerência na ação.
Tratado elementar.
Conjunto de métodos, regras e postulados utilizados em
METODOLOGIA
determinada disciplina, e sua aplicação.

Então, podemos dizer que a metodologia pode ser entendida como o


estudo do método a ser aplicado em uma determinada realidade social, ou seja, a
metodologia nada mais é do que as etapas e procedimentos para a realização de
um procedimento, seja ele acadêmico ou profissional.

Mas, qual a importância da metodologia?

De acordo com Becker, Kestring e Silva (apud AMARAL, 2010, grifo nosso):

155
UNIDADE 3 | A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS NO EXERCÍCIO PROFISSIONAL

A metodologia é o estudo de métodos de como fazer e relatar os feitos


em ciência. A explicação de sua importância já vem embutida na explicação do
que ele é.

No caso da METODOLOGIA DO TRABALHO CIENTÍFICO, quando


se faz um trabalho, seja um artigo para um jornal, um paper, uma monografia
para um curso, uma dissertação de mestrado, e se pretenda fazer um trabalho de
comunicação científica, ou no caso da METODOLOGIA DE INTERVENÇÃO
PROFISSIONAL, o que menos se espera é que tenha vindo de uma inspiração
poética. Muito menos de digressões e opiniões sobre o que foi pesquisado ou
experimentado.

O QUE SE ESPERA numa metodologia, seja ela de trabalho científico


ou de intervenção profissional, é:
- que tenha um planejamento anterior;
- que tenha um começo;
- que tenha um meio;
- que tenha um fim.
Ou seja, tenha métodos de construção e que estes métodos sejam
coerentes, conhecidos e explicitados.

 Vejamos o que significa cada um deles:

1) PLANEJAMENTO ANTERIOR – espera-se deste tipo de trabalho


que, antes de ele ser escrito, ou colocado em prática, ele tenha sido planejado,
tanto o modo como ele vai ser escrito, quanto o que ele vai dizer, ou seja, tanto
sua forma quanto seu conteúdo. Pode ser que tanto um quanto outro mudem
ao longo do caminho, mas supõe-se que ninguém parta do zero num caso deste.

Pressupõe-se que:

a) um assunto ou um problema social tenha sido escolhido, assim como


seu enfoque e a profundidade com que vai ser abordado;

b) que pesquisas sobre a realidade social ou para um levantamento


bibliográfico tenham sido feitas.

2) COMEÇO – espera-se que, de posse do material pesquisado, uma


introdução possa ser escrita, com suas subpartes:

a) Apresentação do tema e justificação de sua escolha.


Aqui o tema ou a realidade social é apresentada, de maneira clara,
através de sua história, mas uma história que contemple o recorte dado ao
tema pelo autor.

156
TÓPICO 1 | TEORIA E PRÁTICA, MÉTODO E METODOLOGIAS

b) Questões específicas.
Aqui você deve perguntar o que sua pesquisa deverá responder.
São questões que deverão cercar sua principal questão, que é o item abaixo.
Poderiam ser:
- qual era a situação daquela determinada família?
- qual era a visão dos vizinhos daquela família, com relação ao seu
comportamento social?
- qual a implicação social destas visões?

c) Abordagem geral do problema.


As questões específicas nos levam a pensar num panorama geral da
realidade social do trabalho científico. Na realidade, embora nunca devamos
perder a abordagem geral de vista, o trabalho se desenvolve através do estudo
e análise das questões específicas.

d) Hipóteses ou pressupostos.
- A espinha dorsal de seu trabalho, o que seu trabalho quer aclarar
ou até que ponto você poderá mediar a transformação daquela determinada
realidade social.

e) Variáveis e/ou fatores qualitativos de análise (trabalho


experimental).

f) Objetivos da pesquisa.

g) Definição de termos.

h) Metodologia da pesquisa ou do estudo.


- tipo de pesquisa;
- área de abrangência;
- população e amostra;
- passos da pesquisa;
- instrumentos da coleta de dados;
- tratamento de dados (trabalho experimental);
- pesquisa teórica.

3) MEIO 
i) Desenvolvimento.
- revisão de literatura ou plano teórico;
- apresentação e análise de dados.

4) FIM 
j) Conclusões e sugestões.
 

157
UNIDADE 3 | A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS NO EXERCÍCIO PROFISSIONAL

Então, podemos compreender que a metodologia, com seus métodos de


intervenção e atuação profissional, possibilitará ao assistente social um norte
profissional para sua atuação junto à população usuária das políticas públicas e
sociais. Além disso, cada metodologia deve levar em consideração a questão social
a ser trabalhada e sua realidade cotidiana. E que cada instituição, seja pública ou
privada, desenvolve metodologias específicas conforme sua cultura organizacional.

LEITURA COMPLEMENTAR

TEORIA E PRÁTICA, MÉTODO E METODOLOGIAS

Charles Toniolo de Sousa

Estudar a realidade social nunca foi tarefa fácil.

Desde a Antiguidade, filósofos, cientistas e pensadores, de um modo


geral, se debruçam sobre as diferentes formas de organização social, de modo
a conhecê-las. Mas, além disso, o conhecimento é uma poderosa arma para
qualquer proposta de mudança ou transformação dessa mesma realidade. Se
atuar no e sobre o cotidiano das populações menos favorecidas é um componente
fundamental do serviço social , é com vistas a transformações nesse cotidiano que
a prática profissional deve se dirigir.

Contudo, o cotidiano cria armadilhas às quais o assistente social deve estar


atento. O profissional trabalha com situações singulares, isto é, situações que, a
princípio, podem parecer exclusivas daquele(s) sujeito(s) que está(ão) sendo o
alvo da intervenção do assistente social. E nesse sentido, ele (o assistente social)
até pode produzir um conhecimento prático dessa situação imediata que aparece
no dia a dia do seu trabalho. Mas nem tudo que aparece é o que realmente é.

Os seres humanos são seres essencialmente sociais, ou seja, vivem em


uma determinada sociedade. E essa sociedade é uma totalidade.

Nenhuma situação pode ser considerada apenas em sua singularidade,


pois senão se corre o sério risco de se perder de vista a dimensão social da vida
humana. Portanto, qualquer situação que chega ao serviço social deve ser
analisada a partir de duas dimensões: a da singularidade e a da universalidade.

Para tal, é necessário que o assistente social tenha um conhecimento teórico


profundo sobre as relações sociais fundamentais de uma determinada sociedade
(universalidade), e como elas se organizam naquele determinado momento histórico,
para que possa superar essas “armadilhas” que o senso comum do cotidiano prega –
e que muitas vezes mascaram as reais causas e determinações dos fenômenos sociais.
É na relação entre a universalidade e a singularidade que se torna possível apreender as
particularidades de uma determinada situação.

158
TÓPICO 1 | TEORIA E PRÁTICA, MÉTODO E METODOLOGIAS

O que acabamos de afirmar nada mais é do que chamamos de método de


investigação – e mais especificamente, de método dialético. Existem várias formas
de se pesquisar a realidade. Se acreditarmos que os fenômenos sociais são
fragmentados e ocorrem sem nenhuma relação com a totalidade social (isto é, ele
se explica em si mesmo), estaremos adotando uma determinada postura política
e teórica, e utilizando uma determinada forma de conhecer a realidade. Porém,
essa forma tende a empobrecer esse conhecimento, pois considera os indivíduos
como seres atomizados, e não como seres sociais.

Todavia, o que se propõe hoje no âmbito do serviço social é justamente


a produção de um conhecimento que rompa com a mera aparência e busque
apreender o que está “por trás” dela, sua essência. Para isso, é fundamental
que o profissional sempre mantenha uma postura crítica, questionadora, não se
contentando com o que aparece a ele imediatamente.

De posse desse conhecimento, o profissional pode planejar a sua ação


com muito mais propriedade, visando à mudança dessa mesma realidade. Assim,
no momento da execução da ação profissional, o assistente social constrói suas
metodologias de ação, utilizando-se de instrumentos e técnicas de intervenção social.

A diferença entre método de investigação e metodologias de ação põe uma


reflexão fundamental para quem se propõe a construir uma prática profissional
competente e qualificada: são os objetivos profissionais que definem que
instrumentos e técnicas serão utilizados – e não o contrário. E esses objetivos,
planejados e construídos no plano político e intelectual, só podem ser expressos
se o assistente social conhece a realidade social sobre a qual sua ação vai se
desenvolver. Ou, como diz Guerra (2002):

Se é correto que o valor do trabalho do assistente social reside na


sua utilidade social, que é medida em termos de respostas concretas
que venham produzir uma alteração imediata na realidade empírica
[...], o seu resultado final, o produto do seu trabalho passa a ser o fator
determinante da forma de realizá-lo. (GUERRA, 2002, p. 157).

É apenas a partir dessa reflexão que se faz possível discutir a


instrumentalidade do serviço social .

FONTE: SOUZA, Charles Toniolo de. A prática do assistente social: conhecimento,


instrumentalidade e intervenção profissional. Emancipação, Ponta Grossa, p. 122-124,
2008. Disponível em: <http://www.uepg.br/emancipacao>. Acesso em: 15 fev. 2010.

159
RESUMO DO TÓPICO 1

Neste tópico estudamos sobre teoria e prática, método e metodologias, e


foram abordados os seguintes itens:

• A polêmica discussão relativa à concepção de teoria versus a prática.

• As diferenças entre método e metodologia.

• É importante colocarmos os conhecimentos em prática.

• Quem sabe, faz. E quem não sabe, aprende fazendo à luz da teoria pertinente a
cada profissão.

• Não existe qualquer profissional só com bases teóricas, pois é no seu dia a dia
que se constitui como tal.

• A práxis profissional não se explica, vive-se-a no seu cotidiano profissional.

• Compreendemos a teoria como sendo um conjunto de princípios que


fundamentam o agir profissional do assistente social.

• A prática profissional do assistente social se processa no decorrer do seu


exercício profissional, ou seja, na aplicação direta do seu instrumental teórico-
metodológico, ético-político e técnico-operativo.

• A teoria e a prática nada mais são do que a construção de estratégias técnico-


operativas para o exercício da profissão, com a base teórica já acumulada pelo
trabalho profissional do assistente social.

• A metodologia pode ser entendida como o estudo do método a ser aplicado em


uma determinada realidade social.

160
AUTOATIVIDADE

Prezado(a) acadêmico(a), após esta discussão relativa à teoria e prática,


método e metodologias, IDENTIFIQUE no quadro a seguir uma frase completa
(com pontuação) correlacionada com o assunto estudado.

161
162
UNIDADE 3
TÓPICO 2

O MANEJO DO INSTRUMENTAL TÉCNICO-OPERATIVO


DO ASSISTENTE SOCIAL
“Acima de tudo procurem sentir no mais profundo de vocês
qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer
parte do mundo. É a mais bela qualidade de um revolucionário.”
Che Guevara

1 INTRODUÇÃO
Até o século XX, o serviço social trazia um discurso muito ligado a práticas
caritativas e de ajuda mútua, conforme já estudamos anteriormente. Porém, no
período contemporâneo, o serviço social passa a discutir acerca da profissão
e seu processo de trabalho, levando em consideração o conceito baseado no
pressuposto marxista.

