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IRREFUTÁVEL

FLAGRANTE
DESCOBRINDO O QUE ESTÁ POR DE TRÁS DA GENTE

MURILLO LE AL
1ª Edição
2020
“Ache o que você ama
e deixe isso te matar.”
Charles Bukowski

Dedico à todos que sonham


um dia em viver de escrever
IRREFUTÁVEL
FLAGRANTE
Crônicas de Murillo Leal
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SUMÁRIO
VOCÊ PRECISA SABER DISSO ANTES, CARA PÁLIDA!

PRESTE ATENÇÃO NAS PESSOAS, LUGARES E COISAS

NÃO TENHA MEDO DE SER A SI MESMO

A VIDA É SOBRE PLANEJAR TUDO, MEDIAR O QUE DER E CONTROLAR ABSOLUTAMENTE NADA

MAIS IMPORTANTE DO QUE A GUERRA, É QUEM ESTÁ DO SEU LADO NA TRINCHEIRA

ESTAMOS MENTALMENTE F#DIDOS (E NÃO CONSEGUIMOS SAIR DESSA)

FAÇA DA GENTILEZA MAIS QUE UMA MODINHA

PRIORIDADE NÃO TEM PLURAL

A IMPORTÂNCIA DE TER GENTE POR PERTO

A COMPLEXIDADE DO OUTRO

SER LIVRE PARA VIVER O QUE BEM ENTENDER

NUNCA TEREMOS LIKES SUFICIENTES PARA TRAZER A FELICIDADE

COMO DRIBLAR OS GRANDES CLICHÊS DA VIDA E VOLTAR A PERCEBER A FELICIDADE REAL

UM DIAGNÓSTICO BREVE SOBRE SUA VIDA E SOBRE O QUE ACONTECE NO MUNDO

FAÇA UMA VISITA PARA SUA HISTÓRIA COM A CORAGEM DE VER O QUE PRECISA

UM TEXTO PARA QUEM PRECISA DAR UM JEITO NA VIDA

É ASSIM QUE EU ME SINTO AQUI

O VALOR MENTAL QUE CUSTA TER UM SONHO

ÀS VEZES, É PRECISO IR EMBORA DE SI, MAS VOLTAR SEMPRE

SOBRE LIDAR COM A ANSIEDADE

A SOLIDÃO É UMA COISA DE ADULTO

A GENTE NÃO SE IMPORTA COM A VERDADE

SOBRE SER ENGRAÇADO

PARE DE COBRAR MUITO DE SI

O DILEMA DE MIGRAR PARA A VIDA ADULTA

SÓ É CONCLUSÃO QUANDO SE CHEGA EM ALGUM LUGAR


PREFÁCIO

Certa vez ouvi do escritor J. P. Cuenca que “o cronista


despretensiosamente registra o épico e o grandioso que há
nos pequenos episódios da vida”. Murillo é mestre em fazer
isso.
Foi através de um destes registros, num já longínquo 2016,
que conheci o Nelson Rodrigues de nossa geração. Naquele
que é, possivelmente, seu texto mais famoso, Murilo escreveu
que “ter emprego para pagar contas não faz sentido”.
Não nos conhecíamos na época, mas a sensação que
tive ao ler suas palavras é que elas haviam sido escritas pra
mim. E foram. Afinal, Murillo escreve para pessoas, não para
algoritmos. É por isso que sua escrita o trouxe até aqui.
O que não te contam sobre viver da escrita é que
sensibilidade vale mais do que hacks milagrosos. E Murillo é
um cara sensível. Ele olha para os pequenos episódios da vida
com o olhar de uma criança, o olhar de quem ouve mais do
que fala. Ele é um eterno aprendiz.
Ao expor suas vulnerabilidades sem pudores, num eterno
estado de contestação consigo mesmo e com tudo que o
cerca, Murillo escreve textos que parecem ter sido escritos pra
mim, que parecem ter sido escritos pra você.
Irrefutável Flagrante, seu primeiro livro de crônicas,
reúne o melhor desse seu estado. O belo e o feio, o amor e o
ódio, o justo e o injusto, o forte e o fraco, o longe e o perto,
o verdadeiro e o falso, o corajoso e o covarde, mas nunca
impondo o certo ou o errado. Murillo quer te fazer pensar.
Este é um livro escrito para pessoas. Um livro sobre os
pequenos episódios da vida de pessoas como eu e você.

***
Matheus de Souza é um escritor que vive pelo mundo e
conta histórias. Autor do livro Nômade Digital.
VOCÊ PRECISA SABER DISSO
ANTES, CARA PÁLIDA!
Chapter Title (Optional)

Escrever é uma atividade involuntariamente solitária.


Sua pousada constante é o isolamento do seu auto-exílio
emocional regado por um deserto de pessoas.
Um soco na primeira linha e já uma lição, caro leitor: É
justamente da insociabilidade que vivem os escritores, das
verdades mais impopulares e da sua mais covarde coragem de
olhar para si, para o outro e para o mundo sem a misericórdia
da inexatidão.
Quem insiste em permanecer na convivência de um
escritor, encontra nas bandas de cá, outros tantos escritores,
igualmente lunáticos e viciados em suas próprias neuroses
de caligrafia num abecedário tão incomum aos olhos comuns.
Aqui dentro, tem um mundo à parte.
A vida de escrita leva o autor a agarrar-se no delírio
insuportável e insistente de compôr frases cheias de palavras
calculadas. Uma chave necessária para tentar esvaziar a sua
maior fraqueza: O desperdício da sua vaidade incontrolável.
Os escritores pertencem a uma restrita fauna ilusória.
Estão cada vez mais extintos por uma crueldade imbatível: A
dolorosa obrigação de manter longe do seu habitat criativo
devido a sua falta de condições de sobrevivência. É como
aquele animal que, sendo um carnívoro voraz, aprendeu a
contentar-se com ervas doces do campo na sua dieta diária.
Vive uma corrida constante contra o drama do papel em
branco, e toda vez que diante dele está, mendiga uma ideia
simples que seja, espremendo a consciência para produzir
qualquer coisa razoável. O seu ringue principal é encher laudas
como quem enche os pulmões de ar depois de um mergulho
profundo.
Para todos que vivem de redigir, não existe angústia
maior que o resultado pífio das objetividades e dos
clichês. Há muita indecisão em produzir discursos e ordenar
informações, e por vezes, esbarram na visita indesejada de um
bloqueio criativo aparentemente intransponível.

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Só um susto imprevisível na gestação inesperada de
ideias é capaz de partejar uma esperança alfabética. Dos sutis
socos nos teclados, uma ideia absurda força os dedos a
debaterem-se numa vertiginosa marcha rumo à fuga
estonteante de uma entrega ponderável.
A poesia, o conto, o romance, a crônicas tornam-se tiranas
ainda no berço, como os garotos fazendo birras diante dos
pais frouxos nos corredores dos mercados.
O escritor tem o público como obrigatoriedade criativa. Do
outro lado dos escritores, agora, para as bandas de lá, existe a
mais violenta e faminta audiência. Para eles, o escritor é apenas
o mais nobre preenchimento da sua própria incapacidade de
expressar e dizer o que pensam.
O autor é, para seu público, a cápsula homeopática de
coragem diária. Sem eles, seus olhos ficam fracos, seu corpo
esgotado e seus músculos quebradiços. São eles que, com
seus bocejos ou aplausos, nos amaldiçoam ou nos levam ao
céu, nos adornam com elogios rasos ou nos esmagam entre
os dedos brandos dos seus deslike.
É pensando neles, que o escravo das letras, amarrota
suas bobagens e as empilham numa lixeira intolerante.
É olhando para a plateia que hesitamos diante de fraseado
agressivo, mudamos o sentido do verbo, escondemos a malícia
proposital, fingimos o insulto inocente e buscamos proteger a
intenção incolor por trás do que dizemos.
Há em todo escritor o inconfundível legado da obra. É
porque somos escritores, que temos o cuidado de trabalhar
com o frágil transpor de ideias. Basta uns parênteses com
a má-criação de um menino de rua, umas aspas mais bem
posicionadas que um infante atirador de elite, uma visita
indelicada ao inseguro mundo da imaginação e cai por terra
toda a diligente tentativa de credibilidade.
O que não te contam sobre viver de escrever é que todo o
bem mora no vilarejo de uma folha em branco, mas é a mais

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valorosa e apócrifa das profissões. Ninguém fala que viver de
escrita é sobreviver a cada dia.
O que sobra do autor são somente os seus mais distintos
pensamentos que na sua imortalidade resistem ao tempo. A
escrita traz imortalidade ou deixa a estupidez eternizada.
A escrita é a mais importante das armas de guerra. E o
escritor é o soldado na linha de frente de todas as ideias do
mundo. Ao mesmo tempo em que ajuda a vencer a vida, está
um pouquinho mais perto de morrer num acaso impensado.
Este livro é a minha mais sincera viagem sobre as ideias
e é como eu realmente acabo imaginando o mundo. Estão
reunidas aqui, algumas das ideias mais internas da minha
alma e a o trabalho mais auto investigativo que consegui
ver diante do espelho.
É, de fato, um irrefutável flagrante em mim, em você, e em
alguns seres humanos que conheci por aí. É, acima de tudo,
uma provocação. Apenas a aceite com carinho e compromisso
de evoluir-se.

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PRESTE ATENÇÃO NAS
PESSOAS, LUGARES E COISAS

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Corriqueiramente, me dizem: “Você olha bem nos olhos da
gente quando está conversando, né?”. E toda vez, tenho que
explicar que aprendi isso com um velho amigo.
Apesar da idade já avançada e da sua sabedoria adquirida,
ele deixava todos que conversava com a impressão de que
aquilo que diziam era a coisa mais importante do mundo.
Até hoje, carrega consigo sempre um olhar de quem presta
atenção em cada palavra que dizem a ele. Vai ver, é por isso
que é uma das pessoas mais inteligentes que conheço.
Antes mesmo do ofício de jornalista, me consideravam
um atencioso ouvinte. A vida dedicada à escrita nos
presenteia com o dom de observar tudo e todos a nosso
redor. A capacidade de ler realidades, extrair lucidez, pontuar
didaticamente a vida e perceber detalhes com clareza é um
triunfo para quem trabalha com a escrita.
Claro que isso não pode ser encarado como um super
poder raro. Muitos de nós sofremos com este problema de
viver em um mundo totalmente abarrotado de informações
e suscetíveis a desenvolver a incapacidade de ficar focado
adequadamente no que realmente é importante para o
presente.
Temos que aprender a observar a vida com cuidado
Não importa se estamos diante do trânsito caótico, que
aparentemente faz parte do cotidiano, ou se estamos em uma
bela praia paradisíaca num dia lindo, temos que nos desdobrar
para aprender a olhar com cautela para o que está a volta.
Digo, observar buscando ver realmente o presente.
Temos que aprender a manter a mente onde nosso
corpo está. Um bom exercício que pratico é fazer questão de
virar o celular para baixo diante de uma mesa de bar, e a razão
é bem simples: Se alguém decidiu estar comigo e me ceder
um pouco da sua presença, é, ao menos recíproco, inclinar-me
para o que ela diz.
Você já pensou que pessoas, lugares e coisas têm uma

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certa peculiaridade que jamais será vivida novamente? O que
torna o presente o melhor momento é que ele não pode ser
editado como o passado e nem projetado como acontece com
o futuro. A vida está ali. Ao vivo e a cores. E isso muda tudo.
A mente, junto do seu poder criativo, involuntariamente
tende a construir uma ponte que nos dá acesso a um universo
natural de viagens temporais. No entanto, esquecemos que
quem está no controle desse trajeto mental e, portanto,
dirigindo esta locomotiva de pensamentos, somos nós mesmos.
A falta em observar o presente com detalhes nos faz
escorregar na impressão que há algo de mais significativo
e interessante fora dali. A nostalgia ou o porvir são criações
que nos deixam esquecer do instante ocasional e nos fazem
perder a oportunidade de vivenciar momentos e instantes
insubstituíveis.
Quando nos educamos para estar presente naquilo
que os olhos veem, nos damos conta de que somos
testemunhas de uma grande quantidade de possibilidades.
Não só os olhos nos tiram o foco. A reação com o
ambiente em que estamos tem o poder de nos distrair do
que realmente importa. Já faz algum tempo que não consigo
frequentar alguns lugares que me sufocam de informação. E
a razão é bastante simples: Não tenho mais interesse no que
não importa.
A ilusão de que precisamos estar atentos a tudo que
acontece nos deixa cansados, e por vezes, desatentos do
fundamental. As paisagens que estamos inseridos têm o poder
de corromper a nossa concentração. É muito mais fácil estar
diante de uma obra de arte desconhecida do que de uma
conversa monótona de Uber.
Estamos sendo vagarosamente submissos a uma cultura
de mentes caóticas, ou seja, existem tantas coisas que passam
pelo nosso cérebro, que somos incapazes de conseguimos
filtrar. Esta é a razão da fadiga mental. Não é incomum vermos

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pessoas fingindo que ouvem as outras enquanto bisbilhotam
qualquer rede social em seus dispositivos móveis.
Devolver a atenção no lugar certo é necessário. O que
não te contam sobre a atenção é que precisamos aprender a
realocá-la. Isso não quer dizer nunca mais se distrair, mas, criar
uma disciplina para entender as razões e motivos que nos
deslocam do que realmente é importante.
Precisamos estar preparados para lidar com o jeito
esquisito que nos acostumamos a não nos interessar pelas
pessoas, pelos lugares e pelas coisas banais da vida.
Todo mundo sabe que a atenção está localizada em
ambientes fora do presente, mas aprender a observar-se é
também crescer como pessoa.
Se aprendermos a reconduzir nossas atenções, talvez
possamos também gozar mais da vida em momentos únicos
com outras pessoas, e perceber a felicidade presente nos
detalhes e, quem sabe, trazer um novo significado para tudo
aquilo que somos, pensamos e vivemos.
É somente entendendo onde está e onde deve ficar
nossa atenção que podemos pertencer ao agora, sem dar
lugar àquilo que já foi ou a àquilo que ainda não é real.
O lugar que está sua atenção é para onde você costuma
pisar

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NÃO TENHA MEDO
DE SER A SI MESMO

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Sento com amigos na mesa do bar — que é a minha àgora
filosófica — E percebo que estão falando sobre ter coragem.
Uma amiga muito querida, com o maior tom de respeito
do mundo, me pergunta:
 — Como que é mesmo aquela sua teoria ou história que
você se tornou um ex-medroso?
 — O correto é ex-covarde! E não é invenção minha não...
— Tenho que corrigi-la para não cometer injustiças — …essa
história é do Nelson, o Rodrigues.
Há essas alturas, tinha apenas um dedo de gole no meu
copo. Faço sinal indicando que preciso que encham. Dou uma
bicada gulosa até a espuma ficar no meu próprio bigode.
Limpo apressadamente com os punhos e disparo:
 —  Olha, o que houve foi que descobri que não tenho
mais medos bobos.
O silêncio assemelha-se a um constrangimento ímpar do
confessionário. O espanto inicial diante da minha frase foi logo
se transformando em rostos viciadamente desconfiados.
Era como se eu, num descuido acidental, tivesse cometido
o pecado da inocência. Antes que desse pano para manga
com conclusões prévias e já sentindo o cheiro da ansiedade
no seu ápice, decido explicar:
— Vocês têm alguns minutos sobrando aí? Essa história é
realmente boa demais.
Eles se entreolham como um júri culpado e decidem me
dar o benefício da dúvida. Nesse ponto, a curiosidade era
maior que o tédio.
— Olhe bem para mim. O que vocês vêem?
Faço mais uma pausa breve. Em seguida, não paro mais
de falar:
 — Eu sou um garoto de 30 anos, mas que parece ter
vivido muito mais do que isso. Outro dia, estava pensando que,
depois de uma certa idade, tive poucos medos reais.
Prevendo que iam tomar minha fala como um discurso

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heroico de autoproclamamento — e esse papo de gente-herói
é tudo besteira — insisti em permanecer com a palavra:
 — Quase nada realmente me apavorou depois de algumas
experiências. Hoje, quando olho para minha vida e vejo o tanto
que ela mudou, evoluiu, sobreviveu, se perdeu, transformou,
poucas coisas têm o poder de me assustar.
Comecei a missa. Botei-me a explicar que, ainda na
época do vestibular, tive a coragem de explicar para meus
pais — Depois de um ano fazendo cursinho totalmente
focado em biológicas — a razão que havia decidido migrar
minha inscrição do curso de biologia para jornalismo aos 42’
do segundo tempo. (Para ser exato, mudei bem na hora de
preencher o formulário da inscrição.)
Esta coragem, obviamente, resultou precisamente na
minha profissão. E com ela, veio a satisfação em transformar
o que mais amo fazer hoje em ofício.
Não me vejo fazendo mais nada desta vida. Poderia sim
ter sido um bom biólogo, mas jamais seria feliz. Sem aquela
coragem, me tornaria um profissional frustrado pelas escolhas
alheias.
Não convencidos com meu pequeno exemplo juvenil, tive
que sacar outra carta mais alta. Expliquei a eles que, mais tarde,
por excesso de coragem, decidi não mais despedir da mulher
que amava, e quando vi, estava me casando aos 25 anos de
idade.
Ali na mesa, lembrei meus contemporâneos, da insanidade
que é, para nossa geração de frouxos, tomar essa atitude.
Concordamos todos que isso era realmente uma
demonstração louca de coragem. Era quase como confessar
um crime sem justificativa. A valentia começou a ficar evidente.
Continuei explicando que encontrar o que pensava ser a
mulher da minha vida, ao invés de me colocar diante do medo
inibidor, fez o efeito contrário. Foi a gasolina pura. Não tive
dúvidas, um dia sequer, sobre esta decisão. Passar os dias da

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vida ao lado de um amor requer uma dose grande de coragem.
— Mas nem um pinguinho de medo?, me perguntava um
deles tentando ainda encontrar uma fraqueza contra isso tudo.
Contei que realmente não fazia ideia do que ia vir, mas
que andava sem receio do futuro incerto, sem me preocupar
como íamos conseguir pagar todas as contas durante anos.
Fomos corajosos. Pelo menos diante da nossa geração inteira.
Tive que explicar que o medo nunca foi um problema para
quem é convicto sobre o que quer.
Contei que antes, consultamos umas pessoas, fizemos
umas contas numa planilha do Excel, arrumamos um outro
bico de fotógrafos, botamos a mão na massa no que precisava
colocar e conseguimos com a energia da nossa juventude,
patrocinar de maneira milagrosa boa parte dessa loucura de
unir-se. Não me arrependo de nada.
Anos depois, recebi um golpe. Forte. De derrubar campeões.
Tive outro encontro forçado com a coragem. Descobri que
não existe amor imbatível, infinito e ilimitado.
Até mesmo os amores que se dão bem podem um dia não
existir mais, não resistir em viver mais com objetivos distintos,
e por melhor que tudo pareça estar, algumas coisas podem
sair do controle. Mas, e a tal coragem? Meu amigo, se você
soubesse a coragem que tem que ter para deixar um amor de
anos ir embora, não me perguntaria nunca mais sobre isso.
 — É barra, né?, exclamou um deles.
Foi aí que contei que, ao invés de choramingar pelos cantos,
tratei de guardar as melhores lembranças, frases, momentos e
invoquei a coragem para deixar de lado as muitas bagagens
que carregava.
Disse a eles que o amor me deu um soco forte, mas nunca
tive medo de apanhar, que ele sempre perdia para minha
convicção, que eu nunca achei que fosse ganhar todas as lutas,
mas que sabia o que queria.
Eu já tinha falado uns 10 minutos. Tá, talvez 20. Lembre-

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me de dar mais um gole no copo, que agora tava quase em
temperatura ambiente. Viro tudo que tava nele e repito o sinal
pedindo mais.
Faço silêncio imaginando que, nessa altura do papo, eles
haviam cansado de me ouvir. A menina da ponta da mesa
deflagra:
— Ah, e também, infelizmente, teve aquele dia, né? Sabe
do que estou falando...
Dou um pequeno sorriso e falo:
 — É, o dia que perdi uma das melhores pessoas da minha
vida.
Recontei a história toda da perda do meu único primo por
parte de pai. E eles ficaram me olhando sem saber o que dizer
Tive que concluir:
 — Entendem? Depois de tudo isso, amigos, ia ter medo de
que? De ser mal interpretado? De ser julgado por uma simples
opinião? De deixar de falar de algo que acredito? De como
vão me avaliar quando falo das coisas que sou convicto? De
ter sido casado? Do meu passado? Da solidão? Da sensação
de fracasso? Do medo do que estão por vir? De ter minhas
percepções sobre Deus e a fé? De falar sobre meu olhar político
do mundo? Da morte? Medo de gente que nem sequer sabe
o que pensa?
O que ninguém te fala sobre não ter medo de ser a
si mesmo é que para ter coragem, tem que ter vivido um
pouco, sofrido muito e encontrado consigo mesmo neste
caminho.
Eu me dei conta que não tinha mais medo de muita coisa.
Finalizei explicando para eles que, hoje, eu posso apontar para
cada um que se esconde atrás da sua falta de atrevimento e
sustentar a minha insolência, patrocinar a minha ousadia e
invocar a minha petulância, porque eu, finalmente, sou um ex-
covarde. Conforme Nelson dizia.

