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rama.org.br

MÓDULO 6
zoneamento
permacultural

2020 Instituto de Permacultura da Pampa - 20 anos | Escola Rama - 10 anos


curso online: Tati e João Rockett ensinam Viver no Campo
@rama.permacultura
Instituto de Permacultura da Pampa

idealização e conceituação
TATIANA CAVACANA

textos e imagens
TATIANA CAVAÇANA e JOÃO ROCKETT

ilustrações
LEANDRO HENNEMANN - DÔSHU

Todos os direitos reservados.


Material exclusivo do Curso Tati e João Rockett ensinam Viver no Campo

Copyright©2020 de IPEG | IPEP | Rama Permacultura


Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida ou usada sem
autorização expressa, por escrito, dos autores ou editores, exceto pelo uso de citações com
referência.
2a edição, 2020
ISBN 978.65.81501.00.6
Editora Rama Permacultura

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instagram: @rama.permacultura
1 energias internas
Permacultura é essencialmente o gerenciamento de energias e forças criadoras e decompositoras. O zoneamento da
Permacultura trabalha com as energias internas do terreno. As energias internas são as forças de trabalho que você tem ou que pode
aplicar na área e inclui a força gísica das pessoas e dos animais, a força de máquinas, ferramentas e, principalmente, as conexões
entre os elementos. Conexões de apoio mútuo em zoneamento signigica aproximar os sistemas que precisam de mais cuidados e
afastar os que possuem maior autonomia inerente, gradativamente no espaço do terreno e em relação com ele.
Cada elemento em um sistema é colocado em relação ao outro de maneira que se ajudem mutuamente, otimizando espaço
e energia; essa é a base da localização dos elementos a partir de zonas e de setores.
O gerenciamento das energias internas organiza o gasto de energia humana para manejar os elementos que estão no
terreno e para escolher o local de implantação. E, para realizar isso, consideramos como elemento tudo o que temos ou que vamos
construir na área: lago, casas, pomares, horta, animais isolados ou em grupos, estradas, entre outros. É importante saber que é
necessário percorrer distâncias e conectar sistemas para que existam ligações positivas e, não, desperdício. Esse planejamento por
zonas, que visa reduzir o desgaste das energias internas e potencializar as conexões, é a principal ferramenta para reduzir o trabalho
desnecessário na área, para diminuir resíduos e, ainda, diminuir a necessidade de insumos.
Imagine uma casa a ser construída num determinado terreno: a primeira coisa é fazer um projeto, seja você sozinho ou
com a ajuda de algum progissional. Em seguida, é preciso pegar linha, estacas e marcar o chão; após essa etapa, divide-se o espaço em
quarto, sala, cozinha, garagem. Quando começar o alicerce e andar pelo espaço que você marcou, a sensação é de que tudo é
pequeno, pois não existindo ainda paredes, o referencial para nossa percepção é a área externa, e a área externa é maior do que a
casa. Nessa fase, parece que os objetos e os móveis não vão caber dentro da casa. Por isso, é bastante comum, nas fazendas onde não
são feitos projetos de construção, os cômodos serem desproporcionais, com banheiros e salas muito grandes, porque no momento de
riscar o alicerce e de construir baldrames, tudo parece pequeno, e, então, antes de subir as paredes, a casa é aumentada. Mas é uma
ilusão de ótica.

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Quando as paredes estão levantadas, a casa já parece maior do que parecia no alicerce. Passados mais uns dias, com a
colocação do telhado, das portas e das janelas, a casa parece mais ampla e, ao terminar o piso, o espaço parece muito maior para a
percepção visual. Quando a casa é ginalizada e mobiliada, ginalmente, o espaço mostra o seu tamanho. Assim, a noção de tamanho de
uma construção altera-se em função do referenciamento, ou seja, se estamos usando como referência elementos da paisagem que é
ampla ou se estamos usando como referência as próprias paredes da casa, a percepção muda em relação aos objetos. Esse exemplo
nos permite agirmar que, com o terreno, acontece o mesmo. O espaço “aumenta” e mostra todo o seu potencial conforme inserimos
nele elementos e fazemos as conexões entre eles. Isso é realizado observando-se a energia, ou seja, o potencial de trabalho interno
(zoneamento permacultural) e externo (setores da Permacultura), ambos combinados com as características de paisagem.
O planejamento deve ter perspectivas de curto, de médio e de longo prazo. Devem, também, incluir as aspirações e sonhos,
não apenas para que se realizem, mas porque assim é possível acompanhar o desenvolvimento da área e reprogramá-la conforme a
necessidade. Paisagem é processo; tudo é construído no tempo em ritmos muito variados: plantas com diferentes ciclos, animais de
diferentes tipos, as transformações que trazem sinergia. O termo “fazenda” vem do latim facienda que signigica fazer, obrar, executar,
ou coisas que devem ser feitas, e nos faz lembrar que ali estamos construindo algo que se faz continuamente; assim como não nos
constituímos como seres em apenas um dia, mas somos criados e recriados continuamente, também a natureza e a paisagem nascem
a cada dia se são construídas de maneira constante, perpétua e dinâmica.
No princípio, o seu terreno pode parecer pequeno. Porém, quando começar a colocar nele os elementos - a casa, a horta, o
pomar, uma casinha para ferramentas e for dividindo os espaços para cada função, ele parecerá bem maior. Ao deginir o acesso à
casa, os caminhos, as lavouras, as glorestas, os potreiros para animais, tudo vai gicando maior. É bom lembrar que, para que o
trabalho não seja excessivo, é preciso justamente entender as energias internas, ou seja, as zonas da Permacultura. As zonas são um
princípio e uma das ferramentas de planejamento da Permacultura, para reduzir o despertício energético e a entropia dos sistemas.
Por ser um princípio de manejo energético é escalonável para qualquer dimensão de terreno, pois trata de um conceito aplicado para
manejo egiciênte de forças em função do tempo disponedido, da frequencia de cuidados e das exigências de manutenção em relação à
distância que é necessário percorrer para chegar a esses sistemas.

