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Ano XI – N.º 42 Abril/Maio/Junho 2009 – Publicação trimestral – Preço € 4,48 (IVA incluído)
5 607727 077237

e da Reabilitação do Edificado
Revista da Conservação do Património Arquitectónico

Património
e ciência
Tema de Capa:
Património e Ciência

Ficha Técnica EDITORIAL 2 NOTAS HISTÓRICAS 27


Tratadismo e património
Reconhecida pelo Ministério
da Cultura como “publicação EM ANÁLISE 4 (Domingos Tavares)
de manifesto interesse cultural”, Património da ciência
ao abrigo da Lei do Mecenato.
O Museu da Ciência da DIVULGAÇÃO 29
N.º 42 - Abril/Maio/Junho 2009 Universidade de Coimbra
(Carlos Fiolhais) Valorização do mosteiro de
Santa Clara-a-Velha de Coimbra
Propriedade e edição:
GECoRPA – Grémio das Empresas de Conser- 6 Contemporaneidade e Passado...
vação e Restauro do Património Arquitectónico Território Antigo O Sítio devolvido à cidade e ao País
Rua Pedro Nunes, n.º 27, 1.º Esq. Da arqueologia da paisagem (Artur Côrte-Real)
1050 - 170 Lisboa à re-encenação virtual interactiva
Tel.: 213 542 336, Fax: 213 157 996
http://www.gecorpa.pt (José Eduardo Mateus, Paula Fernanda Queiroz) PERCURSOS 32
E-mail: info@gecorpa.pt
Nipc: 503 980 820 TECNOLOGIAS 10 Marcas das Ciências e das
Técnicas pelas ruas de Lisboa
Director: Vítor Cóias
Coordenação: Joana Gil Morão Técnicas nucleares e de luminescência (Ana Luísa Janeira)
Conselho redactorial: João Appleton, na reconstituição da história
João Mascarenhas Mateus, José Aguiar, da edificação de monumentos UMA FIGURA DO PASSADO 34
Miguel Brito Correia, Teresa de Campos Coelho As épocas de construção de um
Secretariado: Elsa Fonseca monumento gravadas na memória Bento de Jesus Caraça
Colaboram neste número: Ana Bailão,
dos minerais e da pedra Militante da cultura integral
Ana Calvo, Ana Luísa Janeira, Alexandre do indivíduo
Gonçalves, A. Jaime Martins, António Pereira (Maria Isabel Prudêncio, Maria Isabel Dias,
(Jorge Rezende)
Coutinho, Artur Côrte-Real, Carlos Fiolhais, Christopher Burbidge, Maria José Trindade)
Carlos Vitorino, Christopher Burbidge, Cristina
Aibéo, Domingos Tavares, Fátima de Llera,
METODOLOGIAS 13 PERFIL DE EMPRESA 37
Frederico Henriques, José Eduardo Mateus,
Jorge Rezende, Mafalda Alegre, Maria Isabel
Dias, Maria Isabel Prudêncio, Maria José
A lacuna pictórica AS LEIS DO PATRIMÓNIO 38
Trindade, Mário Lopes, Nuno Leal, Nuno
Metodologias de interpretação e análise
Teotónio Pereira, Paula Fernanda Queiroz, (Frederico Henriques, Alexandre Gonçalves, O Ajuste Directo na
Regis de Souza Barbosa, Rita Bento, Vítor Cóias, Ana Bailão, Ana Calvo) modernização do parque escolar
Zenaide C. G. Silva Só obra nova ou também reabilitação?
Design gráfico e produção:
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O propósito e a escolha da pedra
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vação e Restauro do Património Arquitectónico
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A degradação do branco de chumbo LIVRARIA 47
Registo no ERC: 122549 (Cristina Aibéo)
ISSN: 1645-4863
Tiragem: 2500 exemplares PROJECTOS & ESTALEIROS 25
ASSOCIADOS GECoRPA 49
Periodicidade: Trimestral
Os textos assinados são da exclusiva responsabili-
Igreja de Santa Maria da PERSPECTIVAS 52
dade dos seus autores, pelo que as opiniões expres-
Vitória - Mosteiro da Batalha Reabilitação do património
sas podem não coincidir com as do GECoRPA. Implementação de um sistema Duas Inglesas muito cultas que
piloto de protecção isotérmica nos fazem reviver o passado
(Fátima de Llera, Mafalda Alegre, Carlos Vitorino) (Nuno Teotónio Pereira)

Capa
Discos para colocação de grãos individuais de
quartzo e montagem no porta-amostras do leitor
Revista da Conservação do Património Arquitectónico
e da Reabilitação do Edificado

de luminescência.
Ano XI – N.º 42 Abril/Maio/Junho 2009 – Publicação trimestral – Preço € 4,48 (IVA incluído)

Fotografia: Grupo de Geoquímica Aplicada


Património
e ciência
& Luminescência no Património Cultural
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(GeoLuC), ITN
5

Pedra & Cal n.º


Pedra 37 Janeiro
& Cal . Fevereiro
n.º 42 Abril . Maio. .Março
Junho 2008
2009 1
EDITORIAL

Património e Ciência
O presente número da Pedra & Cal propõe-se corresponder superfície (literalmente) os traços deixados pela evolução de
ao apelo lançado pelo ICOMOS e secundado, em Portugal, um e outro, em camadas sucessivas de lamas, lodos e turfas.
pelo IGESPAR, a propósito do Dia Internacional dos O conhecimento assim obtido serve ainda, ele próprio, de
Monumentos e Sítios, dedicado, este ano, ao tema geral em suporte para outras tarefas em que outras disciplinas da
título. A selecção deste tema visava, segundo o ICOMOS, Ciência são chamadas a intervir na salvaguarda e conser-
proporcionar uma reflexão sobre as múltiplas facetas da vação do património: o levantamento, o diagnóstico, a tera-
relação entre a ciência e o património e, bem assim, sobre as pêutica, a intervenção, a monitorização…
oportunidades e ameaças que a primeira encerra no tocante Mas a Ciência surge, ainda, quando ao serviço da ganância e
à salvaguarda e à conservação do segundo. cupidez, como “arma de destruição maciça”, quer do patri-
Ora, a Ciência, produto essencial da natureza humana, mónio cultural – as comunidades tradicionais e a diversida-
constitui, ela própria, um património vivo, dinâmico, em de cultural – quer do património natural – os ecossistemas
permanente construção, que cada geração aprofunda e terrestres e a diversidade biológica. E não fica, infelizmente,
acrescenta… herança intangível, mas carregada de conse- por aqui, o lado oculto e sombrio da Ciência ou da sua ema-
quências para todas as espécies que povoam a biosfera e nação directa, a Técnica: elas constituem-se, também, como
para os ecossistemas de cujo equilíbrio depende a vida sobre geradoras de “património negativo”, quando subordinadas
o Planeta. ao desenvolvimento insustentável, criando uma “pesada
A Ciência surge, também, como geradora de património tan- herança” cujo ónus recai sobre as próximas gerações: os
gível, através das suas construções, objectos, instrumentos e “elefantes brancos” e as construções de difícil e onerosa
documentos, em particular os utilizados na investigação, no exploração que os vindouros vão ter de rentabilizar e rea-
ensino e na divulgação. São exemplos da salvaguarda deste bilitar, as lixeiras (incluindo as de resíduos radioactivos),
património intervenções recentes, como a do Laboratorio brownfields, rios e minas que eles vão ter de limpar e revita-
Chimico da Faculdade de Ciências da Universidade de lizar, os guetos, subúrbios e regiões deprimidas que vão ter
Lisboa, distinguido com uma menção honrosa na reedição, de reinserir e reordenar.
em 2008, do Prémio GECoRPA, ou a do Museu da Ciência, Compete à presente geração, sem dúvida, salvaguardar e
descrito no artigo de Carlos Fiolhais (p. 4), por coincidência transmitir aos vindouros o património cultural que recebe-
instalado no edifício de outro Laboratorio Chimico, mais anti- mos das gerações passadas. Mas compete-nos também não
go, o da Universidade de Coimbra. acrescentar a “pesada herança” que delas recebemos. Tal
As várias disciplinas da Ciência constituem, por outro lado, só é possível com estilos de vida e padrões de desenvolvi-
instrumentos para o conhecimento do património, como mento compatíveis com o conceito de sustentabilidade, ou
é ilustrado, neste número, por trabalhos como o de Maria seja, em respeito pela economia de recursos, pelo equilíbrio
Isabel Prudêncio, Maria Isabel Dias, Christopher Burbidge ecológico e pelos valores culturais e espirituais locais.
e Maria José Trindade (p. 10), sobre métodos avançados
para conhecer a “história” da construção inscrita nos seus Vítor Cóias
materiais, ou o de José Eduardo Mateus e Paula Fernanda
Queiroz (p. 6), este último pondo, até, em evidência a dua-
lidade património natural / património cultural, ao trazer à

Nota
A Direcção da Pedra & Cal decidiu extinguir a secção “Quadro de Honra”, designação que se vinha revelando desajustada. Esta secção será, num próximo número,
substituída por uma outra, onde se irão destacar, com informações mais completas, as empresas associadas que, entretanto, assumirem um compromisso de apoio
continuado ao GECoRPA e à sua revista.

2 Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009


EM ANÁLISE
Tema de Capa

Património da ciência
O Museu da Ciência da Universidade de Coimbra
A ciência é indissociável do património, uma vez que fornece os conhecimentos e os meios, cada vez
mais sofisticados, para assegurar a conservação patrimonial. Mas, por outro lado, a ciência é ela pró-
pria fonte de património material, na medida em que é resultado de um processo histórico progres-
sivo, que deixou evidentes marcas físicas (edifícios, objectos, documentos) que importa preservar.

que foi um dos primeiros em todo


o mundo construído propositada-
mente para o ensino experimental
da Química e que a equipa do arqui-
tecto João Mendes Ribeiro restau-
rou de modo exemplar preservan-
do o “espírito do lugar”, permitiu
não só abrir ao público um novo e
dinâmico pólo de cultura científica,
como também preparar conteúdos e
conhecimentos para a segunda fase
do desenvolvimento do Museu da
Ciência da UC, que consistirá numa
intervenção de maior envergadu-
ra no edifício do Colégio de Jesus,
mesmo ao lado do Chimico.
Esta segunda fase do Museu da
Ciência, cujo projecto tem actual-
mente um concurso a decorrer, exi-
girá um processo de requalificação
arquitectónica de maior dimensão,
1 - Edifício do Laboratório Chimico, actual sede do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra. num edifício que foi um dos mais
O edifício, projecto original do engenheiro inglês William Elsden, que aproveitou o espaço de um antigo
antigos colégios da Companhia de
refeitório jesuíta, foi restaurado pelo arquitecto João Mendes Ribeiro e colaboradores.
Jesus em todo o mundo, já que
Em Portugal, as questões da his- requalificação arquitectónica, que foi fundado em 1547, ao tempo do
tória da ciência, ligadas de perto à visou transformar um espaço de rei D. João III (fig. 2). Esse espaço
preservação do património material ciência do século XVIII num moder- será recuperado para usufruto do
da ciência, têm vindo a ganhar cada no espaço expositivo (a exposição público, um processo que inclui-
vez mais interessados e estudio- permanente “Segredos da Luz e da rá a musealização de um vasto e
sos. É a este propósito significativo Matéria” integra objectos históricos rico conjunto patrimonial em várias
que algumas grandes iniciativas de das colecções da UC e modernos áreas da ciência (astronomia, física,
recuperação de património científico módulos interactivos, construídos química, geologia, biologia, antro-
tenham tido lugar recentemente e que com vista à apropriação, pelo públi- pologia, medicina, farmácia, etc.).
outras estejam em preparação para co, de certas ideias científicas; ver Tal esforço de recuperação patri-
vir a ocorrer no futuro próximo. Um www.museudaciencia.pt). A cha- monial relaciona-se de perto com a
bom exemplo é a primeira fase do mada “prefiguração” do Museu da preparação da candidatura da UC
Museu da Ciência da Universidade Ciência no Laboratório Chimico (fig. 1), a Património Mundial da UNESCO.
de Coimbra (UC), inaugurado em num edifício construído na época da O Museu da Ciência, que é geri-
2006, ao fim de um longo processo de Reforma Pombalina da UC (1772), do por uma fundação que reúne a

4 Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009


EM ANÁLISE
Tema de Capa

2 - Gravura do início do século XVIII, que mostra o edifício do Colégio de Jesus 3 - Fotografia antiga do edifício do Observatório Astronómico da Universidade
com a Sé Nova. Trata-se de um dos mais antigos colégios jesuítas do mundo e de Coimbra, em frente à Biblioteca Joanina, que foi demolido no tempo de
vai ser a sede do Museu de Ciência de Coimbra na segunda fase. Em segundo Salazar.
plano, à direita, é o espaço onde foi construído o Laboratório Chimico.

UC com a Câmara Municipal de inserida a Sé Nova (igreja matriz Coimbra e que, no final do século
Coimbra, foi distinguido pelo Fórum de Coimbra, propriedade da dio- XVIII, passou a ocupar um novo
Europeu dos Museus com o prémio cese), foi profundamente adapta- edifício no pátio da Universidade, já
para o melhor museu de ciência e do pelo Marquês para se tornar não resta nenhuma pedra (fig. 3). O
tecnologia no ano de 2008 (Prémio num edifício universitário moderno Estado Novo, a meio do século XX,
Micheletti), em reconhecimento da para a época, com a instalação do arrasou-o, num acto alegadamente
excelência do trabalho realizado. Gabinete de Física Experimental e praticado para “limpar as vistas para
Os dois antigos colégios jesuítas da do Gabinete de História Natural, no o Mondego” mas que muitos vêem
UC (Colégio de Jesus e Colégio das quadro da Faculdade de Filosofia como um exemplo de destruição do
Artes), juntamente com o Colégio então criada, e ainda do Hospital património.
de S. Antão em Lisboa, foram, nos e do Dispensário Farmacêutico, no Neste século, recuperar e preservar
séculos XVI e XVII, sítios de passa- quadro da Faculdade de Medicina. o património da ciência deve ser
gem de cientistas de diversos países Essa reforma, que pretendeu rom- visto, acima de tudo, como um acto
europeus, que pretendiam estudar per com o ensino neo-escolástico e de cultura. As marcas materiais da
ou ensinar antes de se dirigirem para estabelecer o ensino experimental, ciência, como os sítios onde se fez
o Oriente ou para outras regiões criou também, além dos referidos e ensinou ciência, são testemunhos
distantes (por exemplo, o austríaco gabinetes e do Laboratório Chimico, essenciais de cultura. E, por sua
Grienberger e os italianos Lembo e o Jardim Botânico e o Observatório vez, os métodos e resultados da
Borri, que muito contribuíram para Astronómico. Os valiosos instru- ciência, alcançados e transmitidos
a divulgação das descobertas fei- mentos e objectos de astronomia, nesses sítios, constituem um extra-
tas por Galileu, em 1609, quando física, química, história natural e ordinário património imaterial que
observou pela primeira vez o céu medicina do século XVIII documen- é um componente imprescindível da
com um telescópio). Apesar de os tam bem o modo como foi perse- nossa cultura.
jesuítas terem durante muito tempo guido o ideal iluminista da busca
sido difusores da cultura científi- do conhecimento científico. Por seu
ca, o seu ensino veio a degradar- lado, o Jardim Botânico ainda hoje CARLOS FIOLHAIS,
-se, acabando por ser interrompi- se conserva, sendo um dos tesou- Departamento de Física da Universidade
do em 1759, quando a Companhia ros da universidade e da cidade. de Coimbra e Biblioteca Geral da
de Jesus foi expulsa do país pelo Infelizmente, do velho Observatório Universidade de Coimbra
Marquês de Pombal. O amplo edifí- Astronómico, que começou por ser tcarlos@teor.fis.uc.pt
cio do Colégio de Jesus, no qual está construído nas ruínas do castelo de

Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009 5


EM ANÁLISE
Tema de Capa

Território Antigo
Da arqueologia da paisagem à re-encenação
virtual interactiva
O programa Território Antigo, protagonizado pelos autores, nasce do encontro da Ecologia da
Paisagem, da Arqueologia e da Computação Gráfica num percurso sui-generis por “terras” do
Ministério da Cultura, do Museu de História Natural e das empresas para o Património. A evolu-
ção, ao longo dos seus 28 anos traçada a modos de curto balanço, poderá interessar aos patrimo-
nialistas enquanto imagem expressiva da procura de um alicerce técnico e metodológico cada vez
mais comprometido com uma restituição holística do Património.