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A VIDA É SOBRE PLANEJAR TUDO,
MEDIAR O QUE DER E CONTROLAR
ABSOLUTAMENTE NADA

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Sentei na mesa do Shopping na companhia do meu
cappuccino. Ao lado, nitidamente abalados, dois jovens
choravam baixinho.
O rapaz disfarça o rosto vermelho, esfregando os olhos
com a mão e a garota controla o escorrer do nariz olhando
imóvel para o celular ao mesmo tempo em que tenta se
acalmar.
Ambos permanecem com aquela cara típica de frustração.
Começo a chutar mentalmente que eles talvez estivessem
passando por uma crise de relacionamento.
Por pura arrogância e por ser um pouco rabugento,
menosprezo a dor juvenil que sofrem. Imagino uma briga
convencional e cotidiana de casal. Ela estava mal. Me dou
conta que estou sendo babaca.
Resolvo não me intrometer — e quem me conhece sabe
o esforço que é para mim não se importar — apenas continuo
escutando. A garota lamenta:
—Mas, eu realmente amava ela, amor. E agora?.
O garoto sem qualquer traquejo senta na ponta da cadeira
e a abraça forte. Em silêncio absoluto, passa a mão na cabeça
da moça como quem ajeita um lençol pela manhã.
—Ela quem?, me pergunto. A menina prossegue com a
voz da derrocada: —Eu sei que me assustei no começo, mas
depois que vi nossa bebê no vídeo, eu me apaixonei por ela,
eu sonhei com ela e ela não está mais aqui.
A barragem dos olhos rompeu-se. A dela, do seu
companheiro e as minhas. Talvez até as de Deus. Ela havia
perdido um bebê. E a notícia era recente. Vi meu corpo
inteiro arrepiar. Duas crianças lamentando a morte da terceira.
No auge da minha sensibilidade, ela dá o golpe de
misericórdia:
—Ainda não me recuperei, amor. Abaixei minha cabeça e
tive vontade de implorar a ela: Não se recupere. Nunca, nunca
mais se recupere. Apenas sofra menos, cada dia menos, até

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que tudo saia do primeiro plano. É o máximo que vai conseguir,
querida.
Fiquei imóvel. Não tive coragem de fazer nada. Fiquei mudo.
Não balbuciei uma só palavra. Assisti todo aquele sofrimento
sem ter forças para conseguir engolir meu chocolate extra.
Apenas tive que lidar com um vislumbre emergente que
me surgiu, a mais completa verdade gritando no meu coração:
A VIDA É SOBRE PLANEJAR TUDO, MEDIAR O QUE DER E
CONTROLAR ABSOLUTAMENTE NADA.
Os planos da vida são só os planos da vida. Admiro demais
quem tem esse papo de que a vida não é feita para ter planos.
Mas, a verdade é que não ter planos é um risco eminente da
inocência.
Existe uma linha muito particular e fina entre levar a vida
com leveza sem fazer dos planos um sargento autoritário da
sua vida, e carregar em si a atitude de não ter absolutamente
nenhum plano para viver.
Não caio mais na ilusão de acreditar que um plano
específico não pode mudar. A vida inteira muda para sempre.
Nossos planos são apenas pequenos esboços leves de
um traço irrastreável de futuro. Na vida, vamos fazer muitos e
muitos planos, mas quase todos podem e vão mudar de rumo.
É claro que qualquer decisão fica mais segura com um
planejamento, mas são os estalos que, mais cedo ou mais
tarde acontecem, que nos empurram para o rumo da nossa
história.
Nenhuma ideia pode ser boa o suficiente para funcionar
sem um plano, quase nada bem feito nasce da mais absoluta
espontaneidade. Não existem rumos sensatos que partem de
nada.
Uma boa parcela da vida é feita de tentativas e erros,
de fracassos e esgotamentos e mesmo que tenhamos o
planejamento de abraçar todos que amamos, de realizar tudo
que almejamos, de atingir todos os sonhos que temos no

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mundo, a vida implacavelmente não está nem aí.
Não é sempre que podemos nos despedir com classe
de todos que amamos, que teremos a oportunidade de
pedir desculpas pelas nossas próprias imbecilidades, que
poderemos resgatar o que ficou ferido para trás, que vamos
dormir e simplesmente encontrar o amanhã. A vida não
obedece planos.
Faça tudo que é possível com o que tem. Este é o segredo
para lidar com algo que saiu do controle. Não adianta
espernear, nem se punir, nem buscar culpados, nem supor
qualquer teoria maluca que possa tentar explicar, quando algo
dá errado, é bom que procure apenas continuar na firmeza
com que se possui. Se ela faltar, não se esconda.
A pior coisas que podemos fazer em momentos difíceis
é fingir força. Ninguém deveria ignorar o que sente, mas
todo mundo deveria preocupar-se em gerir emoções. Aqui
está a grande sacada, a grande oportunidade de transformar
momentos ruins em algo um pouco mais leve.
Ninguém disse que a vida seria fácil. A gente apenas precisa
ter em mente que é bom estar acompanhado de pensamentos
bons, de gente que nos ajuda, de boas experiências, de
momentos melhores.
Foi Woody Allen quem disse: “A realidade é dura, mas
ainda é o único lugar onde se pode comer um bom bife”.
Apenas aja. Apenas faça. Apenas não desista. Apenas não
seja vítima da sua própria mentalidade tóxica. Apenas seja
corajoso consigo mesmo. Apenas se ajude. Apenas saia do
lugar que acostumou a estar. Por você. Pelos outros. Pela
vida em si.
É verdade que nem tudo tem solução. Algumas marcas
serão pesadas. Alguns arranhões podem doer muito. Algumas
feridas nunca mais somem. No entanto, apesar de tudo,
acostume-se a gerir em favor de mediar o que der. Perca a
ilusão do controle.

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Não há contingências da vida que possam ser controladas.
Mesmo os ambientes mais supervisionados. Até a prisão de
segurança máxima tem possibilidade de fuga.
A morte é a mais clara e objetiva demonstração de que
não temos controle sobre nada. O ser humano é o único que
tem a arrogância de tentar coordenar a vida, mas não se
dá conta que mal consegue controlar o músculo numa dor
de barriga ferrenha.
Perder o delírio da gerência total da vida é descer do salto
e finalmente aprender que não vamos ser mais fortes que a
vida, que não vamos conseguir regular os hormônios, que não
vamos dar conta de monitorar nosso futuro, vigiar o que os
outros pensam sobre a gente ou moderar a nossa felicidade o
tempo inteiro.
Devemos sim levar os detalhes da vida a sério, aprender a
não ignorar o previsível, a respeitar a antecipação, a valorizar
a intuição, mas deveríamos jamais ceder a miopia do controle.
Nesse mundo em que os planos não garantem nada, onde
as contingências nos empurram para as crises e a vigilância
não traz segurança, temos que aprender a enxergar o que está
gritante bem na nossa cara.
Aprenda sobre si, sobre o mundo e sobre os outros. O
tempo inteiro. Reze sem ter religião, ame sem ter validade e
agradeça sem ver uma única razão.
A vida não é o melhor lugar do mundo, mas é o único que
temos. Planeje sempre, seja mediador quando precisar e não
tente controlar a vida.

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MAIS IMPORTANTE DO QUE A
GUERRA, É QUEM ESTÁ DO SEU
LADO NA TRINCHEIRA

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Às vezes, não se via um palmo adiante. Era neblina,
juventude e silêncio. O rigoroso breu das quatro da manhã era
cinematográfico. Subíamos — eu e meu irmão da mesma idade
— a gélida e cumprida rua Lázaro Zamenhof que desembocava
no pátio do Exército.
Acabávamos de completar dezoito anos de uma
inexperiência flagrante. O cabelo andava sempre tão curto
quanto o juízo juvenil. A barba tão aparada quanto a moral
cívica dos conservadores. A roupa tão limpa quanto a
consciência de um bebê.
O que sobrava a mim e aos outros soldados, era apenas
o companheirismo da convivência, a disciplina da amizade
e o senso de colaboração mútua. Lá fiz bons amigos que
carrego até hoje. O próprio sargento do batalhão — hoje,
tenente — ainda é frequentador das festas da minha família.
Sim, também se faz amizades humanas nas fileiras do exército.
Há sempre um treinamento contínuo a seguir. Minha
expectativa com a experiência militar era muito baixa, mas
fui surpreendido, e hoje entendo que aquele foi um tempo
não só de treinamento tático, estratégico e bélico, mas de
aprender mais sobre como o outro é importante na nossa vida.
O batalhão é uma família que obrigatoriamente aprende a
comemorar nas glórias e chorar com as tragédias. Punições e
louros são sempre coletivas, alegrias também.
Não fui a qualquer guerra nesta vida. E para falar a
verdade, provavelmente nunca vou. Por isso, não tenho o
direito de romantizá-la como alguns gostam de fazer. A guerra
é o ser humano na sua essência mais animal. Não há nada de
bonito nela. O suposto charme visto nas guerras é apenas o
filho bastardo do cinema, dos livros e da arte. Na realidade, é
sangue, tragédia e lástima para todo lado.
A vida não é uma guerra.Costumeiramente, insistimos em
comparar a vida com uma guerra, mas é invariavelmente injusto,
proporcionalmente desigual e propriamente inadequado.

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Entendo os pormenores da comparação, mas faço essas notas
garrafais: Há uma distância faraônica entre os dois. A começar
que, na guerra, com uma combinação de milagre e sorte, ainda
há alguma hipótese de sair vivo. A vida sim é que é implacável
com suas vítimas. A guerra e a vida se cruzam, mas não são a
mesma coisa.
Não importa se viver é uma batalha fácil para alguns ou
se é a pior coisa que alguém pode enfrentar, nada vai aliviar
o peso de uma luta, nenhuma experiência vai ter misericórdia
daqueles que optam pela autonomia, nenhum campo de
batalha pode ser atravessado individualmente.
Em uma guerra, a mentalidade de grupo é a força. Ninguém
vence se não tiver acompanhado de um bom companheiro na
trincheira. Só se mantém vivo na linha de frente quem conta
com a colaboração do companheiro, quem confia cegamente
no apoio alheio e quem se propõe a sair vivo junto. O resto é
bafo-de-boca.
Ouvi uma história de dois amigos de infância que serviram
juntos na Segunda Guerra. Depois de um bombardeio surpresa,
um deles acabou se perdendo do amigo e ficou preso wm uma
zona de risco, enquanto o outro, foi levado para um abrigo.
Quando acordou, o soldado sobrevivente quis voltar para
buscar o amigo. A esperança ainda existia na sua alma, mas
teve a permissão negada pelo superior. Ignorando a proibição,
ele saiu na busca. Uma hora mais tarde, regressou mortalmente
ferido, transportando o cadáver de seu amigo nos braços.
O oficial superior enfurecido disse em alto tom que sabia
que seu amigo já estaria morto. O soldado, então, teve de
explicar: “Quando encontrei o meu amigo, ele ainda estava
vivo e pôde me dizer: Eu tinha certeza que você viria!”
A guerra não é lugar de gente sozinha. Na vida, você pode
até tentar lutar sozinho, mas não é a mesma coisa. Encontre
seus companheiros de trincheira por que a luta da vida não vai
parar tão cedo. Enfrente-a com gente ao seu lado.

20
21
ESTAMOS MENTALMENTE F#DIDOS
(E NÃO CONSEGUIMOS SAIR DESSA)

22
Estamos mentalmente acabados. Você viu o ´titulo desse
capítulo, o tamanho do livro e já te deu uma preguiça, não foi?
Pois é, é sobre isso que vamos falar. Me dá essa chance de te
ajudar.
O lance é o seguinte: Todo mundo que converso, vive uma
espécie de “fadiga psíquica” que não sabe explicar a origem.
Quase todas as pessoas que convivo me confessam que a
vida tem sido pesada. Me pergunto: foi o sofrimento é que
aumentou ou a gente que ficou mais sem ânimo?
Não importa se somos mais velhos e temos um porre de
experiências acumuladas ou se estamos no verdor da inocência
típica da flor da idade, a nossa cabeça está completamente
confusa.
Não importa se somos a maioria da média das pessoas ou
se estamos pontualmente deslocados na nossa multiplicidade
diferença, a mente está bagunçada como um quarto de um
adolescente.
Não importa se cremos em meio a diversos deuses ou
com nenhum deles, se termos recursos intermináveis ao nosso
dispor ou se vivemos os dias contando moedas para uma
refeição, algumas coisas continuam não fazendo sentido.
O cenário descreve. Não estamos dando conta de viver
dramas e pressões que jamais imaginamos que fôssemos
viver um dia. Apesar disso, as doenças mentais não estão
ligadas a qualquer índice de pré-requisito mínimo. Atinge
democraticamente quaisquer mentes com brutalidade.
Você pode argumentar que a angústia não é nova na
prateleira de sentimentos humanos, e está certo, desde que
o mundo é mundo, o sofrimento é a maior das verdades
inevitáveis. No entanto, o que me refiro aqui é algo muito mais
alarmante e preocupante do que as tragédias convencionais
da vida.
Muita gente que convivo sente-se sem saída numa espécie
de buraco das incertezas, sente-se vivendo um congelamento

23
sentimental perigoso e um afastamento emocional que acaba
por nos deixar em estado de solidão e cinismo sentimental
muito próprio deste momento.
Diante dessa evidência, porque é que temos a sensação
de que tudo está pior e que não teremos mais escapatória
para viver uma vida mais leve? Quais são as nossas crenças e
contextos que nos impedem de enxergar uma luz no fim do
túnel?
Agora pouco, tive uma conversa extremamente delicada
e embaraçosa com uma pessoa. Ela me explicava da sua
perspectiva a respeito de um assunto polêmico e delicado.
Debatíamos com muita educação. Eu, por minha vez,
tentava mostrá-la que havia também um lado diferente da
realidade que ela colocava, e que ela poderia estar ignorando ou
simplesmente não tendo acesso a determinadas informações.
Quando me dei conta de que íamos chegar em nenhum
lugar com nossas opiniões, eu decidi recuar. Finalizei a
conversa ressaltando um cuidado como de quem tenta catar
alguns dos transparentes e pontiagudos cacos de um copo de
vidro estilhaçado no chão da cozinha.
Acredito que uma das razões para esse cansaço coletivo é
que não conseguimos mais manter uma conversa sensata com
as pessoas que discordamos.
Estamos vivendo uma hipertrofia na tolerância — e
muitas vezes, usando o discurso da própria flexibilidade
para isso.
Tudo pode ser menos cansativo se aprendermos a dar
menos valor para o que achamos e aprendermos a valorizar
mais a relação que a razão. Este é um segredo que eu mesmo
tenho experimentado e tem me feito bem.
Não é de hoje que somos ensinados a nos comparar para
ter parâmetros. Estamos sempre nos perguntando: Quem é
o mais rápido, mais alto, mais inteligente, mais bonito, mais
forte?

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A competição nos envenena sem notarmos. A questão
aqui é entender que comparações só servem para duas coisas:
Exaltar alguém e automaticamente rebaixar outro.
Repare que espelhar-se em outras pessoas é um movimento
que pode ser saudável e até nos fazer ver novas possibilidades.
É diferente de quando simplesmente avaliarmos, fazemos
julgamentos e criamos expectativas irreais sobre a realidade
que não é a nossa.
Terei que cometer a acusação mais óbvia: É preciso
ponderar que o universo das redes sociais realmente está
na lista de principais causadoras do sentimento de que o
mundo todo está bem e só a gente que não.
As fragilidades ficam fora dos filtros. As tristezas podem
até ser postadas, desde que dê likes. Os dias infelizes não têm
hashtags nos trends. A desesperança não ganha chuva de
comentários.
Ser psicologicamente maduro é saber identificar quando
considerar uma visita constante da tristeza e quando nivelar
um episódio ruim da vida com a ocasionalidade. Você pode
precisar de ajuda para reconhecer essa diferença. Não tenha
medo de procurar um suporte médico, se precisar.
Essa questão está ligada a anterior. Em algum nível
psicológico, existem pessoas que realmente andam no limiar
entre o pessimismo desanimador e a falta de coragem diante
da inatividade constatada.
Você não é o que você faz. Muito menos o que deixou
de fazer. Quando estamos inseridos num contexto amplo de
atividades, temos a impressão de que o nosso mundo é o
único que sempre desaba.
Acredito que perder a perspectiva da nossa história é o
principal motivo que nos leva a focar em recortes trágicos da
nossa vida. Conheço pessoas que conquistaram muitas coisas
na vida, mas ainda estão apegadas a seus passados como
quem alimenta um bicho de estimação por hobby.