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O planejamento por zonas resulta em economia da sua energia em relação aos elementos que estão dispostos no espaço,
resulta em redução de entropia e de desperdício através das conexões positivas entre os elementos conforme foram distribuídos no
espaço e, consequentemente, do acúmulo de recursos para exercer novos trabalhos. Recurso é energia armazenada.
O zoneamento da Permacultura dimensiona o projeto conforme a disponibilidade energética para alcançar o ótimo e, não,
para forçar os sistemas ao máximo desgastante. Os ritmos, os ciclos e os padrões naturais trabalham no ótimo, na excelência, e não no
excesso e no desgaste; para semear a cultura de permanência, a Permacultura, é preciso imitar as leis naturais e compreender o
poder dos limites. A lógica é descrever quais sistemas exigem mais atenção e trabalho. Os elementos que precisam ser atendidos com
maior frequência devem gicar mais próximos do maior centro energético do lugar e estarem conectados em relações íntimas ou, até
mesmo, devem ser intercalados para reduzir a necessidade de trabalho.
O centro de maior energia é aquele em que as pessoas permanecem por mais tempo, normalmente, a casa principal ou
galpão de ferramentas, dependendo do tipo de área rural. São os lugares onde as pessoas circulam mais e desenvolvem mais
atividades, aqueles usados com maior frequência ou repetição. Logo, nas imediações do centro de maior energia concentrada, estão
os sistemas, estruturas e materiais mais utilizados. Esse sistema assemelha-se a quando nos organizamos para, em uma tarefa,
colocar o mais necessário logo ao alcance da mão, o que reduz energia de trabalho, de deslocamento pessoal e de transporte de
materiais. Por exemplo, a horta de superexistência, que atende às necessidades diárias da cozinha, deve gicar próxima da cozinha, as
ferramentas que você poderia usar para entalhar madeira, precisam estar ao alcance das mãos, próximo à bancada de trabalho,
óbvio? Sim, totalmente, mas frequentemente erramos justamente no habitual e no comum, diariamente.

“Você pode passar a vida


viajando ao redor do mundo,
procurando o Jardim do Éden, ou
você pode criá-lo no seu quintal.”
K. K. Nguyen
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As glorestas de alimento foram uma base fundamental da pesquisa e do trabalho de Bill Mollison para organizar a
Permacultura, por isso, ele descreve os melhores sistemas com árvores, e dedica um capítulo inteiro do seu manual às árvores. Em
razão disso também, escrevemos o livro Irmã Árvore: ser incrível do reino vegetal, porém, nem as árvores, nem os sistemas
agroglorestais vivem em isolamento, mas estão conectados com seu entorno, e foi isso que Bill Mollison entendeu desde o começo. A
Amazônia é um sistema bastante autônomo, mas não vive sem suas relações com o Sol, o clima, a posição geográgica e tudo que existe
ao seu redor, como atesta, ainda, a sua dependência intrínseca ao Cerrado brasileiro. Os melhores sistemas e os mais autossugicientes
também precisam de conexões.
Para exempligicar, acompanhamos a implantação de um sistema agroglorestal cheio de problemas em si, mas com muito
mais problemas de zoneamento. Esse sistema foi colocado longe do centro de trabalho, e não foi criada uma estrutura de trabalho ao
redor dele; esse é o primeiro equívoco básico, de zoneamento, que leva a uma expansão sem conexão com as estruturas que já
existem no lugar. O local era mais propício para criar um reservatório de água, que poderia se integrar com a vocação natural da
paisagem e contribuir com ela criando sistemas sinérgicos e neguentrópicos; esse foi o segundo erro encontrado no local e que
estava relacionado diretamente com a leitura da paisagem. O sistema incluía produzir hortaliças enquanto as árvores cresciam,
porém, hortaliças pedem atendimento mais frequente e tornam-se mais vulneráveis em sistemas recém-implantados que ainda não
possuem a estabilidade e a resiliência dos sistemas naturais, enquanto glorestas nencessitam de menos atenção para serem
implantadas. Hortaliças estão, normalmente, mais sujeitas aos ajustes ecológicos, como ataques de formigas, de insetos e de outros
animais; e esse foi o terceiro erro, o desperdício de energia, de trabalho e de sementes por falta de visão de processo. Por gim, nada
vingou, nem as hortaliças, nem a gloresta, salvo algumas espécies mais resistentes, as frutíferas e as hortaliças sucumbiram; restaram
somente as árvores mais rústicas, que lutam contra o alagamento natural dessa área do terreno. Acompanhamos outro projeto, com
uma área de banhado que foi transformada em gloresta. Nesse caso, o custo de drenagem foi tão alto que, até hoje, não compensa o
esforço e, sendo baseado em podas constantes, nunca alcança o estado de sinergia natural dos ecossistemas criados com a lógica da
redução de entropia e de desperdício do método de Permacultura, porque trabalham contra a tendência natural do lugar e não favor
da natureza.

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O zoneamento de Permacultura evita erros óbvios, desperdício de tempo e de recursos em projetos que não se
sustentam, que criam trabalho excessivo ou necessidade de manutenção constante.
A solução, nos casos citados, seria criar os sistemas agroglorestais em zonas mais próximas ou criar estruturas de
trabalho, e escolher áreas mais drenadas e propícias para gloresta, evitando implantar conjuntamente cultivos em dessincronia que
não podem se adequar às condições de gloresta e de implantação de sistemas. O correto seria realizar o trabalho em uma ordem de
sucessão em que uma planta ajudasse a outra, e cada fase preparasse a próxima. Foi assim que foi feita, em apenas quatro anos, a
recuperação e a implantação de uma gloresta de alimentos de forma simultânea, conforme as imagens ao lado. Trabalhando com
gramíneas, para produzir carbono e biomassa, seguidas de leguminosas, depois de arbustos maiores e, assim, sucessivamente, até
chegarmos ao clímax, com árvores frutíferas e madeireiras de gloresta, conseguiu-se esse resultado. Existe uma lógica de trabalho na
Permacultura, que é observar e cultivar em relacionamento positivo com a paisagem e com as pessoas, e não seguindo processos
desordenados e alienados. Portanto, para seguir esse método, devemos organizar as zonas e as energias internas e combiná-las com
as suas outras ferramentas: setores, padrões, ponto-chave e leitura da paisagem, criando um organismo agrícola coeso e saudável.

