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Para Tillie, irmã do meu coração

E também para Paul, apesar de eu ainda achar que você deveria ter escolhido
ser um cavaleiro Jedi.
Capítulo 1

Residência dos Pleinsworth


Londres
1825

Citando aquele livro que sua irmã lera inúmeras vezes, é uma verdade
universalmente conhecida que um homem solteiro, possuidor de uma boa
fortuna, deve estar necessitado de esposa.
Sir Richard Kenworthy não era possuidor de uma boa fortuna, mas era
solteiro. E quanto a esposa...
Bom, era complicado.
“Querer” não era o verbo apropriado. Quem quer uma esposa? Homens
apaixonados ele supôs, porém ele não estava apaixonado, nunca esteve
apaixonado e não planejava se apaixonar no futuro próximo.
Não que ele discordava da ideia fundamentalmente. Ele apenas não tinha
o tempo pra isso.
A esposa, por outro lado...
Ele se deslocou desconfortavelmente em seu assento, olhando para o
programa em suas mãos

Bem-vindo ao 19º musical anual dos Smythe-Smith apresentando o bem


treinado quarteto de violino, violino, violoncelo e pianoforte

Ele tinha um mau pressentimento em relação a isso.


“Obrigado, novamente por me acompanhar” Winston Bevelstoke disse a ele.

Richard olhou seu bom amigo com uma expressão de ceticismo.” Eu acho
enervante” Ele disse, “A frequência que você tem me agradecido”
“Eu sou conhecido por minhas boas maneiras impecáveis” Winston disse
com um dar de ombros. Ele sempre dava de ombros. Na verdade, a maior parte
das memórias de Richard de Winston envolviam algum tipo de movimento com
os ombros.
“Não importa se eu esquecer de fazer minha prova de Latim. Eu sou o
segundo filho” Dar de ombros.
“O barco a remo já estava virado quando eu cheguei” Dar de ombros.
“Como sempre na vida, a melhor opção é culpar minha irmã” Dar de
ombros. (Também um sorriso maldoso).
Richard já tinha sido tão despreocupado como Winston. Na realidade ele
adoraria voltar a ser despreocupado novamente. Mas, como anteriormente dito,
ele não tinha tempo pra isso. Ele tinha duas semanas. Três talvez. Quatro era o
limite.
“Você conhece alguma delas?” ele perguntou a Winston.
“Alguma de quem?”
Richard mostrou o programa. “As musicistas”
Winston pigarreou, afastando o olhar. “Eu hesitaria em chama-las de
musicistas...”
Richard olhou para a área que tinha sido preparada para o musical no
salão de baile dos Pleinsworth.
“Você as conhece?” ele repetiu. “Você já foi apresentado a elas?”. Tudo bem
para Winston fazer seus comentários crípticos de costume, porém Richard
estava lá por um motivo.
“As Smythe-Smith?” Winston deu de ombros. “A maior parte delas.
Vamos ver, quem tocará esse ano?” Ele olhou para o programa. “Lady Sarah
Prentice no Pianoforte- Que estranho, ela é casada”
Maldição.
“Normalmente é só com as solteiras” Winston explicou “Eles as forçam a
tocar todo ano. Assim que se casam podem se retirar”
Richard já sabia disso. Na realidade era a principal razão de ter
concordado em assistir. Não que tenham achado estranho. Quando um homem
solteiro de vinte e sete anos retornava a Londres depois de três anos
ausente...Não era necessário ser uma mãe casamenteira para saber o que isso
significava.
Ele só não esperava que tudo fosse de um modo tão apressado.
Franzindo o cenho ele observou o pianoforte. Parecia ser bem feito. Caro.
Certamente muito melhor do que o que ele tinha em Maycliffe Park.
“Quem mais?” Winston murmurou. Lendo os nomes elegantemente
escritos no programa. “Srta. Daisy Smythe-Smith no violino. Oh, sim, eu a
conheci. Ela é terrível.”
Duas vezes, Maldição.
“O que tem de errado com ela?” Richard perguntou.
“Nenhum senso de humor, o que não é algo tão ruim, não é como se todos
fossem barris de risadas. É só que ele é tão...óbvia em relação a isso”
“Como alguém pode ser óbvio em relação a falta de senso de humor?”
“Não tenho ideia” Winston admitiu. “Mas ela é. Apesar que, ela é muito
bonita. Cheia de cachos louros balançando e tal.” Ele fez um movimento como
se tivesse cachos louros balançando perto das orelhas o que levou Winston a
pensar o porquê dos movimentos de Winston com as mãos claramente não
lembravam alguém moreno.
“Lady Harriet Pleinsworth, também violino,” Winston continuou. “Não
creio que tenhamos sido apresentados. Ela deve ser a irmã mais nova de Lady
Sarah. Acabou de sair do colégio se não me falha memória. Não deve ter mais
de dezesseis anos.”
Três vezes, maldição. Talvez Richard devesse se retirar agora.
“E no Violoncelo...” Winston deslizou o dedo pelo programa até achar o
local correto “Srta. Iris Smythe-Smith.”
“O que tem de errado com ela?” Richard perguntou pois parecia pouco
provável que não haveria nada de errado.
Winston deu de ombros “Nada. Que eu saiba.”
O que significava que ela provavelmente gostava de cantar à Tirolesa em
seu tempo livre. Quando não estava ocupada com taxidermia.
Envolvendo crocodilos...
Richard costumava ser um homem sortudo. De verdade.
“Ela é muito lívida, sem cor” Winston disse.
Richard olhou para o amigo “Isso é um defeito?”
“Claro que não. É só que...” Winston fez um movimento de concentração
com as sobrancelhas. “Bom, para ser honesto, isso é tudo que eu consigo
lembrar sobre ela.”
Richard assentiu lentamente, voltando seus olhos para o violoncelo que
descansava no suporte. Também parecia ser caro, não que ele soubesse algo
sobre a montagem de violoncelos.
“Por que tanto interesse?” Winston perguntou. “Eu sei que você deseja se
casar, mas certamente você consegue mais que uma Smythe-Smith.”
Duas semanas atrás isso talvez fosse verdade.
“E mais, você precisa de alguém que tenha dote não é?”
“Todos precisamos de alguém com dote” Richard disse secamente.
“Verdade, realmente é verdade.” Winston poderia ser o filho do Conde de
Rudland, mas ele era o segundo filho. Ele não herdará nenhuma fortuna
espetacular. Não com um irmão mais velho saudável que já tinha dois filhos
homens. “A menina Pleinsworth provavelmente tem dez mil” Ele disse olhando
de volta para o programa balançando a cabeça. “Mas como eu disse, ela é bem
jovem.”
Richard fez uma careta. Até ele tinha seus limites.
“As florais-”
“As florais?” Richard interrompeu.
“Iris e Daisy, que é margarida” Winston explicou. “As irmãs delas se
chamam Rose e Marigold que é um tipo de cravo e eu não consigo lembrar a
outra. Tulipa? Virginia? Espero que não seja Crisântemo, pobrezinha.”
“O nome da minha irmã é Fleur” Richard se sentiu forçado a lembra-lo.
“E que garota adorável ela é” Winston disse apesar de nunca ter a
conhecido.
“Você estava dizendo...” Richard solicitou.
“Eu estava? Oh sim, eu estava. As florais. Não sei de seus dotes, mas não
deve ser muito. Acho que são cinco filhas na família.” Winston torceu os lábios
pensando. “Talvez mais.”
Isso não significava que seus dotes eram pequenos, Richard pensou cheio
de esperança. Ele conhecia pouco esse ramo da família Smythe-Smith-Ele
conhecia pouco de qualquer ramo, na realidade, exceto pelo fato de uma vez por
ano todos se reunirem, juntarem quatro meninas e as colocarem para tocar em
um concerto que a maior parte de seus conhecidos desejavam não ir.
“Fique com isso,” Winston disse de supetão lhe entregando dois
montinhos de algodão. “Você vai me agradecer por isso depois.”
Richard o encarou como se ele tivesse enlouquecido.
“Para seus ouvidos. “Winston explicou. “Confie em mim.”
“Confie em mim”, Richard repetiu. “Vindo de seus lábios essas palavras
me dão um arrepio na espinha”
“Em relação a isso,” disse Winston colocando o algodão nas orelhas, “eu não
estou exagerando.”
Richard examinou discretamente o salão. Winston não se esforçava nem um
pouco para esconder o que estava fazendo, certamente era considerado
deselegante tapar os ouvidos com algodão em um concerto. Porém
pouquíssimas pessoas pareciam nota-lo e os que notavam o olhavam com uma
expressão de inveja e não de censura.
Richard deu de ombros e fez o mesmo.
“Que bom que você veio.” Winston disse se inclinado para Richard ouvi-
lo mesmo usando o algodão nos ouvidos. “Não acho que eu sobreviveria sem
reforços.”
“Reforços?”
“A companhia aflita de solteiros sitiados.”
A companhia aflita de solteiros sitiados? Richard revirou os olhos “Deus
te livre de ter de formar frases quando estiver bêbado.”
“Oh, você verá isso logo mais.” Winston respondeu, usando seu dedo
indicador para abrir o casaco o suficiente para revelar um pequeno frasco
metálico.
Richard arregalou os olhos. Nunca foi pedante mas até ele sabia que não
era boa ideia beber abertamente em um musical dado por garotas adolescentes.
Então o concerto começou.
Após um minuto Richard se viu ajustando o algodão em suas orelhas. Ao
final da primeira peça ele podia sentir uma veia pulsando dolorosamente em sua
fronte. Mas foi quando o solo de violino começou que ele entendeu a gravidade
da situação.
“O frasco.” Ele arquejou.
Para sua sorte, Winston não esboçou nem um sorriso de satisfação.
Richard deu um grande gole no que descobriu ser vinho com canela, mas
não ajudou a disfarçar a dor.
“Podemos ir embora no intervalo?” Ele sussurrou a Winston,
“Não há intervalo.”
Richard olhou para o programa com terror. Ele não era musico, mas
certamente as garotas Smythe-Smith deveriam saber que o que elas estavam
fazendo...aquele “concerto...
Era uma agressão contra a dignidade de todos.
Segundo o programa, as quatro jovens estavam tocando um concerto para
piano de Wolfgang Amadeus Mozart. Mas para Richard um concerto para piano
envolvia tocar piano. A moça sentada ao bonito instrumento batia apenas na
metade das notas necessárias, se isso. Ele não conseguia ver seu rosto, mas pelo
modo que ela estava debruçada sobre as teclas ela parecia ser uma musicista
muito concentrada.
Embora, sem muita destreza.
“Aquela é a sem senso de humor.” Winston disse apontando com a cabeça em
direção a uma das violinistas.
Ah, Srta. Daisy. A dos cachos louros balançantes. De todas as garotas ela
era a que mais claramente se considerava uma boa musicista. Seu corpo se
movia como a mais habilidosa Virtuosa. Seus movimentos eram quase
hipnotizantes e Richard supôs que talvez um homem surdo pudesse considera-la
uma portadora do dom da música.
Na verdade, ela era apenas a portadora do ruído.
Quanto a outra violinista...Era só ele que podia ver que ela não sabia ler a
partitura?
Ela olhava pra todos os cantos, menos para o papel na sua frente e ela não tinha
virado sequer uma página desde o começo do concerto. Ela passou todo o tempo
mordendo os lábios e olhando de modo desesperado para Srta. Daisy tentando
imitar seus movimentos.
E restou a garota do violoncelo. Richard parou o olhar nela, observando o
movimento do arco nas grossas cordas do instrumento. Era dificílimo ouvir o
instrumento sob os sons frenéticos dos dois violinos, mas ocasionalmente um
pequeno som escapava da insanidade, e Richard não pode evitar pensar...
Até que ela é boa
Ele se pegou fascinado por ela, essa pequena mulher tentando se esconder
atrás do grande violoncelo. Ela pelo menos sabia quão ruim elas eram. Seu
sofrimento era visível, palpável. Sempre que ela virava as páginas do livro de
música ela parecia querer desaparecer em um estalo.
Essa era a Srta. Iris Smythe-Smith, uma das florais. Era difícil imaginar
que ela era parente da alegremente alheia Daisy, que ainda balançava com o
violino.
Iris. Era um nome estranho para essa garota. Ele sempre pensou em íris
como as flores mais brilhantes, com fortes tons de roxo e azul. Mas essa garota
era tão lívida que quase chegava a palidez total. Seu cabelo era próximo do
vermelho o suficiente para ela não ser considerada loira. Ele não podia ver seus
olhos de onde estava sentado, mas considerando o conjunto eles certamente
eram claros.
Ela era o tipo de garota difícil de ser notada.
E ainda assim Richard não podia parar de olha-la.
É o concerto, ele disse pra si mesmo. Para onde mais ele olharia?
Além do mais, era tranquilizante descansar o olhar em um ponto fixo. A
música era tão ofensiva aos ouvidos que ele se sentia tonto sempre que mexia os
olhos.
Ele quase riu. Srta. Iris Smythe-Smith, dos brilhantes cabelos claros e do
violoncelo desproporcional a ela se tornou sua salvadora.
Sir Richard não acreditava em presságios, mas ele consideraria esse.

Por que aquele homem a estava encarando?


O Musical já era tortura o suficiente, e Iris sabia- essa era a terceira vez
em que ela foi jogada ao palco e forçada e fazer papel de boba diante de uma
audiência escolhida a dedo formada pela elite de Londres. Era uma mistura
interessante, a plateia Smythe-Smith. Primeiro vinha a família. Apesar da
injustiça eles eram divididos no salão em dois grupos- as mães e o resto.
As mães olhavam para o palco com sorrisos estampados nos rostos,
seguras de que a exibição das filhas causava inveja em todas as conhecidas.
“Tão prendadas” A mãe de Iris dizia um ano após o outro. “Tão serenas.”
Tão cega, era a resposta silenciosa de Iris. Tão surda.
Quanto ao resto da família Smythe-Smith- os homens e as mulheres que
já deixaram seus sacrifícios no altar da falta de habilidade musical- cerravam os
dentes e se esforçavam para permanecer em seus lugares.
A família era maravilhosamente fértil e assim Iris sonhava ver o dia em
que chegassem a tal número que tornava impossível convidar para o musical
qualquer um que não fosse ligado a eles. Ela se imaginava dizendo” Não há
espaço suficiente” com um sorriso.
Infelizmente ela também imaginava sua mãe forçando seu pai a alugar um
salão de concerto maior.
O restante da audiência, poucos deles vinham todo o ano. Poucos, Iris
suspeitava, faziam por gentileza. Alguns certamente vinham apenas para
zombar. E também tinham os inocentes desavisados que claramente viviam em
cavernas. No fundo do mar.
Ou em outro planeta.
Iris não podia imaginar como eles nunca ouviram falar do musical das
Smythe-Smith, ou melhor, como não foram avisados sobre o musical das
Smythe-Smith, entretanto todo ano havia novos rostos tristes.
Como o homem na quinta fileira. Por que ele a estava encarando.
Ela tinha quase certeza que nunca tinha o visto antes. Ele tinha cabelos
escuros, o tipo que enrola na névoa húmida, e seu rosto tinha traços elegantes.
Ele era bonito, ele decidiu, apesar de não ser terrivelmente atraente.
Ele provavelmente não tinha um título de nobreza. A mãe de Iris tinha
sido rígida em relação a educação social das filhas. Era difícil imaginar um
nobre solteiro com menos de trinta anos que Iris e suas irmãs não pudessem
reconhecer de vista.
Um baronete, talvez. Ou um cavaleiro com terras. Ele devia ter bons
contatos pois ela podia reconhecer seu companheiro como o filho mais novo do
Conde de Rudland. Eles tinham sido apresentados em várias ocasiões, não que
isso significasse mais que se o Sr. Winston Bevelstoke poderia tira-la para
dançar se assim desejasse.
E ele não desejava.
Iris não se ofendia com isso, ou pelo menos não muito. Ela raramente
dançava durante mais da metade de qualquer baile, e ela gostava de poder
observar como a sociedade se comportava. Ela frequentemente pensava se as
estrelas da nobreza sequer notavam o que acontecia ao redor deles.
Talvez ela fosse meio invisível. Não há vergonha nisso, especialmente se
alguém gosta de ser assim. Por que algumas pessoas...
“Iris” Alguém chiou.
Era sua prima Sarah, se ajustando no piano com uma expressão de
urgência.
Oh, maldição, ela tinha perdido a entrada para o violoncelo. “Desculpe”,
ela murmurou apesar de ninguém poder ouvi-la. Ela nunca perdia as entradas.
Ela não se importava se as outras eram tão ruins que chegava a não importar se
ela tocasse direito ou não- era uma questão de princípios.
Alguém tinha que tocar direito.
Ela tocou o violoncelo se esforçando para evitar Daisy, que andava pelo
palco enquanto tocava. Quando Iris viu em sua partitura a pausa para o
violoncelo ela não pode evitar olhar novamente.
Ele ainda estava observando.
Será que ela tinha algo sujo no vestido? No cabelo? Sem pensar ela
ajustou o penteado esperando encontrar um galho preso nos fios.
Nada.
Não que ela estivesse irritada. Ele estava tentando confundi-la. Essa era a
única explicação. Que sujeito rude... E idiota.
Será que ele realmente achava que podia irrita-la mais que suas irmãs?
Era necessário um minotauro tocador de acordeão para ganhar de Daisy na
escala de irritação do sétimo círculo do inferno.
“Iris!” Sarah chiou.
“Ahhh,” Iris rosnou. Ela perdeu a entrada outra vez. Apesar de que Sarah
não tinha o direito de reclamar. Ela tinha pulado duas páginas inteiras na
segunda peça.
Iris localizou o ponto na partitura e voltou a tocar, aliviada por perceber
que estavam chegando ao fim do musical. Tudo que ela tinha que fazer era tocar
as notas finais, agradecer como se fosse verdade e tentar sorrir durante os
aplausos forçados.
Logo, ela poderia dizer que estava com dor de cabeça ir embora para se
trancar no quarto e ler um livro e ignorar Daisy e fingir que ela não teria que
passar por tudo isso de novo no ano seguinte.
A menos, é claro, se ela se casasse.
Era a única saída. Toda Smythe-Smith solteira tinha que tocar um
instrumento de sua escolha no quarteto e ela permaneceria assim até que seu
noivo a recebesse no altar.
Apenas uma prima foi capaz de se casar antes de ser forçada a tocar. Foi
um misto de sorte e astúcia. Frederica Smythe-Smith, hoje Frederica Plum
tocava violino, assim como sua irmã mais velha Eleanor.
Porém Eleanor demorou para casar. Eleanor tocou no quarteto pelo tempo
recorde de sete anos antes de se apaixonar por um curador que correspondeu ao
sentimento. Iris até que gostava de Eleanor apesar de ela achar que tocava bem.
(O que não era verdade.)
E quanto a Frederica, a demora de Eleanor de achar um esposo
significava que outro violino não era necessário. E Frederica simplesmente fez o
possível e o impossível para se casar o mais rápido possível.
Era uma história épica. Para Iris pelo menos.
Frederica hoje vivia no sul da Índia, fato que Iris desconfiava fazer parte
do plano de fuga. Ninguém na família a via há anos, apesar de ocasionalmente
chegar uma carta dela falando sobre o calor, os temperos e elefantes.
Iris odiava calor, e não era muito chegada em temperos fortes, mas
enquanto ela tocava no salão de baile da prima fingindo não ser observada com
olhares de pena ela não pode evitar pensar que ir para a Índia não era uma má
ideia.
Ela ainda não tinha uma opinião formada em relação aos elefantes.
Talvez ela arranjasse um marido esse ano. Na verdade ela não tinha se
esforçado para isso nos dois anos desde que ela foi apresentada a sociedade.
Porém era complicado se esforçar quando ela era na realidade tão difícil de ser
notada.
Exceto-ele olhou para frente e imediatamente voltou os olhos para o
chão- para aquele homem estranho na quinta fileira. Por que ele estava olhando
pra ela?
Não fazia sentido. E Iris odiava - mais do ela odiava fazer papel de boba
no musical- coisas que não faziam sentido.
Capítulo 2

Era claro para Richard que Iris Smythe-Smith planejava escapar do concerto
assim que fosse possível. Ela não estava sendo óbvia, mas ele passou pelo
menos uma hora a observando; a essa altura ele era praticamente um
especialista em suas expressões e maneirismos.
Ele teria que agir rapidamente.
“Nos apresente,” Richard disse para Winston discretamente apontando
com a cabeça na direção dela.
“Sério?”
Richard acenou bruscamente.
Winston deu de ombros, claramente surpreso pelo interesse do amigo em
relação a lívida Srta. Iris Smythe-Smith. Ele estava curioso, mas não
demonstrava. Em vez ele atravessou a multidão do mesmo modo suave de
sempre. A mulher em questão estava perto da porta de maneira incômoda, mas
seu olhar era penetrante enquanto examinava o salão, os convidados e como
interagiam.
Ela estava planejando sua fuga. Richard estava certo disso.
Porém ela seria frustrada. Winston parou em frente dela antes de qualquer
tentativa de fugir. “Srta. Smythe-Smith”, ele disse de modo alegre e amigável.
“Que prazer vê-la novamente.”
Suspeita, ela fez uma pequena mesura. Claramente ela não conhecia
Winston tão bem para ser cumprimentada de um modo tão caloroso. “Sr.
Bevelstoke,” ela murmurou.
“Permita-me apresenta-la a meu bom amigo, Sir Richard Kenworthy?”
Richard fez uma reverência. “É um prazer conhece-la,” ele disse
“O mesmo”
Ela tinha olhos tão claros como ele imaginara, apesar de ser difícil
precisar a cor somente com as velas iluminando o ambiente. Cinzentos, talvez,
ou azuis, com cílios tão claros que seriam invisíveis se não fossem tão longos.
“Minha irmã lamenta por não ter sido possível vir”, Winston disse.
“Sim, ela vem todo o ano não é?” Srta. Smythe-Smith murmurou com um
pequeno sorriso. “Ela é muito gentil.”
“Oh, eu não entendo o que gentileza tem a ver com isso,” Winston disse
com bom humor.
A Srta. Smythe-Smith levantou uma sobrancelha e olhou para Winston.
“Eu creio que gentiliza tem tudo a ver com isso.”
Richard tendeu a concordar. Ele não poderia imaginar outra razão que
levasse a irmã de Winston a se sujeitar a tal tortura mais de uma vez. E ele
admirou a perspicácia da Srta. Smythe-Smith em relação ao assunto.
“Ela me mandou como representante,” Winston continuou. “Ela disse que
a família não poderia deixar de ser representada esse ano.” Ele olhou
rapidamente para Richard “Ela foi bem insistente na realidade.”
“Por favor agradeça sua irmã por mim,” Srta. Smythe-Smith disse. “Com
licença, eu preciso-”
“Posso fazer uma pergunta?” Richard interrompeu.
Ela parou, já tinha se inclinado em direção a porta. Ela olhou para ele
surpresa, assim como Winston.
“É claro que pode,” ela murmurou, seus olhos não eram tão suaves como
seu tom de voz. Ela era uma jovem moça bem educada e ele um baronete. Ela
não poderia responder de outra maneira e os dois sabiam disso.
“Há quanto tempo a Srta. toca violoncelo?” Ele disse abruptamente. Foi a
primeira pergunta que lhe veio à mente, e só depois de dize-la ele percebeu que
soou um pouco rude. Ela sabia que o quarteto era terrível e sabia que ele
também achava isso. Perguntar sobre sua educação musical era no mínimo
cruel. Porém ele estava sob pressão e não podia permitir que ela fosse embora.
Pelo menos não sem uma curta conversa.
“Eu-” Ela gaguejou por um segundo e Richard sentiu um frio na barriga. Ele
não tinha a intenção de humilha-la- Oh, maldição.
“Foi uma apresentação adorável,” Winston disse como se quisesse chuta-lo.
Richard disse rapidamente, ansioso por se redimir na frente dela. “O que
eu quis dizer é que a Srta. parecia de algum modo mais proficiente comparada a
suas primas.”
Ela piscou diversas vezes. Maldição, agora ele conseguiu insultar as
primas dela, mas ele pensou, melhor isso do que insulta-la diretamente.
Ele continuou. “Eu estava sentado perto de onde a Srta. estava, e
ocasionalmente eu pude ouvir somente o violoncelo.”
“Entendo,” ela disse lentamente e de um certo modo prudente. Ela não
conseguia entender o interesse de Richard, isso era claro.
“A Srta. é muito hábil,” ele disse.
Winston olhou incredulamente para Richard. Richard entendeu a razão.
Não era fácil discernir o som do violoncelo em meio ao estrondo, e para um
ouvido não treinado Iris parecia ser tão terrível quanto as primas. Para Richard
dizer ao contrario deve ter soado como a mais falsa tentativa de lisonja.
Exceto que a Srta. Smythe-Smith sabia que tocava melhor que suas
primas. Ele viu em seus olhos assim que a elogiou. “Todas nós estudamos desde
muito jovens,” ela disse.
“Evidente,” ele respondeu. Era evidente que essa seria a resposta. Ela não
insultaria a própria família na frente de um homem estranho.
Um silêncio incomodo se instalou em meio ao trio, e a Srta. Smythe-
Smith sorriu educadamente outra vez com a clara intenção de sair.
“A violinista é sua irmã?” Richard perguntou antes que ela pudesse pedir
licença.
Winston o encarou com curiosidade.
“Uma delas, sim” ela respondeu. “A de cabelos loiros.”
“Sua irmã mais nova?”
“Quatro anos mais jovem,” ela disse, sua voz soava mais afiada. “Esse é o
ano em que ela foi apresentada a sociedade, apesar de ter tocado no quarteto ano
passado.”
“Falando disso, “Winston adicionou, salvando Richard de ser forçado a
pensar em outra pergunta, “Por que Lady Sarah estava no pianoforte? Eu
sempre pensei que o quarteto fosse formado por moças solteiras somente.”
“Nos faltava uma pianista,” ela respondeu “Se Sarah não tivesse tocado o
concerto seria cancelado.
Uma questão óbvia pairou sobre eles. Teria sido algo tão ruim se o
concerto fosse cancelado?
“Minha mãe ficaria com o coração partido,” a Srta. Smythe-Smith disse
com uma expressão impossível de decifrar. “Assim como minhas tias.”
“Foi muito gentil da parte dela, emprestar-lhes o talento.” Richard disse.
Então a Srta. Smythe-Smith disse algo surpreendente. Ela resmungou,
“Ela nos devia isso.”
Richard se abismou. “Perdão, o que disse?”
“Nada” ela disse vivamente...e falsamente.
“Não, eu insisto,” Richard disse intrigado. “A Srta. não pode fazer uma
declaração dessas e não explicar.”
Os olhos de Iris examinaram o ambiente. Talvez ela estivesse se
certificando que ninguém de sua família fosse capaz de ouvi-la. Ou talvez
apenas estivesse revirando os olhos. “Não é nada, sério. Ela não tocou ano
passado. Ela não apareceu no dia da apresentação.”
“O concerto foi cancelado?” Winston perguntou, franzindo o cenho como se
tentasse se lembrar.
“Não, a preceptora das irmãs de Sarah tocou no lugar dela.”
“Oh claro,” Winston disse acenando. “Eu me lembro. Bondade da parte
dela. É surpreendente na verdade ela conhecer a peça que tocariam.”
“Sua prima estava doente?” Richard perguntou.
A Srta. Smythe-Smith abriu os lábios como se fosse falar mas no último
segundo pareceu mudar de ideia. Richard teve certeza disso.
“Sim,” ela simplesmente disse. “Ela estava muito doente. Agora, se me
dão licença, há um assunto que preciso resolver.”
Ela fez uma reverência, eles retornaram a mesura e ela se retirou.
“O que foi tudo isso?” Winston perguntou imediatamente.
“O que?” Richard respondeu fingindo ignorância.
“Você praticamente se jogou na frente da porta para impedi-la de sair.”
Richard deu de ombros “Eu a achei interessante.”
“Ela?” Winston olhou em direção a porte que a Srta. Smythe-Smith usou
para sair. “Por que?”
“Eu não sei,” Richard mentiu.
Winston olhou para Richard, depois para a porta e de novo para Richard.
“Devo dizer que ela não é o tipo que normalmente te interessa.”
“Não,” Richard disse apesar de nunca ter parado para analisar seu tipo em
relação a mulheres. “Não, ela não é.”
Mas também ele nunca se viu necessitado de esposa antes. Ele tinha duas
semanas, somente isso.

No dia seguinte Iris se viu presa na sala de estar com sua mãe e
irmã, esperando os visitantes que insistiam em aparecer para parabeniza-las pelo
musical.
As irmãs de Iris que eram casadas apareceriam provavelmente e algumas
outras damas. As mesmas que iam ao musical todo ano por gentileza. O resto
evitaria todos os membros da família Smythe-Smith como se fossem portadores
da peste. A última coisa que queriam era conversar socialmente sobre o desastre
astronômico que era o musical.
Era como se os penhascos de Dover desabassem no mar e todos
permanecessem sentados tomando chá e dizendo “Oh sim, grande apresentação,
só lamento pela casa do pastor.”
Todavia, ainda era cedo e nenhum visitante tinha aparecido ainda. Iris trouxera
um livro, mas Daisy ainda brilhava de orgulho e triunfo.
Eu achei que estávamos incríveis,” Ela anunciou.
Iris tirou os olhos do livro tempo suficiente para dizer, “Nós não
estávamos incríveis.”
“Talvez você não, se escondendo atrás do violoncelo. Mas eu nunca me
senti tão viva e em equilíbrio com a música.”
Iris mordeu o lábio. Haviam inúmeras respostas como opção. Era quase
como se Daisy estivesse implorando para Iris usar todo o sarcasmo que era
capaz. Mas ela mordeu a língua. O concerto sempre a deixava nervosa e por
mais irritante que Daisy fosse - E como ela era- ela não era a culpada pelo mau
humor de Iris. Bem, não totalmente.
“Haviam muitos cavalheiros bonitos na apresentação ontem à noite,”
Daisy disse. “A senhora notou mamãe?”
Iris revirou os olhos. Era obvio que sua mãe tinha notado. Era o trabalho
dela notar cavalheiros solteiros em um recinto. Não, era mais que isso. Era sua
vocação.
“Sr. St. Clair estava ontem,” Daisy disse. “Ele é sempre muito
charmoso.”
“Ele nunca vai te notar,” Iris disse.
“Não seja grosseira, Iris,” sua mãe ralhou. Mas se virou para Daisy. “Mas
ela está certa. E eu também não desejo que ele te note. Ele é muito devasso para
uma jovem dama respeitável.”
“Ele estava conversando com Hyacinth Bridgerton,” Daisy se defendeu.
Iris olhou ansiosa para a mãe curiosa para ver sua resposta. Nenhuma
família era mais popular e respeitável que os Bridgertons mesmo que Hyacinth-
que era a caçula- fosse conhecida por ser terrível.
Sr. Smythe-Smith fez o que sempre fazia quando não queria dar uma
resposta. Levantou as sobrancelhas, abaixou o queixo e deu um suspiro de
desdém.
Fim da conversa. Pelo menos esse assunto.
“Winston Bevelstoke não é um devasso,” Daisy disse se virando
levemente. “Ele estava sentado perto do palco.”
Iris bufou.
“Ele é lindo!”
“Eu nunca disse que ele não era,” Iris respondeu. “Mas ele deve ter quase
trinta anos. E ele estava na quinta fileira.”
Isso pareceu intrigar sua mãe. “Na quinta- “
“Certamente não é perto do palco,” Iris interrompeu. Maldição, ela odiava
quando as pessoas erravam os detalhes.
“Ah, pelo amor de Deus,” Daisy disse. “Não importa onde ele estava
sentado. O que importa é que ele estava lá.”
Isso era verdade, mas ainda não era a questão principal. “Winston
Bevelstoke nunca se interessaria por uma menina de dezessete anos.” Iris disse.
“Por que não?” Daisy exigiu saber. “Eu acredito que você está com
ciúmes.”
Iris revirou os olhos. “Isso não chega nem perto da verdade que é até
difícil responder.”
“Ele estava olhando pra mim,” Daisy insistiu. “Ele deve ser muito
exigente pois está solteiro ainda. Talvez ele esteja esperando que a garota
perfeita apareça.”
Iris respirou fundo sufocando a resposta que surgiu em seus lábios. “Se
você se casar com Winston Bevelstoke.” Ela disse com calma, “Eu serei a
primeira a te parabenizar.”
Daisy cerrou os olhos com suspeita. “Ela está sendo sarcástica de nono
mamãe.”
“Não seja sarcástica Iris,” Maria Smythe-Smith disse sem tirar os olhos
do bordado.
Iris fez uma pequena careta em direção da mãe.
“Quem era aquele cavalheiro junto do Sr. Bevelstoke?” A Sra. Smythe-
Smith perguntou. “O de cabelo escuro.”
“Ele estava conversando com a Iris,” Daisy disse, “depois da
apresentação.”
A Sra. Smythe-Smith lançou um olhar sagaz na direção de Iris. “Eu sei.”
“O nome dele é Sir Richard Kenworthy,” Iris disse.
A mãe levantou as sobrancelhas.
“Estou certa de que ele só estava sendo educado,” Iris disse.
“Ele estava sendo educado por um bom tempo,” Daisy disse gargalhando.
Íris olhou incrédula para ela. “Nós conversamos por cinco minutos.
Talvez menos.”
“É um tempo maior que a maioria dos cavalheiros passam falando com
você.”
“Daisy, não seja grosseira,” sua mãe disse, “mas devo concordar. Eu
acredito ter sido mais que cinco minutos.”
“Não foi,” Iris resmungou.
Sua mãe não ouviu. Ou melhor, decidiu ignorar. “Teremos que descobrir
mais sobre ele.”
Iris abriu a boca em uma expressão de indignação. Cinco minutos na
companhia de Sir Richard foi o suficiente para fazer sua mãe planejar o fim do
pobre homem.
“Você não está ficando mais nova,” disse a Sra. Smythe-Smith.
Daisy riu.
“Certo,” Iris disse. “Me esforçarei para prender a atenção dele por quinze
minutos inteiros da próxima vez. Acredito que será o suficiente para pedir uma
permissão especial de casamento.”
“Oh, será?” Daisy perguntou. “Isso seria tão romântico.”
Iris só pode encara-la. Agora Daisy não podia reconhecer sarcasmo?
“Todo mundo se casa em uma igreja,” Daisy disse, “mas uma licença
especial é especial.”
“Logo, o nome,” Iris murmurou.
“Elas são muito caras,” Daisy continuou, “e são difíceis de conseguir.”
“Suas irmãs se casaram em uma igreja,” sua mãe disse, “assim como
vocês farão.”
Isso encerrava a conversa por pelo menos cinco segundos. Que era todo
tempo que Daisy era capaz de permanecer calada. “O que você está lendo? “Ela
perguntou se virando para Iris.
“Orgulho e Preconceito,” Iris respondeu. Ela não tirou os olhos do livro
mas marcou com o dedo onde estava no caso de precisar.
“Mas você já não leu esse?”
“É um ótimo livro.”
“Como um livro pode ser bom o suficiente para ser lido duas vezes?”
Iris deu de ombros, ação que poderia ser interpretada como fim da
conversa se não fosse por Daisy.
“Eu também li, sabe.” Ela disse.
“Leu é?”
“Honestamente, eu não acho que seja tão bom.”
Essa declaração fez Iris finalmente tirar os olhos do livro. “Perdão?”
“Não é muito realista,” Daisy explanou. “Você espera que eu acredite que
a Srta. Elizabeth recusaria a mão do Sr. Darcy?”
“Quem é Srta. Elizabeth?” a Sra. Smythe-Smith perguntou desviando a
atenção do bordado pela primeira vez. Ela olhou para uma filha e depois para a
outra. “E falando nisso, quem é Sr. Darcy?”
“Estava claro que ela jamais conseguiria alguém melhor que o Sr. Darcy.”
Daisy continuou.
“Foi o que o Sr. Collins disse quando a pediu em casamento.” Iris
retrucou. “E depois o Sr. Darcy pediu sua mão.”
“Quem é Sr. Collins?”
“São personagens mamãe.” Iris disse.
“Personagens muito bobos na minha opinião.” Daisy disse prontamente.
“O Sr. Darcy é muito rico. E a Srta. Elizabeth sequer tinha dote. Ele ter se
rebaixado a pedir a ela- “
“Ele estava apaixonado por ela!”
“É claro que ele estava,” Daisy disse, impertinente. “Não há outra
razão para pedi-la em casamento. E ela recusar!”
‘Ela tinha motivos.”
Daisy revirou os olhos. “Ela foi sortuda de ele pedi-la novamente.
É o que eu tenho a dizer.”
“Acho que devo ler esse livro,” a Sra. Smythe-Smith disse.
“Aqui,” Iris disse se sentindo deprimida de repente. Ela segurou o
livro oferecendo para a mãe. “Você pode ficar com o meu.”
“Mas você ainda está na metade.”
“Eu já li antes.”
A Sra. Smythe-Smith segurou o livro, abriu na primeira página e
leu a primeira frase, que Iris sabia de cor.

É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, possuidor de


uma boa fortuna, deve estar necessitado de esposa.

“Bom, isso está correto.” a Sra. Smythe-Smith disse para si mesma.


Iris suspirou, imaginado como poderia se distrair agora, Ela poderia
buscar outro livro, mas ela estava muito confortável deitada no sofá para
levantar. Ela suspirou.
“O que foi?” Daisy perguntou.
“Nada.”
“Você suspirou.”
Iris lutou contra o impulso de rosnar. “Nem todos os suspiros tem relação
com você.”
Daisy desdenhou se virando para outra direção.
Iris fechou os olhos. Talvez ela pudesse cochilar um pouco. Ela não
dormira muito bem na noite anterior. Ela nunca dormia bem na noite do
musical. Ela sempre dizia a si mesma que dormiria pois teria um ano inteiro
antes de voltar a sofrer.
Mas o sono não a ajudava, não quando ela não conseguia parar de pensar
em todos os detalhas, todas as notas malditas. Os olhares de escárnio, de pena,
de choque e de surpresa...Ela quase podia perdoar Sarah por se fazer de doente
no ano passado. Ela entendia, ninguém entendia como ela.
E ainda o Sir Richard pediu para ser apresentado. O que foi aquilo? Iris
não era tola de imaginar que ele estivesse interessado nela. Ela não era nenhuma
beleza rara. Ela esperava se casar um dia, mas quando isso acontecesse não
seria porque algum homem a olhou e se encantou com sua magia.
Ela não tinha magia. Segundo Daisy ela sequer tinha cílios.
Não, quando Iris se cassasse seria com uma proposta sensata. Um
cavalheiro comum a consideraria e decidiria que a neta de um conde era uma
boa aquisição à família, mesmo com o seu pequeno dote.
E ela tinha cílios sim, ela pensou rabugenta. Eles só eram muito clarinhos.
Ela tinha que descobrir mais sobre o Sir Richard Kenworthy. Mais
importante, ela tinha que descobrir como fazer isso sem chamar atenção. Não
seria sábio ser vista o perseguindo. Especialmente quando-
“Visitantes Senhora,” o mordomo anunciou.
Iris sentou. Boa postura, ela pensou com falsa alegria. Ombros pra trás,
costas retas...
“Sr. Winston Bevelstoke,” o Mordomo continuou.
Daisy sorriu e lançou um olhar de triunfo para Iris.
“E Sir Richard Kenworthy.”
Capítulo 3

“Você sabe,” Winston disse para Richard aos pés da escadaria da entrada
da casa dos Smythe-Smith, “não é nada simpático encher a pobre garota de
esperança.”
“E eu pensando que era um sinal de boa educação visitar uma jovem
moça.” Richard disse.
“É sim. Mas essas são as Smythe-Smiths.”
Richard já estava subindo os degraus, mas parou.” Há algo de
excepcional em relação a essa família?” ele perguntou em um tom neutro.”
Além do talento musical singular?”. Ele precisava se casar rapidamente, mas ele
também precisava do mínimo de fofoca e escândalo. Se as Smythe-Smiths
possuíam segredos sombrios, ele tinha que saber.
“Não,” Winston disse mexendo com a cabeça. “Não mesmo. É só
que...bom, alguém tem que dizer...”
Richard esperou. Eventualmente Winston desembuchou.
“Esse ramo dos Smythe-Smith em particular é considerado...” Winston
suspirou, incapaz de terminar a frase. Ele era um homem bom, Richard pensou
com um sorriso. Ele enchia as orelhas de algodão e bebia durante um concerto,
mas não era capaz de insultar uma dama, mesmo que o único insulto era a falta
de popularidade da moça.
“Se você cortejar umas das Srtas. Smythe-Smith.” Winston disse
finalmente, “Todos ficarão curiosos do porquê.”
“Por que eu sou um bom partido,” Richard disse em um tom seco e
irônico.
“E não é verdade?”
“Não,” Richard respondeu. Era típico de Winston ser tão alheio a um
assunto assim. “Eu não sou.”
“Vamos, não deve ser tão ruim assim.”
“Eu quase não consegui salvar as terras de Maycliffe graças negligencia a
má gerencia do meu pai, há uma ala inteira da casa que não pode ser habitada e
eu sou o guardião e mantenedor das minhas duas irmãs.” Richard deu um
sorriso suave. “Não, eu não diria que eu sou um bom partido.”
“Richard, você sabe que eu- “Winston parecia não saber como continuar.
“Por que Maycliffe tem uma ala que não pode ser habitada?”
Richard balançou a cabeça e continuou a subir.
“Eu só estou curioso- “
Mas Richard já tinha batido na porta. “Inundação,” Ele disse. “Insetos.
Talvez um fantasma também.”
“Se a situação é complicada assim,” Winston disse rapidamente
observado a porta, “Você vai precisar de um dote maior do que você encontrará
aqui.”
“Talvez,” Richard murmurou. Mas ele tinha outras razões para procurar
Iris Smythe-Smith. Ela era inteligente; não foi necessário ficar perto dela muito
tempo para ter certeza disso. E ela valorizava a família. Por qual outra razão ela
participaria daquele musical infeliz.
Mas seria ela capaz de valorizar a família dele como a dela? Seria
necessário se eles chegassem a se casar.
A porta foi aberta por um mordomo corpulento que pegou os cartões de
visita de Richard e Winston. Um momento depois eles foram levados até uma
sala de estar pequena porem muito elegante, decorada em tons de verde e
dourado. Richard notou imediatamente Srta. Iris no sofá o observando calada.
Fosse outra mulher Richard entenderia aquele olhar como um flerte, mas a
postura de Iris era mais observadora.
Ela o estava avaliando. Richard não sabia como se sentir em relação a
isso. Ele deveria estar admirado.
“Sr. Winston Bevelstoke,” o mordomo anunciou, “e Sir Richard
Kenworthy.”
As mulheres se levantaram para cumprimenta-los, e eles atenderam
primeiro a Sra. Smythe-Smith, como a etiqueta exigia.
“Sr. Bevelstoke,” ela disse sorrindo para Winston. “Há quanto tempo.
Como vai a sua irmã?”
“Muito bem. Ela está muito próxima de dar à luz, senão teria ido ao
musical ontem à noite.” Ele apontou para Richard. “Não creio que a senhora
tenha sido apresentada a meu bom amigo, Sir Richard Kenworthy. Nós
estudamos em Oxford juntos.
Ela deu um sorriso educado. “Sir Richard.”
Ele fez uma leve mesura. “Sra. Smythe-Smith.”
“Minhas filhas mais novas,” ela disse mostrando as duas jovens atrás
dela.
“Eu tive o prazer de conhecer a Srta. Smythe-Smith ontem à noite.”
Richard disse fazendo uma mesura na direção de Iris.
“Oh sim, claro.” A Sra. Smythe-Smith disse com um pequeno sorriso
rápido e novamente Richard teve a impressão de que estava sendo avaliado. Ele
não poderia saber qual era o padrão o qual estava sendo comparado. Era
enervante, e não foi a primeira vez que lhe veio à mente que Napoleão teria sido
derrotado muito antes de Waterloo se tivesse sido levado para conhecer uma
mãe de uma jovem solteira de Londres.
“Minha mais nova,” a Sra. Smythe-Smith disse apontando a cabeça em
direção a Daisy, “Srta. Daisy Smythe-Smith.”
“Srta. Daisy,” Richard disse educadamente fazendo uma mesura. Winston
fez o mesmo.
Assim que foram apresentados, os dois cavalheiros se sentaram.
“Desfrutaram do concerto?” a Srta. Daisy perguntou.
Ela parecia perguntar diretamente para Winston e Richard ficou muito
grato por isso.
“Sim, muito,” Winston disse após pigarrear pelo menos seis vezes. “Não
me lembro da última vez que eu, eh...”
“Imagino que nunca tenha visto Mozart ser tocado de tal maneira,” Iris
disse como se o resgatasse.
Richard sorriu. A perspicácia dela era muito atraente.
“Não, nunca,” Winston disse rapidamente, o alivio era evidente em sua
voz. “Foi uma experiência singular.”
“E o Sr., Sir Richard?” Iris perguntou. Ele a encarou nos olhos- olhos de
um azul muito, muito claro ele finalmente concluiu- e para sua surpresa ele
percebeu um pouco de impertinência. Ela estava tentando provoca-lo?
“Eu estou muito agradecido de ter decidido comparecer ontem,” ele
respondeu.
“Isso não é resposta para minha pergunta,” ele disse em um tom baixo o
suficiente para que sua mãe não pudesse ouvir.
Ele arqueou uma sobrancelha. “É a única resposta que você conseguirá.”
Ela abriu a boca surpresa, mas acabou dizendo simplesmente, “Muito
bem, Sir Richard.”
A conversa continuou abrangendo assuntos previsíveis- o clima, o rei e
depois o clima outra vez- até que Richard se aproveitou do tópico banal e
sugeriu uma caminhada pelo Hyde Park.
“O clima está ótimo hoje,” ele concluiu.
“Sim, como eu acabei de dizer,” Daisy exclamou. “O sol está brilhando.
A temperatura está amena Sr. Bevelstoke? Eu ainda não saí de casa hoje.”
“Esta consideravelmente amena,” Winston respondeu antes de lançar a
Richard um rápido porém letal olhar. Eles estavam quites agora, ou talvez ele
devesse uma a Winston. O musical das Smythe-Smith certamente não se
comparava a ter de passar uma hora de braços dados com Daisy. E ambos
sabiam que não era Winston que acompanharia Iris.
“Eu fiquei surpresa por ver o senhor tão cedo hoje,” Iris disse assim que
saíram em direção ao parque.
“E eu estou surpreso em saber que ficou surpresa,” ele respondeu.
“Certamente eu não causei uma impressão de desinteresse.”
Ela arregalou os olhos. Normalmente ele não seria tão direto, mas não
havia tempo para uma corte sutil.
“Eu não entendo,” ele disse com cuidado, “o que eu fiz para merecer sua
estima.”
“Nada,” ele admitiu. “Porém nem sempre estima é merecida.”
“Não é?” ela parecia surpresa.
“Não de imediato.” Ele olhou para ele sorrindo, feliz por perceber que a
borda de seu gorro não escondia seu rosto. “Não é essa a razão para a corte?
Determinar se a estima inicial vale a pena?”
“Creio que o que o senhor chama de estima eu chamo de atração.”
Ele riu. “A Srta. está certa. Aceite minhas desculpas e esclarecimento.”
“Então concordamos que eu não tenho sua estima.”
“Mas sim atração.” Ele murmurou ousado.
Iris ficou corada, e ele percebeu que o rubor se espalhou por todo seu
rosto. “O senhor sabe que não foi isso que eu quis dizer,” ela disse baixo.
“A Srta. tem minha estima,” ele disse firme. “Se não foi merecida ontem
à noite a Srta. a merece agora.”
Seus olhos ficaram com uma expressão confusa e ela acenou a cabeça
rapidamente entes de voltar o olhar para onde estavam andando.
“Eu não sou o tipo de homem que valoriza a burrice em mulheres,” ele
disse levianamente, quase como se estivesse comentando sobre um produto em
uma vitrine.
“O Sr. não me conhece o suficiente para medir minha inteligência.”
“Eu medi o bastante e tenho certeza de que a Srta. não é obtusa. Se a Srta.
sabe falar alemão ou se é boa em matemática eu saberei logo.”
Ela parecia querer esconder um sorriso e disse, “Sim pra um, não para o
outro.”
“Alemão?”
“Não, matemática.”
“Que pena.” Ele a fitou. “Falar alemão seria útil com a família real.”
Ela riu. “Creio que todos já sabem falar inglês a essa altura.”
“Sim, mas continuam casando com alemães, não é?”
“Além do mais,” Iris disse, “Eu não espero uma audiência com o rei no
futuro próximo.”
Richard riu, curtindo seu humor rápido. “Sempre há a pequena princesa
Victoria.”
“Que provavelmente não fala inglês,” Iris reconheceu. “A mãe dele
certamente não fala.”
“Você a conheceu?” ele perguntou.
“Claro que não.” Ela olhou para ele e Richard teve a impressão de que se
fossem mais próximos ela lhe daria um golpe bem humorado de cotovelos em
suas costelas. “Muito bem, estou convencida. Devo procurar um professor de
alemão imediatamente.”
“Tem facilidade com idiomas?” ele indagou.
“Não muita, mas nós todas fomos forçadas a estudar francês até mamãe
decidir que não era patriótico.”
“Ela ainda acha isso?” Deus do céu, a guerra acabou faz quase uma
década.
Iris o olhou de modo atrevido. “Ela é rancorosa as vezes.”
“Me lembre de não irrita-la”
“Eu não recomendaria,” ela disse distraída. Ela olhou para o lado e fez
uma careta. “Acho que temos que resgatar o Sr. Bevelstoke.”
Richard olhou na direção de Winston que estava a alguns metros de
distância no caminho. Daisy estava agarrada em seu braço e falando com tanto
vigor que seus cachos louros realmente balançavam para todos os lados.
Winston estava sendo civil, mas também parecia passar mal.
“Eu amo a Daisy.” Iris disse em um suspiro, “mas isso levou um tempo,
Oh, Sr. Bevelstoke.” Ela soltou o braço de Richard e foi em direção a Winston e
sua irmã. Richard a seguiu.
“Eu queria lhe perguntar,” ele a ouviu dizer, “O que pensa sobre o tratado
de São Petersburgo?”
Winston a encarou como se ela falasse outra língua, alemão talvez.
“Estava nos jornais de ontem,” Iris continuou. “Certamente o senhor leu.”
“Sim, é claro, “Winston mentiu claramente.
Íris sorriu calorosamente virando o rosto da irmã que fazia uma carranca.
“Parece que todos os lados ficaram satisfeitos. O senhor não concorda?”
“Eh...sim,” Winston disse fingindo entusiasmo. “Sim, sem dúvida.” Ele
entendeu o que Iris estava fazendo, mesmo que não entendesse do que ela
falava. “Muito justo.”
“Do que estão falando?” Daisy perguntou indignada.
“Do tratado de São Petersburgo,” Iris respondeu.
“Sim, isso você já disse,” Daisy disse irritada. “Mas, o que é isso?”
Iris parou sem reação. “Oh, bem...é sobre...”
Richard tentou não rir. Iris não sabia o que dizer. Ela se sacrificou para
salvar Winston da irmã mas não tinha uma resposta para a própria pergunta.
Era difícil não admirar sua ousadia.
“É um acordo, sabe,” Iris continuou, “entre a Grã Bretanha e a Rússia.”
“Exato,” Winston disse ajudando. “Um tratado. Creio que foi assinado em
São Petersburgo.”
“Foi um alívio.” Iris adicionou. “Não acha?”
“Oh, claro,” Winston respondeu. “Todos dormiremos mais tranquilos
depois disso.”
“Eu nunca confiei nos russos,” Daisy disse bufando.
“Bom, eu não diria isso,” Iris disse. Ela olhou em direção a Richard que
simplesmente deu de ombros, se divertindo muito como expectador para
interferir.
“Minha irmã quase se casou com um príncipe russo,” Winston disse sem
cerimônia.
“Sério?” Daisy perguntou animadamente.
“Bom, na verdade não,” Winston admitiu, “mas ele queria se casar com
ela.”
“Oh, que fantástico!” Daisy transbordou.
“Você acabou de dizer que nunca confiou nos russos,” Iris a lembrou.
“Eu não quis dizer a realeza também.” Daisy disse dispensando Iris.”
Conte-me,” ela disse para Winston, “Ele era terrivelmente atraente?”
“Creio não ser a melhor pessoa para te dar essa informação,” Winston
disse e depois adicionou, “Apesar de que, ele era bem loiro.”
“Oh, um príncipe!” Daisy suspirou, colocando uma mão ao peito na
direção do coração. Em seguida ela cerrou os olhos. “Por que sua irmã não se
casou com ele?”
Winston deu de ombros. “Não creio que ela o desejava. Ao invés, ela se
casou com um baronete. Eles estão ensopadamente apaixonados. Bom camarada
esse Harry.”
Daisy arfou tão alto que Richard estava certo que puderam ouvir do
palácio de Kensington. “Ela escolheu um baronete no lugar de um príncipe?”
“Algumas mulheres não se importam com títulos de nobreza.” Iris disse.
Ela se virou para Richard e disse em voz baixa, “Acredite se quiser, essa é a
segunda vez que temos essa conversa hoje.”
“Sério?” Ele ergueu uma sobrancelha. “Sobre quem falavam antes?”
“Personagens fictícios,” ela explicou, “de um livro que eu estou lendo.”
“Qual livro?”
“Orgulho e Preconceito,” ela disse balançado uma mão. “Acho que não
deve ter lido.”
“Na verdade li sim, é o favorito de minha irmã e eu gosto de conhecer o
que ela está lendo.”
“O senhor é sempre paternal assim em relação a seus irmãos?” ela
perguntou irônica.
“Irmãs, sou o guardião delas.”
Ela abriu os lábios e hesitou antes de falar, “Perdoa-me. Foi grosseiro de
minha parte. Eu não sabia.”
Ele aceitou as desculpas com um aceno. “Fleur tem dezoito anos e é
muito romântica. Se pudesse ela leria nada além de melodramas.”
“Orgulho e Preconceito não é um melodrama,” Iris protestou.
“Não,” ele disse rindo, “mas creio que na mente de Fleur ele é.”
Ela sorriu com a resposta. “O senhor tem a guarda dela faz tempo?”
“Fazem sete anos.”
“Oh!” ela cobriu os lábios com a mão e parou de andar. “Sinto muito.
Deve ter sido um peso para um homem tão jovem ter tamanha obrigação.”
“Lamento dizer que realmente considerei um peso na época. Tenho duas
irmãs na verdade, e depois que meu pai faleceu eu as mandei para morar com
minha tia.”
“Não consigo imaginar o que mais o senhor poderia fazer. Deveria estar
na escola ainda na época.”
“Na universidade.” Ele confirmou.” não sou severo comigo mesmo
pensando que deveria ter cuidado delas pessoalmente naquele momento, mas
deveria ter me envolvido mais.”
Ela segurou em seu braço como um gesto de conforto. “Tenho certeza
que o senhor fez o melhor que pode.”
Richard tinha certeza do contrário, mas disse, “Obrigado.”
“Quantos anos tem sua outra irmã?”
“Marie-Claire tem quase quinze anos.”
“Fleur e Marie-Claire,” Iris repetiu. “Muito francês.”
“Minha mãe era uma mulher caprichosa.” Ele disse com um sorriso e
balançando os ombros. “E também era metade francesa.”
“Suas irmãs moram com o senhor agora?”
Ele acenou. “Sim. Em Yorkshire.”
“Eu nunca estive tão ao norte.”
Ele ficou surpreso. “Nunca?”
“Eu moro em Londres durante todo o ano,” ela explicou. “Meu pai é o
quarto de cinco filhos. Ele não herdou terras no campo.”
Richard se perguntou se ela estava dando um aviso implícito. Se ele era
um caçador de dote, deveria procurar em outro lugar.
“Eu visito meus primos, evidentemente,” ela continuou de modo leve,
“mas todos moram no sul da Inglaterra. Não creio que eu tenha passado de
Norfolk.”
“A paisagem é bem diferente no norte,” ele disse a ela. “Chega e ser bem
desolado e ermo.”
“O senhor não está agindo como um embaixador entusiasta de seu
condado,” ela censurou bem humorada.
Ele soltou um riso abafado. “Não é tudo desolado e ermo. E onde é, é
lindo em sua própria maneira.”
Ela sorriu com a descrição.
“De qualquer maneira,” ele continuou, “Maycliffe fica em um vale
agradável. Não é uma região tão selvagem se comparada com o resto do
condado.”
“Isso é bom?” ele perguntou levantando uma sobrancelha.
Ele riu. “Nós não moramos muito longe de Darlington e da ferrovia sendo
construída por lá.”
Os olhos azuis de Iris se encheram de encanto. “Verdade? Eu adoraria ver
a ferrovia. Eu li que quando terminarem, será possível viajar a vinte cinco
quilômetros por hora, mas não consigo imaginar tamanha velocidade. Parece
perigoso.”
Ele acenou distraidamente, olhando para Daisy que ainda interrogava
Winston sobre o príncipe russo. “Penso que sua irmã deve achar que a Srta.
Elizabeth não deveria ter recusado a primeira proposta de casamento do Sr.
Darcy.”
Iris o encarou inexpressiva antes de piscar várias vezes dizendo, “Oh,
sim, o livro. Sim, o Sr. está certo. Daisy acha que Lizzy foi uma tola.”
“O que a Srta. acha?” ele perguntou percebendo que verdadeiramente
desejava saber a opinião dela sobre o assunto.
Ela parou, parecia estar tentando escolher as palavras. Richard não se
incomodou com o silêncio; dava a ele a oportunidade de observa-la enquanto
pensava. Ela era mais bela do que ele imaginou ao vê-la pela primeira vez.
Havia uma simetria agradável em seus traços, e seus lábios eram mais rosados
que o normal considerando o quanto ela era lívida.
“Considerando o que ela sabia dele na ocasião,” Iris disse finalmente,
“Não imagino como ela o aceitaria. O Sr. se casaria com alguém que não
poderia respeitar?”
“Certamente que não.”
Ela anuiu com energia, depois franziu o rosto ao olhar para Winston e
Daisy outra vez. De algum modo eles estavam a uma longa distância deles.
Richard não podia ouvir o que falavam, mas Winston tinha a expressão de um
homem em apuros.
“Temos que salva-lo de novo,” Iris disse em um suspiro. “Mas dessa vez
será o senhor. Eu já usei todo meu conhecimento de política russa.”
Richard se curvou em direção a Iris o suficiente para murmurar em seu
ouvido. “O tratado de São Petersburgo definiu a fronteira entre a América Russa
e o território norte ocidental.”
Ela mordeu o lábio inferior tentando conter um sorriso.
“Iris!” Daisy chamou gritando.
“Parece que não precisaremos armar um resgate,” Richard disse ao se
aproximar do outro casal.
“Eu convidei o Sr. Bevelstoke para a noite de poesia na casa dos
Pleinsworth semana que vem,” Daisy disse. “Insista para ele ir.”
Iris encarou a irmã antes de se virar para Winston. “Eu...insisto que vá?”
Daisy bufou para a falta de determinação da irmã e se voltou para
Winston. “O Sr. deve comparecer, Sr. Bevelstoke. Simplesmente deve.
Certamente será inspirador. Poesia sempre é.”
“Não,” Iris disse franzindo o rosto, “realmente não será.”
“Mas é claro que iremos,” Richard anunciou.
Winston estreitou os olhos de modo perigoso.
“Nós não perderíamos por nada.” Richard disse a Daisy.
“As Pleinsworth são nossas primas,” Iris disse explicando, “Devem
lembrar de Harriet. Ela tocou violino- “
“Segundo violino,” Daisy disse.
“- no concerto ontem à noite.”
Richard se lembrou. Ela só poderia estar falando da garota que não sabia
ler a partitura. Não havia razão para imaginar que isso afetaria na leitura de
poesia.
“Harriet é uma chata,” Daisy disse, “mas as irmãs mais novas são
adoráveis.”
“Eu gosto de Harriet,” Iris disse firme. “Eu gosto muito dela.”
“Então estou certo de que será uma noite muito agradável,” Richard disse.
Daisy sorriu e encaixou o braço no de Winston se virando em direção ao
portão por onde entraram. Richard seguiu com Iris, andando mais devagar para
poderem conversar em privado.
“Se eu a visitasse amanhã,” ele perguntou em um tom baixo, “a Srta.
estaria em casa?”
Ela não se virou para ele, o que foi uma pena pois Richard adoraria vê-la
corar outra vez.
“Eu estaria sim.” Ela sussurrou.
Foi nesse momento que Richard decidiu. Ele se casaria com Iris Smythe-
Smith.
Capítulo 4