No início, foi o fascínio pelas Arqueo- e destrutivos que constrói a evi-


ciências de acordo com o modelo dência material dos vestígios, numa
francês: o rosário de arqueo-discipli- trama heterogénea de referências
nas importadas da História Natural espacio-temporais, os “paleo-sítios”
que se procurava evocar fundamen- preservam, em geral, matrizes de
talmente nos bastidores da esca- acumulação contínua associados a
vação de sítios pré-históricos. O processos recorrentes de dispersão
vestígio geológico, botânico, zoológico e sedimentação dos vestígios dos
como indicador do ambiente (eco- vários componentes do ecossistema.
lógico / económico) do passado dos Ambos decorrem, maioritariamen-
homens implicou o início da mon- te, dos ciclos sazonais, quer dos
tagem de colecções de referência de regimes geofísicos, quer dos de pro-
grãos de pólen, sementes, madei- dução biológica, envolvendo meca-
ras, conchas, ossos, rochas e mine- nismos sistematicamente regulares,
rais e o início da sua investigação não casuísticos. Estamos a falar dos
enquanto “eco-factos”, ampliando depósitos das lagoas, dos pântanos
os conjuntos de objectos de interesse fluviais, dos depósitos de vertentes,
da Arqueologia, populados com os dos solos húmicos, das depressões
seus tradicionais “artefactos”. cársicas… enfim, de tudo o que é
Os artefactos expressam os gestos “depressão”, “bacia” favorável pela
domésticos de afeiçoamento e con- Sondagem da Lagoa do Saloio (Nazaré) e amostra- gravidade e contenção à acumulação
sumo local, mas os “eco-factos” fala- gem contínua do seu preenchimento de lodos por de materiais e que se opõe à lógica e
vam frequentemente de um espaço amostrador de pistão de tipo Livingstone. devir dos cabeços, cumeadas, inter-
extra-sítio cuja compreensão foge flúvios de uma paisagem inexora-
em regra à lógica estrita do monu- velmente erosionável pelas intem-
mento, do habitat. Contextualizar péries1. A revelação destes novos
de fora para dentro pareceu ser a contextos da memória da paisagem
boa opção! implicou, entre nós, um esforço de
As noções de ecossistema e de pai- prospecção da faixa litoral com suas
sagem acabaram por se impor e o terras húmidas e grandes bacias flu-
programa foi beber às Ciências do viais e ainda do topo das montanhas
Quaternário e sobretudo à Paleo- – duas geografias algo polarizadas,
botânica, desta vez dando atenção favoráveis à presença destes “arqui-
às escolas norte-europeias. A pai- vos”2, 3.
sagem e seus arquivos naturais da Nestes contextos, o estudo dos grãos
memória ecológica passaram a cons- de pólen, esporos, sementes e madei-
tituir focos e temáticas de pesquisa. ras é realizado em séries contínuas
Aspectos da sub-amostragem e tratamento em
Ao contrário dos “arqueo-sítios”, laboratório de sedimentos orgânicos, e seu estudo de amostras de lama, lodo e turfa –
onde é a casuística enviesada dos palinológico através da microscopia óptica de sedimentos que preservam de forma
gestos antropogénicos construtivos transmissão. excelente a matéria orgânica. Surge,

6 Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009


EM ANÁLISE
Tema de Capa

desta feita, a diacronia, o filme: não


se trata mais de evocar um sim-
ples “pano de fundo” de referências
ambientais para os nossos sítios e
monumentos mas aceder à mudança
(secular, decadal, anual) do mosaico
da vegetação das regiões através
dos padrões dinâmicos patenteados
pelos registos fósseis preservados.
Note-se que estamos, sobretudo, a
falar de aceder no tempo a uma
espécie de “aura” de cada planta,
materializada pela emissão anual de
milhões a biliões de grãos de pólen,
por centenas a milhares de semen-
tes e folhas que o vento e a água
transportam para todo o lado, mas,
sobretudo, para o seio das bacias de
Crono-diagrama polínico da Lagoa Travessa (Carvalhal - Grândola), na sua forma simplificada. Em abcis-
captação1, 4.
sas, valores de percentagem relativa de cada tipo ou grupo polínico cumulativo face ao total de grãos de
Nesta frente de trabalho, o progra- pólen de origem regional. Em ordenadas, a cronologia interpolada de cada amostra através de série de datas
ma desvenda a trama da evolução convencionais de radiocarbono.
geral das nossas paisagens natu-
rais e culturais tocando para além baixas aluviais urbanizadas onde a domésticos permite conhecer com
do impacte humano ainda aspectos drenagem é “irresponsavelmente” detalhe os padrões de consumo dos
como a mudança do clima e da evo- bloqueada pela construção e pelo habitantes. O envolvimento da equi-
lução da linha de costa2, 3. Estamos, aterramento. Nos últimos anos, o pa de uma forma mais íntima com os
no entanto, por vezes longe dos programa Território Antigo explo- monumentos constituiu uma opor-
centros urbanos e dos monumen- rou estes novos contextos, sobretu- tunidade de se explorarem contex-
tos de Pedra e Cal… Há que subir do medievais e modernos em várias tos inéditos de informação orgâni-
ou descer o curso dos rios e che- cidades como Lisboa, Coimbra, ca. No caso de Santa-Clara-a-Velha
gar junto dos povoados! E, neste Santarém, Torres Vedras5… (Coimbra), paralelamente ao estudo
esforço, surge-nos uma surpresa: A imensa quantidade de grãos de arqueobotânico das lixeiras e lodos,
descobrimos que séries de lodos e pólen e de sementes preservados na de idade essencialmente já seiscen-
lamas impressionadas pelas “auras” série acumulada de lodos no fundo tista, a investigação debruça-se agora
polínicas e carpológicas estão omni- dos poços, por exemplo, permite com sucesso sobre o conteúdo em
presentes no que designamos por traçar a evolução anual / decadal pólen da estrutura estratificada das
espaço eco-territorial doméstico e do espaço urbano e suburbano em concreções calcárias (estalagmíticas)
adjacente4. Desta vez, é o próprio termos de vegetação (hortas, quin- depositadas anualmente ao longo das
homem a propiciar esta acumula- tais, jardins, vegetação semi-natural goteiras das paredes do claustro góti-
ção pelo afeiçoamento no espaço dos baldios, beira dos caminhos, co – uma oportunidade única para
urbano, sub-urbano e das hortas entulheiras, beirais dos telhados um olhar sobre os jardins dos primei-
de “estruturas negativas” como e afloramentos rochosos) e lançar ros três séculos de ocupação6-8.
sejam as albufeiras, cisternas, poços, nova luz sobre a sua estrutura e dis- A proliferação inesperada de uma
aquedutos, silos, valados e fossas, e tribuição espacial. Por outro lado, o vasta diversidade de contextos de
ainda novos contextos húmidos nas acesso a fossas associadas a dejectos informação orgânica nos complexos

A paisagem da região do Carvalhal em três momentos de evolução, respectivamente há 7500, 6300 e 2000 anos.

Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009 7


EM ANÁLISE
Tema de Capa

paleo-ecológico” que decorrem tendo


o Ecossistema Actual como foco. O
referencial da paisagem portuguesa
de hoje é apropriado, não só pelo
princípio actualista mas, sobretudo,
pelo facto de incluir estruturas eco-
lógicas e programas de eco-trans-
formação humana de longo termo,
ainda funcionais, num processo
de heranças colectivas emanadas
de muitos e diversos tempos. Este
esforço de espacialização concreta
de dados imagéticos do passado
recorre quando possível a fontes
documentais históricas, sobretudo
iconográficas e cartográficas5.
Diagrama carpológico (frutos e sementes) de um silo islâmico em Santarém (intervenção arqueológica de No final com o que ficamos? O rela-
Maria Ramalho e Carla Lopes). tório técnico e o “paper científico”
monumentais e urbanos antigos apropriação imagética do passado (este padecendo do paradigmático
permite visões, não só sobre a sua em “séries cinemáticas” tem sido “problem-solving”) são claramen-
estrutura ecológica humanizada, por nós divulgada como um artifício te insuficientes… Que ambiciona-
mas, ainda, sobre os aspectos da didáctico, mas é de facto quase lite- mos? – Uma “cenografia museográ-
vida quotidiana e dos seus ciclos de ral. Para que se realize é necessário, fica” de natureza transdisciplinar
recolecção – produção – transformação – no entanto, um esforço de concreti- e suporte digital e que, pela sua
consumo – reciclagem – rejeição. zação e objectivação permitido pela multiplicidade de escalas e temáti-
Trabalhar com milhares de partícu- Computação. cas, ganharia com uma plataforma
las provenientes de “auras” ou inte- Neste sentido, a evidência paleo- de acesso de natureza interactiva
grando milhares de gestos de pro- botânica é explorada pela análise e multi-exploratória. O Programa
dução é algo diametralmente dife- numérica e integrada como entidade Território Antigo recorre mais uma
rente do enfoque sobre “a Peça de cartográfica num SIG. Neste pro- vez à Computação, desta vez às tec-
Arte Antiga / Artefacto”. A analo- cesso têm papel central os estudos nologias dos videojogos, abraçando
gia com a “arqueo-fotografia” e a de calibração experimental do “sinal a nova causa dos jogos sérios (“Serious
games”)9. O que se pretende é tirar
partido da aceleradíssima evolução
do hardware de restituição virtual
em 3D (sobretudo placas gráficas)
e dos seus ambientes de programa-
ção; reconverte-se o próprio concei-
to de jogo, que neste contexto ganha
os contornos de exploração de uni-
versos territoriais simulados a partir
de uma matriz de dados científi-
cos10. Estes, transmutados em enti-
dades de jogo, serão assim capazes
de responder de forma expressiva e
integrada ao estímulo do explorador-
-jogador e às circunstâncias da joga-
bilidade, ela própria emanando do
realismo histórico-científico. Vamos
jogar o nosso Território Antigo, o
nosso Património! Estes merecem
Diagrama de restos de carvão de madeira - em cada uma das curvas de frequência indica-se em abcissa
o peso (g) de carvão do tipo xilomórfico indicado presente em 100g de sedimento (x10), e em ordenada ter lugar no ciber-espaço que cresce
a profundidade da amostra correspondente. inexoravelmente.
Diagrama antracológico (carvões de madeiras) de uma das lixeiras seiscentistas de Santa-Clara-a-Velha em
Coimbra (coordenação arqueológica de Artur Côrte-Real).

8 Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009


EM ANÁLISE
Tema de Capa

Ficha de ocorrência de uma das cerca de duzentas espécies vegetais registada nos Análise polínica das “estalagmites” do claustro gótico. De notar a estratificação
contextos arqueobotânicos do mosteiro de Santa-Clara-a-Velha. de carácter anual das concreções.

Santa Clara-a-Velha. O Quotidiano para além


da Ruína. As Plantas do Mosteiro. Trabalhos
do CIPA. Lisboa: CIPA – IPA. 108 (www.terra-
scenica.pt/artigos.htm).
8
QUEIROZ, P. F; MATEUS, J. E.; RUAS, J. P.
(2007) – Santa Clara-a-Velha. O Quotidiano
para além da Ruína. Frutos e Sementes reco-
lhidos nos trabalhos de escavação arqueoló-
gica (1996-2001). Trabalhos do CIPA. Lisboa:
CIPA – IPA. 111.
9
MATEUS, J. E.; QUEIROZ, P. F. (2008) –
Serious-Games for Cultural Heritage: A theoretic-
practical multidisciplinary approach – 1. Ancient
territory spatial data acquisition and heritage
game resources, 2. Virtual architecture and mobile
heritage, 3. Organic protagonists of ancient terri-
tories, 4. Paradigms in videogames and territory
(heritage) sciences. Workshop “Serious Games
in Cultural Heritage”, VAST2008, Braga, 2
Dezembro 2008 (www.terra-scenica.pt/pro-
ducaocultural/jogos-serios/jogosserios.htm).
10
MATEUS, J. E. (2008) – Jogos Criativos pela
Restituição virtual 3D do sector da Adega do Marquês de Pombal (Oeiras). Ciência, Património e Arte no âmbito da Encena-
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Paleoecologia e Arqueobotânica. 4. O Labo- 7
QUEIROZ, P. F; MATEUS, J. E. (2007) –

Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009 9


TECNOLOGIAS
Tema de Capa

Técnicas nucleares e de
luminescência na reconstituição
da história da edificação
de monumentos
As épocas de construção de um monumento gravadas
na memória dos minerais e da pedra
A aplicação de técnicas nucleares e de luminescência a materiais de construção permite a carac-
terização composicional detalhada e a datação de fases de construção, restauros e eventos como
incêndios e cheias. Contribui-se, assim, para uma reconstituição precisa da história da edificação
do património histórico e arquitectónico.

A B C
1 - Reactor Português de Investigação (A, B) e Laboratório de Espectrometria Gama (C) do ITN.

Métodos nucleares de análise e de pedra, bem como os mecanismos da outros métodos, sobretudo no que
técnicas de luminescência estimu- sua degradação em monumentos3-5. respeita à determinação dos teo-
lada têm vindo a ser aplicadas Para além disso, realizam-se data- res de elementos traço com elevada
ao património cultural português ções absolutas por luminescência de precisão e exactidão, e à quanti-
pelo Grupo “Geoquímica Aplicada contextos e materiais de monumen- dade reduzida de amostra neces-
& Luminescência no Património tos pré-históricos e históricos6-9. sária para análise, o que é parti-
Cultural” (GeoLuC), do Instituto O método nuclear de análise por cularmente importante quando se
Tecnológico e Nuclear (ITN)1, 2. No activação neutrónica (AAN) é de estuda o património. O método
que se refere ao património histórico grande sensibilidade, permitindo a baseia-se na produção e medição da
e arquitectónico nacional, têm sido determinação simultânea dos teo- radioactividade induzida em amos-
realizados estudos de caracterização res de numerosos elementos quími- tras mediante o seu bombardea-
química da pedra e de outros mate- cos constituintes dos materiais de mento com neutrões térmicos. As
riais de construção, com o objecti- construção. Além disso, apresenta amostras são irradiadas no reactor
vo de identificar a proveniência da grandes vantagens relativamente a português de investigação (RPI), e

10 Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009


TECNOLOGIAS
Tema de Capa

2 - Esquema dos processos que produzem os sinais de luminescência.

posteriormente as taxas de conta- caracterização mineralógica junta- exposição à luz, estimulando os sinais
gem de radionuclidos são medidas mente com a composição química acumulados – originando sinais de
por espectrometria gama (fig. 1). pode ajudar a identificar épocas de luminescência (fig. 3). A termolumi-
Com este método obtém-se uma construção/restauro. nescência (TL) produz o sinal apro-
caracterização química detalhada Estas abordagens podem ser com- priado para medir o tempo desde que
dos materiais, particularmente útil plementadas pela datação absolu- a amostra foi sujeita a aquecimento, ou
para a identificação das pedreiras ta, em particular por métodos de seja, o tempo que decorreu desde que
exploradas, bem como para a iden- luminescência estimulada. Os sinais os grãos minerais estiveram sujeitos
tificação dos mecanismos de degra- de luminescência estimulada para a uma temperatura elevada. É o caso
dação, passos fundamentais para datação são consequência da energia do fabrico de materiais cerâmicos
uma boa definição da estratégia de acumulada em cristais resultante da (azulejos, tijolos, etc.) e da ocorrên-
conservação do monumento. acção da radiação ionizante natural cia de incêndios. A luminescência
A composição mineralógica dos que ocorre no material envolvente estimulada opticamente (OSL) pro-
materiais de construção do patrimó- (fig. 2). Desta forma, a dose de radia- duz o sinal apropriado para medir o
nio edificado, em particular as fases ção do cristal vai acumulando com o tempo que decorreu desde a última
de alta temperatura que podem ser tempo, aumentando o sinal de lumi- exposição solar dos grãos minerais.
identificadas por difracção de raios nescência. Este método envolve a Por exemplo, pode-se datar a incor-
X (DRX), pode indicar a ocorrência medição da dose absorvida no cristal, poração de areia numa argamassa,
de incêndios. Para além disso, a que se faz através de aquecimento ou o enterramento das superfícies das

3 - História dosimétrica dum grão mineral sujeito à datação por luminescência.

Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009 11


TECNOLOGIAS
Tema de Capa

A C
4 - Equipamento do laboratório de Luminescência 5 - Porta-amostras do leitor de luminescência (A); Disco para grãos individuais (B); Pormenor do disco
do ITN. com grãos de quartzo (C).

pedras e a acumulação sucessiva REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS res. Apontamentos de Arqueologia e Património,


de sedimentos e paleosolos. Desta
1
Dias, M. I., Prudêncio, M. I. (2007). Neutron 2, 31-40.
activation analysis of archaeological mate- 7
Dias, M. I., Valera, A. C., Marques, R.,
forma, datam-se fases de ocupação e
rials: an overview of the ITN NAA Labora- Cardoso, G., Prudêncio, M. I. (2009). Lumi-
fases de construção. tory, Portugal. Archaeometry, 49, 381-391. nescence dating applied to stratigraphic defi-
A idade é calculada através da 2
Prudêncio, M. I., Marques, R., Rebelo, L., nition of pre-historic occupations in urban
fórmula: Idade (ano) = Dose equi- Cook, G. T., Cardoso, G. O., Naysmith, P., contexts (Lisbon, Portugal). Proc. XV World
valente (Gy) / Taxa de Dose (Gy/ Freman S. P. H. T., Franco, D., Brito, P., Dias, Congress (Lisbon’06) UISPP, Session 69. BAR
M. I. (2007). Radiocarbon and blue optically – International Series.
ano) onde a dose equivalente é a
stimulated luminescence chronologies of the 8
Sanjurjo Sánchez, J., Fernández Mosquera,
dose de radiação ionizante necessá- Oitavos consolidated dune (Western Portu- D., Trindade, M. J., Dias, M. I. (2008). Lumi-
ria para reproduzir o sinal de lumi- gal). Radiocarbon, 49, 1145-1151. nescence dating of lime mortars and bricks
nescência “natural” da amostra em 3
Prudêncio, M. I., Waerenborgh, J. C., Gou- from a heritage building, Luminescence. J.
laboratório (figs. 4 e 5); e a taxa de veia, M. A., Trindade, M. J., Alves, E., Sequei- Biological and Chemical Luminescence, 23, 265-
ra Braga, M. A. (1998). Degradation processes 266.
dose é a dose absorvida por ano
of trachytes in monument façades (Azores, 9
Burbidge, C. I., Dias, M. I., Prudêncio, M. I.,
pela amostra desde o último aque- Portugal), in Water–rock interaction (eds. G. Rebêlo, L. P., Cardoso, G. O., Brito, P. (2009).
cimento ou a última exposição à Arehart and J. Hulston), 391–4, A. A. Balke- Internal α activity: localisation, compositional
luz. A taxa de dose média recebida ma, Rotterdam. associations and effects on OSL signals in
pela amostra mede-se por espec-
4
Prudêncio, M. I., Nasraoui, M., Trindade, quartz approaching β saturation, Radiation
M. J., Sequeira Braga, M. A., Figueiredo, M. Measurements (in press).
trometria gama e pelos teores de
O. (2000). Secondary phosphate phases in
radionuclidos naturais (potássio, altered trachyte from S. Miguel Island (Azo-
tório e urânio) obtidos por AAN. res, Portugal) — a possible contribution to MARIA ISABEL PRUDÊNCIO,
Neste cálculo, devem ser tidos em the stone degradation, in Proc. 9th Int. Cong. MARIA ISABEL DIAS,
conta factores como o teor em água Deterioration and Conservation of Stone (ed. V. CHRISTOPHER BURBIDGE,
Fassina), vol. 1, 165–70, Elsevier, Amsterdam. Instituto Tecnológico e Nuclear (ITN),
da amostra e a existência ou não de 5
Nasraoui, M., Waerenborgh, J. C., Prudên- Grupo de Geoquímica Aplicada &
desequilíbrios radioactivos. cio, M. I., Bilal, E. (2002). Typology of the Luminescência no Património Cultural
Informações retiradas dos grãos granitic stones of the cathedral of Évora
(GeoLuC)
minerais constituintes dos mate- (Portugal): a combined contribution of geo-
iprudenc@itn.pt
riais de construção através de téc- chemistry and 57Fe Mössbauer spectroscopy.
J. Cultural Heritage, 3, 127–32. MARIA JOSÉ TRINDADE,
nicas de luminescência e nucleares Bolseira de pós-doutoramento da Funda-
6
Dias, M. I., Prudêncio, M. I., Sanjurjo Sán-
podem, assim, contribuir para a chez, J., Cardoso, G. O., Franco, D. (2008). ção para a Ciência e Tecnologia (FCT),
reconstituição de intervenções no Datação por luminescência de sepulcros arti- a realizar no Instituto Tecnológico e
monumento ao longo do tempo. ficiais da necrópole pré-histórica da Sobreira Nuclear (ITN)
da Cima (Vidigueira). Resultados prelimina-

12 Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009


METODOLOGIAS
Tema de Capa

A lacuna pictórica
Metodologias de interpretação e análise
Aborda-se a aplicação de uma metodologia de classificação, com a qual pretendemos reconhecer
as áreas de lacuna e não lacuna, de uma forma semi-automática, distinta da simples percepção
visual. A finalidade é a produção de um mapeamento temático onde se possam estimar, quanti-
tativamente, as lacunas na obra.

INTRODUÇÃO podem explicar-se com a teoria do à reintegração cromática podem ser


Uma intervenção de reintegração cro- gestaltismo ou psicologia da forma tomadas duas posições: a não-inter-
mática depende da obra em causa, do (Brandi, 1961: 149-151; Brandi, 2006: venção e a intervenção. Estabelecida
número e tipo de lacunas, e, em gran- 19-27; 89-90). Segundo o conceito ges- como uma hipótese crítica, sujeita a
de medida, dos critérios predefinidos, taltista de Figura-Fundo, a lacuna modificações (Philippot, 1959: 11), a
da formação e da sensibilidade do assume a forma de uma “figura” em reintegração, se adoptar metodolo-
conservador-restaurador. Como caso relação à pintura, que passa a ser gias apropriadas, recompõe a uni-
de estudo escolhemos uma pintura entendida como um “fundo”. Para dade estética da obra, ao situar a
mural, “A Ressurreição de Cristo” restabelecer o potencial expressivo da lacuna no plano que lhe corresponde,
(fig. 1), do arco triunfal da nave da obra, a lacuna deverá ter um valor de sem modificar os aspectos formais da
igreja manuelina do Convento de conexão entre os fragmentos originais mesma, valorizando, na justa medi-
Cristo, em Tomar. existentes, e ser um elo de ligação da, os elementos originais. Como tal,
Designam-se por lacunas as faltas ao tempo-vida da mesma (Casazza, a finalidade é que o tratamento da
ocasionais e intencionais na camada 1992: 65; Philippot e Philippot, 1959: lacuna tenha uma solução que não
pictórica. Estas, perante o observa- 5; Brandi, 2006: 89). A intervenção prejudique o futuro da obra, não alte-
dor, pelo facto de não serem neutras, que tem por propósito resolver este re a sua essência (Brandi, 2006: 90),
resultam em formas de cor que inter- problema denomina-se, consoante as nem insinue a falsificação.
rompem o tecido figurativo (Brandi, fontes, por reintegração ou integração, A escolha entre as diversas opções
2006: 19). A interpretação da lacu- cromática ou pictórica. técnicas para a reintegração cromáti-
na e análise do seu protagonismo É importante reter que na abordagem ca, vistas como mais “equilibradas”
pelos conservadores-restauradores,
deverá considerar, a priori, a quanti-
dade de lacunas da obra.
As técnicas utilizadas em conserva-
ção e restauro, com maior ou menor
êxito, diferenciadas ou não, têm sido:
a reintegração mínima, com tonaliza-
ção das pequenas faltas de camada
cromática; o tom neutro; o sub-tom; o
tratteggio ou rigatino; a selezione croma-
tica; a astrazione cromatica; o pontilhis-
mo; o mimético e as situações híbri-
das (onde numa pintura se aplicam
em simultâneo várias técnicas, con-
soante os tipos de lacunas). Porém,
não é nosso intuito, no presente texto,
indicar qual é a via mais adequada
na pintura mural supracitada, nem
apontar quais as técnicas indicadas
para cada caso.
A resposta a esse tipo de problema
obtém-se da avaliação de múltiplos
factores, para além daquele que que-
remos aqui focalizar, que está associa-
1 – “Ressurreição de Cristo”, do arco triunfal da nave da Igreja do Convento de Cristo, em Tomar, antes
da última intervenção, em 2008.
do à análise espacial das lacunas na

Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009 13


METODOLOGIAS
Tema de Capa

superfície cromática. Contudo, ape- No que respeita à classificação super- associadas a cada uma das duas
sar de haver inconstância nas opções visionada, trata-se de uma operação classes – lacunas e camada pictórica.
técnicas, é consensual o respeito pela que identifica zonas homogéneas
lacuna, ou seja, a não reintegração numa imagem, representativas das DISCUSSÃO
além da área lacunar e a não promo- dissemelhantes classes temáticas. Na fase de projecto e quando se opera
ção do falso histórico. Essas zonas, que vão servir de áreas o levantamento de informações e
de treino, ostentam a informação diagnóstico de um Bem Cultural pic-
ANÁLISE E MAPEAMENTO espectral característica dos temas que tórico, determinar qual é a técnica
TEMÁTICO representam. A ferramenta SIG de de reintegração cromática, mesmo
Alguns estudos pontuais têm sido classificação extrai as características que se definam critérios reconheci-
feitos com operações de análise espa- dos temas em função das áreas obser- dos como válidos do ponto de vista
cial em pinturas sobre tela, madeira vadas, no pressuposto de que cada ético e deontológico, implica frequen-
ou pintura mural. Por exemplo, já classe é bem conhecida. Para opera- temente um exercício especulativo
se verificou a utilização da análise cionalizar o algoritmo elegeram-se sobre o resultado da intervenção.
de componentes principais (Pires et algumas amostras de treino, num No presente caso de estudo, em que
al., 2007), alguns casos de classifica- total de 88 polígonos, redistribuídos as lacunas estão dispersas, demons-
ções com algoritmos específicos não entre as seguintes áreas: de lacunas, tra-se que se podem adoptar algumas
divulgados (Liu e Dongming, 2008: de carnação, no manto violáceo de metodologias específicas de interpre-
121-131) e classificações de máxima Cristo, em azuis, nos vermelhos, nos tação espacial. Apesar de ser inevitá-
verosimilhança (Lerma 2001; Balas et verdes e nos cinzentos. vel reconhecer que há uma margem
al., 2008; Comelli et al., 2008). de erro associada às técnicas supra
Este trabalho sustenta-se em opera- RESULTADOS indicadas, que pode ser mitigada pela
ções de classificação (Lillesand et al., As operações de análise e classifi- qualidade dos registos fotográficos
2008), sendo desejável que o uso das cação, feitas em ambiente de siste- e pela utilização de outros algorit-
metodologias acima referidas auxilie mas de informação geográfica (ESRI, mos de classificação, a extracção de
no problema da contabilização da 2009), permitiram segmentar as lacu- características da superfície pode ser
extensão de lacunas, que é raramente nas. Constatou-se que a área de lacu- efectivada de modo semi-automático,
destacado em conservação e restau- nas calculada foi aproximadamente com os procedimentos enunciados.
ro. As grandes superfícies pictóricas, de 48,5% (fig. 3). O valor percentual Embora o registo fotográfico da pintu-
como é o caso do arco triunfal, difi- obtido, depois de operada a segmen- ra mural documente o estado de con-
cultam a elaboração de mapas temáti- tação, foi calculado por contabiliza- servação da obra, existem actualmen-
cos, seja no modelo do desenho sobre ção do número de células (pixels) te tecnologias de geomática acessíveis
papel ou seja por técnica de tratamen-
to digital de imagem. É possível que
uma solução para o problema esteja
no uso de técnicas de informação
geográfica. Assim, no caso de estudo,
avaliou-se uma metodologia faseada
em dois momentos: a análise de com-
ponentes principais (fig. 2) e a classi-
ficação supervisionada por máxima
verosimilhança.
O ponto de partida foi a análise dos
componentes principais (ACP), por
se tratar de uma técnica especialmen-
te utilizada para destacar semelhan-
ças e diferenças em objectos, quando
se tem grande variabilidade espectral
nas imagens (Gonçalves et al., 2008:
29-35). Sabe-se, ainda, que as opera-
ções de realce e pré-processamento
podem dar resultados profícuos com
ajuste nos histogramas; no entanto,
para o presente trabalho não se uti-
lizaram. 2 – Mapa temático da análise de componentes principais (ACP).

14 Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009


METODOLOGIAS
Tema de Capa

que permitem fazer avaliações mais ra e a “obra de conjunto”, neste caso, Gianluca; CUBEDDU, Rinaldo (2008). Inte-
eficientes das patologias antes, duran- a Charola. grated Hyper spectral and time resolved flu-
te e depois das acções de conservação. orescence imaging combined with statistical
NOTA data analysis: diagnostic investigations of
Artigo elaborado com o apoio do Programa wall paintings. In 9th International Conference
CONCLUSÃO on NDT of Art, Jerusalem, Israel, 25-30 May
Operacional Ciência e Inovação 2010 (POCI
O estudo aponta noções generalistas 2010), co-financiado pelo Governo Português 2008. http://www.ndt.net/article/art2008/
de reintegração cromática e sugere e pela União Europeia, através do Fundo papers/184Comelli.pdf (consulta 4 Abril de
duas técnicas de análise espacial e Europeu para o Desenvolvimento Regional 2009; 14h)
(FEDER) e da Fundação para a Ciência e ESRI – ArcGIS Desktop 9.3. http://www.esri.
classificação, já antes utilizadas para com/ (consulta a 24 de Março de 2009).
Tecnologia (FCT).
outras finalidades, mas que se com- GONÇALVES, L.; FONTE, C.; JÚLIO, E.;
prova serem úteis na conservação e REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CAETANO, M. (2008). Aplicação da detecção
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O registo pictórico da “Ressurreição ritocco nel restauro pittorico. Padova: Il Prato. das coberturas do património edificado: o
BALAS, Costas; ANTONOPOULOS, Grigo- caso de estudo da baixa de Coimbra. Cons-
de Cristo”, ex-libris do Convento de trução magazine – revista técnico-científica de
rios; EPITROPOU, Georgios; TSAIRIS, Geor-
Cristo, serviu neste caso para um pro- engenharia civil, pp. 29-35.
gios; ARGYRIADOU, Kallia; GEORGAKI-
cesso de inferimento deontológico e LAS, Alexandros; HADJINICOLAOU, Nicos LERMA, J. L. (2001). Documentation and
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lacunas que apresenta, indicada pelo embedded spectral segmentation and clas- matic approach. CIPA International Sym-
sification algorithms for the non-destructive posium, Postdam, September 18-21, 2001.
classificador, mas também pela sua http://cipa.icomos.org/fileadmin/papers/
analysis of artworks and manuscripts an
complexidade de formas, que obriga potsdam/2001-09-jl02.pdf (consulta 4 Abril
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a uma reflexão na fase de reintegra- International Conference on NDT of Art, Jeru- de 2009; 17h)
ção cromática. salem, Israel, 25-30 May 2008. http://www. LILLESAND, Thomas; KIEFER, Ralph; CHIP-
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pdf (consulta 4 Abril de 2009; 14h) Image Interpretation. 6.ª Ed. Hoboken, New
figurativo na obra tem um valor Jersey: Jonh Wiley & Sons.
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aproximado de 48,5%, pode ajudar a LIU, Jianming; LU, Dongming (2008). Know-
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decisão entre intervir ou não intervir, national Congress of History of Art. Nova Ior- ledge Based Lacunas Detection and Segmen-
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sente que uma estratégia de actuação PHILIPPOT, Albert; PHILIPPOT, Paul (1959).
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deve ponderar a análise quantitativa Editore, p. 13. Le problème de l´intégration des lacunes
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sulta em 4 de Abril de 2009)

FREDERICO HENRIQUES,
UCP – E. Artes / CITAR,
frederico.painting.conservator@gmail.com
ALEXANDRE GONÇALVES,
IST – Dep. Eng. Civil e Arquitectura,
alexg@civil.ist.utl.pt
ANA BAILÃO,
UCP – E. Artes,
ana.bailão@gmail.com
ANA CALVO,
UCP – E. Artes / CITAR,
acalvo@porto.ucp.pt
3 – Resultado das operações, onde a amarelo se observam as lacunas.

Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009 15


MATERIAIS
Tema de Capa

O propósito e a escolha da pedra


Condicionantes petrológicas e geoquímicas

Escolher uma pedra para aplicação em obra pode ser uma tarefa agradável, mas requer o devido
conhecimento do material, das suas qualidades, das suas limitações. Não há pedras más, nem
pedras boas. Há pedras mal utilizadas, pedras bem escolhidas, pedras que foram submetidas a
tratamentos adequados e pedras que não foram bem tratadas. Seu desempenho está dependente
da pedra em si e do fim a que se destina.

A pedra é, em geral, utilizada com Se, por um lado, a degradação estri- origem, implicando, assim, a iden-
duas finalidades principais, que tamente física da rocha constitui um tificação das condições de tempera-
podem, em certos casos, coexistir: importante factor de alteração dos tura, pressão, fluidos e ambiente de
como parte de uma estrutura e como padrões visuais da pedra, também formação da rocha. Por outras pala-
material de revestimento e/ou de a degradação química pode consti- vras, é necessário conhecer a rocha,
embelezamento. tuir um motor de transformação das na sua acepção mais profunda.
No uso da pedra como elemento características da sua superfície, pois Relativamente às condições físicas
estrutural, dá-se relevo à análise, com a alteração química e mineralógica de génese, devem ser consideradas
particular cuidado, das suas caracte- implica modificações cromáticas e as três grandes famílias de rochas:
rísticas que, de forma directa ou texturais na superfície da pedra. ígneas, sedimentares e metamórfi-
indirecta, afectam a resistência e coe- Quanto à pedra em si, para se com- cas, cada uma delas com caracte-
são da rocha. Assim, o conhecimento preender de forma efectiva quais, rísticas próprias de formação. As
da textura da rocha, do seu grau de de entre as suas variadas caracte- primeiras, geradas através da cris-
fracturação e da sua porosidade são rísticas, vão afectar o seu futuro talização de um magma (material
fundamentais – pois deles depende a comportamento em obra, é essen- mais ou menos viscoso, sujeito a
maior ou menor facilidade de circu- cial conhecer as causas fundamen- temperaturas elevadas), a profundi-
lação de fluidos que poderão afectar tais das suas características físicas e dades (e, consequentemente, pres-
negativamente a pedra. Não menos químico-mineralógicas. Estas estão sões) variáveis. As segundas, forma-
importante é o conhecimento da sua directamente relacionadas com a sua das em condições de temperatura e
constituição química e mineralógica,
pois delas depende a estabilidade da
rocha como entidade físico-química
e em consequência, a estabilidade
mecânica.
Relativamente à pedra como mate-
rial de revestimento, esses aspectos
tomam outros contornos, uma vez
que, quer a textura, quer a minera-
logia podem assumir-se como tra-
ços de natureza estética, na medida
em que ambas são determinantes
para a apreciação do aspecto geral
da pedra. Por outro lado, assumem
também importância no contexto da
estabilidade físico-química a que se
fez referência anteriormente; a desa-
gregação da pedra (decorrente da
sua falta de coesão), conduz à perda
das suas características estéticas.
Note-se que, igualmente neste caso,
as características físicas e químico-
-mineralógicas não são dissociáveis. Igreja matriz de Vila do Conde, em granito. Fachada principal, virada para o mar.