"A trágica realidade é que pouquíssimos sistemas


sustentáveis são projetados ou aplicados por aqueles que
detêm o poder, e a razão disso é óbvia e simples: deixar as
pessoas organizarem seus próprios alimentos, energia e
abrigo é perder o controle econômico e político sobre
elas. Deveríamos deixar de procurar estruturas de poder,
sistemas hierárquicos ou governos para nos ajudar, e
criar maneiras de ajudamos a nós mesmos.”
Bill Mollison
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3
1

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zona zero
Na Permacultura, o zoneamento é identigicado com números de zero a cinco, sendo zero a zona de maior frequência e
intensidade energética, e a zona cinco, a de menor intensidade e uso.
A zona zero é o epicentro da área agrícola, é o centro de maior energia e, normalmente, é a casa. Uma casa, nosso abrigo
principal, é onde fazemos mais atividades e com maior regularidade: tomar banho e todas as ações relacionadas à higiene pessoal,
cozinhar, descansar e, além disso, muitas pessoas agregam a ela escritórios e outros espaços de trabalho. Assim, entramos e saímos
da casa muitas vezes, e usamos os seus espaços com muita intensidade. O galpão de trabalho, no campo, é também um elemento de
alto gluxo: tirar e guardar ferramentas, armazenar materiais, abrigar e nutrir animais, guardar máquinas e implementos, utilizar
bancadas de trabalho e, ainda, incluir ogicinas, como marcenaria, serralheria ou uma pequena ogicina multiúso.
Como sempre lembramos, as conexões entre os elementos são tão importantes quanto os próprios elementos. Um objeto ou
sistema mal posicionado pode criar mais problemas do que soluções, por exemplo, na assessoria que fazemos para agricultores, é
comum encontrarmos problemas com saneamento: o esgoto normalmente não é tratado, e é simplesmente lançado em um
sumidouro, que o esconde de nossa vista, mas não elimina os problemas que o esgoto não tratado causa. O posicionamento
equivocado tem causado contaminação de água de poços e de açudes, e quando o sistema de saneamento está subdimensionado ou o
sistema não funciona, o material contaminante é encontrado na supergície do terreno, gerando muitos casos de contaminação em
crianças (que brincam no chão e deixam cair objetos e, depois, os colocam na boca) e, também, em adultos. Novamente, exemplos
óbvios que causam muitos problemas por falta de conexões positivas no zoneamento.
O zoneamento, além de reduzir o desperdício da energia interna, vai potencializar os elementos ligando-os em relações
sinérgicas; dessa forma, logo ao redor do epicentro da zona zero, existem muitos pequenos espaços para produzir alimentos de uso
diário, ervas para chá, sistemas de captação e de armazenamento de água, manejos de microclima para diminuir a temperatura da
casa, ou seja, manejo dos recursos usados mais intensamente. A zona zero é de onde partem os caminhos. As estradas chegam na
casa; da casa saem as trilhas para os sistemas do sítio. Produtos agrícolas chegam no galpão e, dele, saem outros produtos; é uma
zona de alta frequencia de onde a energia concentrada se dispersa para realizar um trabalho produtivo.

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zona 1
As zonas zero e as zonas um são áreas visitadas diariamente, com maior intensidade na primeira e menor na segunda; o
zoneamento, no método de Permacultura, serve para facilitar o planejamento e o trabalho futuro, tornando tudo mais natural e fácil
de cuidar. Não é necessário gixar-se à informação, mas, ao contrário, ela serve para ser aplicada e criar gluxo na área. Simplesmente
coloque os sistemas, elementos e materiais que precisam de maior cuidado mais próximos da zona zero.
Independentemente do tamanho do terreno, se é um pequeno quintal, sítio ou uma grande reserva ambiental, o trabalho que
necessita de mais energia e de mais atenção deve gicar mais próximo da zona zero. Pode haver mais de uma zona zero na área, elas
sempre serão centros de dispersão de energia interna mais concentrada, ou seja, que chega com menos intensidade nas outras zonas,
quando organizamos a área para reduzir desperdício e potencializar as energias.
A zona um é a que está mais próxima da zona zero e inclui estruturas que precisam de atendimento diário: pequenos
animais, como galinhas, marrecos e patos podem gicar nessa área porque é necessário alimentá-los diariamente, recolher seus ovos e
estarmos próximos para cuidar deles; a horta de superexistência ao redor da casa oferece hortaliças, ervas para chá, temperos e
alimentos frescos de uso diário, portanto, precisa gicar perto da cozinha; também devem estar nas redondezas reservatórios de água,
abrigos para ferramentas, máquinas usadas no trabalho diário e composteiras. A lógica é: quanto mais usado um elemento, sistema,
ou material, mais perto do lugar onde você passa mais tempo ele deve gicar.

"A Permacultura nos dá um kit de ferramentas


para passar de uma cultura de medo e escassez
para uma cultura de amor e abundância”
Toby Hemenway
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Avalie o custo energético sempre, pois isso se trata de otimizar as energias internas reduzindo desperdício. Para exempligicar
essa agirmação, imagine um galinheiro que gica a 100 metros da casa; se você for lá uma vez por dia, no mínimo, para alimentar as
aves e recolher os ovos, você terá que andar 200 metros. Multiplicado por 360 dias, serão 72 quilômetros caminhados por ano.
Porém, se o galinheiro estiver a 10 metros de casa, você vai andar menos, 7,2 quilômetros por ano, além disso, poderá ouvir se algum
predador atacá-lo, além de cuidar melhor dele, acompanhá-lo mais de perto, ou usar esse tempo para outra coisa. Se a horta estiver
na rota do galinheiro, cada vez que você colhe verduras, já pode colocar folhas mais velhas e tudo o que não vai ser aproveitado, no
galinheiro, e deixar isso lá para ser ingerido e compostado pelos animais. Depois, tudo retorna para a horta, no esterco rico em
fósforo que as galinhas produzem. No galinheiro, agregam-se outras funções e na horta também. Se você estiver num clima frio, pode
colocar o galinheiro dentro da estufa, que pode estar na zona um, assim vai gerar mais calor nas noites frias de inverno. Isto porque
as galinhas liberam muito calor e, ao gicarem protegidas e aquecidas pela estufa que guarda o calor que elas produzem, as plantas se
benegiciam disso e todo o sistema gica mais simples. Parece pouco, mas quando somamos as horas de trabalho e deslocamento
dedicados a todas as atividades do sítio, cada minuto é signigicativo.
Quanto mais natural ou selvagem o sistema, menos aporte de trabalho e tempo será necessário para mantê-lo, portanto ele
pode gicar mais distante já que o deslocamento até áreas de pouca manutenção é menos frequente. No entanto as zonas zero e as
zonas um são o oposto, são sistemas cultivados ou construídos que necessitam de maior atenção e cuidado.