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Diante de uma percepção de olhar viciado em grandes
catástrofes, é bem provável que você tenha o hábito de
supervalorizar as demandas negativas.
Especialmente quando falamos de relacionamentos, é
bastante comum trazermos experiências ruins para novos
contextos. A gente é viciado em achar-se insuficiente para
começar uma nova história. Acostumamos a nos ver como
pessoas que não sabem amar.
A prova disso é que você ao invés de ler este trecho e
buscar entender como isso tem efeito negativo em sua vida,
você deve estar pensando: “É que ele não conhece minha vida.
Sempre dá errado” ou “É só olhar para as minhas experiências
e verá que sou incapaz de sustentar um amor”.
Repare. A maneira como você vasculha as evidências de algo
que viveu é que te diz como criou padrões comportamentais
que pode estar atrapalhando um novo contexto. Você está
num círculo mental vicioso e pretende ficar.
Obviamente, que não temos como nos desamarrar dos
traumas como quem se livra de uma espinha no queixo, é
preciso realizar uma limpeza sincera e sistemática nas ideias
que nos levam para novas práticas saudáveis evitando cometer
bobagens repetidas.
Não é possível viajar para um novo lugar com as
bagagens sujas de outra viagem. É preciso lavar, secar,
passar e arrumar as malas. Demora, mas essa limpeza tem que
ser feita uma hora.
As coisas dão errado. Ponto final. Isso não quer dizer que
esteja preso aos insucessos da sua vida. Muito menos quer
dizer que você é o único responsável pelas situações chatas
que acontecem.
Quase sempre tenho que lidar com uma dualidade na
minha mente: Ora, acredito que tudo que conquistei é por
pura sorte, ou uma espécie de “estar certo na hora e no lugar
certo”, e ora, tenho a impressão de que trabalhei bastante para

26
alcançar alguns resultados.
Aprender que nem tudo que dá errado em nossa vida é
devido a uma regra que o universo impôs sobre nós. Isso é
besteira. As contingências do mundo não escolhem a dedo
quem ela deve atingir.
Essa mentalidade não só dificultava todo o meu processo
de aprendizado, como me tirava a dimensão de que é normal
errar muitas vezes. Sair desse lugar de entender-se como uma
vítima do fracasso não é fingir que nada acontece de ruim, mas
aprender a valorizar cada passo que damos rumo à superação.
Se pensamos que ninguém pode entender nossos
sentimentos, estamos no pior lugar do mundo. Cada um sofre
de formas diferentes por coisas diferentes, mas todos têm
aprendizados para compartilhar.
É verdade que ninguém será capaz de sentir a dor que você
sente, mas poderá sim te dar ferramentas pela empatia para te
ajudar com o mínimo possível para deixar o seu caminho mais
fácil, e por vezes, menos doloroso.
O que ninguém te conta sobre estar mentalmente fodido
é que no seu caminho, cruzará com muita gente que apresenta
indiferença a sua situação, desdém quanto a sua realidade,
insensibilidade aos seus sentimentos, mas, por sua vez,
descobrirá também muitas pessoas — gente de verdade — que
poderá te curar de um dia ruim, de uma sensação de
incapacidade, de uma tristeza involuntária, apenas com uma
manifestação de carinho e preocupação.
É sobre isso que toda a sua vida tem que circular. Ninguém
te prometeu um lugar sem sofrimento, mas também, se olhar
bem, ninguém te provou que está sozinho no mundo. Sua
mente está fudida agora, mas não precisa sempre ser assim.

27
FAÇA DA GENTILEZA
MAIS QUE UMA MODINHA

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Depois de uma dermatite, resolvi que ia procurar um
médico. Durante a consulta com o especialista, aponto para a
estante de livros e pergunto sobre uma foto que me chamou
a atenção.
Por cima dos óculos, ele olha na direção, pausa a receita
médica que fazia e dispara: “Você disse que é escritor, não é?
Então, se prepara para uma boa história, garoto.”
Empolgado, ele me conta que participa todo ano de um
programa de voluntariado com pessoas do mundo todo. Ele
e outros médicos, dedicam 4 meses, geralmente em alguma
região economicamente precária do planeta, a atender pessoas
em condição de miserabilidade, tudo isso via uma organização
mundial bem conhecida.
Entre um detalhe e outro, ia me contando deixando nítido
sua postura de felicidade, o sorriso saudosista deixava claro
o senso de utilidade, usava uma linguagem positiva e seus
olhos brilhavam denunciando de uma maneira especial, que
ele sabia o bem que fazia as pessoas quando estava lá.
Confessou-me que apesar de ter conquistado muito
reconhecimento profissional, de ter conquistado uma condição
financeira segura, ele esperava ansioso todo ano por aqueles
meses como uma criança espera o Papai Noel no fim do ano.
Interrompi sua empolgação e conclui: “Doutor, vejo os
olhos brilharem quando o senhor conta isso. Quer saber o que
é isso? É a sua gentileza o levando ao cerne do que o senhor
veio para fazer no mundo. Acontece que sua gentileza não é
propaganda, não é fabricada, é algo que carrega consigo.”
A maioria das pessoas gosta de pensar em si como
uma pessoa gentil. Os atos de bondade que realizamos nos
ajudam a construir uma identidade positiva sobre nós mesmos.
Consequentemente, nos auto percebemos como alguém
generoso e isso nos faz sentir um tanto menos culpados e,
automaticamente, mais orgulhosos do que descobrimos que
podemos sentir, ser e fazer.

29
Diante de um mundo enraizado no individualismo e no
narcisismo — especialmente no ambiente digital — ser gentil
e exercer a empatia é visto como algo extraordinário. Não
é complicado ser gentil em certas ocasiões, difícil é ter uma
mentalidade de generosidade constante.
É claro que existem diversas maneiras diferentes de
perceber e praticar pequenos atos de gentileza, mas em um
mundo absolutamente sem empatia, qualquer ação em prol
da cortesia e da delicadeza nos deixa abismados.
Temos falado muito sobre o assunto atualmente. Já foi o
tempo em que a gentileza era coisa de monges budistas nas
montanhas do Tibet. A polidez usual é instrumento necessário
e importante na vida individual, nas relações coletivas, no
mundo dos negócios e em um mundo cada vez mais plural.
A gentileza não é mais um superpoder e não deveria
ser vista como atributos de um super-herói, mas tem que
fazer parte de uma realidade diária e estar inserida nos
meios mais convencionais da humanidade. Não pode ser
um palanque para se promover, tem que ser uma alavanca de
ações em prol do outro.
Quando falamos de cultura da gentileza, estamos falando
de que? Parece-me que é mais comum encontrar a ideia de
ser gentil sendo praticada em ambientes em que não existem
obrigações claras e que não possuem relações de compromisso
e responsabilidade. É muito mais fácil ser gentil com uma
criança da África do que com aqueles que convivemos todos
os dias.
No ambiente de trabalho, por exemplo — cercado de
hierarquias, fomentado por competições, ambientados com
disputa, vendo o concorrente como alvo de eliminação,
valorizando uma alta velocidade nos resultados — o assunto
ainda é muito recente.
De igual modo, nos ambientes familiares, a cultura
de gentileza exerce mais um papel diplomático, do que

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demonstrar qualquer interesse em compreender e reconhecer
fragilidades alheias.
Apesar de parecer que a empatia esteja mais presente
em ambientes de amor, é justamente o contrário que
costuma acontecer. O ambiente do amor tem peculiaridades
comportamentais muito mais nocivas, pois carrega consigo
uma hostilidade provocada pela liberdade, pela obrigação
do perdão e pela constante aproximação que o senso de
comunidade traz. Dizemos as maiores e mais indelicadas
atrocidades em nome de uma suposta intimidade.
É por isso que a cultura de gentileza tem a sua estreita
relação com o exercício da empatia, com a prática da escuta
ativa, com o esforço para o entendimento mútuo e o reajuste
de sintonia possível.
Ser gentil não é tão difícil quanto parece.O que não te
contam sobre a gentileza é que é mais que preparar discursos
sobre se colocar no lugar do outro e forçar um ambiente artificial.
Ser gentil tem que ser encarado como uma oportunidade
constante. É obrigatoriamente se despir inicialmente de todo e
qualquer argumento bélico, parar e se conectar com os outros.
O desafio de criar mudanças organizacionais e sociais
que nos ajudem como os nossos modos de olhar a vida, os
preconceitos que construímos ao longo do tempo e barreiras
psicológicas que nos impedem de estar ligados ao outro.
A gentileza é obviamente uma sequência de aulas que
vão ressignificando pequenos trechos da vida inteira e, é
por isso , que é a coisa mais importante que você pode
fazer por você, pelos outro e pelo mundo.

31
PRIORIDADE NÃO
TEM PLURAL

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A vida em aeroportos me trouxe muita aventura.
Normalmente, quando encontro alguma personalidade
famosa eu apenas o deixo ir em paz. Não faço o tipo tiete.
Manter-se na sua insignificância pode ser saudável.
Acontece que, numa dessas filas de espera de embarque,
tive a oportunidade de estar atrás de um homem que admirava
muito. Meu respeito por ele não é somente por vê-lo como
uma referência no estilo de vida que levava — Sim, ele já
faleceu — mas por ele ter sido reconhecidamente um homem
muito próspero em algumas áreas da vida e conhecido por ter
uma sabedoria inestimável que o levou ao sucesso em tudo
que fazia.
Quebrei o meu protocolo. Eu tinha alguns minutos para
tentar arrancar o melhor aprendizado das diversas experiências
que ele tinha. Era uma oportunidade única. Botei-me a pensar
em como aprender um pouco com ele.
Tinha a chance de escolher uma ou duas perguntas para
lhe fazer. Virei-me quase que completamente, quebrei o gelo
com um comentário genérico e, em dada altura da conversa,
questionei:
 — Admiro demais você. Permita-me perguntar: A que o
senhor atribui seu conhecido sucesso?
Ele virou os olhos para mim com pena da minha juventude
evidente, colocou a mão em meus ombros e como se quisesse
que eu nunca mais esquecesse, me disse enfaticamente:
 — Prioridade.
E quando eu já ia questioná-lo, adiantou-se:
 — Aprendi nessa vida, que de tudo que faço, penso, vivo…
Que de todas as pessoas que conheço, converso e convivo,
de todos os lugares que morei e estive visitando, de todas as
situações que presenciei, e de todo o tempo que tive na vida,
apenas 2% são realmente importantes. Os outros 98% são
tão desimportantes, irrelevantes ou não necessitam de
prioridade.

33
Fez uma pausa proposital para ter certeza que eu prestava
a atenção e continuou:
— Então, garoto, durante toda minha vida tentei focar
justamente nos 2%. Os 2% das tarefas importantes, os 2% das
pessoas importantes, os 2% dos pensamentos importantes, os
2% do tempo que realmente me deram significado a tudo isso
que é a vida.
Como uma vaca ruminante, meu cérebro ficou maturando
essas palavras durante dias. Naquele voo, comecei a perceber
que realmente aquelas palavras tinham um tanto razoável de
sabedoria.
Toda vez que penso que estamos diante de um mundo
cheio de tarefas, eu me lembro que a vida não é sobre sobrar
tempo para realizar as coisas, mas sim sobre escolher o que
vamos fazer.
A nossa desculpa de estimação para o não-cumprimento
de um objetivo é qualquer variante de: “Eu simplesmente não
tenho tempo para isso”. É por isso que nunca começamos a
academia, que negligenciamos os caprichos da dedicação
em um relacionamento, que disfarçadamente escondemos os
insucessos debaixo do tapete das ocupações.
A ideia da escassez do tempo pode até ser verdadeira, mas
também existe algo incontestável que precisa ser considerado.
A ideia de ser uma pessoa bem-sucedida está mais ligada
ao gerenciamento das prioridades do que da abundância
de tempo. Nunca foi sobre o tempo, mas sobre prioridade.
Por outro lado, existe a dimensão em que nem todos os
objetivos são realmente importantes. Alguns nem sequer são
necessários para uma vida melhor, mas a gente deixou de
entender assim. Separar um do outro é que nos confunde e
nos faz entrar na mentalidade automatizada sobre o tempo.
Desde organizar seu quarto até aprender um novo idioma,
ambos têm a ver com o tempo e com as escolhas.
Um conselho que vos deixo. Tenho aprendido, mesmo na

34
pouca idade, a esquematizar um sistema de prioridade que
faça algum sentido. É claro que sistematizar rotinas podem sim
ter uma complexidade imprevisível em um simples texto, mas
mesmo assim, aqui vão algumas provocações.
Pensar sobre o que está no topo da nossa prioridade
é fundamental. No meu caso, procuro deixar aquilo que dá
condição de energizar-me — não no sentido místico, mas no
físico e mental —, ou seja, é toda e qualquer realidade que me
dá condição de me sentir bem.
(Parênteses obrigatórios. É preciso ponderar que quando
digo “sentir-se bem” não me refiro àquele sentimento de
satisfação contínuo a qualquer custo que adoramos idolatrar
nos tempos atuais, mas sim naquele sentimento que nos faz
ter a percepção de que as coisas estão em ordem.)
Sei reconhecer hoje que realmente preciso focar como
preferência na minha vida aquelas coisas que me dão a
sensação de alívio existencial e vitalidade. Ou seja, coisas que
estão ligadas à saúde da nossa mente, aquilo que consegue
tocar em nossas almas com delicadeza e que nos faz capazes
de recarregar as baterias diante da jornada que é a vida
moderna.
Desde um simples exercício de meditação convencional
até um longo cochilo na hora do almoço, se é para me ajudar
a construir uma fortaleza produtiva no futuro, é isso que
precisamos fazer nossa prioridade. Apenas coloco em primeiro
lugar as coisas que me fazem sentir vivo, porque essas são as
coisas que realmente deve importar.
Isso não quer dizer ignorar tarefas. Sei o que está pensando:
“Mas nem tudo na vida é apenas sobre energizar-se.” E você
tem razão. Mas perceba como podemos desenvolver uma
maturidade básica de prioridade que nos ajuda em diversas
situações.
Quando estamos diante de uma tarefa inadiável, apenas
devemos fazer ajustes mentais que compense a sensação de

35
perda na sua mente posteriormente. Ir à academia, entregar
uma planilha no trabalho, escrever um relatório no final de
semana. Isso tudo, por vezes, pode ser inevitável, mas aprenda
a recompensar-se.
Quando estou nessa situação, realizo estas tarefas como
quem está fazendo algo para conquistar uma nova coisa. Vale
rever sem medo a nossa relação com as coisas que priorizamos.
Se limparmos a casa, teremos a recompensa de um ambiente
limpo. O ideal é pensar na recompensa e não no esforço.
Nesse sentido, estamos num mundo em que o trabalho é o
maior de todos os deuses. Isso porque não conseguimos mais
pensar no ofício distinto da ideia de dinheiro e remuneração.
O trabalho não pode ser prioridade em um lugar onde a saúde
mental não está no lugar devido.
Eu realmente já me vi em situações onde meu trabalho
ocupava quase todas as minhas horas vagas e isso me fez
criar a sensação de que a minha utilidade estava na minha
capacidade produtiva. Até que ouvi uma pessoa, certa vez
dizer: “Se você tem algo que não pode abrir mão, não é você
que tem algo é essa coisa que o tem.”
Prioridade é mais que organização. Penso que aprender
a priorizar não é só organizar-se, mas é respeitar também a
si mesmo. Não vivemos no mundo ideal, mas também não
precisamos viver em um que não nos deixa viver. Não existe
mundo mágico, mas existe um mundo possivelmente saudável.
O que não te contam sobre prioridade é que não existe
nenhuma possibilidade de ter mais de uma coisa como
prioridade, as pessoas que fazem os trabalhos mais valiosos no
mundo sabem bem em que focar por isso estão no caminho
do sucesso.
Precisamos entender que o tempo é um conceito intangível,
e, se não aprendermos valorizar aquilo que realmente importa,
fazendo mudanças necessárias e progressivas tentativas
intencionais de reorganizar a ideia de prioridade em nossa

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vida, poderemos estar vivendo uma vida ocupada, mas nada
produtiva e significativa.
E se leu este livro só pelo título, sei que não é isso que
quer. Faça um esforço sincero e legítimo para encontrar
sua prioridade. Sem plural. Apenas como o objetivo mais
importante da sua vida.

37
A IMPORTÂNCIA DE TER
GENTE POR PERTO

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Eu já disse aqui categoricamente que estamos todos
fudidos da mente. Julgo que ninguém consegue fugir
dessa evidente constatação. Encontrar pessoas que estão
totalmente presas as dificuldades emocionais é bastante
comum a cada dia que passa.
E mais. Sei bem do tamanho do problema que compro
aqui advogando sobre a necessidade essencial do outro em
um mundo cada vez mais decepcionado com pessoas e apático
a ideia de “precisar de pessoas com parte da felicidade”.
Calma, vamos por partes. Estou completamente
convencido de que a ideia exagerada de priorizar sempre uma
autonomia sentimental em relação a entregar-se ao outro não
nos tornou independente como queríamos, mas nos fez ficar
mais indiferente frente às pessoas, sacrificando no altar do
egoísmo uma vida amorosa compartilhada.
As pessoas têm todo direito de ficarem desacreditadas das
relações. Provavelmente, seu espelho até mostra uma dessas
pessoas, mas não fique com vergonha do flagrante, muita
gente está nessa condição. Eu mesmo sofro de constantes
inseguranças sobre o outro.
A questão é que no meio dessa bagunça toda chamada
vida, temos de recordar que a gente vai encontrando também
pessoas que nos ajudam diante da realidade de empatia, de
compreensão e de carinho mútuo.
Do outro lado, ficam as pessoas que chegam para botar
fogo no nosso circo emocional sem o menor pudor e cuidado.
Essas pessoas não deveriam ser aquelas que fixamos como
referências. Nivelar as relações humanas por baixo é um vício.
É como manter-se voluntariamente míope por não querer ler
as frases de um livro.
Sem mais rodeios. O convite reflexivo é simples: será que
podemos viver sozinhos com tranquilidade e satisfação ou
compartilhar as nossas mazelas com os demais pode ser uma
realidade saudável e possível?

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Você está num cativeiro mental. O nosso cérebro é dividido
em diversas partes e unidas provocam todas as sensações,
emoções e sentimentos. Não quero te explicar nada técnico
porque eu mesmo não tenho essa capacidade, mas preciso que
você saiba que está refém da sua maneira de sentir, perceber
e encarar a vida.
De alguma maneira, estamos sempre diante de
pensamentos emocionais aleatórios que são construídos
basicamente porque acostumamos a olhar somente para o
que está acontecendo de ruim ao seu redor.
A sua condição mental pode o enganar. Ela pode dizer
que alguém está a fim de você apenas porque recebeu um
sorriso, pode lhe dizer que está com fome só porque sentiu
um cheiro de algo apetitoso, pode sugerir que alguém o traiu
só porque viu uma foto. Estes são alguns casos em que somos
sequestrados da realidade. A prisão mental confisca a lógica
para criar um mundo inexistente.
Quando percebo que talvez eu tenha levado meus
pensamentos muito a sério, faço o exercício de anotar
as minhas paranoias e uma a uma vou visitando-as e
analisando se existe algum dos pontos que tenha um
mérito lógico.
Procuro nas minhas teses algum sentido racional, reparo
bem nas emoções envolvidas dando nome a elas, e não
demora muito para eu perceber que a maioria dos meus
pensamentos são coisas criadas pelo imaginário, portanto,
limitados a uma logicidade aleatória que é raramente baseada
em fatos concretos.
A vida compartilhada nos ajuda a sair de si. Escolher quem
será a tripulação que vai nos acompanhar na longa viagem da
vida é sem dúvida uma das escolhas mais importantes. Não
podemos obrigar pessoas a sempre irem ao nosso próprio
lugar de escuridão, mas temos que dar espaço para elas
visitarem a nossa solidão às vezes e nos ajudar a faxinar os

40
excessos que existem por lá.
Precisamos retirar da nossa mente a percepção de que
todas as pessoas ao nosso redor são ruins e querem nos
prejudicar. Essa mentalidade não nos permite viver ao lado de
ninguém. É mais que necessário perceber se nossa mente nos
empurra naturalmente para teorias céticas ou se nos ajuda a
sermos confiantes no que diz respeito ao relacionamento com
as pessoas.
Uma análise mais cuidadosa de como estamos lidando
com essa percepção das pessoas ao nosso redor nos permitirá
descobrir facilmente quem está levantando e quem está nos
derrubando.
A partir daí, nesse sentido, precisaremos criar um esforço
autêntico e progressivo para desviar das pessoas que nos
prejudicam e ter o mesmo vigor para ficar ao lado das pessoas
que nos potencializam.
Ainda existe gente de verdade por aí. O que não te
contam sobre a importância de ter gente por perto é que
existe uma dimensão de sucesso em viver com o outro que
pode se transformar em um produto saudável para a mente,
que pode gerar companheirismo real, e que mesmo diante de
um mundo completamente solitário, é possível achar pessoas
na caminhada que são doadores de energia, que inspiram os
outros, que cuidam da gente mais do que até a gente acredita
que merece.
Existe gente de verdade no mundo e que nos ajuda na
tarefa de ser parte dos nossos sonhos, gente que acalma
nossa mente, mas para que possamos viver isso, temos
que dar um passo em direção do outro antes mesmo de
querer algo em troca.
No caminho da vida vamos achar pessoas que tem a
função de nos acompanhar no sofrimento, mas fazer isso da
maneira mais respeitosa e dócil possível, não imputando sobre
a gente as neuroses e culpas, mas nos livrando das coisas que

41
nos afligem diariamente. Ter gente perto da gente nos livra da
condição de viver apenas para o próprio umbigo.

