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MATAR ? POR QUÊ ?

"O limite que o legislador deveria fixar para o rigor das penas, parece residir no sentimento de
compaixão, quando esse começa a prevalecer sobre qualquer outro, no ânimo dos
espectadores de um castigo, reservado no mais para eles do que para o próprio réu."

Cesare Beccaria ("Dos delitos e das Penas")

Introdução:

Tugendhat (1) lembra que, ao final de sua Preisschrift über die Grundlage der Moral,
Schopenhauer sustenta um exemplo como "experimentum crucis": alguém desejava matar
outro e desiste de seu intento por motivos morais. A pergunta de Schopenhauer é: que
motivação seria convincente? Pareceria convincente se o personagem nos dissesse que ele
não o teria feito porque então a máxima de seu comportamento não se deixaria universalizar?
Ou porque então não teria tratado o outro igualmente como um fim em si mesmo? O autor
segue expondo outras hipóteses que se referem a conceitos morais e, então, contrapõe a todos
a resposta: "eu não o fiz porque fui tomado de compaixão...ele causa-me dó." Schopenhauer
segue perguntando ao leitor "honesto e desembaraçado": Qual é o ser humano melhor?

A pergunta parece-me importante para o debate atual sobre a pena de morte e introduz uma
exigência radical: em que medida, antes mesmo de qualquer argumento dos defensores das
execuções legais, é possível considerar a providência mesma como sinal de um progresso
moral? Penso que essa pergunta ofereça uma dificuldade incontornável e que a argumentação
favorável à pena de morte só possa encontrar um caminho de justificação no leito movediço
dos argumentos utilitaristas. Mesmo nesse terreno, entretanto, poderá ser impugnada. O
presente texto é uma tentativa de alinhar, possivelmente sem a sistematicidade necessária,
alguns argumentos que permitam reforçar as razões mais corriqueiras expostas em defesa da
tese abolicionista quanto à pena capital.

O cenário político:

A idéia da introdução da pena de morte tem agregado, na história recente de nosso país, uma
legião de defensores. Grande parte deles situados, não casualmente, à extrema direita do
espectro político. Com essa expressão, não me refiro àquelas posições de sentido conservador
ou plenamente vinculadas aos valores ideológicos dominantes. Ao assinalar "extrema direita"
pretendo identificar a posição daqueles que sempre assumiram sua beligerância diante da
própria ordem democrática afirmando conceitos similares aos que procuraram legitimar os
regimes de exceção - notadamente as ditaduras militares na América Latina; com conhecidas
simpatias pelo ideário fascista. Penso que, dizendo-o assim, me refiro a um fato no mais
incontestável. Parece claro que vários dos defensores da pena de morte filiam-se a outras
perspectivas político-ideológicas. Há que se nomear, inclusive, os segmentos fundamentalistas
da esquerda, destacadamente àqueles de inspiração leninista, trotskysta, maoísta ou
guevarista - para citar os mais conhecidos - que sempre tiveram, diante da pena de morte ,
uma concepção oportunista recusando-se mesmo a reconhecer nela a existência de uma
questão moral. Para esses, tudo se resolveria simplesmente a partir da aritmética da "luta de
classes". Assim, na medida em que fosse necessário eliminar os inimigos "do proletariado" a
simples recusa à tarefa equivaleria a uma desprezível traição aos "objetivos revolucionários".
De qualquer maneira, aquilo que poderíamos designar como uma "militância" em favor da pena
capital sempre foi um atributo característico das posições reacionárias e inimigas da
democracia. Não seria demais assinalar, entretanto, que os pressupostos de valorização da
violência - concebida, no mais das vezes, não como a negação da política, mas como uma
espécie de contingência inevitável de seus momentos agudos - acompanhe, à direita e à
esquerda, as vocações totalitárias.

De forma relativamente autônoma, por sobre aqueles limites ideológicos, é evidente que a idéia
favorável à introdução da pena capital tem alcançado uma significativa audiência em nosso
país. Na base desse fenômeno encontraremos uma reação - no mais das vezes amplificada e
legitimada por muitos dos formadores de opinião com presença nos meios de comunicação
social - ao avanço da criminalidade. Pode-se afirmar, assim, que a base social - talvez, hoje,
majoritária - de apoio à introdução da pena de morte em nosso país expresse um fenômeno
correlato daquilo que a literatura especializada denomina "sensação de insegurança"; forma
específica de uma angústia disseminada que caracteriza, de resto, as modernas sociedades.

Seja como for, estamos diante de uma questão política relevante atravessada por inúmeros
pressupostos de natureza moral, religiosa e filosófica. É preciso, por isso mesmo, um esforço
preliminar para que a posição abolicionista frente à pena capital seja sustentada no terreno dos
princípios.

A tradição filosófica e o direito penal:

A tarefa de oferecer uma fundamentação ao abolicionismo seria mais simples não fosse o fato
notório de que a communis opinio dos filósofos, a começar por Platão, Hegel e Kant , tenha
sido favorável à pena de morte. Especialmente no mundo antigo e na Idade Média, uma
concepção a respeito do Estado - que poderíamos denominar de "orgânica" - ofereceu uma
estrutura dominante de pensamento segundo a qual "o todo está acima das partes". A
passagem de São Tomás na Suma Teológica parece sintetizar o argumento: "Cada parte está
ordenada ao todo como o imperfeito ao perfeito (...) Por causa disso, vemos que, se a
extirpação de um membro é benéfica à saúde do corpo humano em seu todo (...) é louvável e
salutar suprimi-lo. Ora, cada pessoa considerada isoladamente coloca-se em relação à
comunidade como uma parte em relação ao todo. Por conseguinte, se um homem constitui um
perigo para a comunidade (...) é louvável e salutar matá-lo para salvar o bem comum." (2) A
estrutura mesma do argumento só é compreensível quando situada no quadro de um modelo
de sociedade anterior à modernidade e ao paradigma dos Direitos Humanos por ela oferecido.
H. Bedau o afirma a partir de uma divisão em três modelos de sociedade: um primeiro, onde
não há reconhecimento da idéia de direitos gerais, mas de obrigações, como no Antigo
Testamento; um segundo modelo de sociedade onde já há o reconhecimento de direitos gerais,
mas apenas aqueles plasmados pela ordem jurídica e adstritos aos papéis específicos a serem
representados pelas pessoas e, por fim, um terceiro modelo de sociedade onde se reconhece,
de forma absolutamente subversiva frente à tradição anterior, a existência de direitos gerais e
incondicionados que deveriam ser realizados diante de cada ser humano pelo único motivo de
sua humanidade mesma. (3)