“Andando em uma Yloresta antiga ou mergulhando em um recife de corais, senti uma vivacidade, uma sensação
de muitas peças entrelaçadas se unindo em um todo vivo e dinâmico. São lugares que naturalmente exalam
abundância. Infelizmente, esse sentimento estava ausente em qualquer paisagem feita pelo homem que eu já
havia experimentado. Paisagens naturais parecem tão ricas; elas fervilham de atividade; elas cantarolam com a
vida, em comparação com a nossa. Por que a natureza pode espalhar uma abundância desordenada pela
Yloresta ou pradaria com uma graça descuidada, enquanto nós, humanos, lutamos para cultivar algumas Ylores?
Por que nossos jardins oferecem tão pouco para o resto da vida? Nossos quintais parecem tão unidimensionais,
apenas lugares simples que oferecem alguns vegetais ou Ylores, se é esse o caso. No entanto, a natureza pode
fazer mil coisas ao mesmo tempo: alimentar insetos e pássaros, cobras e veados, e oferecer-lhes abrigo; colher,
armazenar e puriYicar a água; renovar e enriquecer o solo; limpar o ar e perfumá-lo; e assim por diante.”
Toby Hemenway
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zonaS 2 e 3
A zona dois, seguindo essa ideia, gica mais distante das habitações e dos lugares de uso intenso, pois aqui gicam elementos
que necessitam de manejo, mas com menor intensidade do que nas zonas zero e um. Algumas frutíferas de médio porte, potreiros,
pequenas agroglorestas, áreas para animais menores como patos, gansos, coelhos, codornas, meliponicultura e tanques pequenos de
aquicultura podem fazer parte desta zona. Ela também oferece proteção à zona um; nela, conexões positivas como fornecimento ou
escoamento de água, projeção de sombra e luz com uso de vegetação e açudes, material para incrementar carbono no solo, entre
muitas outras funções podem ser aqui implantadas e conectadas. E ainda pequenos lagos, locais para manejo de pequenos animais,
açudes com peixes. Também lá podem estar as hortas e pomares comerciais e os sistemas maiores de administração de água, como
lagos e reservatórios para irrigação.
Na zona três, podemos posicionar um sistema de agrogloresta, pomares que não precisam de muitos cuidados e aos quais
podemos dar menos atenção; nessa zona, ainda temos os pastos para os animais maiores, o plantio de grãos e de lenha para
abastecimento da casa, e as colmeias. Essas áreas todas vão estar conectadas umas às outras; as zonas não são necessariamente
delimitaçoes gísicas, divididas com cercas e barreiras, mas a disposição dos sistemas conforme a intensidade de uso. O importante é
entender que o seu gerenciamento está ligado diretamente ao consumo de energia do seu corpo, ou seja, o quanto você precisa
caminhar até elas, carregando ou não ferramentas, para atender a essas atividades e, assim, gica deginida a zona em relação ao seu uso
e a sua distância. Outro fatores que podem deginir o zoneamento são o acesso, a umidade do terreno em questão e ainda as
determinações legais que caracterizam áreas de proteção permanentes, tornando-se estas, zonas quatro ou zonas cinco, conforme a
congiguração local.
"A permacultura não é o movimento da sustentabilidade e não é a
YilosoYia por trás disso; é a abordagem de resolução de problemas que o
movimento e a YilosoYia podem usar para atingir seus objetivos e
projetar um mundo em que as necessidades humanas sejam atendidas,
enquanto melhoram a saúde deste planeta milagroso que nos apoia.”
Toby Hemenway
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Aquicultura
Área do lago, implantação
de sistema de aquicultura
com chinampas.
Zonas 1 e 2

lago
Áreas imediatamente
ligadas às casas, que
exigem manejo diário,
como hortas e criação
de pequenos animais.

roçado

Zona 4
Zona 3 Avanço do campo aberto sobre a
Culturas comercias e de
subsistência que não
Zona 5 mata. Área destinada à
reflorestamento a fim de que torne-
necessitam de manejo banco genético, se uma Zona 4, contendo SAFs com
diário, introdução da área intocada. árvores para madeira, frutos e óleos,
floresta de alimentos. criação de corredores vegetais e
aumento de capões para unir os
capões de mata.
zona 4
A zona quatro é um lugar mais longe da casa, onde você vai menos, ela também pode se caracterizar por ser um lugar de
mais digícil acesso, ou onde a terra é pior, e, portanto mesmo que esteja próximo da zona zero, sua frequencia de visita ao lugar será
menor. Se em sua área há um lugar com agloramento de rocha, terra exposta, terreno degradado ou muito inclinado e que seja digícil
manejar, por vezes, a sua terra pode ser dividida por uma estrada ou por um rio, ou seja, os locais nos quais você teria que gastar
mais energia para acessar, manejar, podem constituir a sua zona quatro.
Normalmente, esse é o local menos visitado do terreno, se a terra for grande, pode haver mais de uma zona quatro. Nesse
lugar, você pode planta a madeira para o futuro, e implantar sistemas que funcionam como a aposentadoria do agricultor: como uma
gloresta extrativista, por exemplo, que fornece muitos recursos e precisa de pouca manutenção e atenção.
Quanto maior a distância que as zonas tem da zona zero, menos energia e tempo são despendidos nelas, pois para
potencializar as energias internas é necessário aproximar tudo que necessita de mais energia e consequentemente podemos afastar o
não exige cuidado intenso. Sistemas que se autosustentam gicam cada vez mais distantes do epicentro energético. As zonas mais
distantes tendem a ser maiores que as zonas mais próximas, justamente por manterem-se com menor manutenção é possível que
ocupem territórios mais amplos. Portanto as espécies mais selvagens, mais rústicas, mais adaptadas e com resiliência inata para
prosperar no ambiente, podem ser colocadas mais distante na medida em que precisam de menor atendimento.