16 Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009


MATERIAIS
Tema de Capa

na maior parte dos casos, uma selec-


ção composicional. Há, no entanto,
casos em que tal não acontece, pelo
que há que estar atento.
Também as rochas metamórficas
apresentam composições muito va-
riadas, dependendo dos materiais de
que derivaram, transformados pelo
metamorfismo e das condições que
lhe foram impostas. Aqui, contu-
do, a selecção composicional quase
nunca existe, havendo, pelo contrá-
rio, uma enorme variabilidade de
rochas, dependendo da intensidade
e extensão dos factores causadores
do metamorfismo. É, talvez, o caso
mais evidente de reajuste de equi-
líbrio entre minerais resultando em
associações de minerais compatíveis
com as novas condições de modo a
manter o equilíbrio. Para além dos
aspectos químicos, devem ainda ser
Pormenor da base da torre sineira, mostrando os blocos trabalhados, parcialmente desgastados pela
atmosfera salina. realçados os aspectos físicos, pois as
rochas metamórficas são geradas,
pressão próximas das que existem acção da água, exposição a chuvas em geral, em ambientes nos quais
à superfície da Terra, derivando da ácidas e poluentes atmosféricos, etc.), a pressão é, muitas vezes, exercida
erosão e desagregação de materiais promove a alteração química dos sobre os materiais de forma orienta-
já existentes ou da precipitação de minerais, desencadeando muitas da, facto que facilita a existência de
sais a partir de soluções saturadas. vezes, também, a desagregação da estruturas orientadas nas próprias
As últimas traduzindo condições rocha. Este princípio de manutenção rochas.
intermédias entre as primeiras e as do equilíbrio entre os componen- Compreende-se, assim, que as pe-
segundas, tendo sido formadas em tes (minerais) do sistema (rocha), é dras, sejam elas utilizadas como
condições de pressões e de tempe- um princípio geoquímico básico nos elemento estrutural ou como mate-
raturas superiores às prevalecentes processos petrológicos. A natureza rial de revestimento, possam apre-
nos ambientes superficiais, sem que, dos minerais, compreendendo pro- sentar características muito varia-
contudo, seja atingida a fusão total priedades como cor, dureza, brilho e das, que podem ser aproveitadas
dos materiais. outras, que variam de mineral para de diversas formas por quem as
No que se refere às composições mineral e o modo como estão asso- aplica. No entanto, o desconheci-
químicas (e, consequentemente, mi- ciados, vai condicionar a resposta mento das suas propriedades físi-
neralógicas), pode dizer-se que, em de cada rocha às perturbações a que cas e químicas pode conduzir (e
geral, as rochas magmáticas são de é sujeita. muitas vezes, assim acontece) a
natureza silicatada, isto é, são cons- No caso das rochas sedimentares, más escolhas que, mais tarde, se
tituídas fundamentalmente por um que, em parte dos casos, são prove- poderão revelar catastróficas, irre-
grupo de minerais – os silicatos. nientes de materiais pré-existentes, versíveis. Por outro lado, antes
Estes minerais, que compreendem as composições são muito variadas, da aplicação, devem também ser
famílias com alguma variação em desde silicatadas (principalmente consideradas as condições físicas
componentes químicos e estrutu- quando derivam de rochas ígneas) e químicas a que a pedra vai estar
ras associam-se, formando, rochas até carbonatadas (principalmente exposta, se o ambiente é exterior
mais ou menos claras, em equilíbrio quando, na sua génese, é envolvi- ou interior, se há ou não acção de
durante a sua formação. É este equi- da actividade biológica e química). atmosfera salina, comum nas regi-
líbrio que, uma vez perturbado, por Contudo, a sua homogeneidade é, ões costeiras, se há ou não agentes
interferências externas, por mudança em geral, maior, pois os processos poluentes atmosféricos que actuem
de condições (temperatura, pressão, conducentes à sua génese acarretam, sobre a rocha, entre outros muitos

Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009 17


MATERIAIS
Tema de Capa

Pormenores da pedra na fachada principal, com figuras trabalhadas e parcialmente desfeitas, em consequência da acção da atmosfera salina.

factores que podem comprometer a calcários multicolores, entre os quais da Gama. Neste contexto, não se
durabilidade da pedra. se destaca o lioz, foram também deve subestimar o efeito da acção
A título de exemplo, refere-se o caso usados. Ainda hoje, esta pedra é dos gases de escape dos automó-
da rocha designada por Amarelo usada em igrejas, sob a forma de veis, ricos em óxidos de enxofre
de Negrais, que é um calcário cujo placas, quer como material de reves- que, em contacto com a humidade
componente essencial é a calcite timento, quer constituindo parte da atmosférica, dão lugar à formação
(um carbonato de cálcio), à qual estrutura de altares. Este tipo de de ácido sulfúrico, um produto cor-
se associa a limonite, que é um uso, no interior de edifícios, permite rosivo para a maior parte dos mate-
óxido de ferro hidratado, amare- que a acção de limpeza se limite à riais existentes à superfície da Terra,
lado, responsável pela coloração utilização de água, cujo resultado incluindo a maioria das rochas, em
amarelo “queimado” apresentada é a manutenção do brilho existente particular as carbonatadas, como os
pela pedra. As propriedades físicas devido ao polimento. No entanto, calcários. Em qualquer utilização em
desta rocha permitem a sua utiliza- o seu uso em ambientes exteriores que a presença de água na superfície
ção como elemento estrutural, prin- resulta numa perda acentuada de da pedra seja constante, a acção con-
cipalmente, ou como material de brilho, particularmente em locais tinuada conduz à dissolução parcial
revestimento, sob a forma de placas, nos quais o intenso trânsito automó- da pedra, resultando em desagre-
ou ainda como material decorativo. vel promove a deposição de partícu- gação.
Foi usada para este fim em muitas las sólidas poluentes na superfície Um outro exemplo que ilustra, de
igrejas construídas durante o século da pedra, causando a sua deteriora- forma esclarecedora, o uso nem sem-
XVIII, particularmente como parte ção, devido ao efeito de chuva ácida pre feliz da pedra, é o que se obser-
integrante de painéis decorativos associado, como é o caso da parede va em relação aos calcários oolíti-
de embutidos, onde alguns outros lateral do edifício do Aquário Vasco cos que ocorrem na zona centro de

18 Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009


MATERIAIS
Tema de Capa

hidratado, um material escuro mui-


tas vezes observado em fachadas de
edifícios, que descaracteriza a pedra
originalmente exposta.
Por outro lado, também os ambien-
tes costeiros, com atmosferas ricas
em cloreto de sódio, lesam, pelas
mesmas razões essenciais, as rochas
expostas. Os ensaios efectuados em
laboratório, simulando ambientes
atmosféricos agressivos, quer poluí-
Calcário Amarelo de Negrais. Superfície da rocha, Calcário Oolítico. Superfície da rocha inicialmente
inicialmente polida, após 4 ciclos de nevoeiro sali-
dos, com óxidos de enxofre, quer polida, após 5 ciclos de nevoeiro salino (exposição
no (exposição em laboratório). não poluídos, com cloreto de sódio, em laboratório).
demonstram, de forma inequívoca,
a importância deste tipo de acções.
Portugal. Devido, essencialmente, à Em ambos os casos, as rochas degra- de forma elucidativa, a importância
sua cor beige, são rochas com uma dam-se de forma acentuada, acaban- da acção directa do mar neste local.
boa aceitação no mercado, apresen- do por se desagregar. Como nota conclusiva, pode afirmar-
tando uma textura homogénea e No caso de rochas não carbonata- -se que muitos dos usos indevidos
sendo compatíveis com uma gran- das, tais como as rochas magmáticas de pedra por exposição a atmosferas
de variedade de estilos. Para além ou outras silicatadas, as alterações agressivas decorrem directamente do
dos oólitos, a rocha contém restos provocadas pelas atmosferas agres- desconhecimento das características
de organismos (fósseis) em certas sivas são, em geral, menos visíveis. essenciais da pedra, principalmente
camadas, cuja presença resulta em No entanto, frequentemente, obser- no que diz respeito à sua resistência
variações texturais em relação ao vam-se casos de perdas de cor e física e química, relacionada com a
padrão geral, havendo, assim, dife- de brilho das superfícies polidas, própria natureza da rocha. É impor-
rentes designações atribuídas pela acompanhadas por desagregação tante, pois, que as suas propriedades
indústria de rochas ornamentais. progressiva da rocha. As observa- sejam bem conhecidas, para que a
Sendo apreciada pelos seus atribu- ções superficiais são apenas indica- sua escolha seja ajuizada em função
tos visuais e estruturais, é recomen- dores das alterações dos minerais; do fim a que se destina, tanto mais
dada apenas para uso em ambientes a extensão e intensidade das modi- que muitas das causas são difíceis,
interiores, uma vez, que, à seme- ficações interiores, ocasionando a quando não impossíveis, de elimi-
lhança do atrás referido Amarelo perda de equilíbrio físico-químico, nar. A correcta escolha do material
de Negrais, é uma rocha carbona- na maioria dos casos, só se manifes- geológico a aplicar pode resultar,
tada, cuja susceptibilidade à acção ta mais tarde. portanto, numa maior durabilida-
de agentes atmosféricos é grande. A Um exemplo que ilustra esta situa- de do património arquitectónico tal
esta característica, junta-se o facto de ção de forma esclarecedora é a igreja como foi concebido e construído.
a sua textura, constituída por partí- matriz de Vila do Conde. Construída
culas de diferentes dimensões e for- em granito, esta igreja exibe, na sua
mas, favorecer a infiltração da água fachada principal, o resultado da
e consequente acção degradativa. sua proximidade do mar e da sua
A utilização desta pedra em ambien- exposição directa ao nevoeiro sali-
tes exteriores ou em outros locais no aí existente de forma contínua.
com elevada humidade relativa é, Aqui, nota-se bem a desagregação
pois, desaconselhada. Tal como foi da rocha, que resulta no desapa-
anteriormente referido, a presença recimento progressivo das formas
do enxofre na atmosfera (principal- esculpidas na pedra, que definem o
mente, em regiões com forte polui- padrão decorativo da fachada vira- ZENAIDE C. G. SILVA,
ção) resulta na formação de ácido da para o mar. Nas fachadas laterais, Professora, FCT/UNL
sulfúrico que, ao reagir com a rocha mais protegidas da acção corrosiva NUNO LEAL,
carbonatada, promove a precipita- do nevoeiro salino, esta acção é fran- Investigador, FCT/UNL
ção de gesso, um sulfato de cálcio camente menos intensa, traduzindo,

Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009 19


ESTUDO DE CASO
Tema de Capa

Recuperação de edifícios
pombalinos
Aspectos técnicos e viabilidade económica
A Baixa Pombalina é uma zona da cidade de Lisboa de elevado valor patrimonial. Tem na sua
génese a reconstrução de grande parte da cidade tendo em conta, pela primeira vez na história da
arquitectura e engenharia, preocupações sísmicas à escala da cidade que resultaram, entre outros,
na utilização sistemática da inovadora estrutura em gaiola de madeira – um marco na história da
construção nacional e internacional.
INTRODUÇÃO Ocorrem num período de tempo res- o modelo do quarteirão estudado.
Os edifícios originais pombalinos trito, em determinado local, e pro- O edifício isolado foi analisado admi-
foram sofrendo alterações estrutu- pagam-se em todas as direcções. O tindo que a estrutura original não
rais sucessivas ao longo dos anos, conhecimento dos mecanismos de havia sido alterada, dado que não
sobretudo no início do século XX e geração permite afirmar, sem qual- havia sinais exteriores de possíveis
geralmente devido a pressões espe- quer dúvida, que zonas que já foram alterações e consideraram-se valores
culativas e alterações de usos, ape- atingidas por sismos fortes no pas- médios das propriedades dos mate-
sar da excelente qualidade estrutural sado voltarão a sê-lo no futuro. Há riais. Os resultados comprovaram a
original e arquitectónica. A análise e registos de que Lisboa tem sido atin- eficiência da Gaiola Pombalina na
avaliação do efeito destas alterações gida, ciclicamente, por sismos fortes resistência a forças horizontais como
são essenciais para definir critérios no passado. Podemos assim ter a cer- as induzidas pela acção sísmica. O
de recuperação dos edifícios pomba- teza de que Lisboa será sacudida por estudo mostrou que a gaiola contri-
linos, à luz da segurança estrutural, sismos violentos no futuro, apenas bui para um bom funcionamento de
dos usos e funcionalidade actuais, não sabemos quando. conjunto do edifício e limita os deslo-
conciliando com estes factores a pre- Com o objectivo de aprofundar o camentos horizontais do conjunto da
servação do sistema de construção conhecimento sobre o potencial de- estrutura. Concluiu-se que, no caso
pombalina. sempenho sísmico dos edifícios pom- analisado, a resistência sísmica do
Neste artigo fazem-se breves refle- balinos e dos quarteirões em que se edifício não seria condicionada pela
xões sobre a importância da recu- inserem e sobre a importância da gaiola mas pelas ligações desta às
peração dos edifícios pombalinos, gaiola pombalina na sua resistência paredes de alvenaria das fachadas.
referindo-se aspectos técnicos e a sua sísmica, analisou-se com pormenor a Os estudos realizados apontaram
viabilidade económica. estrutura de um edifício tipo da Baixa, como outro possível ponto fraco des-
situado na Rua da Prata [Cardoso, tes edifícios os pilares de alvenaria
RISCO SÍSMICO 2002] e de um quarteirão tipo [Mon- do andar sem estrutura de gaiola,
Os sismos são abalos naturais da crosta teiro et al., 2006]. A fig. 1 mostra o entre o rés-do-chão e o 1.º andar. Esta
terrestre, de origem geológica, inevi- edifício e o modelo estrutural ana- fraqueza pode ocorrer se as proprie-
táveis e praticamente imprevisíveis. lisado em computador, assim como dades dos materiais das alvenarias

1 - Fotografia e modelo estrutural do edifício pombalino e modelo estrutural do quarteirão pombalino.

20 Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009


ESTUDO DE CASO
Tema de Capa

a esse nível forem inferiores aos impedidos de rodar separadamente gaiola, incluindo as diagonais de
valores médios admitidos no estudo uns dos outros. madeira e a alvenaria do painel, entre
efectuado. Os resultados do estudo A zona da Baixa foi sempre sujeita a dois pisos consecutivos, foram remo-
apontam para a possível ocorrência pressões especulativas e os edifícios vidos. Com este tipo de alteração
do colapso por queda das fachadas originais pombalinos foram sendo a estrutura fica significativamente
(não da estrutura toda) a um nível modificados ao longo dos anos. A enfraquecida para as cargas horizon-
da acção sísmica de cerca de 40 por grande maioria das alterações cons- tais, pois a estrutura triangulada da
cento do sismo regulamentar condi- trutivas a que foram sujeitos trans- gaiola é destruída ficando nessa zona
cionante [RSA, 1983]. No entanto, se formou a estrutura e a tipologia dos apenas os barrotes horizontais e ver-
as ligações entre a gaiola pombalina e edifícios, conduzindo em muitas ticais.
as fachadas fossem mais eficientes, a
resistência sísmica do edifício mais do VIABILIDADE TÉCNICA E
que duplicaria, aproximando-se do ECONÓMICA
valor regulamentar actual, o que seria Para a preservação da Baixa Pom-
notável tendo em conta as limita- balina torna-se essencial proceder à
ções do conhecimento científico e dos sua reabilitação.
materiais existentes há 250 anos atrás. Neste tipo de intervenções deve ha-
O quarteirão foi definido a partir de ver a preocupação de preservar e,
um conjunto de edifícios pombalinos se necessário, reabilitar o sistema da
reais, idealizando-se um quarteirão gaiola, de grande valor cultural, patri-
com características muito próximas monial e também estrutural, compa-
da configuração original das cons- tibilizando-a com viabilização econó-
truções pombalinas. Foram imple- mica das obras, ou seja, com a ade-
mentadas e analisadas algumas das quação deste sistema construtivo às
alterações estruturais mais comuns e novas exigências espaço-funcionais e
que são habitualmente efectuadas em de segurança actuais, rentabilizan-
edifícios da Baixa lisboeta. Da análise do os edifícios (meio necessário para
efectuada ao comportamento dinâ- financiar a preservação e reabilitação
mico do quarteirão original destaca- urbanística, arquitectónica e estrutu-
-se como novidade, relativamente às ral) [Mira, 2007]. Estas intervenções
conclusões retiradas do estudo do têm de ter sempre em conta os seus
2 - Os quatro primeiros modos de vibração do
edifício isolado, o seguinte: quarteirão-tipo. efeitos na estrutura, e para se garantir
• O quarteirão-tipo não se comporta a sua resistência é fundamental não
como um corpo único devido à rigi- situações, a um aumento da vulne- eliminar pilares do piso térreo ou
dez reduzida dos pisos de madeira. rabilidade sísmica destes edifícios. frontais – há que ser selectivo e retirar,
Este resultado deve-se à falta de rigi- Como exemplos de intervenções que quando necessário, apenas paredes
dez dos pavimentos (pisos de madei- enfraqueceram significativamente a com reduzida importância estrutural,
ra) à distorção no plano horizontal. resistência sísmica dos edifícios da como os tabiques. É necessário encon-
No entanto, a rigidez axial dos pavi- Baixa podem-se apontar os seguintes: trar um ponto de equilíbrio entre os
mentos contribui significativamente • Corte de pilares ao nível do piso aspectos relacionados com a seguran-
para a configuração dos modos de térreo para abertura de grandes espa- ça e a funcionalidade, intrinsecamente
vibração condicionantes, em que ban- ços abertos, geralmente em estabele- ligados com a viabilidade económica
das inteiras do quarteirão se movem cimentos comerciais (fig. 3). da reabilitação, e a preservação o mais
em conjunto numa direcção (fig. 2), • Adicionar mais pisos para lá dos fiel possível do original.
enquanto os deslocamentos na direc- inicialmente previstos. Se a Baixa O ponto de partida para a reabilitação
ção perpendicular e no resto da estru- obedecesse à concepção pombalina destes edifícios deve ser a recupera-
tura são muito reduzidos. original, os edifícios teriam todos a ção e/ou reforço da estrutura pom-
• É possível analisar as bandas do mesma altura, correspondendo ao balina. A reconstrução de elementos
edifício na sua maior direcção e anali- piso térreo, três pisos elevados e man- estruturais, como as paredes meeiras
sar os edifícios interiores dessa banda sardas. Não é esta a realidade da ou os frontais, tem como objectivo
isoladamente na direcção perpendi- Baixa, tal como o ilustrado na foto- restabelecer ou melhorar o compor-
cular. grafia da fig. 4. tamento estrutural original dos edi-
• A partilha das paredes de empe- • Corte de painéis da gaiola para fícios, principalmente face à acção
na por diferentes edifícios (paredes abertura de espaços no interior ou sísmica, a par da preservação da sua
em alvenaria de pedra designadas corte parcial dos seus elementos cons- autenticidade.
por paredes meeiras) reduz forte- tituintes, por exemplo para introduzir Este processo de reabilitação deve
mente os efeitos de torção global canalizações de água ou gás. Existem ainda proceder à identificação das
ao nível de cada edifício, pois estão casos em que painéis inteiros da alterações estruturais sofridas pelos

Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009 21


ESTUDO DE CASO
Tema de Capa

• Muitas das alterações nocivas le-


vadas a cabo nos últimos dois séculos
podem ser revertidas: por exemplo,
se existirem pilares cortados no piso
térreo, estes podem ser reconstruídos.
No entanto, na generalidade das
obras de reabilitação urbana, os
aspectos relativos à segurança sís-
mica raramente são considerados, e
quando o são, é por iniciativa de um
dos intervenientes e não corresponde
a uma política sistemática. É impe-
3 - Interrupção dos alinhamentos verticais das fachadas e a continuidade dos alinhamentos verticais das
fachadas (a evitar).
rativo definir uma política activa e
coerente de reforço sistemático das
edifícios e utilização dos mesmos des das fachadas pode mais do que construções que imponha a compo-
materiais tradicionais (se possível, de duplicar a resistência sísmica dos nente do reforço estrutural nas obras
melhor qualidade) incluindo substi- edifícios. Para aumentar o nível de de reabilitação de edifícios. É também
tuição de materiais que se mostrem resistência sísmica para valores mais essencial que a componente de refor-
danificados. elevados seria provavelmente neces- ço estrutural passe a ser obrigatória
Apesar do interesse na preservação sário reforçar os pilares ao nível do nas obras de reabilitação (à excepção
tão fiel quanto possível das constru- piso térreo. de pequenas reparações) das cons-
ções originais, pode ser necessário, • A capacidade dos edifícios pomba- truções mais fracas e que apresentem
em situações particulares, fazer uso linos para melhorar significativamen- maior nível de risco, em particular
de novos materiais ou tecnologias – te a resistência sísmica com interven- nas que são financiadas por dinhei-
caso contrário pode ser difícil ter em ções pouco intrusivas e não muito ros públicos. Para isso o Estado deve
conta aspectos que podem ser essen- dispendiosas deriva, em grande criar os instrumentos necessários,
ciais para satisfazer necessidades fun- parte, da existência da gaiola, que faz quer a nível legislativo, quer a nível
cionais actuais (como é o exemplo com que não seja necessário reforçar técnico.
da inclusão de elevadores, importan- as paredes no interior do edifício na
tes em adaptações para hotéis, por generalidade dos andares. De facto, a REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CARDOSO, Rafaela – Vulnerabilidade Sísmica
razões que se prendem, não só, com gaiola contribui para o funcionamen-
de Estruturas Antigas de Alvenaria – Aplicação
aspectos de comodidade, como, tam- to de conjunto do edifício permitindo a um Edifício Pombalino. Dissertação de Mes-
bém, de acessibilidade a pessoas de a redistribuição das forças horizontais trado em Engenharia de Estruturas, Instituto
mobilidade reduzida). induzidas pelos sismos pelos elemen- Superior Técnico, 2002 (Prémio MOP2003).
Relativamente ao reforço e à recons- tos mais resistentes. Ou seja, a exis- MIRA, Diana – Análise do Sistema Construtivo
Pombalino e Recuperação de um Edifício. Disser-
trução dos elementos estruturais dos tência da gaiola em boas condições
tação de Mestrado Integrado em Arquitectu-
edifícios pombalinos, é importante de conservação potencia um reforço ra, Instituto Superior Técnico, 2007.
realçar que: mais eficiente, mais barato e menos MONTEIRO, Mafalda, LOPES, Mário e
• O trabalho efectuado no Instituto intrusivo do que seria necessário se BENTO, Rita – Study of Lisbon anti-seismic
Superior Técnico para mostrar a efici- a gaiola não existisse. É assim impor- down-town quarters, Proceedings of the 1st
European Conference on Earthquake Engi-
ência de possíveis soluções de reforço tante garantir a integridade da gaiola
neering and Seismology, 1stECEES, Geneva,
demonstrou que, no caso estudado, pombalina, que é muitíssimo mais do Suíça, 2006.
reforçar as ligações da gaiola às pare- que uma curiosidade histórica. RSA, Regulamento de Segurança e Acções para
Estruturas de Edifícios e Pontes. Imprensa
Nacional Casa da Moeda, 1983.
Garcia, M. C. P. - “A obra al negro vs. a obra
ao branco – Alteração do branco de chumbo
na pintura mural portuguesa – Experiências
de reconversão”, Trabalho final de estágio,
Lisboa 2000.

RITA BENTO,
Professora Associada, Dep. de
Engenharia Civil e Arquitectura,
Instituto Superior Técnico
MÁRIO LOPES,
Professor Auxiliar, Dep. de Engenharia
Civil e Arquitectura, Instituto Superior
Técnico
4 - Edifícios da Baixa com mais pisos do que os previstos na concepção original.

22 Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009


ESTUDO DE CASO
Tema de Capa

A degradação do branco
de chumbo
O carbonato de chumbo básico, ou branco de chumbo (lead white, biacca, blanc de plomb), foi o pig-
mento branco mais usado em obras de arte até ser substituído por outros menos tóxicos como o
branco de titânio ou de zinco.
O uso do branco de chumbo em pin- Para além da inexplicável forma
turas murais foi desde muito cedo acima referida, a bibliografia refere
desaconselhado. Principalmente no que o pigmento parece estar mais
caso das pinturas murais a fresco “protegido” da reacção de oxidação
em que não se utilizam aglutinantes quando em presença de vermelhão,
orgânicos. Verificava-se que sofria azurite ou aglutinantes orgânicos
uma rápida degradação originando como, por exemplo, óleo de linho.
uma substância escura que provo- Algumas hipóteses foram levanta-
cava a drástica mudança de cor e das sobre as condições que pode-
alterava profundamente a leitura da riam levar à reacção de oxidação.
pintura. Em condições neutras de pH, apenas
Inicialmente, o produto de degrada- substâncias extremamente oxidantes,
ção foi identificado analiticamente cuja presença seria muito imprová-
como sulfato de chumbo. Esta reac- vel, seriam capazes de causar a reac-
ção é, na realidade, muito comum em Réplica de pintura mural onde o branco de chum- ção. No entanto, um pH fortemente
alguns tipos de formas de arte onde bo foi aplicado com cola animal. Depois de tra- alcalino baixaria o potencial de redu-
o branco de chumbo foi utilizado, tamento com ozono verificou-se a formação de ção do chumbo, facilitando a sua
como por exemplo, em miniaturas plattnerie. oxidação. Portanto, a combinação de
em pergaminhos. foi também aplicado na Capela do uma substância alcalina com uma
No entanto, nos anos 70, o dióxido de Castelo de Strechau (Stiria, Áustria) oxidante poderia desencadear a reac-
chumbo foi identificado como uma nos anos 80. No entanto, no início do ção em causa. No caso das pinturas
substância que se forma em pintu- presente século, verificou-se o reapa- murais a fresco, onde o pigmento é
ras murais. Também conhecido por recimento da degradação. aplicado directamente sobre a cal,
plattnerite, o dióxido de chumbo é o Perante esta situação, a mesma equi- ou seja, óxido ou dióxido de cálcio
produto resultante da oxidação do pa que havia caracterizado o compos- antes da reacção de carbonatação, a
branco de chumbo. to de degradação e que desenvolvera condição de meio fortemente alcalino
Em Portugal, um levantamento, o método de restauro e o aplicara é facilmente atingida, daí a degrada-
não muito exaustivo, revelou que, durante cerca de trinta anos, deci- ção imediata. No entanto, no caso das
na maioria das pinturas parentais, diu aprofundar o conhecimento dos pinturas murais a seco, o pigmento
outros pigmentos brancos foram mecanismos que desencadeiam esta é aplicado sobre o estuque já seco (e,
preferencialmente utilizados em reacção objectivando a sua compre- em princípio já carbonatado), ou seja,
detrimento do branco de chumbo. ensão, de forma a melhorar futuras sobre carbonato de cálcio, substância
Contudo, em mais de dez pintu- intervenções de restauro. practicamente neutra.
ras murais foi possível identificar a O que se sabe, então, sobre esta reac- Tendo em mente todas estas con-
plattnerite como produto de degrada- ção? À partida, o chumbo tem muito siderações, decidiu estudar-se em
ção deste pigmento. pouca tendência para se oxidar (alto laboratório a reacção em causa e ten-
Um procedimento de restauro que se potencial de redução a um pH neu- tar estabelecer relações com outros
baseia na transformação da plattnerite tro) e, portanto, as condições que parâmetros (presença de outros
no pigmento original através de uma levam a esta degradação são deveras pigmentos, diferentes aglutinantes
simples reacção de redução foi larga- intrigantes. e suportes) antes de se proceder a
mente aplicado, demonstrando ser Outra característica muito especial uma explicação do mecanismo de
muito eficaz. Actualmente, é possível desta reacção é a formação de man- reacção. Para tal, foram preparadas
verificar a eficácia de obras de restau- chas muito bem definidas e que não réplicas de pintura mural, posterior-
ro efectuadas nos anos 80 e que uti- demonstram tendência de aumen- mente submetidas a vários tratamen-
lizaram esta metodologia, como por tar com o tempo. Mesmo no caso tos de envelhecimento. Estas amos-
exemplo, na Capela do Cardeal de da Capela de Strechau, as manchas tras foram expostas, numa câmara
Portugal, que se encontra no interior que se verificaram vinte anos depois de envelhecimento, a ciclos de humi-
da belíssima igreja de San Miniato al do tratamento de restauro coincidem dade e temperatura que, no entanto,
Monte (Florença, Itália). Este método exactamente com as originais. não causaram qualquer alteração do

Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009 23


ESTUDO DE CASO
Tema de Capa

ponto de vista molecular. Foi, então, Relativamente à influência de outros extremamente oxidante da câmara
necessário encontrar uma forma pigmentos, verificou-se, como suge- de ozono. Provavelmente, o grau de
de provocar a reacção de oxidação. rido na bibliografia, que em pre- carbonatação do estuque no momen-
Diversas publicações descrevem ten- sença de vermelhão, o branco de to em que o artista aplica o pigmento
tativas de transformar o branco de chumbo sofreu apenas uma ligei- será crucial no processo de degrada-
chumbo em plattnerite que não alcan- ríssima degradação. Os pigmentos ção.
çaram resultados positivos. Apesar estudados, em ordem decrescente Como acima referido, este foi apenas
de se desconhecerem as verdadeiras de capacidade de protecção foram: um estudo preliminar sobre as variá-
razões que levam à oxidação, para vermelhão, malaquite e azurite veis que podem influenciar a oxi-
poder induzi-la em laboratório e em (desempenho semelhante), ocre ver- dação do branco de chumbo, sendo
tempos breves, decidiu-se construir melho, terra verde, esmalte e azul que o resultado de maior sucesso foi
uma câmara de ozono. Depois de da Prússia. É muito difícil propor na realidade a construção da câmara
algumas alterações ao seu design, uma justificação para os diferen- climática específica que permitiu ace-
a versão final optimizada consiste tes comportamentos dos pigmentos lerar uma reacção que normalmente
num gerador de ozono alimentado a estudados visto que têm, na sua maio- demora anos a verificar-se.
oxigénio que produz ozono suficien- ria, características químicas e físicas
temente puro para não desencadear muito diferentes. A dimensão das
BIBLIOGRAFIA
reacções secundárias. Esse ozono é partículas pode ser um factor deter- Gettens, R. J.; Kühn, H; Chase, W. T., “Lead
posteriormente canalizado para um minante pois partículas mais peque- White”, Artist’s Pigments, Ashok Roy (ed.)
recipiente de plástico fechado (mas nas têm um poder cobrente (covering (1986), 2, 67-82.
Albrecht Körber

Strechau, exemplo de pintura mural degradada (1984); após restauro (1988) e reaparição da degradação (2005).

não hermeticamente). A presença da power) maior e portanto uma maior Cennini, C., 1982, Il libro dell’arte; Chapters
plattnerite foi, então, verificada com o eficiência na protecção. Como refe- LIX and LXXII; Brunello, F. (ed.), Neri Pozza
Editore.
auxílio da técnica de espectroscopia rido anteriormente, o pH do meio é
Matteini, M. and Moles, A., “The reconversion
Raman e difracção de raio-X. muito importante, decidindo estudar- of oxidized white lead in mural paintings: a con-
Como conclusões finais deste estudo -se, por conseguinte, a influência que trol after a five year period”, The International
preliminar foi possível, antes de mais, os pigmentos mencionados poderiam Council of Museums – ICOM Committee for
confirmar as hipóteses anteriormente ter neste parâmetro. Efectivamente, Conservation, 6th Triennal Meeting Ottawa,
vol III (1981), 1-8.
referidas em várias publicações. O com excepção do azul de Prússia,
Koller, M.; Leitner, H. and Paschinger, H.,
óleo de linho protege muito bem o verificou-se que existe uma variação “Reconversion of altered lead pigments in alpine
pigmento em causa. A explicação inversamente linear entre a alcali- mural paintings”, Studies in Conservation, 35
mais coerente prende-se com o facto nidade induzida e a capacidade de (1990), 15-20.
de este aglutinante orgânico formar proteger o branco de chumbo. No Garcia, M. C. P.; “A obra al negro vs. a obra ao
branco – Alteração do branco de chumbo na pintu-
um filme muito fino, flexível e resis- entanto, não se pretende que esta seja
ra mural portuguesa – Experiências de reconver-
tente que evita o contacto com os pos- a única explicação para o diferente são”, Trabalho final de estágio, Lisboa 2000.
síveis agentes poluentes presentes na comportamento dos pigmentos.
atmosfera. O pigmento sofreu uma Ulteriormente, verificou-se a impor-
degradação mais extensa quando tância da alcalinidade do suporte. O
aplicado a fresco, como era previsto, branco de chumbo foi aplicado sobre
mas também em presença de cola pedra de Lecce, um tipo de pedra CRISTINA AIBÉO,
animal. Esta substância degrada-se constituída quase exclusivamente Doutoranda de Ciências para a
facilmente, perdendo as suas carac- por carbonato de cálcio. Como seria Conservação do Património Cultural
terísticas de coesão. A caseína e o de esperar, o pigmento não sofreu na Universidade de Florença
ovo revelaram ser eficazes contra a qualquer alteração mesmo após aibeo@yahoo.com
degradação em causa. prolongada exposição à atmosfera

24 Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009


PROJECTOS & ESTALEIROS
Tema de Capa

Igreja de Santa Maria da


Vitória – Mosteiro da Batalha
Implementação de um sistema piloto de
protecção isotérmica
Durante a obra de conservação e restauro dos vitrais do Mosteiro de Santa Maria da Vitória na
Batalha para o IPPAR (actual IGESPAR), foi levada a cabo a idealização e implementação de um
sistema isotérmico para a protecção de duas janelas de vitral quinhentista na capela-mor. Este
projecto-piloto desenvolveu-se entre Novembro 2006 e Agosto de 2007.

Nos séculos XV e XVI, o Mosteiro


da Batalha era um centro de produ-
ção de vitral. Ao longo dos tempos,
a grande combinação de soluções
estilísticas, a variedade de materiais
utilizados e as diferentes opções téc-
nicas, que permitem observar no
mosteiro vidro colorido sobre tra-
balhados em madeira e pedra, e
vitral, mostram uma clara intenção
de criar um ambiente rico, colorido
e luminoso. Este mosteiro continua
a ser o mais importante centro de
vitral no país1.
É hoje assumido que a colocação de
um sistema isotérmico numa janela
com vitral é uma medida de protec-
ção eficiente. Esta protecção permiti-
rá diminuir ou travar a degradação
a que o vitral está normalmente
sujeito quando em contacto com
o ambiente exterior. Este projecto-
-piloto foi desenvolvido com a
intenção de criar, no futuro, uma
protecção física para todos os vitrais
dos séculos XV e XVI. A implemen-
tação desta protecção irá igualmente
diminuir a necessidade de futuras
intervenções directas sobre o vitral.