Conforme Guerra (2000), no processo de trabalho do assistente social


há a passagem do momento de pré-ideação – projeto – para a chamada ação
propriamente dita que requer a instrumentalidade.

Historicamente o profissional de serviço social passou por divisões e


diferenças entre o saber e o fazer profissional, fazendo com que os assistentes
sociais tivessem práticas distintas. Contudo, na formação profissional existem
várias formas de conhecimento e, com o acúmulo e experiências adquiridas ao
longo da atuação, a prática profissional vai se aperfeiçoando e ampliando os
olhares das diferentes formas de atuação, conforme veremos a seguir.

2 A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS


NO EXERCÍCIO PROFISSIONAL
A aplicabilidade dos instrumentos e técnicas da ação profissional na
prática cotidiana do assistente social responde às necessidades deste profissional
levando em consideração os diferentes contextos e realidades sociais.

Segundo Sousa (2008, p. 131), “o instrumental é o resultado da capacidade


criativa e da compreensão da realidade social, para que alguma intervenção
possa ser realizada com o mínimo de eficácia, responsabilidade e competência
profissional”. Porém, o profissional, durante sua atuação e na aplicabilidade dos

163
UNIDADE 3 | A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS NO EXERCÍCIO PROFISSIONAL

instrumentos, independentemente de quais sejam, deve repensar sua prática,


aperfeiçoá-la e refletir constantemente.

O principal objetivo deste tópico é apresentar de forma sucinta as técnicas


e os principais instrumentos da ação profissional utilizados pelo assistente social
no cotidiano de sua prática.

2.1 A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS DE TRABALHO


DIRETOS OU “FACE A FACE”
Neste item apresentaremos, em forma esquemática, como o assistente
social aplica no seu dia a dia profissional o instrumental técnico-operativo. Ou
seja, como são desenvolvidos e aplicados os instrumentos diretamente com a
população usuária das políticas públicas e sociais, além dos planos, programas e
projetos sociais.

Segundo Sousa (2008, p. 124, grifos nossos), a INSTRUMENTALIDADE


DO serviço social deve seguir algumas orientações:

Expressar os objetivos que se quer alcançar não significa que eles


necessariamente serão alcançados.

Nunca podemos PERDER DE VISTA que qualquer ação humana está


condicionada ao momento histórico em que ela é desenvolvida. A realidade
social é complexa, heterogênea e os impactos de qualquer intervenção
dependem de fatores que são externos a quem quer que seja – inclusive ao
serviço social . Como analisa Iamamoto (1995), reconhecer as possibilidades e
limitações históricas, dadas pela própria realidade social, é fundamental para
que o serviço social não adote, por um lado, uma postura fatalista (ou seja,
acreditar que a realidade já está dada e não pode ser mudada), ou, por outro
lado, uma postura messiânica (achar que o serviço social é o “Messias”, que é
a profissão que vai transformar todas as relações sociais).

É importante ter essa compreensão para localizarmos o lugar ocupado


pelos instrumentos de trabalho utilizados pelo assistente social em sua prática.

Se são os objetivos profissionais (construídos a partir de uma reflexão


teórica, ética e política e um método de investigação) que definem os
instrumentos e técnicas de intervenção (as metodologias de ação), conclui-se
que essas metodologias não estão prontas e acabadas. Elas são necessárias em
qualquer processo racional de intervenção, mas elas são construídas a partir
das finalidades estabelecidas no planejamento da ação realizado pelo assistente
social.

Primeiro, ele define “para que fazer”, para depois se definir “como
fazer”. Mais uma vez, podemos aqui identificar a estreita relação entre as

164
TÓPICO 2 | O MANEJO DO INSTRUMENTAL TÉCNICO-OPERATIVO DO ASSISTENTE SOCIAL

competências teórico-metodológica, ético-política e técnico-operativa. Em


outras palavras, os instrumentos e técnicas de intervenção não podem ser
mais importantes que os objetivos da ação profissional.

Se partirmos do pressuposto de que cabe ao profissional apenas ter


habilidade técnica de manusear um instrumento de trabalho, o assistente social
perderá a dimensão do porquê ele está utilizando determinado instrumento.
Sua prática se torna mecânica, repetitiva, burocrática. Mais do que meramente
aplicar técnicas “prontas” – como se fossem “receitas de bolo” –, o diferencial de
um profissional é saber adaptar um determinado instrumento às necessidades
que precisa responder no seu cotidiano.

E como a realidade é dinâmica, faz-se necessário compreender quais


mudanças são essas para que o instrumental utilizado seja o mais eficaz
possível, e, de fato, possa produzir as mudanças desejadas pelo assistente
social – ou chegar o mais próximo possível. Ora, isso pressupõe que, mais do
que copiar e seguir manuais de instruções, o que se coloca para o assistente
social hoje é sua capacidade criativa, o que inclui o potencial de utilizar
instrumentos consagrados da profissão, mas também de criar outros tantos
que possam produzir mudanças na realidade social, tanto em curto quanto em
médio e longo prazos. Isso é primordial para que possamos desempenhar com
competência as atribuições que foram definidas para o assistente social na Lei
de Regulamentação Profissional.

Vejamos: se o serviço social , em sua trajetória histórica, não tivesse


criado novos instrumentos e novas técnicas de intervenção, teria conseguido
sair da condição de mero executor das políticas sociais e hoje desempenhar
funções de elaboração, planejamento e gerência das mesmas? Certamente não.
Assim, pensar a instrumentalidade do serviço social é pensar para além da
“especificidade” da profissão: é pensar que são infinitas as possibilidades de
intervenção profissional, e que isso requer, nas palavras de Iamamoto (2004),
“tomar um banho de realidade”.

Sobre a interação face a face, podemos expor que este instrumento

[...] permite que a enunciação de um discurso se expresse não só


pela palavra, mas também pelo olhar, pela linguagem gestual, pela
entonação, que vão contextualizar e, possivelmente, identificar
subjetividades de uma forma mais evidenciada. Sob esse enfoque,
pode-se dizer que o discurso direto expressa uma interação dinâmica.
(MAGALHÃES, 2003, p. 29).

2.1.1 Observação
A técnica de observação faz com que o profissional observe o
comportamento e os posicionamentos apresentados pelo usuário. A observação
participante coloca o investigador – profissional – pertencente ao grupo,

165
UNIDADE 3 | A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS NO EXERCÍCIO PROFISSIONAL

organização ou comunidade, para que registre comportamentos, interações e


acontecimentos. Nesta forma de observação, o investigador passa despercebido.

Nesta direção, segundo Sousa (2008, p. 126),

[...] na medida em que o assistente social realiza intervenções, ele


participa diretamente do processo de conhecimento acerca da realidade
que está sendo investigada. Por isso, não se trata de uma observação
fria, ou como querem alguns, “neutra”, em que o profissional pensa
estar em uma posição de não envolvimento com a situação. Por
isso, trata-se de uma observação participante – o profissional, além de
observar, interage com o outro, e participa ativamente do processo de
observação. (SOUSA, 2008, p. 126).

No quadro a seguir podemos compreender melhor esta técnica de bastante


importância na atuação prática do profissional de serviço social .

QUADRO 2 – APLICABILIDADE DA OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE


Aplicar o instrumento de OBSERVAÇÃO. Ter clareza dos objetivos do que
O QUÊ? vamos observar. Além disso, saber que observar é muito mais que somente
olhar.

QUEM? O profissional assistente social.

O instrumento pode ser aplicado individualmente, em grupo, organização e


ONDE?
comunidade.

Pode ser utilizada em conjunto com outras técnicas de aplicabilidade do


QUANDO?
serviço social .

Conhecimento aprofundado das relações e comportamentos dos usuários


POR QUÊ?
observados.

Estabelecendo uma relação social com o usuário que possui expectativa e


COMO? necessidades quanto às intervenções. Então o profissional é observador e, ao
mesmo tempo, observado.
FONTE: As autoras

2.1.2 Entrevista individual e grupal


A entrevista é uma forma de relação entre o assistente social e o usuário,
ou seja, é o momento que o profissional tem para estabelecer confiança com o
usuário, para que este consiga realizar relatos e repassar informações importantes
para o profissional que está no papel de entrevistador.

166
TÓPICO 2 | O MANEJO DO INSTRUMENTAL TÉCNICO-OPERATIVO DO ASSISTENTE SOCIAL

Para Sousa (2008, p. 126):

A entrevista nada mais é do que um diálogo, um processo de


comunicação direta entre o assistente social e um usuário (entrevista
individual), ou mais de um (entrevista grupal). Contudo, o que
diferencia a entrevista de um diálogo comum é o fato de existir um
entrevistador e um entrevistado, isto é, o assistente social ocupa um
papel diferente – e, sob determinado ponto de vista, desigual – do
papel do usuário. (SOUSA, 2008, p. 126).

NOTA

Acadêmico(a), para que você possa relembrar esta técnica muito utilizada pelos
assistentes sociais em diversas áreas de atuação, retome o Caderno de Estudos: Estratégias,
Técnicas e Instrumentos da Ação Profissional I.

Este instrumento busca compreender, identificar ou constatar uma


determinada situação, em que o assistente social emite sua opinião profissional
e seu parecer. Assim, este instrumento não é uma conversa e, sim, uma ação
teórico-metodológica que exige do profissional muito conhecimento.

QUADRO 3 – APLICABILIDADE DA ENTREVISTA INDIVIDUAL

O QUÊ? Aplicar o instrumento de ENTREVISTA.

QUEM? O profissional assistente social.

O instrumento pode ser aplicado individualmente, em grupo, organização e


ONDE?
comunidade.

Pode ser utilizada em conjunto com outras técnicas de aplicabilidade do


QUANDO?
serviço social .

Pode ser estabelecida uma relação de confiança e com confidências entre o


POR QUÊ?
profissional e o entrevistado.

COMO? Procura compreender, identificar ou constatar uma determinada situação.


FONTE: As autoras

NOTA

Acadêmico(a), para aprofundar esta discussão você pode realizar a leitura do


artigo “A entrevista nos processos de trabalho do assistente social”, disponível em: <http://
revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/fass/article/viewFile/2315/3245>. Acesso em: 24 fev.
2010.

167
UNIDADE 3 | A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS NO EXERCÍCIO PROFISSIONAL

2.1.3 Dinâmica de grupo


A dinâmica de grupo é uma técnica que pode ser aplicada de diversas
formas, como atividade lúdica, por exemplo, através de jogos ou simulação de
alguma vivência apresentada pelo grupo.

O profissional de serviço social , nesta técnica, tem a responsabilidade de


mediar e controlar o processo, além de provocar reflexões do grupo acerca de
uma determinada temática e ter clareza dos objetivos da utilização desta técnica.

Para Sousa (2008), a dinâmica de grupo pode ser utilizada pelo assistente
social em diferentes momentos. Para levantar um debate sobre determinado tema
com um número maior de usuários, bem como atender um número de pessoas
que estejam vivenciando situações parecidas. (SOUSA, 2008, p. 126).