"A permacultura não é o movimento da sustentabilidade e não é a


YilosoYia por trás disso; é a abordagem de resolução de problemas que o
movimento e a YilosoYia podem usar para atingir seus objetivos e
projetar um mundo em que as necessidades humanas sejam atendidas,
enquanto melhoram a saúde deste planeta milagroso que nos apoia.”
Toby Hemenway
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zona 5
Em todas as outras zonas, você foi um gerente: pensou, ajustou e mudou a paisagem, criou e cocriou lagos, estradas,
construiu casas, plantou árvores, ou seja, você interveio de alguma maneira para facilitar a sua sobrevivência e o manejo do seu
terreno, deixando-o com a sua cara. Na zona cinco, você deixa de ser um gerente do seu espaço e passa a ser apenas um espectador,
um admirador da natureza, assim como ela é, e contempla para aprender e tirar proveito a partir da observação. Quanto mais natural
e autônomo o sistema mais distante ele pode gicar do centro de atenção e cuidado, congigurando as machas de zona cinco do terreno.
O ideal é que sejam zonas de intervenção nula.
Observe quais são as plantas nativas, sua altura no estrato do campo ou gloresta, quais gostam mais de sombra, quais estão
mais ao sol, quais são as mais rasteiras e as emergentes: vá olhando e aprendendo, pois a zona cinco pode demonstrar as aptidões
naturais do bioma. Nos períodos de chuvas, verá que algumas plantas estão mais exuberantes, enquanto outras, em plena seca, estão
mais viçosas do que nunca. Repare ainda em que época essa ou aquela planta gloresce ou frutigica, quais animais aparecem e em quais
períodos com ano, e ainda suas relações com as plantas e com a paisagem. A zona cinco é uma biblioteca viva: lendo aos poucos,
aprende-se muito. Nela é onde está concentrada a maior parte da vegetação nativa, as margens dos rios, ou pode ser onde está a sua
nascente, vertente ou banhado. A zona cinco é a área de reserva legal do terreno, onde, por lei, você deve preservar e, até mesmo, o
lugar que você deginirá para aumentar a sua área de preservação, também inclui as áreas de preservação permanente. Pode haver
mais de uma zona cinco, dependendo da congiguração do terreno. Em áreas maiores provavelmente existirão diversas zonas cinco de
diferentes proporções e formatos, você pode ter uma nascente de um lado do terreno, e no lado extremo, pode ter um grupo grande
de árvores ou mata, ou até mesmo um rio; tudo isso é a sua zona cinco, cuide e preserve.

"A YilosoYia da permacultura é trabalhar com, e não contra a natureza, de


observação prolongada e pensativa ao invés da contínua ação irreYletida; de
olhar para os sistemas em todas as suas funções em vez de exigir somente o
desempenho; e de permitir que os sistemas demonstrem sua própria evolução.”
Bill Mollison
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resumo do módulo 6
As zonas são deginidas pela frequencia e pela duração de atuação das energias internas. Considere energia interna todas as
forças de trabalho de que você dispõe. Lembre-se de que o zoneamento não deve engessar o projeto, tampouco o trabalho, e que não
são feitas demarcações gísicas das zonas no terreno. Elementos como a horta são chamados de “cercados" em algumas regiões,
justamente porque são áreas cercadas para proteção, principalmente, de animais que reviram a horta, portanto, podem existir
elementos delimitados, cercas e demarcações, bem como cercamento e divisão de áreas maiores para manejo de animais, por
exemplo. Ainda assim, o zoneamento de Permacultura não implica nessas divisões, apesar de que elas possam ser feitas.
1. Avalie sua força pessoal de trabalho e daqueles que estão com você no sítio; liste ferramentas e máquinas; olhando o mapa
e caminhando na área, identigique o lugar ideal para a zona zero, pois daí partirão todos os caminhos.
2. Depois de analisar os elementos que quer colocar na área, disponha-os no espaço sobre um mapa, recorte os sistemas,
construções e outros elementos em um papel, em escala. Posicione-os no mapa em diferentes conexões, meça as distâncias, observe o
relevo, e vá criando zonas, deginindo o que gica em cada lugar.
3. Caminhe pelo terreno - naturalmente buscamos os caminhos que combinam conforto no caminhar e a distância mais curta.
Nenhum sítio foi feito em um dia, logo o seu espaço será construído a cada dia que você intervém, pois tudo é dinâmico e, por
isso, ajustes sempre são necessários. Priorize inicialmente a organização da zona zero, mesmo que seja uma pequena construção
para ferramentas e onde você possa organizar o trabalho do campo. Conforme vive na área, ou conforme vai visitando o seu espaço
com maior frequência, expanda o trabalho para as zonas adjacentes à zona zero. Organize cercas e bordas de proteção e plante
árvores de crescimento mais lento nas zonas quatro, e verigique a estabilidade ou a degradação das zonas cinco, isolando-as caso
precisem ser regeneradas. Permita-se errar, aprender e enfrentar problemas como oportunidades.