VIDRO PROTECTOR
Sabendo de antemão que a maior
ameaça para os vitrais é o nível ele-
vado de humidade, mais especifica-
mente a condensação que, ao ocor-
rer na superfície de vidro, desen-
cadeia fenómenos de corrosão, é
Janela não protegida à esquerda e janela com protecção isotérmica à direita. fácil entender que a melhor medida

Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009 25


PROJECTOS & ESTALEIROS
Tema de Capa

de protecção, seguiu-se a escolha


dos materiais e das suas caracterís- INTERIOR

ticas, nomeadamente a compatibili-


dade entre os materiais, estabilidade VITRAL

a longo prazo, resistência e estética. PEDRA PEDRA

Reunida toda a informação neces-


sária, projectou-se um sistema iso- VIDRO LAMINADO
LAMINATED GLASS

térmico com uma moldura em aço


inox, constituído essencialmente por
barras de secção quadrada, tubos, EXTERIOR

varões roscados e anilhas, pintado


Detalhe da colocação dos painéis de vitral na Esquema da estrutura aplicada na moldura de
de modo a assemelhar-se ao chum- pedra.
estrutura.
bo, proporcionando uma integração
de conservação será sempre a sua estética com o vitral. (10/2007 – 10/2008) permitiram
protecção2. Devido à delicadeza do trabalho em validar o sistema ou determinar a
Um sistema isotérmico consiste pedra, calcário oolítico de elevada necessidade de ajustes. O objectivo
essencialmente na colocação de um porosidade e densidade baixa, foi deste trabalho foi obter um siste-
vidro protector na posição original uma preocupação constante o peso ma de protecção isotérmica com os
do vitral, movendo o vidro histórico da totalidade do sistema – estrutura menores impactos possíveis para a
alguns centímetros para o interior de metal + painéis de vitral + vidro estrutura ornamental, que permitis-
do edifício utilizando uma estrutura laminado, e o seu impacto na estru- se, se necessário, futuros reajustes
metálica. Ao trazer o vitral para o tura da pedra. da distância interna entre o vitral e
ambiente interior do edifício, nor- Como resultado final, o sistema o vidro de protecção. De momento,
malmente (mas nem sempre) menos desenvolvido neste projecto apre- está a ser realizada a análise dos
agressivo que o ambiente exterior, senta várias inovações: dados da monitorização e dos sen-
evitar-se-á o impacto das variações • De modo a evitar o excesso de peso, sores de corrosão. As observações
de temperatura, que naturalmente nas barras horizontais, utilizaram-se visuais apontam resultados optimis-
provocam condensação no vidro. estruturas ocas de secção quadrada. tas, não se tendo observado fenóme-
• Para aumentar a resistência da es- nos de condensação na superfície do
DESENVOLVIMENTO DO trutura, nas barras transversais, foi vitral.
SISTEMA utilizado um mecanismo roscado
O desenvolvimento deste sistema com porcas e anilhas que permitiu REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
incluiu uma pesquisa dos exem- fixar as estruturas verticais (barras 1
BARROS, Carlos Vitorino da Silva, “O Vitral
plos de trabalho realizados noutros e painéis), eliminando todos os pon- em Portugal – séculos XV-XVI”, 2.ª edição,
países da Europa, em particular as tos de solda. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa,
soluções adoptadas na Catedral de • De modo a minimizar o impacto Portugal, 1988.
2
REDOL, Pedro, “O Mosteiro da Batalha e o
Leon, tentando adaptar as experi- na pedra, foram introduzidas alte- vitral em Portugal nos séculos XV E XVI”, 1.ª
ências existentes ao nosso caso par- rações na estrutura de metal que edição, Câmara Municipal da Batalha, Agosto
ticular, em colaboração com o Dr. permitiram diminuir o diâmetro e a de 2003.
Joost Caen, especialista em vitral da profundidade dos orifícios efectua-
Universidade de Antuérpia. dos na pedra.
Realizou-se um levantamento arqui- • Construiu-se um sistema móvel, já
tectónico detalhado, que permitiu que o tubo introduzido na barra de FÁTIMA DE LLERA,
obter medições precisas do desen- secção quadrada pode ser deslocado Técnica de Conservação e Restauro
insitu@insitu.pt
volvimento das janelas com o objec- e ajustado através da ranhura com
MAFALDA ALEGRE,
tivo de efectuar o desenho técnico um parafuso.
Técnica superior de Conservação
do sistema de protecção e ensaiar o e Restauro
modelo. RESULTADOS FINAIS mafalda.alegre@gmail.com
Idealizou-se um sistema flexível na A colocação de sensores de corro- In Situ, Conservação de Bens
procura de uma solução que possi- são M1.0, pelo Instituto Fraunhofer, Culturais, Ld.ª
bilitasse ajustes após o resultado da em três posições, e a análise da CARLOS VITORINO,
monitorização realizada ao longo de medição de parâmetros termohigro- Arquitecto
um ano. métricos no interior e exterior do cmfv – Arquitectos e Designers Ass.
Após a definição da distância média mosteiro, assim como, observações cmfv@mail.telepac.pt
óptima (8 cm) entre o vitral e o vidro visuais efectuadas durante um ano

26 Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009


NOTAS HISTÓRICAS
Tema de Capa

Tratadismo e património
O Renascimento assumiu a memória das antiguidades romanas como atitude de referência a valo-
res sociais, humanos e até políticos, o qual pretendia reacender sentimentos positivos das comu-
nidades do espaço italiano à luz da tradição identificável dos seus mais poderosos antepassados.
Era o renascimento da cultura clássica greco-latina como afirmação hegemónica no espaço medi-
terrânico, depressa transformado no padrão unificador das artes na civilização ocidental.

Numa primeira fase podemos enten-


der esse programa cultural, de van-
guarda, como retoma de um patri-
mónio imaterial, assente na identi-
ficação dos métodos de pensamento
e normas de procedimento capazes
de explicar as obras da literatura
e da arte dos seus antepassados.
Daí ao coleccionismo de objectos
físicos reportando essas memórias
foi apenas um pequeno passo. Ao
longo de todo o século quinze mui-
tos foram os ilustres membros do
clero estabelecidos na cúria romana
que se dedicaram a recolher velhos
tratados sobre os mais diversos
campos do saber bem como tex-
tos perdidos da literatura latina,
ainda que, por vezes, tivessem que
os falsificar ou inventar. O pintor
Andrea Mantegna construiu uma
sua casa à maneira romana na cida-
de de Mântua, apenas para guardar
a colecção de objectos arqueológicos
recolhidos na região.
O património arquitectónico consti-
tuiu em si mesmo matéria de uma
experiência para o renascimento dese-
jado, mais como tema de novas cria-
ções e método para os processos de
trabalho em arquitectura como profis-
são, do que propriamente como um
espólio a conservar. Tratava-se menos
de o considerar enquanto obras ou
monumentos intocáveis que, ainda
assim, eram relativamente escassos se
pensarmos em obras completas, visí-
veis, reutilizaveis. O recinto dos foros
imperiais em Roma apareceu como
um amontoado de pedras servindo
como objecto de estudo e manancial Capa do tratado de Sebastiano Serlio representando as ruínas de um pórtico romano.

Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009 27


NOTAS HISTÓRICAS
Tema de Capa

O tema do arco de triunfo romano na porta de um palácio quatrocentista de Ferrara.

de relíquias soltas levadas para casa Coliseu ou as Basílicas tardo-roma- cilmente atingível. Foi necessário
dos coleccionadores. Foi nessa linha nas, reutilizando-as como pretexto passar pela experiência romântica
que Leon Battista Alberti dedicou da imagem de grandeza da nova para estender o valor de memória
um dos seus mais famosos textos, Roma católica. íntima às mais diversas formas cons-
De Re Aedificatori, à reinterpretação Diferentes foram os tratados do truídas. Primeiro as medievais como
do tratado de Vitrúvio, da época de século dezasseis. Completamente sinal de outros tempos e espaços
Cesar Augusto, também este consti- dirigidos para servir como catálogo das sociedades perdidas e, ingenua-
tuído por um conjunto de normati- de formas e organizados para ins- mente, entendidas como experiên-
vas tendentes a garantir as qualida- truir sobre as regras de uma sintaxe cias positivas de equilíbrio social.
des construtivas e operacionais das classicista em arquitectura, toma- Depois as exóticas, distantes, utó-
arquitecturas mais representativas vam o levantamento rigoroso dos picas ou inatingíveis, como escolha
das virtudes do império, incluindo edifícios antigos como modelo do pessimista de quem renegava o pre-
a ideia de copiar os monumentos da fazer, contribuindo também para o sente e já não acreditava no futuro.
Grécia antiga. O escrito teórico de reconhecimento da importância da E assim se perdeu o jeito tratadista
Alberti sobre a arquitectura desen- sua conservação. Ao longo de todo de imitar o antigo e as razões da
volve-se ao nível dos conceitos e o percurso da história moderna na disciplina no fazer, porque os povos
métodos para a construção da cida- Europa, até à revolução industrial preferem agora procurar as memó-
de ao serviço dos homens. E coloca- e ao romantismo dela decorrente, rias que os ajudem a compreender a
-se, de modo muito claro, ao lado da as academias das artes e, em espe- sua própria identidade.
ideia de conservar os monumentos cial as academias de arquitectura,
antigos de Roma como amostra e dedicaram-se a tomar o tratadismo
lição para os vindouros, exemplo de como princípio absoluto da apren-
beleza mas também expressão do dizagem e os monumentos clássicos
saber dos povos antigos. Foi então como testemunho da qualidade a
que as autoridades da Igreja se atingir na criação, conferindo-lhes DOMINGOS TAVARES,
Arquitecto
deram conta da importância dessas um papel de modelo, ou arquétipo,
arquitecturas excepcionais, como o marca memorial de uma beleza difi-

28 Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009


DIVULGAÇÃO
Tema de Capa

Valorização do Mosteiro de
Santa Clara-a-Velha de Coimbra
Contemporaneidade e Passado...
O Sítio devolvido à cidade e ao País
Coimbra ansiava, há largas décadas, que a velha Igreja do Mosteiro de Santa Clara e as histórias
que o conjunto encerra, entre mistérios de vivências monásticas, de uma luta desigual com as gentes
que aqui sobreviveram e as tormentosas águas do Mondego, de uma senhora Rainha de Portugal e
patrona desta Cidade – Isabel, de uma Inês martirizada cuja dignidade tem vindo a ser recentemen-
te restituída, Coimbra aguardava, dizia, que este objecto patrimonial lhe fosse devolvido.

INVESTIGAÇÃO, VALORIZAÇÃO
E ESTRATÉGIAS…
O projecto de valorização de Santa
Clara-a-Velha revestiu-se de aspectos
peculiares que não encontramos em
intervenções noutros monumentos.
Da inicial requalificação do acesso
e percurso de visita à igreja semi-
-alagada, passou-se à descoberta de
Artur Côrte-Real (DRCC)

um conjunto monástico de elevado


valor arquitectónico e artístico, deter-
minando a decisão da manutenção
do espaço a seco e a construção de
uma ensecadeira, permitindo tornar
Igreja e claustro do Mosteiro. Devolvido o sítio à cidade...
o ambiente seco.
O projecto de valorização do antigo entre os responsáveis intervenientes, preliminares da mesma, com uma
mosteiro, lançado em 2004, contem- pretendendo-se desta forma optimi- particular preocupação na compo-
plou a continuação das escavações zar recursos, como fossem as aces- nente metodológica2 e da arquitec-
arqueológicas, a conservação da sibilidades, infra-estruturas várias, tura3, vindo a ser apresentados, até
ruína e o arranjo do espaço intra- etc., traduzindo a requalificação do ao momento, diversos trabalhos em
-muros da cerca, bem como a concep- conjunto monástico numa ideia de congressos e revistas da especiali-
ção de um edifício destinado a alber- Projecto de Cidade1, e cuja receptivi- dade4.
gar o centro interpretativo do sítio. dade pelos responsáveis autárquicos Considerada a operação suficiente-
Pretendeu-se que esta intervenção de foi bem entendida. A particularidade mente divulgada em termos gené-
requalificação resultasse articulada da intervenção arqueológica, realiza- ricos, iniciou-se um processo de
de forma eficaz com a realidade física da em ambiente adverso – húmido, investigação sectorial, direccionada
do monumento, com a especificida- e as dificuldades metodológicas sub- para as colecções dos acervos exu-
de das ruínas, com a existência de jacentes, determinaram que se esta- mados e inventariados, tendo sido
dispositivos de contenção aquática, belecessem prioridades no âmbito desenvolvidos estudos dos vidros,
com o sistema hidrológico da zona e da investigação do sítio, pelo que, e das cerâmicas, do material lítico, da
que se harmonizasse com a paisagem concluída a escavação, se iniciaram azulejaria, dos enterramentos, do
envolvente. trabalhos de gestão dos acervos reco- sistema hidráulico, da numismática,
A transversalização de ideias e inte- lhidos, de qualidade e quantidade dos adornos, etc.5. Outras áreas de
resses no âmbito do planeamento assinaláveis. Sabendo que a visibi- conhecimento foram implementadas,
do território, determinou um cui- lidade do sítio, a par da sua impor- em particular no âmbito das arqueo-
dado particular com a envolvente tância simbólica e patrimonial, se ciências6.
de Santa Clara-a-Velha, pelo que os sedimentaria com a divulgação dos A operação de requalificação desen-
projectos abrangidos pelo Programa dados científicos da escavação, enten- volvida pelo então IPPAR no Mos-
Pólis foram objecto de discussão deu-se dar a conhecer os resultados teiro de Santa Clara-a-Velha, iniciada

Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009 29


DIVULGAÇÃO
Tema de Capa

núcleo em quatro bolsas temáticas:


Fundação, Administração, Devoção
e Vivências. No que diz respeito
à ruína, envolve a transmissão da

Artur Côrte-Real (DRCC)


leitura, ocupação e articulação dos
Miguel Munhós (DRCC)

espaços monásticos com as regras da


clausura. Pretende-se, assim, ilustrar
as vivências da comunidade monás-
tica nas suas várias componentes,
O eminente estatuto social das donas neste
a história do próprio edifício, a ar- A componente de investigação arqueológica mar-
Mosteiro é patente no tipo, qualidade e proveni- queologia do lugar. cou e determinou todo o Projecto de Valorização
do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha. Escavação
ência dos objectos que as rodeiam. Jarra de corpo
da sala B.
globular e base troncocónica, séc. XVII. O SÍTIO DEVOLVIDO À CIDADE
E AO PAÍS…
no ano de 1995, consubstancia a ideia Neste espaço de arquitectura con- das águas e a fragilidade do território.
de que as decisões tomadas assumi- temporânea, concluído em 2008, No âmbito desse resgate, foram efec-
ram um carácter fundamental para a procede-se à conservação, estudo e tuadas escavações arqueológicas que
actual conjuntura de relação efectiva apresentação do espólio arqueológico permitiram recuperar um enorme e
e afectiva com os Públicos. De facto, a resultante das escavações. Assume-se, diversificado espólio, que é o esteio
etapa correspondente à apresentação igualmente, como pólo cultural aberto da exposição dedicada às vivências
pública deste espaço, acontecida em à cidade e às manifestações artísticas. da clausura. Os objectos reunidos
18 de Abril do corrente ano, é visí- O Mosteiro de Santa Clara-a-Velha permitiram constatar que a elite
vel com a execução do projecto de oferece uma área de desfrute público social recolhida entre os muros man-
valorização, da autoria de Alexandre de cerca de 28.000m2, que engloba a dados levantar pela Rainha, se rode-
Alves Costa e Sérgio Fernandez, o visita à ruína através de amplo espaço ava de objectos requintados, apesar
qual contemplou a conservação e ao ar livre, e ao centro interpretativo. dos votos de pobreza e de humildade
restauro das ruínas – igreja e claus- Imagens, sons, palavras e objectos a que as Clarissas se obrigavam. É
tro, escavações arqueológicas, a cons- traduzem as temáticas subjacentes parte deste espólio – raras porcelanas
trução de um edifício de raiz que ao projecto museológico: a história do e faianças, vidros de fino recorte e
alberga o Centro Interpretativo de sítio, as vivências conventuais e a requa- manufactura, rosários, anéis, brincos
Santa Clara-a-Velha, auditório, loja, lificação do espaço. e outros objectos de uso pessoal –
laboratórios, depósitos de materiais, A história do monumento perpassa associado a peças provenientes de
espaço pedagógico. Foi igualmente em diversos registos, entre os quais Santa Clara, mas à guarda de outras
executada uma intervenção no âmbi- dois filmes de autor: De Assis a instituições, que materializa os gran-
to dos arranjos paisagísticos, dos cir- Coimbra: vida e morte de um mos- des temas da exposição de sítio já
cuitos de visita, entre outros. teiro desvenda marcos da existência visitável.
Esta abrangente investigação, de- de Santa Clara de Coimbra, desde A estratégia que, ao longo dos anos,
vidamente enquadrada numa das a fundação até ao seu abandono, e se construiu para Santa Clara-a-Velha
importantes fases do projecto de Memorial à Água revela o resgate do só será possível se o sítio for dotado
valorização do Mosteiro de Santa monumento para a contemporanei- de recursos humanos qualificados
Clara-a-Velha, serviu como suporte dade, numa luta contra a presença para as muitas valências presentes,
essencial aos conteúdos do Programa
Museológico para o sítio7, já em apre-
sentação pública no novo Centro
Interpretativo e cuja exposição se
intitula “Freiras e Donas de Santa
Clara: arqueologia da clausura”. O
plano8 integrou três unidades físicas
distintas – espaços do novo edifício
Artur Côrte-Real (DRCC)

a construir, uma casa anexa à cerca


e as ruínas do conjunto monástico.
No edifício, a exposição organiza-
-se em núcleos distintos: História,
Arquitectura e Intervenções contem-
porâneas, desdobrando-se o primeiro O novo Centro interpretativo do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha.