Naquele dia, mais tarde


Em um salão de baile em Londres

“Eles não chegaram ainda,” Daisy disse


Iris fingiu rir. “Eu sei.”
“Eu estive vigiando a porta.”
“Eu sei.”
Daisy estava inquieta, mexendo em seu vestido verde de renda. “Espero
que o Sr. Bevelstoke goste do meu vestido.”
“Não imagino como ele não o achará elegante.” Iris disse honestamente. Daisy a
deixava à beira da loucura na maior parte do tempo e Iris nem sempre usava
palavras doces com a irmã, mas ela estava sempre disposta a elogia-la quando
era merecido.
Daisy era linda. Ela sempre foi linda, com seus cabelos louros brilhantes
e cacheados e seus lábios rosados. Elas não eram tão diferentes, mas o que
brilhava como ouro em Daisy parecia sem graça e descorado em Iris.
Uma babá disse certa vez que Iris desapareceria se caísse em um balde de
leite, e isso não estava muito longe da verdade.
“Você não deveria ter usado essa cor,” Daisy disse.
“E eu aqui tendo pensamento benevolentes,” Iris murmurou. Ela gostava
do azul claro de seu vestido. Ela achava que valorizava seus olhos.
“Você deveria usar cores escuras. Para ter contraste.”
“Contraste?” Iris repetiu.
“Bom, você precisa de alguma cor.”
Algum dia ela mataria sua irmã. De verdade.
“Na próxima vez em que formos fazer compras,” Daisy continuou, “me
deixe escolher seus vestidos.
Iris a encarou por alguns segundos e deu as costas. “Eu vou buscar
limonada.”
“Você trará para mim também?” Daisy disse alto.
“Não.” Iris achou que Daisy não a ouviu mas não se importava. Ela
descobriria com o tempo que não teria limonada.
Assim como Daisy, Iris esteve vigiando a porta a noite toda.
Diferentemente de Daisy ela estava sendo discreta. Quando Sir Richard a
deixou em casa de manhã, ela mencionou que estaria no baile de Mottram a
noite. Era um evento anual muito bem frequentado. Iris sabia que Sir Richard
não tinha um convite mas ele conseguiria um com facilidade. Ele nunca disse
que viria mas a agradeceu pela informação. Certamente isso significava algo.
Iris olhou o salão fazendo o que fazia de melhor nessas ocasiões-observar
os outros. Ela gostava de ficar perto da área de dança. Ela era uma observadora
ávida de seus amigos e conhecidos. E pessoas que não conhecia e pessoas que
não gostava. Era agradável, e na maioria das vezes ela se divertia mais assim do
que dançando. Era só que essa noite...
Essa noite ela realmente gostaria de dançar com alguém.
Onde ele estava? Iris tinha chegado realmente cedo. Sua mãe era uma
defensora da pontualidade, não importava quantas vezes falassem que o horário
no convite era apenas uma diretriz.
Mas agora o salão de baile estava transbordando, e qualquer um que se
preocupasse em chegar muito cedo não tinha mais razão para temer. Se mais
uma hora passasse-
“Srta. Smythe-Smith.”
Ela se virou. Sir Richard estava diante dela energicamente bonito em sua
roupa formal.
“Eu não te vi entrando,” ela disse e imediatamente se odiou por isso.
Idiota, idiota. Agora ele saberia que ela estava-
“Você estava me esperando?” ele perguntou enquanto seus lábios se
dobravam em um sorriso.
“Claro que não,” ela gaguejou. Ela nunca foi boa em mentir.
Ele fez uma reverência e beijou sua mão. “Eu me sentiria lisonjeado se
estivesse.”
“Eu não estava te esperando exatamente,” ela disse tentando sufocar o
constrangimento. “Mas eu estava olhando de vez quando. Para ver se estava
aqui.”
“Então eu estou lisonjeado pelo seu ‘olhar de vez em quando’”
Ela tentou sorrir. Ela não era muito boa em flertar. Se a colocassem em
uma sala cheia de conhecidos ela conversaria com gosto e humor. Seu sarcasmo
ela lendário entre a família. Se a colocassem em frente a um cavalheiro bonito
sua língua faria um nó. A única razão de ter conversado com Sir Richard tão
naturalmente durante o passeio foi não ter percebido que ele a estava
cortejando.
Era mais fácil ser natural quando o risco é baixo.
“Ouso ter a esperança da Srta. ter reservado uma dança para mim?” Sir
Richard perguntou.
“Tenho muitas danças disponíveis, senhor.” Como era o comum.
“Isso não pode ser possível.”
Iris engoliu seco. Ele olhava para ela com uma intensidade debilitante.
Seus olhos eram escuros, quase negros, e pela primeira vez na vida ela entendeu
quando dizem que é possível se perder nos olhos de alguém.
Ela poderia se perder nos olhos dele. E não se incomodaria com isso.
“Acho difícil acreditar que os cavalheiros de Londres são tolos a ponto de
te deixarem sem dançar.”
“Eu não me importo,” ela disse, “De verdade” ela continuou quando viu
que ele não acreditou. “Eu gosto de observar as pessoas.”
“Gosta é?” ele sussurrou. “O que você vê?”
Iris olhou pelo salão. Os casais que dançavam enchiam o ambiente de cor.
“Ali,” ela disse se referindo a uma moça a alguns metros de distância. ‘” Ela
está levando uma bronca da mãe.”
Sir Richard se inclinou levemente para ver melhor. “Não vejo nada fora
do comum.”
“Tenho que concordar que levar uma bronca da mãe realmente não é fora
do comum, mas olhe atentamente.” Iris apontou o mais discretamente possível.
“Ela levará uma bronca maior depois. Ela não está prestando atenção.”
“Você conseguiu chegar a essa conclusão mesmo a cinco metros de
distância?”
“Eu tenho alguma experiência com broncas.”
Ele riu alto. “Suponho que não seria educado lhe perguntar o motivo de
ter levado uma bronca.”
“Certamente não seria.” Ela disse sorrindo. Talvez ela finalmente
estivesse aprendendo a flertar. Era até divertido, na verdade.
“Muito bem,” ele disse assentindo, “A Srta. é muito observadora. Eu
considerarei isso mais um atributo positivo. Mas eu não acreditarei que a Srta.
não gosta de dançar.”
“Eu não disse que não gosto de dançar. Eu só disse que não gosto de
dançar em todas as danças.”
“E a Srta. dançou todas as danças essa noite?”
Ela sorriu para ele, se sentindo atrevida e poderosa, não como geralmente
era. “Eu não estou dançando essa dança.”
Ele ergueu uma sobrancelha surpreso e imediatamente fez uma mesura.
“Srta. Smythe-Smith, me daria a honra dessa dança?”
Íris deu um sorriso largo, incapaz de fingir indiferença. Ela segurou em
sua mão e foi guiada até a pista de dança, onde casais já se alinhavam.
Os passos eram confusos, mas pela primeira vez Iris teve a impressão de
dançar sem esforço. Seus pés sabiam o que fazer, e seus braços se moviam na
hora certa. Os olhos de Richard permaneceram focados nos dela, até quando a
dança os obrigava a trocar de parceiros.
Iris nunca tinha se sentido tão valiosa. Ela nunca tinha se sentido...
Desejada.
Ela sentiu um pequeno arrepio e quase tropeçou. Era essa a sensação de
ser querida por um homem? E quere-lo também? Ela tinha visto as primas se
apaixonarem, tão movidas pelo sentimento que faziam papel de boba. Elas
falavam sobre ficar sem folego, a antecipação, os beijos lancinantes e depois,
quando se casaram, tudo se resumia a sussurros entre elas. Haviam segredos –
segredos agradáveis, é o que parecia – que não poderiam ser contados a moças
solteiras.
Iris nunca entendeu. Quando suas primas falavam sobre o momento de
suspense antes de um beijo, ela só conseguia pensar em como isso soava
espantoso. Beijar alguém nos lábios...por que ela faria isso? Parecia ser muito
desastrado.
Mas agora, enquanto ela atravessava a pista de dança segurando a mão de
Sir Richard ele não pode evitar olhar para seus lábios. Algo surgiu dentro dela,
uma ânsia estranha, uma sede profunda que a deixou sem ar.
Santo Deus, isso era desejo. Ela o desejava. Ela, que sequer tinha
desejado segurar a mão de um homem, queria conhece-lo.
Ela congelou.
“Srta. Smythe-Smith?” Sir Richard estava a seu lado. “Há algo errado?”
Ela piscou e finalmente se lembrou de respirar. “Não é nada,” ela disse
baixo. “Me senti um pouco tonta, só isso.”
Ele a guiou para fora da pista de dança. “Permita me te buscar algo para
beber.”
Ela agradeceu e esperou sentada na área dos acompanhantes até ele voltar
com um copo de limonada.
“Não está gelada,” ele disse, “mas a outra opção era champanhe, e eu não
acho que ajudaria se está se sentindo tonta.”
“Não. Não, claro que não.” Ela deu um gole, ciente de que ele a
observava atentamente. “Estava muito quente na pista de dança.” Ela disse se
sentindo obrigada a dar uma explicação.” Não acha?”
“Um pouco, sim.”
Ela deu outro gole, agradecida por poder olhar para o copo nas mãos. “O
Sr. não precisa ficar aqui comigo.” Ela disse a ele.
“Eu sei.”
Ela estava tentando não olhar para ele, mas a simplicidade dessas
palavras pescou sua atenção.
Ele deu um meio sorriso arteiro. “E até agradável ficar aqui as bordas do
salão. Muitas pessoas para observar.”
Ela voltou a olhar para a limonada. Era um elogio astuto, mas ainda era
um elogio. Ninguém entenderia além deles o que fazia tudo mais maravilhoso.
“Temo que não poderei ficar sentada aqui por muito tempo,”
Ele pareceu arregalar os olhos. “Tal afirmação pede uma explicação.”
“Agora que o Sr. dançou comigo,” ela explicou, “outros se sentirão
obrigados a fazer o mesmo.”
Ele deu um riso abafado. “Sério, Srta. Smythe-Smith, realmente acha que
nós homens somos tão previsíveis?”
Ela deu de ombros, ainda olhando para o copo. “Como eu disse antes, Sir
Richard, eu gosto muito de observar. Eu não sou capaz de dizer por que homens
agem como agem, mas certamente posso prever o que farão.”
“Seguem uns aos outros como ovelhas?”
Ela segurou o sorriso.
“Suponho que há verdade no que disse,” ele reconheceu. “Devo me
parabenizar por tê-la notado sem ajuda.”
Ela olhou para ele.
“Sou um homem com gosto sagaz.”
Ela tentou não bufar. Agora ele realmente estava forçando a barra. Mas
ela ficou feliz por isso. Era mais fácil permanecer indiferente quando seus
elogios pareciam deliberados.
“Não tenho razão para duvidar de sua observação,” ele continuou, se
inclinando na cadeira enquanto observava as pessoas se movimentando. “Mas
como sou um homem e logo, parte do mistério desconhecido- “
“Oh, por favor.”
“Não, devemos dar nome aos bois.” Ele se virou para ela. “Tudo no nome
da ciência.”
Ela revirou os olhos.
“Como eu estava dizendo,” ele continuou, em um tom que
descaradamente a desafiava a interromper, “Acredito que posso lançar um
pouco de luz sobre suas observações.”
“Eu tenho minha própria teoria.”
“Tsk Tsk. A Srta. disse que não era capaz de dizer por que homens agem
como agem.”
“Não conclusivamente, mas seria uma tremenda falta de curiosidade se eu
não pensasse no assunto.”
“Muito bem, me conte. Por que homens são ovelhas?”
“Agora o senhor me deixou em maus lençóis. Como é possível responder
isso sem ofender?”
“Não é possível, na realidade.” ele admitiu, “Prometo que não ficarei
magoado.”
Iris respirou fundo, não acreditando que aquela conversa realmente estava
acontecendo. “O senhor, Sir Richard, não é um tolo.”
Ele piscou e disse, “Como prometido, não estou magoado.”
“E sendo assim,” ela continuou com um sorriso – quem não sorriria
depois disso? – “Quando decide fazer algo, os outros homens não duvidarão do
senhor. Chego a acreditar que muitos jovens se inspiram no senhor.”
“A Srta. é muito gentil,” ele disse lentamente.
“Continuando, “ela disse, sem interromper, “quando o senhor pede para
dançar com uma dama...especialmente uma jovem que não é conhecida por
dançar com frequência, os outros vão querer saber a razão. Eles imaginarão o
que o senhor viu nela que eles não foram capazes de ver. E se não acharem nada
interessante sobre ela, eles não desejarão serem considerados ignorantes. Então
a tirarão para dançar também.”
Ele não disse nada em seguida, então ela adicionou, “Suponho que deve
me achar uma cínica.”
“Oh, sem dúvida. Mas isso nem sempre é ruim.”
Ela virou para ele surpresa. “Perdão?”
“Acho que devemos conduzir um experimento científico,” ele anunciou.
“Um experimento.” Ela repetiu. O que ele estava tramando?
“Já que a Srta. tem observado meus companheiros homens como se
fossemos espécimes de um laboratório, eu sugiro fazermos um experimento
formal.” Ele esperou pela resposta, mas ela estava sem fala, completamente sem
fala.
“Afinal,” ele continuou, “a ciência requer a coleta de dados não é?”
“Suponho que sim,” ela disse suspeita.
“Eu te guiarei de volta ao meio do salão, ninguém se aproximará aqui na
área dos acompanhantes. Eles pensarão que está machucada ou algo assim.”
“Verdade?” Iris ficou surpresa. Talvez essa fosse uma das razões que ela
não era convidada para dançar.
“Bom, é o que eu sempre penso. Por que mais uma jovem ficaria por
aqui?” ele olhou para Iris, o que a fez pensar que sua pergunta não era
hipotética, mas quando decidiu responder ele continuou.” Eu a levarei de volta e
a deixarei. Veremos quantos homens a convidarão para dançar.”
“Não seja bobo.”
“E a Srta.,” ele continuou como se não tivesse ouvido, “deve ser honesta
comigo. Deve me dizer de verdade se irá dançar mais do que normalmente
dança.”
“Prometo dizer a verdade,” Iris disse rindo. Ele era capaz de dizer a maior
bobeira como se fosse um assunto de vital importância. Ela quase podia
acreditar que era tudo no nome da ciência.
Ele se levantou e ofereceu a mão. “Milady?”
Iris deixou o copo vazio e se levantou.
“Espero que não esteja mais se sentindo tonta,” ele sussurrou enquanto a
guiava pelo salão.
“Acredito que sobreviverei o resto da noite.”
“Ótimo,” ele fez uma mesura. “Até amanhã então.”
“Amanhã?”
“Vamos fazer um passeio, não vamos? A Srta. me deu permissão de te
visitar. Eu pensei em passearmos pela cidade se o tempo ajudar.”
“E se o tempo não ajudar?” ela perguntou um pouco atrevida.
“Então falaremos sobre livros. Talvez,” - ele chegou mais perto dela –
“algo que sua irmã ainda não leu?”
Ela soltou uma risada alta e sincera. “Eu estou quase torcendo para
chover, Sir Richard, e eu – “
Mas ela não pode terminar pois um cavalheiro de cabelos claros tinha se
aproximado. Sr. Reginald Balfour. Ela já o conhecia, ele era amigo de sua irmã.
Ele sempre a cumprimentou educadamente, só isso.
“Srta. Smythe-Smith,” ele disse com uma mesura. “A Srta. está muito
elegante essa noite.”
Iris ainda estava de braços dados a Richard e pode sentir quando ele
segurou o riso.
“Está disponível para próxima dança?” perguntou Sr. Balfour.
“Estou sim,” ela disse.
“Então posso acompanha-la?”
Ela olhou para Richard. Ele piscou um olho.

Noventa minutos depois, Richard estava de pé perto de uma parede,


olhando Iris dançar com outro homem que ele não reconhecia. Mesmo ela
dizendo que nunca dançava todas as danças, ele achava que ela estava perto essa
noite. Ela parecia realmente surpresa pela atenção. Se ela estava se divertindo
ele não tinha certeza. Ele imaginou se mesmo se ela não estivesse ela levaria
aquela noite como uma experiência interessante.
Não pela primeira vez ele pensou que Iris Smythe-Smith era uma mulher
inteligente. Foi um dos motivos que ele a escolheu. Ela era muito racional. Ela
entenderia.
Ninguém parecia nota-lo, então ele aproveitou o momento de paz para
pensar em sua lista. Ele tinha escrito uma no caminho para Londres há alguns
dias. Bom, não escrito de verdade. Ele não era tolo a esse ponto, mas ele usou o
tempo da viagem para decidir o que ele precisava em uma esposa.
Ela não poderia ser mimada. Ou ser do tipo que gosta de chamar atenção.
Ela não poderia ser tola. Ele tinha razões para se casar com pressa, mas
ele teria que viver com essa mulher o resto da vida.
Seria bom se ela fosse bonita, mas não obrigatório.
Seria melhor se ela não fosse de Yorkshire. Seria mais fácil se ela não
conhecesse a vizinhança.
Ela não poderia ser muito rica. Ele deveria parecer um bom partido.
E acima de tudo, ela deveria valorizar a família. Só assim esse plano
funcionaria. Ela teria que entender por que ele fez tudo isso.
Iris Smythe-Smith se encaixava em tudo. Assim que ele a viu se
escondendo atrás do violoncelo, desejando não ser vista, ele ficou intrigado por
ela. Ela foi apresentada à sociedade há alguns anos, mas ele não sabia se ela já
foi pedida em casamento por alguém. Richard não era rico, mas era respeitável,
e não haviam razões que levassem a família dela a desaprova-lo.
E ele gostava dela. Ele desejava joga-la sobre os ombros, fugir e a
arrebata-la? Não, mas ele sabia que, quando chegasse a hora, seria prazeroso.
Ele gostava dela. Ele sabia o suficiente sobre casamentos para saber que
isso era mais que a maioria dos homens tinha quando chegaram ao altar.
Ele só desejava ter mais tempo. Ela era muito sensata para aceita-lo tão
rapidamente assim. E honestamente, ele não gostaria de se casar com uma
mulher que agisse de um modo tão precipitado. Ele teria que forçar a situação, o
que era uma pena.
Mas ele se lembrou que não tinha mais o que fazer por aquela noite. Ele
só deveria ser educado e charmoso para não causar nenhum problema
desnecessário quando chegasse a hora. Ele já tinha problemas suficientes para o
resto da vida.
Capítulo 5

No dia seguinte

“Daisy não,” Iris implorou. “Por favor, tudo menos a Daisy.”


“Você não pode andar por Londres com Sir Richard sem uma
acompanhante,” sua mãe disse enquanto arrumava o penteado sentada na
penteadeira. “Você sabe disso.”
Iris correu para o quarto da mãe assim que soube que Daisy a
acompanharia no passeio com Sir Richard. Sua mãe tinha que perceber quão
estúpida era essa ideia. Mas não, a Sra. Smythe-Smith parecia confortável com
a ideia e agia como se tudo estivesse certo.
Iris foi para o outro lado da mãe, chegando mais perto do espelho para
não ser ignorada. “Eu vou com a minha criada. Mas Daisy não. Ela não vai
recuar. A senhora sabe que ela não vai.”
A Sr. Smythe-Smith considerou a questão.
“Ela vai dominar toda a conversa,” Iris continuou. Sua mãe não parecia
estar convencida ainda e Iris percebeu que deveria usar outra tática. A tática da
sua-filha-é-quase-uma-solteirona-e-essa-pode-ser-sua-única-chance.
“Mamãe,” Iris disse, “por favor, reconsidere. Se o Sir Richard deseja me
conhecer melhor ele não vai conseguir com a Daisy junto.”
Sua mãe deu um longo suspiro.
“A senhora sabe que é verdade,” Iris disse baixo.
“Você tem razão,” A Sr. Smythe-Smith disse franzindo o cenho. “Mas
não quero que Daisy se sinta excluída.”
“Ela é quatro anos mais nova que eu,” Iris protestou. “Ela terá tempo de
encontrar um cavalheiro para ela.” E então em um tom triste ela disse, “É a
minha vez.”
Ela gostava de Sir Richard, mesmo não confiando nele totalmente. Havia
algo de muito estranho e inesperado em relação a ele. Ele claramente quis ser
apresentado no musical; Iris nunca viu isso acontecer antes. E ele visita-la na
manhã seguinte e ter passado tanto tempo com ela no baile de Mottram...isso era
sem precedentes.
Ela não achava que ele tinha más intenções; ela se considerava boa em
julgar o caráter dos outros e seja lá o que ele queria, certamente arruína-la não
estava nos planos. Mas ela também não poderia acreditar que ele foi tomado
pela paixão. Se ela fosse o tipo de mulher que causa amor à primeira vista isso
já teria acontecido a essa altura.
Porém, vê-lo de novo não faria mal algum. Ele pedira permissão a sua
mãe para visita-la e tinha a tratado com total cortesia. Tudo era muito decoroso,
e bajulador, se ela fosse dormir pensando nele não seria surpreendente. Ele era
um homem atraente.
“Você tem certeza de que ele não virá com o Sr. Bevelstoke?” sua mãe
perguntou.
“Tenho. E sendo honesta, eu não acho que o Sr. Bevelstoke esteja
interessado em Daisy.”
“Não, também acho. Ela é muito jovem para ele. Muito bem, você pode ir
com a Nettie. Ela acompanhou suas irmãs várias vezes, então ela sabe o que
fazer.”
“Oh, obrigada mamãe! Muito obrigada!” Surpreendendo ela mesma, Iris
abraçou sua mãe. Apenas um segundo depois as duas se separaram; elas nunca
tiveram um relacionamento com demonstrações físicas de afeto.
“Acho que isso tudo não dará em nada,” Iris disse pois não queria se
encher de esperança. “Mas certamente não dará em nada com a Daisy junto.”
“Eu só gostaria de saber mais sobre ele,” sua mãe disse franzindo o
cenho. “Ele não vem a Londres há muito tempo.”
“A senhora o conheceu quando a Marigold debutou?” Iris perguntou. “Ou
a Rose ou a Lavender?”
“Creio que ele estava por aqui quando Rose debutou,” sua mãe disse se
referindo a filha mais velha, “mas nós não frequentávamos os mesmos lugares.”
Iris não conseguiu entender essa afirmação.
“Ele era jovem,” sua mãe disse balançando uma mão. “Casamento não
estava em seus planos.”
Em outras palavras, Iris pensou com bom humor, ele fora um pouco
selvagem.
“Eu falei com sua tia sobre ele.” Ela continuou sem explicar de qual tia
estava falando. Iris concluiu que não importava, todas elas eram boas fontes de
fofoca. “Ela disse que ele herdou o baronato a alguns anos.”
Iris assentiu. Isso ela já sabia.
“O pai dele era um esbanjador.” A Sra. Smythe-Smith fez uma expressão
de mal-humorada.
Isso provavelmente fazia de Sir Richard um caçador de dotes.
“Mas o filho não parece ser assim” sua mãe devaneou.
Então ele era um caçador de dotes com princípios. Ele não fez as próprias
dívidas, apenas teve a falta de sorte de herda-las.
“Ele evidentemente procura uma esposa,” a Sra. Smythe-Smith
continuou. “Não há outra razão para um homem da idade dele voltar para
Londres depois de tantos anos.”
“Ele tem a guarda das duas irmãs,” Iris contou. “Talvez seja difícil não ter
a influência de uma mulher na casa.” Assim que disse isso Iris pensou que a
futura Lady Kenworthy teria um grande desafio no futuro. Ele não disse que
uma das irmãs já tinha dezoito anos? Já era velha o suficiente para não aceitar
ordens da esposa do irmão.
“Ele é um homem sensato.” A Sr. Smythe-Smith disse. “É bom ele
reconhecer que precisa de ajuda. Apesar que, eu imagino por que ele não fez
isso antes.”
Iris assentiu.
“Nós só podemos imaginar a situação de suas terras se o pai dele
realmente foi tão gastador como dizem. Espero que ele não ache que você tem
um grande dote.”
“Mamãe,” Iris disse com um suspiro. Ela não queria falar sobre isso. Pelo
menos não agora.
“Ele não seria o primeiro a achar isso.” A Sra. Smythe-Smith disse
jovialmente. “Com todas as nossas relações com a aristocracia – boas relações,
na verdade – as pessoas tendem a pensar que temos mais do que a realidade.
Sabiamente Iris permaneceu quieta. Quando sua mãe falava sobre
importância social o melhor era não interromper.
“Nós passamos por isso com Rose, sabe. De algum modo espalharam que
ela tinha quinze mil. Pode imaginar?”
Iris não podia.
“Talvez se tivéssemos apenas uma filha,” sua mãe disse. “Mas com
cinco!” ela deu uma risada abafada, que pareceu um desejo. “Teremos sorte se
seu irmão conseguir herdar algo depois de todas vocês se casarem.”
“Tenho certeza que John ficará bem,” Iris disse. Seu único irmão era três
anos mais jovem que Daisy e ainda estava na escola.
“Se ele for sortudo, ele achará uma garota com quinze mil,” sua mãe disse
com uma risada acre. Ela se levantou bruscamente. “Bom, podemos passar o dia
inteiro indagando sobre as razões de Sir Richard ou podemos começar o dia.”
Ela olhou para o relógio em sua penteadeira. “Suponho que ele não disse a que
horas chegaria?”
Iris balançou a cabeça.
“Trate de ficar pronta então. Não faz bem deixa-lo esperando. Sei que
algumas mulheres não gostam de parecer ansiosas mas você sabe que eu acho
deselegante.”
Um toque na porta antecipou a saída de Iris e as duas se viraram para a
criada que abrira a porta. “Com licença, milady,” ela disse. “Mas Lady Sarah
está na sala de estar.”
“Oh, que surpresa agradável,” a Sra. Smythe-Smith disse. “Com certeza
ela veio vê-la, Iris. Vá então.”
Iris foi ao andar de baixo receber a prima, Lady Sarah Prentice, antes
Lady Sarah Pleinsworth. A mãe de Sarah e o Pai de Iris eram irmãos e tinham
idades próximas, assim como seus filhos.
Sarah e Iris tinham uma diferença de idade de apenas seis meses e sempre
foram amigas, mas ficaram ainda mais próximas desde que Sarah se casou com
Lorde Hugh Prentice no ano passado. Elas tinham outra prima da mesma idade,
mas Honoria passava a maior parte do ano com o marido em Cambridgeshire,
enquanto Sarah e Iris moravam em Londres.
Quando Iris chegou a sala de estar Sarah estava sentada no sofá verde,
folheando Orgulho e Preconceito, que provavelmente foi deixado lá pela mãe
de Iris no dia anterior.
“Você já leu esse?” Sarah perguntou sem cumprimentos.
“Várias vezes. É muito bom te ver também.”
Sarah fez uma careta. “É sempre bom ter alguém sem cerimônia por
perto.”
“Estou brincando” Iris respondeu humorada.
Sarah olhou para a porta. “A Daisy está?”
“Tenho certeza de que ela não está por perto. Ela ainda não te perdoou
por ameaçar matá-la com o arco do violino antes do musical.”
“Oh, aquilo não foi uma ameaça. Foi uma tentativa honesta. Ela é sortuda
por ter bons reflexos.”
Iris riu. “A que devo a visita? Ou você simplesmente ansiava por minha
companhia?”
Sarah se inclinou, seus olhos escuros brilhando. “Acho que sabe por que
estou aqui.”
Iris sabia do que ela estava falando, mas ainda assim ela se inclinou
também e encarou a prima.” Me dê uma luz.”
“Sir Richard Kenworthy?”
“O que tem ele?”
“Eu o vi indo atrás de você no musical.”
“Ele não foi atrás de mim.”
“Oh, ele foi sim. Minha mãe não fala de outra coisa.”
“Acho isso difícil de acreditar.”
Sarah deu de ombros. “Temo que você está em uma situação complicada,
querida prima. Comigo casada e nenhuma de minhas irmãs com idade suficiente
para debutarem, minha mãe está determinada a focar as energias em você.”
“Oh céus,” Iris disse sem um pingo de sarcasmo. Sua tia Charlotte levava
seu trabalho de mãe casamenteira muito a sério.
“Sem contar...” Sarah continuou de modo dramático. “O que houve no
baile de Mottram? Eu não fui mas claramente deveria ter ido.”
“Não houve nada.” Iris fez sua melhor expressão de que-bobagem! “Se
está falando de Sir Richard, eu simplesmente dancei com ele.”
“De acordo com Marigold – “
“Quando você falou com a Marigold?”
Sarah balançou uma mãe. “Não importa.”
“Mas Marigold nem estava lá ontem à noite!”
“Ela soube por Susan,”
Iris se encostou. “Santo Deus, nós temos primas demais.”
“Eu sei, de verdade. Mas, voltando ao assunto. Marigold disse que Susan
disse que você foi praticamente a belle da noite.”
“Isso é um exagero sem limites.”
Sarah apontou com o dedo indicador para Iris rapidamente. “Você nega
que dançou todas as danças?”
“Sim eu nego.” Ela tinha ficado sentada antes de Sir Richard chegar.
Sarah parou, piscou e franziu as sobrancelhas. “Não é típico de Marigold
errar na fofoca.”
“Eu dancei mais do que o normal,” Iris explicou, “mas certamente não
foram todas.”
“Hmmm.”
Iris olhou suspeita para a prima. Não era bom quando Sarah parecia se
concentrar.
“Acho que já sei o que aconteceu,” Sarah disse.
“Por favor, me ilumine.”
“Você dançou com Sir Richard,” Sarah continuou, “E depois passou a
próxima hora conversando com ele sozinha.”
“Não foi uma hora, e como você sabe disse?”
“Eu sei das coisas,” Sarah disse irreverente. “Melhor não perguntar como.
Ou por que.”
“Como Hugh consegue te suportar?” Iris perguntou alto e dramática.
“Ele está muito bem, obrigada.” Sarah disse sorrindo. “Mas de volta a
ontem à noite, não importa, o tempo que você passou com o atraente Sir
Richard – não, não interrompa eu mesma o vi no musical e ele é muito
agradável aos olhos – te fez sentir...”
Ela parou e fez aquele movimento estranho com a boca que sempre fazia
quando estava pensando em algo. Mover a mandíbula para o lado e torcer os
lábios de modo estranho. Iris sempre achou isso desconcertante.
Sarah juntou as sobrancelhas. “Te fez sentir...”
“Me fez sentir o que?” Iris finalmente perguntou.
“Estou tentando achar a palavra certa.”
Iris se levantou. “Eu vou pedir chá.”
“Falta de ar!” Sarah exclamou. “Você sentiu falta de ar, e se sentiu cheia
de brilho.”
Iris revirou os olhos enquanto puxava a corda do sino. “Você precisa de
uma distração.”
“E quando uma mulher se sente cheia de brilho, ela parece cheia de
brilho,” Sarah continuou.
“Isso parece desconfortável.”
“E quando ela parece – “
“Pele oleosa e testa suada,” Iris descontraiu. “Parece até que eu estava
queimada de sol.”
“Você vai parar de ser uma estraga prazeres? Sarah bufou. “Eu declaro
você Iris como a pessoa menos romântica que eu conheço.”
Iris parou no caminho de volta, descansando as mãos no sofá. Isso era
verdade? Ela sabia que não era sentimental, mas não era sem emoções. Ela tinha
lido Orgulho e Preconceito seis vezes. Isso tinha que contar.
Mas Sarah estava alheia à sua miséria. “Como eu estava dizendo.” Ela
prosseguiu, “quando uma mulher se sente bonita surge algo diferente em relação
a ela.”
Iris quase disse “Eu não conheço a sensação” mas engoliu as palavras.
Ela não queria ser sarcástica. Não sobre isso.
“Quando isso acorre,” Sarah continuou, “homens se agrupar ao seu lado.
Tem algo atraente em uma mulher confiante. Algo ... não sei ...je ne sais quoi,
como dizem em francês.”
“Acho que prefiro alemão,” Iris se ouviu dizer.
Sarah a o olhou por um momento com uma expressão perplexa, depois
continuou como se não tivesse sido interrompida.” É por isso, querida prima,”
ela disse cheia de gosto, “que todos os homens de Londres queriam dançar com
você ontem à noite.”
Iris voltou ao sofá e se sentou, colocando as mãos no colo enquanto
pensava no que Sarah tinha dito. Não estava certa se concordava mas também
não dispensaria a possibilidade sem consideração.
“Você está muito quieta.” Sarah comentou. “Tinha certeza que você
discutiria comigo.”
“Eu não sei o que dizer,” Iris admitiu.
Sarah a examinou curiosa. “Você está bem?”
“É claro. Por que pergunta?”
“Você está diferente.”
Iris deu de ombros. “Talvez seja meu brilho, como você disse.”
“Não,” Sarah disse inexpressiva, “não é isso.”
“Bom, esse brilho teve vida curta,” Iris retrucou.
“Agora você está agindo como sempre.”
Iris apenas sorriu balançando a cabeça. “E como você está?” ela
perguntou em uma tentativa clara de mudar de assunto.
“Muito bem,” Sarah disse com um grande sorriso, foi então que Iris
notou...algo.
“Você está diferente também,” ela disse olhando atentamente.
Sarah corou.
Iris abriu a boca em surpresa. “Você está grávida?”
Sarah assentiu. “Como soube?”
“Quando você diz a uma mulher casada que ela está diferente e ela fica
corada...” Iris sorriu. “Não pode ser nada mais.”
“Você nota tudo, não é?”
“Quase tudo,” Iris disse. “Mas deixe-me parabeniza-la. É uma notícia
incrível. Por favor diga a Lorde Hugh que eu o desejo muita alegria. Como você
se sente? Tem passado mal?”
“Nem um pouco.”
“Bom, isso é ótimo. Rose vomitou todos os dias por três meses direto.”
Sarah estremeceu em empatia. “Eu me sinto fantástica. Talvez um pouco
cansada, mas não muito.”
Iris sorriu para a prima. Era estranho pensar que Sarah seria mãe logo.
Elas brincaram juntas quando eram crianças, reclamaram sobre o musical
juntas. E agora Sarah estava indo para uma nova etapa da vida.
E Iris estava...
No mesmo lugar.
“Você o ama muito, não é?” ela disse em um sussurro.
Sarah não respondeu imediatamente, olhando para a prima com olhos
curiosos. “Eu amo sim.” Ela disse firme. “Com tudo o que sou.”
Iris assentiu. “Eu sei.” Ela pensou que Sarah a interrogaria da razão da
pergunta, mas ela ficou em silêncio até que Iris perguntou, “Como você soube?”
“Soube o que?”
“Que você o amava.”
“Eu – “Sarah parou para pensar. “Não tenho certeza. Não me lembro do
momento exato. É engraçado, eu sempre pensei que se eu chegasse a me
apaixonar, seria com flashes de luz. Sabe, sons de trovões, anjos cantando...esse
tipo de coisa.”
Iris riu. Isso era típico de Sarah. Ela sempre teve a tendência de ser
dramática.
“Mas não foi nada assim,” Sarah continuou. “Eu me lembro de me sentir
entranha e pensativa, tentando decidir se o que eu estava sentindo era amor.”
“Então você não sabe o que está acontecendo enquanto está
acontecendo?”
“Acho que não.”
Iris mordeu o lábio inferior e disse em voz baixa, “Foi quando ele te
beijou a primeira vez?”
“Iris!” Sarah sorriu com deleite e surpresa. “Mas que pergunta!”
“Não é tão inconveniente,” Iris disse olhando pela sala.
“Oh, é sim.” Sarah disse ainda surpresa. “Mas adoro o fato de ter
perguntado.”
Não era o que Iris estava esperando ouvir. “Por que?”
“Por que você é sempre...” Sarah balançou as mãos como se quisesse
pegar a palavra certa” ...distante em relação a essas coisas.”
“Que coisas?” Iris perguntou suspeita.
“Oh, você sabe. Emoções. Paixões. Você é sempre tão calma. Até quando
está com raiva.”
Iris se sentiu defensiva. “Tem algo de errado nisso?”
“Claro que não. É simplesmente seu jeito. E francamente acho que esse é
o motivo de Daisy ter vivido até os dezessete anos sem você a matá-la antes.
Não que ela vá te agradecer por isso.”
Iris não pode conter o sorriso. Era bom saber que alguém apreciava sua
paciência com a irmã mais nova.
Sarah estreitou os olhos e se inclinou. “É por causa do Sir Richard, não
é?”
Iris sabia que não adiantava negar. “Eu só acho – “ela cerrou os lábios
temendo que se os abrisse começasse a falar bobagens sem pensar.” Eu gosto
dele,” ela finalmente admitiu. “Não sei por que, mas eu gosto.”
“Você não precisa saber por que.” Sarah segurou sua mão. “Parece que
ele gosta de você também.”
“Acredito que sim. Ele tem sido muito atencioso comigo.”
“Mas...?”
Iris olhou Sarah nos olhos. Ela sabia que a prima ouviria o ‘mas’
silencioso no final de sua frase. “Mas...eu não sei,” Iris disse. “Tem algo
errado.”
“Talvez é você que está procurando problemas onde eles não existem?”
Iris respirou fundo e disse. “Talvez. Não é algo que acontece com
frequência.”
“Não é verdade. Você já teve pretendentes.”
“Não muitos. E nenhum que eu gostasse o suficiente para seguir em
frente.”
Sarah suspirou, mas não discutiu. “Muito bem. Me diga o que está
‘errado’ como você disse.”
Iris se distraiu por um momento com o modo que a luz do sol iluminava o
lustre de cristal. “Eu acho que ele gosta demais de mim.” Ela finalmente disse.
Sarah soltou uma risada alta. “Isso que está errado? Iris, você tem ideia de
quantos – “
“Pare,” Iris interrompeu. “Me escute. Esse é meu terceiro ano na
sociedade de Londres, e eu admito que eu nunca fui uma debutante ansiosa, mas
também nunca recebi atenções tão calorosas.”
Sarah abriu a boca para falar, mas Iris levantou uma mão para impedi-la.
“Não são muito calorosas…” ela se sentiu corar. Que escolha estupida de
palavras. “O problema é que tudo foi instantâneo.”
“Instantâneo?”
“Sim. Você provavelmente não notou durante o musical, já que você não
estava olhando para a plateia.”
“Eu estava tentando entrar no piano e fechar a tampa se é isso que quer
dizer.” Sarah brincou.
“Certo.” Iris disse com um pequeno sorriso. De todas as suas primas
Sarah era a única que dividia seu ódio ao musical.
“Desculpe,” Sarah disse. “Não resisti. Por favor, continue.”
Iris abriu os lábios, se lembrando. “Ele ficou me observando o tempo
todo,” ela disse.
“Talvez ele te achou bonita.”
“Sarah,” Iris disse francamente, “ninguém me acha bonita. Pelo menos
não à primeira vista.”
“Isso não é verdade!”
“Você sabe que é. Está tudo bem. Eu juro.”
Sarah não pareceu se convencer.
“Eu sei que eu não sou feia,” Iris disse a ela. “Mas como Daisy disse – “
“Ah não,” Sarah interrompeu indignada, “Não cite a Daisy.”
“Não,” Iris disse tentando ser justa. “De vez em quando ela diz algo que
faz sentido. Me falta cor.”
Sarah a olhou por um tempo e então disse, “Essa é a coisa mais imbecil
que eu já ouvi na vida.”
Iris ergueu as sobrancelhas. Suas sobrancelhas pálidas, quase invisíveis.
“Você já conheceu alguém tão branco como eu?”
“Não, mas isso não significa nada.”
Iris soltou um suspiro frustrado, tentando articular seus pensamentos. “Eu
estou tentando dizer que sou acostumada a ser subestimada. Passar
despercebida.”
Sarah a encarou. “Do que você está falando?”
Iris respirou fundo. Ela sabia que Sarah não entenderia. “As pessoas
raramente me notam. E está – não eu juro” - está tudo bem. Eu não desejo ser o
centro das atenções.”
“Você não é tímida.” Sarah declarou.
“Não sou, mas eu gosto de poder observar as pessoas, e,” - ela deu de
ombros - “sendo honesta, zombar delas na minha cabeça.”
Sarah cuspiu uma risada.
“Assim que as pessoas me conhecem, é diferente,” Iris continuou “mas eu
não me destaco na multidão. E é por isso que não entendo Sir Richard
Kenworthy.”
Sarah ficou em silêncio por um minuto inteiro. De vez em quando ela
abria os lábios como se fosse fala, mas seus lábios se fechavam novamente.
Finalmente ela disse. “Mas você gosta dele?”
“Você não estava ouvindo?” Iris quase explodiu.
“Cada palavra!” Sarah insistiu. “Mas eu não vejo como isso tudo é
relevante, pelo menos não por enquanto. Pelo que sabemos, ele te notou e se
apaixonou desesperadamente. Seu comportamento sem dúvida é consistente
com essa versão.”
“Ele não está apaixonado por mim,” Iris insistiu.
“Talvez ainda não.” Sarah falou e esperou um pouco antes de perguntar,
“Se ele te pedisse em casamento, essa tarde, o que você responderia?”
“Isso é ridículo.”
“Claro que é, mas eu ainda quero saber. O que você responderia?”
“Eu não responderia nada, porque ele não perguntaria.”
Sarah bufou. “Você poderia deixar de ser tão teimosa por um momento e
me responder?”
“Não, não posso.” Iris quase jogou os braços no ar em irritação. “Não
consigo entender por que quer saber a resposta de uma pergunta que não será
feita.”
“Você diria que sim,” Sarah disse.
“Não eu não diria,” Iris protestou.
“Então você diria não.”
“Eu não disse isso.”
Sarah se encostou e balançou a cabeça lentamente. Uma expressão
presunçosa encheu seu rosto.
“O que foi agora?” Iris perguntou.
“Você sequer considera a pergunta porque está com medo de examinar
seus próprios sentimentos.”
Iris não respondeu.
“Eu estou certa,” Sarah disse triunfante. E continuou.” Eu adoro quando
estou certa.”
Iris respirou fundo para se acalmar, ou para criar coragem.” Se ele me
pedisse em casamento,” ela disse pausadamente, “Eu diria que precisaria de um
tempo antes de responder.”
Sarah assentiu.
“Mas ele não vai me pedir.”
Sarah soltou uma risada alta. “Você sempre tem que ter a última palavra,
não é?”
“Ele não vai me pedir.”
Sarah sorriu. “Oh veja, o chá chegou. Estou faminta.”
“Ele não vai me pedir.” A voz de Iris permaneceu no mesmo tom.
“Eu irei embora assim que terminar de comer,” Sarah disse. “Eu adoraria
conhece-lo mas não quero estar aqui quando ele chegar. Acho que vou acabar
atrapalhando.”
“Ele não vai me pedir.”
“Oh, coma um biscoito.”
“Ele não vai me pedir,” Iris disse outra vez, e depois ela concluiu, “Ele
não vai.”
Capítulo 6

Cinco dias depois


Residência dos Pleinsworth

Chegou a hora.
Fazia uma semana que Sir Richard viu Iris Smythe-Smith pela primeira
vez nessa mesma casa. E agora ele a pediria em casamento.
Bom, quase isso.
Ele a visitou todos os dias desde o baile de Mottram. Eles andaram pelo
parque, tomaram sorvete no Gunther’s, foram à opera e visitaram Covent
Garden. Resumindo, fizeram tudo que um casal em corte normalmente fazia em
Londres. Ele tinha certeza que a família de Iris esperava que ele a pedisse em
casamento.
Só não tão cedo.
Ele sabia que Iris o apreciava. Ela talvez estivesse com dúvidas se estava
se apaixonando. Mas se pedisse sua mão essa noite tinha certeza que ela não
daria uma resposta imediata.
Ele soltou um suspiro. Ele nunca se imaginou em uma situação assim.
Ele estava sozinho essa noite; Winston veementemente se recusou a ir a
qualquer apresentação artística envolvendo as Smythe-Smith, mesmo com
muita insistência de Richard. Agora, Winston estava em casa com um resfriado
fingido e Richard estava na residência dos Pleinsworth imaginando o porquê do
piano ter sido trazido até a sala.
E por que ele estava decorado com galhos.
Olha olhada rápida pela sala confirmou que Lady Pleinsworth tinha
preparado programas para a noite, apesar de ele não ter um mesmo tendo
chegado cedo.
“Aqui está você.”
Ele se voltou para a voz doce e viu Iris diante dele, com um vestido
simples de um azul bem claro. Ela sempre usava essa cor, ele percebeu.
Combinava com ela.
“Desculpe por te deixar sozinho.” Ela disse. “Minha ajuda era necessária
nos bastidores.”
“Bastidores?” ele repetiu. “Eu pensei que fosse uma noite de leitura
de poesia.”
“Ah, isso,” ela disse corando levemente. “Houve uma mudança de
planos.”
Ele inclinou a cabeça em sinal de dúvida.
“Acho melhor te dar um programa.”
“Sim, não me deram um quando eu cheguei.”
Ela pigarreou algumas vezes. “Acho que decidiram não dar a nenhum
cavalheiro, a não ser que pedissem.”
Ele considerou por um momento. “Ouso perguntar por que?”
“Creio que,” ela disse olhando para o teto, “pensaram que iriam embora.”
Richard olhou para o piano horrorizado.
“Oh, não,” Iris disse o acalmando. “Não terá música. Pelo menos não que
eu saiba. Não é um concerto.”
Ainda o olhar de Richard estava cheio de pânico. Onde estava Winston e
seus montinhos de algodão quando precisava dele? “A Srta. está me assustando
Srta. Smythe-Smith.”
“Quer dizer que não quer um programa?” ela perguntou esperançosa.
Ele se inclinou em direção a ela, não muito para não quebrar as regras de
etiqueta mas o suficiente para que ela percebesse. “Acho melhor estar
preparado, não concorda?”
Ela engoliu a seco. “Só um segundo.”
Ele esperou enquanto ela ia em direção a Sr. Pleinsworth. Logo depois ela
voltou com um pedaço de papel nas mãos. “Aqui,” ela disse sem expressão, lhe
entregando o papel.
Ele pegou o programa e o leu. Depois olhou para ela de novo. “A Pastora,
o Unicórnio e Henrique VIII?”
“É uma peça. Minha prima Harriet escreveu.”
“E estamos aqui para assisti-la,” ele confirmou lentamente.
Ela assentiu.
Ele limpou a garganta. “Tem alguma ideia, eh, da duração da produção?”
“Não será tão longo quanto o musical.” Ela o assegurou. “Pelo menos
acho que não. Eu vi só uma parte do ensaio.”
“O piano é parte do cenário, imagino?”
Ela confirmou. “Temo que não se compara as fantasias.”
Ele não ousou perguntar.
“Eu fui a responsável por afixar o chifre do unicórnio.”
Ele tentou não rir, de verdade. E quase conseguiu.
“Não sei como Frances vai tira-lo.” Ela disse nervosa. “Eu usei cola.”
“A Srta. colou um chifre na cabeça da sua prima,” ele repetiu.
Ela tremeu. “Colei sim.”
“A Srta. gosta da sua prima?”
“Oh, muitíssimo. Ela tem onze anos e é encantadora. Eu trocaria Daisy
por ela em um segundo.”
Richard tinha a sensação que ela trocaria Daisy por um texugo se
pudesse.
“Um chifre,” ele disse outra vez. “Bom, acho difícil ser um unicórnio sem
chifre.”
“Exatamente,” Iris disse com entusiasmo. “Frances adora. Ela ama
unicórnios. Ela está convencida de que eles são reais e acho que ela se
transformaria em um se fosse possível.”
“Acho que ela tomou o primeiro passo em busca desse objetivo.” Richard
disse, “com sua ajuda bondosa.”
“Ah, isso. Só espero que ninguém conte para tia Charlotte que fui eu me
manejei a cola.”
Richard não acreditava que ela teria sorte. “Há alguma chance disso
permanecer em segredo?”
“Nenhuma, mas ainda terei esperança. Com sorte teremos um escândalo
hoje e ninguém notará que Frances foi para a cama com um chifre grudado.”
Richard começou a tossir. E continuou tossindo. Oh céus, era uma
garganta seca ou o peso da culpa?
“Está tudo bem?” Iris perguntou preocupada.
Ele assentiu, incapaz de falar. Santo Deus, um escândalo. Se ela soubesse.
“Devo buscar algo para beber?”
Ele assentiu outra vez. Ele precisava de algo para beber tanto quanto ele
precisava não olhar para ela.
Ela seria feliz no fim, ele disse a si mesmo. Ele seria um bom marido para
ela. Não lhe faltaria nada.
Somente o poder de escolha sobre se casar.
Richard lamentou. Ele não contava com essa maldita culpa.
“Aqui está.” Iris disse lhe entregando uma taça de cristal. “Um pouco de
vinho doce.”
Richard agradeceu com a cabeça e deu um gole. “Obrigado,” ele disse
rouco. “Não sei o que foi isso.”
Iris sorriu simpática e apontou para o piano. “O ar está cheio de pó graças
a esses galhos que a Harriet trouxe. Ela passou horas os colhendo no Hyde Park
ontem.”
Ele assentiu novamente, terminando de beber o vinho e deixando a taça
em uma mesa por perto. “A Srta. sentará comigo?” ele perguntou percebendo
que ela merecia o convite.
“Eu adoraria,” ela disse sorrindo. “O senhor precisará de tradução de
qualquer modo.”
Ele abriu os olhos alarmado. “Tradução?”
Ela riu. “Não, não se preocupe, a peça é em inglês. É só que...” ela riu
outra vez. O sorriso largo estampava seu rosto. “Harriet tem um estilo singular.”
“A Srta. é muito afeiçoada a sua família,” ele observou.
Ela começou a responder, mas algo chamou sua atenção atrás de Richard.
Ele se virou para ver o que ela olhava mas ela disse, “Minha tia está acenando.
Acho que devemos nos sentar.”
Com certo receio, Richard sentou-se ao lado dela na primeira fileira e
olhou para o piano, que ele imaginava ser parte do palco. A sala ficou em
silêncio quando Lady Harriet Pleinsworth surgiu vestida como uma pastora
humilde, com gancho e tudo.
“Oh lindo, brilhante dia!” ela proclamou enquanto tirava a boina. “Como
sou abençoada com o meu nobre rebanho.”
Nada aconteceu.
“Meu nobre rebanho!” ela repetiu bem mais alto.
Algo se espatifou e alguém disse “Pare com isso!”. Em seguida cinco
crianças pequenas vestidas de ovelha entraram.
“Minhas primas,” Iris falou baixo. “A próxima geração.”
“O sol está brilhando,” Harriet abriu os braços em súplica e continuou o
monólogo. Mas Richard estava muito fascinado pelas ovelhas para prestar
atenção. A criança mais velha balia tão alto que Harriet lhe deu um pequeno
chute e uma das mais novas – Deus, aquela criança deveria ter no máximo dois
anos – estava subindo no piano e mordendo uma das pernas.
Iris tampou a boca com uma mão, tentando segurar o riso.
A peça continuou no mesmo ritmo por um tempo, com a pastora andando
pelo palco até ser interrompida por um alto som de címbalos. Harriet gritou
(assim como o resto da plateia).
“Eu disse,” Harriet continuou, “que temos sorte de não chover pelos
próximos dias.”
Os címbalos tocaram outra vez, seguidos por uma voz, “Trovões!”
Iris cobriu a boca com duas mãos dessa vez. Eventualmente Richard a
ouviu dizer, “Elizabeth” em um sussurro.
“O que está acontecendo?” ele perguntou.
“Acho que a irmã de Harriet acabou de mudar o roteiro. Todo primeiro
ato será perdido.”
Richard sufocou um sorriso quando cinco corvos apareceram, que após
um exame cuidadoso ele percebeu ser as ovelhas com panos escuros sobre a lã
branca.
“Quando veremos o unicórnio?” ele sussurrou para Iris.
Ela deu de ombros perdida. Ela não sabia.
Henrique VII apareceu alguns minutos depois, sua veste Tudor tão cheia
de travesseiros que a pobre criança mal podia andar.
“Aquela é Elizabeth,” Iris falou.
Richard assentiu simpático. Se ele fosse obrigado a usar aquela fantasia
ele também estragaria o primeiro ato.
Mas nada chegou aos pés do momento em que o unicórnio surgiu em
cena. Seu relincho era assustador, e o chifre enorme.
Richard abriu a boca em surpresa. “Você colou aquilo na cabeça dela?”
ele sussurrou para Iris.
“Era o único jeito de fixar,” ela sussurrou de volta.
“Ela não consegue levantar a cabeça.”
Ambos olharam horrorizados para o palco. A pequena Lady Frances
Pleinsworth andava como se estivesse tonta, não conseguindo segurar o peso do
chifre.
“Do que aquilo é feito?” Richard perguntou.
Íris levantou as mãos. “Eu não sei. Eu não achei tão pesado. Acho que ela
está atuando.”
Richard observou aterrado achando que teria que evitar que a menina
chifrasse alguém acidentalmente.
Uma eternidade depois o fim parecia estar próximo, e o rei Henrique VIII
balançava sua asa de peru para todos os lados dizendo, “Essa terra será minha,
hoje e para sempre.”
E realmente tudo parecia estar perdido para a pobre, doce pastorinha e seu
rebanho que nunca era o mesmo. De repente surgiu um rugido –
“Tem um leão também?” Richard se perguntou.
- e o unicórnio surgiu em cena.
“Morra!” o unicórnio gritou. “Morra! Morra! Morra!”
Richard olhou para Iris confuso. O unicórnio não tinha mostrado que
sabia falar.
Os gritos de terror de Henrique VIII eram tão altos que uma mulher
sentada atrás de Richard disse, “Isso é surpreendentemente bem feito.”
Richard olhou outra vez para Iris; sua boca estava aberta em surpresa
enquanto Henrique VIII pulava uma vaca e corria pelo cenário para acabar
tropeçando na ovelha que ainda estava mordendo a perna do piano.
Henrique tentou escapar, mas o unicórnio (que provavelmente tinha
raiva) era mais rápido e foi de cabeça em direção ao rei, enfiando os chifres na
barriga cheia de travesseiros.
Alguém gritou e Henrique se jogou no chão que já estava coberto de
penas.
“Acho que isso não estava no roteiro.” Iris disse.
Richard não era capaz de desviar os olhos do espetáculo. Henrique estava
no chão com o chifre de unicórnio enfiado na barriga falsa. O que já era ruim o
suficiente, porém o chifre ainda estava colado ao unicórnio. O que significava
que sempre que Henrique se mexia o unicórnio era jogado para os lados.
“Me solte!” Henrique gritou.
“Eu estou tentando,” o unicórnio respondeu gemendo.
“Acho que ficou preso,” Richard disse a Iris.
“Oh, meu Deus!” ela disse tapando a boca. “A cola!”
Uma das ovelhas tentou ajudar, mas escorregou nas penas e caiu no
unicórnio.
A pastora que observava chocada, assim como a plateia, percebeu que
deveria salvar o espetáculo e começou a cantar.
“Oh, abençoada luz do sol,” ela cantou “que nos traz o calor!”
Então Daisy se levantou.
Richard se virou bruscamente para Iris, que ainda estava com a boca
aberta. “Não, não, não,” ela começou a dizer, mas Daisy já estava tocando no
violino uma representação musical da luz do sol.
Ou da morte.
A apresentação de Daisy foi curta graças a Lady Pleinsworth, que correu
ao palco para tentar salvar as filhas mais novas. “Há refresco no outro salão!”
ela anunciou. “E temos bolo!”
Todos se levantaram e aplaudiram – era uma peça de qualquer modo, não
importasse o final – e começaram a se retirar.
“Talvez eu devesse ajudar,” Iris disse olhando para as primas.
Richard esperou enquanto ela se aproximava da confusão claramente se
divertindo.
“É só tirar o travesseiro!” Lady Pleinsworth dizia.
“Não é tão fácil,” Elizabeth sibilou, “O chifre atravessou o tecido. A não
ser que queira que eu tire a roupa – “
“Já chega, Elizabeth,” Lady Pleinsworth disse rapidamente. Ela se virou
para Harriet. “Por que está tão afiado?”
“Eu sou um unicórnio!” Frances disse.
Lady Pleinsworth respirou fundo e deu de ombros.
“Ela não deveria ter montado em mim no terceiro ato,” Frances disse
petulante.
“Foi por isso que você a espetou?”
“Não, isso estava no roteiro,” Harriet disse solidária. “Era para o chifre
ter se soltado. Por segurança. Mas é claro que a plateia não veria isso.”
“Iris colou o chifre na minha testa,” Frances disse, tentando levantar a
cabeça.
Iris, que estava chegando perto, imediatamente recuou. “Talvez
devêssemos buscar algo para beber,” ela disse a Sir Richard
“Só um momento.” Ele estava se divertindo muito para sair agora.
Lady Pleinsworth segurou o chifre com as duas mãos e o puxou.
Frances gritou.
“Ela usou cimento?”
Iris agarrou o braço de Richard ansiosa. “Eu realmente tenho que ir
agora.”
Richard olhou uma última vez para Lady Pleinsworth antes de guiar Iris
para fora da sala.
Iris se encostou na parede. “Eu estou muito encrencada.”
Richard sabia que deveria acalma-la mas não conseguia parar de rir.
“Pobrezinha da Frances,” ela gemeu. “Ela terá que dormir com um chifre
na cabeça hoje.”
“Vai ficar tudo bem,” Richard disse entre risos. “Eu te garanto que ela
não terá que se casar com um chifre grudado na testa.”
Iris pareceu chocada por um momento e ele imaginou no que ela estava
pensando. Em seguida ela começou a rir descontroladamente. Ela riu tanto que
dobrou o corpo ainda encostada na parede.
“O Deus do céu,” ela disse sem folego. “Um casamento com chifres. Isso
só aconteceria conosco.”
Richard começou a rir outra vez, observando como Iris ficava vermelha
enquanto ria.
“Eu não deveria rir,” ela disse. “Eu realmente não deveria. Mas o
casamento – oh meu Deus, o casamento.”
O casamento, Richard pensou e se lembrou de tudo. A razão de estar ali
essa noite. A razão de estar com ela.
Iris não teria um casamento de sonhos. Ele tinha que voltar para
Yorkshire o mais rápido possível.
Ele se encheu de culpa. Todas as moças sonhavam com o casamento, não
é? Fleur e Marie-Claire costumavam passar horas planejando o delas. Ele
imaginava que ainda faziam isso.
Ele respirou fundo. Iris não teria o casamento que planejou, e se seu plano
desse certo ela nem teria um pedido apropriado.
Ela merecia mais que isso.
Ele engoliu a seco, balançando a mão nervosamente. Iris ainda estava
rindo sem perceber que ele ficou sério bruscamente.
“Iris,” ele disse de repente e ela se virou surpresa. Talvez fosse seu tom
de voz, ou talvez fosse o fato de ter sido a primeira vez que ele usava seu
primeiro nome.
Ele a segurou pela cintura e a guiou para corredor. “Posso ter uma palavra
com você?”
Ela levantou as sobrancelhas. “É claro,” ela disse um pouco alarmada.
Ele respirou fundo. Ele podia fazer isso. Não era o que ele tinha
planejado, mas era melhor assim. Ele podia fazer isso por ela.
Ele se ajoelhou.
Ela arfou.
“Iris Smythe-Smith,” ele disse, pegando em sua mão, “me faria o homem
mais feliz da Terra e aceitaria ser minha esposa?”
Capítulo 7

Iris ficou muda. Ela abriu a boca, mas não conseguia dizer nada. Ela sentiu a
garganta fechar e só pode encara-lo, pensando –
Isso não está acontecendo.
“Eu imagino seja uma surpresa,” Richard disse com uma voz doce,
acariciando sua mão. Ele ainda estava de joelhos olhando para ela como se ela
fosse a única mulher do mundo.
“Ah...eh...uhr...” Ela não conseguia falar. Verdadeiramente não conseguia
falar.
“Ou talvez não seja.”
Não, é uma surpresa sim.
“Nos conhecemos há uma semana, mas deve saber da minha afeição.”
Ela percebeu que estava balançava a cabeça, mas não tinha ideia se
significava sim ou não, e de qualquer modo, ela não estava certa da pergunta
que isso respondia.
Não deveria ser tão rápido.
“Eu não pude esperar mais,” ele sussurrou, se levantando.
“Eu – eu não – “ela molhou os lábios. Ela conseguia falar, mas não era
capaz de completar uma frase.
Ele levou sua mão aos lábios, mas ao invés de beija-la ele a virou e beijou
suavemente a pele sensível de seu pulso.
“Seja minha, Iris” ele disse enrouquecido com o que ela imaginou ser
desejo. Ele a beijou novamente, dessa vez deixando os lábios em seu pulso um
pouco mais. “Seja minha,” ele disse baixo, “e eu serei seu.”
Ela não conseguia pensar. Como isso seria possível enquanto ele a olhava
como se estivessem sozinhos na Terra? Seus olhos negros estavam calorosos –
não, fervendo, e levavam Iris a querer se derreter, esquecer toda sensatez. Ela
tremia e arfava levemente e não conseguia parar de olhar seus lábios que
continuavam a beija-la, dessa vez na mão.
Algo surgiu dentro de Iris. Algo que ela sabia que não era apropriado
sentir. Não aqui no corredor de sua tia, não com um homem que ela mal
conhecia.
“Quer casar comigo?” ele perguntou.
Não. Algo não estava certo. Era muito cedo. Não fazia sentido que ele se
apaixonara tão rapidamente.
Mas ele não a amava. Ele não disse isso. E ainda assim ele a olhava
como...
Por que ele queria se casar com ela? Por que ela não conseguia confiar
nele?
“Iris?” ele sussurrou. “Minha querida?”
E finalmente ela conseguiu dizer.
“Eu preciso de tempo.”