42
A COMPLEXIDADE
DO OUTRO

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Na mesa dos cafés começam muitas coisas importantes,
mas também muitas injustiças. Entre os goles, há sempre um
sujeito a ser malhado. E todo mundo tem o seu próprio Judas
de estimação.
Cheguei mais cedo do que o combinado. Escolho a mesa
mais perto da porta por puro capricho, peço o meu já tradicional
suco de laranja sem açúcar ratificando a formalidade do meu
estômago que anda recusando cafeína como um cão enjoado
de biscoito.
Dispenso o líquido preto, mas nunca recuso um pão de
queijo acompanhado de uma boa conversa em volta da mesa.
Chamo de boa conversa apenas aqueles papos que saímos de
lá com a impressão de que ganhamos uma biblioteca nova
para explorar. Pois bem, esta era a cena ordinária em questão.
Chega um velho amigo de longa, dobra o guarda-chuva
todo atrapalhado, me cumprimenta com a informalidade de
uma amizade sólida, queixa-se da falta de estacionamento,
toma sua posição na cadeira em frente a minha e reclama
do lugar que escolhi como de praxe. Apenas sorrio da seu
inconfundível azedume cômico. Ele pede o seu café forte e
rígido, sem ornamentos carnavalescos.
Não demora muito para começar as arbitrariedades. Antes
que eu molhasse o bico, ele começa o papo criticando os
comportamentos indecorosos de outra pessoa em comum
que frequenta nosso círculo de amigos — todo mundo tem
um amigo daqueles que só a gente (mesmo) aguenta. Vai
logo me questionando como é que ainda mantemos o tal
fulano na amizade.
A indignação era tanta que, descrevia-o como um diabo
de rabo e tudo mais, concluindo:
 — Olha só, cara, eu penso que ele precisava era realmente
se dar um pouco mal na vida para aprender a ser diferente
com as pessoas. Eu julgo que ele tinha mesmo que passar uns
apuros graves para aprender a ser menos filho da #¿$?%!¡z.

44
Pacientemente, esbocei um sorriso incólume, e disparei:
 — Olha, somos amigos dele certo?
Esperei a resposta verbal que por teimosia não veio. No
lugar, uma expressão de dúvida e incerteza no rosto talvez
almejando onde é que eu queria chegar com aquilo. Prossegui
cuidadosamente:
 — Então, acho que como amigos dele, precisamos
entender que: se ele age, fala, pensa, faz e vive de um jeito
complicado é porque ele tem uma história. Você conhece a
história dele?
A minha pausa proposital agora exigia uma resposta verbal.
 — Sei um pouco, mas não tudo…
 — Tá bem! vou te contar algumas delas…
Aproveitei que ele já tinha me dado toda a atenção dele
para contar algumas coisas realmente problemáticas na vida
dessa terceira pessoa que, não justificava, mas explicava
algumas coisas denunciavam a sua postura rude diante da vida.
Ele me confessou que não fazia ideia daquilo tudo. Via o
espanto e o arrependimento dele flagrante.
As pessoas são complexas por motivo de: Elas são pessoas.
Não temos como saber ao certo o que está passando na cabeça
das outras pessoas. E mesmo que você conviva já há algum
tempo com elas, em um dado momento, acaba por descobrir
que não a conhecia tanto como imaginava.
Não só porque as pessoas são complexas, mas, porque
elas seguem mudando. É por isso que, naturalmente,
acabamos analisando pessoas sem considerar aquilo que elas
viveram. Não podemos nos acostumar a imaginar que alguém
simplesmente é cruel por esporte — embora exista sim essa
dimensão.
Outro dia uma amiga teve que ouvir o chefe justificar suas
atitudes grosseiras com a frase: “Fui forjado na dor”. Quando
ela me contou, recomendei que ela respondesse: “Mas, meu
anjo, essa é sua história. Você tem que dar conta de aprender

45
a lidar com ela. Não deposite nos outros os seus encargos
emocionais.”
Quando nem a gente mesmo aprende a olhar para nossa
história e encontrar os buracos que nos transformam e nos
direcionam em todos os sentidos da vida, atuamos em uma
superfície áspera completamente desnecessária. O amargor
da vida traz para nossa rotina apenas mais um elemento
estressante.
A complexidade do outro é a nossa própria, mas com
detalhes diferentes. Nosso cérebro pode até comprar a ideia
de que se a gente se comporta de uma determinada maneira,
estaremos sempre condenados a repetir esse padrão, e essa
mentalidade facilmente reforça comportamentos viciado e
acaba se fixando hábitos ruins.
Esse é ao mesmo tempo, um labirinto sem saída no qual
permanecemos perdidos, mas pode se tornar um esconderijo
sentimental diante da covardia da mudança de mente.
Talvez seja essa ideia de traços de personalidade imutáveis
que reforça o corpo emocional. Isso explica a origem da
violência, por exemplo.
É justamente essa ideia que justifica, sermos rudes com
pessoas, xingarmos desconhecidos no trânsito, sermos mal-
educados com pessoas que só estão fazendo seus trabalhos
e ignorar pontos de vistas importantes, mas distintos do
nosso que acabam cruzando com a sensibilidade do outro de
maneira bélica.
Todo mundo, no fundo, é bem mais complicado do que
pensa que é. Ter uma simples empatia intencional de imaginar-
se no cenário do outro, pode desenvolver na gente muito mais
compreensão e identificação com aquilo que as pessoas estão
vivendo.
Fazer o esforço mental para tentar entender o momento em
que pessoas estão tem que ser um exercício recorrente. Buscar
capturar elementos da história de pessoas nas entrelinhas das

46
suas ações não só nos ajuda a ser mais compassivos como elas,
como também desenvolve na gente uma noção empática das
realidades distintas.
O que não te contam sobre a complexidade do outro é que
entender e se fazer entendido nessa guerra de lados diversos,
pode resultar em uma aderência maior à compreensão de que
a coletividade e a flexibilidade são uma obrigação fundamental
na convivência.

47
SER LIVRE PARA VIVER
O QUE BEM ENTENDER

48
Já faz algum tempo que encontro em mim a coragem
de ser. Tenho, de certo modo até obsessivo, sido repetitivo
e insistente em dizer que só somos livres quando passamos
a assumir aquilo que nos rege sem medo do que pode vir
adiante.
Volto, de maneira monomaníaca ao mesmo ponto por uma
razão simples: ninguém deveria ter de recorrer a encenações
para empolgar auditórios, nem tampouco ter de manter-se em
papéis esdrúxulos para que se sinta um pouco mais parte de
algo. É covarde e doloroso ter que simular tudo que se vive.
Abro aspas para uma nota em letras garrafais: estamos
bem diante da era do vício à personalidade, por isso, usamos
ao discurso de ser livre para legitimar sermos o clássico babaca
devoto de si próprio.
Como é que uma pessoa decide abandonar alguns
disfarces? Olho para trás com coragem como quem faz uma
reflexão minuciosa e percebo a abundante carisma distribuído
de maneira desnecessária e o desperdício de expediente
com paisagens plásticas. Percebo que atrás de muito sorriso
estético, pode se esconder uma inestimável pobreza de
conteúdo legítimo.
Quando nos transformamos em simples caixas de
ressonância de ideias simuladas, de teses renomadas, porém
falsificadas, de certezas espúrias e consentimos para evitar
conflitos estamos bem diante de uma flagrante crime da
dissimulação treinada.
Por bem-dizer, senti que tava mais do que na hora de
encarar perguntas difíceis, enfrentar castelos mentais como
um iconoclasta sênior e deixar de evitar questionamentos que
possam me indispor com aqueles que adulam a falsa cortina
da aparência. A máxima regente tornou-se: quando poupamos
os lobos, condenamos as ovelhas.
A valentia do desaforo por trás do brio Fugi da sedução de
construir-me como um mito imbatível para descer ao chão da

49
existência com maior rigor, deixei de gastar minhas economias
emocionais defendendo o lugar-comum.
Fiz questão de disparar e golpear clichês a ermo sem me
ocupar com os arrotos petulantes de alguns. Debrucei sobre
a minha escrita para evidentemente desmontar chavões
como uma prece nada cuidadosa. Minhas frases se tornaram
agressivamente macias na mente de quem me lia.
É totalmente possível que você já tenha passado por um
momento em que sofreu passivamente pequenas violações
cotidianas que te transformou em pequenos e esquecidos
destroços boiando pelo mar furioso. Apenas seguindo algo
que não conhecia.
É preciso um pouco mais que coragem e autoconfiança
para desfrutar do quão ruim pode ser estabelecer limites para
a sua própria idiotice vil. O preço a pagar pelo resgate do
resto que sobrou da gente e montar uma nova estrutura rígida
é comprometer até as últimas moedas de ouro nesse novo
empreendimento.
Há sempre uma esquina para habitar. A boa notícia é que
há sempre espaço nessa viagem rumo ao desapego daquilo
que não gostaria de ser. É uma turbulenta excursão. É mais
que um passeio, é uma peregrinação longa, perigosa, cansativa
e altamente implausível, mas integralmente redentora.
Aqui, neste lugar onde podemos ser a gente mesmo,
deixamos de querer provar ser amáveis e dignos do respeito
alheio e ganhamos o direito de proferir um som inaudível de
liberdade que não precisa comprovar sua patente testemunha.
Bem neste lugar da coragem de ser, aprendemos que
expor-se demais faz as pessoas nos odiar, que viver apenas
como se deseja nos torna alvos fáceis da retaliação alheia, que
falar tudo que pensamos nos transformar automaticamente
em uma pessoa horrível para os demais, mas que calar-se,
fingir, esconder e acovardar-se também.
Neste canto de concretude abissal, lidamos bem com

50
a realidade de que eventualmente sairemos machucados
gravemente das relações, que poucas pessoas realmente vão
ouvir o que temos a dizer, que eventualmente, a vida revida
tudo com imensa força, que nem sempre nossas necessidades
possam ser realmente atendidas, mas é aqui, neste desconforto,
que aprendemos a ser sem ter medo de viver.
O xeque-mate da realidade.Do lado de cá, sabemos que
passamos rapidamente. Estamos perigosamente sempre
próximos do último olhar, respirar, agir e amar. Acostumamos
com os passos lentos que nos corrigem didaticamente e nos
fazem descobrir um novo ritmo, nos familiarizamos com o
timbre educativo da voz da vida, nos condicionamos com o
esgarçar das etiquetas vãs e com a ineficiente dos remendos
morais.
Somos pegos de surpresa pelo flagrante incontestável:
A vida é um momento ligeiro. O que sobra além dos
confortáveis, mas curtos acolchoados de uma vida sem
sentido? Nada. Mentimos, porque mentir funciona.

51
NUNCA TEREMOS LIKES
SUFICIENTES PARA
TRAZER A FELICIDADE

52
Deve ter uns dois ou três anos que chegou até mim um
e-mail de um leitor me questionando a respeito de uma
história horrível que ele havia ouvido de terceiros sobre a
suposta razão do fim do meu casamento.
Os fatos que ele me contava eram totalmente inverídicos.
Colocaram-me como um sujeito completamente horripilante
e grosseiro. Tornei-me, na versão daquele sujeito, um
personagem tenebroso e maldoso do qual eu jamais seria
capaz de ser. Tinha alguém me punindo por esporte.
Eu estava no avião há muitos pés de altura em direção
de uma praia linda. Quando me dei conta de que estava sem
internet para responder, me deu um certo desespero e um
desejo de estar em terra firme o mais rápido possível.
Constatei um flagrante enorme: eu estava tão acostumado
a ganhar likes que não era capaz de enfrentar, de maneira
calma, uma mentira deslavada.
Era como se diante do espelho tivesse que confessar em
voz alta que me importava demais com aquilo que as pessoas
achavam sobre mim.
Não é mais segredo para ninguém que precisamos de
likes para nos sentir felizes e amados. Somos reféns da
nossa própria exposição.
Quando penso na minha jornada escrevendo na internet,
no tanto de leitores que tive e na quantidade enorme de coisas
que pude viver, é impossível não lembrar de três momentos
importantes que acabaram mudando minha vida, mas também
me expondo muito mais que deveria. Acompanhe comigo até
o final do raciocínio. Antes, uma pequena contextualização…
Aos vinte anos, decidi que ia escrever pequenos textos no
meu Facebook — na época em que tinha gente sobrando por
lá — colocando alguns pensamentos e ideias a respeito do
que eu estava vivendo e pensando naquela fase da vida. Já
reparou que o jovem tem um desejo ou desespero ímpar de
ser ouvido?

53
Pois bem, apenas comecei. Fui convidado, ainda na
faculdade de jornalismo, por um portal local para escrever
crônicas semanais. Era um site cultural pequeno, mas tinha até
que um público fiel. Aprendi ali a contar histórias e entreter
pessoas com minha escrita criativa.
Esses textos acabaram agradando bastantes pessoas de
círculos próximos, e, sem querer fui construindo o primeiro
grupo de pessoas que gostava de ler o que eu escrevia.
Mais tarde, um amigo, que pertencia a um dos maiores
blogs do Brasil na época, me convidou para escrever por lá e
dividir um pouco o que eu pensava com outros jovens. Era a
primeira vez que eu tinha milhões de leitores e opiniões de um
grande público.
Este projeto durou quase dez anos, até que nos tornamos
atarefados o suficiente para não conseguir dar conta do site.
Acabamos encerrando uma década de conteúdo formando o
pensamento de uma geração inteira de jovens, que hoje, assim
como eu, tornaram-se adultos. Ainda fico feliz quando sou
abordado por antigos leitores dizendo que o MVC mudou a
vida deles.
Quando entrei na faixa dos vinte e mais alguns anos, acabei
me casando. Este episódio colocou diante de mim um novo
momento de vida e um novo assunto para compartilhar. Com
a minha ex-esposa, criei um blog para compartilhar um pouco
deste novo momento e contar o que aprendíamos sobre viver
à dois, sobre convivência e relacionamentos.
Este foi um dos projetos que mais gostei de criar e que
também me colocou no mundo como um legítimo criador de
conteúdo em série. Acabamos sendo uma referência de casal
para muita gente na internet. Tem lá seu bônus, mas ônus
inevitáveis. Sem que eu medisse os danos disso, pudemos
viver muita coisa por causa desse projeto.
Fora quase três anos de conteúdos diários, e, lidando com
milhares de leitores aprendendo o desafio de amar e viver

54
juntos. O Casal do Blog acabou sendo mais um case de como
criar conteúdo de valor pode gerar engajamento e influência.
Por causa desse segundo projeto, fui convidado para
escrever artigos sobre trabalho, propósito e os desafios da
nova geração no mercado dentro da plataforma do LinkedIn.
Naquela época, estava insatisfeito com meu trabalho e diante
de uma nova jornada de me tornar um verdadeiro escritor e
viver da sua escrita, comece a compartilhar conteúdo sobre
essa temática que foi bastante lido e compartilhado.
Culminou que, com o fim do meu casamento, recebi um
reconhecimento bastante importante e me intitularam como
um dos Top Voice LinkedIn no Brasil, que nada mais é do que
estar na lista de um dos criadores de conteúdo mais influentes
do LinkedIn.
Claro que isso me gerou milhares de seguidores, negócios
e oportunidades, mas essa exposição me trouxe muito trabalho,
e foi esta, a porta mais viável que tive para viabilizar a minha
loucura de viver somente de escrita, consegui viajar o país
inteiro palestrando, dando aulas e vivendo o sonho de ser um
influenciador de verdade.
Até aqui, parece um cenário que muita gente gostaria de
estar inserida, mas tenho quase como que uma obrigação te
contar umas verdades sobre essa realidade de ser reconhecido
nas redes sociais e viver uma exposição para além dos
privilégios.
Todo mundo sabe tudo sobre você. Diante de todo esse
contexto, passei a pensar sobre como toda essa exposição
acabou me trazendo muita coisa incrível na vida, mas
também acabou gerando um custo mental muito grande.
Não quero nem entrar no mérito se, é certo ou errado, se é
vantajoso ou não, se é ingratidão ou não, mas quero realmente
filosofar sobre esta ideia de sucesso distorcida que, na verdade
é a maior evidência de que estamos viciados em viver uma
vida de aparência para além da realidade concreta.

