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GRADUAÇÃO

Física Geral
e Experimental II
DR. OSVALDO GUIMARÃES

Híbrido
GRADUAÇÃO
Física Geral e
Experimental II
Dr. José Osvaldo de Souza Guimarães
DIREÇÃO UNICESUMAR
Reitor Wilson de Matos Silva, Vice-Reitor e
Pró-Reitor de Administração Wilson de Matos
Silva Filho, Pró-Reitor Executivo de EAD William
Victor Kendrick de Matos Silva, Pró-Reitor de
Ensino de EAD Janes Fidélis Tomelin, Presidente
da Mantenedora Cláudio Ferdinandi.
C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a
Distância; GUIMARÃES, José Osvaldo de Souza.
NEAD - NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
Física Geral e Experimental II. José Osvaldo de Souza Gui- Diretoria Executiva Chrystiano Mincoff, James
marães. Prestes e Tiago Stachon; Diretoria de Graduação
Maringá-PR.: Unicesumar, 2018.
400 p. e Pós-graduação Kátia Coelho; Diretoria de
“Graduação - EAD”. Permanência Leonardo Spaine; Diretoria de
1. Física 2. Geral . 3. Experimental 4. EaD. I. Título.
Design Educacional Débora Leite; Head de
Produção de Conteúdos Celso Luiz Braga de Souza
ISBN 978-85-459-1812-7 Filho; Head de Metodologias Ativas Thuinie Daros;
CDD - 22 ed. 621
Head de Curadoria e Inovação Tania Cristiane Yoshie
CIP - NBR 12899 - AACR/2
Fukushima; Gerência de Projetos Especiais Daniel
F. Hey; Gerência de Produção de Conteúdos
Impresso por: Diogo Ribeiro Garcia; Gerência de Curadoria
Carolina Abdalla Normann de Freitas; Supervisão
do Núcleo de Produção de Materiais Nádila de
Almeida Toledo; Supervisão de Projetos Especiais
Yasminn Talyta Tavares Zagonel; Projeto
Gráfico José Jhonny Coelho e Thayla Guimarães
Cripaldi; Fotos Shutterstock

Coordenador de Conteúdo Crislaine Rodrigues


Galan e Fabio Augusto Gentilin.
NEAD - Núcleo de Educação a Distância Designer Educacional Janaína de Souza Pontes e
Av. Guedner, 1610, Bloco 4 - Jardim Aclimação Yasminn Talyta Tavares Zagonel.
CEP 87050-900 - Maringá - Paraná Revisão Textual Érica Fernanda Ortega e Cíntia
unicesumar.edu.br | 0800 600 6360 Prezoto Ferreira.
Editoração Isabela Mezzaroba Belido.
Ilustração Bruno Pardinho, Marcelo Goto e Mateus
Calmon.
Realidade Aumentada Kleber Ribeiro, Leandro
Naldei e Thiago Surmani.
PALAVRA DO REITOR

Em um mundo global e dinâmico, nós trabalha-


mos com princípios éticos e profissionalismo, não
somente para oferecer uma educação de qualida-
de, mas, acima de tudo, para gerar uma conversão
integral das pessoas ao conhecimento. Baseamo-
-nos em 4 pilares: intelectual, profissional, emo-
cional e espiritual.
Iniciamos a Unicesumar em 1990, com dois
cursos de graduação e 180 alunos. Hoje, temos
mais de 100 mil estudantes espalhados em todo
o Brasil: nos quatro campi presenciais (Maringá,
Curitiba, Ponta Grossa e Londrina) e em mais de
300 polos EAD no país, com dezenas de cursos de
graduação e pós-graduação. Produzimos e revi-
samos 500 livros e distribuímos mais de 500 mil
exemplares por ano. Somos reconhecidos pelo
MEC como uma instituição de excelência, com
WILSON DE MATOS SILVA IGC 4 em 7 anos consecutivos. Estamos entre os
REITOR
10 maiores grupos educacionais do Brasil.
A rapidez do mundo moderno exige dos
educadores soluções inteligentes para as ne-
cessidades de todos. Para continuar relevante, a
instituição de educação precisa ter pelo menos
três virtudes: inovação, coragem e compromisso
com a qualidade. Por isso, desenvolvemos, para
os cursos de Engenharia, metodologias ativas, as
quais visam reunir o melhor do ensino presencial
e a distância.
Tudo isso para honrarmos a nossa missão que é
promover a educação de qualidade nas diferentes
áreas do conhecimento, formando profissionais
cidadãos que contribuam para o desenvolvimento
de uma sociedade justa e solidária.
Vamos juntos!
Prezado(a) Acadêmico(a), bem-vindo(a) à Co-
munidade do Conhecimento.
Essa é a característica principal pela qual a
Unicesumar tem sido conhecida pelos nossos alu-
nos, professores e pela nossa sociedade. Porém, é
importante destacar aqui que não estamos falando
mais daquele conhecimento estático, repetitivo,
local e elitizado, mas de um conhecimento dinâ-
mico, renovável em minutos, atemporal, global,
democratizado, transformado pelas tecnologias
digitais e virtuais.
De fato, as tecnologias de informação e comu-
nicação têm nos aproximado cada vez mais de
pessoas, lugares, informações, da educação por
meio da conectividade via internet, do acesso
wireless em diferentes lugares e da mobilidade
dos celulares.
WILLIAM DE MATOS SILVA As redes sociais, os sites, blogs e os tablets ace-
PRÓ-REITOR DE EAD
leraram a informação e a produção do conheci-
mento, que não reconhece mais fuso horário e
atravessa oceanos em segundos.
A apropriação dessa nova forma de conhecer
transformou-se hoje em um dos principais fatores de
agregação de valor, de superação das desigualdades,
propagação de trabalho qualificado e de bem-estar.
Logo, como agente social, convido você a saber
cada vez mais, a conhecer, entender, selecionar e
usar a tecnologia que temos e que está disponível.
Da mesma forma que a imprensa de Gutenberg
modificou toda uma cultura e forma de conhecer,
as tecnologias atuais e suas novas ferramentas,
equipamentos e aplicações estão mudando a nossa
cultura e transformando a todos nós. Então, prio-
rizar o conhecimento hoje, por meio da Educação
a Distância (EAD), significa possibilitar o contato
Janes Fidélis Tomelin com ambientes cativantes, ricos em informações
PRÓ-REITOR DE ENSINO EAD e interatividade. É um processo desafiador, que
ao mesmo tempo abrirá as portas para melhores
oportunidades. Como já disse Sócrates, “a vida
sem desafios não vale a pena ser vivida”. É isso que
a EAD da Unicesumar se propõe a fazer.
Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você
está iniciando um processo de transformação,
pois quando investimos em nossa formação, seja
ela pessoal ou profissional, nos transformamos e,
consequentemente, transformamos também a so-
ciedade na qual estamos inseridos. De que forma
o fazemos? Criando oportunidades e/ou estabe-
lecendo mudanças capazes de alcançar um nível
de desenvolvimento compatível com os desafios
que surgem no mundo contemporâneo.
O Centro Universitário Cesumar mediante o
Kátia Coelho
Núcleo de Educação a Distância, o(a) acompa- DIRETORIA DE GRADUAÇÃO
nhará durante todo este processo, pois conforme E PÓS-GRADUAÇÃO

Freire (1996): “Os homens se educam juntos, na


transformação do mundo”.
Os materiais produzidos oferecem linguagem
dialógica e encontram-se integrados à proposta
pedagógica, contribuindo no processo educa-
cional, complementando sua formação profis-
sional, desenvolvendo competências e habilida-
des, e aplicando conceitos teóricos em situação
de realidade, de maneira a inseri-lo no mercado
de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como
principal objetivo “provocar uma aproximação
entre você e o conteúdo”, desta forma possibilita Leonardo Spaine
o desenvolvimento da autonomia em busca dos DIRETORIA DE PERMANÊNCIA
conhecimentos necessários para a sua formação
pessoal e profissional.
Portanto, nossa distância nesse processo de
crescimento e construção do conhecimento deve
ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos
pedagógicos que o Centro Universitário Cesumar
lhe possibilita. Ou seja, acesse regularmente o Stu-
deo, que é o seu Ambiente Virtual de Aprendiza-
gem, interaja nos fóruns e enquetes, assista às aulas
ao vivo e participe das discussões. Além disso,
lembre-se que existe uma equipe de professores e
tutores que se encontra disponível para sanar suas
dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de apren- Débora Leite
DIRETORIA DE DESIGN EDUCACIONAL
dizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranquili-
dade e segurança sua trajetória acadêmica.
APRESENTAÇÃO

Bem-vindo(a) à aventura que é o estudo da Física. O que faremos é parte de


um desafio lançado há mais de 2500 anos, que foi compreender o mundo
que nos cerca sem, em nenhum momento, atribuir causas sobrenaturais aos
acontecimentos – um grande desafio que pressupõe que há regras, leis e se-
quências nos acontecimentos e que, talvez, possamos descobrir algumas delas.
Quanto mais conseguirmos, mais poderemos prever, projetar e construir
engenhos que possam melhorar a produtividade, qualidade de vida e a
capacidade humana.
Nossa frente conta com 9 unidades, abordando 3 grandes temas.
Na Unidade 1, começamos analisando como podemos aproveitar o mo-
vimento ordenado de cargas elétricas, verificar seus níveis de energia e
prever as potências que delas podemos extrair para motores e máquinas
elétricas em geral.
A Unidade 2 trata de uma característica pertinente a todos os condutores:
a resistência elétrica. A importância do conhecimento dessa grandeza
permite a você a previsão das perdas nas linhas de transmissão, o dimensio-
namento de um chuveiro elétrico e, até mesmo, analisar os riscos da tensão
elétrica nos seres vivos. Veremos, também, como é possível substituir um
conjunto de resistores por um único que seja equivalente a esse conjunto.
Passamos, na Unidade 3, a explorar uma das mais importantes caracterís-
ticas da energia elétrica: a sua conversão em energia mecânica e vice-versa,
com eficiência em torno de 90%, mesmo nos motores mais simples. Nessa
unidade, começamos estudando os geradores, dos quais os exemplos mais
simples são as pilhas comuns, mas também fazem parte desse grupo os
rotores das turbinas de hidrelétricas e de termoelétricas, nucleares ou ali-
mentadas por combustíveis convencionais.
Como caracterizar os geradores ou os receptores? Quando compramos
pilhas comuns, uma das características é a tensão, em geral 1,5 V, mas essa
não é a única grandeza importante, e, por isso, temos pilhas de diversos
tamanhos. A potência que podem fornecer e a durabilidade são também
outros fatores importantes. No caso dos geradores das hidroelétricas, as
características são a tensão e a potência em regime de vazão padronizada.
Chegamos ao pontos mais interessante: interligar todos os elementos, ge-
radores, receptores, resistores e capacitores formando um circuito elétri-
co. Poderemos prever a intensidade da corrente nos vários elementos do
circuito, as potências envolvidas em cada um deles, assim como a tensão.
Qualquer que seja a modalidade de engenharia que você tenha escolhido,
os circuitos elétricos estarão presentes.
Chegamos ao magnetismo na Unidade 4. Historicamente, o magnetismo
foi considerado algo à parte da eletricidade e só a partir do início do século
XIX que foi possível relacionar o magnetismo com as cargas elétricas.
Mesmo o magnetismo natural, os ímãs comuns, deve-se a particular dis-
tribuição dos orbitais eletrônicos de determinado elemento, chamados
de ferromagnéticos.
Nessa unidade, aprenderemos a calcular o magnetismo gerado por corren-
tes elétricas em espiras circulares e solenoides (bobinas). Assim como todo
magnetismo está associado a cargas elétricas em movimento, se pusermos
em movimento condutores que possuem portadores de cargas livres, po-
demos gerar corrente elétrica.
Na Unidade 5, aprenderemos como isso pode ser sintetizado pela Lei de
Faraday. Poderemos, então, entender o princípio do funcionamento das
turbinas nas hidrelétricas, por exemplo. Começamos a Física Térmica por
conceituar e diferenciar bem as grandezas temperatura e calor.
Na Unidade 6, aprendemos a construir diferentes escalas de temperaturas,
medir quantidades de calor transferidas, analisar situações em que um
corpo recebe calor sem mudar de temperatura (fusão do gelo, por exem-
plo) e entendemos como avaliar a taxa de transmissão de calor de acordo
com diferentes materiais, superfícies de transmissão e espessuras. Isso é
importante tanto quando queremos um bom isolamento térmico de um
ambiente quanto quando queremos uma boa taxa de refrigeração de um
motor a combustão.
Na Unidade 7, concentramos nossa atenção nos gases. Como eles podem
apresentar grandes variações de volume com relativamente baixas varia-
ções de pressão, os gases são elementos chaves nas máquinas térmicas, em
particular nos motores de combustão interna.
Continuamos a discussão da Unidade 7, incorporando o conceito de ener-
gia interna do gás ao princípio da conservação da energia, apresentando a
chamada 1ª Lei da Termodinâmica.
Na Unidade 8, vamos analisar mais detalhadamente a transformação de
calor em energia mecânica. Nosso foco é nas máquinas cíclicas. Carnot
demonstrou que o limite de rendimento depende apenas da temperatura
máxima e da mínima do ciclo, em seu famoso teorema de 1824.
Nos veículos atuais, a maioria dos automóveis utiliza o ciclo Otto, e os ca-
minhões e tratores, o ciclo Diesel. Discutimos as vantagens e desvantagens
de cada um desses ciclos. Finalizamos o estudo da Termodinâmica com
a análise dos ciclos de refrigeração e das bombas de calor, muito usadas
hoje em dia para o aquecimento de piscinas e muito mais eficientes que
aquecedores elétricos.
A Unidade 9 aborda o terceiro e último grande tema de nossa frente. É
importante constatar como conseguimos entender a reflexão e a refração
da luz em simples leis geométricas. Por que conseguimos usar os espelhos
côncavos como espelhos de aumentos? Por que os retrovisores de carro
ligeiramente convexos permitem aumentar nosso campo de visão? Como
funcionam as lentes? Parece muito, mas, ao final, quando você estiver rela-
cionando todas as coisas e se sentindo parte dessa compreensão/descrição
dos processos físicos, tenho certeza que a sensação será de “quero mais”.
CURRÍCULO DOS PROFESSORES

Dr. José Osvaldo de Souza Guimarães


Possui Doutorado em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica da Universidade de São
Paulo sobre computação evolutiva aplicada às equações diferenciais não lineares no Espaço
de Hilbert, mestrado em História da Ciência pela PUC-SP sobre Teoria da Relatividade e gra-
duação em Física pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Estudou Engenharia Naval
na Escola Polictécnica-USP e é autor de vários livros didáticos, artigos científicos e revisor de
alguns periódicos internacionais. Fez pós-doutorado em propulsão nuclear, na Escola Poli-
técnica - USP, com ênfase em métodos espectrais aplicados às equações da termo-hidráulica.

Link para o currículo Lattes: <http://lattes.cnpq.br/4795293938878813>.


Fluxo da
Energia Elétrica

15

Resistência Elétrica

41

Conversão da
Energia Elétrica

77
Gases em
Eletromagnetismo
Transformação

123 239

Indução
Máquinas Térmicas
Eletromagnética

155 291

Temperatura e Calor Óptica Geométrica

195 321
29 Potencia elétrica e sentido da corrente
57 Corrente em série e paralelo
110 Carga e descarga do capacitor
269 Termodinâmica
303 Motor a combustão

Utilize o aplicativo
Unicesumar Experience
para visualizar a
Realidade Aumentada.
Professor Dr. José Osvaldo de Souza Guimarães

Fluxo da
Energia Elétrica

PLANO DE ESTUDOS

Consumo de
Corrente Elétrica Energia Elétrica

Potencial Elétrico
Potência Elétrica
e Nível de Energia

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

• Aprender a identificar os níveis de energia devido às ações • Prever e calcular a potência elétrica que pode ser obtida
de forças elétricas. nos dispositivos elétricos em geral.
• Conceituar corrente elétrica – o movimento ordenado dos • Entender como mensurar o consumo de energia elétrica
portadores de carga. dos circuitos em geral, incluindo os residenciais.
Potencial Elétrico
e Nível de Energia

A dinâmica dos fenômenos naturais envolve


transformações de energia. Isso ocorre desde
as máquinas mais simples até fenômenos mais
complexos, como as mudanças atmosféricas e o
metabolismo da vida.
Algumas formas de energia nos são bem fami-
liares, como a energia gravitacional, por exemplo.
Pelo nível de água de uma represa, podemos, em
um primeiro olhar, ter uma ideia da quantidade
de energia armazenada.
Da mesma forma, se olharmos para uma estan-
te com alguns objetos, identificaremos os vários
níveis de energia simplesmente vendo as alturas
de cada objeto.
Não temos a mesma percepção dos níveis de
energia só olhando para um circuito elétrico
ou mesmo para apenas um fio de cobre. En-
tretanto, podemos medir esses níveis utili-
zando um aparelho denominado voltímetro.

Figura 1 - Objetos colocados


em vários níveis de energia

Unidade de Potencial Elétrico

A unidade de energia no Sistema Internacional de Unidades (SI) é o joule (símbolo


J) e a de carga elétrica é o coulomb (símbolo C).
Voltando à prateleira, para cada altura, temos uma determinada quantidade de jou-
les para cada quilograma de massa que lá está. Da mesma forma, para cada ponto de
um circuito elétrico, temos uma determinada quantidade de joules para cada unidade
de carga que lá esteja. Esse é o potencial elétrico do ponto, o qual representamos por V.
Em termos mais formais, podemos escrever: V = energia
carga

A unidade de potencial elétrico é, no SI, joule = J= volt = V . Essa unidade foi


coulomb C

assim denominada em homenagem ao cientista italiano Alessandro Volta (1745-


1827), que começou por identificar os fenômenos eletrodinâmicos em seres vivos.

1 joule
Portanto, 1V = .
1 coulomb

A altura de um ponto depende da referência que escolhemos. Pode ser o piso do apar-
tamento, o chão da rua ou mesmo em relação ao nível do mar, como é usual na aviação.
Na eletricidade, procedemos da mesma forma. Usualmente, o nível zero é atribuído a um
ponto a ligado à Terra, mas podemos, também, por conveniência, escolher outras refe-
rências. Por exemplo, no caso dos automóveis, o chassis é adotado como potencial nulo,
e a partir daí é possível mapear o potencial de todos os outros pontos de seus circuitos.

UNIDADE 1 17
Diferença de Potencial (ddp)

A energia posta em jogo, quando as cargas elétricas se deslocam entre dois pontos
de um circuito elétrico, depende da diferença de potencial elétrico (U) entre eles.
Essa diferença de potencial (ddp) pode ser medida com o voltímetro, como ilustra
a figura seguinte.

Figura 2 - Voltímetro fazendo a leitura da tensão entre os polos

Considerando dois pontos, A e B, de um circuito elétrico, a diferença de potencial


entre eles é: U  VA  VB .
Geralmente, trabalhamos com essa diferença em módulo, sem preocupação
com o sinal.
Em circuitos eletrônicos, como o de celulares e computadores portáteis, as tensões
são da ordem de alguns volts, mas nas redes de distribuição de energia elétrica, as
tensões podem ser da ordem de milhares de volts. Observe os três fios de uma entrada
típica de energia elétrica para uma residência, na figura a seguir.

18 Fluxo da Energia Elétrica


A B C

Figura 3 - Exemplo de fios de entrada para abastecimento de energia elétrica de uma residência
Fonte: o autor.

Na Figura 3, os três fios têm potenciais diferentes: 110 V, 0 e –110 V. O fio B é o cha-
mado neutro.
Se uma ligação for feita entre os terminais A e B, teremos uma tensão de 110 V, o
mesmo valor que teríamos se fosse entre C e B. Entretanto, se a ligação for feita entre
A e C, a tensão será 220 V.
Na falta de um voltímetro, uma lâmpada pode ser usada para testar os potenciais,
mas nunca tocar os fios energizados.
Associado aos potenciais gravitacionais, temos o campo gravitacional. Da mesma
forma, associado aos potenciais elétricos, temos um campo elétrico, cujo sentido é
do maior para o menor potencial.

UNIDADE 1 19
Corrente
Elétrica

Como podemos utilizar a matéria para conduzir


energia elétrica?
Para um material ser condutor de eletricidade,
é necessário que ele possua portadores de carga
elétrica (elétrons, íons positivos ou negativos) e
que estes apresentem mobilidades no interior do
material. Os materiais condutores podem ser clas-
sificados em três grupos.

Classificação dos Condutores

Primeira classe: condutores metálicos


Nesses condutores, temos a ligação metálica, que
se caracteriza pela formação de uma rede crista-
lina e de uma nuvem eletrônica constituída por
elétrons quase livres (Figura 4): são os elétrons
mais afastados do núcleo que apresentam fraca
energia de ligação com o átomo. Esses elétrons,
que se espalham, formam uma verdadeira nuvem
pelo retículo cristalino, como um gás. São esses
elétrons quase livres os portadores de carga nos
metais em geral, como, por exemplo, cobre, alu-
mínio, prata etc.

20 Fluxo da Energia Elétrica


+ + +

+ + +

+ + +

+ + +
Figura 4 - Rede cristalina e nuvem eletrônica
Fonte: o autor.

Segunda classe: condutores eletrolíticos


As soluções eletrolíticas têm os íons positivos e os negativos como portadores livres de
carga elétrica. Na Figura 5, estão representados íons provenientes da dissociação iônica
(compostos iônicos) e, na Figura 6, íons provenientes da ionização (compostos mole-
culares) de compostos ácidos, básicos ou salinos em um solvente, normalmente a água.

- +

+ -

-
Na + Cl - H+
Cl
Figura 5 - Solução aquosa de cloreto de sódio Figura 6 - Solução aquosa de ácido clorídrico

Nosso corpo tem cerca de 70% de água, com vários íons dissolvidos e conduz ele-
tricidade. Se nossa pele estiver molhada, a condutividade é bem mais intensa e os
choques mais perigosos. Nesse caso, mesmo tensões residenciais podem ser letais.

UNIDADE 1 21
Terceira classe: condutores gasosos
Normalmente, um gás é isolante. No entanto, a ação de um forte campo elétrico
pode ionizá-lo, formando, como portadores livres, íons positivos e elétrons. Uma vez
ionizado, o gás é excelente condutor. É o que acontece nos relâmpagos e também nos
tubos de lâmpadas florescentes.

Semicondutores e supercondutores
Além dos três tipos de materiais condutores descritos anteriormente, temos as subs-
tâncias semicondutoras e as supercondutoras.
Como exemplo de semicondutores, temos o silício – uma das substâncias mais
abundantes na superfície terrestre – e o germânio. Ambos pertencem ao grupo 4A
da tabela periódica. Em altos graus de pureza, esses elementos são praticamente
isolantes, mas a inserção de pequenas quantidades de gálio ou arsênio, por exemplo
(processo comumente chamado de “dopagem”), cria lacunas não preenchidas por
elétrons ou elétrons livres, tornando o conjunto condutor. É um processo fundamental
na eletrônica moderna.
Como já havia sido observado no começo do século XX, com o mercúrio em
temperaturas próximas ao zero absoluto, temos substâncias com resistência nula.
Atualmente, fundindo-se diferentes materiais em proporções adequadas, obtêm-se
“cerâmicas” supercondutoras a temperaturas bem acima do zero absoluto, mas ain-
da muito baixas em relação à temperatura ambiente. Atualmente, sua utilização é
pequena, devido ao dispêndio de energia para conservar as baixas temperaturas, no
entanto, já está presente em supercomputadores e em linhas de pesquisa que exigem
eletroímãs superpotentes.

O Conceito de Corrente Elétrica

Em um metal isolado, os elétrons livres não estão em repouso: eles descrevem um


movimento caótico, sem nenhuma direção preferencial. No entanto, quando apli-
camos uma diferença de potencial entre dois pontos do metal, estabelecemos um
movimento de elétrons numa direção preferencial, do menor para o maior potencial
elétrico, constituindo o que chamamos de corrente elétrica.

22 Fluxo da Energia Elétrica


Corrente elétrica é o movimento ordenado de portadores de carga elétrica.
Devemos entender o movimento ordenado, o que acontece numa direção preferencial
em relação às demais. Ela pode ocorrer num meio condutor sólido, líquido ou gasoso.

O Sentido Convencional da Corrente Elétrica

O movimento ordenado dos portadores de carga fica restrito aos limites impostos
pelo condutor, podendo acontecer em dois sentidos. No caso de portadores positivos,
eles se movem no mesmo sentido do campo, e no caso de portadores negativos, eles
se movem no sentido contrário ao campo elétrico.
A figura seguinte é um esquema do movimento de um elétron livre particular, no
interior de um fio metálico, antes e após a aplicação do campo elétrico.

VB E VA

vmédia i
i=0

i=0 VA = VB VA > VB

Movimento desordenado Movimento ordenado

vmédia = 0 vmédia = 0

Figura 7 - Campo elétrico produzindo movimento ordenado de cargas


Fonte: o autor.

Se esse mesmo campo elétrico fosse aplicado em uma solução eletrolítica, teríamos
íons positivos se movendo no sentido do campo e íons negativos se movimentando
em sentido contrário. O sentido escolhido para a corrente elétrica é o sentido do
movimento dos portadores de cargas positivos ou, de maneira equivalente, o sentido
contrário ao do movimento dos portadores negativos. Tal escolha se presta tanto para
as soluções eletrolíticas, como para os gases ionizados ou para os metais. Em suma,
o sentido da corrente é o sentido do campo elétrico aplicado.

UNIDADE 1 23
Intensidade da Corrente Elétrica

Vamos escolher uma secção transversal do condutor. A grandeza escalar intensida-


de de corrente elétrica (i) indica a quantidade de carga elétrica que atravessa essa
secção por unidade de tempo.
O esquema representa portadores de carga negativos atravessando a secção trans-
versal de um fio metálico.

Secção Transversal
-
Fio Metálico -
- -
-
- -
-
-
-
- i

Figura 8 - Sentido convencional da corrente elétrica


Fonte: o autor.

Sendo |Δq| o valor absoluto da quantidade de carga que atravessa a secção trans-
versal em um intervalo de tempo Δt, a intensidade média da corrente elétrica (im) é:

Dq
im =
Dt

No SI, a unidade para intensidade de corrente elétrica é o coulomb por segundo


(C/s), que recebe a denominação especial ampère (A), em homenagem ao físico e
matemático francês André Marie Ampère.
Especialmente na eletrônica, em que se utilizam correntes elétricas de intensidade
muito inferior a 1 A, é comum a utilização de submúltiplos do ampère.

miliampère 1 mA = 10–3 A
microampère 1 μA = 10–6 A

Para os casos nos quais a intensidade de corrente elétrica varia com o tempo, utiliza-
mos um diagrama horário para representar o seu comportamento. Como exemplo,
consideremos que a intensidade de corrente elétrica varia com o tempo conforme
mostra a figura seguinte.

24 Fluxo da Energia Elétrica


i
A quantidade de carga que atraves-
sa a secção transversal é numerica-
mente igual à área compreendida
entre a curva e o eixo das abscissas:

N
∆q = Área Área = Δq

O instrumento para medir corrente 0 t


elétrica é o amperímetro. Figura 9 - Corrente elétrica com intensidade variável
Normalmente, os aparelhos de Fonte: o autor.
medidas elétricas têm múltiplas funções, de forma que você possa mudá-lo de vol-
tímetro para amperímetro apenas girando uma chave.

Efeitos da Corrente Elétrica

A seguir, vejamos alguns efeitos da circulação da corrente elétrica.

Efeito magnético
Toda corrente elétrica gera, no espaço ao seu redor, um campo magnético. Esse efeito,
portanto, ocorre sempre.

Efeito Joule
Nos condutores se processa a transformação da energia elétrica em energia térmica.
Esse é o princípio de funcionamento do chuveiro e do ferro elétrico.

Efeito fisiológico
Nossos impulsos nervosos são transmitidos por estímulos elétricos. Dessa forma, a
corrente elétrica, por ínfima que seja (microampères), provoca contrações musculares;
dependendo da intensidade, pode causar até uma parada cardíaca. Entretanto, embora
pareçamos tão vulneráveis, a tensão necessária para produzir a situação descrita deve
ser de centenas de volts, pois o corpo humano (seco) é péssimo condutor quando
comparado aos metais, por exemplo.

Efeito químico
Corresponde aos fenômenos elétricos nas estruturas atômicas, objeto de estudo da
eletroquímica. A exploração desse efeito é utilizada nas pilhas, na eletrólise, na pro-
dução do alumínio, bem como na cromação e niquelação de objetos.

UNIDADE 1 25
Efeito luminoso
Também é um fenômeno elétrico de nível molecular. A excitação eletrônica pode
dar margem à emissão de radiação visível, tal como observamos nas lâmpadas fluo-
rescentes e nos relâmpagos.

1 EXEMPLO A intensidade de corrente elétrica varia com o tempo, por meio de um condutor,
conforme mostrado na Figura 10.

i (A)

10

0 2 4 6 t(s)
Figura 10 - Corrente elétrica variável
Fonte: o autor.

Determinar:
a) A quantidade de carga elétrica
i (A)
que atravessa uma secção qual-
quer do condutor, correspon-
10
dente ao intervalo de tempo de
2,0 s a 4,0 s. 5
b) A intensidade média de corrente
elétrica no intervalo de tempo
de 0 a 4,0 s. t(s)
0 2 4 6
Figura 11 - Corrente elétrica variável
Fonte: o autor.

26 Fluxo da Energia Elétrica


Resolução
a) A quantidade de carga elétrica (|Δq|), correspondente ao intervalo de 2,0 s
a 4,0 s, é dada, numericamente, pela área do retângulo mostrado na figura:
|Δq| = área do retângulo

|Δq| = 2,0 · 10 ==> |Δq| = 20 C

i (A)

10

t(s)
0 2 4 6
Figura 12 - Corrente elétrica variável
Fonte: o autor.

b) A intensidade média de corrente elétrica, no intervalo de 0 a 4,0 s, é dada por:


q , sendo
im 
t
N
q  Área do trapézio destacado na figura

4, 0 + 2, 0
∆q = ⋅ 10 → ∆q = 30 C
2
30
im = → im = 7, 5 A
4

UNIDADE 1 27
Potência
Elétrica

A potência de uma máquina é uma grandeza que


nos diz com que rapidez a energia é transformada.
Para qualquer máquina e, em particular, para
os aparelhos elétricos, definimos potência (P) pela
relação entre a quantidade de energia transfor-
mada ou transferida (ΔE) e o intervalo de tempo
(Δt) correspondente: P = ∆E .
∆t

A unidade de potência é o watt, de forma que:


1J joule .
1 watt = =
1 s segundo

A energia transformada ou transferida corres-


ponde ao trabalho da força elétrica, quando des-
locamos uma certa quantidade de carga Δq entre
dois pontos, cuja diferença de potencial seja U.

28 Fluxo da Energia Elétrica


U

Aparelho
i
Figura 13 - Aparelho elétrico sujeito a uma tensão
Fonte: o autor.

Assim, podemos escrever:

 τ = ∆q ⋅ U ∆q ⋅ U
 → P= → P = iU
 τ = ∆E ∆t
Potencia elétrica e sentido da corrente

Vamos considerar um dispositivo elétrico qualquer, submetido a uma tensão U.


Esse dispositivo pode ser um chuveiro, um liquidificador ou mesmo uma TV.
Como vamos avaliar a potência desse aparelho?
Com o aparelho funcionando, podemos medir a tensão no aparelho com um
voltímetro. Podemos, também, medir a corrente com um amperímetro. E obtemos a
potência do aparelho calculando o produto das duas medidas.

2 EXEMPLO No projeto de uma residência, o engenheiro verifica que, em uma situação de extremo
consumo, com vários aparelhos ligados, a demanda dessa casa seria 5500 W.
A casa é alimentada por uma rede que tem apenas dois fios, um neutro e outro
com 220 V.
a) Qual será a corrente elétrica nos fios de alimentação na situação de máxima
demanda?
b) Considerando que a situação de máxima demanda permaneça por meia hora,
qual será a energia consumida pela casa nesse tempo?

Tenha sua dose extra de conhecimento assistindo ao vídeo.


Para acessar, use seu leitor de QR Code.

UNIDADE 1 29
Consumo de
Energia Elétrica

No exemplo do tópico anterior, vimos que, em


apenas meia hora, uma casa consumiu quase 10
milhões de joules. Vemos que, para os padrões de
consumo usuais, precisamos de uma unidade de
energia bem maior. A escolha acabou recaindo
em uma unidade prática, que, embora não seja do
SI, mostrou-se adequada para os consumidores
terem uma ideia de seus gastos.
A unidade quilowatt-hora corresponde à
quantidade de energia que um aparelho de 1 kW
gastaria durante uma hora de funcionamento
contínuo.
Comparando-se com o joule, temos:

J
1 kWh = 103 W ⋅ 3600 s = 3, 6 ⋅106 s = 3, 6 ⋅106 J .
s

A intenção dessa unidade é facilitar o cálculo do


consumo de energia elétrica. Assim, para tirar
proveito dessa unidade prática, devemos consi-
derar a potência dos aparelhos em quilowatts e
os intervalos de tempo em horas, obtendo, auto-
maticamente, o consumo em kWh.

30 Fluxo da Energia Elétrica


3 EXEMPLO Um chuveiro cujos dados nominais são 220V-4000 W é usado, em média, meia hora
por dia. Qual será o custo mensal desse uso, sabendo-se que o quilowatt-hora custa
R$ 0,40, já incluindo os impostos?
Resolução
Como P = ∆E , temos ∆E = P ⋅ ∆t .
∆t
Vamos obter o tempo mensal total de uso por:
∆t = 30 ⋅ 0, 5 = 15 h , considerando o mês de 30 dias.
Usando a potência de 4000 W = 4 kW, obtemos: E  4  15  60kW  h .
Como cada quilowatt-hora custa R$ 0,40, o custo total será:
custo = 0,4 · 60 --> custo = R$ 24,00

Nesta unidade, você aprendeu a conceituar e medir os níveis de energia associados


aos portadores de carga elétrica, em particular se estiver contidos em fios conduto-
res. Compreendeu as unidades para se medir níveis de energia e fluxo ordenado de
portadores da carga – a corrente elétrica. Aprendemos, também, as características
dos materiais diante da corrente elétrica, como condutores e isolantes.
Em seguida, demos um importante passo avaliando com que rapidez um aparelho pode
transformar energia elétrica, conceituando a potência elétrica e aprendendo a calculá-la.
Encerramos a Unidade 1 apresentando uma unidade prática para medir o consumo
de energia elétrica – o quilowatt-hora – usado, sobretudo, para medir os consumos
de residências.

UNIDADE 1 31
Você pode utilizar seu diário de bordo para a resolução.

1. Se uma corrente elétrica de 3 A percorre um fio durante 2 minutos, a carga


elétrica em C, que atravessou a secção reta neste tempo, é:
a) 60.
b) 110.
c) 360.
d) 220.
e) 180.

2. Uma lâmpada fluorescente contém, em seu interior, um gás que se ioniza após
a aplicação de alta tensão entre seus terminais. Após a ionização, uma corrente
elétrica é estabelecida e os íons negativos deslocam-se com uma taxa de 1,0 x
1018 íons/segundo para o polo A. Os íons positivos se deslocam, com a mesma
taxa, para o polo B.

A B

Sabendo-se que a carga de cada íon positivo é de 1,6·10–19 C, pode-se dizer que
a corrente elétrica na lâmpada será:
a) 0,16 A.
b) 0,32 A.
c) 1,0 x 1018 A.
d) 0,48 A.
e) Nula.

32
3. A figura a seguir mostra como se pode dar um banho de prata em objetos, por
exemplo, talheres. O dispositivo consiste de uma barra de prata e do objeto que
se quer banhar imersos em uma solução condutora de eletricidade. Considere
que uma corrente de 6,0 A passa pelo circuito e que cada coulomb de carga
transportada tem, aproximadamente, 1,1 mg de prata.

i i

Objeto que Barra de


leva o banho Prata
de prata
Solução
a) Calcule a carga que passa nos eletrodos em uma hora.
b) Determine quantos gramas de prata são depositados sobre o objeto da figura
em um banho de 20 minutos.

4. Uma bateria aplica uma diferença de potencial de 12 V aos terminais de um


motor elétrico que, ao ser ligado, é percorrido por uma corrente de 5,0 A. Nesse
instante, a potência desenvolvida pelo motor é:
a) 2,4 W.
b) 17 W.
c) 60 W.
d) 150 W.
e) 300 W.

33
5. Um professor esqueceu os faróis de seu carro acesos quando foi ministrar uma
aula que durou 2 horas. Supondo que a corrente que percorre o filamento de
cada farol é de 2 ampères e que a bateria de seu carro seja de 6 volts, podemos
afirmar que a energia química da bateria foi reduzida de, aproximadamente:
a) 24 joules.
b) 2,4⋅104 joules.
c) 48 joules.
d) 17,28⋅104 joules.
e) 17,28 joules.

6. A curva característica de um aparelho elétrico é vista na figura seguinte.

V (volts)

0 2 4 6 8 10 i (mA)

a) Qual a potência dissipada quando i = 10 mA?


b) Qual é a carga que passa em 10 segundos, quando V = 2,0 V?

34
LIVRO

Sears & Remansky’s University Physics 12 ed. with Modern Physics


Autor: Young & Freedman
Editora: Pearson-Addison Wesley
Sinopse: contém toda Física Básica do ensino superior, com extensa dedicação
também à Física Moderna.
Comentário: embora tenha mais de 1.600 páginas, esse livro tem a vantagem
de reunir em um único exemplar, praticamente, todo vasto conteúdo da Física
Básica do ensino superior. A tradução em português desdobrou a obra em 4
volumes e as figuras perderam um pouco da resolução. Há também a versão
integral em espanhol.

WEB

Este é um curto vídeo em inglês, mas você pode ativar legendas em português
para visualizar a sequência de deslocamentos dos elétrons em um condutor
metálico quando submetido à tensão vinda de uma bateria e o circuito é fechado.
Além disso, é mostrado o sentido convencional da corrente.
Para acessar, use seu leitor de QR Code.

35
FEYNMANN, R.; LEIGHTON, R.; SANDS, M. Lições de Física de Feynman. Porto Alegre: Artmed, 2008.
Volume 3.

GUIMARÃES, O.; PIQUEIRA, J. R. C.; CARRON, W. Física - Projeto múltiplo 3V. São Paulo: Ática, 2014.

GUIMARÃES, O.; GUADALUPE, A. Sistema de Ensino Poliedro - Física. 4. ed. S. J. dos Campos: Editora
Poliedro, 2014. Volume 4.

GUIMARÃES, O.; CARRON, W. As faces da Física. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2006.

HALLIDAY, D.; RESNICK, R. Fundamentos de Física. 3. ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos,
1994. Volume 4.

OKUNO, E.; CALDAS, I. L.; CHOW, C. Física para ciências biológicas e biomédicas. São Paulo: Harbra, 1982.

YOUNG, H. D.; FREEDMAN, R. A. Física. 12. ed. São Paulo: Addison Wesley, 2009.

36
1. C.

2. B.

3. a) 21600 C.

b) 7,92 g.

4. C.

5. D.

6. a) 40 mW.

b) 0,08 C.

37
38
39
40
Dr. José Osvaldo de Souza Guimarães

Resistência Elétrica

PLANO DE ESTUDOS

Potência em um Resistor Associação em Paralelo

Definição de Resistência Associação em Série

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

• Aprender sobre uma característica pertinente a todos os • Conceituar associação de bipolos elétricos, em particular
condutores: a resistência elétrica. os resistores, e estudar a associação em série.
• Estabelecer como calcular a potência dissipada nos resis- • Analisar a associação em paralelo, associações mistas e o
tores de várias formas. fenômeno do curto-circuito.
Definição de
Resistência

Os dispositivos elétricos podem ser classificados


quanto à transformação de energia em geradores
e receptores.
Os que transformam qualquer modalidade de
energia em energia elétrica são os geradores, por
exemplo a pilha, a bateria, a usina hidroelétrica etc.
Os receptores transformam energia elétrica em
outra modalidade qualquer, por exemplo: a lâm-
pada, o liquidificador, o ferro elétrico, o rádio etc.
Os receptores são consumidores de energia
elétrica e, de acordo com sua finalidade, podem
ser agrupados em duas categorias: os resistivos e
os ativos.

• Receptores Resistivos
Transformam energia elétrica exclusiva-
mente em energia térmica. É o caso do
chuveiro elétrico, do forno de resistência
elétricas e das lâmpadas incandescentes,
as quais têm como efeito secundário a in-
candescência luminosa. Na categoria dos
receptores resistivos, enquadram-se os
condutores em geral.
• Receptores Ativos
Transformam energia elétrica em alguma modalidade de energia, desde que
não exclusivamente a energia térmica. São os aparelhos de som, a TV, o telefone
e os motores elétricos em geral. Os receptores ativos são chamados simples-
mente de receptores, e os receptores resistivos, de resistores.

Resistência de um Condutor

Quando se mantém uma diferença de potencial entre dois pontos de um condutor,


estabelece-se uma corrente elétrica entre esses dois pontos, conforme a figura.

A i B
Figura 1 - Corrente elétrica estabelecida no condutor
Fonte: o autor.

A razão entre a diferença de potencial (U) aplicada e a intensidade de corrente elétrica


(i) obtida é a resistência do condutor entre os pontos que foi aplicada a ddp.
Isto é: R = U .
i
A figura seguinte mostra como representamos um resistor.

R
i
A B
Figura 2 - Símbolo do resistor
Fonte: o autor.

De acordo com o sentido da corrente elétrica indicado, o potencial do ponto A (VA)


é maior do que o do ponto B (VB).
Para determinada tensão, quanto menor for a resistência elétrica, maior será a
intensidade da corrente. Assim, a grandeza da resistência elétrica está associada,
basicamente, a três fatores:
• Mobilidade dos portadores de carga livres.
• Quantidade de portadores de carga livres de que o condutor dispõe.
• A geometria do condutor.

No SI, a unidade de ddp é o volt (V), a de corrente elétrica é o ampère (A) e a de


resistência elétrica é o ohm (Ω).

UNIDADE 2 43
U 1V
Como R = , temos 1  .
i 1A

• A resistência de um condutor, em
2 4 6 8
geral, depende dos pontos em que esta-
0 10
1 2 belecemos a tensão. Por exemplo, no corpo

3
10 mA humano, a resistência entre os dois polega-
res é diferente da resistência elétrica entre
a ponta do pé e a ponta do nariz.
Figura 3 - Arranjo experimental para avaliação da resistência • A resistência elétrica de um condutor,
elétrica no corpo humano genericamente, varia com a tensão aplicada.
Fonte: o autor.
• O sentido da corrente elétrica em um
condutor é sempre do maior para o menor
potencial, pois a passagem dos portadores de carga através dele é acompanhada
de um “consumo” de energia potencial elétrica.

1 EXEMPLO Fixando-se dois terminais em um determinado condutor, liga-se a ele uma fonte de
tensão variável. Em dois experimentos, são medidas a tensão e a corrente que se esta-
belece no condutor, conforme a tabela a seguir, mantendo-se a temperatura constante:

Situação U (volts) i (A)


1 2,70 3
2 4,50 5
Tabela 1 - Valores experimentais
Fonte: o autor.

c) Quais os valores da resistência do condutor em cada uma das situações?


d) Qual é a potência dissipada na situação 2?

Resolução
U
a) Como R = , temos, para cada experimento:
i
2, 70 4, 50
R1   0, 9 e R2 = = 0, 9 Ω .
3 5

b) Como P = iU , temos: P = 5 ⋅ 4, 5 = 22, 5 W .

44 Resistência Elétrica
Primeira Lei de Ohm

Georg Simon Ohm (1787-1854) observou que, em alguns condutores (particular-


mente nos metais), permanecia constante a razão entre a tensão aplicada nos termi-
nais e a corrente que neles se estabelecia. Em outras palavras, a resistência elétrica
era constante, independentemente da tensão aplicada. A esses condutores foi dada a
denominação condutores ôhmicos ou resistores ôhmicos.

Para um condutor ôhmico, submetido a diferentes tensões, teremos:


U1 U 2 U
= = K = n = R = constante
i1 i2 in

Como a resistência é constante nos condutores ôhmicos, nela, a relação entre a tensão e a
corrente U  R  i  uma função linear cuja representação gráfica é uma reta que passa
pela origem (Figura 4). Na Figura 5, o gráfico é um exemplo para um condutor não ôhmico.
U U

i i
Figura 4 - Condutor ôhmico Figura 5 - Condutor não ôhmico
Fonte: o autor. Fonte: o autor.

Não devemos confundir a primeira lei de Ohm com a definição de resistência. Esta
se aplica aos condutores em geral: ela não garante a constância da resistência. Já
a primeira lei de Ohm só é válida para os condutores ôhmicos.

É importante observar que, mesmo um condutor ôhmico, quando submetido a gran-


des variações de temperatura, pode apresentar variações em sua resistência elétrica.

UNIDADE 2 45
Potência em
um Resistor

Vamos considerar apenas os elementos resistivos,


ôhmicos ou não.
Para esses elementos, temos:
U U
R
= = ,i e U = Ri
i R

Como P = iU (I),

U U2
vamos obter: P= iU = ⋅ U --> P = (II).
R R
Ou, ainda, P = iU = i ⋅ R ⋅ i --> P =Ri 2 (III).

Essas duas novas expressões para cálculo da po-


tência (II e III) aplicam-se apenas aos condutores
em que a tensão nos terminais se deve unicamente
à resistência. A expressão (I) aplica-se aos apare-
lhos em geral, sem restrições. Qual delas usar?
Depende da conveniência em cada problema.

46 Resistência Elétrica
2 EXEMPLO Um chuveiro elétrico é construído para funcionar em 220 V e apresentar uma po-
tência elétrica de 4.400 W.
a) Em condições normais de funcionamento, qual é a resistência elétrica do
chuveiro?
b) Considerando o chuveiro como condutor ôhmico, qual será sua potência
quando ligado em 110 V?

Resolução
2
a) Como foram dadas a tensão e a potência, vamos usar: P = U .
220 ⋅ 220 R
Temos: 4400 = ⇒ R 11 Ω
R

b) Considerando que o chuveiro é um condutor ôhmico, sua resistência é cons-


tante. Assim, a potência correspondente a uma tensão de 110 V vale:

U2 1102
P= , P= --> P = 1100 W .
R 11
Observe que, em um condutor ôhmico, quando a tensão é reduzida à metade de seu
valor original, a potência se reduz a um quarto do seu valor original.

Segunda Lei de Ohm

A segunda lei de Ohm nos permite calcular a resistência de um condutor em função


de suas características. Assim, dado um condutor homogêneo, de comprimento L e
área de secção transversal A (Figura 6), a resistência elétrica R entre seus extremos é:
L
R=r
A
Nessa expressão, r representa uma característica de cada material, chamada de
resistividade elétrica.

A
L

L
Figura 6 - Segmento de fio cuja resistência é R = r
A

UNIDADE 2 47
3 EXEMPLO Uma lâmpada incandescente (100 W, 120 V) tem um filamento de tungstênio de
comprimento igual a 31,4 cm e diâmetro 4,0 · 10–2 mm. A resistividade do tungstênio
à temperatura ambiente é de 5,6 · 10–8 Ωm.
a) Qual a resistência do filamento quando ele está à temperatura ambiente?
b) Qual a resistência do filamento com a lâmpada acesa?

Resolução 2
L d 
a) Como R = r e A  p  r 2  p   , vamos obter:
A 2
 
2
3, 14  4  105
A  3, 14  4  1010 m2 .
4
3, 14 ⋅ 10−1
Assim, R = 5, 6 ⋅10−8 = 14 Ω .
3, 14 ⋅ 4 ⋅ 10−10

b) Em geral, com o aumento de temperatura, a resistividade dos materiais au-


menta. Assim, a resistência do filamento com a lâmpada acesa é diferente da
resistência do filamento em temperatura ambiente.

U2 1202
Vejamos: P = , logo 100 = → R = 144 Ω
R R

Reostato

Na Figura 7, temos um cir- Amperímetro Fonte de Tensão


cuito elétrico constituído por
uma fonte de tensão, por um A
amperímetro (aparelho que
indica a medida da corrente
Cursor
elétrica), por uma lâmpada e
por um reostato. A posição do
cursor no reostato determi-
Reostato
na o comprimento do resistor Figura 7 - Montagem de um reostato
(fio muito fino enrolado no Fonte: o autor.
corpo do reostato). Desse modo, podemos obter, com o reostato, valores variados
de resistência elétrica.
O funcionamento do reostato se baseia em dois aspectos da 2ª lei de Ohm.
• O fio é bem longo e a resistência é proporcional ao comprimento.
• O fio é bem fino, de forma que a resistência por unidade de comprimento não
seja desprezível (ela é inversamente proporcional à área da secção transversal).

48 Resistência Elétrica
Curto-Circuito

Em um circuito elétrico, a função dos fios (condutores elétricos) é conduzir a energia


elétrica. No extremo ideal, os fios somente conduziriam, sem dissipação de energia
pela circulação da corrente elétrica. Na prática, as resistências dos fios usados na
configuração dos circuitos são, geralmente, muito menores que a dos outros aparelhos
envolvidos, de modo que podem ser desprezadas.
Observe, na Figura 8, um trecho de fio, com destaque para dois pontos, X e Y. Se
esse fio não dissipa energia, então esses dois pontos têm o mesmo potencial.

Figura 8 - Pontos em curto-circuito


Fonte: o autor.

De fato, aplicamos esse conceito no dia a dia. Se queremos ligar um aparelho qualquer,
mas ele está muito longe da tomada, usamos uma extensão. A extensão apenas leva
os potenciais da tomada até os terminais do aparelho. Do ponto de vista da potência,
temos: P = Ui , mas como U = 0, a potência dissipada é nula, qualquer que seja a
intensidade da corrente.
Dizemos que os pontos X e Y estão em curto-circuito.

Lei de Nós

Chama-se nó o ponto de junção de três ou i2


mais fios.
A Figura 9 mostra uma junção de três
i1
fios que conduzem, respectivamente, as cor-
rentes elétricas i1, i2 e i3.


i3

Figura 9 - Fios convergindo em um nó


Fonte: o autor.

UNIDADE 2 49
As quantidades de carga elétrica, por unidade de tempo, que atravessam os fios
2 e 3, são provenientes do fio 1. Como sabemos que carga elétrica não se perde nem
se ganha, apenas se transfere, concluímos então que:
i1  i2  i3

Genericamente, enunciamos assim a lei dos nós: o somatório das intensidades de


corrente elétrica que se aproximam de um nó deve ser igual ao somatório das inten-
sidades de corrente elétrica que se afastam desse mesmo nó.

4 EXEMPLO A figura ilustra dois resistores percorridos pelas correntes indicadas.


a) Considerando os pontos A e B, qual deles tem o maior potencial?
b) Qual é a intensidade da corrente elétrica i1?
c) Quais são as resistências R2 e R3, sabendo-se que a tensão entre os pontos A
e B é de 36 V?

i2 = 3 A

R2
A B
i1 R3

i3 = 4 A
Figura 10 - Resistores em uma associação
Fonte: o autor.

50 Resistência Elétrica
Resolução
a) Nos resistores, o sentido da corrente é do maior potencial elétrico para o
menor potencial, logo, pelo sentido da corrente, concluímos que o potencial
elétrico de A é maior que o de B (VA > VB).
a) Examinado os pontos que estão interligados por um fio ideal, vemos que todos
os pontos destacados por um círculo vermelho têm o mesmo potencial do
ponto A (VA), ao passo que os pontos destacados com um círculo preto têm
o mesmo potencial que o ponto B (VB).
b) Pela lei dos nós, temos:
i1 = i2 + i3 , assim i1 = 3+4 , portanto i1 = 7 A
Devemos notar que a corrente i1 se refere a um trecho de curto-circuito.
Nesse trecho, tanto a tensão como também a resistência elétrica são nulas. A
determinação da intensidade da corrente é, então, feita pela lei dos nós.
c) Vamos aplicar, para cada resistor, a definição de resistência.

 36
 U  R1 =
 R=  4  R =9 Ω
 i → → 1
U = 36 V  R = 36  R2 = 12 Ω
 2 3

UNIDADE 2 51
Associação
em Série

Em várias situações práticas, é comum precisar-


mos de um certo valor de resistência não disponí-
vel isoladamente ou, ainda, ligar um aparelho em
uma rede cuja tensão é maior que a especificada
para o aparelho. Em tais circunstâncias, torna-se
necessário associar resistores, a fim de atingirmos
o objetivo desejado. Vamos analisar três tipos de
associação: a associação em série, a associação em
paralelo e, finalmente, uma composição de ambas,
chamada de associação mista.

Dois ou mais dispositivos elétricos, em particular


os resistores, estão associados em série quando
são percorridos pela mesma corrente elétrica.
Para que isso ocorra, é suficiente que, entre os
dispositivos, não existam nós.

52 Resistência Elétrica
i1
Na Figura 11, há dois resistores associados em série.

A R1 B R2 C
i i i

i1 UAB UBC

UAC

Figura 11 - Resistores associados em série


A R 1o autor. B
Fonte: R2 C
i i i
Propriedades da Associação em Série
UAB UBC

Vamos analisar
UAC as propriedades desse tipo de associação:
1. A tensão entre os extremos da associação é a soma das tensões em cada resistor.
U AC  U AB  U BC

Essa propriedade é um dos desta-


ques da associação em série. Como
cada resistor está submetido a uma
parcela da tensão total, essa associa-
ção é usada para distribuir a tensão
total entre dois ou mais resistores.
Se os resistores são idênticos, as
tensões a que estão submetidos tam-
bém são idênticas. Como exemplo,
podemos considerar duas lâmpadas 6V 6V

idênticas, fabricadas para funcionar 12 V

sob tensão de 6 V, num local em que Figura 12 - Duas lâmpadas idênticas associadas em série
Fonte: o autor.
somente se dispõe de uma bateria
(fonte) de 12 V. Ligando-se essas duas lâmpadas em série, a tensão em cada uma será
exatamente 6 V, e elas funcionarão em condições normais (Figura 12).

UNIDADE 2 53
A desvantagem da associação em série é que, se uma das lâmpadas queima, o cir-
cuito fica aberto, e a outra lâmpada deixa de funcionar. As lâmpadas não funcionam
de forma independente.

2. A maior resistência corresponde a maior potência dissipada, pois P = R . i 2 .


Como a intensidade de corrente elétrica (i) é a mesma nos dois resistores, a
potência é diretamente proporcional à resistência.
Assim, se:
R1 > R2 → P1 > P 2

3. As tensões individuais são proporcionais às resistências, pois U  R  i , e a


intensidade de corrente é a mesma para todos os resistores.
4. Vamos imaginar que os resistores R1 e R2, associados em série, sejam substi-
tuídos por um único resistor, denominado resistor equivalente (Req.).

Situações Equivalentes

A R1 B
R2 C
i i i

UAB UBC
UAC
Req
A C
i i

UAC
Figura 13 - Associação e o resistor equivalente
Fonte: o autor.

54 Resistência Elétrica
Esse resistor equivalente, ligado aos pontos A e C, é submetido à diferença de potencial
UAC, percorrido pela corrente elétrica i, tal que:
U AC  Req  i

Como U=
AC U=
AB U BC , temos:

Req.  i  R1  i  R2  i --> Req.  R1  R2 .

Genericamente, para vários resistores associados em série, temos: Req.   Ri .


i

5 EXEMPLO Três resistores estão associados em série, conforme ilustra a figura. Aplica-se, então,
uma tensão de 120 V entre os terminais A e B dessa associação.

A 20 Ω 30 Ω 10 Ω B

120 V
Figura 14 - Associação de resistores
Fonte: o autor.

Determine:
a) A resistência equivalente da associação.
b) A intensidade da corrente elétrica em cada resistor.
c) A tensão em cada resistor.
d) A potência total dissipada pela associação.

Resolução
a) A resistência equivalente pode ser obtida por:
Req.   Ri , isto é Req = 20 + 30 + 10 → Req = 60 Ω .
i

b) A intensidade da corrente é a mesma para todos os resistores.

120
U AB = Req ⋅ i → i = =2 A
60

c) Vamos aplicar U  R  i para um dos resistores.

U = 20 ⋅ 2 = 40 V, U = 30 ⋅ 2 = 60 V e U = 10 ⋅ 2 = 20 V .

d) Vamos aplicar: .

UNIDADE 2 55
Associação
em Paralelo

Dizemos que dois ou mais aparelhos, em particu-


lar os resistores, estão associados em paralelo se
estiverem submetidos à mesma tensão.
Vamos admitir que tenhamos uma bateria que
forneça uma tensão constante para um conjunto
de resistores. Como exemplo, podemos considerar
a bateria de um automóvel, a qual estejam ligadas
três lâmpadas diferentes, cujas resistências são R1,
R2 e R3. As três lâmpadas funcionam de maneira
independente. O fato de apagarmos qualquer uma
das lâmpadas não interfere no funcionamento das
outras, pois continuam sob a mesma tensão e com
a mesma resistência.

56 Resistência Elétrica
R1
R2 Observando os potenciais
elétricos dos pontos em que
R3 VB
VA estão ligadas as lâmpadas, po-
VB demos montar um outro circui-
VA
VB to, que não é igual ao primeiro,
mas é eletricamente equivalente
VA
(as lâmpadas continuam sob a
mesma tensão elétrica), com
vantagem de economizar alguns
trechos de fio.
B Os circuitos de cada uma das
A
lâmpadas funcionam paralela-
VA VB mente, não no sentido geomé-
trico, mas sim no sentido de que
são independentes.
Figura 15 - Lâmpadas associadas em paralelo
Fonte: o autor.
R1
R2
R3 VB
VA
VA VB
VB
VA

A B
VA VB

Figura 16 - Circuito equivalente ao da Figura 15


Fonte: o autor. Corrente em série e paralelo

Podemos representar, esquematicamente, a associação desses três resistores, conforme


ilustra a figura seguinte.

UNIDADE 2 57
i1
R1

VA i2 R2 VB
i i

i3 R3
Figura 17 - Resistores em paralelo
Fonte: o autor.