Esta pretensão à universalização de direitos encontrou na utopia dos Direitos Humanos uma
perspectiva coerente e radical. Graças a ela, pode-se contemporaneamente reconhecer, por
exemplo, a tortura como um crime contra a humanidade e introduzir nas constituições da
maioria das nações o princípio pelo qual os Estados modernos assumem o compromisso de
não infligir penas "cruéis ou degradantes" aos condenados. O princípio foi de tal forma
incorporado às tradições culturais de nossa época que mesmo nos países onde ainda se aplica
indiscriminadamente a tortura não há quem a sustente publicamente. Ao contrário, os
governantes, diretamente responsáveis pelos suplícios ainda tão comuns impostos aos
prisioneiros ou omissos diante da série interminável de violências oferecidas a eles, costumam
negá-las com vigor.

Determinadas visões no âmbito do direito penal, não obstante, revelam a permanência de


valores culturais de outros modelos de sociedade pelo que convivemos com muitas
ambiguidades. As teorias retribucionistas, por exemplo, oferecem a perspectiva de
continuidade diante dos ordenamentos primitivos que ressaltavam a legitimidade da vingança
de sangue. Esta tradição que se afirma desde os antigos hebreus e que foi, apesar da idéia de
perdão, transmitida ao cristianismo e ao catolicismo de São Paulo a Pio XII sustenta-se em três
pontos fundamentais: a idéia de vingança, a de expiação e a de reequilíbrio entre pena e delito.
Em crise na ilustração, esse tripé viu-se subitamente reforçado no século XVIII pelos textos de
Kant e Hegel. Para o primeiro, a pena deveria ser compreendida como uma retribuição ética,
justificada pelo valor moral da Lei infringida e do castigo que se impõe. É digno de nota que
Kant tenha rechaçado o argumento de natureza "preventivista" - que sustenta, por exemplo,
toda a visão humanista de Beccaria - a partir da idéia de que o efeito dissuasório da pena seria
imoral por tratar o ser humano como meio. Tem-se, então, uma posição pela qual seria moral
mesmo matar se para retribuição do mal praticado e imoral qualquer punição que buscasse
inibir a pratica dos delitos dos demais. (!) A posição de Hegel é muito semelhante: para ele,
trata-se de assegurar com a pena a necessária retribuição jurídica pela qual a ordem violada
seria reposta.

Ora, o que a posição dos dois autores não permite compreender é o fato assinalado por
Ferrajoli de que a irreparabilidade seja, precisamente, o que distingue os delitos penais dos
civis de maneira que "a pena - ao contrário do ressarcimento do dano - não pode ser
considerada uma retribuição, nem uma reparação, nem uma reintegração" (4) . No âmbito do
direito penal, estamos diante da esfera de ocorrências onde se valida plenamente a objeção de
Platão , a saber: "o que está feito, não pode ser desfeito" Há que se romper, então, com aquilo
que Morris Ginsberg denominou de "obscura e enraizada crença" da existência de um nexo
necessário entre culpa e castigo.

As teorias relativas que procuram justificar as penas a partir da idéia de prevenção oferecem a
perspectiva de rompimento com a visão "retributivista". Em verdade, elas se fundamentam em
um pressuposto utilitarista. Ao invés de vincularem-se ao mal praticado (ao passado, portanto)
voltam-se para o futuro. Os sofrimentos penais - o afirmam, entre outros, Montesquieu, Voltaire,
Beccaria, Hume e Bentham - são opções necessárias para impedir males maiores e não
homenagens gratuitas à ética, à religião ou à vingança. A passagem de Hobbes em polêmica
com o retributivismo sintetiza o argumento: "Ao ameaçar com penas, não há que preocupar-se
com o mal já passado, senão com o bem futuro; ou seja: não é lícito infligir penas se não for
com o fim de corrigir o pecador e melhorar os demais com a advertência da pena aplicada...A
vingança, não estando orientada para o futuro e nascida do orgulho é um ato contra a razão"(5)
As teorias relativas têm oferecido sustentação a quatro grandes vertentes argumentativas: a)
as que apostam na correição do delinquente; b) as que visam a incapacitação do delinquente;
c) as que procuram reforçar a adesão dos cidadãos à ordem e d) as que visam dissuadir os
cidadãos mediante o exemplo ou a ameaça.

A falácia da dissuasão:

Fica claro, então, como as teorias relativas - que apostam na prevenção - podem oferecer
sustentação à idéia da pena de morte bastando, para isso, que a vertente centrada na
incapacitação do delinquente seja levada às suas últimas consequências. O argumento
igualmente utilitário de Beccaria, não obstante, é suficiente neste nível de argumentação: para
o grande reformador italiano, a certeza da pena seria muito mais produtiva para a dissuasão do
que sua gravidade; da mesma forma, a extensão da pena haveria de gerar mais efeitos
intimidadores do que sua intensidade. Os indicadores de violência e criminalidade nas nações
modernas parecem comprovar a intuição de Beccaria. De fato, países que efetivaram uma
aposta em legislações penais notáveis por seu rigor - os EUA, por exemplo- têm demonstrado
resultados muito menos significativos no enfrentamento à violência do que aquelas nações que
optaram por um "Direito Penal Mínimo".