55
Quero começar essa conversa trazendo um personagem
bem comum atualmente. O Instagram tem criado
personalidades que se tornam evidentes por motivos externos,
e isso, realmente tem me feito pensar sobre como a gente
projeta demais a nossa expectativa na ideia da imagem que
construímos. Estamos sempre atrás de audiência e likes como
a possível solução para todos os nossos problemas.
Aprendi, com tudo isso que esta realidade pode ser bem
nociva para nossa mente e temos que viver como escravo de
uma imagem que transmitimos aos outros.
Estamos, por outro lado, de maneira irresponsável,
seguindo e empoderando milhares de modelos prontos e
simulados de perfis que nos vendem uma falsa ideia sobre
propósito, motivação, sucesso, beleza, relacionamentos,
saúde e trabalho.
Temos a sensação virtual de que imagens editadas
representam a realidade..As fotos revelam poses montadas, os
vídeos são disciplinarmente editados e nada do que colocamos
online representa a veracidade completa dos fatos.
Deixamos a refeição esfriar para retratar uma imagem
de um prato saudável, fazemos fotos das enormes mesas de
pessoas para dizer que temos muitos amigos e somos muito
queridos, registramos o treino da academia para ganhar
elogios e postamos a capa do livro que nem abrimos para que
pensem que somos estudiosos. Tudo filtrado.
Documentamos o pôr do sol que não aproveitamos
buscando o ângulo mais perfeito, os sorrisos brancos
construídos diante das legendas com letras de música,
clicamos o retrato das asas do avião, do copo do Starbucks,
da caneca Geek, da mão do companheiro, mas tudo isso é
dirigido e montado. Tudo pensado.
É espetáculos para todos os lados. Lembrei por um
instante do Gui Debord, autor que escreveu um livro chamado
“A Sociedade do Espetáculo” em 1967, descrevendo uma

56
sociedade que vive uma recorrência de espantosos espetáculos
construindo personas de si, fantasiando ambientes e vivendo
farsas bem realistas. Isso porque ele não fazia ideia de que
criaríamos o Instagram.
Ele não fazia ideia de que teríamos um lugar oficial
para parecer o que não somos, para enchermos de frases
motivacionais que não serve de bengalas emocionais, que
viveríamos um momento de palcos montados, inúmeros quilos
de vídeos sobre tudo e palestras com pessoas se promovendo
como especialistas de qualquer coisa, de enormes álbuns de
histórias bobas de superação.
A felicidade tem que estar além dos likes. Foi por isso
que fiz uma escolha fundamental. Decidi parar com essa coisa
de atrelar sucesso a likes. Isso é viciantemente e nos causa
um mal danado. Precisei abandonar o script de alimentar-
se de infindáveis fórmulas de sucesso que vivem nas bocas
enganadoras de empreendedores de palco.
Não nego que foi importante ter tido a minha fase de
ser convidado para grandes eventos, de ser visto como uma
referência de escritor, ter reconhecimento de alguns nichos
que sempre sonhei em estar, de ter experimentado um pouco
do fruto do meu trabalho de anos. No entanto, passei a ver
isso tudo com um olhar mais cuidadoso.
Acredito que todo o meu reconhecimento como produtor
de conteúdo, não pode ser medido apenas com likes e
visibilidade exponencial, mas tive que aprender que meu valor
está justamente em não negar que poderia ser a mim mesmo
antes de ser aquela cara que todo mundo queria que eu fosse.
Consegui, depois de muito apanhar, entender que não
precisava mostrar para todo mundo todos os lugares que eu
trabalhava, todas às vezes que recebia um elogio, todo o meu
esforço para viver o sonho de trabalhar com o que amo. Eu
poderia fazer tudo isso que o reconhecimento viria sem forçar
a barra.

57
Comecei a dar mais importância para relações do que para
os números. Passei a vender meu peixe apenas oferecendo a
coisa certa para as pessoas certas, a trazendo transparência
no que levo a sério e jamais tentando convencer alguém de
que sou bom suficiente, com argumentos exagerados, com
números mentirosos, com aparências manipuladas.
Tem coisa mais importante que as métricas de vaidade.
Aprendi a argumentar usando a verdade como a minha
principal arma. Essa foi a melhor lição dos últimos anos.
Deixei de lado o impulso de ter que contar ao mundo
inteiro sempre aquilo que vivo. Agora, posso ir num show sem
encher meus stories de vídeos, a memória do meu celular está
cheia apenas com imagens importantes, possa ficar um feriado
inteiro sem relar no celular, não preciso mais ter a obrigação
de registrar cada minuto de uma viagem de férias e descansar
de verdade.
A lição fundamental é que em vez de ficar com os olhos no
número de seguidores, na quantidade de likes, nos views que
tenho que superar, posso tranquilamente investir meu tempo
e minha energia em coisas muito mais importantes do que na
tarefa de manter-me famosinho na internet.
Por onde vou, sempre repito: melhor do que ser relevante,
é ser importante.

58
COMO DRIBLAR OS
GRANDES CLICHÊS DA VIDA
E VOLTAR A PERCEBER A
FELICIDADE REAL

59
Não levo a sério a felicidade posta no lugar-comum. A
verdadeira vida não pode ser integralmente feliz. Amar a vida
não implica, obrigatoriamente, em felicidade. Ponto. Aliás,
acrescento: a felicidade costuma morar bem longe da
vizinhança dos bordões manjados.
A felicidade é coisa antiga, mas hoje, essa pauta tornou-
se uma obsessão. Melhor, uma compulsão. Estamos cheios de
clichês bobocas para tentar achar um indício de caminho para
o júbilo. Quem vive atrás de qualquer chavão para ser feliz
encontra sempre uma manobra mal executada que quebra o
dente.
Vamos falar sobre a felicidade empacotada. Os simplistas
dizem que é só uma questão de ter saúde o suficiente, bastante
dinheiro para comprar o que nos falta e um colecionável amor
para ter uns suspiros de vez em quando.
Este pode ser um pacote interessante, mas acontece que
alcançar a felicidade é algo bem mais complexo que plano de
saúde, saldo disponível para saque e uma conchinha no fim
da noite.
Não podemos apenas nos contentar com a ausência de
doenças sérias, a gente quer estar invejavelmente em forma,
quer ter o vigor cênico de um jovem e exibir o arrogante ar
sadio no rosto do mundo. Mas, vitalidade, força e energia não
dura a vida toda.
Não queremos apenas pagar o aluguel em dia, ser capaz
de jogar uns mimos bobos no carrinho de compra e poder
financiar uma cerveja melhor, mas a gente esbanjar em Dubai,
comprar o combo da Apple e desperdiçar tempo com o ócio
lúdico de instagrammer.
Quanto ao amor? Ah! não contentamos apenas em ter
gente perto para conversar, ganhar uma pessoa para rachar
um lanche no meio às sextas e dar uns amassos num colchão
pequeno eventualmente. A gente quer um amor para esfregar
na cara das pessoas que demos certo com alguém. Estamos

60
atrás de um profundamente amor visceral, de uma paixão
impressionantemente empolgante e de uma pessoa que seja
disponível para nossos caprichos.
Esquecemos de ser felizes da maneira mais simples e fácil
que pudermos. Ser feliz real, sabe? Zero cena. Sem simulação.
Livre de disfarce. Penso que é tentar ser um pouco mais trivial.
É fazer academia sem querer parecer o novo
Schwarzenegger, é trabalhar a quantidade necessária sem
depender da cadeira mais alta, é amar as pessoas e as coisas
sem querer nada em troca além da disponibilidade do outro.
É descobrir que a felicidade na vida não é sobre testar
limites e muito menos sobre correr atrás de prêmios, é sobre
não se deixar levar pelos bordões banais.
Como não se enganar com os clichês? O primeiro e mais
distorcido clichê tem a ver com o conceito de felicidade de
que você apenas é responsável pela sua própria felicidade.
O problema e que sabemos que a vida se assemelha a uma
adolescente rebelde que faz apenas o que deseja, e pouco
concede controle temos sobre ela.
Neste sentido, a felicidade fala mais sobre como lidar
com as ocasiões controversas do que sobre como evitá-las.
As escolhas diante da vida só poderão levar para o caminho da
satisfação quando passa pela responsabilidade de assumir de
fato um lado mais real e propositivo.
Não adianta mascarar uma felicidade com frases prontas
de efeito, é preciso para de fingir, olhar-se no espelho com
honestidade e correr atrás de momentos felizes com critérios
e verdade. Isso não significa vacinar-se contra as contingências
cruéis da vida, mas ter um posicionamento ativamente ágil
para com elas.
Um ponto fundamental é que ninguém é feliz por ser
visto. Estamos vivendo um momento um tanto interessante
de busca pela exposição. Falamos sobre tudo para todo o
tempo inteiro. Acreditamos que ser visualizado por inúmeras

61
pessoas é o que realmente nos levará para um caminho de ser
ouvido e ser percebido com valor correto. A vida moderno nos
convenceu que ter influência é atrair a felicidade. Ledo engano,
a exposição traz consigo uma série de problemas graves.
O que realmente tem poder de nos fazer mais feliz é ser
capaz de ser útil? Às vezes, estar dentro da possibilidade de
uma troca frutífera sem olhar apenas para o caráter benéfico,
mas como uma aliança proveitosa que seja aproveitável e
proficiente. Uma utilidade mutuamente produtiva.
Precisamos esquecer os clichês mais juvenis como a ideia
de um mundo melhor sem entender como ser melhor para
o mundo frequentável, deixar de lado a ideia de vencer na
vida para tornar-se realmente um investigador quem somos
sem negligenciar os nossos talentos a serviço do mundo, do
outro e das pessoas. O “mundo melhor” é um mundo tedioso,
mentiroso e pouco alcançável.
Não perca tempo com ideias bobas. Precisamos afastar
o clichê de que todo conhecimento é válido a qualquer custo.
Existe filmes que são perdas de tempo, livros de péssimo
gosto, cursos que não servem para nada, pessoas que são
completamente vazias, atividades que não nos levam para
lugar algum. Precisamos estar menos ocupados com bobagens
vãs. Temos que nos afastar dos teóricos e ligar-se mais a gente
que tem apreço pelas sabedorias tradicionais, que nos ajude a
tomar mais decisões complexas diante dos desafios da vida. A
vida é curta para toda essa bobagem.
Precisamos entender que o mundo da cooperação
nos coloca diante de resultados mais humanos que o
da competição, mas que não são necessariamente rivais. É
possível disputar sem perder o senso de apoiar, é viável,
rivalizar ao mesmo tempo, em que contribui para algo maior, é
praticável lutar, concorrer e ajudar, enfrentar e apoiar, pleitear
e concorrer, pelejar e contribuir.
Temos que fugir correndo da ideia habitual de permanecer

62
sempre em alta desempenho, mas que podemos ser produtivos
com clareza de um propósito. De que podemos executar
muita coisa e ter o luxo de aposentar-se. Nenhum trabalho é
totalmente glamouroso, com tarefas agradáveis, mas não pode
ser visto apenas como uma obrigação, mas uma oportunidade
de dar sentido para o que realizado.
Aprenda a ter a calma até certo ponto. Estourar é
normal. É indicado. Desde que não seja uma agressão sem
limites. Oxigene sua raiva sempre que conseguir, mas não a
esconda o tempo inteiro. Faça terapia. Coma tudo que julgar
que deve, mas não seja inconsequente com sua vida. Não
cuidar da saúde é montar uma bomba-relógio, mas pensar em
saúde o tempo todo é doença.
Decepcione-se com os amigos e faça novos sem medo.
Importe-se com sua idade, mas não ligue para aniversários.
Sorria desde que não seja de desespero. Frequente mais a
natureza, mas não queira ser a mãe dela. Não poste frases
sobre gratidão, mas agradeça. Reconhecer o papel de todos
à sua volta, mas não tenha medo de dizer o que precisa. Não
viva o momento. A vida é maior que isso. Não siga o fluxo
sempre. Seja uma pessoa para além dos clichês idiotas.

63
UM DIAGNÓSTICO BREVE
SOBRE SUA VIDA E SOBRE O
QUE ACONTECE NO MUNDO

64
Sei que você está todo mundo cansado, mas não é de hoje
que o mundo passa perrengue. É muita inocência da nossa
parte acreditar que este recorte de momento que vivemos é
o mais delicado da história. Esse anacronismo aparentemente
inocente agiganta a noção individual de opressão.
De qualquer forma, basta olhar ao redor dos diversos
mundos que frequentamos — seja ele o mais interno ou
até mesmo o que expressa a realidade mais global — para
entender que este não tem sido tempos tão fáceis para muita
gente. O mundo é hediondo. Age de maneira bárbara com
quem tem o luxo de ser nobre.
Sendo um observador mais cuidadoso, podemos notar de
maneira nítida que tem muita coisa acontecendo ao mesmo
tempo, em que sentimos pessoalmente um tédio existencial
absurdo.
Em todo canto tem gente agindo bruscamente, outras
reagindo passivamente a tudo enquanto uma terceira parte,
em menor quantidade, propõe realmente novas possibilidades
de existir.
Nosso corpo emocional e nossos sentimentos estão
devastadoramente confusos, em contrapartida a um mundo
que tenta parir uma aparência fictícia de felicidade e satisfação.
Os radicalismos mais sutis prosperam na mesma velocidade e
proporção que o ódio gratuito.
Não damos conta de tudo que precisamos dar. Muita
informação surge inesperadamente aos nossos olhos, nos
obrigando a dar conta de tudo que acontece a volta com
uma urgência impaciente. Paralelo a isso, pagamos caro por
uma hora de papo sincero com nosso psicólogo. Adquirimos
aplicativos que nos ajudem a meditar no quintal de casa não
por luxo, mas por necessidade.
Não estamos dando conta de tudo. Andamos perdidos
nas relações mais simples que sejam, fundamentalmente
naquela que temos conosco mesmo, deixamo-nos ser levados

65
pela negligência da falta de tato com o outro e pela ignorância
proposital no entendimento do outro. Somos reis sem um
povo.
Não vivemos que queríamos ter.Fazemos um esforço
danado para criar uma ênfase no discurso de passar mais
tempo com amigos e familiares, mas tropeçamos nos tapetes
da própria realidade e nos sentimos culpados por não
conseguir priorizar o mínimo.
Enchemos nossas timelines de fotos de momentos com
amigos, mas constantemente temos a sensação de que não
pertencemos mais a muitos grupos e lugares. Estamos rodeados
e sentimos que não somos mais importantes para muita gente.
Isso nos leva a visitar um lugar de desapontamento constante
com o outro e consigo mesmo.
As famílias deixaram de ser um lugar de segurança
constante. Fomos envenenados com a ideia de que estamos
perto porque interagimos num grupo em comum no Whatsapp.
E por mais que sintamos falta da família sentimos que é
cada vez mais difícil reuni-la. E quando conseguimos, logo
sentimos a nossa energia esgotando-se rapidamente.
Experimentamos o gosto da dificuldade em definir
o que sentimos. Pensamos mais no dinheiro do que
gostaríamos. Estamos presos a ideia de que ter acesso a
tudo nos dá o trânsito num mundo do dinheiro e do sucesso.
Damos uma ênfase enorme para o que temos. E talvez este
sentimento cause uma auto-estima frágil. Percebemos que
podemos conquistar o mundo ao custo de perdemos a gente
de si mesmo no meio disso tudo.
Ao mesmo tempo, em que estamos cansados do
sentimento de que sempre estar devendo algo a alguém, de
ter que sempre lutar para quitar uma dívida longa, estamos
comprando coisas que não precisamos. Gastamos com coisas
que nos aliviam da ansiedade, mas pensamos melhor diante
de pagar cinco reais a mais numa cerveja que seja melhor.

66
Perdemos a vontade de validar-se diante dos entes
queridos, mas ainda ficamos preocupados com o que eles
pensam sobre o nosso trabalho, sobre nossos relacionamentos,
sobre como pensamos a vida.
Sentimos que não é justo olharem para a gente com esse
olhar de infantilidade, mas acabamos nos vendo presos a uma
situação que somos forçados a ser aquilo que já enjoamos ser.
Estamos diante da felicidade de maneira doente.
A expectativa que temos para alcançar um constante
estado de felicidade que não existe nos empurra para uma
sensação de fracasso. Quando estamos chateados, pedem para
gente sorrir. Quando estamos naquele dia normal de baixa de
energia, dizem que não pode ficar ingrato frente a vida.
Há, de fato, muita pressão para se divertir o tempo todo.
Uma cultura que reforça uma realidade inconvencional da vida.
Quando entramos nessa somos obrigados a fingir? E nada
mais custoso do que simular sorrisos.
A vida não precisa ser um espírito de férias o tempo
inteiro. Correr atrás da felicidade enfarta a vida. É melhor
que a felicidade não seja um alvo superestimado. Estar feliz é
recomendado apenas para aqueles que realmente entendem
que ela se mistura a momentos ímpares, mas que também
pode ser encontrada no contentamento.
A procrastinação é um problema sério. Não é um
pecado adiar situações, postergar algumas tarefas, protelar
compromissos e atrasar possibilidades. Desde que não seja
um mau hábito, prorrogar pode ser útil.
A grande questão é fazer com que isso não o coloque
como oponente da sua saúde mental. Não tem problema não
estar com vontade. É normal não ter disposição. Tudo que dá
trabalho precisa sim de um planejamento, mas principalmente,
de uma disciplina sistemática que torne aquilo importante.
No fundo, sabemos que quanto mais tempo se passa sem
algo se realizar, mais essa coisa consegue atuar na mente e

67
tornar algo mais estressante.
Onde quer que você esteja, parece que tem algo sempre
a ser feito. O mundo é sempre inacabado, mas existem coisas
que precisam ser terminadas. O lance é dividir as coisas em
tarefas menores, mas executáveis e que sigam um ritmo
suportável. Prioridade não tem plural.
Sua paciência é uma fonte facilmente esgotável. Todos
os lugares estão lotados. As pessoas estão cada vez mais
melindres. O filme que acabou de colocar já está chato. O
motociclista mal aparece no retrovisor e já te irrita. Tudo tem
fila enorme. Se tem que pegar senha você já prefere nem ir.
Tudo que parece que se tornou um grupo grande de
pessoas te deixa trancado por dentro. Parece que nem mesmo
você se aguenta e tem que ficar longe de tudo e todos. Sua
paciência agora te permite ter a permissão para tentar ser um
pouco mais você mesmo. Você fica chateado porque perdeu
as férias irritado com alguém, você não tem mais a mesma
disposição para explicar tudo mil vezes, muito menos para
orientar amigos que se recusam a te ouvir.
A árvore-de-natal está cada dia menos enfeitado. Os
aniversários cada vez mais simples. Ter que dar um beijo em
cada um do recinto é um porre. Até que você decide ser mais
paciente porque não quer que ver a tristeza de outras pessoas
ou ser a razão que irrita as pessoas que ama. Então, você sofre
sozinho por não conseguir.
Há sempre um lugar para repensar. Acredito que o
mundo não vai moldar-se a gente. Ele vai engolir a gente
gradualmente como um faminto ser que não tem dó de gente
autossuficiente. O mundo não está nem aí para nossa vida.
Então, ou aprendemos a ser um bom vizinho para com ele, ou
teremos sempre um resquício de sofrimento bem diante da
gente.
Penso que quando somos viciados na nossa própria
personalidade, acabamos sofrendo um cansaço esgotante,

68
passamos a não dar conta de tudo que precisamos dar, não
vivemos que queremos, passamos a olhar para o acúmulo
de recursos como salvador dessa teia de falta de sentido,
buscamos uma felicidade incomum e adiamos aquilo que
realmente importa.
Quando chegamos neste ponto, foi embora a paciência,
sumiu tudo que é relevante e sobrou apenas um corpo sem
alma sobrevivendo as mínguas da falta de vivacidade.
É preciso repensar caminhos, reexaminar propostas,
reconsiderar valores desimportantes e cuidadosamente,
analisar discursos prontos, estudar comportamentos saudáveis
e revisitar-se proporcionalmente. É obrigatório reformar-se,
retificar-se e revisar-se com frequência.