UAB = VA – VB.
Propriedades da associação de resistores em paralelo
Pela lei dos nós, podemos escrever: i  i1  i2  i3
U2
A menor resistência corresponde a maior potência dissipada, pois P = ,ea
R
tensão (U) é a mesma para todos os resistores.
A intensidade da corrente elétrica em cada resistor é inversamente proporcional a
sua resistência, pois, pela definição de resistência, U  R  i , logo ,
ou seja,

Resistor equivalente

Para a associação em paralelo, podemos também usar a ideia de substituir todos os


resistores associados por um único: o resistor equivalente.

i1
R1

VA i2 R2 VB
i i

i3 R3

Circuitos equivalentes

Req.
VA i i VB

Figura 18 - Resistor equivalente


Fonte: o autor.

58 Resistência Elétrica
i  i1  i2  i3
 U U U U 1 1 1 1
 U , assim: AB  AB  AB  AB , logo   
 i  R Req. R1 R2 R3 Req. R1 R2 R3

Casos particulares
Para apenas dois resistores, a equação anterior pode ser desenvolvida como:
1 1 1 R1  R2 → .
   Req. =
Req. R1 R2 R1  R2 R1 + R2

Se forem “n” resistores iguais:


1 1 1 n R
  ...    Req. 
Req. 
R  R R n
n vezes

6 EXEMPLO Três resistores de resistências R1 = 60 Ω; R2 = 30 Ω e R3 = 20 Ω estão associados


em paralelo, sendo a ddp da associação igual a 120 V.
i
R1 = 60 Ω
1

VA i2 R2 = 30 Ω VB
i i

i3 R3 = 20 Ω

U = 120V

Figura 19 - Associação em paralelo


Fonte: o autor.

Determinar:
a) A corrente elétrica em cada resistor.
b) A corrente total que se estabelece na associação.
c) A resistência equivalente à associação.
d) A potência total dissipada.

Resolução
a) A ddp é a mesma em todos os resistores. Como a intensidade de corrente
U
elétrica pode ser obtida por i = , temos:
R
120 120 120
i1 = , logo i1 = 2, 0 A i2 = , logo i2 = 4, 0 A i3 = , logo i3 = 6, 0 A
60 30 40

UNIDADE 2 59
b) A corrente total que se estabelece na associação é i  i1  i2  i3 , assim
i = 2 + 4 + 6, i = 12 A
c) A resistência equivalente à associação é dada por

1 1 1 1 1 1 1 1
   , logo   
Req R1 R2 R3 Req. 60 30 20
1 1 2  3 6 1
   → Req. = 10 Ω
R eq. 60 60 10

d) Para o cálculo da potência total, utilizamos a corrente total i.


Pt = iU, logo Pt = 12·120 --> Pt = 1440 W.

Associação Mista

O exemplo a seguir ilustra vários resistores associados. Eles não estão todos em série
e nem todos exclusivamente em paralelo. Em casos como este, a resolução será por
partes, até que atinjamos a meta final que é reduzir a associação a um único resistor
que seja equivalente à associação, acompanhando os seguintes passos:
• Substituímos os resistores que estejam associados em série, em cada trecho,
por um resistor equivalente.
• Substituímos os resistores que estejam em paralelo, em cada trecho, por um
resistor equivalente.
• Retornamos ao passo inicial, até que tenhamos reduzido todo o conjunto a
um único resistor que lhe seja equivalente.

Tenha sua dose extra de conhecimento assistindo ao vídeo.


Para acessar, use seu leitor de QR Code.

7 EXEMPLO Determinar a resistência equivalente da associação mista dada na Figura 20.

15 Ω 20 Ω
Ω
25
A 10 Ω 30 Ω 5Ω B
Figura 20 - Associação mista de resistores
Fonte: o autor.

60 Resistência Elétrica
Resolução
Comecemos pelo cálculo do equivalente nos trechos em que os resistores estão em série.
60 Ω

15 Ω 20 Ω
Ω
25
A 10 Ω 30 Ω 5Ω B

Rs  25  15  20
Rs  60

Agora, resolvemos os associados em paralelo.


20 Ω

60 Ω

A 10 Ω 30 Ω 5Ω B

1 1 1 1+ 2 1
= + = = → R p = 20 Ω
R p 60 30 60 20

O novo circuito equivalente é:


A 10 Ω 20 Ω 5Ω B

Como estão todos em série:

R = 10 + 20 + 5
R = 35 Ω
8 EXEMPLO No circuito a seguir, determinar a intensidade da corrente no resistor de 3 Ω, saben-
do-se que a tensão entre os pontos A e B é de 18 V.

A 4Ω B

UNIDADE 2 61
Resolução
A sequência seguinte ilustra os vários passos, até a obtenção do resistor equivalente.

6Ω RP = 2 Ω

A 4Ω B

A 4Ω 2Ω B

A 6Ω B

Pela definição de resistência: U AB = Req.i

18  6  i  i  3 A

Considerando-se o ponto M, intermediário entre A e B, vamos observar:

A 4Ω M 2Ω B

12 V 6V

18 V
U AM = 4 ⋅ 3 U MB = 2 ⋅ 3
U AM = 12 V U MB = 6 V

Convém observar que U AM + U MB = U AB = 18 V . Voltando ao circuito original, a


tensão no resistor de 6 Ω é portanto 6 V.
U =Ri
6 = 6i1 → i1 = 1 A

Explorando a Lei de Nós

A compreensão da Lei dos Nós, em conjunto com a definição de resistência, consti-


tui-se num ponto chave para o aprendizado de toda a eletrodinâmica.
Vamos considerar os exemplos seguinte, que resolveremos utilizando esses dois aspectos.

62 Resistência Elétrica
Resistor em curto-circuito
Quando os terminais de um resistor estão interligados por um fio ideal, dizemos que
esse resistor está em curto-circuito. A tensão nesse resistor é nula e, em decorrência,
ele não está em funcionamento, podendo ser descartado por ocasião do cálculo do
resistor equivalente.
No exemplo seguinte, o resistor de 12 Ω está em curto. A resistência equivalente
entre os pontos A e C é de 6 Ω.

Nó 1

A i 12 Ω A 4Ω B 2Ω C

i
Figura 21- O resistor de 12 ohms está em curto-circuito
Fonte: o autor.

A corrente no curto-circuito tem a mesma intensidade que a corrente total. Isso


ocorre por uma imposição física que é a lei dos nós, uma vez que é nula a corrente
no resistor de 12 Ω.

9 EXEMPLO O esquema a seguir representa um circuito sujeito a uma tensão total de 36 V, sendo
o potencial do ponto A maior que o potencial do ponto B. Qual a intensidade e o
sentido da corrente em cada um dos ramos?

A 12 6 4 B

Gerador = 36 V

Figura 22 - Circuito com alguns curtos


Fonte: o autor.

UNIDADE 2 63
Resolução
Primeiramente, vamos identificar cada um dos nós utilizando as propriedades do
curto-circuito. Como fizemos no caso anterior, começamos pelos extremos.
A figura ilustra o resultado desse processo, com destaque para os sentidos das
correntes. Como sabemos, nos resistores, o sentido da corrente é do menor para o
maior potencial (de A para B).
Observe que, devido aos curtos, o potencial de A1 é o mesmo de A, e o de B1 é o
mesmo de B.

A 12 6 4 B
B1 A1

Gerador = 36 V

Figura 23 - Circuito com 3 resistores e alguns curtos-circuitos


Fonte: o autor.

Assim, em todos os resistores, a ddp é 36 V.


 36
 i1 = 12 = 3 A
 U 
 i=  36
 R → i2 = = 6A
U = U AB = 36 V  6
 36
i3 = 4 = 9 A

Para os curtos, vamos aplicar a lei dos nós:

 j1  3  6  9 A

 j2  6  9  15 A
Com relação às correntes j3 e j4, teremos:

j3  3  15  18 A e j4  9  9  18 A

Método do varal
Para a obtenção do resistor equivalente em situações mais complexas, podemos re-
correr a esse método, que simplifica o arranjo dos resistores e permite uma melhor
visualização dos tipos de associação.

64 Resistência Elétrica
O método se constitui dos seguintes passos:
• Desenhamos duas linhas, representando fios ideais, que correspondem aos
dois extremos da associação, atribuindo uma letra ao potencial de cada uma
delas (por exemplo A e B).
• Fazemos uma primeira simplificação do circuito, obtendo o resistor equi-
valente das associações que seguramente estão feitas em série e em paralelo.
• Em seguida, atribuímos uma letra a cada um dos potenciais intermediários.
Lembrar que pontos ligados por um fio ideal têm o mesmo potencial.
• Entre os dois extremos, desenhamos as linhas referentes aos potenciais inter-
mediários.
• Transportamos os resistores para esse novo desenho, tendo como base os
potenciais a que estão ligados.
• Apagamos as sobras dos fios de ligação.
• Com esse novo desenho, calculamos o resistor equivalente.

O exemplo seguinte ilustra esse processo.

10 EXEMPLO Considere a associação de resistores representada a seguir com os respectivos valores


das resistências.
X
6,0 Ω 6,0 Ω

6,0 Ω 6,0 Ω

3,0 Ω
Y

Qual é a resistência equivalente entre os pontos X e Y?

Resolução
Vamos identificar cada um dos nós e os respectivos potenciais.
X X
X
6,0 Ω 6,0 Ω

6,0 Ω 6,0 Ω

3,0 Ω
Y
Y B

UNIDADE 2 65
Agora, desenhamos o varal e “dependura- Apagamos as sobras dos fios de ligação
mos” os resistores.
X X


3Ω


B B



B



Y Y
Y
A sequência seguinte ilustra circuitos equivalentes, até chegarmos a um único resistor.
X X
3Ω



B

Y Y
6
Req. = → Req. = 2 Ω
3
X

Instalações Residenciais


Para que o fato de uma lâmpada estar acesa ou apagada não interfira no funcionamento
dos outros dispositivos elétricos, é comum, nas residências, que todos os aparelhos elé-
tricos estejam associados em paralelo.
Como na associação em paralelo a corrente total é a soma das correntes dos compo-
Y para não sobrecarregar os fios, é comum dividir a instalação em grupos de cir-
nentes,
cuitos, e as correntes mais elevadas passam apenas pelos fios de entrada da rede externa.
Esses fios de entrada serão, então, mais grossos, para suportar essas elevadas correntes.
A Figura 24 mostra o esquema de uma instalação residencial com três circuitos: um
para a sala, outro para a cozinha e um terceiro para o chuveiro. A alta potência desse último
aparelho justifica a necessidade de um circuito separado para ele, com fios mais grossos.

66 Resistência Elétrica
circuito 2 fase 1
circuito 3
neutro fase 1
neutro circuito 1
fase 2
fase 2 5400 W

15 W
20 W

220 V

15 W
50 W circuito 3 (220V)
80 W Circuito 1 (127V) 200 W 1 Chuveiro 5400 W
Circuito 2 (127V)
1 lâmpada 20 W 1 lâmpada 15 W
1 lâmpada 15 W 1 geladeira 200 W
1 televisão 80 W 1 rádio 50 W
Total 115 W Total 265 W

Figura 24 - Típica instalação residencial


Fonte: o autor.

Além de elementos de proteção geral, na chegada da rede externa, as normas de


segurança determinam que cada circuito tenha o seu próprio elemento de proteção.
Isso permite que se possa fazer a manutenção em uma parte da casa sem desligar a
energia elétrica de outros circuitos. É o que ocorre quando se usam, por exemplo,
disjuntores para circuitos individuais.
Outro elemento de segurança é o fio terra. A ligação à terra é representada pelo
símbolo da Figura 25.
Suponha que, por algum defeito, um dos fios energizados do chuveiro encoste
na sua carcaça metálica externa. Se uma pessoa com o corpo molhado encostar na
carcaça, poderá levar um choque de grande intensidade. Para evitar esse risco, liga-se
a carcaça à terra por um fio bem grosso que desviará a maior parte da energia elétrica
para o solo se houver algum defeito.
Em alguns países, existe a exigência desses fios terra em todas as tomadas.
Nesse caso, mesmo as tomadas de 127 V têm três furos: fase, neutro e terra. No
Brasil, essa norma já entrou em vigor.
Em resumo, temos:
• Fios fase e neutro: são usados para distribuir a energia da rede elétrica às
tomadas e aparelhos em geral de uma residência. O fio fase é energizado (po-
tencial elétrico de 127 V) e o neutro possui potencial próximo de zero.
• Fio terra: usado para prevenir choques.

UNIDADE 2 67
Relacionamos a resistência elétrica com a tensão e a in-
tensidade da corrente em um condutor. De quais fatores
ela depende e como podemos calculá-la, conhecendo-se
o material e a geometria do condutor?
Encontramos essa resposta na 2ª Lei
de Ohm e aprendemos como aplicá-la,
encontrado a resistência de um resistor.
Embora a ideia leiga de curto-cir-
cuito seja de catástrofes nos circuitos
elétricos, vimos que é por meio dos
curtos que interligamos os resistores
e outros elementos dos circuitos.
Estuamos e aprendemos as pro-
priedades das associações de resisto-
Figura 25 - Símbolo res em série, paralelo e mistas, chegan-
para ligação do fio terra
Fonte: o autor. do ao conceito de resistor equivalente.

68 Resistência Elétrica
Você pode utilizar seu diário de bordo para a resolução.

1. A tabela a seguir reúne características de três condutores correspondentes à


corrente elétrica que eles conduzem.

CONDUTOR diferença de potencial (V) 5 10 15 20 25


A intensidade da corrente (A) 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5

CONDUTOR diferença de potencial (V) 15 25 30 35 40


B intensidade da corrente (A) 3 5 7 9 11

CONDUTOR diferença de potencial (V) 10 20 30 40 50


C intensidade da corrente (A) 4 8 12 16 20

Para quais desses condutores é válida a lei de Ohm?


a) Apenas A.
b) A e B.
c) A e C.
d) B e C.
e) Apenas C.

2. Um fio metálico de resistividade 1⋅10-4 Ω cm tem comprimento de 20 m e secção


circular de área 2 mm2. Quando uma corrente de 5 A percorre esse fio, a queda
de potencial que ele provoca é:
a) 5.000 V.
b) 1.500 V.
c) 500 V.
d) 250 V.
e) 50 V.

69
3. Uma cidade consome 1,0 · 108 W de potência e é alimentada por uma linha de
transmissão de 1.000 km de extensão, cuja voltagem, na entrada da cidade, é
100.000 volts. Essa linha é constituída de cabos de alumínio cuja área da seção
reta total vale A = 5,26 · 10-3 m2. A resistividade do alumínio é ρ = 2,63 · 10-8 Ωm.
a) Qual é a resistência dessa linha de transmissão?
b) Qual é a corrente total que passa pela linha de transmissão?
c) Que potência é dissipada na linha?

4. A lâmpada de um certo instrumento de laboratório funciona normalmente


dissipando uma potência de 48 W e foi fabricada para ser alimentada por uma
fonte de tensão de 24 volts. Não dispondo de uma fonte desse tipo, o usuário
do instrumento decidiu usá-lo na linha de 220 volts, tomando antes o seguin-
te cuidado: ligou, em série com a lâmpada, uma resistência ôhmica, de valor
previamente calculado, para que aquela tivesse funcionamento normal. Qual
o valor, em ohms, dessa resistência?
a) 1.
b) 3.
c) 100.
d) 98.
e) 108.

70
5. Na associação de resistores da figura a seguir, os valores de i e R são, respec-
tivamente:

40 Ω
2A
8A 2R

R
i

a) 1 A e 10 Ω.
b) 2 A e 2,5 Ω.
c) 4 A e 2,5 Ω.
d) 16 A e 5 Ω.
e) 8 A e 5 Ω.

6. Um resistor de 10 Ω, no qual flui uma corrente elétrica de 3,0 ampères está


associado em paralelo com outro resistor. Sendo a corrente elétrica total, na
associação, igual a 4,5 ampères, o valor do segundo resistor, em ohms, é:
a) 5,0.
b) 10.
c) 20.
d) 30.
e) 60.

71
LIVRO

Física para cientistas e engenheiros


Autor: Paul A. Tipler e Gene Mosca
Editora: LTC
Sinopse: aborda o Eletromagnetismo com mais profundidade, mas exige conhe-
cimentos de cálculo. Embora o nível seja avançado, o livro é bastante didático
e a linguagem é acessível.
Comentário: o livro é interessante para quem tem algum pendor para a pesquisa
e tenha tempo para aprofundamentos. O grau de dificuldade dos exercícios é
de médio para alto.

WEB

Vídeo sobre a segunda Lei de Ohm, curto e simples. As legendas em português


podem ser ativadas. O vídeo compara o fluxo de um fluido por um canal com
o fluxo de elétrons pelos fios e apresenta as grandezas resistividade e conduti-
vidade e ainda como calcular a resistência a partir da geometria do condutor e
das propriedades do material.
Para acessar, use seu leitor de QR Code.

72
FEYNMANN, R.; LEIGHTON, R.; SANDS, M. Lições de Física de Feynman. Porto Alegre: Artmed, 2008.
Volume 3.

GUIMARÃES, O.; PIQUEIRA, J. R. C.; CARRON, W. Física - Projeto múltiplo 3V. São Paulo: Ática, 2014.

GUIMARÃES, O.; CARRON, W. As faces da Física. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2006.

HALLIDAY, D.; RESNICK, R. Fundamentos de Física. 3. ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos,
1994. Volume 4.

OKUNO, E.; CALDAS, I. L.; CHOW, C. Física para ciências biológicas e biomédicas. São Paulo: Harbra, 1982.

YOUNG, H. D.; FREEDMAN, R. A. Física. 12. ed. São Paulo: Addison Wesley, 2009.

73
1. B.

2. A.

3. a) 5 Ω.

b) 1000 A.

c) 5.106 W.

4. D.

5. D.

6. C.

74
75
76
Dr. José Osvaldo de Souza Guimarães

Conversão da
Energia Elétrica

PLANO DE ESTUDOS

Receptores Capacitores

Geradores Leis de Kirchhoff

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

• Definir e estudar os geradores, os rotores das turbinas de • Interligar todos os elementos, geradores, receptores, re-
hidrelétrica e de termoelétricas, nucleares ou alimentadas sistores e capacitores, formando um circuito elétrico.
por combustíveis convencionais. • Entender e conceituar o funcionamento de um capacitor.
• Explorar uma das mais importantes características da
energia elétrica, os receptores.
Geradores

Neste módulo, vamos aprender sobre formas de


gerar a energia elétrica, formas de tirar proveito
dessa modalidade de energia e acionar máquinas,
sobre a distribuição de correntes nos circuitos e,
finalmente, os capacitores como elementos capa-
zes de armazenar a energia elétrica.
Os dispositivos elétricos podem ser classifica-
dos quanto à transformação de energia. Os que
transformam qualquer outra modalidade de ener-
gia em energia elétrica são os geradores, como,
por exemplo, uma pilha comum. Os portadores
de carga, ao atravessarem a pilha, têm um ganho
de energia potencial elétrica, as custas da energia
química que é transformada.
Força Eletromotriz

Para cada unidade de carga que atravessa um gerador, existe, em correspondência,


uma quantidade de energia de outra modalidade que se transforma em elétrica. Essa
quantidade seria o ganho de energia potencial elétrica ( DE ), por unidade de carga
( Dq ), caso se tratasse de um gerador ideal. A essa grandeza denominamos força
E
eletromotriz (fem). Algebricamente: e  , cuja unidade é joule = volt (V ) .
q coulomb

Pela própria unidade que essa grandeza apresenta, vemos que a designação força
não é apropriada, uma vez que ela tem a mesma natureza de uma diferença de po-
tencial. O nome apenas permanece por motivos históricos.
Existe uma diferença entre a força eletromotriz e a tensão. Ela reside no fato de
que esta última é sempre medida entre dois pontos distintos de um circuito elétrico,
ao passo que a força eletromotriz acontece localmente, no interior do gerador.

Resistência Interna

Para que os portadores de carga recebam energia potencial elétrica, é necessário que
eles atravessem o gerador. O interior do gerador oferece, à circulação dos portadores
de carga, uma determinada resistência. Gerador ideal é aquele em que não há tal
resistência. Na prática, tratamos como ideal o gerador que possuir uma resistência
interna desprezível em relação à equivalente do circuito elétrico que ele alimenta.

Cálculo das potências

A Figura 1 ilustra uma bateria em


operação. Suponhamos que o poten-
cial do polo A (VA) seja de 20 V e que
VB seja 8 V.
A tensão entre os terminais da ba- A B
teria é U  VA  VB  12V .
-
+
i

Figura 1 - Bateria alimentando uma lâmpada


Fonte: o autor.

UNIDADE 3 79
O polo de maior potencial é comumente chamado de polo positivo, mas vemos,
por esse exemplo, que os sinais dos polos, na verdade, referem-se a qual deles
tem maior potencial e qual tem menor potencial. Isto é, o polo negativo não é,
necessariamente, negativo.

O sentido da corrente elétrica, no interior da bateria, é do menor para o maior po-


tencial, pois trata-se de um movimento forçado, onde os portadores de carga ganham
energia potencial elétrica para, em seguida, fornecê-la ao circuito (lâmpada) em que
está ligada a bateria.

Potência total (Pt)


Essa potência se refere à energia de qualquer outra modalidade que é consumida
para produzir energia elétrica por unidade de tempo.
E
Da definição de força eletromotriz, temos: E  e  q . Como  , podemos
e  q t
escrever: Pt   Pt  e  i .
t

Potência dissipada (Pd)


É a potência consumida pela resistência interna. Conforme já vimos, a potência
dissipada em uma resistência pode ser calculada por:

Pd  r  i 2
Potência útil (Pu)
É a potência elétrica que o gerador fornece ao circuito ligado entre seus polos. Con-
siderando que o circuito ligado aos terminais do gerador seja um aparelho qualquer
submetido à tensão U, a potência útil é:

Pu  U  i

Equação do gerador
Em eletricidade, procuramos sempre estabelecer, para cada aparelho, uma relação
entre a intensidade da corrente elétrica que o atravessa (i) e a tensão entre os seus
terminais (U), ou seja, procuramos determinar uma função U tal que U = U(i).
Como já calculamos cada uma das potências envolvidas no funcionamento do
gerador, vamos relacioná-las, considerando o princípio da conservação da energia.

80 Conversão da Energia Elétrica


Pt = Pu + Pd
ei = Ui + r · i2
e=U+r·i Þ U=e–r·i

Essa última expressão é chamada de equação característica do gerador.

Símbolo do gerador
Dois fenômenos ocorrem simultaneamente em um gerador:
• A transformação de um outro tipo de energia em energia elétrica, traduzida
por um ganho de potencial elétrico (ε).
• Consumo de energia elétrica devido à resistência interna, traduzido por uma
redução no potencial elétrico (r · i).

A Figura 2 representa um gerador elétrico. Devemos observar que o sentido da cor-


rente elétrica é do menor para o maior potencial elétrico, ou seja, os portadores de
carga têm um ganho de energia potencial elétrica ao atravessar o gerador.

- +

ε r

gerador
Figura 2 - Símbolo do gerador
Fonte: o autor.

Perfil dos potenciais


Olhando para uma montanha russa, é fácil visualizar os pontos onde o carrinho tem
maior ou menor energia potencial, devido à ação da gravidade. Basta avaliarmos a
altura de cada posição. Porém, como nos circuitos elétricos essa visualização não é
diretamente possível, utilizamos um esquema gráfico denominado perfil dos po-
tenciais (veja a figura seguinte) para representar os ganhos ou as perdas de energia
potencial elétrica dos portadores de carga.

UNIDADE 3 81
U

- +
ε r

ri
ε U

Figura 3 - Níveis de energia ao longo do percurso no gerador


Fonte: o autor.

Vamos analisar as transformações de energia, considerando o sentido convencional


da corrente elétrica.
Ao serem alçados, do menor para o maior potencial elétrico, os portadores de
carga ganham energia potencial elétrica. Ao atravessar a bateria, uma parte dessa
energia é dissipada devido à resistência interna (efeito Joule). O restante da energia
é fornecida ao aparelho que está ligado ao gerador.

Curva Característica do Gerador

A função U(i) = ε – r · i , onde ε e r são constantes, é uma função U de primeiro grau


na variável i. O gráfico dessa função é uma reta, conforme Figura 4:

U circuito
aberto
ε

curto-circuito

0
i = εr
CC
i
Figura 4 - Pontos notáveis no funcionamento do gerador
Fonte: o autor.

82 Conversão da Energia Elétrica


Observando-se o ângulo α da figura seguinte, temos:
ε
tg=
α = r
ε
r

α β
0
i = εr
CC
i (A)
Figura 5 - Curva de um gerador
Fonte: o autor.

Pontos notáveis
Na curva característica de um gerador, merecem destaque dois pontos: o do circuito
aberto e o do curto-circuito.

Circuito aberto (i = 0, U = ε)

Se i = 0, não há consumo de energia na resistência interna. Nessa condição, a tensão


entre os terminais do gerador é a própria força eletromotriz (fem). Dizemos que o
circuito está aberto, pois não há circulação dos portadores de carga. Medir a tensão
entre os terminais de uma bateria, com o circuito aberto, é um procedimento usual
para estabelecermos qual é sua força eletromotriz.

 e
Curto-circuito  U  0, i  icc  
 r

Para que os dois polos do gerador tenham o mesmo potencial elétrico, basta ligarmos
esses pontos com um fio ideal; o gerador ficará numa situação de curto-circuito. Nessa
situação, a potência útil é nula e toda energia de outra modalidade que está se transfor-
mando em energia elétrica é dissipada internamente no próprio gerador. Se o gerador
for, por exemplo, uma pilha comum, observa-se que ela se descarregará rapidamente.

UNIDADE 3 83
Podemos dizer que, exceto em situações acidentais, o interesse relativo à essa
situação é meramente teórico, pois, na prática, estaríamos danificando o gerador.

Lei de Pouillet

Consideremos um gerador alimentando um circuito exclusivamente resistivo. Pode-


mos ter, nesse circuito, vários resistores associados, mas é sempre possível substituí-los
por um único: o resistor equivalente.

A A
i

r i
i R
ε

i
B B
Figura 6 - Circuito elétrico elementar
Fonte: o autor.
Conforme vemos, pela Figura 6, há um único percurso fechado – chamado de malha
– para a circulação dos portadores de carga. Sempre que essa condição é obedecida,
dizemos que se trata de um circuito de malha única. Vemos, pelos potenciais relativos
aos pontos A e B, que a tensão nos terminais do gerador é a tensão fornecida ao resistor:

U  e  r  i
  e  r  i  R  i logo e  ( R  r )  i, que podemos expressar por e    R   i
 U  R i

Caso tenhamos mais de um gerador, mas ainda obedecendo à condição de malha


única, a expressão se torna:
 e    R   i (lei de Pouillet)
O somatório das forças eletromotrizes   e  é igual à soma das tensões em todos
 
os resistores   R  i     R  i , internos e externos.

84 Conversão da Energia Elétrica


Observe que quem “dá as cartas”, ou seja, determina o sentido da corrente, é o
gerador, e neste, o sentido da corrente é do menor para o maior potencial, impondo
que a corrente tenha o sentido horário.

Rendimento

O rendimento (η) de uma máquina qualquer é a relação entre a potência útil e a


potência total consumida. Nos geradores, vamos, então, escrever: P

Pu U i U
h= , mas como Pu = U i e Pt = ε i , temos η  , portanto η =
Pt ε i ε

Podemos, também, expressar o rendimento de um gerador considerando somen-


te a resistência interna e a externa. Lembrando que, pela lei de Pouillet, e    R  i
R i R
e que U  R  i , podemos escrever: h  , logo h 
R  ri R  r
Associação de geradores

É comum a utilização simultânea de várias pilhas para fazer funcionar um aparelho


elétrico. Esse é um exemplo de associação de geradores.
Tal como ocorre no caso dos resistores, há dois tipos básicos de associação de
geradores: em série e em paralelo.

Associação de geradores em série

Dois ou mais geradores estão associados em série quando, entre eles, não existem
nós. Como decorrência, os geradores são percorridos pela mesma corrente elétrica.
Vejamos um exemplo de dois geradores associados em série.
ε1 ε2
r1 r2
i i i

U1 U2
U
Figura 7 - Geradores associados em série
Fonte: o autor.

UNIDADE 3 85
Considerando-se o gerador equivalente, escrevemos: U  eeq.  req.  i (I)
Observando que U  U 1 U 2 , escrevemos:
U  e1  r1  i  e2  r2  i  e1  e2   r1  r2  , portanto, na associação de geradores

           
U1 U2 eeq . req .

εeq. = ε1 + ε2
em série, temos 
 r eq. = r1 + r2
O gerador equivalente tem uma força eletromotriz igual à soma das eletromotrizes
dos geradores associados em série, e resistência interna igual à soma das resistências
internas dos geradores associados. Esse resultado nos indica a utilidade da associação
de geradores em série, realizada com a finalidade de se obter maior tensão. Por exem-
plo, quando associamos em série quatro pilhas de 1,5 V de fem cada uma, obtemos
com esse arranjo um gerador equivalente de fem 6,0 V.

Associação de geradores em paralelo

Os geradores estão associados em paralelo quando se acham submetidos à mesma


tensão. Por ora, estudaremos apenas o caso em que os geradores associados em pa-
ralelo são iguais.
A Figura 8 ilustra uma associação em paralelo de três geradores iguais. Por serem
iguais e submetidos à mesma tensão, os três são atravessados por correntes elétricas
de mesma intensidade.

ε
i1 r

ε
VA i i2 r i VB
ε
i3 r

U
Figura 8 - Gerador em paralelo
Fonte: o autor.

86 Conversão da Energia Elétrica


Podemos, então, escrever:

 i
 i1  i2  i3  3
 eeq.  e
 i 
 U  e  r  ( para cada gerador )   r
 3  req. 
U  eeq.  req.  i (na associação)  3



A durabilidade de cada pilha depende da intensidade de corrente que a atraves-


sa. Na associação de pilhas em paralelo, a corrente em cada pilha é uma fração
da corrente total, aumentando, portanto, a durabilidade das pilhas. Além disso, a
resistência interna da associação é menor que a resistência interna de cada uma
das pilhas isoladamente.

Experimente montar o seu circuito em simulações com amperímetros e voltímetros.


No link seguinte, da Universidade do Colorado, você pode obter o simulador.
Disponível em:
<https://phet.colorado.edu/pt/simulation/legacy/circuit-construction-kit-dc>.

1 EXEMPLO Quatro baterias ideais, de 9,0 V cada uma, estão ligadas conforme o esquema. Qual
é a diferença de potencial entre os pontos A e B?

B
A

UNIDADE 3 87
Resolução
A associação pode ser representada pelo seguinte esquema:
ε ε

ε ε
A B

O circuito anterior é equivalente a:

ε
A
ε B eeq.  2  e
eeq.  18V

88 Conversão da Energia Elétrica


Receptores

Chamamos de receptores os aparelhos elétricos


que transformam energia elétrica em outra forma
de energia, desde que não seja exclusivamente
térmica. Assim, são exemplos de receptores os
aparelhos de som, a televisão, os motores elétricos
e as baterias recarregáveis.

Características do Receptor

Identificamos um receptor por determinadas


grandezas físicas que são associadas a ele. A se-
guir, vamos detalhar quais são as grandezas físicas
que determinam o receptor que estamos usando.

Força Contraeletromotriz (e’)

Uma das características de um receptor é a quanti-


dade de energia elétrica que ele transforma (“con-
some”) por unidade de carga que o atravessa. Essa
característica é denominada força contraeletro-
motriz (fcem). Algebricamente, escrevemos:
e
e' 
q

UNIDADE 3 89
J
A unidade da força contraeletromotriz é: = V (volt ). Vemos, pela unidade, que
C
a fcem tem a mesma natureza de uma ddp. Realmente, se imaginamos um receptor
ideal, a fcem mede a diferença entre os níveis de energia nos terminais do receptor,
ou seja, para um receptor ideal, a fcem é a própria tensão entre seus terminais.

Resistência interna (r’)

Ao atravessar um receptor, os portadores de carga elétrica encontram determinada


resistência, que é uma grandeza inerente aos receptores reais e acarreta uma quan-
tidade de energia dissipada. A ausência dessa energia dissipada somente ocorreria
em um receptor ideal. Vemos então que, na prática, os receptores apresentam uma
resistência interna, que representamos por r’.

i
-

i + U

Figura 9 - Esquema de motor elétrico


Fonte: o autor.

+ -
i A B i
Receptor VA > VB
U

O receptor e sua representação simplificada.

Potências

Considere o motor da Figura 9 em plena operação. A tensão entre os terminais do


receptor é U. Segundo a convenção, o polo de maior potencial é o polo positivo; o
de menor potencial é o polo negativo.
O sentido da corrente elétrica (convencional), no interior do receptor, é o do maior
para o menor potencial, pois trata-se de um movimento espontâneo em que os porta-
dores de carga cedem energia potencial elétrica para a obtenção de energia mecânica.

90 Conversão da Energia Elétrica


Potência Total (Pt)

Essa potência se refere à energia elétrica total fornecida ao receptor por unidade de
tempo. Sendo U a tensão nos terminais e i a intensidade da corrente elétrica, temos:
Pt  U  i

Potência Dissipada (Pd)

A potência dissipada é potência consumida pela resistência interna. Conforme vimos,


essa potência pode ser calculada por:

Pd = r ' i 2

2.2.3 Potência Útil (Pu)

É a potência referente à energia que esperamos obter do receptor. Sabemos que:


E , mas como E  e ' q , obtemos:
Pu 
t

ε ' ∆q
Pu = → Pu = ε '⋅ i .
∆t

Equação do Receptor

Tal como procedemos para o gerador, vamos estabelecer a relação entre a intensidade
da corrente elétrica, que atravessa o receptor, e a tensão entre os seus terminais.
Considerando o princípio da conservação da energia, escrevemos:
Pt = Pu + Pd
U ⋅ i = ε '⋅ i + r '⋅ i 2 Logo,
U = ε '+ r '⋅ i

Essa última expressão é conhecida como equação característica do receptor.


Dois fenômenos ocorrem simultaneamente em um receptor: a transformação
de energia elétrica em outra modalidade e o consumo de energia elétrica devido à
resistência interna. A Figura 10 representa um receptor.

UNIDADE 3 91
ε’
+ - r’
VA + i i - VB

U
VA >VB
Figura 10 - Símbolo de um receptor
Fonte: o autor.

É importante observar que o sentido da corrente elétrica é o do maior para o me-


nor potencial, ou seja, os portadores de carga “gastam” energia potencial elétrica ao
atravessar o receptor.
A primeira vista, pode parecer um contrassenso adotar para o receptor o mesmo
símbolo que adotamos para o gerador. Afinal, essa repetição pode gerar dúvidas quan-
to à função exercida por um aparelho. Essa dúvida deve realmente existir, pois, muitas
vezes, os geradores são reversíveis, podendo funcionar como gerador ou receptor,
dependendo das condições em que opera. Por exemplo, uma bateria de automóvel
funciona normalmente como gerador, fornecendo energia elétrica, mas quando ligada
a um recarregador de baterias, ela recebe energia elétrica para armazená-la na forma
de energia química, funcionando como um receptor.
Entendemos, então, que usar o mesmo símbolo para o gerador ou para o receptor
reflete uma escolha criteriosa. Podemos entender esse símbolo como representação
de um bateria reversível, que estará funcionando como gerador ou receptor, depen-
dendo do sentido da corrente elétrica.

Perfil dos potenciais

No receptor, temos dois fenômenos acontecendo simultaneamente: a transforma-


ção de energia potencial elétrica em outra modalidade e a dissipação de energia na
resistência interna.
O diagrama da Figura 11 ilustra o perfil dos potenciais elétricos, quando acom-
panhamos o sentido da corrente, para o receptor.

92 Conversão da Energia Elétrica


U

ε’
r’
+ -
i

ε’
U
r’i
Figura 11 - Níveis de energia ao longo de um receptor
Fonte: o autor.

Curva Característica

A função U = ε’ + r’i, em que ε’ e r’ são constantes características de cada aparelho,


é uma função de primeiro grau na variável i, cujo gráfico é uma reta:

α
ε’

0 i(A)
Figura 12 - Curva de um receptor
Fonte: o autor.

O coeficiente angular da reta nos fornece, numericamente, o valor da resistência


interna do receptor: n
tg a = r '

UNIDADE 3 93
Tenha sua dose extra de conhecimento assistindo ao vídeo.
Para acessar, use seu leitor de QR Code.

Rendimento (h)

O rendimento do receptor é a relação entre a potência útil e a potência total:

Pu ε '⋅ i ε'
η= = , logo η =
Pt U ⋅ i U

Habitualmente, expressamos o rendimento em termos de porcentagem:

ε'
η  100%
U

Na prática, o rendimento é sempre menor que 1 (ou seja, menor do que 100%). O
rendimento 100% corresponde a uma situação teórica de um receptor ideal.

2 EXEMPLO Um receptor com fcem de 24 V e resistência interna de 2 Ω está operando com cor-
rente elétrica de 3 A de intensidade. Determine:
e) A ddp nos terminais do receptor.
f) A potência total consumida pelo aparelho.
g) A potência útil e a potência dissipada.
h) O rendimento do aparelho, nas condições do problema.
i) A curva característica.

Resolução
a) São dados
ε ' = 24 V, r ' = 2 e i= 3 A
U = ε '+ r '⋅ i
U = 24 + 2 ⋅ i

Como i = 3 A , temos: .

94 Conversão da Energia Elétrica


b) Pt = U ⋅ i, Pt = 30 ⋅ 3, Pt = 90 W .

c) Pu = ε '⋅ i, Pu = 24 ⋅ 3, Pu = 72 W .

Pd  r ' i 2 , Pu  2  32 , logo Pd = 18 W.

ε' 24
d) =η = ,η , logo η = 0, 8 ou η = 80% .
U 30

e) Vamos eleger dois pontos para a obtenção da reta


i(A) U(V)
0 24
3 30

U (V)
30

24

0 3 i(A)

Eixo Bloqueado

Pode ocorrer de o eixo do receptor (motor elétrico) estar bloqueado. É uma situação
indesejável, pois toda tensão que é fornecida ao aparelho é consumida pela resistência
interna, não havendo a fcem.
Como exemplo, vamos tomar o exercício resolvido anteriormente, imaginando
que o eixo do receptor esteja bloqueado, e que fosse fornecida ao aparelho a mesma
ddp. Nessa situação, teríamos: U = 30 V e r ' = 2 Ω . Como não há fcem, o aparelho
está funcionando simplesmente como um resistor.

U  r ' i , logo 30  2 i , ou seja i = 15 A

UNIDADE 3 95
Nessa condição, a potência consumida pelo aparelho, seria:

Pt  U  i, Pt  30  15 , logo Pt = 450 W

Vemos que tanto a intensidade da corrente elétrica como a potência total consumida
assumem valores muito maiores que as condições normais de operação do aparelho,
havendo o sério risco de fusão dos isolantes que separam os fios do motor (o motor
queima). Nessa situação, o rendimento é nulo.

Lei de Pouillet

Os geradores, os receptores e os resistores podem ser interligados e funcionar con-


juntamente, formando um circuito elétrico. Chamamos de circuito de malha única
o circuito cujos elementos são todos ligados em série, havendo, portanto, um único
percurso fechado para a circulação da corrente elétrica. Os circuitos de malha única
não contêm nós.
Na malha única, convém observar que   R  i   R  i , pois a corrente é a mesma
para todos os resistores. Em uma malha, considerando o princípio da conservação
da energia, a soma das tensões fornecidas pelos geradores é igual à soma das tensões
consumidas pelos receptores e resistores:
 e   e '  R  i , logo
 e   e '   Ri

3 EXEMPLO A partir do circuito esquematizado na figura, determine:


a) A intensidade e o sentido da corrente elétrica.
b) A potência dissipada no resistor R.
c) O diagrama do perfil dos potenciais, considerando nulo o potencial do ponto B.

96 Conversão da Energia Elétrica


10 V 2Ω
A

3Ω R=5Ω

40 V

Resolução
a) Temos dois símbolos que representam uma bateria. Nesse caso, a maior in-
tensidade (40 V) corresponde a um gerador, o outro é a um receptor, pois o
sentido da corrente que determina o aparelho de 40 V é horário.
Pela lei de Pouillet:  e   e '    R  i

40  10   5  2  3   i  i  3 A

O fato de a intensidade da corrente ter resultado em um número positivo


significa que nossa análise prévia está correta (o sentido da corrente é horá-
rio). Caso obtivéssemos um valor negativo, isso significaria que deveríamos
inverter o sentido da corrente que inicialmente consideramos.
2 2
b) Pd  R  i , Pd  5  3 , logo Pd = 45W .
c) O diagrama seguinte ilustra o perfil dos potenciais ao longo do circuito.

40 V
31 V
21 V
15 V

0V 0V
B A B

UNIDADE 3 97
Leis de Kirchhoff

Até este ponto, vimos como resolver circuitos,


utilizando o conceito de resistor equivalente, re-
duzindo-os a uma única malha. Acontece que,
em vários casos, essa ferramenta sozinha não é
suficiente para a resolução dos circuitos.
O físico alemão Gustav Robert Kirchhoff (1824-
1887), aliando à conservação da energia à análise
dos circuitos elétricos, sistematizou duas leis que
nos permitem resolver circuitos com várias malhas.

Percurso de Ramos
do Circuito

Qualquer trecho de um circuito elétrico que não


contenha nós é chamado de ramo. Para percorrer
um ramo, vamos considerar o que acontece com
os níveis de energia entre os terminais de cada
aparelho que nele estiver contido.
A seguir, vemos um esquema dos sinais em
cada um dos elementos do circuito elétrico, basea-
dos no fato de o nível de energia (potencial elétri-
co) aumentar, diminuir ou permanecer constante,
quando vamos de um ponto ao outro.

98 Conversão da Energia Elétrica


Curto-Circuito

Ao percorrermos um trecho de circuito, podemos fazê-lo ou acompanhando o sen-


tido da corrente ou em sentido contrário ao da corrente elétrica. De qualquer modo,
a tensão entre os extremos do curto é nula.

VA i i VB

Figura 13 - Trecho em curto


Fonte: o autor.
VA  VB  VA  VB  0

Bateria

ε
Quando passamos por uma bateria, se vamos
do maior para o menor potencial, o potencial
elétrico diminui e há uma queda de potencial
- +
elétrico; no caso contrário, o potencial elétri-
co aumenta, independentemente do sentido
VA VB
da corrente e do fato de a bateria estar fun-
cionando como gerador ou receptor.

VA  VB Figura 14 - Gerador ideal


VA  e  VB Fonte: o autor.

Gerador
ε
VA  VB
- +
VA  e  VB  VA  VB  e VA VB
i i

Figura 15 - Gerador
Fonte: o autor.

UNIDADE 3 99
Receptor ε’
VA i + -
VA  VB i VB
VA  e '  VB  VA  VB  e '

Figura 16 - Receptor
Fonte: o autor.

Resistor

No caso de um resistor, quando acompanhamos o sentido da corrente, o potencial


elétrico diminui, o resistor dissipa energia potencial elétrica; mas, se passamos pelo
resistor num sentido contrário ao da corrente elétrica, o potencial elétrico aumenta.

VA i + - VB

Figura 17 - Resistor
Fonte: o autor.
VA  VB  R  i
Quadro 1 - Resumo das características dos bipolos estudados

Tensão
Percurso
(U)
Elemento
de Símbolo A favor do Contrário ao
Circuito sentido da sentido da VA − VB
corrente corrente
Curto- VA VB
i i
VA = VB VB = VA 0
circuito
VA i + VB
Resistor -
VA − R ⋅ i = VB VB + R ⋅ i = VA R ⋅i
ε
+
Gerador VA
i
-
i VB
VA + ε = VB VB − ε = VA −ε

ε’
VA i + -
Receptor i VB VA − ε ' = VB VB + ε ' = VA ε'

Fonte: o autor.

100 Conversão da Energia Elétrica


4 EXEMPLO Considerando que VA = 0 V, determinar a tensão entre os pontos A e B do ramo de
circuito a seguir e desenhar o perfil dos potenciais nesse mesmo ramo.

A 12 V 2Ω 6V 1Ω B

i=1A
Resolução

Vamos percorrer o ramo AB, partindo do ponto A e considerando a tensão em cada


um dos elementos.

VA  12  2  1  6  1  1  VB , mas como VA = 0 , obtemos: VB = 3V

As variações no nível de energia são: +12 V; –2 V; –6 V e –1 V, nessa ordem.


Com essa sequência, podemos construir o diagrama do perfil dos potenciais.

i=1A
A 12 V 2Ω 6V 1Ω B

12 V
10 V

4V
3V
0

UNIDADE 3 101
Primeira Lei de Kirchhoff - Lei dos Nós

Essa lei, já vista no início da eletrodinâmica, ficou conhecida como primeira lei de
Kirchhoff.
Pelo princípio da conservação da carga elétrica, a soma das correntes que têm
sentido de aproximação do nó é igual à soma das correntes que têm sentido de afas-
tamento desse mesmo nó.

i2


i1

i3
Figura 18 - Junção de fios (nó)
Fonte: o autor.

De acordo com a figura, podemos escrever: i1  i2  i3


A equação da lei dos nós é uma equação algébrica, isto é, qualquer uma das inten-
sidades de corrente pode resultar negativa. Caso isso aconteça, esse resultado significa
que a corrente tem sentido contrário ao adotado quando do equacionamento do
problema.

Segunda Lei de Kirchhoff - Lei das Malhas

Vamos considerar a malha ABCDA, ilustrada na figura seguinte, e percorrê-la no


sentido horário. R
B 1 C

ε1 ε2

A D
R2

Figura 19 - Circuito de malha única


Fonte: o autor.

102 Conversão da Energia Elétrica


Temos:

VA  e1  R1  i  e 2  R2  i  VA  e1  R1  i  e2  R2  i  0 (I)

Ao percorrer uma malha, retornamos ao mesmo potencial de partida, ou seja, a


soma algébrica das tensões em cada elemento do circuito é nula. Esse resultado é a
Segunda lei de Kirchhoff.

A soma algébrica das tensões dos elementos de uma malha é nula.

Convenção de sinais

Vamos retomar a malha do exemplo anterior e assinalar em cada elemento os sinais


de (+) e de (–), de acordo com o fato de o potencial ser maior ou menor em cada
terminal do elemento.
R1
B C
+ -

i
+ +
ε1 ε2
- -
- +
A D
R2

Figura 20 - Circuito de malha única


Fonte: o autor.

Agora, percorremos a malha, no sentido horário ou anti-horário, e vamos conside-


rando as tensões de acordo com o sinal de chegada em cada elemento.
Se percorrermos a malha no sentido anti-horário, partindo do ponto A, obtemos:

 R2  i  e2  R1  i  e1  0, que é exatamente a equação (I).

Se percorrermos a malha no sentido horário, ainda partindo do ponto A, obtemos:

e1  R1  i  e2  R2  i  0, que equivalente à equação (I), apenas com o sinal trocado.

UNIDADE 3 103
Roteiro

Considerando as análises que fizemos, para resolver um circuito de múltiplas malhas,


vamos acompanhar o seguinte roteiro:
• Assinalar as correntes em cada ramo, sem se preocupar com o sentido correto.
• Assinalar, de acordo com os sentidos de corrente imaginados, os sinais de (+)
ou de (–) em cada elemento.
• Aplicar a 1ª lei de Kirchhoff.
• Aplicar a 2ª lei de Kirchhoff para cada uma das malhas.

Esse roteiro vai resultar em um sistema de n equações com n incógnitas, que pode
ser resolvido da maneira mais conveniente, de acordo com cada caso.

5 EXEMPLO Determinar a intensidade e o sentido da corrente em cada um dos ramos do circuito


a seguir.

3Ω 6Ω
2Ω

12 V 12 V 18 V

Resolução
Seguindo o roteiro, vamos, primeiramente, assinalar os sentidos de corrente que
imaginamos.

B C i3 D
3Ω 6Ω
2Ω
i1 i2
12 V 12 V 18 V

A F E

Agora, assinalamos a polaridade em cada aparelho, considerando os sentidos de


corrente estipulados:

104 Conversão da Energia Elétrica


B C i3 D
- -
+
3Ω
+
6Ω - 2Ω
+ i1 + i2 + +
18 V
-
12 V
-
12 V -
A F E

Aplicando-se a lei dos nós no nó C, temos:


i1  i2  i3 (I)

Percorrendo a malha ABCFA, temos:


−12 + 3 ⋅ i1− 6 ⋅ i2 + 12 = 0 → 3 ⋅ i1 − 6 ⋅ i2 = 0 → i1 = 2 ⋅ i2 (II)

Percorrendo a malha FCDEF, temos:


12  6  i2  2  i3  18  0 (III)

Temos, então, 3 equações [(I), (II) e (III)] e 3 incógnitas (i1, i2 e i3).


Substituindo a equação (I) em (III):
12  6  i2  2  i1  i2   18  0  2  i1  8  i2  6  i1  4  i2  3

Substituindo a equação (II), nesse último resultado, obtemos:


2  i2  4  i2  3  i2  0, 5 A

Por (II), temos: i1  1, 0 A .


Finalmente, por (I), vamos obter: 1  0, 5  i3  i 3  1, 5 A.
Como o valor algébrico de todas as correntes resultou negativo, os sentidos ima-
ginados inicialmente não estavam corretos. A figura seguinte ilustra a corrente em
cada um dos ramos, já com o sentido corretamente assinalado.

1,5 A
3Ω 6Ω
2Ω
1,0 A 0,5 A
18 V
12 V 12 V

UNIDADE 3 105
Capacitores

Uma das aplicações dos capacitores é armazenar


energia elétrica. Isso é feito utilizando-se as pro-
priedades da indução eletrostática, como veremos
a seguir.

Indução Total

Vamos considerar uma situação eletrostática na


qual um corpo eletrizado A induz a separação
de cargas elétricas em um corpo B, ligado à terra.

++ + ++ ++ + ++
-- - -- -
+ + + +
+ +
++ ++ ++ ++
+ ++ + ++ -- --
A A
- B
- B
indutor indutor induzido induzi

Figura 21 - Indução de cargas em um condutor


Fonte: o autor.

106 Conversão da Energia Elétrica


Indução parcial: QB < QA

Nesse caso, a carga induzida é, em módulo, menor do que a carga do indutor. Generi-
camente, a carga induzida é, em módulo, sempre menor ou igual à carga do indutor.

Para conseguirmos uma situação em que a carga induzida tenha o mesmo valor
absoluto que a carga do indutor – indução total –, toda linha de campo que nasce
no indutor deve terminar no induzido, ou vice-versa. Isso acontece, por exemplo,
quando o induzido envolve totalmente o indutor.

Indução total
- - -
- -
Se as superfícies do indutor e - -
do induzido estiverem mui- -
to próximas, em relação às - + + ++
+ -
dimensões desses corpos, a + +
- + -
situação também é, aproxi- + +
- + -
madamente, de indução total. + + + ++
- -
- -
- -
- - -

Figura 22 - Condutor em regime de indução total


Fonte: o autor.

Como a indução eletrostática esteve presente nas fotocopiadoras? Veja no site


<https://www.tecmundo.com.br/imagem/4145-como-funciona-uma-maquina-co-
piadora-.htm>.

UNIDADE 3 107
Capacitor

Chamamos de capacitor uma associação de dois condutores em regime de indução


total, ou seja, a carga do indutor é, em módulo, igual à carga do induzido.
Nessa situação, é indiferente quem seja definido como indutor ou induzido, e cada
condutor se constituí em uma armadura do capacitor.
No caso dos capacitores, não importa o potencial elétrico de cada condutor iso-
ladamente, mas sim a diferença de potencial entre eles.
A carga de um capacitor é definida como a carga da armadu-
ra positiva, uma vez que a carga total, se consideramos as duas
armaduras, é sempre nula. Símbolo do capacitor

Capacitância

Verifica-se que é constante a relação entre a carga do capacitor e a tensão aplicada


nas armaduras. Essa constante depende do capacitor que estejamos analisando e é
denominada capacitância, ou capacidade, do capacitor.
A capacitância (C) é definida por: C = Q , onde Q é a carga do capacitor e U a ten-
U
são entre suas armaduras. A unidade de capacitância é o farad (F), que corresponde
1C
a um coulomb por volt (1 F = 1V ).
Em termos práticos, a unidade F (farad) se revela muito grande. Utilizamos, então,
seus submúltiplos, com os prefixos do S. I., conforme a tabela seguinte.
Capacitor Cilíndrico
1 mF = 10–3 F
1 μF = 10–6 F
1 nF = 10–9 F
1 pF = 10–12 F

A Figura 23 ilustra alguns tipos de capacitores.


Capacitor Cilíndrico Capacitor Esferíco

Capacitor Cilíndrico Capacitor Esferíco Capacitor Plano

Figura 23 - Alguns tipos de capacitores


Fonte: o autor.

108 Conversão da Energia Elétrica

Capacitor Plano
Gráfico U × Q

1
Como C é uma constante característica de cada capacitor, podemos escrever: U   Q ,
C
onde U é uma função de primeiro grau na variável Q, cujo gráfico é uma reta que passa
pela origem dos eixos coordenados.

N
tg α = C
α

Q Q
Figura 24 - Curva característica de um capacitor
Fonte: o autor.

Energia Potencial
Elétrica no Capacitor

Até aqui, em nosso estudo da eletrodinâmica, temos considerado os aparelhos em re-


gime estacionário, isto é, a intensidade da corrente elétrica permanece constante. Nesse
tipo de regime de funcionamento, o capacitor com-
C + - D
preende uma região em que o circuito está aberto.
+ -
Vamos analisar o processo de carga do capacitor, + -
quando ligado a uma bateria.
Inicialmente, a tensão nos polos da bateria é, por B
A
exemplo, 12 V, e entre as armaduras do capacitor a
tensão é nula. À medida que as armaduras forem
sendo carregadas, vai aumentando o potencial no
ponto C e diminuindo o potencial do ponto D, au-
mentando, portanto, a diferença de potencial entre
as armaduras do capacitor. Esse processo prossegue
Figura 25 - Capacitor ligado
até que a tensão entre terminais do capacitor seja a uma bateria
igual à força eletromotriz. Fonte: o autor.

UNIDADE 3 109
Aprendemos, anteriormente, que o potencial VA deveria ser o mesmo que VC,
assim como VB deveria ser igual a VD, pois esses pontos estão ligados por fios ideais;
contudo, essa igualdade só vai acontecer após um breve intervalo de tempo, cha-
mado de transiente ou transitório, que é o tempo de carga do capacitor. Durante
esse intervalo, há um deslocamento de cargas, sob uma diferença de potencial cada
vez maior, até que a tensão no capacitor se iguale à fem, quando, então, atingimos o
chamado regime estacionário.
Os primeiros portadores de carga são transferidos de uma armadura à outra, pra-
ticamente sem diferença de potencial, ao passo que os últimos sofrerão o transporte
sob tensão praticamente igual à força eletromotriz.
O trabalho da força elétrica para que se processe o deslocamento dos portadores
de carga vai corresponder à energia potencial armazenada no capacitor (E). Para uma
certa quantidade de cargas Δq, deslocada sob uma tensão U, o trabalho da força elé-
trica é: τ = Δq·U. Como a tensão U varia durante o processo de carga, vamos calcular
o trabalho total usando como recurso a propriedade da área sob o gráfico U × q.

Q Q
Figura 26 - Trabalho no processo de carga do capacitor
Carga e descarga do capacitor Fonte: o autor.

E  t Q U C U 2 Q2
  E   
 t  Área 2 2 2C

Vamos observar que, terminado o processo de carga do capacitor, não há mais mo-
vimento ordenado de portadores de carga. O circuito entra no regime estacionário
e a intensidade da corrente elétrica torna-se nula.

110 Conversão da Energia Elétrica


6 EXEMPLO No circuito apresentado, em regime estacionário, o capacitor armazena energia po-
4
tencial elétrica de 1, 8  10 J , sendo sua capacidade igual a 10 μF. Qual é a força
eletromotriz do gerador?

r
C

Resolução

Do enunciado: E = 1, 8 ⋅10−4 J e C = 10 µ F
2 6 2
Como E  C U , temos 1, 8 104  10 10 U  U 2  36  U  6V .
2 2

Atingido o regime estacionário, é nula a corrente elétrica no circuito. A tensão entre


os pontos A e B – terminais do capacitor – é igual à força eletromotriz, logo: ε = 6 V.

Capacitor Plano

Dentre os vários tipos de capacitores, tem especial destaque o capacitor plano. Ele é
constituído por duas placas planas e paralelas, entre as quais reina um campo elétri-
co uniforme, perpendicular às superfícies das placas. Sendo U a tensão entre as ar-
maduras e d a distância entre elas, podemos escrever, pelas propriedades do campo
elétrico uniforme, que: E  d  U

A +
+ + +
+ +
+ + + +
+ -
-
d E
-
- - -

Figura 27 - Capacitor plano


Fonte: o autor.

UNIDADE 3 111
eA
A capacitância do capacitor plano pode ser calculada por: C = , onde A é área
d
de cada uma das armaduras e d a distância entre elas. A constante ε é chamada de
permitividade elétrico do meio, e já apareceu em capítulos anteriores com outra rou-
1
pagem. A constante eletrostática k pode ser definida em termo de ε, tal que k = .
4πε

De acordo com a conveniência do problema, ou usamos a constante k ou ε, sendo


qualquer uma delas obtida diretamente a partir da outra. No vácuo, têm-se:
e0  8, 85  1012 (SI).
Os meios materiais, em geral, possuem permitividade elétrica maior que a do vácuo.
Inserindo um material isolante (dielétrico) entre as armaduras do capacitor, aumen-
tamos a sua capacidade. É habitual nos utilizarmos da constante dielétrica (εr). É uma
grandeza adimensional que indica a relação entre a permitividade do meio e a per-
e
missividade elétrica do vácuo, ou seja, er  ou e  er  e 0 . Nesse caso, a expressão
e0
er  e0  A
para o cálculo da capacidade fica: C 
d

Observações
• A inserção de um dielétrico entre as armaduras aumenta a capacidade “εr”
vezes, onde “εr” é a constante dielétrica.
• Se aumentarmos a distância entre as placas, a capacidade diminui e vice-versa,
como podemos inferir pela expressão do cálculo da capacitância.
• Se retirarmos o capacitor do circuito, após o processo de carga, quer aproxi-
memos ou afastemos as armaduras, quer venhamos a inserir um dielétrico ou
não, a carga da armaduras permanece a mesma. Esse fato pode ser usado na
resolução de vários problemas específicos.