Maldição.
Isso era exatamente o que ele pensou que aconteceria. Ela jamais o
aceitaria após apenas uma semana de corte. Ela era muito sensata para fazer
isso.
A ironia quase o fez gargalhar. Se ela não fosse essa criatura sensata e
inteligente, ele nunca teria se aproximado dela.
Ele deveria ter permanecido no plano original. Ele viera essa noite com a
intenção de compromete-la. Nada extremo, seria a maior hipocrisia se ele
roubasse alga mais que um beijo dela.
Mas um beijo era só o que ele precisava. Um beijo com testemunha e eles
estariam praticamente casados.
Mas não, assim que ela disse casamento ele se encheu de culpa, e ela
sabia que deveria se sentir culpado. Um pedido romântico foi a forma que
encontrou de compensa-la, não que ela soubesse que deveria ser compensada.
“Evidente.” Ele disse suavemente. “Eu falei muito cedo. Me perdoe.”
“Não a nada para perdoar,” ela disse gaguejando. “Eu só fiquei muito
surpresa, não pude pensar no assunto e você só viu o meu pai uma vez.”
“Eu vou pedir permissão, evidentemente.” Richard disse. E não era
mentira. Se ele convencesse Iris a aceita-lo ele prontamente iria conversar com
seu pai e fazer tudo de modo apropriado.
“Me de alguns dias?” ela perguntou hesitante. “Há tantas coisas que eu
ainda não sei sobre você. E você também não sabe muito sobre mim.”
Ele a encarou nos olhos. “Eu sei o suficiente para ter certeza que nunca
encontrarei uma noiva mais digna.”
Ela abriu os lábios surpresa pelo elogio sincero. Se ele tivesse tido mais
tempo ele a cortejaria do modo que ela merecia.
Ele segurou suas duas mãos e as apertou carinhosamente. “Você é muito
preciosa para mim.”
Ela parecia não saber o que dizer.
Ela passou a mão em seu rosto, procurando uma maneira de convence-la.
Ele tinha que se casar com ela e não podia se dar ao luxo de esperar.
Ele viu um movimento pela visão periférica. A porta para a sala ainda
estava aberta e ele podia ver um pouco do lado de dentro. Ele sabia que Lady
Pleinsworth sairia a qualquer momento, então –
“Eu tenho que te beijar!” ele quase gritou, e tomou Iris em seus braços.
Ele ouviu sua expressão de choque, o que causou uma dor em seu peito. Ele não
tinha escolha. Tinha que voltar para o plano original. Ele a beijou nos lábios, no
rosto, e em seu delicado pescoço e então –
“Iris Smythe-Smith!”
Ele recuou, surpreso por não ter que fingir choque.
Lady Pleinsworth se aproximou. “O que, no nome de Deus, está
acontecendo aqui?”
“Tia Charlotte!” Iris quase se desequilibrou, tremendo como um animal
assustado. Richard a viu olhar além da tia e percebeu com horror que as Ladies
Harriet, Elizabeth e Frances também os observavam chocadas.
Santos céus, agora ele era responsável por corromper crianças.
“Tire as mãos da minha sobrinha!” Lady Pleinsworth disse severa.
Richard achou melhor não dizer que ele já fizera isso.
“Harriet,” Lady Pleinsworth disse, sem tirar os olhos de Richard. “Vá
chamar sua tia Maria.”
Harriet assentiu rapidamente e saiu.
“Elizabeth, chame um lacaio. Frances, vá para o seu quarto.”
“E posso ajudar,” Frances protestou.
“Para seu quarto, Frances. Agora!”
A pobre Frances, que ainda estava de chifre, o segurou com as duas mãos
ao sair.
Quando Lady Pleinsworth falou novamente, seu tom era mortal. “Os dois,
para dentro da sala. Esse instante.”
Richard saiu do caminho para que Iris pudesse passar. Ele não imaginava
que era possível para ela parecer mais pálida, mas ela estava completamente
sem cor.
Suas mãos tremiam. Ele odiava vê-la tremer.
Um lacaio chegou assim que entraram, e Lady Pleinsworth falou com ele
em voz baixa. Richard supôs que ela o mandou chamar o pai de Iris.
“Sentem-se” ela ordenou.
Iris desabou lentamente em uma cadeira.
Lady Pleinsworth encarou Richard. Ele estava de pé com as mãos para
trás. “Eu não posso me sentar enquanto a senhora está de pé, vossa senhoria.”
“Eu te dou permissão,” ela disse seca.
Mesmo contra sua natureza Richard se sentou. Ele nunca foi do tipo
manso e quieto, mas ele sabia que tinha que agir assim. Ele só gostaria que Iris
não parecesse tão perturbada e envergonhada.
“Charlotte?”
Ele ouviu a voz da mãe de Iris vindo do corredor. Ela entrou na sala
seguida por Harriet que ainda segurava o gancho de pastora.
“Charlotte, o que está acontecendo? Harriet disse que...” a voz da Sra.
Smythe-Smith falhou ao olhar para todos. “O que houve?” ela perguntou em um
tom baixo.
“Eu mandei chamar Edward,” Lady Pleinsworth disse.
“Papai?” Iris disse tremendo.
Lady Pleinsworth se virou para encará-la. “Você achou que poderia se
comportar de tal maneira sem consequências?”
Richard se levantou. “Ela não tem culpa nisso.”
“O que. Houve?” Sra. Smythe-Smith disse articulando cada palavra.
“Ele a comprometeu,” Lady Pleinsworth disse.
Sra. Smythe-Smith ficou em choque. “Iris, como pôde?”
“Não foi culpa dela,” Richard interrompeu.
“Eu não estou falando com o senhor.” A Sra. Smythe-Smith o cortou.
“Pelo menos ainda não.” Ela se virou para a cunhada. “Quem sabe?”
“Harriet, Elizabeth e Frances.”
A Sra. Smythe-Smith fechou os olhos.
“Elas não vão contar!” Iris exclamou. “Elas são minhas primas.”
“Elas são crianças!” Lady Pleinsworth rosnou.
Richard viu o suficiente. “Exijo que não fale assim com ela.”
“Não acho que esteja em uma posição para fazer exigências.”
“Ainda assim,” ele disse calmo, “A senhora irá falar com ela
respeitosamente.”
Lady Pleinsworth ergueu as sobrancelhas pela impertinência, mas não
disse mais nada.
“Não acredito que tenha sido tão tola.” A mãe de Iris disse a ela.
Iris ficou em silêncio.
Sua mãe olhou para Richard, os lábios cerrados em uma linha fina. “O
senhor terá que se casar com ela.”
“Nada me faria mais feliz.”
“Não acredito que seja sincero, senhor.”
“Isso não é justo!” Iris exclamou se levantando.
“Você ousa defende-lo?” a Sra. Smythe-Smith perguntou indignada.
“Ele tinha intenções honradas,” Iris disse.
Honradas, Richard pensou. Ele não sabia mais o significado dessa
palavra.
“Oh, sério,” a Sra. Smythe-Smith disse. “Se ele tinha intenções tão honra
–“
“Ele estava me pedindo em casamento!”
Sra. Smythe-Smith olhou de Richard para Iris, claramente sem reação.
“Não vamos falar mais nada até seu pai chegar,” ela finalmente disse. “Não
deve demorar. A noite está clara, e se sua tia” – ela olhou para Lady
Pleinsworth – “foi direta em seu recado, ele provavelmente virá a pé.”
Richard concordou com a lógica. A casa dos Smythe-Smith era bem
perto. Seria mais rápido vir andando do que preparar uma carruagem.
Todos permaneceram em silêncio por alguns segundos antes da Sra.
Smythe-Smith se virar para a cunhada e dizer. “Você deve atender seus
convidados, Charlotte. Com nenhumas de nós duas por lá vais parecer
estranho.”
Lady Pleinsworth assentiu sem expressão.
“Leve Harriet,” a mãe de Iris continuou. “Apresente-a a alguns
cavalheiros. Ela tem quase idade para debutar. Parecerá a coisa mais natural
para se fazer.”
“Mas ainda estou de fantasia.” Harriet protestou.
“Não é hora de ser recatada.” Charlotte Pleinsworth declarou, pegando
Harriet pelo braço. “Vamos.”
Harriet foi com a mãe mas não sem antes olhar para Iris com simpatia.
A Sra. Smythe-Smith fechou a porta e soltou um suspiro. “Que bela
bagunça.” Ela disse sem compaixão.
“Eu conseguirei uma permissão especial de casamento imediatamente.”
Richard disse. Não precisava contar que já possuía uma.
A Sra. Smythe-Smith cruzou os braços e começou a andar nervosamente.
“Mamãe?” Iris tentou.
A Sra. Smythe-Smith levantou um dedo. “Agora não.”
“Mas – ‘
“Nós vamos esperar seu pai!” sua mãe disse severa. Ela tremia de fúria e
a expressão de Iris confirmou a Richard que aquela era a primeira vez que via
isso.
Iris recuou recolhendo os braços para perto do corpo. Richard queria
confortá-la, mas sabia que sua mãe explodiria de raiva se ele se aproximasse.
“De todas as minhas filhas,” a Sra. Smythe-Smith disse em um murmúrio
raivoso, “você é a última de que eu esperava uma coisa dessas.”
Iris desviou o olhar.
“Estou tão envergonhada de você”
“De mim?” Iris disse baixo.
Richard se aproximou. “Eu disse que ela não teve culpa.”
“Mas é claro que ela teve culpa,” a Sra. Smythe-Smith declarou. “Ela
estava sozinha com o senhor. Ela sabe que não deveria fazer isso.”
“Eu estava fazendo uma proposta de casamento.”
“Suponho que o senhor ainda não pediu a permissão do pai dela, não é?”
“Eu pensei em honrar sua filha ao perguntar a ela primeiro.”
A Sra. Smythe-Smith forçou os lábios em uma linha e não respondeu. Ela
olhou para Iris e disse frustrada. “Oh, onde está o seu pai?”
“Estou certa que ele não demorará, mamãe.” Iris respondeu sem
expressão.
Richard se preparou para defender Iris mas sua mãe permaneceu em
silêncio. Finalmente, passados vários minutos a porta foi aberta e o pai de Iris
entrou.
Edward Smythe-Smith não era um homem muito alto, mas tinha uma
postura impecável, e Richard imaginou que ele deve ter sido muito atlético
quando jovem. Certamente ele ainda tinha a força para lhe quebrar o nariz, se
assim desejasse.
“Maria?” ele disse a esposa assim que entrou. “O que raios está
acontecendo? Eu recebi um recado de Charlotte.”
A Sra. Smythe-Smith apontou para os dois ocupantes da sala.
“Senhor,” Richard disse.
Iris desviou o olhar.
A Sra. Smythe-Smith não disse nada.
Richard limpou a garganta. “Eu gostaria muito de me casar com sua
filha.”
“Se não estou errado,” O Sr. Smythe-Smith disse com uma calma
surpreendente, “o senhor não tem muita escolha nessa questão.”
“Mesmo assim, é o que eu desejo.”
O Sr. Smythe-Smith olhou para em direção a filha, mas não diretamente
para ela. “Iris?”
“Ele me pediu, papai.” Ela fez uma pausa. “Antes de...”
” Antes de que?”
“Antes de tia Charlotte...ver....”
Richard respirou fundo, tentando se conter. Iris estava infeliz; ela sequer
conseguia terminar a frase. Seu pai não entendeu isso? Ela não merecia esse
interrogatório, mas Richard sabia que se intervisse só pioraria a situação.
Mas ele não podia assistir sem fazer nada. “Iris,” ele disse suavemente,
esperando que ela entendesse o apoio que ele a oferecia. Se ela precisasse, ele
assumiria o controle.
“Sir Richard me pediu em casamento.” Iris disse resoluta. Mas não olhou
para ele. Sequer olhou em sua direção.
“E,” seu pai perguntou, “qual foi sua resposta?”
“Eu ainda não respondera.”
“E qual seria sua resposta?”
Iris engoliu seco, claramente desconfortável com toda essa atenção. “Eu
responderia que sim.”
Richard estremeceu. Por que ela estava mentindo? Ela tinha dito a ele que
precisava de mais tempo.
“Então está resolvido,” o Sr. Smythe-Smith disse. “Não foi da maneira
que eu gostaria, mas ela já tem idade suficiente, quer se casar e deve fazê-lo.”
Ele olhou para a esposa. “Suponho que a cerimonia terá que acontecer logo.”
A Sra. Smythe-Smith assentiu, claramente aliviada. “Talvez a situação
não esteja tão ruim. Creio que Charlotte tem o falatório sob controle.”
“O falatório nunca está sob controle.”
Richard tinha que concordar com isso.
“Ainda assim,” a Sra. Smythe-Smith insistiu, “não é tão ruim como
poderia ter sido. Nós ainda teremos um casamento apropriado. Ficaria melhor se
não parecesse que tudo foi feito às pressas.”
“Muito bem.” O Sr. Smythe-Smith se virou para Richard. “Vocês podem
se casar em dois meses.”
Dois meses? Não. Isso não poderia acontecer.
“Senhor, eu não posso esperar dois meses,” Richard disse rapidamente.
O pai de Iris fez uma expressão de surpresa.
“Preciso voltar para a minha propriedade.”
“O senhor deveria ter pensado nisso antes de comprometer minha filha.”
Richard procurou em sua mente uma desculpa melhor, algo que fizesse
com que o Sr. Smythe-Smith mudasse de ideia. “Eu tenho a guarda das minhas
irmãs mais novas. Eu seria negligente se não voltasse o mais rápido possível.”
“Creio que o senhor já passou muito tempo em Londres há alguns anos,”
o Sr. Smythe-Smith rebateu. “Quem cuidou então de suas irmãs?”
“Elas viviam com nossa tia. Eu não tinha a maturidade para cumprir
minhas obrigações adequadamente.”
“Perdoe-me por duvidar de sua maturidade hoje.”
Richard se forçou a ficar em silêncio. Se ele tivesse uma filha, ele estaria
igualmente irado. Ele pensou no próprio pai e imaginou o que ele pensaria dessa
situação. Bernard Kenworthy amava a família – Richard nunca duvidou disso –
mas seu modo de educar os filhos só poderia ser descrito como negligente. Se
estivesse vivo, o que ele faria? Será que sequer faria alguma coisa?
Mas Richard não era o pai. Ele não tolerava inatividade.
“Dois meses serão perfeitamente aceitáveis.” A mãe de Iris disse. “Não
há porque o senhor não possa ir para sua propriedade e voltar para o casamento.
Para ser honesta, eu preferiria assim.”
“Eu não,” Iris disse.
Seus pais a olharam surpresos.
“Bom, eu não preferiria assim.” Ela engoliu seco e Richard sentiu uma
dor no peito por vê-la tão tensa. “Se tudo está decidido,” ela disse, “eu preferiria
ir logo com isso.”
Sua mãe se aproximou. “Sua reputação – “
“– provavelmente já está arruinada. Se for o caso, eu prefiro ir para
Yorkshire, onde não conheço ninguém.”
“Tolice,” sua mãe respondeu. “Esperaremos para ver o que acontece.”
Iris encarou a mãe de modo surpreendentemente duro. “Não importa o
que eu quero?”
Os lábios de sua mãe tremeram e ela olhou para o marido.
“Será como ela deseja,” ele disse após um momento. “Não entendo
porque força-la a esperar. Deus sabe que ela e Daisy se atracarão sem parar.” O
Sr. Smythe-Smith se voltou para Richard. “Não é nada agradável estar por perto
de Iris quando ela está de mau humor.”
“Papai!”
Ele a ignorou. “E não é nada agradável estar perto de Daisy quando ela
está de bom humor. Planejar o casamenta fará desta aqui” – ele apontou para
Iris – “infeliz e da outa radiante. Creio que terei que me mudar para a França.”
Richard não sorriu, sabia que o humor ácido do Sr. Smythe-Smith não
esperava risadas.
“Iris,” ele disse. “Maria”
Elas o seguiram em direção à porta.
“Quero vê-lo em dois dias.” O pai de Iris disse a Richard. “Espero que o
senhor procurará uma licença especial.”
“Claramente.”
Ao sair da sala, Iris olhou sobre o ombro e fitou Richard nos olhos.
Por que? Ela parecia perguntar. Por que?
Nesse momento ele percebeu que ela sabia. Ela sabia que ele não tinha
sido tomado pela paixão, que toda essa situação tinha sido orquestrada por ele.
Richard nunca se sentiu tão envergonhado.
Capítulo 8

Na semana seguinte

Iris acordou ao som de trovões na manhã de seu casamento, quando sua criada
chegou com o café da manhã a chuva já caia espessa.
Ela foi até a janela para observar o lado de fora, descansando o rosto no
vidro gelado. Seu casamento era em três horas. Talvez o tempo melhorasse até
lá. Um pequeno faixo azul pairava no céu distante. Era pequeno e solitário, mas
trazia esperança.
Não que importasse, ele lembrou. Ela não se molharia. A cerimonia
aconteceria em sua casa, com uma permissão especial. Seu caminho até o
casamento consistia em dois corredores e um jogo de escadas.
Ela torcia para as estradas não estarem encharcadas. Ela e Sir Richard
iriam para Yorkshire nessa mesma tarde. Iris estava nervosa por ter que ir
embora de tudo que era familiar para ela, mas ela sabia o suficiente sobre noite
de núpcias para não desejar passar a sua na casa dos pais.
Sir Richard não tinha uma casa em Londres, ela soube, e seu apartamento
alugado não era apropriado para uma nova esposa. Ele queria leva-la para casa,
para Maycliffe Park, onde ela conheceria suas irmãs.
Ela soltou um riso nervoso. Irmãs. É claro que ele teria irmãs. Se teve
algo que sempre foi presente em sua vida foram irmãs.
Um toque na porta a fez sair de seus pensamentos, e depois de Iris
permitir a entrada, sua mãe apareceu.
“Dormiu bem?” a Sra. Smythe-Smith perguntou.
“Não muito.”
“Ficaria surpresa se dormisse. Não importa quanto conheça seu noivo.
Uma noiva sempre fica apreensiva.
Iris pensou que importava sim o quanto uma noiva conhecia seu noivo.
Certamente ela estaria menos nervosa – ou nervosa de um modo diferente – se
ela conhecesse Sir Richard por mais de duas semanas.
Mas ela não disse isso à mãe, por que elas nunca falavam sobre essas
coisas. Elas falavam sobre eventos sociais, música e livros e principalmente,
sobre suas irmãs e primas e seus bebês. Mas elas nunca falavam como se
sentiam. Não era assim que funcionava com elas.
Ainda assim Iris sabia que era amada. Sua mãe não era do tipo que
visitava a noite com uma xícara de chá e um sorriso, mas amava seus filhos com
todo o coração. Disso ela nunca duvidou, nem por um segundo.
A Sra. Smythe-Smith sentou-se na cama e sinalizou para Iris fazer o
mesmo. “Eu gostaria que você pudesse levar uma criada para a viagem,” ela
disse. “Não é adequado ir sem uma.”
Iris segurou uma risada amarga. Depois de tudo que aconteceu era a falta
de uma criada que não era apropriado?
“Você nunca soube arrumar o cabelo direto.” Sua mãe disse. “Ter que
arruma-lo sozinha...”
“Vai ficar tudo bem, mamãe.” Iris disse. Ela e Daisy dividiam uma
criada, que preferiu permanecer em Londres. Iris preferiu esperar para contratar
uma em Yorkshire. Faria parecer que ela não era uma forasteira. E ela esperava
não se sentir como uma forasteira.
Ela se sentou na cama e se apoiou nos travesseiros. Ela se sentiu muito
jovem, sentada dessa maneira. Ela não se lembrava da última vez que sua mãe
veio ao seu quarto e se sentou em sua cama.
“Eu te ensinei tudo o que precisa saber para conduzir uma casa.” Sua mãe
disse.
Iris assentiu.
“Você estará no campo, que é diferente, mas os princípios de gerir uma
casa serão os mesmos. Sua relação com a governanta será de vital importância.
Se ela não te respeitar, ninguém o fará. Ela não precisa te temer – “
Iris olhou para o colo divertidamente. Era quase ridícula imaginar alguém
a temendo.
“– mas ela deve respeitar sua autoridade,” a Sra. Smythe-Smith concluiu. “Iris,
você está prestando atenção?”
Iris a olhou. “Claro. Me desculpe.” Ela forçou um pequeno sorriso. “Eu
não acho que Maycliffe Park seja muito grande. Sir Richard me contou como é.
Certamente terei muito o que aprender, mas acho que sou capaz.”
Sua mãe a afagou na mão. “É claro que é capaz.”
Houve um momento de silencio embaraçoso e então a mãe de Iris disse,
“Que tipo de construção é Maycliffe? Elisabetana? Medieval? É um terreno
extenso?”
“Baixa idade média,” Iris respondeu. “Sir Richard me disse que foi
construída no século XVI, apesar de ter sido muito alterada durante os anos.”
“E os jardins?”
“Não sei dizer,” Iris disse lentamente. Ela sabia que sua mãe não estava
ali para discutir a arquitetura e o paisagismo de Maycliffe Park.”
“É claro.”
É claro? Iris estava perplexa.
“Espero que seja confortável,” sua mãe disse.
“Tenho certeza de que nada me faltará.”
“Será frio. Eu imagino. Os invernos no norte...” a Sra. Smythe-Smith
balançou a cabeça. “Eu não suportaria. Você deve checar pessoalmente se os
criados estão acendendo as – “
“Mamãe,” Iris finalmente interrompeu.
Sua mãe parou o falatório.
“Eu sei que a senhora não veio aqui para falar sobre Maycliffe.”
“Não.” A Sra. Smythe-Smith tomou fôlego. “Não, eu não vim.”
Iris esperou pacientemente enquanto sua mãe parecia estranhamente
inquieta, desfazendo a costura da coberta. Finalmente ela encarou Iris nos olhos
e disse, “Você sabe que o corpo de um homem não é ... igual de uma mulher.”
Iris abriu a boca surpresa. Ela estava esperando essa conversa, mas céus,
isso foi brusco.”
“Iris?”
“Sim,” ela disse rapidamente.” Sim, é claro que eu sei.”
“Existem diferenças que possibilitam a procriação.”
Iris quase disse “entendo,” só que ela não entendia. Pelo menos não da
maneira que deveria.
“Seu marido vai...” Sra. Smythe-Smith respirou fundo em frustração. Iris
jamais vira a mãe tão desconfortável.
“Ela vai o que...”
Iris esperou.
“Ela vai...” a Sra. Smythe-Smith parou e espalhou as mãos sobre o colo,
quase como se tentasse se segurar. “Ele vai colocar a parte dele que é diferente
dentro de você.”
“Dentro” – Iris quase não conseguiu falar – “de mim?”
Sua mãe corou em um tom vivido de vermelho. “A parte dele que é
diferente vai até sua parte que é diferente. É assim que a semente dele entrará
em seu corpo.”
Iris tentou visualizar. Ela sabia como era a parte diferente do homem, as
estatuas nos museus nem sempre estavam cobertas por uma folha. Mas o que a
mãe descreveu soava muito incômodo. Certamente Deus em sua infinita
sabedoria deveria ter imaginada uma maneira mais eficiente para a procriação.
Ainda assim, ela não duvidaria da mãe. Ela franziu as sobrancelhas e
perguntou, “Vai doer?”
A Sra. Smythe-Smith ficou com uma expressão séria. “Eu não vou
mentir. Não é muito confortável, e dói muito na primeira vez. Mas depois fica
mais fácil, eu juro. Eu acho que ajuda manter a mente ocupada. Eu geralmente
costumo pensar nas contas da casa.”
Iris não sabia como responder. Suas primas nunca foram claras quando
falavam de seus deveres de esposa, mas ela nunca imaginou que elas usassem
esse tempo para fazer contas. “Eu terei que fazer isso com frequência?” ela
perguntou.
Sua mãe suspirou. “Provavelmente. Na verdade depende muito.”
“Depende do que?”
Sua mãe suspirou outra vez, mas dessa vez com os dentes cerrados. Ela
não queria tantas perguntas, isso estava claro. “A maioria das mulheres não
conseguem conceber na primeira vez. E mesmo se você conseguir, não saberá
por um tempo.”
“Não saberei?”
Dessa vez sua mãe realmente grunhiu. “Você sabe que está grávida
quando suas regras param.”
Suas regras parariam? Bom, isso não parecia ser tão ruim.
“E além disso,” sua mãe continuou, “homens acham o ato prazeroso,
deferentemente das mulheres.” Ela limpou a garganta desconfortavelmente.
“Dependendo do apetite do seu marido – “
“Apetite?” Teria comida também?
“Por favor, pare de me interromper,” sua mãe quase implorou.
Iris parou de falar instantaneamente. Sua mãe nunca implorava.
“Eu estou tentando dizer,” a Sra. Smythe-Smith em uma voz pequena,
“que seu marido provavelmente desejará dividir sua cama várias vezes, pelo
menos durante os primeiros meses que estiver casada.”
Iris engoliu seco. “Entendo.”
“Bem,” sua mãe disse bruscamente e praticamente pulou para ficar de pé.
“Nós temos muito o que fazer hoje.”
Iris assentiu. Claramente aquele era o fim da conversa.
“Suas irmãs virão ajudá-la a se vestir, tenho certeza disso.”
Iris deu um sorriso trêmulo. Seria bom ver todas juntas. Rose era a que
vivia mais distante, em Gloucestershire, mas mesmo com toda a pressa na
preparação da cerimonia ela teve tempo suficiente de chegar a Londres.
Yorkshire era muita mais distante que Gloucestershire.
Sua mãe saiu, mas cinco minutos depois Iris ouviu alguém bater na porta.
“Entre,” Iris disse automaticamente.
Era Sarah, com uma expressão furtiva e um belo vestido para o dia.” Oh,
ainda bem que está sozinha.”
Sarah examinou o corredor e fechou a porta. “Sua mãe já falou com
você?”
Iris grunhiu.
“Parece que sim.”
“Eu prefiro não falar sobre isso.”
“Não, eu vim aqui para isso. Bom, não para falar sobre os concelhos da
sua mão. Eu realmente não quero saber o que ela disse. Se foi como minha mãe
...” Sarah tremeu e continuou. “Me escute. O que quer que sua mãe lhe disse
sobre suas relações com o seu marido, ignore.”
“Tudo?” Iris perguntou incrédula. “Ela não pode estar completamente
errada.”
Sarah soltou um riso divertido e sentou ao lado de Iris. “Não, claro que
não. Ela teve seis filhos afinal. O que eu quero dizer é ... bom, ela te disse que
era terrível?”
“Não com essas palavras, mas ela fez parecer muito incômodo.”
“Acho que deve ser, quando você não ama seu marido.”
“Eu não amo meu marido,” Iris disse simplesmente.
Sarah suspirou e sua voz perdeu um pouco do entusiasmo. “Você pelo
menos gosta dele?”
“Sim, é claro.” Iris pensou no homem que seria, em algumas horas, seu
marido. Ela não diria que o amava, mas sendo justa, não tinha nada de errado
em relação a ele. Ele tinha um sorriso adorável e sempre a tratou muito
respeitosamente. Mas ela mal o conhecia. “Eu posso chegar a ama-lo,” ela disse
esperançosa. “Eu espero que sim.”
“Bom, é um começo.” Sarah falou pensativa. “Ele parece gostar de você
também.”
“Estou certa de que ele gosta,” Iris respondeu. Depois disse em um tom
diferente, “A menos que ele seja um mentiroso incrível.”
“O que quer dizer?”
“Nada,” Iris disse rapidamente, ela desejou não ter falado nada. Suas
primas sabiam da razão de se casar tão rápido – toda família sabia – mas
ninguém sabia a verdade sobre a proposta de Sir Richard.
Nem Iris.
Ela suspirou. Seria melhor se todos pensassem que foi uma declaração
apaixonada de amor. Ou que ele decidiu que combinavam. Mas não que ... que
...
Iris não consegui explicar nem para si mesma. Ela gostaria que essa
suspeita incomoda de que tinha algo errado desaparecesse.
“Iris?”
“Desculpe.” Iris balançou a cabeça levemente. “Estive um pouco distraída
nos últimos dias.”
“Então é melhor eu ir,” Sarah respondeu, parecendo se convencer. “Eu
falei poucas vezes com Sir Richard, mas ele parece ser um homem gentil, acho
que ele te tratará bem.”
“Sarah,” Iris disse, “se está tentando me acalmar, devo dizer que não está
dando certo.”
Sarah fez um pequeno som de frustração e juntou as mãos. “Só me
escute,” ela disse. “E confie em mim. Você confia em mim?”
“Na verdade não.”
A expressão de Sarah foi unicamente cômica.
“Eu estou brincando,” Iris disse sorrindo. “Por favor, permita-me um
pouco de humor no dia do meu casamento. Especialmente depois da conversa
com a minha mãe.”
“Só se lembre,” Sarah disse segurando a mão de Iris. “Pode ser lindo, o
que acontece entre marido e mulher.”
Iris provavelmente pareceu incrédula, porque Sarah continuou, “É muito
especial. De verdade.”
“Alguém te disse isso antes do seu casamento?” Iris perguntou. “Depois
que você conversou com sua mãe? É por isso que você veio falar comigo?”
Para a surpresa de Iris, Sarah ficou completamente vermelha. “Hugh e eu
... nós ... nós ...”
“Sarah!”
“Chocante, eu sei. Mas foi incrível, de verdade. Eu não pude me conter.”
Iris estava atordoada. Ela sabia que Sarah sempre teve um espirito mais
livre que o dela, mas ela jamais imaginaria que ela se deitaria com Hugh antes
de se casar.”
“Escute,” Sarah disse apertando a mão de Iris. “Não importa se Hugh e eu
não esperamos. Estamos casados agora, e eu amo meu marido e ele me ama.”
“Eu não te julgo.” Iris disse, apesar de sentir que talvez a julgasse um
pouco.
Ela olhou para Iris séria. “O Sr. Richard te beijou?”
Iris assentiu.
“Você gostou? Não, não precisa responder, dá para ver pela sua cara que
sim.”
Não pela primeira vez Iris praguejou sua pele tão branca. Não existia
ninguém em toda Inglaterra que corava mais intensamente que ela.
Sarah segurou sua mão. “Isso é bom. Se os beijos dele são agradáveis, o
resto provavelmente será também.”
“Esse é o dia mais estranho da minha vida.” Iris disse baixo.
“E ficará pior – “Sarah se levantou e fez uma mesura exagerada – “Lady
Kenworthy.”
Iris jogou um travesseiro nela.
“Eu já vou indo,” Sarah disse. “Suas irmãs estarão aqui a qualquer
momento para te ajudar.” Ela foi até a porta e segurou a maçaneta, olhando para
a prima com um sorriso.
“Sarah!” Iris chamou antes que ela fosse embora.
Sarah olhou e esperou.
Iris encarou a prima, e pela primeira vez percebeu o quanto a amava.
“Obrigada.”

Algumas horas depois Iris se tornou Lady Kenworthy. Ela disse seus
votos diante de um sacerdote e se uniu a Sir Richard para sempre.
Ele ainda era um mistério para ela. Ele continuou com a corte nos poucos
dias que anteciparam o casamento e ela não poderia descreve-lo de nenhum
outro modo a não ser charmoso. Porem ela ainda não conseguia confiar nele
totalmente.
Ela gostava dele. Ela gostava muito dele. Ele tinha um senso de humor
ácido como o dela e ela acreditava que ele era um homem de moral e princípios.
Ela tinha um pressentimento que daria certo, mas ela não gostava de
confiar em pressentimentos. Ela era muito prática para fazer isso. Ela preferia
fatos; desejava provas.
Seu cortejo não fez sentido. Ela não conseguia superar isso.
“Temos que nos despedir,” seu marido – seu marido – lhe disse após a
festa de casamento. A recepção, como a cerimonia, foi simples mas não
pequena. O tamanho da família de Iris fez disso impossível.
Iris passou o dia em transe, sorrindo e cumprimentando nas horas que ela
achava que eram certas.
Cada vez que falava com um primo, a cada beijo nas bochechas e
tapinhas nas costas ela percebia que estava um momento mais próxima de partir
com Sir Richard.
E agora chegou a hora.
Ele a ajudou a subir na carruagem e ela se sentou voltada para a frente.
Era uma carruagem bonita, bem feita e confortável. Ela esperava que fosse
forte; de acordo com o marido a jornada para Maycliffe durava quatro dias.
Logo depois Sir Richard entrou na carruagem, lhe deu um sorriso e se
sentou em frente dela.
Iris olhou para a família pela janela, todos estavam reunidos em frente de
sua casa. Não, sua casa não. Não mais. Ela sentiu os olhos se encherem de
lagrimas e rapidamente abriu a bolsa para pegar um lenço. Antes que
conseguisse, Sir Richard já lhe oferecia o próprio lenço.
Não tinha porque negar o choro. Iris pensou ao aceitar o lenço. Ele podia
vê-la bem. “Me desculpe,” ela disse enquanto enxugava os olhos. Noivas não
deveriam chorar no dia do casamento. Não era um bom presságio.
“Você não tem nada por que se desculpar,” Richard disse gentilmente.
“Eu sei que tudo isso foi muito turbulento.”
Ela lhe deu o melhor sorriso que pode, que não era muito. “Eu só estava
pensando...” ela apontou para a janela. A carruagem ainda estava parada e ela
olhou em direção a janela de seu antigo quarto. “Não é mais a minha casa.”
“Espero que goste de Maycliffe.”
“Eu sei que vou gostar. Suas descrições são encantadoras.” Ele lhe contou
sobre as escadarias e das passagens secretas. Um quarto que foi usado pelo rei
James. Havia um jardim de ervas perto da cozinha e laranjeiras atrás. Não
estava conectado à casa, Richard disse que pensava em junta-las.
“Farei de tudo para faze-la feliz,” ele disse.
Ela gostou de ouvir isso dele ali, onde estavam sozinhos. “Assim como
eu.”
A carruagem começou a andar lentamente pelas ruas congestionadas de
Londres.
“Viajaremos por quanto tempo hoje?” Iris perguntou.
“Por mais ou menos seis horas, se as estradas não estiverem encharcadas
pela chuva de hoje.”
“Não parece muito.”
Ele sorriu concordando. “Perto da cidade existem muitos lugares para
descansarmos, se precisarmos.”
“Obrigada.”
Foi a conversa mais educada, apropriada e chata que já tiveram. Muito
irônico.
“Se importa se eu ler?” Iris perguntou pegando um livro na bolsa.
“Não, claro que não. Na verdade eu te invejo. Sou totalmente incapaz de
ler em uma carruagem em movimento.”
“Até quando está virado para frente?” ela mordeu os lábios. Santo Deus,
o que ela dizendo? Ele interpretaria isso como um pedido para que ele se
sentasse ao lado dela.
E não era isso que ela estava querendo dizer.
Mas ela também não acharia ruim se ele viesse.
O que não queria dizer que ela desejasse.
Ela era indiferente em relação a isso. De verdade. Ela não se importava
com onde ele se sentaria.
“Não importa de que lado estou,” Sir Richard respondeu, lembrando Iris
que ela lhe tinha feito uma pergunta. “Eu percebi que olhar para a janela me faz
ficar menos enjoado.”
“Minha mãe diz o mesmo. Ela também não consegue ler em carruagens.”
“Eu geralmente viajo do lado de fora,” ele disse dando de ombros. “É
mais fácil assim.”
“Você não quer ir para fora hoje?” Oh, maldição. Agora ele acharia que
ela o estava expulsando. O que também não era o que ela queria.
“Talvez mais tarde,” ele disse. “Na cidade andamos devagar e não me
afeta.”
Ela pigarreou. “Certo. Bom, eu vou ler então, se não se importa.”
“Por favor.”
Ela abriu o livro e começou a ler. Em uma carruagem. Sozinha com seu
bonito marido. Ela leu um livro.
Ela teve a sensação que esse não era o modo mais romântico de começar
um casamento.
Mas também, do que ela sabia?
Capítulo 9

Era quase oito horas quando finalmente pararam. Iris estava sozinha na
carruagem há um tempo. Eles fizeram uma pequena pausa quando saíram da
cidade e Richard decidiu viajar do lado de fora. Iris se convenceu que não se
importava. Ele sofria com enjoos em viagens, ela não queria que ele se sentisse
mal no dia do seu casamento.
Mas isso significava que ela estava sozinha, e com a luz do sol indo
embora, ela não teve nem o livro como companhia. Agora que tinham saído de
Londres a velocidade aumentou e os cavalos andavam em um ritmo constante.
Ela deve ter dormido por que em um segundo ela estava em Buckinghamshire e
no seguinte alguém a tocava gentilmente no ombro chamando seu nome.
“Iris? Iris?”
“Mmmmbrgh.” Ela nunca acordava com facilidade.
“Iris, chegamos.”
Ela piscou várias vezes até focar o rosto do marido no escuro. “Sir
Richard?”
Ele sorriu calorosamente. “Imaginei que dispensaria o ‘Sir’ a essa altura.”
“Mmmmmfh. Sim.” Ela bocejou e balançou a mão que estava dormente.
Seu pé também, ela percebeu. “Tudo bem.”
Ele a assistiu visivelmente admirado. “Você sempre acorda assim?”
“Não.” Ela se sentou. Em algum momento da viagem ela se deitou
completamente. “Geralmente é pior.”
Ele riu. “Vou anotar um lembrete. Nada de compromissos para Lady
Kenworthy antes do meio dia.”
Lady Kenworthy. Ela imaginou quanto tempo levaria para se acostumar
com isso.
“Podem contar com a minha coerência a partir das onze horas.” Iris
respondeu. “Apesar que devo dizer que a melhor parte de ser casada será tomar
o café da manhã na cama.”
“A melhor parte?”
Ela corou e se sentiu despertada imediatamente. “Desculpe,” ela disse
rápido. “Eu falei sem pensar – “
“Não foi nada,” ele a cortou e ela respirou aliviada. Seu marido não se
ofendia facilmente. Isso era muito bom pois Iris nem sempre considerava as
palavras antes de falar.
“Podemos ir?” Richard perguntou.
“Sim, é claro.”
Ela saiu da carruagem e lhe ofereceu a mão.
“Lady Kenworthy.”
Era a segunda vez que ele a chamava assim em poucos minutos. Ela sabia
que muitos maridos faziam isso como modo de demonstrar afeto, mas também a
deixava um pouco desconfortável. Ele tinha boa intenção, ela sabia, mas ela só
conseguia pensar no quanto sua vida mudou em tão pouco tempo.
Ela deveria manter um clima agradável, então começou a conversar.
“Você já se hospedou aqui antes?” ela perguntou aceitando sua mão.
“Sim, eu – whoa!”
Iris não soube o que aconteceu – talvez seu pé estava mais dormente do
que ela imaginou – mas ela escorregou no degrau da carruagem e mal pode
gritar enquanto caia.
Então, antes de ela tentar evitar a queda, Richard a pegou e a pôs segura
no chão.
“Santo Deus,” ela disse feliz por ter os pés no chão. Ela pôs uma mão no
peito tentando se acalmar.
“Você está bem?” Richard perguntou com as mãos ainda em sua cintura.
“Estou bem,” ela sussurrou. Por que ela estava sussurrando? “Obrigada.”
“Ótimo.” Ele olhou para ela. “Eu não gostaria que ... “
Ele parou de falar, e por alguns segundos eles ficaram ali olhando um
para o outro. Era uma sensação estranha mas boa, e quando ele se afastou dela,
Iris se sentiu um pouco tonta.
“Eu não gostaria que se machucasse.” Ele limpou a garganta. “É o que eu
quis dizer.”
“Obrigada.” Ela olhou para a estalagem, sua agitação contrastava com os
dois que pareciam estatuas. “Você iria dizer algo.” Ela lembrou. “Sobre a
estalagem.”
Ele a olhou confuso.
“Eu perguntei se tinha se hospedado aqui antes,” ela disse.
“Várias vezes,” ele respondeu, mas ainda parecia distraído. Ela esperou,
fingindo arrumar as luvas até que ele disse. “São três dias até Maycliffe, não há
outro caminho. Eu sempre fico nas mesmas duas estalagens na viagem para o
norte.”
“E na viagem para o sul?” ela brincou.
Ele a encarou com uma expressão que poderia ser de confusão, ou de
desprezo. Honestamente ela não entendeu qual.
“Foi uma piada,” ela começou a dizer mas parou logo em seguida,
“Esqueça.”
Ele permaneceu a olhando de modo penetrante, então lhe ofereceu o
braço e disse, “Vamos.”
Ela olhou para a placa colorida pendurada na estalagem. O ganso
empoeirado. Sério? Ela teria que passar a noite de núpcias em uma estalagem de
beira de estrada chamada O ganso empoeirado?
“Gostou do ambiente?” Richard perguntou educadamente enquanto a
guiava para dentro.
“É claro.” Ela não poderia nem diria outra coisa. Ela examinou o interior,
era muito charmoso na verdade, com janelas no estilo Tudor e flores frescas na
mesa.
“Ah, Sir Richard!” exclamou o dono da pousada indo cumprimenta-los.
“O senhor chegou em um bom tempo.”
“As estradas estavam boas apesar da chuva de manhã,” Richard disse
simpático. “Foi uma viagem agradável.”
“Suspeito que foi mais devido a companhia do que pelas estradas,” o
dono da pousada disse com um sorriso. “Te desejo felicidades.”
Richard acenou em agradecimento e disse, “Permita-me apresenta-lo a
minha esposa, Lady Kenworthy. Lady Kenworthy, esse é o Sr. Fogg, o
proprietário do ganso empoeirado.”
“É uma honra conhece-la, madame,” o Sr. Fogg disse. “Vosso marido é
nosso hóspede predileto.”
Richard deu um meio sorriso. “Um hóspede frequente, pelo menos.”
“Sua estalagem é adorável,” Iris disse. “Não vejo nada empoeirado.”
O Sr. Fogg riu. “Fazemos o possível para manter os gansos do lado de
fora.”
Iris riu, agradecida por ouvir a própria risada. Fazia tempo que não ria.
“Devo leva-los a seus quartos?” o Sr. Fogg perguntou. “A Sra. Fogg
preparou a ceia. Seu melhor ensopado com queijo e batatas, e pudim de
Yorkshire. Posso servi-los na sala de jantar privada assim que desejarem.”
Iris sorriu em agradecimento e seguiu o Sr. Fogg nas escadas.
“Aqui estamos, milady,” ele disse abrindo a porta do quarto no fim do
corredor. “É o nosso melhor quarto.”
Realmente era um ótimo quarto, Iris pensou, com uma cama com dossel e
janelas viradas para o sul.
“Temos apenas dois quartos com sala de banho.” O Sr. Fogg continuou,
“Mas é claro que reservamos esse para a senhora.” Ele abriu outra porta que
levava a um quarto pequeno sem janelas com um penico e uma banheira de
bronze. “Uma de nossas criadas irá preparar um banho quente, assim que
desejar.”
“Eu avisarei, obrigada,” Iris disse. Ela não entendeu por que desejava
tanto causar boa impressão ao estalajadeiro, exceto talvez, que seu marido
parecia gostar muito dele. E é claro, não havia razão para ser mal-educada com
alguém que claramente queria agrada-la.
O Sr. Fogg fez uma reverência. “Muito bem, te deixarei aqui madame.
Creio que queira descansar após a viagem. Sir Richard?”
Iris piscou confusa quando Richard saiu do quarto.
“O Sr. fica aqui ao lado,” o Sr. Fogg continuou.
“Muito bem,” Richard disse.
“Você não vai – “Iris parou antes de falar algo embaraçoso. Seu marido
reservou dois quartos para a noite de núpcias?
“Senhora?” o Sr. Fogg se virou para atende-la.
“Não é nada,” Iris disse rapidamente. Ela não deixaria ninguém perceber
que ela estava surpresa.
Surpresa e ... e aliviada. E talvez um pouco magoada também.
“Por favor, abra o quarto para mim Sr. Fogg, eu já vou até lá. Enquanto
isso eu gostaria de falar a sós com minha esposa.”
O estalajadeiro fez uma mesura e saiu.
“Iris,” Richard disse.
Ela não se virou totalmente, apenas olhou em sua direção. E tentou sorrir.
“Eu não te desonraria exigindo uma noite de núpcias em uma estalagem
de beira de estrada.” Ele disse sério.
“Entendo.”
Ele parecia esperar que ela falasse algo mais, então ela disse.” É muito
atencioso de sua parte.”
Ele ficou em silencio, mexendo a mão sobre a coxa. “Você foi forçada a
isso.”
“Bobagem,” ela disse forçando um tom de leveza. “Eu te conheço por
duas semanas inteiras. Conheço pelo menos uma dúzia de casais foram ao altar
sem se conhecer por esse tempo.”
Ele ergueu uma sobrancelha de modo irônico. Não pela primeira vez Iris
desejou ser menos clarinha. Mesmo se ela conseguisse erguer apenas uma
sobrancelha ninguém veria.
Ele fez uma mesura. “Vou me retirar agora.”
Ela deu as costas, fingindo procurar algo na bolsa. “Por favor.”
“Te chamo para jantar?” ele perguntou.
“Sim, claro.” Ela tinha que comer, não tinha?
“Quinze minutos são suficientes para se arrumar?” seu tom era
minuciosamente educado.
Ela assentiu apesar de estar de costas para ele. Ele entenderia o
movimento. Ela não se arriscava em dizer mais nada.
“Vou bater em sua porta antes de descer,” ele disse e ela ouviu a porta se
fechar.
Iris ficou parada esperando. Ela não sabia o que. Talvez quisesse esperar
ele ir mais longe, para o próprio quarto.
Ela precisava de distância dele.
Assim ela poderia chorar.
Richard fechou a porta do quarto de Iris, andou pelo corredor, abriu a porta do
próprio quarto, entrou, trancou-se e disse todos os palavrões que conhecia,
surpreso por não ser acompanhado por raios e trovões.
O que ele faria agora?
Tudo estava de acordo com o plano. Tudo. Ele conheceu Iris, ele
conseguiu casar com ela, e eles estavam indo para o norte. Ele não contou tudo
a ela – bem, na verdade ele não contou quase nada a ela, mas ele planejava faze-
lo assim que chegassem em Maycliffe e ela conhecesse suas irmãs.
O fato de ter encontrado uma mulher tão inteligente e agradável era um
alivio. O fato de ser linda era um bônus. Ele só não esperava deseja-la tanto.
Pelo menos não desse modo.
Ele a beijou em Londres, e gostou disso – o suficiente para saber que
dividir sua cama não seria difícil. Mas por mais que tenha gostado ele pôde
parar quando foi necessário. Ele ficou com o coração acelerado e sentiu os
primeiros sinais do desejo, mas não foi nada que não pode controlar facilmente.
Então Iris tropeçou ao sair da carruagem. Ele a pegou, claramente. Ele era
um cavalheiro; era instinto. Ele faria o mesmo por qualquer dama.
Mas quando ele a tocou, quando suas mãos descansaram em sua pequena
cintura e seu corpo tocou o dela ...
Ele se incendiou por dentro.
Ele não entendeu o que tinha mudado. Será que era algo primitivo, algo
que surgiu quando ela se tornou sua esposa?
Ele se sentiu patético, atordoado e parado, incapaz de tirar as mãos dela.
Ele sentiu o próprio pulso acelerar, e ficou surpreso por ela não ouvir as batidas
de seu coração. Tudo que conseguia pensar era –
Eu a desejo.
E não era desejo do tipo faz-meses-que-estive-com-uma-mulher. Era
elétrico, um golpe de desejo que o fez ficar sem ar.
Ele queria segurar seu rosto e beija-la até que estivesse tremendo de
luxuria.
Ele queria segura-la e levantá-la até que ela não tivesse outra escolha a
não ser evolve-lo com as pernas.
Santo Deus. Ele desejava a própria esposa. E não podia consumar esse
desejo.
Ainda não.
Richard xingou outra vez, tirando o casaco e se jogando na cama.
Maldição! Ele não precisava desse tipo de problema. Ele teria que falar para ela
trancar a porta do quarto quando chegassem a Maycliffe.
Ele xingou novamente. Ele nem sabia se a porta que conectava seu quarto
ao dela tinha uma tranca.
Ele teria que pôr uma.
Não, isso causaria um falatório. Quem colocava uma tranca na porta
conectora?
Sem contar os sentimentos de Iris. Ele viu em seus olhos que ela ficou
surpresa por ele não planejar visita-la na noite de núpcias. Ele estava certo que
pelo menos ela estava um pouco aliviada – ele sabia que ela não estava
desesperadamente apaixonada por ele. Mesmo se estivesse, ela não era do tipo
de encararia o leito nupcial sem um pouco de receio.
Mas ela também estava magoada. Ele também percebeu isso, apesar dela
tentar esconder. E por que ela não ficaria magoada? Talvez para ela, o marido
não a achava desejável o suficiente para lava-la para a cama na noite de núpcias.
Ele deu uma risada amargurada. Nada era tão longe da verdade quanto
isso. Quem sabe quanto tempo levaria para ele acalmar o próprio corpo o
suficiente para leva-la para jantar.
Oh, isso seria educado. Aqui, pegue minha mão, mas ignore minha ereção
descontrolada.
Alguém tinha que inventar um tipo de calças melhor.
Ele ficou deitado, pensando em coisas neutras. Qualquer coisa que
desviasse sua atenção da curva dos quadris da esposa. Ou seus lábios rosados.
Era uma cor comum em outras pessoas, mas em contraste com a pele branca de
Iris ...
Ele xingou mais uma vez. Não era para ser assim. Pensamentos ruins,
pensamentos desagradáveis ... vamos ver, teve aquela vez que ele teve
intoxicação alimentar em Eton. Foi por um tipo de peixe. Salmão? Não, lúcio.
Ele vomitou por dias seguidos. E ah, a lagoa em Maycliffe. Estaria gelada nessa
época do ano. Muito gelada. Ao ponto de congelar as partes.
Observar pássaros, conjugação em latim, sua tia-avó Gladys (que Deus a
tenha). Aranhas, leite azedo, peste.
Peste negra.
Peste negra em suas partes congeladas ...
Isso funcionou.
Ele tirou o relógio do bolso. Dez minutos se passaram, talvez onze. Ele
tinha tempo para se arrastar pateticamente para fora da cama e tentar parecer
apresentável.
Grunhindo Richard colocou o casaco outra vez. Ele deveria ter se trocado
para o jantar, mas certamente essas regras sociais podiam ser quebradas em uma
viagem. E ele já tinha dispensado seu valete essa noite. Ele esperava que Iris
não se preocupasse em pôr um vestido formal. Ele não pensou em falar isso a
ela.
Exatamente quinze minutos depois Richard voltou ao quarto de Iris, que
abriu a porta assim que ele bateu.
“Você não se trocou,” ele falou, como um idiota.
Ela arregalou os olhos, receosa de ter cometido um erro. “Deveria ter me
trocado?”
“Não, não. Eu queria ter lhe dito para não se incomodar.” Ele limpou a
garganta. “Mas eu esqueci.”
“Oh.” Ela sorriu desajeitadamente. “Bem, eu não me troquei.”
“Eu vi.”
Richard fez uma nota mental para lembrar de se parabenizar pela sua
perspicácia brilhante.
Ela ficou parada.
Ele também.
“Eu peguei um xale.”
“Boa ideia.”
“Acho que vai esfriar.”
“É possível.”
“É, foi o que eu pensei.
Ele ficou parado.
Ela também.
“Devemos ir.” Ele disse bruscamente oferecendo o braço. Era arriscado
toca-la mesmo em uma situação tão inocente, mas ele teria que se acostumar.
Ele não poderia negar-se a acompanha-la pelos próximos meses.
Ele teria que descobrir quantos meses. Quantos meses exatamente.
“O Sr. Fogg não exagerou quando disse quando falou sobre a comida.”
Ele disse, se esforçando para pensar em algo inócuo. “Ela é uma cozinheira
fantástica.”
Talvez ele estivesse imaginando coisas, mas Iris parecia aliviada por ele
estar falando sobre um assunto ordinário. “Que ótimo.” Ela disse. “Eu estou
faminta.”
“Você não comeu na carruagem?”
Ela balançou a cabeça. “Eu peguei no sono.”
“Desculpe por não ficar lá para distrai-la.” Ele quase mordeu a língua. Ele
sabia como gostaria de distrai-la.
“Não seja tolo. Você passa mal em carruagens.”
Verdade, mas ele nunca tinha viajado de carruagem com ela.
“Imagino que vai viajar do lado de fora amanhã?”
Ela perguntou.
“Creio que será melhor.” Por muitas razões.
Ela assentiu. Devo achar outro livro para ler. Já estou quase terminando o
que eu trouxe.
Eles chegaram à sala de jantar privativa e Richard deu passagem a ela. “O
que você está lendo?” ele perguntou.
“Outro livro da Srta. Austen. Mansfield Park.”
“Não conheço esse. Acho que minha irmã ainda não leu.”
“Não é tão romântico como os outros.”
“Ah, é por isso então. Fleur não iria gostar.”
“Sua irmã é tão romântica assim?”
Richard abriu a boca para falar mas parou. Como poderia descrever
Fleur? Ela não era sua pessoa favorita ultimamente. “Acho que ela é sim,” ele
disse.
Iris parecia surpresa pela resposta. “Você acha?”
Ele percebeu que sorriu. “Não é o tipo de coisa que ela gosta de conversar
sobre com o irmão. Romance, eu quis dizer.”
“É, creio que não.” Ela deu de ombros e pegou uma batata com o garfo.
“Eu certamente não falo disso com o meu.”
“Você tem um irmão?”
Ela olhou para ele assustada. “É claro que eu tenho.”
Maldição, ele deveria saber disso. Que tipo de homem não sabia que a
esposa tinha um irmão?
“John,” ela disse. “Ele é o caçula.”
Isso era mais surpreendente. “Você tem um irmão chamado John?”
Com isso ela riu. “Chocante, eu sei. Ele deveria se chamar Florian ou
algo assim. Não é muito justo.”
“Que tal Narciso?” Willian sugeriu.
“Seria muito mais injusto. Ter um nome de flor e ainda ser tão normal.”
“Ora vamos, Iris não é como Mary ou Jane, mas não é tão incomum.”
“Não é isso.” Ela disse. “É que somos em cinco. O que é comum sozinho
fica terrível em um grupo.” Ela olhou para a comida claramente se divertindo.
“O que foi?” ele perguntou. Ele tinha que saber o que estava a divertindo.
Ela balançou a cabeça, seus lábios em uma linha claramente tentando
segurar o riso.
“Eu insisto, me conte.”
Ela se inclinou, como se fosse contar um segredo. “Se John fosse uma
menina, ele se chamaria Hortência.”
Richard riu e percebeu que eles estavam conversando confortavelmente
por vários minutos. Mais do que confortavelmente na verdade – ela era uma
excelente companhia, sua esposa. Talvez tudo isso desse certo no fim. Ele só
teria que superar o primeiro obstáculo.
“Por que seu irmão não foi ao casamento?” ele perguntou.
Ela não tirou os olhos da comida ao responder. “Ele ainda está em Eton.
Meus pais não acharam necessário que ele viesse para uma cerimônia tão
pequena.”
“Mas todos os seus primos foram.”
“A sua família não foi também,” ela rebateu.
Haviam motivos para isso, mas ele não estava preparado para explica-los
agora.
“Além do mais.” Iris continuou “aqueles não eram todos os meus
primos.”
“Santo Deus, quantos primos você tem?”
Ela olhou para ele segurando um sorriso. “Eu tenho trinta e quatro primos
de primeiro grau.”
Ele a encarou, parecia um número absurdo.
“E cinco irmãos.” Ela concluiu.
“Isso é ... extraordinário.”
Ela deu de ombros. Talvez para ela não fosse tão extraordinário. “Meu
pai é um de oito filhos.” Ela disse.
“Mesmo assim.” Ele cortou a carne preparada pela Sra. Fogg. “Eu não
tenho nenhum primo de primeiro grau.”
“Verdade?” ela parecia chocada.
“A irmã mais velha da minha mãe ficou viúva bem cedo. Ela não teve
filhos e não quis se casar outra vez.”
“E seu pai?”
“Ele tinha dois irmãos, mas eles morreram sem filhos.”
“Sinto muito.”
Ele parou, com o garfo a caminho de sua boca. “Por que?”
“Bom, porque – “ela parou, como se pensasse em uma resposta. “Não
sei,” ela finalmente disse. “Eu não consigo imaginar viver tão sozinho.
Por algum motivo isso o admirou. “Eu tenho duas irmãs afinal.”
“Sim, claro, mas – “novamente ela parou de falar.
“Mas o que?” ele sorriu para mostrar que não estava ofendido.
“Vocês são tão poucos.”
“Eu lhe asseguro que não parecíamos poucos quando eu era mais jovem.”
“Não, imagino que não.”
Richard começou a comer o pudim da Sra. Fogg. “Sua casa era cheia de
movimento, eu imagino”
“Era quase um hospício.”
Ele riu.
“Eu não estou brincando” ela disse, mas sorriu.
“Espero que considere minhas irmãs como suas.”
Ela sorriu e inclinou a cabeça levemente para o lado. “Com um nome de
Fleur, somos quase predestinadas, não acha?”
“Ah, sim, as florais.”
“É assim que nos chamam agora?”
“Agora?”
Ela revirou os olhos. “O buquê Smythe-Smith, as meninas do jardim, as
flores da estufa...”
“As flores da estufa?”
“Minha mãe nunca se surpreendeu.”
“Não, imagino que não.”
“Nem sempre era gentil assim.” Ela disse casualmente. “Já me contaram
que alguns cavalheiros gostavam de brincar com palavras.”
“Cavalheiros?” Richard repetiu duvidando. Ele imaginou que palavras
poderiam usar e certamente não eram nada gentis.
“Estou sendo gentil ao usar esse termo.” Iris disse com uma batata no
garfo.
Ela a observou por um momento. A primeira vista sua mulher parecia
comum, quase irreal. Ela não era alta, batia em seus ombros, e era magra
também. (Apesar de ter curvas, como ele descobriu recentemente.) E havia sua
cor de pele usual. Mas seus olhos, que à primeira vista pareciam pálidos,
brilhavam com perspicácia e inteligência enquanto ela conversava. Quando ela
se movia, não o fazia de modo frágil e delicado, mas sim decidido e forte.
Iris Smythe-Smith não deslizava como tantas moças foram ensinadas a
fazer, mas quando andava era com proposito e direção.
E seu nome, ele se lembrou, não era Smythe-Smith. Ela se chamava Iris
Kenworthy e ele apenas começou a conhece-la.
Capítulo 10

Três dias depois

Eles estavam chegando.


Faziam dez minutos que passaram por Flixton, a vila mais próxima de
Maycliffe Park. Iris tentou não parecer tão ansiosa – ou nervosa – enquanto
observava a paisagem pela janela. Ela disse a si mesma que era só uma casa, e
se seu marido foi honesto nas descrições, não era tão grande.
Mas era a casa dele, o que significava que agora também era a casa dela,
e ela realmente queria causar uma boa primeira impressão quando chegasse.
Richard disse que haviam treze servos na casa, nada muito assustador, mas
então ele comentou que o mordomo trabalhava lá desde que ele nasceu e a
governanta desde antes disso. Iris não pode evitar pensar que mesmo que seu
sobrenome agora fosse Kenworthy, ela era a intrusa nessa equação.
Eles a odiariam. Os servos a odiariam, e as irmãs a odiariam e se ele
tivesse um cachorro (ela deveria saber se ele tinha um cachorro), ele a odiaria
também.
Ela até podia vê-lo, recebendo Richard com aquele sorriso canino bobo e
se virando para Iris rosnando com os dentes a mostra.
Uma chegada memorável, essa seria.
Richard mandou um mensageiro para avisar que estavam chegando. Iris
sabia que assim que chegassem todos os residentes da casa estariam alinhados
para recebe-los.
Richard falava dos empregados com muito carinho; considerando seu
charme e amabilidade Iris sabia que os servos sentiam o mesmo por ele. Eles a
olhariam, por mais que Iris sorrisse e fosse gentil, não importava se ela
parecesse feliz com sua nova casa. Eles veriam em seus olhos. Ela não amava
Richard.
E talvez ele não a amasse também.
Haveria falatório. Sempre havia falatório quando o senhor se casava, mas
ela era uma estranha em Yorkshire e considerando as circunstâncias de seu
casamento, as fofocas seriam intensas. Será que pensariam que ele foi obrigado
a se casar com ela? Bom, isso não deixava de ser verdade, mas –
“Não se preocupe.”
Iris olhou para Richard, feliz por ele ter interrompido seus pensamentos
frenéticos. “Eu não estou preocupada.” Ela mentiu.
Ele ergueu uma sobrancelha. “Permita-me reformular. Você não tem com
o que se preocupar.”
Iris dobrou as mãos sobre o colo. “Eu não achei que tivesse.”
Outra mentira. Ela estava ficando boa nisso. Ou talvez não. Pela cara de
Richard, ele claramente não acreditou nela.
“Muito bem,” ela cedeu. “Eu estou um pouco nervosa.”
“Ah. Bem, provavelmente há motivos para isso.”
” Sir Richard!”
Ele sorriu. “Perdão. Eu não resisti. E lembre-se que eu prefiro que não me
chame de Sir. Pelo menos não quando estamos sozinhos.”
Ela inclinou a cabeça, decidindo que ele não merecia uma resposta
irônica.
“Iris,” ele disse em um tom gentil, “eu seria um idiota se não
reconhecesse que só você teve que fazer sacrifícios em nosso casamento.”
Não totalmente, ela pensou incisivamente. Na realidade o maior sacrifício
ainda não tinha sido feito da parte dela. A segunda noite da jornada foi como a
primeira, eles dormiram em quartos separados. Richard repetiu o mesmo de
antes, que ela não merecia uma noite de núpcias em uma estalagem.
Não importava se O Carvalho Real fosse tão limpo e organizado quanto
O ganso empoeirado. O mesmo ocorreu no As armas do rei, onde passaram a
última noite da viagem. Iris sabia que deveria se sentir honrada pela
consideração do marido, mas quando ele colocava seu conforto acima de suas
necessidades de marido, ela não conseguia evitar pensar no que tinha acontecido
a aquele homem que a beijou tão apaixonadamente na casa da tia há apenas uma
semana. Ele pareceu subjugado pela paixão naquela noite, incapaz de se conter.
E agora ... agora estavam casados e ela não tinha porque se conter.
Não fazia sentido.
Mas, novamente, casar com ela não fazia sentido também, e ele fez isso
mesmo assim.
Ela mordeu o lábio.
“Eu pedi muito de sua parte.” Ele disse.
“Na verdade não,” ela resmungou.
“O que disse?”
Ela balançou a cabeça levemente. “Nada.”
Ele respirou fundo. Talvez aquela conversa fosse difícil para ele. “Você
se mudou para o outro lado do país,” ele disse. “Eu te afastei de tudo que ama.”
Iris forçou um pequeno sorriso. Ele estava tentando consola-la?
“Mas eu acredito,” ele continuou, “que somos adequados um para o
outro. E espero que chegue a pensar em Maycliffe como um lar.”
“Obrigada,” ela disse educadamente. Ela gostou do fato dele tentar
conforta-la, mas a conversa não ajudou a acalma-la.
“Minhas irmãs devem estar ansiosas para conhece-la.”
Iris esperava que isso fosse verdade.
“Eu escrevi sobre você para elas.” Ele continuou.
Ela olhou surpresa. “Quando?” ela perguntou. Ele deve ter escrito logo
após a noite na casa dos Pleinsworth para que a carta chegasse a tempo.
“Eu mandei um expresso.”
Iris assentiu e voltou a olhar para a janela. Mensagens expressas eram
caras, mas valiam a pena se necessários. Ela pensou no que ele poderia ter
escrito sobre ela. Como ele a descreveu após tão pouco tempo?
Ela olhou para Richard, tentando observa-la sem ser óbvia. Ele era
inteligente, isso ela tinha certeza mesmo nesse pouco tempo. Ele era muito bom
com pessoas, muito melhor que ela. Ela imaginou que o que quer que ele tenha
escrito as irmãs dependeu muito mais delas do que de Iris. Ele saberia o que elas
queriam saber sobre ela.
“Você não me disse muito sobre elas,” ela perguntou bruscamente.
Ele piscou.
“Sobre suas irmãs.”
“Oh. Eu não disse?”
“Não.” E era estranho perceber isso só agora. Ela supôs que sabia o mais
importante –nomes, idades e um pouco de como eram. Mas ela não sabia mais
nada, exceto que Fleur gostava de Orgulho e Preconceito.
“Oh,” ele disse outra vez. Ele olhou para janela e de volta para ela, seus
movimentos estranhamente pausados. “Bom, Fleur tem dezoito anos, Marie-
Claire é três anos mais nova.”
“Isso você já disse.” Seu sarcasmo era sutil e ele demorou para perceber.
“Fleur gosta de ler,” ele disse.
“Orgulho e Preconceito.” Ela completou.
“Viu só?” ele disse com um sorriso charmoso. “Eu te disse coisas.”
“Tecnicamente você está certo,” ela disse balançando a cabeça em sua
direção. “Coisas sendo plural, e dois é plural, e você me disse duas coisas ... “
Ele estreitou os olhos divertidamente. “Muito bem, o que você quer
saber?”
Ela odiava quando as pessoas perguntavam isso. “Qualquer coisa.”
“Você não me disse muito sobre os seus irmãos.”
“Você conheceu meus irmãos.”
“Suas irmãs sim, mas não seu irmão.”
“Você não vai morar com meu irmão,” ela retorquiu.
“Justo,” ele concordou, “apesar de que qualquer coisa que eu te fale agora
será desnecessária, pois você irá conhecer minhas irmãs em aproximadamente
três minutos.”
“O que?” Iris quase gritou, olhando de volta para a janela. Eles saíram da
estrada principal e entraram em um caminho menor. As arvores eram mais
esparsas e os campos eram verdes no horizonte. Era uma paisagem pacifica e
serena.
“É logo depois do morro.”
Ela podia ouvir o sorriso em sua voz.
“Estamos quase lá.” Ele sussurrou.
Então ela viu. Maycliffe Park. Era maior do que ela tinha imaginado mas
não excepcionalmente grande.
Maycliffe era muito charmosa a distância, parecia ser feita por tijolos
vermelhos. A fachada era quase assimétrica, mas considerando o que ela sabia
da história da casa, isso fazia sentido. Richard disse que a casa foi alterada com
o passar dos anos.
“Os quartos familiares estão voltados para o sul,” ele disse. “Vai
agradecer por isso durante o inverno.”
“Eu não sei para onde estamos voltados agora.” Iris admitiu.
Ele sorriu. Estamos entrando pelo oeste. Então seu quarto fica mais ou
menos” – ele apontou para a direita – “por ali.”
Iris assentiu sem se virar para o marido. Ela queria manter a atenção em
sua casa nova. Ao chegar mais perto ela percebeu que as arestas continham
pequenas janelas circulares. “Quem fica nos quartos lá em cima?” ela
perguntou. “Com as janelas redondas?”
“É uma mistura. Alguns são dos empregados. Ao sul tem um berçário.
Um dos quartos minha mãe transformou em uma sala de leitura.”
Ele não contou muito sobre os pais também, Iris percebeu. Ela sabia que
os dois tinham morrido, a mãe quando ele estava em Eton e o pai alguns anos
depois.”
Mas aquela não era hora de perguntar essas coisas. A carruagem estava
parando e haviam pessoas alinhadas em frente à casa para recebe-los. Pareciam
ser mais de treze servos, talvez Richard tenha contado apenas os que trabalham
diretamente na casa. Iris imaginou que lá também estavam os jardineiros e os
que trabalhavam nos estábulos. Ela nunca foi recebida dessa maneira antes;
talvez fosse pois dessa vez ela não era uma hospede, mas sim a nova senhora da
casa. Ela já estava nervosa antes, não se preocupando em ter que causar uma
boa impressão aos homens que cuidavam das rosas.
Richard desceu da carruagem e ofereceu a mão para Iris. Iris respirou
fundo e o seguiu e olhou para as pessoas reunidas com um sorriso amigável.
“Sr. Cresswell,” Richard disse olhando para o homem que deveria ser o
mordomo, “te apresento Lady Kenworthy, a nova senhora de Maycliffe Park.”
Cresswell fez uma reverencia respeitosa. “Estamos honrados em ter uma
senhora novamente aqui em Maycliffe.”
“Estou ansiosa para conhecer a casa,” Iris disse as palavras que tinha
ensaiado na noite anterior. “Estou certo que posso contar com o senhor e com a
Sra. Hopkins para me ensinar o necessário.”
“Será uma honra ajuda-la, milady.”
Iris começou a relaxar. Cresswell parecia sincero, e certamente os outros
empregados o obedeceriam.
“Sir Richard me disse que está aqui há vários anos,” Iris continuou. “Ele
o considera ... “
Ela parou de falar ao olhar para Richard. Sua expressão simpática de
sempre foi substituída por uma de fúria.
“Richard?” ela se ouviu sussurrar. O que aconteceu que o deixou assim?
“Onde,” ele disse ao mordomo em um tom baixo e contido, “estão minhas
irmãs?”