Trata-se, no mais, de uma grande ingenuidade imaginar que a gravidade das penas possam
oferecer resultados positivos na luta contra o crime. Na maior parte das vezes, os que cometem
assassinatos , por exemplo, não o fazem a partir de um cálculo sobre suas prováveis
consequências penais. Casos de arrebatamento, brigas, momentos de pânico, reações de
delinquentes que são flagrados roubando, etc. respondem pela grande maioria dos homicídios.
Muitos dos que matam em circunstâncias assim padecem de forte instabilidade emocional,
alguns são doentes mentais. Há, ainda, os que respondem violentamente sob o estímulo do
álcool ou de drogas ilícitas. Em nenhum desses casos, a introdução da pena de morte ou de
uma legislação penal severa produziria algum efeito dissuasório. Estudo levado a efeito no
Japão, entre 1955 e 1957, com 145 presos condenados por assassinato, não identificou um só
caso onde o condenado tenha pensado, antes de cometer o delito, que poderia ser condenado
à morte. (7) Após 35 anos no serviço médico de prisões britânicas, Roper afirmou que: a
dissuasão não é de maneira alguma algo tão simples como alguns crêem (...) Os assassinos,
em grande maioria, estão tão tensos no momento do crime são insensíveis às consequências
que sua ação pode lhes acarretar; outros conseguem convencer-se de que poderão se livrar
delas. (8) Todos os dados disponíveis mundialmente, grande parte deles sistematizados pela
ONU, evidenciam a absoluta ausência de qualquer relação significativa entre
introdução/abolição da pena de morte e redução/aumento dos indicadores de violência e
criminalidade; de tal forma que, na literatura especializada, esta já deixou de ser há muitos
anos uma questão que mereça algum debate. Não por outro motivo, até o ano passado, 69
países haviam abolido a pena de morte para todo e qualquer tipo de delito; 14 países
mantinham a pena capital para situações excepcionais como caso de guerra; outras 23 nações
podiam ser consideradas abolicionistas na prática posto que, mesmo diante da providência
legal, não realizavam execuções. Por conseguinte, cerca de 105 países -mais da metade de
todos os países do mundo - já aboliram a pena de morte ou não a praticam efetivamente. Não
obstante, cerca de 90 países a mantém e a aplicam. (9)

A cifra da injustiça:

A essa altura, importa assinalar que o Direito Penal constrói uma maneira definida e objetiva
pela qual são elencadas as condutas consideradas indesejáveis, pela qual pode-se comprovar
tanto quanto possível sua autoria e reprimir a conduta tida como desviante. Como técnica
punitiva, o Direito Penal estabelece, assim, proibições a serem observadas indistintamente,
circunscrevendo, portanto, a liberdade de todos na própria definição das ações tipificadas; em
segundo lugar, determina a submissão coativa a juízo penal de todo aquele considerado
suspeito de uma violação e, finalmente, oferece a perspectiva de punição dos considerados
culpados. Este processo possui, evidentemente um custo que deve ser justificado. Ferrajoli
sustenta que ao custo da justiça - que depende das opções penais do legislador - se
acrescenta um custo altíssimo de injustiça que depende do funcionamento concreto do sistema
de justiça penal: "Ao que os sociólogos denominam cifra negra da criminalidade - formada pelo
número de culpados que, submetidos ou não a juízo, terminam impunes e/ou ignorados - é
preciso acrescentar uma cifra não menos obscura, porém mais inquietante e intolerável,:
aquela formada pelo número de inocentes processados e, por vezes, condenados. Chamarei
cifra de ineficiência a primeira dessas cifras e cifra de injustiça a segunda, na qual se incluem:
a) os inocentes reconhecidos como tais em sentenças de absolvição após haverem sofrido
processo penal e, em ocasiões, prisão preventiva; b) os inocentes condenados por sentença
judicial e ulteriormente absolvidos por conta de um procedimento de revisão; c) as vítimas, cujo
número jamais se poderá calcular - verdadeira cifra negra da injustiça - dos erros judiciais não
reparados.." (6)

A pena capital significa, necessariamente, ampliar de modo imponderável essa cifra de


injustiça. Não apenas, como parece óbvio, pela possibilidade da condenação de inocentes - o
que em si mesmo já deveria pesar o suficiente para que a idéia fosse abandonada. (De fato,
em um Estado Democrático de Direito há que se pressupor, no sistema de justiça penal, a
vigência de procedimentos revisionais a qualquer tempo, bastando para isso a apresentação de
fato novo considerado relevante. A pena de morte introduz uma opção pela qual o próprio
direito penal se realiza de forma absoluta.) Refiro-me a outra dimensão do instituto da pena
capital que deveria ser considerado no todo inaceitável: seu caráter cruel e desumano. É
mesmo difícil compreender porque se considera a ação de se pendurar um ser humano no pau
de arara um ato de tortura e não se qualifica assim a decisão anunciada de enforcá-lo; por que
se tem como inaceitável aplicar descargas elétricas em um prisioneiro, enquanto se aceita
matá-lo com descargas 20 vezes mais potentes ou, ainda, por que se considera que apontar
uma arma para uma pessoa ou injetar-lhe substâncias químicas que prolonguem seus
sofrimentos são, evidentemente, métodos de tortura enquanto posicionar alguém frente a um
pelotão de fuzilamento ou aplicar-lhe uma injeção letal possa ser considerado meios de "fazer
justiça". Se da condenação judicial à pena de morte se passarem 16 minutos até a execução,
ou 16 anos, é possível se imaginar essa espera em termos distintos da oferta mais radical de
sofrimento psíquico? Não parece significativo que um processo dessa natureza seja, ainda,
tornado possível pelo Estado Moderno? Que valores, efetivamente, as comunidades
representadas por este Estado homicida pretendem afirmar? O que é possível construir, em
nome da humanidade, quando o Estado resolve executar uma sentença de morte além do
paradoxo segundo o qual é preciso matar um assassino, por exemplo, para demonstrar às
pessoas que matar um ser humano - quando se poderia escolher não fazê-lo - é uma conduta
inaceitável?