7 EXEMPLO Um capacitor plano, cuja distância entre as armaduras é de 5 mm, está preenchido
com um material isolante de constante dielétrica igual a 5. Sendo de 4 cm2 a área de
cada uma da armaduras, qual é a capacitância desse elemento?

Resolução
Do enunciado, obtemos:

er  e0  A 5  8, 85  1012  4  104
C , logo C   C  3, 5  1013 F ou C  0, 35 pF
d 5  10 3

112 Conversão da Energia Elétrica


Circuitos com Capacitores

Para a resolução de circuitos elétricos em que tenhamos capacitores, basta que nos
lembremos que, na região em que está inserido o capacitor, o circuito está aberto e,
nesse ramo, a corrente elétrica é nula, como vemos no exemplo seguinte.

8 EXEMPLO A figura a seguir representa um X


circuito elétrico em regime estacio-
nário.
a) Qual é a intensidade e o sen-


tido da corrente no gerador?
b) Qual é a intensidade da cor-


rente no ramo de circuito
que contém o capacitor?
18 V 1 μF
c) Determine a energia po-
tencial elétrica armazenada
no capacitor e determine os
sinais em cada uma das ar- Y
maduras.

Resolução
a) Para o cálculo da intensidade de corrente, aplicamos a lei de Pouillet, igno-
rando o trecho em que está inserido o capacitor, pois, nesse trecho, o circuito
está aberto.
e   R  i , logo 18  (2  4)  i  i  3 A .
O sentido da corrente se determina pela polaridade do gerador, sendo, por-
tanto, de sentido horário.
b) Em regime estacionário, não circula corrente pelo ramo que contém o capa-
citor. Logo, i ' = 0 .
c) A tensão entre os terminais do capacitor (pontos X e Y) é a mesma que se
tem no resistor de 4 Ω.
No resistor: U  R  i, U  4  3 , portanto U XY = 12V .
CU 2
A energia armazenada no capacitor pode ser obtida por: E =
2
106 (12)2
E  E  7, 2  105 J .
2

UNIDADE 3 113
Pelo sentido da corrente no resistor, vemos que o potencial do ponto X é maior que
o do ponto Y.
Nos capacitores, a armadura que fica eletrizada positivamente está ligada ao maior
potencial, enquanto a armadura eletrizada negativamente está ligada ao menor po-
tencial. Dessa forma, concluímos que a polaridade das armaduras é a esquematizada
a seguir.
+ + + +
1µF
- - - -
Aplicações dos capacitores

Uma das aplicações das pro-


A B
priedades dos capacitores é o
flash da máquina fotográfica. k
A Figura 28 ilustra como é
r L
feita a ligação dos elementos.
Se a lâmpada for ligada
somente à pilha, a intensida-
de da corrente elétrica fica ε C
limitada pelo alto valor da
resistência interna que têm
as pilhas em geral. Assim, Figura 28 - Esquema simplificado do flash
enquanto a chave k está na Fonte: o autor.
posição A, o capacitor está em um processo de carga. Passando-se a chave para a
posição B (disparador do flash), a energia armazenada no capacitor é rapidamente
consumida pela lâmpada, independentemente da resistência interna da pilha que
alimenta o circuito.
Dessa forma, conseguimos um alto valor de potência luminosa na lâmpada, em-
bora, por um curto intervalo de tempo.
Neste módulo, você compreendeu como se relacionam as tensões e as correntes
nos geradores e receptores. Aprendeu, pelas leis de Kirchhoff, como se distribuem as
correntes e as tensões nos circuitos elétricos. Finalmente, pudemos calcular a energia
armazenada nos capacitores, relacionar a carga armazenada por eles com as tensões
aplicadas e analisar suas aplicações.

114 Conversão da Energia Elétrica


Você pode utilizar seu diário de bordo para a resolução.

1. Uma bateria, de força eletromotriz ε = 24,0 volts e resistência interna r = 1,0 Ω


alimenta um resistor de resistência R.
ε
A r B

Sabendo que a diferença de potencial entre os pontos A e B é de 20,0 volts, a


intensidade da corrente no circuito e o valor de R são:
a) 2 A e 8 Ω.
b) 4 A e 5 Ω.
c) 1 A e 4 Ω.
d) 5 A e 2 Ω.
e) 8 A e 8 Ω.

2. No circuito, o resistor de resistência 4 Ω dissipa a potência de 64 W. A resistência


interna r do gerador vale:
a) 0,2 Ω. 4Ω
b) 0,4 Ω. 2Ω
c) 0,6 Ω.
d) 0,8 Ω. 16 Ω
e) 1,0 Ω.

r
30 V

115
3. Um circuito elétrico de corrente contínua é formado por uma lâmpada L, de
características nominais 100 V e 200 W, ligada em série a um motor M que con-
some uma potência de 1000 W. Se a lâmpada está operando em seus valores
nominais de potência e tensão, qual é a corrente no circuito e qual é a diferença
de potencial entre os pontos A e B?

B
4. No circuito esquematizado a seguir, tem-se um gerador G, que fornece 60 V
sob corrente de 8,0 A, uma bateria com fem de 12 V e resistência interna de
1,0 Ω, e um resistor variável R.
Para que a bateria seja carregada com uma corrente de 8,0 A, deve-se ajustar
o valor de R para:

12V - 1.0Ω

a) 1,0 Ω.
b) 2,0 Ω.
c) 3,0 Ω.
d) 4,0 Ω.
e) 5,0 Ω.

116
5. Os valores dos componentes do circuito da figura a seguir são:

ε1 = 6 V; ε2 = 12 V; R1 = 1 kΩ; R2 = 2 kΩ.

R1 R2

ε1 A3 ε2

A1 A2

Os valores medidos pelos amperímetros A1, A2 e A3 são, respectivamente, em mA.


a) 1, 2 e 3.
b) 6, 12 e 18.
c) 6, 6 e 12.
d) 12, 12 e 6.
e) 12, 12 e 24.

6. No circuito, a chave k pode ser ligada tanto ao ponto X como ao Y. Quando é


ligada ao ponto X, o amperímetro ideal A indica 0,4 A e quando é ligada ao ponto
Y, a energia elétrica armazenada no capacitor é:
Y
A
k X
ε
1nF
6,5 Ω

a) 2, 25  101 J .
b) 4, 5  107 J .
c) 8, 0  107 J .
d) 4, 5  109 J .
e) 9, 0  109 J .

117
WEB

Ótimo vídeo demonstrando a circulação dos portadores de carga em circuitos


em série, paralelo e a composição das correntes. O vídeo mostra o que ocorre
com os níveis de energia dos portadores de carga ao longo do circuito.
É possível ativar a tradução em legendas para português.
Para acessar, use seu leitor de QR Code.

118
FEYNMANN, R.; LEIGHTON, R.; SANDS, M. Lições de Física de Feynman. Porto Alegre: Artmed, 2008.
Volume 3.

GUIMARÃES, O.; PIQUEIRA, J. R. C.; CARRON, W. Física - Projeto múltiplo 3V. São Paulo: Ática, 2014.

GUIMARÃES, O.; CARRON, W. As faces da Física. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2006.

HALLIDAY, D.; RESNICK, R. Fundamentos de Física. 3. ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos,
1994. Volume 4.

OKUNO, E.; CALDAS, I. L.; CHOW, C. Física para ciências biológicas e biomédicas. São Paulo: Harbra, 1982.

YOUNG, H. D.; FREEDMAN, R. A. Física. 12. ed. São Paulo: Addison Wesley, 2009.

119
1. B.

Como U  e  r  i , temos 20  24  l  i  i  4 A. No resistor externo: U = R⋅ i , logo 20 = ⋅ 4 → =5Ω.


2. D.
2
Como P = R ⋅ i , para o resistor de 4 ohms, temos 64  4  i 2  i1  4 A .
A ddp no resistor de 16 Ω é a mesma que no de 4 Ω, logo: 16 ⋅ i 2 = 4 ⋅ 4 = 16V → i2 = 1 A .
No resistor de 2 Ω, a corrente é i  4  1  5 A , logo U 2  2  5  10V .
Com isto, a ddp no gerador é U  16  10  26V .
Como U  e  r.i, temos 26  30  r  5  r  0, 8 .
3. i 2 A; AB 600 .

Na lâmpada, P = U ⋅ i , logo 200  100  i  i  2 A .


No motor M, temos: P =U ⋅ i , logo 1000  U 2  2  U 2  500V .
U AB  500  100  600V
4. E.

Lei de Pouillet:  e   e '    R   i , logo 60  12  1  R   8  R  5 .


5. C.

O amperímetro A3 põe em curto dois pontos do circuito.

Usando-se U  R  i, para R1 6  103  i1  i1  6mA .


Para R2 , 12  2  103  i2  i2  6mA .
i  i1  i2  i  12mA .
6. D.

Com a chave em X, temos: e    R  i , logo e  1  6, 5   0, 4  3, 0V .


C  U 2 1  109  9
Com a chave em Y, a energia no capacitor é: W    4, 5 109 J .
2 2

120
121
122
Dr. José Osvaldo de Souza Guimarães

Eletromagnetismo

PLANO DE ESTUDOS

Experiência de Oersted Solenoide

Magnetismo Natural Espiras Circulares

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

• Conhecer e compreender o magnetismo pelos ímãs na- • Explorar, mensurar e prever qual será o campo magnético
turais ou artificiais e identificar as polaridades. Conceituar gerado por correntes em espiras.
campo magnético. • Identificar o campo magnético gerado por bobinas e rela-
• Identificar o magnetismo como produto da corrente elétri- cionar a intensidade com a geometria da bobina, quanti-
ca. Relacionar o magnetismo com a eletrodinâmica. dade de voltas e a intensidade da corrente elétrica.
Magnetismo
Natural

O mistério de uma força atuando a distância é


uma grande surpresa quando observado pela
primeira vez. Que criança não fica fascinada ao
tomar contato com os “poderes” de um ímã? Nesta
unidade, vamos aprender sobre o magnetismo e
sua relação com as correntes elétricas.
O nome magnetismo vem de Magnésia, pe-
quena região da Grécia, onde foi encontrado em
grande abundância um mineral naturalmente
magnético. Uma pedra desse mineral é o que
chamamos de ímã natural.
Figura 1 - Região da Magnésia
Fonte: Google Maps.

Se tomarmos um ímã natural, de formato alongado, e o pendurarmos pelo seu centro


de massa, veremos que essa pedra fica sempre alinhada na direção geográfica norte-sul.
A extremidade que aponta para o norte geográfico é chamada de polo norte do ímã.
A outra, apontada para o sul geográ-
Norte
fico, é denominada polo sul do ímã. geográfico
Essa característica passou a ser
aproveitada como elemento de
orientação náutica, particularmen- N
te nas grandes navegações (séculos
XV e XVI), nas ocasiões em que
S
os astros não eram facilmente ob-
serváveis. O aparelho que explora
essa característica é uma pequena
Sul
agulha imantada, simplesmente Geográfico
apoiada em seu centro de massa, Figura 2 - Ímã natural
que chamamos de bússola. Fonte: o autor.

UNIDADE 4 125
Figura 3 - Bússola sobre antigo mapa

Não devemos confundir os polos com as extre-


midades do ímã, pois, podemos ter, por exemplo,
um ímã esférico. Os polos são as regiões do ímã
em que os efeitos magnéticos se apresentam
mais intensos. Um ímã tem sempre, pelo menos,
dois polos.

Figura 4 - Visualização do campo magnético por meio de


limalhas de ferro

Ação entre os Polos

Verifica-se experimentalmente que, quando dois ímãs são colocados próximos, o polo
norte de um repele o polo norte do outro, enquanto que o polo sul é atraído pelo polo norte.

N S
N N
S N
REPULSÃO ATRAÇÃO
Figura 5 - Ação entre os polos dos ímãs
Fonte: o autor.

Polos de mesmo nome se repelem e polos de nomes diferentes se atraem.

126 Eletromagnetismo
Inseparabilidade dos Polos

Se tomarmos um ímã em forma de barra e parti-lo ao meio, verificaremos que não


será obtido um polo norte e um sul isoladamente. Na região onde o ímã foi rompido,
teremos o surgimento de polos de natureza oposta à extremidade da parte da barra
que os contém. O fenômeno é conhecido como a Inseparabilidade dos polos.
Podemos continuar o processo de divisão da barra indefinidamente, e o fato vai
continuar se repetindo.
A primeira explicação clara e consistente para o ocorrido foi elaborada por André-
Marie Ampère. Ampère imaginou que cada ímã fosse constituído de pequenos ímãs
elementares, cujo efeito superposto seria o do ímã completo. Hoje, sabemos que cada
um desses ímãs elementares corresponde a uma pequena porção de matéria, onde
os átomos ou moléculas da substância têm a mesma orientação magnética, chamados
de domínios magnéticos. As figuras a seguir ilustram o raciocínio de Ampère para
explicação da inseparabilidade.
Original Primeira divisão

S N S NS N

Segunda divisão

S NS NS NS N

Figura 6 - As setas indicam a orientação da maioria dos domínios magnéticos da barra imantada
Fonte: o autor.

A força magnética é uma força de campo, ou seja, age mesmo que não tenhamos
contato entre os corpos. Sendo assim, é conveniente imaginar a transmissão dessa
ação por um agente que denominamos campo magnético.

Campo Magnético

Campo magnético é uma região do espaço na qual um pequeno corpo de prova fica
sujeito a uma força de origem magnética. Esse corpo de prova deve ser um pequeno
objeto feito de material que apresente propriedades magnéticas.

UNIDADE 4 127
Representamos o campo magnético em cada ponto de uma região pelo vetor campo
 
 
magnético B . Para determinar a direção e o sentido do vetor B, usamos uma agulha

magnética. O polo norte da agulha nos indica o sentido de B .

Em termos mais simples, o corpo de prova nada mais é que uma pequena bússola.

B
S
N

S N
N
S B
B
Figura 7 - Bússolas mostrando as orientações de campos magnéticos
Fonte: o autor.

Linhas de Campo

Em um campo magnético, as linhas de cam-


po são tais que o vetor campo magnético
apresenta as seguintes características:
• A sua direção é sempre tangente à B2
B1
cada linha de campo em qualquer
ponto dentro do campo magnético.
• O seu sentido é o mesmo da respec-
tiva linha de campo.
• A sua intensidade é proporcional à
densidade de linhas de campo.

  Figura 8 - Campo magnético de intensidade
B1 �� > B2 � variável no espaço
Fonte: o autor.

128 Eletromagnetismo
Para construir as linhas de campo, podemos usar o conceito de domínio magnético.
Cada pequeno domínio magnético é um pequeno ímã, que podemos considerar
como um pequeno corpo de prova. Observe, na ilustração a seguir, que internamente
ao ímã [figura (a)], as linhas de campo começam no polo sul e vão até o polo norte;
e externamente ao ímã, as linhas de campo começam no polo norte e vão até o polo
sul [figura (b)]. Desse modo, as linhas de campo fecham um ciclo.

P’∞ S N P∞

Figura 9 - Linhas de campo de um ímã em forma de barra


Fonte: o autor.

É possível termos um ímã com mais de dois


polos. Como exemplo, vemos, na Figura 10,
um esboço das linhas de campo para um ímã
com quatro polos.
N
As linhas do campo magnetostático são S S
sempre linhas fechadas, não têm, portanto,
um ponto de partida ou chegada, sendo a sua
N
orientação determinada, apenas, pela defini-
ção que fizemos do corpo de prova, que em
última instância é padronizado a partir do Figura 10 - Ímã com 4 polos
grande ímã que é a Terra. Fonte: o autor.

Nesta altura da discussão, fica inevitável a comparação com a eletricidade. Lá,


encontramos cargas positivas e negativas, enquanto no magnetismo não se obtém,
separadamente, os polos norte e sul. As linhas de campo, na eletrostática, nascem na
carga positiva (ou infinito) e findam na negativa (ou infinito), determinando sempre
linhas abertas, ao passo que, no campo magnetostático, elas não têm um ponto de
origem ou de término. As linhas de campo magnetostático são sempre linhas fechadas.

UNIDADE 4 129
Experimente as simulações de campo magnético da Universidade do Colorado.
Disponível em:
<https://phet.colorado.edu/pt_BR/simulation/legacy/magnets-and-electromagnets>.

Campo Magnético Uniforme

O campo magnético é uni-


forme em uma determinada N S
região quando, em todos os N S
pontos dessa região, o vetor
campo magnético tem a mes-
ma intensidade, a mesma dire-
ção e o mesmo sentido.
Quando colocamos um ímã FiguraExemplos de imãs
11 - Exemplos de imãs em que
em que há campo
há campo magnético
praticamente uniforme
em um campo magnético uni- magnético praticamente uniforme
Fonte: o autor.
forme, as forças em ambos os
polos ficam com a mesma intensidade, porém com sentidos contrários. Por isso, esse
ímã tende, apenas, a girar, mantendo a posição de centro de massa, até que se alinhe
com o campo.

Imantação por Influência

Existe uma classe de substâncias chamadas ferromagnéticas. Dessa classe, fazem


parte os elementos ferro, níquel e o cobalto, além de alguns compostos e ligas que
envolvam esses elementos. Essas substâncias têm como propriedade o fato de pos-
suírem domínios magnéticos. Normalmente, esses domínios estão orientados ao
acaso, não resultando em um magnetismo global, porém, na presença de um campo
magnético externo, os domínios tendem a se alinhar com o campo, tornando-se o
corpo, globalmente, um ímã.
O fenômeno guarda uma certa semelhança com a indução eletrostática. A força
elétrica só existe entre corpos eletrizados, entretanto, ao aproximarmos um corpo ele-
trizado de um corpo neutro, este fica induzido ou polarizado, acarretando uma força

130 Eletromagnetismo
Pr
de atração. Analogamente, a força magnética só Distantes
ocorre entre ímãs, porém, se aproximarmos um
Imantação
ímã de um corpo de material ferromagnético, o
corpo é imantado por influência, resultando na S N S N
mútua atração. A imantação por influência e a
atração ocorrem concomitantemente, contudo, Próximos:
Distantes Próximos:
é conveniente que as mostremos em sequência,
Distantes Imantação por Influênc
Atração
para melhor compreensão. Imantação por Influência
S
A magnetização por influência Spode ser N S
S NN S N
usada para que possamos S visualizar
N o campo S N S N
magnético, gerado por um ímã qualquer, com
a utilização de limalhas de ferro. Salpicam-se li-
malhas sobre uma cartolina, sob a qual foi colo-Atração Atração
cado um ímã. As limalhas magnetizadas tendem
a se alinhar com o campo magnetostático, S com N SS N N S N
N
maior acúmulo onde o campo for mais intenso, S
esboçando, assim, um mapa experimental das
linhas, conforme mostra a Figura 13. Figura 12 - Passos da
imantação por influência
Fonte: o autor.
N

N S
S

FiguraN13 - Conjunto didático com pequenas bússolas para visualização do campo magnético
Fonte: Guimarães e Carron (2003, p. 636).

Magnetismo
S Remanescente

Depois de afastarmos o ímã de um corpo que foi atraído, restará, ainda nesse corpo,
um saldo de magnetização, chamado de magnetismo remanescente. A intensidade
do magnetismo remanescente depende da substância, do tempo de exposição ao
campo externo, além da temperatura durante o experimento.

UNIDADE 4 131
O magnetismo na matéria
Podemos dividir as substâncias em geral em três grupos:

Ferromagnéticas Paramagnéticas Diamagnéticas


Sob presença de um campo Imantam-se fraca- Essas substâncias
magnético, imantam-se in- mente sob presença interagem com o
tensamente por influência, de campo magné- campo magnéti-
resultando numa força de tico externo, resul- co com uma fra-
atração. Como principais tando numa força ca repulsão. São
exemplos, temos os elemen- de atração muito exemplos: prata,
tos ferro, níquel e cobalto. fraca. São exemplos: ouro, mercúrio,
Esses elementos se consti- alumínio, cromo, chumbo, zinco,
tuem na matéria-prima dos platina, manganês, cobre, antimônio,
ímãs permanentes. estanho, o ar etc. bismuto, água etc.

Desmagnetização

Há várias maneiras para se desmagnetizar um corpo. Uma delas consiste em darmos


pancadas no corpo, até que consigamos o desalinhamento dos domínios magnéticos
ou pela ação de um campo magnético externo, oposto ao magnetismo original do
corpo. Além disso, o aquecimento do corpo é outro fator que também pode provocar
a desmagnetização.
A temperatura mínima em que a magnetização é desfeita é chamada de tempera-
tura Curie do material, tendo valores diferentes para cada substância. Para o Ferro,
essa temperatura é de 770 ºC.

Figura 14 - O aquecimento desmagnetiza o objeto e este deixa de ser atraído pelo ímã
Fonte: o autor.

132 Eletromagnetismo
Magnetismo Terrestre

O nosso planeta é um imenso


ímã. Sob a influência exclusiva do Eixo Geográfico Eixo Geomagnético

campo magnético terrestre, a agu-


lha de uma bússola aponta para o
Polo Norte (região geográfica), que,
portanto, é um polo sul em termos
magnéticos.
A ação entre os polos, conforme Equado
r

vimos, é de atração quando os polos


têm nomes diferentes. O local para
onde é atraído o norte da bússola
deve ser, magneticamente, um
polo sul; assim, o norte geográfi-
co de nosso planeta contém o sul Figura 15 - Campo magnético da Terra e os polos
magnético do grande ímã Terra e Fonte: o autor.
vice-versa. Outro ponto a ser des-
tacado é que a bússola não se alinha rigorosamente com os meridianos, existindo,
em cada ponto do planeta, um pequeno desvio, chamado de declinação magnética.
Na Figura 15, observamos as linhas de campo obtidas experimentalmente, pelo
processo das limalhas de ferro, de um ímã esférico. Na Figura 16, vemos a comparação
do magnetismo terrestre com o produzido por um grande ímã natural.

Norte Geográfico Sul Magnético

Figura 16 - A Terra comparada com um ímã em forma de barra


Fonte: o autor.

UNIDADE 4 133
Experiência
de Oersted

Até o começo do século XIX, não se conhecia


uma relação entre a eletricidade e o magnetismo.
Os ímãs não interagem com corpos eletrizados
em repouso. Assim, o Magnetismo e a Eletrici-
dade eram dois ramos estudados separadamente
dentro da Física.
Em 1820, acidentalmente, segundo algumas
versões, em uma de suas aulas, um professor de
Amsterdã deixou uma pequena bússola abaixo
de um circuito elétrico e verificou que ela era de-
fletida quando se ligava o circuito. Esse professor,
Hans Christiam Oersted (1777-1851), repetiu por
várias vezes a experiência, concluindo que: toda
corrente elétrica gera, ao redor de si, um campo
magnético.
i
Com essa constatação, ficaram
relacionados dois ramos da
física, antes estudados sepa-
radamente, a eletricidade e o
magnetismo, dando origem ao
eletromagnetismo.
Vamos analisar o campo
magnético gerado por conduto-
Figura 17 - A bússola se orienta de acordo com o campo
res percorridos por corrente elé-
magnético gerado pela corrente elétrica
trica, com diferentes geometrias. Fonte: o autor.

Fio Longo e Reto

As Figura 18 e 19 ilustram as linhas de campo do campo magnético gerado por um


fio longo e reto, sendo que a Figura 19 foi obtida experimentalmente pelo processo
das limalhas de ferro.

Figura 18 - Linhas de campo magnético do fio longo Figura 19 - Visualização do campo com limalhas
Fonte: o autor. Fonte: o autor.

Vemos que a direção do campo magnético é perpendicular ao plano, determinado


pelo ponto P e a reta que contém o fio.

UNIDADE 4 135
As retas suportes são rever- i
sas. Trata-se, portanto, de um
problema tridimensional que
precisamos representar na fo-
BA
lha do caderno, mas a folha é
apenas bidimensional.
A
Uma trabalhosa solução B
C C P
consistiria em desenharmos r BP
em perspectiva o fio e os ve-
tores. Isso, muitas vezes, vai D
além de nossos dotes artísticos.
BD
Com a intenção de obter
um processo mais simples,
vamos começar observando
Figura 20 - O campo magnético ao redor do fio em perspectiva
que dois podem ser os senti- Fonte: o autor.
dos de um vetor perpendicular à folha do caderno. Tomando-se como referência um
observador que olha para a página, o vetor pode estar orientado no sentido de sair
do plano do caderno ou no sentido de entrar no mesmo plano. A convenção aceita
universalmente para se fazer essa representação está esquematizada na Figura 21.

B B

Figura 21 - Convenção para representar vetores


Fonte: o autor.

Ela se baseia em um observador visualizando uma seta que, ou vai ao seu encontro, ou
dele se afasta. Na primeira hipótese, ele verá a ponta da flecha, e na segunda, o penacho.
Qualquer outro fio longo e reto, percorrido por corrente elétrica, que possamos
imaginar, vai corresponder ao exemplo dado, apenas com a diferença de ser visto sob
outro ângulo. Devemos memorizar o resultado dessa experiência, a fim de se fazer
a transposição nos problemas que surgirem ou, então, acompanharmos uma regra,
que nada mais é que a tradução das posições relativas de cada um dos elementos
geométricos envolvidos. Várias regras foram propostas, sendo que adotaremos a
conhecida como regra da mão direita.

136 Eletromagnetismo
Devemos imaginar a mão direita i
espalmada, com o polegar introduzi-
do no fio, acompanhando o sentido da
corrente. Os outros dedos devem ser
levados para o ponto onde queremos B
determinar o vetor campo magnético.
O empurrão que seria dado, pelos ou-
tros quatro dedos, determina o sentido P
do campo magnético gerado, conforme
indica a figura. “Tapa”
Figura 22 - Regra da mão direita
Fonte: o autor.

Intensidade do Campo Gerado


pelo Fio Longo e Reto

Experimentalmente, verificou-se que a intensidade do campo magnético criado


por um fio longo e reto é proporcional à corrente que o atravessa (i) e inversamente
proporcional à distância do ponto ao fio (r). A intensidade desse campo pode ser
µi
calculada por: B = , onde a constante μ é a chamada permeabilidade magnética
2π r 7
do meio onde estiver imerso o fio. No vácuo, essa constante vale µo  4π  10 (SI).
A unidade do campo magnético, no sistema internacional, é o tesla (T), em home-
nagem a Nicola Tesla (1856-1943), engenheiro croata naturalizado norte americano,
tido como um dos inventores da geração e transmissão de energia elétrica, usando
o processo de corrente alternada.

1 EXEMPLO Um fio retilíneo e longo é percorrido por uma corrente elétrica com intensidade de
4 A, conforme mostra a figura a seguir.

Determine o vetor campo magnético em um ponto P situado a 50 cm do fio. (Con-


sidere que o meio em que se encontra o fio é o vácuo).

UNIDADE 4 137
Resolução


 
A direção do vetor campo magnético B é perpendicular ao plano formado pelo
fio e pelo ponto P.
Seu sentido pode ser determinado pela regra da mão direita: saindo do plano
da folha.
A intensidade do vetor campo magnético é:

µi 4π.10−7.4
B= ⇒B= ⇒ B = 1 6 10−6 T
2π r 2π 0 50

i P

50 cm

Ponto P

Fonte: adaptada de Guimarães e Carron (2006).

138 Eletromagnetismo
Espiras
Circulares

Ao ligarmos duas pontas de um fio, estamos fa-


zendo uma espira. Em geral, a espira é uma figu-
ra plana, como, por exemplo, um retângulo, um
triângulo ou uma elipse. Se a figura perfizer uma
circunferência, dizemos tratar-se de uma espira
circular.
A Figura 23 ilustra as linhas de campo da espi-
ra circular, primeiramente desenhadas e a seguir
obtidas com o recurso das limalhas de ferro.

UNIDADE 4 139
Figura 23 - Campo magnético em uma espira circular
Fonte: o autor.

Podemos notar que o campo magnético gerado pela espira circular não é uniforme.
Vamos, portanto, definir em que ponto calcularemos o campo. A intensidade do
µi
campo magnético no centro da espira pode ser calculada por: B = , onde R é
2⋅ R
o raio da circunferência determinada pela espira.
A direção do campo  magnético é perpendicular ao plano da espira. Para determi-
narmos o sentido de B , ainda no centro da espira, continuamos utilizando a regra
da mão direita, imaginando cada trecho da circunferência como um pedaço do fio
longo e reto, onde colocaremos o polegar, levando-se os outros quatro dedos para o
centro, conforme Figura 24.

i
B B

Figura 24 - A) Corrente no sentido horário; B) Corrente no sentido anti-horário


Fonte: o autor.

140 Eletromagnetismo
Polaridade da Espira

O observador “1” da Figura 25, ao


olhar para a espira, “verá” linhas de
2
campo saindo da face vista e a cor-
i
rente elétrica com sentido anti-horá- i
rio, esta face corresponderá, portanto,
B
ao polo norte de um ímã. Já um outro
observador “2” estará defronte a uma
corrente que circula no sentido horá- 1
rio e “verá” linhas de campo entrando Figura 25 - O observador 1 “vê” um Norte e o 2 um Sul
na espira, determinando um polo sul. Fonte: o autor.
O fato corrobora a concepção inicial de que norte e sul são duas faces da mesma
moeda, uma vez que as linhas de campo magnetostático serão sempre fechadas.

2 EXEMPLO Na figura a seguir, nota-se que um ímã está


próximo de uma espira circular. A espira é
percorrida pela corrente elétrica com sen-
tido indicado. A espira será atraída ou re-
pelida?

S N i
Resolução
Pela regra da mão direita, deduzimos que o polo norte do ímã “vê” um polo norte da
espira. A força será, portanto, de repulsão.

Bobina Chata

Se enrolarmos várias vezes um fio em torno da mes-


ma circunferência, estaremos fazendo uma super-
posição de várias espiras e a intensidade do campo
magnético ficará multiplicada pelo número de voltas R
efetuadas.
Sendo “n” o número de voltas completas, a inten-
sidade do campo é, então:

µ ⋅i
B=n Figura 26 - Superposição de espiras
2⋅ R
Fonte: o autor.

UNIDADE 4 141
Solenoide

Chamamos de solenoide um enrolamento de fio


que acompanha a superfície lateral de um cilindro.
A ideia é: assim que terminar uma espira, come-
çamos outra e, assim, vamos enrolando o fio em
volta do cilindro.
Vamos considerar a situação em que o com-
primento do tubo predomina em relação ao seu
diâmetro (> 10 d). Nesse caso, o campo magnético,
no interior do solenoide, é bem aproximadamen-
te uniforme, havendo apenas uma distorção nas
extremidades (Figura 27).
Na região externa ao cilindro, a intensidade
do campo magnético é praticamente nula. Para
pontos interiores, podemos calcular a intensidade
n
do campo por: B = µi, onde n é o número total

de voltas e é o comprimento do tubo. É comum
encontrarmos situações em que seja fornecido
diretamente o quociente “n/”, que é a quantida-
de de voltas por unidade de comprimento, cuja
unidade no SI é “espiras por metro”. A direção do
vetor campo magnético, no interior do solenoide,
é a direção de seu eixo. Já o sentido obtemos, nova-
mente, pela regra da mão direita, imaginando-se
o polegar inserido num pedaço do fio e os outros
dedos no interior do solenoide.

142 Eletromagnetismo
i

Linhas de Campo Magnético do Solenoide. À


medida que as espiras ficam mais próximas, o Figura obtida experimentalmente
campo no interior tende a um campo unifor- com o uso de limalhas de ferro.
me, e externamente tende a zero.

Figura 27 - Exemplo de solenoide

Alguns expedientes podem ser usados quando se quer aumentar a intensidade do


campo magnético no interior do solenoide:
• Para aumentar-se a quantidade de voltas, sem alterar o comprimento do tubo,
faz-se várias vezes o enrolamento, indo e voltando sobre o mesmo cilindro.
• Se no interior do tubo, ao invés de ar, tivermos um núcleo de ferro, ao campo
que teríamos somente com o ar, será adicionada a imantação por influência
sofrida pelo ferro, acarretando um aumento, no campo resultante, de até
centenas de vezes. Este é o processo mais comum utilizado na construção
de eletroímãs.

Tenha sua dose extra de conhecimento assistindo ao vídeo.


Para acessar, use seu leitor de QR Code.

UNIDADE 4 143
3 EXEMPLO Em torno de um cilindro de 10 cm de comprimento foi enrolado uniformemente
um fio, com revestimento isolante, perfazendo 2.000 voltas completas ao longo do
cilindro. Foi estabelecida uma corrente elétrica de intensidade 10 A.
a) Qual é a intensidade do campo magnético no ponto externo ao cilindro,
situado longe da bordas?
b) Qual é a intensidade do vetor campo magnético no interior do solenoide se
7
interiormente tivermos apenas o ar? ( µar  µ0  4π  10 S.I.)
c) Qual é a nova intensidade do vetor campo magnético se inserirmos em seu
interior um núcleo cuja permeabilidade magnética, dentro das condições do
problema, seja 100 vezes a do vácuo?
Resolução
a) Como vimos, nos pontos externos ao solenoide, o vetor campo magnético
é nulo.
=b) 10 = cm 0, 1m = i 10= A, n 2000 espiras

n 2000  4  π  107  10
B µ  i, B   2, 5  101T
 0, 1

c) O material inserido é de uma substância ferromagnética. Pelas proporções


das permeabilidades magnéticas, o campo ficará ampliado 100 vezes.
B2  100 B1  B2  2, 5T

4 EXEMPLO Um solenoide oco possui um enrolamento de fio isolante com 500 voltas por centí-
metro. Ele é alimentado por uma corrente alternada, que inverte de sentido 120 vezes
por segundo. Próximo ao solenoide, existe um ímã natural e permanente ligado a um
papelão móvel, conforme a figura a seguir.

Papelão

Imã
Natural Solenoide

N S

144 Eletromagnetismo
a) Sendo 5 A o valor máximo atingido pela intensidade da corrente elétrica
variável que alimenta o solenoide, qual é o máximo valor da intensidade do
vetor campo magnético no seu interior?
b) Qual a frequência das oscilações forçadas que executará o papelão?

Resolução
a) i  5 A e n  500 voltas  5  104 espiras .
 cm m
n
B  µ  i, B  5  104  4  π  107  5  B  3, 1  101T

b) A alternância da força magnética acompanhará a alternância da corrente


elétrica, portanto, a frequência das oscilações será de 120 vezes por segundo,
ou 120 Hz.

O esquema representa, simplificadamente, o processo de funcionamento de um alto


falante, ou ainda de uma campainha, ambos acionados por corrente variável.
Conforme nosso objetivo inicial, você aprendeu a representar o campo magnético,
relacionar esse campo com correntes elétricas e calcular as intensidades. A impor-
tância desses conhecimentos se reflete, principalmente, na compreensão de como
gerar energia elétrica.

UNIDADE 4 145
Você pode utilizar seu diário de bordo para a resolução.

1. Um ímã foi quebrado em três partes, como está ilustrado na figura


A C
N S N S
B D

Considere as seguintes afirmações:


I) As extremidades A e B se atraem.
II) As extremidades C e D se repelem.
III) As extremidades A e D se repelem.

A alternativa correta é:
a) Todas as afirmações são corretas.
b) Todas as afirmações são falsas.
c) Apenas a afirmação I está correta.
d) Apenas a afirmação II está correta.
e) As afirmações I e III estão corretas.

2. A figura representa um fio condu- 4 3


tor perpendicular ao plano da pá- N
gina, no centro de um círculo que
5 2 O L
contém os pontos 1, 2, 3, 4 e 5. O i
fio é percorrido por uma corrente S
i que sai desse plano.
1

A agulha de uma bússola sofre deflexão máxima, quando colocada no ponto


a) 1.
b) 2.
c) 3.
d) 4.
e) 5.

146
3. O gráfico a seguir representa o comportamento da indução magnética em pontos
situados a uma distância r de um fio retilíneo e muito longo. Se B foi medido em
teslas, qual o valor em ampères da corrente transportada pelo fio?

B
μ 0 / 2π 30
25
20
15
10
5
0
0 1 2 3 4
r(m)

4. Uma espira circular de raio 10 cm, conforme a figura, é percorrida por uma
corrente de intensidade 6 A. Considerando-se µ0  4  π  107 T  m
A , as carac-
terísticas do vetor indução magnético no centro da espira são
a) 1, 2  p  105 T ;

b) 1, 2  p  105 T ;

c) 1, 2  p  107 T ;

d) 1, 2  p  107 T ;

e) 0, 5  p  105 T ; i

147
5. Duas espiras circulares idênticas, de raio , não ligadas eletricamente
entre si, estão dispostas conforme a figura, em que uma delas está no plano
(x,y) e a outra no plano (x,z).
A corrente elétrica que circula em cada uma das espiras é i ≅ 10, 0 A e os seus
sentidos estão indicados na própria figura. Nestas condições, o módulo do

campo de indução magnética B resultante no centro das duas espiras e o pla-
no em que ele se situa são, respectivamente
(dado: µO ≅ 1, 26 ⋅ 10−6 T ⋅ m )
A
y

z i


O módulo de B (tesla) no plano em que se situa é:
a) 1,26 · 10-3 (x,z).
b) 6,3 · 10-4 (x,y).
c) 8,9 · 10-4 (y,z).
d) 2,53 · 10-3 (y,z).
e) 4,45 · 10
-3
(x,y).

6. Um solenoide de comprimento 5 cm é construído com 1 000 espiras e percorrido


por uma corrente de 2 A. Dado µ  4π  107 T  m
A , o campo magnético no
centro do solenoide vale, aproximadamente:
a) 1,25 · 10-2 T.
b) 2,5 · 10-2 T.
c) 5,0 · 10-2 T.
d) 7,5 · 10-2 T.
e) 12,5 · 10-3 T.

148
WEB

O link a seguir apresenta um vídeo sobre aspectos do magnetismo terrestre,


sua influência em alguns seres vivos, como bactérias e alguns pássaros que os
usam para orientação.
O vídeo mostra como o magnetismo está presente em nossos dias, desde os
motores elétricos até os computadores, filmadoras e celulares.
Para acessar, use seu leitor de QR Code.

149
FEYNMANN, R.; LEIGHTON, R.; SANDS, M. Lições de Física de Feynman. Porto Alegre: Artmed, 2008.
Volume 3.

GOOGLE MAPS. Região da Magnésia. Google Maps. Disponível em: <https://www.google.com.br/maps/


place/Magn%C3%A9sia,+Gr%C3%A9cia/@39.0680106,22.7547091,10.08z/data=!4m5!3m4!1s0x14a6e25e-
b2e7fed3:0x300bd2ce2b9c420!8m2!3d39.2686199!4d22.762883>. Acesso em: 09 jul. 2018.

GUIMARÃES, O.; PIQUEIRA, J. R. C.; CARRON, W. Física - Projeto múltiplo 3V. São Paulo: Ática, 2014.

GUIMARÃES, O.; CARRON, W. As faces da Física. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2006.

HALLIDAY, D.; RESNICK, R. Fundamentos de Física. 3. ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos,
1994. Volume 4.

OKUNO, E.; CALDAS, I. L.; CHOW, C. Física para ciências biológicas e biomédicas. São Paulo: Harbra, 1982.

YOUNG, H. D.; FREEDMAN, R. A. Física. 12. ed. São Paulo: Addison Wesley, 2009.

150
1. C.

2. E.

3. 20 A
µ0  i B i
Como B , temos, para r  2m,   10  i  20 A
2π r µ 2
2π

4. B.
µ0 ⋅ i B i
Como B = , temos, para r  2m,   10  i  20 A
2⋅r µ 2
2π

5. C.

A intensidade do campo gerado por cada espira no centro delas é:


µ0 ⋅ i 1, 26 ⋅ 10−6 ⋅10
B1 = B2 = = −2
= 6, 3 ⋅ 10−4 T . Pela regra da mão direita, o campo B1 tem a direção Oy
2⋅r 2 ⋅ 10

dirigido para cima e B2 tem direção Oz dirigido para fora da página. O campo resultante está, então, no
4
plano yz. Pitágoras: BR  B1  2  8, 9  10 T .

6. C.
µ ⋅ N ⋅i 4  p  107  103  2
Como B = 0 , temos: B 2
 5, 0  102 T .
l 5  10

151
152
153
154
Dr. José Osvaldo de Souza Guimarães

Indução
Eletromagnética

PLANO DE ESTUDOS

Força magnética
Lei de Lenz
em condutores

Força magnética Lei de Faraday

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

• Identificar, caracterizar e calcular a força magnética que • Reconhecer o fenômeno da indução eletromagnética e
atua nas cargas elétricas em movimento. aprender como obter a força eletromotriz induzida pela
• Usar os conhecimentos do tópico anterior para mensurar Lei de Faraday.
a força magnética atuante em um condutor percorrido • Determinar o sentido da corrente induzida utilizando a
por corrente elétrica. Lei de Lenz.
Força
Magnética

Um dos precursores da Teoria da Relatividade


com suas ideias inovadoras no campo do mag-
netismo foi Lorentz. Ele identificou a origem da
força magnética equacionando o movimento re-
lativo de cargas elétricas. Seu trabalho semeou
as primeiras ideias da teoria da Relatividade. Em
nosso primeiro passo, vamos identificar quem é
essa força e quais são suas características.
Vamos considerar uma partícula eletrizada,
que chamaremos simplesmente de carga, deslo-
cando-se com velocidade “v” em um campo mag-
nético uniforme. Como sabemos, na cinemática,
todo movimento é relativo. Nossa primeira pro-
vidência, então, é dizer em relação a quem refe-
re-se a velocidade “v”. Pois bem! A velocidade da
partícula é medida em relação às linhas de campo
magnético. Assim sendo, para que essa velocida-
de não seja nula, ou movimentamos a carga em
relação às linhas ou movimentamos as linhas em
relação à carga (caso de um ímã se deslocando)
ou, ainda, ambos.
Direção

A figura que tomaremos como exemplo ilustra uma carga q > 0, deslocando-se com
 
velocidade v , em relação às linhas do campo magnético uniforme B. A figura está
em perspectiva, pois o fenômeno é tridimensional.

r
A força magnética Fm será:
• Perpendicular ao vetor velocidade.
• Perpendicular ao vetor campo magnético.
Das duas observações anteriores, concluímos que a força magnética será sempre
r r
perpendicular ao plano determinado pelos vetores v e B.

plano (v,B )
Fm
N S

θ B
N S
v
q>0
 
Figura 1 - Plano determinado pelos vetores v e B e a força magnética atuante na carga móvel
Fonte: o autor.
 
Como os vetores v e B estão sobre retas concorrentes, eles determinam um plano
 
 
que destacamos como o plano v , B . A força magnética é perpendicular a esse plano.

UNIDADE 5 157
Sentido

A disposição relativa desses três vetoresserá sempre a mesma, mudando, conforme



o problema, apenas o ângulo entre v e B , e o ponto de vista do observador.
Vamos fixar essa posição relativa por meio de uma regra. Assim como na expe-
riência de Oersted, várias regras foram propostas. Optaremos pela chamada regra
da mão esquerda.
Nos dedos da mão esquerda,
Fm
vamos vincular três vetores. A
força corresponderá ao polegar, B
o campo magnético ao indicador
θ
e o dedo médio vai corresponder
ao vetor velocidade, conforme
ilustra a figura. Caso a carga de
prova seja negativa, basta inver- v
termos o sentido do vetor que Figura 2 - Ilustração da regra da mão esquerda
Fonte: o autor.
queremos determinar.

Intensidade

A intensidade da força magnética é dada por:

 
, em que θ é o ângulo entre os vetores v e B.

1 EXEMPLO Na figura a seguir, destacam-se quatro situações de carga elétrica lançado em um


campo magnético uniforme. Identifique em cada uma delas a direção e o sentido da
força magnética.

B q<0 B
q>0
v

158 Indução Eletromagnética


v
v
q>0

B B
q<0

Resolução
Vamos utilizar a regra da mão esquerda, lembrando que, se a carga de prova for ne-
gativa, devemos inverter o sentido encontrado.
Seguem as representações das forças.

Fm v
Fm B Fm v Fm
v B v B B
(a): q>0 (b): q<0 (c): q>0 (d): q<0

2 EXEMPLO A figura a seguir ilustra uma carga de 2 µC, lançada em um campo magnético de
intensidade 2 T. A velocidade da partícula é de 2·106 m/s e o ângulo do vetor ve-
locidade com as linhas de campo é de 120º.

B
q>0
120°

a) Indique, na figura, usando a convenção ponto e cruz, a direção e o sentido


da força magnética.
b) Qual seria o sentido dessa força se a carga de prova fosse negativa?
c) Qual a intensidade da força magnética?

UNIDADE 5 159
Resolução
a) Usando-se a regra da mão esquerda, concluímos que a força está saindo do
plano do papel, conforme figura.
Fmag.
B
q>0
120°

v
b) Caso a carga fosse negativa, o sentido da força seria contrário ao do resultado
anterior, representado por

c) A intensidade pode ser calculada por , assim

1
Fm  2  106  2  106  2  Þ Fm = 4, 0 N .
2

3 EXEMPLO Um elétron é lançado numa região onde atuam um campo elétrico e um campo
magnético, ambos uniformes e ortogonais, conforme a figura. Qual a velocidade do
elétron se ele atravessa a região sem sofrer desvio? (Desconsidere a ação gravitacio-
nal). Considere E = 4 ⋅105 N e B =2 T.
C

160 Indução Eletromagnética


Resolução
Fmag.
A figura indica a força magnética e a força elétrica agentes na partícula.
Devemos prestar bastante atenção nos sentidos, pois a carga é negativa.
Em módulo, devemos ter: Fm = Fe

Felet.

Observe que só atingirão a janelinha do esquema do exemplo as partículas que tive-


rem essa exata velocidade, pois qualquer alteração no vetor velocidade, embora não
afetasse a força elétrica, afetaria a força magnética, desviando a partícula. Esse fato é
bastante utilizado para selecionar íons ou partículas portadoras de carga, de um feixe
qualquer, cujas velocidades sejam exatamente a relação calculada.

Trajetórias de uma Carga sob Ação Exclusiva


de um Campo Magnético Uniforme

Ao lançarmos uma carga de prova em um campo magnético uniforme, podemos


fazê-lo sob vários ângulos. Vamos analisar cada uma das possibilidades.

Lançamento paralelo ao campo magnético


= ou q 180º
q 0=

B
q
+ v

Figura 3 - Carga movendo-se paralelamente ao campo


Fonte: o autor.

A Figura 3 ilustra a condição destacada. Nesse caso, a intensidade da força magnética


será nula. Como por hipótese, ela é a única força que está agindo sob a carga de prova;
por inércia, ela prosseguirá em movimento retilíneo e uniforme.

UNIDADE 5 161
Lançamento perpendicular ao campo magnético q = 90º

A força magnética tem módulo cons- q


tante e é sempre perpendicular ao v

vetor velocidade. Além disso, como a Fm B


velocidade também será sempre per-
pendicular ao campo magnético, o Fm

movimento ficará restrito a um plano v


  q
que contenha os vetores v e F fixo
Figura 4 - Carga lançada perpendicularmente
em relação às linhas do campo magné- ao campo magnético
tico. Na dinâmica, vimos que o único Fonte: o autor.
caso de movimento plano onde isto ocorre é no movimento circular e uniforme.
A força magnética desvia o vetor velocidade sem alterar o seu módulo, mas após
cada desvio, ela continua perpendicular à nova direção do movimento, confinando a
carga a uma trajetória circular. A figura 4 ilustra essa situação para uma carga positiva,
onde se vê claramente que a força magnética acarreta uma resultante centrípeta.
  
A intensidade da força magnética será dada por: FM  q  v  B sen q. Como,
neste caso, sen q = 1, temos Fm  q  v  B (I)
v2
Já que a força magnética é a resultante centrípeta, vem: F =M ma
=c m (II)
R
v2 mv
Igualando-se a expressões (A) e (B), obtemos: m | q | vB  R 
R |q|B

Partículas de mesma carga e velocidade, porém de massas diferentes, descreverão


diferentes arcos de circunferências. Essa propriedade é utilizada em instrumentos de
análise de substâncias, como no exame “antidopping”, em que os componentes são
separados de acordo como a massa molecular.
Podemos calcular, também, o período, que, como vimos, é o tempo de uma volta
completa T  2p R , T 2p  mv  T  2pm
v v qB qB
Vemos que o período não depende da velocidade da partícula e nem do raio da
circunferência descrita por ela. Tal fato é explorado tecnicamente em alguns acele-
radores de partículas.

Lançamento oblíquo ao campo magnético q  90º e 0  q  180º

Já vimos que um movimento pode ser decomposto em outros dois de direções per-
pendiculares. Esta é uma situação onde é interessante aplicarmos esses conceitos.

162 Indução Eletromagnética


B
V

S
A Figura 5, em perspectiva, ilustra o vetor velocidade, decomposto em vx e vY.

A velocidade é obliqua em relação Decomposição do Vetor Velocidade


ao campo magnético
vx
x
θ θ
vy
N V

B B
V y

S vy = v cosθ
vx = v senθ
FiguraDecomposição do obliquamente
5 - Carga lançada Vetor Velocidade
ao campo magnético
Fonte: o autor.
Devido à componente perpendicular
v
x ao campo magnético (v ), a partícula executa
x x
θ
um movimento circular e θuniforme, conforme vimos no tópico anterior, ao mesmo
vy
tempo em que, devido à componente paralela ao campo, a partícula executa um
V
movimento retilíneo e uniforme. Compondo-se os dois movimentos, pois eles
acontecem simultaneamente, obtemos uma trajetória que acompanha a superfície

B
de um cilindro, cujo raio calculamos pela componente vx. A curva descrita não
é uma curva plana (não existe
y
uma plano que contenha todos
os seus pontos) razão pela qual a N
mostramos em vy perspectiva.
= v cosθ
A curva é vx = v senθ
denominada hélice
cilíndrica, e não deve ser con- θ
fundida com a espiral, que é uma
curva plana. B v
Um observador situado no
polo norte do ímã visualizaria
a trajetória circular descrita
no segundo tópico (θ = 90º),
S
enquanto a observação lateral
Figura 6 - Vista lateral da carga lançada obliquamente
corresponde à Figura 6. Fonte: o autor.

UNIDADE 5 163
Força Magnética
em Condutores

Vamos, primeiramente, determinar o vetor ve-


locidade dos portadores de carga em um fio
percorrido por corrente elétrica. Ora, o movi-
mento dos portadores está confinado ao fio, é
esta, portanto, a direção do vetor velocidade se
o fio estiver em repouso.
Com relação ao sentido, vamos trabalhar com
o sentido convencional da corrente, imaginando,
sem prejuízo da conclusão final, que as cargas em
movimento são positivas.
Sendo  o comprimento do fio e v a velocida-
de dos portadores de carga, a quantidade de cargas
que jaz no fio corresponde ao total de portadores
que irão percorrer o fio, de um extremo ao outro,
Ds
no intervalo de tempo ∆t. Como v = , obte-
 Dt
mos v  .
t
Uma vez que Fm=|∆q|·v·B·senθ, onde θ é o ân-
gulo entre o fio e as linhas de campo, podemos,
q
então, escrever: Fm  Bsenq . E como
t
| Dq |
i= Þ Fm = Bi sen q.
Dt

164 Indução Eletromagnética


Concluímos:
Intensidade — Fm = Bi sen q
Direção — Perpendicular ao plano determinado pela reta que contém o fio e a
reta que contém o vetor campo magnético.
Sentido — Dado pela regra da mão esquerda, onde, em vez do vetor velocidade,
consideramos a direção do fio e o sentido da corrente elétrica.

Fm
B

i
Figura 7 - Cálculo de intensidade utilizando a regra da mão esquerda
Fonte: o autor.

4 EXEMPLO Um condutor reto possui contatos que podem deslizar pelos trilhos esquematizados.
O condutor está na horizontal e sobre ele agem exclusivamente as forças magnética
e gravitacional. Se o peso do condutor é de 6 N, qual a intensidade da corrente elé-
trica que deve ser estabelecida para que ele fique em equilíbrio sob a ação do campo
magnético de 2 T?

B Condutor Retilíneo

60 cm

Trilhos

UNIDADE 5 165
Resolução
As forças que agem no condutor estão esque- Fmag.
matizadas a seguir, onde a direção e o sentido
da força magnética foram obtidos pela regra da
mão esquerda.
 
Para que F r  0 , é necessário que P
Fm= P, Bil = P, 2 ⋅ i ⋅ 0, 6 = 6 ⇒ i = 5 A

Força entre Fios


Paralelos Fio 1 Fio 2

Vamos considerar uma si-


tuação em que tenhamos
dois fios longos e parale-
los, 1 e 2, percorridos pelas
correntes elétricas i1 e i2. B2 F -F B1 l
Devido à corrente elétrica i1 i2
no fio 1, é gerado um cam-
po magnético B1 na região d
em que se encontra o fio
2. Uma vez que os fios são
paralelos, todos os pontos Figura 8 - Força entre fios paralelos percorridos por corrente elétrica
do fio 2 estão a uma mesma Fonte: o autor.
distância do fio 1 e, portanto, sujeitos a um campo de mesma intensidade. Como
resultado, o fio 2 ficará sujeito a uma força magnética.
Considerando um trecho de fio com comprimento  , a intensidade dessa força será:
 µi1
 B  B1  2πd
 µi i 
FM = Bisenq, onde i  i2  Fm = 1 2
 2π d
0
θ  90

Reciprocamente, o fio 1 também ficará sujeito a uma força magnética, que para ser
calculada basta permutarmos os índices, obtendo, obviamente, a mesma intensidade,
respeitando o princípio da ação e reação.
A Figura 9 ilustra duas situações. Na primeira, os fios são percorridos por correntes
que têm mesmo sentido; enquanto na segunda, as correntes têm sentidos opostos. A
força será de atração no primeiro caso e repulsão no segundo.

166 Indução Eletromagnética


Correntes no mesmo Correntes no sentido
sentido contrário
ATRAÇÃO REPULSÃO

-F
i1 i2
i1
F -F F B1
B2 B1
B2
d d
i2

Figura 9 - Sentidos das forças em fios paralelos percorridos por correntes elétricas
Fonte: o autor.

5 EXEMPLO Dois fios bem longos, percorridos por correntes de mesmo sentido, estão separados
pela distância de 20 cm. O meio que os separa é o vácuo, e a corrente que circula em
cada um deles é de 4 A. Qual a força por unidade de comprimento que age em cada
fio? Ela é de atração ou de repulsão?

Resolução
A figura ilustra as condições do problema.

µi AiB  FM µi AiB 4  π  107  4  4


Como vimos, FM  ,    FM  1, 6.105 N m
2π d  2π d 2  π  0, 2

i1 i2
B2 F -F B1

UNIDADE 5 167
O sentido das forças será de
atração, como indica o esquema.
O arranjo analisado se pres-
ta à definição legal da unidade
de corrente elétrica, o ampère.
É interessante especularmos
por que a unidade padrão é a
corrente elétrica e não a carga,
cuja unidade é coulomb. A si-
tuação se esclarece melhor se a
transpusermos para a prática.
Como iríamos proceder para
medir a carga elétrica de um
corpo? Como iríamos manter
um corpo eletrizado padrão,
com garantias que ele apresen-
tasse sempre a mesma diferença
entre a quantidade de prótons e
elétrons? E finalmente, como re-
produzirmos essa situação num
laboratório?
Tentando responder a todas
essas perguntas, fica claro que é
muito mais fácil e seguro medir-
mos uma força, processo farta-
mente lapidado na mecânica,
dando, a partir daí, a definição
do ampère, que resultará num
amperímetro padronizado. Feito
isto, se um fio for percorrido por
uma corrente de um ampère, du-
rante um segundo, então ele foi
atravessado por uma quantidade
de cargas igual a um coulomb.

168 Indução Eletromagnética


Lei de Faraday

Suponhamos um condutor retilíneo deslocando-


-se perpendicularmente às linhas de um campo
magnético uniforme, conforme figura seguinte.

X
B

v
l

Y
Figura 10 - Condutor movendo-se em um campo magnético
Fonte: o autor.

Em se tratando de um condutor metálico, sabe-


mos que ele possui elétrons livres. Estes estarão
se deslocando com a mesma velocidade que atri-
buímos ao condutor como um todo. Assim sendo,
eles ficarão sujeitos a uma força magnética, dada
pela regra da mão esquerda. A ação da força mag-
nética vai provocar o acúmulo de cargas negativas
na extremidade Y, e a falta, também de cargas ne-
gativas, na extremidade X.

UNIDADE 5 169
X
À medida que vai acontecendo essa separa- ++ +
++ +
ção das cargas, vai se estabelecendo, no condu-
+++ +
tor, um campo elétrico, dirigido de X para Y.
Após um curtíssimo intervalo de tempo, cessa E
o deslocamento dos portadores de carga, em re-
lação ao condutor, pois a força elétrica, devido
Fe
à separação das cargas, vem a equilibrar a força v
magnética, devido ao movimento dos portado- l - U
Fm
res de carga em relação ao campo magnético.
B
Como resultado da separação das cargas,
teremos, entre os extremos do fio, uma tensão
U, chamada de tensão induzida.
Considerando uniforme o campo elétrico
ao longo do fio, podemos escrever que: Ed = E
-- - - --
U, onde d = , que é o comprimento do fio.
A separação das cargas ocorre muito ra- Y
pidamente, levando os portadores de carga,
Figura 11 - Forças que atuam em um por-
situados entre X e Y, a uma situação de equilí- tador de carga do condutor
brio entre a força magnética e a força elétrica. Fonte: o autor.
Esse equilíbrio pode ser:
• Estático — existe a diferença de potencial entre os extremos do fio,
mas os portadores de carga estão em repouso em relação ao condutor.
• Dinâmico — existe a diferença de potencial, e os portadores de carga
se deslocam em movimento retilíneo e uniforme, em relação ao condutor.