69
FAÇA UMA VISITA PARA SUA
HISTÓRIA COM A CORAGEM DE
VER O QUE PRECISA

70
O brasileiro é relapso com sua própria história. Não temos
o costume de averiguá-la com importância. Não valorizamos
tradições qualquer. Somos o povo que não liga para memória.
E isso realmente nos prejudica a saber-se quem é.
Para longe das teorias de auto-ajuda, eu sempre
recomendo, de maneira genuína, que as pessoas revisitem
suas histórias com a mesma simpatia que observam a vida das
pessoas que admiram.
Qualquer tentativa séria de observar com cuidado a nossa
própria vida, repassar por pontos altos e baixos e ponderar
certos episódios podem nos ajudar a enxergar-se melhor.
O segredo não é criar heróis e vilões para a gente acreditar
com bravuras exclusivamente valentes ou descarrilhar um
caminhão enorme de culpas. A nossa história é uma colcha de
retalhos que nunca está completamente finalizada, mas pode
ser um conjunto de belezas e percalços.
Existem muitos métodos para averiguar o passado
com o zelo de uma devoção. Não é porque é passado que
deve-se desconsiderar sua existência. É o nosso passado um
dos professores mais severos que regem uma mestra lição.
Fora dos clichês, o passado é para ser reconhecido e não
revivido.
A história de qualquer coisa é um organismo vivo, que
por vezes, regurgita seu sabor ácido, mas auxilia também não
construção de um novo universo de possibilidades. O passado
é implicante com quem ignora seu caráter controverso.
Alguns passados precisam de exumação para reavaliar
com seriedade determinados pontos e reconsiderar.
No caso dos episódios felizes, vale-se listá-los para
entender que nada na vida passou em branco. De alguma
forma inexplicável, determinadas datas se apresentam diante
de uma janela de sentimentos positivos. Certos cenários nos
colocam diante de uma satisfação indecifrável.
A conversa interminável entre passado e futuro. Neste

71
sentido, as duas realidades temporais se prestam a um bate-
boca sem fim na nossa cabeça. Tanto a versão cor-de-rosa e
lírica da vida como as inúmeras tonalidades foscas nos fazem
estar diante de um aprendizado que não tem escola capaz de
transportar.
Descobrimos que as dores não foram assim tão dolorosas,
que os méritos foram também uma pouco de sorte, que
determinadas complexidades se revelaram verdadeiramente
simples o suficiente, que toda perfeição também incorria no
risco de ser apenas um jogo equilibrado de tecnicidades.
Destapamos as vistas e vemos que o sentido para vida
não está extinto como imaginávamos em outro tempo e que
podemos revogar certas disposições.
É um privilégio ser capaz de tirar qualquer nobreza de
si e perceber-se como um personagem discutível.
Assim, como cada movimento futuro precisa de
uma retaguarda já vivida, vamos crescendo sem aceitar
determinadas repetições ineficientes na nossa história. A vida
perde o seu sabor romântico e ganha uma perspectiva mais
redentora.
Assinamos tratados importantes conosco e mesmo e
conseguimos redimir determinadas manchas, esquecer os
borrões desimportantes e seguir numa patrulha mais saudável
conosco mesmo.
A liberdade de olhar para nossa história é um horizonte
essencial para nos livras das senzalas que nós mesmo criamos
para si. Há quem diga que determinadas marcas teimam em
desaparecer e não estão de tudo erradas, mas venerar a nossa
história também piora a situação de como a veremos.
Deixar de fazer o exercício de sentar e colocar no papel a
nossa história como capítulos de um livro ainda em construção,
ou reassistir-la como um filme de cenas escritas por linhas
confusas, não nos permite ser.
Não há personagem concreto sem história clara. Pode ser

72
exagero dizer que precisamos olhar para a história das coisas,
mas quando temos uma quantidade enorme de pessoas sem
saber o que dizer, fazer, ser convém exagerar o reforço. Só
com exagero a denúncia aparece: não sabemos quem somos.
O pior é que muita gente sustenta a legitimidade do auto
cinismo. Por isto mesmo é preciso também não desmerecer
a capacidade do ser humano de não agir diante de uma
desmascarada situação.
Ontem, assim como hoje, mais do que olhar para si, é
preciso procurar as fundas raízes da alma do passado de tudo
e conservar o que é bom. Ao mesmo tempo, ser capaz de
encarar o hoje com coragem de progredir.
O valor das histórias é notório. A ideia de notar-se
encontra forte resistência em corações acostumados com a
maré guiando. É confortável não pensar, mas custa caro. A
longo prazo, é uma dívida emocional. Diria até existencial.

73
UM TEXTO PARA QUEM PRECISA
DAR UM JEITO NA VIDA

74
Ouvi dizer que as feridas sempre cicatrizam. E o que
fazer com o rasgo bem no meio da memória? Uma fissura
inapagável. Uma marca incorrigível. Reluzentemente cintilante,
insuportavelmente intransferível, martelando a mente a cada
olhada vacilante.
O registro da dor é, na verdade, permanente. O que se vai
é a agonia da dor. Numa carona sem rumo.
Uma lembrança viva que serve como um diploma
autografado pela vida. Quase como se fosse para manter acesa
a fagulha de um amor, de um lugar, de um momento, de uma
pessoa. Sempre tem uma cama limpinha para hospedar uma
nova dor passageira.
Gente como a gente — sim, porque se você está aqui tem
sua cadeira cativa no mundo da melancolia — que vive não
apenas à flor da pele, mas um ramalhete todo, não consegue
escapar de todos os encontros inevitáveis com os vestígios
que um sinal provoca.
Somos cheios de cicatrizes causadas apenas por um lapso
de sanidade temporária, um momento rápido de lucidez,
mas que numa hora ou outra, volta a mostrar a sua rigidez
emocional.
São marcas de um tempo que não temos mais, de amores
que não aconteceram, de saudades extravagantemente
esquisitas e que, por isso, colocamos nossos corações diante
da distância inalcançável das nossas mentes.
Paira sobre a gente, então, um cansaço que antecede a
busca por quietação. Sobra um pouco de descontração como
pausa obrigatória. Uma folga imposta. Uma trégua forçada.
Uma “desmorte”, assim, ortograficamente improvisada.
E mesmo que, no fundo, saibamos que não existe
dor insuperável, apresenta-se a gente uma cisma com a
possibilidade de seguir para o novo.
A vida costuma ser cruel com quem sente tudo
monumentalmente. Falta saldo disponível para saque para

75
quem sente tudo para sempre.
No final, acaba como uma esperança. Uma solução precária
para quem precisa de respostas urgentemente amenizadoras.
Aprendemos a comunicar conosco mesmo num dialeto escasso.
De forma atabalhoada, vamos nos forçando a confiança
de novas palavras, novos toques, novos olhares, novos amores,
novas experiências para se arrebentar numa esquina que
cruzamos sem ver direito.
Vamos ficando ranzinza com a vida. Não deixamos as
pessoas saberem que são amadas. Recuamos diante do
compromisso. Ignoramos a coragem. Cada insônia, um novo
medo. Cada passo, uma nova paranoia.
Encontramos palavras doces que chacoalham as nossas
estruturas e não deixam a gente recuperar o que perdemos
no passado. Suamos frio pelos poros da pele tensa. Sentimos
o som do narrador da nossa vida rindo. Descontroladamente.
Queremos erguer uma paz dentro da gente, mas só
de pensar na poeira que faz uma obra nova, tentamos nos
convencer que não vale a pena faxinar a alma numa segunda-
feira agitada. Bagunçar é bem menos trabalhoso. Todo mundo
tem no coração aquela cadeira que amontoa a roupa suja.
Fingimos cinismo e andamos propositalmente desatentos.
Os sinais da vida que lutem para fazer a outro alguém entrar de
fininho na vida da gente. Nunca iludido. Ou melhor, raramente.
Esperamos o dia em que essa pessoa vai inventar qualquer
desculpa para não lidar com a veemência das nossas palavras
e a força dos nossos abraços.
“Desculpa qualquer coisa” é o caralho. Volta aqui agora e
acerta as merdas que você fez. Me lembro, de repente, que
ninguém pode sair de um lugar sem que tenha realmente
entrado. Meia dúzia de amassos no carro, alguns amigos e
músicas em comum e um par de rodízios de Sushi não faz
amores sedimentares.
Todo passado é curado com um novo tempo. Este texto

76
não é autobiográfico, é como aqueles dias que todo mundo
tem que você usufrui da casa inteiramente disponível só para
você.
Vale aproveitar para tirar o lixo para fora ou amassar as
caixas de pizza de ontem para caber mais, serve para recolher
a pilha de roupas sujas ou apenas comprar mais com o cartão
de crédito, serve para revisar seus hábitos tóxicos ou se entupir
de qualquer porcaria comestível para afogar a ansiedade, você
pode botar o aspirador de pó para funcionar ou ligar a tv. num
filme idiota do Adam Sandler e admirar a decisão boba acabou
de tomar.
Dar um jeito na vida é frequente. É tarefa inacabada e
recorrente. Estes parágrafos são apenas um “não pisa aí que
não acabei de limpar, cara”.

77
É ASSIM QUE EU ME SINTO AQUI

78
Ando na rua, sufocado. Com o ar enclausurado no peito e
a alma livre para blasfemar contra o mundo. Percebo o vento
cortar meu nariz na fragrância balsâmica da coragem, corroída
pelo iminente medo.
Sinto na nuca uma presença constante do privilégio me
dizendo verdades cruas. Não escondo nos tapetes da emoção,
a minha angústia diante do sofrimento de outros, mas não
desanimo no olho a olho com as pequenas felicidades.
Este mundo é um lugar inacabado e a culpa é de ninguém.
Tenho a impressão de que estou diante de um lugar que o
sangue e os ossos valem mais que as rosas no meio do canteiro.
Sinto, e não estou sozinho nessa sensação, que estou
completamente quebrado. Tenho algumas fraturas leves que
tentam anular a beleza pedagógica da vida. É como se diante
do mel, meu paladar tivesse acostumado com o sabor picante
da severidade da agonia.
Forço o pulso para grifar os motivos pelos quais a
alegria pode ser visível, mas escuto ao redor um cochicho
alto falando merda. Vago pela mente, noto bem que os
motivos são distintos e me pergunto que diabos essas
perguntas fazem ali.
Questiono o que eu deveria pensar então já que todos
dizem não ser assim tão ruim. Pergunto, mas sem me preocupar
em responder agora. Penso em sair correndo, mas descobri
que mal consigo andar por essas linhas e me equilibrando na
ponta do pé.
Sinto a sutileza do mundo sendo generosa sempre que
algo ruim acontece. Aperto o passo em direção de sei lá qual
destino. Num vacilo, escorrego num pedregulho da estrada e
me esborracho nos motivos mais improváveis.
É verdade que assisti vir para minha vida muita coisa
incrível. Estou num lugar confortável e mesmo assim parece
tudo irreal. Nunca me senti tão bem onde estou, mas sei que
isso não é tudo.

79
Os pensamentos me contam que somados nenhum mal
é para sempre, que a felicidade é sim ter o suficiente. Prefiro
apostar na lucidez do tempo, olhar para o sol brilhando sem
culpa e consultar a calmaria do horizonte sem fim.
Aqui, as paredes esmagam minha mente. Sinto a
imaginação mais larga lá fora. Espero apenas não perder ela
de vista. Tenho asas indirigíveis. Movimento-me rápido no
mesmo tempo em que o relógio esconde-se de mim.
Molho minhas mãos como sementes que podem crescer
e gerar frutos. Jogo água no rosto como se esse sono tivesse
que passar. Rego minha mente com coisas saudáveis para que
cresça e esconda as fissuras evidentes.
Amo tudo que parece bobo. Toco de ouvido a sinfonia da
vida como músicas dedilhadas sem qualquer plateia. O silêncio
anula-se dentro de mim. Isso que importa. Fico perto de mim,
encolhido, cada vez que um som ameaça aproximar-se.
Salto bem alto mesmo sem que haja alguém para segurar
a mão e caio no mesmo lugar de antes como se a altura fosse
somente um passeio que tende a deixar a gente no mesmo
lugar.
Guardo-me no cofre e coloco bem no meio da vitrine das
inseguranças. Tenho a atenção que preciso, mas me coloco
para fora da possibilidade de explorar o universo. A minha
volta, quero apenas o que preciso. Volto a origem.
Incluo-me na companhia e no tempo de muita gente.
Circulo alternativas que não me agradam. Vivo um tédio
empolgante. Lembro de quando o dinheiro faltava e agora
corro atrás dele como quem não entende o que mudou.
Olho a volta e me assusto com o quanto conquistei. Vejo
meu circuito de pessoas morrer por não esconder aquilo
que penso. No entanto, eu nunca brinquei com o que penso.
Nunca me trai. Olho para tudo e espero que tudo fique bem.
Porque vai ficar.
Tenho asas indirigíveis. É assim que me sinto aqui.

80
O VALOR MENTAL QUE
CUSTA TER UM SONHO

81
Quem sonha carrega dentro de si uma esperança teimosa.
Insistente no que não há mais o que acreditar. Todo mundo
tem dentro de si uma voz-guia que quer sair do cárcere, mas
não importa quanto ela esperneie dentro da gente, é sempre
arrancada dela a possibilidade de falar.
Como uma criança chorona e birrenta, o sonhador
dorme no canto do quarto de tanto se debater. Vencido pela
insignificância de quem não pode ser visto. É penalizado pelo
castigo de ter uma obsessão.
Despeja na pia um litro inteiro de qualquer coragem.
Em água corrente, desperdiça a valentia que se mistura na
inconstante liquidez do que ainda não existe. Assiste o anseio
ir embora num anonimato de quem nunca existiu. Fraqueja
e deixa os enrolados tapetes das etiquetas acabar consigo.
Deixa um ruína lacunar lhe arregalar os olhos.
Como um pai severo, deixa o ânimo se divertir um pouco
nos melhores dias, em que se distrai da evidente e robusta
marca do cansaço. Implora para que a fadiga não fique parada
na frente, impedindo-o de sentir um pouco do som do lado
de lá.
Depois, coloca cada pedaço da própria petulância de volta
em seu lugar. Canta um pouco, mesmo rouco. Assobia para
ter lá dentro um pouco de vida. E num pacto secreto com sua
alma, combina que é isso que um homem tem de fazer. Não
deixa a vida ser esmagada pelas frias constatações.
Fica atento para qualquer caminho. Ainda há luz. Pode
não ser muito, mas clareia a escuridão. Vagarosamente, ela
oferece oportunidades de ver a si mesmo. Reconhece e agarra-
se. Desarmado, luta do próprio punho para vencer a morte
durante a própria vida.
E quanto mais anda em direção de um sonho mais aprende
a fazer disso um caminhar calmo. Um soco em câmera lenta
surge. Enquanto ela ainda é sua, aproveite a vida. Recolhe os
ossos inconsumíveis e coloca na mente, às vezes, um alento

82
para sua alma. Não faz mal blasfemar, mas contra a parede
ninguém é totalmente são.
Rasteja-se para dentro do que realmente o protege
enquanto lá fora não tem calmaria. Faz do leito, um
confessionário à céu aberto. Dorme sobre a sua própria carne
cobrindo os olhos do espelho ao lado, mas ao levantar pela
manhã, tem o brio de reparar cada detalhes da sua alma.
Não está amarrado ao destino. A chance de escolher é sua
fatalidade. Ninguém nunca encontra, na primeira oportunidade,
um par ideal par sua aventura. Vasculha as lixeiras atrás de
reciclar o que ainda dá. Procura nos hospícios qualquer razão,
e nas sepulturas, qualquer lição.
Frequenta-se. Nada mais indicado que tomar um chá
consigo. Se não sair de si entre uma bicada e outra do copo,
pega uma colher e mexe até dissolver o resto do açúcar no
fundo. Nem tudo precisa ser insosso.
Acalma o traseiro no assento enquanto todo mundo
corre. E a menos que te perguntem, finge loucura. Cai no mais
absoluto cinismo. Ouve o coração, mas nem tanto. Fuça na sua
cabeça atrás de aparar arestas. Nunca. Nunca traiu sua boca.
Deixa suas entranhas retorcerem.
Procura palavras, mas não confia nas primeiras ideias. Se
o dinheiro vier lhe assombrar, manda ele ir à merda. Rascunha
novas direções todo dia. Não copia. Reescreve. Cada parágrafo.
Outra. Outra vez. Mesmo que dê trabalho.
Se tem que esperar algo acontecer, trai a voz do mundo.
Pacientemente, sai gritando ciente de que a loucura é seu novo
selo. Ignora o primeiro amor para amar. Desdenha das más
experiências. Nunca consulta seus pais, se não está preparado.
Não é como todos. Não acompanha os milhares que
se consideram qualquer coisa importante. Vira chato com
quem lhe aborrece. É invariavelmente pedante com quem se
acostuma com a auto-devoção. Esconde-se em algum lugar.
De preferência na biblioteca.

83
Não dispara mísseis em direção de inocentes, sobre
nenhuma hipótese cria uma guerra, mas não esconde o arsenal.
Deixa-o como enfeite. Porque a obsessão o levará a loucura.
Não faz nada, a menos que tenha uma varanda para deixar o
sol entrar e queimar as suas involuntariedades.
Quando pensa na altura que quer estar, é arrogante. E
faz da mesquinharia um esporte escolhido. Não acredita em
nenhum elogio para que não morra em si. Nunca aplaude um
discurso sobre si próprio. É ferrenho contra si.
E durante os piores momentos, mantenha um bem-estar
suficiente para contentar-se com quem quer que esteja diante
de si. Visite um psiquiatra só para contestá-lo de vez em
quando. Omita-se do mundo, mas nunca do seu confidente.
Desiste da fábrica de paranoias que alimenta. Arruma
brigas proporcionais às ressacas. Está ocupado com o que vale
a pena. Dorme no tapete como quem é vencido pelo cansativo
modo de aprender. Esqueça este monte de coisa nenhuma
que todos valorizam.
O custo mental de um sonhador é saber que é muito fácil
parecer idiota tentando ser alguém que não se é. Por isso,
tenha um resto de honestidade interior que não o obrigue a
fingir que é aquilo que não é. Se você é um sonhador, saia logo
dessa merda de lugar e vá. Seja quantos fracassos precisar ser.
Tenha consistência.

84
ÀS VEZES, É PRECISO IR EMBORA
DE SI, MAS VOLTAR SEMPRE

85
Só por algumas vezes, precisamos nos ausentar um pouco
dos nossos pensamentos mais frequentes. Não digo fugir, mas
tomar aquela distância proposital. Achar um jeito viável de
partir para longe sem avisá-los. E voltar quando der.
No ambiente que mora nossas ideias não têm uma sacada
grande para escorar uma cadeira, abrir a janela por inteiro
e ficar tomando um ar sem pretensão alguma. Está sempre
lotado, precisando de limpeza e apertado.
Talvez eu esteja errado a respeito da vida, mas talvez essa
coisa toda de viver seja apenas um jogo no qual eu ainda não
comecei a jogar. Parece-me bastante exaustivo estar sempre
lutando contra algo, mas por todos os lados, vemos gente em
conflito. Agem como um cão de guarda na porta de um cofre
frágil.
E nessa batalha inglória por parecer mais nobre, mais
inteligente, mais valoroso, mais influente, a gente acostuma a
importar-se apenas em como nessa imagem deveria ser para
os outros.
A verdade é que nunca seremos capazes de transmitir
nada aos outros além do que as outras pessoas querem ver a
nosso respeito.
Ninguém nunca vai nos conhecer de verdade. Não na
nossa totalidade. E a razão mais óbvia e simples é que estão
ocupadas demais sendo aquilo que projetaram sobre si. Sem
renegociações. Sem abrir exceções. Sem o direito de repensar-
se.
Aqueles que têm a melhor chance de nos conhecer, e
que poderiam tentar nos entender, limitam-se a ouvir seus
egoísmos e preconceitos, estão preocupados convivendo
apenas com suas próprias ideias. Tomando um chá de comadre
com suas certezas solúveis.
Algumas pessoas não suportam e se vão. Quando a gente
começa a ser a gente mesmo, uma quantidade enorme de
pessoas passam a nos conhecer verdadeiramente. E temem.