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PADRÕES DA NATUREZA
Padrão é algo que se repete, que tem uma frequencia ou ritmo e que passa a ser uma referência de comportamento. Refere-
se tanto a eventos e fenômenos naturais como ao comportamento humano, animal, de plantas ou de ciclos de uma paisagem e do
clima. Um padrão revela uma conduta que nos ajuda a acompanhar as transformações e as fases de distintos processos a gim de criar
conexões com os tempos e as formas de cada coisa. Quando conhecemos o comportamento padrão de um ciclo ou de um ritmo por
exemplo, sabemos também quando ele está fora do seu ritmo natural ou frequente. Saber o ritmo natural do coração, da respiração,
ou de comportamentos de plantas, animais e pessoas nos permite saber também quando um ritmo está alterado, ou fora do padrão
que tomamos por referência. Dessa forma podemos observar quando um padrão ou ritmo se estende ou se encurta, quando é
interrompido antes do tempo, ou quando continua por um tempo excessivo, se o comportamento está alterado, ou a frequencia está
modigicada. Conhecendo as conexões entre os padrões e os elementos do entorno podemos também identigicar quais desses
elemntos ou fatores afetam esses padrões, podemos desta forma corrigir rotas de trabalho no campo.
Plantas marcam muito bem o ritmo, os tempos e os ciclos, administrando sua energia tanto quando precisam completar
seus ciclos mais rapidamente e quanto quando podem estender por mais tempo seus ciclos glorescendo e fenecendo num período
mais longo. Isso é fundamental para a produção de hortaliças, quando cultivamos uma hortaliça da qual desejamos as folhas, por
exemplo, o glorescimento precoce, encurta o fornecimento das partes comertíveis que buscamos e indica que a planta, por algum
motivo, precisa ginalizar mais rápido seu ciclo produzindo as sementes que garantem sua continuidade. Também para a produção de
sementes esse não é um bom sinal, pois as sementes de uma planta precoce podem tender a serem precoces também, passando a
congigurar uma planta de ciclo mais curto do que o desejado. O interesse pelas difetrentes variedades de plantas, com ciclos mais
curtos ou mais longos, depende de diversos fatores produtivos e de comércio, seja como for o importante é conhecer esses padrões
para aplicá-los positivamente aos nossos objetivos e ao desenho da paisagem que estamos cultivando.

“O mundo natural é construído sobre motivos e padrões comuns. O reconhecimento de padrões


na natureza cria um mapa para se localizar na mudança e antecipar o que está por vir.”
Sharon Weil
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São muitos os padrões da natureza e, sendo os seres humanos parte da natureza, participam desses padrões, mesmo que
de forma emancipada: o ciclo das fases da Lua e o ciclo de fertilidade e ovulação das mulheres, por exemplo, têm uma relação rítmica,
pois ambos seguem um compasso de aproximadamente quatro semanas, porém, nem sempre o início e o ginal dos ciclos coincidem, já
que o ritmo lunar existe na mulher, porém, não necessariamente sincronizados. Ritmos circadianos também afetam nosso ritmo
biológico, a intensidade de luz estimula e inibe a produção hormonal, mostrando que temos ritmos e respostas biológicas com
correlacionadas ao ambiente natural, aos ritmos lunares, solares, saturnianos, entre outras ingluências cósmicas e do planeta Terra.
No mundo natural os ritmos são mais sincronizados, são menos emancipados em cada indivíduo e tem expressão grupal,
ocorrendo precisamente no tempo das coligações que possuem. A Lua, por exemplo tem um padrão que se repete dando origem às
quatro fases da lua e o tem um padrão impresso pelo movimento de revolução lunar periódica ou sideral, que possui uma fase de
ascendência e outra fase de descendência, que dura aproximadamente duas semanas cada, e, logo, temos aí um ritmo de
aproximadamente vinte e oito dias dividido por quatro e por dois ao mesmo tempo, dessa forma podemos ter, por exemplo, lua
crescente e descendente, minguante e ascendente, entre outras combinações dos ciclos lunares. Esses padrões lunares imprimem
ritmos em todos os líquidos do planeta: rios, mares, sangue e seiva. Na lua nova, o gluxo da seiva desce e se concentra nas raízes. Na
crescente, concentra-se nos troncos e nos ramos. Na cheia, acumula-se na copa, nas ramas, nas folhas, nas glores e nos frutos,
enquanto na minguante, o gluxo da seiva começa a descer e se concentra no tronco e nas raízes. Da mesma forma a Lua ascendente
favorece enxertias e colheitas, enquanto a Lua descendente favorece os transplantes, semeadura e podas. Essa informação é útil para
organizar a poda de árvores e bambu, para manejar e transplantar, pois os reinos da natureza não estão emancipados das ordens
superiores e dos ritmos cósmicos. Também é preferível castrar animais na lua nova ou na minguante, pois o gluxo de sangue é menor,
sendo mais fácil controlar hemorragias, e podemos observar outros efeitos dos padrões lunares nas marés e nos movimentos dos
líquidos em geral. O ritmos e a energia de cada estação do ano, movimentam os padrões e ciclos naturais em uma orquestração
integrada. Não aleatoriamente, a palavra Cosmos signigica ordem. A palavra explica que existe uma ordenação feita de padrões e de
ritmos. É justamente essa regra que permite grande liberdade e expressão de formas.

"O homem é um microcosmo, ou um pequeno mundo, porque é


um extrato de todas as estrelas e planetas de todo o Yirmamento,
da terra e dos elementos; e então ele é a quintessência deles.”
Paracelso
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Apesar da emancipação humana dos ritmos cósmicos e da ordenação natural, a humanidade contém, em si, o universo, seus
ritmos e seus padrões, aos quais precisa ajustar o desenvolvimento da própria consciência. O desenvolvimento da consciência é
possível graças a essa emancipação, mas os limites da alienação devem ser observados, pois esses ritmos e padrões atuam em nós, e
esse é um dos mais importantes elos que nos faz entender o pertencimento, a conexão e a interdependência entre nós e todo o resto.
Perceber ciclos, padrões e ritmos é básico para tomar algumas deginições no seu espaço e no tempo. Observar a natureza é
fazer ciência e é sobrevivência. Saber o que se repete, quando e como, nos ajuda a planejar, e a interagir de forma harmônica com os
reinos da natureza. Da mesma forma que, com nossa emancipação, criamos padrões humanos que acabaram constituindo hábitos e
cultura, a natureza não altera rumos e padrões com os quais está íntima e intrinsecamente ligada. Plantas de inverno não glorescem
antes da hora; plantas de verão não crescem no frio; a água congela apenas quando as baixas temperaturas o permitem e, também, só
derrete quando a temperatura aumenta; as marés enchem e recolhem conforme os movimentos planetários e lunares; as vazantes e
cheias dos rios seguem os ritmos das estações. Também os ventos enfraquecem e fortalecem com movimentos de rotação da Terra e
em coligação com eventos internos do planeta. Os ritmos e padrões que garantem a fertilidade de animais, das plantas e do solo não
renunciam aos elementos que fazem parte desses processos.
Estudando geometria e os padrões de comportamento, bem como as características intrínsecas, observam-se também as
formas e suas funções numa relação estreita, as retas, por exemplo, são predominantemente forças masculinas nas formas da
natureza, enquanto as linhas curvas tendem a expressar princípios femininos. Características femininas e masculinas não são
características “de homem” ou “de mulher”. Tudo possui tanto características femininas quanto masculinas, em proporções variadas,
e isso é visível nas formas. Plantas que precisam romper o solo duro, tanto para cima quanto para baixo, possuem folhas em forma de
lança e raízes pivotantes, e plantas mais arredondadas brotam quando o solo já foi “quebrado” pelas lanças das plantas pioneiras. A
forma reta normalmente está relacionada com as forças criativas, e as curvas, com a força receptiva e geradora: imagine como é fácil
coletar água num jarro e quão digícil é contê-la numa bandeja. Imagine perfurar uma carne ou casca dura com uma colher ao invés de
usar uma faca, ou tente tomar sopa de garfo ao invés de usar uma colher. Como o prato raso e o prato fundo, as formas na natureza
tendem a ser mais criativas (retas) ou mais receptivas (curvas).