QUADRO 4 – APLICABILIDADE DA DINÂMICA DE GRUPO


O QUÊ? Aplicar o instrumento de DINÂMICA DE GRUPO.
QUEM? O profissional assistente social.
Este é aplicado em grupos que apresentam vivências iguais, utilizando de espaços
ONDE?
de descontração, porém com objetivo.
Existir um grupo com situações e vivências que podem ser trabalhadas no
QUANDO?
coletivo.
POR QUÊ? Controle coletivo e provocar a reflexão do grupo.
COMO? Um facilitador que provoca situações que levam à reflexão do grupo.
FONTE: As autoras

2.1.4 Reunião
A reunião é um instrumento coletivo, apresentando uma característica
diferenciada da dinâmica de grupo, e tem como objetivo principal a tomada de
decisão sobre determinado assunto ou temática que envolva todos os participantes.

O espaço de tomada de decisões é um espaço essencialmente político,


pois diferentes interesses estão em confronto. (SOUSA, 2008, p. 127).

É importante que no instrumento reunião seja apontado um líder ou


coordenador, com o intuito de atingir o objetivo proposto. Este coordenador,
porém, tem que ter uma posição democrática, em que todos os presentes tenham
um posicionamento.

168
TÓPICO 2 | O MANEJO DO INSTRUMENTAL TÉCNICO-OPERATIVO DO ASSISTENTE SOCIAL

QUADRO 5 – APLICABILIDADE DA REUNIÃO


O QUÊ? Aplicar o instrumento de REUNIÃO.

QUEM? O profissional assistente social.

ONDE? Em espaços de discussão coletiva.

QUANDO? Uma decisão deve ser tomada coletivamente.

POR QUÊ? Para tomar uma decisão democrática e coletiva.

As reuniões podem ser realizadas por um grupo de usuários, comunidade ou


COMO?
profissional que tem a necessidade de estabelecer alguma decisão.

FONTE: As autoras

2.1.5 Visita domiciliar


A visita domiciliar é um instrumento muito utilizado pelo profissional
de serviço social , por compreender que este retrata a realidade vivenciada pelo
usuário, e o profissional realiza o atendimento residencial. Com a aplicação deste
instrumento é possível o profissional compreender situações que dificilmente
identificaria com atendimento institucional, possibilitando assim realizar
encaminhamentos para sanar a dificuldade observada.

Podemos citar como exemplo as condições de saneamento básico,


habitacionais, higiene e cuidados pessoais. O profissional fica capacitado para
realizar um estudo social da família, especificando situações verificadas no
momento da visita técnica.

Nesta direção, Sousa (2008) aponta que “é de suma importância que o


profissional que realiza a visita tenha competência teórica para saber identificar
que as condições de moradia não estão descoladas das condições de vida de uma
comunidade onde a casa se localiza, e que, por sua vez, não estão separadas do
contexto social e histórico”. (SOUSA, 2008, p. 128).

Este instrumento pode ser realizado em conjunto com outras categorias


profissionais, como psicólogos, pedagogos ou enfermeiros.

E
IMPORTANT

Acadêmico(a)! Não se esqueça de rever a discussão realizada no Caderno de


Estudos Estratégias, Técnicas e Instrumentos da Ação Profissional I.
Bom estudo!

169
UNIDADE 3 | A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS NO EXERCÍCIO PROFISSIONAL

QUADRO 6 – APLICABILIDADE DA VISITA DOMICILIAR


O QUÊ? Aplicar o instrumento de VISITA DOMICILIAR.
QUEM? O profissional assistente social.
ONDE? Este instrumento deve ser aplicado na residência do usuário.
QUANDO? Tem por objetivo conhecer a realidade vivenciada pelo usuário.
Para poderem ser observados fatos e situações impossíveis de identificar em
POR QUÊ?
atendimento em outros espaços.
O profissional se desloca até a residência do usuário, posteriormente realiza
COMO?
relatório de visita técnica.
FONTE: As autoras

2.1.6 Visita institucional


A visita institucional é muito parecida com a domiciliar. A diferença é que
este instrumento é aplicado em organizações, entidades, fundações e empresas
privadas e públicas.

Segundo Sousa (2008), são três as motivações que levam o assistente social
a utilizar este instrumento como atuação prática:

1. quando o assistente social está trabalhando em uma determinada


situação singular, e resolve visitar uma instituição com a qual o usuário
mantém alguma espécie de vínculo;
2. quando o assistente social quer conhecer um determinado trabalho
desenvolvido por uma instituição;
3. quando o assistente social precisa realizar uma avaliação da cobertura
e da qualidade dos serviços prestados por uma instituição. (SOUSA,
2008, p. 129).

O profissional, quando realiza esta técnica, tem como objetivo principal


conhecer e avaliar a qualidade e existência de políticas sociais, públicas ou
privadas. Este instrumento pode ser aplicado em conjunto com outros, como, por
exemplo: reuniões, entrevistas e observações.

QUADRO 7 – APLICABILIDADE DA VISITA INSTITUCIONAL


O QUÊ? Aplicar o instrumento de VISITA INSTITUCIONAL.
QUEM? O profissional assistente social.
ONDE? Em espaços públicos ou privados (ONGs, empresas, órgãos municipais).
O usuário utiliza algum espaço, ou para avaliação e conhecimento de políticas
QUANDO?
sociais.
Pode existir a necessidade de aprofundar conhecimentos em relação à política
POR QUÊ?
social pública e privada.
COMO? Através de visita in loco, realizando relatório técnico com objetivo bem definido.
FONTE: As autoras

170
TÓPICO 2 | O MANEJO DO INSTRUMENTAL TÉCNICO-OPERATIVO DO ASSISTENTE SOCIAL

2.1.7 Técnica de encaminhamento


Este instrumental exige que o profissional de serviço social tenha
conhecimento das políticas públicas existentes no município de atuação, bem
como a rede de serviços disponíveis para poder realizar esta ação.

A técnica de encaminhamento é considerada uma ponte de ligação de


todas as ações realizadas pelo profissional. Esta não se caracteriza como uma
ação principal, é sempre realizada em conjunto com outros instrumentos de
competência do assistente social.

QUADRO 8 – APLICABILIDADE DO ENCAMINHAMENTO


O QUÊ? Aplicar o instrumento ENCAMINHAMENTO.
QUEM? O profissional assistente social.
ONDE? Em todos os campos de atuação profissional.
QUANDO? O profissional verificar a necessidade de acesso a políticas sociais
POR QUÊ? Para garantir acesso a bens e serviços da rede pública.
Através de orientação e encaminhamento para as políticas públicas como
COMO?
forma de complemento de outras ações do problema identificado.
FONTE: As autoras

2.1.8 Perícia social


A perícia é um instrumento utilizado por outros profissionais, como o
contador, por exemplo, que realiza a perícia contábil. Já a perícia social é uma análise
completa e detalhada de determinada intervenção realizada pelo profissional de
serviço social , que tem o intuito de realizar um parecer da problemática que está
acompanhando.

A perícia social tem como principal finalidade propor soluções das


intervenções e situações apresentadas ao profissional. Este instrumento é muito
utilizado no setor judiciário, em que a Justiça fará a intervenção em caso de violação
de direitos, identificada pelo assistente social.

QUADRO 9 – APLICABILIDADE DA PERÍCIA SOCIAL


O QUÊ? Aplicar o instrumento de PERÍCIA SOCIAL.
QUEM? O profissional assistente social.
ONDE? Em espaços de atuação, principalmente a área jurídica.
QUANDO? Quando existir a necessidade de uma análise detalhada da problemática.
POR QUÊ? Quando houver a necessidade de esclarecer uma situação social.
COMO? Através de estudos da situação social.
FONTE: As autoras

171
UNIDADE 3 | A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS NO EXERCÍCIO PROFISSIONAL

2.1.9 Parecer social


O parecer social retrata não somente a descrição, como é o caso dos
relatórios, mas, sim, uma profunda análise da situação apresentada para o
profissional.

Neste instrumento deve constar a opinião técnica ou diagnóstico do


assistente social, considerando a avaliação de outros instrumentos já aplicados,
como observação, visita domiciliar e/ou atendimentos sociais realizados para
conhecer a situação apresentada pelo usuário.

Segundo Sousa (2008, p. 131),

A emissão de um parecer social pressupõe a existência de um relatório


social (interno ou externo). Por razões óbvias: um profissional só
pode emitir uma opinião sobre um fato que foi dito, no caso, escrito.
Assim, o parecer é a conclusão de determinado trabalho – seja de
um atendimento individual, seja de um conjunto de instrumentos
utilizados durante determinado processo de intervenção.

Sendo assim, este instrumento é a conclusão de um trabalho realizado


pelo assistente social, em que este pode fazer parte de um conjunto com outros
instrumentos utilizados durante o processo de intervenção de determinada
situação.

QUADRO 10 – APLICABILIDADE DO PARECER SOCIAL


O QUÊ? Aplicar o instrumento de PARECER SOCIAL.
QUEM? O profissional assistente social.
Pode complementar outros instrumentos, podendo ser utilizado em todos os
ONDE?
campos de atuação.
QUANDO? O profissional necessita dar sua opinião, com análise teórica.
POR QUÊ? Existe a necessidade de opinião técnica do profissional.
COMO? Em conjunto com outros instrumentos é a conclusão da realização da intervenção.
FONTE: As autoras

2.2 A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS DE


TRABALHO INDIRETOS OU “POR ESCRITO”
Os instrumentos serão descritos a seguir; estes instrumentos têm uma
definição de comunicação ativa, ou seja, podemos considerá-los como formas de
registro ou documentários por escrito do trabalho realizado pelo assistente social.

Estas técnicas aplicadas pelo profissional permitem que outros


profissionais ou agentes tenham acesso à intervenção realizada pelo assistente
social.

172
TÓPICO 2 | O MANEJO DO INSTRUMENTAL TÉCNICO-OPERATIVO DO ASSISTENTE SOCIAL

Para Sousa (2008):

[...] a utilização dos instrumentos de trabalho por escrito também possui


uma fundamental importância: é aqui que se torna possível ao assistente social
sistematizar a prática. Todo o processo de registro e avaliação de qualquer ação
é um conhecimento prático que se produz, e que não se perde, garantindo
visibilidade e importância à atividade desenvolvida.

Neste item abordaremos em forma esquemática como o assistente social


aplica no seu dia a dia profissional o instrumental técnico-operativo. Ou seja,
como são desenvolvidos e aplicados os instrumentos INDIRETOS do seu agir
profissional.

2.2.1 Atas de reunião


Atas nada mais são do que registros de tudo o que foi deliberado,
comentado ou apresentado em uma reunião. Estes registros por escrito são de
extrema importância para deixar arquivo às tomadas de decisões e até mesmo
como arquivos ou comprovação de que a reunião ocorreu.

O profissional de serviço social deve utilizar este instrumento, pois dará


subsídios para discussões ou definições para aplicabilidade de intervenções
identificadas e relatadas nas reuniões.

O assistente social deve ter como prática o registro ou atas dos atendimentos
realizados, sejam eles individuais ou coletivos.