Richard olhou outra vez para a pequena aglomeração, mas não adiantava.
Se suas irmãs estivessem aqui ele já as teria visto.
Maldição. Elas deveriam estar ali para receber Iris. Era o pior tipo de
desfeita. Fleur e Maria-Claire poderiam estar acostumadas a mandar pela casa,
mas Iris era a senhora agora e todos – até os que nasceram com o sobrenome
Kenworthy – deveriam se acostumar com isso.
Imediatamente.
Além do mais, ambas sabiam o porquê de íris estar ali e o quanto ela
estava sacrificando. Nem Iris sabia disso totalmente.
Algo queimou no peito de Richard e ele não quis decidir se era fúria ou
culpa.
Ele esperava que fosse fúria porque já estava sentindo culpa o suficiente
para destruí-lo.
“Richard,” Iris disse colocando uma mão em seu braço. “Tenho certeza
que há uma boa razão para não estarem aqui.” Seu sorriso era forçado.
Richard se virou para Cresswell e disse, “Por que elas não desceram?”.
Não havia desculpa. Todos se deram ao trabalho de aparecer e suas irmãs
tinham pernas perfeitamente funcionais. Elas poderiam ter descido a maldita
escada e esperado para receber a nova irmã.
“A Srta. Kenworthy e a Srta. Marie-Claire não estão em Maycliffe. Elas
estão com a Sra. Milton.”
Elas estavam com a tia? “O que? Por que?”
“Ela veio busca-las ontem.”
“Busca-las,” Richard repetiu.
O mordomo permaneceu impassível. “A Sra. Milton acredita que recém
casados merecem uma lua de mel.”
“Se eu estivesse em lua de mel, eu não estaria aqui,” Richard disse entre
os dentes. Eles ficariam nos quartos a leste e fingiriam estar no litoral? Os
ventos vindos dessa direção dariam a impressão de estarem na Cornualha. Ou
no Ártico.
Cresswell limpou a garganta. “Creio que retornarão em duas semanas,
senhor.”
“Duas semanas?” Não podia ser.
Iris apertou levemente a mão que estava em seu braço. “Quem é Sra.
Milton?”
“Minha tia,” ele disse distraído.
“Ela deixou uma carta.” Cresswell disse.
Richard encarou o mordomo. “Minha tia? Ou Fleur?”
“Sua tia, senhor. Eu coloquei junto com a correspondência em seu
escritório.”
“Nada de Fleur?”
“Receio que não, senhor.”
Ele teria que estrangula-la. “Nem um bilhete?” ele insistiu. “Uma
mensagem?”
“Não que eu saiba, senhor.”
Richard respirou fundo, tentando se acalmar. Não foi assim que ele
esperou que voltassem. Ele pensou que suas irmãs estariam ali e ele poderia
prosseguir com o plano.
Por mais terrível que isso fosse.
“Sir Richard.” Ele ouviu a voz de Iris.
Ele se virou, piscando. Ela o chamou de Sir outra vez, algo que ele estava
começando a odiar. Era uma forma respeitosa de tratamento e ele não merecia
isso.
Ela apontou discretamente com a cabeça na direção dos empregados, que
ainda estavam alinhados respeitosamente. “Talvez devêssemos prosseguir com
as apresentações.”
“Sim, é claro.” Ele forçou um sorriso antes de se virar para a governanta.
“Sra. Hopkins, a senhora apresentaria Lady Kenworthy às criadas?”
Ele seguiu tenso enquanto a governanta apresentava cada criada. Ele não
interferiu, esse era o momento de Iris assumir seu papel em Maycliffe e ele não
enfraqueceria sua autoridade.
Iris se comportou com aprumo, ela parecia pequena perto da corpulenta
Sra. Hopkins mas sua postura era firme e sólida enquanto cumprimentava cada
empregado.
Ele ficou orgulhoso dela. Mas ele já sabia que ficaria.
Cresswell assumiu para apresentar os lacaios. Quando terminou ele se
virou para Richard e disse, “Seu quarto está preparado e um lanche os espera.”
Richard deu o braço para Iris mas continuou falando com Cresswell.
“Acredito que o quarto de Lady Kenworthy está pronto.”
“De acordo com suas especificações, senhor.”
“Excelente.” Richard olhou para Iris. “Tudo foi limpo e areado, mas não
redecoramos. Eu imaginei que quisesse escolher as cores pessoalmente.”
Iris sorriu em agradecimento e Richard torceu que ela não desejasse sedas
brocadas importadas da França. Maycliffe era lucrativa novamente depois de
muitos anos, mas os fundos não eram de modo algum abundantes. Havia uma
razão para o plano original ser procurar uma noiva com dote generoso. Iris tinha
dois mil, o que não era pouco mas era longe do necessário para restaurar a casa
à gloria do passado.”
Mas ela podia redecorar o próprio quarto. Era o mínimo que podia fazer.
Iris olhou para Maycliffe, examinando os tijolos vermelhos que ele tanto
amava. Ele imaginou o que ela via. Ela via o charme da arquitetura ou o estado
gasto dos vidros? Ela amaria a história da casa ou odiaria a mistura de estilos?
Aquele era seu lar, mas será que ela se sentiria assim também?
“Podemos entrar?’ ele perguntou
“Ela sorriu. “Eu adoraria.”
“Talvez um tour pela casa?” ele sugeriu. Ele sabia que deveria perguntar
se ela queria descansar, mas ele não estava pronto para leva-la ao quarto. O
quarto dela estava ligado ao dele, e ambos tinham camas grandes e confortáveis
que ele não poderia usar da maneira que gostaria.
Os últimos três dias foram infernais.
Ou, melhor dizendo, as últimas três noites.
As armas do rei foi a pior. Eles ficaram em quartos separados, como ele
pediu, mas o proprietário ansioso por agradá-lo o colocou no melhor quarto.
“Com portas conectoras!” ele proclamou com um sorriso e uma piscadela.
Richard não imaginou que a porta fosse tão fina. Ele ouviu todos os
movimentos de Iris, todos os suspiros e tosses. Ele a ouviu xingar quando bateu
o dedo do pé e soube exatamente quando se deitou. O colchão fez barulho
mesmo com seu leve peso, e rapidamente sua imaginação começou a funcionar.
Ela estaria com o cabelo solta. Ele nunca a viu assim e passou horas
imaginando o comprimento que seria. Ela sempre o usava em um coque baixo e
solto. Ele nunca prestou atenção nos penteados das damas antes, mas com Iris,
ele via cada grampo. Ela usava quatorze essa manhã. Parecia ser muito. Isso
queria dizer que seu cabelo era muito longo?
Ele queria toca-lo, deslizar os dedos por ele. Ele queria vê-lo ao luar e
queria senti-lo em sua pele enquanto ela –
“Richard?”
Ele piscou. Precisou de um momento para lembrar que estava de pé na
entrada de Maycliffe.
“Está tudo bem?” Iris perguntou.
“Seu cabelo,’ ele deixou escapar.
Ela piscou. “Meu cabelo.”
“Está lindo.”
“Oh,” ela corou levemente, tocando o penteado. “Obrigada.” Ela tentou
desviar os olhos. “Eu tive que arruma-lo sozinha.”
Ele a olhou sem expressão.
“Precisarei contratar uma criada,” ela explicou.
“Oh, sim, é claro que sim.”
“Eu praticava com minhas irmãs, mas não sou muito boa em arrumar o
meu próprio cabelo.”
Ele não tinha ideia do que ela estava falando agora.
“Eu precisei de uma dúzia de grampos para fazer o que minha criada fazia
com cinco.”
Quatorze.
“O que disse?”
Oh, santo Deus, ele disse em voz alta. “Contrataremos uma criada
imediatamente.” Ele disse firme. “A sra. Hopkins pode te ajudar. Você pode
começar a procurar hoje mesmo se quiser.”
“Se não se importa.” Iris disse entrando na casa. “Eu acho que preciso
descansar um pouco antes de ver a casa.”
“É claro,” ele disse. Ela esteve seis horas presa em uma carruagem, era
evidente que queria se deitar.
Em seu quarto.
Em uma cama.
Ele grunhiu.
“Está mesmo bem?” ela perguntou. “Você está um pouco estranho.”
Estranho era uma boa palavra para descrever.
Ela tocou seu braço. “Richard?”
“Nunca estive melhor.” Ele coaxou. Ele se virou para o valete que estava
logo atrás. “Acho que preciso de um descanso também. Um banho talvez?”
O valete assentiu e Richard disse a ele em voz baixa. “Não muito quente,
Thompson.”
“Estimulante, senhor?”
Richard cerrou os dentes. Thompson trabalhava para ele há oito anos,
tempo o suficiente para ser descarado dessa maneira.
“Você me levaria até o quarto? Iris perguntou.
Ele a levaria até o quarto?
Ele a encarou. Estupidamente.
“Você me levaria até o quarto?” ela perguntou de novo, olhando para ele
perplexa.
Era oficial. Seu cérebro parou de funcionar.
“Richard?”
“Minha correspondência,” ele disse de repente, pensando na primeira
desculpa que pôde. Ele precisava não ficar sozinho no quarto com Iris. “Eu
realmente preciso ver isso antes.”
“Senhor,” Cresswell começou a dizer. Certamente para lembra-lo que ele
tinha um secretário.
“Não, não, melhor ir ver isso logo. Deve ser feito, sabe. E tema carta da
minha tia. Não posso ignorar isso.” Ele forçou um sorriso alegre e olhou para
Iris. “Sra. Hopkins te levará até o quarto.”
A Sra. Hopkins não parecia concordar com a ideia.
“Ela foi a responsável por redecorar.” Richard disse.
Iris franziu o rosto. “Pensei que você disse que o quarto não foi
redecorado.”
“Por arear.” Ele disse, balançando as mãos. “Ela conhece o quarto melhor
que eu.”
A Sra. Tinha um olhar de desaprovação e Richard se sentiu como um
garotinho prestes a ser repreendido. A governanta foi como uma mãe para ele e
mesmo não o advertindo na frente dos outros, ele sabia que ela o faria depois.
Impulsivamente, Richard tomou a mão de Iris e levou até os lábios para
um breve beijo. Ninguém o acusaria de ignorar a esposa em público. “Você
deve descansar, minha querida.”
Iris abriu a boca surpresa. Ela já a chamou de querida, não chamou?
Maldição, ele deveria ter chamado.
“Uma hora é o suficiente?” ele perguntou a Iris, ou melhor, ele perguntou
aos lábios de Iris, que eram deliciosamente rosados. Santo Deus. Ele queria
beija-la. Ele queria deslizar sua língua –
“Duas!” ele quase gritou. “Você precisará de duas horas.”
“Duas?”
“Horas.” Ele disse firme. “Não quero exigir demais de você.” Ele olhou
para a Sra. Hopkins. “Damas são delicadas.”
Iris franziu o rosto adoravelmente, e Richard se segurou para não falar um
palavrão. Como ela poderia ser tão linda franzindo o rosto? Certamente isso era
atomicamente impossível.
“Posso te levar ao seu quarto, Lady Kenworthy?” a Sra. Hopkins
perguntou.
“Eu adoraria, obrigada,” Iris respondeu ainda olhando suspeitamente para
Richard.
Ele deu um sorriso pálido.
Iris seguiu a Sra. Hopkins, mas antes de sumir de vista ele a ouviu dizer.
“A senhora se considera delicada, Sra. Hopkins?”
“Nem um pouco, milady.”
“Que bom,” ela disse em uma voz seca. “Eu também não.”
Capítulo 11

A noite Richard bolou um novo plano. Ou melhor, uma variação. O que ele
deveria ter feito desde o início.
Iris ficaria furiosa com ele. Espetacularmente furiosa. Não escaparia
disso.
Mas talvez ele pudesse diminuir a força do golpe?
Cresswell disse que Fleur e Marie-Claire ficariam longe por duas
semanas. Isso não seria possível, mas uma semana talvez sim. Ele mandaria
buscar suas irmãs em sete dias, isso seria simples, sua tinha não morava muito
longe.
E enquanto isso ...
Uma das muitas coisas que causavam arrependimento a Richard foi a
falta de tempo para cortejar sua esposa adequadamente. Iris ainda não sabia o
motivo do casamento, mas não era tola. Ela sabia que tinha algo estranho. Se
Richard tivesse tempo o suficiente em Londres ele galantearia Iris da maneira
que ela merecia. Ele teria mostrado o quanto ele gostava de sua companhia, que
ela o fazia rir. Ele a teria feito rir. Ele talvez tivesse roubado mais beijos e
acordado o desejo que ele sabia que adormecia dentro dela.
E então, quando se ajoelhasse e a pedisse em casamento, Iris não teria
hesitado. Ela teria olhado em seus olhos e dito sim.
Talvez até se jogasse em seus braços, com lágrimas de alegria nos olhos.
Isso seria um pedido de casamento dos sonhos, não o beijo maltrapilho e
calculado que ele forçou no corredor de sua tia.
Mas ele não teve escolha. Certamente quando ele explicasse tudo ela
entenderia. Ela sabia como era amar a própria família e querer protege-los a
qualquer custo. Era isso que ela fazia todo ano quando tocava no musical. Ela
não queria tocar, ela fazia pela mãe, pelas tias e pela irmã Daisy que sempre foi
uma pedra em seu sapato.
Ela entenderia. Ela tinha que entender.
Ele tinha uma semana. Sete dias inteiros antes de admitir sua traição.
Talvez ele fosse um covarde, talvez ele devesse explicar tudo agora e dar-lhe
tempo para se acostumar.
Mas ele queria o que não teve antes do casamento. Tempo.
Muito podia acontecer em uma semana.
Uma semana, ele sussurrou baixinho enquanto ia busca-la para seu
primeiro jantar em Maycliffe Park.
Uma semana para faze-la se apaixonar por ele.

Iris passou a tarde toda descansando. Ela nunca entendeu como ficar sentada em
uma carruagem causava tanto cansaço, enquanto sentar-se em uma cadeira na
sala de estar sequer gastava energia. A jornada de três dias até Maycliffe Park a
deixou totalmente exausta. Talvez fosse o balançar da carruagem, ou as estradas
eram muito ruins. Ou talvez – provavelmente – era a presença do marido.
Ela não o entendia.
Em um momento ele era charmoso e no próximo evitava sua companhia
como se ela carregasse a peste. Ela não acreditou que ele mandou a governanta
acompanha-la até o quarto. Certamente essa era a função do marido, mas ela
admitiu que não deveria se surpreender. Richard evitou sua cama em todas as
estalagens que ficaram, por que seria diferente agora?
Ela suspirou. Ela teria que aprender a ser indiferente. Não cruel ou mal
educada, só ... indiferente. Quando ele sorrisse para ela – e ele sorria para ela –
ela parecia crepitar de felicidade por dentro. Isso seria maravilhoso mas só
deixava sua rejeição mais intrigante.
E dolorosa.
Seria mais fácil se ele não fosse tão gentil o tempo todo. Se ela pudesse
odiá-lo –
Não, o que ela estava pensando? Não seria melhor se ele fosse cruel ou se
a ignorasse completamente. Certamente um casamento complicado era melhor
que um desagradável. Ela tinha que deixar de ser tão dramática. Não combinava
com ela. Ela só tinha que se manter equilibrada.
“Boa noite, Lady Kenworthy.”
Iris se virou surpresa. Richard estava com metade do corpo entre a porta
meio aberta. “Eu bati,” ele disse com uma expressão divertida.
“Eu acredito em você.” Ela disse rapidamente. “Eu estava pensando em
outra coisa.”
Ele abriu um sorriso manhoso. “Ouso perguntar em que pensava?”
“Em minha casa,” ela mentiu, e logo adicionou. “Quero dizer, em
Londres. Essa é minha casa agora.”
“Sim,” ele disse entrando no quarto, fechando a porta calmamente. Ele a
encarou por um tempo, o que a deixou inquieta. “Fez algo diferente no cabelo?”
E foi assim que seu plano de ficar indiferente foi por água abaixo.
Íris tocou o cabelo nervosamente. Ele notou. Ela não pensou que ele
notaria. “Uma das empregadas me ajudou,” ela diss. “ela gosta muito de ... “
Por que ele olhava para ela daquele jeito?
“Ela gosta de ...?”
“Tranças,” ela disse rápido. Ridiculamente rápido. Ela parecia uma
pateta.
“Ficou lindo.”
“Obrigada.”
Richard a olhou calorosamente. “Você tem um cabelo lindíssimo de
qualquer jeito. A cor é extraordinária. Eu nunca vi igual.”
Iris abriu os lábios surpresa. Ela deveria falar alguma coisa. Ela deveria
agradecer. Mas ela ficou paralisada e depois se sentiu ridícula. Ser tão afetada
assim por um elogio.
Felizmente Richard não notou seu sofrimento. “Sinto muito por ter tido
que viajar sem uma criada.” Ele continuou. “Confesso que sequer pensei na
ideia antes de partimos. Típico comportamento masculino, eu imagino.”
“Nã-não tem problema.”
Ele aumentou o sorriso e Iris soube que foi porque ela ficou corada.
“Mesmo assim,” ele disse. “Peço desculpas.”
Iris não sabia o que dizer. Isso era ótimo na verdade, porque ela não tinha
certeza se conseguia falar qualquer coisa.
“A Sra. Hopkins te mostrou o quarto?” Richard perguntou.
“Sim,” Iris disse balançando a cabeça. “Ela foi muito prestativa.”
“O quarto é de seu agrado?”
“Sim, claro.” Iris disse com honestidade. O quarto era realmente lindo,
claro e confortável. Mas o que ela gostou mais ...
Ela olhou para Richard com um brilho nos olhos. “Você não tem ideia do
quanto estou feliz por ter meu próprio quarto de banho.”
Ele riu. “Serio? Foi isso que você mais gostou?”
“Depois de ter que dividir um com Daisy pelos últimos dezessete anos?
Certamente.” Ela inclinou a cabeça levemente para o lado. “E a vista também
não é nada ruim.”
Ele riu novamente e foi até a janela, sinalizando para que ela se juntasse a
ele. “O que você vê?” ele perguntou.
“Não entendi o que quer dizer.” Iris disse, cuidadosa para que eles não se
tocassem.
Ele não tinha a mesma ideia. Ele passou o braço pelo dela e a puxou para
perto. “Eu vivi a vida toda em Maycliffe Park. Quando eu olho pela janela eu
vejo a primeira arvore que eu escalei quando tinha sete anos. E o lugar que
minha mãe sempre quis um labirinto.”
Uma expressão saudosista tomou conta de seu rosto e Iris desviou os
olhos. Parecia intrusivo observa-lo assim.
“Não consigo ver Maycliffe com o olhar de um recém chegado.” Ele
disse, “Talvez você pudesse me ajudar com isso.”
Ele estava com uma voz suave e aveludada, que fluía por ela como um
gole de chocolate quente. Ela continuou olhando pela janela mas ela sabia que
ele a encarava. Ela sentiu sua respiração aquecendo o ar entre eles.
“O que você vê, Iris?”
Ela respirou fundo. “Eu vejo... grama. E árvores.”
Richard fez um som engraçado, como se quisesse esconder a surpresa.
“Eu vejo um pouco da colina também,” ela disse.
“Você não é muito poética, não é?”
“Nem um pouco,” ela admitiu. “Você é?” ela se virou, esquecendo que
tinha planejado o oposto e ficou surpreso por quão perto ele estava.
“Eu posso ser,” ele disse suavemente.
“Quando te convém?”
Ele sorriu. “Quando me convém.”
Iris sorriu nervosa e voltou a olhar pela janela. Ela se sentia agitada,
mexendo os pés dentro dos sapatos como se estivessem fervendo. “Eu prefiro
saber o que você vê.” Ela disse. “Eu preciso saber mais sobre Maycliffe. Eu
quero ser uma boa senhora para todos.”
Ele fixou os olhos nela mas Iris permaneceu com a mesma expressão.
“Por favor.” Ela disse.
Por um segundo ele pareceu se perder em pensamentos, mas em seguida
endireitou os ombros e voltou a olhar pela janela. “Ali.” Ele apontou com o
queixo, “naquele campo, atrás das árvores. Nós temos um festival de colheita ali
todo ano.”
“Verdade?” Iris disse. “Oh, isso é ótimo. Eu adoraria ajudar no
planejamento.”
“Com certeza ajudará.”
“É durante o outono?”
“Sim, novembro. Eu sempre – “ele ficou rígido e balançou a cabeça um
pouco, como se quisesse afastar um pensamento. “Há uma estrada por ali
também,” ele disse claramente mudando de assunto. “Leva até a fazenda do
moinho.”
Iris queria saber mais sobre o festival de colheita, mas claramente ele não
diria mais nada sobre o assunto. Então ela perguntou educadamente. “Fazenda
do moinho?”
“É a fazenda de um dos meus inquilinos.” Ele explicou. “A maior delas
na verdade. O filho recentemente começou a administra-la. Espero que ele use a
terra bem, o pai nunca o fez.”
“Oh.” Iris não tinha muito a ver com aquilo.
“Sabe,” Richard disse olhando para ela de repente. “Eu diria que entre
nós dois, suas observações são mais válidas. Você pode ver deficiências onde eu
não posso.”
“Eu não vejo nada deficiente, eu te garanto.”
“Nada?” ele murmurou e sua voz parecia uma caricia.
“Mas é claro que eu sei pouco sobre como administrar uma propriedade
no campo,” ela disse.
“Parece estranho viver a vida toda em Londres,” ele disse pensativo.
Ela respondeu. “Não é estranho se é tudo que conhece.”
“Ah, mas não é tudo que você conhece, não é?”
Iris levantou a sobrancelhas e se virou para olhar para ele. Um erro. Ele
estava mais perto do que ela imaginou e ela esqueceu o que ia dizer.
Ele ergueu uma sobrancelha em dúvida.
“Eu – “por que ela estava olhando para a boca dele. Ela se forçou a olhar
para seus olhos que estavam com uma expressão divertida.
“Você ia dizer alguma coisa?” ele perguntou.
“Só que ... ah ... eu ...” O que ela ia dizer? Ela se voltou para a janela.
“Oh!” ela se voltou para Richard. Ainda um erro, mas dessa vez ela lembrou o
que planejava dizer. “O que quer dizer com ‘não é tudo que eu conheço’”?
Ele deu de ombros. “Certamente você passou um tempo no campo na
casa dos seus primos.”
“Bom, sim, mas não é a mesma coisa.”
“Talvez seja o suficiente para ter uma opinião em relação a vida no
campo, não acha?”
“Suponho que sim,” Iris concordou. “Para ser honesta, eu nunca pensei
nisso.”
Ele a olhou atentamente. “Você acha que vai gostar de morar no campo?”
Iris engoliu seco, tentando não notar que sua voz estava mais profunda
quando fez a pergunta. “Eu não sei.” Ela respondeu. “Eu espero que sim.”
Ela sentiu sua mão tomar a dela e quando ela se virou para olha-lo,
Richard levou seus dedos até os lábios. “Eu também espero que sim.” Ele disse.
Ela olhou em seus olhos e percebeu – ele está tentando me seduzir.
Ele estava tentando seduzi-la. Mas por que? Por que ele sentiria a
necessidade? Ela nunca indicou que recusaria seus avanços.
“Espero que esteja com fome.” Ele disse ainda segurando sua mão.
“Fome?” ela repetiu bobamente.
“O jantar?” ele sorriu divertidamente. “A cozinheira preparou um
banquete.”
“Oh, sim. É claro.” Ela pigarreou. “Eu estou com fome. Eu acho.”
“Você acha?” ele provocou.
Ela respirou fundo, tentando acalmar as batidas de seu coração. “Eu estou
com fome.” Ela disse.
“Excelente.” Ele apontou para a porta. “Podemos ir?”

Quando Iris voltou para o quarto ela estava quase pegando fogo. Richard tinha
sido charmoso durante todo o jantar, ela não se lembrava da última vez que
tinha rido tanto. A conversa foi incrível, a comida deliciosa e o modo que ele
olhava para ela ...
Era como se ela fosse a única mulher da Terra.
Ela pensou que talvez fosse. Ela era certamente a única mulher da casa,
sem contar os empregados. Ela que era acostumada a observar tudo de longe
não podia evitar ser o centro das atenções.
Era desconcertante e maravilhoso. E agora era apavorante.
Ela estava em seu próprio quarto, e a qualquer minuto ele podia bater na
porta conectora. Ele estaria vestido para dormir, suas pernas expostas e sem
gravata.
Haveria pele. Ela nunca tinha visto um cavalheiro com tanta pele exposta.
Iris ainda não tinha a própria criada, então a empregada que a arrumou
mais cedo a ajudou a se preparar para a noite. Iris ficou aflita quando a moça lhe
entregou uma das camisolas que faziam parte do enxoval. Era ridiculamente
fina e reveladora, e mesmo perto da lareira os arrepios em sua pele não foram
embora.
Ele viria essa noite. Certamente ele viria. E ela finalmente seria uma
esposa.

No outro lado da porta, Richard endireitou os ombros. Ele podia fazer isso. Ele
podia fazer isso.
Ou talvez não.
Quem ele estava querendo enganar? Se entrasse naquele quarto, ele
pegaria a mão de Iris. E se ele pegasse sua mão, ele a levaria até os lábios. Ele
beijaria cada dedo e ela se apoiaria nele, seu corpo quente e inocente e seu. Ele
teria que a envolver com os braços, ele não resistiria. Então ele a beijaria da
maneira que merecia ser beijada, longa e profundamente até que ela sussurrasse
seu nome com uma voz suplicante, pedindo para ele –
Ele xingou vigorosamente, tentando conter a imaginação antes de se
deitar. Não que ajudasse muito, ele estava queimando de desejo pela esposa.
Outra vez.
Ainda.
A noite foi uma tortura. Ele não se lembrava de nada que disse durante o
jantar e só esperava que tenham sido coisas coesas. Sua mente insistia em se
inundar de pensamentos inapropriados e toda vez que Iris molhava os lábios ou
sorria para ele, oh maldição, toda vez que ela respirava ele sentia seu corpo ficar
rígido até quase explodir.
Se Iris achou estranho permanecerem a mesa mesmo depois de
terminarem o jantar ela não disse nada. Graças a Deus. Richard não conseguiria
pensar em uma maneira educada de explicar que precisava de pelo menos meia
para sua ereção diminuir e não envergonha-lo.
Santo Deus. Ele merecia isso. Ele merecia cada segundo de tormento
graças ao que fez com ela. Mas pensar assim não o ajudava. Richard nunca foi
um devasso, mas também nunca negou os prazeres da carne. E agora cada fibra
de seu corpo suplicava por isso. Era insano o quanto ele desejava a esposa.
A única mulher que ele tinha pleno direito de ter sem nenhum remorso.
Tudo pareceu simples quando ele planejou durante a tarde. Ele seria
charmoso durante o jantar e depois a beijaria apaixonadamente desejando boa
noite. Ele inventaria alguma desculpa romântica sobre esperar que ela o
conhecesse melhor antes de consumarem a união. Mais um beijo e ela ficaria
sem fôlego.
Então ele a tocaria no queixo e sussurraria, “até amanhã” e iria embora.
Como plano era perfeito.
Na realidade era a maior bobagem.
Ele respirou fundo, frustrado passando as mãos no cabelo que já estava
bagunçado. A porta conectora não era a prova de som e ele podia ouvir a
movimentação de Iris pelo quarto, sentando na penteadeira e escovando os
cabelos. Ela o esperaria essa noite, não esperaria? Eles eram casados.
Ele teria que entrar. Se não o fizesse, ela ficaria confusa. Talvez até se
sentiria insultada. Ele não queria magoa-la. Não mais do que já a magoaria.
Ele respirou fundo e bateu na porta.
A movimentação no quarto ficou mais alta e após um segundo ele a ouviu
dizer pra que ele entrasse.
“Iris” ele disse tentando controlar a voz. Então ele olhou para ela.
E perdeu o folego.
Ele teve certeza que seu coração parou também.
Ela usava uma camisola fina de seda azul, azul claro. Seus braços
estavam expostos e os ombros também salvo pelas finas tiras de seda que
seguravam a camisola.
Era um traje desenhado para tentar um homem – para tentar o próprio
diabo. O decote era tão revelador quanto um vestido de baile, mas de alguma
forma era diferente. O tecido era tão fino que era quase transparente e ele podia
ver a forma de seus mamilos sob a camisola.
“Boa noite.” Richard disse e só depois percebeu que soava como um
idiota.
“Iris,” ele coaxou.
Ela sorriu envergonhada e ele viu suas mãos se esconderem em suas
costas, como se ela não soubesse o que fazer com elas.
“Você está linda.” Ele disse.
“Obrigada.”
Ela estava com o cabelo solto. Ele descia em ondas até o meio de suas
costas. Ele tinha esquecido o quanto ele queria saber o comprimento.
“É minha primeira noite em Maycliffe,” ela disse timidamente.
“É sim.” Ele concordou.
Ela ficou em silêncio, claramente esperando que ele assumisse o controle.
“Você deve estar cansada.” Ele disse se agarrando a única desculpa que
pôde pensar.
“Um pouco.”
“Eu não vou incomoda-la.”
Ela piscou. “O que?”
Ele se aproximou dela, se forçando a lembrar o que era necessário fazer e
o que não era necessário.
Ele a beijou, mas somente na testa. Ele conhecia seus limites. “Eu não
agirei como um bruto.” Ele disse tentando soar gentil e tranquilizador.
“Mas – “Ela estava confusa.
“Boa noite Iris.” Ele disse rapidamente.
“Mas, eu – “
“Até amanhã, meu amor.”
Então ele fugiu.
Como o covarde que era.
Capítulo 12

Como uma mulher casada, Iris tinha o direito de tomar o café da manhã na
cama, mas ao acordar na manhã seguinte ela cerrou os dentes determinada e se
vestiu.
Richard a rejeitou.
Ele a rejeitou.
Essa não era uma estalagem de beira de estrada, muito “suja” para uma
noite de núpcias. Eles estavam em casa, por Deus do céu. Ele flertou com ela
durante todo o jantar. Ele beijou suas mãos e conversou animadamente e assim
que ela vestiu uma camisola transparente e penteou os cabelos até que ficassem
brilhando ele disse que ela parecia cansada?
Ela não sabia dizer quanto tempo passou encarando a porta depois que ele
saiu. Ela não notou que chorava até ter que segurar um soluço terrível e quando
olhou para a camisola – a mesma que jurou nunca usar outra vez – ela estava
encharcada de lágrimas.
Ela imaginou que ele pudesse ouvi-la do outro quarto, o que deixou tudo
muito pior.
Iris sempre soube que ela não tinha a beleza que levava os homens à
paixão e inspirava poesia. Talvez em outro lugar as mulheres eram admiradas
pela falta de cor e pelo cabelo ruivo claro, mas não aqui na Inglaterra.
Mas pela primeira vez em sua vida ela tinha começado a se sentir bela. E
Richard que causou esse sentimento, com seus sorrisos e olhares doces. De vez
em quando ela o flagrava a observando e isso a fazia se sentir especial.
Apreciada.
Mas era tudo mentira. Ou ele era uma tola que via coisas que não
existiam.
Talvez ela só fosse tola e ponto.
Bom, ela não aceitaria isso passivamente. E certamente não deixaria que
ele notasse o quão insultada ela se sentia. Ela desceria para tomar café da manhã
como se nada tivesse acontecido. Ela comeria torradas com geleia, leria o jornal
e quando ela falasse seria com a perspicácia com que ela era conhecida.
Não era que ela realmente quisesse fazer o que quer que pessoas casadas
façam na cama, não importa o quão especial sua prima Sarah disse que era. Mas
seria bom se pelo menos ele quisesse.
Ela teria tentado pelo menos.
A empregada que a ajudou na noite passada tinha outras funções, então
Iris se vestiu sozinha. Ela arrumou o cabelo em um coque simples, o melhor que
pôde fazer sozinha, vestiu os sapatos e saiu do quarto.
Ela parou ao passar pelo quarto de Richard. Será que ele ainda estava
dormindo? Ela chegou mais perto, tentada a ouvir pela porta.
Pare com isso!
Ela estava agindo como uma boba. Ouvindo atrás da porta. Ela não tinha
tempo para isso. Ela estava faminta e queria tomar o café da manhã e depois
tinha muito o que fazer, nada que envolvesse o marido.
Ela tinha que contratar uma criada, por exemplo. E aprender sobre a casa.
Visitar a vila. Conhecer os inquilinos.
Tomar chá.
O que, ela se perguntou. Era importante tomar chá. Ela poderia virar
italiana se isso deixasse de ter importância.
“Eu estou ficando louca,” ela disse em voz alta.
“Perdão, milady?”
Iris quase pulou de susto. Uma empregada estava no fim do corredor,
com um espanador de penas enorme nas mãos.
“Não é nada,” Iris disse tentando não parecer envergonhada. “Eu tossi.”
A empregada assentiu, não era a mesma que arrumou seu cabelo.
“A Sra. Hopkins deseja saber que horas a senhora deseja que o café seja
servido.” A empregada disse com uma pequena mesura, sem olhar nos olhos de
Iris. “Nós não perguntamos ontem à noite, e Sir Richa- “
“Eu vou descer para o café da manhã.” Iris interrompeu. Ela não queria
saber o que Richard pensava. De qualquer coisa.
A empregada fez uma mesura outra vez. “Como desejar, milady”
Iris deu um pequeno sorriso embaraçoso. Era difícil se sentir como a
senhora da casa quando o senhor não a ajudava.
Ela foi até o andar de baixo, tentando fingir não notar que todos os servos
a observavam – e fingiam que não estavam. Era quase como uma dança
estranha.
Ela imaginou quanto tempo levaria para ela deixar de ser a “nova”
senhora de Maycliffe. Um mês? Um ano? Será que seu marido passaria todo
esse tempo evitando sua cama?
Ela suspirou e parou de andar por um momento dizendo a si mesma que
ela estava sendo boba. Ela nunca esperou uma união apaixonada, então por que
ela estava ansiando por uma agora? Ela se tornou Lady Kenworthy, por mais
estranho que isso fosse, e ela tinha uma imagem a zelar.
Iris endireitou os ombros, respirou fundo e entrou no salão de café da
manhã.
Que estava vazio.
Maldição.
“Oh! Lady Kenworthy!” a Sra. Hopkins surgiu pela porta. “Annie acabou
de me dizer que a senhora quer tomar o café da manhã aqui em baixo hoje.”
“Err, sim. Espero que isso não seja um problema.”
“Nenhum, milady.” Nós ainda temos a mesa preparada de quando Sir
Richard comeu.”
“Ele já terminou de comer então?” Iris não sabia se estava desapontada.
Ela não sabia se queria estar desapontada.
“Não faz sequer quinze minutos,” ela confirmou. “Creio que ele pensou
que a senhora tomaria café na cama.”
Iris não tinha o que dizer.
A Sra. Hopkins lhe deu um sorriso de cumplicidade. “Ele nos pediu para
pôr uma flor em sua bandeja.”
“Ele pediu?” Iris perguntou, odiando seu próprio tom.
“É uma pena não termos nenhuma íris. Elas florescem cedo.”
“Até aqui, tão ao norte?” Iris perguntou.
A Sra. Hopkins assentiu. “Elas nascem nos jardins a oeste. Minhas
preferidas são as roxas.”
Iris ia concordar com ela, mas ouviu passos vindo do corredor, vigorosos
e determinados. Só poderia ser Richard. Nenhum empregado andaria pela casa
tão despreocupado com o barulho.
“Sra. Hopkins,” ele disse, “Eu vou – oh.” Ele viu Iris e parou. “Já está
acordada.”
“Como pode ver.”
“Você me disse que acordava tarde.”
“Hoje não, aparentemente.”
Ele juntou as mãos atrás das costas e limpou a garganta. “Já comeu?”
“Não, ainda não.”
“Não quis o café da manhã na cama?”
“Não,” Iris respondeu, imaginado se já teve uma conversa tão empolada
na vida. Onde estava o homem charmoso da noite passada? O que ela pensou
que viria à sua cama?
Ele ajeitou a gravata. “Eu planejava visitar alguns inquilinos hoje.”
“Posso ir com você?”
Seus olhos se encontraram. Iris não sabia quem estava mais surpreso. Ela
não percebeu o que iria dizer até ter dito.
“É claro,” Richard respondeu. O que mais ele diria, ainda mais na frente
da Sra. Hopkins?”
“Eu vou buscar minha capa.” Iris disse se virando em direção a porta. Era
frio até na primavera tão ao norte.
“Não está se esquecendo de nada?”
Ela se virou.
Ele indicou a mesa. “Café da manhã?”
“Oh.” Ela sentiu o rosto corar. “É claro. Que distração a minha.” Ela foi
até a mesa e pegou um prato, quase pulando quando sentiu a respiração de
Richard perto da orelha.
“Devo me preocupar que minha presença te faz perder o apetite?”
Ela congelou. Agora ele estava flertando? “Com licença.” Ela disse. Ele
estava na frente das salsichas.
Ele deu um passo para o lado. “Sabe cavalgar?”
“Não muito bem.” Ela admitiu e por se sentir impertinente ela perguntou,
“E você sabe?”
Ele recuou um pouco surpreso e contrariado. Mais contrariado do que
surpreso. “É claro que sim.”
Ela sorriu para si mesma e se sentou. Nada afetava um cavalheiro como
um insulto a sua habilidade de cavalgar.
“Você não precisa esperar por mim,” ela disse cortando a salsicha com
uma precisão cirúrgica. Ela estava se esforçando muito para parecer normal, não
que ele a conhecesse o suficiente para saber o que era normal. Mas ainda assim,
era uma questão de orgulho.
Ele se sentou a frente dela. “Estou a sua disposição.”
“Está?” ela murmurou, desejando que esse comentário não fizesse seu
coração acelerar.
“Certamente. Eu estava saindo quando te encontrei. Agora só posso
espera-la.”
Iris olhou para ele enquanto espalhava a geleia em sua torrada. Ele estava
esparramado na cadeira da maneira mais informal possível, se inclinando com a
graça de um atleta natural.
“Eu deveria levar presentes,” ela disse assim que teve a ideia.
“Como?”
“Presentes. Para os inquilinos. Eu não sei, cestas de comida ou algo
assim. Você não concorda?”
Ele ponderou por alguns segundos e disse. “Você está certa. Eu não
pensei nisso antes.”
“Bom, sendo justa, você não planejou me levar hoje.”
Ele assentiu sorrindo enquanto ela comia a torrada.
Ela parou. “Há algo errado?”
“Por que haveria algo errado?”
“Você está sorrindo para mim.”
“Eu não tenho permissão?”
“Não, é que – Oh, pelo amor de Deus,” ela murmurou entre os dentes.
“Esqueça.”
Ele balançou a mão. “Considere esquecido.”
Mas ele continuou sorrindo para ela.
Isso a deixou ansiosa.
“Você dormiu bem?” ele perguntou.
Serio? Ele iria perguntar isso?
“Iris?”
“Tão bem quanto foi possível,” ela respondeu assim que conseguiu.
“Não parece muito promissor.”
Ela deu de ombros. “É um quarto estranho.”
“Se fosse o caso você também teria tido dificuldades para dormir durante
toda a viagem.”
“Eu tive.” Ela confirmou.
Seus olhos se encheram com preocupação. “Você deveria ter me
contado.”
Se tivesse dormido comigo, você mesmo veria, ela queria dizer, mas ao
invés disse, “Eu não quis te preocupar.”
Richard se inclinou e pegou em sua mão, que foi um gesto estranho pois
ela estava pegando o chá. “Espero que não hesite em me contar seus problemas
futuramente.”
Iris tentou manter uma expressão impassível, mas teve a impressão de
olhar para ele como se ele fosse um animal em exibição. Era ótimo ele se
preocupar com ela, mas eles só estavam falando de algumas noites mal
dormidas. “Tenho certeza que sim.” Ela disse com um sorriso receoso.
“Ótimo.”
Ela olhou pela sala um pouco encabulada. Ele ainda segurava sua mão.
“Meu chá,” ela disse apontando em direção a xicara com a cabeça.
“Oh, sim claro. Me desculpe.” Mas quando soltou sua mão, seus dedos a
acariciaram levemente.
Um leve arrepio percorreu seu braço. Ele estava sorrindo daquela maneira
adorável outra vez, que a deixava formigando por dentro. Ele estava tentando
seduzi-la. Ela tinha certeza disso.
Mas por que? Por que ele a trataria com tanto carinho para depois rejeita-
la? Ele não era tão cruel. Não poderia ser.
Ela bebeu um gole de chá com pressa, desejando que ele parasse de olha-
la tão atentamente. “Como era a sua mãe?” ela falou bruscamente.
Isso pareceu desconcerta-lo. “Minha mãe?”
“Você nunca me contou sobre ela.” E também não era o tipo de assunto
que causava uma atmosfera romântica. Iris precisava de um assunto inócuo se
ela tinha alguma esperança de terminar o café da manhã.
“Minha mãe era ...” ele parecia não saber o que dizer.
Iris deu outra mordida na torrada, o olhando com uma expressão serena
enquanto ele franzia o nariz e piscava várias vezes. Talvez no fundo ela fosse
uma criatura egoísta e pequena pois ela estava gostando de vê-lo assim. Ele a
perturbava o tempo todo, certamente uma pequena revanche era justa.
“Ela adorava a natureza,” ele finalmente disse. “Ela cultivava rosas. E
outras plantas também, mas as rosas são as únicas que eu lembro o nome.”
“Como ela se parecia?”
“Ela era como a Fleur, eu acho.” Ele juntou as sobrancelhas enquanto se
lembrava. “Apesar que ela tinha olhos verdes. Fleur tem os olhos mais escuros –
uma mistura do meu pai e minha mãe.”
“Seu pai tinha olhos castanhos então?”
Richard assentiu, se inclinando na cadeira.
“Imagino como serão os olhos dos nossos filhos.”
Richard ajustou a cadeira em um estampido, espalhando um pouco de chá
sobre a mesa. “Desculpe.” Ele disse. “Perdi o equilíbrio.”
Iris olhou para o prato, chegando à conclusão que estava satisfeita. Que
reação estranha a de Richard. Certamente ele desejava ter filhos não é? Todo
homem desejava. Pelo menos todo homem que tinha terras.
“Maycliffe é vinculada a seu título?” ela perguntou.
“Por que pergunta?”
“Não é o tipo de coisa que eu deveria saber?”
“Não é. Vinculada, quero dizer. Mas sim, é algo que deveria saber.” Ele
admitiu.
Iris encheu a xicara com mais chá. Ela não estava com sede mas não
queria libera-lo dessa conversa. “Seus pais devem ter ficado aliviados pelo
primogênito ser um menino. Certamente não desejavam ver a propriedade
separada do título.”
“Confesso que nunca conversei sobre isso com eles.”
“Não, imagino que não.” Ele colocou um pouco de leite no chá, mexeu e
tomou um gole. “Para quem vai o título se você morrer sem filhos?”
Ele ergueu uma sobrancelha. “Você está planejando minha morte?”
Ela o olhou. “Parece o tipo de coisa que eu deveria saber também, não
concorda?”
Ele balançou uma mão despreocupadamente. “Primo distante. Acho que
ele mora em Somerset.”
“Você acha?” como ele não sabia disso?
“Eu não o conheço,” Richard disse dando de ombros. “Você teria que
voltar até nosso tataravô para encontrar um ancestral em comum.”
Iris supôs que isso justificava. Ela conhecia bem seus primos abundantes,
mas eles eram primos de primeiro grau. Ela não achou que poderia localizar
parentes distantes em um mapa se precisasse.
“Você não tem com o que se preocupar.” Richard disse. “Se algo
acontecer comigo você não ficará desamparada. Fiz questão disso em nosso
contrato de casamento.”
“Eu sei,” Iris disse. “Eu li.”
“Você leu?”
“Não deveria?”
“A maioria das mulheres não lê.”
“Como sabe disso?”
De repente ele sorriu. “Estamos discutindo?”
De repente seu sorriso transformou o interior de Iris em pudim. “Eu não
estou.”
Ele riu. “Isso é um alívio. Devo dizer eu odiaria pensar que estamos
discutindo e eu não estou participando.”
“Oh, não acho que isso chegará a acontecer.”
Ele se inclinou para perto de Iris, inclinando a cabeça em dúvida.
“Eu não perco a calma com frequência ...”
“Mas quando perde, é um espetáculo a ser visto?”
Ela sorriu concordando.
“Por que eu tenho a impressão que Daisy é a maior causadora da sua
raiva?”
Ela mexeu o dedo indicador como se dissesse – errado! – “Isso não é
verdade.”
“Me conte então.”
“Daisy é ...” ela suspirou. “Daisy é Daisy. Não sei outro modo de
descreve-la. Eu sempre pensei que uma de nós duas foi trocada ao nascer.”
“Tome cuidado com o que diz.” Ele a avisou com um sorriso. “Daisy é a
que se parece exatamente com a sua mãe.”
Iris sentiu um sorriso surgir. “Elas se parecem mesmo, não é? Eu puxei
para a família do meu pai. Me disseram que minha bisavó tinha o cabelo igual
ao meu. É estranho quantas gerações essa característica pulou até me achar.”
Richard assentiu. “Eu ainda quero saber o que te deixa com raiva, já que
não é a Daisy.”
“Oh, eu não disse que ela não me deixa com raiva. Ele me deixa. O
tempo todo. Mas raramente é algo que merece atenção. Discussões com a Daisy
são sempre sobre coisas pequenas, muito rápidas.”
“Quem te deixa com raiva então?” ele perguntou suavemente. “Quem te
deixa tão nervosa que explodiria se pudesse?”
Você, ela quase disse.
Mas não era verdade. Não mesmo. Ele a provocava, e chegou a magoa-la
mas não conseguiu faze-la chegar ao ponto de raiva que ele descreveu.
Mas ela sabia que de algum modo ele era capaz.
De algum modo, ele o faria.
“Sarah” Iris disse firmemente, dispensando esses pensamentos perigosos.
“Sua prima?”
Ela assentiu. “Eu briguei com ela uma vez ... “
Os olhos de Richard se encheram de deleite e ele se inclinou,
descansando os cotovelos sobre a mesa e o queixo nas mãos. “Preciso saber
cada detalhe.”
Iris riu. “Não, não precisa.”
“Oh, preciso sim.”
“Não acredito que as mulheres que possuem a fama de serem
fofoqueiras.”
“Isso não é fofoca,” ele protestou. “Isso é uma tentativa de entender
minha esposa melhor.”
“Oh, se esse é o caso ... “ela riu outra vez. “Muito bem, foi por causa do
musical. Eu não acho que você possa entender. Não acho que ninguém que não
é da minha família entenda.”
“Tente.”
Iris suspirou, pensando em como poderia explicar. Richard era sempre tão
confiante, tão seguro. Ele com certeza não conhecia a sensação de subir em um
palco e fazer papel de bobo, sem ter nada que pudesse fazer para impedir.
“Me diga, Iris.” Ele disse. “Eu realmente quero saber.”
“Oh, tudo bem. Foi ano passado.”
“Quando ela ficou doente,” Richard disse.
Iris olhou para ele surpresa.
“Você mencionou uma vez.” Ele a lembrou.
“Ah, bom, ela não estava doente.”
“Imaginei que não.”
“Ela armou a coisa toda. Ela disse que estava tentando cancelar a
apresentação, mas na realidade só estava pensando nela mesma.”
“Você falou para ela o que achou disso?”
“Oh, sim,” Iris respondeu. “Eu fui até a casa dela no dia seguinte. Ela
tentou negar mas estava claro que não estava doente. Mesmo assim ela insistiu
nisso por seis meses, até o casamento da Honoria.”
“Honoria?”
Oh, certo. Ele não conhecia Honoria. “Minha outra prima” ela disse a ele.
“Ela é casada com o conde de Chatteris.”
“Outra musicista?”
Iris deu um sorriso irônico. “Depende do que entende por essa palavra.”
“A Honoria – perdão, digo, a Lady Chatteris estava nesse musical?
“Sim, mas ela é tão amável e clemente. Tenho certeza que ela ainda
acredita que a Sarah estava doente. Ela sempre pensa o melhor sobre todos.”
“E você não?”
Ela olhou em seus olhos. “Eu sou naturalmente mais desconfiada.”
“Devo me lembrar disso.” Ele murmurou.
Iris pensou que era melhor não continuar com esse assunto, então disse.
“De qualquer modo, Sarah eventualmente admitiu a verdade. Na noite anterior
ao casamento de Honoria. Eu não me lembro bem, mas ela disse algo sobre
como era altruísta e eu não consegui me segurar.”
“O que você disse?”
Iris estremeceu com a memória. Ela tinha dito a verdade, mas não foi
gentil. “Eu prefiro não dizer.”
Ele não a pressionou.
“Foi quando ela disse que estava tentando cancelar a apresentação.” Ela
disse.
“Você não acredita nela?”
“Eu acredito que isso passou pela cabeça dela enquanto planejava tudo,
mas não acredito que foi a razão principal.”
“E isso importa?”
“É claro que importa.” Ela disse com uma paixão que a surpreendeu. “A
razão de nossas ações é importante. Tem que ser importante.”
“Mesmo se o resultado for benéfico?”
Ela dispensou a pergunta. “Claramente você está falando hipoteticamente.
Eu ainda estou falando sobre minha prima e o musical. E não, o resultado não
foi benéfico. Pelo menos para todos além dela.”
“Mas podemos dizer que para você tudo ficou igual.”
Iris só olhou para ele.
“Vamos considerar,” ele explicou. “Se Sarah não tivesse fingido a doença
você teria tocado no musical.”
Ele esperou a confirmação e Iris assentiu.
“Mas ela fingiu estar doente.” Ele continuou. “E o resultado foi que você
tocou no musical.”
“Não entendi aonde quer chegar.”
“Não houve mudança nas consequências para você. As ações dela,
embora mal intencionadas, não te afetaram nem um pouco.”
“É claro que afetaram.”
“Como?”
“Se eu tenho que tocar, ela tem que tocar.”
Ele riu. “Você não acha que isso soa um pouco imaturo?”
Iris cerrou os dentes em frustração. Como ele ousava rir? “Eu acho que
você nunca teve que subir em um palco e se humilhar na frente de todos que
conhece. E o pior, alguns que não conhece.”
“Você não me conhecia.” Ele falou, “e olha o que aconteceu.”
Ela não disse nada.
“Se não fosse pelo musical.” Ele disse bem humorado. “Nós não
estaríamos casados.”
Iris não tinha ideia de como responder isso.
“Você sabe o que eu vi naquela noite?” ele disse em uma voz gentil.
“Não quer dizer o que você ouviu?” ele murmurou.
“Oh, sabemos o que eu ouvi.”
Ela riu, apesar de não querer.
“Eu vi uma moça se escondendo atrás de um violoncelo.” Ele continuou.
“Uma moça que realmente sabia tocar o violoncelo.”
Ela o encarou.
“Seu segredo está seguro comigo.” Ele disse sorrindo.
“Não é um segredo.”
Ele deu de ombros.
“Mas você sabe o que é?” ela perguntou, de repente ansiosa por dividir
isso com alguém. Ela queria que ele soubesse. Ela queria que ele a conhecesse.
“O que?”
“Eu odeio tocar violoncelo.” Ela disse com energia. “E não é só por causa
do musical, apesar de eu não gostar disso também. Eu detesto os musicais, eu
detesto de tal maneira que é difícil descrever.”
“Na verdade, você está descrevendo muito bem.”
Ela deu um sorriso tímido. “Eu realmente odeio tocar violoncelo. Se me
colocassem na melhor orquestra, repleta de virtuosos – não que eles jamais
permitiriam uma mulher – eu ainda odiaria.”
“Então por que toca?’
“Bom, eu não toco mais. Eu não preciso agora que me casei. Eu nunca me
aproximarei de um violoncelo outra vez.”
“Bom saber que eu fui bom para alguma coisa.” Ele disse. “Mas
honestamente. Por que você tocava? E não diga que era obrigada. Sarah
conseguiu escapar.”
“Eu não conseguiria ser desonesta.”
Ela esperou que ele dissesse algo, mas ele permaneceu quieto, como se
estivesse pensando.
“Eu tocava o violoncelo porque era o que esperavam de mim. E porque
fazia minha família feliz. E apesar de tudo que eu digo sobre eles, eu os amo
muito.”
“Você ama mesmo.” Ele murmurou.
Ela olhou para ele inquieta. “Mesmo depois disso tudo, Sarah ainda é
uma das minhas melhores amigas.”
Ela a olhou com uma expressão curiosamente firme. “Você claramente
tem grande capacidade para perdoar.”
Iris considerou por um momento. “Eu não creio que tenho.” Ela disse.
“Espero que tenha,” ele disse baixinho.
“O que disse?” certamente ela não ouviu direito.
Mas ela já tinha se levantado e lhe oferecia a mão. “Vamos, o dia nos
espera.”
Capítulo 13

“De quantas cestas o senhor precisa?”