86
Morrem de medo de não sermos o que elas acreditavam que
fôssemos. Escondem-se no porão da sua arrogância.
Deixamos elas irem. Nós mesmo perdemos o contato
de pessoas por preguiça, por descuido, por escolha ou por
falta de paciência com coisas pequenas. E ganhamos uma
dúvida monumental sobre como foi que estivemos ali antes.
Raramente sabemos responder.
Escrevo porque, às vezes, quero apenas ir embora de
mim. Esta é a melhor maneira que encontrei de saber como
eu mesmo sou.
Talvez seja por isso que escrevo tanto — eu provavelmente
faço muita coisa até mais do que eu mesmo imagino — para
me descobrir gradualmente, mas sem a pretensão de controlar
a percepção que as pessoas têm de mim. Tento.
Não me importo em expôr as dores mais singelas que me
invadem, mas também em dizer categoricamente as pequenas
bênçãos do dia-dia. Escrever é vomitar para curar. É ser capaz
de espelhar-se para si.
Tudo que faço é tentar fazer dessa merda toda de alinhar
palavras e reunir parágrafos um reflexo de quem sou. Na
maioria das vezes, eu consigo chegar perto. Quando estou
longe demais, volto.

87
SOBRE LIDAR COM
A ANSIEDADE

88
Curiosamente, começo o texto ansioso para saber como
ele vai repercutir. Esta é a única angústia do escritor. Na
verdade, todo mundo que produz qualquer coisa, de certa
maneira, sofre da ânsia dos resultados. Alguém disse que a
ansiedade é o excesso de futuro. E acertou na mosca!
Nada me tira da cabeça que o motivo de termos um amplo
surto de ansiedade crônica na atualidade é este ambiente
que criamos desesperadamente suscetível à preocupação.
Isso nos coloca em um paradigma complexo bem próprio da
modernidade: não sabemos lidar com questões relacionadas
ao amanhã.
Sinto-me na obrigação de explicar: estamos acostumados
a pensar nossas vidas a partir de um benefício imediato e a
vida moderna tende a nos orientar a olhar para o momento
futuro. Daí, o evidente climão.
Existe um cenário instável e a recompensa do depois Já
notou que a maioria das escolhas que fazemos hoje não irão
nos beneficiar imediatamente? Vamos a alguns exemplos:
Na vida profissional, de modo geral, a recompensa
financeira do trabalho que fazemos hoje virá apenas no fim
do mês.
O diploma que nos dará direito a uma posição social
melhor está a pelo menos quatro anos de distância.
O resultado da dieta que começamos agora, será visto
somente no futuro.
A relação amorosa sólida, precisará enfrentar a imaturidade,
as fases e dificuldades do momento atual. Eis o drama: não
sabemos esperar.
Como lidar com o imediatismo moderno? A ansiedade é
nada mais que visitar corriqueiramente os problemas que ainda
teremos. Fatalmente, viver neste ambiente de retorno futuro
nos leva a insegurança, ao estresse e a sensação constante de
medo.
Nosso cérebro parece não ter sido projetado para viver

89
com olhos na frente. Naturalmente, a mente animal parece estar
mais adaptada para viver em um ambiente de experiências à
flor da pele. Lá vai um exemplo:
Se uma ovelha sente-se ameaçada por um lobo,
ligeiramente, tem que dar um jeito de escapar. De modo geral,
o estresse no mundo animal é pontual. Depois que a ameaça
não existe mais, não corremos o risco de ver animais perdendo
o sono da noite devido a uma nova possível ameaça. Entende
aonde quero chegar com isso?
Apenas como uma especulação — nada científica — a
minha hipótese é que: nosso cérebro acabou sendo obrigado
a se desenvolver na marra, mas se recusa a venerar um estilo
de vida de retorno futuro.
Há um século atrás, por exemplo, havia muita instabilidade
e preocupação também, mas mesmo assim encontramos uma
dinâmica muito diferente da nossa. Essa pequena janela de
evolução no modo em vivemos, criou um hiato entre nosso
cérebro primitivo e este jeito moderno de encarar a vida.
Estamos vivendo, a maneira mais aguda de uma sociedade
que foi projetada para recompensas futuras enquanto
desejamos, naturalmente, experimentar o aqui agora mais
intensamente. Sacou?
A ansiedade é a vilã, então? Não julgo que ela seja sozinha.
O estresse por não conhecer o futuro não é o único grande
vilão.
Penso que a ansiedade acabou se tornando uma força a
mais que ajudou neste tempo de retornos instantâneos.
O estresse pontual dos nossos ancestrais colaboraram para
que tomassem atitudes mediante a problemas imediatos. A
nossa versão de humano mais primeva simplesmente tinha de
resolver problemas de curto prazo como comer, se defender,
dormir… Enfim, não havia a mesma frequência de estresse
crônico em um ambiente de retorno imediato.
Sociedades menos modernas não sofriam com o futuro

90
como sofremos hoje.
Não vamos encontrar um homem das cavernas se
perguntando se vai ter recurso suficiente para ter fogo e comida.
Posteriormente, criamos a energia elétrica e o supermercados,
mas com elas, a ideia de valor e também de acúmulo.
Nenhum homem primitivo cortava lenha e caçava pensando
em ser promovido. Não temos informações de um casal das
cavernas tendo longuíssimas discussões de relacionamentos.
O problema central dos ambientes de retorno atrasado, é que
eles raramente poderão resolver-se no momento presente.
A ansiedade ganha corpo justamente porque não temos a
menor garantia de que ser um excelente aluno nos garantirá
um bom emprego e um bom salário, ninguém pode prometer
que se investirmos nossas economias na moeda nacional elas
irão dar bons retornos, não temos a menor segurança de que
se amarmos alguém por completo teremos uma reciprocidade
na mesma intensidade e frequência.
Parece-me que, diferente dos nossos antepassados,
estamos cercados de incertezas e damos muita importância
para elas.
Temos que olhar para a treta. Obviamente, não podemos
simplesmente retornar para uma mentalidade que já não faz
mais sentido, mas podemos sim aprender a analisar a realidade
de uma maneira menos conturbada. Esta é a nossa vantagem
cognitiva sobre nossos antepassados.
A questão central é mudar a preocupação para ação:
Ao invés de preocupar-se como será a relação sua com o
dinheiro no futuro, que tal implantar uma ação de prevenção
financeira?
Ao invés de preocupar-se como seus relacionamentos
futuros serão, que tal começar a valorizar as que já existem?
Se algo no seu companheiro te preocupa, que tal conversar
abertamente com ele sobre as expectativas que têm um com
o outro?

91
Ao invés de martirizar-se a escolha da profissão, porque
não ganhar tempo arrumando na cara de pau um estágio ou
entrando em contato com alguém da área?
Ao invés de ficar preocupado com sua dieta de perda de
peso, porque não se concentra em cozinhar uma comida mais
saudável a cada dia?
A maneira com que encaramos as coisas é que é a chave.
Quando temos uma tarefa que possa ser recompensada de
maneira futura, devemos transformá-las de algum modo em
uma recompensa imediata.
Um bom exemplo é escrever um livro. É uma tarefa longa,
trabalhosa e detalhada, não existe a chance de escrever tudo
de uma vez, mas podemos nos bonificar com um jantar da
comida preferida por cada capítulo terminado, por exemplo. É
como damos novo significado às coisas.
Não adianta preocupar-se. É preciso agir. Vamos
direto ao ponto central do texto. Se sabemos que temos um
problema de saúde, precisamos focar naquilo que podemos
fazer hoje para amenizar. Se estamos em dúvida entre ficar
com a loira ou com a morena, precisamos entender que se não
escolhermos viver com alguém hoje, vamos ficar sem ninguém.
Se não sabemos que proposta de emprego aceitar, precisamos
apenas escolher o que mais nos faz bem agora.
Eu nunca tive como proposta aqui resolver seus
problemas com a ansiedade, com o medo do futuro, com a
sua impaciência diante da vida, com seu estresse por não saber
escolher, com sua insegurança do que pode acontecer. Queria
apenas debater e ouvir o que tem a dizer.
Minha esperança é que saiba que é preciso mudar suas
preocupações por ações. E se der errado ao final, pelo menos
ainda há tempo de recalcular a rota.
O que fazer com a ansiedade? Procurar ajuda médica e
tentar transformar em práticas diárias aquilo que sabe que
colherá somente a longos prazos. Acredito que este seja um

92
meio de reduzir a incerteza e o estresse crônico que estamos
metidos nesta sociedade moderna.
Se nada der certo mesmo, pelo menos não terceirizou suas
escolhas. Viveu, aprendeu e seguiu. Acredite! Um mundo
sem ansiedade é um mundo chato para caralho. Mas, um
mundo dominado por ela, é pesado demais.

93
A GENTE NÃO SE
IMPORTA COM A
VERDADE

94
Ser jornalista me faz ficar preocupado com a ideia atual de
que não existe mais verdade ou mentira. Tentar relativizar ou
moldar — para não dizer distorcer — conceitos a uma realidade
pessoal parece algo bem perigoso.
Decidimos, sem pensar nas consequências disso, assumir
que a verdade é tudo que está a nosso favor. E, aquilo que
não nos apoia deverá ser rotulado como mentira. O truque é
antigo, mas hoje fica evidente.
Quanto os fatos ocorridos, que são quem realmente
merece atenção, eles pouco importam. Se algo está em lado
oposto àquilo que pensamos, vemos abundar os eufemismos.
Agora, se caso algo nos faça sentir ameaçados, expostos
ou desconfortáveis, a gente abandona os acontecimentos
concretos e passa a adaptá-los.
A razão deste texto é entender que o problema não
é mentiras que circulam. Somos nós. Um estudo diz que
A desonestidade é inerente a nossa realidade humana e
transpassa por todas as esferas da nossa vida. Até aí, não há
muita novidade, mas quando isso torna-se insuportável por ter
permeado todas as esferas da vida? Estamos definitivamente
na era da pós-verdade.
Pós-verdade quer dizer o que? Ralph Keynes em seu
livro A Era da Pós-Verdade: Desonestidade e Decepção na
Vida Contemporânea (2004) traz o conceito daquilo que ele
chamou de pós-verdade.
Este termo foi também eleito pelo Oxford Dictionaries
como a palavra do ano em 2016. E o site oficial pontuou que,
no caso do termo em inglês, post-truth, a palavra “post” não
está ligado a um tempo posterior de um acontecimento, como
quando alguém diz pós-guerra, mas sim tem a conotação de
superação, como se aquilo já não tivesse muita importância.
Segundo o editor do dicionário, a pós-verdade foi usada
pela primeira vez nesse sentido em 1992, em um dos ensaios
do sérvio-americano Steve Tesich na revista The Nation. O

95
contexto era que ele estava refletindo sobre o escândalo
contra o Irã a Guerra do Golfo. No texto, Tesich relatou que
“nós, como pessoas livres, decidimos livremente que queremos
viver em algum mundo pós-verdade”.
Mas o que temos a ver com isso? Por mais que o termo
tenha sido usado mais recentemente no âmbito político, hoje
é totalmente visível que não estamos mais atentos ao que, de
fato aconteceu. Assumimos discursos sem se importar com
aquilo que está por trás, sem ter condições de checar muitas
vezes, sem a preocupação de certificar-se que a verdade
assumida é o mais próximo da realidade.
E isso não é exclusividade da imprensa, este é o nosso dia-
dia. Estamos sempre compartilhando mensagens caluniosas
sobre os políticos que não somos simpáticos, modificando
discursos de pessoas que não aprovamos determinados
comportamentos, substituindo significados para responder as
nossas demandas ideológicas, ocultando elementos de uma
história para vender outras. Somos parte da gênese deste
monstro que criticamos.
A grande discussão sobre as notícias falsas e como elas
impactam a política é a maior prova de como esse conceito
afeta a realidade a nossa volta. Além disso, há uma tentativa
enorme de mudar a linguagem e os significados dos seus
verbetes apenas para servir realidades ideológicas, existe
uma grande tentativa de trazer significâncias modificadas a
terminologias que antes era bem consolidadas.
O resultado dessa mudança no discurso lotado de pós-
verdades é que passamos a adotar um perigo eminente
de justificar qualquer horror em nome do relativismo.
Os flagrantes já não provam mais nada, todo fato concreto
precisará driblar as versões alternativas para se sustentar,
ainda que ele seja comprovado.
As redes sociais ampliaram ainda mais essa discussão.
Qualquer figura pública pode hoje fornecer opiniões em

96
praticamente tudo sem que haja investigação. Sem contar que
qualquer pessoa hoje pode se tornar um emissor de opinião
sem que haja responsabilidade. Os algoritmos também não
contribuem fortalecendo uma burrice monocultural que
transforma o mundo em um grande condomínio fechado e
agrava mais ainda os radicalismos.
Para fechar, em uma cultura de culto à personalidade, a
identidade ultrapassa os argumentos. Sem contar a crescente
perda de interesse nas evidências. Estamos mais abertos
a receber aquilo que nos ajuda a propagar nossas ideias, e
totalmente agressivos com o oposto. O resultado disso tudo
é uma sociedade radical, que emite mentiras sem medo do
que podem estar fazendo, que vivem cada vez mais em guetos
mentais e que perderam de vista totalmente a noção de
confiança e credibilidade.
A verdade já não importa. Importante mesmo é como
ela pode servir a nós e ao grupo que pertencemos. O resto, a
gente apenas ignora.

97
A SOLIDÃO É UMA
COISA DE ADULTO

98
Lembro que quando eu era criança fazia amizade com meia
dúzia de palavras. Bastava levar um brinquedo para um lugar
que logo arrumaria um amigo para brincar comigo. Criança
tem muita facilidade para conectar-se às pessoas. Solidão é
coisa de adulto.
Somos um mar de solitários e não há nada que possamos
fazer para mudar isso de maneira rápida. Não adianta entrar
no Tinder, ter milhares de seguidores no Instagram, fazer
Happy Hour toda sexta, pedir um combo de vodka e whisky de
dentro de um camarote ou ter muitos contatinhos no celular.
A vida adulta é lotada de solidão.
Já repararam que, quanto mais velhos ficamos, menos
pessoas vão aos nossos aniversários? Nosso círculo fica
reservado apenas a pai, mãe, irmão e talvez meia dúzia de
pessoas que sempre fazem os mesmos rolês de sempre.
Você já se vê sem muita pretensão de fazer questão das
pessoas, acostuma-se com o edredom e o Netflix, não se
importa em tomar um sorvete sozinho, em ir ao cinema porque
ninguém mais podia ir, em almoçar sua comida preferida sem
ninguém para papear.
Não quero dizer que temos que estar acompanhados o
tempo todo como se não tivéssemos nossas particularidades.
É bom saber suporta-se, saber conhecer-se, ficar em silêncio
sozinho olhando para o teto branco, ir viajar só com seu roteiro,
comprar aquele ingresso para o show mesmo que ninguém
possa ir contigo, correr pelo parque de fones na companhia
apenas da sua playlist predileta do Spotify. É possível estar
sozinho e em boa companhia.
No entanto, não ignore que, às vezes, a sua cama se
transformará em uma grande campo de futebol e parecerá
enorme só para você, que na sua mesa do almoço não terá
nenhuma pessoa para dividir aquele prato enorme ou roubar
sua batata frita, que seu inverno será bem mais frio por não
ter com quem dividir um cappuccino no meio da tarde e o

99
cobertor a noite, que não terá ninguém para xingar quando ver
que a roupa espalhada pela casa é só culpa sua.
Você dará conta de que a vida adulta tem uma solidão tão
particular. E que mesmo que corra atrás de companhia, poucas
pessoas realmente estão interessadas em quem você é. Todos
são tão solitários quanto você, e nada mais vai mudar isso.
Você será refém de outro solitário viciado e perdido.
A vontade do abraço parecerá utópica. O desejo de que
alguém se preocupe contigo, será uma ilusão impossível. Você
estará na iminência de um perigo ainda mais danoso: acreditar
que somente com outra pessoa é que poderá ser feliz por
completo.
Nessas horas, é melhor abrir as janelas da casa e deixar a
luz entrar, tentar se esquivar de pensamentos ruins e pessoas
que sejam apenas temporárias, de gente que não valoriza a
permissão que deu para que ela seja tudo em você.
Ali, enquanto a solidão faz de você seu maior escravo,
resista. Abra bem seu coração para escolher não se entregar
por migalhas, mas principalmente abra os olhos para aquilo
que está ao seu redor. Não menospreze a oportunidade de
conhecer gente e ideias novas, de mudar de ambientes de vez
às vezes, ou transformar seus hábitos, viciar-se em uma coisa
inédita, trocar tudo que precisa ser trocado sem dó de dar
embora. Assim mesmo, no impulso de mudança.
As melhores companhias são sempre aquelas que a
gente menos espera. A solidão sim é uma companheira fiel,
amigo.

