Você está na página 1de 1

Da ciência normal à ciência extraordinária

Quando (…) se começa a pensar que uma anomalia não é somente mais um enigma da ciência normal,
dá-se início à transição para a crise e para a ciência extraordinária. A própria anomalia começa a ser
agora identificada como tal pela profissão. Mais e mais atenção lhe é dedicada por um número cada vez
maior de homens eminentes da área respetiva. Se a anomalia continua a resistir, o que não é aliás
comum, muitos desses homens podem passar a olhar para a sua solução como o objeto de estudo da
sua disciplina. Para eles, a área disciplinar já não se assemelha ao que era antes. Em parte, essa
diferente perceção resulta simplesmente do novo foco de atenção da pesquisa científica. Um fator ainda
mais importante de mudança é a natureza divergente das numerosas soluções parciais que resulta do
facto de a atenção dada ao problema se ter agora generalizado. Os primeiros ataques ao problema
recalcitrante seguirão de perto as regras do paradigma. Mas com a continuação da resistência, mais e
mais dos ataques que lhe são dirigidos implicarão ligeiros, ou não tão ligeiros, reajustamentos do
paradigma, nenhum deles igual aos outros, cada um saindo-se parcialmente bem, mas nenhum
suficientemente bem-sucedido de modo a poder ser aceite como paradigma pelo grupo. (…)
Estes reconhecimentos explícitos de um colapso são extremamente raros, mas os efeitos da crise não
dependem inteiramente do seu reconhecimento consciente. Que efeitos podemos dizer que são esses?
Apenas dois deles parecem ser universais. Todas as crises começam com o turvar do paradigma e o
consequente afrouxar das regras da ciência normal. A este respeito, a investigação durante a crise
assemelha-se muito à investigação durante o período pré-paradigma, tirando que no primeiro caso o
foco das divergências é mais circunscrito e também mais claramente definido. E todas as crises
terminam de uma de três maneiras. Por vezes, a ciência normal acaba por ser capaz de lidar com o
problema que provocou a crise, para desespero daqueles que viram naquela o fim do para digma
existente. Noutras ocasiões, o problema oferece resistência mesmo a novas abordagens aparentemente
radicais. Nessa altura, os cientistas podem concluir que nenhuma solução estará para breve no presente
estado do campo de estudos. O problema é etiquetado e posto de parte para ser enfrentado por uma
geração futura que disponha de melhores ferramentas. Ou, finalmente, o caso que aqui mais nos
interessa, uma crise pode acabar com a emergência de um novo candidato a paradigma e com a batalha
que se segue relativa à sua aceitação.

T. Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas, Guerra & Paz, 2009, pp. 120-123.