Richard fingiu não notar a expressão de surpresa da Sra. Hopkins.
“Dezoito,” ele disse jovialmente.
“Dezoito?” Ela repetiu incrédula. “Sabe quanto tempo levará para
preparar tudo isso?”
“Seria uma tarefa difícil para qualquer pessoa, menos para a senhora.”
A governanta estreitou os olhos, mas Richard percebeu que ela gostou do
elogio.
“A senhora não acha que é uma boa ideia presentear os inquilinos?” ele
disse antes que ela pudesse protestar outra vez. Ele puxou Iris para a frente dele.
“Foi ideia da Lady Kenworthy.”
“Pensei que seria uma atitude gentil.” Iris disse.
“Lady Kenworthy é muito generosa,” a Sra. Hopkins disse, “mas – “
“Nós ajudaremos,” Richard sugeriu.
Ela abriu a boca, surpresa.
“A união faz a força, não é isso que a senhora costumava dizer?”
“Não para o senhor,” a governanta retorquiu.
Iris segurou um riso. Que bela traidora ela era. Mas Richard estava com
muito bom humor para se ofender. “Os perigos de ter empregados que te
conhecem desde que você estava na escola.” Ele sussurrou no ouvido dela.
“Na escola!” a Sra. Hopkins zombou. “Eu o conheço desde quando – “
“Eu sei exatamente desde quando a senhora me conhece,” Richard
interrompeu. Ele não precisava que a Sra. Hopkins mencionasse o tempo em
que ele usava fraldas na frente de Iris.
“Eu adoraria ajudar, de verdade.” Iris disse. “Eu estou ansiosa para
conhecer os inquilinos e eu acho que os presentes seriam mais significativos se
eu ajudasse.”
“Eu nem sei se temos dezoito cestas,” a Sra. Hopkins murmurou.
“Não precisam ser cestas exatamente.” Iris disse. “Qualquer tipo de
recipiente serve. Estou certa que a senhora saberá como ocupa-los.”
Richard apenas sorriu, admirando a facilidade da esposa em lidar com a
governanta. A cada dia – não, a cada hora – ele aprendia algo novo sobre ela e a
cada revelação ele percebia como teve sorte em encontrá-la. Era estranho pensar
que ele provavelmente não olharia duas vezes para ela se ele não tivesse sido
forçado a achar uma esposa com tanta pressa.
Era difícil lembrar o que ele procurava em uma esposa antes. Um grande
dote, evidentemente. Ele teve que desistir disso, mas ao olhar como Iris se
movimentava pela cozinha de Maycliffe ele pensou que realmente não era tão
necessário. Se ele tivesse que esperar um ano ou até mais para reparar a casa
não teria problema e Iris com certeza não reclamaria.
Ele pensou sobre as mulheres que ele considerou antes de Iris. Ele não
conseguia se lembrar de muito sobre elas, só que elas sempre pareciam estar
dançando e flertando ou batendo em seu braço com o leque. Elas eram mulheres
que exigiam atenção.
Enquanto Iris merecia.
Com sua inteligência feroz e seu senso de humor astuto, ela tinha um
modo de adivinhar seus pensamentos. Ela o surpreendia a cada conversa.
Quem imaginaria que ele gostaria tanto dela?
Gostar.
Quem gostava da própria esposa? No mundo que vivia, esposas eram
toleradas, mimadas e se tivesse sorte, desejadas. Mas gostar?
Se ele não tivesse se casado com Iris, ele teria gostado de tê-la como
amiga.
Bom, teria gostado sem contar o desejo profundo de leva-la para a cama
que o impedia de pensar direito. Na noite anterior, quando ele foi desejar boa
noite a ela, ele quase perdeu o controle. Ele queria ser seu marido de fato, ele
queria que ela soubesse que ele a desejava. Ele viu em seu rosto, depois que a
beijou na testa. Ela estava confusa. Magoada. Ela pensou que ele não a
desejava.
Ele não a desejava?
Era tão longe da verdade que Richard quase riu. O que ela pensaria se
soubesse que ele passou a noite em claro, tenso e queimando de desejo enquanto
imaginava tudo que gostaria de fazer para satisfaze-la. O que ela diria se ele
dissesse o quanto gostaria de se enterrar nela, imprimir sua marca nela e faze-la
entender que ela pertencia a ele, que ele queria que ela pertencesse a ele, e ele
com prazer pertenceria a ela.
“Richard?”
Ele se voltou para o som da voz de sua mulher. Ou melhor, ele se voltou
parcialmente. Seus pensamentos inapropriados causaram uma reação em seu
corpo e ele ficou feliz por ter a bancada para se esconder.
“Você alguma coisa?” ela perguntou.
Ele disse?
“Bom, você fez um som,” ela disse dando de ombros.
Ele só imaginou. Santo Deus, como ele sobreviveria pelos próximos
meses?
“Richard?” ele disse outra vez. Ela parecia surpresa, talvez se divertindo
um pouco por vê-lo perdido em pensamentos. Quando ele não respondeu, ela
balançou a cabeça com um sorriso e voltou ao trabalho.
Ele a observou por um momento, depois mergulhou as mãos em uma
bacia de água e passou as mãos molhadas no rosto discretamente. Quando
estava se sentindo melhor ele se juntou a Sra. Hopkins e a Iris que preparavam
as cestas.
“O que você está colocando nessa?” ele disse bisbilhotando em cima do
ombro de Iris.
Iris mal olhou para ele. Ela claramente estava se divertindo no trabalho.
“A Sra. Hopkins disse que os Millers provavelmente estão precisando de panos
de prato.”
“Panos de prato?” parecia um presente sem graça para ele.
“É o que eles precisam.” Iris disse. Então ela sorriu e disse. “Nós também
vamos levar alguns biscoitos, porque é sempre bom ganhar algo que você não
precisa também.”
Richard olhou para ela por um tempo maior do que tinha planejado.
Embaraçada, ela olhou para o próprio vestido e tocou a bochecha. “Tem
algo no meu rosto? Eu estava ajudando a preparar a geleia ...”
Ela não tinha nada no rosto, mas Richard se inclinou e deu um leve beijo
no canto de sua boca. “Aqui,” ele falou baixinho.
Ela tocou onde ele a beijou, o olhou com uma expressão de surpresa,
como se ela não soubesse exatamente o que tinha acontecido.
Ele também não sabia.
“Não tem mais nada agora.” Ele disse a ela.
“Obrigada. Eu – “ela ficou levemente corada. “Obrigada.”
“Foi um prazer.”
E foi mesmo.
Pelas duas horas seguintes Richard fingiu ajudar na preparação das cestas.
Iris e a Sra. Hopkins tinham tudo sobre controle e sempre que ele sugeria algo,
era dispensado imediatamente ou considerado mas não realizado.
Ele não se importou. Ele estava feliz em ter a função de provador de
biscoitos (que estavam deliciosos, ele informou à cozinheira) e assistir Iris
assumir o controle como senhora de Maycliffe.
Finalmente eles tinham uma coleção de dezoito cestas, caixas e bacias,
cada uma recheada especialmente para cada família e etiquetadas com seus
nomes. Nenhuma era igual a outra; os Dunlops, que tinham quatro meninos
entre doze e dezesseis anos, receberiam uma porção extra de carne, enquanto
uma boneca antiga de Marie-Claire foi colocada na cesta dos Smiths, que
tinham uma filha de três anos que se recuperava de difteria. Os Millers
ganhariam panos de prato e biscoitos e os Burnhams uma peça de presunto e
dois livros – um sobre gerenciamento de terras para o filho mais velho e um
romance para as irmãs.
E talvez para o irmão também, Richard pensou com um sorriso. Todos
poderiam se divertir com um romance de vez em quando.
Tudo foi colocado em uma carroça e logo Iris e Richard estavam a
caminho para as visitas.
“Não é o modo de transporte mais glamoroso,” ele disse com um sorriso
bem humorado.
Iris segurava sua boina que o vento tentava derrubar. “Eu não me
importo. Imagine ter que levar tudo isso em uma charrete?”
Ele não tinha uma charrete, mas não havia razão para mencionar isso
então ele disse, “Você deveria amarrar os laços da sua boina, assim você não
precisará segurá-la.”
“Eu sei. Mas eu acho muito desconfortável. Eu nunca gostei da sensação
de ter algo amarrado em baixo do queixo.’ Ela disse com os olhos brilhando.
“Você não está em nenhuma posição para me aconselhar. Seu chapéu não está
nem um pouco firme em sua cabeça.”
Como se isso fosse uma sugestão, após uma leve rajada de vento Richard
sentiu o chapéu começar a escapar de sua cabeça.
“Oh!” Iris gemeu e sem pensar agarrou o chapéu e o colocou em Richard.
Eles já estavam perto, mas o movimento fez com que se aproximassem mais e
quando ele diminuiu o ritmo dos cavalos e olhou para ela seus olhos
encontraram e ele pode ver seu rosto radiante.
“Eu acho ...” ele murmurou, mas quando olhou seus olhos que estavam
incrivelmente azuis a luz do sol ele não conseguiu terminar.
“Você acha ...?” ela sussurrou. Ela ainda estava com a mão sobre a
cabeça de Richard e a outra segurando a própria boina. Seria uma posição
ridícula se não fosse tão incrivelmente maravilhosa.
Os cavalos pararam totalmente, totalmente confusos pela falta de direção.
“Eu acho que preciso te dar um beijo.” Richard disse. Ele colocou a mão
em sua bochecha, passando o polegar suavemente em sua pele. Ela era tão linda.
Como ele não percebeu quão linda ela era até essa manhã?
Ele eliminou o espaço que os separavam e seus lábios se encontraram,
suavemente. Ele a beijou vagarosamente e com delicadeza, tomando tempo para
descobrir sua forma, gosto e textura. Não era a primeira vez que a beijava, mas
parecia uma experiência nova.
Tinha algo de inocente nesse momento. Ele não apertou o corpo ao dela;
ele sequer desejou fazer isso. Esse não era um beijo de posse ou de luxúria. Era
algo diferente, algo cheio de curiosidade e cativação.
Ele aumentou a intensidade do beijo suavemente, permitindo deslizar sua
língua sobre a pele delicada de seu lábio. Ele soltou um leve suspiro, relaxando
o corpo ao aceitar a caricia.
Ela era perfeita. E doce. Ele tinha a sensação que poderia permanecer o
dia inteiro daquele jeito, com a mão em sua bochecha e a mão dela em sua
cabeça, não se tocavam em nenhuma outra parte exceto os lábios. Era quase
puro, espiritual.
Mas então um pássaro piou, e seu som agudo tomou conta do momento.
Algo mudou. Iris ficou tensa, ou talvez apenas voltou a respirar normalmente e
tomou fôlego. Ele piscou, então piscou outra vez, tentando se concentrar em
onde estava. Todo seu mundo foi resumido àquela mulher, e ele não conseguia
ver nada além de seu rosto.
Os olhos dela transbordavam de satisfação, e ele imaginou que estava
com a mesma expressão. Ela estava com os lábios entreabertos e ele pode ver
um pouco de sua língua rosada. Era muito estranho, mas ele não sentiu o
impulso de beija-la. Ele queria apenas olhar para ela. Ele queria ver as emoções
em seu rosto. Ele queria ver como seus olhos se dilatavam e se ajustavam a luz.
Ele queria memorizar a forma de seus lábios e o movimento de seus cílios
quando ela piscava.
“Isso foi ...” ele finalmente disse.
“Isso foi ...” ela repetiu.
Ele sorriu. Não pôde evitar. “Realmente foi.”
Ela abriu um sorriso inundando o momento de alegria. “Sua mão ainda
está na minha cabeça.” Ele disse assumindo um sorriso provocador.
Ela olhou como se tivesse que ver para acreditar. “Você acha que seu
chapéu está seguro?” ela perguntou.
“Vou assumir o risco.”
Ela tirou as mãos dele e tomou outra posição, se afastando um pouco
dele. Richard quase se sentiu abandonado, o que era loucura. Ela estava a menos
de trinta centímetros dele e parecia que ele tinha perdido algo precioso.
“Talvez você devesse amarrar a sua boina bem firme,” ele sugeriu.
Ela disse algo e seguiu a sugestão.
Ele limpou a garganta. “Devemos ir.”
“É claro.” Ela sorriu hesitante, mas em seguida determinadamente. “É
claro.” Repetiu. “Qual família visitaremos primeiro?”
Ele ficou grato pela pergunta e a necessidade de formular uma resposta.
Ele precisava de algo para ocupar o cérebro. “Ehrr ... eu acho que os
Burnhams,” ele decidiu. “A fazenda deles é a maior e a mais próxima.”
“Excelente.” Iris se ajeitou no banco e olhou para a pilha de presentes
atrás. “A caixa de madeira é a deles. A cozinheira colocou mais geleia. Ela disse
que o jovem Sr. Burnham gosta muito de doces.”
“Eu não sei se ele ainda pode ser considerado jovem.” Richard disse
puxando as rédeas. “John Burnham deve ter vinte dois anos agora, talvez vinte e
três.”
“Ele é mais novo que você.”
Ele sorriu divertido. “Verdade, mas assim como eu ele é o chefe da
família e gerencia a fazenda. A juventude vai embora rapidamente com tantas
responsabilidades.”
“Foi muito difícil?” ela perguntou suavemente.
“Foi a coisa mais difícil do mundo.” Richard se lembrou dos dias que
seguiram a morte do pai. Ele ficou tão perdido, tão sobrecarregado. Ele tinha
que fingir que sabia como gerenciar Maycliffe e cuidar das irmãs enquanto
estava de luto. Ele amava o pai. Eles não tinham um relacionamento com muitas
demonstrações de afeto, mas tinha um elo. Seu pai o ensinou a cavalgar. E ele o
ensinou a ler – não cartas e palavras, mas ele o ensinou o amor pela leitura, a
apreciar livros e conhecimento. O que ele nunca o ensinou – pois achou que
ainda não era necessário – foi como gerenciar Maycliffe. Bernard Kenworthy
não era um homem idoso quando ficou doente, haviam razões para crer que
Richard teria muitos anos antes de tomar seu lugar.
Mas para ser justo, isso seria muito para o pai ensinar. Bernard
Kenworthy sequer era bom nisso. Ele não era um bom proprietário, as terras não
o interessavam muito. Quando se dava ao trabalho de tomar decisões, não eram
inteligentes. Não que ele fosse mal, ele apenas fazia o que era conveniente no
momento, o que quer que necessitasse do mínimo de energia de sua parte. E
Maycliffe sofreu com isso.
“Você era apenas um garoto.” Iris disse.
Richard soltou uma pequena risada amarga. “Essa é a parte engraçada. Eu
pensava que já era um homem. Eu tinha estudado em Oxford. Eu tinha – “ele
parou antes de dizer que tinha dormido com mulheres. Iris era sua esposa. Ela
não precisava saber as referências de masculinidade que jovens idiotas usavam
para provar a própria virilidade.
“Eu pensava que já era um homem,” ele disse com uma voz pesarosa.
“Mas quando eu tive que ir embora e ser um ...”
Ela repousou uma mão em seu braço. “Eu sinto muito.”
Ele deu de ombros levemente, ele não queria que ela tirasse a mão de seu
braço.
“Você fez um ótimo trabalho.”. Ela olhou pela paisagem, como se o
florescer das arvores fosse resultado do trabalho de Richard. “Segundo o que
dizem, Maycliffe está prosperando.”
“Segundo o que dizem?” ele disse provocando. “O quanto você ouviu,
por favor me diga, em todo esse tempo que mora aqui?”
Ela bufou com um sorriso e bateu o ombro ao dele. “As pessoas falam
coisas.” Ela disse suavemente. “E como sabe, eu escuto.”
“Oh, como escuta.”
Ele a viu abrir um sorriso. Ela parecia confortável, e ele amava isso.
“Pode me contar mais sobre os Burnhams?” ela perguntou. “De todos os
inquilinos na verdade, mas como vamos visitar os Burnhams primeiro prefiro
começar por eles.”
“Eu não sei o que quer saber exatamente, mas eles são em seis. A Sra.
Burnham, naturalmente, seu filho John, que é o chefe da família agora e mais
quatro filhos, dois meninos e duas meninas.” Ele parou para pensar. “Eu não
consigo lembrar da idade deles, mas o caçula, Tommy – ele não deve ter mais
de onze anos.”
“Quanto tempo faz que o pai morreu?”
“Dois anos, talvez três. Não foi uma surpresa.”
“Não foi?”
“Ele bebia. Muito.” Richard franziu o cenho. Ele não gostava de falar mal
dos mortos, mas era a verdade. O Sr. Burnham gostava muito de cerveja e isso o
arruinou. Ele engordou e logo ficou doente e morreu.
“O filho também gosta de beber?”
Não era uma pergunta boba. Filhos geralmente seguiam os passos do pai,
como Richard sabia bem. Quando ele herdou Maycliffe, ele também fez o que
era conveniente e mandou as irmãs para morar com a tia enquanto ele
continuava sua vida em Londres como se não tivesse nenhuma
responsabilidade. Levou um tempo para ele perceber o quanto ele estava vazio.
E até hoje ela pagava o preço de sua decisão inconsequente.
“Eu não conheço John Burnham muito bem.” Ele disse a Iris, “mas não
creio que ele beba. Pelo menos não mais que qualquer outro homem.”
Iris não disse nada, então ele continuou. “Ele será um homem bom,
melhor que o pai.”
“O que quer dizer?” ela perguntou.
Richard pensou por um momento. Ele nunca tinha parado para pensar
sobre John Burnham, além do fato de ele gerir a maior fazenda de Maycliffe.
Ele gostava do pouco que sabia dele, mas seus caminhos raramente se
cruzavam.
“Ele é um homem sério,” Richard finalmente respondeu. “E é
responsável. Até terminou os estudos, graças a meu pai.”
“Seu pai?” Iris perguntou surpresa.
“Ele pagou a escola. Meu pai gostava dele. Dizia que ele era inteligente.
Meu pai sempre valorizou isso.”
“É uma boa coisa para se valorizar.”
“Sem dúvida.” Era afinal uma das razões de ele gostar dela. Mas não era
hora para falar isso, “John provavelmente poderia ter estudado direito ou algo
assim se não tivesse voltado para a fazenda.”
“De fazendeiro a advogado?” Iris perguntou. “Serio?”
Richard deu de ombros. “Não seria impossível. Se ele quisesse.”
Iris ficou quieta por um segundo e depois perguntou. “O Sr. Burnham é
casado?”
Ele a olhou de um modo cômico antes de pergunta. “Por que o interesse?”
“Eu tenho que saber essas coisas,” ela o lembrou. Iris se ajeitou no banco
e disse, “Talvez ele teve que voltar para sustentar a família. Talvez por isso não
pôde estudar direito.”
“Eu não sei se ele realmente queria estudar direito. Eu só disse que ele era
esperto o suficiente para isso. E não, ele não é casado. Mas ele tem uma família
para sustentar. Ele jamais daria as costas para a mãe e os irmãos.”
Iris tocou seu braço. “Ele é igual a você então.”
Richard engoliu seco, desconfortável.
“Você cuida muito bem de suas irmãs.’ Ela continuou.
“Você não as conheceu ainda.”
Ela fez um pequeno movimento com os ombros. “Dá para notar que você
é um irmão devotado. E um guardião também.”
Richard soltou a rédea de uma mão, aliviado por poder mudar de assunto
ele apontou e disse. “É logo depois daquela curva.”
“A fazenda?”
Ela olhou para ela. Tinha algo estranho em sua voz. “Você está nervosa?”
“Sim, um pouco.” Ela admitiu.
“Não fique. Você é a senhora de Maycliffe.”
Ela soltou o folego. “É exatamente por isso que eu estou nervosa.”
Richard começou a dizer algo mas simplesmente balançou a cabeça. Será
que ela não percebia que os Burnhams que estariam nervosos por conhece-la?
“Oh!” Iris exclamou. “É maior do que eu imaginava.”
“Eu disse que era a maior fazenda de Maycliffe,” Richard respondeu
parando a carroça. Os Burnhams cuidavam daquela fazenda há várias gerações e
com o tempo construíram uma casa muito boa, com quatro quartos, uma sala de
estar e um escritório. Eles chegaram a ter uma empregada, mas a dispensaram
um pouco antes do velho Sr. Burnham morrer.
“Eu nunca fui visitar os inquilinos dos meus primos.” Iris disse
envergonhada.
Richard desceu e a ofereceu a mão. “Por que você ficou tão insegura de
repente.”
“Acho que percebi o quão pouco eu sei.” Ela apontou para a casa. “Eu
imaginava que inquilinos fazendeiros viviam em chalés.”
“A maioria vive. Mas alguns são bem prósperos. Não é necessário ser o
dono da terra para se dar bem.”
“Mas é necessário ser o dono da terra para ser considerado um cavalheiro.
Ou pelo menos ter nascido em uma família que possui terras.”
“Verdade,” ele concordou. Até o proprietário de um pequeno lote era
considerado baixa nobreza.
“Sir Richard!” alguém disse gritando.
Richard sorriu quando viu o menino vindo em sua direção. “Tommy!”.
Ele bagunçou o cabelo do garoto quando ele chegou a frente dele. “O que a sua
mãe te dá para comer? Você deve ter crescido um metro desde a última vez que
eu te vi.”
Tommy Burnham sorriu. “John me faz ajudar nos campos. Mamãe diz
que é o sol, eu devo ser uma erva daninha.”
Richard riu e apresentou Iris, que ganhou a devoção eterna de Tommy ao
cumprimenta-lo como um adulto, com um aperto de mão.
“John está em casa?” Richard perguntou procurando a caixa de madeira
na carroça.
“Ele está com mamãe.” Tommy respondeu apontando para a casa.
“Estamos fazendo uma pausa para o lanche.”
“É essa aqui?” Richard perguntou a Iris em voz baixa. Quando ela
assentiu ele pegou a caixa e sinalizou para que ela fosse para a casa. “Vocês têm
mais homens trabalhando com vocês, não tem?” ele perguntou a Tommy.
“Oh sim.” Tommy respondeu como se fosse óbvio. “Não conseguiríamos
fazer tudo sozinhos. John não precisa de mim, na verdade, mas diz que eu tenho
que fazer minha parte.”
“Seu irmão é um homem sábio,” Richard disse.
Tommy revirou os olhos. “É o que ele diz.”
Iris soltou um leve riso.
“Tome cuidado com ela,” Richard disse apontando a cabeça para Iris.
“Assim como você, ela tem vários irmãos e aprendeu a ser rápida.”
“Rápida não.” Iris corrigiu. “Sorrateira.”
“Pior ainda.”
“Ele é o mais velho,” ela disse para Tommy olhando para Richard. “O
que ele conseguiu através da força bruta nós conseguimos com inteligência.”
“Ela te pegou nessa, Sir Richard.” Tommy gargalhou.
“Ela sempre o faz.”
“Verdade?” Iris murmurou com as sobrancelhas levantadas.
Richard só lhe deu um sorriso maroto. Deixe que ela interpretasse como
quisesse.
Eles entraram na casa. Tommy gritando chamando a mãe e avisando que
Sir Richard estava lá com a nova esposa. A Sra. Burnham surgiu
imediatamente, limpando as mãos sujas de farinha no avental. “Sir Richard,” ela
disse fazendo uma mesura. “Que honra recebe-lo.”
“Eu vim apresentar minha esposa.”
Iris abriu um sorriso lindo. “Nós trouxemos um presente.”
“Oh, mas nós que deveríamos dar um presente.” A Sra. Burnham
protestou. “Pelo casamento.”
“Bobagem.” Iris disse. “A senhora está me recebendo em sua casa, em
sua terra.”
“É sua terra também agora.” Richard a lembrou, colocando a caixa de
madeira sobre a mesa.
“Sim, mas os Burnhams estão aqui há pelo menos um século a mais que
eu. Eu ainda tenho que conquistar o meu lugar.”
E assim Iris ganhou a lealdade eterna da Sra. Burnham e
consequentemente de todos os inquilinos. Sociedade era a mesma, não
importava qual camada estavam. A Sra. Burnham era a senhora da maior
fazenda da propriedade e isso fazia dela líder da sociedade de Maycliffe. As
palavras de Iris chegariam aos ouvidos de todos de Maycliffe até o anoitecer.
“A Sra. pode ver porque eu me casei com ela.” Richard disse a Sra.
Burnham. As palavras saíram com facilidade de seus lábios sorridentes, mas
Richard não pode evitar o golpe de culpa que sentiu. Não foi por isso que ele se
casou com ela.
Ele desejava que tivesse sido por essa razão.
“John,” a Sra. Burnham disse, “venha conhecer a nova Lady Kenworthy.”
Richard não percebeu que John tinha entrado na sala. Ele era um homem
quieto, sempre fora e agora estava de pé junto a porta esperando que o
notassem.
“Milady,” John disse com uma leve reverência. “É um prazer conhece-
la.”
“O mesmo.”
“Como anda a fazenda?” Richard perguntou.
“Muito bem,” John respondeu e os dois conversaram um pouco sobre os
campos, as plantações e o sistema de irrigação enquanto Iris conversava
educadamente com a Sra. Burnham.
“Devemos ir,” Richard finalmente disse. “Nós temos muitas paradas antes
de voltar para Maycliffe.”
“Deve estar tudo muito calmo com suas irmãs longe.” A Sra. Burnham
disse.
John pareceu surpreso. “Suas irmãs não estão mais aqui?”
“Elas só foram visitar minha tia. Ela achou que precisávamos de um
tempo sozinhos.” Ele olhou para John com cumplicidade masculina. “Irmãs não
ajudam muito em uma lua de mel.”
“Não,” John disse. “Imagino que não.”
Eles se despediram e Richard guiou Iris até a carroça.
“Acho que foi tudo bem,” ela disse enquanto ele a ajudava a subir.
“Você estava esplendida,” ele assegurou a ela.
“De verdade? Você não está dizendo só por dizer?”
“Eu não diria isso só por dizer,” ele admitiu, “mas é verdade. A Sra.
Burnham já te adora.
Iris abriu a boca e ele sabia que ela iria dizer algo como “Verdade?” ou
“Você acha mesmo?”, mas então ela sorriu orgulhosa. “Obrigada,” ela disse
suavemente.
Ele a beijou na mão e tomou as rédeas.
“Esse é um belo dia.” Ela disse. “Eu estou tendo um belo dia.”
Assim como ele. O mais belo que ele se lembrava.
Capítulo 14

Três dias depois

Ela estava se apaixonando pelo marido. Iris não sabia como poderia ser mais
óbvio.
O amor não era para ser confuso? Ela não deveria se deitar na cama,
agonizando pelo peso dos pensamentos – Isso é real? Isso é amor? Em Londres
ela tinha perguntado isso a Sarah. Sarah que estava tão claramente apaixonada
pelo marido disse que até ela teve dúvidas no começo.
Mas não, Iris tinha que fazer as coisas a sua maneira e simplesmente
acordou de manhã e pensou, eu o amo.
Ou se não amasse ainda, amaria logo. Era só uma questão de tempo. Sua
respiração ficava acelerada sempre que Richard estava por perto. Ela pensava
nele constantemente. E ele a fazia rir – oh, como ele a fazia rir.
Ela fazia ele rir também e quando isso acontecia seu coração quase
parava.
O dia que foram visitar os inquilinos fora quase mágico e ela sabia que
ele sentiu o mesmo. Ele a beijou como se ela fosse um tesouro – não, ela
pensou, não foi assim. Isso seria frio e cínico.
Richard a beijou como se ela fosse luz e calor juntos. Ele a beijou como
se o sol brilhasse em um facho único de luz sobre eles, somente sobre eles.
Tinha sido perfeito.
Magico.
E ele não fez outra vez.
Eles passavam o dia juntos explorando Maycliffe. Ele a olhava
calorosamente. Ele segurava sua mão e até beijava a pele delicada de seu pulso.
Mas ele nunca a beijava nos lábios.
Será que ele pensava que ela resistiria se ele tentasse? Será que pensava
que era muito cedo? Como poderia ser cedo? Eles estavam casados, pelo amor
de Deus. Ela era sua esposa.
E por que ele não percebia que ela tinha muita vergonha de perguntar
sobre isso?
Então ela continuou fingindo que tudo estava normal. Muitos casais
dormiam em quartos separados. Se seus próprios pais dividiam uma cama ela
não saberia dizer.
E também não queria saber, ela pensou com um arrepio.
Mas mesmo se Richard pensasse que deveriam ficar cada um em seu
próprio quarto, certamente ele gostaria de ao menos consumar a união? Sua mãe
tinha lhe dito que homens gostavam de fazer ... aquilo. E Sarah disse que
mulheres podiam gostar também.
A única explicação era que Richard não a desejava. Ou, ela pensou...
talvez... ele desejasse.
Ela o pegou duas vezes a encarando com uma intensidade que fez seu
pulso acelerar. E nessa mesma manhã ele quase a beijou. Ela estava certa disso.
Eles estavam caminhando em direção ao laranjal e ela tropeçou. Richard ficou
tenso quando a pegou e ela caiu sobre ele, com o corpo pressionado ao dele.
Foi o mais perto que ela já esteve dele, e ela pode olhar diretamente em
seus olhos. O mundo ao redor deles se resumiu a seu rosto. Ele inclinou a
cabeça levemente sobre ela e olhou fixamente em seus lábios e ...
Recuou.
“Me perdoe,” ele murmurou e continuaram o que estavam fazendo.
A manhã tinha perdido a aura mágica. A conversa, que antes fluía
facilmente, se tornou empolada novamente. Richard não a tocou outra vez,
sequer de modo casual. Não teve a mão dele em sua cintura, ou braços dados.
Outra mulher – uma que tivesse mais experiência com homens, ou talvez
uma que pudesse ler mentes – talvez entenderia a razão de Richard agir desse
modo, mas Iris estava mistificada.
E frustrada.
E triste.
Iris quase grunhiu e voltou a atenção para o livro que estava lendo. Era o
final da tarde e ela tinha encontrado um livro antigo de Sarah Gorely na
biblioteca – provavelmente comprado por uma das irmãs de Richard. Ela não
pensou que ele tivesse comprado. Não era um livro muito bom, mas era
dramático, e o mais importante, a distraia. E o sofá azul da sala de estar era
incrivelmente confortável. O tecido estava gasto o suficiente para ser macio mas
não parecia velho.
Ela gostava de ler na sala de estar. A luz da tarde era excelente e ela
estava no centro da casa, ela quase podia se convencer que realmente pertencia
a esse lugar.
Ela conseguiu se distrair por alguns capítulos até que ouviu passos vindo
do corredor que só poderiam pertencer a Richard.
“Como você está essa tarde?” ele perguntou da porta, a cumprimentando
com um balançar de cabeça.
Ela sorriu para ele. “Muito bem, obrigada.”
“O que você está lendo?”
Iris levantou o livro, apesar de ser improvável que ele conseguisse ler
daquela distância. “Srta. Truesdale e o Cavalheiro Silencioso. É um livro antigo
da Sarah Gorely. Também não é um dos melhores.”
Ele se aproximou. “Eu nunca li nada dessa autora. Mas ela é muito
famosa, não é?”
“Eu não acho que iria gostar,” Iris disse.
Ele sorriu – aquele sorriso caloroso e languido que se espalhava pelo seu
rosto. “Vamos ver.”
Iris piscou e olhou para o livro em suas mãos antes de entregar para ele.
Ele riu divertidamente. “Eu jamais o tiraria de você.”
Ela olhou para ele, surpresa. “Você quer que eu leia pra você?”
“Por que não?”
Ela ergueu a sobrancelha em uma expressão de dúvida. “Não diga que eu
não te avisei,” ela falou baixo e se ajeitou dando espaço no sofá, tentando
ignorar a decepção que sentiu quando ele se sentou em uma cadeira na frente
dela.
“Você achou esse na biblioteca?” ele perguntou. “Acho que foi a Fleur
que comprou.”
Iris assentiu enquanto colocava um marcador onde estava antes de voltar
para o início do livro. “Você tem toda a coleção Gorely aqui.”
“Verdade? Eu não sabia que minha irmã era uma admiradora.”
“Você disse que ela gostava de ler,” Iris lembrou. “E a Srta. Gorely é uma
autora muito popular.”
“É o que dizem,” ele responder.
Iris olhou para Richard e ele sinalizou com a cabeça para que ela
começasse a leitura. “Capítulo um,” ela leu. “A Srta. Ivory Truesdale ficou órfã
– “ela olhou para ele outra vez. “Tem certeza que quer que eu leia isso? Eu
realmente não acho que vá gostar.”
Ele a encarou com uma expressão divertida. “Percebe que agora você
deve ler, depois de todos esses protestos.”
Iris balançou a cabeça. “Muito bem.” Ela limpou a garganta. “A Srta.
Ivory Truesdale ficou órfã em uma quarta-feira à tarde, quando seu pai foi
atingido no coração por uma flecha envenenada, lançada por um arqueiro
húngaro, que veio a Inglaterra com o único propósito de lhe trazer a morte.”

Ela olhou para ele.


“Cruel,” Richard disse.
Iris concordou. “Fica pior.”
“Como é possível?”
“O arqueiro húngaro encontra a própria morte em alguns capítulos.”
“Deixe-me adivinhar. Um acidente de carruagem.”
“Muito trivial,” Iris disse bem humorada. “Essa é a autora que bicou uma
personagem até a morte com pombos em outro livro.”
Richard abriu a boca, depois fechou. “Pombos,” ele disse piscando várias
vezes. “Excepcional.”
Iris voltou ao livro. “Devo continuar?”
“Por favor,” ele disse com a mesma expressão de um homem que não está
certo de andar pelo caminho correto.
Iris limpou a garganta. “Pelos próximos seis anos, Ivory foi incapaz de
passar as tardes de quarta-feira sem se lembrar do da flecha cortando o ar
antes de encontrar o coração do pai.”
Richard disse algo entre os dentes. Iris não conseguiu entender tudo, mas
estava certa que a palavra crápula estava no meio.
“Todas as quartas-feiras eram uma tortura. Levantar de sua pequena
cama requeria uma energia que ela raramente tinha. A comida era insipida, e o
sono era o único refúgio, quando conseguia dormir.”
Richard fez um som.
Iris olhou para ele. “Pois não?”
“Nada.”
Ela voltou para o livro.
“Mas, serio.” Ele disse indignado, “Quartas-feiras?”
Ela voltou a olhar para ele.
“A mulher tem medo de quartas-feiras?”
“Parece que sim.”
“Somente quartas-feiras?”
Iris deu de ombros.
“O que acontece nas quintas-feiras?”
“Eu estava chegando lá.”
Richard revirou os olhos e sinalizou para que ela continuasse.
Iris o encarou pacientemente, esperando uma nova interrupção. Ele
retornou o olhar com a mesma ironia e ela voltou ao texto.
“A quinta-feira trazia esperança e renovo, apesar de não parecer que
Ivory tinha alguma razão para ter esperança, ou que ela tinha a alma
renovada. Sua vida na casa da Srta. Winchell para crianças órfãs era tediosa
para ser otimista e terrível para ser pessimista.”
“Tediosa é a primeira palavra apropriada em todo livro.” Richard disse.
Iris ergueu as sobrancelhas. “Devo parar?”
“Por favor. Não acho que aguentarei prosseguir.”
Iris segurou um sorriso, se sentindo um pouco travessa por gostar de seu
desconforto.
“Mas eu ainda quero saber o que acontece com o arqueiro húngaro,”
Richard disse.
“Eu não estragarei a história para você” Iris respondeu adotando uma
expressão inocente.
“Duvido que isso seja possível.”
Iris riu. Ela não queria ter rido, mas Richard tinha um talento para falar
coisas simples com um tom matreiro que sempre a divertia. “Muito bem. O
arqueiro leva um tiro na cabeça.”
“Isso não é tão interessante.” Em resposta ao olhar de Iris ele disse, “Em
um sentido literário, é claro.”
“A arama foi disparada por um cachorro.”
Richard ficou sem expressão.
“E aqui temos mais um cavalheiro silencioso,” Iris disse com um sorriso
irônico de superioridade.
“Não, serio,” ele disse. “Eu devo protestar.”
“Para quem?”
Isso pareceu desconcerta-lo. “Eu não sei,” ele finalmente disse. “Mas um
protesto deve ser feito mesmo assim.”
“Eu não acho que o cachorro tinha a intenção de atirar nele,” Iris objetou.
“Quer dizer que a autora não deixa clara a motivação do canino?”
Iris assumiu uma expressão surpreendentemente seria. “Até ela não tem
esse talento.”
Ele riu.
“Eu te disse que esse livro não era um dos melhores dela.” Ela lembrou.
Richard parecia incapaz de responder.
“Eu poderia te ler um outro livro dela,” ela disse sequer tentando
esconder o quanto estava se divertindo.
“Por favor, não.”
Iris gargalhou.
“Como é possível,” Richard disse com falsa revolta. “Essa mulher ser
uma das autoras mais populares atualmente?”
“Eu acho os livros dela divertidos,” Iris admitiu. Era verdade. Não eram
terrivelmente bem escritos, mas tinha algo sobre eles que fazia ser impossível
larga-los.
“Uma diversão da sanidade, talvez?” Richard perguntou rindo. “Quantos
livros a Srta. Gorely já escreveu? Ou é senhora?”
“Não tenho ideia,” Iris admitiu. Ela olhou pelo livro. “Não tem nada aqui
sobre ela. Nem uma frase sequer.”
Ele deu de ombros despreocupadamente. “Isso é esperado. Se você
escrevesse um livro eu não gostaria que usasse seu nome verdadeiro.”
Iris olhou surpresa, mostrando um pouco de dor nos olhos. “Você teria
vergonha de mim?”
“É claro que não,’ ele disse firme. “Mas eu não gostaria que a sua fama
interferisse em nossas vidas.”
“Você acha que eu seria famosa?” ela perguntou.
“Mas é claro.” Ele olhou para ela com uma expressão neutra, como se
essa conclusão fosse óbvia.
Iris considerou isso por um momento, permitindo sentir o prazer que a
frase causou. Ela sentiu as bochechas queimarem e mordeu o lábio inferior; era
estranho, esse misto de alegria, tudo porque ele pensava... que ela era ... bom,
inteligente.
E a loucura era que ela sabia que era inteligente. Ela não precisava que
ele dissesse para acreditar.
Ela o olhou com um sorriso tímido. “Você realmente não se importaria se
eu escrevesse um livro?”
“Você quer escrever um livro?”
Ela pensou um pouco. “Na verdade não.”
Ele riu. “Então por que estamos conversando sobre isso?”
“Eu não sei.” Iris sorriu, primeiramente para ela e depois para ela mesma.
Srta. Truesdale e o Cavalheiro Silencioso ainda estava sobre seu colo, então ela
o pegou e perguntou, “Você quer que eu continue a ler?”
“Não!” ele disse rapidamente, se levantando. Ele ofereceu a mão.
“Venha. Vamos dar uma volta ao invés disso.”
Iris pegou sua mão, tentando ignorar o arrepio que sentiu ao toca-lo.
“Como o cachorro apertou o gatilho?” Richard perguntou. “Não. Não me
diga, eu não quero saber.”
“Tem certeza? Foi bem inteligente na verdade.”
“Está planejando treinar nossos cães para isso?”
“Nós temos cães?”
“É claro.”
Iris imaginou o que mais ela não sabia sobre sua nova casa. Muito,
provavelmente. Ela o puxou para que parassem no meio do corredor, olhou
Richard nos olhos e solenemente disse, “Eu prometo não ensinar nenhum de
nossos cães a como atirar uma arma.”
Richard gargalhou, chamando a atenção dos servos que passavam. “Você
é um tesouro, Iris Kenworthy,” ele disse a guiando em direção a porta.
Um tesouro, Iris pensou com uma ponta de amargura, Serio?
“Você gosta do seu nome novo?” ele perguntou indolentemente.
“É mais fácil de falar do que Smythe-Smith.” Ela respondeu.
“Eu acho que combina com você.” Ele disse.
“Eu espero que sim,” ela murmurou. Era difícil imaginar um nome mais
inconveniente que seu nome de nascença.
Richard abriu a pesada porta da frente de Maycliffe e um ventou gelado
os envolveu. Iris imediatamente envolveu os braços ao corpo. Era mais tarde do
que ela tinha imaginado e o ar já estava frio. “Vou rápido ao meu quarto buscar
um xale.” Ela disse. “Foi tolice ter colocado um vestido com magas curtas.”
“Tolice? Ou Otimismo?”
Ela riu. “Eu raramente sou otimista.”
“Verdade?”
Iris já estava na metade da escada quando viu que ele a seguia.
“Não acho que já tenha visto alguém se declarar pessimista com uma
risada tão alegre.” Ele disse casualmente.
“Eu não sou pessimista também,” ela disse. Pelo menos ela acreditava
que não. Ela não passava seus dias antecipando desastre e decepção.
“Não é uma otimista, nem pessimista,” Richard disse terminando de subir
as escadas. “Imagino então, o que você é”
“Não sou uma esposa,” ela disse baixinho.
Ele congelou. “O que você disse?”
Iris se odiou por ter deixado aquilo escapar. “Me desculpe,” ela disse
abruptamente. “Eu não tive a intenção ...” ela olhou para Richard, mas desejou
não ter olhado. Ele estava com uma expressão impenetrável e ela se sentiu
péssima. Envergonhada e com raiva e arrependida e injustiçada e mais muitas
coisas que ela não queria definir.
“Me perdoe,” ela balbuciou antes de ir em direção ao quarto.
“Espere!” ele chamou.
Mas ela não esperou.
“Iris, espere!”
Ela continuou o mais rápido que pode sem correr. Mas então ela tropeçou
– em que, ela não sabia – e quase perdeu o equilíbrio.
Richard surgiu em seu lado para ajudá-la. “Você está bem?”
“Eu estou ótima,” ela disse em um tom seco. Ela puxou o braço, mas ele a
segurava com firmeza. Ela quase riu. Ou talvez quase chorou. Agora ele queria
tocá-la? Agora ele não a soltaria?
“Eu preciso ir pegar meu xale,” ela disse em um sussurro, mas não tinha
mais vontade de ir caminhar. Tudo que ela queria era voltar para a cama e se
cobrir com a coberta.
Richard a encarou por vários segundos antes de solta-la. “Muito bem
então,” ele disse.
Ela tentou forçar um sorriso mas não conseguiu. Suas mãos tremiam e de
repente ela se sentiu mal.
“Iris,” ele disse, a preocupação era evidente em seus olhos, “Tem certeza
que está tudo bem?”
Ela assentiu, depois mudou de ideia e balançou a cabeça. “Talvez seja
melhor eu me deitar.”
“Sim, claro,” ele disse, sempre um cavalheiro. “Vamos dar uma volta
outra hora.”
Ela tentou sorrir outra vez – e não conseguiu outra vez – e ao invés fez
uma mesura. Mas não pôde escapar, ele a pegou pelo braço novamente para
leva-la até o quarto.
“Eu não preciso de ajuda,” ela disse. “Eu estou bem, é sério.”
“Eu me sinto melhor assim.”
Iris cerrou os dentes. Por que ele tinha que ser tão gentil?
“Vou mandar chamar um médico,” ele disse ao entrarem no quarto.
“Não, por favor não.” Céus, o que um médico diria? Que ela tinha um
coração partido? Que ela era louca por pensar que o marido a amaria?
Ele soltou seu braço e soltou um suspiro, seus olhos fixos em seu rosto.
“Iris, claramente há algo errado.”
“Eu só estou cansada.”
Ele não disse nada, só olhou para ela fixamente e ela sabia o que ele
estava pensando. Que ela não parecia nem um pouco cansada na sala de estar.
“Eu vou ficar bem,” ela o assegurou, aliviado por sua voz parecer segura.
“Eu prometo.”
Ele fechou os lábios em uma linha e Iris viu que ele não sabia se
acreditava nela ou não. Finalmente ele disse, “Muito bem,” e colocou as mãos
gentilmente em seus ombros e se inclinou –
Para beija-la! Iris perdeu o fôlego por um segundo e fechou os olhos,
inclinando o rosto na direção do dele. Ele desejava seus lábios nos dele, pelo
toque de sua língua na pele delicada de sua boca.
“Richard.” Ela sussurrou.
Ele tocou os lábios em sua testa. Não era o beijo de um amante.
Humilhada e se soltou de suas mãos, indo em direção da janela, da
parede, de qualquer lugar que ele não estivesse.
“Iris...”
“Por favor,” ela disse engasgada, “Só vá embora.”
Ele não disse nada e também não saiu. Ela teria ouvido seus passos. Ela
teria sentido sua ausência.
Ela abraçou o próprio corpo, silenciosamente implorando que ele fosse
embora.
Então ele o fez. Ela ouviu quando ele se virou, ouviu o som inconfundível
de suas botas sobre o tapete. Ela estava recebendo o que queria, o que pediu,
mas estava errado. Ela precisava entender. Ela precisava saber.
Ela se virou.
Ele parou, suas mãos já estavam na maçaneta da porta.
“Por que?” ela disse com uma voz quebrada. “Por que?”
Ele não se virou.
“Não finja que não me ouviu.”
“Não estou fazendo isso,” ele disse com voz baixa.
“Então não finja que não entendeu a pergunta.”
Ela encarou suas costas. Observando sua postura ficar mais tensa. Sua
mão se fechou em um punho e se ela tivesse juízo, ela não o pressionaria. Mas
ela estava cansada de ser sensata, então disse, “Você me escolheu. Entre todas
de Londres, você me escolheu.”
Ele não se mexeu por vários segundos. Então, com movimentos precisos,
ele fechou a porta e se virou para encara-la. “Você poderia ter recusado,” ele
disse.
“Nós dois sabemos que isso não é verdade.”
“Está tão infeliz assim?”
“Não,” ela disse pois não estava. “Mas isso não anula a verdade
fundamental do nosso casamento.”
“A verdade fundamental,” ele repetiu, sua voz fraca e vazia, de um modo
que ela nunca ouviu antes.
Iris se virou. Era difícil reunir coragem enquanto ela o olhava. “Por que
você se casou comigo?” ela falou sufocada.
“Eu te comprometi.”
“Depois de me pedir em casamento,” ela retrucou, surpresa pela própria
impaciência.
Quando ele respondeu, foi em uma voz tensa e controlada. “A maioria
das mulheres consideraria um pedido de casamento como algo bom.”
“Está me dizendo que eu deveria me sentir sortuda?”
“Eu não disse isso.”
“Por que você se casou comigo?” ela exigiu.
“Eu quis,” ele disse dando de ombros. “E você aceitou.”
“Eu não tive escolha!” ela quase gritou. “Você se certificou disso.”
Richard a agarrou, suas mãos firmes ao redor de seus pulsos. Não estava
doendo; ele era muito gentil para isso. Mas estava claro que ela não poderia
escapar.
“Se você tivesse tido escolha,” ele disse. “Se sua tia não tivesse chegado,
se ninguém tivesse visto meus lábios nos céus...” ele fez uma pausa, e o silencio
era tão denso que Iris teve que olhar em seus olhos.
“Me diga, Iris,” ele disse suavemente, “pode me dizer que sua resposta
teria sido diferente?”
Não.
Ela teria pedido por tempo. Ela pediu por tempo. Mas no fim, ela o teria
aceitado. Os dois sabiam disso.
A força de suas mãos em seus pulsos diminuiu, parecia quase uma
caricia. “Iris?”
Ele não a permitiria ignorar a pergunta. Mas ela não falaria sua resposta.
Ela o encarou rebeldemente, seus dentes cerrados com tanta força que ela
tremia. Ela não cederia. Ela não sabia por que era tão importante que ela não
respondesse, mas parecia que a salvação de sua alma dependia disso.
Sua alma.
Sua própria alma.
Santo Deus, ela era pior que a ficcional Srta. Truesdale. Era isso que o amor
fazia ao cérebro? Transformava-o em um caruncho melodramático?
Uma risada sentida surgiu em sua garganta. Era um som horrível, amargo
e cru.
“Você está rindo?” Richard perguntou.
“Parece que sim,” Iris respondeu, porque também não acreditava.
“Por que?”
Ela deu de ombros. “Eu não sei mais o que fazer.”
Ele a encarou. “Nós estávamos tendo uma tarde perfeitamente agradável,”
ele finalmente disse.
“Sim, estávamos,” ela concordou.
“Por que está com raiva?”
“Não tenho certeza se estou,” ela respondeu.
Novamente, ele apenas a encarou incrédulo.
“Olhe para mim,” Iris disse, sua voz carregada de emoção. “Eu sou a
Lady Kenworthy e não sei como isso aconteceu.”
“Você ficou diante de um sacerdote e – “
“Não me dê um sermão,” ela o cortou. “Por que você forçou o
casamento? Por que você precisava que fosse rápido?”
“Isso importa?” ele devolveu.
Ela recuou um passo. “Sim,” ela disse em voz baixa. “Sim, eu acho que
importa.”
“Você é minha esposa,” ele disse, seus olhos ardendo. “Eu te jurei apoio e
fidelidade. Eu te concedi todas as minhas posses. Eu te dei o meu nome.”
Iris nunca o viu tão zangado, nunca imaginou seu corpo tão tenso, cheio
de fúria. Ela queria estapeá-lo, mas se recusou a se comportar assim.
“Por que importa como aconteceu?” Richard terminou.
Iris se preparou para responder, mas o tom de voz de Richard a impediu.
Algo não estava certo. Ela forçou o próprio olhar para ele, seus olhos com uma
intensidade incompreensível.
Eles se encararam... então ele desviou o olhar.
Capítulo 15

Ele era o pior tipo de canalha.


Richard sabia disso, mas ainda assim se virou em direção a porta. Ele
poderia contar toda a verdade. Não havia outra razão para não contar a não ser
seu próprio egoísmo e covardia, e maldição, ele queria mais alguns dias antes
que o desconforto de Iris se transformasse em ódio. Realmente era pedir
muito?’
“Vou deixa-la sozinha,” ele disse secamente. E ele teria ido. Se nada
tivesse acontecido, se ela não tivesse dito nada, ele teria aberto a porta e ido
para o outro lado da casa. Ele teria se trancado em um quarto com uma garrafa
de brandy e paredes grossas para que ele não a ouvisse chorar.
Mas assim que sua mão tocou a maçaneta ele a ouviu sussurrar, “Eu fiz
algo errado?”
Sua mão congelou, mas seu braço tremeu.
“Eu não sei o que quer dizer,” ele disse. Mas é claro que ele sabia
exatamente o que ela queria dizer.
“É que – eu – “
E se forçou a olhar para ela. Santo Deus, doía vê-la daquele jeito, tão
embaraçada e magoada. Ela não conseguia falar, e se ele fosse um homem
decente ele impediria sua humilhação de alguma maneira.
Ele engoliu seco, procurando as palavras que ele sabia que não seriam
suficientes. “Você é tudo que eu poderia sonhar em uma esposa.”
Ele viu em seus olhos que ela não acreditava.
Ele respirou fundo. Ele não poderia deixa-la assim. Ele atravessou o
quarto para pegar em sua mão. Talvez se ele a levasse até os lábios, se ele a
beijasse...
“Não!” ela puxou a mão para junto ao corpo, sua voz tão intensa quanto
seus olhos. “Eu não consigo pensar direito quando faz isso.”
Em circunstâncias normais ele teria adorado ouvir aquilo.
Iris olhou pelo quarto, forçando os olhos para que se fechassem enquanto
balançava a cabeça. “Eu não te entendo.” Ela disse em um tom muito baixo.
“Você precisa entender?”
Ela olhou para ele. “Que tipo de pergunta é essa?”
Ele forçou um movimento com os ombros, tentando parecer casual. “Eu
não entendo ninguém.” Muito menos ele mesmo.
Ela o encarou por tanto tempo que ele teve que se forçar para não
transferi o peso de um pé para o outro. “Por que você se casou comigo?” ela
finalmente perguntou.
“Nós não acabamos de falar sobre isso?”
Ela fechou a boca em uma linha, com uma expressão implacável. Ela não
disse nada. Ela não disse nada por tanto tempo que ele precisou quebrar o
silencio.
“Você sabe porque eu me casei com você” ele disse sem olhar em seus
olhos.
“Não,” ela disse, “Eu não sei.”
“Eu te comprometi.”
Ela o olhou, perdendo a energia. “Nós dois sabemos que começou antes
disso.”
Ele tentou calcular por quanto tempo ele poderia fingir ignorância.
“Oh, pelo amor de Deus, Richard, por favor não subestime minha
inteligência. Você me beijou naquela noite com a intenção de ser visto pela
minha tia. Você me humilha ao insistir no contrário.”
“Eu te beijei,” ele disse enérgico, “Porque eu quis.” Era a verdade. Não
toda a verdade, mas por Deus, era parte da verdade.
Mas Iris o dispensou incrédula. “Talvez você realmente quisesse, mas a
questão é por que você queria”
Santo Deus. Ele passou a mão pelos cabelos. “Por que um homem quer
beijar uma mulher?”
“Eu não saberia dizer, não é?” ela lançou. “Porque meu marido acha que
sou repulsiva.”
Ele deu um passo para trás, completamente chocado. Ele sabia que tinha
que dizer algo, então disse, “Não seja absurda.”
Foi a coisa errada para se dizer. Ela arregalou os olhos indignada, então
se virou para se distanciar dele.
Mas ele era mais rápido, e a pegou pelo pulso. “Eu não acho você
repulsiva.”
Seus olhos brilharam em descrença. “Eu posso não ser tão experiente
como você, mas eu sei o que deve acontecer entre marido e mulher. E eu sei que
nós – “
“Iris,” ele a interrompeu, desesperado para pôr um fim nisso. “Você está
se preocupando por nada.”
Seus olhos se encheram de fúria e ela puxou a mão. “Não seja cínico.”
“Não estou sendo.”
“Está sim.”
Ele estava, é claro que estava.
“Iris,” ele começou a dizer.
“Você gosta de homens? É isso?”
Ele abriu a boca surpreso e esqueceu de como respirar pois parecia que
garganta não era mais conectada com o resto do corpo.
“Porque se você gosta – “
“Não!” ela praticamente gritou. “Como você sabe dessas coisas?”
Ela o olhou sem expressão e ele teve e desconfortável expressão que ela
estava decidindo se acreditava nele ou não. “Eu conheço alguém assim.” Ela
finalmente disse.
“Você conhece alguém?”
“Bom, ouvi sobre ele,” ela respondeu. “O irmão do meu primo.”
“Eu não gosto de homens.” Richard disse decididamente.
“Eu quase desejei que gostasse.” Ela falou baixinho. “Pelo menos
explicaria – “
“Chega!” Richard bramiu. Santo Deus, quanto mais ele teria que
suportar? Ele não gostava de homens, e sim, ele desejava sua esposa.
Intensamente na verdade. E se ele estivesse em outra situação, ele garantiria que
ela soubesse disso, de todas as maneiras possíveis.
Ele chegou mais perto. Perto o suficiente para deixa-la desconfortável.
“Você acredita que eu te acho repulsiva?”
“E-eu não sei,” ela sussurrou.
“Permita-me demonstrar.” Ele tomou o seu rosto em suas mãos e levou os
lábios aos dela, queimando com todo o tormento de seu coração. Ele passou os
últimos dias a desejando, imaginando cada coisa deliciosa que ele faria com ela
assim que ele pudesse leva-la para a cama. Tinha sido uma semana de negação,
de tortura, de punição a seu corpo nas maneiras mais primitivas possíveis, e ele
tinha chegado ao limite.
Ele não poderia fazer tudo que gostaria, mas por Deus, ela saberia a
diferença entre desejo e desdém.
Sua boca explorou a dela, varrendo, provando, devorando. Era como se
toda sua vida resultasse nesse beijo, e se ele quebrasse o contato, por um
segundo sequer, até para respirar, tudo desapareceria.
A cama. Era tudo que ele conseguia pensar, apesar de saber que era um
erro. Ele tinha que leva-la até a cama. Ele tinha que senti-la sob ele, imprimir
sua imagem em seu corpo.
Ela o pertencia. Ela tinha que saber disso.
“Iris,” ele grunhiu em sua boca. “Minha esposa.”
Ele a empurrou para trás, e depois mais um pouco até que ela estivesse
perto da cama. Ela era tão delgada, tão delicada, mas estava retornando o beijo
com uma intensidade que parecia consumir os dois.
Ninguém mais sabia o que se escondia sob sua superfície serena. E
ninguém mais saberia, ele jurou. Ela poderia sorrir para os outros e usar seu
humor astuto e sua inteligência, mas isso...
Isso era dele.
Ele colocou as mãos atrás dela e depois mais para baixo, sentindo a curva
deliciosa de seu traseiro. “Você é perfeita,” ele disse contra sua pele. “Perfeita
em meus braços.”
Ela respondeu com um gemido abafado, e com uma velocidade
inacreditável ele subiu suas saias e a levantou para seus quadris ficarem no
mesmo nível. “Enrole as pernas em mim.”
Ela o fez. Ele quase se perdeu.
“Consegue sentir isso?” ele perguntou, pressionando a excitação contra
ela.
“Sim,” ela disse afoita.
“Sente mesmo? De verdade?”
Ele a sentiu assentindo contra ele mas não diminuiu a pressão até que ela
disse outra vez. “Sim.”
“Nunca me acuse de não te querer.”
Ela recuou. Não os quadris; ele a estava segurando com muita firmeza
para isso. Mas ela recuou a cabeça, o suficiente para que ele fosse forçado a
olha-la nos olhos.
Azuis. Tão claros. E tão cheios de dúvida.
“Você terá muitas coisas para me acusar.” Ele quase rosnou, “mas isso
nunca será uma delas.”
Ele caiu sobre a cama com ela, se deleitando com o modo com que ela
arfou quando seu corpo veio sobre o dela.
“Você é linda,” ele sussurrou, provando o sal da pele atrás de sua orelha.
“Você é extraordinária,” ele murmurou, passando a língua pelo seu
pescoço arqueado.
Seus dentes encontraram a borda do decote de seu vestido, e suas mãos
não demoraram para puxa-lo para baixo até que ele pudesse ver a forma
surpreendentemente voluptuosas de seus seios através da seda de sua chemise.
Ele os segurou e seu corpo tremeu de desejo.
“Você é minha,” ele disse a ela e tomou um dos mamilos em sua boca.
Ele a beijou através da seda, e quando isso não era mais o suficiente, ele
beijou sua pele. Ele sentiu uma onda de satisfação quando viu a cor de seu
mamilo.
“Você não é pálida aqui,” ele disse, sua língua circulando a ponta.
Ela arfou seu nome, mas ele somente riu. “Você é tão clara,” ele disse
com uma voz rouca, subindo a mão por sua perna. “Foi a primeira coisa que eu
notei em você. Seu cabelo ...”
Ele soltou uma mexa e passou pelo seu colo.
“Seus olhos ...”
Ele se abaixou, passando os lábios por sua testa.
“Sua pele ...”
Ele disse isso em um gemido, porque a pele dela, tão clara e macia, estava
exposta para ele, contrastando com o rosa da ponta de seu seio.
“Imagino de que cor é aqui?” ele sussurrou, passando o dedo para cima
de sua coxa. Ela estremeceu embaixo dele, soltando um gemido de prazer
enquanto ele passava um dedo perto de sua área mais intima.
“O que você está fazendo?’ ele sussurrou.
Ele sorriu como um predador. “Eu estou fazendo amor com você.”
Então, porque estava se sentindo endiabrado ele se abaixou até que seus lábios
estivessem em seu ouvido. “Pensei que isso fosse óbvio.”
Ela soltou um riso de surpresa, e ele não pode evitar sorrir com sua
expressão.
“Eu não acredito que eu acabei de rir.” Ela disse cobrindo a boca com
uma mão.
“E por que não?” ele falou pausadamente. “Isso foi feito para ser
divertido.”
Ela abriu os lábios, mas não disse nada.
“Eu estou me divertindo.”
Iris riu surpresa novamente.
“Você está?” ele sussurrou.
Ela assentiu.
Ele fingiu não acreditar. “Eu não estou convencido.”
Ela ergueu as sobrancelhas. “Não está?”
Ela balançou a cabeça lentamente. “Você está usando muitas roupas para
estar se divertindo de verdade.”
Ela abaixou o queixo para olhar para o próprio corpo. Seu vestido tinha
sido puxado de todas as maneiras possíveis e ela parecia perfeitamente
decadente.
Ele gostava dela daquela maneira, ele percebeu. Ele não a queria em um
pedestal. Ela a queria amarrotada e mundana, pressionada sob ele e corada de
prazer. Ele voltou os lábios a seu ouvido. “Fica melhor.”
Ele precisou de pouco para tirar seu vestido completamente. “Isso deve
sair também,” ele disse agarrando a bainha de sua chemise.”
“Mas você – “
“Está totalmente vestido, eu sei,” ele disse com uma risada baixa. “Temos
que fazer algo em relação a isso também.” Ele se sentou ainda sobre ela e tirou
o casaco e a gravata. Sem nunca tirar os olhos dela. Ele viu quando ela molhou
os lábios com a língua e morder o lábio inferior, como se estivesse nervosa por
alguma coisa ou talvez tentando se decidir sobre algo.
“Me diga o que você quer,” ele ordenou.
Os olhos de Iris passaram de seu tronco para seu rosto e para seu tronco
novamente e Richard sentiu a respiração acelerar quando sentiu seus dedos
trêmulos nos botões de seu colete.
“Eu quero te ver,” ela sussurrou.
Cada fibra de seu corpo gritava para que ele arrancasse o resto de suas
roupas, mas ele forçou-se a ficar parado, sem se mover exceto pelo movimento
exagerado de sua respiração. Ele estava hipnotizado pelas pequenas mãos de
Iris, tremendo enquanto desfaziam os botões. Ela estava demorando muito, ela
mal conseguia forçar o tecido pelo botão.
“Desculpe,” ela disse acanhada. “Eu – “
Ela cobriu as mãos dela com as dele. “Não peça desculpas.”
“Mas – “
“Não ...” ela o encarou.
Ele tentou sorrir. “... peça desculpas.”
Juntos eles conseguiram soltar os botões que faltavam e em seguida
Richard tirou a camisa.
“Você é lindo,” ela sussurrou. “Eu nunca vi um homem antes. Não
assim.”
“Espero que não,” ele tentou brincar, mas sentiu seus dedos descansarem
em seu peito e perdeu o fôlego. “O que você faz comigo.” Ele gemeu, e voltou a
cobri-la com o corpo esperando que ela não protestasse por ele não ter tirado as
calças.
Ele não poderia. Ele já estava brincando com fogo. E ele sabia que se
tirasse as calças, ele não resistiria.
Ele a tomaria. A tomaria verdadeiramente.
E isso ele não podia fazer.
Ainda não.
Mas ele também não poderia deixa-la. Ela era a tentação incarnada,
deitada sob ele, mas não era isso que o impedia de ir.
Ele não poderia ter o que tão desesperadamente desejava, mas ele poderia
dar para ela.
Ela merecia isso.
E algo dizia que talvez, apenas talvez, dar prazer a ela seria quase tão
bom como recebe-lo.
Ele se deitou de lado, a puxando para perto enquanto a beijava
ardentemente. Ela passava as mãos por seus cabelos, e depois por suas costas e
quando ele a beijou no pescoço pôde sentir seu pulso acelerado. Ela estava
muito excitada, talvez tanto quanto ele. Ela poderia ser uma virgem, mas por
Deus ela a daria prazer.
Suas mãos foram mais para baixo, gentilmente separando suas pernas
antes de descansar em seu monte. Ela ficou tensa, mas ele era paciente e após
algumas caricias ela relaxou o suficiente para ele enterrar seus dedos em suas
dobras.
“Shhhh,” ele cochichou voltando a olha-la nos olhos. “Deixe-me fazer
isso para você.”
Ela acenou com a cabeça, apesar de ele saber que ela não tinha certeza do
que ele iria fazer. Isso fazia com que ele se sentisse honrado, a confiança que
ela entregou a ele e ele forçou-se a não pensar em todas as razões que faziam
com que ele não merecesse.
Ele cobriu seu rosto com beijos delicados enquanto seus dedos
trabalhavam em seu âmago. Ela era incrível, tão quente e húmida e feminina.
Ele estava quase explodindo, mas ignorou, a beijando profundamente antes de
sussurrar. “Assim é bom?”
Ela acenou outra vez, seus olhos transbordando de desejo.
“Você confia em mim?”
“Sim,” ela respondeu, e ele desceu por seu corpo, parando para beijar-lhe
os seios e descendo cada vez mais.
“Richard?” sua voz estava cheia de dúvida.
“Confie em mim,” ele sussurrou, as palavras abafadas na pele branca de
sua barriga.
Ela agarrou o lençol com as duas mãos, mas não fez nada para impedi-lo.
Então ele a beijou, bem ali em seu centro, fazendo amor com ela usando
seus lábios e língua. Suas mãos espalhadas em suas coxas, mantendo-as
separadas para sua invasão.
Ela começou a se contorcer e ela a beijou com mais intensidade,
deslizando um dedo para dentro dela e grunhindo de desejo quando sentiu seus
músculos o receberem. Ele teve que parar por um segundo, para tomar fôlego.
Quando ele voltou a beija-la, todo seu corpo se retesou, seus quadris saiam da
cama com a força de sua carência.
“Eu não vou te soltar.” Ele disse e não teve ideia se ela o ouviu. Ele
separou mais suas pernas e beijou, sugou e tocou até ouvi-la chamando seu
nome e se desfazendo embaixo dele.
E ele continuou a beber dela, preso a ela até que ela retornou.
“Richard,” ela disse arfando, suas mãos agarradas aos lençóis. “Richard
...”
Ele voltou deslizando até seu rosto, a encarando para que ela visse seus
olhos cheios de paixão.
“Por que você fez isso?” ela sussurrou.
Ela sorriu languidamente. “Você não gostou?”
“Gostei, mas ...” ela piscou rapidamente, claramente sem saber o que
dizer.
Ele se deitou ao lado dela, beijando sua orelha. “Foi divertido?”
Ela respirou fundo várias vezes antes de responder. “Sim, mas você – “
“Eu achei muito divertido,” ele interrompeu. E era verdade, mesmo se
agora ele estava infernalmente frustrado.
“Mas você ... você ...” ela tocou a sua calça. Ele não sabia se o clímax
tinha a deixado sem palavras ou se ela só estava com muita vergonha de falar.
“Shhhhh.” Ele pôs um dedo sobre seus lábios. Ele não queria falar sobre
aquilo.
Ele sequer queria pensar sobre aquilo.
Ele a abraçou até que ela dormiu. Então ele saiu da cama e foi para o
próprio quarto.
Ele não poderia dormir na cama dela. Ele não confiava em si mesmo para
acordar do lado dela.
Capítulo 16