Do equilíbrio de cada portador de carga no interior do fio, temos:


Felétrica=Fmagnética, logo q  E  q  v  B e então U .
l
É usual chamarmos a tensão induzida de força eletromotriz ε, resultando, final-
mente em: ε = Bv .

6 EXEMPLO Um condutor de 0,8 m de comprimento desloca-se perpendicularmente às linhas de


um campo magnético uniforme de intensidade 5 T, com velocidade de 30 m/s. Qual
a tensão induzida entre seus extremos?

Resolução
Como vimos ε = Bv , logo ε = 5 ⋅ 0, 8 ⋅ 30 → ε = 120 V .

170 Indução Eletromagnética


Fluxo de um Campo Vetorial

Imaginemos um campo magnético uniforme B “atravessando” uma superfície A, cuja


reta normal a ela seja “n”. Por definição, o fluxo do campo magnético através desta
superfície é:

B
n
α

Figura 12 - Fluxo do campo magnético por uma superfície


Fonte: o autor.

r 
φ = B A ⋅ cos α , onde α é o ângulo entre a normal ( n ) à superfície atravessada e as
linhas de campo.
A unidade de fluxo do campo magnético no S.I. é o weber (Wb), tal que
1 Wb = 1 T·m2.
Intuitivamente, o fluxo nos dá uma ideia da quantidade de linhas que estão atra-
vessando aquela superfície. Foi uma ideia que surgiu na mecânica dos fluidos e
encontrou aplicação imediata no eletromagnetismo.
Suponhamos uma pessoa querendo captar água sob uma chuva vertical, munido
de uma vasilha cuja área da “boca” seja A. A quantidade de gotas que vai atravessar
a boca dessa vasilha depende:
• Da intensidade da chuva.
• Da área da boca da vasilha.
• Da inclinação que essa boca terá em relação à trajetória das gotas.

Com a boca na horizontal, a captação será máxima, e na medida em que inclinamos


a boca, no sentido de ela ficar paralela às linhas da chuva, vai diminuindo o fluxo
(ou seja, a quantidade de gotas que a atravessa), até a situação extrema do fluxo ser
nulo, quando a boca ficar na vertical.
Da mesma forma, qualquer um dos acontecimentos a seguir, isolada ou conjuntamen-
te, pode provocar uma variação no fluxo do campo magnético por meio de uma espira:

UNIDADE 5 171
• Variação da área abraçada pela espira.
• Variação na intensidade do campo magnético.
• Variação na inclinação α da espira em relação às linhas de campo.

Vamos imaginar um condutor conectado a um circuito elétrico conforme ilustra o


esquema. O condutor pode deslizar pelos trilhos, também condutores, 1 e 2.
O circuito compreende (abraça) uma região de área A, que é atravessada pelo

campo magnético uniforme B.

B X 1
R
v
l

x Y 2

Figura 13 - Circuito com fluxo de campo magnético


Fonte: o autor.

Ao deslocarmos o condutor XY, há uma variação de fluxo, pois a área enlaçada pelos
fios varia. Faraday observou que o valor médio da variação de fluxo no decorrer do
tempo correspondia exatamente à tensão média induzida neste circuito, que dora-
vante chamaremos de força eletromotriz. Assim: εm =
∆φ
∆t
Embora, para melhor explanação, tenhamos considerado esse circuito em parti-
cular, a lei de Faraday tem validade geral, para qualquer variação de fluxo de campo
magnético.
∆φ
Se quisermos obter a força eletromotriz instantânea, fazemos: ε = lim
∆t →0 ∆t
Vamos verificar a validade da lei de Faraday, utilizando o exemplo da figura an-
terior, observando as seguintes grandezas.
• ∆A: é a variação na área atravessada pelo campo magnético (∆A =  x).
• x: é o deslocamento sofrido pelo condutor em um intervalo de tempo
∆t (x = v·∆t).
• α: é o ângulo entre a normal à superfície abraçada pela espira e as linhas de
campo magnético (α = 0 Þ cos α = 1).

172 Indução Eletromagnética


A variação de fluxo no intervalo de tempo ∆t é, então:

∆φ = Blx = Blv ⋅ ∆t

Bv  Dt
Como εm = ∆φ obtemos: em  , ou seja, e = Bv, como já havíamos calculado.
∆t Dt

7 EXEMPLO Com uma espira quadrada de resistência total R e comprimento total L, feita com
fio homogêneo e uniforme, realizam-se duas experiências. Na primeira delas (Figura
a), a espira é ligada com fios de resistência desprezível a uma bateria ideal capaz de
fornecer uma diferença de potencial igual a ε. Na segunda experiência (Figura b), a
espira é puxada com velocidade constante, entrando numa região onde existe um
campo magnético B constante e uniforme, perpendicular à espira.

Calcule:
a) A corrente que circula no gerador da Figura a).
b) O valor da velocidade constante para que a intensidade da corrente na espira
seja igual à corrente calculada no item anterior.

XXXXXXXXX
A C
XXXXXXXXX
ε XXXXXXXXX
v
Fig. 01 XXXXXXXXX
XXXXXXXXX
Fig. 02
Circuito acoplado Espira movendo-se
a uma espira no campo magnético

UNIDADE 5 173
Resolução
a) Como a resistência total da espira é R, cada lado tem resistência R 4 . Assim,
uma sequência de circuitos equivalentes ao da figura a) é:

A) ε ε
B)

R R
R 4 R 4
4 4

R 3R
4 4
1 1 1 1 4 4 12  4 16 3R
  ⇒     ⇒ Req. =
Req. R1 R2 Req. R 3 R 3R 3R 16
3R 16e
Como e = Req.i , temos e = i ⇒i= .
16 3R
L BLv
b) A fem induzida na espira, nesse caso, é: e = Bv , onde  = , logo e =
4 4

A resistência total, nesse segundo caso, é R. Como e = Req.i , obtemos:

BLv  16e  64e


e  R  ⇒ v= .
4  3R  3 BL

174 Indução Eletromagnética


Lei de Lenz

Pensando no que ocorre com cada portador de


carga, isoladamente, quando temos o fenômeno
da indução eletromagnética, podemos determinar
o sentido da corrente induzida. Esse processo não
é prático, e vemos que falta algum detalhe a ser
acrescentado à lei de Faraday para se determinar
o sentido da corrente induzida.
Três anos depois de Faraday ter publicado a sua
lei da indução, em 1834, Heinrich Friedrich Lenz
enunciou a lei para determinação do sentido de
uma corrente induzida numa espira.
O sentido da corrente induzida em uma espira
condutora é tal que tende a manter constante o
fluxo do campo magnético por meio dessa espira.
A título de exemplo, vamos observar o sentido
da corrente induzida em um circuito já estudado,
que é o de uma barra se deslocando sobre trilhos
condutores.

UNIDADE 5 175
B X 1
R v
v
v

Y 2
Figura 14 - Condutor movendo-se em campo magnético
Fonte: o autor.

Vamos observar que o movimento do condutor 1-2 está aumentando a área da espira
e, portanto, o fluxo de linhas de campo que atravessam a espira de baixo para cima.
A corrente induzida deve ser tal que possua a tendência de manter o fluxo constante.
Para isso, a corrente induzida deve induzir linhas de campo que atravessem a espira de
cima para baixo. Este é o campo magnético induzido. Pela regra da mão direita, já co-
nhecendo o campo induzido, concluímos que a corrente induzida terá sentido horário.

Figura 15 - Regra da mão direita


Fonte: o autor.
Na figura seguinte, apresentamos quatro casos de um ímã se movimentando em
relação a uma espira circular.

176 Indução Eletromagnética


Induzida Induzida

m m
í í

Induzida Induzida

m m
í í

Figura 16 - Indução eletromagnética


Fonte: o autor.

UNIDADE 5 177
Vamos observar que a polaridade induzida na espira sempre faz que ela se oponha
ao movimento do ímã. Se o ímã vai se aproximar com um polo norte, na espira é
induzido outro norte, opondo-se à aproximação; entretanto, se o ímã vai se afastar
com o polo sul apontando para a espira, nela há a indução de um polo norte, opon-
do-se ao afastamento.

A Lei de Lenz e a Conservação da Energia

Uma outra forma de se pensar na lei de Lenz é que o sentido da corrente induzida
deve ser a que não viole o princípio da conservação da energia.
No primeiro dos quatro exemplos anteriores, temos um polo norte aproximan-
do-se da espira. Ora, se o sentido da corrente induzida fosse a que a espira mostrasse
para o ímã uma face sul, a mútua atração iria acelerar o ímã, aumentando mais ainda
a corrente induzida, gerando energia sem dispêndio algum. Concluímos, pelo absurdo
físico dessa hipotética situação, que, realmente, o sentido da corrente induzida deve
ser de modo a induzir, na espira, uma polaridade contrária ao movimento do ímã.

8 EXEMPLO Uma espira retangular com 10 cm de altura e 15 cm de largura aproxima-se de uma


região onde reina um campo magnético uniforme de intensidade 0,5 T. A espira se
desloca uniformemente com velocidade de 10 cm/s, estando no instante inicial a
10 cm da região onde existe o campo. Sendo de 1 mΩ a resistência associada à es-
pira, trace o gráfico da corrente induzida nela em função do tempo, desde o instante
inicial (t = 0) até o instante em que ela abandona completamente a região do campo
magnético.

i
h = 10 cm v

i x

30 cm
178 Indução Eletromagnética
Resolução

Vamos analisar o problema por etapas.


• Antes de a espira atingir a região do campo, não há variação de fluxo e, por-
tanto, é nula a corrente elétrica induzida. Como a distância inicial, da espira à
região do campo, é de 10 cm e a velocidade da espira é de 10 cm/s, ela levará
1 s para atingir a região do campo. Portanto, de 0 até 1 s, i = 0.

i
h = 10 cm v

i x

30 cm

• Ao atingir a região do campo, a parte da espira que conterá linhas de campo


magnético será um retângulo, cuja base é x  v  t e a altura 10 cm. A varia-
ção de fluxo correspondente a esse intervalo de tempo será:
∆φ = B ⋅ ∆A ⋅ cosα , ∆φ = 0, 5 ⋅ 0, 1 ⋅1 ⋅ ∆t , (α = 0 ⇒ cos α =1).

∆φ
Como ε = , .
∆t
  Ri e   Ri
Pela lei dee Pouillet , , 5  102,  10
5 10
3 2
i 10i3i 5 A. i  5 A

Essa situação perdura por 1,5 s, que é o tempo para que a espira penetre in-
teiramente na região do campo. Após esse intervalo, o fluxo ficará constante.
Portanto, de 1 s até 2,5 s, a intensidade da corrente será de 5 A, e, pela lei de
Lenz, com sentido anti-horário.

UNIDADE 5 179
• Até atingir a fronteira oposta do campo, a espira vai gastar mais 1,5 s. Durante
esse período, não há variação de fluxo e a corrente elétrica será nula. Assim,
de 2,5 s até 4 s, temos i = 0.
• Após 4 s, a espira começa a sair do campo. O cálculo da corrente induzida é
análogo ao feito quando ela estava entrando, apenas com a ressalva de que a
corrente induzida terá sentido contrário, portanto horário (Lei de Lenz). Como
a espira gastará, até sair completamente, 1,5 s, podemos dizer que, de 4 s até 5,5
s, a intensidade da corrente elétrica induzida será de 5 A, no sentido horário.
• De 5,5 s em diante, não há variação de fluxo, sendo, portanto, nula a corrente
elétrica.

Os gráficos ilustram o fluxo no decorrer do tempo e a intensidade da corrente elé-


trica relacionada às variações do fluxo do campo magnético, adotando-se o sentido
horário como positivo.

ф(10 -2 Wb)
0,75

1 2 3 4 5 6 t(s)

i(A)
5

t(s)

-5
Figura 17 - Gráficos da variação de fluxo e intensidade da corrente em função do tempo
Fonte: o autor.

180 Indução Eletromagnética


Indução Mútua

Vamos considerar duas espiras, (1) e (2), situadas lado a lado. A espira (1) possui a
chave K e está ligada a uma fonte de tensão.

i1 Binduzindo i2

B1
B1
(2)
(1)

ε1

K
Figura 18 - Espiras em situação de indução mútua
Fonte: o autor.

Inicialmente, a chave K está aberta. A corrente em ambas as espiras é nula.


Ao se fechar a chave K, a corrente na espira (1) passa de um valor nulo até um
determinado valor, em um curto intervalo de tempo. Nesse curto intervalo de tempo,
cresce a intensidade do campo magnético gerado pela corrente i1, e em decorrência,
aumenta o fluxo de linhas de campo magnético que saem da espira (2). A variação
do fluxo magnético na espira (2) induz a fem ε2. Assim, no curto intervalo de tempo
em que a corrente é variável na espira (1), temos a corrente i2 induzida na segunda
espira. Pela lei de Lenz, essa corrente se opõe à variação de fluxo, tendo, portanto,
sentido horário.
Caso a primeira espira esteja ligada a uma fonte de tensão variável, a corrente
variável i1 induz constantemente uma corrente i2 na segunda espira.
Em tal situação, é comum chamarmos a primeira espira de circuito primário
(indutor) e a segunda espira de circuito secundário (induzido).

UNIDADE 5 181
Autoindução

Suponhamos, agora, somente uma espira ligada a uma fonte de tensão. Variando-se
a corrente i, varia o campo magnético B e o fluxo desse campo através da própria
espira. A variação do fluxo induz na própria espira uma fem, contrária à essa variação.
Se, por exemplo, a chave K está fechada, ao abri-la, a redução brusca na intensidade
da corrente elétrica faz variar bruscamente a intensidade do campo magnético que
atravessa a espira. Em decorrência, temos a indução de uma fem contrária à redução
de corrente e, entre os contatos da chave K, a tensão induzida pode ser alta a ponto
de saltar uma faísca de um contato ao outro.
Usando o mesmo raciocínio, concluímos que, se a chave K estiver inicialmente aber-
ta, ao fecharmos a chave, a fem induzida se opõe ao crescimento da corrente elétrica.
Em resumo, uma variação na intensidade da corrente elétrica induz uma fem no
próprio circuito, contrária a essa variação. Essa propriedade do circuito é denominada
de autoindução, pois o indutor é o próprio induzido. A grandeza física que mede
essa propriedade é a indutância.
A indutância pode ser atribuída a qualquer circuito (espira circular, bobina chata
ou solenoide). Nesses circuitos, o fluxo do campo magnético é proporcional à intensi-
dade da corrente elétrica. Podemos, então, escrever: φ = Li , onde L é uma constante
que traduz a indutância do circuito.
A unidade de indutância no S.I. é henry (H), tal que 1 H = 1Wb A.
Di
Como ε = ∆φ , temos: e = L . Assim, quanto maior a indutância, maior a fem
∆t Dt
induzida por variações na intensidade da corrente elétrica.

Indutância do solenoide

A título de exemplo, vamos calcular a indutância de um dos indutores mais utili-


zados, o solenoide.
O campo magnético no interior do solenoide é praticamente uniforme e vale:
n
B =µ i
l
Supondo um solenoide de área de secção transversal A, em cada espira, o fluxo é
n
φ = BA = µ iA
l
Observando que o solenoide contém n espiras, o fluxo total é:
n µ n2i
φ total = nµ iA = A
l l

182 Indução Eletromagnética


µ n2i µ n2 A
Como φ = Li , temos Li = A⇒L= .
l l

Como a indutância é proporcional ao quadrado do número de espiras, é comum


termos um arranjo em que as espiras são sobrepostas, de modo a aumentar o número
de espiras mantendo a dimensão do indutor.

Transformador

A figura a seguir ilustra um transforma-


Circuito Primário
dor, dispositivo elétrico bastante usado
U1
para modificar a tensão. É comum a utili-
zação de um transformador para se ligar
um aparelho especificado para funcionar
com 110 V em tomadas nas quais a ten-
N1 espiras Núcleo
são é 220 V, ou vice-versa.
de Ferro
O circuito denominado primário
contém N1 espiras enrolados em um N2 espiras
núcleo de ferro. O circuito denominado
secundário contém N2 espiras enroladas
nesse mesmo núcleo. U2
Atravessa o núcleo de ferro um fluxo
magnético φ. Caso esse fluxo seja cons- Circuito Secundário
tante, não há indução. Para que o aparelho Figura 19 - Esquema de um transformador
funcione, é necessário um fluxo variável, Fonte: o autor.
obtido por meio de uma tensão variável.
∆φ
Em cada espira do circuito primário, a tensão induzida é: u = .
Como há N1 espiras, a tensão total é U1 = N1u. ∆ t
Do mesmo modo, no circuito secundário, a tensão induzida é: U 2 = N2u .
U U
Podemos, então, escrever que 2 = 1
N2 N1

Os transformadores apresentam alto rendimento. Podemos dizer que a potência


do circuito primário (P1) é igual à potência do circuito secundário (P2).
Temos: P1 = P2 ⇒ U 1i1 = U 2i2 , ou seja, a maior tensão corresponde uma menor
corrente elétrica.

UNIDADE 5 183
Correntes de Foucault
Vamos considerar um bloco de material condutor. Esse bloco está sujeito à
uma variação no fluxo do campo magnético. Vejamos duas maneiras de se
conseguir tal situação.

Fazendo-se o bloco penetrar numa região em que há um campo magnético.


Como todo o bloco é condutor, podemos imaginá-lo como composto de inúmeras
espiras, das quais destacamos algumas em nossa figura. Em cada uma dessas espiras,
que imaginamos constituindo o condutor, há corrente induzida. A energia despendida
para empurrar o bloco para dentro da região em que há o campo magnético está
sendo dissipada por efeito Joule, pois o movimento dos portadores de carga vai en-
contrar, no material, uma certa resistência. Temos, assim, um aquecimento do bloco,
utilizando energia eletromagnética.
O processo pode ser usado para frear um corpo metálico que se desloca, é o chamado
freio eletromagnético. Se de fato substituirmos o bloco por um conjunto de espiras,
a tensão induzida pode realimentar uma bateria. Essa é realmente uma aplicação
fantástica, pois corresponde a um reabastecimento enquanto se vai freando o veículo,
já disponível em alguns automóveis elétricos. Para os carros, a combustão correspon-
deria a algo como encher o tanque freando o carro numa ladeira.

Binduzido

184 Indução Eletromagnética


Mantendo-se o bloco fixo e variando-se o campo magnético que o atravessa.
Na figura, ilustramos o bloco nessa situação, num instante em que a intensidade do
campo magnético aplicado está aumentando. Pela lei de Lenz, as correntes induzidas
são tais que tendem a manter o fluxo magnético constante, e o campo magnético
induzido também tem sentido apontando para dentro da página.
Induzindo-se correntes muito intensas, o material pode chegar ao ponto de fusão. Essa
técnica é utilizada para fundir metais nos chamados fornos de indução. A vantagem
desse tipo de forno é que o foco de aquecimento é dirigido diretamente ao metal,
reduzindo-se o desnecessário aquecimento de paredes, fornalhas etc.

X X X X X
X X X X X X
X X X X X
X X X X X X
X X X X X
X X X X X X
X X X X X
X X X X X X
X X X X X
X X X X X X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X
X iinduzida
X X X X X
X X X X X X
X X X X X
Binduzido X X X X X X

Campo magnéico induzido em Algumas correntes


um bloco condutor fixo induzidas no bloco
condutor

Há casos em que essas correntes


induzidas não são desejáveis, pois
representam perdas em relação à
finalidade que tem o equipamento.
Num transformador, por exemplo, o
aquecimento do núcleo de ferro deve
ser evitado. Um recurso que se utili-
za para tanto, é transformar a peça
em várias lâminas, isoladas entre si,
restringindo-se drasticamente a cir-
culação dessas correntes induzidas.

A transformação do bloco condutor em várias lâminas “corta” a maior parte das possíveis
correntes induzidas

Fonte: Guimarães e Guadalupe (2014, p. 118).


UNIDADE 5 185
Tenha sua dose extra de conhecimento assistindo ao vídeo.
Para acessar, use seu leitor de QR Code.

9 EXEMPLO Um transformador é alimentado no circuito primário com tensão de 110 V e corrente


de 6 A. O primário possui 300 espiras; o secundário 600 espiras.
a) Qual é a tensão obtida no secundário?
b) Qual é a intensidade da corrente no secundário?
c) Se o secundário fosse ligado a uma tensão de 180 V, qual seria a tensão obtida
no primário?

Resolução

U 2 110
a) , logo   U 2  220 V .
600 300

b) , assim 110 ⋅ 6 = 220 ⋅ i 2 → i2 = 3 A.

c) A tensão no primário desse transformador é sempre a metade da tensão do


secundário, assim U1= 90 V.

Aprendemos, nesta unidade, como a força magnética age nas cargas elétricas e, con-
sequentemente, nos condutores. Aprendemos a calcular a intensidade dessa força e
como relacionar a força eletromotriz induzida quando um condutor se movimenta
pela Lei de Faraday. Além disso, compreendemos o funcionamento das bobinas e
transformadores pelas variações do fluxo do campo magnético.

186 Indução Eletromagnética


Você pode utilizar seu diário de bordo para a resolução.

1. Na figura, temos um próton (q = 1,6·10–19 C e m = 1,67⋅10-27 kg) adentrando uma



câmara onde existe um campo magnético uniforme, cujo vetor indução B tem

intensidade 3,34·10-2 T. A velocidade v do próton tem módulo 2,00·105 m/s e é
perpendicular a .

x x x x x x x x x B x
x x x x x x x x x x x
x x x x x x x x x x x
v
x x x x x x x x x x x
x x x x x x x x x x x
E D C A
6,25 cm 6,25 cm

12,5 cm 12,5 cm

Dessa forma, o próton:


a) Descreve uma trajetória circular, atingindo o ponto E.
b) Descreve uma trajetória circular, atingindo o ponto D.
c) Descreve uma trajetória circular, atingindo o ponto C.
d) Descreve uma trajetória circular, atingindo o ponto A.
e) Não sofre desvio algum, seguindo assim sua trajetória retilínea.


2. Admita que um próton, dotado de velocidade v , penetra em um campo mag-

nético uniforme, conforme mostra a figura a seguir. A direção do vetor v forma
um ângulo θ com as linhas de indução do campo magnético. A trajetória do
próton no interior do campo magnético é uma:
a) Reta.
b) Circunferência.
c) Parábola.
d) Hélice cilíndrica.
e) Elipse.

187
3. Um fio atravessado por uma corrente de 200 mA é colocado perpendicularmente
às linhas de indução de um campo magnético uniforme de intensidade 0,5 T.
A força magnética por unidade de comprimento exercida no fio, em N/m, é igual a:
a) Zero.
b) 0,1.
c) 0,4.
d) 5.
e) 25.

4. O condutor AB da figura a seguir está imerso numa região onde atua um campo
de indução magnética B de intensidade 0,5 T, perpendicular ao plano desta folha
e orientado para o leitor. O condutor situado no plano desta folha é percorrido
por uma corrente i = 2 A. A intensidade da força magnética que atua sobre o
condutor é:

B 1m
A

i 1m

i
B

a) 5 N.
b) 4 N.
c) 2 N.
d) 1 N.
e) Zero.

188
5. Na figura a seguir, o condutor CD tem resistência desprezível e mede 60 cm de
comprimento, movimentando-se sobre dois trilhos condutores com velocidade
constante e igual a 80 m/s para a direita. O campo magnético aplicado é unifor-
me, perpendicular ao plano da página e o seu sentido é “saindo” da figura. Sa-

bendo que a intensidade de B é de 10 T, que a resistência R vale 20 Ω e que
há uma força eletromotriz induzida; determine o valor da corrente elétrica
medida pelo amperímetro suposto ideal.

B C

v 60
R cm
A
D
6. Num transformador, a razão entre o número de espiras no primário (N1) e o
número de espiras no secundário (N2) é N1/N2 = 10 . Aplicando-se uma diferen-
ça de potencial alternada V1 no primário, a diferença de potencial induzida no
secundário é V2. Supondo tratar-se de um transformador ideal, qual é a relação
entre V2 e V1?
a) V2 = V1/100
b) V2 = V1/10
c) V2 = V1
d) V2 = 10 V1
e) V2 = 100 V1

189
WEB

Acessando ao link do vídeo a seguir, você poderá ver de uma maneira simples
como aplicar todos os princípios aprendidos neste tópico para se construir um
motor elétrico com materiais bem simples.
O vídeo tem um pouco mais de 9 minutos de duração e os materiais necessários
são bem acessíveis, a maioria deles você já até deve ter em casa.
Para acessar, use seu leitor de QR Code.

190
FEYNMANN, R.; LEIGHTON, R.; SANDS, M. Lições de Física de Feynman. Porto Alegre: Artmed, 2008.
Volume 3.

GUIMARÃES, O.; PIQUEIRA, J. R. C.; CARRON, W. Física - Projeto múltiplo 3V. São Paulo: Ática, 2014.

GUIMARÃES, O.; GUADALUPE, A. Sistema de Ensino Poliedro - Física. 4. ed. S. J. dos Campos: Editora
Poliedro, 2014. Volume 4.

GUIMARÃES. O.; CARRON, W. As faces da Física. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2006.

HALLIDAY, D.; RESNICK, R. Fundamentos de Física. 3. ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos,
1994. Volume 4.

OKUNO, E.; CALDAS, I. L.; CHOW, C. Física para ciências biológicas e biomédicas. São Paulo: Harbra, 1982.

YOUNG, H. D.; FREEDMAN, R. A. Física. 12. ed. São Paulo: Addison Wesley, 2009.

191
1. A.

O raio da trajetória pode ser obtido por:

Pela regra da mão esquerda, a força tem, inicialmente, o sentido para a esquerda.

2. D.

Como a velocidade é oblíqua em relação ao campo magnético, a trajetória será uma hélice cilíndrica.

N S

v θ

3. B.

A intensidade da força sobre o fio é: Fm = Bil.senθ , logo a força por unidade de comprimento fica
Fm
= Bi.senθ .
l
F
Assim, m = 0 5 0 2 1 = 0, 1
N , pois θ = 90° .
l m
4. A.

Fm = Bil.senθ
No trecho vertical do fio, a força magnética é:

F1 = 0 5 2.3 = 3 N , horizontal e para a esquerda.


No trecho horizontal, temos:

, vertical e para baixo.

Pelo teorema de Pitágoras: F 2 = F12 + F22 → F = 5 N

192
5. A força eletromotriz induzida pode ser obtida por: ε = Blv = 10 0 6.80 = 480 V .
Como e = Ri , 480  20  i  i  24 A.
Pela Lei de Lenz, no sentido horário.

6. B.
V2 V1 V1.N2 V1 .
Pela equação do transformador, = , logo,
= V2 =
N2 N1 N1 10

193
194
Dr. José Osvaldo de Souza Guimarães

Temperatura e Calor

PLANO DE ESTUDOS

Calor latente e Transmissão


calor sensível do calor

Escalas de Trocas
temperatura de calor

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

• Compreender o conceito de temperatura e como construir que nas mudanças de fase há calor trocado, mesmo sem
uma escala para medir essa grandeza; saber como se mudança de temperatura.
constrói um termômetro; e comparar as principais escalas • Compreender e mensurar o balanço térmico – trocas de
de temperaturas usadas atualmente. calor entre corpos. Prever a temperatura de equilíbrio de
• Entender o conceito de calor e saber diferenciar esse corpos em um sistema isolado.
conceito do conceito de temperatura; associar o calor à • Conhecer, conceituar e saber operar com as três principais
energia em trânsito de um corpo para outro; compreen- formas de transmissão de calor; conceituar a condutivi-
der como se mede essa quantidade de energia; observar dade térmica e sua importância nos fenômenos naturais.
Escalas de
Temperatura

Uma primeira ideia de temperatura nos remete


à sensação de conforto ou desconforto climático.
Muito além de uma simples questão de comodi-
dade, a temperatura comparece como grandeza
fundamental em vários ramos da ciência. A tem-
peratura, junto com outros fatores, determina a
possibilidade de vida em certo ambiente, assim
como o estado de agregação das partículas de
uma substância, nesse caso em conjunto com o
conceito de pressão.
O passo inicial que devemos dar para conhe-
cer um pouco melhor essa grandeza consiste em
medi-la. Conforme já vimos, medir consiste em se
comparar a grandeza a um padrão. Nesse sentido,
veremos alguns padrões para medida de tempera-
tura – escalas termométricas – e qual o princípio
que norteia a construção dos aparelhos de medida
de temperatura, os termômetros.
Temperatura

Quando encostamos nossa mão na maçaneta metálica de uma porta de madeira,


temos a impressão que o metal está menos quente que a madeira. Dissemos impres-
são, pois esses dois corpos estão juntos há muito tempo e, portanto, em equilíbrio
térmico. Ocorre que o metal, por características que veremos, rouba energia com
mais rapidez de nossas mãos. Essa discussão, por si só, já justificaria a concepção
de uma grandeza física para se analisar qual corpo está mais frio ou mais quente.
Há, entretanto, outros fatores, como nas fundições, com fornos muito quentes para
serem avaliados “manualmente”, ou nos processos biológicos em que a precisão em
se conceituar o estado térmico é crucial.
O estado térmico de um corpo, que chamamos de temperatura, é determinado
pelo grau de agitação de suas partículas. A temperatura é uma medida da energia
cinética média dessas partículas que compõem um corpo. Será mais quente aquele
que apresentar um valor médio maior para esse grau de agitação.

Escalas Termométricas

As escalas termométricas se baseiam no que se convencionou chamar de lei zero


da termodinâmica.
Quando dois corpos apresentarem equilíbrio térmico com um terceiro corpo,
então esses corpos estão em equilíbrio térmico entre si.
O terceiro corpo mencionado pela lei zero é o termômetro. Se o termômetro
apresenta a mesma leitura para dois corpos diferentes, então esses corpos estão em
equilíbrio térmico; num terceiro modo de se enunciar essa lei, podemos dizer que:
dois corpos estão em equilíbrio térmico quando têm a mesma temperatura.

Construção de uma Escala

O primeiro passo é escolher uma grandeza termométrica. Chamamos de gran-


deza termométrica qualquer grandeza que varie com a temperatura. São exemplos
o comprimento de uma coluna de mercúrio, o tamanho de uma barra de ferro, a
pressão exercida por um gás num recipiente de volume constante etc. A relação entre
a grandeza termométrica e a temperatura deve ser tal que a cada valor da grandeza
corresponda a uma única temperatura. Matematicamente, dizemos que a função que
relaciona a grandeza com a temperatura deve ser injetora.

UNIDADE 6 197
A medida da temperatura de um corpo é feita, indiretamente, pelo efeito provo-
cado em uma dessas grandezas citadas anteriormente, quando em equilíbrio térmico
com o corpo.
Os procedimentos para a obtenção de uma escala termométrica são os seguintes:

Figura 1 - Termômetro a álcool colorizado


Fonte: o autor.

1. Escolhemos a substância e a grandeza termométrica. Normalmente, esco-


lhemos grandezas que variem linearmente com a temperatura. Por exemplo,
vamos utilizar álcool colorizado (substância termométrica) colocado em
um reservatório (bulbo) ligado a um tubo capilar de vidro; o comprimento
atingido pela coluna de álcool no tubo capilar será a grandeza termométrica.
Essa grandeza varia linearmente com a temperatura.
2. O dispositivo é colocado em contato com dois estados térmicos diferentes.
Aguardando-se o equilíbrio térmico, são, então, atribuídos números represen-
tando cada um desses estados. Geralmente, os dois estados térmicos utilizados,
denominados pontos fixos, são a ebulição da água e a fusão do gelo, ambos
sob pressão de 1 atm.
Quadro 1 - Termômetros em equilíbrio térmico com os conteúdos de recipientes

Água e gelo em equilíbrio térmico Água e vapor de água em equilíbrio térmico

Fonte: o autor.

198 Temperatura e Calor


3. Consideremos: θG o número atri-
buído ao ponto de fusão do gelo,
θV
que corresponde ao comprimen-
to h1 da coluna de álcool; e θV o
hV
número atribuído ao ponto de
θ
ebulição da água, que correspon-
de ao comprimento h2 da coluna
de álcool.
h
θG
O intervalo entre os dois pontos
hG
fixos (h2 - h1) é dividido por (θV
- θG), obtendo-se partes iguais e
unitárias. Cada unidade recebe o Figura 2 - Comparação entre uma escala e as alturas
nome de grau da escala. Fonte: o autor.

4. Finalmente, relacionamos os valores da grandeza termométrica (comprimento


h da coluna de mercúrio) com os valores da temperatura (θ) por meio de uma
função termométrica. Como em nossa escolha a grandeza termométrica varia
linearmente com a temperatura, vamos obter uma função de primeiro grau.
Para obter a função, podemos nos utilizar das propriedades das proporções
ou, ainda, das propriedades da função de primeiro grau.
q  qG h  hG

qV  qG hV  hG

Na Figura 3, notamos que a fun- θ


ção termométrica também pode
ser obtida pela semelhança dos θV
triângulos em destaque.
θ

θG

Figura 3 - Gráficohda h
G função termométrica hV
Fonte: o autor.

UNIDADE 6 199
1 EXEMPLO Um aluno, de nome Marcelo, resolveu criar uma escala termométrica (escala arbitrária
M), usando um velho termômetro de mercúrio com a escala totalmente apagada. Ele
colocou o termômetro em equilíbrio térmico com gelo fundente e anotou a altura
atingida pela coluna de mercúrio: 5,0 cm. Em seguida, em equilíbrio térmico com
água em ebulição sob pressão atmosférica normal, anotou a altura de 25 cm.
d) Qual a função termométrica dessa escala arbitrária M?
e) Qual o valor da temperatura na escala M se a altura da coluna de mercúrio
atingir o valor de 17 cm?

Resolução
A equação que relaciona a temperatura (θM) com a altura da coluna de mercúrio (h)
é dada por:

a)

b) Para h = 17 cm, temos:


qM  5, 0  17  25  qM  60 M

Escala Celsius e Fahrenheit

A escala Celsius, construída


100 212
em 1742, por Anders Celsius
(1701-1744), adota para o
θC θF
ponto de fusão do gelo o valor b
(212-32)
(100-0)

zero e para o ponto de ebulição


da água sob pressão normal, o Δθ C Δθ F
a
valor 100. O intervalo obtido
entre os dois pontos fixos foi
dividido em 100 partes iguais 0 32
e cada parte corresponde à
unidade da escala, denomi- Figura 4 - Comparação entre as escalas Celsius e Fahrenheit
Fonte: o autor.
nada grau Celsius (oC).
A escala Fahrenheit foi construída em 1727, por Daniel G. Fahrenheit (1686-1736).
Originalmente, ele utilizou como 1º ponto fixo uma mistura de água, gelo e sal, para
a qual atribuiu o valor zero, e como 2º ponto fixo, a temperatura do corpo humano,
para o qual atribuiu o valor 100.

200 Temperatura e Calor


Ao projetarmos os pontos fixos escolhidos por Celsius na escala Fahrenheit, ob-
temos os valores: 32 para o ponto de fusão do gelo e 212 para o ponto de ebulição da
água. Assim, na escala Fahrenheit, o intervalo entre esses dois pontos fixos é dividido
em 180 partes (212 - 32). Cada parte corresponde à unidade da escala, denominada
grau Fahrenheit (oF).
A conversão de temperaturas entre as escalas é feita por meio da comparação
dos segmentos a e b, da coluna de mercúrio, que correspondem aos mesmos estados
térmicos, independentemente das escalas utilizadas.

a DqC DqF DqC DqF


   
b 100  0 212  32 100 180

Da relação anterior, obtemos:

DqC DqF q q  32
  C  F
5 9 5 9

Utilizamos a primeira expressão quando queremos comparar somente as variações


de temperatura, mas não a temperatura em si. Já a segunda expressão nos fornece
diretamente a comparação entre as temperaturas propriamente ditas.
Podemos comparar as escalas Celsius e Fahrenheit com uma escala arbitrária X,
a DqC Dq X q q  qG
   C  X
b 100  0 qV  qG 100 qV  qG

Essa relação permite a conversão de valores de temperaturas de uma escala para outra.

2 EXEMPLO Num determinado dia de verão, a temperatura mínima foi de 68 ºF e a máxima de 95 ºF.
a) Expresse essas temperaturas na escala Celsius.
b) Qual foi a variação entre a temperatura mínima e a máxima, na escala Celsius?

Resolução
a) Para a temperatura de 68 ºF, temos:
 θC θF − 32 θ 68 − 32
 = ⇒ C = ⇒ θC = 20 °C
5 9 5 9
θF 68 F

b) Para 95 ºF, temos:


qC 95  32
  qC  35 C
5 9

UNIDADE 6 201
A variação pode ser obtida de dois modos: ou aproveitamos os resultados obtidos no
item a – o que pressupõe que esses cálculos já estejam efetuados –, ou aplicamos a pro-
porção que deduzimos para quando se quer apenas a variação e não temperatura em si.
DqC DqF DqC 95  68
    DqC  15 C
5 9 5 9

Escala Kelvin

A evolução tecnológica que se V


obteve a partir da revolução in-
dustrial do começo do século 3V
XIX trouxe consigo algumas per-
guntas. Os processos de fundição 2V
exigiam altas temperaturas. Pri-
meiro, podemos nos perguntar α
V
até que ponto podemos esquen-
tar um corpo? A experiência vem
mostrando, cada vez mais, que θ(ºC)
não há limite para isso. As tem- V 273 546

peraturas de algumas centenas Figura 5 - Comportamento do volume com a temperatura


Fonte: o autor.
de graus Celsius, que eram con-
sideradas altas há cem anos, ficam insignificantes diante de outras que conhecemos,
como as de algumas dezenas de milhões de graus Celsius no interior das estrelas. Por
outro lado, até que ponto podemos resfriar um corpo?
Tentando responder a essa pergunta, William Thomson (1824-1907), um pouco
depois homenageado com o título de Lord Kelvin, observava o comportamento dos
gases. Ele verificou que todos os gases – na faixa onde podemos considerá-los como
gás ideal – possuem o mesmo coeficiente de dilatação térmica, claro, mantendo-se
a pressão constante. As escalas em que Kelvin fez sua análise eram as disponíveis na
época, por exemplo a Celsius. O gráfico ilustra uma parte da sua análise. À medida
que se vai aumentando a temperatura do gás, o seu volume vai aumentando. Reci-
procamente, à medida que se vai diminuindo a temperatura do gás, seu volume vai
diminuindo. Até que ponto pode diminuir o volume do gás? Ora, até ficar nulo!
Toda essa discussão leva a uma concepção da estrutura da matéria – nesse parti-
cular dos gases – junto com o conceito de temperatura. Qualquer porção de matéria,
seja ela sólida, líquida ou gasosa, é composta por moléculas, átomos ou íons, que
chamaremos simplesmente de partículas, em constante agitação. A partícula repre-

202 Temperatura e Calor


senta a menor parte que conserva as mesmas propriedades químicas da matéria. A
agitação dessas partículas é mais intensa nos gases do que nos líquidos, e nestes mais
intensa do que nos sólidos.

Figura 6 - Partículas em agitação térmica


Fonte: o autor.

Para um mesmo estado físico


V
(fase), a agitação molecular está
intimamente relacionada com a
temperatura. Uma temperatura 2V
mais alta indica uma maior agi-
tação molecular e, portanto, uma
V
maior energia cinética média; as-
sim, a menor temperatura possível
é aquela em que a energia cinética
média seja nula. As partículas es-
θmínimo θ(ºC)
tariam em repouso e não há como 0 273
Figura 7 - Comportamento do volume de um gás com
ser mais lento que o repouso. a temperatura
Nessa temperatura, o volume livre Fonte: o autor.
entre as partículas seria nulo.
Retomemos o gráfico visto no começo desta discussão e vamos analisar a região
em que a temperatura, na escala Celsius, é negativa. Observe que a inclinação da reta
é tg α  DV  tg α  2V  V  tg α  V . O ponto em que a reta intercepta o
Dθ 546  273 273

eixo das abscissas é o ponto que corresponde a um volume nulo. A temperatura re-
ferente a esse ponto é obtida por tgα = V = V − 0 ⇒ θC = 273 C
273 0 − θC

A esse ponto, -273 oC, conhecido como zero absoluto, que corresponde ao limite
inferior de temperatura, Kelvin atribuiu o valor zero de sua escala (0 K = -273 oC).
Estava assim descoberta, teoricamente, a menor temperatura. Para construção de

UNIDADE 6 203
uma verdadeira escala de temperaturas, a escala absoluta, faltava ainda escolher o
tamanho do grau. Foi como se tivessem descoberto o começo – marco zero – de uma
estrada. A numeração dos vários pontos poderia ser feita usando-se como padrão a
unidade milha, ou quilômetro, ou uma outra unidade qualquer de comprimento. No
caso da escala Kelvin, escolheu-se o tamanho de divisão que possui a escala Celsius.
Pela própria definição, uma variação de x unidades na escala Kelvin corresponde a
uma variação de também x unidades na escala Celsius. Assim, qualquer variação de
temperatura é representada pelo mesmo valor nas duas escalas, Celsius e Kelvin. A
Figuras 8 representa as comparações entre as escalas Celsius e Kelvin, com relação
às temperaturas e às variações de temperatura.

100 373

θC T

Δθ C ΔT

0 273

Figura 8 - Comparação de escalas


Fonte: o autor.

T  qC  273
qC  T  273
DT  DqC
Observações
A rigor, a temperatura na escala Celsius não é grandeza física, pois 0 ºC não significa
grau agitação nulo.
O zero absoluto é inacessível na prática. Pode-se chegar bastante perto, mas quanto
mais próximo dessa temperatura se chega, mais difícil fica para o corpo ceder calor,
que sabemos vai espontaneamente do corpo mais quente para o corpo mais frio.

204 Temperatura e Calor


Frio não existe! Pelo menos como grandeza física. Um corpo esfria quando cede calor.
Se um corpo pudesse receber frio, não existiria um limite inferior para a temperatura.

3 EXEMPLO Um corpo é aquecido desde 27 ºC até 127 oC.


a) Transforme esses valores para a escala Kelvin.
b) Qual a variação de temperatura sofrida pelo corpo nas escalas Celsius e Kelvin?

Resolução
a) Para transformarmos da escala Celsius para a escala Kelvin, aplicamos:
T  qC  273, assim, para , temos T  27  273  T  300 K e,
para , T  127  273  T  400 K

b) De 27 ºC até 127 oC, temos uma variação de 100 oC e como a escala Kelvin
apresenta a mesma variação da escala Celsius, a variação será de 100 K.

UNIDADE 6 205
Calor Latente e
Calor Sensível

Nosso planeta é uma grande máquina térmica.


Por meio da energia recebida do Sol, a água se
eleva na atmosfera para retornar a seguir, pondo
em curso, juntamente com outros aliados, a sus-
tentação da vida.
A ideia da energia térmica, nos moldes que a
conhecemos hoje, embora pareça muito antiga, é
uma concepção recente. O calor era, antigamen-
te, concebido como uma substância estranha, sem
massa e volume perceptíveis, que habitava o interior
dos corpos.
Neste tópico, veremos que o calor é uma modali-
dade de energia que se transmite de um corpo a ou-
tro em escala submicroscópica. Veremos, também,
como mensurar essa quantidade, associando-a às
mudanças de temperatura e às mudanças de fase.

Lembre-se que calor (Q) é a quantidade de ener-


gia térmica que é transferida de um corpo a ou-
tro. Não confunda com alta temperatura apenas.

206 Temperatura e Calor


Quando colocamos dois corpos quaisquer em contato, a energia térmica flui natural-
mente do corpo mais quente para o corpo mais frio. Essa quantidade de energia que
é transferida de um corpo para outro chamamos de calor. Calor é, portanto, energia
em trânsito de um corpo a outro. Os corpos, em geral, têm energia térmica – agitação
em suas partículas microscópicas – mas não contêm calor.
Durante muito tempo, os conceitos de calor e temperatura foram confundidos. É
comum esse equívoco nos primeiros contatos com a Física Térmica. Devemos observar,
entretanto, que a energia térmica disponível em um litro de água a 100 ºC é maior
que a energia térmica disponível em uma xícara de água também a 100 ºC. Ambos os
corpos estão à mesma temperatura, mas a quantidade de energia que devem ceder,
ou seja, calor, para atingir a temperatura ambiente, são bem diferentes.

Capacidade Térmica de um Corpo (C)

Consideremos dois cor-


pos de mesma massa
expostos a uma mesma
chama durante o mesmo
intervalo de tempo. Um
deles é um bloco de ferro
e o outro, um recipiente
contendo 1 litro de água. Figura 9 - Aquecimentos de dois corpos diferentes
Se esse bloco de ferro ficar Fonte: o autor.
exposto à chama de um fogão comum durante dois minutos, por exemplo, ele atinge
tal temperatura que será quase impossível apanhá-lo diretamente com a mão. Entre-
tanto, se o litro de água receber a mesma quantidade de calor, teremos água morna.
Embora os dois corpos tenham a mesma massa, eles têm comportamentos térmicos
diferentes. Esses corpos, ao receberem iguais quantidades de calor, experimentaram
variações de temperatura diferentes.

Capacidade térmica (C) é a relação entre a quantidade de calor (cedido ou recebido)


e a correspondente variação de temperatura.
(Adaptado de Osvaldo Guimarães e Wilson Carron)

UNIDADE 6 207
Dizemos que dois corpos são termicamente equivalente quando, ao trocarem (cede-
rem ou receberem) a mesma quantidade de calor, sofrem a mesma variação de tem-
peratura ou, em outras palavras, dois corpos são termicamente equivalentes quando
possuem a mesma capacidade térmica. Assim, definimos capacidade térmica de um
Q dy
corpo como C  c= .
q dx
No sistema usual da calorimetria, a unidade para quantidade de calor é a caloria,
que definiremos adiante. Como a variação de temperatura é medida na escala Celsius,
a unidade de capacidade térmica é calorias = cal .
grau Celsius °C

4 EXEMPLO Dois corpos, A e B, de mesma massa, são tais que possuem as capacidades térmicas:
CA= 20 cal/ºC e CB= 300 cal/ºC.
a) Se os dois corpos sofrerem a mesma variação de temperatura, qual será a
relação entre os calores que cada um deles trocou?
b) Se os dois corpos receberem a mesma quantidade de calor, qual a relação
entre as correspondentes variações de temperatura?

Resolução
Q Q
a) Como C  , então q  . Além disso q A  qB  q , logo
q C
QA QB , resultando QA QB Q 1
=   A  . O corpo B, de maior capaci-
CA CB 20 300 QB 15
dade térmica, necessita de quinze vezes o calor trocado pelo corpo A para
sofrer a mesma variação que o corpo A sofreu.
b) A quantidade de calor recebida pode ser calculada por Q  C  q , assim,

q A
C A  q A  CB  qB, resultando 20  q A  300  qB   15
qB

A variação de temperatura sofrida pelo corpo A é 15 vezes a sofrida pelo


corpo B, com uma mesma quantidade de calor. O corpo de menor capacidade
térmica sofre maior variação de temperatura.

Calor Específico de uma Substância (c)

Com base em nosso exemplo anterior, vemos que os corpos A e B de massas iguais
apresentam capacidades térmicas diferentes. Isso nos leva a concluir que são consti-
tuídos de substâncias diferentes.

208 Temperatura e Calor


Para caracterizar termicamente uma substância e poder compará-la com outras,
devemos determinar qual é a sua capacidade térmica específica, ou seja, qual a
capacidade térmica que se obtém quando se considera uma unidade de massa da
substância. Pela época em que ainda se pensava que um corpo continha calor, essa
grandeza foi denominada calor específico da substância, nome que permanece por
C
razões meramente históricas, dado por: c = .
m
cal
O calor específico da água é c = 1
g ⋅ ºC
C 
A unidade de calor específico é  c   , onde os colchetes significam “unidade
 q 
cal
da grandeza”. No sistema usual da calorimetria, obtemos [ c ] = .
g ⋅ ºC

O calor específico da água vale exatamente uma unidade no sistema usual, porque
a água foi designada como substância padrão na calorimetria. Uma vez que o calor
específico pode variar um pouco, dependendo da faixa de temperatura que conside-
remos, a definição de caloria obedece a um determinado intervalo de temperatura
(GUIMARÃES; CARRON, 2006).
Uma caloria é a quantidade de calor necessária para variar de um grau
Celsius a temperatura de um grama de água (entre 14,5 ºC e 15,5 ºC).
Explorando um pouco mais a definição de calor específico, observamos que:
Tabela 1 - Calores específicos

Substância Fase Calor específico ( cal/gºC )


Água líquida 1,00
Álcool etílico líquida 0,58
Mercúrio líquida 0,03
Água sólida 0,55
Ferro sólida 0,11
Cobre sólida 0,09
Platina sólida 0,03
Hidrogênio gasosa 2,41
Hélio gasosa 0,75
Oxigênio gasosa 0,15
Ar ( valor médio ) gasosa 0,17
Água gasosa 0,30
Fonte: Young e Freedman (2009).

UNIDADE 6 209
A Tabela 1 nos indica o calor específico de algumas substâncias. Os valores referentes
à fase gasosa se restringem a um volume constante.
O calor específico depende da estrutura da matéria, assim, o calor específico de
uma substância na fase sólida é diferente de seu calor específico na fase líquida e
diferente ainda na fase gasosa.
Aproveitando a comparação que podemos fazer, usando-se a tabela anterior,
vamos comentar sobre as consequências do alto calor específico da água. Como
vimos, o calor específico é a quantidade de calor necessária para variar de um grau
a temperatura de uma unidade de massa. Em relação às outras substâncias, cada
grama de água necessita de muito mais calor – cedido ou recebido – para variar de
um grau a sua temperatura. Dessa forma, um jato de água se revela muito eficiente
para resfriar um corpo.
Outro aspecto importante é a questão climática. Regiões muito úmidas têm me-
nores variações de temperatura quando comparamos o dia e a noite. A umidade
aquecida cede calor durante a noite, mas devido ao alto calor específico da água, a
variação de temperatura é pequena. Por outro lado, os secos desertos têm temperaturas
muito elevadas durante o dia e muito baixas pela noite. O calor específico da areia
é cerca de 1/5 do calor específico da água. Repare a praia em um dia ensolarado: a
temperatura da areia se apresenta muito maior que a da água do mar. Já numa noite
fria, observamos o contrário.

Calor Sensível (q)

Estamos considerando os corpos recebendo calor sem que haja mudança de fase.
Nessas condições, o corpo esquenta quando recebe calor e esfria quando cede calor.
Podemos identificar, então, a perda ou ganho de energia pela variação de tempe-
ratura. Esse processo é sensível a um termômetro. Nossas conclusões se aplicam a
sólidos, líquidos e gases sob volume constante. Para calcular o calor sensível, vamos
observar que:
Sistema usal de Calometria:
 [Q ] = cal

 [ m] = g

[ ∆θ ] = C
º

Q  m  c  q

210 Temperatura e Calor


Devemos estar atentos às unidades do sistema usual:
• Quantidade de calor em calorias (cal).
• Massa em gramas (g).
• Variação de temperatura em graus Celsius (ºC).

Valor algébrico de Q Variação de temperatura


Calor recebido Q>0 Δθ > 0
Calor cedido Q<0 Δθ < 0

Tabela 2 - Convenções nas trocas de calor


Fonte: o autor.

Uma convenção que está implícita na expressão do calor sensível é a do valor algébri-
co da quantidade de calor. Quando o corpo recebe calor, a variação de temperatura
(diferença entre a temperatura final e a inicial) é positiva, e negativa no caso contrário.

Potência Térmica - Fluxo de Calor

Os fogões, em geral, possuem um mecanismo de regulagem da intensidade da chama.


Usando esse mecanismo, o aquecimento pode ser feito mais rapidamente ou mais
devagar. A grandeza física que caracteriza com que rapidez o calor é fornecido é
denominada fluxo de calor (ϕ). No sistema usual, essa grandeza mede quantas calo-
rias são fornecidas por unidade de tempo. Algebricamente, escrevemos f  Q .
t
 Q  cal
Com relação à unidade de fluxo de calor, temos: f   , resultando ,
t s
no sistema usual.
Dessa forma, distinguimos a chama de uma vela da chama de um maçarico. São
duas fontes térmicas, porém de potências térmicas bem distintas.

Calorímetro - Recipiente de paredes termicamente isolantes feito para medir


trocas de calor.

Com a intenção de garantir que a substância em estudo não seja afetada por trocas
de calor com o ambiente, utiliza-se, nas experiências de calorimetria, recipientes
chamados de calorímetro. As paredes desse recipiente são feitas de material isolante
térmico, restringindo, assim, as trocas de calor à sua parte interior.

UNIDADE 6 211
5 EXEMPLO a) Qual a quantidade de calor que deve ser fornecida a 500 g de água a 20 ºC
para que sua temperatura atinja 80 ºC?
b) Se essa mesma quantidade de calor fosse fornecida a um bloco de cobre de
500 g, também inicialmente a 20 ºC, qual a temperatura que ele atingiria?
Considere o calor específico do cobre como 0,1 cal/gºC.

Resolução
a) Q  m  c  q

b) Q  m  c  q

30.000 = 500 ⋅ 0, 1 ⋅ ( θ − 20 ) → θ = 620 ºC

Como o calor específico da água (1 cal/gºC) é dez vezes o calor específico do cobre
(0,1 cal/gºC), a variação de temperatura da água (60 ºC) é 1/10 da variação de tem-
peratura sofrida pelo cobre (600 ºC).

Experimento de Joule
A concepção do calor como energia em trânsito ficou claramente demonstrada por
uma célebre experiência feita por James Prescott Joule (1818-1889). Nessa expe-
riência, Joule forneceu energia a uma certa quantidade de água com um sistema de
pás que giravam acionada por blocos pendentes, cujas massas eram conhecidas. A
energia fornecida à água corresponde à variação de energia potencial dos blocos que
desciam. Essa experiência, repetida várias vezes, comprovou que para cada unidade
de energia mecânica fornecida existe uma mesma quantidade de calor associada: a
água era aquecida devido à rotação das pás.
A importância histórica da experiência reside no fato de ela unificar dois setores
anteriormente separados da Física, a Calorimetria e a Mecânica. A unidade caloria
nada mais é que uma unidade de energia, sendo a relação com a unidade de energia
do sistema internacional expressa por: .
Nos cálculos, é comum a utilização: .

212 Temperatura e Calor


Equivalente em Água

Como vimos, dois corpos são equivalentes termicamente quando têm a mesma ca-
pacidade térmica. Isso significa que se esses corpos receberem a mesma quantidade
de calor, experimentarão a mesma variação de temperatura.
Dado um corpo qualquer, podemos descobrir qual a massa de água termicamente
equivalente a ele. Para isso, a capacidade térmica da massa de água deve ser igual à
capacidade térmica do corpo: Cágua  Ccorpo  m A  c A  Ccorpo.
Como no sistema usual, o calor específico da água é unitário (1 cal/gºC), obtemos
N
mágua = Ccorpo.
Essa relação é válida no sistema usual. Em um outro sistema de unidades, a igual-
dade deixa de ser válida, uma vez que o calor específico da água não é unitário.
Vale observar, também, que a igualdade é apenas numérica, já que o equivalente
em água é medido em gramas e a capacidade térmica em cal/ºC.
Com tantas restrições e observações, essa definição deve ser justificada por uma
finalidade prática, e realmente o é, como mostra nosso exemplo seguinte.

6 EXEMPLO Um calorímetro de capacidade térmica 20 cal/ºC contém 180 g de água a 30 ºC e


está em equilíbrio térmico com ela. Se o sistema formado por ambos receber 2000
cal, qual a correspondente variação de temperatura?

Resolução
O sistema é constituído por um calorímetro e uma quantidade de água (180 g).
Como o calorímetro possui uma capacidade térmica de 20 cal/ºC, ele é termica-
mente equivalente a 20 g de água, pois os dados estão no sistema usual. Assim, a massa
de água equivalente ao conjunto (calorímetro+180 g de água) será
m = 180 + 20 = 200 g
Q = m ⋅ c ⋅ ∆θ
2000 = 200 ⋅ 1 ⋅ ∆θ → ∆θ = 10 ºC

UNIDADE 6 213
Calor de Combustão

Todos os organismos vivos necessitam de energia para a sua sobrevivência. No caso


dos animais, a principal fonte de energia é a alimentação. O homem, por meio da
alimentação, ingere proteínas, gorduras, vitaminas, carboidratos e uma quantidade
de energia necessária para a realização de todas as suas atividades diárias.

O mesmo podemos dizer das máquinas e motores; para que possam realizar tra-
balho, eles necessitam de energia e, nestes casos, a principal fonte de energia é o
combustível. Os combustíveis, assim como os alimentos, contêm energia que pode
ser liberada e utilizada por outros mecanismos.

A energia contida nos alimentos e nos combustíveis pode ser medida por meio da
queima (combustão). A combustão é uma reação exotérmica (liberação de calor)
de uma substância com o oxigênio. Assim, a queima de 1 g de uma determinada
substância libera uma quantidade de calor, denominada calor de combustão:

Calor de combustão é a quantidade de calor liberada na queima de 1,0 g de uma


substância, dado em cal/g.

A tabela a seguir, baseada no Estudo Nacional da Despesa Familiar - ENDEF, Secre-


taria de Planejamento da Presidência da República, Fundação Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística de 1977, apresenta os calores de combustão de alguns
alimentos e combustíveis.

Tabela 3 - Os calores de combustão de alguns alimentos e combustíveis

Alimento Calor de combustão Combustível Calor de combustão


(cal/g) (cal/g)

Batata frita 2740 Gás natural 11900

Pão 2690 Gás hidrogênio 29000

Arroz cozido 1670 Gasolina 11100

Carne magra 1460 Óleo diesel 10900

Feijão cozido 670 Álcool etílico 6400

Leite cru 630 Lenha 2800 a 4400


Fonte: adaptada de Guimarães e Carron (2006).

214 Temperatura e Calor


Mudança de Fase

Pode acontecer de uma substância estar recebendo calor e manter a sua tempera-
tura constante? A resposta é sim. Sabemos que a agitação térmica está relacionada
diretamente com a temperatura na escala absoluta. Esse movimento é avaliado pela
energia cinética média das partículas. Contudo, devemos lembrar que existe, também,
uma energia potencial associada a um sistema de partículas. Quando erguemos um
corpo do solo, sob velocidade constante, não estamos alterando a sua energia cinéti-
ca; entretanto, a energia potencial do sistema Terra-corpo aumentou. A energia que
dispendemos nesse processo correspondeu a esse aumento. Analogamente, pode
ocorrer de estarmos fornecendo calor a um corpo, mas essa energia ser utilizada para
separar as partículas. É o que sucede quando uma substância está mudando de fase.
São três os estados básicos de agregação da matéria: sólido, líquido e gasoso. A
esses estados de agregação, denominamos fases da substância.

