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Relatório - A Grande Ilusão

Ana Flávia Ramos Tolentino

Referência: Angell, Norman. A Grande Ilusão. Tradução: Sérgio Bath. 1ª. ed.
Brasília: Universidade de Brasília, Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais,
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2002.
Contexto:

As teorias da RI eram discutidas antes da guerra dentro do Direito e da Economia,


mas não existia uma ciência específica para estudá-las. Quando aconteceu a
Primeira Guerra Mundial, todos tinham a ideia de que a paz armada garantiria a
segurança nacional.

Na pré-Primeira Guerra, os Estados europeus estavam se desafiando para se


tornarem as grandes potências do continente, a Alemanha estava crescendo,
enquanto França e Inglaterra eram grandes concorrentes.

Depois que a Primeira Guerra acabou, foi necessário observar as suas


consequências para discutir como evitar uma nova guerra. É nesse ponto que as
teorias da RI entram. Houve um declínio na ordem internacional e
consequentemente houve uma necessidade em entender o sistema internacional.
Os hoje denominados idealistas, naquele momento se viam como liberalistas, muito
inspirados pelos pensadores contratualistas, como Locke e Kant.

Autor:

Norman Angell era um economista britânico que trabalhava pela paz internacional,
sendo premiado pelo Nobel da Paz em 1933. Ele trabalhou nos Estados Unidos
como jornalista e quando retornou à Europa, continuou trabalhando em jornais.
Publicou seu livro “A Grande Ilusão” em 1910, trazendo à tona a falácia da ideia de
que conquistas e guerras traziam para uma nação grande vantagem econômica.
(ENCYCLOPEDIA BRITANNICA, 2020).

Obra:

Na obra, Angell critica a ideia da paz armada, e afirma que se todos os Estados e
atores buscam maximizar o seu interesse de forma egoísta, buscando se
industrializar de uma forma militarista, a partir de um nacionalismo conservador,
então essa paz armada em última instância irá levar à guerra. Se todos os estados
estão armados e se vêem como rivais e não cooperarem entre si, não haverá outra
saída. A grande ilusão que Angell fala é justamente essa paz armada. No livro,
Angell propõe a mudança de pensamento, na criação de mecanismos para construir
a paz, através de cooperação e compreensão do contexto em que vivemos.

Na leitura do capítulo 3 da primeira parte, o primeiro motivo que leva Angell a crer
que a guerra é uma ilusão, é o fato de que a guerra destruiria parques industriais,
comércios e riquezas naturais. Isso seria um problema não só para o Estado
afetado, mas para toda a ordem internacional, pois afetaria as relações comerciais
entre nações. Além disso, a população local de cada Estado é totalmente
dependente da sua economia e tais ataques seriam responsáveis pela sua
destruição, o que prejudicaria a economia não só local, mas como um todo.

Como consequência, o mercado financeiro seria prejudicado, não havendo como


eliminar a competição com rivais através da conquista. Sendo assim, a melhor
maneira de um país prosperar, é deixando a economia na mão dos seus habitantes,
pois dessa forma seus recursos podem crescer, sem a necessidade de poder
militar.

No capítulo seguinte, Angell discorre sobre o fato de que o domínio territorial de


outra nação não garante benefícios para o conquistador, afinal o domínio e a
superioridade armamentista não são capazes de suprir o comércio e a indústria
daquele local. O capitalismo industrial criou uma co-dependência entre os Estados,
em que cada país tem a sua função na criação de bens e serviços, sendo que um
país sozinho, não conseguiria se sustentar.

Na segunda parte do livro, no capítulo dois, o autor argumenta que os Estados não
devem tentar se transformar em máquinas de guerra, devendo em vez disso, fazer
reformas políticas, além de possuírem meios de defesa efetivos contra invasores.
Ele faz duras críticas à Inglaterra ao longo do capítulo, afirmando que o
comportamento dos ingleses, que achavam que ninguém tinha coragem de
enfrentá-los, é totalmente ilusório. Além disso, se os países decidissem criar uma
corrida armamentista, eles se afundariam nisso de forma a terem gastos públicos
exorbitantes, pois não focariam nas necessidades da população.

Já no capítulo três, Angell afirma que para entender melhor o assunto, é necessário
entender a causa da guerra. Ele se baseia na ideia de que os homens se
movimentam pela emoção, em vez da razão. É claro que no dia a dia um estadista
se utiliza da razão, mas quando a argumentação pode ser facilmente vencida, o ego
faz com que o conflito físico pareça necessário. Dessa forma, o autor acha
importante termos em mente que a guerra é algo fútil, causado por políticos que
muitas vezes deixam a razão de lado. A solução seria uma reforma política, em que
os responsáveis fossem capazes de chegar a um acordo, uma negociação, ao invés
de combate físico.
E por fim, no capítulo quatro, o autor quer provar que as tentativas para manter a
paz feitas até então foram um fracasso, o que alimenta mais a corrida armamentista.
Para Angell, os governantes devem tomar decisões com base na opinião dos seus
governados, para só assim, atingirem de fato a paz. Porém, não é isso que
acontece. Enquanto os líderes não entenderem o que a guerra pode fazer na
economia e no comércio, ela não deixará de existir. A cordialidade deve estar
sempre presente no contato entre homens civilizados nas relações internacionais,
mas ela nunca existiu de fato.

Comparação com o realismo:

Os realistas vão estar olhando para os idealistas no período entre guerras e afirmar
que os idealistas têm pensamentos utópicos, e não realistas. Carr fala que é
necessário ter um mínimo de pensamento utópico e carga normativa de um certo
pensamento teórico, só que, para conseguir sucesso, você precisa perceber as
coisas como elas são. Se o mundo é militarista e conservador, se o sistema
internacional impõe que os Estados devem cuidar de si mesmos, assim é o mundo e
a cooperação entre Estados é ilusório.

Enquanto os idealistas analisam a política internacional através da democracia


liberal, livre comércio e direito internacional, os realistas consideram essas
construções muito frágeis, pois elas não trazem garantia a longo prazo. Nesse caso,
o Estado continua sendo uma entidade que em última instância faz valer o seu
interesse individual, baseado em acúmulo de poder e em uma lógica racional, que
ao tempo todo considera as ameaças.

Voltando para os contratualistas, Hobbes afirma que se nós não tivermos alguém
acima dos indivíduos para impor ordem, eles irão fazer o que quiserem e quando
quiserem, portanto, o mais forte irá impor a sua força ao mais fraco.

REFERÊNCIAS
ANGELL, Norman. A Grande Ilusão. 1. ed. Brasília: Universidade de Brasília,
Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais, Imprensa Oficial do Estado de
São Paulo, 2002. 304 p.
PARROTT-SHEFFER, Chelsey. Sir Norman Angell: British economist.
Encyclopaedia Britannica. 2020. Disponível em:
https://www.britannica.com/biography/Norman-Angell. Acesso em: 25 mar. 2021.

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