100
SOBRE SER ENGRAÇADO

101
Tenho uma amiga que sempre me diz que sair comigo
para tomar um café é como estar no Jimmy Fallon. São sempre
perguntas não-óbvias, a cada pausa, um comentário cômico
improvisado, e no final, ambos sentem que aquilo tem que
repetir mais vezes.
Depois que ela me disse isso, comecei a observar e fiz uma
descoberta grave sobre mim: eu realmente sou um viciado em
fazer pessoas rirem.
O meu desinteresse pelo sério é antigo. Lembro que ainda
garoto não me dava bem com pessoas que se levam a sério
demais. Tive uma chefe que gostava de ser vista como a melhor
profissional do mundo, e, pelas costas, organizei um concurso
de imitação dela com os colegas.
O mais curioso sobre isso tudo é que nunca fui o palhaço
oficial da turma. No colégio, sempre soltava comentários
baixinhos para que alguém com mais coragem falasse alto.
Sempre acontecia e essa outra pessoa levava o crédito pela
gargalhada da sala de aula. Dei inúmeras piadas para outras
pessoas.
Hoje, como um observador cirúrgico que sou, acabo
sempre arrancando gargalhadas das pessoas com comentários
comicamente pontuais. Talvez seja esta a minha graça
particular: extrair do dia-dia uma graça despretensiosa.
A graça de todo dia nos dai hoje. Meu tipo de humor
predileto tem a ver com as situações-limite. Aprendi a rir dos
piores momentos. É o absurdo da vida que me faz gargalhar.
Qualquer um diria que este é um raro dom de Deus. Na
verdade, penso exatamente o oposto. Se os convidasse para
conhecer meus pensamentos mais profundos, chegariam a
conclusão que Deus não pode estar por trás disso. Algumas
piadas guardam para mim como aquele último Trident que
você não quer repartir. Você quer deliciar-se sozinho. Agora
entende o nível da coisa?
Eu não faço esforço. Automaticamente, minha cabeça

102
torna-se uma máquina de pensamentos. Ela já está
naturalmente condicionada a fazer trocadilhos involuntários, a
realizar conexões cômicas com facilidade, a encontrar graça no
óbvio e construir graça mesmo num papo mole de boteco. As
piadas simplesmente surgem.
A vida é a melhor piada de mau gosto. Há poucos dias,
eu caí da escada durante uma mudança de casa e tomei
quatro pontos no rosto. Enquanto a doutora me anestesiava
mandei: — Mais dois pontos, acerto na mega sena. Ela riu
gostoso, mas me deu uma bronca. O humor pode estar numa
tragédia.
Aprendi a rir do intenso. Foi o hilário Mark Twain que
disse: “A fonte secreta de humor em si não é alegria, mas a
tristeza.” — Segundo ele: “Não há humor no céu”. Concordo
com ele que as melhores piadas surgem em situações e
momentos mais constrangedores.
Tenho pesquisado sobre pessoas tidas como engraçadas
para tentar encontrar a razão deste meu vício. Desconfio que
isso surge do meu interesse em ter um bom feedback das
pessoas sempre rindo ao meu redor. A segunda opção é que
criei um mecanismo de fuga necessário para afastar o tédio
comum da minha vida. Aposto mais na segunda opção. Não é
a toa que os melhores comediantes são judeus.
A graça está justamente em identificar o elemento que
ninguém olhou ainda e satirizar. O humor reside especialmente
no embaraçoso. Às vezes, até mesmo as melhores piadas
podem te levar a indiscrição, ao desconforto e a aflição.
Acontece.
Ser um cara engraçado dá trabalho. O que não te contam
sobre ser engraçado é que provocará sempre nas pessoas uma
expectativa altíssima a seu respeito.
Às vezes, sinto como eu fosse o único alívio para o ambiente,
como se sempre tivesse que me auto superar nos comentários,

103
como que fosse um escravo da minha criatividade ilimitada.
Esta coisa de fazer as pessoas rirem tem me deixado
preocupado ultimamente. Pode ser realmente alarmante. Já
pensei até que poderia ser uma espécie de doença com direito
a diagnóstico, tratamento e medicação.
Já pensou? Um dia você vai ao médico e ele diz: “Péssimas
notícias, senhor. O que o senhor tem é síndrome de Monty
Phyton, mais conhecida como piadose aguda. Perdemos
um paciente na semana passada disso. Falência múltipla de
anedotas.”
Talvez neste dia faça mais sentido a expressão morrer de
rir. Sei lá

104
PARE DE COBRAR MUITO DE SI

105
Precisamos conversar sobre autocobrança e sobre como
nos comportamentos em resposta a exigências do meio.
Você não sabe bem ao certo dizer quando foi que começou
a sentir-se mal. Falo de conviver com aquela sensação de que
não conseguiu dar conta da vida. E a resposta é simples: você
tem cobrado muito de si mesmo.
É louco como conseguimos fazer um imenso esforço para
sermos generosos, agradáveis e menos combativos com as
pessoas ao nosso redor, mas quando isso precisa voltar para
nós mesmo, aí não vemos condições. Este é meu caso, pelo
menos.
Quando alguém nos confessa que está em uma situação
complicada, vamos logo nos adiantando e dizendo: “Tudo vai
ficar bem”. Mesmo se não soubermos se vai mesmo. Quando
somos nós a pessoa com problemas, nossa mente funciona
exatamente oposto. Somos especialistas em auto sabotagem.
Ficamos nos culpando, por exemplo, quando alguém
simplesmente vai embora sem se despedir, pelo trabalho que
não está dando certo, pelo projeto que teve caminhos não
esperados. Vivemos com um sobrepeso das bagagens que
carregamos na vida, andando com um fardo extra nas costas.
Como se todas as contingências da vida, sejam elas, positivas
ou danosas, fossem exclusivamente nossa incumbência e
responsabilidade.
Ser duro não é bater-se. Ser duro consigo mesmo em
tempos confusos pode até ser um exercício de disciplina
necessário, mas quando deixamos a vida tornar-se dura demais
ao ponto de experimentarmos apenas o lado negro, tudo fica
completamente mais complexo de absorver e remediar.
Tenho aprendido, mesmo que a passos lentos, que não
precisamos entender tudo que acontece na vida. Eita lição
complicada! Por vezes, tentamos encontrar uma razão palpável
que explique porque as pessoas são tão vazias ou, porque
algumas coisas simplesmente saem da nossa alçada.

106
Depois, quando a maré baixa, percebemos que não
importa quanto nos dedicamos a alguém, a algum projeto, a
alguma nova empreitada, não interessa o quanto podemos
ser agradáveis, organizados e planejadores, nem o quanto
tentamos nos entregar para fazer tudo acontecer, as palavras
que dizemos e ouvimos, uma hora qualquer, na aleatoriedade,
determinadas coisas não estão no nosso controle.
Algumas coisas não dependem da gente. Mesmo que
carregue no peito o maior amor do mundo, a maior disposição
possível, o máximo desejo de que tudo saia bem, é preciso que
haja uma contrapartida mínima para que esse investimento de
tempo, dinheiro, mental, sentimental, físico, realmente valha
a pena.
Aprender esta lição é muito difícil porque não cabe
nenhuma lógica possível. Viver é um tiro no escuro. Este é o
cenário comum. Ninguém pode ser obrigado a permanecer.
Isso é tudo, menos amor real.
A partir daí, podemos apenas optar por reconhecer nossa
parcela de culpa sem medo de se descobrir, sem cobrar, mas
sabendo que não podemos carregar toda a culpa, sozinho.
Basta entender que ver o final de algo sempre vai ser a pior
coisa do mundo, mas ainda é possível reinventar a vida,
sabendo que pessoas e projetos vêm e vão.
Não seja exigente consigo, nem com os outros. O coração
é como a nossa casa. Muitas pessoas podem entrar, dividir um
pedaço da nossa história, sentar no nosso sofá só de meia e
colocar o pé na mesa de centro, comer, rir e ir embora sem
lavar a louça. E outras, vão simplesmente chegar de última
hora com o desejo de ficar, vão aprender a zelar pela boa
convivência, derrubar pipoca no tapete, mas vão sempre nos
ajudar a deixar as coisas organizadas por toda vida.
O que não dizem sobre pessoas que se cobram demais é
que elas geralmente não saem da inércia por depositar toda
a sua vida à terceiros. Temos o direito de cobrar-se sim, no

107
entanto, é fundamental, termos o olhar para a vida como
quem observa uma situação com muito cuidado.
Tratar-se com respeito pode mudar nossa vida para
sempre. É preciso ser generoso consigo antes. É preciso cobrar
menos e ter amor para com você, antes de tudo.

108
O DILEMA DE MIGRAR
PARA A VIDA ADULTA

109
Todo mundo sabe da minha clássica birra com a juventude
moderna. Ter completado trinta parece não me autorizar a
ensaiar uma pirraça, mas a cisma é um esporte antigo.
Tenho convivido mais tempo com pessoas mais jovens que
eu e algumas delas acabaram de começar nesta empreitada
eterna de uma sucessão interminável de boletos chamada de
vida adulta.
O diagnóstico é claro: estamos perdidos. A ironia de todo
esse episódio é que virar gente grande não parece tão fácil para
uma geração que é considerada a mais preparada de todas, ou
seja, ao mesmo tempo, em que possuem currículos invejáveis
e experiências quilométricas são também descaradamente os
mais despreparados para a vida nua e crua.
São meninos e meninas cheios de habilidades, mas
que não foram treinados para errar. São cachorrinhos com
inesgotáveis truques bem ensaiados, mas que não param de
chorar porque sempre querem passear na coleira.
São famintos por quaisquer tecnologias e elas lhes são
familiares, mas não lidam bem com os danos que elas criam.
Gostam dos louros e reconhecimentos, mas ignoram o esforço
até lá como um desprezo proposital.
Colecionam selfies nas mais belas paisagens e gabando-se
de conhecer diversos lugares no mundo todo, mas não visitam
um centímetro da sua própria realidade interna. As suas
viagens são todas exteriores, mas nunca para dentro. Alguns
até meditam, fazem ioga, são naturalistas, mas no que se trata
de decisões emocionais na vida, são mestres na procrastinação
relapsa.
O sofrimento parece tomar conta de uma parcela
consideravelmente real nos seus cotidianos. Foram ensinados
que a felicidade estava iminente, mas o “logo ali” nunca chega.
Esconderam deles que teriam que criar-se diante da dor. Até
o mertiolate é Nutella. A coisa piora no caso da classe média
e da alta.

110
Acostumados com a mãe passeando na diretoria dos bons
colégios particulares, aprenderam o verbo To Be antes mesmo
de decorar Bhaskara, tiveram a chance de ver a Monalisa de
perto e ao vivo ainda aos 20 e poucos, mas não aprenderam
a ter conversas sérias a não ser via mensagem de texto e
preferem relacionar-se com o outro virtualmente. Até o
tradicional “te pego na saída” é raro de ouvir.
Um segundo exame se faz necessário. A culpa não é deles,
muito menos dos seus pais. A geração que teve muito mais
oportunidades que a genealogia inteira, criou-se com a
sensação de que a vida é uma linha reta e crescente, por
isso, eles se sentem gênios não compreendidos que o
mundo ainda não descobriu.
Nas suas profissões, acreditam que não podem encontrar
seus sonhos trabalhando para qualquer pessoa. Olham sempre
para uma maneira de não depender de instituições, de não ter
que aguentar aquilo que julgam não merecer, de lutar pelo
que querem — ainda que na maioria das vezes não saibam o
que seja.
Acreditam que passar perrengue é trair sua vocação. Ficam
perdidos, empacados e estacionados em sua própria falta de
humildade. Eles têm dificuldade de lidar com a velocidade das
coisas. Sofrem as mais terríveis ansiedades.
Negociam com tudo e todos, mas não dão conta de lidar
com os degraus da vida sendo subidos um a um. Demitem-se
por qualquer razão, rompem relacionamentos por comodidade,
arriscam tudo sem responsabilidade. Colocam-se sempre em
primeiro plano, crentes que um mundo ideal está para chegar.
Como todo estreante, eles tentam forçar as regras, ganhar
debates na histeria, conquistar tudo no grito, a fazer-se ouvido
nos empurrões nada éticos. Vivem como se alguém estivesse
lhes devendo a felicidade tão sonhada.
A crise da autoridade e de si mesmo. Nesta onda, os pais

111
acabam negligenciando a postura de autoridade dentro de
casa realizando manobras para poupá-los das angústias e para
garantir conforto que eles próprios não tiveram, os professores
têm perdido sua voz e mal conseguem realizar seu papel de
educador, os patrões têm perdido o cabelo, apavorados com
uma geração que reage a tudo de maneira imprevisível.
Estamos diante do mundo lotado de direitos sem que haja
responsabilização, maturidade e reciprocidade.
Os jovens vivem temendo o fracasso pessoal, sendo
perseguido pela ideia contínua de que o futuro deve estar
garantido sob qualquer circunstância. Acontece que demoram
para entender que a vida não é a historieta que os seus pais
contaram.
Foram treinados para ser uma máquina de habilidades
como ferramentas completas, mas ninguém falou que teriam
que estar preparados para enfrentar a dor e a decepção. A
todos, cabe fingir felicidade. E calado, para não ser ridículo.
A pílula de realidade chegou. Precisamos entender que
melhor do que ter um bom emprego, ter uma condição razoável,
falar inglês fluente ou até mesmo ter qualquer produto da
Apple, é aprendermos que vão ter horas que precisamos nos
virar sozinhos.
É como se a vida dissesse em alto e bom-tom: “Daqui para
a frente, bicho, é com você”. E ao invés de nos recolhermos
ao desespero, pudéssemos responder: “Sabe, estou com medo
disso, tenho essas dúvidas aqui, me sinto confuso quanto a
isso e não faço a menor ideia de onde isso vai me levar, mas
vou tentar descobrir.”
A vida adulta é partir de um ponto em que você terá que
conquistar um cantinho nela mesmo que não haja nenhuma
garantia de sucesso e ter a coragem de escolher ir à luta
mesmo assim.
É saber que nada vai sair como planejado, que nada é

112
tão completo como parece, que nenhuma pessoa pode nos
garantir a vida de sucesso e nenhuma coisa no mundo vai
nos completar por inteiro, e saber que já que estamos aqui,
e essa vida é única, curta e intransferível, é melhor não ficar
choramingando por aí, porque o último minuto de vida pode
ser agora.
O que ninguém te fala sobre ser jovem é que você vai se
dar muito mal na vida, mas não tem nada de errado com isso.
Apenas siga até que tudo fique bem novamente e você possa
realmente constatar que cresceu de verdade.

113
SÓ É CONCLUSÃO QUANDO
SE CHEGA EM ALGUM LUGAR

114
Tenho um amigo que diz que nunca devemos pedir a
saideira, porque a última cerveja é aquela que tomamos antes
de morrer. Eu concordo com ele.
Este livro é um amontoado de ideias que se propôs a
provocar profundamente o leito não só no campo das ideias,
mas promover realmente uma ação verdadeira e prática.
Não sou um autor porque fiz meu nome escrevendo
artigos, mas sim porque o meu caminho é altamente marcado
pelas mudanças que promovi onde tentei chegar.
Há uns doze anos, quando comecei a escrever e postar
na internet, tinha uma esperança de que um dia eu seria
descoberto por um agente, ou por uma editora, e assim, teria
a possibilidade publicar diversos textos para alcançar muitas
pessoas pelo mundo.
Muito tempo se passou e depois de anos de experiência
publicando minhas ideias em lugares como este, achei uma
profissão e boa parte da minha vida mudou para melhor.
Tive a honra de ganhar alguns reconhecimentos e pude
sentar em mesas importantes, comprei coisas que sempre
sonhei, tive acesso a realidades que jamais teria pensado, mas
não posso dizer que cheguei no topo.
Parênteses necessários. Não tenho a ilusão de acreditar
que o topo é alcançável e, assim, o único lugar que se pode
gozar da boa vida. Existem realidades em que a felicidade é
perceptível, aparente e consistente sem ao menos estar no
mesmo ambiente do ápice que a gente sonhou em estar.
Fecha parênteses.
A influência é mais que números estrondosos. Apesar de
ter algum reconhecimento dentro de nichos específicos de
públicos por ter participado de inúmeros projetos enormes de
sucesso, não posso dizer que sou famoso. O estrelato é algo
para poucos lunáticos.
Embora eu não tenha um caminhão de dinheiro disponível
para cometer luxos passionais, tenho conquistado muita coisa
que jamais imaginei que teria e paguei todas as minhas contas
nestes últimos anos apenas com o trabalho como escritor e
especialista em produção de conteúdo.

115
E mesmo depois de ter conquistado um determinado
público fiel, de ter escrito centenas de artigos que, sem dúvida,
entregaram ferramentas para as pessoas saírem do lugar-
comum, para se analisar e progredir como pessoas, continuo
falando da minha mensagem como uma arma afinada para
mudar a vida das pessoas.
Não tenho a fama que gostaria, o dinheiro que me blindaria
e nem o reconhecimento suficiente para me considerar um
atípico fenômeno, mas posso dizer que ajudei a mudar a vida
de muita gente para melhor. E elas quem me bancam.
Foi então, que uma ficha caiu na minha mente: essa
realidade de aparência começa a se desfazer bem na nossa
frente, quando percebemos que apenas ter alcance não é o
suficiente. É preciso ter uma mensagem forte.
É justamente isto o que falta em que produz produtos,
vende serviços e atende pessoas. Muitas empresas, pessoas
e instituições estão apenas reproduzindo ideias e carregando
uma mensagem a reboque. São uma espécie de guincho
de discursos alheios. Não tem o que dizer, pois são apenas
papagaios dos demais.
Quando digo para portar uma mensagem, não me refiro
a se ater às pautas pacifistas, as questões sociais, a construção
de utopias irreversíveis, mas em realmente tem uma tônica voz
sobre o mundo e ser capaz de sustentar isso.
A coerência e a importante ter uma voz. Sempre que me
procuram para me perguntar algo sobre este tema ou para
me contratar por algum trabalho específico de consultoria,
ou conteúdo, arremesso no meio do peito, como um tiro,
uma pergunta fundamental: para que você está fazendo este
trabalho?
Longe de mim, ficar fazendo elucubrações filosóficas que
não aderem à realidade existencial como uma criança inocente
que acredita num mundo cor-de-rosa.
Sei bem que a maioria de nós apenas quer ser se sentir
ouvido, valorizado e reconhecido pelo trabalho que faz e
ter a condição de sustentar seus desejos e expectativas mais
internas com o sustento provido de algum talento.

116
A questão do meu ponto aqui está mais ligada às
motivações que estão por trás de tudo que fazemos. Por
que é importante saber responder isso? Bem, para começar,
pelo simples fato de que toda ação nossa é pautada em um
pensamento.
É hilariante para mim, ver as pessoas sem resposta diante
dessa pergunta. Isso porque a maioria de nós entra na onda de
alguma hype do momento sem nem se preocupar em entender
o melhor caminho para isso. O motivo pelo qual fazemos as
coisas têm que ser o fomento que nos tornará mais móvel.
Nesse sentido, entender os estímulos que nos fazem
seguir adiante com uma nova ideia é o que será considerado
para nos dar um impulso no sentido daquela coragem.
Lembro da garota que me contou de maneira surpresa
que eu a havia livrado de cometer um suicídio depois que ela
leu um texto sobre luto. Outra pessoa que me segredou que
ajudei ela a compreender que o relacionamento dela não tinha
chegado ao fim, apenas precisavam se reajustar.
São dessas histórias que alimento o meu constante
desânimo faminto. A minha mensagem está não só na
minha capacidade viralizar um texto e ficar famoso, mas
principalmente de evidenciar o efeito impactante que consigo
ter nas vidas.
Transportando uma ideia significativa. Outro grande erro
de quem quer tornar-se uma referência em alguma coisa é
acreditar que pode se pode ter expressividade sem entender
o que exatamente as pessoas estão consumindo e indo atrás
de saber.
O que você realmente transmite com tudo que faz? É
preciso ir atrás das respostas das perguntas que as pessoas
estão se fazendo e ajudá-las a resolver dilemas.
Como exatamente você vai servir as pessoas com a
densidade e a realidade que elas demandam? Acredito mesmo
que o conteúdo está nas motivações secretas. E todo mundo
tem que admitir que seus projetos de fracasso normalmente
estão associados a algumas motivações nada importantes
para terceiros.

117
Toda marca tem uma mensagem. Conheça ela ou não. Toda
fala leva para um lugar. Seja consciente ou não. Toda frase tem
um alvo certo. Propositalmente ou não. Todo profissional é um
contador de histórias. Mesmo que não tenha se dado conta
ainda.
Temos que entende como realmente estamos criando
conteúdos e como gerar meio de ampliar maximamente o
potencial, o efeito e a penetrabilidade deles de acordo com a
mensagem essencial ao público.
Digo isso porque sempre vejo gente dizer que precisa
realmente aprender a contar boas histórias, mas ter medo
de investir neste conhecimento. Adiar o aprendizado sobre
as ferramentas úteis para comunicar-se de maneira efetiva, é
deixar de lado o seu papel na evolução da sua audiência.
Tentar se livrar da obrigação de ter que atualizar-se e
aprender mais sobre como contar histórias num mundo
moderno e cheio de informação excessiva é consentir diante
da ignorância e recusar a oferta fazer o seu trabalho de uma
maneira bem mais significativa e eficiente.
A lucratividade está na capacidade de falar com pessoas,
ouvir história e fazê-las sentir conosco. Nosso verdadeiro
salário não está apenas numa venda bem feita, mas na
capacidade que tivermos de continuar satisfazendo clientes e
seus sentimentos.
Não se preocupe em concluir um trabalho, mas atenta-
se na ambição de ser realmente um agente inesquecível para
todos que cruza. Foi isso que tentei fazer neste livro. Espero que
tenha divertido-se durante a leitura, mas também percebido o
seu crescimento durante ele. Só coloquei a pulga atrás da sua
orelha. Agora, é com você. Flagre-se irrefutavelmente. Todo
dia.

Murillo Leal

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