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Estudamos padrões em Permacultura para trazer uma dimensão muito funcional aos sítios e fazendas. Relacionando
formatos no planejamento com formas da natureza que desempenham as funções desejadas, aproveitamos melhor os sistemas,
reduzindo manutenção e ampliando a possibilidade de sustentação no tempo, pois toda a forma na natureza está relacionada a uma
função. Dentre muitos padrões e ciclos naturais, conheça alguns seguir:

Padrão espiral: é o padrão mais antigo, o padrão das galáxias. Os astros giram em torno de outros corpos celestes, em
movimento espiralado. Tufões movimentam-se em espiral, algumas aranhas constroem teias em espiral, plantas crescem em
movimento espiralado, algumas expressando claramente a espiral em suas formas, como a Aloe polyphylla, caramujos crescem em
espiral, assim como o sistema digestivo de alguns ruminantes. A água, em função de sua matriz circular, sempre cria espirais,
redemoinhos e vórtices. Forças centrífugas e centrípetas estão relacionadas com o padrão espiral, sintetizando forças opostas. O
padrão espiral também dinamiza e vitaliza, produzindo regeneração e limpeza das águas, auxiliando no restabelecimento da tensão
supergicial da água e eliminando patógenos na parte mais estreita dos vórtices de água. Esse padrão pode ser aplicado em
tratamentos de água, vitalização e dinamização aquática com uso de 0lowforms, é usado também no calculo e dimensionamento de
sistemas de irrigação, entre outros.

Padrão globular: você vai encontrar essa forma no feijão, na orelha dos seres humanos, nos rins, na forma de um feto. Essa
forma se repete em muitos elementos da natureza, e conforme a conhecemos, passamos a reconhecê-la. O padrão globular concentra
um ponto vital, um centro que é cercado de outras substância ou áreas, por exemplo, no grão de feijão, o embrião gica no centro do
grão e, ao redor, ou “nas costas” do embrião, existe uma grande massa de amido. A orelha possui uma área ao redor de um origício
para captar o som e lançá-lo para esse centro. Os rins são giltros que possuem um ponto central, que concentra a artéria (a veia e o
nervo renal que formam o hilo renal) e o ureter cercados por uma grande área vascularizada que giltra substâncias no corpo. Hilo
vem de hilum, que signigica insignigicante, pois é um ponto muito reduzido em relação ao restante da área do órgão todo, o que se
repete em outras formas globulares. Um gomo de bergamota também tem formato globular e, na região equivalente ao hilo renal no
rim, a semente gica alojada. Já no feto, esse é o ponto de conexão entre seu corpo e da sua mãe, a fonte de nutrição do bebê: o umbigo.
Você pode aplicar esse padrão em construções e em canteiros do tipo fechadura.
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Padrão dendrítico: é o padrão de gluxo e está relacionado com o que é ramigicado. Relativo a dendritos, ou gibras nervosas,
o termo vem do grego dendron, que signigica galho.
Olhando uma bacia hidrográgica, do alto, vemos o padrão dendrítico na forma dos rios e dos seus agluentes como grandes
veias de água na supergície do planeta. Isso porque esses gluxos se relacionam com as veias do corpo humano, que também
constituem um sistema com ramigicações dendríticas. Encontramos o mesmo padrão na árvore brônquica dos pulmões, na copa das
árvores e em suas raízes. Assim, podemos ver que é um padrão relacionado ao gluxo: seja ele de água, de sangue, ou de seiva.
Quando rompemos esse padrão, criamos obstruções ou desvios no gluxo. Cortando árvores, vamos obstruindo e alterando o
gluxo de água, e com desmatamentos massivos, alteramos o ciclo da água, criamos erosão e o padrão dendrítico se estampa nos veios
abertos no solo que, como feridas, expõem e sangram a fertilidade da terra. A terra que escorre sobre os solos descobertos abrindo
feridas tinge os rios de terra e os assoreia. Assim, infartamos os rios, ou seja, diminuímos sua capacidade de circulação de água,
deixando os leitos rasos, e o trasbordamento do rio é um reglexo desse mal. Da mesma forma, obstruções em nossas veias podem
infartar o coração. O gluxo nas cidades está relacionado com as ruas; olhando do alto, as ruas da cidade parecem veias ou rios vistos
de cima, então, o trânsito interrompe o gluxo e infarta as cidades. Infartamos os rios com o assoreamento, as matas com o
desglorestamento, perdemos tempo de vida no trânsito e infartamos do coração, através do bloqueio do padrão dendrítico. Tudo está
interligado, e as ações que atingem um padrão têm reglexo em outras expressões do mesmo padrão.