Iris acordou um pouco antes do jantar, como sempre acordava – lentamente,


com as pálpebras pesadas. Ela se sentia maravilhosamente relaxada, seus
membros pesados de sono e algo mais... algo sensual e amável. Ele percebeu
que esfregava os pés nos lençóis, se imaginando se eles sempre foram tão
macios. O ar estava adocicado, como o cheiro de flores frescas e algo mais, algo
terroso e suculento. Ela inspirou profundamente, enchendo os pulmões e se
virando para enterrar o rosto no travesseiro. Ela não achava que já tinha
dormido tão bem. Ela se sentia –
Ela arregalou os olhos.
Richard.
Ela olhou pelo quarto, sua cabeça balançando para frente e para trás.
Onde ele estava?
Cobrindo o corpo nu com o lençol, Iris se sentou, olhando para o outro
lado da cama. Que horas eram? Quando ele foi embora?
Ela olhou para o outro travesseiro. O que ela esperava ver? A impressão
do rosto de Richard?
O que eles fizeram? Ele tinha ...
Ela tinha ...
Mas ele com certeza não ...
Ela fechou os olhos em agonia. Ela não sabia o que estava acontecendo.
Ela não conseguia entender.
Ele não poderia ter consumado a união. Ele sequer tirou as calças. Ela
poderia ser ignorante quando se tratava do leito conjugal, mas isso ela sabia.
Seu estomago roncou, lembrando-a que fazia tempo desde a última vez
que comera. Oh céus, ela estava faminta. Que horas eram? Será que ela tinha
perdido o jantar?
Ela olhou pela janela, tentando adivinhar as horas. Alguém tinha fechado
as pesadas cortinas de veludo. Provavelmente foi Richard, ela pensou, já que a
lateral da cortina estava embolada. Uma empregada jamais deixaria a cortina
naquele estado.
Estava escuro lá fora, mas talvez não completamente sem sol e – oh,
maldição. Ela poderia simplesmente se levantar e olhar.
Resmungando, ela soltou o lençol para poder puxa-lo e se enrolar nele.
Ele não entendia por que estava tão desesperada para saber as horas, mas ela
não teria nenhuma resposta se ficasse olhando para a janela ainda deitada na
cama.
Tropeçando um pouco no lençol, ela foi até a janela e espiou. A lua
estava brilhando, não estava cheia, mas era grande o suficiente para iluminar o
ar com um brilho perolado. Certamente era muito depois do anoitecer. Quanto
tempo ela passou dormindo?
“Eu nem estava com sono.” Ela murmurou baixinho.
Ela apertou o lençol ao corpo, sorrindo ao perceber como era difícil andar
enrolada daquele jeito. Mas ela não soltou o lençol e se enrolou de novo, isso
seria muito sensato. Ao invés ela foi pulando como um coelho até o aparador
que tinha um relógio. Ela o virou para ilumina-lo com o luar. Quase nove e
meia. Então ela dormiu por ... o que ... três horas? Quatro?
Ela só saberia com certeza se soubesse quanto tempo passou com Richard
fazendo ...
Aquilo.
Ela tremeu. Ela não estava nem um pouco com frio, mas ela tremeu.
Ela precisava se vestir. Ela precisava se vestir, e comer um pouco, e –
Alguém abriu a porta.
Iris gritou.
E a empregada que estava à porta também.
Mas só uma delas estava enrolada como uma múmia em um lençol, e Iris
com a surpresa caiu com um estrondo no chão.
“Oh, milady!” a empregada disse. “Me perdoe. Me perdoe, milady.” Ela
correu para acudi-la, mas recuou. A empregada claramente não sabia qual era o
comportamento apropriada quando encontrava uma esposa de um baronete
seminua no chão.
Iris quase pediu ajuda, mas decidiu não fazê-lo. Ajeitando os lençóis com
a maior classe que pôde, ela tentou olhar para a empregada com uma expressão
digna.
Em sua cabeça, naquele momento, ela decidiu agir como sua mãe.
“Pois não?” ela disse.
“Erhm ...” a empregada – que parecia estar muito desconfortável, não
tinha outro modo de descrever – fez uma mesura desajeitada. “Sir Richard quer
saber se a senhora deseja jantar em seu quarto.”
Iris acenou com a cabeça. “Isso seria ótimo. Obrigada.”
“A senhora deseja algo em especial?” a empregada perguntou. “A
cozinheira fez peixe, mas se não quiser ela pode fazer outra coisa. Ela me disse
para dizer isso.”
“O que quer que Sir Richard tenha escolhido,” Iris disse. Ele teria comido
há mais de uma hora; ela não gostaria de forçar a cozinheira a voltar ao fogão só
para satisfaze-la.
“Em um momento, milady.” A empregada fez outra mesura e
praticamente correu para fora do quarto.
Iris suspirou, depois começou a rir, porque sério, o que mais ela poderia
fazer? Ela pensou que em cinco minutos todos os empregados da casa saberiam
de seu tombo em estado de quase nudez. Claro que ninguém se atreveria a falar
nada na frente dele.
Era um fino fio de dignidade, mas Iris decidiu se apegar a ele.
Dez minutos depois ela estava vestida em uma de suas camisolas e
coberta por um robe menos revelador. Ela trançou o cabelo para se deitar; era o
que ela planejava assim que terminasse de comer. Ela imaginava que não
dormiria imediatamente, não depois do cochilo que tirou. Mas ela poderia ler.
Não seria a primeira vez que ela passaria a noite em claro com um livro e uma
vela.
Ela foi até a penteadeira para checar a pilha de livros que ela trouxe para
o quarto mais cedo. Ela tinha deixado Srta. Truesdale e o Cavalheiro Silencioso
na sala de estar, mas ela tinha perdido o gosto por arqueiros húngaros.
E heroínas patéticas que passavam o tempo chorando e se lamentando e
imaginando quer viria resgata-las.
Ela leu outros livros da autora. Ela sabia que esse era mais do mesmo.
Não, ela não perderia mais tempo com a lamentável Srta. Truesdale.
Pegando um livro de cada vez, ela examinou as opções. Outro livro de
Sarah Gorely, ou pouco de Shakespeare e um sobre a história de Yorkshire.
Ela pegou o livro de História. Ela torceu para que fosse chato.
Mas assim que ela se sentou na cama alguém bateu na porta.
“Entre!” ela disse, ansiosa pelo jantar.
A porta que foi aberta não foi a que dava para o corredor, mas a que
conectava seu quarto ao quarto de Richard. E a pessoa que a abriu era seu
marido.
“Richard!” ela chiou, saindo da cama.
“Boa noite,” ele disse, sua voz era suave como brandy. Não que ela
bebesse brandy, mas todos que bebiam diziam que era suave.
Céus, como ela estava nervosa.
“Você está vestido para o jantar.” Ela disse. Ele estava esplendido, com
um casaco verde escuro quase preto, e um colete amarelo claro brocado. Ela
sabia que ele não usava ombreiras, e nem precisava. Ele tinha dito que
costumava ajudar os inquilinos com o trabalho nos campos. Ela acreditava
nisso.
“Você não está.” Ele disse.
Ela examinou seu robe firmemente amarrado. Ele a cobria mais do que
grande parte dos vestidos de baile, mas a maior parte dos vestidos de baile não
poderiam ser tirados em um só movimento.
“Eu planejava comer aqui no meu quarto.” Ela disse.
“Eu também”
Ela olhou para a porta aberta atrás dele.
“No meu quarto?”
“Algum problema nisso?”
“Mas você já comeu.”
Ele deu um meio sorriso. “Na verdade, ainda não.”
“Mas já são nove e meia.” Ela gaguejou. “Por que você ainda não
jantou?”
“Eu estava esperando por você,” ele disse como se fosse a coisa mais
óbvia do mundo.
“Oh,” ela engoliu seco. “Você não precisava ter me esperado.”
“Eu quis espera-la.”
Ela apertou os braços ao redor do corpo, sentindo como se tentasse se
proteger, ou se cobrir, ou qualquer coisa. Ela se sentia muito deslocada. Esse
homem tinha visto seu corpo nu. Ele era seu marido, mas ainda assim, as coisas
que ele tinha feito a ela... e o modo que ela reagiu ...
Seu rosto corou vigorosamente. Ela não precisava ver para saber a cor
que ficou.
Ele ergueu uma sobrancelha. “Pensando em mim?”
Isso era o suficiente para irrita-la.
“Acho melhor você ir embora.”
“Mas eu estou faminto.”
“Bom, deveria ter pensando nisso mais cedo.”
Com isso, ele sorriu. “Eu serei punido por ter esperado pela minha
esposa?”
“Não foi isso que eu quis dizer, e você sabe disso.”
“E eu pensando que fazia bem em não interromper sua soneca.”
“Eu estava cansada,” ela disse e corou outra vez, porque os dois sabiam
porque ela se cansou.
Ela foi salva de se envergonhar ainda mais por um toque na porta, e antes
de ela dizer algo dois lacaios entraram com uma pequena mesa e cadeiras,
seguidos por duas empregadas que traziam a comida.
“Santo Deus,” Iris disse observando a movimentação dos empregados.
Ela tinha planejado comer na cama, mas claramente não podia fazer isso agora,
não com Richard insistindo em acompanha-la.
Os lacaios arrumaram a mesa rapidamente, e deram espaço para as
empregadas servirem a comida. O cheiro era delicioso, e assim que os servos
saíram o estomago de Iris roncou.
“Um momento,” Richard foi até a porta e espiou o corredor. “Ah, aqui
está. Obrigado.” Quando ele voltou, estava segurando um vaso comprido e
estreito.
Com uma íris.
“Para você,” ele disse suavemente.
Ela sentiu um tremor nos lábios. “Onde você – não é a época delas.”
Ele deu de ombros, e por um segundo ele pareceu quase apreensivo. Mas
isso não poderia ser verdade; ele nunca estava nervoso. “Ainda há algumas,” ele
disse, “Basta saber onde procurar.”
“Mas é – “ela parou, seus lábios estavam abertos com a surpresa. Ela
olhou para a janela, mesmo com as cortinas dava para ver que estava escuro.
Era tarde. Será que ele saiu no escuro? Só para buscar uma flor?
“Obrigada,” ela disse. Às vezes era melhor não questionar um presente.
Às vezes você deve simplesmente aceita-lo sem perguntas.
Richard colocou o vaso sobre a pequena mesa, e Iris encarou a flor, quase
hipnotizada pelo dourado de seu centro e o violeta das pétalas.
“É linda,” ela disse.
“As írises são lindas.”
Ela olhou da flor para ele. Não pôde evitar.
Ele ofereceu a mão. “Venha,” ele disse. “Vamos comer.”
Aquilo era um pedido de desculpas. Ela viu, em sua mão esticada. Ela só
queria saber pelo o que ele estava se desculpando.
Pare, ela disse para si mesma. Pare de questionar tudo. Por uma vez na
vida ela aproveitaria a situação sem querer saber o porquê. Ela tinha se
apaixonado pelo marido e isso era bom. Ele a dava um prazer inimaginável na
cama. Isso era bom também.
Era o suficiente. Tinha que ser suficiente.
Ela pegou na mão que ele oferecia. Era grande e forte e quente e tudo que
uma mão deveria ser. Tudo que uma mão deveria ser? Ela deixou escapar uma
risada. Santo Deus, ela estava ficando muito melodramática.
“O que é tão engraçado?” ele perguntou.
Ela balançou a cabeça. Como ela contaria que estava analisando a
perfeição das mãos e a dele era a vencedora?
“Me conte,” ele disse a segurando um pouco mais forte. “Eu insisto.”
“Não.” Ela continuou balançando a cabeça, sua voz era cheia de bom-
humor.
“Me conte,” ele rosnou e a puxou para perto.
Ela fechou os lábios com força, desesperadamente tentando não rir.
Ele colocou os lábios perto de seu ouvido. “Eu tenho maneiras de te fazer
falar.”
Ela sentiu algo se contorcer em seu interior, algo voraz e luxuriante.
Ele mordeu sua orelha, levemente. “Me conte, Iris ...”
“Suas mãos,” ela disse, quase não reconhecendo a própria voz.
Ele ficou em silencio, mas ela pode sentir seu sorriso contra sua pele.
“Minhas mãos?”
“Mm mm.”
Ele as espalhou por sua cintura. “Essas mãos?”
“Sim.”
“Você gosta delas?”
Ela acenou com a cabeça, e depois arfou quando sentiu que ele deslizava
as mãos para baixo, envolvendo a curva de seu traseiro.
Ele passou os lábios por sua mandíbula, pelo pescoço e depois de volta a
seus lábios. “O que mais você gosta?”
“De tudo.” Ela falou sem planejar, e provavelmente deveria se sentir
envergonhada, mas não se sentiu. Ela não poderia, não com ele.
Richard riu, cheio de orgulho masculino. Suas mãos se moveram para
frente do corpo de Iris, cada uma agarrando uma ponta do laço que segurava seu
robe.
Ele levou os lábios a seu ouvido. “Você é meu presente?”
Antes que ela pudesse responder ele puxou o laço e a encarou com desejo
quando o robe se soltou.
“Richard,” ela sussurrou, mas ele já estava deslizando aquelas mãos
maravilhosas pelo seu corpo, pausando por um momento agonizante em seus
seios antes de chegar aos ombros e tirar o robe de vez. Iris viu o robe cair no
chão como uma nuvem de seda azul clara.
Iris ficou diante dele em mais uma de suas camisolas decadentes. Não era
uma vestimenta pratica e certamente não a manteria aquecida a noite. Mas ela
não se lembrava de já ter se sentido tão desejável e ousada.
“Você é tão linda,” Richard sussurrou tocando de leve em seu seio. A
palma de sua mão se movia em círculos sobre a seda.
“Eu n – “ela parou de falar.
Richard olhou para ela, um dedo levantado seu queixo até que estavam se
olhando nos olhos. Ele ergueu as sobrancelhas em dúvida.
“Não é nada,” Iris disse. Ela quase protestou, quase disse que ela não era
linda, pois ela não era. Uma mulher não chegava aos vinte e um anos sem saber
se era bonita ou não. Mas então ela pensou –
Não. Não. Se ele achava que ela era linda então ela não diria o contrário.
Se ele achava que ela era linda, então ela era linda. Pelo menos essa noite, nesse
quarto.
“Me beije,” ela sussurrou.
Os olhos de Richard se incendiaram, e ele se inclinou em direção a Iris.
Quando seus lábios se tocaram, Iris sentiu um golpe de desejo em seu âmago,
onde ele a tinha beijado algumas horas antes. Ela deixou escapar um pequeno
gemido. Só de pensar no que ele tinha feito a deixava sem forças.
Mas agora ele estava beijando seus lábios. Ela sentiu a língua de Richard
passando pela pele sensível do céu de sua boca, a convidando a fazer o mesmo.
Ela o fez, o desejo a deixou atrevida, e quando ele gemeu e a trouxe para mais
perto ela quase tremeu com o poder. Ela passou as mãos pelo peito de Richard e
tirou o casaco de seus ombros, puxando-o para baixo enquanto ele soltava as
mangas.
Ela queria senti-lo outra vez. Ela estava se sentindo mais que atrevida;
faziam poucas horas desde a última vez e ela já queria puxa-lo para a cama e
sentir seu peso sobre ela.
Isso não poderia ser normal, esse incrível desejo mundano.
“Meu presente,” ela disse passando os dedos pela gravata branca de
Richard. Estava com um nó simples, ainda bem; ela não achava que seus dedos
trêmulos conseguiriam desfazer aqueles nós elaborados que eram moda entre os
londrinos.
Ela então voltou sua atenção para os três botões no colarinho de sua
camisa, sentindo faltar o folego quando seu pescoço foi revelado, seu pulso
evidente em um ritmo forte e firme.
Ela tocou sua pele, adorando como os músculos se retesavam sob seus
dedos.
“Você é uma feiticeira,” ele grunhiu, arrancando a camisa pela cabeça.
Ela apenas sorriu, porque ela estava se sentindo como se fosse uma, como
se ela tivesse novos poderes. Ela tinha tocado seu peito antes, sentido os
músculos sólidos se flexionando contra sua pele, mas ela não pôde fazer mais
nada. Ele tinha sido muito rápido em transformar tudo aquilo sobre ela. Quando
ele passou as mãos pelo seu corpo, ela perdeu o controle e quando sua boca
cobriu sua parte mais secreta ela perdeu a capacidade de pensar.
Mas não dessa vez.
Dessa vez ela queria explorar.
Ela ouviu o som pesado da respiração de Richard enquanto passava os
dedos por seu abdome. Uma linha fina de pelos negros e enrolados saia de seu
umbigo e se perdia dentro de suas calças. Quando ela o tocou ele inspirou com
força e ela quase teve espaço o suficiente para deslizar as mãos para dentre de
suas calças.
Mas ela, não o fez. Ela não era tão audaciosa. Ainda não.
Mas ela seria. Antes que a noite terminasse, ela jurou que seria.
A comida foi esquecida quando Richard a pegou nos braços e a carregou
até a cama. Ele a deitou – não de modo grosseiro, mas também não foi delicado
– e Iris sentiu um arrepio quando percebeu como ele estava perto de perder o
controle totalmente.
Se sentindo encorajada, ela levou as mãos em direção as calças de
Richard. Mas pouco antes que ela pudesse tocar o fecho ele segurou suas mãos.
“Não,” ele disse asperamente, a segurando firme. E antes que ela pudesse
perguntar qualquer coisa ele disse, “Eu não posso.”
Ela sorriu para ele, algum demônio interior lascivo finalmente
despertando em seu interior. “Por favor?” ela murmurou.
“Eu vou fazer com que se sinta bem.” Sua mão livre se moveu por sua
perna, apertando levemente as coxas de Iris. “Eu vou fazer com que se sinta
muito bem.”
“Mas eu quero fazer com que você se sinta bem.”
Ele fechou os olhos e por um segundo Iris pensou que ele estava sentindo
dor. Seus dentes estavam cerrados e seu rosto estava tenso. Ela passou a mão
por sua testa, deslizando os dedos por sua bochecha enquanto ele movia a
cabeça para seguir seus dedos.
Ela sentiu que ele se sujeitou, sentiu um pouco da tensão sumir de seu
corpo, e sua outra mão, a que estava perigosamente perto de sua barriga, desceu
até as calças. Ela não foi muito longe, apenas até onde ela via os pelos. Ela
ficou surpresa, com o que ela não sabia exatamente, então mordeu o lábio
inferior e olhou para Richard.
“Não pare agora,” ele grunhiu.
E ela não queria parar, mas suas calças estavam muito justas e ela não
tinha espaço para deslizar a mão. Ela soltou o fecho e lentamente abaixou o
resto.
Ela perdeu o fôlego.
Aquilo não se parecia em nada com as estatuas no museu.
O que sua mãe tinha lhe dito começou a fazer sentido.
Ela olhou para ele com dúvida nos olhos, e ele acenou a cabeça.
Segurando o fôlego, ela o tocou, primeiramente de modo tímido tirando a mão
quando sentiu um espasmo.
Ele se deitou de lado e Iris se juntou a ele, percebendo que ele ainda
estava de botas.
Ela não se importava. E ele parecia não se importar também.
Ela o empurrou até ficar deitado de costas, então se inclinou perto dele,
olhando. Como ficou tão grande?
Mais uma coisa em seu mundo que ela não conseguia entender.
Ela o tocou outra vez, dessa vez deslizando os dedos pela pele
surpreendentemente macia. Richard respirava pesadamente e seu corpo se
contorcia, mas ela sabia que era de prazer, não dor.
Ou se fosse de dor, era um tipo bom de dor.
“Mais,” ele grunhiu, e dessa vez ela envolveu a mão suavemente, olhando
para seu rosto para ter certeza que estava fazendo a coisa certa. Ele estava com
os olhos fechados e arfando levemente. Ela moveu a mão, só um pouco e antes
de conseguir fazer qualquer outra coisa ele levou a própria mão até a dela,
segurando-a.
Por um segundo ela pensou que o tinha machucado, mas então ele
segurou com mais força e ela percebeu que ele estava a ensinando o que fazer.
Após alguns movimentos, ele soltou a mão e Iris foi deixada no controle,
entusiasmada pelo poder que tinha sobre ele.
“Deus do céu, Iris,” Richard grunhiu. “O que você faz comigo ...”
Ela mordeu o lábio inferior sentindo que um sorriso de orgulho surgia.
Ela queria fazer com ele o que ele fez com ela. Depois de tantas noites
solitárias, ela queria provar se ele a desejava realmente, que ela era mulher o
suficiente para satisfaze-lo. Ele não poderia se esconder em beijos castos em sua
testa outra vez.
“Posso te beijar?” ela falou em voz baixa.
Os olhos dele se abriram instantaneamente.
“Como você fez comigo?”
“Não,” ele disse rapidamente, sua voz estava rouca e áspera. “Não,” ele
disse outra vez e ele quase parecia estar em pânico.
“Por que?”
“Porque... porque...” ele falou um palavrão e se levantou, não se sentando
totalmente mas o suficiente para descansar o peso nos cotovelos. “Porque eu
não vou – eu não posso – “
“Eu vou te machucar?”
Ele grunhiu, fechando os olhos. Ele parecia tão angustiado. Iris o tocou
novamente, olhando em seu rosto enquanto seu corpo ficava tenso. O som de
sua respiração a energizava, e ele parecia estar ...ele parecia estar...
Ele parecia estar como ela se sentia. Subjugado.
Ele fechou os olhos e ela soube o instante que ele cedeu. Ele não relaxou
o corpo, mas algo dizia que ele estava cansado de lutar. Ela olhou para seu rosto
novamente para se cerificar de que ele continuava com os olhos fechados – ela
não seria corajosa o suficiente se ele a assistisse – e se inclinou para beijar
suavemente a ponta de seu membro.
Ele gemeu, respirando pesadamente, mas ela não parou. Entusiasmada,
Iris o beijou outra vez, descansando os lábios nele por mais tempo. Ele se
contorceu e ela recuou, olhando para seu rosto. Ele não abriu os olhos, mas deve
ter sentido a hesitação de Iris, pois acenou com a cabeça levemente, e disse uma
palavra que fez Iris derreter.
“Por favor.”
Era estranho pensar que há apenas algumas noites ela era a Srta. Smythe-
Smith, se escondendo atrás do violoncelo no terrível musical de sua família. Seu
mundo tinha mudado tanto; era como se a terra tivesse balançado e Iris pousou
aqui, como Lady Kenworthy, em uma cama com esse homem glorioso, beijando
uma parte de seu corpo que ela nem sabia que existia. Pelo menos não naquele
estado.
“Como isso funciona?” ela murmurou para si mesma.
“O que?”
“Oh, me desculpe,” ela disse, corando. “Não foi nada.”
Ele levou a mão a seu queixo, virando seu rosto para ele. “Me diga.”
“Eu só estava, bem, imaginando ...” ela engoliu seco, totalmente
envergonhada, o que era ridículo. Ela estava prestes a beija-lo ali outra vez, e
estava envergonhada de imaginar como aquilo funcionava?
“Iris ...” a voz dele parecia mel, derretendo seus ossos.
Sem olhar para ele, ela apontou seu membro com a cabeça. “Não está
sempre assim.” Então duvidando de sua convicção ela disse, “Não é?”
Ele soltou uma risada rouca. “Deus do céu, não. Isso me mataria.”
Ela piscou confusa.
“É o desejo, Iris.” Ele disse enrouquecido. “Desejo deixa um homem
assim. Rígido.”
Ela o tocou gentilmente. Ele realmente estava rígido. De baixo da pele
macia era duro como granito.
“Desejo por você,” ele disse, então admitiu, “Eu estive desse jeito a
semana toda.”
Ela ficou chocada. Não disse nada, mas ele deve ter visto a pergunta em
seus olhos.
“Sim,” ele disse com uma risada zombando de si mesmo. “Isso dói.”
“Mas então – “
“Não é dor como de uma ferida,” ele disse acariciando sua bochecha. “É
dor de frustração, como um desejo não realizado.”
Mas você podia me ter. As palavras ficaram sem ser ditas. Claramente ele
pensou que ela não estava pronta. Talvez ele pensou que estava agindo como
um cavalheiro. Mas ela não queria ser tratada como uma decoração delicada. As
pessoas pareciam pensar que ela era frágil e sensível – era por sua cor, ela
pensou, e suas formas delgadas. Mas ela não era. Ela nunca foi assim. Por
dentro ela era ardente.
E ela estava pronta para provar.
Capitulo 17

Richard não sabia se estava no céu ou no inferno.


Sua mulher, que ainda era virgem estava... ela estava beijando seu...
Santo Deus, ela estava com seu membro na boca, e o que lhe faltava em
habilidade, sobrava em entusiasmo, e –
O que raios ele estava dizendo? Não lhe faltava habilidade. Habilidade
realmente importava? Esse era o sonho erótico de todo homem. E essa não era
nenhuma cortesã, essa era sua esposa. Sua esposa.
Ele deveria impedi-la. Mas não podia, por Deus ele não podia. Ele esteve
ardendo por ela por tanto tempo, e agora, ela estava ajoelhada entre suas pernas,
o beijando da maneira mais intima possível e ele estava completamente
envolvido pelo desejo. Com cada movimento hesitante de sua língua ele sentia
os quadris ficando tensos, cada vez mais próximo do clímax.
“Você está gostando?” Iris sussurrou.
Ela parecia quase tímida. Santo Deus, ela parecia quase tímida e ainda
assim estava o levando a boca.
Ele estava gostando? A inocência da pergunta quase o destruiu. Ela não
tinha ideia do que estava fazendo com ele, não imaginava que ele sequer ousou
sonhar com ela daquela maneira.
“Richard?’ ela sussurrou.
Ele era um bruto. Um animal. Uma esposa não deveria fazer isso, pelo
menos não antes de ser gentilmente iniciada nos caminhos do leito conjugal.
Mas Iris o surpreendeu. Ela sempre o surpreendia. E quando ela o tomou
em sua boca cuidadosamente ele quase perdeu a própria sanidade.
Nada nunca foi tão bom.
Ele nunca se sentiu tão amado.
Ele congelou. Amado?
Não, isso era impossível. Ela não o amava. Não poderia. Ele não merecia.
Mas então uma voz terrível, que só poderia ser sua consciência o lembrou
que esse era o plano. Ele usaria sua curta lua de mel em Maycliffe para seduzi-
la. Ele esteve tentando faze-la se apaixonar por ele.
Ele não deveria ter feito isso. Ele sequer deveria ter pensado nisso.
Mas ainda assim, se ela o amasse ... se realmente o amasse ...
Seria incrível.
Ele fechou os olhos, permitindo que aquela sensação o dominasse. Os
lábios inocentes de sua esposa estavam causando um prazer inimaginável.
Passava por ele com uma intensidade elétrica e ao mesmo tempo o inundava de
uma forma suave. Ele se sentia ...
Feliz.
Isso era algo que ele não estava acostumado a sentir no calor da paixão.
Excitação, sim. Desejo, é claro. Mas felicidade?
Então ele concluiu. Não era Iris que estava se apaixonando por ele. Ele
estava se apaixonando por Iris.
“Pare!” ele gritou, arrancando as palavras da própria garganta. Ele não
podia deixa-la continuar.
Ela recuou, olhando confusa para ele. “Eu te machuquei?”
“Não,” ele disse rapidamente se afastando dela se caso mudasse de ideia e
cedesse ao desejo que pulsava em todo seu corpo. Ela não o machucou, longe
disso. Ele que iria machuca-la. Era inevitável. Tudo que ele tinha feito, desde o
momento que a viu pela primeira vez no musical, tudo ...
Tudo levava a um momento.
Como ele poderia deixa-la se entregar quando ele sabia o que
aconteceria?
Ela iria odiá-lo. E depois odiaria a si mesma por ter feito tudo isso, por tê-
lo servido.
“Eu estava fazendo errado?” ela perguntou, o olhando fixamente.
Santo Deus, ela era muito direta. Ele pensou que isso que ele amava tanto
nela, mas agora estava quase o matando.
“Não,” ele disse. “Não estava ...você estava ...” ele não podia dizer que
ela estava perfeita, ele pensou que perderia a cabeça se dissesse. O que ela o fez
sentir era inimaginável. O toque de seus lábios, sua língua ... a sensação de sua
respiração ... ele ficou agarrado aos lençóis, se segurando para não vira-la e se
enterrar nela de uma vez.
Ele se forçou a se sentar. Era mais fácil pensar assim, ou pelo menos só
aumentava a distância entre eles. Ele apertou a ponte do nariz, tentando definir
o que iria dizer. Ela estava olhando para ele como um passarinho perdido,
esperando parada.
Ele puxou os lençóis, cobrindo sua excitação. Não havia razão para não
contar a verdade agora, somente sua covardia. E ele não queria. Era fraqueza de
sua parte querer mais alguns dias ates dela odiá-lo?
“Eu não espero que faça esse tipo de coisa.” Ele finalmente disse. Era o
pior tipo de evasão, mas ele não sabia o que mais poderia dizer.
Ela o olhou com uma expressão vazia, seguida por um leve levantar de
sobrancelhas. “Eu não entendo.”
É claro que ela não entendia. Ele respirou fundo. “A maioria das esposas
não” - ele balançou uma mão pateticamente no ar – “não fazem isso.”
Ela corou instantaneamente. “Oh,” ela disse, sua voz penosamente vazia.
“Você deve achar – eu não sei – me descu – “
“Pare, por favor,” ele implorou segurando sua mão. Ele não conseguiria
suportar se ela se desculpasse. “Você não fez nada de errado. Eu juro. Foi o
contrário na verdade,” ele disse sem pensar.
Ela saiu da cama mas ele conseguiu ver a confusão em seus olhos.
“É que ... é muito ... tão cedo em nosso casamento ...” ele parou de falar.
Era a única coisa para fazer. Ele não tinha ideia de como terminar a frase. Santo
Deus, ele era um estupido.
“Isso tudo é muito,” ele disse torcendo para que ela não percebesse a
hesitação em sua voz. “Para você.”
Ele se levantou, praguejando ao fechar as calças. Que tipo de homem ele
era? Ele tinha se aproveitado dela. Pelo amor de Deus, ele sequer tirou as
malditas botas.
Ele olhou para ela. Seus lábios ainda estavam inchados de seus beijos.
Mas o desejo tinha desaparecido de seus olhos, substituídos por algo que
Richard não sabia nomear.
Algo que ele não queria definir.
Ele passou as mãos pelos cabelos. “Eu acho melhor eu ir.”
“Você não comeu,” ela disse. Sua voz estava vazia. Ele odiou isso.
“Não importa.”
Ela assentiu, mas ele estava certo que nenhum dos dois sabia por que.
“Por favor,” ele disse, se permitindo toca-la uma última vez. Seus dedos
passaram por sua fronte e ele descansou a mão em sua bochecha. “Por favor,
tenha a certeza disso. Você não fez nada de errado.”
Ela não disse nada. Só olhou para ele com seus enormes olhos azuis, não
pareciam estar confusos. Pareciam ...
Conformados. E isso era muito pior.
“Não é você,” ele disse. “Sou eu.” Ele tinha a impressão que estava
piorando tudo a cada palavra, mas ele não conseguia parar. Ele engoliu seco,
esperando que ela dissesse alguma coisa, mas ela não disse.
“Boa noite,” ele disse suavemente. Ele fez uma mesura e saiu do quarto.
Nunca antes ele se sentiu tão mal por fazer a coisa certa.

Dois dias depois

Richard estava em seu escritório, bebendo o segundo copo de brandy


quando ele viu uma carruagem chegando, as janelas brilhavam com o sol da
tarde.
Suas irmãs?
Ele mandou um recado para a tia dizendo que Fleur e Marie-Claire não
poderiam ficar por duas semanas, mas ele não as esperava hoje.
Colocando o copo sobre a mesa, ele foi até a janela para ver melhor.
Realmente era a carruagem da tia. Ele fechou os olhos por um segundo. Ele não
sabia por que elas voltaram mais cedo, mas não havia mais nada para fazer em
relação a aquilo.
Chegou a hora.
Ele não sabia se deveria recebe-las sozinho ou com Iris, mas no fim não
importava; Iris estava lendo na sala de estar e chamou por ele quando ele
passou.
“É uma carruagem que acabou de chegar?”
“Minhas irmãs,” ele confirmou.
“Oh.”
Foi só isso que ela disse. Oh. Ele tinha a sensação que logo ela diria
muito mais.
Ele parou perto da porta, observando quando ela lentamente fechou o
livro. Ela estava enrolada sobre sofá azul, com as pernas recolhidas e ela teve
que parar para pôr os sapatos antes de se levantar.
“Eu pareço bem?” ela perguntou arrumando o vestido.
“É claro,” ele disse distraidamente.
Ela forçou os lábios em uma linha.
“Você está adorável,” ele disse, olhando para seu vestido verde claro e
seu cabelo com um coque baixo e solto. “Me perdoa. Minha mente está em
outro lugar.”
Ela pareceu aceitar a explicação e pegou no braço que ele oferecia. Ela
não olhou em seus olhos. Eles não tinham falado sobre o que tinha acontecido
em seu quarto, e parecia que não falariam logo.
Quando Iris desceu para tomar café na manhã anterior ele jurou que faria
com que a conversa fosse cordial e pausada, isso se falassem. Mas como sempre
ela o surpreendeu. Ou talvez ele surpreendeu a si mesmo. Eles conversaram
sobre o clima, sobre o que Iris estava lendo e o problema dos Burnhams com as
inundações nos campos. Tudo tinha sido muito suave.
Mas não parecia certo.
Parecia quase ... meticuloso. Enquanto eles conversassem sobre
trivialidades, eles poderiam fingir que nada tinha mudado entre eles. Os dois
pareciam perceber que logo acabariam os assuntos impessoais, então mediam as
palavras, falando um pouco de cada vez.
Mas isso estava prestes a mudar.
“Eu achei que elas só chegariam na quinta-feira.” Iris disse enquanto ele a
guiava para fora.
“Eu também.”
“Por que você soando tão severo?” ela perguntou após uma breve pausa
Severo sequer começava a explicar. “Vamos espera-las na portaria.” Ele
disse.
Ela concordou, ignorando o fato dele não ter respondido a pergunta.
Cresswell já estava esperando junto com a Sra. Hopkins e dois lacaios. Richard
e Iris se juntaram a eles assim que a carruagem parou.
A porta da carruagem foi aberta e Richard imediatamente se aproximou
para ajudar as irmãs. Marie-Claire desceu primeiro, apertando levemente sua
mão antes de ir para o chão. “Ela está com um mau humor monstruoso.” Ela
disse sem preâmbulo.
“Maravilhoso,” Richard sussurrou.
“Você deve ser Marie-Claire,” Iris disse animadamente, apesar de estar
ansiosa. Richard podia ver o modo que suas mãos estavam fechadas na frente
dela. Ele percebeu que ela fazia isso para não ficar cutucando o tecido da saia
quando estava nervosa.
Marie-Claire fez uma pequena mesura. Aos quatorze anos ela já era mais
alta que Iris, mas seu rosto ainda mantinha os traços infantis. “Sim, sou eu. Por
favor, nos perdoe por voltar mais cedo. Fleur não estava se sentindo bem.”
“Não?” Iris perguntou espiando a porta aberta da carruagem. Não havia
sinal de Fleur.
Marie-Claire olhou para Richard enquanto Iris não estava olhando e fez
uma expressão de náusea.
“Dentro da carruagem?” ele só pôde perguntar.
“Duas vezes.”
Ele fez uma careta, depois foi até ao lado da carruagem e olhou para
dentro. “Fleur?”
Ela estava encolhida em um canto, triste e pálida. Ela parecia com
alguém que vomitou duas vezes. O cheiro confirmava isso também.
“Eu não estou falando com você.”
Maldição. “Então será assim.”
Ela se virou, seu cabelo escuro escondendo seu rosto. “Eu prefiro que um
dos lacaios me ajude a descer.”
Richard apertou a ponte do nariz, tentando amenizar a dor de cabeça
lancinante que ele teria brevemente. Ele e Fleur estiveram brigando sobre isso
por quase um mês. Só existia uma solução aceitável. Ele sabia disso e ficava
enfurecido por ela não aceitar o que tinha que ser feito.
Ele respirou fundo. “Pelo amor de Deus, Fleur, esqueça sua irritação por
um segundo e me deixa ajudá-la a descer. O cheiro está terrível aqui.”
“Eu não estou irritada,” ela retrucou.
“Você está me irritando.”
Ela recuou com o insulto. “Eu quero um lacaio.”
“Você irá pegar em minha mão.” Ele ordenou.
Por um segundo ele pensou que ela se viraria para a outra porta só para
irritá-lo, mas ela deve ter se agarrado a um fio de razão, pois olhou para ele e
disse, “ótimo.” Com um tom propositalmente desafiante. Ela esticou a mão para
ele e deixou que ele a ajudasse a descer. Iris e Marie-Claire estavam lado a lado,
fingindo não assistir.
“Fleur,” Richard disse em um tom perigoso. “Permita-me apresenta-la a
sua nova irmã. Minha esposa, Lady Kenworthy.”
Fleur olhou para Iris. Houve um silencio terrível.
“É um prazer conhece-la,” Iris disse, oferecendo a mão.
Fleur não a pegou.
Pela primeira vez na vida, Richard quase bateu em uma mulher. “Fleur,”
ele disse como um aviso.
Com uma expressão de deboche, Fleur fez uma mesura. “Lady
Kenworthy.”
“Por favor,” Iris disse olhando nervosamente para Richard antes de voltar
o olhar para Fleur. “Me chame de Iris.”
Fleur a encarou e se voltou para Richard. “Isso não vai funcionar.”
“Aqui não, Fleur.” Ele a avisou.
Ela apontou com o braço para Iris. “Olhe para ela!”
Iris recuou um passo. Richard teve a sensação que ela não percebeu que
fez isso. Seus olhos se encontraram, os dela estavam cheios de dúvida, os dele
exaustos e implorando silenciosamente que ela não perguntasse, ainda não.
Mas Fleur não parou. “Eu já te disse – “
Richard a pegou pelo braço e a levou para longe da pequena plateia.
“Esse não é o lugar, ou a hora de falar sobre isso.”
Ela o encarou rebeldemente, soltando o braço de sua mão. “Então eu
estarei em meu quarto.” Ela disse e foi em direção a porta de entrada. Antes de
conseguir entrar ela tropeçou no pequeno degrau e teria caído se Iris não tivesse
a segurado.
Por um momento as duas mulheres permaneceram rígidas, como se
estivessem em um quadro. Iris segurava no cotovelo de Fleur como se soubesse
como ela estava estremecida, que ela esteve estremecida por várias semanas e
precisava de um conforto.
“Obrigada,” Fleur disse relutante.
Iris soltou o braço e voltou a fechar as mãos na frente do corpo. “Por
nada.”
“Fleur,” Richard disse em uma voz de comando. Não era um tom que ele
usava frequentemente com as irmãs. Talvez devesse tê-lo feito.
Lentamente ela se virou.
“Iris é minha esposa,” ele disse. “Maycliffe é a casa dela agora, assim
como é a sua.”
Fleur o olhou nos olhos. “Eu nunca esquecerei qual é o lugar que ela
ocupa aqui. Eu te garanto isso.”
Então Richard fez algo estranho. Ele pegou a mão de Iris. Não para beija-
la ou para guia-la a algum lugar.
Ele pegou para segura-la. Para sentir seu calor.
Ele sentiu que ela entrelaçou os dedos nos dele e ele a segurou mais forte.
Ele não a merecia. Ele sabia disso. Fleur sabia também. Mas nesse momento
terrível, quando tudo que construiu desabava ao redor dele, ele seguraria a mão
da esposa e fingiria que ela nunca o soltaria.
Capítulo 18

Por grande parte de sua vida Iris fez a escolha consciente de permanecer calada.
Não que ela não tivesse o que dizer; se estivesse em uma sala com seus primos
ela conversaria a noite toda. Seu pai disse uma vez que ela era uma estrategista
nata, sempre calculando dois passos à frente e talvez fosse essa a razão dela
reconhecer o valor de escolher quando falar. Nunca antes, em toda sua vida, ela
ficou completamente sem fala, espantada ao ponto de não-consigo-sequer-
pensar-em-frases-completas.
Mas agora, enquanto observava Fleur Kenworthy desaparecer dentro de
Maycliffe, a mão de Richard ainda entrelaçada a dela, tudo que Iris conseguia
pensar era – Oqueeeeee?
Ninguém se moveu por pelo menos cinco segundos. A primeira a sair do
estupor foi a Sra. Hopkins, que disse algo sobre arrumar o quarto de Iris antes
de correr para dentro. Cresswell também saiu de modo rápido e discreto,
sinalizando para que os lacaios o seguissem.
Iris ficou completamente parada, só movimentando os olhos que iam de
Richard para Marie-Claire.
O que diabos tinha acabado de acontecer?
“Me perdoe,” Richard disse, soltando sua mão. “Ela não é assim
normalmente.”
Marie-Claire fez um som. “Seria melhor dizer que ela não é sempre
assim.”
“Marie-Claire,” ele a repreendeu.
Ele parecia exausto, Iris pensou. Completamente destruído.
Marie-Claire cruzou os braços e encarou o irmão. “Ela esteve terrível,
Richard. Simplesmente terrível. Até a tia Milton perdeu a paciência com ela.”
Richard se virou para ela. “A tia Milton...?”
Marie-Claire balançou a cabeça.
Richard parecia aliviado.
Iris continuou assistindo. E ouvindo. Tinha algo de estranho acontecendo,
algum tipo de conversa secreta entre os irmãos.
“Eu não o invejo, irmão.” Marie-Claire olhou para Iris. “Ou a você.”
Iris falou, pois pensou que eles esqueceram que ela podia falar. “Do que
ela está falando? Ela perguntou a Richard.
“Não é nada,” ele disse instantaneamente.
Bom, isso claramente era mentira.
“Ou a mim, na realidade.” Marie-Claire continuou. “Sou eu que vou ter
que dividir o quarto com ela.” Ela gemeu dramática. “Será um longo ano.”
“Agora não, Marie-Claire,” Richard a avisou.
Os irmãos se olharam de um modo que Iris não soube como começar a
interpretar. Eles tinham os mesmos olhos, ela percebeu, o mesmo modo de olhar
enquanto falavam. Fleur também, apesar dos olhos dela serem mais esverdeados
enquanto Richard e Marie-Claire tinham olhos quase negros.
“Você tem um cabelo adorável.” Marie-Claire disse de repente.
“Obrigada,” Iris disse tentando não estranhar a mudança de assunto.
“Você também.”
Marie-Claire soltou uma pequena risada. “Não, eu não tenho, mas é muita
gentileza sua dizer.”
“Mas seu cabelo é igual ao do seu irmão.” Iris disse, se envergonhado ao
perceber o que tinha dito. Richard a olhava de modo estranho, como se não
soubesse como interpretar o elogio acidental.
“Você deve estar cansada da jornada,” Iris disse tentando recuperar o
momento. “Não quer descansar?”
“Err ... acho que sim,” Marie-Claire disse, “Apesar que, não acho que
meu quarto esteja muito pacifico agora.”
“Eu vou falar com ela,” Richard disse severo.
“Agora?” Iris perguntou. Ela quase sugeriu que ele esperasse Fleur se
acalmar, mas do que ela sabia? Ela não tinha ideia do que estava acontecendo.
Quinze minutos atrás ela estava lendo um livro pacificamente. Agora parecia
que ela estava vivendo em um.
E ela era a única personagem que não conhecia o enredo.
Richard olhou para a casa com uma expressão resoluta. Iris viu seu
maxilar ficando tenso. “Tem que ser feito.” Ele disse baixo. Sem mais, ele
entrou na casa deixando Iris e Marie-Claire sozinhas na portaria.
Iris pigarreou. Isso era embaraçoso. Ela sorriu para sua nova irmã, o tipo
que não mostrava os dentes, mas também não era insincero. Ela estava
tentando.
Marie-Claire sorriu de volta exatamente da mesma maneira.
“É um belo dia,” Iris finalmente disse.
Marie-Claire assentiu lentamente. “É sim.”
“Ensolarado.”
“Sim.”
Iris percebeu que estava balançando sobre os próprios pés. Ela se forçou a
ficar parada. O que diabos ela poderia dizer a essa garota?
Mas no fim, ela não teve que dizer nada porque Marie-Claire se virou
para ela com uma expressão que Iris desconfiava ser de pena.
“Você não sabe, não é?” ela disse suavemente.
Iris balançou a cabeça.
Marie-Claire olhou sobre os ombros para absolutamente nada antes de
voltar os olhos para Iris. “Sinto muito.”
Então ela também entrou na casa.
E Iris ficou parada.
Sozinha.

“Abra a porta Fleur!”


Richard batia com o punho na porta, sem se importar com a dor que isso
causava em seu braço.
Fleur não respondeu, não que ela pensou que ela responderia.
“Fleur!” ele rugiu.
Nada.
“Eu não vou sair daqui até você abrir essa porta.” Ele grunhiu.
Ele ouviu passos. “Espero que não precise se aliviar então.”
Ele iria matá-la. Certamente nenhum irmão mais velho foi pressionado a
este ponto.
Ele inspirou fundo e expirou lentamente. Um deles tinha que agir como
um adulto. Ele esticou os dedos, depois fechou a mão em um punho outra vez.
A unhas enterradas em sua carne tinham um efeito calmante.
Calmante, mas ele não estava calmo, nem um pouco.
“Eu não posso te ajudar se você se recusa a falar comigo,” ele disse
controlando a voz.
Sem resposta.
Ele pensou em ir até a biblioteca até a escadaria secreta que levava ao
quarto, mas conhecendo Fleur, ela já pensara nisso. Não seria a primeira vez
que ela arrastava a penteadeira até a porta secreta para bloqueá-la.
“Fleur!” ele gritou, batendo na porta com a mão aberta. Doía, e ele
xingou com mais intensidade. “Eu vou serrar essa maldita maçaneta!”
Outra vez, nada.
“Eu vou mesmo!” ele berrou. “Não duvide de mim!”
Silencio.
Richard fechou os olhos e se apoiou na parede. Ele estava assustado com
ele mesmo, gritando como um louco no lado de fora do quarto da irmã. Ele não
queria pensar no que os servos estavam achando de tudo aquilo. Eles sabiam
que algo estava errado e certamente tinham várias teorias.
Ele não se importava, desde que ninguém descobrisse a verdade.
Ou melhor, o que seria a verdade.
Ele se odiava por isso. Mas, o que mais ele poderia fazer? Quando o pai
morreu ele foi confiado o dever de cuidar das irmãs. Ele estava tentando
protege-la. E Marie-Claire também. Fleur era tão egoísta a ponto de não
enxergar isso?
“Richard?”
Ele quase pulou. Iris surgiu atrás dele enquanto ele estava de olhos
fechados.
“Me desculpe,” ela disse com uma voz fraca. “Eu não quis te assustar.”
Ele soltou uma risada irracional. “Você é a visão menos assustadora dessa
casa, disso eu lhe garanto.”
Sabiamente, ela não disse nada.
Mas a presença de Iris o deixou mais determinado a falar com a irmã.
“Me perdoe.” Ele disse a esposa e novamente berrou, “Fleur!” ele esmurrou a
porta com tanta força que a parede tremeu. “Eu vou derrubar essa porta.”
“Antes ou depois de serrar a maçaneta?” Fleur respondeu provocando.
Ele cerrou os dentes, tremendo e tomando fôlego. “Fleur!”
Iris colocou uma mão gentilmente em seu braço. “Posso ajudar?”
“É uma questão de família,” ele respondeu.
Ela tirou a mão e recuou um pouco. “Desculpe,” ela disse
penetrantemente. “Pensei que eu fazia parte da família.”
“Você a conheceu há três minutos,” ele disse. Era um comentário cruel e
totalmente desnecessário, mas no estado de fúria que estava, Richard era
incapaz de medir as próprias palavras.
“Vou te deixar sozinho então.” Iris disse acidamente. “Já que está lidando
bem com a situação.”
“Você não sabe de nada sobre isso.”
Ela estreitou os olhos. “Um fato do qual eu tenho plena consciência.”
Santo Deus, ele não podia brigar com as duas ao mesmo tempo. “Por
favor,” ele disse a ela, “Tente ser razoável.”
Isso era sempre a coisa errada para se dizer a uma mulher,
“Razoável?” ela disse. “Você quer que eu seja razoável? Depois de tudo
que aconteceu nas últimas duas semanas é um mistério eu ainda estar
responsiva!”
“Hipérboles, Iris?”
“Não me dê sermão,” ela disse entre os dentes.
Ele não respondeu.
Os olhos de Iris se incendiaram e ela se aproximou, quase o tocando.
“Primeiro você me arrasta para esse casamento – “
“Eu não te arrastei.”
“É como se tivesse o feito.”
“Você não estava reclamando dois dias atrás.”
Ela ficou tensa.
Ele sabia que tinha ido longe demais, mas ele tinha perdido todas as
restrições. Ele não sabia como parar agora. Ele se aproximou dela, mas ela não
recuou, sequer um centímetro. “Por bem ou por mal, você é minha mulher.”
O tempo parou. Iris fechou a mandíbula com força, tentando conter a
raiva, e Richard não conseguia para de olhar para sua boca, rosada e suculenta.
Ele conhecia o gosto de Iris agora. Ele se lembrava assim como se lembrava de
respirar.
Com um palavrão ele deu as costas. Que tipo de monstro ele era? No
meio desse inferno ele ainda queria beija-la.
Consumi-la.
Fazer amor com ela antes que ela o desprezasse.
“Eu quero saber o que está acontecendo.” Iris disse com uma voz
carregada de fúria.
“Agora eu tenho que lidar com minha irmã,” ele disse.
“Não, agora mesmo você vai me contar – “
Ele a interrompeu. “Eu vou te contar o que precisa saber quando precisar
sabe-lo.”
O que era em alguns minutos provavelmente, imaginando que Fleur
abriria a maldita porta um dia.
“Isso tem a ver com a razão de ter se casado comigo, não é?” Iris disse.
Ele se virou para olhar para ela. Ela estava pálida, mais do que o normal,
mas seus olhos estavam em chamas.
Ele não podia mentir mais. Talvez não estivesse pronto para contar a
verdade, mas não conseguia mais mentir.
“Fleur!” ele gritou. “Abra a maldita – “
A porta foi aberta, e lá estava ela, com os olhos inchados e tremendo de
raiva. Richard nunca tinha visto a irmã daquela maneira. Seu cabelo estava
bagunçado e caia de modo desigual. Suas bochechas coradas de emoção.
O que aconteceu com a doce e compreensiva irmã que ele conheceu? Ele
costumava brincar de festa do chá com ela, pelo amor de Deus.
“Deseja falar comigo?” a voz de Fleur estava carregada de desdém.
“Não no corredor.” Ele disse irado, a pegando pelo braço. Ele tentou
arrasta-la para o quarto mas ela forçou o corpo o impedindo.
“Ela também entra,” ela disse apontando a cabeça para Iris.
“Ela tem um nome.” Richard a repreendeu.
“Me perdoe.” Fleur se virou para Iris piscando os olhos exageradamente.
“Lady Kenworthy, sua presença é humildemente requerida.”
Richard ficou enfurecido. “Não fale com ela nesse tom.”
“O que quer dizer? Como se ela fosse da família?”
Richard não disse nada, ao invés arrastou a irmã para dentro do quarto.
Iris o seguiu, não convencida de que estava fazendo a coisa certa.
“Nós seremos muito próximas, sabe,” Fleur disse para Iris. Seu sorriso
causou um mal estar em Richard. “Você não tem ideia do quanto.”
Iris a olhou com apreensão. “Talvez eu devesse voltar outra ho – “
“Oh, não.” Fleur interrompeu. “Você deve ficar.”
“Feche a porta,” Richard ordenou.
E Iris a fechou, e ele segurou Fleur com mais força, tentando afasta-la da
porta.
“Me solte.” Ela disse entre os dentes, tentando se soltar.
“Você será ponderada?”
“Eu nunca fui imponderada.” Ela retrucou.
Isso era discutível, mas ele soltou seu braço. Ele odiava o louco que ela
estava fazendo ele se tornar.
Fleur se virou para encarar Iris, seus olhos brilhavam perigosamente.
“Richard falou sobre mim com você?”
Iris não respondeu imediatamente. Ela engoliu seco e olhou para Richard
antes de responder. “Um pouco.”
“Só um pouco?” Fleur olhou para Richard, uma sobrancelha levantada de
modo cínico. “Você não disse a melhor parte não é?”
“Fleur ...” ele disse como um aviso.
Mas Fleur já tinha voltado a atenção para Iris. “Por acaso, meu irmão te
contou que eu estou grávida?”
Richard sentiu o coração desabar. Ele olhou desesperado para Iris. Ela
estava completamente sem cor. Ele queria ir até ela, envolve-la e protege-la mas
sabia que ela só precisava ser protegida dele mesmo.
“Logo começará a aparecer,” Fleur disse, sua voz com um decoro irônico.
Ela passou a mão pelo vestido, apertando o tecido contra a barriga. “Não será
uma graça?”
“Pelo amor de Deus Fleur.” Richard disse. “Não tem um pingo de bom
senso?”
“Nenhum,” Fleur disse obstinada. “Sou uma mulher perdida agora.”
“Não diga isso,” Richard disse.
“Por que não? É a verdade.” Ela se virou para Iris. “Você não teria se
casado com ele se soubesse sobre a irmã caída e arruinada não é verdade?”
Iris balançava a cabeça lentamente, como se quisesse organizar os
pensamentos. “Você sabia disso?” ela perguntou a ele. Ela levantou uma mão,
como se o dispensasse. “Não, é claro que você sabia.”
Richard se aproximou, tentando olha-la nos olhos. “Iris, há algo que eu
tenho que te contar.”
“Nós podemos pensar em uma solução,” Iris disse, sua voz com um tom
quase frenético. Ela olhou para Fleur, e para o guarda-roupa e para a janela,
para todos os lugares, menos para o marido. “Não é uma boa situação, com
certeza, mas você não é a primeira moça com esse problema e – “
“Iris,” Richard disse baixo.
“Você tem o apoio de sua família,” ela disse a Fleur. “Seu irmão te ama.
Eu sei que ele ama, e você o ama também. Nós pensaremos em uma solução.
Sempre há uma solução.”
Ele falou novamente. “Eu já pensei em uma solução, Iris.”
Finalmente ela olhou para ele.
Ela sussurrou, “Por que você se casou comigo Richard?”
Era hora de dizer a verdade.
“Você vai fingir uma gravidez, Iris. E nós criaremos o bebê de Fleur
como nosso filho legitimo.”
Capitulo 19

Iris olhou para o marido totalmente descrente. Certamente ele não queria que ...
ele jamais ...
“Não,” ela disse. Não, ela não faria isso. Não, ele não poderia estar
pedindo isso dela.
“Temo que você não tem muita escolha.” Richard disse severo.
Ela o encarou. “Eu não tenho escolha?”
“Se nós não fizermos isso, a Fleur estará arruinada.”
“Eu acho que ela consegue se arruinar muito bem sozinha.” Iris disse
antes de conseguir pensar em conter as palavras.
Fleur soltou um riso tenso, parecendo quase se divertir com o insulto de
Iris, mas Richard se aproximou com os olhos intensos e disse, “Você está
falando da minha irmã.”
“E você está falando com a sua esposa!” Iris quase gritou. Horrorizada
pela agonia em sua voz, ela levou uma mão aos lábios e se virou. Ela não podia
olhar para ele. Não agora.
Ela sabia que ele estava escondendo alguma coisa. Até enquanto se
apaixonava, tentando se convencer que era coisa de sua cabeça, ela sabia que
tinha uma razão oculta para seu casamento apressado. Mas ela nunca imaginou
que fosse algo assim. Ela jamais poderia imaginar.
Era loucura. Loucura e ainda assim, explicava tudo. Desde o casamento
apressado até a recusa de Richard em consumar a união... tudo fazia um sentido
terrível. Ele tinha que encontrar uma esposa rapidamente. E é claro, não poderia
arriscar que Iris engravidasse antes de Fleur ter o bebê. Iris gostaria de ver como
ele explicaria isso.
Sendo assim, eles diriam que Iris teve um bebê prematuro. E então
quando a criança surgisse perfeitamente saudável e crescida todos pensariam
que Richard foi obrigado a se casar por ter seduzido Iris antes da noite de
núpcias.
Iris deixou escapar uma risada amarga. Santo Deus, nada era mais
distante da verdade.
“Você acha tudo isso engraçado?” Richard exigiu saber.
Ela envolveu o corpo com os braços, tentando conter a histeria que surgia
dentro dela. Se virando para poder olhar Richard nos olhos ela disse, “Nem um
pouco.”
Ele teve o bom senso de não pedir uma explicação. Iris apenas imaginou
o olhar selvagem que estava.
Após alguns segundos, Richard limpou a garganta e disse, “Eu sei que
você foi colocada em uma posição difícil ...”
Difícil? Ela abriu a boca. Ele queria que ela fingisse uma gravidez e
depois criasse o filho de outra mulher como se fosse dela? E ela chamou isso de
difícil?
“... mas eu creio que perceberá que essa é a única solução.”
Não. Ela balançou a cabeça. “Essa não pode ser a única solução. Tem que
haver outra maneira.”
“Você realmente acha que eu decidi isso com facilidade?” Richard disse,
seu tom de voz aumentando com a emoção. “Você imagina que eu não pensei
em cada alternativa possível?”
Iris sentiu um aperto no peito, e se recusou a respirar fundo. Ela não
conseguia respirar. Ela mal conseguia pensar. Quem era esse homem? Ele era
quase um estranho quando se casaram, mas ela acreditava que ele era um
homem bom e honesto. Ela permitiu que ele a beijasse da maneira mais intima,
e ela sequer o conhecia.
E ela ainda pensou que estava se apaixonando.
E a pior parte era que ele poderia força-la a fazer isso. Os dois sabiam
disso. Em um casamento, a palavra do homem era lei, e a parte da mulher era
obedecer. Oh, ela poderia fugir para a casa dos pais, mas eles provavelmente a
mandariam de volta para Maycliffe. Eles ficariam chocados, eles talvez
pensassem que Richard era um louco, mas no fim diriam que ele era seu marido
e se essa era a vontade dele, ela tinha que concordar.
“Você me enganou,” ela sussurrou. “Você deliberadamente me atraiu
para esse casamento.”
“Eu sinto muito.”
Isso provavelmente era verdade, mas não o justificava.
Então ela fez a pergunta mais assustadora. “Por que eu?”
Richard ficou pálido.
Iris sentiu o calor escapar de seu corpo e quase tropeçou, a força de sua
resposta silenciosa a atingiu como um soco no estômago. Ele não precisava
dizer nada; a resposta estava estampada em seu rosto. Richard a escolheu
porque podia. Porque ele sabia que com seu pequeno dote e aparência comum
ela jamais teria pretendes clamando por sua mão. Uma garota como ela estaria
ansiosa para se casar. Uma garota como ela jamais recusaria um homem como
ele.
Santo Deus, será que ele pesquisou sobre ela? É claro. Ele deve ter feito
isso. Por que mais ele iria ao musical dos Smythe-Smith, se não para conhece-
la?
O rosto de Winston Bevelstoke surgiu em sua mente, seu sorriso
amigável enquanto os apresentava. Será que ele ajudou Richard na caça a uma
noiva?
Iris quase engasgou horrorizada. Richard deve ter pedido ao amigo uma
lista das garotas mais desesperadas de Londres. E ela deve ter estado no topo da
lista.
Ela foi julgada. E sentiram pena dela.
“Você me humilhou,” ela disse, sua voz quase desaparecendo.
Ninguém chamaria Sir Richard Kenworthy de tolo. Ele sabia exatamente
o que ele precisava em uma noiva – alguém tão patética e grata por uma
proposta de casamento reviraria os olhos e diria sim, por favor quando ele
finalmente contasse a verdade.
Era isso que ele pensava dela.
Iris arfou, cobrindo a boca com a mão para conter o choro surgia em sua
garganta.
Fleur a olhava com uma expressão desconcertada antes de dizer a
Richard, “Você realmente deveria ter dito a verdade antes de pedi-la em
casamento.”
“Cale a boca,” ele rosnou.
“Não mande-a calar a boca.” Iris disse.
“Oh, agora você está no lado dela?”
“Bom, parece que ninguém está no meu lado.”
“Você deve saber que eu disse a ele que eu não concordo com toda essa
armação.” Fleur disse.
Iris se virou para olhar para ela, realmente olhar para ela pela primeira
vez desde que a conheceu, para tentar ver algo além da menina petulante e
histérica que desceu da carruagem. “Você está louca?” ela perguntou. “Qual
solução você propõe? Quem é o pai dessa criança?”
“Obviamente ninguém que você conheça,” Fleur retrucou.
“É o filho mais novo de um barão das redondezas,” Richard disse em uma
voz vazia. “Ele a seduziu.”
Iris se virou para olha-lo. “Bom, então por que não o força a se casar com
ela?”
“Ele morreu,” ele respondeu.
“Oh.” Iris sentiu como se tivesse levado outro soco. “Oh.” Ela olhou para
Fleur. “Sinto muito.”
“Eu não sinto,” Richard disse.
Ela arregalou os olhos, surpresa.
“O nome dele era William Parnell,” ele disse amargurado. “Ele era um
degenerado. Sempre foi.”
“O que aconteceu?” Iris perguntou, sem certeza se realmente queria
saber.
Richard olhou para ela com uma sobrancelha erguida. “Ele caiu de uma
sacada, bêbado atirando com uma pistola. Foi um milagre ninguém ter sido
atingido.”
“Você estava lá?” Iris sussurrou. Ela tinha uma terrível sensação de que
ele tinha algo a ver com isso.
“É claro que não.” Ele olhou para ela indignado. “Haviam muitas
testemunhas. Incluindo três prostitutas.”
Iris respirou fundo, desconfortável.
O rosto de Richard estava carregado de desolação e ele disse, “Eu só te
contei isso para que soubesse o tipo de homem que ele era.”
Iris assentiu mecanicamente. Ela não sabia o que dizer. Ela não sabia o
que sentir. Após alguns segundos ela se virou para Fleur – sua nova irmã, ela se
lembrou – e pegou suas mãos. “Eu sinto muito.” Ela disse cuidadosamente. “Ele
te machucou?”
Fleur virou o rosto. “Não foi assim.”
Richard se aproximou ameaçadoramente. “Você está dizendo que deixou
–“
“Pare!” Iris disse, o empurrando para longe. “Você não ganhará nada com
acusações.”
Richard acenou brevemente, mas ele e Fleur continuaram se encarando a
distância.
Iris engoliu seco. Ela odiava ser insensível, mas não tinha ideia de quanto
tempo Fleur estava – seu vestido era largo o suficiente para esconder suas
formas – e ela pensou que não tinha muito tempo para perder.
“Não há outro homem que pode se casar com ela?” ela perguntou.
“Alguém que – “
“Eu não vou me casar com um estranho,” Fleur disse energicamente.
Eu me casei. As palavras surgiram espontaneamente na mente de Iris.
Mas inegavelmente eram verdadeiras.
Richard revirou os olhos. “Eu não tenho dinheiro suficiente para comprar
um marido de qualquer maneira.”
“Certamente você pode encontrar alguém – “
“Disposto a criar o filho dela como herdeiro, se for um menino? Isso pede
um caro suborno.”
“E ainda assim você o faria,” ela disse.
Richard hesitou, mas disse, “Essa criança será meu sobrinho ou
sobrinha.”
“Mas não seu filho!” Iris abraçou o próprio corpo. “E não meu.”
“Você não pode amar uma criança que não gerou?” seu tom era baixo e
acusador.
“É claro que eu posso. Mas isso é enganoso. É errado. Você sabe disso!”
“Boa sorte ao tentar convence-lo disso,” Fleur disse.
“Oh, pelo amor de Deus, fique quieta!” Iris disse. “Não vê que estou
tentando te ajudar?”
Fleur recuou, surpresa pela raiva de Iris.
“O que vai fazer quando tivermos um menino,” Iris perguntou a Richard,
“e seu filho – seu primogênito – não puder herdar Maycliffe por que você já a
deu a seu sobrinho?”
Richard não disse nada, seus lábios estavam fechados com tanta força que
perderam a cor.
“Você negaria a seu filho o patrimônio de direito?” Iris pressionou.
“Eu farei preparativos,” ele disse tenso.
“Não há preparativos que possam ser feitos,” Iris clamou. “Você não
pensou sobre isso. Se você tomar o filho dela como seu, você não pode fazer de
herdeiro um filho mais novo. Você – “
“Maycliffe não está vinculada,” Richard a lembrou.
Iris respirou fundo, raivosa. “Isso é pior ainda. Você permitiria que o
filho de Fleur acreditasse ser o herdeiro e depois passaria Maycliffe para o
irmão mais novo?”
“É claro que não,” Richard disse entre os dentes. “Que tipo de homem
acha que eu sou?”
“Honestamente? Eu não sei.”
Ele se retraiu, mas continuou falando. “Eu dividirei a propriedade em dois
se necessário.”
“Oh, isso será justo,” Iris retrucou. “Um filho herda a casa e o outro fica
com o laranjal. Ninguém vai se sentir injustiçado assim.”
“O por Deus do céu,” Richard explodiu. “Você não pode calar a boca?”
Iris congelou, recuando com seu tom.
“Eu não teria dito isso se fosse você,” Fleur disse.
Richard rosnou algo para a irmã; Iris não entendeu mas viu que Fleur
recuou e os três permaneceram parados, como um quadro desconfortável até
que Richard respirou fundo e disse em uma voz vazia. “Nós viajaremos para a
Escócia semana que vem. Para visitar nossos primos.”
“Nós não temos primos na Escócia.” Fleur disse sem emoção.
“Agora nós temos,” ele disse a ela.
Fleur olhou para ele como se ele tivesse enlouquecido de vez.
“Descobrimos recentemente na árvore genealógica.” Ele disse com um
animo forçado para mostrar que ele inventava a coisa toda. “Hamish e Mary
Tavistock.”
“Agora você está inventando pessoas?” Fleur zombou.
Ele ignorou o sarcasmo. “Você vai gostar tanto deles que vai decidir
ficar.” Ele forçou um sorriso. “Por meses.”
Fleur cruzou os braços. “Eu não vou fazer isso.”
Iris olhou para Richard. Ele tinha tanta dor em seus olhos que era quase
demais para ela. Por um segundo ela teve vontade de conforta-lo.
Mas não. Não. Ele não merecia conforto. Ele mentiu para ela. Ele a
enganou da pior maneira possível.
“Eu não posso ficar aqui.” Ela disse de repente. Ela não conseguia
permanecer naquele quarto. Ela não conseguia olhar para ele. Ou para Fleur.
“Você não vai embora,” Richard disse rispidamente.
Ela se virou, mostrando descrença em seu rosto. E desprezo também. “Eu
vou para o meu quarto.” Ela disse lentamente.
Ele se moveu desconfortavelmente. Ele estava envergonhado. Ótimo.
“Não me perturbe.” Iris disse.
Richard e Fleur ficaram calados.
Iris foi até a porta e a abriu energicamente, dando de cara com Marie-
Claire que recuava surpresa, tentando fingir que não estava ouvindo tudo atrás
da porta.
“Boa tarde,” Marie-Claire disse com um sorriso ligeiro. “Eu só estava – “
“Oh, pelo amor de Deus.” Iris a cortou, “Você já sabe tudo.”
Ela passou pela garota sem se importar de quase tê-la a derrubado.
Quando ela chegou ao quarto ela não bateu a porta. Ela a fechou com cuidado e
sua mão permaneceu na maçaneta. Com uma estranha indiferença, ela viu como
seus dedos estavam tremendo. Então suas pernas começaram a tremer e ela teve
que se apoiar na porta, então ela começou a deslizar para o chão, onde ela se
curvou e começou a chorar.

Passou um minuto inteiro desde da saída de Iris para que Richard


conseguisse olhar para a irmã.
“Não me culpe por isso.” Fleur disse com um fervor contido. “Eu não
pedi isso de você.”
Richard tentou não responder. Ele estava tão cansado de discutir com ela.
Mas ele não conseguia ver mais nada além do rosto triste de Iris, ele tinha a
terrível sensação que ele destruiu algo dentro dela, algo que ele nunca
conseguiria consertar.
Ele começou a sentir frio, a fúria escaldante do último mês foi substituída
por um frio congelante. Ele olhou duramente para Fleur. “Sua falta de gratidão
me impressiona.”
“Não sou que estou pedindo que ela cometa uma fraude moral.”
Richard fechou os dentes com força até a mandíbula tremer. Por que ela
não conseguia enxergar com sensatez? Ele estava tentando protege-la, dá-la
uma chance de ter uma vida feliz e respeitável.
Fleur o olhou com escarnio. “Você realmente achou que ela sorriria e
diria, ‘Seu desejo é uma ordem, senhor?’”
“Eu lidarei com a minha esposa da maneira que eu achar apropriada.” Ele
disse ríspido.
Fleur quase riu.
“Meus Deus,” ele explodiu. “Você não tem um pingo – “ele parou de
falar, passando a mão pelos cabelos e se virando de costas para Fleur. “Você
acha que eu estou gostando disso?” ele quase sibilou. Ele agarrou o peitoril da
janela com força. “Você acha que eu gostei de engana-la?”
“Então pare com esse plano.”
“O estrago já foi feito.”
“Mas você pode repara-lo. Tudo que tem que fazer é dizer que ela não
precisa roubar o meu filho.”
Ele se virou. “Não é roub – “ele viu o olhar de triunfo de Fleur e disse,
“Você está se divertindo com isso, não está?”
Fleur o olhou fixamente. “Eu te garanto, nada sobre isso me diverte.”
Ele olhou para ela, realmente olhou para ela. Escondido em seus olhos ele
viu que ela estava tão quebrada quanto Iris. A dor em seu rosto ... foi ele que
causou aquilo? Não. Não. Ele estava tentando ajuda-la, salva-la de uma vida
arruinada com o bastardo que Parnell deu a ela.
Ele fechou as mãos em punhos. Se aquele desgraçado não tivesse
morrido, ele o teria matado. Não, ele o forçaria a se casar com Fleur e depois o
mataria. Ele pensou em como sua irmã costumava ser, cheia de sonhos e
romance. Ela costumava deitar na grama no laranjal e ler. Ela costumava rir.
“Me ajude a entender,” ele implorou. “Por que você não aceita? Não
percebe que essa é sua única chance de ter uma vida respeitável?”
Os lábios de Fleur tremeram, e pela primeira vez naquela tarde ela parecia
vacilante. Ele viu em seu rosto a criança que ela costumava ser e aquilo partiu
seu coração outra vez.
“Por que eu não posso me passar como uma viúva em outro lugar?” ela
perguntou. “Eu posso me mudar par Devon. Ou para a Cornualha. Algum lugar
onde eu não conheça ninguém.”
“Eu não tenho dinheiro para manter uma casa adequada para você,”
Richard disse com uma voz endurecida pela vergonha de não poder ajuda-la
financeiramente. “E eu não vou permitir que viva na pobreza.”
“Eu não preciso de muito,” Fleur disse. “Só de uma casa pequena, e – “
“Você acha que não precisa de muito.” Richard interrompeu. “Mas você
não sabe. Você passou a vida toda com empregados. Você nunca teve que
comprar a própria comida, ou acender a própria lareira.”
“Você também não,” ela retrucou.
“Isso não é sobre mim. Não sou eu que terei que viver em um chalé com
goteiras me preocupando com o preço da carne.”
Fleur desviou o olhar.
“Sou eu,” ele disse em uma voz mais suave, “que ficarei preocupado com
você, imaginando o que fará se ficar doente, ou se alguém se aproveitará de
você. E eu não poderei fazer nada para ajudar porque estarei do outro lado do
país.”
Fleur não disse nada por um tempo. “Eu não posso me casar com o pai do
bebê,” ela finalmente disse. “E eu não vou desistir do meu filho.”
“Ele estará comigo,” ele a lembrou.
“Mas não será meu,” ela gritou. “Eu não quero ser a tia.”
“Você diz isso agora, mas o que acontecerá em dez anos quando você
perceber que está sozinha e ninguém se casará com você.”
“Eu já percebo isso agora,” ela disse secamente.
“Se você criar o bebê sozinha, você estará fora da sociedade. Você não
poderá ficar por aqui.”
Ela congelou. “Você me abandonaria, então.”
“Não,” ele disse rapidamente. “Nunca. Mas eu não posso te manter aqui
na casa. Não enquanto Marie-Claire é solteira.”
Fleur desviou o olhar.
“A sua ruina é a ruina dela. Você sabe disso.”
“É claro que eu sei disso,” ela disse com emoção. “Por que você acha que
eu – “
Mas ela parou, forçando os lábios em uma linha.
“O que?’ ele perguntou. Por que ele achava que ela o que?
Ela balançou a cabeça e em voz baixa disse, “Nós nunca concordaremos
nisso.”
Ele suspirou. “Eu só estou tentando ajuda-la, Fleur.”
“Eu sei.” Ela olhou para ele, seus olhos estavam cansados e tristes e
talvez um pouco sábios.
“Eu te amo,” ele disse, engasgando as palavras. “Você é minha irmã. Eu
jurei protege-la. E eu falhei. Eu falhei.”
“Você não falhou.”
Ele jogou os braços, apontando para a barriga dela. “Você quer dizer que
se entregou a Parnell por vontade própria?”
“Eu te disse, não foi o que – “
“Era para eu estar aqui.” Ele disse. “Era para eu estar aqui com você, para
protege-la, e eu não estava. Então por Deus, Fleur, me dê a chance de protege-la
agora.”
“Eu não posso ser a tia do meu filho,” ela disse com determinação. “Eu
não posso.”
Richard esfregou o rosto com as mãos. Ele estava tão cansado. Ele não
achava que já esteve tão cansado na vida. Ele falaria com ela amanhã. Ele a
faria entender.
Ele foi até a porta. “Não faça nada drástico.” Ele disse suavemente. “Por
favor.”
Ela assentiu silenciosamente. Era o suficiente. Ele confiava nela. Era uma
maldição mas ele confiava nela.
Ele saiu do quarto, parando por um momento quando viu Marie-Claire no
corredor. Ela estava de pé, perto da porta, com uma postura de nervosismo. Ele
não imaginou que ela estivesse escutando atrás da porta, a maior parte da
conversa foi realizada aos berros.
“Devo entrar?” ela perguntou.
Ele deu de ombros. Ele não tinha resposta. Ele continuou a andar.
Ele queria falar com Iris. Ele queria pegar em sua mão e faze-la entender
o quanto ele odiava essa situação, que ele lamentava por tê-la enganado.
Mas ele não lamentava por ter se casado com ela. Ele nunca se lamentaria
disso.
Ele parou perto da porta do quarto de Iris. Ela estava chorando.
Ele queria confortá-la.
Mas como ele poderia confortá-la se foi ele que a deixou assim?
Então ele continuou a andar e foi para o andar de baixo. Ele foi até o
escritório e fechou a porta. Ele viu o copo de brandy pela metade que deixara ali
a tarde e decidiu que aquilo não era o suficiente.
Esse era um problema fácil de resolver.
Ele pegou a garrafa e encheu o copo, fazendo um brinde silencioso ao
diabo.
Quem dera todos seus problemas tivessem soluções tão simples.
Capítulo 20

Maycliffe nunca foi uma casa fria e quieta.