Fase sólida Fase líquida Fase gasosa

Quadro 2 - Fases em que pode se encontrar a matéria


Fonte: o autor.

UNIDADE 6 215
Fases de uma Substância

Vejamos, primeiramente, as características de cada uma das fases de uma substância.


Em nossa análise, vamos considerar apenas as substâncias puras.
• Fase sólida - Os sólidos têm volume e forma definidos. A principal caracte-
rística das substâncias puras na fase sólida é que suas partículas se dispõe em
um arranjo espacial regular, chamado de retículo cristalino, que se repete ao
longo de toda estrutura da substância. Uma mesma substância pode apresen-
tar diferentes arranjos cristalinos na fase sólida, são as chamadas variedades
alotrópicas. Podemos dar como exemplo o grafite, o diamante e o gelo.
• Fase líquida - Os líquidos têm apenas o volume definido. Nessa fase, existe
coesão entre as partículas da substâncias, mas não há a presença do retículo
cristalino. É uma fase amorfa, que significa sem forma definida. Na presença de
um campo gravitacional, eles se amoldam à forma do recipiente que os contém,
apresentando uma superfície livre. Na ausência de um campo gravitacional, os
líquidos assumem a forma esférica, que corresponde a menor superfície livre
para um volume predefinido. Nas espaçonaves em órbita, temos o estado de
imponderabilidade, que equivale mecanicamente à ausência de gravidade.
Observa-se claramente, nessa situação, a formação de esferas de água flutuando
pelo veículo espacial afora.
• Fase gasosa - Os gases não têm volume e nem forma definidos. Aprisionados,
ocupam todo o volume do recipiente que os contém, assumindo a forma desse
recipiente. Liberados no vácuo, entram num processo de expansão contínua.
Na fase gasosa, é desprezível a coesão entre as partículas. Essa fase compreende
os vapores e os gases.
Os processos em que ocorrem as
mudanças de fase estão esquema-
tizados na Figura 10.
O processo de mudança de
fase envolve trocas de calor, po-
Fu ação rém, durante o processo, a tempe-

Va
po ação
Liq
ratura permanece constante. Nas
ific
são

riza
ue
lid

f
ção
So

passagens de sólido para líquido,


de líquido para vapor e de sólido
Sublimação
para vapor, a substância recebe
Sublimação ou Ressublimação calor; reciprocamente, as mudan-
ças de fase de vapor para líquido,
de líquido para sólido e de vapor
para sólido são processos em que
Figura 10 - Processo de mudança de fase
Fonte: o autor. a substância cede calor.
O gráfico seguinte ilustra o comportamento da temperatura, medida em graus
Celsius, de uma certa quantidade de água, inicialmente na fase sólida, e que é aquecida
sob pressão de 1 atm (Figura 11). Para as substâncias puras, a temperatura durante
a mudança de fase permanece constante.
θ(ºC)
Os trechos horizontais do gráfico são
chamados de patamares. Nesses tre-
chos, observamos que a substância
Vapor
recebe calor, mas a sua temperatura
100 permanece constante. Cada pata-
Líquido mar corresponde, portanto, a uma
mudança de fase. Na temperatura
0 referente a cada patamar, coexistem
Q
duas fases da substância, no primeiro
Sólido
patamar sólido e líquido e, no segun-
do patamar, líquido e vapor.
Figura 11 - Evolução da temperatura de uma substância que recebe calor
a partir da fase sólida Podemos, também, analisar o
Fonte: o autor. processo inverso, ou seja, a substân-
cia cedendo calor (Figura 12). Os patamares ocorrem nas mesmas temperaturas, e
as quantidades de calor envolvidas no processo são as mesmas, a menos de seu valor
algébrico, conforme ilustra nosso segundo gráfico. A questão algébrica se esclarece
se lembrarmos que calor recebido é positivo e calor cedido é negativo. Os processos
de fusão e de vaporização são reversíveis (GUIMARÃES; CARRON, 2006).

UNIDADE 6 217
θ(ºC)

Vapor

100

Líquido

Q
0

Sólido

Figura 12 - Evolução da temperatura de uma substância que cede calor a partir da fase gasosa
Fonte: o autor.

Calor Latente

Cada substância, em cada mudança de fase, necessita de uma certa quantidade de


calor, cedido ou recebido, para que ocorra o processo. A quantidade de calor por uni-
dade de massa, necessária para a mudança de fase, é uma característica da substância
e da mudança correspondente chamada de calor latente ( L ), donde escrevemos:
Q
L=
m

Como a quantidade de calor é uma grandeza algébrica, o calor latente também o


é, sendo positivo nos processos em que o corpo recebe calor e negativo em processos
que o corpo cede calor. A unidade de calor latente, no sistema usual da calorimetria,
é uma decorrência direta da definição, em que temos:  L   Q  , onde os colchetes
 m

significam “unidade da grandeza”. No sistema usual, obtém-se Q   cal . A título de


 m g
exemplo, vejamos os valores que assumem os calores latentes para a substância água.
Tabela 4 - Calores latentes específicos
 cal 
L 
 g 
L fusão = − Lsolidificação 80

Lvaporização = − Lliquefação 540


Fonte: o autor.

A partir da definição de calor latente, podemos, então, calcular o calor trocado em


Q
uma mudança de fase. Como L = , então Q  m  L
m

218 Temperatura e Calor


A ebulição e a evaporação
A vaporização pode acontecer de duas formas. Para entender a distinção entre elas,
primeiramente, devemos lembrar que a temperatura mede o grau de agitação das
partículas. Em termos mais precisos, na escala absoluta, a temperatura é proporcional
à energia cinética média.
A quantidade de partículas que compõe uma gota de líquido é extremamente
grande. Em média, elas têm um grau de agitação que medimos pela temperatura.
Ocorre que, assim como muitas estão com energia cinética bem abaixo da média,
outras estão numa situação oposta.

Ebulição
Um líquido entra em ebulição quando o grau médio de agitação das partículas su-
pera a pressão ambiente. Temos, então, dois mecanismos para provocar a ebulição:
ou aumentamos a temperatura e com isso o grau médio de agitação, ou reduzimos
a pressão externa. Se a pressão externa for uma atmosfera normal (ao nível do mar),
então a ebulição, da substância água por exemplo, ocorre a 100 ºC. Contudo, se a
pressão externa for menor que 1 atm, a ebulição da água ocorre numa temperatura
inferior aos 100 ºC. É o que ocorre nos locais com grande altitude. A temperatura de
ebulição nesses locais está abaixo dos 100 ºC. Reciprocamente, quando aumentamos
a pressão externa, a temperatura de ebulição é maior. As panelas de pressão (tecni-
camente autoclave) funcionam com pressão superior à atmosférica normal e, em
decorrência, a água ferve a uma temperatura acima dos 100 ºC, diminuindo, assim,
o tempo de cozimento dos alimentos.

Evaporação
Mesmo sob pressão normal e em temperaturas bem inferiores a 100 ºC, muitas par-
tículas de porção de água têm energia suficiente para escapar pela superfície livre
do líquido. Isso faz parte do conceito de média. Como algumas têm energia abaixo
da média necessária para a ebulição, outras têm energia acima desse limite e esca-
pam por meio da superfície livre do líquido. Se retiramos de uma sala os melhores
alunos, a média da sala diminui. Analogamente, quando vão-se embora as partículas
de maior energia cinética, a energia média restantes fica menor, dessa forma, fica
menor a temperatura das partículas remanescentes. A porção restante retira calor
dos corpos ao redor e retorna à média ambiente, obtendo novamente partículas
com energia acima da média, até que o líquido se evapore totalmente. Quanta física
acontece numa simples camiseta secando ao Sol!

UNIDADE 6 219
Trocas
de Calor

A tendência dos processos naturais é convergir


para uma situação de equilíbrio. Na física térmica,
isso é observado claramente, pois os corpos mais
quentes, num processo natural, cedem calor aos
corpos mais frios.
Este tópico se destina a analisar o que provoca
a transmissão do calor de um corpo a outro, assim
como as diferentes maneiras desse processo de
transferência se manifestar.

Sistema termicamente
isolado
A
B

Figura 13 - Dois corpos constituindo um sistema isolado


Fonte: o autor.

220 Temperatura e Calor


Um conjunto de corpos escolhidos arbitrariamente para estudo se constitui no que
chamamos de sistema. Um sistema é dito termicamente isolado quando os corpos
que fazem parte do sistema somente trocam calor entre si. Não há trocas de calor com
corpos alheios ao sistema. Se tivermos apenas dois corpos, A e B, perfazendo nosso
sistema, o calor cedido por um deles é forçosamente o calor recebido pelo outro.
Lembrando que calor trocado é uma grandeza algébrica, esses calores trocados não
são iguais, mas sim opostos. Algebricamente, temos QA  QB  QA  QB  0.
No caso de termos vários corpos, escrevemos, genericamente,  Q  0.
Tabela 5 - Convenção de sinais para as trocas de calor

Valor algébrico de Q Variação de temperatura

Calor recebido Q>0 Δθ > 0


Calor cedido Q<0 Δθ < 0
Fonte: o autor.
Se o sistema não for termicamente isolado, então há troca de calor com o ambiente, e
podemos escrever: QA  QB  Qambiente  0, lembrando da convenção imposta pelas
definições da calorimetria, conforme ilustra a tabela.
Não havendo mudança de fase em nenhum dos corpos, podemos calcular cada
um dos calores trocados pela expressão do calor sensível Q  m  c  q.

7 EXEMPLO O sistema de refrigeração de uma máquina térmica utiliza-se de uma serpentina por
onde circula água. Por meio desse sistema, a máquina cede 500 cal/min quando cir-
culam 30 litros de água por minuto. Admitindo-se que a água fria entra na serpentina
a 20 ºC, qual é a sua temperatura na saída?

Resolução
Em 1 minuto, a máquina cede 10.000 calorias, portanto, essa é a quantidade de calor
recebida pelo 0,5 litro de água. Como a densidade da água é de 1 kg/L, a massa de
água é de 0,5 kg = 500 g
Q = m ⋅ c ⋅ ∆θ , assim 10.000 = 500 ⋅ 1 ⋅ ( θ − 20 ) → θ = 40 ºC

O Equilíbrio Térmico
Quando dois ou mais corpos são postos a trocar calor, há transferência da ener-
gia térmica do corpo mais quente para o corpo mais frio. O equilíbrio térmico vai
ocorrer quando não houver o mais quente ou o mais frio, ou seja, quando os corpos
atingirem a mesma temperatura. Além das condições que impusemos anteriormente,
adicionamos o fato de que a temperatura final será a mesma para todos os corpos.

UNIDADE 6 221
Equilíbrio térmico  q A  qB  qequilíbrio

É recomendável termos precaução nos problemas de trocas de calor com a quantidade


de variáveis que fazem parte do problema. Para cada corpo, devemos considerar a
massa, o calor específico, a quantidade de calor, além das temperaturas final e inicial.
Se o problema envolver três corpos, essa quantidade de variáveis vai triplicar. Um
método prático para evitar enganos é montarmos uma tabela.

Tenha sua dose extra de conhecimento assistindo ao vídeo.


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8 EXEMPLO Em um calorímetro de capacidade térmica 6 cal/ºC, inicialmente a 20 ºC, são co-


locados 200 g de determinado metal, cujo calor específico é 0,10 cal/gºC, a 259 ºC
e 100 g de água a 10 ºC. Qual a temperatura de equilíbrio desse sistema de corpos?

Resolução
Primeiramente, vamos organizar os dados numa tabela.
Tabela 6 - Dados do problema
m (g) c (cal/gºC) θi (ºC) θf (ºC)
1- Calorímetro C = 6 cal/ºC 20 θ
2- Água 100 1,0 10 θ
3- Metal 200 0,1 259 θ

 Q=m { ⋅ c ⋅ ∆θ

 c →
Q1 + Q2 + Q 3 = 0

6 ⋅ ( θ − 20 ) + 100 ⋅ 1 ⋅ ( θ − 10 ) + 200 ⋅ 0, 1 ⋅ θ − 259 0

6 ⋅ θ − 120 + 100 ⋅ θ − 1000 + 20 ⋅ θ − 5180 = 0 →


6.300
126 ⋅ θ = 6.300, assim θ = → θ = 50 ºC
126

222 Temperatura e Calor


Transmissão
do Calor

Como vimos, o calor corresponde a energia,


em nível submicroscópico, que é transferida de
um corpo para outro. Naturalmente, o calor flui
do corpo mais quente para o corpo mais frio.
A transferência dessa energia térmica é possí-
vel graças a alguns processos. O conhecimento
detalhado desses mecanismos pode, de acordo
com a conveniência, facilitar ou dificultar as
transmissões do calor. Fazemos isso quando co-
locamos uma blusa de lã num dia frio, ou quando
escolhemos as roupas claras para atravessar as
tardes quentes do verão. A intenção deste tópico
é esclarecer esses processos.

UNIDADE 6 223
Figura 14 - Barra metálica transmitindo calor
Fonte: o autor.

O fósforo é aceso por meio do calor transmitido pela barra.


Quando as partículas de um sólido vibram, transmitem energia para as partículas
vizinhas que a elas estão ligadas pelo retículo cristalino. Cada uma das partículas se
mantém em sua posição média e a energia vai se propagando sem envolver o transporte
de matéria. Quando aquecemos uma extremidade de uma barra metálica, o calor se
propaga até a outra extremidade, conforme ilustra a figura, por meio desse processo.
Nos líquidos, embora haja coesão entre as suas partículas, não há a rigidez ine-
rente ao retículo cristalino. Em vista disso, os líquidos são maus condutores de calor.
Nos gases, a ligação entre as moléculas é desprezível, praticamente inviabilizando o
processo de condução.
A estrutura molecular dos metais se caracteriza pelas ligações metálicas, onde
comparecem os elétrons livres. Esses elétrons livres fazem dos metais não só bons
condutores de calor, mas também de eletricidade. Em vista de tudo isso, dentre os
sólidos, os metais são os que possuem melhor condutividade térmica.
Como grandeza física, a con-
dutividade térmica de um corpo é
avaliada pelo fluxo de calor que o
corpo proporciona. O fluxo de ca-
lor, por sua vez, é definido como a
quantidade de calor transmitida
por unidade de tempo. Algebrica-
mente, escrevemos que:

Q cal
F
Q t s

Figura 15 - Calor sendo transmitido por condução


Fonte: o autor.

224 Temperatura e Calor


Em termos unidimensionais – fluxo através de uma barra, por exemplo – verifica-se que:
• O fluxo é proporcional à área (A) da secção transversal da barra.
• O fluxo é proporcional à diferença de temperatura entre os extremos da barra ( Δθ ).
• O fluxo é inversamente proporcional ao comprimento da barra ( ). l

As proporções descritas resultam numa equação onde introduzimos o fator k, que é


uma característica da substância de que é feita a barra, e são válidas quando as tem-
peraturas dos dois extremos da barra permanecem constantes ao longo do tempo.
A  Dθ
Equação do fluxo de calor unidimensional: φ  k

A unidade da constante k, chamada de condutividade térmica do material, é, no
cal
sistema usual, s ⋅ m ⋅ ºC . A Tabela 7 nos mostra alguns valores assumidos por essa
constante, de acordo com a substância.

Tabela 7 - Condutividades térmicas de algumas substâncias

Substância cal
Condutividade térmica k s ⋅ m ⋅ ºC
Prata 0,974
Cobre 0,92
Alumínio 0,547
Mercúrio sólido 0,086
Mercúrio líquido 0,021
Água na fase líquida 0,00143
Gelo 0,0030
Ar seco 0,00006
Vidro 0,002
Madeira 0,0003
Fonte: Young e Freedman (2009).

UNIDADE 6 225
Algumas observações podem ser feitas em nosso dia a dia, relacionadas com a con-
dutividade.
• A maçaneta da porta nos parece mais fria que a madeira, embora estejam juntas
há muito tempo em equilíbrio térmico.
• As panelas são metálicas para facilitar a condução do calor.
• Os cabos dos utensílios expostos ao calor são de madeira, ou outro mau condutor.
• O vidro, por ser mau condutor, não se aquece uniformemente. A dilatação diferen-
ciada pode quebrar um copo com um pouco de café muito quente. Enchendo-se
o copo inteiro, o risco é menor.
• Os pisos cerâmicos “roubam” calor mais rapidamente de nossos pés descalços
que os pisos de madeira.
• O ar retido pelas fibras de lã, ou entre os pelos dos animais, diminui a perda de
calor nos dias frios. Alguns compostos artificiais, como o isopor ou a fibra de
vidro, utilizam-se do mesmo princípio.

9 EXEMPLO Uma barra de alumínio, de 2,0 m de comprimento e 10 cm2 de área de seção trans-
versal, tem uma de suas extremidades em contato com água em ebulição a 100 ºC
e a outra extremidade em contato com gelo fundente a 0 ºC. A barra é isolada para
evitar perdas radiais de calor, conforme figura. Determinar:
a) O fluxo de calor através da barra.
b) A temperatura num ponto a 40 cm da extremidade quente.
c) A massa de gelo que se funde em 20 minutos, considerando LF(gelo) = 80 cal/g.

Resolução
a) O fluxo de calor é dado por, considerando k AI = 0, 50 cal
s ⋅ cm ⋅ ºC
k  A  q 0, 50  10  100
F , F  F  2, 5 cal
 200 s
b) Considerando um regime estacionário, ou seja, a temperatura se distribui
uniformemente ao longo da barra, temos que, para 200 cm, a queda de tem-
peratura é de 100 ºC, então, para 40 cm, a queda de temperatura vale:
200 cm ==> 100 ºC
40 cm ==> x ==> x = 20 °C
Portanto, a 40 cm da extremidade quente, a temperatura vale 100 - 20 = 80 ºC.

226 Temperatura e Calor


c) Como o fluxo de calor é de 2,5 cal/s, então, em 20 minutos (1200 s), a quan-
tidade de calor vale:
Q  F  t
Q  2, 5  1200  Q  3.000cal
E a massa de gelo que se funde é dada por:
Q = m ⋅ LF
F

3.000 = m ⋅ 80 → m = 37, 5 g

Convecção Térmica

Os fluidos – líquidos e gases – são


maus condutores de calor. É co-
mum, numa piscina, por exemplo,
percebermos regiões mais quentes
e regiões mais frias devido à pouca
condutividade. Sob a ação da gra-
vidade, os corpos menos densos
tendem a flutuar sobre os mais
densos. Quando aquecemos um
fluido, salvo poucas exceções, a sua Figura 16 - Convecção do líquido em um recipiente
densidade diminui, e esse fluido Fonte: o autor.
tende subir contra o campo gravitacional, visto que o fluido mais denso tende a ocu-
par as posições mais baixas. Continuamente, o ar que nos rodeia é renovado por esse
processo. Não é bem um processo de transferência de calor, mas sim um processo de
transferência de massa. Não é bem o calor que vai de um corpo a outro, mas sim o
corpo mais frio que se aproxima da região mais quente por ação gravitacional. Numa
espaçonave em órbita, a situação é equivalente à ausência de campo gravitacional,
logo, não há convecção.
É interessante notarmos que é a convecção que mantém o fogão aceso. Queima-
do o oxigênio que alimenta a chama, mais ar frio e rico em oxigênio vem ocupar o
seu lugar, mantendo abastecida a combustão. A seguir, vemos uma panela onde o
líquido é aquecido por inteiro graças às correntes de convecção. Elas não existiriam
se o aquecimento fosse feito pela região superior. Estrategicamente, as panelas têm
o fundo na parte de baixo.
Em vista da condutividade dos metais, as paredes da panela são as regiões mais
quentes, o que justifica o fato de a água mais quente subir pela região periférica.

UNIDADE 6 227
Nos refrigeradores, o trocador de calor (serpentina do congelador) deve ficar na
parte de cima. O ar mais frio gerado por ele tende espontaneamente a descer, man-
tendo a circulação na geladeira.
Os fluidos, desprovidos que são da condução, desfrutam dessa mobilidade das
partículas mais frias e mais quentes, o que não acontece nos sólidos.
Tendo em mente a convecção, se a intenção for aquecer um fluido, devemos fazê-lo
por debaixo; se a intenção for resfriá-lo, devemos fazê-lo por cima.

As brisas litorâneas
Quadro 3 - Sentido das brisas litorâneas considerando-se apenas os efeitos dos calores específicos
Brisa Diurna Brisa Noturna

Fonte: o autor.

Nossa atmosfera é aquecida pela superfície do planeta. Durante um dia ensolarado,


a areia da praia está mais quente que a água do mar. O ar mais quente, em contato
com o solo, tende a subir e o ar oceânico sopra do mar para a terra. Durante a noite
ocorre o processo inverso. Os pescadores que saem de madrugada e voltam durante
o dia navegam sempre com o vento a favor.

Inversão térmica

As correntes de convecção são importantes para a dispersão dos poluentes atmosfé-


ricos. Nas grandes cidades, devido à grande quantidade de automóveis em circulação
e indústrias de um modo geral, o ar atmosférico é altamente poluído. Os principais
poluentes são o monóxido de carbono (CO), o dióxido de carbono ou gás carbônico
(CO2) e o dióxido de enxofre (SO2). Esses poluentes, que acarretam irritações visuais
e respiratórias nos animais de um modo geral, são liberados a uma temperatura
maior do que o ar atmosférico das camadas superiores e, portanto, eles sobem e se
dispersam na atmosfera.

228 Temperatura e Calor


No inverno, é frequente o fenômeno da inversão térmica. Durante a noite, a su-
perfície da Terra esfria muito, fazendo com que as camadas de ar próximas à super-
fície fiquem mais frias do que as camadas superiores e, mesmo durante o dia, o Sol
fraco de inverno não consegue reverter o processo. Isto provoca a interrupção das
correntes de convecção e os poluentes permanecem junto ao solo, não conseguindo
dispersar-se na atmosfera.

Irradiação Térmica

É do nosso conhecimento que uma fogueira nos aquece numa noite fria. Quando nos
colocamos próximos a uma fogueira, somos “atingidos” por uma quantidade de energia
transmitida por ela por meio de ondas eletromagnéticas. O mesmo acontece quando
tomamos “um banho de sol”: recebemos do Sol uma quantidade de energia que chega até
nós por meio de ondas eletromagnéticas.
O processo de transferência de calor por meio de ondas eletromagnéticas, denomi-
nadas ondas de calor ou calor radiante, recebe o nome de irradiação térmica. Enquanto
a condução e a convecção somente ocorrem em meios materiais, a irradiação acontece
tanto em determinados meios materiais como no vácuo (ausência de matéria).
As ondas de calor, ou calor radiante, geradas pelas agitações térmicas moleculares, são
funções da temperatura. De um modo geral, podemos dizer que, em maior ou menor grau,
todos os corpos emitem energia radiante devido à sua temperatura.
O principal emissor de calor, para nós, é o Sol. Com uma temperatura superficial da
ordem de 6000 K, ele emite calor luminoso (calor acompanhado de luz), além de outras
formas de ondas eletromagnéticas, que chega à Terra exclusivamente por irradiação, pois
atravessa uma grande região de vácuo.
As lâmpadas incandescentes tam-
bém emitem calor luminoso, enquanto
que os fornos e os ferros de passar rou-
pas emitem calor obscuro (calor não
acompanhado de luz). A maioria dos
corpos emitem calor obscuro.
Vejamos, agora, algumas aplicações
da irradiação térmica.
• Os corpos mais quentes emi-
tem mais radiação térmica
que os mais frios. Um filme
fotográfico, sensível a essa ra- Figura 17 - Fotografia noturna de uma casa usando infravermelho

UNIDADE 6 229
diação, nos revela um verdadeiro mapa das temperaturas de cada corpo. Um
animal, cuja temperatura corpórea fosse de 36 ºC ficaria claramente destacado
de uma floresta a 25 ºC. Na figura, temos a foto de uma residência feita com
um filme desse tipo numa noite totalmente escura aos nossos olhos.
• O teto de uma estufa de plantas é feito de vidro transparente à energia radiante
que chega do Sol e pouco transparente às ondas de calor emitidas pela Terra. As-
sim, o interior da estufa é mantido a uma temperatura maior do que o exterior.
• A atmosfera da Terra também provoca o efeito estufa. O gás carbônico (CO2)
e os vapores de água, presentes na atmosfera terrestre, funcionam como o
vidro: transparentes à energia radiante que vem do Sol (6000 K) e opacos
às ondas de calor emitidas pela Terra (300 K). Isto faz com que a Terra seja
mantida a uma temperatura média ideal para o desenvolvimento da vida.
Em virtude do aumento considerável de veículos (automóveis, caminhões,
ônibus), industrias e fontes poluidoras em geral, os níveis de gás carbônico e
outros gases têm aumentado consideravelmente. Isto pode provocar, além de
outros problemas, um aumento na temperatura média da Terra, com sérias
consequências para o nosso planeta.
• A irradiação térmica é muito importante na terapia de lesões musculares. Neste
caso, é utilizado uma lâmpada que emite radiações eletromagnéticas, conheci-
das como infravermelho, que representam o calor radiante.

Vaso de Dewar

A popular garrafa térmica é um dispositivo que tem por finalidade conservar um


líquido a uma dada temperatura durante o maior tempo possível. Ela é consti-
tuída por uma parede dupla de vidro, com vácuo entre elas, protegida por uma
camada de plástico.
Na garrafa térmica, são evitados os três tipos de propagação de calor. As paredes
de vidro (um mau condutor de calor) têm as suas faces interna e externa espelhadas,
para evitar a irradiação; o vácuo, entre as paredes, impede a transmissão de calor por
condução e convecção, e a tampa, também de material isolante, dificulta a propagação
do calor para fora da garrafa.
Nesta unidade, você aprendeu os conceitos de temperatura e calor. Como construir
um instrumento para medida da temperatura e como se relacionam as principais esca-
las termométricas. Aprendeu, também, que calor e temperatura são grandezas distintas.
Figura 18 - Garrafa Compreendeu como os sistemas tendem ao equilíbrio térmico pelas trocas de calor
térmica
Fonte: o autor. e por quais processos o calor pode ser transferido.

230 Temperatura e Calor


Você pode utilizar seu diário de bordo para a resolução.

1. Considere as escalas Celsius e a Fahrenheit, esta última é a mais usada nos EUA.
a) Em que temperatura as escalas Celsius se apresentam leituras iguais?
b) Quanto é essa temperatura na escala Kelvin?

2. Suponha que tenhamos um tanque com certa massa de água a uma temperatura
inicial To, o qual está recebendo uma certa quantidade de calor, por meio da base.
Após um intervalo de tempo determinado, a água adquire uma temperatura
agradável ao toque humano. A experiência mostra que uma mesma massa, mas
de ferro, à mesma temperatura inicial To, recebendo a mesma quantidade de
calor, no mesmo intervalo de tempo, fica com uma temperatura insuportável
ao toque humano.
Assinale a alternativa que melhor explica essa diferença.
a) Como o ferro tem um calor específico menor do que o da água, para uma
mesma quantidade de calor e mesma massa, apresentará uma maior variação
de temperatura.
b) Como o ferro tem um calor específico maior do que o da água, para uma mes-
ma quantidade de calor e mesma massa, apresentará uma maior variação de
temperatura.
c) Como o ferro tem um calor específico menor do que o da água, para uma
mesma quantidade de calor e mesma massa, apresentará uma menor variação
de temperatura.
d) Como a fonte de calor é a mesma e as massas são idênticas, sendo ambas
aquecidas num mesmo intervalo de tempo, as variações das temperaturas
deverão ser exatamente as mesmas.
e) Para essa situação, será válida a seguinte relação ΔTFerro cágua = ΔTágua cFerro,
onde c é o calor específico e ΔT a variação da temperatura.

231
3. A figura a seguir representa a temperatura de 200 gramas de uma substância,
inicialmente no estado líquido, em função do calor por ela absorvido.
T (ºC)
120

80

40
20

0 6000 12000 18000 24000 Q (cal)

Podemos afirmar que:


I) O calor específico do líquido é 0,6 cal/g oC.
II) A temperatura de ebulição é 120 oC.
III) O calor latente de vaporização é 60 cal/g.
IV) O calor específico do gás é 0,75 cal/g oC.

Das afirmações, as corretas são:


a) I e IV.
b) I e III.
c) I e II.
d) II e III.
e) III e IV.

4. Num calorímetro contendo 100 g de água a 0 oC, coloca-se um pedaço de ferro


de 200 g a 300 oC. Desprezando-se o calor absorvido pelo calorímetro, a tem-
peratura de equilíbrio, em oC, será:
Dados: Calor específico da água = 1 cal/oC
Calor específico do ferro = 0,1 cal/oC
a) 0.
b) 30.
c) 50.
d) 80.
e) 300.

232
5. Um bloco de massa 2,0 kg, ao receber toda a energia térmica liberada por
1000 g de água que diminuem a sua temperatura de 1 oC, sofre um acréscimo
de temperatura de 10 oC. O calor específico do bloco, em cal/g oC, é:
a) 0,2.
b) 0,1.
c) 0,15.
d) 0,05.
e) 0,01.

6. Em uma experiência, colocam-se gelo e água em um tubo de ensaio, sendo o


gelo mantido no fundo por uma tela de metal. O tubo de ensaio é aquecido
conforme a figura. Embora a água ferva, o gelo não se funde imediatamente.
As afirmações a seguir referem-se a essa situação.
I) Um dos fatores que contribui para que o gelo não se funda é o de que a água
quente é menos densa que a água fria.
II) Um dos fatores que concorrem para a situação observada é o de que o vidro
é bom isolante térmico.
III) Um dos fatores que concorrem para que o gelo não se funda é o de que a
água é bom isolante térmico.

a) Apenas a afirmativa I é verdadeira.


b) Apenas a afirmativa II é verdadeira.
c) Apenas a afirmativa III é verdadeira.
d) Todas as afirmativas são corretas.
e) Nenhuma das anteriores.

Tela

Gelo

233
WEB

Vídeo traduzido da Academi Khan sobre os processos de transmissão de calor,


bem detalhado e explicativo.
O vídeo comenta a condução, convecção e a irradiação em um fenômeno bem
simples que acontecem simultaneamente em uma fogueira comum.
Para acessar, use seu leitor de QR Code.

234
FEYNMANN, R.; LEIGHTON, R.; SANDS, M. Lições de Física de Feynman. Porto Alegre: Artmed, 2008.
Volume 3.

GUIMARÃES, O.; PIQUEIRA, J. R. C.; CARRON, W. Física - Projeto múltiplo 3V. São Paulo: Ática, 2014.

GUIMARÃES, O.; GUADALUPE, A. Sistema de Ensino Poliedro - Física. 4. ed. S. J. dos Campos: Editora
Poliedro, 2014. Volume 4.

GUIMARÃES. O.; CARRON, W. As faces da Física. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2006.

HALLIDAY, D.; RESNICK, R. Fundamentos de Física. 3. ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos,
1994. Volume 4.

OKUNO, E.; CALDAS, I. L.; CHOW, C. Física para ciências biológicas e biomédicas. São Paulo: Harbra, 1982.

YOUNG, H. D.; FREEDMAN, R. A. Física. 12. ed. São Paulo: Addison Wesley, 2009.

235
1.
C F  32 C C  32
a. Temos  e C = F . Assim,  .
5 9 5 9
, ou seja −40 °C = −40 °F .
b. Como C  K  273,  40  K  273  TK  233 K .
2. A.

O calor específico do Ferro é bem menor que o da água. Como as massas são iguais, a capacidade térmica
do corpo de ferro é bem menor que a da massa de água. Portanto, o corpo de ferro apresentará variação
de temperatura bem maior.

3. E.

A primeira parte inclinada do gráfico representa o aquecimento na fase líquida.


cal .
Q = m ⋅ c ⋅ ∆T , 6000 = 200 ⋅ cL ⋅ (80 − 20) → cL = 0, 2
g °C
A ebulição ocorre no patamar da curva T = 80 °C .
E
Calor latente: Q  m  L , logo (18.000  6.000)  200  L  L  60 cal
g.

Aquecimento do vapor (2ª parte inclinada do gráfico)

Q = m ⋅ cV ⋅ ∆T , (24.000 − 18.000) = 200 ⋅ cV ⋅ (120 − 80) → cV = 0, 75 cal


g °C

4. C.

Vamos lembrar que:  Q  0 e Q  m  c  t , assim:


100 ⋅ 1 ⋅ (T − 0) + 200 ⋅ 0,1 ⋅ (T − 300) = 0 → T = 50 °C .
5. D.

Como  Q  0 e Q  m  c  t , temos:
2000 ⋅ c ⋅ (10) + 1000 ⋅ 1 ⋅ (−1) = 0 → c = 0, 05 cal
g °C

6. D.

236
237
238
Dr. José Osvaldo de Souza Guimarães

Gases em
Transformação

PLANO DE ESTUDOS

Trabalho realizado em Aplicações da 1ª Lei


uma transformação da Termodinâmica

Transformações
Primeira Lei da
em um gás ideal
Termodinâmica

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

• Compreender o conceito de gás ideal e os indicativos • Relacionar as transformações gasosas com a conservação
globais (pressão, volume e temperatura) sobre o estado de energia, conceituando o que chamamos de energia
de uma massa gasosa. interna de um gás.
• Perceber como podemos tirar partido das grandes varia- • Conhecer as aplicações da 1ª Lei da Termodinâmica e
ções de volume de um gás para obter trabalho mecânico saber operar com ela nos diversos tipos de transforma-
a partir de uma fonte de calor. Saber calcular e prever o ções gasosas.
trabalho que pode ser realizado.
Transformações
em um Gás Ideal

São várias as propriedades físicas apresentadas


pelas substâncias. Essas propriedades podem ser
descritas por grandezas físicas globais: pressão,
volume e temperatura. Em particular, na fase
gasosa, essas grandezas caracterizam o que cha-
mamos de estado do gás.
Nesta unidade, veremos o significado de cada
uma dessas grandezas, e como a variação de cada
uma delas pode alterar as outras ou, ainda, a fase
em que a substância se encontra.
Veremos, finalmente, como a fase gasosa pode
ser descrita por um modelo, chamado de modelo
do gás ideal, usado para equacionar as transfor-
mações na fase gasosa.
Podemos pensar em um país sem ter que ima-
ginar cada um de seus habitantes isoladamente.
Todo país apresenta alguns indicativos globais,
como: extensão territorial, renda per capita, idade
média de seus habitantes etc. Esses indicativos,
em geral, guardam uma certa relação entre si, e
se houver mudança em um deles, vemos que os
outros também são afetados.
Procedemos da mesma forma quando analisamos as substâncias. Procuramos
grandezas físicas que sejam indicativos físicos globais para o comportamento de
todas partículas, bem como do estado de agregação em que elas apresentam. Alguns
desses indicativos são: a pressão (p) a que está submetida a substância; o volume
(V) ocupado pela substância e a temperatura (T) em que a substância se encontra.

Pressão (p) F

Figura 1 - Força aplicada a uma superfície


Fonte: o autor.

Quando os corpos trocam forças, elas estão aplicadas ao longo de uma certa região,
isto é, as forças se distribuem sobre uma certa superfície.

A Figura 2, a seguir, é uma superfície de área A sob a ação de uma força F , normal
a essa superfície. A força está representada por apenas um segmento de reta orien-
tado, mas, na verdade, está agindo de maneira distribuída sobre toda a superfície,
conforme indica o esquema.

Figura 2 - Esquema de uma força distribuída regularmente sobre uma superfície


Fonte: o autor.

Definimos a pressão média (pm) pelo quociente entre a intensidade da força normal

F
à superfície e a área relativa à essa superfície. Algebricamente, escrevemos pm = .
A

Se a ação da força estiver distribuída uniformemente – situações que são maioria


nos casos que vamos estudar – a pressão média coincide com a pressão em cada
ponto (p), logo 
F
p =
A

UNIDADE 7 241
Partindo da definição,
 obtemos diretamente as unidades de pressão.
F 
Como [ p ] =   , obtemos no Sistema Internacional [ p ] = N2 (newtons por metro
[ A] m
quadrado).
Também é utilizada a unidade de pressão “atmosfera”, cujo símbolo é atm.
Nossa atmosfera exerce, a 0 ºC e ao nível do mar, uma pressão de
101325 N 2 ≅ 1, 0 ⋅105 N 2, valor adotado como pressão atmosférica normal, de-
m m
nominado uma atmosfera, portanto 1 atm ≅ 1, 0 ⋅105 N 2 .
m
Outra unidade também utilizada é centímetros (ou milímetros) de mercúrio. Ela
indica qual seria a altura da coluna de mercúrio que exerceria a pressão que estamos
medindo. No caso da pressão de nossa atmosfera, essa coluna mediria 76 cm.

Assim, a relação entre essas três unidades discutidas fica:

A pressão absoluta exercida por um fluido é uma grandeza escalar e nunca é negativa.

Volume (V)

Já conversamos a respeito das substâncias não serem uma extensão contínua de ma-
téria, mas sim um conjunto de partículas muito distantes entre si, em relação às suas
dimensões. Nos gases em particular, essas distâncias são bem maiores do que ocorre
em outras fases da substância. São tão maiores que podemos considerar as partícu-
las como pontos materiais. O conjunto que chamamos de gás são as partículas e os
grandes espaços vazios entre elas. Portanto, quando falamos sobre o volume do gás,
estamos falando do volume do recipiente que o contém. Essa discussão, ora levantada,
faz-se necessária para uma maior distinção entre as fases, pois, na fase líquida e na
fase sólida, a própria substância delimita as fronteiras do seu volume, enquanto que
na fase gasosa essa tarefa é desempenhada pelas paredes do recipiente.

242 Gases em Transformação


Temperatura Absoluta (T)

Quando olhamos para uma nuvem de


mosquitos estacionária no ar, observa-
mos que, num dado instante, alguns
estão se deslocando para cima, outros
para baixo, outros para direita. Não
existe, enfim, uma direção preferen-
cial. Todos se deslocam em relação ao
centro de massa dessa nuvem, que
permanece estacionário em relação ao
solo; alguns mais rápidos, outros mais
lentos. É de uma forma semelhante Figura 3 - Partículas em agitação térmica
Fonte: o autor.
que estamos imaginando o gás, por
exemplo, aprisionado em uma lâmpada. As partículas se deslocando em relação ao
centro de massa do conjunto que permanece estacionário em relação ao teto da sala.
Há, entretanto, algumas diferenças. As partículas não evitam as colisões e se mantêm
confinadas naquela região não por vontade própria, mas sim pelo impedimento que
exercem as paredes do bulbo da lâmpada. Quando abrimos um frasco de perfume,
sentimos o quão rápido as partículas escapam se não houver impedimento. O maior ou
menor grau de agitação das partículas – valor médio das velocidades – do gás se reflete
diretamente no indicativo global do grau de agitação, que é a temperatura absoluta.
A escala de temperaturas em que a medida da temperatura é proporcional ao grau
de agitação das partículas do gás é a escala Kelvin.
Nos sólidos e líquidos, esse conceito de grau de agitação continua válido, apenas
lembrando que, como nessas fases existe coesão entre as partículas, a ideia se refere
às oscilações em torno de uma posição média.

Modelo de um Gás Ideal

A concepção da matéria quando no estado gasoso é resultado de muitas evoluções,


em que cada um dos avanços aperfeiçoou um pouquinho mais a concepção do que é
a fase gasosa. Chegamos, assim, a um modelo de gás que descreve, com simplicidade,
o comportamento dos gases em geral, desde o oxigênio que respiramos até a grande
quantidade de amônia da atmosfera de Júpiter. Vejamos as hipóteses que constituem esse
modelo, sob que condições ele pode ser usado e qual a relação que têm essas concep-
ções com as variáveis globais que vimos anteriormente, pressão, volume e temperatura.

UNIDADE 7 243
Imaginando o gás como constituído por um número muito grande de partículas,
entendemos a pressão exercida nas paredes do recipiente como resultado das colisões
dessas partículas contra as paredes.

Transformação Isobárica ( p = constante)

Nessa transformação, a pressão do gás é mantida constante, enquanto variam o volume


e a temperatura. J. Charles (1746-1823) e J. L. Gay-Lussac (1778-1850), dois físicos
franceses, verificaram, experimentalmente, que mantendo-se a pressão constante, o
volume de um gás varia linearmente com a temperatura absoluta, ou seja, é propor-
cional à temperatura absoluta.
Assim, se considerarmos dois estados genéricos, (1) e (2), de uma transformação
isobárica, nos quais os volumes sejam V1 e V2, respectivamente, vamos observar:
V1 V2
=
T1 T2

Numa transformação isobárica, o volume é diretamente proporcional à temperatura


absoluta do gás.
A Figura 4 ilustra como se comportam as variáveis de estado na transformação
isobárica.
Diagrama p x V Diagrama p x T Diagrama V x T

p p V

V T T
Figura 4 - Diagramas de uma expansão isobárica
Fonte: o autor.

A transformação em exemplo é uma expansão, situação em que o volume do gás


aumenta. Para uma compressão, o sentido da transformação e, portanto, das setas
indicativas seriam contrários.

244 Gases em Transformação


Transformação Isométrica ( V = constante),
Isocórica ou Isovolumétrica

Nessa transformação, o volume é mantido constante, enquanto variam a pressão e a


temperatura. Charles e Gay-Lussac observaram que, mantendo constante o volume
de um gás, a pressão varia linearmente com a temperatura.
De modo semelhante ao que fizemos na transformação isobárica, podemos ex-
pressar a transformação isométrica de uma forma mais simples, utilizando a escala
Kelvin (escala absoluta de temperatura):
p1 p2
=
T1 T2

Onde observamos que, na transformação isométrica, a pressão é diretamente pro-


porcional à temperatura absoluta.
Na transformação isométrica, a pressão é diretamente proporcional à temperatura
absoluta do gás.
A Figura 5 ilustra como se comportam as variáveis de estado na transformação
isométrica, considerando um aquecimento.
Diagrama p x V Diagrama p x T Diagrama V x T

p p V

V T T

Figura 5 - Diagramas de um aquecimento isométrico


Fonte: o autor.

Nesse caso, não temos nem expansão e nem compressão, pois o volume do gás per-
maneceu constante. Observe, no entanto, que há um aquecimento durante a trans-
formação.

UNIDADE 7 245
Transformação Isotérmica (T= Constante)

Nessa transformação, a temperatura do gás permanece constante, enquanto variam


a pressão e o volume.
Robert Boyle (1627-1691), um físico e químico irlandês, observou que, para uma
temperatura constante, a pressão de um gás é inversamente proporcional ao seu volume.
De acordo com o enunciado, escrevemos:

p·V = constante, e considerando-se dois estados, (1) e (2), obtemos p1V1 = p2V2
Os gráficos a seguir, na Figura 6, ilustram como se comportam as variáveis de
estado na transformação isobárica.
Diagrama p x V Diagrama p x T Diagrama V x T

p p V

V T T

Figura 6 - Diagramas de uma expansão isotérmica


Fonte: o autor.

A transformação em exemplo ilustra uma expansão do gás. O volume do gás está


aumentando. A referência para se decidir se temos uma expansão ou uma compressão
é o eixo do diagrama relativo ao volume. Nos casos de isotérmicas, a curva obtida
no primeiro diagrama é um ramo de uma hipérbole equilátera.
Para cada temperatura de um dado gás existe um conjunto de pontos, contidos na
hipérbole equilátera, que correspondem a diferentes valores de pressão e volume desse
gás. Podemos traçar várias hipérboles, cada uma relativa a uma temperatura diferente.
Quanto mais afastada estiver a curva escolhida da origem dos eixos cartesianos,
maior é a temperatura do conjunto de estados (de diferentes pressões e volumes) que
ela compreende, conforme destacado no gráfico a seguir.

246 Gases em Transformação


V

T3
T
T2
T1

T
Figura 7 - Isotermas de determinada massa de gás. Observe que: T3 > T2 > T1.
Fonte: o autor.

Esse conjunto de curvas é chamado de isotermas do gás.

Transformação Genérica

Vamos, agora, admitir o


gás sofrendo uma trans-
p
formação do estado (A) B
para o estado (B) do dia-
grama a seguir.
Nessa transformação,
houve variação do volu-
me, da pressão e da tem-
peratura. Não importa
A C
como o gás evoluiu de um
estado para o outro, pois V
sabendo-se, por exemplo, Figura 8 - A transformação A-B é uma transformação genérica
a pressão e o volume ao Fonte: o autor.
final da transformação, só vai existir uma única temperatura correspondente a esses
dois primeiros valores. Vemos, agora, de uma maneira mais clara, por que essas três
variáveis são ditas variáveis de estado. Tendo-se duas delas quaisquer, a terceira é
univocamente determinada.
Prosseguindo a análise, vamos decompor a transformação antes descrita, em pri-
meiro, uma isobárica, até um estado intermediário (C) e, a seguir, numa isométrica,
até atingir-se o estado final (B).

UNIDADE 7 247
V V
Na transformação isobárica, podemos escrever A = B , pois, como observamos
TA TC
diretamente no gráfico, VB = VC .
Na transformação isométrica, vamos escrever p A = pB , onde foi observado que
pC = p A . TC TB

Multiplicando-se membro a membro as duas igualdades, cancelamos o termo TC


e obtemos: p A ⋅ VA = pB ⋅ VB
TA TB

Essa última relação, por se referir a uma transformação qualquer, engloba todas
anteriores. É interessante de se observar que, nessa dedução, não utilizamos a transfor-
mação isotérmica, e vemos que ela poderia ter sido equacionado apenas conhecendo
as duas primeiras, embora historicamente não tenha sido essa a sequência histórica.

Observação
Em todas as transformações anteriores, nós supusemos que o gás conserva a sua massa
e a sua quantidade de partículas. Isso significa que, durante o processo, não escaparam
e nem entraram mais partículas no recipiente e que, além disso, as partículas também
não se combinaram quimicamente.

Equação de Estado de um Gás (Clapeyron)

Alguns números são tão especiais que recebem um nome. É o caso, por exemplo, do
número obtido pela relação entre o perímetro e o diâmetro de um círculo, o qual
chamamos “pi” (π). Um corpo pode ter uma massa de “pi” quilogramas, uma viagem
pode ter “pi” horas, e assim por diante. De maneira semelhante, 1 mol é a quantidade
602.000.000.000.000.000.000.000 (6,02x1023) de átomos, moléculas e íons, em suma
de elementos de uma mesma espécie.
Um mol de qualquer substância contém sempre o mesmo número de partículas
elementares, ou seja, 6,02·1023, embora a massa que corresponde a 1 mol de uma
substância dependa do tipo de substância considerada. Por exemplo, 1 mol de car-
bono corresponde a 12 g, ou seja, 6,02·1023 átomos de carbono possuem massa de 12
g. Ao afirmarmos que 1 mol de gás carbônico (CO2) corresponde a uma massa de
44 g, estamos dizendo que 6,02·1023 moléculas de CO2 possuem uma massa de 44 g.
Esse número (mol) é também conhecido como número de Avogadro (N0), em
homenagem ao físico italiano Amedeo Avogadro (1776-1856):
1 mol
= N= 0 6, 02 ⋅1023 partículas, átomos, íons, moléculas etc.
A massa, em gramas, que corresponde a 1 mol de partículas elementares de qual-
quer substância, recebe o nome de massa molecular (M). Se uma determinada quan-

248 Gases em Transformação


tidade de uma substância apresentar uma massa (m) diferente de sua molécula-gra-
ma (M), então a quantidade de mols (n) de partículas elementares correspondente à
m
essa porção de substância é dada por: n =
M

O físico francês, P. E. Clapeyron (1799 - 1864), analisando as relações entre as


variáveis de estado com a quantidade e o tipo de gás, observou que a razão p ⋅V é
T
diretamente proporcional à quantidade de mols (n) de partículas do gás, que podemos
escrever algebricamente como: p ⋅V= R ⋅ n , onde R é a constante de proporcionali-
T
dade, idêntica para todos os gases perfeitos, embora seu valor dependa do sistema de
unidades adotado. Ajeitando-se melhor os termos da equação, escrevemos:

p ⋅V = n ⋅ R ⋅ T

No Sistema Internacional (pressão em N/m2; volume em m3 e temperatura em kelvin),


o valor de R é:

R = 8,31 J
mol ⋅ K
Quando a pressão é dada em atm, o volume em litros e a temperatura em kelvin, a
atm ⋅ 
transformação de unidades resulta para essa constante em: R = 0, 082 .
mol ⋅ K
Um estado do gás de particular interesse nos gases se observa quando:
• A pressão é a pressão atmosférica normal (p = 1 atm).
• A temperatura é 0 ºC, isto é T = 273 K.
• A quantidade de partículas é 1 mol (n = 1).

Esse estado é chamado de Condições Normais de Temperatura e Pressão (CNTP),


e podemos calcular qual o volume ocupado por 1 mol de partículas do gás nessa
situação.
p ⋅V = n ⋅ R ⋅ T

1 ⋅ V =1 ⋅ 0, 082 ⋅ 273 → V =22, 4 litros

Um gás nas condições normais de temperatura e pressão ocupa o volume de 22,4 litros.
O maior uso da equação de Clapeyron acontece quando queremos relacionar o
estado do gás com a quantidade de partículas, quantidade essa normalmente medida
em mols, ou nos processos em que houve alteração na quantidade de partículas, com
o escape ou a entrada de mais gás.

UNIDADE 7 249
A equação de Clapeyron destaca que estabelecidos os valores do volume, tem-
peratura e pressão, independentemente da natureza do gás, encontramos sempre o
mesmo número de partículas elementares.

Mistura de Gases

Mistura Genérica
É muito comum encontrarmos processos em que participam duas ou mais espécies
de gás. Como para o uso da equação de Clapeyron, necessitamos saber a respeito
das partículas, apenas qual é a sua quantidade, e não a sua natureza, fica simples de
se efetuar a aplicação. Seja um recipiente ocupado por dois tipos de gases, A e B, que
se misturaram; pelo fato das partículas estarem misturadas, elas têm o mesmo grau
de agitação médio e, portanto, mesma temperatura. Mesmo que antes da mistura as
temperaturas dos gases fossem diferentes, após a mistura, a imensidão de colisões, nas
quais as partículas de maior energia transferem uma parte para as quem tem menos,
resultaria num mesmo valor médio final para a energia dos dois tipos de partículas.
Como  = n nA + nB p ⋅V p ⋅V p ⋅V
 → = A A + B B , obtemos finalmente:
 p ⋅V = n ⋅ R ⋅ T R ⋅T R ⋅ TA R ⋅ TB
p ⋅ V p A ⋅ VA pB ⋅ VB
= +
T TA TB
Pressão Parcial - Lei de Dalton

Uma abstração que podemos fazer é imaginar que, nesse recipiente, se tivéssemos,
primeiramente, apenas as partículas referentes ao gás A, a pressão seria, então, pA. Da
mesma forma, se tivéssemos apenas partículas do gás B, a pressão seria pB. Como a
pressão é fruto das colisões das partículas contra as paredes, o conjunto constituído
pelos dois gases vai exercer uma pressão p, que é simplesmente a soma das pressões
que cada gás exerceria isoladamente nessa temperatura, ou seja, p = pA + pB.
Essa ideia que acabamos de discutir é conhecida como Lei das pressões parciais,
elaborada pelo físico John Dalton (1766-1844), e é válida para misturas com mais
de dois tipos de gases, desde que não haja reação química entre eles que altere a
quantidade total de partículas. Podemos, então, escrever, para uma mistura de n
gases: p = p1 + p2 + ... + pn , onde p1, p2, ..., pn são as pressões que cada um dos gases
exerceria isoladamente, no volume total na temperatura da mistura.
A pressão total exercida por uma mistura de dois ou mais gases é a soma das
pressões que cada um dos gases exerceria isoladamente no recipiente quando sob a
temperatura da mistura.

250 Gases em Transformação


A lei de Dalton corrobora o caráter escalar da grandeza pressão. Somamos as
pressões da mesma forma que somamos massas, intervalos de tempo, volumes e
outras grandezas também escalares (Corroborar: Fortalecer uma afirmação anterior).

Fração Molar

Considerando, ainda, uma mistura de, por exemplo, dois gases, A e B, definimos
fração molar (f) como a relação entre as quantidades de mols de um dado gás e a
quantidade total de mols da mistura (n). Em nossa mistura, para o gás A, temos:
n
f = A.
A
n
A fração molar pode, também, ser expressa em termos de porcentagem. A relação
nA
⋅100% exprime qual a porcentagem de partículas do gás A, em relação à quanti-
n
dade total de partículas que tem o recipiente.
n n (n + n ) n
É interessante verificar que f A + f B = A + B = A B = = 1= 100%
n n n n
A expressão indica que a soma de todas as partes, obviamente, totaliza 100%.

1 EXEMPLO Numa mistura de oxigênio e nitrogênio, têm-se três mols do primeiro gás e 7 mols
do segundo, sob pressão de 2 atm. Qual a pressão que seria exercida por cada um
desses gases, se ocupasse sozinho o volume da mistura?

Resolução
Usando-se a equação de Clapeyron para o conjunto total de partículas, podemos
escrever: p ⋅ V = n ⋅ R ⋅ T , e com os dados do problema 2 ⋅ V = (3 + 7) ⋅ R ⋅ T (I)
Aplicando-se agora a mesma equação geral dos gases para o gás A, lembrando que a
pressão exercida por ele isoladamente é a pressão parcial, temos p A ⋅ V = 3 ⋅ R ⋅ T (II).
Dividindo-se membro a membro, essa última equação pela primeira, temos, após
p 3
algumas simplificações: A = → p A = 0, 6atm
2 10
O mesmo processo pode ser usado para se obter pB, onde chegamos a pB = 1,4 atm.
Para uma conferência final do resultado, devemos notar que p = pA + pB.

2 EXEMPLO Dois gases, A e B, são mantidos separados nos recipientes, A e B, cujos volumes são
VA= 15 L e VB= 5 L, respectivamente, pela válvula D. As pressões e temperaturas
iniciais são pA= 4 atm e pB= 2 atm, e TA= 300 K e TB= 200 K.

UNIDADE 7 251
A
B
D

Figura 9 - Dois recipientes contendo gases


Fonte: o autor.

A válvula é aberta e os dois gases se misturam, atingindo o equilíbrio. Admitindo


p ⋅V + p ⋅V
que a pressão no equilíbrio do sistema seja p = A A B B , (vamos demonstrar
VA + VB
como obter esse resultado mais tarde) determinar, em função das condições iniciais,
a temperatura final.

Resolução
A expressão do enunciado nos permite calcular a pressão final:

44⋅⋅15
15++22⋅⋅55
=
=pp == → 3,5atm
→ pp 3,5 atm
15++55
15
p ⋅ V p A ⋅ VA pB ⋅ VB , temos ⇒ 3,5 ⋅ (15 + 5) 4 ⋅15 2 ⋅ 5
Como= + = + → T= 280 K
T TA TB T 300 200

252 Gases em Transformação


Trabalho Realizado
em uma Transformação

Os sistemas termodinâmicos, em geral, podem


receber ou ceder energia na forma de trabalho. Em
particular, os gases aplicam forças nas paredes dos
recipientes que os contêm e essas forças podem
realizar trabalho. Vamos analisar como calcular
esse trabalho realizado pelo gás nos vários tipos
de transformação que ele pode sofrer.

Transformação Isobárica

Consideremos o aquecimento de um gás contido


em um recipiente fechado e provido de um êmbo-
lo de massa m que pode movimentar-se sem atrito.
O gás, recebendo calor da fonte térmica, con-
segue empurrar o êmbolo (pistão), realizando tra-
balho mecânico por meio das forças que aplica. Se

( )
o deslocamento ∆ r efetuar-se com velocidade
constante, a força aplicada pelo gás está equili-
brando o peso do êmbolo e a pressão atmosférica.

( )
Assim sendo, a força aplicada pelo gás F per-
manece constante ao longo desse deslocamento.

UNIDADE 7 253
Vale lembrar que o trabalho realizado por uma força constante em um desloca-
mento retilíneo é uma grandeza escalar que pode ser calculada por:
τ= F ⋅ ∆r ⋅ cos θ , sendo θ o ângulo entre a força e o deslocamento.

A
Δr
Δr
ΔV
F

Figura 10 - Expansão isobárica


Fonte: o autor.

Nas condições descritas e ilustradas pela figura, temos:

F
p= → F =p⋅ A
A
θ= 0 → cos θ = 1
∆V = V final − Vinicial= A ⋅ ∆r

Substituindo esses resultados no cálculo do trabalho, obtemos:


τ= F ⋅ ∆r ⋅ cos θ= 
pA ⋅ ∆r ⋅1 e, portanto, τ = p ⋅ ∆V (isobárica).
∆V

Em unidades do Sistema Internacional, a pressão é expressa em N/m2, a varia-


ção de volume em m3 e o trabalho em J, como podemos verificar observando que
N
⋅ m3 = N ⋅ m = J ( joule) .
m2
São também muito utilizadas as unidades atmosfera (atm) para a pressão, e litro
(L) para o volume. Nesse caso, efetuamos os cálculos observando que:
 55 NN 
11atm
atm⋅= 10 22⋅⋅((10
L 10
⋅L= 10−−33⋅⋅mm=
33
=)) 1022NN⋅⋅=
10 100JJ
m 100
m
=
 mm 

254 Gases em Transformação


A expressão obtida para o cálculo do trabalho é válida tanto na expansão quanto
na compressão do gás.
Em uma expansão ∆V > 0 , e como a pressão absoluta exercida por um gás é
sempre positiva, o trabalho é positivo (motor).
Na compressão do gás ∆V < 0, resultando em um trabalho negativo (resistente).
É oportuno observar que essa conclusão está em pleno acordo com a característica
antes discutida a respeito dos gases, de que eles agem nas paredes sempre no sentido
de empurrá-las. Na expansão, as forças que o gás aplica favorecem o processo, e o
trabalho do gás é motor (τ > 0). Já na compressão, o gás aplica forças contrárias à
redução de volume, e o trabalho que ele realiza é resistente (τ < 0) .