Breve conclusão:
Creio que a escolha pela imposição da morte a outro ser humano não possa mesmo ser
justificada moralmente. Uma resposta positiva à pergunta sobre se a pena de morte pode ser
justa - o que implicaria, em termos kantianos, em desconhecer a argumentação sobre sua
eventual utilidade - seria hoje formulada de maneira incontornavelmente contratualista. Afinal,
direitos e obrigações são apresentados, muitas vezes, como faces distintas de um mesmo e
único processo de sociabilidade. Assim, poder-se-ía tentar a argumentação de que os
responsáveis pelos crimes mais graves -como, por exemplo, aqueles que a estupidez
legiferante no Brasil denominou de "hediondos" - haveriam se auto- excluído do contrato social.
À margem da civilização, homicidas, estupradores, fascínoras, etc. teriam, então, se colocado
para além das garantias fundamentais. A execução de gente assim estaria como que
"autorizada" pela sua própria conduta selvagem.

Novamente, o que se procura desenvolver aqui é a proposição da pena como correlata à


ruptura diante da esperada reciprocidade de conduta moral dos contratantes em suas relações.
Ora, não é certo afirmar que em toda relação entre os seres humanos deva haver reciprocidade
moral, entendendo-se como tal o equilíbrio entre direitos e obrigações. Nas relações que os
adultos mantém com as crianças, por exemplo, eles devem honrar uma série de obrigações -
definidas contemporaneamente pela Convenção Internacional dos Direitos das Crianças. As
crianças, entretanto, não possuem quaisquer obrigações para com os adultos. As pessoas que
padecem de sofrimentos psíquicos podem, a depender do tipo de enfermidade que as aflige,
serem consideradas inimputáveis. Nenhuma dessas situações nos desobriga ao cuidado que
devemos ter diante desses seres humanos. Tomo esses exemplos para retomar a
argumentação de Tugendhat segundo a qual só pode haver reciprocidade moral "no núcleo da
comunidade moral". Na periferia, assinala ele, só há direitos e, em nenhum lugar, apenas
obrigações. Ora, quando falamos em "auto-exclusão do contrato social" estamos falando,
concretamente, dessa periferia formada por segmentos marginalizados socialmente. O discurso
filosófico, não obstante, permite que falemos de contrato social nos referindo a uma ficção que
toma forma na ideologia dominante a partir da projeção de uma sociedade formada por homens
adultos, trabalhadores assalariados ou , de qualquer forma, aptos para o trabalho que, por isso
mesmo, são responsáveis inteiramente pelas opções que realizam. Dessa maneira, se uma
parte deles resolve assaltar e, eventualmente, matar estaríamos autorizados a eliminá-los.
(com o devido processo legal, é claro, pois o que retemos da civilização não nos permite mais
sujar as mãos) Percebe-se, assim, como a noção contratualista permite o surgimento de uma
"moral dos fortes". Não desejo, com isso, negar que os seres humanos que praticam atos
delituosos sejam responsáveis. Os humanos, afinal, nunca são inteiramente privados da
possibilidade de escolha. Recusar essa conclusão é renunciar à própria idéia de liberdade. O
que desejo ressaltar é que, no âmbito da justiça penal, é necessário fixar o limite pelo qual nos
obrigamos a separar a pessoa do crime por ela praticado, reconhecendo-lhe os mesmos
direitos pelos quais nos descobrimos humanos. Os que defendem a pena de morte estão
impossibilitados de fazê-lo e, nesta impossibilidade, se desumanizam.

Notas:

(1) TUGENDHAT, Ernest. "Lições Sobre Ética". Petrópolis, RJ, Vozes, 1996, pág. 191.

(2) BOBBIO , Norberto. "A Era dos Direitos". Rio de Janeiro, Campus, 1992, pág. 181.

(3) "International Human Rights". In: Regan und D. Vande Veer (ed.), And Justice For All, Totowa (USA), 1982.

(4) FERRAJOLI, Luigi. "Derecho y Razón , Teoría del garantismo penal". Madrid, Editorial Trotta, 1977, pág. 245.

(5) FERRAJOLI, Luigi. Ob. Cit, pág. 259

(6) FERRAJOLI, Luigi. Ob. Cit. Pág. 210

(7) KOGI, Sadataka. "Etude criminologique et psycho-pathologique des condamnés


à mort ou aux travaux forcés
à perpetuité au Japon" Anuales Médico-Psychologiques, 117, 2, III.
(8) ROPER, W.F. "Murderes in Custody" In: The Hanging Question, Louis Blom-Cooper (ed.) , Duckworth,
Londres, p. 103.

(9) Anistia Internacional - "Error Capital", Madrid, EDAI, 1999, pág. 14.

O NEFASTO DOUTOR MORTE

Segundo notícia publicada pela Agência France Pres - AFP, os britânicos se


chocaram com a revelação de que o médico Harold Shipman, conhecido como "doutor morte”,
é suspeito de ter assassinado 297 pacientes em seus 24 anos de carreira. Em conseqüência
deste dado estatístico, o tornaria um dos maiores “serial killer” (matador em série) do mundo.

As vítimas do antonomástico “doutor morte” eram em sua maioria, mulheres com


mais de 75 anos, para as quais Shipman era um médico dedicado. Para matá-las, ele as
visitava quando sabia que estavam sozinhas em casa e lhes aplicava uma deletéria injeção e
heroína, e dizia, como artifício que as vítimas tiveram morte, diagnosticada como morte natural.

Psicólogos que examinaram Shipman disseram que o médico eliminava suas


desditosas vítimas num clímax de prazer, pois acreditava ser o senhor da vida e da morte, o
que se constitui uma heresia visto que somente Cristo é o caminho, a verdade e a vida. (João:
Cap. 14:6).