QUADRO 11 – APLICABILIDADE DA ATA DE REUNIÃO


O QUÊ? Aplicar o instrumento de ATA DE REUNIÃO.
QUEM? O profissional assistente social.
ONDE? Pode ser aplicado em conjunto com outros instrumentos.
QUANDO? Sempre que forem realizadas reuniões ou atendimentos.
POR QUÊ? Para que sejam registradas decisões e encaminhamentos deliberados na reunião.
Através de documentos por escrito, e, no final da reunião, devem ser lidos e
COMO?
assinados por todos os participantes.
FONTE: As autoras

2.2.2 Diário de campo


Este instrumental é conhecido como uma ação pedagógica, em que é
possível fazer uma avaliação do(a) acadêmico(a), onde pode ser verificada a
forma de descrever, relatar, refletir, sugerir e fundamentar as ações descritas,
além de poder relacionar a teoria com a prática. Este instrumental é considerado
fonte de informação e registro, que pode contribuir para a construção de projetos
de pesquisas, artigos, relatórios e até mesmo do Trabalho de Graduação (TG),
apresentado no término do curso.
173
UNIDADE 3 | A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS NO EXERCÍCIO PROFISSIONAL

De acordo com Lewgoy e Arruda (apud LIMA, 2007, p. 95),

[...] o diário consiste em um instrumento capaz de possibilitar “o exercício


acadêmico na busca da identidade profissional” à medida que, através
de aproximações sucessivas e críticas, pode-se realizar uma “reflexão
da ação profissional cotidiana, revendo seus limites e desafios”. É um
documento que apresenta tanto um “caráter descritivo-analítico”,
como também um caráter “investigativo e de sínteses cada vez mais
provisórias e reflexivas”, ou seja, consiste em “uma fonte inesgotável de
construção, desconstrução e reconstrução do conhecimento profissional
e do agir através de registros quantitativos e qualitativos”.

O diário de campo são anotações realizadas pelo profissional de acordo


com ações realizadas na sua atuação prática; nada mais é do que um relato das
atividades que o profissional ou acadêmico desenvolveu, porém este relato tem
fundamentação teórica e análise crítica.

QUADRO 12 – APLICABILIDADE DO DIÁRIO DE CAMPO


O QUÊ? Aplicar o instrumento de DIÁRIO DE CAMPO.
QUEM? O profissional assistente social.
Pode ser utilizado e aplicado em todos os campos de atuação, pode ser
ONDE?
aplicado por profissionais e acadêmicos.
QUANDO? Em todas as atividades e ações desenvolvidas pelo profissional.
POR QUÊ? Como forma de registro e análise da atuação prática.
COMO? Através de registros e fundamentação teórica, relacionando teoria e prática.
FONTE: As autoras

DICAS

Acadêmico(a)! Para melhor compreensão deste instrumento, que será aplicado


durante o curso no período de estágio, vocês podem se aprofundar lendo o artigo “A
documentação no cotidiano da intervenção dos assistentes sociais: algumas considerações
acerca do diário de campo”.

Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/fass/article/


viewFile/1048/3234>. Acesso em: 24 fev. 2010.

2.2.3 Relatório social


Este instrumental é utilizado pelo profissional para registrar informações,
sejam elas para o próprio assistente social, ou para outros profissionais, como é
o caso de instituições que desenvolvem trabalho com equipes multiprofissionais,
onde todos terão acesso às informações ou histórico da intervenção realizada com
determinada família ou usuário.

174
TÓPICO 2 | O MANEJO DO INSTRUMENTAL TÉCNICO-OPERATIVO DO ASSISTENTE SOCIAL

De acordo com Sousa (2008, p. 130), o relatório social pode descrever


todas as atividades desenvolvidas pelo profissional (relatório de atividades). Os
diferentes relatórios sociais são os instrumentos privilegiados para sistematização
da prática do assistente social.

Sendo assim, o relatório social não é um relatório comum. Segundo


Souza, “repõe o debate sobre a inserção do serviço social na divisão do trabalho”,
na qual um “profissional trabalha com as diferentes manifestações, na vida social,
da questão social”. Ou seja, “os dados relatados são de natureza social, isto é, as
informações que dizem respeito a essas características”. (SOUSA, 2008, p. 130).

QUADRO 13 – APLICABILIDADE DO RELATÓRIO SOCIAL


O QUÊ? Aplicar o instrumento de RELATÓRIO SOCIAL.
QUEM? O profissional assistente social.
ONDE? Em todos os espaços de atuação profissional.
QUANDO? Sempre que tiver a aplicabilidade de instrumentos de natureza social.
POR QUÊ? Registro de informações sociais que subsidiam a compreensão profissional.
COMO? Através de documento escrito, registrando intervenções de origem social.
FONTE: As autoras

175
UNIDADE 3 | A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS NO EXERCÍCIO PROFISSIONAL

LEITURA COMPLEMENTAR

O ASSISTENTE SOCIAL

O profissional de serviço social realiza um trabalho essencialmente


socioeducativo e está qualificado para atuar nas diversas áreas ligadas à condução
das políticas sociais públicas e privadas, tais como planejamento, organização,
execução, avaliação, gestão, pesquisa e assessoria.

O seu trabalho tem como principal objetivo responder às demandas dos


usuários dos serviços prestados, garantindo o acesso aos direitos assegurados na
Constituição Federal de 1988 e na legislação complementar. Para isso, o assistente
social utiliza vários instrumentos de trabalho, como entrevistas, análises sociais,
relatórios, levantamento de recursos, encaminhamentos, visitas domiciliares,
dinâmicas de grupo, pareceres sociais, contatos institucionais, entre outros.

O assistente social é responsável por fazer uma análise da realidade


social e institucional, e intervir para melhorar as condições de vida do usuário.
A adequada utilização desses instrumentos requer uma contínua capacitação
profissional que busque aprimorar seus conhecimentos e habilidades nas suas
diversas áreas de atuação.

FONTE: Disponível em: <http://www.cressrj.org.br/>. Acesso em: 24 mar. 2010.

DICAS

Para aprofundamento
dos temas abordados, sugiro que
você leia os seguintes livros:

176
RESUMO DO TÓPICO 2

Neste tópico estudamos os instrumentos de trabalho utilizados pelo


profissional de serviço social na sua prática cotidiana, e foram abordados os
seguintes itens:

• Observação: faz com que o profissional observe o comportamento e os


posicionamentos dos usuários.

• Entrevista individual e grupal: é uma relação estabelecida entre profissional


e usuário, busca compreender, identificar ou constatar uma situação, o
profissional emite sua opinião.

• Dinâmica de grupo: o profissional realiza a mediação e controla o processo,


além de provocar reflexão e análise entre os participantes.

• Reunião: consiste em tomada de decisão coletiva.

• Visita domiciliar: o profissional procura compreender situações que dificilmente


identificaria com atendimento institucional, ficando possível a realização de um
estudo social da família.

• Visita institucional: o profissional tem como objetivo conhecer e avaliar a


qualidade e a existência de políticas sociais em espaços institucionais.

• Técnica de encaminhamento: é uma ponte de ligação de todas as ações realizadas


pelo profissional, não é uma ação principal.

• Perícia social: tem como finalidade propor soluções para as problemáticas


apresentadas pelo usuário. É muito utilizada no setor judiciário.

• Parecer social: considera-se a conclusão de um trabalho realizado, faz parte de


um conjunto de instrumentos utilizados durante a intervenção.

• Atas de reunião: dão subsídios para a discussão ou definições para intervenção


que foram identificadas durante a reunião.

• Diário de campo: anotações da prática profissional, contendo fundamentação


teórica e análise crítica.

• Relatório social: registro de informações e das atividades realizadas pelo


profissional, pode ser considerada a sistematização da prática do assistente
social.

177
AUTOATIVIDADE

1 Leia a questão proposta e responda ao que se pede.

Sou um assistente social que atua em uma comunidade de expressivas


questões de vulnerabilidade social e econômica. Num determinado dia chega,
para atendimento, uma mulher de aproximadamente 40 anos, mãe de 4 filhos,
todos com menos de 14 anos e se encontram fora da escola, vítima de violência
doméstica causada pelo marido, que a abandonou quando descobriu que sua
mulher havia se inserido no mercado de trabalho. A usuária apresenta problema
grave de saúde que necessita de medicação controlada e contínua, além de
cirurgia, porém não está conseguindo realizar através do Sistema Único de
Saúde.

Enquanto acadêmico(a) do curso de serviço social , descreva quais são os


instrumentos que o profissional deve aplicar e quais encaminhamentos devem
ser realizados para garantir o direito desta usuária e o de seus filhos.

178
UNIDADE 3
TÓPICO 3

OUTRAS CARACTERÍSTICAS INSTRUMENTAIS DA AÇÃO


PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL
“A vida é a arte das escolhas, dos sonhos, dos desafios e da ação”.
J. A. Wanderley

1 INTRODUÇÃO
Agora trabalharemos outros aspectos correlacionados aos instrumentos
da ação profissional do assistente social, como a questão da mediação.

A discussão da categoria mediação é, de acordo com Stanck (2003, p.


25), “[...] sem dúvida, uma das discussões mais complexas já trazidas para o
interior do serviço social e tem merecido constantes reflexões entre os principais
teóricos da área, relacionada à tradição marxista e lukacsiana.” A categoria
mediação é idealizada “como categoria metodológica que, ao mesmo tempo
em que possibilita a apreensão do movimento da realidade concreta, possibilita
transformá-la, evidenciando os processos internos, ou seja, as relações existentes
na dinâmica da história, marcada pelo contraditório.”

2 MEDIAÇÃO COMO INSTRUMENTO NA MEDIAÇÃO


DE CONFLITOS
Segundo Battaglia (2001, p. 1), “a mediação é uma metodologia de
resolução de conflitos aplicável aos mais diferentes campos de atuação.” E,
portanto, os profissionais do serviço social também o utilizam como estratégias
de enfrentamento de conflitos sociais.

Mas, primeiramente precisamos compreender, segundo Stanck (2003, p.


25), que a mediação “passa a ter um sentido historicamente concreto a partir das
concepções trazidas por Marx na teoria social. Nesta teoria marxista a mediação
é entendida como uma categoria ontológica e reflexiva”. De acordo com Pontes,
(2000, p. 41), a mediação “é ontológica porque está presente em qualquer
realidade independente do sujeito; é reflexiva porque a razão, para ultrapassar
o plano da imediaticidade (aparência) em busca da essência, necessita construir
intelectualmente mediações para reconstruir o próprio movimento do objeto”.

179
UNIDADE 3 | A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS NO EXERCÍCIO PROFISSIONAL

ATENCAO

A mediação só existe dentro dos complexos contraditórios da totalidade.


(STANCK, 2003, p. 26).

Mas, o que é MEDIAÇÃO?

De acordo com Michelon (2001, p. 4, grifo nosso):

A MEDIAÇÃO nada mais é do que uma negociação assistida, diz a


Dra. Zulema Wilde, juíza da Corte de Apelação Cível da Argentina e mediadora.

Mas essa assistência:


- tem de seguir UM PROCEDIMENTO;
- tem de utilizar técnicas de resolução de conflitos que procurem
alcançar um acordo embasado nos interesses reais dos indivíduos envolvidos,
uma vez que eles mantêm seu poder de decisão, porque são eles – e não o
mediador – que devem chegar à solução do problema.

NEGOCIAÇÃO ASSISTIDA? Do que se trata esta negociação?