Expansão gasosa As forças aplicadas pelo gás


favorecem a expansão.
Vfinal > VInicial
O trabalho do gás é motor.
ΔV > 0 τ>0

Compressão gasosa As forças aplicadas pelo gás


opõe à compressão.
Vfinal < VInicial
O trabalho do gás é resistente.
ΔV < 0 τ<0

Figura 11 - Expansão e compressão de um gás


Fonte: o autor.

Em termos de energia, podemos dizer que a expansão corresponde a um processo


em que o gás transfere energia ao meio externo, pois o trabalho realizado por ele é
motor; enquanto na compressão, o gás recebe energia do meio externo.
Considerando uma determinada quantidade de mols, e observando que a pressão
é constante, pois a transformação é isobárica, pela equação de Clapeyron, temos que:
p ⋅V = n ⋅ R ⋅ T , e portanto p ⋅ ∆V = n ⋅ R ⋅ ∆T . Assim, nessa transformação, em espe-
cial o trabalho, também pode ser calculado por: τ = p ⋅ ∆V = n ⋅ R ⋅ ∆T (isobárica).

UNIDADE 7 255
3 EXEMPLO Determinada massa de um gás sofre uma expansão isobárica, sob pressão de 8 atm,
passando de um estado A, cuja temperatura é 300 K, para um outro estado B, cuja
temperatura é de 400 K. O volume do gás no estado A é de 9 L.
a) O gás sofreu uma expansão ou compressão?
b) Qual foi o volume final atingido pelo gás?
c) Qual foi o trabalho realizado pelo gás nessa transformação?

Resolução
a) Sob pressão constante, o aumento na temperatura de determinada massa de
um gás acarreta o aumento de volume. Trata-se, portanto, de uma expansão.
b) Em uma transformação isobárica, podemos escrever: VA = VB , logo
TA TB
9 VB
= → VB = 12
300 400

c) O trabalho realizado pelo gás pode ser obtido por:

Cálculo do Trabalho pelo Diagrama p×V

A transformação isobárica pode ser representada graficamente em um diagrama p × V.

A B
p

|τ| p

Va Vb V

|ΔV|
Figura 12 - Trabalho pelo diagrama p x V
Fonte: o autor.

256 Gases em Transformação


Analisando o diagrama, temos:

N  N
Área = p ⋅ ∆V 
 → τ = Área
τ = p ⋅ ∆V 

Por essa propriedade, calculamos o valor do trabalho em módulo. O valor algébrico


se obtém, lembrando:
Expansão A ⇒ B τ>0 motor
Compressão B ⇒ A τ<0 resistente

4 EXEMPLO Dois mols de um gás ideal sofrem a transformação representada pelo diagrama p × V
seguinte. Determinar:
a) As temperaturas referentes aos estados A e B.
b) O trabalho realizado pelo gás na transformação AÞB.

 R  0, 082 atm  L mol  K 


p (atm)

B A
12

4,1 8,2 V(l)


Figura 13 - Diagrama p x V da transformação gasosa
Fonte: o autor.

Resolução
a) Da equação de Clapeyron p ⋅ V = n ⋅ R ⋅ T , aplicada ao estado A, podemos
escrever:
12 ⋅ 8, 2 = 2 ⋅ 0, 082 ⋅ TA → TA = 600 K

Como a transformação é isobárica, temos: VA = VB , logo


TA TB

8, 2 4, 1
= → B = 300
600 TB

UNIDADE 7 257
b) Em módulo, o trabalho pode ser obtido por meio da área compreendida pelo
diagrama.
τ = 12 ⋅ 4, 1 − 8, 2 = 49, 2
τ 49, 2 atm l

O trabalho é negativo, pois trata-se de uma compressão, e como 1 atm ⋅ L = 100 J ,


obtemos: τ = −4.920 J.

Transformação Qualquer
p
Se a pressão for variável durante a transfor-
mação sofrida por determinada massa de B
gás, não podemos usar a expressão algébrica
τ = p ⋅ ∆V discutida para o caso da transfor-
mação isobárica. Entretanto, a propriedade de
que a área compreendida pelo diagrama p × V
A
nos fornece, em módulo, o trabalho realizado
pelo gás continua válida. |τ|
N
τ = Área
V
Figura 14 - Diagrama p x V de uma trans-
Os sinais, como já vimos, podem ser obtidos formação genérica
observando-se a tabela seguinte. Fonte: o autor.

Expansão AÞB τ>0 motor

Compressão BÞA τ<0 resistente

Transformação Cíclica

É comum o gás, após uma série de transformações, retornar ao estado inicial. Isso
ocorre, principalmente, nas máquinas térmicas. O cálculo do trabalho é feito di-
vidindo-se o ciclo em duas fases: a expansão e a compressão. Graficamente, os
limites de volume de cada uma dessas fases se obtém construindo-se retas verti-
cais tangentes ao ciclo, representado no diagrama p × V. O trabalho total se
=
calcula por: τ ciclo τ exp ansão + τ compressão. Perceba que a soma é algébrica, pois,

como vimos, τ compressão < 0.

258 Gases em Transformação


Em termos de áreas, se o ciclo tem sentido horário, a área relativa à expansão é
maior que a relativa à compressão, e em decorrência, a diferença entre essas duas
áreas, que é a área compreendida pelo ciclo, representa o saldo de trabalho, e, nesse
caso, o saldo é positivo.
p p p

Ciclo

Expansão Compressão

V V V

τ expansão > 0 τ compressão < 0 τ ciclo > 0


N
N
τ = A1
N
|τ| = A2 τciclo = A1 - A2 = Aciclo
Figura 15 - Trabalho nos ciclos
Fonte: o autor.

No caso do ciclo ser anti-horário, com o mesmo tipo de raciocínio, concluímos que
o saldo de trabalho é negativo.
p p

Expansão Compressão

Compressão Expansão

V V

Ciclo horário Ciclo anti-horário


A área compreendida pela expansão é maior A área compreendida pela compressão é maior
que a determinada pela compreensão que a determinada pela expansão

τ ciclo > 0 τ ciclo < 0

Figura 16 - Análise do trabalho nos ciclos


Fonte: o autor.

UNIDADE 7 259
5 EXEMPLO A sequência de transformações ABCA, sofrida por um gás ideal, está representada
no diagrama p x V seguinte. Determinar:
a) O trabalho realizado em cada uma das transformações (AB, BC e CA).
b) O trabalho no ciclo.

p(atm)
B
12

4
A C
0
3 6 9 V(l)
Figura 17 - Diagrama pxV do ciclo de um gás
Fonte: o autor.

Resolução
a) O trabalho do gás na transformação
AB é positivo (expansão) e pode ser p (atm)
calculado numericamente pela área B
12
destacada.
Na transformação BC, o trabalho 8
é nulo, pois não havendo variação
no volume, não há deslocamento e 4
A
a força que o gás aplica não realiza
0
trabalho. Assim, τ BC = 0. 3 6 9 V(l)
Na transformação CA, o trabalho é
resistente (compressão) e seu mó- τ= (4 + 12)
AB ⋅ 6 → τ=AB 48atm ⋅ 
dulo é obtido pela área em destaque. 2

p (atm)

12

8
| τCA | = 6 . 4 = 24
4
A C

0
3 6 9 V(l)

260 Gases em Transformação


Considerando-se o valor algébrico, temos: τ CA = −24atm ⋅ 
Lembrando que 1 atm ⋅ l = 100 J , podemos então representar os trabalhos por:
 τ AB = 4800 J

 τ BC = 0
τ = −2400 J
 AB
b) O trabalho no ciclo é positivo (ciclo horário). Ele pode ser obtido por meio
da área compreendida pelo ciclo ou pelo somatório dos trabalhos.
Considerando-se a área compreendida pelo ciclo, temos:

Pelo somatório dos trabalhos, temos:

Sabemos que um sistema tem energia quando as forças que ele aplica podem realizar
trabalho. Ora, um gás pode empurrar um pistão, tal como acontece no motor de um
automóvel e tornar disponível energia mecânica. A pergunta é: de onde provém a
energia associada a esse gás? Até aqui, viemos discutindo o modelo de um gás ideal
e as transformações que o gás pode sofrer, vejamos como aplicá-los para entender a
energia associada a um gás.

Energia Interna (U)

De acordo com o nosso modelo de gás ideal, ele é constituído de partículas e cada
uma delas tem uma determinada velocidade, ou seja, cada uma das partículas que
perfazem o gás tem energia cinética (εc). Para o gás ideal, não há energia potencial
associada às interações entre as partículas, pois essas interações ocorrem somente
durante os choques que, por hipótese, tem duração desprezível.
Assim sendo, denominamos de energia interna (U) associada a um gás ideal
monoatômico, composto por N partículas, ao somatório das energias cinéticas de
translação de cada uma dessas partículas. Algebricamente, escrevemos: U = ∑ ε c .
O valor médio da energia cinética por partícula ε c pode ser obtido por:
=ε ∑=
εc U .
c
N N
Por outro lado, baseados na expressão anterior, se conhecemos o número de
partículas e o valor médio da energia cinética, a energia interna fica expressa por:

UNIDADE 7 261
U= N ⋅ ε c

A energia interna de um gás ideal é o somatório das energias cinéticas de cada uma
das partículas.
U = ∑εc

A energia interna e as variáveis de estado


Vimos, na termometria, que a temperatura de um sistema de partículas é a medida
do grau de agitação que essas partículas têm. Esse grau de agitação é o valor médio da
energia cinética de translação. De fato, podemos mostrar essa afirmação admitindo
que a relação entre o valor médio da energia cinética das partículas de um gás ideal
ε c que possui N partículas, a pressão e o volume ocupado por essas partículas é:
2
p ⋅ V = N ε c . Essa relação está demonstrada na Leitura complementar 1.
3
Vejamos qual é a relação entre a energia interna é as variáveis de estado de um gás
ideal. Como U = N ⋅ ε c e p ⋅V = 2 N ε c , temos que p ⋅V = 2 U → U = 3 p ⋅V .
3 3 2

Pela equação de Clapeyron, temos que: p ⋅ V = n ⋅ R ⋅ T , logo U = 3 n ⋅ R ⋅ T


2
3
Sob o ponto de vista da energia cinética média, temos: U = N ⋅ ε c = n ⋅ R ⋅ T .
2

A quantidade total de partículas pode ser expressa pela quantidade de mols


(1mol= N= 0 6, 02 ⋅1023 ), observando-se que N= n ⋅ N 0 . Efetuando-se essa subs-
tituição, escrevemos:
con st a nt e

3 3R
n ⋅ N0 ε c = n ⋅ R ⋅T → εc = T
2 2 N0
R
A relação é denominada constante de Boltzman (k). No S.I.= k 1,38 ⋅10−23 J K , assim,
N0
3
a relação anterior pode também ser expressa da seguinte forma ε=
0 k ⋅T
2
Essas últimas equações nos permitem algumas observações cruciais para o enten-
dimento do conceito de temperatura absoluta e energia interna, no gás ideal (Crucial:
decisivo, importante).
A energia interna é proporcional à temperatura absoluta do gás. Se não houver
variação de temperatura, mesmo havendo variação na pressão e volume, a energia
interna permanece constante.
A temperatura absoluta de um gás ideal é proporcional à energia cinética média
das suas partículas.

262 Gases em Transformação


Variação da energia interna (ΔU)
As expressões que obtivemos nos permitem calcular a variação da energia interna
em uma transformação de várias formas, de acordo com a conveniência de cada caso.
Vamos supor que o gás sofra uma transformação de um estado A para outro
3
estado B. A variação da energia interna pode ser obtida por: ∆U = n ⋅ R ⋅ ∆T — de
2
fato, sendo TA a temperatura relativa ao estado A, e TB a temperatura relativa ao
estado B, temos:
3 
UA= n ⋅ R ⋅ TA  3
2  3 e, portanto, ∆U= n ⋅ R ⋅ ∆T
 → UB −U A = n ⋅ R ⋅ (T B −TA ) 2
3 2
UB = n ⋅ R ⋅ TB 
2 

3 3
∆U= pB ⋅VB − p A ⋅VA essa forma se mostra interessante quando não conhe-
2 2
cemos as temperaturas final e inicial do gás, mas sim a pressão e o volume relativo
a cada estado.

6 EXEMPLO Um mol de um gás ideal sofre uma variação de temperatura de 100 ºC. Determine a
variação na energia interna do gás, supondo R = 8,3 J .
mol ⋅ K

Resolução
A variação de temperatura na escala Kelvin é a mesma que na escala Celsius.
3 3
Como ∆U = n ⋅ R ⋅ ∆T , vamos obter: U   1  8, 3  100, portanto, ∆U = 1.245 J.
2 2

7 EXEMPLO Sabe-se que 3,0 mols de um gás ideal monoatômico ocupam um volume de
0, 2m3 sob pressão de 2, 0 ⋅105 N 2 . Sendo R = 8,3 J , determine:
m mol ⋅ K
a) A energia cinética média das partículas do gás.
b) A variação de energia interna quando o gás sofre uma variação de tempera-
tura de 200 ºC.

Resolução 3
p ⋅V
U 2
a) A energia cinética média pode ser obtida por: ε c= = .
N n ⋅ N0
Considerando os dados do problema, vamos ter:
3 3
p ⋅V ⋅ 2, 0 ⋅105 ⋅ 0, 2
2= 2 , portanto, ε= 3,3 ⋅10−20 J
= εc
n ⋅ N0 3, 0 ⋅ 6, 02 ⋅10 23 c partícula .
3 3
b) ∆U = n ⋅ R ⋅ ∆T , logo, ∆U = ⋅ 3 ⋅ 8,3 ⋅ 200 → ∆U = 7.470 J
2 2

UNIDADE 7 263
8 EXEMPLO Dois mols de um gás ideal sofrem uma transformação cuja representação no diagra-
ma p × V é um segmento de reta, conforme ilustra a figura. Determine a variação da
energia interna nessa transformação.

p (105 N/m2)
A
5,0

4,0

3,0
B
2,0

1,0

2,0 4,0 6,0 8,0 10,0


V(m3)
Resolução
A variação da energia interna pode ser obtida por:

3 3 3 3 
∆U = pBVB − p A ⋅ VA , logo, ∆U =  ⋅ 3 ⋅10 − ⋅ 2 ⋅ 5  ⋅105 e, portanto,
2 2 2 2 

∆U = 4,5 ⋅106 J .

264 Gases em Transformação


Primeira Lei da
Termodinâmica

A primeira lei da termodinâmica é uma aplicação


do princípio da conservação da energia, em que
se considera, também, a quantidade de energia
trocada na forma de calor e a energia interna asso-
ciada ao sistema. Embora esse enfoque se localize
nos gases ideais, a primeira lei da termodinâmica
é aplicável a qualquer sistema de corpos.
Um gás pode receber ou ceder energia do meio
externo na forma de trabalho e na forma de calor.

UNIDADE 7 265
τ
trabalho

ΔU
Q
calor

Gás

Figura 18 - Diagrama sobre as trocas de energia de um gás com o meio


Fonte: o autor.

A variação sofrida pela energia interna do gás é exatamente o saldo de energia entre
o que o gás recebeu ou cedeu de energia na forma de calor e o que o gás recebeu ou
cedeu na forma de trabalho. Assim, podemos escrever:

∆U = Q − τ

Um cuidado especial que devemos ter ao aplicar a primeira lei da termodinâmica


se refere às unidades. É usual medir-se o calor em calorias, ao passo que o trabalho
é normalmente expresso em joules, o mesmo acontece com a energia interna. Para
aplicar a primeira lei da termodinâmica, os três elementos que figuram na equação
( ∆U , Q e τ ) devem estar na mesma unidade.
As convenções para os sinais já foram estabelecidas anteriormente, na mecânica
e na calorimetria, e obedecem à tabela em destaque.
Tabela 1 - Convenções para os sinais na 1ª Lei da Termodinâmica

Q Recebido Cedido Adiabático


Calor Q>0 Q<0 Q=0
τ Expansão Compressão Volume constante
Trabalho τ>0 τ<0 τ=0
ΔU T aumenta T diminui T constante
Variação da ΔU > 0 ΔU < 0 ΔU = 0
energia interna
Fonte: o autor.

9 EXEMPLO Um gás ideal monoatômico (n = 0,50 mol) sofre uma transformação termodinâmica
AB, conforme figura. Sendo R = 8,3 J , determinar:
mol ⋅ K

266 Gases em Transformação


P(103 N/m2)
A a) As temperaturas do gás nos estados A e B.
10,0
b) A variação de energia interna do gás.
8,0 c) O trabalho realizado na transformação AB.
d) A quantidade de calor trocada pelo gás nessa
6,0
transformação.
4,0
B
2,0

0,1 0,2 0,3 0,4 V(m3)


Figura 19 - Diagrama pxV de uma transformação gasosa
Fonte: o autor.

Resolução
a) As temperaturas nos estados A e B são obtidas a partir da equação de Cla-
peyron:

p A ⋅ VA =n ⋅ R ⋅ TA → 10 ⋅103 ⋅ 0,30 =0,50 ⋅ 8,3 ⋅ TA → TA =7, 2 ⋅102 K


pB ⋅ VB =n ⋅ R ⋅ TB → 4, 0 ⋅103 ⋅ 0,10 =0,50 ⋅ 8,3 ⋅ TB → TB =96 K

b) Como o gás é ideal e monoatômico, a variação de energia interna é dada por:

3 3
∆U = n ⋅ R ⋅ ∆T → ∆U = ⋅ 0,5 ⋅ 8,3 ⋅ ( 96 − 720 ) → ∆U =−3,9 ⋅103 J
2 2

c) O trabalho realizado pelo gás na transformação AB é dado pela área do trapézio:

10 ⋅103 + 4, 0 ⋅103
τ= ⋅ ( 0,10 − 0,30 ) → τ =−1, 4 ⋅103 J
2
d) A quantidade de calor trocada na transformação é obtida por meio do pri-
meiro princípio da Termodinâmica:
∆U =Q − τ → −3,9 ⋅103 =Q − ( −1, 4 ⋅103 ) → Q =−5,3 ⋅103 J

Portanto, na transformação AB (compressão gasosa), o gás recebeu energia, na forma


de trabalho, do meio externo; cedeu energia, na forma de calor, para o meio externo
e sofreu uma diminuição em sua energia interna (redução de temperatura).

UNIDADE 7 267
Aplicações da
1º Lei da Termodinâmica

Sabemos como relacionar as variáveis de estado


em vários tipos de transformação gasosa. A ques-
tão é: como realizar essas transformações, tendo
em conta a energia envolvida nos vários tipos de
processo? A resposta a essa pergunta se faz com
a aplicação da primeira da lei da termodinâmica
em cada um desses vários tipos de processos.

Isotérmica

A energia interna varia somente quando há mu-


dança na temperatura de um gás ideal. Logo,
em um processo isotérmico, não há variação da
energia interna. Temos, então: ∆U = 0 . A energia
interna é constante em um processo isotérmico.
Aplicando-se a primeira da lei da termodinâ-
mica para essa transformação, temos: ∆U = Q − τ ,
mas como ∆U = 0 , obtemos 0 = Q − τ → Q = τ .
Essa última igualdade nos revela a chave para
se realizar uma transformação isotérmica. A fim
de que a energia interna permaneça constante,
durante todo o processo, caso o gás esteja rece-
bendo calor, ele deverá, simultaneamente, ceder ao
meio externo essa mesma quantidade de energia

268 Gases em Transformação


na forma de trabalho. Por outro lado, se o gás estiver cedendo uma certa quantidade
de calor, ele deverá estar recebendo, simultaneamente, essa mesma quantidade de
energia na forma de trabalho.
Diferentemente da energia trocada na forma de trabalho, as trocas de calor são,
normalmente, processos muito lentos e, portanto, para que a igualdade entre a quan-
tidade de calor e o trabalho realizado se mantenha ao longo de todo o processo, a
transformação deve ser lenta.
Lembrando a propriedade do diagrama p × V, em que o trabalho, em módulo, é
numericamente igual à área compreendida pelo diagrama; a área destacada na Figura
20 nos fornece o trabalho na transformação isotérmica.
p
A

|τ| B

V
Figura 20 - O trabalho em uma isotérmica
Termodinâmica
Fonte: o autor.

Com recursos do cálculo integral, pode-se mostrar que o trabalho em uma transfor-
V 
mação isotérmica é dado por: τ = n ⋅ R ⋅ T ⋅1n  B  . Essa expressão nos fornece o trabalho
 VA 
realizado pelo gás, já com o respectivo sinal. Observe que:
Expansão VB > VA τ>0
Compressão VB < VA τ<0

É oportuno observar, neste ponto, que nas transformações gasosas não se pode apli-
car a equação da calorimetria Q= m ⋅ c ⋅ ∆T indiscriminadamente. Na transformação
isobárica e na isométrica, essa expressão pode ser usada com pequenas adaptações,
porém, na isotérmica, ela não é válida, pois não há variação de temperatura e há calor
trocado (Indiscriminadamente: com falta ou ausência de critérios).

UNIDADE 7 269
10 EXEMPLO O diagrama seguinte representa uma expansão isotérmica sofrida por um gás ideal.
Determine:
p (105N/m2)

16,6 A

8,3
B

2,0 4,0 V(l)


Figura 21 - Diagrama pxV de uma transformação gasosa
Fonte: o autor.

a) O trabalho realizado pelo gás, considerando ln(2) = 0,69.


b) O calor trocado na transformação.
c) Supondo que a transformação tenha se efetuado sob temperatura de 200 K
e que R = 8,3 J , determine a quantidade de mols de partículas que
mol ⋅ K
o gás contém.

Resolução
V 
a) O trabalho é dado por: τ = n ⋅ R ⋅ T ⋅1n  B  , e como p ⋅ V = n ⋅ R ⋅ T , também
 VA 
V 
podemos escrever que τ = p ⋅ V ⋅1n  B  , onde p e V são valores da pressão
 VA 
e volume determinados por meio de um ponto qualquer da isotérmica. Assim:
4 3 .
τ= 16, 6 ⋅105 ⋅ 2 ⋅10−3 ⋅1n  =
 32, 6 ⋅10 ⋅ 0, 69 → τ= 2, 29 ⋅10 J
2

2
b) A variação da energia interna é nula, e como ∆U = Q − τ , temos Q = τ e,
Q 2, 29 ⋅103 J .
portanto,=
c) .

Isométrica

Sabemos que na transformação isométrica não há variação de volume. Essa situação


ocorre nos recipientes indeformáveis. Nessas circunstâncias, embora o gás esteja
aplicando forças nas paredes do recipiente, essas forças não realizam trabalho, pois
não deslocam o ponto de aplicação, logo τ = 0.

270 Gases em Transformação


Pela primeira lei da termodinâmica ∆U = Q − τ , e como τ = 0 , temos: ∆U =
Q

p
pB B

pA
A

V V

Figura 22 - Isométrica: o trabalho realizado é nulo


Fonte: o autor.

A variação da energia interna corresponde à quantidade de calor, cedida ou recebida


durante o processo.
Para expressar a quantidade de gás que o recipiente contém, é comum utilizarmos a
quantidade de mols, em vez de massa, uma vez que o elemento importante na análise
termodinâmica é a quantidade de partículas que o gás possui. A expressão funda-
mental da calorimetria ( Q= m ⋅ c ⋅ ∆T ) assume, então, a forma: Q = n ⋅ CV ⋅ ∆T , em
que a variável CV é o calor específico do gás para cada mol de partículas no processo
isométrico ou, ainda, calor específico molar sob volume constante.
Para um gás ideal monoatômico, temos:
3 
∆U= Q= n ⋅ R ⋅ ∆T  3 3
2  → n ⋅ CV ⋅ ∆=
T n ⋅ R ⋅ ∆T , portanto CV = R.
 2 2
Q = n ⋅ CV ⋅ ∆T

11 EXEMPLO Três mols de um gás monoatômico ideal, inicialmente sob temperatura de 400 K,
sofrem uma transformação isométrica recebendo 747 J na forma de calor. Conside-
rando R = 8,3 J , determinar:
mol ⋅ K
a) A variação da energia interna sofrida pelo gás nesse processo.
b) A pressão inicial e a pressão final do gás nessa transformação, sabendo-se
que o seu volume é 24,9

Resolução
a) Na transformação isométrica ∆U = Q , logo ∆U =
747 J .
b) Pela equação de Clapeyron, temos:

UNIDADE 7 271
p ⋅V = n ⋅ R ⋅ T , logo p0 ⋅ 24,9 ⋅10−3 =3 ⋅ 8,3 ⋅ 400 → p0 =4, 0 ⋅105 N 2
m
A variação de temperatura pode ser obtida pela variação da energia interna.
3 3
∆U = n ⋅ R ⋅ ∆T assim 747 = ⋅ 3 ⋅ 8 3 ⋅ (T − 400 ) → = 420 .
2 2
p p
A relação entre as variáveis de estado na isométrica é: 0 = , assim
T0 T
4 ⋅105 p
= → p = 4, 2 ⋅105 N 2
400 420 m

Isobárica

O esquema a seguir, já discutido por ocasião da análise das variáveis de estado, re-
presenta uma expansão isobárica. O gás realiza trabalho e, simultaneamente, recebe
calor. O trabalho nessa transformação se obtém por: τ = p ⋅ ∆V .

p
A
p τ Δr
A B ΔV
τ

V ΔU
Q

Figura 23 - Trabalho, calor e energia interna em uma isobárica


Fonte: o autor.

Vimos que, na expansão (τ > 0 ) isobárica, a temperatura do gás aumenta, aumen-


tando, portanto, a sua energia interna ( ∆U > 0 ). Aplicando-se a primeira lei da
termodinâmica, temos:

∆U = Q – τ, e já que ∆U > 0, então Q – τ > 0 ⇒ Q > τ.

O calor fornecido ao gás em uma expansão isobárica é maior que o trabalho pelo
gás realizado. A diferença entre ambos (Q – τ) é o saldo remanescente de energia
da transformação, que permanece no gás na forma de acréscimo da energia interna
(ΔU > 0). Reciprocamente, se o gás sofre uma compressão isobárica, a quantidade

272 Gases em Transformação


de energia cedida pelo gás na forma de calor é maior que a quantidade de energia
recebida na forma de trabalho, e em decorrência, a variação da energia interna é
negativa. O gás esfria.
3
A variação da energia interna em qualquer transformação é ∆U = n ⋅ R ⋅ ∆T .
2

Com a equação de Clapeyron, concluímos que na isobárica p ⋅ ∆V = n ⋅ R ⋅ ∆T , logo:


3
U
∆= p ⋅ ∆V
2
O calor trocado na transformação isobárica também pode ser calculado, aplicando-se
a primeira lei da termodinâmica.

3 5 5
∆U = Q − τ , portanto p ⋅ ∆V = Q − p ⋅ ∆V → Q= p ⋅ ∆V = ⋅ nR ⋅ ∆T .
2 2 2

Como esses resultados, lembrando, também, da equação fundamental da calori-


metria, obtemos o calor específico molar isobárico (Cp).
5 
Q = ⋅ n ⋅ R ⋅ ∆T  5
2  → n ⋅ C ⋅ ∆T = ⋅ n ⋅ R ⋅ T e, portant
2
Q = n ⋅ CP ⋅ ∆T 
12 EXEMPLO Um gás ideal monoatômico sofre a transformação isobárica representada no diagrama.

p(105 N/m2)
6,0
B A

0,1 0,2 0,3 0,4 V(m3)


Figura 24 - Diagrama pxV de uma transformação gasosa
Fonte: o autor.

a) O gás sofreu uma expansão ou compressão?


b) Qual foi o trabalho realizado pelo gás nessa transformação?
c) Qual foi a variação da energia interna e o calor trocado pelo gás?

Resolução
a) O volume ao final do processo é menor que o volume inicial na transformação.
O gás sofreu uma compressão.
b) τ = p ⋅ ∆V , logo .

UNIDADE 7 273
3
U
c) A variação da energia interna pode ser obtida por ∆= p ⋅ ∆V .
2
3
∆U = ( −1,8 ⋅105 ) → ∆U =−2, 7 ⋅105 J
2
5
Q
Uma maneira de se obter o calor trocado pelo gás é: = p ⋅ ∆V , assim
5 2
Q = ⋅ ( −1,8 ⋅10 ) → Q =−4,5 ⋅10 J .
5 5

Relação de Mayer

Vimos que fornecer calor para um gás que se mantém sob volume constante resulta
numa variação de temperatura (variação de energia interna) diferente de quando
fornecemos a mesma quantidade de calor para um gás que se mantém sob pressão
constante. Nos gases, a quantidade de calor deve ser calculada criteriosamente, caso
a caso, pois há outra modalidade de troca de energia envolvida no processo, que é o
trabalho realizado pelo gás.
O médico e físico Julius Robert von Mayer (1814-1878) estabeleceu uma relação
entre o calor específico molar isométrico e o isobárico, válida não só para os gases
ideais monoatômicos, mas também para os gases poliatômicos.
A Figura 25 ilustra duas isotérmicas para um gás ideal qualquer (monoatômico
ou poliatômico). A temperatura T2 é maior que a temperatura T1.
O gás pode passar do estado A para o estado B por um processo isométrico, ou
do estado A para o estado C por um processo isobárico. Nos dois processos, a va-
riação da energia interna é a mesma, pois, em
ambos, têm-se a mesma variação de temperatu-
p ra ( ∆T = T2 − T1 ), portanto, podemos escrever:

U=∆
U
A→ B A→C
B
Pela primeira lei da termodinâmica, apli-
cada ao processo AB, podemos escrever:
C ∆U = Q − τ , e como na isométrica ∆U = Q,
A T2 temos: ∆U = n ⋅ CV ⋅ ∆T .
A primeira lei aplicada à transformação
T1
isobárica resulta em: ∆U = Q − τ , portanto:
V ∆U = n ⋅ C p ⋅ ∆T − p ⋅ ∆V . Observando a equa-
ção de Clapeyron p ⋅ ∆V = n ⋅ R ⋅ ∆T , temos:
Figura 25 - Isotérmicas para um gás ideal
Fonte: o autor. ∆U = n ⋅ C p ⋅ ∆T − n ⋅ R ⋅ ∆T .

274 Gases em Transformação


Finalmente, igualando as duas variações de energia interna, vamos obter:
n ⋅ C p ⋅ ∆T − n ⋅ R ⋅ ∆T = n ⋅ CV ⋅ ∆T → C p − CV = R

A grande concordância entre o valor de R obtido experimentalmente e o valor de


R previsto por essa relação foi uma das causas que mais contribui para aceitação da
teoria cinética dos gases.
Perceba que esse resultado poderia ser obtido diretamente, usando-se os já discuti-
dos calores específicos molares para os gases monoatômicos, mas esse procedimento
não iria garantir a validade geral que tem a relação de Mayer. Ela é válida para gases
monoatômicos e poliatômicos.

Adiabática

A transformação adiabática é aquela que se processa sem que o gás troque calor com
o meio externo, portanto Q = 0 .
Aplicando-se a primeira lei da termodinâmica, temos: ∆U = Q − τ , logo
∆U =− 0 τ → ∆U = −τ .
A variação da energia interna em uma transformação adiabática é oposta ao valor
algébrico do trabalho realizado pelo gás. Assim, podemos montar a tabela seguinte:
Tabela 2 - Sinais das trocas de energia na transformação adiabática
Transformação Adiabática
Expansão τ>0 ΔU < 0 O gás esfria
Compressão τ<0 ΔU > 0 O gás esquenta
Fonte: o autor.

Fisicamente, podemos compreender as conclusões da tabela observando: na expansão,


o gás realiza trabalho sobre o meio externo, como ele não recebe calor, essa energia é
transmitida ao meio externo às custas de uma redução em sua energia interna (ΔU < 0 ).
Na compressão, o gás recebe energia na forma de trabalho do meio externo, como
não há troca de calor, essa energia recebida eleva o valor da energia interna do gás
(ΔU > 0).
Para esboçar o diagrama da transformação adiabática, usamos como guias as
isotermas. Na expansão adiabática, diminui a energia interna do gás e, portanto, o
estado final corresponde a uma temperatura menor que a inicial. Na compressão
ocorre o oposto.

UNIDADE 7 275
Na transformação adiabática, varia o volume
p ocupado pelo gás, varia a temperatura e varia
T2 > T1
A também a pressão. Quem permanece constante?
Nenhuma dessas três variáveis de estado. Com
recursos que fogem ao nosso interesse no mo-
mento, pode-se demonstrar que na transforma-
ção adiabática, temos: p ⋅ V γ ==constante, expres-
constante
T2 são em que o expoente do volume ( γ ) é a relação
B T1 C
entre C p e CV , ou seja, γ = p . Para os gases
CV 5
V R
ideais monoatômicos, têm-se γ = 2 e, por-
3
Figura 26 - Transformação adiabática tanto, γ = 5 . R
Fonte: o autor. 3 2

Nos gases poliatômicos, o expoente γ assume


p valores diferentes, mas é sempre maior que a
unidade, pois Cp>CV.
T2 > T1
A O trabalho realizado pelo gás na transfor-
mação adiabática pode ser calculado usando
o conceito de energia interna. Vamos imaginar
dois processos, por meio dos quais o gás passa
C
de uma temperatura T2 para uma temperatu-
T2
ra menor, T1. O processo AB é adiabático e o
B T1 processo AC é isométrico.

V
Figura 27 - Diagrama para o cálculo do trabalho na adiabática
Fonte: o autor.

Nos dois processos, a variação da energia interna é a mesma, pois, em ambos, têm-se
a mesma variação de temperatura ( ∆T = T2 − T1 ) , portanto, podemos escrever:


U=∆
U
A→ B A→C

Pela primeira lei da termodinâmica, aplicada ao processo AC, podemos escrever:


∆U = Q − τ , e como na isométrica ∆U = Q, temos: ∆U = n ⋅ CV ⋅ ∆T .
Uma vez que ∆U = Q − τ , obtemos, então:

276 Gases em Transformação


Observações
Nos perfumes ou desodorantes aerossóis, o gás (na verdade um vapor) sai do reci-
piente e se expande muito rapidamente. Como as trocas de calor são processos lentos,
podemos considerar desprezível o calor trocado por esse gás, e temos aí um exemplo
de expansão adiabática. O desodorante chega ao nosso corpo em uma temperatura
menor que o ambiente.
As explosões provocam a compressão adiabática do ar que as rodeia. O trabalho
das forças aplicadas pelo explosivo se reflete em um aumento da energia interna do
gás, logo, em um aumento de temperatura. Nas explosões nucleares, essa compressão
adiabática eleva a temperatura do ar a cerca de 6.000 K.
O som se propaga por meio de sucessivas expansões e compressões. Como se trata
de um processo muito rápido, a troca de calor, em cada transformação, é desprezível.
São expansões e compressões adiabáticas.

Tenha sua dose extra de conhecimento assistindo ao vídeo.


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13 EXEMPLO Meio mol de um gás monoatômico ideal sofre uma expansão adiabática, conforme
ilustra o diagrama p × V seguinte. ConsidereR R = 8,3
= 8,3 JJ 800
ee e800 KKa temperatura
mol
mol ⋅ K⋅ K
do gás no estado A.
a) Qual é a pressão do gás no p A
estado A?
b) Qual é a temperatura do gás
no estado B?
c) Qual foi a variação da ener-
gia interna no processo?
d) Qual foi o trabalho realiza-
do pelo gás nessa transfor-
mação?
B

2 16 V(l)
Figura 28 - Diagrama pxV de uma transformação gasosa
Fonte: o autor.

UNIDADE 7 277
Resolução
a) A pressão do gás no estado A pode ser obtida pela equação de Clapeyron:
p A ⋅ VA = n ⋅ R ⋅ TA , logo
p A ⋅ ( 2, 0 ⋅10−3 ) = 0,5 ⋅ 8,3 ⋅ 800 → p A = 16, 6 ⋅105 N 2 .
m
b) Como o gás é monoatômico ideal, temos γ = 5 .
3
γ γ
A transformação adiabática obedece à relação: p A ⋅ VA = pB ⋅ VB (I)
Pela equação geral das transformações, temos: p A ⋅ VA = pB ⋅ VB (II)
TA TB
Fazendo-se a razão entre as duas expressões, membro a membro, vamos obter:
γ −1
VAγ VBγ  VB  TA
= → TA ⋅ VAγ −1 = TB ⋅ VBγ −1, que podemos escrever como   = .
VA VB  VA  TB
TA TB

Efetuando-se as substituições, a última relação pode ser escrita:


5 2
800 e, portanto, 8 3 = 800 → T = 200 K .
−1
 16  3
  = TB
B
 2 TB
3
c) A variação da energia interna pode ser obtida por: ∆U
= n ⋅ R ⋅ ∆T , assim
2
3
∆U = ⋅ 0,5 ⋅ 8,3 ⋅ ( 200 − 800 ) → ∆U = −3.735 J .
2
d) Como na transformação adiabática o trabalho realizado pelo gás é τ = −∆U ,
vamos obter: τ =− ( −3.735 ), logo τ = 3.735J .

Cíclica

Como vimos, a transformação cíclica é aquela em que o gás, após uma série de trans-
formações intermediárias, retorna ao estado inicial. O trabalho do gás em um ciclo,
em módulo, é numericamente igual à área compreendida pelo ciclo.

278 Gases em Transformação


Ciclo horário Ciclo anti-horário

p p

Expansão Compressão

τ>0 τ<0

Compressão Expansão

V V

Figura 29 - Possíveis sentidos das transformações cíclicas


Fonte: o autor.

Na transformação cíclica, temos:


• ΔU = 0 – Como o estado final coincide com o estado inicial, o gás retorna, ao
completar o ciclo, à mesma pressão, volume e temperatura.
• Qt – É a soma algébrica dos calores trocados nos vários trechos que constituem
o ciclo ( Qt = ∑ Q ) . Há transformações parciais em que o gás recebe calor
(Q > 0) e há intervalos do ciclo em que o gás cede calor (Q < 0). Essa soma
algébrica corresponde, em módulo, à diferença entre a quantidade de energia
que o gás recebeu na forma de calor e a quantidade de energia que o gás cedeu,
também na forma de calor.
Aplicando-se a primeira lei da termodinâmica, vamos obter:

∆U = Q − τ , assim 0 = Qt − τ → Qt = τ

Vamos analisar esse resultado, considerando as duas possibilidades para a orien-


tação do ciclo.

Ciclo horário: τ > 0 → Qt > 0 .


Algebricamente= Qt Qrecebido − Qcedido , mas como, de acordo com a convenção que
herdamos da calorimetria, o calor cedido é negativo, em módulo, podemos escrever:
=Qt Qrecebido − Qcedido , ou seja, a quantidade de energia recebida na forma de calor
é maior que a quantidade de energia cedida, também na forma de calor. A diferença
entre essas duas quantidades se manifesta na forma de trabalho mecânico que o gás
realiza no ciclo (τ > 0 ) .

UNIDADE 7 279
Ciclo anti-horário: τ < 0 → Qt < 0.
Como Qt < 0 e Qt = Qrecebido − Qcedido , concluímos que Qrecebido < Qcedido , ou seja, a
quantidade de energia que o gás cede na forma de calor é maior que a quantidade
de energia que ele recebe, também na forma de calor. Para provocar essa situação, o
gás deve receber energia na forma de trabalho (τ < 0 ).

14 EXEMPLO Determinada quantidade de um gás monoatômico ideal sofre a sequência de trans-


formações cíclicas representadas no diagrama p × V seguinte. A temperatura do
gás no estado A é TA = 300 K, e a transformação CA é isotérmica. Considere,
nesse exercício, que a constante universal do gás perfeito (R) não é conhecida,
1
1atm = 1, 0 ⋅105 N 2 e 1n   = −1,1 .
m 3
p (atm)
A B a) Qual é a temperatura e qual é a pressão
3,0 do gás no estado C?
b) Calcule, em cada uma das transforma-
ções parciais (AB, BC e CA), o valor algébrico
do calor trocado e do trabalho realizado, e in-
dique por meio de setas, entrando ou saindo
C
do ciclo, os trechos em que o gás recebe calor
e os trechos em que o gás cede calor.
0
0,2 0,4 0,6 V(m3)c) Calcule o trabalho realizado pelo gás
em um ciclo.
Figura 30 - Diagrama pxV de uma transformação cíclica
Fonte: o autor.

Resolução
a) A transformação AC é isotérmica, logo: T= C T=
A 300 K
Pela equação da transformação isotérmica em um gás perfeito, temos:
p A ⋅ VA = pB ⋅ VB, logo 3 ⋅ 0, 2 = pB ⋅ 0, 6 → pB =1, 0atm.
b) Transformação AB (isobárica).

5 5
Q
= p ⋅ ∆V , portanto QAB = ⋅ 3, 0 ⋅105 ⋅ ( 0, 6 − 0, 2 ) → QAB =3, 0 ⋅105 J .
2 2

τ = p ⋅ ∆V , logo τ AB = 3, 0 ⋅105 ⋅ ( 0, 6 − 0, 2 ) → τ AB = 1, 2 ⋅105 J

Transformação BC (isométrica) τ BC = 0.
3 3
Uma vez que ∆U = Q − τ e τ = 0 , temos: Q =∆U = ⋅ pC ⋅VC − ⋅ pB ⋅VB ,
2 2

280 Gases em Transformação


3
assim QBC = 3
−1,8 ⋅105 J.
⋅1, 0 ⋅105 ⋅ 0, 6 − ⋅ 3, 0 ⋅105 ⋅ 0, 6 → QBC =
2 2
Transformação CA (isotérmica)
Na transformação isotérmica ∆U = 0, portanto Q = τ .
O trabalho realizado pelo gás pode ser obtido por:

 V final   V final 
τ = n ⋅ R ⋅ T ⋅1n   = p ⋅ V ⋅1n   , logo
 Vinicial   Vinicial 
 0, 2 
τ BC = 3, 0 ⋅105 ⋅ 0, 2 ⋅1n   e, portanto
 0, 6 
 0, 2 
τ BC = 3, 0 ⋅105 ⋅ 0, 2 ⋅1n   = 3, 0 ⋅10 ⋅ 0, 2 ⋅ ( −1,1) → τ BC = −0, 66 ⋅10 J
5 5

 0, 6 
O calor trocado tem o mesmo valor que o trabalho na transformação isotér-
mica, logo: QBC = −0, 66 ⋅105 J
A figura ilustra, em cada trecho, se o gás está recebendo ou cedendo calor.
p (atm) QAB
A B
3,0

2,0 QBC

1,0 C
QCA

0
0,2 0,4 0,6 V(m3)
Figura 31 - Diagrama pxV de uma transformação cíclica
Fonte: o autor.

c) O trabalho no ciclo pode ser obtido por: τciclo = τ AB + τ BC τC ,


assim τ ciclo= 1, 2 ⋅10 + 0 + ( −0, 66 ⋅10 ) → τ ciclo= 0,54 ⋅10 J ciclo horário → τ > 0 .
5 5 5

Após o trabalho com esta unidade, você aprendeu como descrever o comportamento
de um gás em função de suas variáveis de estado: pressão, volume e temperatura.
Conceituamos a ideia do gás ideal e vimos como esse recurso nos permite prever
os diversos tipos de transformação que uma massa gasosa pode experimentar.
Em seguida, você pôde relacionar as transformações gasosas com a conservação
da energia, pela primeira Lei da Termodinâmica, e saber como realizar as transfor-
mações impondo trocas de calor para obter trabalho mecânico.

UNIDADE 7 281
Você pode utilizar seu diário de bordo para a resolução.

1. O cilindro da figura é fechado por um êm-


bolo que pode deslizar sem atrito e está
preenchido por uma certa quantidade de
g
gás que pode ser considerado como ideal.
À temperatura de 30 °C, a altura h, na qual
o êmbolo se encontra em equilíbrio, vale
20 cm (ver figura – h se refere à superfí- h
cie inferior do êmbolo). Se mantidas as
demais características do sistema, a tem-
peratura passar a ser 60 °C e o valor de h
variará de, aproximadamente:
a) 5 %.
b) 10 %.
c) 20 %.
d) 50 %.
e) 100 %

2. Um freezer recém-adquirido foi fechado e ligado quando a temperatura am-


biente estava a 27 °C. Considerando que o ar se comporta como um gás ideal
e a vedação é perfeita, determine a pressão no interior do freezer quando for
atingida a temperatura de -19 °C.
a) 0,40 atm.
b) 0,45 atm.
c) 0,85 atm.
d) 1,0 atm.
e) 1,2 atm.

282
3. Certa massa de gás perfeito, que se encontra inicialmente no estado A, sofre
compressão isotérmica até o estado B e, a seguir, uma expansão isobárica até
o estado C. Num diagrama P x V, o gráfico que melhor representa essas trans-
formações é:

a) b) c) d) e)
P P P P P
B C A B A C A
C

C B C
A B A B
V V V V V

4. Uma certa massa de gás ideal num estado A está submetida a uma pressão Po
e ocupa um volume Vo na temperatura absoluta To. Proporcionando a esse gás
uma compressão isotérmica, ele passa para um estado B e seu volume sofre
uma variação de 25%. O gráfico que melhor representa essa transformação é:

(a) (b) (c)


P P P

5 P0 B 4 P0 B P0 A
4 3
P0
A P0
A 3 P0
B
V V 4 V
3 V0 V0 3 V0 V0 V0 5 V0
4 4 4

(d) (e)
P P

P0 A P0 A

3 P0
B 0,5 P0
B
4 V V
V0 4 V0 V0 1,5 V0
3

283
5. Dois recipientes, I e II, estão interligados por um tubo de volume desprezível
dotado de torneira T, conforme esquema a seguir.

I II

Num determinado instante, o recipiente I contém 10 litros de um gás, à tem-


peratura ambiente e pressão de 2,0 atm; enquanto o recipiente II está vazio.
Abrindo-se a torneira, o gás se expande exercendo pressão de 0,50 atm, quando
retornar à temperatura ambiente. O volume do recipiente II, em litros, vale:
a) 80.
b) 70.
c) 40.
d) 30.
e) 10.

6. Um cilindro de 2,0 litros é dividido em duas partes por uma parede móvel fina,
conforme o esquema a seguir. O lado esquerdo do cilindro contém 1,0 mol de
um gás ideal; o outro lado contém 2,0 mols do mesmo gás. O conjunto está à
temperatura de 300 K. Adote R = 0, 080 atm ⋅ L .
mol ⋅ K

1.0 mol 2.0 mol

a) Qual será o volume do lado esquerdo quando a parede móvel estiver equili-
brada?
b) Qual é a pressão nos dois lados, na situação de equilíbrio?

284
WEB

Primeira Lei da Termodinâmica


Vídeo da Academia Khan, traduzido para o português pela fundação Lemann.
O vídeo tem 19 min e explica detalhadamente o que acontece com um gás nas
transformações, envolvendo energia cinética e energia potencial.
O vídeo começa analisando apenas uma partícula e depois se estende para um
gás, mostrando como a resistência do ar é uma forma da energia cinética de um
corpo se movendo através desse ar, se transformar em calor. É bastante ilustrativo.
Para acessar, use seu leitor de QR Code.

285
FEYNMANN, R.; LEIGHTON, R.; SANDS, M. Lições de Física de Feynman. Porto Alegre: Artmed, 2008.
Volume 3.

GUIMARÃES, O.; PIQUEIRA, J. R. C.; CARRON, W. Física - Projeto múltiplo 3V. São Paulo: Ática, 2014.

GUIMARÃES, O.; CARRON, W. As faces da Física. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2006.

HALLIDAY, D.; RESNICK, R. Fundamentos de Física. 3. ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos,
1994. Volume 4.

OKUNO, E.; CALDAS, I. L.; CHOW, C. Física para ciências biológicas e biomédicas. São Paulo: Harbra, 1982.

YOUNG, H. D.; FREEDMAN, R. A. Física. 12. ed. São Paulo: Addison Wesley, 2009.

286
1. B.

Resolução:

Como a pressão é constante, é uma transformação isobárica.


V V0 T = 273 + 60 = 333K e T0 = 273 + 30 = 303K .
Assim, = . Temos,
T T0
Como o volume é V = Sh, podemos escrever:
h T 333 ≅
= → h = h0 ⋅ 1, 1 ⋅ h0 , ou seja, 10% a mais.
h0 T0 303
2. C.

Resolução:

O volume é constante, logo, é uma transformação isométrica.

T=
0 273 + 27= 300 K e T= 273 + ( −19=
) 254 K .
p p0 254
=
Como = e p0 1atm , temos p
= 1 0,85atm
⋅=
T T0 300
3. A.

Resolução:

A compressão isotérmica corresponde a um ramo de hipérbole, com o volume diminuindo. Em seguida,


temos uma isobárica (segmento de reta paralelo ao eixo V), com o volume aumentando.

4. B.

Resolução:

=
Como a redução de volume é de 25%, temos V 0, 75 ⋅ V0 .
4
Isotérmica p ⋅ V = p0 ⋅ V0 , logo p ⋅ 0, 75 ⋅ V0 = p0 ⋅ V0 , ou seja, p= ⋅ p0 .
3
A isotérmica corresponde a um trecho de hipérbole, com o volume diminuindo.

287
5. D.

Resolução:

Como as temperaturas inicial e final são as mesmas, temos: p ⋅ V = p0 ⋅ V0.


Logo, P 1 V 1 =P 2 (V 1 +V 2 ) , ou seja, 10 0,5 (10 + V2 ).
2 ⋅=
40
= 10 + V2 , logo V2 = 30 litros.
6. Resolução:

a) Se a parede móvel está equilibrada, a pressão sobre ela é a mesma nos dois lados.

Como p ⋅V = n ⋅ R ⋅ T , temos n1 ⋅ R=⋅ T n2 ⋅ R ⋅ T


→=
n1 V1 .
V1 V2 n2 V2
1 V1
Então, = → V2 =2 ⋅ V1. Como V1 + V2 = 2, podemos escrever:
2 V2
2
V1 + 2V1 =2 → V1 = 
3
1 ⋅ 0, 08 ⋅ 300
b) Como p ⋅V = n ⋅ R ⋅ T , p = = 36atm .
2
3

288
289
290
Dr. José Osvaldo de Souza Guimarães

Máquinas Térmicas

PLANO DE ESTUDOS

Ciclos de refrigeração
Ciclo de Carnot
e bomba de calor

Segunda Lei da Ciclo Diesel


Termodinâmica e Ciclo Otto

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

• Compreender a limitação de rendimento das máquinas tér- • Aplicar os conhecimentos sobre máquinas térmicas nos
micas em função da disponibilidade da fonte fria. Relacionar ciclos mais comuns do dia a dia, como o Diesel e o Otto.
esse fato com a impossibilidade de se transformar integral- • Entender o funcionamento das bombas de calor e como
mente o calor em trabalho mecânico nas máquinas cíclicas. elas podem ser usadas na preservação da energia. Prever
• Aprender a determinar o valor máximo possível para o o rendimento das máquinas de refrigeração e aqueci-
rendimento de uma máquina térmica. mento.
Segunda Lei da
Termodinâmica

Chamamos, genericamente, de máquina qualquer


dispositivo que tenha por finalidade transferir ou
transformar energia.
As máquinas térmicas são dispositivos em que
há troca de energia na forma de calor e também
há troca de energia com o meio externo na forma
de trabalho, em um processo cíclico.
Esses dispositivos têm a finalidade de obter
energia mecânica a partir de trocas de calor ou
obter troca de calor a partir do fornecimento de
energia mecânica.
Os motores dos automóveis, as geladeiras e os
aparelhos de ar condicionado são exemplos de
máquinas térmicas.
Se considerarmos, por exemplo, uma expansão
adiabática, vemos que, nesse processo, obtém-se
energia na forma de trabalho sem o respectivo
fornecimento de calor. Contudo, terminada a
transformação, o gás não estaria
τ
disponível para um novo proces-
trabalho
so, se considerarmos as mesmas
temperaturas. Assim, para que o
mesmo gás, ou pelo menos a mes-
ma máquina, possa ser utilizado
Q Máquina seguidamente, devemos retornar
calor térmica à condição inicial. Vemos, assim,
que o processo deve ser cíclico.
Discutiremos, portanto, somente
as máquinas térmicas que fun-
Figura 1 - Esquema simplificado de uma máquina térmica
cionam em processos cíclicos.
Fonte: o autor.

Classificação das Máquinas

De acordo com a finalidade específica da máquina térmica, ela pode ser classificada
em um dos grupos seguintes.
Motor Térmico
Máquinas Térmicas
Refrigerador
Bomba de Calor
Aquecedor Térmodinâmico
Os motores térmicos são máquinas que têm por finalidade transformar calor em
energia mecânica, enquanto as bombas de calor têm por finalidade forçar a troca de
calor utilizando-se da energia mecânica.

Motor Térmico

No diagrama p × V, os ciclos dos motores térmicos têm sentido horário.


A finalidade do motor térmico é transformar a energia recebida na forma de calor
em energia mecânica.
O esquema ilustra as trocas de energia em um ciclo genérico de motor térmico.
Ele recebe energia na forma de calor de uma fonte quente, disponibiliza energia
mecânica e, para que possa voltar ao estado inicial e começar um novo ciclo, cede
energia na forma de calor para uma fonte fria.

UNIDADE 8 293
τ

quente Motor
Fonte

Fonte
Qquente Qfrio

fria
térmico

Figura 2 - Diagrama de um motor térmico genérico


Fonte: o autor.

Com essa descrição, fica evidente a necessidade das duas fontes: uma para fornecer a
energia ao motor, na forma de calor, e a outra para retirar a parcela do calor fornecido
que não foi convertida em trabalho mecânico e fazer o motor retornar à condição inicial.
No caso de um motor comum de automóvel, a queima do combustível gerando
calor é a fonte quente, e a atmosfera, para quem o motor cede calor, é a fonte fria.
No motor térmico, temos:
• Qq > 0 — o motor recebe calor da fonte quente.
• Q f < 0 — o motor cede calor para a fonte fria.
• t > 0 — o motor fornece energia na forma de trabalho.

Em vez da primeira lei da termodinâmica, vamos considerar diretamente o princípio


da conservação da energia, pois, completado um ciclo, o gás volta a possuir a mesma
energia interna inicial, portanto, Qq  t  Q f . Observe que a quantidade de energia
cedida, na forma de calor, à fonte fria é Q f , pois Q f é negativo.

Rendimento

O aproveitamento efetuado em uma máquina é normalmente expresso pela relação


entre a quantidade útil de energia que se obtém e a quantidade de energia fornecida
à máquina. Nos motores, essa grandeza é denominada de rendimento  h . Portanto,
τ
a expressão para o rendimento de um motor térmico é: η = .
Qq
τ
Expresso em termos de porcentagem, o rendimento é: η   100%
Qq

294 Máquinas Térmicas


1 EXEMPLO O motor térmico de um carro popular comum é alimentado por um combustível
cujo calor de combustão é de 11.000 kcal  . Esse motor está funcionando com ren-
dimento de 30% e produzindo uma potência útil de 30hp . Considere
e .

a) Qual é a potência total fornecida a esse motor?


b) Quantos litros de combustível esse motor consome em 1 h?
c) Se esse combustível está fornecendo energia para um automóvel que se des-
loca a 80 km/h, quantos quilômetros esse veículo está percorrendo com 1 L
de combustível?

Resolução
a) O rendimento também pode ser expresso pela relação entre a potência útil e
P 30
a potência total, ou seja, h = u , assim 0, 3 = = t = 100 p
Pt Pt

b) O consumo de combustível é determinado pela potência total.


DE
Como P = , temos DE  P  Dt , assim DE  100  746  3600 , expressão em
Dt 4, 2

que substituímos por por e por .

3
Efetuando-se os cálculos, temos: E  64  10 kcal .

Observando-se o calor de combustão, podemos montar a proporção:


1  11  103 kcal 
  x  5, 8  / h
x  64  103 kcal 

c) Em uma hora, o veículo percorreu 80 km e gastou 5,8  , assim podemos


montar a proporção:
1  y km 
  y  13, 8 km / 
5, 8   80 km 

UNIDADE 8 295
Ciclo de Carnot

Os primeiros motores térmicos, máquinas a vapor,


cuja fonte quente se obtinha com a queima de
carvão, possuíam um rendimento muito baixo
(menor que 5%). Corria o começo do século XIX,
e os engenheiros e cientistas da época se pergunta-
vam se era possível melhorar o rendimento dessas
máquinas com aperfeiçoamento técnico, ou se
esse baixo rendimento seria uma imposição das
leis da termodinâmica.
Sadi Carnot (1796-1832), que foi assessor cien-
tífico do exército de Napoleão, respondeu a essa
pergunta associando à fonte quente uma tem-
peratura Tq e à fonte fria uma temperatura Tf,
e demonstrou que um motor térmico, operando
de acordo com o que hoje denominamos ciclo
de Carnot, tem o máximo rendimento possível
dentre todas as máquinas que funcionam entre
essas duas temperaturas.

296 Máquinas Térmicas


Nenhum motor térmico cíclico, que opere entre duas temperaturas, possui rendi-
mento maior que o motor de Carnot.

p O ciclo de Carnot é constituído por duas transfor-


mações isotérmicas e duas transformações adia-
báticas, alternadas, conforme ilustra a Figura 3.
A As transformações no diagrama ilustrado são:
 AB  BC
isotérmicas  e adiabáticas 
B CD  DA

D Tanto no motor térmico quanto nas bombas de


C
calor de Carnot, a relação entre as quantidades
V de energia trocadas na forma de calor com a
Figura 3 - O ciclo de Carnot no diagrama p x V fonte fria e a fonte quente é: Q f = T f
Fonte: o autor. Qq Tq

Em outras palavras, as quantidades de energia trocadas na forma de calor com


cada uma das fontes são proporcionais às temperaturas dessas fontes.
Em um ciclo de Carnot, a relação entre as quantidades de calor trocadas com a
fonte fria e a fonte quente é a relação entre as temperaturas absolutas dessas fontes.

Rendimento de Carnot (Motor térmico)


Pelo princípio da conservação da energia aplicado a um ciclo, temos:

Qq  t  Q f , logo t  Qq  Q f .