Segundo De Lucca, R., citado pelo professor Alvino Augusto de Sá, Diretor da
Clínica Psicológica da Universidade Presbiteriana de Mackenzie, não há um consenso quanto
aos critérios para classificar um homicida serial. Os “experts" do FBI teriam critérios mais
rígidos e um leque mais fechado, começando pela motivação, que deveria ser direta ou
indiretamente sexual, e pelo número de crimes, que deveria ser no mínimo três. Já o próprio De
Lucca entende um leque mais amplo em sua classificação (De Lucca, R., (1997, homicio
seriale e il modelo Sir, una proposta de classificazione psicologica", Rassegna italiana di
criminologia, anno VIII, n. 3/4, julho/out. 1997, p. 387/404), apud Alvino Augusto de Sá, in
"Homicidas serial, Revista de Direito Penal Prof. Lélio Braga Calhau.

Podemos registrar na história os seguintes “serial killers”: o paquistanês: em 2000,


o paquistanes Javed Iqbal confessou ter molestado e matado 100 meninos. Seus corpos
dissolvidos em ácido. En Loco: Em 1999, o colombiano Luís Alfredo Garavito confessou ter
violentado e matado 140 menores, ficou conhecido como "El Loco". Monstro dos Andes: Pedro
Lopez, colombiano chamado de "Monstros dos Andes", matou 300 meninas nos anos 70.
Canibal: O americano Henry Lucas assassinou 2000 pessoas no Texas entre 1975 e 1985.
Comeu os corpos de algumas vítimas. Carniceiro: O russo Andrei Tchikatilo, o “Carniceiro de
Rostov, devorou 53 mulheres e crianças (algumas vivas) entre 1978 e 1990. O Jack, o
Estripador: Dilacerou os corpos de cinco prostitutas a partir de 1888, em Londres e nunca foi
identificado. A História Universal ainda vai mostrar um “serial killer”, que na sua ação mortífera
utilizava-se o processo dos venenos, isto é mostrar na obra “Os Processos do Venenos - O
Julgamento de Landru" (Editora Otto Pierre, Editores Ltda., escrito sob direção de Claude
Bertin).

Segundo a Polícia de Nova Iorque, o médico Harold Shipman, conhecido como


“Doutor morte”, se diz inocente e recusa-se a colaborar com a Polícia. Especialistas afirmam
que ele é um narcisista, que gostava do poder que a profissão lhe dava sobre a vida e a morte
de seus pacientes, e conseguia esconder sua loucura dos outros. O psiquiatra Richard
Badcock, que entrevistou Shipman para determinar se ele tinha condições mentais de ser
julgado, afirmou que ele era obcecado pelo ato de induzir a morte, o que usaríamos o brocardo
latino “animus necandi” (a vontade de matar).

A psicóloga Susan Hope-Borland disse que estudar assassinos em série é


extremamente difícil devido ao fato de eles não serem muitos, apesar da quantidade de crimes
que cometem. Segundo ela, alguns acreditam que estão prestando serviço ao mundo, como,
por exemplo, matar prostitutas. Para outros, que nem sempre são diagnosticados como
doentes mentais, o motivo pode ser a excitação, geralmente sexual de matar.

O PRAZER DA MORTE

Recentemente, no Rio de Janeiro, um dos focos de maior criminalidade de nosso


País, o psicanalista Francisco Ramos de Farias, desviou alguns minutos de suas pesquisas
para mergulhar no Caldeirão do Diabo, antonomástico termo usado pelos presos do
Departamento do Sistema Penitenciário (DESIPE), no Rio de Janeiro, para definir o ambiente
em que vivem nas cadeias. Segundo a tese do professor Francisco Ramos de Farias, o crime
está dentro do ser humano e quem o comete não o faz por necessidade e sim pelo prazer que
ele proporciona (grifos nossos). A pesquisa psicanalítica ainda elucida que, se a pobreza
levasse ao crime e à prostituição, as lojas americanas estariam fechadas.

Entre os homicidas, categoria onde a pesquisa se aprofunda, percebem-se três


tipos distintos: o ocasional, que tem o potencial homicida, mas não a vontade de sempre
exercê-lo; o circunstancial, que mata movido por um sentimento; e o estrutural, aquele que
sente prazer naquilo que faz e precisa refletir seusclientes. O ator Guilherme de Pádua é
exemplo de homicida ocasional. A Dorinha Durval, que ficou famosa na década de 60,
participando como uma das amantes de Odorico Paraguassu, na novela “O Bem Amado”, do
imortal Dias Gomes, falecido recentemente, é matricida circunstancial, ela matou o marido
depois de uma grande depressão. O estrutural pode ser exemplificado por aqueles assassinos
dos morros que expõem os corpos das vítimas para provocar o terror.
Na tarde do dia 07 de julho de 1999, por exemplo, na sessão plenária do Terceiro
Tribunal do Júri, sob a presidência do honrado e culto Magistrado Celso Girão, o homicida
Francisco de Sousa Ferreira, sob o epíteto de Dudé, depois de ouvir a leitura do libelo crime
acusatório, atacando-o de gatuno inveterado, marginal convicto, e outros adjetivos
vernaculares da lavra do agente parqueteano Benjamim Pacheco Alves, levantou-se do banco
dos réus, e como um mefistofélico possesso, rasgou a camisa, e no corredor provocou um
escândalo, inclusive quebrando algumas vidraças de proteção da sagrada Justiça, mui bem
presidida pela pundonorosa Desembargadora Águeda Passos, pessoa pela qual o Ministério
Público tem o maior respeito.

Como se isto não bastasse, retornando à sala de audiência, algemado, passou a


vociferar dizendo, que quando tivesse em liberdade ia fumar muita maconha, e que não ficaria
quieto, enquanto não matasse um que se colocasse à sua frente, e cinicamente ficou dizendo
passagens do Salmo 23 da Bíblia Sagrada, numa prova inconteste que até o Satanás é crente,
isto é, conhece o Evangelho, crê em Jesus, todavia não obedece.