FIGURA 10 – NEGOCIAÇÃO

FONTE: Disponível em: <www.facadiferente.sebrae.com.br/..>. Acesso em: 24 mar. 2010.

180
TÓPICO 3 | OUTRAS CARACTERÍSTICAS INSTRUMENTAIS DA AÇÃO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL

Será que os assistentes sociais estão realmente preparados para realizar


uma boa negociação? Ou uma boa mediação?

Neste sentido, o processo de negociação se encontra presente em


praticamente todas as relações entre pessoas e entidades ou entre pessoas e
pessoas, abrangendo as mais diversas situações da vida e do cotidiano social e
organizacional, principalmente na mediação de conflitos, tais como citamos a
seguir:

• entre pais e filhos;


• entre esposa e marido;
• entre irmãos;
• entre famílias ou grupos familiares;
• entre colegas, pares, amigos, companheiros;
• entre patrões e empregados;
• entre setores de uma sociedade;
• entre quem produz e quem consome;
• entre quem tem e quem não tem;
• etc.

Como o nosso foco são as mediações de conflitos, principalmente as sociais,


salientamos que o sucesso de qualquer profissional, seja assistente social ou não,
está totalmente dependente da sua habilidade em negociar, principalmente de
negociar bem para o alcance dos resultados esperados. O ambiente dos conflitos
sociais é uma grande mesa de negociação e relacionamento, na qual os profissionais
do serviço social estão em constante negociação. Eles negociam com os usuários
de uma determinada política pública ou social, seus superiores institucionais e
colegas de trabalho.

ATENCAO

“A negociação é uma ciência na qual cada lado tenta maximizar o resultado


para si e deixar o outro lado com a sensação de ter feito um bom negócio.” (Marcio Miranda)

Precisamos estar cientes de que o êxito do assistente social em negociar


está intimamente ligado aos resultados de sua vida profissional e pessoal,
determinando se ele prosperará ou se terá frustrações em seu convívio profissional
ou pessoal.

Agora, para compreendermos melhor este processo de negociação


assistida em uma mediação de um determinado conflito social, vejamos a seguinte
história apresentada no livro: Os Sete Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes, de
Stephen Covey (2005).
181
UNIDADE 3 | A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS NO EXERCÍCIO PROFISSIONAL

O LENHADOR

Nas montanhas do Canadá, havia um mestre lenhador. Certo dia, ele


foi procurado por um rapaz de preparo físico notável, que lhe disse:

“Quero aprender a cortar árvores, quero me tornar lenhador como o


senhor”.

O mestre aceitou, de pronto: “Volte amanhã e vou lhe ensinar meu


ofício”.

Lá pelo terceiro mês de aprendizado, para o espanto do mestre lenhador,


o jovem lhe disse: “Aprendi o que tinha de aprender. Já sou um lenhador, um
bom lenhador. Na verdade, acho que sou o melhor lenhador do Canadá”.

Diante do olhar incrédulo do mestre, foi mais longe, lançando-lhe um


desafio. “Vamos delimitar duas glebas de terra, com a mesma quantidade de
árvores cada, e cortar. Quem primeiro derrubar a última árvore é o mais rápido
e, portanto, o melhor”, propôs.

E assim aconteceu.

No início, o jovem, com mais disposição e uma velocidade incrível,


abriu vantagem sobre o mestre. De vez em quando, lançava um olhar para
a gleba vizinha e observava intrigado que este fazia pequenas paradas para
descansar. “Moleza. Vai ser fácil”, pensava consigo.

No entanto, o sol nem havia se posto por completo no horizonte e o


mestre derrubava sua última árvore, enquanto o rapaz ainda tinha algumas
pela frente. Surpreso, ele correu até o mestre:

“Como o senhor cortou mais rápido do que eu!?! É impossível, não


consigo entender. Não parei um só minuto e vi que o mestre parava toda hora
para descansar!!!”.

Então, o lenhador mais velho olhou nos olhos do jovem e lhe transmitiu
sua derradeira, e talvez mais importante, lição: “Cada vez que eu parava para
descansar, aproveitava para afiar os machados”.

Esta história mostra que nós precisamos nos preparar para negociar de
forma profissional: desde as negociações mais simples até as mais complexas e
vultosas, e assim contribuir para o processo de mediação dos conflitos sociais.

Outra coisa fundamental para o assistente social é o constante


aperfeiçoamento, para ser um profissional cada vez mais qualificado em sua
práxis profissional. Os assistentes sociais também devem realizar aperfeiçoamento
constante em negociação e mediação, mesmo para profissionais com larga

182
TÓPICO 3 | OUTRAS CARACTERÍSTICAS INSTRUMENTAIS DA AÇÃO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL

experiência na práxis profissional, pois as realidades sociais e seus conflitos estão


em constantes transformações.

Nas pequenas ou grandes negociações, o que faz a diferença é a atitude.


Você pode agir cegamente, ou se preparar, negociando de maneira metódica
e planejada, sempre objetivando os melhores resultados para a mediação em
que está trabalhando. A questão que se coloca é como podemos negociar com
a máxima efetividade, de modo a trazer resultados positivos para os conflitos
sociais.

ATENCAO

“A negociação é um processo social utilizado para resolver conflitos em


situações em que não existem regras, tradições, fórmulas, ‘métodos racionais’ ou o poder de
uma autoridade.” (Marcio Miranda)

As negociações acontecem no momento em que as partes envolvidas


estejam dispostas a realizar uma troca; ela acontece o tempo todo em torno deste
princípio, de acordo com a regra de que é preciso dar antes de receber.

E
IMPORTANT

O PONTO-CHAVE ESTÁ NAS CONCESSÕES e na premissa de que ambas as


partes devem obter vantagens para se ter uma boa negociação.

Mas o PONTO DE CONEXÃO na mediação, segundo Battaglia (2001,


p. 1), “ocorre na maneira de considerar as ideias das partes envolvidas. Na
verdade, as soluções são criadas e encontradas pelas partes e não pelo mediador.
O mediador tem somente o papel de facilitador das relações e da profusão de
ideias criativas e exequíveis”.

Então, podemos dizer, segundo Michelon (2001, p. 5, grifo nosso), que a


mediação

É um processo extrajudicial de resolução de conflitos, no qual um


terceiro, imparcial, dá assistência às pessoas em conflito, com a finalidade
de que possam manter uma comunicação produtiva à procura de um acordo
possível para elas.
183
UNIDADE 3 | A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS NO EXERCÍCIO PROFISSIONAL

É UM PROCESSO – porque tem um desenvolvimento lógico e


organizado;

É EXTRAJUDICIAL – porque está fora do Judiciário, isto é, as partes


é que escolhem o mediador. Mas, frise-se, não colide, nem compete com o
processo judicial. É mais um meio de resolução de conflitos;

TERCEIRO IMPARCIAL – é aquela pessoa ou aquelas pessoas que, de


maneira neutra, auxiliam as partes em conflito a buscar uma solução que seja do
interesse de ambas;

COMUNICAÇÃO PRODUTIVA – o mediador deve levar as partes a se


expressarem de forma clara. A explicitarem o conflito. O mediador abre o canal
de comunicação entre as pessoas envolvidas.

Em muitos casos, tem-se observado que aquilo que ocasionou o conflito


é a impossibilidade de conversar ou a errônea interpretação do que foi dito, por
isso, a tarefa primeira do mediador é fazer com que as partes restabeleçam a
comunicação. Que apareça o real interesse das partes.

É necessário, outrossim, que o mediador faça com que as partes


entendam que uma deve ESCUTAR a outra.

ACORDO POSSÍVEL – O objetivo da mediação é que as partes cheguem


a um acordo. Que esse acordo seja produtivo para as partes, isto é, que suas
NECESSIDADES e INTERESSES fiquem satisfeitos.

Essas considerações devem ser levadas à mesa de negociação na primeira


reunião, quando será dito, inclusive, que o ACORDO dependerá essencialmente
das partes, uma vez que o mediador que ali se encontra é um mero FACILITADOR
do processo, que o mediador não está ali para dar soluções prontas, está ali para
auxiliá-las na busca do resultado mais produtivo para ambas.

A mediação, segundo Battaglia (2001, p. 1), “é um instrumento de resolução


de conflitos bastante utilizado em diversos países, como Estados Unidos, Canadá,
China, França, Inglaterra, Noruega, Espanha, Argentina, Brasil e México. Em alguns
deles, por mais de 30 anos”.

Mas quando o serviço social utiliza pela primeira vez a categoria


mediação?

Segundo Stanck (2003, p. 26, grifo nosso), “o serviço social passa a utilizar-
se da categoria mediação a partir do movimento de RECONCEITUAÇÃO,
mais especificamente a partir da década de 80, momento em que houve um
aprofundamento teórico-metodológico da profissão, com base no método
dialético marxista”.

184
TÓPICO 3 | OUTRAS CARACTERÍSTICAS INSTRUMENTAIS DA AÇÃO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL

A mediação, segundo Pontes (2008, p. 95), “é introduzida inicialmente


no discurso dos assistentes sociais pela via da análise política, da sua articulação
no bojo das políticas sociais e de sua inserção socioprofissional. [...] enquanto
categoria teórica”.

Pontes (2008, p. 97) ressalta que a “categoria de mediação constitui-se


num divisor de águas, no plano metodológico, [...] na concepção dialética é a
existência da categoria de mediação em face da totalidade concreta que permite
apreender o envolver dos fenômenos do real o que no quadro categorial das
outras formulações é uma grande limitação.”

Mas, quais as CARACTERÍSTICAS da mediação?

Stanck (2003, p. 26, grifo nosso) expõe que a mediação é um


“COMPONENTE ESTRUTURAL DO SER SOCIAL”, intrínseca nos complexos
contraditórios, o profissional de serviço social passou a utilizá-la para explicar,
entender e intervir em uma determinada realidade, a fim de transformá-la.

A mediação, como TÉCNICA, segundo Battaglia (2001, p. 1):

[...] vem suprir um espaço anteriormente  ocupado pelas pessoas mais


velhas da comunidade ou da família. Com as transformações na modernidade
das organizações sociais, este espaço se tornou vazio. Além desse fato, algumas
transformações também ocorreram tanto em relação à causa dos conflitos,
como em relação às habilidades necessárias para solucioná-lo.

Martinelli (1993, p. 136) expõe que:

[...] as mediações são categorias instrumentais pelas quais se processa


a operacionalização da ação profissional. Expressam-se pelo conjunto
de instrumentos, recursos, técnicas e estratégias e pelas quais a ação
profissional ganha operacionalidade e concretude. São instâncias de
passagem da teoria para a prática, são vias de penetração nas tramas
constitutivas do real. Neste sentido, a própria prática do profissional
é uma mediação, pois coloca em movimento toda uma cadeia de
vínculos na relação totalidade/particularidade, tendo em vista a
superação da realidade social concreta.

A mediação é VOLUNTÁRIA, segundo Michelon (2001, p. 5),

Os litigantes não são obrigados a negociar, a mediar ou a fazer acordo,


influenciados por alguma parte interna ou externa. As partes aderem livremente
ao processo e dele podem, também, livremente sair. Não há nenhuma norma
legal que obrigue qualquer das partes a aderir a um processo de mediação. Nem o
mediador tem autoridade para impor uma solução às partes.