30 Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009


DIVULGAÇÃO
Tema de Capa

em particular da igreja e do claustro, per-


mitiu conhecer o que poderíamos designar
de idades do mosteiro, isto é, as etapas mais
marcantes da sua edificação, desde a constru-
ção, no século XIV, até ao seu enterramento e

Artur Côrte-Real (DRCC)


Artur Côrte-Real (DRCC)

abandono (...)” in MACEDO, Francisco Pato


– Santa Clara-a-Velha, à procura de um mosteiro
perdido, in Conversas à volta dos conventos,
Casa do Sul Editora, Évora, 2002, p. 95-108.
O citado investigador, assistente do Instituto
de História de Arte da Faculdade de Letras
da Universidade de Coimbra, ultima a sua
Maqueta do Projecto de Alexandre Alves Costa e Zona de recepção de públicos no novo Centro
tese de doutoramento sobre a problemática
Sérgio Fernandez (Atelier 15) Interpretativo, marcado pela forte afluência de
da arquitectura deste conjunto monástico.
visitantes. 4
Foram já publicadas cerca de uma dezena de
artigos, dos quais sublinho: CÔRTE-REAL,
Artur. SANTOS, Paulo César & MOURÃO,
entre a investigação e as áreas que Consideramos que os resultados obti- Teresa – Mosteiro de Santa Clara-a-Velha de
Coimbra. Intervenção arqueológica – 1995-1999,
dela derivam tais como o desenho de dos, desenhados e estrategicamente in Actas do 3.º Congresso de Arqueologia
campo e gabinete, a organização dos moldados ao longo destes últimos Peninsular, Vol. 7, Porto, ADECAP, 2000, p.
espólios – que contabilizam largos doze anos, decorrido que está cerca 9-29; CÔRTE-REAL, Artur. MACEDO, Fran-
milhares de objectos e fragmentos, de um mês após a abertura oficial do cisco Pato – Récupération et étude du cloître de
a inventariação em base de dados, a Santa Clara-a-Velha, ultrapassam as Sainte Claire l’Ancienne de Coimbra (XVI siècle),
Révue de l’Art, 2002.
importante e imprescindível área de nossas expectativas, quer pelo núme- 5
Os estudos em curso são da responsabilida-
conservação e restauro dos acervos, ro de visitantes contabilizados – cerca de científica de: Manuela Almeida Ferreira;
a elaboração de projectos comple- de 6000, quer pela receptividade rela- Francisco Pato Macedo e Miguel Bernardo;
mentares à musealização do sítio, a tivamente aos conteúdos apresenta- Catarina Leal; Saul Gomes; Artur Côrte-Real;
programação cultural, entre outras. dos. Coimbra ampliou, desta forma, Lígia Inês Gambini; José Mateus e Paula
Queiroz; Sara Trindade; Sandra Costa; Eugé-
De facto, há que considerar que o os recursos patrimoniais de que dis- nia Cunha.
sítio foi construído por pessoas e põe, capitalizando mais públicos e 6
Contamos com a participação do Centro de
para as pessoas. O futuro relativo à renovando interesses. Consideramos Investigação de Paleoarqueologia, do IGES-
gestão deste espaço deve ser desde já que a investigação e o resultados PAR, com a coordenação de projecto do
equacionado, de modo a que o con- publicamente apresentados, a par Doutor José Mateus.
7
O Programa Museológico é da responsabi-
ceito de uma intervenção apostada naturalmente da importância do sítio lidade formal do coordenador do projecto do
em Devolver o sítio à Cidade... na nas suas mais variadas componen- Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, sendo coor-
sua verdadeira abrangência venha a tes – simbólica, patrimonial, urbana denado pela Dr.ª Lígia Inês Gambini com
ser autenticamente expressiva, seja – têm permitido criar a visibilidade a participação transversal de toda a equipa
cumprida. Os equipamentos e infra- pública e política que faz emergir a responsável pela investigação em curso. Para
o efeito foi indigitada uma equipa de traba-
-estruturas com que Santa Clara-a- intervenção no Mosteiro de Santa lho com vista à execução do citado programa.
-Velha ficou dotada após a conclusão Clara-a-Velha “(...) como uma das mais 8
Foi elaborado pela Dr.ª Lígia Inês Gambini
da obra devem, por princípio de uti- importantes revelações no quadro da e subsequentemente discutido um esboço de
lidade pública, ficar disponíveis, fun- arqueologia medieval e da conservação e programa museológico, o qual mereceu apro-
cionais e operativos para que o sítio revitalização monumental em Portugal, e vação superior, estando em execução interna
o programa definitivo.
se torne num pólo cultural aberto à ao que cremos, na Europa (...)”9. 9
PEREIRA, Paulo – Mosteiro de Santa Clara-
cidade, ao país e ao mundo, de modo -a-Velha. Programa de recuperação, reabilitação,
que, numa óptica de colaboração com NOTAS restauro e valorização in Património. Balanço
instituições nacionais e estrangeiras 1
A abertura condicionada ao público, veri- e Perspectivas – 2000 – 2006”, IPPAR, 2002,
se potencie o desenvolvimento do ficada no dia 18 de Abril de 2009, responde, p. 176.
conhecimento científico multidiscipli- perante a Cidade e os cidadãos em geral, à
enorme expectativa criada em torno deste
nar que este sítio arqueológico permi-
projecto, sendo expressa na enorme adesão
te (nas áreas da história, arqueologia, de visitantes.
arqueociências, antropologia, conser- 2
Este tema foi aprofundado na Tese de
vação e restauro, história da arte e da Mestrado: CÔRTE-REAL, Artur – Mosteiro
arquitectura, etc.) e numa perspectiva de Santa Clara-a-Velha. Novos dados para o seu ARTUR CÔRTE-REAL,
conhecimento. Operação arqueológica.1995/1999,
de programação cultural renovada Técnico Assessor da Direcção Regional
Faculdade de Letras da Universidade de
direccionada para que a sociedade de Cultura do Centro,
Coimbra, 2001.
dinamize a difusão e absorção dos Coordenador de Equipa de Projecto
3
“(...) A investigação desenvolvida sobre a
valores culturais aos cidadãos. história construtiva de Santa Clara-a-Velha,

Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009 31


PERCURSOS
Tema de Capa

Marcas das Ciências e das


Técnicas pelas ruas de Lisboa
Sabe a causa porque os hospitais mais antigos ficavam nas encostas sobre o Tejo ou porque o
Intendente se chama assim? Por acaso, já alguma vez saboreou os nomes dados a largos e pátios
lisboetas ligados às artes e ofícios, como ao industrialismo setecentista?

Como as modificações nas acti- mais adiante, ou para o laboratório da Universidade de Lisboa, e passou
vidades humanas, provindas das imponente de tecnologias de ponta, seguidamente a um alargamento
ciências, impõem um recorte nas ao virar da outra esquina. e aprofundamento por um equi-
cidades, num cruzamento mútuo Paralelamente, num contexto de glo- pa interdisciplinar com cerca de 70
– com influências, condicionamen- balização e porque a modernidade voluntários, entre consultores, cola-
tos e determinações –, o dinamismo transformou os interesses e exigên- boradores, participantes e webmas-
urbano dá visibilidade ao dinamis- cias, quando viajarmos, vamos que- ters. Dada a riqueza da temática
mo científico e técnico/tecnológico. rer ver coisas fora dos clichés rotos e como Lisboa provou que muito
Realidade que muito pode ser apro- por tanto uso no mesmo tipo de pode ensinar científica e tecnica-
veitada como elemento formativo, cartaz. A expectativa será, sim, de mente, o desejo de fazer intervir a
ao serviço de uma comunidade mais conhecer realidades diferentes e de investigação na prática e em aplica-
consequente, pois favorece a percep- aproveitar para ver aquilo que não ções imediatas, tem vindo a desdo-
ção de quanto eles intervêm na con- está na Internet ou aquilo que ela faz brar-se em diferentes produtos1, que
solidação da cultura. Assim sendo, a antever pelo desejo. Que ninguém comportam, de momento:
leitura desta configuração, comple- duvide, a importância das ciências • Base de dados com fichas relativas
xa e difusa, da visão à compreensão, e técnicas/tecnologias na moderni- a objectos e a sujeitos, 1000 online2
tem um impacto muito mais amplo dade torna-as presença muito fortes e 1000 em elaboração, elaboradas
do que é suposto comummente, pois no mundo actual, e isso vai ter que segundo estas características: cate-
implica uma vertente gnosiológica fazer parte dos programas e rotei- gorias – ciências, técnicas, tecno-
e epistemológica a favorecer uma ros turísticos. Como corresponde- logias, configurações (contextos e
consciência mais articulada entre o rá a matéria que requer particular impactos histórico-políticos, sócio-
saber e a urbe. investimento na formação interdis- -económicos e literários-culturais),
Nas metrópoles, as pessoas têm cada ciplinar do sector, fundamental para memórias e curiosidades; domínio
vez menos uma relação próxima com uma informação rigorosa e exigente. do conhecimento – 42 domínios dis-
a envolvente quotidiana urbana: da Será importante, pois, que estes vec- poníveis; tipo – toponímia, construí-
avenida à estátua por onde passam; tores facultem resultados interpre- do e estatuária; entidades e compo-
do vestígio da ponte romana ao tativos conducentes à definição de nentes a que estão ligados; acessibi-
saber-fazer tradicional. Isso empo- ambientes culturais, para conseguir lidades para invisuais ou deficientes
brece a vida e contribui para sensa- circunscrever interferências defini- motores; GPS). Com vista a garan-
ções de desagregação e insegurança. doras entre lugar – património – tir uma maior visibilidade, está em
Como efeito, a sensação de solidão memória, e compreender melhor os curso o processo para a copiar, pro-
à ida para o trabalho ou no passeio nichos humanos onde as ciências ximamente, como “enciclopédia” do
semanal também pode resultar disto e as técnicas/tecnologias coabitam Sapo/Saber (http://marcasdascien-
tudo. Conjuntura agravada, quan- com a cidade. cias.fc.ul.pt/pagina/inicio);
do se está perante o desconhecido, Com base neste tipo de preocupa- • Criação da disciplina de Ciência e
ou seja fora da terra. Mas que será ções, o projecto Marcas das Ciências Cidades, no contexto das disciplinas
modificada, caso se saiba qual era e das Técnicas pelas ruas de Lisboa de FCSE da Faculdade de Ciências
o processo usado pelo padeiro com teve início remoto há mais de dez da Universidade de Lisboa;
nome recordado nesta travessa ou anos, no âmbito das disciplinas de • Núcleo de turismo científico e tec-
a cientista pioneira que ali viveu e História das Ciências, Sociologia das nológico (NTCT), sedeado na Junta
passou a topónimo, como a justifica- Ciências e Filosofia das Ciências, mi- de Freguesia do Campo Grande;
ção para o memorial ao navegador nistradas na Faculdade de Ciências objectivo imediato de contribuir

32 Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009


PERCURSOS
Tema de Capa

com percursos, passeios e publi- • Início da colecção Marcas das – A Colina de Santana e do Rato ao
cações para as Comemorações do Ciências e das Técnicas da Editora Chiado, II – Alcântara, Ajuda e Santa
I Centenário da Universidade de Apenas Livros. No prelo: Ana Maria de Belém; Isabel Marcos – As
Lisboa, em 2011 (http://turismocien- Luísa Janeira – Configurações de Marcas da Cultura Mundializada na
tificotecnologico.wordpress.com); Lisboa: Ciências, Técnicas, Saberes – I forma de Lisboa.
Como consequência e sem querer
ficar limitado por estas realidades,
mas desejando alargá-las3, o objec-
tivo maior do projecto é preparar
pessoas para que outros vivam des-
cobertas do género, misto de saber
Início > Fichas

e de prazer, e as aproveitem como
Todos os sujeitos Turismo Científico e Tecnológico,
com gestos de cidadania.
Jacob Rodrigues Pereira (Ref.: F.182) AA • Revisão: ALJ
Última actualização: 23:26, 25/11/2008

NOTAS
1
A gestão dos produtos está entregue à
empresa PoisosSendas&Saberes, dinamizada
por Maria Mascarenhas.
2
Área coberta aproximadamente e já online:
Santa Apolónia a Pedrouços, entre o Tejo e a
cota do Jardim Amália.
3
Exemplo: levantamento de dados por um
grupo de alunos e professores da Escola
Secundária de Montemor-o-Novo, com vista
Domínio do conhecimento a dar início a um projecto intergeracional
Ciências da educação sobre Marcas das Ciências e das Técnicas pelo
concelho de Montemor-o-Novo, que se espe-
Cronologia
Nasceu no ano de 1715 em Peniche e faleceu em Paris em 1780. Tornou-se membro da Royal Society of London, ra poder vir a ter o apoio da Câmara Muni-
em 1759, e também da Academia de Paris. Publicou "Observations Sur Les Sourd-Muets", em 1762. Em 1834 foi cipal de Montemor-o-Novo e contar com
fundado, entre nós, e em sua memória, o Instituto Jacob Rodrigues Pereira. a colaboração da Universidade da Terceira
Idade, Arquivo Municipal e Escola Secundá-
Historial ria locais (http://marcas-mon.blogspot.com).
O pai chamava-se Magalhães Rodrigues Pereira, natural de Chacim, Macedo de Cavaleiros, logo com apelidos
tipicamente portugueses, facto que desfavorece a tese de uma origem espanhola. A mãe chamava-se Abigail
Ribea Rodrigues, possivelmente também de descendência judaica. Jacob nasceu em Peniche, onde existem
referências toponímicas na Praça Rodrigues Pereira. Baptizado como Francisco António Rodrigues, a "camu-
flagem" de nomes contornaria os caminhos da inquisição, o que era comum nesta altura, mas, nem por isso,
a família sentiu segurança, a ponto de mudar-se para Bordéus, onde já havia uma comunidade judaica portu-
guesa. Nesta cidade, dedicou-se ao estudo da comunicação com e para surdos-mudos, pois tinha um carinho
especial por eles, dado serem discriminados e vistos como loucos. A influência espanhola que recebeu deve-se
ao intercâmbio de saberes com o padre Juan Pablo Bonet, que elaborou um código de sinais de comunicação ANA LUÍSA JANEIRA,
com surdos e representou uma fonte para os seus métodos. Em Bordéus, deixou influência na toponímia, Professora Associada com Agregação em
especificamente na Rue Rodrigues-Pereire, e em Paris, no Boulevard Pereire e numa estação do Metro perto
dos Champs-Elysées. O Rei Luís XV reconheceu-o, no papel de pedagogo, de investigador e na benemerência
Filosofia das Ciências, Secção Autónoma
social, atribuindo-lhe uma pensão generosa e vitalícia. Esta família teve, em França, grande influência em vários de História e Filosofia das Ciências,
domínios, da política ao mundo das finanças, passando pela construção dos primeiros caminhos-de-ferro. Faculdade de Ciências da Universidade
Foram igualmente donos fundadores da Société du Crédit Mobilier e, quando esta instituição entrou em
processo de falência, contribuíram com dinheiros próprios para a sua restauração. Com igual dinamismo, foram de Lisboa.
donos da Compagnie Générale Transatlantique – French Line, fundada em 1861, uma das mais bem apetrecha- Co-fundadora, primeira coordenadora e
das e mais rápidas na travessia França-América. Nos finais do séc. XIX, a família Pereire converteu-se ao catoli- actualmente investigadora do
cismo, como forma de não serem mais perturbados pelos anti-semitas. Por último, este estudioso foi sepultado
no cemitério hebraico de La Villette, em Paris, e depois transferido para o de Montmartre, onde repousa. CICTSUL – Centro Interdisciplinar de
Ciência, Tecnologia e Sociedade da
Galeria de imagem Universidade de Lisboa, Instituto de
Início > Fichas Investigação Científica Bento da Rocha
Topo voltar Cabral
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aljaneira@sapo.pt
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Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009 33


UMA FIGURA DO PASSADO
Tema de Capa

Bento de Jesus Caraça


Militante da cultura integral do indivíduo
Bento de Jesus Caraça nasceu em 1901, em Vila Viçosa, filho de trabalhadores rurais. Viveu os pri-
meiros anos da sua vida na Herdade da Casa Branca, na freguesia de Montoito, onde aprendeu a
ler e a escrever com um trabalhador. Tendo notado a sua grande inteligência, a esposa do patrão
do pai decidiu encarregar-se dele e custear os seus estudos.