Diante de tudo isto, chego a me filiar à corrente de Thomas Hobbes, em seu


decantado livro Leviatã, o homem é mau por natureza e somente conhece o amor de Deus em
sua vida, transformar-se-á em nova criatura. Aliás, são sapientíssimas as palavras contidas no
Evangelho: “Quem está em Cristo, nova criatura é, as coisas velhas não existem mais, novo
homem se fez.”

O homem para ter uma tranqüilidade e ser feliz no habitat social, tem que nascer
de novo e pregar o amor a todos. (TRIBUNA DO CEARÁ, 16/07/1999.

SERIAL KILLER

Em último depoimento dado à imprensa paulista, o motoboy Francisco de Assis


Pereira confessou o assassinato de mais uma mulher, no caso uma menina de 15 anos,
conhecida apenas pelo apelido de “Pitucha”, colega do patinador. Em nosso artigo
“Personalidade Psicopática”, (Tribuna do Ceará, 20/08/1998), consideramos o maníaco do
parque, como um indivíduo de personalidade psicopática. Em laborioso artigo intitulado “Os
patins do psicopata”, escrito pelo talentoso médico psiquiatra Cleto Brasileiro Pontes, integrante
da Fundação Demócrito Rocha, extraímos o trecho: “sobre a anatomia patologica de um serial
killer, os especialistas apontam algumas características psicopáticas: inteligência acima do
normal (o crime se torna mais animalesco), é uma pessoa agradável e sedutora (Jornal “O
Povo”, edição do dia 16/08/1998).

Em entrevista que nos concedeu, na manhã de domingo 23/08/98, ao programa


Repórter do Senhor, Rádio Dragão do Mar, o iluminado professor e senador Cid Carvalho,
talento raro da cultura alencarina, declarou que não concorda com a assertiva de que o
motoboy Francisco de Assis Pereira seja “maluco”, em sua opinião de mestre, o referido
elemento possui pois, características lombrosianas, referindo-se à celebérrima teoria do
criminoso nato. A Rede Globo exibiu, no Globo Repórter, um especial sobre o tema Serial
Killer, considerando a série como inédita em matéria de jornalismo. Ocorre, porém, que muito
antes, isto é, em “Assassinos em Série”, Tribuna do Ceará, 17/08/95, abordamos sobre os
principais assassinos em série nos Estados Unidos.

Por exemplo, o famigerado John Wayne Grace, 52 anos, que foi executado em
18/maio/95, com uma injeção letal, em Joliet (Illinois), responsável pela morte de 33 jovens.
Enquanto no Brasil, o motoboy Francisco de Assis Pereira é chamado de maníaco do parque,
nos Estados Unidos, o homônimo do Jim das Selvas, recebeu a antonomásia de “Palhaço
Assassino”. Duas situações diversas, diante do mesmo quadro macabro. Louvado seja Deus!
(TRIBUNA DO CEARÁ, 27/08/1998).

PERSONALIDADE PSICOPÁTICA

É bom lembrar ao leitor menos avisado, ou néscio em matéria do comportamento


humano, que a expressão personalidade psicopática não apresenta nenhuma relação com o
diagnóstico da psicose. Este lembrete é oportuno, porque durante as transmissões dos
Programas “Cidade Alerta” e “Disque Record”, da Rede Record de Televisão, com o
sensacionalístico repórter e cantor Gilberto Barros, falou-se demasiadamente em psicose,
numa prova indubitável de que a produção do programa olvidou-se de princípios comezinhos
de Medicina Legal.

Já a advogada Maria E. Munhoz, que ficou famosa em nosso País em casos de


erros judiciários, como “caso bodega”, e o “escândalo da Escola Naval de Base” de São Paulo,
quando entrevistada pela revista Veja, disse que o comportamento do motoboy Francisco de
Assis Pereira, seu cliente, tratava-se de um caso de transtorno de personalidade. O que levaria
a um homem a eliminar nove mulheres? Para o estudioso Cleckley (the mask of Sanity), citado
por Almeida Júnior, em sua aureolada obra “Lições de Medicina Legal”, os traços da
personalidade psicopática são assim agrupados: a) atração superficial e boa aparência (papo
leve); b) ausência de delírios; c) inconstância; d) insinceridade; e) falta de vergonha ou
remorso; f) incapacidade de aprender; g) não tem perseverança em seus planos de vida. Para
o psiquiatra forense Guido Palomba, o “maníaco do Parque” está na fronteira entre a lavoura e
a sanidade mental, um delinqüente que age por “motivo sexual” (Estado de São Paulo –
08/08/98).
O filme “Disfarce para Matar ou Viver”, estrelando Elliot Gould, Paul Sorvino,
Corbin Bersen e tantos outros, apresenta a figura de um psicopata que ataca modelos que
pousam para revistas eróticas e trabalham em clube noturnos. Na caçada do psicopata os
policiais acabam colocando como isca uma ex-companheira de trabalho. Diante deste
metistofélico quadro do motoboy, só encontro uma resposta que Francisco de Assis Pereira
agira sob os impulsos de satanás, que somente sabia matar, roubar e destruir (João, cap. 10,
vs. 10). (TRIBUNA DO CEARÁ, 20/08/1998).

O SATÂNICO ANIMUS NECANDI

A Bíblia descreve Satanás como um anjo que caiu. Quando foi criado, recebeu a
unção de “Querumbim da Guarda”, mas pela sua desobediência ao Senhor, fora expulso do
Céu e daí, começou a praticar toda a sanha de maldade e terror. No livro de João, cap. 10,
versículo 10, nos traduz que: “O diabo somente veio para matar, roubar e destruir” (grifos
nossos), é muito comum, quando nos dirigimos a uma pessoa, e a invocamos a aceitar a Jesus
como seu único salvador, ouvir a seguinte frase: “Não é preciso, pois eu já sou crente. Pobres
criaturas, esquecem elas, que até o demônio acredita em Jesus de estremecerem” (Tiago,
2:19).