τ Q  Qf Qf Q T
O rendimento é η = , assim h  q  1 , e como f = f , vamos
Qq Qq Qq Qq Tq

obter finalmente :
Tf
h  1
Tq

UNIDADE 8 297
2 EXEMPLO A queima do combustível em um motor térmico resulta numa temperatura de 1000 K.
Esse motor é resfriado pela atmosfera, cuja temperatura é de 27 ºC. O rendimento
desse motor é de 30%. Qual é o limite máximo para o rendimento de um motor cíclico
trabalhando entre essas duas temperaturas?

Resolução
O limite superior para o rendimento de um motor cíclico que esteja funcionando
entre essas duas temperaturas é o de Carnot.
Temos: .

Tf
h  1 , logo h  1  300  hm áx  70%
Tq 1.000

Tenha sua dose extra de conhecimento assistindo ao vídeo.


Para acessar, use seu leitor de QR Code.

3 EXEMPLO Um motor térmico, cujo fluido de trabalho é um gás monoatômico ideal, funciona
de acordo com o ciclo esquematizado no diagrama p × V apresentado. Considere
B = 1200 .

a) Qual é o trabalho útil ob- p (atm)


tido em cada ciclo?
b) Qual é a quantidade de A B
calor recebida pelo gás 8
em um ciclo?
c) Qual é o rendimento des-
se motor térmico? 4
D C
d) Qual seria o rendimento
de um motor de Carnot
que operasse entre as 0
temperaturas máxima e 2 4 6 V(L)
mínima desse ciclo?

298 Máquinas Térmicas


Resolução
a) O trabalho pode ser obtido considerando-se a área compreendida pelo ciclo.

b) O gás recebe calor somente nas transformações DA e AB.


A transformação DA é isométrica de um gás monoatômico ideal.
Nessa transformação, a quantidade de energia trocada na forma de calor é igual
3 3
à variação da energia interna do gás  t  0 . Assim, QDA   p A VA   pD VD.
2 2

5
A transformação AB é isobárica, logo QAB  p  V
2
5
QAB  8   6  2   80 , portanto
2

O calor recebido no ciclo é, então: Q  1.200  8.000, Q  9.200 JJ

τ 1600
c) O rendimento é dado por: η = , logo
= h = 0, 17 ou em termos de
Q 9200
porcentagem h = 17% .

d) Como p  V  n  R  T , ao ponto do ciclo que possuir maior produto pV cor-


responde a maior temperatura. Nesse ciclo, é o ponto B, e TB = 1200 K .
A menor temperatura corresponde ao ponto do ciclo em que tenhamos o
menor produto pV. No caso é o ponto D.

pB  VB pD  VD 8⋅6 4 ⋅2
 , logo = → D = 200 .
TB TD 1.200 TD
T 200
O rendimento de Carnot é: h  1  f . Nesse ciclo, obtemos: h  1  e,
Tq 1200
portanto, h = 0, 83, ou em porcentagem h = 83% .

Segunda Lei da Termodinâmica

Vamos considerar um recipiente cúbico contendo 4 partículas em movimento alea-


tório. Qual é a probabilidade de estarem as 4 partículas na metade esquerda da caixa?
O diagrama seguinte ilustra todas as possibilidades para a distribuição dessas
partículas, em relação às duas metades da caixa. No total, são 16 possibilidades.

UNIDADE 8 299
A C
A A
B B
C A
B B

C C
D D
D
D

C
B D D
A A A
C
D C
A C D
B B B

A A A
B D
B C

B B
D A

C D C D
C

D C C
D
B
D A

A A A D
C

C B B B

Figura 4 - Possibilidades na distribuição de 4 bolas em uma caixa


Fonte: o autor.

Das dezesseis possibilidades, somente uma obedece a imposição de todas na metade


esquerda da caixa. Assim, temos uma possibilidade em dezesseis de que isso aconteça.
Observe as situações em que se têm 2 partículas de cada lado da caixa. Seis distri-
buições obedecem à essa condição dentre as dezesseis possíveis. Portanto, se jogarmos
quatro partículas aleatoriamente numa caixa é seis vezes mais provável que tenhamos
metade das partículas em cada lado do que termos todas no lado esquerdo da caixa.
À medida que formos aumentando a quantidade de partículas, vai aumentando
a possibilidade de elas se distribuírem meio a meio, em relação à situação de todas
estarem em um determinado lado da caixa.
Num gás, o número de partículas é muito alto. A possibilidade de se ter as partículas
distribuídas meio a meio numa sala de aula é muito maior que a possibilidade de se
ter todas as partículas do ar no lado esquerdo desse ambiente. Em outras palavras, é
absurdamente improvável termos essa última distribuição.

300 Máquinas Térmicas


Considere, agora, uma bolinha de massa de modelar que atinge o solo após cair
de determinada altura. Ao atingir o solo, todas as partículas dessa bolinha possuíam
velocidade dirigida para baixo. Após a colisão, a distribuição de velocidades se tornou
aleatória e a energia mecânica se transformou em uma agitação térmica. A tempera-
tura da bolinha aumentou.
O processo inverso ao descrito, que seria aquecer a bolinha, e num dado instante,
todas as suas partículas terem a velocidade orientada para cima, fazendo-a ganhar
determinada altura, não é impossível, de acordo com as Leis de Newton, mas de acordo
com as possibilidades que se têm para a distribuição de velocidades, é absurdamente
improvável.
Essa visão de que ao lidarmos com um grande número de partículas precisamos,
além das leis da mecânica, de um cálculo estatístico é mais ou menos recente (Stefan
Boltzmann, 1877), sendo que, anteriormente, a impossibilidade (na verdade, uma ab-
surda improbabilidade) de se transformar integralmente calor em energia mecânica
foi descrita pela Segunda Lei da Termodinâmica.
Vamos destacar três enunciados para a segunda lei da termodinâmica. Os três
são equivalentes.

Enunciado de Kelvin-Planck
É impossível construir um motor térmico cíclico com rendimento 100%.

Enunciado de Clausius
É impossível construir uma máquina térmica cíclica que transfira, sem dispêndio de
energia, calor de um corpo mais frio para outro mais quente.

Enunciado derivado do ciclo de Carnot


O zero absoluto é inatingível.

Para mostrar a equivalência entre o terceiro e o primeiro enunciado, vamos observar


que o rendimento do melhor motor térmico que estivesse trabalhando entre duas
T
temperaturas seria h  1  f . Como esse rendimento nunca será 100%, temos:
Tq
Tf Tf
1  1   0 , logo T f é, necessariamente, não nulo.
Tq Tq

UNIDADE 8 301
Ciclo Diesel e
Ciclo Otto

Para aquecer um gás em um processo quase re-


versível, seria necessário que a diferença de tem-
peratura entre a fonte de calor e o gás fosse quase
nula. Assim, o tempo de aquecimento seria tão
grande que pouca potência conseguiríamos ex-
trair da máquina.
Por isso, os motores a combustão interna não
utilizam o ciclo de Carnot.
Nos automóveis e caminhões, os ciclos utiliza-
dos são o Diesel e o Otto.
Na discussão a seguir, vamos nos focar no que
acontece em um pistão do motor. O volume de
todos os pistões somado é o que costumamos ver
nas siglas dos motores. Por exemplo, um motor
2.0 quer dizer que o volume máximo somando-se
todos os pistões é 2 litros.

Ciclo Diesel

O diagrama a seguir representa a sequência de


transformações que o gás (no caso, o ar) experi-
menta ao descrever o ciclo em determinado pistão.

302 Máquinas Térmicas


p
2 q23
3

co

s
W ns
t
on
sc

st
4 q41

0 1

V
Figura 5 - Diagrama pxV para um ciclo Diesel Motor a combustão
Fonte: o autor.

Admissão Compressão Explosão Exaustão


Figura 6 - Estágios do ciclo Diesel em um dos pistões do motor

Na Figura 6 podemos ver os fenômenos na câmara do pistão.


Vamos começar do estado 1.
• 1º tempo - COMPRESSÃO - O gás é comprimido adiabaticamente até o estado 2.
• 2º tempo - EXPANSÃO - O gás começa a ser aquecido pelo combustível que
foi injetado, assim que o pistão atingir o volume V2. O combustível injetado
explode espontaneamente devido à alta temperatura que o gás comprimido
atinge, por isso o motor Diesel não necessita de velas (faísca de ignição). O
gás vai se expandindo isobaricamente até 3 e depois adiabaticamente até 4.

UNIDADE 8 303
• 3º tempo – EXAUSTÃO - O gás é refrigerado até a temperatura ambiente
para poder começar um novo ciclo. Isso de fato não acontece. O que acontece é
que o ar expandido fruto da combustão, sem disponibilidade de oxigênio para
novas queimas, é rejeitado para o escapamento, mas em termos de diagrama,
isso corresponde a um resfriamento isométrico.
• 4º tempo - ADMISSÃO - Uma nova massa de ar, rica em oxigênio é “aspi-
rada” pelo pistão.

A razão entre o volume inicial (V1) e o volume ao final da compressão (V2) é chamada
de taxa de compressão. Tipicamente, nos motores Diesel, essa taxa é 16:1.
Com essa taxa de compressão, as pressões atingidas são muito elevadas, exigindo
que o motor seja bastante robusto. Sua utilização é maior nas máquinas de grande
porte, como tratores, caminhões e motores navais.

Ciclo Otto

Este ciclo é mais comum nos motores de automóveis. Ele tem certa semelhança com
o ciclo Diesel, mas precisa de uma faísca de ignição.
O diagrama a seguir representa a sequência de transformações que o gás (ar)
experimenta ao descrever o ciclo em um determinado pistão.
p
3

2 4

0 1-5

V1 V2 V
Figura 7 - Diagrama pxV para o ciclo Otto (motores a gasolina)
Fonte: o autor.

As figuras seguintes ilustram os fenômenos na câmara do pistão.

304 Máquinas Térmicas


Admissão Compressão Explosão Exaustão
Figura 8 - Estágios do ciclo Otto em um dos pistões do motor

Novamente, vamos começar do estado 1, como fizemos para o ciclo anterior.


• 1º tempo - COMPRESSÃO - A mistura ar-vapor de gasolina é comprimida
adiabaticamente até o estado 2.
• 2º tempo - EXPANSÃO - A mistura explode devido à faísca da vela, esquenta
isometricamente e se expande adiabaticamente até 4.
• 3º tempo – EXAUSTÃO - Da mesma forma que aconteceu no ciclo Diesel,
o gás, agora pobre em oxigênio, é rejeitado para fora e vai dar lugar para uma
nova admissão.
• 4º tempo - ADMISSÃO - Uma nova massa de ar, rica em oxigênio é “aspirada”
pelo pistão. O 3º e o 4º tempo são equivalente em termos de ciclo termodinâ-
mico ao resfriamento isométrico.

Também se define a taxa de compressão como a razão entre o volume inicial (V1)
e o volume ao final da compressão (V2). Tipicamente, nos motores a gasolina, essa
taxa é 9:1, bem mais baixa que no Diesel.
Com essa taxa de compressão, as pressões atingidas são bem menores, permitindo
um motor mais leve e ágil.
1
O rendimento do ciclo Otto pode ser obtido por: η  1  γ 1 , onde r é a taxa de
C r
compressão e g = p , que, no caso do ar, é 1, 4.
CV

UNIDADE 8 305
A Engenharia nos Motores

Quando analisamos os ciclos do ponto de vista


de um gás ideal, o fator tempo não comparece
nos cálculos, mas nos motores reais ele é extre-
mamente importante, pois está ligado à potência
do motor e ao seu rendimento. Vamos comentar
alguns parâmetros de projeto de motores.
Enquanto acontece a combustão, o pistão está
se movendo. Se o pistão chegar ao fim de seu curso
sem que a combustão tenha terminado, há des-
perdício de combustível. Por isso, quanto maior o
volume do cilindro, mais lentamente deverá fun-
cionar o motor.
Para que tenhamos mais potência, sem aumen-
to do volume do cilindro, devemos aumentar a
quantidade de cilindros, porém, muitos cilindros
acarretam mais partes móveis inertes, o que com-
promete o rendimento.
A quantidade de oxigênio disponível para cada
ciclo pode ser aumentada se o gás for injetado
comprimido, isto é, com mais massa no mesmo
volume. Esse é o processo nos motores turbo.
Os motores Diesel têm maior rendimento, mas
são mais pesados. Além disso, no refino do petró-
leo, é limitada a quantidade de Diesel que se con-
segue extrair, em relação à quantidade de gasolina
produzida. Por isso, há motores dos dois tipos.
O advento do biodiesel talvez possa ampliar a
participação do ciclo Diesel nos motores em geral.
A ideia de Rudolf Diesel, ao conceber o seu
motor em 1900, era que o agricultor poderia usar
óleo vegetal para alimentar seu trator. De fato, o
primeiro motor Diesel funcionava com óleo de
amendoim.

306 Máquinas Térmicas


Ciclos de Refrigeração
e Bombas de Calor

O calor vai, espontaneamente, do corpo mais


quente para o corpo mais frio. É possível, entre-
tanto, “bombear” calor do corpo mais frio para o
mais quente, utilizando-se um processo forçado
por trabalho mecânico. As bombas de calor exe-
cutam essa função. Elas podem ser utilizadas para
refrigerar mais ainda a fonte fria (refrigerador)
ou aquecer mais ainda a fonte quente (aquecedor
termodinâmico). A Figura 9 representa, esque-
maticamente, as trocas de energia em uma bom-
ba de calor genérica (refrigerador ou aquecedor
termodinâmico).

UNIDADE 8 307
Compressor

quente
Bomba de
Fonte

Fonte
Qf Qq
fria

calor

Figura 9 - Diagrama de uma bomba de calor


Fonte: o autor.

Nas bombas de calor, temos:


• Qq < 0 — a bomba cede calor à fonte quente.
• Q f > 0 — a bomba recebe calor da fonte fria.
• t < 0 — a bomba recebe energia na forma de trabalho (compressor).

Pelo princípio da conservação da energia, aplicado a um ciclo, vamos obter: Q f  t  Qq

Nessa igualdade entre a energia recebida e a energia cedida, as variáveis que apare-
cem em módulo se referem a determinada quantidade (positiva) de energia, pois, de
acordo com as convenções de calor e trabalho, elas são negativas.

Eficiência  e 

Nas bombas de calor, o termo rendimento é substituído pelo termo “eficiência”. A


definição é a mesma, ou seja, é a razão entre a quantidade de energia útil obtida
( Q f ou Qq dependendo do tipo de bomba) e a quantidade de energia fornecida
(no caso, t ).

Refrigerador

A Figura 10 representa, esquematicamente, as trocas de energia em um refrigerador.


O interior do refrigerador é mais frio que o ambiente externo. Utilizando o trabalho

308 Máquinas Térmicas


mecânico do compressor, a parte interna (mais fria) consegue transferir calor para
parte externa (mais quente).

Compressor

Interior τ Atmosfera
da geladeira

quente
Bomba de
Fonte

Fonte
Qf Qq
fria

calor

Figura 10 - Diagrama de uma bomba de calor funcionando como refrigerador


Fonte: o autor.
Se as paredes da geladeira fossem perfeitamente isolantes, não haveria a necessidade
contínua desse bombeamento de calor para fora. A necessidade surge pelo fato de não
haver o isolante perfeito. O ambiente, que está mais quente que o interior da geladeira,
transfere naturalmente calor à sua parte interna. Esse calor precisa ser bombeado de
volta para fora, a fim de manter baixa a temperatura interna (fonte fria).

Eficiência do refrigerador erefrig.  


No refrigerador, a quantidade de energia na forma de calor que a bomba de calor

Q
 
consegue retirar do interior da geladeira Q f é a parcela útil. Portanto, podemos
Q
escrever: εrefrig . = f ou, ainda, em termos de porcentagem εrefrig ,  f 100% .
τ τ

Um aspecto interessante é que na maioria dos refrigeradores, mesmo nos de baixo


desempenho, observa-se que a quantidade de calor retirada é maior que a quantidade
de energia fornecida na forma de trabalho. Assim, a eficiência é maior que 100%.
Isso não contraria, de forma alguma, o princípio da conservação da energia, pois o
trabalho mecânico é apenas um agente que direciona o fluxo de calor do mais frio
para o mais quente.

UNIDADE 8 309
Aquecedor termodinâmico

Um refrigerador doméstico refrigera os alimentos que estão na sua parte interna, mas
em compensação, aquece o ambiente externo a ele. Se no lugar da parte interna do
refrigerador, imaginarmos a atmosfera, e no lugar de sua parte externa, um ambiente
fechado qualquer (quarto, sala etc.) fica possível, em um dia frio, bombear calor da
atmosfera para um ambiente fechado, com eficiência superior a 100%.
A situação descrita é equivalente à de um aparelho de ar condicionado funcio-
nando ao contrário (muitos até funcionam).

Compressor

Atmosfera τ Interior de
um quarto

quente
Bomba de
Fonte

Fonte
Qf Qq
fria

calor

Figura 14 - Diagrama de uma bomba de calor funcionando como aquecedor termodinâmico


Fonte: o autor.

Eficiência do aquecedor termodinâmico eaquec  


Qq
A eficiência do aquecedor termodinâmico é dada por: εaquec. = ou, em termos
τ
Qq
de porcentagem, por εaquec.  100% .
τ

Como Qq  Q f  t , a expressão da eficiência pode ser escrita como:

Qf  τ Qf
ε   1 , logo, para uma mesma bomba de calor, operando ou como
τ τ

aquecedora, ou refrigeradora, vamos observar: eaquec.  erefrig . 1 .

310 Máquinas Térmicas


Fica claro, por essa última relação, que a eficiência do aquecedor termodinâmico
é sempre maior ou igual à unidade.
• Eficiência de Carnot (Bombas de calor)
Assim como observamos nos motores térmicos, para as bombas de calor, a
máxima eficiência, entre duas temperaturas, é determinada quando elas ope-
ram segundo o ciclo de Carnot. Nesse ciclo, vimos que: Q f = T f .
Qq Tq

Nenhuma bomba de calor cíclica, que opere entre duas temperaturas, possui
eficiência maior que a bomba de Carnot.

• Eficiência do refrigerador de Carnot


Para um refrigerador, temos Qq  t  Q f , logo t  Qq  Q f .

Qf
A eficiência do refrigerador é: ε = e como t  Qq  Q f , substituindo-
τ
Qf
-se obtemos: e  , mas como as quantidades de calor trocadas são
Qq  Q f

Tf
proporcionais às temperaturas absolutas, vamos obter: erefrig .  .
Tq  T f

• Eficiência do aquecedor termodinâmico de Carnot


Assim como no refrigerador, para o aquecedor termodinâmico também
observamos que: Qq  t  Q f , logo t  Qq  Q f .

Qq
A eficiência do aquecedor é: ε = e como t  Qq  Q f , substituindo-se
τ
Qq
obtemos e  , mas como as quantidades de calor trocadas são pro-
Qq  Q f
Tq
porcionais às temperaturas absolutas, vamos obter: eaquec.  .
Tq  T f

Comparando-se a eficiência do refrigerador com a do aquecedor termodi-


nâmico, vamos confirmar um resultado já discutido anteriormente, em que
erefrig .  1  eaquec.

UNIDADE 8 311
4 EXEMPLO Uma bomba de calor opera de forma que a temperatura da fonte fria é de -13 ºC;
enquanto a da fonte quente é de 300 K.
Quais são as máximas eficiências dessa bomba se ela estiver operando como um
refrigerador e como um aquecedor termodinâmico?

Resolução

Temos:

Funcionando como refrigerador, essa bomba terá uma eficiência máxima dada por:
Tf 260
erefrig .  , logo erefrig .   erefrig .  650%
Tq  T f 300  260

Funcionando como aquecedor termodinâmico, a eficiência é: eaquec.  erefrig . 1 ,


logo eaquec. = 750% .

Com esta unidade, você aprendeu a avaliar o rendimento das máquinas térmicas
e relacionar a limitação do rendimento em virtude da temperatura da fonte fria.
Compreendeu porque, com fontes mais quentes, podemos obter máquinas de maior
rendimento.
Você pôde manipular as leis da termodinâmica para entender os ciclos mais comuns
nos motores a combustão de nosso dia a dia, como o motor Diesel e o motor a gasolina.
Os conceitos permitiram a você relacionar os aparelhos de refrigeração, como
condicionadores de ar e geladeiras, com os ciclos termodinâmicos e prever seus ren-
dimentos.
Finalmente, vimos que os aquecedores termodinâmicos são muito mais eficazes que
os processos com resistores e aprendemos a mensurar a eficiência desses aparelhos.

312 Máquinas Térmicas


Você pode utilizar seu diário de bordo para a resolução.

1. Um gás ideal apresenta uma evolução cíclica conforme mostra o diagrama a seguir:

p
A B
pA = pB

pC C

D
0 VA VB VC = VD V

Sendo BC uma evolução adiabática e DA uma evolução isotérmica, a alternativa


que apresenta o fenômeno correto é:
a) Na evolução AB, o trabalho realizado pelo gás é nulo.
b) Na evolução BC, o gás recebe calor do meio exterior.
c) Na evolução CD, a energia interna do gás não se altera.
d) Na evolução DA, o gás esfria.
e) No ciclo ABCDA, o gás realiza trabalho.

2. Uma máquina térmica, ao realizar um ciclo, retira 2 kcal de uma “fonte quente”
e libera 1,8 kcal para uma “fonte fria”. O rendimento dessa máquina é de:
a) 0,2%.
b) 1%.
c) 2%.
d) 10%.
e) 20%.

313
3. Uma máquina refrigeradora retira, a cada 2 segundos, 4 kJ do congelador, envian-
do para o ambiente 5 kJ. Qual é a potência do compressor da geladeira, em kW?
a) 0.5.
b) 5.
c) 2.
d) 1.
e) 0.8.

4. Uma máquina térmica ideal funciona segundo o ciclo de Carnot. Em cada ciclo,
o trabalho útil fornecido pela máquina é de 2000 J. As temperaturas das fontes
quente e fria são, respectivamente, 127 °C e 27 °C. A quantidade calor rejeitada
para a fonte fria é:
a) 6000 J.
b) 4000 J.
c) 7000 J.
d) Zero.
e) 5000 J.

314
5. Um técnico afirma que o rendimento de determinada turbina a vapor é de
exatamente 16%. A fornalha que alimenta a turbina possui temperatura cons-
tante de 227 ºC, enquanto que o ambiente para onde o calor é rejeitado possui
temperatura de 27 ºC. Podemos concluir, então, que:
a) O técnico está enganado, pois o rendimento da máquina deve ser de 80%.
b) O técnico está enganado, pois o rendimento da máquina deve ser de 40%.
c) O técnico está enganado, pois o rendimento da máquina deve ser de 30%.
d) O técnico está enganado, pois o rendimento da máquina pode ser, no máximo, 10%.
e) O rendimento máximo que a turbina poderia ter seria de 40%.

6. Um folheto explicativo sobre uma máquina térmica afirma que ela, ao receber
1000 cal de uma fonte quente, realiza 4186 J de trabalho. Sabendo que 1 cal
equivale a 4,186 J e com base nos dados fornecidos pelo folheto, você pode
afirmar que essa máquina:
a) Viola a 1º Lei da Termodinâmica.
b) Viola a 2º Lei da Termodinâmica.
c) Possui um rendimento nulo.
d) Possui um rendimento de 10%.
e) Funciona de acordo com o ciclo de Carnot.

315
WEB

Ciclo Diesel e Gasolina (Otto)


Ótimo vídeo, indicando de forma detalhada todos os estágios do ciclo de um
motor a combustão interna e a função das válvulas. O vídeo destaca as diferenças
entre os ciclos Diesel e Otto (gasolina, gás ou álcool). Mostra o que faz a vela no
ciclo Otto e o porquê do ciclo Diesel não precisar de velas. Compara também
as taxas de compressão nos dois tipos de motores.
É interessante destacar que a “borboleta” apresentada no vídeo já não existe
mais nos motores com injeção eletrônica, e que a injeção direta presente na
maioria dos motores Otto atuais faz com que seus ciclos se assemelhem ao ciclo
Diesel, evitando a chamada pré-ignição.
Para acessar, use seu leitor de QR Code.

316
FEYNMANN, R.; LEIGHTON, R.; SANDS, M. Lições de Física de Feynman. Porto Alegre: Artmed, 2008.
Volume 3.

GUIMARÃES, O.; PIQUEIRA, J. R. C.; CARRON, W. Física - Projeto múltiplo 3V. São Paulo: Ática, 2014.

GUIMARÃES, O.; CARRON, W. As faces da Física. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2006.

HALLIDAY, D.; RESNICK, R. Fundamentos de Física. 3. ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos,
1994. Volume 4.

OKUNO, E.; CALDAS, I. L.; CHOW, C. Física para ciências biológicas e biomédicas. São Paulo: Harbra, 1982.

YOUNG, H. D.; FREEDMAN, R. A. Física. 12. ed. São Paulo: Addison Wesley, 2009.

317
1. E.

Vejamos cada uma das fases do ciclo:

AB - Isobárica - Aquecimento: o gás recebe calor e realiza trabalho.

BC - Adiabática - Expansão - O calor trocado é nulo e gás realiza trabalho.

CD - Isométrica - Resfriamento - O gás cede calor e otrabalho é nulo. A temperatura é constante.

DA - Isotérmica - Compressão - O gás recebe trabalho e cede calor, mas a energia interna é constante.

2. D.

Em um ciclo  t   Q , logo, em cada 2 s, temos:


+4000 − 5000 = τ → τ = −1000 J (O gás recebe trabalho do compressor)
A potência é: .

3. A.
Tq  T f 100
O rendimento do ciclo de Carnot é: h   0, 25 .
Tq 273  127
τ
Como η= , temos .
Qq
4.

Como (em módulo).

5. E.
Tq  T f 200
O rendimento do ciclo de Carnot é: h   0, 4  40% .
Tq 273  227
Esse é o rendimento máximo que poderia ter a turbina.

6. B.

Como 1000 cal = 4186 J , essa máquina está convertendo integralmente calor em trabalho. Isso não

viola a 1ª Lei da Termodinâmica, mas viola a 2ª.

318
319
320
Dr. José Osvaldo de Souza Guimarães

Óptica Geométrica

PLANO DE ESTUDOS

Refração da luz Óptica da Visão

Espelhos planos
Lentes esféricas
e esféricos

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

• Verificar que apenas com o Princípio da propagação re- • Compreender o funcionamento das lentes esféricas e as re-
tilínea podemos estudar a Óptica usando ferramentas lações entre as posições de objeto e imagem, assim como
simples da geometria e a Lei da Reflexão. o aumento visual, a partir do conhecimento da refração.
• Conceituar a refração, compreender o funcionamento das • Visualizar o funcionamento do olho humano como um
lentes esféricas e as relações entre as posições de objeto sistema óptico. Saber prever o “grau” das lentes usadas
e imagem, assim como o aumento visual. nas correções das ametropias.
Espelhos Planos
e Esféricos

Interagimos com o mundo à nossa volta por meio


dos nossos sentidos. Através dos tempos, o sen-
tido da visão se mostrou, ao homem, como um
dos mais valiosos, por exemplo, lemos com muito
mais rapidez do que ouvimos.
A importância da óptica não se restringe à Fí-
sica. Na verdade, a observação de vários fenôme-
nos de outros ramos do conhecimento humano
depende dela: nossa concepção de Universo evo-
luiu com o surgimento dos telescópios; a Biologia
transpôs várias barreiras com o advento do mi-
croscópio; a qualidade de vida deu um salto com
o aprimoramento dos óculos.
Nos meios homogêneos, a luz se propaga em
linha reta, mas ao atingir a fronteira entre dois
meios, parte da luz é refletida – reflexão da luz – e
parte é refratada – refração da luz.
A reflexão da luz se processa obedecendo a de-
terminadas leis. Conhecendo-se o raio incidente
e a superfície em que ele vai incidir, essas leis nos
permitem prever como será o raio refletido.
Leis da Reflexão

O fenômeno da reflexão luminosa ocorre quando um raio de luz incide na superfície


de separação de dois meios e retorna ao meio de origem.

N R N R

P P

i r i r

I Superfície I Superfície
refletora refletora
plana curva

Figura 1 - Reflexão de um raio de luz numa superfície plana e numa superfície curva
Fonte: o autor.

A reflexão luminosa de um raio de luz obedece a duas leis:


• O raio incidente, o raio refletido e a normal à superfície no ponto de incidência
estão no mesmo plano.
• A medida do ângulo de incidência (i ) é igual à medida do ângulo de reflexão
 r , ou seja, i = r .

As leis da reflexão luminosa são válidas tanto para superfícies lisas quanto para
rugosas. No segundo caso, devido à irregularidade da superfície, a reta normal, ponto
a ponto, varia bruscamente de direção. Esse fato faz com que a luz se reflita em todas
as direções. A reflexão difusa é responsável pela nossa visão dos objetos iluminados.
Nas superfícies li-
Plano de
sas – planas ou não incidência
– existe regularidade Normal
na direção da luz re-
fletida; por isso elas
não são convenientes
para a difusão da luz, i r

mas adequadas para a


obtenção de espelhos,
onde a luz refletida é Figura 2 - Reflexão da luz com destaque para o plano de incidência
direcionada. Fonte: o autor.

UNIDADE 9 323
Espelho Plano - Construção do Raio Refletido

Para conhecer as propriedades das imagens conjuga-


das pelos espelhos planos, comecemos por elaborar
P um processo que nos permita obter um raio de luz
r
 i refletido por esse sistema óptico. Na Figura 3, consi-
deremos um raio de luz partindo do ponto 0 para, em
d I seguida, atingir o espelho.
Primeiramente, devemos obter o ponto simétrico
M
do ponto P, em relação ao plano do espelho (P’). Pon-
tos simétricos em relação a um plano encontram-se
d 
numa mesma perpendicular a esse plano e, além disso,
P` são equidistantes desse mesmo plano. Desenhado o
Figura 3 - O raio refletido emerge como se proviesse de P’ raio incidente PI, representamos o raio refletido como
Fonte: o autor. se ele se originasse no ponto P’ e passasse pelo espelho
no ponto I (ponto de incidência).
Resumindo: tomamos o ponto P’, simétrico de P, e desenhamos o raio refletido
como se a luz proviesse dele. Para garantir a validade desse procedimento, vamos
mostrar que ele está totalmente de acordo com as leis da reflexão luminosa.
Os triângulos PIM e P’ IM são congruentes (LAL: lado, ângulo, lado); logo, β = α.
=
Como i β= e r α (ângulos alternos internos), fica provado que, usando esse pro-
cesso, a medida do ângulo de incidência é igual à medida do ângulo de reflexão.

Simetria

A vantagem do método que acabamos de descrever apa-


rece quando queremos desenhar vários raios refletidos,
provenientes do ponto objeto (P), vértice da luz incidente.
P
Vemos que o ponto P’ é o vértice virtual dos raios refle-
d tidos (emergentes do espelho), portanto, P’ é a imagem
Simetria

que o espelho conjuga de P.


Obtido o ponto simétrico de P, podemos facilmente
d
traçar vários raios refletidos.
Assim, nos espelhos planos, o ponto objeto e seu res-
P’
Figura 4 - Raios refletidos
pectivo ponto imagem são simétricos em relação ao pla-
Fonte: o autor. no do espelho, ou seja, são equidistantes do espelho e con-
tidos numa mesma perpendicular ao plano do espelho.

324 Óptica Geométrica


Imagem do Objeto Extenso

Um objeto extenso é um conjunto de pontos; portanto, para a construção da imagem


de um objeto extenso, usamos a propriedade da simetria, ponto por ponto. Considere,
por exemplo, o objeto extenso AB diante de um espelho plano, conforme figura se-
guinte. Para construir a imagem de AB, aplicamos a propriedade da simetria, obtendo
A’ e B’, extremos da imagem.

A
B
A A’

A’
B B’

B’
Figura 5 - Construção da imagem de um objeto extenso
Fonte: o autor.

Nos espelhos planos, o objeto e a imagem possuem sempre as mesmas dimensões,


independentemente da distância que o objeto esteja do espelho. Entretanto, imagens
mais distantes do observador são vistas sob ângulo visual menor. Da mesma forma,
quando um carro vai se afastando de um observador, ele vai sendo visualizado com
ângulos cada vez menores, mas o seu tamanho real continua o mesmo.

α α

Figura 6 - Observador visualizando duas imagens de mesmo tamanho


Fonte: o autor.

Na Figura 6, o observador vê, sob ângulos de visada diferentes, duas imagens que
têm o mesmo tamanho.

UNIDADE 9 325
Os Espelhos são Invisíveis

Em nossa mente, localizamos a posição de um ponto identificando o vértice do pincel


de luz (real ou virtual) que atinge nossos olhos. Desse modo, quando nos postamos
diante de um espelho, as imagens que o espelho conjuga são objetos para nossos olhos,
mas o espelho em si não é vértice de pincel algum, logo, não o vemos. Os espelhos são
invisíveis. Nós os percebemos apenas pelos contornos de suas arestas, pelas moldu-
ras ou, ainda, quando ele está sujo. A experiência também ajuda: quantas cabeçadas
demos em espelhos na nossa infância? Por essa razão, os ambientes parecem mais
amplos quando têm partes das paredes espelhadas.
Na Figura 7, temos uma pessoa diante de um espelho plano e sua correspondente
imagem, com destaque para dois pincéis que chegam ao olho do observador. Ilustramos
a pessoa vendo as imagens de dois pontos de sua face. O estreito pincel relativo ao ponto
azul, e que vai banhar a pupila do observador, foi representado por apenas um raio.

Figura 7 - Pincéis refletidos


Fonte: o autor.

326 Óptica Geométrica


Reversão

Há um fato importante que devemos considerar: espelhos planos não “invertem”


a imagem. O termo correto que aqui se aplica é reversão. Dito de um modo mais
simples, a imagem corresponde ao avesso do objeto.
Objetos simétricos, como uma pessoa, por exemplo, possuem um lado que é exa-
tamente o avesso do outro em relação ao eixo de simetria. A mão direita corresponde
ao avesso da esquerda, e é assim também com outras partes. Ao vermos a imagem da
mão direita no espelho (que é o avesso da esquerda), nossa mente a identifica com
outra parte do corpo, a mão esquerda. O espelho apenas faz a reversão, mas a troca
direita por esquerda quem faz é a imaginação do observador.
A A’

B B’
Figura 8 – Reversão
Fonte: o autor.

Na Figura 8, o personagem objeto segura a bandeira com a mão esquerda. A imagem


segura a bandeira com o avesso da mão esquerda. Temos alguma mão assim?
Qualquer dimensão do objeto tem a mesma medi-
da que a correspondente dimensão na imagem, mas as
figuras geométricas não são iguais, assim como sapato
do pé esquerdo não é igual ao do direito, embora eles
Escola alocsE
tenham mesmas dimensões.
A reversão fica destacada quando tomamos como
exemplo algumas letras não simétricas de nosso al-
fabeto, conforme ilustra a Figura 9.
Na figura, vemos que o resultado da reversão nos
Figura 9 - Simulando a reversão espelhos pode ser imitado escrevendo-se em uma fina
Fonte: o autor.
folha de papel para depois olhá-la pela parte de trás.

UNIDADE 9 327
OS ESPELHOS
Por Umberto Eco

Diante do espelho não se deveria falar de inversão, mas de absoluta congruên-


cia; a mesma que se verifica quando pressiono um mata-borrão sobre uma
folha em que acabei de escrever a tinta. Que depois eu não consiga ler o que
ficou impresso no mata-borrão (a não ser usando um espelho, isto é, recor-
rendo à congruência de uma congruência, como acontece com os espelhos
laterais contrapostos no banheiro), tudo isso tem a ver com meus hábitos de
leitura, não com a relação de congruência. Sinal de que a espécie humana
teve milhares de anos a mais para aprender a ler os espelhos do que para
aprender (à exceção de Leonardo) a ler mata-borrões. Os quais, repito, mos-
tram escritos ao contrário se os confrontarmos com as regras gramatológicas,
mas, se os considerarmos como impressões in atto, registram os sinais da tinta
exatamente onde esses se apoiam sobre sua superfície.
A espécie humana já sabe usar os espelhos, exatamente porque sabe que
não há um homem no espelho e que aquele a quem se deve atribuir esquerda
e direita é o que olha, e não aquele (virtual) que parece olhar o observador.
(...) Quanto à imagem virtual, é assim chamada porque o espectador a
percebe como se ela estivesse dentro do espelho, quando o espelho, obvia-
mente, não tem um “dentro”. Mais curiosa ainda é a definição pela qual a
imagem especular seria invertida, ou simétrica, ou - como se diz vulgarmente
- de simetria inversa. Tal opinião (de que o espelho ponha a direita no lugar
da esquerda e vice-versa) é tão arraigada que alguém até insinuou que os
espelhos têm essa curiosa propriedade, a de trocar a direita pela esquerda,
mas não o alto pelo baixo. A catóptrica não autorizaria certamente essa con-
clusão: se em vez de estarmos habituados com espelhos verticais fizéssemos
uso constante de espelhos colocados horizontalmente no teto, como fazem
os libertinos, nos convenceríamos de que os espelhos também trocam o alto
pelo baixo, mostrando-nos um mundo de cabeça para baixo.
Mas o ponto é que nem mesmo os espelhos verticais invertem ou embor-
cam. O espelho reflete a direita exatamente onde está a direita, e a esquerda
exatamente onde está a esquerda. É o observador (ingênuo, mesmo quando
físico por profissão) que, por identificação, imagina ser o homem dentro do
espelho, e olhando-se percebe que usa, por exemplo, o relógio no pulso di-
reito. O fato é que o usaria se ele, o observador, fosse aquele que está dentro
do espelho (Je est un autre!). Quem, ao contrário, evita comportar-se como
Alice e não entra no espelho, não sofre essa ilusão.

Fonte: Eco (1989, p. 14).


1 EXEMPLO Um observador, munido de um espelho plano vertical que se situa a 0,4 m de seus
olhos, visualiza integralmente a imagem de um prédio AB de 30 m de altura. A dis-
tância do prédio até o espelho é de 59,6 m. O plano vertical que contém os pontos
AB da fachada do prédio e o plano vertical que contém o espelho e o observador O
estão representados na vista lateral dessa situação.
59,6 m 59,6 m

A 0,4 m A’

O O’
Q

B B’

a) Qual é a distância entre o observador e a imagem da fachada?


b) Por semelhança de triângulos, determine a dimensão vertical mínima que
deve ter o espelho para permitir a visão integral da imagem.
c) A resposta do item anterior depende da altura do observador? Que mudanças
devemos esperar na resolução se o observador for mais alto ou mais baixo?
d) Se em vez de considerar a imagem do prédio, considerarmos a imagem do
observador, a que distância ela está da fachada do prédio (objeto)? Os pontos
encontrados referentes às bordas do espelho seriam diferentes?

Resolução
a) Pela figura, temos:
b) A figura ilustra o espelho plano de dimensão mínima e colocado na posição
conveniente. Não sobra e nem falta espelho tanto na borda inferior, quanto
na borda superior.
Os triângulos OPQ e OA’B’ são semelhantes, logo:
0, 4 60 , portanto
=
PQ A ' B '

UNIDADE 9 329
c) Não. Não depende da altura do observador. A semelhança dos triângulos
continua válida, mas a posição do espelho deve ser mais alta ou mais baixa,
conforme o observador seja mais alto ou mais baixo, respectivamente.
d) Pelo princípio da reversibilidade, a distância entre a imagem do observador e
o objeto é idêntica à distância entre o observador e o objeto. Note, nessa figura,
a reversibilidade dos raios luminosos. O mesmo traçado dos raios nos mostra
o observador vendo a imagem, enquanto também mostra que a imagem do
observador vê o objeto, logo, os pontos determinados são os mesmos.

2 EXEMPLO Um estudante de cartola está defronte a um espelho plano vertical a uma distância
d. Do extremo superior da cartola até os pés, a altura é de 2,00 m, e dos olhos do
estudante até o solo, a distância é de 1,60 m. Considere tanto a ponta dos pés, como
o extremo superior da cartola, como também o olho do observador situados num
mesmo plano vertical.
A figura ilustra a situação descrita, com o traçado de alguns raios de luz.

A A’
M

O O’
x
2,0 m

1,60 m

N
y

B P B’
d d

a) Qual é a dimensão vertical mínima que deve ter o espelho para que a imagem
seja vista integralmente?
b) Considerando que esteja sendo utilizado o espelho de dimensão mínima, a
que distância do solo deve se situar a sua borda inferior?
c) Neste caso, em que o objeto é o próprio observador, as respostas dos dois itens
anteriores dependem da distância do objeto ao espelho?

330 Óptica Geométrica


Resolução
a) Suponhamos o espelho colocado na posição conveniente. A dimensão que
procuramos determinar deve ser tal que não sobre e nem falte espelho tanto
na borda inferior quanto na borda superior.
A semelhança entre os triângulos OMN e OA’B’ nos permite escrever:

hMN hAB
= , portanto (metade de 2,0 m).
MN AB

b) Observando que o triângulo OBB’ é semelhante ao triângulo NPB’, temos:

(metade de 1,60 m).

c) Como vemos, as respostas não dependem da distância do observador ao


espelho  d , mas cuidado! Isso só é válido nesse caso particular.

Elementos dos Espelhos Esféricos

De acordo com a geometria da superfície espelhada, temos diferentes tipos de es-


pelhos, é assim que temos espelhos planos, cônicos, parabólicos, esféricos etc. Nos
instrumentos ópticos em geral, são de grande aplicação os espelhos esféricos. Na
Figura 10, vemos como obter um espelho esférico.

Figura 10 - Obtenção da calota esférica cortando-se uma superfície esférica com um plano
Fonte: o autor.

Esse tipo de espelho é construído fazendo-se o espelhamento de uma calota esférica.


Quando o espelhamento é feito na superfície interna da calota, o espelho esférico
se denomina côncavo (com cavidade); quando é feito na superfície externa, o
espelho esférico é convexo.

UNIDADE 9 331
a) b)

Figura 11 - (a) Espelho côncavo e seu esquema bidimensional. A parte espelhada é interna à calota.
(b) Espelho convexo e seu esquema bidimensional. A parte espelhada é externa
Fonte: o autor.

Observando a Figura 12, vamos destacar os seguintes elementos de um espelho esférico.


a) b)

eixo
ário secundá
und rio
eixo sec

C eixo principal eixo principal C


α α

R R

Figura 12 – Elementos dos espelhos esféricos - (a) Côncavo e (b) Convexo


Fonte: o autor.

• C – Centro de curvatura. É o centro da superfície esférica que deu origem ao


espelho.
• V – Vértice. É o centro geométrico da calota esférica.
• R – Raio da superfície esférica.
• CV – Eixo principal. A superfície esférica tem simetria radial, assim, qualquer
reta que contenha o centro da superfície esférica é um eixo dessa superfície.
O eixo que contém o vértice é o eixo principal; outros quaisquer são eixos
secundários.
• a – Abertura do espelho. Medida do ângulo central correspondente à calota.

332 Óptica Geométrica


Reta Normal

Uma propriedade importante e bastante


explorada nos espelhos esféricos se re-
N3
fere à reta normal.
Qualquer reta normal a uma super-
C N1
fície esférica contém o centro de curva-
tura dessa superfície.
Assim, como dois pontos distintos
determinam uma reta, se queremos tra-
çar a reta normal à superfície esférica
N2
em determinado ponto, basta conduzir
por esse ponto uma reta que contenha Figura 13 - Retas normais a uma superfície esférica
Fonte: o autor.
o centro de curvatura.

Condições de Nitidez

Um sistema óptico é estigmático quando para cada ponto objeto ele conjuga um
único ponto imagem. Quando isso não acontece, o sistema é astigmático e a imagem
de um ponto não é exatamente um ponto, mas sim uma mancha. Nessas condições,
vemos as imagens “borradas” e dizemos que estão sem nitidez.
O único sistema óptico exatamente estigmático para qualquer posição do ponto
objeto é o espelho plano. Outros sistemas só são estigmáticos para algumas posições
particulares do ponto objeto ou, ainda, aproximadamente estigmáticos, dentro de
determinadas condições, chamadas condições de nitidez.
Nos espelhos esféricos, as condições de nitidez, chamadas condições de nitidez
de Gauss, são:
• Os raios luminosos que atingem o espelho devem ser paralelos ou pouco
inclinados em relação ao eixo principal.
• Os raios luminosos devem incidir próximos do vértice, ou seja, a região útil
do espelho deve ter, no máximo, 10º (abertura).

As dimensões de um espelho, que obedece às condições de nitidez de Gauss, são muito


pequenas em relação ao seu raio de curvatura. Visualmente, os espelhos dentro dessas
condições nos parecem praticamente planos. Por isso, é comum optarmos por uma redução
na escala horizontal, favorecendo a visualização e a precisão no traçado dos raios. Desta-
camos a curvatura apenas nas bordas, a fim de denotar se o espelho é côncavo ou convexo.

UNIDADE 9 333
C C

V V

Figura 14 - (a) O espelho esférico nas condições de Gauss e sua representação com distorção nas
escalas (b) para permitir a construção estigmática das imagens
Fonte: o autor.

Raios Notáveis

Centro de curvatura (C) – Propriedade 1


Qualquer reta que contenha o centro de uma superfície esférica é normal (perpen-
dicular ao plano tangente) à essa superfície. Assim, quando um raio incidente (ou
seu prolongamento) contém o centro de curvatura, esse raio coincide com a reta
normal à superfície no ponto de incidência; dessa forma, o ângulo de incidência é
i = 0o. Como i = r (lei da reflexão), o raio refletido (ou seu prolongamento) também
contém o centro de curvatura.
Côncavo Convexo

C V V C

Figura 15 - Propriedade 1 – Centro de curvatura


Fonte: o autor.

• Propriedade 1: raio incidente (ou prolongamento) que contenha o centro de


curvatura é refletido sobre a mesma reta que contém o raio incidente.

Vértice (V) – Propriedade 2


A reta normal ao espelho no vértice é o próprio eixo principal. Como o raio inci-
dente e o raio refletido são simétricos em relação à reta normal, quando um raio de
luz incide no vértice, o raio refletido é simétrico a ele, em relação ao eixo principal.

334 Óptica Geométrica


Côncavo Convexo

θ θ
C θ V θ V C

Figura 16 - Propriedade 2 – Vértice


Fonte: o autor.

• Propriedade 2: raio que incide no vértice tem como raio refletido o seu
simétrico em relação ao eixo principal.

Foco principal (F) – Propriedades 3 e 4


O foco principal de um espelho esférico está no ponto médio entre o centro de curva-
tura e o vértice do espelho. A distância entre o foco e o vértice do espelho é chamada
de distância focal  f  . Portanto, f = R
2
Raios que incidem no espelho paralelamente ao eixo principal são refletidos sobre
uma reta que passa pelo foco. Como esse foco se refere à luz emergente do sistema
óptico, ele é chamado de foco imagem.

Côncavo Convexo

C F V V F C

ƒ ƒ

R
ƒ=
2

Figura 17 - Propriedade 3 – Foco imagem. (a) Foco imagem real. Espelho convergente. (b) Foco
imagem virtual. Espelho divergente.
Fonte: o autor.

• Propriedade 3: os raios luminosos que incidem paralelamente ao eixo prin-


cipal são refletidos passando (ou prolongamento) pelo foco.

UNIDADE 9 335
Usando o princípio da reversibilidade, vemos que os raios incidentes que estejam sobre
uma reta que contém o foco principal são refletidos paralelamente o eixo principal.
Como esse foco se refere à luz incidente, ele é o foco objeto. Nos espelhos esféricos,
o foco objeto e o foco imagem coincidem.
(a) Foco objeto real (b) Foco objeto virtual
Côncavo Convexo

C F V V F C

Figura 18 - Propriedade 4 – Foco objeto


Fonte: o autor.

• Propriedade 4: os raios luminosos que incidem passando (ou prolongamento)


pelo foco principal são refletidos paralelamente ao eixo principal.

Observação: as propriedades 1 e 2 são válidas mesmo fora das condições de Gauss,


mas as do foco não são. Isso justifica a necessidade de representar os espelhos gaus-
sianos como estamos fazendo.

A Distância Focal é Metade do Raio de Curvatura

Para mostrar que a distância focal é


metade do raio de curvatura do es-
P
pelho, vamos considerar o esquema I
i
seguinte, em que o espelho está fora
r
das condições de Gauss, somente para θ
melhor identificação dos raios. C F V
ƒ
Nesse esquema, observamos que:

• A semirreta PI é, por hipóte-
se, paralela ao eixo do espelho

CV . R
• i = r Lei da reflexão da luz.
Figura 19 - Raio que emerge pelo foco principal
• q = i ângulos alternos internos. Fonte: o autor.

336 Óptica Geométrica


Como i = r , temos q = r.
O triângulo CFI é isósceles, logo CF = FI.
Nas condições de Gauss, o ângulo θ é tal que θ < 5º e o esquema seguinte seria um
pouco mais fiel às proporções entre os segmentos.
A
I

C F
V

Figura 20 - Representação do raio focal com proporção melhor


Fonte: o autor.

Nessa condição FI ≅ FV , mas como FI = CF , concluímos que CF = FV , ou seja,


F é ponto médio do segmento CV , logo f = R .
2

Cáustica de Reflexão

Fora das condições de Gauss, os


espelhos esféricos não são estig-
máticos. Se consideramos, por
Cáustica
exemplo, um pincel incidente ci-
líndrico (ponto objeto impróprio)
C F
incidindo em um espelho cônca-
vo não gaussiano, obtemos como
imagem um conjunto de pontos
formando uma mancha curva e
simétrica denominada cáustica de reflexão. A origem do termo cáustica provém do
fato de que essa região fica mais quente (causticante) que as restantes quando o espelho
é postado contra o Sol. O ápice da cáustica (F) é onde há maior concentração de raios
refletidos. Um pequeno objeto aí colocado pode vir a pegar fogo. Daí o termo foco.

UNIDADE 9 337
Figura 21 - Construção gráfica e fotografia de um espelho côncavo fora das condições de nitidez
Fonte: o autor.

Construção de Imagens

O ponto imagem em relação a um sistema óptico é o vértice (real, virtual ou im-


próprio) da luz que emerge desse sistema. Se temos, então, um ponto objeto A, por
exemplo, uma pequena lâmpada, temos o vértice da luz incidente. Utilizando duas
quaisquer das seis propriedades que vimos, podemos obter dois raios emergentes.
O ponto de encontro desses dois raios (real, virtual ou impróprio) é o vértice da luz
emergente e, portanto, o ponto imagem A’.
Fica, entretanto, uma pergunta: será que, utilizando propriedades diferentes, encontra-
mos sempre o mesmo ponto imagem? A resposta é sim. Desde que o espelho esteja nas
condições de estigmatismo (condições de Gauss). A figura seguinte ilustra a obtenção do
ponto imagem A’ e o uso das quatro primeiras propriedades. Qualquer par de propriedades
de nossa escolha, leva-nos ao mesmo resultado. Geralmente, as mais utilizadas são a 2 e a 3.

θ
C F θ V

A`

Figura 22 - Quatro raios notáveis determinando o mesmo ponto imagem


Fonte: o autor.

338 Óptica Geométrica


Outra observação importante é que os raios incidentes
A não precisam, de fato, atingir o espelho. Usamos os
raios notáveis apenas para determinar a posição da
imagem, mas há uma infinidade de raios que provêm
de A e determinam o ponto imagem A’. Obtida a po-
sição da imagem, podemos até apagar os raios usados
C F V
na sua construção e traçar raios quaisquer. Como o
sistema é estigmático, todo raio luminoso que provém
A` de A e é refletido pelo espelho, emerge desse sistema
óptico passando (ou prolongamento) por A’.
Como você pôde perceber, na Figura 23, os raios
Figura 23 - Pincel genérico que provém do ponto objeto A
Fonte: o autor. notáveis usados na determinação do ponto imagem
(A’) foram retirados do desenho.
Ao construir imagens de objetos extensos, podemos (devemos) usar mais três
propriedades que facilitam muito o processo.
• Se o objeto é retilíneo, a imagem também é retilínea.
• Se o ponto objeto está sobre o eixo principal, o ponto imagem correspondente
também está sobre esse eixo.
• Se o objeto está disposto perpendicularmente ao eixo principal, a imagem
também está disposta perpendicularmente a esse eixo.

Imagens no Espelho Côncavo

Vamos considerar um objeto postado com sua base sobre o eixo principal. À me-
dida que deslocamos um objeto sobre o eixo, vamos obtendo diferentes imagens.
Os pontos C, F e V sobre o eixo delimitam quatro intervalos de possibilidades para
a posição do objeto, além, é claro, das possibilidades de o objeto estar exatamente
sobre os pontos.
A

As figuras seguintes ilustram todas es-


C F V sas possibilidades e as características da
imagem referentes a cada uma delas.
A`

Figura 24 - Objeto aquém do centro de curvatura


Fonte: o autor.

UNIDADE 9 339
A

Em relação ao objeto, a imagem é me-


nor e invertida. Sua natureza é real.
Observe que, embora a imagem seja
C F V
invertida, ela não é revertida, pois a
mão direita do objeto ainda corres-
ponde à mão direita da imagem.
A`
Figura 25 - Objeto exatamente sobre o centro de curvatura
Fonte: o autor.
A

Em relação ao objeto, a imagem é do


C F V mesmo tamanho e invertida. Sua na-
tureza é real.

A`

Figura 26 - O objeto está entre os pontos C e F do eixo principal


Fonte: o autor.
A

Em relação ao objeto, a imagem é


C V
maior e invertida. Sua natureza é real.

A`(∞)
A`
Figura 27 - Objeto exatamente sobre o foco principal
A Fonte: o autor.

C F V
A imagem é imprópria.
simétrico de A

Figura 28 - O objeto está entre os pontos F e V


Fonte: o autor.

340 Óptica Geométrica


Em relação ao objeto, a imagem
é maior e direita. Sua natureza
é virtual; embora seja direita, a
imagem é revertida.
Esse arranjo é utilizado no
chamado espelho de aumento,
comumente usado para reto-
ques de maquiagem.
Veja, na Figura 29, um exem-
plo de espelho côncavo funcio-
nando como espelho de au-
mento. Se o objeto não estiver
em plano paralelo ao espelho, a
imagem não é geometricamente
semelhante ao objeto.

Figura 29 - Espelho côncavo utilizado


para obter imagem ampliada

Imagens no Espelho
Convexo
A

Para objetos reais, o espelho convexo A`

conjuga sempre uma imagem que, em


V F C
relação ao objeto, é direita e menor.
Sua natureza é virtual. Além disso,
simétrico
essa imagem estará sempre entre o de A
foco e o vértice do espelho convexo.
Figura 30 - Imagem de um objeto real conjugada por
um espelho convexo
Fonte: o autor.

UNIDADE 9 341
Retrovisor convexo

Esse esquema é utilizado no retrovisor oposto ao lado do motorista nos automóveis


ou em retrovisores de motocicletas para propiciar maior campo visual.
Para objetos reais, a imagem conjugada pelo espelho convexo é sempre menor,
virtual e direita; portanto, se a imagem de um objeto real conjugada por um espelho
esférico não tiver essas características, podemos, por exclusão, dizer que o espelho é
côncavo. Isto é, com o espelho convexo, o observador tem maior campo visual do que
teria com um espelho plano, embora precise se acostumar para avaliar as distâncias.

3 EXEMPLO 1. Nos esquemas seguintes, construa a imagem de cada um dos objetos AB e


complete as lacunas referentes à natureza (real ou virtual), orientação da
imagem (direita ou invertida) e também seu tamanho em relação ao objeto
(maior, menor ou igual).

342 Óptica Geométrica


a) b) A’
A

B’ F
C B V
F

C B V B’

A’

c)
A

A’

F
B V B’ C

Simétrico
de A

2. Um espelho esférico nas condições de Gauss con-


A
juga, para um objeto real AB, uma imagem tam-
bém real A’B’, conforme ilustra a figura, em que é
mostrado também o eixo principal desse espelho. B’ F
a) Usando a propriedade do vértice, determine, grafi- C B V

camente, a exata posição do vértice desse espelho.


b) Após desenhar o espelho em sua devida posi- S

ção, determine o seu foco principal e o centro de Simétrico de A

curvatura. A’

Resolução
1.
a) Natureza: real. b) Natureza: virtual. c) Natureza: virtual.
Orientação: invertida. Orientação: direita. Orientação: direita.
Tamanho: maior. Tamanho: maior. Tamanho: menor.

UNIDADE 9 343
2.
a) Primeiramente, obtemos o ponto S, simétrico do ponto A em relação ao
eixo principal. Ao ser refletido, o raio que incide no vértice deve passar por
esse ponto. Além disso, o raio refletido que proveio de A deve passar por A’,
imagem de A. Unindo os ponto A’ e S e prolongando esse segmento até que
ele intercepte o espelho, obtemos V.
b) Pela propriedade do centro de curvatura, o ponto objeto, o ponto imagem e o
centro de curvatura estão alinhados. Ligando-se então A a A’, onde o segmento
interceptar o eixo principal, encontra-se o centro de curvatura (C).

Para determinar o foco principal, basta tomar um raio de A que incida paralelo ao
eixo principal. O refletido deve passar por A’. Onde esse raio interceptar o eixo, temos
o foco principal. Outra maneira é determinar o ponto médio do segmento CV.

Referencial de Gauss

• Pontos conjugados
Suponhamos um ponto A e sua imagem A’. Pelo conceito de objeto e imagem,
a luz que emana de A, após ser refletida no espelho, determina A’. Reciproca-
mente, considerando-se o princípio da reversibilidade da luz, se A’ for o objeto,
sua imagem será o ponto A. É por essa razão que os pontos A e A’ são ditos
pontos conjugados. A imagem de um é o outro, a imagem do outro é o próprio.

• Coordenadas dos elementos


Para fazer uma abordagem analítica, ou seja, por equações, das relações entre
os elementos dos espelhos esféricos, as posições devem ser transformadas
em coordenadas de um determinado referencial. A figura seguinte ilustra o
sistema de referência elaborado por Gauss.

F
C ƒ V
y`
A`
p`

Figura 31 - Coordenadas de Gauss


Fonte: o autor.