Em relação à CAUSA DOS CONFLITOS, segundo Battaglia (2001,


p. 1), pode-se “constatar que inicialmente eles se davam pela impossibilidade

185
UNIDADE 3 | A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS NO EXERCÍCIO PROFISSIONAL

de consenso, enquanto atualmente ocorrem pela dificuldade de se lidar com a


diferença”.

Quanto às HABILIDADES DO MEDIADOR, elas “[...] se deslocam do


antigo lugar de terceiro de bom senso que aconselha as partes ou valida uma ou
outra, para a de facilitador que cria condições para o diálogo sempre que as partes
envolvidas não consigam concretizá-lo sozinhas”. (BATTAGLIA, 2001, p. 1).

A mediação então

[...] torna-se um recurso confidencial, importante para a resolução de


conflitos nas situações que envolvam diferentes interesses, assim como
a necessidade de negociá-los. Embora, em alguns países, ocorra uma
intimação judicial às partes para que recorram à mediação, utilizo-a
em minha prática como um processo necessariamente voluntário, no
qual a responsabilidade pela construção das decisões cabe às partes
envolvidas. É exatamente neste ponto que a mediação se diferencia da
resolução judicial, onde a decisão é transferida a um terceiro, o juiz.
(BATTAGLIA, 2001, p. 1).

Alguns dos GRANDES BENEFÍCIOS deste recurso, segundo Battaglia


(2001, p. 1-2), são:

- rapidez e efetividade de resultados;


- redução de desgaste emocional e de custo financeiro;
- garantia de  privacidade e sigilo;
- alternativa à arbitragem e processo judicial;
- redução de  duração e reincidência dos litígios;
- facilitação da comunicação e promoção de ambientes cooperativos;
- transformação e melhoria das relações.

Outro aspecto extremamente IMPORTANTE na mediação, segundo


Battaglia (2001, p. 2), “é o fato de que suas estratégias objetivam, além da resolução
de conflito propriamente dito, a prevenção e a aprendizagem de novas maneiras
de resolução de conflitos, promovendo um ambiente propício à colaboração,
possibilitando que relações continuadas perdurem de forma positiva.”

Estas HABILIDADES, segundo Battaglia (2001, p. 2):

[...] podem ser treinadas e utilizadas por qualquer pessoa que participe
de contexto de conflito. Contudo, como Terapeutas da Abordagem Centrada
na Pessoa e Facilitadores de Grupos, encontramos certamente uma maior
facilidade na maneira de manejar o processo de mediação transformativa, quer
seja nos âmbitos sociais, políticos, transculturais, educacionais, empresariais
ou jurídicos.”

186
TÓPICO 3 | OUTRAS CARACTERÍSTICAS INSTRUMENTAIS DA AÇÃO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL

A APLICABILIDADE da mediação, segundo Battaglia (2001, p. 2):

[...] abrange todo e qualquer contexto de convivência capaz de produzir


conflitos. Podem se beneficiar deste recurso impasses políticos e étnicos
(nacionais e internacionais), questões trabalhistas e comerciais (locais
ou de mercados comuns), empresas, escolas, famílias, comunidades e
instituições.

Os BENEFÍCIOS possíveis para os participantes de uma mediação “[...]


serão a incorporação de novas maneiras de resolução de conflitos, onde ambos
constroem suas próprias soluções e passam a funcionar com mais esta alternativa
em suas vidas próprias, através de uma meta-aprendizagem”. (BATTAGLIA,
2001, p. 2).

O MEDIADOR TEM O PROPÓSITO, segundo Michelon (2001, p. 5):

[...] de auxiliar na resolução do problema que trazem, mas são as


partes que devem encontrar a solução ou as soluções desse problema. Quando
chegarem a um acordo que seja possível, será lavrado um TERMO DE
ACORDO. Se não chegarem a um acordo, estão livres para procurar outros
meios de resolução de disputa que considerem apropriados.

Para o mediador, o PRINCIPAL BENEFÍCIO

“[...] é promover a reflexão e a reformulação de sua maneira de atuar


nas resoluções de conflito. Tornam-se mais claramente delimitados os limites
e as possibilidades na relação entre mediador e mediado. Possibilitar maior
autonomia, expressão pessoal e corresponsabilidade das partes na construção
de suas alternativas e decisões passa a ser, cada vez mais, seu foco de ação”.
(BATTAGLIA, 2001, p. 2).

Pontes (2008, p. 177) expõe que:

O profissional de serviço social atua com e nas mediações. [...] o


assistente social não é uma das mediações ou um mediador no
fazer do serviço social , como querem alguns autores, mas sim é um
articulador e potencializador de mediações. Numa palavra, ele atua
nos sistemas de mediações que infibram as refrações da ‘questão
social’ constitutivas de demandas sociais à profissão.

O mesmo autor complementa expondo que:

O trabalho, com as mediações e nas mediações, conduz à compreensão


de que este movimento de dessingularização, universalizador,
deve caminhar no sentido da particularização daquelas situações
problemáticas. Esta particularização garante a dimensão insuprimível
da singularidade e a necessária visão de totalidade social
(universalidade), possibilitando ao agente garantir, em tese, tanto as

187
UNIDADE 3 | A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS NO EXERCÍCIO PROFISSIONAL

respostas tecnicamente necessárias no plano do imediato (garantindo


acesso aos serviços sociais) quanto desdobramentos mais mediatos no
plano da conscientização mútua (profissional e usuário-cidadão) e da
organização dos segmentos excluídos. (PONTES, 2008, p. 184-185).

Portanto, segundo Stanck (2003, p. 28):

A compreensão da categoria mediação é imprescindível para a


intervenção do profissional de serviço social e é a partir dela que o assistente
social deve efetivar sua prática. Porém, o direcionamento das ações de cada
profissional dependerá da sua leitura da realidade e do seu projeto ético-político
e das correlações de força socioinstitucionais. Sendo assim, sua intervenção
poderá se dar no sentido da preservação do sistema vigente, que é excludente,
injusto, desigual, ou na busca de alternativas para a criação de uma rede de
inclusão social, onde efetivamente possa haver justiça social.

LEITURA COMPLEMENTAR 1

MEDIAÇÕES... PARA QUÊ?

Vanessa Vasconcelos Pereira

Para o serviço social se tornam expressivas referências às mudanças no


mundo do trabalho, ao papel do Estado e à composição e dinâmica das classes
sociais enquanto categorias explicativas dos processos macrossociais que afetam
e/ou determinam mudanças na experiência profissional do assistente social.
Especificamente, esses impactos ocorrem em dois planos: um, mais visível e
imediato, relaciona-se com questões que recaem diretamente sobre o exercício
profissional; o outro, mais amplo e complexo, refere-se tanto ao surgimento de
novas problemáticas que podem ser mobilizadoras de competências profissionais
estratégicas, como a elaboração de proposições teóricas, políticas, éticas e técnicas
que possam se apresentar como respostas qualificadas ao enfrentamento das
questões que lhe são postas.

Cabe, ao serviço social , refazer teórica e metodologicamente o caminho


entre a demanda e as suas necessidades fundantes, situando-as na sociedade
capitalista contemporânea, com toda sua complexidade. “A profissão de serviço
social , como tantas outras, é determinada socialmente a partir da relação entre
divisão social do trabalho e atendimento de necessidades sociais” (MOTTA, 1987,
p. 27).

Assim, as profissões se criam a partir de necessidades sociais e se


desenvolvem na medida da sua utilidade social, vindo a institucionalizar
práticas profissionais reconhecidas socialmente. Devem ser capazes de
PROBLEMATIZAR as demandas para apreender o conjunto de mediações que
188
TÓPICO 3 | OUTRAS CARACTERÍSTICAS INSTRUMENTAIS DA AÇÃO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL

expressam a vinculação entre as “reais necessidades” e as exigências do mercado


de trabalho profissional, é o passo inicial para a construção dos objetos e
objetivos estratégicos da ação profissional. Uma vez que se ater às demandas do
mercado de trabalho profissional postas pela reestruturação produtiva é esquecer
que: “as necessidades sociais referidas às demandas são mera aparência que não
expressam as necessidades sociais reais da classe trabalhadora, e inclusive as
transfigura em seu conteúdo.”(MOTTA, 1999, p. 35 apud HELLER, 1987, p. 82).

Para a apreensão das reais necessidades, se faz necessário que haja uma
relação entre teoria e prática. Teoria e prática constituem aspectos inseparáveis
do processo de conhecimento e devem ser consideradas na sua unidade, levando
em conta que a teoria não só se nutre na prática profissional e histórica, como
também representa uma força transformadora que indica à prática os caminhos
da transformação.

São indissociáveis, uma vez que a prática é o fundamento da teoria, ou


seja, o ponto de partida e a base principal e substancial do conhecimento. O
próprio conhecimento se desenvolve com base na prática, pois o conhecimento
e as ciências surgem e se desenvolvem devido às necessidades da prática, às
necessidades da vida. Na prática colocam-se à prova os conceitos e as teorias,
estabelecem-se a sua veracidade ou falsidade, precisam-se e sistematizam-se os
conhecimentos. Não se pode ter uma prática profissional fundamentada só na
prática, uma vez que:

As ideias necessárias à cotidianidade jamais se elevam ao plano da


teoria, do mesmo modo como a atividade cotidiana não é práxis [...]
na cotidianidade a atividade individual não é mais do que uma parte
da práxis, da ação total da humanidade que, construindo a partir de
um dado, produz algo novo, sem, com isso, transformar em novo o já
dado. (HELLER, 1985, p. 32).

A vida cotidiana se desenvolve em meio a muitas e variadas atividades


econômicas, políticas, sociais e culturais; são essas atividades que preenchem
grande parte dos seus interesses e preocupações. Essa é a nossa realidade imediata,
nela os trabalhadores vivem situações-problema e necessidades, sempre situadas
em um contexto econômico, político, ideológico e histórico mais amplo.

Estas necessidades, situações e tarefas que surgem da realidade imediata


e da realidade nacional não estão separadas entre si. O trabalho, a vida cotidiana,
a conjuntura nacional, a situação estrutural de nossa sociedade, formam um todo
articulado.

Longe da tradição positivista, uma ação profissional reconstrói


metodologicamente o caminho entre a demanda objetivada e as
relações que a determinam. É este movimento que garante, na
particularidade de cada ação profissional, a reconstrução dos seus
objetos de intervenção e das suas estratégias de ação... até chegar ao
ponto de partida, mas desta vez não como uma representação caótica
do todo, porém com uma rica totalidade de determinações e relações
diversas. (MOTA, 1999, p. 48).
189
UNIDADE 3 | A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS NO EXERCÍCIO PROFISSIONAL

O assistente social, ao aperceber-se da existência desses vínculos, de suas


relações e contradições, enfim, desses imbricamentos, pode desenvolver a sua ação
profissional de modo mais crítico, na medida em que supera a leitura do aparente
imediato e dá conta da totalidade:
[...] essencialmente processual, dinâmica, cujos complexos, em
interação mútua, possuem um imanente movimento. No limite,
esse movimento produz uma dada legalidade social, historicamente
determinada e determinante. Atua na particularização das relações
entre os vários complexos do ser social. (PONTES, 2007, p. 81).