Uma coisa é certa: onde houver discórdia e violência, ali estará o capeta, como
diria o companheiro Cláudio Pinheiro. A imprensa mundial mostrou, no último dia 03/abril/98, a
execução da mulher Judy Benoano, que ficou conhecida pela nefasta antonomassia de “viúva
negra (black widow), por ter matado o marido, um filho paraplégico e tentado matar o noivo
com uma bomba. O marido ela matou com arsênico e o filho ela o enforcou. A viúva negra é a
primeira mulher executada no Estado da Flórida, desde 1949 e a terceira nos Estados Unidos
desde 1976. A trajetória da vida da conhecida black widow é qualquer coisa de espanto.
Benoano passou treze anos no corredor da morte, da prisão de Starke, enquanto várias
apelações eram apreciadas. Foi sentenciada à morte em 1985, por ter envenenado o marido,
um veterano do Vietnã, em 1971.

Também foi condenada à prisão perpétua pelo assassinato do filho paraplégico de


19 anos, em 1980 e por ter tentado assassinar o namorado em 1983 com uma bomba colocada
no carro do homem. A viúva negra descartou a oportunidade de fazer uma declaração final
antes de sua execução e durante o processo de preparação quando o condenado é colocado
na cadeira elétrica. Manteve os olhos fechados, disse Gene Morrison, com que estava a viúva
negra quando começou todos os seus horrendos crimes. Com o príncipe da maldade, Satanás,
o que é óbvio. (TRIBUNA DO CEARÁ, 09/04/1998).

ANIMUS NECANDI
Sigmundo Freud, o monstro sagrado da psicanálise, em sua celebérrima obra
“Civilização e seus Descontentes”, publicada em 1929, nos fala com proficiência lapidar, sobre
o assunto instinto de morte: “O homem tem um impulso inato para o mal, para a agressividade,
para a destruição e para a crueldade”. Como se vê, Freud antecipou-se às críticas de fundo
emotivo que poderiam ser levantadas contra a sua hipótese, em conseqüência da teoria do
Bom Selvagem de Jean Jacques Rousseau, em que se acreditava que o homem era bom por
natureza, e, em contato com o grupo assimilaria os seus feitos deletérios. No final da década
de 30, a teoria freudiana do instinto de destruição, foi muito discutida e criticada e,
hodiernamente é palco de inúmeros debates aqueles que se dedicam ao estudo do
comportamento humano. Na tarde do dia 4 último, depois de 18 anos de perseguição, o FBI
conseguiu alcançar um professor de Matemática que vivia isolado no Estado de Montana e era
conhecido por “Unabomber”, um sádico que enviava pacotes bombas e que causou 3 mortes e
23 feridos, nos Estados Unidos. Ted Kaczynski, de 53 anos, demonstrou ser um homem frio e
calculista, caracterizado pela meticulosidade e prudências extremas. Seu primeiro pacote
bomba explodiu em maio de 1978.

Tornou-se, pois, um perigo iminente à Nação americana, a ponto do Governo


oferecer uma bagatela de um milhão de dólares por sua captura. O FBI ativou um
supercomputador e arquivou milhares de informações, foram contratados experts em
explosivos para descobrir Unabomber. Em 1987, após a explocação em Salt Lake City (Utah),
os policiais conseguiram a primeira descrição do suspeito, ainda que imprecisa. No início deste
ano desvendou-se a incógnita dessa macabra equação, os policiais contando com a ajuda de
familiares, chegaram ao verdadeiro Unabomber. Indagar-se-ia: “O ódio é mais velho do que o
amor?”. Freud tinha razão? (TRIBUNA DO CEARÁ, 18/04/1996).

MATAR EM NOME DE DEUS

Existem pessoas que estão acostumadas a colocar em Deus, a resposta pelos


desígnios de sua sorte, chegam até a usar uma frase em forma de clichê: “Esta foi a vontade
de Deus”. Até que ponto tal assertiva é verdadeira? Recentemente, um crime bárbaro e
hediondo emocionou a toda comunidade religiosa, e o mais curioso, depois de eliminar, à
queima-roupa, o Ministro de Israel, Yitzahak Rabin, Ygal Amir, quando levado à presença do
Juiz, demonstrou uma seriedade impressionante e declarou, sem qualquer titubeio, ao
magistrado, que não estava arrependido do seu ato, visto que recebeu ordens de Deus para
executá-lo.

O principal jornal de Israel, em sua edição do dia 07/11/95, trazia a seguinte


manchete: “HAMAS: O POVO PALESTINO DEVE ALEGRAR-SE COM O ASSASSINATO DE
RABIN”. O movimento de Resistência Islâmica (HAMAS) estimou à imprensa de Israel, que o
povo palestino tem o direito de alegrar-se com o assassinato de Yitzhak Rabin, o Primeiro-
Ministro israelense e criticou a todos os que deploraram o homicida. Segundo Hamas, a
vontade de Deus se manifestou no ato de Ygal Amir. Segundo a reportagem de Tom Masland,
do jornal Newsweek, Jerusalém, 07/11/95, Ygal Amir, 27 anos, estudante de Direito, acusado
de assassinar o Ministro Rabin, foi um artífice nas mãos de Deus, e enfatizou: “A ameaça era
inequívoca, Rabin estava pondo em risco a vida de judeus, criando um Estado Terrorista e
tomando medidas rigorosas, motivo pelo qual não deve ficar surpreso se duras medidas foram
tomadas contra ele”.

A verdade é que a guerra de Israel recomeçou com a morte de Rabin. Vale


salientar que a morte de Rabin não é fato isolado em heresias. No início do ano passado, a
imprensa dos Estados Unidos notificou sobre o fanático David Koresh, que pediu a seus
discípulos que matassem em nome de Deus. Louvado seja o nome de Jesus! (TRIBUNA DO
CEARÁ, 23/11/1995).