344 Óptica Geométrica


Na Figura 31, temos:
- p, abscissa do objeto.
- p’, abscissa da imagem.
- f, abscissa focal.
- y, ordenada do ponto objeto.
- y’, ordenada do ponto imagem.

Por simplicidade, muitas vezes as variáveis p, p’ e f são chamadas de distâncias, mas


devemos ter cuidado com essa simplificação, pois elas são grandezas algébricas, ou
seja, podem ser negativas.
Nesse referencial, temos:
- A origem é o vértice do espelho; as abscissas da região onde a luz é incidente
são positivas, e negativas na região oposta.
- As coordenadas localizadas acima do vértice são positivas, e negativas no
caso contrário (no exemplo da figura anterior, temos: y > 0 e y’ < 0).

Como decorrência dessa convenção, para as abscissas consideraremos a seguinte tabela:


Tabela 1 - Convenção de sinais para as coordenadas de Gauss

Natureza real Natureza virtual


Abscissa Positiva Negativa
Abscissa focal f > 0 (côncavo) f < 0 (convexo)
Objeto p>0 p<0
Imagem p’ > 0 p’ < 0

Fonte: o autor.
Côncavo Convexo
ƒ>0 ƒ<0

C F V V F C

ƒ ƒ

Figura 32 - Sinais de f nos espelhos esféricos


Fonte: o autor.

UNIDADE 9 345
Já para as ordenadas, vamos observar:
- se y e y’ têm o mesmo sinal, a imagem é direita.
- se y e y’ têm sinais diferentes, a imagem é invertida.

• Aumento linear transversal


y'
A relação A = é denominada Aumento linear transversal. Em módulo, essa
y
relação nos diz quantas vezes a imagem cabe no objeto. Assim, se A = 2 , isso
significa que a imagem tem o dobro do tamanho do objeto (imagem maior);
1
por outro lado, se A = , isso significa que a imagem tem um terço do tamanho
3
do objeto (imagem menor). Genericamente, podemos observar, então, que:
- Se A > 1, o tamanho da imagem é maior que o do objeto.
- Se A < 1, o tamanho da imagem é menor que o do objeto.
- Se A = 1, a imagem e o objeto têm o mesmo tamanho.

Com relação ao sinal de A, temos:


- Se A > 0, a imagem e o objeto têm a mesma orientação (imagem direita).
- Se A < 0, a imagem e o objeto têm orientações diferentes (imagem invertida).

• Equação dos pontos conjugados

A
M

B` F
B C V
y`
ƒ
N
A` p`

Figura 33 - Coordenadas de Gauss


Fonte: o autor.

A equação dos pontos conjugados nos permite relacionar analiticamente as abscissas


do objeto, da imagem e do foco, no referencial de Gauss.

1 1 1
 
f p p'

346 Óptica Geométrica


4 EXEMPLO As figuras seguintes ilustram uma vista lateral de objetos colocados frontalmente a
dois espelhos esféricos, as respectivas imagens conjugadas e um observador recebendo
um estreito pincel relativo a um dos extremos da imagem.
I. 90 cm

12 cm 8 cm
4 cm
F

C F V V
8 cm 40 cm
20 cm
60 cm

II.
90 cm

8 cm
4 cm
F

C F V V C
8 cm 40 cm
20 cm
60 cm

a) Complete as tabelas correspondentes com as coordenadas dos elementos.


I II
variável coordenada (cm) variável coordenada (cm)
p p
p’ p’
y y
y’ y’

b) Determine as abscissas focais de cada um dos espelhos e o aumento linear


transversal relativo à cada situação.

UNIDADE 9 347
Resolução
1.
a)
I II
variável coordenada (cm) variável coordenada (cm)
p 90 p 40
p’ 60 p’ -20
y 12 y 8
y’ -8 y’ 4

b)
1 1 1 1 1 1 23
Caso I Como   , temos    .
f p p' f 90 60 180

Assim

y' 8 2
Como A = , temos A   A   (imagem menor e invertida)
y 12 3
1 1 1 1 1 1 1 2
Caso II Como   , temos    .
f p p' f 40 20 40

Assim

y 4 1
Como A = , temos A   A  (imagem menor e direita)
y’ 8 2

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5 EXEMPLO 1. Um objeto luminoso de 4 cm de altura é colocado a 36 cm, sobre o eixo


principal de um espelho esférico côncavo de raio de curvatura igual a 24 cm.
Nessas condições, determine:
a) A distância da imagem ao espelho.
b) O tamanho da imagem.
c) A natureza da imagem.

348 Óptica Geométrica


2. Um objeto de 2 cm de altura‚ colocado a 20 cm do vértice de um espelho
esférico convexo, cujo raio de curvatura vale 40 cm, determine a posição e o
tamanho da imagem associada pelo espelho a esse objeto.

3. Munido de um espelho esférico, uma pessoa consegue projetar, sobre uma


tela, uma imagem que tem o dobro do tamanho do objeto. A distância focal
do espelho é de 20 cm.
a) Qual é o tipo de espelho usado nesse arranjo?
b) Qual é o aumento linear transversal?
c) Quais são as abscissas do objeto e da imagem conjugada, no referencial de Gauss?
d) Faça um esquema mostrando os elementos do problema.

Resolução
1. De acordo com os dados do problema, temos:
y = 4 cm p = 36 cm R = 24 cm Espelho côncavo
R
A distância focal é f = , logo = 12 m (espelho convexo).
2
Pela equação dos pontos conjugados, temos:
1 1 1 , logo 1 1 1
    . Portanto .
f p p' 12 36 p '
A abscissa positiva indica que a imagem é real.
y' p' y' 18
Como A    , temos    y '  2cm (invertida)
y p 4 36
Imagem real, a 18 cm do vértice, com 2 cm de altura e invertida.

36 cm
4 cm

C V
2 cm

12 cm

18 cm

2. De acordo com os dados do problema, temos:


y = 2 cm p = 20 cm R = 40 cm Espelho convexo.
R
A distância focal é f = , logo (espelho convexo).
2

Pela equação dos pontos conjugados, temos:


1 1 1 1 1 1
  , logo   . Portanto .
f p p' 20 20 p '
UNIDADE 9 349
A abscissa negativa indica que a imagem é virtual.
Como A  y '   p ' , temos
y p

Imagem virtual, a 10 cm do vértice, com 1 cm de altura e direita.

V C

20 cm 10 cm

3.
a) A imagem é projetada e, portanto, real. O espelho esférico que conjuga imagens
reais para objetos reais é o espelho côncavo.
b) Sempre que objeto e imagem tiverem mesma natureza (ou ambos reais, ou
ambos virtuais) a imagem é invertida. Portanto, o aumento linear transversal
é A  2.
c) Pela equação do aumento linear transversal, temos:
y' p' p'
A    , logo 2    p '  2 p
y p p

Usando-se a equação dos pontos conjugados, temos:


1 1 1
  , assim 1  1  1 ou, ainda .
f p p' 20 p 2p

Como p ' = 2 p , obtemos p '  2   30  , e portanto .


d) O esquema seguinte ilustra a situação.

60 cm

30 cm

C V

20 cm

350 Óptica Geométrica


Refração
da Luz

Para o olho humano, são perceptíveis as radiações


eletromagnéticas compreendidas entre as frequên-
cias de aproximadamente até
. Isso corresponde a um pe-
queno intervalo de todas ondas eletromagnéticas
possíveis, mas a uma grande variedade de frequên-
cias. A cada uma dessas frequências perceptíveis
pelo olho humano corresponde uma determinada
cor. A Figura 34 ilustra essa correspondência.

UNIDADE 9 351
ESPECTRO VISÍVEL

700 nm

600 nm

500 nm

400 nm
Vermelho Laranja Amarelo Verde Azul Índigo Violeta
Figura 34 - Espectro da luz branca solar

Chamamos de radiação pura, ou monocromática, àquela constituída de luz de uma


única frequência. As radiações compostas são ditas policromáticas.
Várias percepções que temos e que chamamos de cores não são radiações puras. Es-
sas percepções não têm relacionadas a si uma determinada frequência, correspondem
a sensações visuais que temos ao receber um conjunto de radiações. Como exemplo,
temos o marrom, o castanho, a cor de rosa, a cor da pele e também a luz branca.
A luz branca solar é composta, praticamente, por todas as radiações visíveis pelo
olho humano, com exceção da linhas destacadas na figura seguinte. Essas linhas es-
curas correspondem a radiações absorvidas na atmosfera terrestre ou por elementos
existentes na própria atmosfera solar.

Comprimento de onda (nm)

400 420 440 460 480 500 520 540 560 580 600 620 640 660 680 700

Violeta Índigo Azul Verde Amarelo Laranja Vermelho

G (hidrogênio) b (magnésio) C (hidrogênio)

F (hidrogênio) D (sódio)

Figura 35 - Espectro da luz solar com algumas absorções


Fonte: Encyclopaedia Britannic, Inc. (2007, on-line)1.

352 Óptica Geométrica


A alteração na velocidade da luz devido à mudança de meio de propagação
chama-se refração luminosa.

Na Figura 36, representamos a refração de um raio de luz que passa do ar para a água,
sofrendo uma mudança na sua direção de propagação.
Em conjunto com a refração, sempre ocorre a reflexão (representada pelo raio
tracejado). A existência do raio refletido é inevitável, mas, em algumas situações,
deixamos de representá-lo, com a intenção de simplificar a figura.
Nas Figuras 36 e 37, representamos dois tipos de refração luminosa: com e sem
mudança na direção de propagação da luz.

Figura 36 - Refração com mudança de direção. A inci- Figura 37 - Refração sem mudança na direção. A
dência é oblíqua incidência é normal à superfície
Fonte: o autor. Fonte: o autor.

A maior velocidade da luz ocorre quando ela se propaga no vácuo. A velocidade da


luz no vácuo é representada por “c” e vale:

c  300000 km  3, 0  108 m
s s

Índice de Refração Absoluto

Em qualquer outro meio, homogêneo e transparente, a velocidade da luz (que re-


presentaremos por v) é menor do que c. O índice que compara a velocidade da luz
no vácuo com a velocidade da luz em um meio qualquer é denominado índice de
refração absoluto (n) do meio.
c
n=
v

UNIDADE 9 353
Como c > v, o índice de refração absoluto de um meio é um número sempre maior
do que a unidade. Além disso, o índice de refração é um número adimensional, ou
seja, não apresenta unidades.
Observe que o vácuo é o meio padrão e, portanto, nvácuo = 1.
No ar, a velocidade da luz é ligeiramente menor que no vácuo, sendo o índice de
refração para a luz amarela da lâmpada de sódio nar = 1, 000292 . Na maioria dos
problemas, adotamos, por uma questão prática: nar ≅ nvácuo = 1.
O índice de refração do ar é praticamente igual ao do vácuo.
nar ≅ nvácuo = 1

Um mesmo meio pode apresentar diferentes índices de refração absolutos; isso


depende do tipo de radiação (frequência) que se propaga através dele. No caso da
luz, frequências diferentes correspondem a cores diferentes. Por exemplo, o índice
de refração absoluto de determinado tipo de vidro assume um valor específico para
cada cor componente da luz branca, pois cada uma delas se propaga no vidro com
uma velocidade diferente. No vácuo, isto não acontece; todas as cores componentes
da luz branca solar se propagam no vácuo com a mesma velocidade.
Tabela 2 - Índices de refração de vários materiais

Radiação amarela da lâmpada de sódio Vidro Crown


Diamante 2,417 Violeta V 1,532
Vidro crown 1,517 Anil A 1,530
Vidro flint pesado 1,963 Azul A 1,528
Quartzo 1,541 Verde V 1,519
Glicerina 1,470 Amarelo A 1,517
Álcool etílico 1,362 Alaranjado A 1,514
Água 1,333 Vermelho V 1,513
Gelo 1,310

* existem diferentes tipos de vidro com diferentes índices de refração, dependendo de sua composição.
Fonte: adaptada de Young e Freedman (2009).

Quando um meio possui índice de refração maior do que outro, dizemos que esse
meio é mais refringente. Assim, o diamante  n  2, 42  é mais refringente do que
a água  n  1, 33  . Maior refringência implica em menor velocidade de propagação
da luz; portanto, a luz se propaga com maior velocidade na água do que no diamante.
Aproveitando esse exemplo, vemos que o índice de refração não tem relação com a
transparência da substância, ele é apenas um índice de velocidade.

354 Óptica Geométrica


Dados dois meios ópticos homogêneos e transparentes (chamados meios refringen-
tes) de índices de refração n1 e n2 , podemos então escrever:

c
n1 
v1  v 1 n2
 
c  v2 n1
n2 
v2 

A relação entre as velocidades de propagação de uma dada radiação em dois meios


refringentes é a relação inversa dos índices de refração desses mesmos meios.

Índice de Refração Relativo

A relação entre o índice de refração absoluto de determinado meio e o índice de


refração absoluto de um outro meio chama-se índice de refração relativo. Assim, o
n
índice de refração do meio (2) em relação ao meio (1) é definido por: n2,1 = 2
n1

O índice de refração relativo pode ser maior, menor ou, ainda, igual à unidade. Ob-
serve que como a relação entre os índices de refração é a relação inversa das veloci-
v
dades, podemos escrever: n2,1 = 1
v2

6 EXEMPLO Para a radiação amarela da lâmpada de sódio, num determinado meio óptico A, a
velocidade da luz é 20% menor que a velocidade da luz no vácuo, enquanto que em
outro meio B, a velocidade da luz é 2/3 da velocidade da luz no vácuo. Determine,
para essa radiação:
a) O índice de refração absoluto do meio A.
b) O índice de refração absoluto do meio B.
c) O índice de refração do meio B em relação ao meio A.

Resolução
a) Se no meio A, a velocidade da luz é 20% menor do que no vácuo, podemos
dizer que essa velocidade é 80% da velocidade da luz no vácuo, logo:
v  0, 8  c
c c
Como n = , temos: n   1, 25 . Assim, n A = 1, 25
v 0, 8  c

UNIDADE 9 355
2 c 3
b) Para o meio B, temos v   c , logo n    1, 5. Assim, nB = 1, 5.
2
3 c 2
3
nB
c) O índice de refração do meio B em relação ao meio A é dado por: nB , A = ,
nA
1, 50
logo nB , A = , assim, nB , A = 1, 2
1, 25

Leis da Refração Luminosa

Sabemos que a luz, ao passar


AR
de um meio 1 para um meio
I in
2, tem a sua velocidade altera- cid
ent
e i
da (refração luminosa) e, na
maioria das situações, a dire-
ção de propagação também
se altera. Vamos estabelecer
des
as leis que regem o fenôme- r vio

re
no da refração luminosa. A

fr
ata
VIDRO R

do
figura seguinte nos mostra
um caso genérico de um Figura 38 - Desvio devido à refração luminosa
raio de luz monocromática Fonte: o autor.
propagando-se, inicialmente, no meio 1, incidindo na superfície de separação (S) do
meio (1) com o meio (2), sofrendo uma refração luminosa e passando a se propagar
no meio (2).
O meio (2) é mais refringente do que o meio (1).
A refração luminosa obedece a duas leis:
1ª) O raio incidente (I), o raio refratado (R) e a normal à superfície de
separação, no ponto de incidência são coplanares.
2ª) Para cada par de meios 1 e 2 e para cada cor de luz, temos:
n 1sen i  n2  sen r (Lei de Snell-Descartes)

Pela lei de Snell-Descartes, vemos que, ao meio de menor índice de refração corres-
ponde o maior ângulo e vice-versa. Assim, quando a luz passa para um meio mais
refringente, temos um ângulo de refração menor que o de incidência. Reciprocamente,
ao passar para um meio menos refringente, o raio refratado terá um ângulo de refração
maior do que o de incidência. Devemos lembrar que os ângulos de incidência e de
refração são sempre medidos em relação à normal à superfície.

356 Óptica Geométrica


AR
A reta normal divide o plano de in- I
cidência em dois semiplanos. Com i
exceção da incidência normal, o raio
incidente e o raio refratado estão
sempre em semiplanos diferentes.
É usual dizer que, no primeiro r
caso, o raio refratado se aproximou
da normal, enquanto no segundo ela VIDRO R
se afastou.

7 EXEMPLO Um raio de luz monocromática atinge a superfície de separação entre o ar e um deter-


minado cristal sob ângulo de incidência de 45º. Sabendo-se que o ângulo de refração
é de 30º e considerando-se o índice de refração do ar como unitário, determinar:

45º

Ar

Cristal

30º

a) O desvio sofrido pelo raio com a refração.


b) O índice de refração absoluto desse cristal para essa radiação.

UNIDADE 9 357
Resolução
a) A figura seguinte ilustra o ângulo correspondente ao desvio do raio ao
sofrer a refração.

45º

Ar

Cristal
δ
30º

o o o
Vemos pela figura que: d  30  45  d  15 .

b) Temos:
i = 45o n1 = 1
r = 30o n2 = ?
Pela Lei de Snell-Descartes, escrevemos:

2 1
n 1sen i  n2  sen r , assim sen 45o  n2  sen 30o  n2  , logo n2  2  1, 4
2 2

Dispersão da Luz

Como vimos, cada radiação (cor), componente da luz branca, tem associada a si um
certa frequência. No vácuo, todas as cores se propagam com a mesma velocidade
 
3, 0  108 m , o que já não ocorre nos meios materiais. Assim, quando um raio de
s
luz policromático atinge obliquamente as superfície de separação de dois meios, cada
uma das radiações componentes apresenta um ângulo de refração diferente, acarre-
tando a separação das cores. A lei de Snell deve, então, ser aplicada separadamente
para cada uma das frequências (cores).
O fenômeno pode ser acentuado se a luz policromática sofrer duas refrações
seguidas em superfícies não paralelas. Isso ocorre nos prismas e o fenômeno recebe
o nome de dispersão luminosa.
Na Figura 39, vemos esquematizada a dispersão para apenas uma superfície (pro-
positadamente exagerada) e depois em um prisma.

358 Óptica Geométrica


Normal

luz branca

desvio da
violeta

desvio da
violeta

Figura 39 - Dispersão da luz


Fonte: o autor.

UNIDADE 9 359
Lentes
Esféricas

As lentes são uns dos dispositivos ópticos de


maior aplicação prática; basta observarmos a
quantidade de pessoas que delas se utilizam para
corrigir as anomalias da visão. Além disso, são
vastas as aplicações em instrumentos ópticos,
como as máquinas fotográficas, os microscópios,
as lunetas, projetores de slides etc.
Analisaremos o comportamento da luz ao atra-
vessar uma lente, com a correspondente formação
de imagem. De acordo com a finalidade de cada
instrumento, podemos ter imagens mais próximas
ou mais afastadas, ampliadas ou reduzidas.
A lente esférica é um corpo homogêneo e
transparente em que: ou as duas superfícies são
esféricas, ou uma delas é plana e a outra é esférica.
Geralmente, as duas superfícies têm raios di-
ferentes, e a espessura da lente é desprezível em
relação aos raios de curvatura dessas superfícies.
Nessa condição, dizemos que tratam-se de lente
delgadas.

360 Óptica Geométrica


Classificação das Lentes Esféricas Delgadas

A figura seguinte ilustra os principais elementos de uma lente esférica delgada.

r2

Eixo óptico
V2 V1 C2 C1

r1

Figura 40 - Obtenção de uma lente esférica


Fonte: o autor.

Temos:
• c1 e c2: centros de curvatura das superfícies.
• r1 e r2 : raios de curvatura da lente.
• v1 e v2: vértices da lente.
• e: espessura da lente.
• eixo óptico: reta que passa por c1 e c2 .

Os nomes das lentes esféricas são compostos de duas partes, cada uma referente a
uma das superfícies. Como critério para a nomenclatura dos diferentes tipos de lente,
diz-se, em primeiro lugar, a face (côncava, convexa ou plana) que possui maior raio de
curvatura. Assim, se a face côncava de uma lente possui maior raio de curvatura do
que a convexa, a lente recebe a denominação de côncavo-convexa; em caso contrário,
convexo-côncava. As superfícies planas são consideradas como possuidoras de raio
infinito, logo, sempre são ditas em primeiro lugar.
Com esse critério, constituímos dois grupos de lentes:
• Lentes convexas – são aquelas cujos nomes terminam com a palavra “convexa”.
• Lentes côncavas – são aquelas cujos nomes terminam com o palavra “côncava”.

A Figura 41 ilustra essa nomenclatura. Para destaque, em todos esquemas, denomi-


namos o maior raio de r1 .

UNIDADE 9 361
CONVEXAS (bordas finas)
CONVEXAS (bordas finas)
Côncavo-convexa Plano-convexa Biconvexa
Côncavo-convexa Plano-convexa Biconvexa

R2 R2 R1
R2 C1 R2 R1
C2 C1 C1 C1 C2
C2 C1 C1 R2 C2
R1 R2
R1 ∞
R1
R1 ∞

CÔNCAVAS (bordas grossas)


CÔNCAVAS (bordas grossas)
Convexo-côncava Plano-côncava Bicôncova
Convexo-côncava Plano-côncava Bicôncova

R1 R1 ∞ R1
R2 R2
R1 R1 ∞ R1
R2 R2
C1 C2 C1 C2
C1 C2 C1 C2
R2
R2

Figura 41 - Obtenção de lentes esféricas


Fonte: o autor.

Vemos que as “convexas” apresentam as bordas menos espessas que a região central
e, por isso, são também conhecidas como lentes de bordas finas. Nas “côncavas” ob-
servamos que as bordas são mais espessas que a região central, sendo, por essa razão,
também conhecidas como lentes de bordas grossas.

Comportamento óptico das lentes


O comportamento óptico de uma lente depende do meio em que ela esteja imersa.
Se o índice de refração da lente  n  for maior do que o índice de refração do meio
 nm , a lente será:

362 Óptica Geométrica


• Convergente – quando se tratar de uma lente convexa.
• Divergente – quando se tratar de uma lente côncava.

Essa situação é a mais comum, pois, em geral, temos uma lente de vidro imersa no
ar. Contudo, se tivermos a situação contrária (bolha de ar imersa no vidro), o com-
portamento óptico de cada tipo será o contrário.

8 EXEMPLO Uma lente de vidro (n = 1,5) possui uma face plana e uma face convexa. Qual é o
comportamento óptico dessa lente quando imersa em um meio de índice de refração:
a) 1,2.
b) 1,8.
c) 1,5.

Resolução
A lente descrita no enunciado está apresentada na figura seguinte.
Trata-se de uma lente de bordas finas, assim:
a) n > nmeio – a lente é convergente.
b) n < nmeio – a lente é convergente.
c) n = nmeio – não há refração. É uma lente “sem grau”
(nem convergente e nem divergente).

Focos de uma Lente Delgada

Cada lente delgada possui dois focos principais: o foco principal objeto e o foco
principal imagem, ambos localizados sobre o eixo principal.

FO — Foco principal objeto

Esse foco se refere à luz que incide na lente. Quando raios de luminosos incidem,
numa direção que contenha o foco objeto, eles emergem paralelos ao eixo óptico.
A Figura 42 apresenta o foco principal objeto das lentes convergente e divergente.

UNIDADE 9 363
Convergente Divergente

F0 o o F0
real virtual

Figura 42 - Foco principal objeto das lentes convergente e divergente


Fonte: o autor.

Devemos observar que o foco principal objeto da lente convergente é de natureza


real, e o da lente divergente é de natureza virtual.

FI — Foco principal imagem

Esse foco se refere à luz que emerge da lente. Raios luminosos que estejam incidindo
paralelos ao eixo principal emergem numa direção que contenha o foco imagem. A
Figura 43 ilustra o foco principal imagem para as lentes convergente e divergente.
Convergente Divergente

F1 F1
real virtual

Figura 43 - Foco principal imagem para as lentes convergente e divergente


Fonte: o autor.

Da mesma forma que ocorre com os focos objeto, o foco principal imagem da lente
convergente é de natureza real e o da lente divergente é de natureza virtual.
Se os meios externos à lente forem idênticos, os dois focos principais, objeto e
imagem, são simétricos em relação à lente. A distância entre um foco principal e
o centro óptico da lente é chamada de distância focal (f), sendo associada a uma
abscissa positiva para as lentes convergentes e negativa para as lentes divergentes.

364 Óptica Geométrica


ƒ ƒ ƒ ƒ

F0 F1 F1 F0

Lente convergente Lente divergente


f>0 f<0
O - Centro óptico

Figura 44 - Distância focal


Fonte: o autor.

Situado sobre o eixo principal, próximo aos pontos V1 e V2, temos o centro óptico
da lente. Os raios luminosos que incidem numa direção qualquer que contenha o
centro óptico emergem da lente na mesma direção. Esses raios sofrem somente um
pequeno deslocamento lateral que, como vimos, é menor que a espessura da lente.
Considerando-se desprezível a espessura da lente, esse deslocamento lateral é des-
prezível. A figura seguinte ilustra a posição do centro óptico de uma lente biconvexa,
e o esquema correspondente quando se considera desprezível a espessura da lente.

O - centro
óptico

Situação real Esquema simplificado


Figura 45 - Posição do centro óptico de uma lente biconvexa
Fonte: o autor.

Convergência de uma Lente

O inverso da abscissa focal  f  em metros é definido como a convergência (anti-


gamente vergência) da lente. A convergência  C  de uma lente apresenta o mesmo
1
sinal da abscissa focal. É expressa por C = .
f 1 1
A unidade da convergência é, no S.I., a dioptria (di), tal que 1di   m
m
Quanto maior o módulo da convergência de uma lente, maior a sua capacidade
de desviar a luz que sobre ela incide.

UNIDADE 9 365
f1 f2

F0 F0
real real

1
Como C = , o módulo da convergência diminui com o aumento da distância focal.
f

Equação do Fabricante

A determinação da abscissa focal  f  de uma lente e, consequentemente, a sua


convergência  C  pode ser feita conhecendo-se os raios de curvaturas R1 e R2 de
suas faces e os índices de refração do material de que é feito a lente e do meio no
qual ela está imersa.
A expressão a seguir, denominada de fórmula dos fabricantes de lentes, foi proposta
n  
pelo astrônomo inglês Edmond Halley (1656-1742): C  1     1   1  1 , onde
f  nm   R1 R2 
• n representa o índice de refração do material da lente.
• nm representa o índice de refração do meio que envolve a lente.
• Para os raios de curvatura das faces da lente, devemos usar a seguinte con-
venção de sinais:
Face Raio
Convexa R>0
Côncava R<0
Plana R⇒∞

No exemplo, temos:
• R1 > 0 – superfície convexa.
• R2 < 0 – superfície côncava.

Observações
• Se R1 = R 2 , a lente é dita simétrica.
• Se , temos que C = 0. Nesse caso, a lente não é nem convergente e
nem, tampouco, divergente. Os raios que incidem paralelos na lente emergem
paralelos. Esse tipo de lente é conhecido como “lente sem grau” e é utilizada
nos óculos de sol para pessoas de visão normal.

366 Óptica Geométrica


9 EXEMPLO Uma lente esférica de vidro (n = 1,5), bicôncava e simétrica, tem raios de curvatura de
50 cm; a lente está imersa no ar. Determine a abscissa focal e a convergência dessa lente.

Resolução
No esquema, temos a representação da lente.

R1 R2

Temos: (faces côncavas)

=n 1,=
5 e nm 1, 0

Pela equação da Halley:

1  n  1 1 
C   1   
f  nm   R1 R2 

 1, 5   1 1 
C   1   
 1   0, 5 0, 5 

C  2di

1 1 1
Como C   f  , logo f  ⇒
f C 2

UNIDADE 9 367
Raios Notáveis

De todos os raios luminosos emitidos por um objeto e que atingem uma lente, alguns deles
apresentam um comportamento específico – são os raios notáveis, detalhados a seguir.
• Todo raio luminoso que incide passando pelo centro óptico da lente não
sofre desvio.
Convergente Divergente

FI O FO FO O FI

• Todo raio luminoso que incide passando pelo foco principal objeto da lente
emerge paralelamente ao eixo principal.
Convergente Divergente

FO O FI FI O FO

• Todo raio luminoso que incide paralelamente ao eixo principal da lente emerge
passando pelo foco principal imagem.

Convergente Divergente

FO O FI FI O FO

368 Óptica Geométrica


As propriedades desses três raios anteriores são suficientes para a construção geo-
métrica das imagens. Entretanto, temos mais alguns raios notáveis.
• Todo raio luminoso que incide paralelamente a um eixo secundário da lente
emerge passando pelo respectivo foco imagem secundário.
Convergente Divergente
plano focal plano focal
imagem imagem
eixo
secundário
Fi
virtual

Fi Fs
real
Fs eixo
secundário

• Todo raio luminoso que incide por um foco secundário objeto emerge para-
lelamente ao respectivo eixo secundário.
Convergente Divergente
plano focal plano focal
objeto objeto
eixo eixo
secundário secundário
Fi
virtual

Fo Fs
real
Fs

Construção de Imagens

Para a construção geométrica das imagens, vamos utilizar os raios notáveis. Dado um
ponto objeto, necessitamos de apenas dois raios notáveis para determinar seu respectivo
ponto imagem, visto que duas retas concorrentes determinam um ponto. O uso de mais
raios continua determinando o mesmo ponto imagem, sendo, portanto, desnecessário.

Lente convergente

Dependendo da posição do objeto em relação ao centro óptico da lente, esta pode


associar, a um objeto real, uma imagem real ou virtual, direita ou invertida, maior,
menor ou de mesmo tamanho que o objeto.

UNIDADE 9 369
AO FO O FI AI

Figura 46 - Objeto antes do ponto antiprincipal


Fonte: o autor.
Natureza Real
Localização Entre FI e AI
Orientação Invertida
Tamanho Menor

Na figura seguinte, vemos a obtenção da mesma imagem, com destaque para vários
raios notáveis.

AO FO O FI AI

370 Óptica Geométrica


Objeto sobre o ponto antiprincipal objeto (AO)

Natureza Real
Localização Sobre AI

AO FO O FI AI Orientação Invertida
Tamanho Igual

Objeto entre AO e FO

Natureza Real
Localização Após AI
AO FO O FI AI Orientação Invertida
Tamanho Maior

Objeto sobre o foco principal objeto (FO)


P’

AO FO O FI AI

I P’

UNIDADE 9 371
Na prática, a imagem no infinito significa que essa imagem está a uma distância da
lente muito maior que sua distância focal.
Considerando um observador à direita da lente, ele verá a imagem conjugada pela
lente sob ângulo visual α, conforme ilustra a figura.
P’

AO FO O FI AI


I
Para esse observador, a imagem é virtual. No entanto, se consideramos a imagem
projetada à direita da lente, teremos uma imagem real, infinitamente distante da lente.
Portanto, neste caso, não definimos a natureza da imagem (real ou virtual), e tampouco
a sua orientação (direita ou invertida). Dizemos apenas que a imagem é imprópria.
Natureza Imprópria
Localização No infinito
Orientação
Tamanho Maior

Objeto entre FO e AO

P’

AO FO O FI AI

372 Óptica Geométrica


Considerando a propagação retilínea da luz, o observador tem a impressão de que
os raios que emergem da lente provém do ponto P’.
Natureza Virtual
Localização Atrás da lente
Orientação Direita
Tamanho Maior

Lente divergente

Em qualquer posição que se coloque um objeto real diante de uma lente divergente, a
imagem obtida é sempre menor, virtual e direita, conforme ilustra a construção seguinte.

AI FI O FO AO

Por exclusão, sabemos, então, que se a imagem não for menor, virtual e direita, a lente
não é divergente, logo, deve ser convergente.

10 EXEMPLO Na figura, o objeto é real e a imagem é virtual. O eixo xx’ é o eixo óptico da lente. Deter-
mine o tipo de lente e localize seu centro óptico e os focos principais objeto e imagem.

A`

x B` B x`

UNIDADE 9 373
Resolução

O traçado dos raios acompanha as seguintes propriedades:


I. O ponto objeto, o ponto imagem e o centro óptico estão alinhados.
II. O plano que contém a lente é perpendicular ao eixo óptico.
III. Raio que incide paralelo ao eixo principal, emerge passando pelo foco imagem.
IV. Raio que emergiu paralelo ao eixo principal, incidiu pelo foco objeto.

(II)
A` (IV)

B` O
FO B FI (III)
(I)

Estudo Analítico

Assim como nos espelhos esféricos, nas lentes também podemos relacionar as po-
sições e tamanhos do objeto da imagem analiticamente. O processo analítico (por
equações), muitas vezes, apresenta-se mais vantajoso que os processos gráficos, pela
rapidez e precisão nos resultados.

Referencial de Gauss

Primeiramente, vamos observar a perfeita simetria que existe entre todas as imagens
que podemos obter com os espelhos esféricos e as imagens que podemos obter com
as lentes.
Na figura seguinte, vemos a imagem conjugada por um espelho esférico côncavo
para um determinado objeto, e a imagem obtida com o uso de uma lente convergente
de mesma distância focal que o espelho, para o mesmo objeto.
Observe as simetrias de cada um dos raios.
O raio refratado que incide no centro óptico é simétrico, em relação ao plano que
contém o espelho ou a lente, ao raio que incide no vértice do espelho.

374 Óptica Geométrica


O raio refratado que emergiu pelo foco é simétrico, em relação ao plano citado,
ao raio refletido pelo espelho que incidiu paralelamente ao eixo principal.

FO FI AI

Assim sendo, tanto as distâncias ao centro óptico ou ao vértice quanto o tamanho das
imagens são exatamente iguais. Note que, virando-se a folha com “orelha” na borda
direita para a esquerda, haverá a perfeita superposição das figuras.
A simetria também é destacada para os observadores. O observador deve estar
postado no lado em que a luz emerge do sistema óptico. Em se tratando de um espelho,
à esquerda da página; em se tratando de uma lente, à direita da página.
Podemos, então, utilizar as mesmas equações para as lentes e os espelhos esféricos,
sempre lembrando da convenção já estabelecida para os espelhos esféricos, conforme
a tabela seguinte.
• p – Abscissa do objeto (em relação ao centro óptico da lente).
• p’ – Abscissa da imagem.
• f – Abscissa focal da lente.
• y – Ordenada do ponto objeto.
• y’ – Ordenada do ponto imagem.

UNIDADE 9 375
p

p’

AO FO O FI AI
f y’
B’

1 1 1
• Equação dos pontos conjugados (Gauss):  
f p p'
y' p'
• Aumento linear transversal: A  
y p

Ao aplicarmos as equações acima, devemos obedecer a seguinte convenção de sinais:


Natureza real Natureza virtual
Abscissa Positiva Negativa
Abscissa focal f > 0 (convergente) f < 0 (divergente)
Objeto p>0 p < 0*
Imagem p’ > 0 p’ < 0

*Objetos virtuais somente são obtidos com associações de sistemas ópticos.

Para as ordenadas, continuam valendo os mesmos resultados que observamos nos


espelhos esféricos, ou seja:
• A > 0, imagem direita em relação ao objeto.
• A < 0, imagem invertida.

11 EXEMPLO Uma lente convergente projeta uma imagem real a 72 cm da posição de um objeto
real. Qual é a convergência da lente, em dioptrias, sabendo-se que a imagem tem
cinco vezes o tamanho do objeto?

Resolução
Como o objeto e a imagem são ambos reais, tanto p quanto p’ são positivos.
Do fato de a imagem ser real, concluímos que ela é invertida, conforme ilustra o
esquema seguinte.

376 Óptica Geométrica


p
p’

y’

Temos:
y'
 5 (imagem invertida)
y
y' p' p'
Como   , podemos escrever 5    p '  5 p (I)
y p p

Na figura, observamos: p  p '  72 (II)

Substituindo-se a primeira equação na segunda:

Para obter a convergência em dioptrias, devemos tomar a abscissa focal em metros.

UNIDADE 9 377
Óptica
da Visão

Na Figura 47, temos uma vista lateral do globo


ocular e suas várias partes. Seu sistema de funcio-
namento pode ser comparado a uma câmara fo-
tográfica, onde o cristalino seria a lente, a pupila o
diafragma e a retina um filme fotográfico em cores.
A função da pupila, assim como do diafragma
da máquina fotográfica, é restringir os raios à região
próxima ao eixo óptico para melhor nitidez. Caso
seja escassa a quantidade de luz ambiente, a pupila se
dilata, permitindo a entrada de mais luz, embora com
sacrifício da nitidez. Essa é a razão da dificuldade
que temos para ler em ambientes pouco iluminados.
A retina é o anteparo, rico em células fotossen-
síveis, onde será conjugada a imagem final. Para
que isso ocorra, na máquina fotográfica, devemos
mudar a posição da lente à medida que se muda a
posição do objeto. Já no olho humano, o cristalino,
que é abraçado por um conjunto de músculos,
vai mudando a sua convergência, contraindo-se
ou relaxando-se, para focalizar a imagem. Esse
mecanismo é chamado de acomodação visual.
Analogamente à câmara fotográfica, a imagem fi-
nal obtida sobre a retina do olho humano é menor,
real e invertida em relação ao objeto.

378 Óptica Geométrica


Visão Normal

Visão Normal
Câmera Escleróptica
anterior
Córnea Coroide
Câmera Escleróptica
anterior
Pupila
Córnea CoroidePonto
Corpo focal
Lente vítreo
Pupila
Luz Ponto
Artéria central
Corpo focal
da retina
Lente vítreoDisco óptico
Luz Artéria central
da retina
Disco óptico

Nervo óptico
Veia central
Íris
da retina
Retina
Corpo Nervo óptico
Subzona
ciliar Veia central
Íris
Figura 47 - Vista lateral do globo ocular da retina
Retina
Corpo
Olho Reduzido
Subzona
ciliar

Com a intenção de simplificar a análise, todo esse conjunto de delicados componentes


é substituído por um esquema que chamamos de olho reduzido, constituído por uma
lente convergente, de convergência variável, que representa o sistema óptico formado
pela córnea, humor aquoso, cristalino e humor vítreo, e a retina é representada por
um anteparo de distância constante em relação à lente, adotada como 2 cm.
A Figura 48 ilustra o mecanismo de acomodação visual por meio da variação da
distância focal  f  do cristalino quando o objeto muda da posição 1 para a posição 2.
A medida que aproximamos o objeto, a distância focal deve diminuir para que a imagem
se forme exatamente sobre o anteparo, que, em nosso esquema, faz o papel da retina.
A redução da distância focal corresponde a um aumento de convergência, que é
conseguido com a contração do cristalino. Em termos mais simples, ele vai ficando
mais “gordinho”.
Quando o cristalino atinge sua contração máxima, foi atingido o ponto mais próxi-
mo de visão nítida. A partir deste ponto, a aproximação do objeto acarreta uma imagem
sem nitidez. Reciprocamente, quando afastamos o objeto, o cristalino vai relaxando.
Em se tratando de um olho normal, o cristalino estará totalmente relaxado para um
objeto situado no infinito.

UNIDADE 9 379
1 2 Num olho normal, o ponto mais distante
de visão nítida, denominado ponto remo-
to, situa-se no infinito  d r   . Nesta
situação, o cristalino estará completamen-
F1 te relaxado e a visão é feita sem esforço de
F2 acomodação. Talvez essa seja a origem da
expressão “descansar a vista”, quando olha-
mos para uma paisagem distante.
Ainda no olho normal, com o máximo
∆f esforço de acomodação, ou seja, com os
Figura 48 - Acomodação visual simplificada músculos ciliares contraindo plenamente
Fonte: o autor.
o cristalino, que é gelatinoso, o ponto mais
próximo de visão nítida estará a 25 cm .
Em cada uma das duas situações extremas descritas, podemos aplicar a equação
dos pontos conjugados. Vamos considerar “m” a distância do cristalino à retina.
• Ponto remoto: quando visamos o ponto remoto, a convergência da lente é mínima.

pd
 r
1 1 1
 p '  m  Cmín.   
1 1 1 fr dr m
  
 f p p'

• Ponto próximo: quando visamos o ponto mais próximo de visão nítida, a


convergência da lente é máxima.

p  dp
 1 1 1
 p'  m  Cmáx   
1 1 1 fp dp m
  
 f p p'

A diferença entre a máxima e a mínima convergência do olho humano é denominada


amplitude de acomodação visual e vale:
1 1  1 1 1 1
Cmáx  Cmín.       
d p m  dr m  d p dr
1 1
Cmáx.  Cmín  
d p dr

Para um olho normal, temos:

380 Óptica Geométrica


Anomalias da Visão

As principais anomalias da visão, genericamente denominadas de ametropias, são:


• Miopia.
• Hipermetropia.
• Presbiopia.
Além dessas anomalias, temos o astigmatismo, o estrabismo e o daltonismo.

Miopia

A miopia é conhecida popularmente como “vista curta”. Normalmente, a razão dessa


anomalia é um alongamento do globo ocular. Em razão disso, com o cristalino com-
pletamente relaxado, o míope não consegue acomodação visual para um objeto no
infinito, pois a imagem se formará antes da retina, na posição onde teríamos a retina
do olho normal. Qualquer esforço visual acarretaria numa contração do cristalino,
piorando a situação. Na indisponibilidade de óculos, um recurso desesperado que
o míope acaba usando é diminuir a abertura das pálpebras, reduzindo os raios que
sejam menos axiais, numa tentativa de obter maior nitidez.
A Figura 49 ilustra um olho míope comparado a um olho normal, para um objeto
no infinito. Vemos que a imagem é formada aquém da retina do míope. Observe que
a imagem da ponta da seta seria um ponto no olho normal e uma pequena mancha
no olho míope, destacando a falta de nitidez que ele tem para um objeto no infinito.
O cristalino estará completamente relaxado quando o míope estiver visualizando um
objeto a uma distância finita  d r , e daí por diante ele não terá mais acomodação visual.
A função da lente corretora será conjugar, para um objeto no infinito, uma imagem
no ponto remoto do míope. Em suma, as lentes “corretoras” na verdade não corrigem a
ametropia, mas sim vão produzir as imagens numa região onde o usuário tenha acomo-
dação visual. No caso da miopia, essa tarefa é desempenhada por uma lente divergente.
Uma outra maneira de analisarmos o mesmo problema é percebendo que o olho
míope possui excesso de convergência, necessitando, portanto, de uma lente diver-
gente para sua correção.

UNIDADE 9 381
dr

olho normal
retina

P∞
FI

Figura 49 - Olho míope possui excesso de convergência

Para um objeto no infinito  P  , a lente corretora deve conjugar uma imagem no pon-
to remoto do míope. Os objetos mais próximos terão imagens mais próximas da lente.
Temos, então:
p  1 1 1
 C  
 p '  d r (virtual ) f p p'
1 1
C 
f d r

A abscissa focal da lente corretora da miopia deve ser, em módulo, igual à distância
máxima de visão nítida, sendo, porém, negativa, já que a lente é divergente. Assim
f  d r ou, em termos de convergência, como C  1  C   1 .
f dr
Para o olho míope resta uma pequena compensação: pelo fato de o ponto próximo
do míope estar aquém dos 25 cm. É por isso que o míope sem óculos coloca objetos
bem perto dos olhos, a fim de visualizá-los com mais detalhes. Uma pessoa de visão
normal não conseguiria aproximar tanto o objeto sem a decorrente perda de nitidez.
Uma questão interessante, neste ponto, é perguntarmos se corrigindo a visão para
o ponto remoto não prejudicamos a visão no ponto próximo. A resposta é não, pois
o ponto próximo do olho míope está aquém dos 25 cm usuais e a lente corretora irá
deslocá-lo para posição que tem o ponto próximo em um olho normal.

12 EXEMPLO Um míope enxerga nitidamente, sem uso de óculos, somente até 2 m de distância.
a) Considerando que a amplitude de acomodação visual desse míope seja de 4 di,
determine a que distância se situa o seu ponto mais próximo de visão nítida.
b) Determine a convergência da lente corretora para esse míope.
c) Determine a posição do ponto próximo do míope quando ele usa a lente
corretora determinada no item anterior.

382 Óptica Geométrica


Resolução
1 1
a) A amplitude de acomodação visual é dada por: Cmáx  Cmín   .
d p dr
Portanto

1
b) A convergência da lente corretora pode ser obtida pela expressão: C   , logo
dr

 
c) Devemos, neste item, determinar em que posição d p ' podemos colocar um
objeto, a fim de que a imagem que a lente dele conjuga, situe-se no ponto mais
 
próximo de visão nítida d p . Com relação ao sistema óptico lente, temos:

Hipermetropia

Simplificadamente falando, o olho hipermétrope é mais curto que o olho normal.


Essa diferença, muito embora milimétrica, não permite que ele consiga acomodação
visual para objetos muito próximos. Falta-lhe convergência. O ponto próximo do
f olho hipermétrope está, portanto, mais
distante do que os 25 cm usuais.
hipermétrope A Figura 50 seguinte ilustra o cris-
olho normal talino em sua contração máxima, sem
que o olho hipermétrope consiga a aco-
modação visual.
Como recurso, o hipermétrope tenta
d = 25 cm afastar os textos na hora de ler, mas isto
Figura 50 - Cristalino em sua contração máxima acarreta perda de definição, já que as

UNIDADE 9 383
letras de um texto comum não são
dimensionadas para observação a
longa distância. A solução é usar-
mos uma lente que conjugue, para
um objeto a 25 cm do olho, uma
α
imagem no ponto mais próximo de
d = 25 cm visão nítida do olho hipermétrope,
conforme figura.
dp > 25 cm Das condições impostas, ob-
temos:

Vale a pena observarmos que, embora a imagem esteja mais distante que 25 cm, ela é vista
sob mesmo ângulo visual que teria uma pessoa de visão normal para observá-la nos 25
cm de distância e, portanto, com a mesma definição; mas ainda podemos nos perguntar:
— Corrigimos o ponto próximo, mas o que acontece com o ponto remoto?
Como consequência do globo ocular mais curto, ao visualizar objetos no infinito,
o hipermétrope ainda não está com o cristalino completamente relaxado, mas estará,
com o uso da lente corretora. A lente corretora desloca o intervalo de acomodação
para o intervalo que teria um olho normal, tal como aconteceu na correção da miopia.

Um aspecto curioso ocorre quando o hipermétrope necessita de uma lente corre-


1
tora com convergência maior do que 4di. Como C = 4− , e C > 4 di, temos que:
dp
1
4− > 4 → d p < 0 . Nesse caso, o grau de hipermetropia é tão grande que o
dp

ponto mais próximo de visão nítida está “além do infinito”. O ponto mais próximo
de visão nítida é virtual. Isso significa que, sem o uso de óculos, objeto real algum
é visto nitidamente por essa pessoa, por mais afastado que esse objeto esteja.

384 Óptica Geométrica


13 EXEMPLO A lente corretora usada por um hipermétrope possui 2 di . Qual é a mínima dis-
tância, entre os olhos dessa pessoa e um jornal, para vê-lo nitidamente quando
estiver sem óculos?

Resolução
A distância pedida no problema é a distância do ponto mais próximo de visão
 
nítida d p .
1
A convergência da lente corretora para a hipermetropia é dada por: C  4  .
dp
Como = 2 i , temos .

Presbiopia

Com o passar dos anos, o cristalino vai sofrendo um enrijecimento, perdendo sua
amplitude de acomodação. É a chamada “vista cansada”.
Comumente, acima dos 40 anos, uma pessoa não consegue a necessária contração
do cristalino para visualizar objetos a 25 cm de distância, mesmo que sempre tenha
possuído visão normal. Nesse caso, devemos corrigir apenas o ponto próximo, visto
que o problema se localiza no cristalino e não na geometria do globo ocular. O pro-
cedimento é idêntico ao que usamos para correção da hipermetropia, com a ressalva
de que não devemos prejudicar a visão do ponto remoto. Uma solução é o presbita
usar os óculos somente para visão próxima, retirando-o para visão distante. Outra
solução é o uso de lentes bifocais, que são convergentes na sua região mais baixa e
neutras (lente sem grau) na região superior. Se anteriormente a pessoa era míope,
terá de usar dois óculos, ou lentes bifocais mais sofisticadas.

Astigmatismo

Um sistema óptico é dito estigmático quando associa a um ponto objeto um único


ponto imagem; em outras palavras, possui nitidez. Fica claro então que o termo “as-
tigmatismo” significa a negação da nitidez. A imagem é borrada. Frequentemente, essa
anomalia ocorre por falta de simetria esférica na córnea, embora mais raros, existem
casos de astigmatismo por anomalia no cristalino. Essa assimetria implica que a cór-
nea não terá o mesmo raio em todas as direções. Se uma direção está focalizada, uma
outra, que corresponda a um raio diferente, não está. A Figura 51 ilustra várias retas
com direções diferentes. O olho astigmático terá dificuldades em focalizar o ponto
de encontro de todas elas, já que ele pertence a muitas direções diferentes.

UNIDADE 9 385
Para compensar a assimetria da córnea,
usamos uma lente que também seja assi-
métrica, como a esquematizada a seguir. É
interessante observarmos que a lasca que
retiramos do sólido, conhecido como toro
(câmara de ar), não possui o mesmo raio
em todas as direções. A lente é denominada
tórica, sendo seus raios e seu eixo variáveis
de acordo com o “grau” do astigmatismo,
Figura 51 - Várias retas com direções diferentes
conforme figura seguinte. Fonte: o autor.

R1 R2

Figura 52 - Obtenção de uma lente tórica


Fonte: o autor.

Teorema das Convergências


(Associação de Lentes)

É comum usar-se uma justaposição de várias lentes ao invés de uma única, com a
intenção de melhorar a qualidade das imagens. Na figura seguinte, temos duas lentes
convergentes, de distâncias focais f1 e f2, que serão justapostas. Esse sistema óptico
conjuga, para um pequeno objeto luminoso colocado no foco objeto da primeira
lente, uma imagem no foco imagem da segunda lente.

386 Óptica Geométrica


Em termos de convergência, escrevemos:

Ceq.  C1  C2

A justaposição de duas lentes resulta em uma lente equivalente, cuja convergência é


a soma algébrica das convergências de cada uma das lentes.

C1 C2 Ceq = C1 + C2
Nesta unidade, você aprendeu como usar a geometria para estudar a reflexão da luz
de uma forma simples e precisa. Compreendeu o funcionamento do espelho plano
e como construir as imagens.
Ainda com o uso da geometria, pudemos equacionar os espelhos esféricos e re-
lacionar posições e tamanhos de objetos e imagens.
Com o estudo da refração, pudemos explicar a decomposição da luz, a redução
aparente da profundidade de uma piscina e o princípio de funcionamento das lentes.
Verificamos que o estudo das imagens nas lentes é semelhante aos espelhos esfé-
ricos e pudemos usar as mesmas equações.
Por último, com os conhecimentos adquiridos sobre as lentes, pudemos explicar
as lentes corretivas das ametropias.

UNIDADE 9 387
Você pode utilizar seu diário de bordo para a resolução.

1. Uma pessoa deseja observar por completo um prédio de 101 m de altura num
espelho plano de 1,0 m, situado a 50 m do prédio. Qual a distância mínima do
espelho que a pessoa deverá ficar?
a) 0,5 m.
b) 1,0 m.
c) 2,0 m.
d) 0,8 m.
e) 100 m.

2. Um objeto é localizado entre o foco e o centro de curvatura de um espelho


côncavo. Sua imagem:
Espelho
Objeto

C F

a) É virtual e direita.
b) É real e maior que o objeto.
c) É invertida e menor que o objeto.
d) Situa-se entre o foco e o vértice do espelho.
e) É invertida e virtual.

3. Um objeto, de 2,0 cm de altura, é colocado a 20 cm de um espelho esférico. A


imagem que se obtém é virtual e possui 4,0 mm de altura. O espelho utilizado é:
a) Côncavo de raio de curvatura igual a 10 cm.
b) Côncavo e a imagem se forma a 4,0 cm do espelho.
c) Convexo e a imagem obtida é invertida.
d) Convexo de distância focal igual a 5,0 cm.
e) Convexo e a imagem se forma a 30 cm do objeto.

388
4. A figura indica a trajetória de um raio de luz que passa de uma região semicircular
que contém ar para outra de vidro, ambas de mesmo tamanho e perfeitamente
justapostas.
Qual é o índice de refração do vidro em relação ao ar?

9,0 cm
Ar

Vidro

6,0 cm

a) 1,0.
b) 2,0.
c) 1,5.
d) 5,0.
e) 0,8.

5. A Figura I mostra um objeto situado no ponto M, próximo a uma lente de dis-


tância focal F. A imagem correspondente a esse objeto se forma no ponto N.

FIGURA I

Lente
Objeto

Imagem
N

M F F

389
O objeto é, então, retirado do ponto M e colocado no ponto N, conforme mostra
a Figura II.

FIGURA II
Lente
Objeto

M F F N

As dimensões nas figuras são proporcionais às dimensões reais.


A imagem formada nessa nova situação é melhor representada por

a) b) c) d)

e) A imagem é imprópria.

6. A distância entre um objeto real de 15 cm de altura, colocado perpendicular-


mente ao eixo principal de uma lente convergente, e sua imagem de 3 cm de
altura é 30 cm. A convergência dessa lente é de:
a) 12 di.
b) 16 di.
c) 20 di.
d) 24 di.
e) 28 di.

390
WEB

Boa animação apresentando as principais ametropias e como corrigi-las usando


as lentes apropriadas. As legendas, se ativadas, serão em inglês, mas as imagens
são praticamente autoexplicativas.
Você pode pausar o vídeo em cada um dos 3 casos: miopia, hipermetropia e
presbiopia para observar melhor as lentes corretoras.
Para acessar, use seu leitor de QR Code.

391
ECO, U. Sobre os espelhos e outros ensaios. Rio de Janeiro: editora Nova Fronteira, 1989.

FEYNMANN, R.; LEIGHTON, R.; SANDS, M. Lições de Física de Feynman. Porto Alegre: Artmed, 2008.
Volume 3.

GUIMARÃES, O.; PIQUEIRA, J. R. C.; CARRON, W. Física - Projeto múltiplo 3V. São Paulo: Ática, 2014.

GUIMARÃES, O.; CARRON, W. As faces da Física. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2006.

HALLIDAY, D.; RESNICK, R. Fundamentos de Física. 3. ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos,
1994. Volume 4.

OKUNO, E.; CALDAS, I. L.; CHOW, C. Física para ciências biológicas e biomédicas. São Paulo: Harbra, 1982.

YOUNG, H. D.; FREEDMAN, R. A. Física. 12. ed. São Paulo: Addison Wesley, 2009.

REFERÊNCIA ON-LINE

Em: <https://www.britannica.com/science/astronomy>. Acesso em: 13 jul. 2018.


1

392
1. A.

A figura ilustra a imagem do observador vendo o objeto prédio.


50m
d d

101m
o m o’

Plano do
espelho
Por semelhança de triângulos, temos:
d 50  d
 , e, como , obtemos
m 101

2. B.

Essa imagem está construída na teoria. É maior, real e invertida.

3. D.

Temos:

Como .

1 1 1 1 1 1 1− 5 1
= + , = − = =− → = −5 m (convexo)
f p p ' f 20 4 20 5
4. C.
9 6
=
Nos triângulos, vamos observar: seni1 =e seni2 .
R R
9 6 9
Lei de Snell: n1  seni1  n2  seni2  nar   nvidro  , logo  nv,a   1, 5
R R 6
5. D.

Pela reversibilidade, se colocarmos o objeto em N, teremos a imagem em M, invertida e maior.

393
6. D.

Como a lente é convergente e a imagem é menor, devemos ter o esquema seguinte:

AO FO O FI AI

394
395
396
397
398
CONCLUSÃO

Na Unidade 1, você aprendeu a conceituar e medir os níveis de energia as-


sociados aos portadores de carga elétrica. Compreendeu as unidades para
se medir níveis de energia e fluxo ordenado de portadores da carga – a
corrente elétrica. Em seguida, demos um importante passo avaliando com
que rapidez um aparelho pode transformar energia elétrica, conceituando
a potência elétrica e aprendendo a calculá-la.
Na Unidade 2, relacionamos a resistência elétrica com a tensão e a inten-
sidade da corrente em um condutor. Embora a ideia leiga de curto-circuito
seja de catástrofes nos circuitos elétricos, vimos que é por meio dos curtos
que interligamos os resistores e outros elementos dos circuitos.
Na Unidade 3, você compreendeu como se relacionam as tensões e as
correntes nos geradores e receptores. Aprendeu pelas leis de Kirchhoff como
se distribuem as correntes e as tensões nos circuitos elétricos.
Conforme nosso objetivo inicial, na Unidade 4, você aprendeu a repre-
sentar o campo magnético, relacionar esse campo com correntes elétricas
e calcular as intensidades. A importância desses conhecimentos se reflete
principalmente na compreensão de como gerar energia elétrica.
Na unidade 5, aprendemos a calcular a intensidade da força magnética e
como relacionar a força eletromotriz induzida quando um condutor se mo-
vimenta pela Lei de Faraday. Além disso, compreendemos o funcionamento
das bobinas e transformadores pelas variações do fluxo do campo magnético.
Chegamos à Unidade 6. Nesta unidade, você aprendeu o conceitos de
temperatura e calor. Vimos como construir um instrumento para medida
da temperatura e como se relacionam as principais escalas termométricas.
Após o trabalho com a Unidade 7, você aprendeu como descrever o
comportamento de um gás em função de suas variáveis de estado: pressão,
volume e temperatura.
CONCLUSÃO

Com a Unidade 8, você aprendeu a avaliar o rendimento das máquinas


térmicas e relacionar a limitação do rendimento em virtude da temperatura
da fonte fria. Compreendeu, também, porque, com fontes mais quentes,
podemos obter máquinas de maior rendimento.
Você pôde manipular as leis da termodinâmica para entender os ciclos
mais comuns nos motores a combustão de nosso dia a dia, como o motor
Diesel e o motor a gasolina.
Os conceitos permitiram a você relacionar os aparelhos de refrigeração,
como condicionadores de ar e geladeiras, com os ciclos termodinâmicos e
prever seus rendimentos.
Na unidade 9, você aprendeu como usar a geometria para estudar a re-
flexão e a refração da luz de uma forma simples e precisa. Pudemos, pela
geometria, equacionar os espelhos esféricos e lentes, relacionando posições
e tamanhos de objetos e imagens.
Por último, com os conhecimentos adquiridos sobre as lentes, pudemos
explicar as lentes corretivas das ametropias.
Parabéns se você chegou até aqui. Tudo isso será muito proveitoso para
o bom engenheiro.

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