Para se conhecer essa totalidade se faz necessário partir da prática,


teorizar sobre ela e voltar à prática para transformá-la, ou seja, partir do concreto,
realizar um processo de abstração, entendida como “a capacidade que a razão
humana tem de ultrapassar a imediaticidade, captando as conexões submersas
na imediaticidade do real” (PONTES, 2007, p.69) e regressar ao concreto para
transformá-lo, esse é o processo dialético do conhecimento. Este processo que
vai da prática à teoria é, certamente, muito mais complexo que “fazer uma
reflexão sobre uma ação ou situação”. Implica exercitar e desenvolver distintas
capacidades intelectuais.

A compreensão teórica deve se verificar novamente na prática para


confirmar sua validade e sua verdade. O conhecimento não retorna, entretanto, à
sua antiga forma de percepção de situações isoladas, mas enriquecido com uma
capacidade de interpretação mais rica e valiosa destes mesmos. Compreender as
contradições nos permitirá regressar à nossa realidade imediata com elementos
de orientação sobre o que fazer para resolvê-las. Estes elementos nos permitirão
definir uma prática transformadora.

O agente social, ao entranhar-se com suas ações sociais no cerne das


relações, dá-lhes uma direção de forma crítica e alienada. Ao imprimir
uma direção alienante, tende a mistificá-las e homogeneizá-las,
caracterizando-as de forma fetichizada e aparente, que em síntese, é
também uma forma de desapropriação do real crítico. (OLIVEIRA,
1988, p. 82).

O desvelamento do significado real dos serviços prestados e não


significados, fetichizados pelos interesses do capital, apresenta-se como
importante campo de luta para os trabalhadores em geral e para os assistentes
sociais em particular, dada a sua inserção neste terreno. É necessário “desvelar
e decifrar o movimento histórico-social contemporâneo da ordem burguesa; sua
estrutura, sua dinâmica, suas tendências; o que importa é empenhar a razão teórica
como iluminadora dos processos constituintes desta socialidade determinada”.
(NETTO, 2001, p. 33). A compreensão dos processos e complexos inerentes a essa
ordem pressupõe a penetração em categorias sociais cada vez mais complexas.

Aqui se localiza o DESAFIO CENTRAL PARA O assistente social, que é


o de fazer a crítica dos fundamentos da cotidianidade tanto daquela em que ele
se encontra inserido quanto a do cotidiano dos sujeitos sociais a quem presta
190
TÓPICO 3 | OUTRAS CARACTERÍSTICAS INSTRUMENTAIS DA AÇÃO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL

serviços, o que significa examinar os fundamentos, analisá-los, reconhecê-los,


para transcendê-los. O profissional consegue transcender quando se apodera da
categoria mediação, que “dá a visibilidade panorâmica do sentido da palavra
dialética, porque deixa transparentes as articulações categoriais do ‘núcleo’: a
totalidade, a negatividade e a mediação se imbricam num todo complexo, lógico
e coerente”. (PONTES, 2007, p. 56).

Cabe ressaltar que o assistente social NÃO É UM “MEDIADOR”, não


realiza mediações, uma vez que “a categoria de mediação não é uma estrutura
nascida nas ‘maquinagens do intelecto’, mas, de fato, [...] ela é componente
estrutural do ser social”. (PONTES, 2007, p. 77). Não cabe ao assistente social
“criar” mediações, uma vez que elas são expressões históricas das relações que
o homem edificou com a natureza e, consequentemente, das relações sociais daí
decorrentes, nas várias formações sócio-humanas que a história registrou.

“Não pode existir nem na natureza, nem na sociedade, nenhum objeto


que neste sentido [...] não seja mediato, não seja resultado de mediações. Deste
ponto de vista a mediação é uma CATEGORIA OBJETIVA, ONTOLÓGICA,
que tem que estar presente em qualquer realidade, independente do sujeito.”
(PONTES, 2007, p. 79 apud LUKÁCS, 1979).

O recurso à categoria de mediações foi presidido pela pressão das


demandas postas pela realidade à profissão, que forçaram a necessidade de
um amadurecimento teórico para levar a cabo a tarefa de avanço profissional,
provocada pelos impulsos da própria realidade. A mediação permite à razão
construir categorias para auxiliar a compreensão e ações profissionais e supera
a dicotomia entre teoria e prática, uma vez que se processam mediações entre
teoria e prática e vice-versa.

MEDIAÇÃO é o que diferencia um exercício profissional crítico das


práticas assistenciais, voluntaristas, desenvolvidas por leigos e por ações
voluntárias. Para a superação da confusão acerca da imagem social com a ação
prestada por leigos de “boa vontade”, deve-se fazer a crítica ontológica do
cotidiano, de modo que possamos tornar nossa prática profissional consciente.

Ao clarificar seus objetivos sociais, [...] compreender o significado


real da profissão no contexto da sociedade capitalista, escolher
crítica e adequadamente os meios éticos para o alcance de fins éticos,
orientados por um projeto profissional crítico, os assistentes sociais
estão aptos, em termos de responsabilidade, a realizar uma intervenção
profissional de qualidade, competência e compromisso indiscutíveis.
(GUERRA, 2007, p. 15).

O assistente social deve perceber a realidade como totalidade, de modo


a perseguir suas mediações, apanhar as contradições do real não como vício do
pensamento, mas como possibilidades inerentes à própria realidade pelas quais
o profissional poderá fazer a leitura da realidade e em tais contradições captar
as possibilidades de intervenção e as perspectivas de seu enfrentamento. Assim,

191
UNIDADE 3 | A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS NO EXERCÍCIO PROFISSIONAL

sua prática profissional passa a se diferenciar da prática de leigos, posto que não
se reduz a atividades burocrático-administrativas, já que o projeto lhe permite
ter clareza da sua intencionalidade, decifrando o significado das demandas,
captando a necessidade que subjaz a elas.

A competência ultrapassa saberes e conhecimentos, mas não se


constitui sem eles. É necessário que haja uma intervenção reflexiva
e eficaz, no sentido de articular dinâmicas de conhecimentos,
saberes, habilidades, valores e posturas. Mas ela é uma concepção
fundamentalmente inclusiva, relacional e determinada social e
historicamente. (GUERRA, 2007, p. 28).

FONTE: PEREIRA, Vanessa Vasconcelos. Mediações... para quê? Disponível em: <http://
repensandooservicosocial.blogspot.com/>. Acesso em: 3 mar. 2010.

LEITURA COMPLEMENTAR 2

A AÇÃO INVESTIGATIVA NA PRÁTICA COTIDIANA DO ASSISTENTE


SOCIAL

Vera Lucia Tieko Suguihiro

Está sempre nos debates dos profissionais de serviço social a questão da


busca de um projeto de intervenção que dê um novo significado à profissão, de
modo a responder, de forma não apenas coerente teoricamente, mas também com
eficiência, às demandas socioprofissionais que lhes são colocadas.

Essa busca de novos caminhos apoia-se na verificação de que, via de regra,


o assistente social esgota o seu trabalho profissional na operacionalização dos
serviços à população, sem ir além da prática instituída. Nesse caso, o profissional
perde a oportunidade de compreender os nexos da sua intervenção, bem como
de evidenciar os limites e as possibilidades embutidas na sua ação cotidiana,
passíveis de dar novos contornos à sua ação profissional.

Ao longo do desenvolvimento da sua ação, os assistentes sociais têm


enfrentado diferentes dilemas na profissão. Alguns, aos quais se pode chamar de
“falsos dilemas”, estão atrelados às características próprias da profissão e decorrem
de sua situação na divisão sociotécnica do trabalho na sociedade contemporânea.
São essas atividades, as de caráter burocrático, assistencial, pragmático, que
conformam a profissão como uma prática eminentemente interventiva.

A ênfase nessas atividades tem se traduzido em respostas profissionais


fragmentadas, trabalhadas nos limites instituídos socialmente. Nessa perspectiva,
o assistente social dificilmente tem uma visão totalizadora da problemática que
enfrenta, não acionando, portanto, o seu potencial para modificar o seu modo de
intervir.

192
TÓPICO 3 | OUTRAS CARACTERÍSTICAS INSTRUMENTAIS DA AÇÃO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL

Outros dilemas têm por base a perspectiva de que a teoria dá conta de


explicar a realidade, mas não instrumentaliza a prática cotidiana do assistente
social. Nessa ótica, é facilmente embutida a contradição de um discurso crítico e
uma prática baseada no senso comum e, ainda, a efetivação da relação dicotômica
entre profissionais que “pensam” e profissionais que “fazem”.

A superação desta tensão vai demandar dos assistentes sociais


uma disponibilidade a não mais pensarem na prática profissional em si,
independentemente de seus fundamentos e de suas determinações, assimilando,
ao nível da racionalidade, a necessária unidade entre a teoria e a prática, como
determinantes complementares que incidem na ação particular dos profissionais,
o que lhes vai possibilitar a garantia do movimento dialético pensamento/ação.

Assim, entendemos que a vida de todos os dias, se iluminada por uma


teoria sólida, é uma fonte permanente de conhecimento capaz de gestar práticas
sociais inovadoras. A partir dessa convicção, acreditamos que, no estudo reiterado
e crítico das práticas cotidianas dos assistentes sociais, encontraremos um fio
condutor para, além de conhecer e analisar as formas de pensar e agir, construir,
com bases na teoria, as possibilidades de novas práticas.

Este processo de construção do saber profissional, a partir de uma


dinâmica deliberada de investigação e discussões, fundamenta-se no suposto
de que um conhecimento sistematizado e rigoroso pode se concretizar pela via
da reflexão-ação de sujeitos históricos. Essa forma de aproximação do saber
parece-nos mais adequada no âmbito do serviço social , na medida em que, como
caracteriza Myriam Veras Baptista:

A especificidade que particulariza o conhecimento produzido pelo


serviço social é a inserção de seus profissionais em práticas concretas.
O assistente social se detém frente às mesmas questões que os outros
cientistas sociais, porém o que o diferencia é o fato de ter em seu
horizonte um certo tipo de intervenção: a intervenção profissional.
Sua preocupação é com a incidência do saber produzido sobre a sua
prática: em serviço social , o saber crítico aponta para o saber fazer
crítico. (BAPTISTA, 1992, p. 89).

É importante entender que o saber que deriva da prática profissional não


se coloca imediatamente de modo pronto e acabado, mas é um conhecimento que
se constrói: “desenvolve, traduz, codifica e decodifica um conjunto de questões
que se colocam à prática profissional em determinado momento” (BAPTISTA,
1986, p. 4), e delas extrai um saber.

A prática cotidiana dos profissionais de serviço social tem a revelar


uma riqueza escondida sob a trivialidade das ações e da pobreza aparente das
atividades rotineiras. Trata-se de assumir o movimento proposto por Lefebvre
(LEFEBVRE, 1991, p. 44) que permite descobrir sob a trivialidade e atingir o
extraordinário a partir do ordinário.