ASSASSINOS EM SÉRIE

Meu nome é Rudel Douglas, sou estudante de psicologia em Juiz de Fora - MG,
e estou realizando uma pesquisa sobre essa questão
que tanto intriga especialistas e a sociedade em geral.

Segue abaixo uma síntese de meu projeto de pesquisa, que inclusive foi publicado
na seção artigo do dia, data: 12 de maio de 2004; nº 165; Ano I;
no Jornal Panorama (afiliada das organizações Globo) em Juiz de Fora - MG.
Caso necessite de algum esclarecimento, ajuda ou informação sobre assassinos
em série, por favor entre em contato comigo,
pois será um prazer poder ajudá-lo:

O assassino em série, o ato perverso e a estrutura subjetiva

Atualmente, uma certa categoria de criminosos vem sendo objeto de preocupação


de estudiosos, de vários campos do saber, no sentido de produzirem um entendimento
sobre a complexa questão referida ao ato que leva o homem a atravessar
limites que aos demais encontram-se vetados. Partindo desta questão,
teóricos buscam uma circunscrição, no âmbito do saber psicológico, de delimitar que
circunstâncias podem ser expostas para explicar e justificar o ato de matar em série.

Assassinos em série ocorrem em todo o mundo, independente de uma cultura específica.

No entanto, a violência é, sem dúvida, uma das características humanas, e o crime em


série é uma intrigante possibilidade, que causa-nos estranheza e perplexidade.
O que se percebe ao estudar casos de assassinatos em série é um impulso decorrente
de uma enorme vontade de destruição, dominação e controle, além de um emaranhado
de nossas características mais cruéis e sádicas, que são indicadoras de até que extremo
o homem pode chegar. O potencial de destruição e maldade é algo inato à natureza
humana e atos perversos são próprios da nossa organização.
A criança vem ao mundo com inclinações para o mal e que precisam ser domadas pela
cultura na qual o sujeito está inserido. Daí, a importância do indivíduo ter estabelecido,
em sua infância, uma relação segura, afetuosa, saudável e satisfatória com seus pais,
que são seus modelos.

Partindo daí, é importante saber que ninguém nasce na condição


de matador em série, e ninguém vira um matador em série da noite para o dia. Há uma
série de fatores e de fases antecedentes ao crime em série, e cada uma é desencadeada
por diferentes questões. A história de vida de cada sujeito deve ser considerada e
analisada,
pois só o aspecto subjetivo e a forma com que o sujeito lidou com os diferentes eventos
de sua vida é que podem nos indicar a posição desse indivíduo na sociedade, de forma
a perceber e pensar o crime como uma escolha que visa algum tipo de realização
particular.

Além disso, o assassinato, para o matador em série, tem um significado diferente dos
crimes
atribuídos à crescente violência urbana. Trata-se de um ato planejado, premeditado,
vivido
intensamente em suas fantasias e praticado compulsivamente, seguindo sempre um
padrão
semelhante, apontando para a subjetividade de quem os comete. Todos os aspectos no
crime, nas características da vítima e no comportamento do matador durante o crime
devem
fazer sentido, ter uma lógica para quem o pratica. Não é simplesmente matar por matar,
pois
tem um prazer especial envolvido. As vítimas de um assassino em série, na maioria dos
assassinatos, possuem o mesmo perfil, são escolhidas ao acaso ou por algum estereótipo
que
tenha significado simbólico para ele, geralmente representando alguém que o maltratou
ou rejeitou
na infância. Ainda sobre a vítima, de certa forma, não é vista enquanto sujeito, mas
enquanto
objeto que o assassino em série, em suas fantasias e em seus atos, irá dominar
sadicamente,
exercendo controle e manipulação de forma sádica. Esse assassino mata apenas em
certas
condições, desde que tudo siga suas fantasias. Dessa forma, ele passa a viver de acordo
com suas fantasias, que se tornam o centro de seu comportamento.
Porém, suas motivações para o crime são particulares, únicas, difíceis de serem
descobertas,
e que, geralmente, só farão sentido para ele mesmo, tendo o sentido de uma intenção
que
aponta para o ato de matar. Este assassino “assina” seus crimes como se estivesse
produzindo uma obra, deixando sempre uma marca inconfundível, única.
Mesmo tendo motivos obscuros e particulares, é espantoso quando percebemos que
muitos dos assassinos em série, antes de serem presos, levavam uma vida
aparentemente
normal, tendo uma família, um trabalho, e até mesmo uma vida social acima de
suspeitas.

Enfim, os Estados Unidos lideram as estatísticas e pesquisas em assassinatos em série.


Porém no
Brasil, ainda é uma categoria de assassinos pouco conhecida pela nossa sociedade, e
apesar de
vários casos confirmados temos poucos estudos no assunto, ou seja, o país necessita
também
de mais investimentos e pesquisas para essa assustadora, mas fascinante questão da
mente humana.

O objetivo da pesquisa:

Destina-se a estudar o assassinato em série na rubrica de um ato


perverso, mas que, acredita-se, a condição de matador em série pode ser encontrada
em qualquer uma das estruturas definidas no âmbito da psicopatologia. Sendo o ato de
matar aquele que promove a dessubjetivação de forma irreversível, encontra-se nele a
expressão de uma vontade que visa anular qualquer expressão subjetiva do semelhante.
De forma mais específica, pretende-se realizar um rastreamento nas produções
discursivas
de matadores em série, no sentido de efetuar a construção de apontamentos que sejam
indicativos de uma singularidade pensada em termos de uma dinâmica subjetiva.
Aventa-se ainda a intenção de observar se o assassinato em série está vinculado à
chamada violência urbana ou se é um apelo do sujeito.
Enfim, tem-se como finalidade estabelecer parâmetros no intuito de traçar os aspectos
diferenciais do matador em série em relação a três pontos específicos:

a) o saber sobre sua posição subjetiva em relação ao ato praticado.


b) o entendimento da “necessidade” do ato de matar.
c) a compreensão do que se passa com a vítima no
exato momento em que é dessubjetivada.