"Os grandes líderes sabem que, sob a agitação do caos e das mudanças, há uma beleza de padrões e desenhos."
Amit Ray
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Padrão concêntrico: se observarmos um tronco de árvore cortado no sentido transversal, ou uma cebola cortada ao meio,
também no sentido transversal, observam-se vários círculos concêntricos, ou seja, com o mesmo centro. O padrão concêntrico é um
padrão de dispersão, de um ponto que se expande em todas as direções, de crescimento ou propagação do centro para fora. O mesmo
padrão é observado quando lançamos uma pedra na supergície de um lago, pois a pedra irradia vários círculos com o mesmo centro.
Além de obtermos informação sobre plantas a partir de seus anéis, como a contagem de anos de uma árvore, o padrão concêntrico é
usado na organização de áreas, criando a partir da zona zero da Permacultura uma dispersão de energia ao seu redor. Também pode
ser usado em reglorestamentos trabalhando com nucleação, ou seja, criando núcleos de árvores que “crescem” expandindo-se para
fora, em todas as direções e criando núcleos maiores, que cobrem cada vez mais área em um padrão concêntrico. Usamos, ainda, esse
padrão para trabalhar com comunidades, criando-se sistemas a partir da casa de um agricultor que pode dispersar e propagar uma
boa ideia de produção ou de organização da área. A horta mandala é outro exemplo que parte do padrão concêntrico: no meio da
horta são colocadas galinhas ou peixes, e esse ponto propaga fertilidade para toda a horta que está ao redor, com uso da água
fertilizada dos peixes, ou do esterco rico em fósforo da galinha. Em outro contexto, escadas ou saídas de estádios e espaços que
concentram grande público podem ser feitas em meios círculos concêntricos, facilitando a dispersão na saída do público.
Padrões são repetições. Eles são estudados de muitas formas desde a mais simples contemplação da natureza até o estudo de
geometria sagrada. Com ferramentas de observação, e com o estudo desses conhecimentos, é possível elevar o planejamento a um
elevado nível de sinergia, que resulta em uma vida no campo mais simples e prática. Observe também padrões de ondas, toroidais,
padrões em mosaicos e explosivos. A efetividade dos padrões e o uso das ferramentas de planejamento visam reduzir trabalho e
aumentar tempo e rendimento, portanto, identigique pelos resultados se está usando as informações sem conexões positivas ou
negativas.

"O que chamamos de caos são apenas padrões que


não reconhecemos. O que chamamos de aleatório são
apenas padrões que não podemos decifrar. O que não
conseguimos entender chamamos de bobagem. O que
não podemos ler chamamos de bobagens.”
Chuck Palahniuk
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módulos Viver no campo
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MÓDULO 1. Organizando sua vida para realizar o sonho de


MÓDULO 6. Zoneamento: aproveitamento das energias
viver no campo. O que é necessário para viver no campo?
internas. Onde construir, plantar e colocar as coisas no
Como dar os primeiros passos para concretizar o que tem em
terreno para gastar pouco tempo e energia, de modo que
mente? Mapeamento inicial de desejos, possibilidades e
todas as coisas giquem conectadas em sinergia. Posicionar
necessidades.
materiais, sistemas e estruturas de forma que funcionem no
potencial máximo com mínimo trabalho e manutenção.
MÓDULO 2. Do real ao ideal: como realizar seu sonho ou
projeto. Ferramentas da Permacultura necessárias para
MÓDULO 7. Água bem primordial. Como plantar água com
derrubar barreiras e construir pontes. Princípios da
Permacultura para fazer a transição. Análise dos elementos, sistemas de coleta e armazenamento da Permacultura. Canais
de ingiltração, bordas e patamares. Sistemas para tratamento
energia e conexões.
de água. Água como energia. Construindo cisternas. Banheiro
seco.
MÓDULO 3. Entenda seu terreno. Entenda seu terreno. Onde
procurar um terreno? Entenda características do terreno
MÓDULO 8. Construa ou reforme sua casa. Qual o primeiro
antes de comprar. Comprar, arrendar, vender ou manejar?
abrigo necessário? Desenho da casa sustentável. Arquitetura
Movimentação de terra. Entendendo e sobrepondo mapas.
vernacular e bioconstrução. Estratégias para diferentes
Leitura da paisagem.
momentos e climas. Sistemas acoplados.
MÓDULO 4. Orçamentos e Yinanças. Trabalho e dinheiro.
MÓDULO 9. Agricultura Orgânica. A Permacultura congrega
Negócios rurais para sítios ou quintais. Cadeia produtiva.
várias agriculturas, qual usar? Como escolher as melhores
Projeto do produto. Cooperativas e associações, serviços
rurais. áreas conforme o tipo de cultivo. Tempos e ritmos na
agricultura.
MÓDULO 5. Setores: aproveitando as energias externas.
MÓDULO 10. Energia: capacidade de realizar trabalho. Na
Estudo das energias externas ao terreno, que não podem ser
Permacultura tudo é gerenciamento da energia. Geração
controladas, porém, podem ser aproveitadas ou manejadas.
descentralizada, pequenos sistemas de geração, uso racional,
Fundamentando as escolhas em relação às energias
escalas de produção e uso de energia.
disponíveis e faltantes.
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TATIANA CAVAÇANA é designer e projetista industrial


(1999), permacultora (2010) e engenheira agrônoma com
especialização em agricultura biodinâmica (2017). Dirige o Instituto
de Permacultura da Pampa - IPEP, é escritora, consultora em
Permacultura, planejamento, sensibilização e educação ambiental.
Fundadora da Cia. Stromboli de teatro de animação (1996-2011), da
Escola Rama Permacultura de educação ambiental (2011) e do projeto
Materama Design de fotogragia e fenomenologia (2012).
www.materama.com.br.

JOÃO ROCKETT fundador e diretor do Instituto de


Permacultura da Pampa - IPEP, é produtor de sementes desde 1983.
Criou a BioNatur para resgate e produção de sementes agroecológicas
(1996), atua como permacultor diplomado por Bill Mollison desde
1998. Liderou diversos projetos de recuperação de áreas degradadas e
reglorestamentos, capacitou centenas de agricultores e permacultores
no Brasil e no exterior. É consultor e instrutor em agroecologia,
Permacultura, manejo de resíduos sólidos, água e bioconstrução.
Dedica-se especialmente à produção agroecológica de sementes, de
grãos e de hortaliças, e ao trabalho com cavalos.

Todos os direitos reservados.


Material exclusivo do Curso Tati e João Rockett ensinam Viver no Campo
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MÓDULO 6
2020 ipep 20 anos!

INSTITUTO DE PERMACULTURA DA PAMPA

TATI E JOÃO ROCKETT


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