No café da manhã no outro dia, Richard estava em silêncio, seus olhos
acompanhavam Fleur enquanto ela pegava a comida na mesa da lateral. Ele
sentou de frente para ele, mas eles não se falaram, e quando Marie-Claire
entrou, seus cumprimentos foram pouco mais de grunhidos.
Iris não desceu.
Richard não a viu durante todo o dia, e quando chegou a hora do jantar
ele quase bateu em sua porta, mas ficou rígido antes de conseguir. Ele não podia
esquecer o olhar de Iris quando ele disse o que ela tinha que fazer, não
conseguia apagar o som de seu choro escondido quando ela se trancou no
quarto.
Ele sabia que isso iria acontecer. Ele temia desde o momento que ele
colocou a aliança em seu dedo. Mas foi tudo muito pior do que ele imaginou. O
pesado sentimento de culpa tinha sido substituído por um ódio profundo a si
mesmo e ele não tinha certeza se isso desapareceria algum dia.
Ele costumava ser uma boa pessoa. Talvez não uma pessoa excepcional,
mas ele tinha sido bom. Não tinha?
No fim, ele não bateu na porta de Iris. Ele desceu sozinho até a sala de
jantar, parando apenas para avisar a uma empregada que mandasse o jantar para
Iris no quarto.
Iris não desceu para o café da manhã na manhã seguinte também, e
Marie-Claire declarou-se ciumenta. “É tão injusto que só mulheres casadas
possam tomar o café na cama e eu não posso.” Ela disse enquanto passava
manteiga no pão. “Não há nenhu – “
Ela parou de falar. A expressão de Richard e Fleur era o suficiente para
silenciar qualquer pessoa.
Na manhã seguinte Richard decidiu falar com a esposa. Ele sabia que ela
merecia privacidade depois do choque, mas ela devia saber melhor do que
ninguém que eles não tinham todo o tempo do mundo. Ele deu três dias a ela;
ele não podia dar mais que isso.
Mais uma vez ele tomou café da manhã com as irmãs, ninguém disse uma
palavra. Ele estava tentando decidir a melhor maneira de falar com Iris,
tentando arrumar as palavras de modo coerente quando ela apareceu. Ela estava
usando um vestido azul claro – era a cor favorita dela, ele imaginou – e seu
cabelo estava em um penteado elaborada que ele não conseguiu entender. Ela
estava a mais arrumada que ele já a vira.
Ela vestiu a armadura, ele percebeu. Ele não poderia culpa-la.
Iris olhou para todos e Richard se levantou, percebendo que ele esteve
encarando-a. “Lady Kenworthy,” ele disse respeitosamente. Talvez fosse muito
formal, mas suas irmãs ainda estavam lá e ele não queria que pensassem que ele
não respeitava a esposa absolutamente.
Iris o olhou com seus olhos azuis, frios, abaixou a cabeça em um leve
aceno e foi até a mesa lateral. Richard a observou enquanto ela pegava um
pouco de comida. Seus movimentos eram precisos e firmes, e ele não pôde
deixar de admirar sua compostura quando ela se sentou e cumprimentou cada
um: “Marie-Claire,” e depois “Fleur,” e finalmente, “Sir Richard.”
“Lady Kenworthy,” Marie-Claire disse respeitosamente.
Iris não a lembrou de a chamar pelo primeiro nome.
Richard olhou para o próprio prato. Ele já tinha comido quase tudo. Ele
não estava com fome, mas achou que deveria estar comendo se Iris também
comia, então ele pegou uma torrada no centro da mesa e começou a passar
manteiga. Ele passava a faca com força no pão, o som era alto nessa sala tão
silenciosa.
“Richard?” Fleur murmurou.
Ele olhou para ela. Ela apontou com os olhos para a torrada que já estava
quase destruída.
Richard a lançou um olhar penetrante, sem nenhuma razão em especial, e
mordeu a torrada. Então tossiu. Maldição. Estava seca como areia. Ele analisou.
Toda manteiga que ele pegou ficou grudada na faca.
Grunhindo ele passou a manteiga na torrada e mordeu outra vez. Iris o
encarou de uma maneira desconcertante, então disse sem emoção na voz,
“Geleia?”
Ele piscou, o som de sua voz perturbando o silencio. “Obrigado,” ele
disse, pegando o prato de geleia de Iris. Ele não tinha ideia do sabor – era
vermelha, então provavelmente ele iria gostar – mas não se importava. Aquela
era a primeira vez que ela falava com ele em três dias.
Após alguns minutos ele começou imaginar que aquela seria a única vez
que ela falaria com ele pelos próximos três dias. Richard nunca entendeu como
o silencio podia ser desconfortável de maneiras diferentes, mas esse silencio de
quatro pessoas era muito pior do que o que ele enfrentou somente com as irmãs.
Era como se um manto de silencio envolvesse a sala e os sons dos talheres eram
como gelo sendo quebrado.
E então de repente – felizmente – Marie-Claire falou. Richard percebeu
que talvez ela fosse a única que pudesse. Ela era a única que não tinha um papel
nessa peça teatral macabra que viviam.
“É bom te ver aqui em baixo,” ela disse a Iris.
“É bom estar aqui em baixo,” Iris disse sem olhar para Marie-Claire. “Eu
estou me sentindo muito melhor.”
Marie-Claire piscou confusa. “Você estava doente?”
Iris bebeu um gole de chá. “Não exatamente.”
No canto dos olhos Richard viu Fleur encarar Iris fixamente.
“Você está bem agora?” ele perguntou, encarando Iris até que ela olhou
para ele.
“Completamente.” Ela voltou a atenção para a torrada, depois a deixou no
prato lentamente. “Perdoem me,” ela disse se levantando.
Richard se levantou imediatamente e dessa vez suas irmãs o imitaram.
“Você não comeu nada,” Marie-Claire disse.
“Temo que não estou muito bem do estômago,” Iris disse em uma voz
que Richard achou muito contida. Ela deixou o guardanapo sobre a mesa perto
do prato. “Creio que isso é comum em mulheres no meu estado.”
Fleur arfou.
“Vai me desejar felicidades?” Iris disse sem emoção.
Richard percebeu que não conseguia. Ele conseguiu o que queria – não,
não o que queria, ele nunca quis nada disso. Mas ele conseguiu o que ele pediu.
Iris não estava feliz por aquilo, mas acabara de anunciar uma gravidez. E todos
ali presentes sabiam que era mentira, mas ainda assim ela passou o recado, que
ela faria o que Richard exigiu que ela fizesse. Ele venceu.
Mas ele não conseguia deseja-la felicidades.
“Com licença,” Iris disse, saindo da sala.
Ele ficou imóvel. E então –
“Espere!”
Ele voltou ao juízo normal, ou pelo menos o máximo que era possível
para movimentar as próprias pernas. Ele saiu da sala, percebendo que as irmãs o
olhavam como peixes curiosos. Ele chamou o nome de Iris, mas ela não estava a
vista. Sua mulher era rápida, Richard pensou. Era isso, ou ela estava se
escondendo dele.
“Querida?” ele gritou, sem se importar que todos pudessem ouvi-lo.
“Onde você está?”
Ele espiou a sala de estar e depois a biblioteca. Maldição. Ela tinha que
dificultar tudo para ele, mas já tinha passado da hora de conversarem de
verdade.
“Iris!” ele chamou outra vez. “Eu realmente preciso falar com você!”
Ele ficou parado no meio do corredor muito frustrado. Frustrado e
envergonhado. William, um dos lacaios estava parado perto da porta, o
observando.
Richard desviou o olhar, se recusando a olhar para o jovem.
Mas então William começou a se contrair.
Richard não pode evitar encarar.
William começou a apontar a cabeça para a direita.
“Você está bem?” Richard não pôde evitar a pergunta.
“Milady,” William disse em um sussurro alto. “Ela foi para a sala de
estar.”
“Ela não está mais lá.”
William piscou. Ele recuou alguns passos e espiou a sala de estar. “O
túnel,” ele disse, se virando para olhar para Richard.
“O ...” Richard franziu o rosto, espiando sobre o ombro de William.
“Você acha que ela entrou em um dos tuneis?”
“Eu não acho que ela pulou pela janela,” William respondeu. Ele
pigarreou. “Senhor.”
Richard entrou na sala de estar, olhando o confortável sofá azul. Aquele
era o lugar favorito de Iris para ler. Na parede escondida atrás das estantes
ficava a entrada para um dos tuneis secretos de Maycliffe. “Você tem certeza
que ela entrou aqui.” Ele disse a William.
O lacaio assentiu.
“Então ela certamente está túnel.” Richard deu de ombros, atravessando a
sala com passos largos. “Eu agradeço, William,” ele disse achando facilmente o
trinco escondido.
“Não foi nada, senhor.”
“Mesmo assim,” Richard disse com um aceno. Ele olhou para a passagem
secreta, acostumando os olhos a escuridão. Ele tinha esquecido como era frio e
húmido ali dentro. “Iris?” ele chamou. Ela provavelmente não foi muito longe.
Ele duvidava que ela teve tempo de acender uma vela e o túnel ficava cada vez
mais escuro.
Não houve resposta, então Richard acendeu uma vela, a colocou em uma
luminária e entrou no túnel. “Iris?” ele chamou outra vez. Ainda sem resposta.
Talvez ela não estivesse ali. Ela estava furiosa, mas não era tola, ela não se
esconderia em um buraco escuro só para evita-lo.
Segurando a luminária ele começou a andar. O chão era de terra batida
então era desigual, cheio de pedras e até algumas raízes. Ele teve uma visão
repentina de Iris tropeçando, torcendo o tornozelo ou algo pior.
“Iris!” ele gritou outra vez e dessa vez ouviu um pequeno som a distância,
um soluço talvez. “Graças a Deus.” Ele disse aliviado. Ele logo foi tomado pelo
arrependimento, pois ela obviamente estava se esforçando para não chorar. Ele
andou mais alguns passos e a encontrou, sentada em um monte de terra, os
braços envolvendo os joelhos como uma criança.
“Iris!” ele exclamou se ajoelhando perto dela. “Você caiu? Está
machucada?”
Ela estava com o rosto escondido entre os joelhos, e sequer o levantou
quando balançou a cabeça negativamente.”
“Está mesmo bem?” ele disse embaraçado. Ele a encontrou; agora não
sabia o que dizer. Ela estava tão equilibrada durante o café da manhã; ele
poderia discutir com aquela mulher. Ele poderia agradece-la por concordar com
seu plano, e teria combinado tudo com ela. Pelo menos ele conseguiria formar
palavras.
Mas vê-la daquele jeito, toda encolhida e desamparada... ele ficou
perdido. Ele hesitantemente levou uma mão até suas costas, tentando conforta-
la, sabendo que ela não desejava o conforto do homem que causou seu
sofrimento.
Ela não recuou, e de algum modo isso fez com que Richard se sentisse
mais embaraçado. Ele colocou a luminária no chão a uma distância segura e se
agachou perto dela. “Me desculpe,” ele disse, sem fazer ideia do porquê de se
desculpar – haviam tantas transgressões para escolher.
“Eu tropecei,” ela disse de repente. Ela olhou para ela de modo
desafiante. Seus olhos estavam marejados, mas desafiantes. “Eu tropecei. É por
isso que estou chateada. Porque eu tropecei.”
“É claro.”
“E estou ótima. Não me machuquei.”
Ele assentiu lentamente e ofereceu a mão. “Ainda posso ajudá-la a se
levantar?”
Por um momento ela não se moveu. Richard viu sua mandíbula relaxar e
então ela pegou sua mão.
Ele se levantou, puxando-a com ele. “Tem certeza que consegue andar?”
“Eu disse que não me machuquei,” ela disse, mas sua voz parecia forçada
a soar normal.
Ele não respondeu, apenas encaixou a mão de Iris em seu braço depois de
pegar a luminária. “Você deseja voltar para a sala de estar ou ir para fora?” ele
perguntou.
“Para fora,” ela disse, levantando o queixo. “Por favor.”
Ele assentiu e a guiou pelo túnel. Ela não parecia mancar, mas era difícil
dizer com certeza; sua postura era muito tensa. Eles andaram juntos tantas vezes
nos dias antes de suas irmãs chegarem e ela nunca foi assim, tão frágil e
quebradiça.
“É muito longe?” ela perguntou.
“Não.” A voz de Iris estava vacilante. Ele não gostou disso. “A saída é
perto do Laranjal.”
“Eu sei.”
Ele não perguntou como ela sabia disso. Provavelmente foram os
empregados. Ele planejou mostrar os tuneis para ela quando chegaram, estava
ansioso para fazê-lo. Mas não houve tempo. Ou talvez ele não arranjou tempo.
“Eu tropecei,” ela disse outra vez. “Eu já estaria lá se não tivesse
tropeçado.”
“Certamente,” ele murmurou.
Ela parou de andar e ele quase tropeçou. “Eu estaria sim!”
“Eu não estava sendo sarcástico.”
Ela franziu as sobrancelhas e desviou o olhar.
“A saída é logo a frente.” Ele disse após voltarem a andar.
Ela fez um aceno curto com a cabeça. Richard a guiou a até o fim do
túnel e soltou o braço para poder abrir a porta no teto. Ele sempre tinha que se
curvar nessa parte do túnel. Iris, ele percebeu, conseguia ficar de pé
normalmente, sua cabeça tocando o topo do túnel levemente.
“É ai em cima?” ela perguntou olhando para a porta.
“É um declive,” ele respondeu tentando soltar o trinco. “Do lado de fora
parece um barracão.
Ela observou por um segundo e perguntou. “A tranca é do lado de
dentro?”
Ele cerrou os dentes. “Pode segurar isso?” ele perguntou oferecendo a
luminária a ela. “Eu preciso das duas mãos.”
Sem dizer nada ela pegou a luminária. Richard gemeu baixo quando a
tranca prendeu seu dedo. “É um pouco complicado.” Ele disse quando
finalmente conseguiu abrir. “Você pode abrir dos dois lados, mas só se souber
como funciona. Não é como uma porta comum.”
“Eu ficaria presa,” ela disse em uma voz seca.
“Não ficaria não.” Ele abriu a porta, piscando quando o túnel foi invadido
pela luz do sol. “Você teria voltado e saído pela sala de estar.”
“Eu fechei aquela porta também.”
“Aquela é mais fácil de abrir,” ele mentiu. Ele pensou que deveria ensina-
la como mexer nas trancas dos tuneis, por segurança, mas por enquanto ele a
deixaria pensar que ficaria bem se estivesse sozinha.
“Eu sequer consigo fugir direito,” ela disse baixinho.
Ele ofereceu a mão para ajudá-la a subir os degraus rasos. “Era isso que
você estava fazendo? Fugindo?”
“Eu estava me retirando.”
“Se esse é o caso, então você fez um ótimo trabalho.”
Iris o olhou de modo impenetrável e soltou a mão dele. Ela usou a mão
livre para proteger os olhos do sol, mas Richard se sentiu rejeitado.
“Você não precisa ser gentil comigo.” Ela disse secamente.
Ele abriu os lábios e precisou de alguns segundos para se recuperar da
surpresa. “Eu não vejo razão para não ser gentil.”
“Eu não quero que seja gentil comigo!”
“Você não – “
“Você é um monstro!” ela cobriu a boca com as mãos, mas ele ouviu seu
soluço de dor. Então em uma voz pequena ela disse. “Por que não pode agir
como um e me deixar odiá-lo?”
“Eu não quero que você me odeie,” ele disse suavemente.
“Não é uma escolha sua.”
“Não, não é.” Ele concordou.
Ela desviou o olhar, a luz do sol fazia seu cabelo brilhar como uma coroa.
Ela era tão linda para ele que chegava a doer. Ele queria chegar perto dela,
envolve-la com os braços e sussurrar consolos contra seu cabelo. Ele queria
faze-la se sentir melhor e então ele prometeria que jamais a machucaria de
novo.
Isso, ele pensou causticamente, seria sua missão.
Será que ela algum dia o perdoaria? Ou pelo menos entenderia? Sim, era
uma loucura o que ele pediu para ela, mas ele o fez pela irmã. Para protege-la.
Certamente Iris era capaz de entender isso.
“Eu gostaria de ficar sozinha agora.” Iris disse.
Richard ficou em silencio um pouco antes de dizer. “Se é o que deseja.”
Mas ele não foi embora. Ele só queria ficar mais um pouco com ela, mesmo se
fosse em silencio.
Ela olhou para ela como se perguntasse, o que quer agora?
Ele limpou a garganta. “Posso leva-la até um banco?”
“Não obrigada.”
“Eu ficari – “
“Pare!” ela se virou, levantando as mãos como se quisesse espantar
alguma coisa. “Pare de ser gentil. O que você fez foi terrível.”
“Eu não sou um monstro” ele disse.
“Você é,” ela quase gritou. “Você só pode ser.”
“Iris, eu – “
“Você não entende?’ ela disse emotiva. “Eu não quero gostar de você.”
Richard sentiu um pouco de esperança. “Eu sou seu marido.” Ele disse.
Ela deveria gostar dele. Ela deveria sentir muito mais que isso.
“Você só é meu marido por que me enganou.” Ela disse baixo.
“Não foi assim,” ele protestou, mesmo sendo exatamente assim. “Você
tem que entender,” ele tentou, “O tempo todo ... em Londres, quando eu estava
te cortejando ... tudo sobre você que te fazia uma boa escolha eram coisas que
eu realmente gostava sobre você,”
“Verdade?” ela disse incrédula. “Você gostou do meu desespero?”
“Não!” Santo Deus, do que ela estava falando?
“Eu sei porque me escolheu,” ela disse com emoção. “Você precisava de
alguém que precisasse mais de você. Alguém que não se importaria com um
pedido apressado, alguém desesperada o suficiente para te agradecer pelo
pedido.”
Richard recuou. Ele odiava ter pensado nisso um dia. Ele não pensou
especificamente sobre Iris, mas tudo isso passou por sua cabeça antes de
conhece-la. Foi a razão de ter ido ao musical naquela noite fatídica.
Ele ouviu sobre as Smythe-Smiths. E desesperadas foi o que ele ouviu.
Desesperadas foi o que o atraiu.
“Você precisava de alguém,” Iris disse com uma calma devastadora.
“Que não teria que escolher entre você e outro homem. Você precisava de
alguém que escolhesse entre você e a solidão.”
“Não,” ele disse balançando a cabeça. “Não foi isso – “
“Mas foi sim!” ela clamou. “Não me diga que – “
“Talvez no começo,” ele interrompeu. “Talvez fosse isso que eu
procurasse – Não, eu serei honesto, era isso que eu procurava. Mas pode me
culpar? Eu tinha que – “
“Sim!” ela exclamou. “Sim, eu te culpo. Eu estava feliz antes de te
conhecer.”
“Estava?” ele disse ríspido. “Estava mesmo?”
“Estava o suficiente. Eu tinha minha família, e meus amigos. E eu tinha a
possibilidade de um dia encontrar alguém que – “ela parou de falar e se virou.
“Quando eu te conheci,” ele disse suavemente, “eu comecei a pensar de
outra maneira.”
“Eu não acredito em você.” Sua voz era frágil, mas seu tom era firme.
Ele ficou parado. Se se movesse, se movesse um dedo sequer ele não
conseguiria se conter e a abraçaria. Ele queria toca-la. Ele a queria com um
fervor que deveria assusta-lo.
Ele esperou que ela se virasse. Ela não o fez.
“É difícil conversar com suas costas.”
Ela ficou tensa. Iris se virou para encara-lo intensamente, seus olhos
brilhavam de fúria. Ela queria odiá-lo, ele via isso. Ela estava decidida a isso.
Mas por quanto tempo isso duraria? Alguns meses? A vida toda?
“Você me escolheu porque teve pena de mim,” ela disse.
Ele tentou não recuar. “Não foi isso que aconteceu.”
“Então o que aconteceu?’ sua voz cresceu, cheia de fúria e seus olhos
ficaram sombrios. “Quando você me pediu em casamento, quando você
precisou me beijar – “
“Exatamente!” ele quase gritou. “Eu sequer planejei pedi-la. Eu nunca
achei que encontraria alguém que aceitaria em tão pouco tempo.”
“Oh, obrigada então,” ela disse irônica, claramente insultada pelas
palavras.
“Não foi o que eu quis dizer.” Ele disse impaciente. “Eu imaginei que
teria que encontrar a mulher certa e forçar uma situação comprometedora.”
Iris parecia tão desapontada que quase foi demais para ele. Mas ele
continuou a falar, porque ele tinha que continuar. Era a única maneira de faze-la
entender.
“Eu não me orgulho disso,” ele disse, “mas foi o que eu pensei que tinha
que fazer para salvar minha irmã. E antes que pense o pior de mim, eu jamais a
seduziria antes do casamento.”
“É claro que não.” Ela disse com uma risada amarga. “Você não poderia
ter uma irmã e uma esposa grávidas ao mesmo tempo.”
“Sim ... Não! Quero dizer, sim, é claro, mas não foi isso que eu pensei.
Meu Deus!” ele passou a mão pelos cabelos. “Você realmente acha que eu me
aproveitaria de uma inocente depois do que aconteceu com a minha irmã?”
Ele viu que ela considerava. Ele viu que ela estava buscando palavras.
“Não,” ela disse finalmente. “Eu sei que não faria isso.”
“Obrigado por isso,” ele disse tenso.
Ela se virou, envolvendo o corpo com os braços. “Eu não quero falar com
você agora.”
“Eu sei que não, mas terá que falar. Se não for agora, será logo.”
“Eu já disse que aceitaria seu maldito plano.”
“Não com todas as palavras.”
Ela se virou e o encarou. “Você quer que eu diga em voz alta? Meu
anuncio no café da manhã não foi suficiente?”
“Eu preciso de sua palavra, Iris.”
Ela o encarou, e ele não soube se aquele olhar era de desprezo ou de
incredulidade.
“Eu preciso de sua palavra porque eu confio em você.” Ele parou para
deixa-la refletir sobre isso.
“Você é meu marido,” ela disse sem emoção. “Eu vou te obedecer.”
“Eu não quero que você me – “Ele parou.
“Então o que você quer?” ela explodiu. “Você quer que eu goste disso?
Quer que eu te diga que está fazendo a coisa certa? Porque eu não posso. Eu
mentirei para todo o mundo, mas não mentirei para você.”
“Você aceitar o bebê de Fleur é suficiente.” Ele disse, mas não era. Ele
queria mais. Ele queria tudo e não tinha o direito de pedir nada.
“Me beije,” ele disse tão impulsivamente que não acreditou que realmente
o fez.
“O que?”
“Eu não vou exigir mais nada de você,” ele disse. “Mas agora, só dessa
vez, me beije.”
“Por que?”
Ele olhou para ela sem compreender. Por que? Por que? “Tem que haver
uma razão?”
“Sempre há uma razão,” ela disse com um sorriso amargo. “Eu fui uma
tola por não me lembrar disso.”
Ele sentiu os lábios se moverem, mas não achava as palavras. Ele não
tinha nada, nada para faze-la esquecer de tudo. A luz da manhã os iluminou e
ele viu quando uma mecha se soltou do penteado de Iris, brilhando a luz do sol
como se fosse um metal precioso.
Como ela conseguia ser tão adorável? Como ele não viu isso antes?
“Me beije,” ele disse outra vez e teve a impressão de estar implorando.
Ele não se importava.
“Você é meu marido.” Iris disse novamente. Seus olhos estavam em
chamas. “Eu vou te obedecer.”
Foi como um soco. “Não diga isso,” ele sibilou.
Ela fechou os lábios em uma expressão desafiante.
Richard se aproximou dela, levantando as mãos para agarra-la, mas no
último segundo ele parou. Delicadamente ele tocou em seu rosto.
Ela estava rígida, ele pensou que ela fosse quebrar, então ouviu – um
pequeno folego de sujeição e ela se virou, deixando que ele tomasse seu rosto
nas mãos.
“Iris,” ele sussurrou.
Ela o olhou nos olhos. Seus olhos azuis estavam cheios de tristeza.
Ele não queria machuca-la. Ele queria cuidar dela.
“Por favor,” ele disse, aproximando os lábios dos dela. “Me deixe beija-
la.”
Capítulo 21

Beija-lo?
Iris quase riu. Ela passou os últimos dias consumida por esse desejo, mas
não assim. Não quando ela estava com os olhos inchados e suja de terra de
quando tropeçou no túnel por ser incapaz de fugir com dignidade. Não quando
ele não tinha dito uma palavra de censura, não enquanto ele estivesse agindo de
um modo tão insuportavelmente gentil.
Beija-lo?
Não havia nada que ela queria mais. Ou menos. A raiva era a única coisa
que a mantinha de pé, e se ele a beijasse ... se ela o beijasse...
Ele faria com que ela esquecesse. Então ela se perderia novamente.
“Eu sinto sua falta,” ele sussurrou, e sua mão era tão agradável e calorosa
em sua bochecha.
Ela deveria se afastar. Ela sabia que deveria, mas ela não conseguia se
mover. Não havia mais nada naquele momento além dele e dela e o modo que
ele a olhava como se ela fosse o ar que respirava.
Ele era um ator perfeito; ela sabia disso agora. Ele não a enganou
completamente – ela se orgulhava de saber que algo estava errado desde o
princípio – mas ele foi bom o suficiente pra faze-la pensar que poderia se
apaixonar. E baseado em tudo que sabia, ele também estava fingindo agora.
Mas ela não tinha certeza se isso importava. Porque ela o desejava. Ela
desejava o toque de seus lábios e a sensação de sua respiração em sua pele. Ela
desejava o momento. Aquele momento sagrado e suspenso antes de se tocarem,
quando eles apenas se olhavam.
Antecipação. Era quase melhor que o beijo. O ar entre eles ficava pesado
e aquecido pelo calor de suas respirações.
Iris ficou imóvel, esperando que ele a tomasse nos braços, para beija-la e
faze-la esquecer, mesmo que fosse por um segundo, que ela era a maior tola do
mundo.
Mas ele não o fez. Ele estava parado como uma estátua, com seus olhos
negros fixos nela. Ele a forçaria a dizer, ela percebeu. Ele não a beijaria até que
ela o permitisse.
Até que ela admitisse o próprio desejo.
“Não posso,” ela sussurrou.
Ele não disse nada. Ele sequer se moveu.
“Não posso,” ela disse novamente, quase se engasgando com as palavras.
“Você tomou tudo de mim.”
“Não tudo.” Richard a lembrou.
“Oh, sim.” Ela quase riu com a ironia. “Você deixou minha castidade.
Muito gentil de sua parte.”
Ele recuou. “Oh, por Deus Iris, você sabe – “
“Pare,” ela interrompeu. “Apenas pare. Não entende? Eu não quero
conversar.”
E ela não queria. Ele apenas tentaria se explicar, e ela não queria ouvir.
Ele diria que não teve escolha, que estava agindo por amor a irmã. E talvez
fosse tudo verdade, mas Iris ainda estava com muita raiva. Ele não merecia seu
perdão. Ele não merecia sua compreensão.
Ele a humilhou. Ele não conseguiria acalma-la.
“É apenas um beijo.” Ele disse suavemente mas não era ingênuo. Ele
sabia que era mais que um beijo.
“Você tomou minha liberdade.” Ela disse odiando como sua voz estava
tremendo pela emoção. “Você tomou minha dignidade. Você não vai tomar meu
respeito próprio.”
“Você sabe que essa não foi minha intenção. O que eu posso fazer para
que você entenda?”
Iris balançou a cabeça tristemente. “Talvez depois ...” ela olhou para a
própria barriga, onde seu útero vazia se escondia. “Talvez eu me apaixone pelo
bebê de Fleur. E talvez assim eu me convença que valeu a pena. Mas agora ...”
ela parou, tentando sentir compaixão pela criança inocente que estava no meio
de tudo isso. Será que ela era tão perversa a ponto de não conseguir? Ou talvez
ela só fosse egoísta, tão magoada pela manipulação de Richard que não
conseguia pensar no bem do outro.
“Agora,” ela disse devagar. “Eu não me sinto assim.”
Ela recuou um passo. Parecia que ela estava partindo uma corda. Ela se
sentiu com poder. E infinitamente mais triste.
“Você deveria conversar com sua irmã.” Ela disse.
Ele a olhou.
“A menos que finalmente tenha conseguido convence-la,” Iris disse
respondendo sua pergunta silenciosa.
Richard parecia um pouco perturbado por ela questionar isso. “Fleur e eu
não discutimos sobre isso desde o dia que ela chegou.”
“E você interpretou isso como consentimento?” Francamente, homens
conseguem ser muito burros.
Ele franziu o rosto.
“Eu não teria tanta certeza de que ela concordou com sua maneira de
pensar.” Ela disse a ele.
Richard a encarou fixamente. “Você falou com ela?”
“Você sabe muito bem que eu não falei com ninguém.”
“Então, talvez você não devesse especular,” ele disse em um tom que Iris
interpretou como presunçoso.
Ela deu de ombros. “Talvez não.”
“Você não conhece Fleur,” ele insistiu. “Sua interação com ela se resumiu
em uma única conversa.”
Iris revirou os olhos. “Conversa” não é a palavra que ela usaria para
descrever a cena terrível no quarto de Fleur. “Eu não sei porque ela está tão
determinada a ficar com o bebê,” Iris disse. “Talvez seja o tipo de coisa que só
uma mãe pode entender.”
Ele ficou tenso.
“Eu não disse isso para afeta-lo,” ela o informou friamente.
Richard a olhou nos olhos e murmurou. “Me perdoe.”
“Independentemente,” Iris continuou, “Eu não acho que deva se sentir
seguro até que Fleur tenha concordado explicitamente.”
“Ela concordará.”
Iris ergueu as sobrancelhas duvidando.
“Ela não tem escolha.”
Outra vez, tão burro. Ela o olhou com pena. “É o que você acha.”
Ele a olhou avaliador. “Você discorda?”
“Você já sabe que eu não aprovo seu plano, mas isso não importa.”
“Eu quis dizer,” ele disse com os dentes cerrados, “você acha que ela
pode criar o bebê sozinha?”
“Não importa o que eu acho.” Iris disse apesar de concordar com ela
nessa parte. Fleur ela louca de pensar que aguentaria a o desprezo e a
dificuldade de ser uma mãe solteira. Quase tão louca quanto Richard, que
pensava que poderia criar a criança como herdeiro e não sofrer as
consequências. Se for uma menina, talvez funcionasse, mas se Fleur tiver um
menino ...
Claramente eles tinham que encontrar um marido para ela. Iris não
entendia porque ninguém entendia isso. Fleur se recusava a se casar e Richard
insistia que não havia ninguém adequado. Mas Iris não acreditava nisso. Talvez
eles não tivessem dinheiro para arranjar um marido aristocrata para Fleur, mas
por que ela não se casava com o pároco? Ou com um soldado? Ou até com
alguém que trabalhasse com comercio?
Não era hora para ser esnobe.
“O que importa,” Iris continuou, “é o que Fleur acha. E ela quer ser mãe.”
“Tola, garota tola,” Richard disse rispidamente, as palavras saiam como
um sibilo de seus lábios.
“Eu não discordo disso,” Iris disse.
Ele olhou para ela surpreso.
“Você não se casou com um modelo de caridade e perdão cristão,” ela
disse sardonicamente.
“Parece que não.”
Iris ficou em silencio por um momento, então ela sentiu que deveria
dizer. “Eu vou apoia-la. E vou ama-la como uma irmã.”
“Como você ama Daisy?”
Iris o encarou e depois riu. Ou talvez tenha exprimido uma risada. De
qualquer modo, foi um som de humor e ela cobriu a boca com uma mão, sem
acreditar em si própria. “Eu amo a Daisy,” ela disse descansando a mão na
clavícula. “Verdadeiramente.”
Um sorriso breve passou pelo rosto de Richard. “Você tem mais
capacidade para caridade e perdão do que pensa.”
Iris riu outra vez. Daisy era realmente irritante.
“Se a Daisy te deu um motivo para sorri,” ele disse suavemente. “Então
eu devo ama-la também.”
Iris olhou para ele e suspirou. Ele parecia cansado. Seus olhos sempre
foram um pouco fundos, mas agora tinham olheiras escuras os emoldurando. E
as rugas nas laterais ... aquelas que surgiam quando ele sorria ... agora eram
profundas e constantes.
Isso não era fácil para ele também.
Ela desviou o olhar. Ela não queria sentir simpatia.
“Iris,” Richard disse, “Eu só quis – maldição.”
“O que foi?” ela se virou e olhou para onde ele olhava. “Oh ...”
Fleur estava se aproximando, andando com passos largos e nervosos.
“Ela não parece feliz,” Iris disse.
“Não, não parece,” Richard disse calmamente e suspirou. Era um som
triste e exausto. Iris se odiou por se importar.
“Como ousa?” Fleur gritou assim que chegou perto o suficiente para ser
ouvida. Dois passos depois, ficou claro quem ela acusava.
Iris.
“O que diabo foi aquilo que fez no café da manhã?” Fleur exigiu.
“Comer.” Iris retrucou, mesmo não sendo a verdade. Ela estava sentindo
tanto pânico por cometer a maior mentira da vida que não conseguiu comer
nada.
Fleur fez uma careta. “Você poderia ter anunciado diretamente que está
grávida.”
“Eu anunciei diretamente,” Iris disse. “Eu pensei que era isso que eu
deveria fazer.”
“Eu não vou te dar o meu bebê,” Fleur fervilhou.
Iris se virou para Richard com um olhar que claramente dizia, isso é
problema seu.
Fleur ficou entre eles, olhando para Iris, fervendo de raiva. “Amanhã
você anunciara que teve um aborto.”
“Para quem?” Iris exclamou. Apenas a família ouviu seu anuncio críptico.
“Ela não fará nada disso.” Richard disse. “Você não tem compaixão?
Nenhuma noção do que ela está desistindo por sua causa?”
Iris cruzou os braços. Era hora de alguém dar valor a seu sacrifício.
“Eu não pedi isso dela.” Fleur protestou.
Mas Richard era implacável. “Você não está pensando direito.”
Fleur exclamou frustrada. “Você é a pessoa mais odiosa, cínica – “
“Eu sou seu irmão!”
“Mas não é meu guarda.”
A voz de Richard era como gelo. “A lei diz outra coisa.”
Fleur recuou como se tivesse sido golpeada. Mas quando falou, foi com
uma intensidade feroz. “Me perdoe se eu tenho dificuldades de confiar em seu
senso de obrigação.”
“O que diabos isso quer dizer?”
“Você nos abandonou,” Fleur como um clamor. “Quando o papai morreu.
Você foi embora.”
O rosto de Richard que antes queimava de fúria ficou completamente
pálido.
“Você nem esperou para se livrar de nós,” Fleur continuou. “O papai
sequer esfriou no tumulo quando você nos mandou para a tia Milton.”
“Eu não conseguiria cuidar de vocês,” Richard disse.
Iris mordeu os lábios, o observando com preocupação. A voz de Richard
estava trêmula, e ele parecia ...
Destruído. Ele parecia estar completamente destruído, como se Fleur
tivesse encontrado uma ferida infeccionada e dolorida e a apertasse.
“Você poderia ter tentado,” Fleur sussurrou.
“Eu teria falhado.”
Fleur ficou com os lábios tensos. Ou talvez estivessem tremendo. Iris não
conseguia definir o que ela estava sentindo.
A garganta de Richard se movia, mas vários segundos se passaram antes
dele falar. “Você acha que eu me orgulho do meu comportamento? Eu passei
cada segundo dos últimos anos tentando compensar minha falha. O papai
morreu pouco depois de mamãe e eu – “ele xingou, passando a mão pelos
cabelos se virando. Quando ele continuou, sua voz estava mais contida. “Eu
estou constantemente tentando ser um homem melhor do que eu era, um homem
melhor do que ele.”
Iris arregalou os olhos.
“Eu me sinto tão desleal e – “Richard parou, de repente.
Iris ficou imóvel. Fleur também. Era quase como se a falta de
movimentos de Richard fosse contagiosa, e todos ficaram parados, esperando.
“Isso não é sobre o papai,” Richard finalmente disse. “E não é sobre mim
também.”
“Exatamente por isso eu devo decidir,” Fleur disse decididamente.
Oh, Fleur, Iris pensou com um suspiro. Ela puxou as garras no momento
que tudo começava a se acalmar.
Richard olhou para Iris e viu sua postura abatida. Depois se virou para a
irmã furioso. “Agora olhe o que você fez.” Ele disse.
“Eu?” Fleur gritou.
“Sim, você. Seu comportamento tem sido inimaginavelmente egoísta.
Não percebe que talvez eu tenha que dar Maycliffe para o filho de William
Parnell? Tem alguma ideia do quanto eu acho isso detestável?”
“Você disse que amaria a criança,” Iris disse calmamente,
“Independentemente do pai.”
“E eu amarei.” Richard praticamente explodiu. “Mas isso não quer dizer
que será fácil. E ela” – ele apontou o braço para Fleur – “não está ajudando.”
“Eu não pedi isso de você!” Fleur disse chorando. Sua voz estava
trêmula, mas não havia mais sinal de raiva. Ela soava, Iris percebeu, como uma
mulher prestes a quebrar.
“Já chega, Richard.” Iris anunciou de repente.
Ele se virou para ela irritado e confuso. “O que?”
Iris pôs os braços ao redor de Fleur. “Ela precisa se deitar.”
Fleur respirou fundo e se apoiou em Iris, chorando e soluçando.
Richard parecia completamente chocado. “Ela estava agora mesmo
gritando comigo.” Ele disse a ninguém em particular. E olhou para Fleur. “Você
estava agora mesmo gritando comigo.”
“Vá embora!” Fleur disse chorando, suas palavras ecoando pelo corpo de
Iris.
Richard olhou para as duas e falou um palavrão em voz baixa. “Agora
você está do lado dela,”
“Não há nenhum lado,” Iris disse sem entender qual seria o outro lado.
“Não entende? Essa é uma situação terrível. Para todos. Ninguém sairá disso
intacto.”
Seus olhos se encontraram; não, seus olhos se confrontaram e Richard
finalmente se virou e foi embora. Iris o olhou até que ele sumiu no morro e ela
expirou longamente.
“Você está bem?” ela perguntou para Fleur, que ainda soluçava em seus
braços. “Não, não responda. É claro que não está bem. Nenhum de nós está.”
“Por que ele não me escuta?” Fleur disse baixinho.
“Ele acredita que está fazendo o melhor para você.”
“Mas ele não está.”
Iris respirou fundo, tentando manter a voz calma quando disse. “Ele
certamente não está fazendo o melhor para ele mesmo.”
Fleur se soltou e olhou para ela. “Ou para você.”
“Certamente não para mim.” Iris disse causticamente.
Fleur fechou os lábios em uma linha. “Ele não me entende.”
“Eu também não.”
Fleur colocou a mão sobre o abdome. “Eu amo – perdão, eu amava o pai.
Esse bebê é fruto desse amor. Eu não posso simplesmente desistir dele.”
“Você o amava?” Iris perguntou. Como era possível? Se metade do que
Richard disse fosse verdade, William Parnell fora uma pessoa terrível.
Fleur a olhou, balançando os pés. “É difícil explicar.”
Iris balançou a cabeça. “Não precisa tentar. Vamos, quer voltar para
dentro?”
Fleur assentiu e elas começaram a andar. Após alguns minutos Fleur disse
completamente sem fervor. “Sabe, que ainda te odeio.”
“Eu sei,” Iris disse. Ela pegou a mão de Fleur e apertou levemente. “Eu
ainda te odeio também, às vezes.”
Fleur olhou para ela esperançosa. “Você odeia?”
“Às vezes.” Iris se abaixou e arrancou um pedaço de grama. Ela pôs entre
os dedos e tentou fazer um apito. “Eu realmente não quero ficar com o seu
bebê.”
“Eu não consigo imaginar uma razão para você querer.”
Elas voltaram a andar e após alguns passos Iris perguntou. “Você não vai
me perguntar por que eu aceitei?”
Fleur deu de ombros. “Não importa realmente, não é?”
Iris pensou um pouco e disse. “Não, acho que não.”
“Eu sei que tem boa intenção.”
Iris assentiu continuando a andar.
“Você não vai dizer o mesmo?” Fleur perguntou.
Iris se virou para ela. “O que, que você tem boa intenção?”
Fleur a encarou impertinente.
“Suponho que tenha,” Iris finalmente concordou. “Confesso que acho sua
atitude totalmente desconcertante, mas suponho que tenha boa intenção.”
“Eu não quero me casar com um estranho.”
“Eu me casei.”
Fleur parou de andar.
“Bom, um quase estranho na verdade.” Iris permitiu.
“Você não estava grávida de outro homem.”
Santo Deus, essa garota conseguia ser irritante. “Ninguém está dizendo
para enganar seu noivo.” Iris disse a ela. “Tenho certeza que há alguém que
ficaria feliz por se unir a Maycliffe.”
“E me lembrará que devo me sentir grata por isso o resto da minha vida.”
Fleur disse amargamente. “Já pensou nisso?”
“Não,” Iris respondeu. “Não pensei.”
Elas chegaram ao fim do jardim oeste, e Iris olhou para o céu. O tempo
ainda estava fechado, mas algumas nuvens tinham desaparecido. Talvez ficasse
ensolarado. “Eu vou ficar aqui fora.” Ela disse.
Fleur olhou para o céu também. “Você quer um xale?”
“Sim, eu quero sim.”
“Vou pedir para uma das empregadas te trazer um.”
Era um claro gesto de amizade. “Isso seria ótimo, obrigada.”
Fleur acenou e entrou na casa.
Iris foi até um banco e se sentou, esperando pelo sol.
Capítulo 22

À noite Iris estava um pouco mais relaxada. Ela tinha passado o resto do dia
sozinha, se sentindo somente um pouco culpada quando decidiu comer o jantar
no próprio quarto. Depois da interação da manhã com Richard e Fleur ela achou
que mereceu o direito de ficar sozinha por um tempo. Toda conversa foi muito
exaustiva.
Mas o sono não chegava, não importava como se sentia, e alguma hora
depois da meia noite ela desistiu de tentar, jogou os cobertores e atravessou o
quarto até a pequena escrivaninha que Richard trouxe para o quarto alguns dias
antes.
Ela olhou para a pequena seleção de livros sobre a mesa. Ela já tinha
terminado todos, exceto o sobre a história de Yorkshire, que se recusava a ficar
interessante, até mesmo no capítulo sobre a Guerra das Rosas. Como o autor
conseguiu fazer desse assunto um tema chato ela nunca saberia.
Pegando os livros com os braços, ela calçou os chinelos e foi para a porta.
Ela não acordaria ninguém se fosse de fininho até a biblioteca.
Os empregados tinham se retirado há um tempo e a casa estava muito
silenciosa. Ainda assim, Iris andou levemente, agradecida pelos carpetes suaves
que abafavam seus passos. Em sua casa ela conhecia todos os pontos que
rangiam e portas barulhentas. Ela ainda não tinha aprendido isso sobre
Maycliffe.
Ela parou de andar, fazendo uma careta. Isso não estava certo. Ela tinha
que parar de pensar na casa dos pais como se fosse sua. Maycliffe era sua casa
agora. Ela tinha que se acostumar com isso.
Ela pensou que estava começando a se acostumar, pelo menos um pouco.
Mesmo com todo o drama – e céus, havia muito drama – Maycliffe ocupava um
lugar em seu coração. O sofá da sala de estar era o seu sofá agora, disso não
haviam dúvidas, e ela já estava habituada ao som dos pássaros de barriga
amarela que descansavam perto de sua janela. Ela não sabia o nome deles, mas
sabia que eles não existiam em Londres.
Ela estava começando a se sentir em casa aqui, por mais estranho que isso
fosse. Em casa com um marido que não a levava para a cama, uma irmã que a
odiava (às vezes) por tentar salva-la da ruina e outra irmã que ... que ...
Ela pensou no assunto. Não havia muito o que dizer sobre Marie-Claire.
Iris trocou poucas palavras com ela desde daquele primeiro dia. Ela deveria
consertar isso. Seria bom se pelo menos uma das irmãs de Richard não a visse
como o diabo incarnado (às vezes).
Ao descer as escadas Iris se virou para ir para a biblioteca. Era no fim do
corredor, depois da sala de estar e do escritório de Richard. Ela gostava do
escritório, ela decidiu. Ela não teve muitas oportunidades de estrar no santuário
masculino recentemente, mas era um cômodo aquecido e confortável com a
mesma vista para o sul que ela tinha de seu quarto.
Ela parou para ajustar o castiçal nas mãos e espiou. Aquela era uma luz
no fim do corredor ou apenas o reflexo de sua própria vela? Ela ficou parada.
Até prendeu a respiração, depois continuou a nadar, com passos leves.
“Iris?”
Ela congelou. Mas não tinha com o que se preocupar. Ela andou mais um
pouco e espiou o escritório de Richard. Ele estava sentado em uma poltrona
perto da lareira, um copo pela metade de algo alcóolico em sua mão.
Ela virou a cabeça em sua direção. “Imaginei que fosse você.”
“Me desculpe. Eu te atrapalhei?”
“Nem um pouco.” Ele disse sorrindo para ela de sua poltrona confortável.
Iris pensou que talvez ele estivesse um pouco bêbado. Não era típico dele não se
levantar quando uma mulher entrava no mesmo cômodo.
Também era estranho ele estar sorrindo para ela. Considerando a última
conversa que tiveram.
Ela apertou os livros contra o peito. “Eu estava indo procurar algo para
ler.” Ela disse apontando para a biblioteca.
“Eu imaginei.”
“Não consigo dormir,” ela disse.
Ele deu de ombros. “Eu também não.”
“Sim, estou vendo.”
Ele sorriu preguiçosamente. “Conversadores graciosos, nós dois.”
Iris soltou uma curta risada. Era estranho que pudessem encontrar humor
novamente agora que a casa estava adormecida. Ou talvez não fosse. Ela esteve
contemplativa o dia inteiro, desde sua conversa inesperada com Fleur. Elas não
chegaram em um acordo, mas Iris achou que elas foram capazes de enxergar
coisas boas uma na outra.
Certamente ela seria capaz de fazer o mesmo com Richard.
“Um centavo por seus pensamentos,” Richard disse.
Iris olhou com as sobrancelhas levantadas. “Eu já tenho muitos centavos,
obrigada.”
Ele pôs a mão no peito. “Estou ofendido, e mal pago.”
“Bem pago, na verdade,” Iris corrigiu. Pois era o tipo de coisa que ela
costumava dizer.
Ele riu.
“É importante ser preciso em todos os assuntos.” Ela disse, mas estava
sorrindo também.
Ele riu e levantou o copo. “Bebida?”
“O que é?”
“Whiskey.”
Iris piscou surpresa. Ela nunca ouviu falar de homem oferecendo
Whiskey a uma mulher.
Imediatamente ela quis experimentar.
“Só um pouco.” Ela disse colocando os livros sobre a mesa. “Eu não sei
se vou gostar.”
Richard riu enquanto colocava a bebida no copo. “Se você não gostar
disso, você não gosta de Whiskey.”
Ela o olhou com dúvida enquanto se sentava em uma poltrona de frente
para ele.
“Esse é o melhor que há.” Ele disse sem modéstia. “Não é difícil arranjar
os muito bons por aqui, já que estamos tão perto da Escócia.”
Ela olhou para o copo e cheirou o liquido. “Eu não sabia que você era um
connoiseur.”
Ele deu de ombros. “Tenho bebido muito ultimamente.”
Iris desviou o olhar.
“Eu não disse isso para te acusar.” Ele fez uma pausa para beber um gole.
“Acredite quando digo que sei que esse é um atoleiro criado por mim.”
“E por Fleur,” Iris disse.
Ele a olhou nos olhos e deu um meio sorriso, quase imperceptível. O
suficiente como agradecimento por ela reconhecer isso. “E por Fleur,” ele
concordou.
Eles ficaram em silencio por vários minutos, Richard bebendo seu
Whiskey enquanto Iris dava pequenos goles. Ela gostou. Era quente e frio ao
mesmo tempo. De que outra forma ela descreveria algo que queimava seu peito
até faze-la tremer?
Ela passou mais tempo olhando para o copo do que para o marido, se
permitindo estudar seu rosto apenas quando ele fechava os olhos e encostava a
cabeça na poltrona. Ele estava dormindo? Ela achava que não. Ninguém dormia
tão rapidamente, muito menos sentado.
Ela levou o copo aos lábios, tomando um gole maior dessa vez. Desceu
mais suavemente dessa vez, mas talvez isso fosse resultado dos goles anteriores.
Richard ainda estava de olhos fechados. Ele realmente não estava
dormindo. Seus lábios estavam fechados relaxadamente e Iris reconheceu
aquela expressão. Ele fazia aquilo quando estava pensando. Bom, é claro que
ele sempre estava pensando, é o que os seres humanos fazem, mas ele fazia
aquilo quando estava pensando em algo particularmente incomodo.
“Eu sou uma pessoa tão terrível?” ele perguntou ainda de olhos fechados.
Iris ficou surpresa. “É claro que não.”
Ele soltou um longo suspiro e finalmente abriu os olhos. “Eu costumava
pensar assim.”
“Você não é,” ela disse outra vez.
Ela olhou para ela longamente e assentiu. “É bom saber.”
Iris não sabia o que dizer, então tomou outro gole de Whiskey,
esvaziando o copo.
“Mais?” Richard perguntou, segurando a garrafa.
“Eu não deveria,” ela disse mas ofereceu o copo de qualquer maneira.
Ela colocou um pouco mais dessa vez.
Ela olhou para o copo, segurando-o ao nível dos olhos. “Isso vai me
deixar bêbada?”
“Provavelmente não.” Ele torceu a boca, como se estivesse fazendo
contas de matemática. “Mas pode ser possível. Você é pequena. Você jantou?”
“Sim.”
“Então vai ficar bem.”
Iris assentiu e olhou para o copo, o mexendo levemente. Eles beberam em
silencio por mais um tempo e então ela disse. “Você não deveria pensar que é
uma pessoa terrível.”
Ele ergueu uma sobrancelha.
“Eu estou infinitamente zangada com você, e acho que está cometendo
um grande erro, mas eu entendo seus motivos.” Ela continuou olhando para o
Whiskey, um pouco fascinada pelo modo que a luz da lareira iluminava o
liquido. Quando voltou a falar foi em um tom pensativo. “Alguém que ama
tanto as irmãs não pode ser uma pessoa terrível.”
Ele ficou em silencio por um tempo e depois disse. “Obrigado.”
“Isso fala em seu favor, você estar disposto a fazer tamanho sacrifício.”
“Eu estou torcendo.” Ele disse calmamente. “Que não seja tão
sacrificante quando eu segurar o bebê em meus braços.”
Iris concordou. “Eu estou torcendo também.”
Ele se inclinou para frente e descansou os braços nos joelhos. Isso fez
com que ele ficasse com a cabeça mais baixa que a dela, e ele a encarou com
seus olhos escuros. “Eu realmente lamento, sabe.”
Ela não disse nada.
“Por ter sido forçada a isso.” Ele explicou sem necessidade.
“Provavelmente não importa, mas eu temia o dia que te contaria.”
“Espero que sim.” Ela retrucou antes de conseguir se conter. É claro que
ele temeria. Quem gostaria de fazer uma coisa dessas?
“Não, eu quero dizer, eu sabia que você me odiaria.” Ele fechou os olhos.
“Não era a parte de contar que me dava medo. Eu nunca cheguei a pensar nessa
parte na verdade. Eu só não queria que você me odiasse.”
Ela suspirou. “Eu não te odeio.”
Ele a encarou. “Você deveria.”
“Bem, eu odiei. Por alguns dias pelo menos.”
Ele assentiu. “Isso é bom.”
Iris não conseguiu conter o sorriso.
“Seria rude de minha parte te negar isso.” Ele disse ironicamente.
“Minha raiva?”
Ele levantou o copo. Um brinde? Talvez. “Você tem o direito.” Ele disse.
Iris balançou a cabeça lentamente e pensou, que diabos, e levantou o
copo também.
“Por que estamos brindando?” ele perguntou.
“Eu não faço ideia.”
“Justo,” ele inclinou a cabeça. “Por sua saúde, então.”
“Minha saúde,” Iris disse com um riso. Santo Deus, que situação.
“Certamente será a gravidez menos perigosa da História.” Ela disse.
Ele a olhou um pouco surpreso e sorriu. “Nada de febre materna para
você.”
Ela tomou um gole de Whiskey. “Eu recuperarei minha forma com uma
velocidade sobrenatural.”
“As outras damas ficarão com inveja.” Ele disse solenemente.
Iris riu, fechando os olhos brevemente antes de voltar a olhar para
Richard. Ele estava a observando, quase a estudando e sua expressão ... não era
de luxuria ou de desejo, era apenas de ...
Gratidão.
Ela desviou o olhar, se perguntando por que se sentia desapontada. Ele
deveria se sentir grato pelo o que ela estava fazendo, e ainda assim....
Não parecia certo.
Não era o suficiente.
Ela balançou o Whiskey. Estava quase no fim.
Quando ela ouviu a voz de Richard ela soava triste e fraca na escuridão.
“O que faremos, Iris?”
“O que faremos?”
“Nós temos a vida inteira de casados pela frente.”
Iris encarou sua bebida. Ele estava pedindo para ela perdoa-lo? Ela não
tinha certeza se estava pronta para fazer isso. Mas de algum modo ela sabia que
faria. Isso que significava se apaixonar? Que ela perdoaria o imperdoável? Se
algo assim tivesse acontecido a uma de suas irmãs ou primas ela jamais
perdoaria os maridos. Jamais.
Mas esse era Richard. E ela o amava. No fim, era isso que importava.
No fim.
Mas talvez agora não.
Ela respirou fundo. Isso era típico dela. Saber que perdoaria mas se
recusar a fazê-lo agora. Não era para fazê-lo sofrer. Sequer era por
ressentimento. Ela só não estava pronta. Ele disse que ela tinha o direito de
sentir a raiva, e ele estava certo.
Ela o olhou. Richard a observava.
“Vai ficar tudo bem.” Ela disse. Isso era tudo que ela poderia oferecer
agora. Ela esperava que ele entendesse.
Ele assentiu então se levantou e ofereceu a mão. “Posso te levar até seu
quarto?”
Parte dela ansiava pelo calor de seu corpo junto dela, até mesmo o toque
de seu baço em sua mão. Mas ela não queria se apaixonar ainda mais. Pelo
menos não essa noite. Ela sorriu com pesar quando se levantou. “Não acho que
seja uma boa ideia.”
“Então posso te levar até a porta?”
Ela olhou para ele surpresa, a porta estava a menos de dois metros. Era
um gesto desnecessário, mas ela não pode resistir e pegou na mão de Richard.
Ele a apertou de leve e a levantou um pouco, como se fosse beija-la mas
mudou de ideia. Ao invés, ele entrelaçou os dedos aos dela e a levou até a porta.
“Boa noite,” ele disse, mas não soltou sua mão.
“Boa noite,” ela disse e não tentou se soltar.
“Iris ...”
Ela o encarou. Ele iria beija-la. Ela viu em seus olhos, ardentes e cheios
de desejo.
“Iris,” ele disse outra vez, e ela não recusou.
Seus dedos cálidos tocaram em seu queixo, levantando-o em direção ao
dele. Ainda assim ele esperou, e finalmente quando não havia mais nada que
pudesse fazer ela assentiu, brevemente, mas ele percebeu.
Lentamente, tão lentamente que ela teve certeza que poderia se virar pelo
menos duas vezes ele aproximou o rosto ao dela. Seus lábios se encontraram, o
toque suave e elétrico. Ele roçou os lábios nos dela, e a fricção suave causou
arrepios e uma sensação de aperto em seu âmago.
“Richard,” ela sussurrou, e talvez ele conseguiu ouvir o amor escondido
em sua voz. Talvez, naquele momento, ela não se importava.
Ela abriu mais os lábios, mas ele não aumentou a intensidade do beijo. Ao
invés disso, ele descansou a testa na dela.
“É melhor você ir.”
Ela ficou parado por alguns segundos, depois se soltou.
“Obrigado,” ele disse.
Ela assentiu, passando a mão pelo batendo enquanto saía de perto dele.
Obrigado, ele disse.
Algo dentro dela se moveu. Logo, ela pensou. Logo ela estaria pronta
para perdoar.

Richard observou ela ir embora.


Ele a observou enquanto andava pelo corredor e desaparecia na curva
para as escadas. Havia pouca luz no corredor, mas o pouco que tinha parecia
ilumina-la como uma estrela.
Ela era uma grande contradição. Tão etérea na aparência e tão pragmática
na mente. Ele amava isso nela, o modo que ela era implacavelmente sensata. Ele
imaginou que talvez isso que o atraiu primeiramente. Será que sua racionalidade
jamais permitiria que ela esquecesse o insulto de Richard?
Mesmo se ela o perdoasse, e ele estava começando a acreditar que ela
perdoaria, ele jamais perdoaria a si mesmo.
Ele a machucou profundamente. Ele a escolheu para esposa pelos motivos
mais repreensíveis possíveis. Era apropriado que agora ele a amasse tão
ardentemente.
Tão desesperadamente.
Ele não via como ela poderia chegar a ama-lo, não depois do que ele fez.
Mas ele tinha que tentar. E talvez fosse suficiente só ele amar a ela.
Talvez.
Capítulo 23

Na manhã seguinte

“Iris? Iris?”
Iris abriu um olho. Apenas um. O outro continuou firmemente fechado,
pressionado contra o travesseiro.
“Oh, que bom, está acordada!”
Maria-Claire, Iris pensou com sua usual irritabilidade matinal. Deus do
céu, que horas eram e por que ela estava no quarto de Iris?
Iris fechou o olho.
“São dez e meia,” Maria-Claire disse animadamente, “Está
excepcionalmente quente lá fora.”
Iris não conseguia imaginar o que isso tinha a ver com ela.
“Eu pensei que podíamos dar uma volta.”
Ah.
O colchão se moveu com o peso de Marie-Claire quando ela se
empoleirou na lateral. “Nós não tivemos a oportunidade de nos conhecer
direito.”
Iris soltou um suspiro, o tipo que seria acompanhado por um fechar de
olhos se ela já não estivesse com a cara enfiada no travesseiro. Ela estava
pensando exatamente isso na noite anterior. Só não planejava fazer nada em
relação ao assunto antes do meio dia.
“Vamos?” Marie-Claire perguntou, explodindo de energia alegre e
irritante.
“Mmphghrglick.”
Um pequeno silêncio e então – “Perdão, eu não entendi.”
Iris grunhiu contra o travesseiro. Ela não sabia como poderia ser mais
clara.
“Iris? Está se sentindo mal?”
Iris finalmente virou o corpo e se forçou a falar, “Eu não estou no meu
melhor durante a manhã.”
Maria-Claire apenas a encarou.
Iris esfregou um olho. “Talvez se saíssemos – o que foi?” a última frase
foi feita em um estalo.
“Ehrm ...” Um dos cantos da boca de Maria-Claire se esticou em uma
tentativa de conter o sorriso. “Sua bochecha.”
Iris soltou um suspiro ofendido. “Marca de travesseiro?”
“Oh, então é isso?” ela perguntou com tanta ousadia que Iris desejou ter
uma arma por perto.
“Você nunca viu antes?” ela perguntou.
“Não,” Marie-Claire fez uma careta. “Eu sempre durmo de costas. E eu
acho que Fleur também.”
“Eu durmo em muitas posições.” Iris resmungou, “mas na maioria ... eu
durmo tarde.”
“Entendo.” Marie-Claire engoliu seco, mas esse foi o único sinal de
embaraço entes de dizer, “Bom, você está acordada agora, então pode levantar e
começar o dia. Eu acho que não sobrou nada do café da manhã lá em baixo, mas
tenho certeza que a Sra. Hopkins pode fazer um lanche. Você pode levar com
você.”
Iris olhou para a cama. Ela imaginou aquela cama doce e confortável com
uma bandeja de café da manhã. Mas Maria-Claire tinha feito um gesto amigável
e Iris sabia que deveria aceitar. “Obrigada.” Ela disse, torcendo para seu rosto
não evidenciar o esforço necessário para formar palavras. “Isso seria adorável.”
“Perfeito!” Marie-Claire disse radiante. “Eu te encontro na portaria, em
vejamos, dez minutos?”
Iris iria barganhar por quinze, ou melhor vinte, mas então pensou – já
estava acordada mesmo. Perdido por cem, perdido por mil. Santo Deus.
Para Marie-Claire ela disse, “Por que não?”