193
UNIDADE 3 | A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS NO EXERCÍCIO PROFISSIONAL

Tendencialmente, os profissionais têm se dedicado aos limites


imediatamente colocados no cotidiano e não a “possibilidades ocultas”. Existem,
nesse mesmo cotidiano, possibilidades que não estão ali claramente explicitadas,
precisando, portanto, serem acionadas. Isto significa que nas questões do cotidiano,
e muitas vezes no próprio limite enfrentado, estão embutidas possibilidades
potenciais capazes de apontar para novas formas de ação.

O que percebemos é que, na prática, os limites vêm sendo tratados como


condicionantes da ação, ou seja, a sua representação é linear e não contraditória.
As dificuldades postas aos assistentes sociais, seja de natureza teórica, seja
de natureza técnica e/ou política, tendem a ser escamoteadas pelos limites
institucionais.

Para tanto, se faz necessário apreender o movimento contraditório da


prática profissional nos diferentes níveis das relações sociais, situar o profissional
como trabalhador assalariado com vinculação institucional, com a função de
emitir respostas qualificadas às demandas socioprofissionais, em suma, inserir o
seu cotidiano particular no contexto da profissão, entendida como determinada
pela divisão sociotécnica do trabalho.

Há que se assinalar que, via de regra, os assistentes sociais têm


desprezado a sua prática cotidiana entendendo-a apenas como espaço de mera
sequência empírica de ações, na medida em que priorizam as práticas singulares,
vivenciando o que foi sinalizado por Agnes Heller (HELLER,1985, p. 35) em
sua análise da cotidianeidade: reagimos a situações singulares, respondemos a
estímulos singulares e resolvemos problemas singulares.

Assim, o desafio está em apreender e desvelar os limites e as possibilidades


potenciais presentes na dinâmica da vida cotidiana profissional.

Esta via de abordagem tem como respaldo a percepção de que a


prática profissional se constitui em espaço privilegiado para apropriação das
potencialidades da intervenção, na medida em que se vê frente às diferentes
expressões da vida cotidiana, as quais formam um mosaico que, dependendo do
modo que se debruçar sobre ele, permite uma apreensão totalizante da realidade
nas suas variadas dimensões e, em consequência, a construção de uma prática de
espectro abrangente.

Assim, para desencadear um processo de desvelamento do que se oculta


nas práticas cotidianas dos assistentes sociais e, concomitantemente, apreender as
possibilidades do “novo”, faz-se necessária a incorporação da ação investigativa
como instrumento para o exercício profissional. A investigação possibilita o
resgate e a reconstrução da ação cotidiana dos assistentes sociais, capturando
suas determinações e seus nexos através de estudo reiterado e crítico da realidade
social.

194
TÓPICO 3 | OUTRAS CARACTERÍSTICAS INSTRUMENTAIS DA AÇÃO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL

A inserção da perspectiva investigativa na ação impõe-se como exigência


básica e angular da profissão e não mais como algo opcional. Neste sentido, o
pesquisador deixa de ser mero observador do real, prevalecendo o primado da
relação sujeito/objeto, dialetizado por uma teoria consistente capaz de ultrapassar
o limite do objeto e construir um novo saber.

Nesta perspectiva, a ação investigativa permite romper com as práticas


puramente descritivas de cunho factual, reducionista, ingênuo e acrítico, para uma
apreensão de “algo mais” do real investigado. Isto significa ajudar o profissional
a traduzir no concreto cotidiano o seu conhecimento, tendo o espírito indagativo
como condição fundamental para o exercício profissional.

Esta assertiva fundamenta-se na perspectiva apontada por Vázquez:


“a prática é o fundamento e limite do conhecimento e do objeto humanizado
que, como produto da ação, é objeto do conhecimento” (1979, p. 154), ou seja, a
prática é o ponto de partida e a base para aferir e validar o conhecimento, como
também estabelecer “o critério de sua verdade, precisando, para tanto, “plasmar-
se, adquirir corpo na própria realidade, sob a forma de atividade prática”.
(VÁZQUEZ, 1979, p. 155).

Este processo constitui-se na elaboração teórica sobre os dados empíricos,


com intuito de colocar em movimento um rigoroso esforço de criação intelectual
para construção das categorias analíticas práticas. Essas categorias se constituem
em ferramentas intelectuais que permitem não apenas analisar e explicitar a
realidade social – mediante articulação com a teoria, ultrapassando o limite da
acumulação de dados, para um reiterado questionamento do real –, mas também
construir um saber/fazer sobre esse real.

Na medida em que o homem sente a necessidade de produzir algo novo,


encontra na práxis criadora o espaço que “permite enfrentar novas necessidades,
novas situações”. (VÁZQUEZ, 1979, p. 247). Acrescentaríamos a essa reflexão de
Vázquez que o “novo” não significa necessariamente “outro”, pode ser produto
do “novo olhar” lançado sobre coisas já vivenciadas.

O criativo já está inscrito no cotidiano das práticas como uma possibilidade,


mas a sua concretização implica um exercício consciente de vontade dos
profissionais.

Para enfrentar este desafio, faz-se necessário contar com uma ação
investigativa que tenha uma nítida preocupação com a prática, de forma a
garantir um nível de reflexão que permita não apenas apreender o real imediato
com suas contradições, mas também desvelar o que está oculto no aparente. Deve,
ainda, possibilitar, além do resgate dialético das dimensões que dão movimento
à prática profissional – dimensão do fazer e a do pensar – a percepção dos meios
de sua superação.

195
UNIDADE 3 | A APLICABILIDADE DOS INSTRUMENTOS E TÉCNICAS NO EXERCÍCIO PROFISSIONAL

A ação investigativa dá aos profissionais a oportunidade de pensar em


si mesmos e no seu fazer profissional. Isto requer, dos profissionais, disposição
de analisar e refletir, de forma aberta e transparente, suas ações, seus dilemas
e falsos dilemas, imbuídos pelo interesse em desenvolver uma ação planejada,
resultante daquela reflexão, permitindo o enfrentamento de suas questões
operativas principais. A intenção de desvelar as práticas ocultas do cotidiano só
pode efetivar-se a partir da e na ação profissional.

Este momento caracteriza-se pelo encontro com o desconhecido. Isto


significa ir além do discurso parcial, fragmentado, pela simples reprodução do
já produzido, mas descobrir algo que ainda não foi partilhado na construção do
saber. Deste modo, a ultrapassagem da totalidade parcial para a totalidade mais
complexa no interior da prática se faz pela relação pensamento/realidade.

É na própria ação cotidiana dos profissionais que se busca resgatar as


categorias particulares, empíricas, que dão movimento à sua intervenção, o
que implica ir além da visão limitante e aparente do cotidiano, reconstruindo o
objeto da intervenção, que antes parecia descontínuo, dando-lhe uma dimensão
histórica.

Assim, a categoria da mediação é apreendida como expressão concreta


do processo de passagem que o profissional realiza na medida em que supera a
leitura do aparente imediato para imprimir uma direção crítica ao conjunto de
suas práticas cotidianas.

A construção dessas categorias exige dos profissionais o que Ianni


(IANNI, 1986, p. 4) classificou como uma reflexão obstinada, interrogando o real
reiteradamente para desvendar do real aquilo que não está dado, o que não é
imediatamente verificado. Isto significa o encaminhamento da reflexão no sentido
de superar o nível da aparência, tornando o objeto investigado cada vez mais rico
e transparente, pela via da argumentação.

Essas categorias são elementos fundamentais que subsidiam a


compreensão, a explicação e a recomposição do objeto investigado em sua
totalidade. É necessário perseguir um circuito dialético de retorno às práticas
cotidianas, ultrapassando assim, o limite da particularidade para a universalidade
do conhecimento que a prática possibilitou construir.

A pista a ser perseguida para avançar nessa assertiva foi sinalizada por
Konder, quando afirma que

[...] qualquer objeto que o homem possa perceber ou criar é parte


de um todo. Em cada ação empreendida, o ser humano se defronta,
inevitavelmente, com os problemas interligados. Por isso, para
encaminhar uma solução para os problemas, o ser humano precisa
ter certa visão de conjunto deles: é a partir da visão de conjunto que
a gente pode avaliar a dimensão de cada elemento do quadro. Foi o
que Hegel sublinhou quando escreveu: “A verdade é o todo”. Se não

196
TÓPICO 3 | OUTRAS CARACTERÍSTICAS INSTRUMENTAIS DA AÇÃO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL

enxergamos o todo, podemos atribuir um valor exagerado a uma


verdade limitada (transformando-a em mentira), prejudicando a nossa
compreensão de uma verdade mais geral. (KONDER, 1981, p. 37).

Nesta perspectiva, a ação investigativa permite aos assistentes sociais em


suas práticas cotidianas:

a) desdobrar as múltiplas determinações que constituem o cotidiano da prática


profissional, num esforço de apreendê-lo de forma diferente daquela percebida
no momento da sua singularidade e na sua imediaticidade;

b) avançar no desenvolvimento de estratégias pedagógicas capazes de mediar a


dimensão do senso comum com a produção de conhecimento;

c) colocar os profissionais em permanente diálogo com o pensamento crítico


contemporâneo;

d) subsidiar os profissionais na emissão de respostas qualificadas às demandas e


necessidades da prática;

e) apreender e traduzir, no concreto real, o conhecimento acumulado ao nível da


teoria social e das teorias mediadoras;

f) construir um conhecimento novo, crítico e criativo, capaz de iluminar e


subsidiar a prática cotidiana, possibilitando ao profissional apropriar-se de
um saber para a construção de um fazer competente.

Assim, da interlocução entre as ações investigativas e as diferentes formas


de pensamento e de ação acerca da situação concreta vivida no cotidiano dos
profissionais, é que está a possibilidade de emergir um novo significado de
prática.

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197
RESUMO DO TÓPICO 3

Neste tópico estudamos outras características instrumentais da ação


profissional do assistente social e foram abordados os seguintes itens:

• A mediação é uma metodologia de resolução de conflitos aplicável aos mais


diferentes campos de atuação.

• Os assistentes sociais também utilizam a mediação como estratégias de


enfrentamento de conflitos sociais.

• A mediação nada mais é do que uma negociação assistida.

• O processo de negociação se encontra presente em praticamente todas as


relações entre pessoas e entidades ou entre pessoas e pessoas, abrangendo as
mais diversas situações da vida e do cotidiano social e organizacional.

• O ambiente dos conflitos sociais é uma grande mesa de negociação e


relacionamentos, e os profissionais do serviço social estão em constante
negociação.

• Nas pequenas ou grandes negociações, o que faz a diferença é a atitude.

• A negociação é um processo social utilizado para resolver conflitos em situações


em que não existem regras, tradições, fórmulas, “métodos racionais” ou o poder
de uma autoridade.

• O ponto-chave na negociação ou mediação de conflitos está nas concessões.

• Algumas características da mediação:

ᵒ a mediação é um “componente estrutural do ser social”;

ᵒ mediações são categorias instrumentais;

ᵒ a mediação é voluntária.

198
AUTOATIVIDADE

1 Caro(a) acadêmico(a), escreva no quadro a seguir as principais características


de cada CATEGORIA TEÓRICA trabalhada.

CATEGORIA CARACTERÍSTICAS PONTOS POSITIVOS PONTOS NEGATIVOS

MEDIAÇÃO

NEGOCIAÇÃO

199
200
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