Vinte minutos depois Iris e Maria-Claire marchavam pelos jardins ocidentais de


Maycliffe. Iris não tinha certeza de onde estavam indo; Maria-Claire tinha dito
algo sobre colher frutinhas, mas parecia cedo no ano para isso. De qualquer
modo, Iris realmente não se importava. Ela tinha um bolinho quente e
amanteigado nas mãos, e estava quase certa que aquilo era a melhor coisa que
ela já comeu. Alguém da cozinha tinha que ser da Escócia. Era a única
explicação.
Elas não conversaram muito enquanto desciam a colina. Iris estava
ocupada saboreando o café da manhã, e Maria-Claire parecia feliz o suficiente,
balançando a cesta enquanto andava. Assim que chegaram em um caminho de
pedras Marie-Claire pigarreou e disse, “Eu não sei se alguém já te agradeceu
apropriadamente.”
Iris ficou parada, esquecendo até de mastigar por alguns segundos. Ela
não teve o prazer de conversar direito com Marie-Claire, e isso ... Bom,
francamente, isso a surpreendeu.
“Por ...” Marie-Claire apontou para a própria barriga, sua mão fazendo
círculos nos ar. “Por aquilo.”
Iris voltou a olhar para o caminho. Richard a agradeceu. Levou três dias,
mas sendo justa, Iris não deu-lhe oportunidade de fazê-lo antes da conversa da
noite anterior. E mesmo se ele tivesse tentado, se ele tivesse batido em sua porta
e insistido que ela ouvisse, não importaria. Ela não esteve pronta pra uma
conversa verdadeira.
“Iris?”
“Por nada,” Iris disse, fingindo estar distraída com seu bolinho. Ela
realmente não queria falar sobre isso com Marie-Claire.
Mas a garota mais nova tinha outros planos. “Eu sei que Fleur parece
muito ingrata.” Ela insistiu. “Mas ela vai entender. Um dia.”
“Temo não concordar com você nisso.” Iris disse. Ela ainda não tinha
ideia de como Richard achava que isso funcionaria sem a cooperação de Fleur.
“Ela não é burra, não importa como está agindo agora. Na verdade, na
maior parte do tempo ela não é – bom, ela não é tão emotiva assim.” Os lábios
de Marie-Claire se fecharam e ela ficou com uma expressão pensativa. “Ela era
muito apegada a nossa mãe, mais do que Richard e eu.”
Iris não sabia disso. Richard não falava muito da mãe, apenas disse que
ela tinha morrido e que ele sentia muita falta dela.
“Talvez isso tenha feito com que Fleur fosse mais maternal,” Marie-
Claire continuou. Ela olhou para Iris e deu de ombros levemente. “Talvez por
isso ela se sinta tão ligada ao bebê.”
“Talvez,” Iris disse. Ela soltou um suspiro, olhando para a própria
barriga. Ela teria que começar a usar enchimento logo. A única razão de não ter
feito isso ainda eram os muitos quilômetros que separavam Yorkshire e
Londres. As damas não eram tão obcecadas por moda por aqui, e ela poderia
passar mais tempo usando os vestidos da última estação. A silhueta dos vestidos
estava mudando na capital; os vestidos folgados estavam sendo substituídos por
peças mais estruturadas e desconfortáveis. Até 1840, Iris previu que as mulheres
se apertariam tanto em espartilhos que desapareceriam.
“Elas andaram mais um pouco e Marie-Claire disse, “Bom, eu estou te
agradecendo.”
‘Por nada.” Iris disse outra vez, dessa vez olhando para Maria-Claire com
um pequeno sorriso. A garota estava tentando. O mínimo que Iris podia fazer
era ser gentil.
“Eu sei que Fleur diz que quer ser mãe,” Marie-Claire disse jovialmente,
“mas é muito egoísta da parte dela. Você acredita que ela não se desculpou
comigo sequer uma vez?”
“Se desculpar com você?” Iris murmurou. Porque, sério, ela pensou que
ela merecia desculpas primeiro.
“Ela vai me arruinar,” Marie-Claire disse. “Você sabe disso. Se não
estivesse fazendo o que está fazendo – “
Fazendo o que está fazendo, Iris pensou. Que eufemismo adorável.
“- e ela fosse em frente e criasse o bebê sozinha, ninguém se casaria
comigo. Marie-Claire se virou para Iris com uma expressão quase beligerante.
“Você provavelmente dirá que estou sendo egoísta, mas você sabe que essa é a
verdade.”
“Eu sei,” Iris disse calmamente. Talvez se Richard deixasse Marie-Claire
passar uma temporada em Londres ... eles provavelmente encontrariam alguém
para ela, alguém que vivesse longe dessa parte de Yorkshire. A fofoca se
espalhava, mas não por muito longe geralmente.
“É tão injusto. Ela comete um erro e eu pago o preço.”
“Eu não diria que ela está saindo impune dessa.” Iris disse.
Marie-Claire a olhou impaciente. “Sim, mas ela merece, eu não.”
Não era o modo de pensar mais apropriado, mas Iris tinha que admitir que
Marie-Claire tinha razão.
“Acredite quando eu digo que há algumas garotas que estão loucas por
um motivo para me isolar.” Marie-Claire suspirou, perdendo um pouco da força
de antes. Ela olhou para Iris com uma expressão perdida. “Você conhece
garotas assim?”
“Algumas,” Iris admitiu.
Elas andaram mais um pouco e Marie-Claire disse de repente. “Acho que
posso perdoa-la um pouco.”
“Um pouco?” Iris sempre achou que perdão fosse uma questão de tudo ou
nada.
“Eu não sou completamente imoderada,” Marie-Claire disse. “Eu
reconheço que ela está em uma situação difícil. Afinal, não é como se ela
pudesse se casar com o pai.”
Isso era verdade, mas Iris ainda achava que Fleur estava tendo uma visão
acanhada em relação a tudo isso. Não que Richard tivesse o direito de fazer o
que estava fazendo. Qualquer tolo veria que a melhor solução era encontrar um
marido para ela. Ela não encontraria um cavalheiro com títulos; Richard já tinha
dito que não tinha o dinheiro para pagar por isso. Mas certamente existia
alguém nas redondezas que gostaria de se conectar aos Kenworthys. Um
pároco, talvez, que não tivesse terras e propriedades para deixar de herança. Ou
alguém novo na região, procurando melhorar suas conexões.
Iris se abaixou para tocar na flor delicada que surgia as bordas do
caminho. Ela imaginou que flor era. Ela nunca tinha a visto ao sul da Inglaterra.
“É difícil se casar com um homem morto,” ela tentou brincar, mas seu tom
estava mais amargo do que brincalhão.
Marie-Claire riu pelo nariz.
“O que foi?” Iris se virou para ela, estreitando os olhos. Tinha algo em
relação a Marie-Claire ...
“Por favor,” Marie-Claire disse. “A Fleur é uma grande mentirosa.”
Iris parou, com a mão ainda nas folhas da pequena flor. “Perdão?”
Marie-Claire mordeu o lábio inferior nervosamente, como se tivesse
percebido que falou demais.
“Marie-Claire,” Iris disse a segurando pelo braço, “O que quer dizer,
Fleur é uma mentirosa?”
Marie-Claire engoliu seco e olhou para a mão de Iris. Iris não diminuiu a
força com que a segurava.
“Marie-Claire!” ela disse rigidamente. “Me conte!”
“Por que isso importa?” Marie-Claire retrucou. Ela puxou o braço. “Ela
está grávida e não vai se casar, e no fim, é só isso que importa a todos.”
Iris se segurou para não gritar. “Sobre o que ela mentiu?”
“Sobre o pai, é claro,” Marie-Claire grunhiu, ainda tentando soltar o
braço. “Você não vai me soltar?”
“Não,” Iris disse secamente. “Não é William Parnell?”
“Oh, por favor. Até Fleur é esperta o suficiente para manter distância
dele.” Marie-Claire olhou para o céu rapidamente. “Que Deus o tenha.” Ela
pensou um pouco. “Eu acho.”
Iris apertou o braço de Marie-Claire com mais força e grunhiu. “Eu não
me importo onde William Parnell passará a eternidade. Eu quero saber por que
Fleur mentiu? Ela te contou isso? Que ele não é o pai?”
Marie-Claire parecia quase insultada. “É claro que não.”
“Então quem é?”
Marie-Claire escolheu esse momento para adotar uma expressão recatada.
“Não sou eu que devo contar.”
Iris puxou a cunhada para perto e Marie-Claire mal teve tempo de respirar
antes de ser forçada a encarar Iris diretamente. “Você irá me contar ou Deus me
ajude eu só não te mato porque é um crime punível com a forca.”
Marie-Claire só a olhou.
Iris segurou o braço de Marie-Claire com mais força. “Eu tenho quatro
irmãs, Marie-Claire, uma delas é extraordinariamente irritante. Confie em mim
quando eu digo que posso transformar a sua vida em um inferno.”
“Mas por que – “
“Me conte!” Iris rosnou.
“John Burnham!” Marie-Claire gritou.
Iris soltou seu braço. “O que?”
“É John Burnham,” Marie-Claire disse apertando o braço dolorido.
“Estou quase certa disso.”
“Quase?”
“Bom, ela estava sempre escapando para encontra-lo. Ela pensava que eu
não sabia, mas – “
“É claro que você sabia,” Iris disse baixo. Ela sabia como era entre irmãs.
Não havia como Fleur escapar para encontrar um homem sem que Marie-Claire
soubesse.
“Eu precisarei de um curativo,” Marie-Claire disse petulante. “Olhe como
ficou meu braço. Você não precisava ser tão rude.”
Iris a ignorou. “Por que não disse nada antes?”
“Para quem?” Marie-Claire perguntou. “Para meu irmão? Ele não
gostaria mais disso do que se realmente fosse William Parnell.”
“Mas John Burnham está vivo.” Iris disse gritando. “Fleur pode se casar
com ele e ficar com o bebê.”
Marie-Claire a olhou com dedem. “Ele é um fazendeiro, Iris. E não é um
cavalheiro. Ele não é o dono da terra.”
“Você é realmente tão esnobe?”
“E você não é?”
Iris estranhou a acusação. “O que quer dizer?”
“Eu não sei,” Marie-Claire respondeu com um gemido frustrado. “Mas
me diga, o que sua família pensaria se tivesse se casado com um fazendeiro? Ou
isso não conta já que seu avô era um conde?”
Isso foi o suficiente. Iris estava farta dela. “Cale essa boca.” Ela lançou.
“Você não tem ideia do que está falando. Se o título do meu avô me desse uma
licença para agir de qualquer maneira impunemente eu não teria me casado com
seu irmão.”
Maria-Claire ficou com a boca aberta.
“Richard me beijou e eu fui lançada ao altar.” Iris explodiu. Ela odiava
lembrar disso, como ela pensou que talvez ele a desejasse, que talvez ele tivesse
sido tomado pelo desejo de tal maneira que não pôde se conter. Mas a realidade
não era tão romântica. Ela estava aprendendo que a realidade nunca era.
Ela se virou para Marie-Claire com os olhos firmes. “Eu te garanto que se
eu engravidasse de um fazendeiro, eu me casaria com ele.” Ela fez uma pequena
pausa. “Considerando é claro, que a intimidade foi consensual.”
Marie-Claire não disse nada então Iris continuou. “Pelo o que você disse
sobre sua irmã e o Sr. Burnham, eu imagino que houve consentimento.”
Marie-Claire ficou tensa. “Eu não estava lá, evidentemente.” Ela disse.
Iris fechou os dentes com força e flexionou os dedos, esperando que os
movimentos diminuíssem a vontade que surgiu de esganar Marie-Claire. Ela
não acreditava que essa conversa estava acontecendo. Não só Marie-Claire
sabia que John Burnham era o verdadeiro pai da criança, mas também decidiu
não dizer nada. O que espantava Iris completamente é que Marie-Claire parecia
pensar que fez a coisa certa ao ficar calada.
Santo Deus, ela estava vivendo entre idiotas?
“Eu preciso voltar para a casa.” Iris anunciou. Ela se virou e começou a
subir a colina. O sol estava brilhando e a atmosfera era adorável, mas ela só
queria se fechar em um quarto, trancar a porta e falar com ninguém
absolutamente.
“Iris,” Marie-Claire disse, seu tom fez com que Iris parasse.
“O que?” ela perguntou secamente.
Marie-Claire ficou parada, piscando rapidamente e então disse, “Richard
não ... quero dizer, ele jamais ...”
“Claro que não!” Iris exclamou, horrorizada pela sugestão. Richard a
surpreendeu com seus avanços, mas nunca a forçou a nada. Ele jamais seria
capaz de fazer algo assim. Ele era um homem bom demais para isso.
Iris respirou fundo. Ela não desejava pensar nas qualidades do marido.
“E você o ama,” Marie-Claire disse suavemente. “Não ama?”
Iris fechou os lábios e respirou rapidamente pelo nariz. Ela não podia
negar, mas também não confirmaria. Ela tinha que ser orgulhosa.
“Estou cansada.” Ela disse
Marie-Claire assentiu, e começou a andar em direção a casa. Elas mal
começaram quando Iris pensou em algo. “Espere,” ela disse. “Por que Fleur não
disse nada?”
“Perdão?”
“Por que ela mentiu?”
Marie-Claire deu de ombros.
“Ela deve gostar muito do Sr. Burnham.” Iris disse.
Marie-Claire deu ombros outra vez. Iris queria bater nela.
“Você disse que ela escapava para se encontrar com ele.” Iris disse. “Isso
indica um nível de afeição.”
“Bom, eu nunca perguntei nada a ela,” Marie-Claire respondeu. “Ela
obviamente estava tentando esconder. Você não faria o mesmo?”
Iris respirou fundo frustrada. “Você tem uma opinião sobre o assunto?’
ela perguntou tão lentamente que era quase um insulto. “Você tem alguma
hipótese da razão dela esconder a verdadeira identidade do pai da criança?”
Marie-Claire a encarou como se ela fosse uma idiota. “Ele é um
fazendeiro. Eu te disse isso.”
Iris queria muito bater nela. “Eu entendo que ele não é o tipo de homem
que esperam que ela se case, mas se ela gosta dele é melhor que se case do que
criar a criança sozinha.”
“Mas ela não vai fazer isso,” Marie-Claire disse. “Ela vai dar a criança
para você.”
“Eu não teria certeza disso,” Iris falou. Fleur jamais concordou com o
plano de Richard. Ele pensava que seu silencio consentia, mas Iris era mais
desconfiada.
Marie-Claire suspirou. “Eu tenho certeza que ela percebeu que não podia
se casar com ele, não importando como se sentia. Eu não quero parecer
insensível. De verdade, não quero. Mas você não é daqui, Iris. Você não sabe
como é. Fleur é uma Kenworthy. Nós somos a principal família proprietária de
terras de Flixton há séculos. Você tem ideia do escândalo que seria se Fleur se
casasse com um fazendeiro local?”
“Não seria pior do que a alternativa.” Iris disse rapidamente.
“Obviamente, ela não pensa assim,” Marie-Claire disse. “E é a opinião
dela que importa, não acha?”
Iris a encarou por um tempo e disse, “Está certa,” e continuou a andar.
Que Deus protegesse Fleur quando Iris a encontrasse.
“Espere!” Marie-Claire gritou, levantando as saias para correr. “Aonde
vai?”
“Aonde você acha?”
“Eu não sei.” Marie-Claire parecia quase sarcástica, o que foi o suficiente
para fazer Iris parar. Quando ela olhou sobre o ombro, Marie-Claire perguntou,
“Você vai falar com Richard ou com Fleur?”
Agora Iris realmente parou. Ela não tinha pensado em falar diretamente
com Richard. Mas talvez devesse. Ele era seu marido. Ele deveria vir em
primeiro lugar não é?
Deveria ... mas o segredo era de Fleur e ela que deveria contar.
“Bem?” Marie-Claire perguntou impaciente.
“Fleur,” Iris disse secamente. Mas se Fleur se recusasse a fazer a coisa
certa e contar tudo a Richard, Iris ficaria feliz em fazer isso por ela.
“Verdade?” Marie-Claire disse. “Eu pensei que iria correndo contar ao
Richard.”
“Então por que perguntou?” Iris lançou, voltando a andar.
Marie-Claire ignorou. “Fleur não vai te contar nada.”
Iris parou pelo tempo suficiente para lançar um olhar mortal para Marie-
Claire. “Você contou.”
Marie-Claire congelou. “Você não vai dizer a ela que eu te contei, vai?”
Iris se virou descrente. Depois disse um palavrão que nunca tinha dito
antes e voltou a andar.
“Iris!” Marie-Claire gritou, correndo para alcança-la. “Ela vai me matar!”
“Serio? É isso que te preocupa?”
Marie-Claire quase tropeçou. “Você tem razão.” E depois disse de novo.
“Você tem razão.”
“É claro que eu tenho, maldição” Iris disse entre os dentes. Ela continuou
a andar. Era impressionante como xingar a deixava mais leve.
“O que vai dizer a ela?”
“Oh, eu não sei. Talvez algo do tipo ‘você perdeu a completamente a
porcaria da sua cabeça?’”
Marie-Claire abriu os lábios surpresa e continuou a tentar acompanhar
Iris, “Posso assistir?”
Iris se virou, com tanto ódio no olhar que Marie-Claire recuou. “Eu estou
a um passo de te espancar com um taco de críquete,” ela sibilou. “Não, você não
pode assistir.”
Marie-Claire adotou uma expressão quase reverente. “Meu irmão sabe
que você é tão violenta?”
“Talvez ele descubra até o fim do dia,” Iris respondeu. E retomou os
passos.
“Eu vou com você!” Marie-Claire disse atrás dela.
Iris sequer respondeu.
Marie-Claire chegou perto dela. “Você não quer saber onde ela está?”
“Ela está no laranjal.”
“O que – como você sabe?”
“Eu a vi indo para lá quando saímos,” Iris respondeu. E, porque ela sentiu
uma necessidade ridícula de se defende ela disse. “Eu noto as coisas. É isso que
eu faço.”
Mas não muito bem, aparentemente. Ou talvez Fleur que fosse uma
mentirosa espetacular. Mas isso não estava em questão. A verdade foi revelada.
E Iris iria até o fim disso.
Capítulo 24

Richard não dormiu. Ou pelo menos ele achava que não dormira. Ele fechou os
olhos uma vez ou duas durante a noite, mas se chegou a dormir foi muito pouco.
Ele imaginou que devia ter cochilado após o amanhecer; eram quase dez e meia
quando ele saiu da cama e onze horas quando já estava pronto para descer.
Seu valete conseguiu deixa-lo com uma aparência próxima a de um
cavalheiro, mas um olhar ao espelho mostrou a Richard que ele aparentava estar
tal cansado quanto se sentia.
Abatido.
E sem vida.
A porta do quarto de Iris estava aberta quando ele saiu e ele pode ouvir a
movimentação das empregadas, indicando que Iris não estava lá. Mas quando
ele chegou ao salão de café da manhã, sua esposa não se encontrava.
Ou o café da manhã também, mas essa foi a decepção menor.
Ele mexeu com as mãos impaciente, imaginando o que poderia fazer. Ele
poderia fazer algumas contas. Seu estomago estava roncando mas ele
sobreviveria até o almoço. Ele não tinha muita vontade de comer de qualquer
jeito.
“Aqui está você, rapaz!”
Ele olhou para a porta da cozinha. “Sra. Hopkins. Bom dia.” Ele sorriu.
Ela só o chamava de rapaz quando estavam sozinhos. Ele gostava disso. O fazia
se lembrar da infância.
Ela o olhou com um pequeno olhar de censura. “Bom dia? Quase. Há
muitos anos que eu não te vejo sair tão tarde da cama.”
“Problemas para dormir,” ele admitiu, passando a mão pelos cabelos.
Ela assentiu. “Sua esposa também.”
O coração de Richard acelerou com a menção a Iris, mas ele se forçou a
não reagir. “A senhora viu a Lady Kenworthy essa manhã?”
“Brevemente. Ela saiu com a sua irmã.”
“Fleur?” ele achava isso difícil de acreditar.
A Sra. Hopkins balançou a cabeça. “Marie-Claire. Eu tive a impressão
que Lady Kenworthy não planejava acordar tão cedo.”
Cedo? Iris?
“Não é cedo para mim, é claro,” a Sra. Hopkins continuou. “Eu a vi um
pouco após as dez e meia. Ela perdeu o café da manhã.”
“Ela não comeu no quarto?”
A Sra. Hopkins fez um som de desaprovação. “Marie-Claire estava a
apressando. Eu fiz questão de preparar algo para ela comer enquanto passeiam.”
“Obrigado.” Richard imaginou se deveria fazer algum comentário sobre
uma mulher na “condição” de Iris ter que se alimentar direito.
Mas ao invés ele se ouviu dizer, “Elas falaram para onde iam?”
“Só dar uma volta, eu acho. Fico feliz em vê-las agindo como irmãs.” A
governanta se encostou na parede com um sorriso maternal. “Eu gosto muito de
sua esposa, senhor.”
“Eu gosto dela também,” Richard murmurou. Ele pensou na noite em que
se conheceram. Ele não tinha planejado ir ao musical, ele sequer fora
convidado. Foi apenas quando Winston descreveu o evento para ele que ele
imaginou que seria uma boa oportunidade de procurar uma noiva.
Iris Smythe-Smith certamente foi o acidente mais feliz de sua vida.
Quando ele a beijou na noite anterior, ele estava consumido por uma
ânsia. Não era apenas desejo, apesar disso ser presente em abundância. Ele
quase não aguentou a necessidade de sentir o calor de seu corpo, respirar o
mesmo ar.
Ele queria ficar perto dela. Ele queria ficar com ela, em todos os sentidos.
Ele tinha tido certeza de que estava fazendo a coisa certa. Ele estava
tentando proteger a irmã. Ele estava disposto a sacrificar seu direito de nascença
para salvar a reputação de Fleur.
Mas agora Fleur parecia quase merecedora de sua própria destruição. Ele
não sabia como poderia salvar uma mulher que não queria ser salva. Mas ele
tinha que tentar. Ele era seu irmão, jurado de sangue a protege-la. Mas talvez
houvesse outra maneira.
Tinha que haver outra maneira.
Ele amava Iris demais para não existir outra maneira.

Iris atravessou os campos de Maycliffe em um tempo recorde, mas


quando chegou ao laranjal Fleur não estava lá. Era melhor, Iris precisou de
quase uma hora para se livrar de Marie-Claire, que claramente não achava que a
ameaça com o taco de críquete era o suficiente para deixar Iris em paz.
Quando Iris encontrou Fleur, ela estava cuidando de uma pequena roseira
na parte sul dos jardins. Ela estava vestida para a tarefa; com um vestido
marrom confortável e seu cabelo preso para trás, mas algumas mexas já se
soltavam do penteado. Um cobertor xadrez azul estava sobre a grama com três
laranjas e um pouco de pão e queijo.
“Você encontrou meu esconderijo.” Fleur disse com um breve olhar a
Iris. Ela examinava uma rosa com cuidado, até que pegou uma pequena tesoura
de jardinagem e cortou os galhos que achou necessário.
Iris podia ver porque alguns consideravam essa tarefa muito satisfatória.
“Minha mãe construiu esse lugar,” Fleur disse concentrada em sua tarefa.
Iris examinou a área. As roseiras tinham sido plantadas para formar um
pequeno círculo, criando um pequeno esconderijo. As rosas não estavam
totalmente florescidas; Iris podia imaginar como ficaria em alguns meses. “É
adorável,” ela disse. “Muito pacifico.”
“Eu sei,” Fleur respondeu. “Eu sempre venho aqui para ficar sozinha.”
“Que bom para você,” Iris disse e se aproximou de Fleur.
Fleur a olhou sobre os ombros, seus lábios se fechando em uma linha.
“Nós precisamos ter uma conversa. Você e eu,” Iris disse sem rodeios.
“Precisamos?” ela disse sem parar de cortar os galhos. “Sobre qual
assunto?”
“Sobre o pai de seu bebê.”
As mãos de Fleur pararam, mas ela se recuperou rapidamente. “Eu não
sei o que quer dizer.”
Iris não disse nada. Ela sabia mais do que isso.
Fleur não se virou, mas após alguns segundos ela repetiu. “Eu disse que
eu não sei o que quer dizer.”
“Eu te ouvi.”
Os sons dos galhos cortados ficaram mais rápidos. “Então por que – ow!”
“Espinho?” Iris perguntou.
“Você poderia mostrar um pouco de simpatia,” Fleur grunhiu com o dedo
na boca.
Iris riu baixinho. “Você sequer está sangrando.”
“Mas está doendo.”
“Verdade?” Iris a olhou casualmente. “Me disseram que a dor do parto é
muito pior.”
Fleur a encarou.
“Não para mim, é claro.” Iris continuou com o mesmo tom. “Meu
primeiro parto será indolor. Não deve ser difícil parir um travesseiro, imagino.”
Fleur congelou. Lentamente ela tirou o dedo machucado da boca. Quando
ela falou, foi em um tom feroz e firme.
“Eu não vou te dar o meu bebê.”
Iris sibilou com a mesma intensidade. “Você realmente acha que eu o
quero?”
Fleur abriu os lábios surpresa, mas não pelas palavras, Iris imaginou. Ela
já tinha deixado claro que não concordava com o plano de Richard. Mas o tom
de Iris ... bom, não foi nada gentil. Iris não achava que conseguiria controlar seu
tom para essa conversa.
“Você é uma pessoa fria,” Fleur acusou.
Iris quase revirou os olhos. “Ao contrário, eu seria uma tia calorosa e
amável.”
“Nós queremos a mesma coisa,” Fleur gritou. “Que eu fique com o bebê.
Por que está discutindo comigo?”
“Por que você está dificultando tudo?” Iris retrucou.
Fleur levantou o queixo desafiadoramente, mas não estava tão segura. Ela
parecia olhar para todos os lados, jamais encarando Iris nos olhos.
“Eu quero a verdade,” Iris exigiu.
Fleur ficou calada.
“A verdade, Fleur.”
“Eu não sei do que está falando.”
“Pare de mentir,” Iris disse. “Marie-Claire me contou tudo.”
Fleur ficou tensa e assumiu uma postura cautelosa. Foi então que Iris
lembrou que Fleur não sabia que Marie-Claire sabia sobre ela e o Sr. Burnham.
Iris não conseguiria respostas se não fosse clara em suas perguntas.
“Marie-Claire me contou sobre o pai do seu bebê,” Iris disse. “Ela sabe. E
agora, eu também sei.”
Fleur ficou pálida, mas não disse nada. Iris quase admirou sua força.
“Por que você não contou para o Richard que John Burnham é o pai?” Iris
perguntou. “Por que diabos você o deixou pensar que era um canalha como
William Parnell?”
“Por que William Parnell está morto!” Fleur explodiu. Sua pele estava
corada de emoção, mas seus olhos estavam sem esperança, quase mortos.
“Mas o Sr. Burnham está vivo. E ele é o pai do seu bebê.”
Fleur balançou a cabeça, mas não era em uma negativa. “Não importa,”
ela repetia. “Não importa.”
“Fleur – “
“Eu posso ir para outro lugar.” Fleur apontava os braços como se
estivesse indicando uma direção. Ela não percebeu quando Iris foi forçada a dar
um passo para trás para escapar de seus movimentos histéricos. “Eu posso fingir
ser uma viúva. Por que Richard não me deixa fazer isso? Ninguém saberá. Por
que alguém saberia?”
Iris recuou outra vez quando Fleur começou a balançar a tesoura. “Solte a
maldita tesoura!”
Fleur respirou fundo, olhando para a tesoura horrorizada. “Me desculpe.”
Ela gaguejou. “Me – me desculpe” com as mãos tremulas ela soltou a tesoura na
grama. Seus movimentos eram lentos e cuidadosos, como se ela os planejasse
antes. “Eu vou para longe,” ela disse ainda nervosa. “E eu serei uma viúva. Será
o melhor para todos.”
“Pelo amor de – “Iris parou de falar, tentando se acalmar. Ela respirou
fundo, e outra vez, deixando o ar sair lentamente. “Você não está fazendo
sentido,” ela disse. “Você sabe muito bem que se realmente deseja ser uma mãe
verdadeira para essa criança, você deve estar casada.”
Fleur envolveu os braços ao corpo, desviando o olhar para o horizonte.
Iris finalmente perguntou. “Ele pelo menos sabe?”
Fleur ficou rígida e tremeu um pouco. Em pequenos movimentos ela
balançou a cabeça.
“Você não acha que deve contar?”
“Isso o deixaria com o coração partido,” Fleur sussurrou.
“Porque ...?” Iris começou, e se ela soou mandona, bom, ela já não estava
muito paciente quando iniciou a conversa. Agora toda a paciência tinha
desaparecido.
“Porque ele me ama,” Fleur disse simplesmente.
Iris fechou os olhos para não gritar. Em uma voz contida ela perguntou.
“Você o ama?
“É claro que amo!” Fleur gritou. “Que tipo de mulher acha que eu sou?”
“Eu não sei,’ Iris respondeu. E quando Fleur a olhou ofendida ela disse
irritada, “Você sabe que tipo de mulher que eu sou?”
Fleur a olhou longamente, abaixando o queijo, “É justo.”
“Se você ama o Sr. Burnham,” Iris disse com uma paciência forçada,
“Certamente sabe que deve contar a ele sobre o bebê para que ela possa se casar
com você. Eu sei que ele não é o que sua família esperava – “
“Ele é um homem bom!” Fleur o interrompeu. “Não admito que você o
denigra.”
Deus me ajude, Iris pensou. Como ela poderia conversar com Fleur se
cada palavra que ela dizia contradizia a anterior?
“Eu jamais falaria mal do Sr. Burnham,” Iris disse cautelosamente. “Eu
só estava dizendo que – “
“Ele é um homem incrível.” Fleur cruzou os braços de um modo
beligerante e Iris imaginou se ela sequer percebeu que ninguém discutia com
ela. “Honrável e honesto.”
“Sim, é claro.”
“Melhor do que muitos chamados cavalheiros que vejo por ai.”
“Então deve se casar com ele.”
“Eu não posso!”
Iris respirou fundo outra vez. Ela nunca seria o tipo de mulher que abraça
os entes queridos perturbados e diz “Tudo bem, tudo bem.”
Ela decidiu que não se importava com isso.
Ao invés, ela era do tipo brutalmente honesto, que gritava
ocasionalmente. “Pelo amor de Deus, Fleur, o que diabos há de errado com
você?”
Fleur piscou e recuou, realmente preocupada.
Iris estava com os dentes cerrados e se forçou a abri-los. “Você já
cometeu um erro. Não o misture a outro.”
“Mas – “
“Você diz que o ama, mas não o respeita o suficiente para contar que será
pai.”
“Isso não é verdade!”
“Eu só imagino que sua recusa tenha a ver com o status social dele.” Iris
disse.
Fleur assentiu amargamente.
“Bom, se esse é o caso,” Iris disse levantando um dedo perigosamente
perto do nariz de Fleur. “Você deveria ter considerado isso antes de entregar sua
maldita virgindade a ele.”
Fleur ficou parada. “Não foi assim.”
“Como eu não estava lá, não vou discutir com você. Entretanto.” Ela
disse rigidamente quando viu que Fleur abriu a boca para discutir. “Você se
deitou com ele, e agora está grávida.”
“Você acha que eu não sei disso?”
Iris decidiu ignorar sua pergunta supérflua. “Me diga então.” Ela disse.
“Se está tão preocupada com sua posição social, por que está tão resistente ao
plano de Richard? Certamente você vê que essa é a única maneira de proteger
sua reputação.”
“Porque é meu filho,” Fleur gritou. “Eu não posso simplesmente dá-lo.”
“Ele não viverá com estranhos,” Iris disse o mais insensivelmente que
pôde. Ela tinha que pressionar Fleur ao limite. Ela não conseguia pensar em
outra maneira de faze-la entender que não fazia sentido.
“Não entende que isso é quase pior?” Fleur escondeu o rosto com as mãos
e começou a chorar. “Ter que sorrir quando meu filho me chamar de tia Fleur?
Fingir que eu não morro por dentro toda vez que ele te chamar de mamãe?”
“Então se case com John Burnham,” Iris quase implorou.
“Não posso.”
“Por que raios não?”
Os xingamentos de Iris pareciam mexer com Fleur.
“É pela Marie-Claire?”
Fleur lentamente levantou o rosto, seus olhos estavam vermelhos e
inchados e terrivelmente sem vida. Ela não assentiu, mas não precisava. Iris já
sabia a resposta.
Marie-Claire tinha dito isso pela manhã. Se Fleur se casasse com o
inquilino fazendeiro de seu irmão, o escândalo seria enorme. Fleur não seria
mais bem-vinda na sociedade local. Todas as famílias com as quais ela se
relacionava se virariam para ela e fingiriam não vê-la quando estivessem
próximas.
“Nó ingleses não temos uma boa opinião em relação a aqueles que trocam
de classe social.” Iris disse com uma reflexão amarga. “Seja de cima para baixo
ou o contrário.”
“Exatamente,” Fleur disse com um pequeno sorriso sem humor. Ela tocou
em um botão de rosa, deslizando os dedos nas pétalas. Ela se virou de repente
com uma expressão desprovida de emoção. “Você sabia que existem mais de
cem espécies de rosa?”
Iris balançou a cabeça.
“Minha mãe costumava cultiva-las. Ela me ensinou muito. Essas” – Fleur
apontou para os galhos atrás dela – “são rosas centifólias. As pessoas gostam
delas pois elas têm muitas pétalas.” Ela se curvou e cheirou a roseira. “E elas
tem um bom perfume.”
“Rosas repolho,” Iris sussurrou.
Fleur ergueu uma sobrancelha como uma saudação. “Você conhece
rosas.”
“Só isso,” Iris admitiu. Ela não sabia aonde Fleur queria chegar, mas pelo
menos tinha parado de chorar.
Fleur ficou em silencio por um tempo, olhando os botões de rosa. A
maioria ainda não tinha florescido. “Considere essas,” ela disse. “São rosas de
corte. Elas florescem no mesmo tom de rosa.” Ela olhou para Iris. “Minha mão
gostava de uniformidade.
“São lindas,” Iris disse.
“São mesmo, não é?” Fleur começou a andar, parando ocasionalmente
para cheirar as flores. “Mas não é o único modo de fazer um jardim. Eu poderia
escolher cinco tipos diferentes de centifólias, ou dez. Eu escolheria roxas, vários
tons de rosa. Não há motivo para tudo ser igual.”
Iris assentiu e teve certeza que ela não falava mais sobre rosas.
“Eu poderia plantar uma rosa-musgo. Ou uma gálica. Seria inesperado em
um jardim fechado, mas elas cresceriam.”
“E talvez se desenvolvam,” Iris disse suavemente.
Fleur se virou para encara-la. “Talvez,” ela repetiu. Então com um longo
suspiro ela se sentou no pequeno banco de pedra. “O problema não é com as
rosas. E com as pessoas que olham para elas.”
“Geralmente é,” Iris disse.
Fleur a olhou, todo o saudosismo desapareceu de seus olhos. “Agora
minha irmã mais nova e a Srta. Kenworthy de Maycliffe, irmã de Richard
Kenworthy, o baronete. Ela talvez não atrairia muita atenção se estivéssemos
em Londres, mas aqui no nosso canto de Yorkshire, ela será a moça mais
cobiçada quando debutar.”
Iris assentiu.
De repente Fleur se levantou. Ela se virou de costas para Iris e abraçou o
próprio corpo. “Nós temos festas por aqui também, sabe. E bailes e reuniões.
Marie-Claire terá a oportunidade de conhecer muitos cavalheiros. E eu espero
que ela se apaixone por um deles.” Ela olhou sobre os ombros para ver Iris.
“Mas se eu me casar com John ...”
“Você tem que se casar com John,” Iris disse gentilmente.
“Se eu me casar com John.” Fleur disse mais alto, como se quisesse
contradizer Iris a força. “Marie-Claire será a irmã daquela Kenworthy, a que se
casou com um plebeu. Ela não receberá convites e não terá a oportunidade de
conhecer ninguém. Se ela chegar a se casar, será com um velho mercador gordo
que só quer o nome dela.”
“Eu diria que muitos desses cavalheiros nos bailes são velhos e gordos.”
Iris disse. “E muitos desejarão só o nome dela.”
Fleur a encarou com os olhos brilhando. “Mas ela não será obrigada a se
casar com eles. Não é a mesma coisa. Não vê? Se eu me casar com John – não,
sejamos honestas, se eu decidir casar com John, Marie Claire não terá escolhas.
Minha liberdade pela liberdade da minha irmã – que tipo de pessoa eu me
tornaria?”
“Mas você não tem escolhas.” Iris disse. “Pelo menos não as que acha
que tem. Ou você se casa com John Burnham ou deixa o bebê comigo e com
Richard. Se você fugir para se passar como viúva, alguém descobrirá. Você
realmente acredita que ninguém saberá o que você fez? E quando souberem a
ruina de Marie-Claire será muito maior do que se você fosse a Sra. Burnham.”
Iris cruzou os braços e esperou para que Fleur pensasse sobre isso. Na
verdade ela provavelmente estava exagerando. A Inglaterra era um país grande,
não tão grande como a França ou a Espanha, mas ainda assim era grande. Se
Fleur se mudasse para o sul e se fingisse de viúva talvez ela passasse a vida
inteira sem que ninguém descobrisse o que ela fez.
Mas certamente essa não era a melhor solução.
“Eu queria ...” Fleur disse com um sorriso amargo. “Eu queria ...” ela
suspirou. “Talvez se eu fosse da sua família, se meu primo fosse um conde e
minha prima tivesse se casado com um ...”
Não faria nenhuma diferença, Iris pensou. Não se uma moça aristocrata se
cassasse com um fazendeiro, mas ela simplesmente disse. “Eu vou te apoiar.”
Fleur a olhou com uma expressão confusa.
“Richard também,’ Iris disse torcendo para estar certa. “Haverá um
escândalo, e haverá pessoas que te isolarão, mas eu e Richard ficaremos do seu
lado. Você e o Sr. Burnham sempre serão bem vindos em Maycliffe e serão
recebidos como convidados de honra.”
Fleur sorriu agradecida. “Você é muito amável.” Ela disse, mas sua
expressão era um pouco condescendente.
“Você é minha irmã.” Iris disse casualmente.
Fleur arregalou os olhos e assentiu brevemente, como se não confiasse na
própria voz. Finalmente, quando Iris já pensava que a conversa tinha acabado
Fleur a olhou e disse. ‘Eu nunca estive em Londres.”
Iris ficou confusa pela mudança brusca de assunto. “Perdão?”
“Eu nunca estive em Londres.” Fleur repetiu. “Sabia disso?”
Iris balançou a cabeça. Londres era tão lotada, tão cheia de vida. Parecia
impossível que alguém não a conhecesse.
“Eu nunca quis ir na verdade.” Fleur disse dando de ombros e encarou
Iris. “Eu sei que pensa que eu sou uma garota frívola, mas eu não preciso de
vestidos de seda e convites para as melhores festas. Tudo que eu quero é um lar
caloroso, boa comida e um marido que proporcione tudo isso. Mas Marie-Claire
–“
“Pode ir para Londres!” Iris quase gritou. “Céus, por que eu não pensei
nisso antes?”
Fleur a olhou. “Eu não entendi.”
“Nós vamos mandar Marie-Claire para Londres com a minha mãe,” Iris
disse animada. “Ela pode patrocina-la.”
“Ela faria isso?”
Iris balançou a mão para a pergunta ridícula. Quando Maria-Claire tivesse
idade para debutar, Daisy provavelmente já estaria casada e teria saído de casa.
A mãe de Iris estaria entediada sem nenhuma filha no mercado matrimonial.
Sim, Marie-Claire serviria.
“Eu teria que ir com ela para metade da temporada,” Iris disse, “Mas isso
não é um problema.”
“Mas certamente haverá falatório ... até em Londres ... se eu realmente
me casar com John ...” Fleur parecia não conseguir completar uma frase, mas
pela primeira vez, desde que Iris a conheceu, tinha esperança em seus olhos.
“Eles saberão o que nos contarmos a eles.” Iris disse firmemente. “Assim
que minha mãe assumir essa tarefa, o seu Sr. Burnham será conhecido como um
pequeno latifundiário, o tipo de homem sério que uma garota como você se
casaria.”
E talvez ele fosse um latifundiário no futuro. Iris pensou que a fazenda
seria um ótimo dote. John Burnham passaria de fazendeiro inquilino para um
dono de terras, e com a antiga Srta. Kenworthy como esposa, ele rapidamente
adquiriria o status de cavalheiro.
Haveria escândalo, isso não seria evitado. Mas nada tão permanente como
se Fleur tivesse o bebê solteira, e Marie-Claire dificilmente seria afetada em
Londres, com todo o apoio da família de Iris.
“Vá contar para ele,” Iris disse.
“Agora?”
Iris quase riu de felicidade. “Há algum motivo para esperar?”
“Bom, não, mas – “ela olhou para Iris quase desesperada. “Você tem
certeza?”
Iris pegou a mão de Fleur e apertou de leve. “Vá até ele. Vá, e conte que
ele será pai.”
“Ele ficará furioso,” Fleur sussurrou. “Por eu não ter contado. Ele ficará
furioso.”
“Ele tem todo direito de ficar furioso. Mas se ele te ama, ele entenderá.”
“Sim,” Fleur disse, como se tentasse se convencer. “Sim. Sim eu acho
que ele entenderá.”
“Vá,” Iris disse pegando nos ombros de Fleur e apontando para a saída do
círculo de roseiras. “Vá.”
Fleur começou a sair, mas de repente se virou e abraçou Iris. Iris tentou
abraça-la de volta, mas antes que se movesse Fleur a soltou e começou a correr,
pronta para começar uma nova vida.
Capítulo 25

Havia uma certa ironia na situação, Richard pensou. Aqui estava ele, pronto
para se declarar, para transformar sua vida, se jogar na misericórdia da esposa e
ele não conseguia encontrá-la.
“Iris!” ele berrou. Ele varreu os jardins ocidentais depois que um dos
cavalariços disse ter visto Iris indo nessa direção, mas o único sinal dela era o
resto de um bolinho amanteigado que estava sendo devorado por um bando de
corvos.
Mais irritado do que derrotado, ele voltou para a casa rapidamente,
abrindo todas as portas e assustando várias empregadas no processo. Finalmente
ele encontrou Marie-Claire que estava amuada em um canto do salão principal.
Ele olhou para sua pose – braços cruzados e um pé batendo rapidamente de
irritação – e decidiu que queria saber o que causou aquele mau humor.
Ele precisava da ajuda dela afinal. “Onde está minha esposa?” ele
perguntou.
“Eu não sei.”
Ele fez um som. Talvez fosse um grunhido.
“Eu não sei!” Marie-Claire protestou. “Eu estava com ela mais cedo, mas
ela fugiu.”
Richard sentiu um aperto no peito. “Ela fugiu?”
“Ela me derrubou,” Marie-Claire disse visivelmente ofendida.
“Espere ... O que?” Richard tentou entender. “Ela te derrubou?”
“Sim! Nós estávamos saindo do laranjal e ela esticou o pé e me derrubou.
Eu poderia ter me machucado.”
“Você se machucou?”
Marie-Claire disse rancorosa. “Não.”
“Aonde ela foi?”
“Bom, eu não sei exatamente,” Marie-Claire disse, “já que eu estava me
certificando se ainda conseguia andar.”
Richard esfregou a testa. Não deveria ser tão difícil encontrar uma pessoa.
“Por que vocês estavam no laranjal?” ele perguntou.
“Estávamos procurando a Fle – “Marie-Claire fechou os lábios com uma
mão. Normalmente ele ficaria suspeito, mas agora simplesmente estava sem
paciência.
“O que ela queria com a Fleur?”
Marie-Claire fechou os lábios firmemente em uma linha.
Richard respirou fundo, impaciente, ele não tinha tempo para isso. “Bom,
se a ver diga que estou procurando por ela.”
“Fleur?”
“Iris.”
“Oh.” Marie-Claire parecia afrontada. “Claro.”
Richard assentiu brevemente e foi até a porta.
“Espera!” Marie-Claire chamou.
Ele não esperou.
“Para onde vai?”
Ele continuou a andar. “Para o laranjal.”
“Mas ela não está lá.” Marie-Claire disse um pouco sem fôlego. Ele
imaginou que ela estivesse correndo para acompanha-lo.”
“Ela não está no salão principal,” ele disse dando de ombros. “Eu deveria
pelo menos tentar o laranjal.”
“Posso ir com você?”
Aquilo foi o suficiente para fazê-lo parar. “O que? Por que?”
Marie-Claire abriu e fechou os lábios várias vezes. “Eu só ... bem, eu não
tenho nada para fazer.”
Ele a encarou incrédulo. “Você mente muito mal.”
“Isso não é verdade! Eu minto muitíssimo bem.”
“Você realmente quer falar sobre isso com seu irmão mais velho e
guardião?”
“Não, mas – “ela arfou. “Lá está Fleur.”
“O que? Onde?” Richard seguiu seu olhar e viu Fleur correndo pelo
campo. “O que diabos deu nela?” ele falou para si mesmo.
Marie-Claire arfou outra vez e pareceu um acordeom murchando.
Richard protegeu os olhos do sol enquanto seguia Fleur com o olhar. Ela
parecia estar chateada. Ele provavelmente deveria ir atrás dela.
“Tchau!”
Antes que Richard pudesse piscar, Marie-Claire começou a correr atrás de
Fleur.
Richard voltou a andar para o laranjal, depois pensou melhor. Iris
provavelmente estava onde Fleur esteve alguns minutos atrás. Voltando seu
curso para o sul, ele começou a andar novamente, chamando pelo nome de Iris.

Ele não a encontrou. Ele checou a plantação de morangos que ele sabia que Iris
gostava, foi até as roseiras de sua mãe que mostravam a presença recente de
alguém e finalmente desistiu e voltou para a casa. Sua rota ridícula acalmou um
pouco sua urgência, e quando ele entrou no próprio quarto e fechou a porta ele
estava se sentindo irritado. Ele imaginou ter andando quase cinco quilômetros
pelo menos, e agora estava novamente em seu quarto sem nada –
“Richard?”
Ele se virou. “Iris?”
Ela estava de pé na porta que conectava seus quartos, com uma mão no
batente. “A Sra. Hopkins disse que estava me procurando?”
Ele quase riu. Procurando por ela. Isso parecia não explicar o que esteve
fazendo.
Ela inclinou a cabeça visivelmente curiosa. “Há algo errado?”
“Não.” Ele a encarou imaginando se recuperaria a habilidade de falar
palavras multisilábicas. É que com ela parada assim, com o rosa claro de seu
quarto como uma moldura, ela ficava tão linda.
Não, linda não. Linda não chegava perto.
Ele não sabia a palavra. Ele sequer sabia se existia uma palavra para
descrever o que estava sentindo nesse momento, como se ele visse o próprio
coração quando seus olhos se encontravam.
Ele molhou os lábios, mas não conseguia sequer tentar falar. Ao invés ele
foi tomado pela vontade desconcertante de se ajoelhar diante dela como um
cavaleiro medieval, pegar sua mão e declarar toda sua devoção.
Ela deu um passo para entrar no quarto de Richard e depois outro, mas
logo parou. “Na verdade,” ela disse rapidamente. “Eu preciso falar com você
também. Você não vai acreditar no qu – “
“Me perdoe,” ele deixou escapar.
Ela piscou surpresa e sua voz era pequena e cheia de dúvida quando ela
disse, “O que?”
“Me perdoe,” ele disse quase se engasgando com as palavras. “Me
perdoe. Quando eu bolei o plano, eu não pensei ... eu não sabia que ...” ele
passou a mão pelos cabelos. Por que era tão difícil? Ele teve tempo para pensar
nas palavras. Enquanto estava procurando Iris pelos campos e berrando seu
nome ele ficou praticando as palavras em sua mente, testando o que diria,
medindo cada silaba. Mas agora, enquanto olhava os olhos claros da esposa, ele
estava perdido.
“Richard,” ela disse, “Eu tenho que te contar – “
“Não, por favor.” Ele engoliu seco. “Me deixe continuar. Eu te imploro.”
Ela ficou parada e ele pôde ver que ela ficou surpresa de vê-lo tão
humilde.
Ele disse seu nome, ou pelo menos pensou ter dito. Ele não percebeu
quando atravessou o quarto, mas de algum modo ele estava parado diante dela,
pegando em suas mãos.
“Eu te amo,” ele disse. Não era isso que ele planejou dizer, pelo menos
ainda não, mas lá estava, o mais importante e precioso de tudo.
“Eu te amo.” Ele ficou de joelhos. “Eu te amo tanto que chega a doer às
vezes, mas mesmo se eu soubesse eliminar a dor, eu não o faria, porque essa dor
pelo menos é alguma coisa.”
Os olhos de Iris brilhavam com lágrimas, e ele sentiu seu pulso se
acelerar.
“Eu te amo,” ele disse novamente, porque não sabia como parar de dizer.
“Eu te amo, e se você permitir, eu passarei o resto da vida provando isso para
você.” Ele se levantou, sem soltar as mãos de Iris e a olhou nos olhos em um
voto solene. “Eu conquistarei seu perdão.”
Ela molhou os lábios trêmulos. “Richard, você não preci – “
“Não, eu preciso sim. Eu te magoei.” Doía dizer em voz alta. “Eu menti
para você e te enganei e – “
“Pare,” ela pediu. “Por favor.”
Era perdão o que ele via nos olhos dela? Mesmo um fiapo de perdão?
“Me escute.” Ele disse segurando uma mão de Iris com as suas
firmemente. “Você não precisa fazer isso. Nós encontraremos outra maneira. Eu
convencerei alguém a se casar com Fleur ou conseguirei o dinheiro para
comprar uma casa para ela fingir ser uma viúva. Eu não a verei com a
frequência que gostaria, mas – “
“Pare,” Iris interrompeu, colocando um dedo sobre os lábios de Richard.
Ela estava sorrindo. Seus lábios estavam trêmulos, mas ela sem dúvida estava
sorrindo. “É sério. Pare.”
Ele balançou a cabeça sem entender.
“Fleur mentiu,” ela disse.
Ele congelou. “O que?”
“Não sobre o bebê, mas sobre o pai. Não é William Parnell.”
Richard piscou confuso, tentando entender tudo. “Então quem é?”
Iris mordeu o lábio inferior, hesitante.
“Pelo amor de Deus, Iris, se você não me contar – “
“John Burnham,” ela disse.
“O que?”
“John Burnham, seu inquilino.”
“Eu sei quem ele é,” ele disse mais rigidamente do que gostaria. “É só
que – “ele ergueu as sobrancelhas e abriu os lábios e sabia que estava parecendo
um idiota prestes a receber seu chapéu de burro – “John Burnham? Serio?”
“Marie-Claire me contou.”
“Marie-Claire sabia?”
Iris assentiu.
“Eu vou esgana-la.”
Iris franziu levemente o rosto. “Para ser justa, ela não tinha certeza ...”
Ele a olhou incrédulo.
“Fleur não contou a ela.” Ela explicou. “Marie-Claire descobriu sozinha.”
“Ela descobriu,” ele disse realmente se sentindo como um idiota com um
chapéu de burro. “E eu não?”
“Você não é uma irmã.” Ela disse como se explicasse tudo.
Ele esfregou os olhos. “Santo Deus. John Burnham.” Ele olhou para ela
tentando não parecer muito descrente. “John. Burnham.”
“Você deixará que ela se case com ele, não é?”
“Eu não acho que tenho escolha. A criança precisa de um pai ... a criança
tem um pai.” Ele ficou sério. “Ele a forçou?”
“Não,” Iris disse. “Não a forçou a nada.”
“É claro que não.” Ele balançou a cabeça. “Ele não faria isso. Eu o
conheço a esse ponto pelo menos.”
“Então você gosta dele?”
“Sim. Eu já disse isso. É só que ... ele tem ...” ele suspirou. “Acho que por
isso Fleur não disse nada. Ela pensou que eu não aprovaria.”
“Isso e ela temia por Marie-Claire.”
“Oh, meu Deus,” Richard grunhiu. Ele sequer pensou em Marie-Claire.
Seria impossível arranjar um bom marido para ela depois disso.
“Não, não se preocupe.” Iris disse animada. “Eu já pensei nisso. E resolvi
tudo. Minha mãe irá patrocina-la.”
“Tem certeza?” Richard sentia um estranho aperto no peito. Ele se sentia
humilde perto dela, como ela era brilhante e cuidadosa. Ela era tudo que ele não
percebeu que precisava em uma esposa, e de algum modo, milagrosamente, ela
era dele.
“Minha mãe não esteve sem uma filha solteira desde 1818,” ela disse com
um sorriso. “Ela não saberá o que fazer com o próprio tempo depois que Daisy
sair de casa. Confie em mim, não desejará vê-la entediada. Ela é um pesadelo.”
Richard riu.
‘Eu não estou brincando.”
“Eu não pensei que estivesse.” Ele disse a ela. “Eu conheci sua mãe, se
não se lembra.”
Iris sorriu astuta. “Ela e Marie-Claire vão se dar muito bem.”
Ele assentiu. A Sr. Smythe-Smith certamente fará um trabalho melhor do
que ele jamais fez. Ele olhou para Iris novamente. “Você sabe que eu terei que
matar a Fleur antes dela se casar.”
Ela sorriu com a brincadeira. “Apenas perdoe. Eu perdoei.”
“Eu pensei que você disse que não era um modelo de caridade e perdão
cristão.”
Ela deu de ombros. “Eu estou virando essa página.”
Richard pegou a mão de Iris e levou até os lábios. “Você acha que poderá
me perdoar um dia?”
“Eu já perdoei.” Ela sussurrou.
Richard ficou tão aliviado que foi um mistério como conseguiu continuar
de pé. Então olhou para Iris, seus cílios claros ainda estavam úmidos de
lágrimas e ele se perdeu. Ele tomou seu rosto nas mãos e a beijou com a
urgência de um homem encarou o precipício e sobreviveu.
“Eu te amo,” ele disse rouco entre beijos. “Eu te amo tanto.”
“Eu também te amo.”
“Eu nunca pensei que te ouviria dizer isso.”
“Eu te amo.”
“Mais uma vez,” ele ordenou.
“Eu te amo.”
Ele beijou sua mão. “Eu te venero.”
“Isso é uma competição?”
Ele balançou a cabeça lentamente. “Eu irei venerá-la agora mesmo.”
“Agora ... mesmo?” ela olhou para a janela. O sol da tarde brilhava.
“Eu esperei demais,” Ele grunhiu a pegando com os braços. “E você
também.”
Iris soltou um gritinho de surpresa quando ele a soltou na cama. Foi uma
pequena queda até o colchão, mas foi o suficiente para fazer a cama balançar e
ele cobri-la com o próprio corpo, revelando a sensação primitiva de senti-la
presa embaixo dele.
Ela estava a mercê dele.
Ela era dele para ama-la.
“Eu te adoro,” ele murmurou, esfregando o rosto na curva do pescoço de
Iris. Ele beijou sua clavícula e ela soltou um pequeno gemido de prazer. Ele pôs
as mãos na renda da borda de seu corpete. “Eu sonhei com isso.”
“Eu também.” Ela disse tremendo, e arfou de surpresa quando ouviu o
som do tecido sendo rasgado.
“Lamento por isso.” Ele disse olhando para seu corpete rasgado.
“Não lamenta não.”
“Não mesmo,” ele concordou sorrindo, mordendo as bordas do tecido.
“Richard!” ela quase gritou.
Ele olhou para ela. Céu, ele era como um cão com seu osso, e não se
importava nem um pouco.
Os lábios de Iris tremiam com o riso contido. “Não piore.”
Ele sorriu travesso, puxando o tecido com os dentes. “Assim?”
“Pare!”
Ele soltou o tecido e usou as mãos para puxar o vestido para baixo,
revelando um seio perfeito. “Assim?”
Iris ficou com a respiração mais acelerada.
“Ou assim?” ele disse rouco, cobrindo o seio com a boca.
Iris soltou um gemido contido e suas mãos afundaram nos cabelos de
Richard.
“Definitivamente é assim,” ele sussurrou, a provocando com a língua.
“Por que eu sinto isso ...?” ela perguntou perdida.
Ele a olhou curioso e repetiu, “Por que você sente isso?”
Ela corou das bochechas até o pescoço. “Por que eu sinto isso ... lá ... em
baixo?”
Talvez ele fosse um maroto, ou talvez apenas muito perverso, mas ele
apenas molhou os lábios e perguntou, “Onde?”
Ela tremeu de desejo, mas não disse nada.
Ele tirou o sapato de um de seus pés. “Aqui?”
Ela balançou a cabeça.
Sua mão subiu por sua panturrilha e parou na parte de trás de seu joelho.
“Aqui?”
“Não.”
Ele sorriu. Ela também estava gostando desse jogo. “Que tal” – ele levou
a mão até o vinco entre sua coxa e seu quadril. – “aqui?”
Ela engoliu seco e sua voz era quase inaudível quando disse, “Quase.”
Ele chegou a mais perto de seu destino, passando os dedos nos pelos que
cobriam seu cerne. Ele queria olhar de novo, ver os pelos claros na luz do sol,
mas isso podia esperar. Ele estava ocupando olhando seu rosto quando deslizou
um dedo para dentro dela.
“Richard,” ela arfou.
Ele grunhiu. Ela estava tão úmida e pronta para ele. Mas ela era estreita, e
como os dois sabiam, ainda virgem. Ele teria que fazer amor com ela com muito
cuidado, se movendo lentamente e com uma gentileza que contrastava com o
fogo que queimava dentro dele.
“O que você faz comigo,” ele sussurrou, tentando recuperar um pouco de
compostura.
Ela sorriu para ele, e tinha algo tão brilhante e aberto em sua expressão ...
ele sentiu o mesmo em seu próprio rosto até ficar sorrindo ao ponto de quase rir
com a alegria que a companhia dela causava.
“Richard?” ela disse com o sorriso na voz.
“Eu só estou muito feliz.” Ele se sentou para tirar a camisa. “Não posso
evitar.”
Ela o tocou no rosto, sua mão delicada passando por sua mandíbula.
“Levante-se,” ele disse de repente.
“O que?”
“Levante-se.” Ele saiu da cama e a puxou.
“O que está fazendo?”
“Acredito,” ele disse puxando o vestido para o chão, “Que estou te
despindo.”
Ela olhou para suas calças.
“Oh, chegarei nessa parte,” ele prometeu. “Mas primeiro ...” ele achou os
laços de sua chemise e os soltou, prendendo a respiração quando a peça de
roupa caiu no chão como uma nuvem branca. Ela ainda usava as meias, mas ele
não sabia se podia esperar para tira-las, e de qualquer modo, as mãos de Iris já
estavam em sua cintura procurando o fecho de sua calça.
“Você é muito lento,” ela disse, praticamente arrancando as calças
puxando-as para baixo.
A prova de seu desejo surgiu impossivelmente rígida.
“Eu estou tentando ser delicado.”
“Eu não quero que seja delicado.”
Ele a pegou pelo traseiro, a levantando, e os dois caíram sobre a cama.
Ela estava com as pernas abertas e sem nenhum esforço Richard já estava
prestes e entrar em sua fenda e usou todo seu auto controle para não se enterrar
de vez nela.
Ele a olhou, seus olhos perguntavam – Você está pronta?
Ela o agarrou pelo traseiro e soltou um gemido frustrado. Ela
provavelmente disse seu nome; ele não sabia, não conseguia ouvir nada quando
ele se sentiu envolvido por ela.
Foi muito rápido. Ele sentiu quando ela ficou tensa, e se levantou um
pouco. “Você está bem? Eu te machuquei?”
“Não pare,” ela grunhiu, então toda a capacidade de fala foi perdida. Ele
mergulhou para dentro dela, de novo e de novo, guiado por uma urgência que
ele não compreendia. Tudo que ele sabia era que precisava dela. Ele precisava
preenche-la, ser consumido por ela. Ele queria sentir suas pernas ao redor dele,
sentir o movimento de seus quadris quando ela os erguia para recebe-lo.
Ela estava faminta, talvez tanto quando ele, e isso serviu para incendiar
seu desejo. Ele estava perto, muito perto e mal conseguia se conter para não
explodir. E então – graças a Deus, porque ele não achava que duraria mais um
segundo – ele a sentiu se apertando em volta dele e gemendo. Ele a seguiu logo
depois, ainda conseguia sentir seus espasmos quando terminou.
Ele desabou sobre ela, ficando assim por alguns segundos até deslizar
para o lado para não esmaga-la. Eles ficaram deitados por um tempo, esperando
enquanto seus corpos esfriavam até que Iris soltou um pequeno suspiro.
“Oh meu Deus.”
Ele sorriu lentamente, satisfeito.
“Isso foi ...” mas ela não terminou.
Ele se virou e se apoiou no cotovelo. “Isso foi o que?”
Ela balançou a cabeça. “Eu sequer consigo descrever. Não sei como
começar.”
“Pode começar,” ele disse se inclinando para beija-la suavemente, “Com
‘Eu te amo’”
Ela assentiu, seus movimentos ainda lentos e languidos. “Acho que pode
terminar assim também.”
“Não,” ele disse, sua voz era gentil mas não deixava brecha para
discussão.
“Não?”
“Isso não termina,” ele sussurrou. “Não termina jamais.”
Ela tocou seu rosto. “Não, não acho que termine.”
Então ele a beijou novamente. Porque queria. Porque precisava.
Mas principalmente porque ele sabia que quando seus lábios deixassem
os dela, o beijo permaneceria.
Isso também, nunca terminaria.
Epílogo

Maycliffe
1830

“O que você está lendo?”


Iris sorriu para o marido, olhando sobre a carta. “Uma carta da minha
mãe. Ela disse que Marie-Claire foi a três bailes essa semana.”
“Três?” Richard tremeu.
“Tortura para você, talvez,” Iris riu. “Mas Marie-Claire está no paraíso.”
“Imagino que sim.” Ele se sentou do lado dela perto da escrivaninha.
“Algum pretendente em potencial?”
“Nada sério, mas eu tenho a sensação que minha mão não está realmente
tentando. Eu acho que ela quer passar outra temporada com Marie-Claire. Sua
irmã está se provando uma debutando muito mais habilidosa do que qualquer
uma de minhas irmãs conseguiu ser.”
Richard revirou os olhos. “Que Deus ajude as duas.”
“E mais notícias,” Iris disse, “Marie-Claire está tendo aulas de viola três
dias por semana.”
“Viola?”
“Talvez outra razão para minha mãe estar relutante de deixa-la ir. Marie-
Clair já tem uma vaga no musical do ano que vem.”
“Que Deus ajude nós dois.”
“Oh, sim. Nós não poderemos perder isso. Eu teria que estar grávida de
nove meses para – “
“Então vamos começar agora mesmo,” Richard disse entusiasmado.
“Pare!” Iris protestou. Mas ela estava rindo, até quando os lábios do
marido encontraram o ponto sensível de sua clavícula. Ele sempre parecia saber
exatamente onde deveria beija-la ...
“Eu fecharei a porta.” Richard sussurrou.
“Está aberta?” Iris quase gritou e se soltou dos braços de Richard.
“Eu sabia que não deveria ter dito isso,” ele disse.
“Mais tarde,” Iris prometeu. “Nós não temos tempo para isso agora
mesmo.”
“Eu posso ser rápido,” ele disse esperançoso.
Iris o beijou longamente. “Eu não quero que seja rápido.”
Ele grunhiu. “Você está me matando.
“Eu prometi ao Bernie que o levaria para brincar com o barco de
brinquedo no lago.”
Richard aceitou com um sorriso e um suspiro, como Iris sabia que ele
faria. Seu filho tinha três anos, uma adorável criança carnuda com grandes
bochechas rosadas e com os olhos escuros do pai de Richard. Ele era o centro de
seu mundo mas eles não eram o centro do mundo dele. Essa honra pertencia ao
primo Samuel, que aos quatro anos era um ano mais velho, um ano mais alto e
um ano mais arteiro. O segundo filho de Fleur, Robbie era seis meses mais novo
que Bernie e completava o trio maroto.
O primeiro ano de casamento não foi fácil para John e Fleur. Como
esperado, sua união causou um certo escândalo, e mesmo sendo agora donos da
fazenda ainda existiam aqueles que não deixavam John esquecer que não tinha
nascido um cavalheiro.
Mas Fleur disse a verdade quando declarou não desejar uma vida de luxo.
Ela e John viviam em um lar feliz, e Iris era grata por seus filhos crescerem
próximos aos primos. Ela só tinha Bernie ainda, mas ela esperava ... houve
alguns sinais ...
Ela pôs uma mão sobre o abdome sem perceber. Ela logo teria certeza.
“Bom, suponho que temos um navio para lançar,” Richard disse se
levantando e oferecendo a mão para Iris. “Sinto que devo te informar.” Ele disse
quando Iris se levantou e entrelaçou o braço ao dele. “Eu tive um barco igual
quando era criança.”
Iris estremeceu com o tom. “Por que eu acho que essa história não acabou
bem?”
“Temo que navegar não está no sangue dos Kenworthy.”
“Bom, tudo bem então. Eu sentiria muito sua falta se fosse um
marinheiro.”
“Oh, eu quase esqueci!” Richard soltou seu braço. “Eu tenho algo para
você.”
“Você tem?”
“Espere aqui.” Ele saiu do cômodo e voltou em seguida com as mãos nas
costas. “Feche os olhos.”
Iris revirou os olhos e então os fechou.
“Abra!”
Ela abriu e arfou de surpresa. Ele estava segurando uma íris, a mais
bonita que ela já viu. A cor era vibrante – não era exatamente roxa ou vermelha.
“É do Japão.” Richard disse parecendo muito satisfeito. “Estivemos
cultivando-as no laranjal. Tem dado um baita trabalho te manter longe.”
“Do Japão,” Iris disse balançando a cabeça descrente. “Eu não acredito
que – “
“Eu iria até o fim do mundo,” Richard disse se inclinando para roçar os
lábios nos dela.
“Por uma flor?”
“Por você.”
Ela o olhou com olhos brilhantes. “Eu não desejaria que você fosse,
sabe.”
“Para o fim do mundo?”
Ela assentiu. “Você teria que me levar com você.”
“Bom, isso é evidente.”
“E o Bernie.”
“É claro.”
“E – “Oops.
“Iris?” Richard disse cuidadosamente. “Tem algo que deseja me contar?”
Ela sorriu. “Talvez precisaremos de acomodações para quatro nessa
viagem.”
Ele sorriu lentamente.
“Eu não tenho certeza,” ela avisou. “Mas eu acho ...” ela parou. “Onde
fica o fim do mundo?”
Ele sorriu. “Isso importa?”
Ela sorriu também. Não conseguia evitar. “Não, acho que não importa.”
Ele pegou sua mão, a beijou e a guiou pelo corredor. “Não importa onde
estamos.” Ele disse suavemente. “Se estivermos juntos.”