Foi sempre um aluno muito bri- associações que deu as suas célebres nadores são António da Silveira,
lhante tendo frequentado liceus em conferências que começaram a fazer Manuel Valadares e António Ani-
Santarém e Lisboa (Pedro Nunes), dele uma figura lendária entre as ceto Monteiro. Com o “Núcleo”
e entrado para o Instituto Superior classes populares. De entre aque- dá-se início a um movimento muito
do Comércio, mais tarde designa- las que ficaram célebres destaco A mais amplo de renovação cientí-
do Instituto Superior de Ciências Vida e Obra de Evaristo Galois, 1932, fica em moldes modernos e com
Económicas e Financeiras (ISCEF) Galileo Galilei – valor científico e valor padrões internacionais que, na
– o actual Instituto Superior de moral da sua obra, 1933, Escola Única, matemática, veio a ser conhecido
Economia e Gestão (ISEG) – onde 1935, e, particularmente, A Cultura como “Movimento Matemático” e
terminou o curso em 1923. Integral do Indivíduo - problema central que só foi aniquilado em 1946-47
Ainda estudante foi 2.º Assistente do nosso tempo, 19331. com as expulsões de muitos profes-
de Aureliano de Mira Fernandes. Também contribuiram para o seu sores universitários.
Passou a 1.º Assistente em 1924 e foi prestígio os inúmeros artigos que O “Núcleo” contava também com a
nomeado Professor Catedrático em escreveu para algumas revistas, colaboração muito activa de Bento
Dezembro de 1929, a pouco tempo como, por exemplo, A Luta Contra de Jesus Caraça, que foi um dos seus
de completar apenas 29 anos. a Guerra, 1932, Abel e Galois, 1940, fundadores – o único que não tinha
Nos anos 30 era já uma pessoa com Galileo e Newton, 1942. Respondendo a feito estudos de doutoramento no
um enorme prestígio, sobretudo críticas de António Sérgio, trocou com estrangeiro – tendo sido ele a dar
entre a juventude. Isso deve-se prin- este várias cartas, na revista Vértice, início às suas actividades em 16 de
cipalmemte ao facto de ter sido um em 1946, que ficaram célebres como Novembro com a primeira lição de
dos fundadores da Universidade uma das mais importantes disputas um curso sobre Cálculo Vectorial.
Popular Portuguesa (com apenas 18 ideológicas do nosso século XX1. Acompanha este artigo o cartaz que
anos!) tendo chegado à presidência Em 1936 é fundado o Núcleo de anuncia este curso.
em 1928, iniciando a sua reactivação Matemática, Física e Química, em Criado com ambições mais vastas,
e reorganização. Foi aí e noutras Lisboa, cujos principais impulsio- nomeadamente no que diz res-
peito à investigação científica, o
“Núcleo” limitou-se essencialmen-
te a ministrar cursos de elevado
nível, o primeiro dos quais foi o
de Bento Caraça. A ideia era a de
serem publicados em livro, o que só
acabou por ser feito com os minis-
trados por Bento de Jesus Caraça,
Ruy Luís Gomes e Amorim Ferreira,
em edições de muito boa qualidade.
Embora o fascismo lhe tivesse movi-
do perseguições diversas, entre as
quais dificultando a utilização das
Universidades, o “Núcleo” acabou
por se dissolver, por divergências
internas, em 6 de Novembro de
1939.
Mas o “Movimento Matemático”
– cujas principais figuras foram
Cartaz anunciando um curso de Bento Caraça, 1936. António Aniceto Monteiro, Bento

34 Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009


Tema de Capa

Caraça e Ruy Luís Gomes – tinha já dado início a mais


iniciativas que, essas, continuaram. Destacarei apenas
aquelas em que Bento Caraça participou.
Com Aureliano de Mira Fernandes e Caetano Maria
Beirão da Veiga fundou, em 1938, o Centro de Estudos
de Matemáticas Aplicadas à Economia, no ISCEF, onde
os três eram professores. Foi seu director até à sua extin-
ção, por decisão ministerial, em Outubro de 1946.
Fundou, em 1939, com António Monteiro, Hugo
Ribeiro, José da Silva Paulo e Manuel Zaluar, a Gazeta
de Matemática, cujo primeiro número saiu em Janeiro
de 1940.
Participou na fundação da Sociedade Portuguesa de
Matemática (SPM), em 12 de Dezembro de 1940, tendo
sido presidente da sua Direcção no biénio de 1943-1944.
Testemunho de toda a efervescência científica da época
é a fotografia de conjunto que ilustra este artigo e
que foi tirada durante a visita do grande matemático
francês Maurice Fréchet à Faculdade de Ciências de
Lisboa, na Escola Politécnica, em 1942, onde fez várias
conferências. Podem-se ver, da esquerda para a direita,
além do convidado, figuras cimeiras do “Movimento
Matemático”: Hugo Ribeiro, Armando Gibert, António
Aniceto Monteiro, Manuel Zaluar, Bento de Jesus
Caraça, Maurice Fréchet, José Sebastião e Silva, Ruy
Luís Gomes, José Ribeiro de Albuquerque, Augusto Sá
da Costa.
Em 1941, fundou a Biblioteca Cosmos, de que foi o
único director até Junho de 1948, e que foi a grande
resposta cultural adequada ao ambiente de repressão
existente. A Biblioteca Cosmos editou 145 números cor-
respondendo a 114 títulos agrupados em sete secções2, com
uma tiragem global de 793 500 exemplares3, e constituiu a
mais importante iniciativa de divulgação da ciência e
da cultura realizada em Portugal no século XX. António
Dias Lourenço conta assim como nasceu a “Cosmos”4:
Em Angra [do Heroísmo, na prisão], Manuel Rodrigues
[de Oliveira] encontrou-se com o Bento Gonçalves, já então
conhecido como secretário-geral do PCP, e colocou-lhe uma
questão: “Ó Bento – eu tenho umas coroas e não sei que
lhes hei-de fazer. Está-me a custar perder aquilo de qualquer
maneira... Tens alguma ideia da utilidade que possam vir
a ter?”. E o Bento Gonçalves respondeu: “Sim. Tu podes
avançar com uma editora de livros virados para a cultura
popular. Bem feitos, para passar as malhas do fascismo. E
podes fazer uma coisa com grande expansão – cultural e
revolucionária. E olha – a pessoa indicada para dirigir isso
é o professor Bento de Jesus Caraça. Vais ter com ele – dizes
que vais da minha parte – e pões-lhe esse problema”. Bento de
Jesus Caraça aceitou a proposta e assumiu a direcção da colec-
ção. Foi este o ponto de partida para a criação da “Cosmos”.
Foi na Biblioteca Cosmos que publicou os dois pri-
meiros volumes do seu livro Conceitos Fundamentais
da Matemática, e que só em 1951 seria publicado na
UMA FIGURA DO PASSADO
Tema de Capa

universitária6.
Não foi só o acaso que levou a que
tenha sido Bento de Jesus Caraça a
fazer as palestras que marcam his-
toricamente o início do “Movimento
Matemático” e que a sua expulsão
em 1946 e a sua morte em 1948
tenham coincidido com o aniquila-
mento, pelo fascismo, daquele movi-
mento de renovação científica. De
facto, Bento de Jesus Caraça simboli-
za uma época de resistência e de luta
pela modernização, pela divulgação
e pela popularização da Ciência em
Portugal. Simboliza ainda toda uma
geração de cientistas, de intelectu-
ais, de trabalhadores, de jovens que
lutaram pelo acesso do povo ao
Ensino, à Cultura, à Ciência, à Paz e
à Liberdade.
Conjunto de matemáticos, Escola Politécnica, 1942. Bento Caraça é o quinto a contar da esquerda.

íntegra. É aqui que Bento de Jesus comemorando a vitória sobre o nazi-


Caraça mostra as suas extraordiná- -fascismo, foi fundado o Movimento REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
rias qualidades de divulgador da de Unidade Democrática (MUD)
1
Bento de Jesus Caraça, Conferências e outros
escritos. Lisboa, 1978.
Matemática. Este seu livro constitui a cuja Comissão Central pertencia 2
António de Sequeira Zilhão, O Prof. Bento de
uma obra que continua a ser refe- Bento de Jesus Caraça. Em 1946 Jesus Caraça, LER editora, Lisboa, 1981.
rência para quem se quiser iniciar o MUD publica o documento O 3
Manuel Rodrigues de Oliveira, Biblioteca
nos aspectos técnicos, históricos e MUD perante a admissão de Portugal Cosmos - 114 títulos com uma tiragem média
filosóficos desta Ciência. Mantém- na ONU, assinado pela respectiva de 6960 exemplares. Em «Seara Nova» 1472
de Junho de 1968, Bento de Jesus Caraça no
-se, sem dúvida, até os nossos dias, Comissão Central, o que conduziu
20.º aniversário da sua morte – presença e
como o melhor livro de divulgação à expulsão da Universidade Técnica actualidade.
de Matemática escrito por um por- de Bento de Jesus Caraça e Mário de 4
António Dias Lourenço, Bento de Jesus Cara-
tuguês. Azevedo Gomes por despacho do ça era uma pessoa admirável. http://www.
Bento de Jesus Caraça participou Ministro da Educação Nacional. pcp.pt/actpol/temas/100-bento-jesus-cara-
ca/testemunho-dias-lourenco.html. http://
também activamente na resistência Bento Caraça viria a morrer dois
ruyluisgomes.blogspot.com/2008/08/o-teste-
política semi-clandestina e clandes- anos depois. Ruy Luís Gomes es- munho-de-antnio-dias-loureno.html.
tina. Destaco a sua participação no creveu o seguinte na Gazeta de 5
Álvaro Cunhal, Bento Caraça – insigne
MUNAF e no MUD. Matemática que assinala o seu fale- intelectual comunista. http://www.pcp.pt/
Em Dezembro de 1943 constituiu- cimento: actpol/temas/100-bento-jesus-caraca/insigne-
intelectual-comunista.html. http://ruyluis-
-se, na clandestinidade, o Conselho Na verdade, Bento Caraça pertenceu
gomes.blogspot.com/2008/11/bento-caraa-
Nacional de Unidade Anti-Fascista, ainda a uma geração que fez a sua própria insigne-intelectual.html.
órgão de direcção do Movimento preparação, no domínio da Matemática, 6
Ruy Luís Gomes, Bento Caraça, grande edu-
Nacional de Unidade Anti-Fascista numa época em que as nossas Escolas cador. Em «Gazeta de Matemática» 37-38,
(MUNAF). Álvaro Cunhal recorda Superiores estavam inteiramente enfor- Agosto-Dezembro de 1948. http://ruyluisgo-
mes.blogspot.com/2006/01/transcrio-de-ben-
esse facto assim: O êxito deveu-se madas pelo velho e desastroso conceito
to-caraa-grande.html.
em grande parte à acção de B. Caraça, de que se pode ser um grande professor
como militante do Partido, graças à sua universitário sem nunca se ter patente-
influência nos meios intelectuais e entre ado, na análise exaustiva de algum pro-
os antifascistas. Acompanhei muito de blema concreto, a garra ou, pelo menos, JORGE REZENDE*,
perto toda essa acção. (...) O Avante! de o sentido de investigador. (...) Departamento de Matemática, Faculdade
Janeiro de 1944 confirmando a criação Bento Caraça não foi, pois, um inves- de Ciências da Universidade de Lisboa
do MUNAF anunciava a formação do tigador, mas superando o meio em que Grupo de Física Matemática da
Conselho Nacional em que inicialmente foi educado e lançando-se desde muito Universidade de Lisboa
entrámos, como representantes do PCP, novo nas tarefas do ensino, em breve se
B. Caraça e eu próprio5. juntou aos que deram o primeiro passo * indicado pela Sociedade
Em 1945, com a fim da guerra, na para fazer triunfar nas nossas Escolas Portuguesa de Matemática
sequência das manifestações de rua Superiores uma nova concepção da vida

36 Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009


“A estabilidade constrói-se, a competência cresce a confiança conquista-se”
Contando com mais de 27 anos de experiência, a Empripar – Obras Públicas e Privadas S.A., tem aceite desafios em várias
áreas de intervenção, nomeadamente Recuperação de Património, Conservação e Reparação de Edifícios, Edifícios Públicos,
Escolares, Industriais, Hospitalares, Instalações Comerciais, Infra-estruturas/arranjos exteriores, Lojas e Remodelação de interio-
res, Moradias, Parques de Estacionamento e Empreendimentos Turísticos.
Sabendo da importância da conservação do nosso Património e entendendo que o mercado da recuperação e conservação do
edificado existe, mas tem um grau de sofisticação e sensibilidade técnica elevada, a Empripar OPP S.A. entendeu definir como
um dos seus mercados alvo esta área onde tem vindo a cimentar a sua posição.
Após um período de alargada reflexão e dado o permanente aumento do volume de negócios e o desenvolvimento de novos
projectos complementares, a Empripar OPP S.A. vem adaptando a sua organização interna, iniciando assim a implementação
de novos procedimentos de gestão e produção, com base na elaboração de programas de qualidade e de auditoria, que se
destinam a sustentar a qualidade da produção da empresa.
É prioridade da actual administração da Empripar OPP S.A., criar uma equipa de trabalho sólida e coesa onde para além das
indissociáveis capacidades técnicas sobressaiam o relacionamento interpessoal e espírito de equipa que aliados a um modelo
de gestão e de produção singular resultam numa organização de que nos orgulhamos.
Todas as obras realizadas pela Empripar OPP S.A. reflectem a capacidade da empresa, constituindo o cimento da
construção do seu prestígio e carisma, que, mais do que o seu curriculum, são a imagem da Empresa.

Empripar, OPP, SA . Rua do Barreiro, 467 . 4470-573 . Maia - Portugal . Tel.: +351 . 226 399 210 - Fax: +351 . 229 399 219
geral@empripar.com . www.empripar.com
AS LEIS DO PATRIMÓNIO

O Ajuste Directo na
Modernização do Parque Escolar
Só obra nova ou também reabilitação?

O Decreto-Lei n.º 34/2009, de 6 de Fevereiro, estabelece as medidas excepcionais de contrata-


ção pública que permite o ajuste directo com vista à modernização do parque escolar. Mas, esta
“modernização” será só através de construção de novas escolas, ou, será também possível o ajuste
directo para reabilitação do equipamento já existente?

As expressões a prever a “modernização do par- para se equacionar como pretenderia


“modernização” que escolar” sem definir os conceitos o legislador modernizar o parque
e “parque esco- de “modernização” ou de “parque escolar, pois, só o poderá fazer de
lar” são conceitos escolar” que adopta “para efeitos duas formas: reabilitando o parque
indeterminados. daquele diploma”. Os conceitos de existente, requalificando-o, e/ou,
A utilização de “modernização” ou “parque esco- ampliando-o através de construção
conceitos indeter- lar” não têm um sentido particular nova.
minados em nor- na linguagem jurídica que os distin- Tenha-se a este propósito em conta
mas é muitas ve- ga do seu sentido corrente. Por isso, um estudo recentemente publicado
zes, provavelmente também neste a ausência de uma menção expressa pelo Governo no seu sítio relativo ao
caso, propositada. Mas, o legislador, a construção nova ou a reabilitação tipo de intervenção nos equipamen-
ao criar conceitos indeterminados, não tem qualquer significado, não se tos escolares:
atribui ao intérprete que aplica o podendo concluir que essa ausência
direito um poder/dever de estabe- de indicação expressa signifique que Áreas de
construção 10 000/12 000 m2
lecer concretamente o significado o diploma não preveja (logo, não
de cada um desses conceitos. Esse permita) a modernização do par- Requalificação 70%
das quais:
poder não é, contudo, discricionário. que escolar através de construções
Construção nova 30%
Pois, a interpretação e a aplicação dos novas, seja a criação de novas escolas
conceitos indeterminados constitui seja a construção em escolas já exis-
um exercício jurídico vinculado e tentes (p. ex. edificar um pavilhão Ora, uma interpretação dos concei-
judicialmente sindicável obedecen- polidesportivo ou um muro de veda- tos de “modernização” e de “parque
do às regras de interpretação de ção do perímetro escolar), ou, atra- escolar” com base nos elementos
normas jurídicas. vés da reabilitação da construção já histórico, literal, teleológico (fim)
E, por isso, o alcance dos concei- existente, requalificando-a. Aliás, os e sistemático do direito esclarece-
tos de “modernização do parque juristas têm nesta matéria um prin- -nos perfeitamente do alcance das
escolar” deve ser apurado com base cípio de interpretação basilar: onde medidas excepcionais: conseguir a
nos elementos clássicos da inter- o legislador não distingue não deve modernização do equipamento esco-
pretação das normas previstos no o intérprete fazê-lo. Isto é, se o legis- lar através da sua reabilitação e/ou
Código Civil Português, aprovado lador não previu apenas construção através de construção nova.
pelo Decreto-Lei n.º 47344, de 25 de nova, nem só a reabilitação. Então, é
Novembro de 1966, designadamen- porque permite as duas. A. JAIME MARTINS,
te, através dos elementos históri- Aliás, a entendermos como necessá- Advogado
co, literal, sistemático e teleológico ria uma indicação expressa da norma ATMJ – Sociedade de Advogados, RL
(fim). que admitisse a reabilitação e/ou a a.jaimemartins@atmj.pt
O Decreto-Lei n.º 34/2009 limita-se construção nova, então, seria caso

38 Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009


NOTÍCIAS

Estudo no âmbito de um projecto da


Stap ganha Prémio Secil Universidades
Engenharia Civil 2008
“Reforço sísmico de alvenaria tradi- O Prémio Secil Universidades tem
cional com faixas de GFRP e ancora- como objectivo incentivar a qualida-
gens. Ensaios de aderência e mode- de do trabalho académico e o reco-
lo de cálculo” é o título do traba- nhecimento público de jovens oriun-
lho desenvolvido por Joaquim Gil dos das Escolas de Arquitectura e
Carvalho Cardoso, a quem foi atri- Engenharia Civil portuguesas. O
buído o Prémio Secil Universidades trabalho de validação experimental
Engenharia Civil 2008. e numérica do sistema desenvolvi-
O trabalho premiado, que consis- do pela Stap foi realizado no IST,
tiu numa validação experimental e sob a orientação dos Professores
numérica, surge no contexto de um Jorge Proença e António Gago do
projecto de investigação e desen- Departamento de Engenharia Civil e
volvimento (ID) da Stap, visando Arquitectura.
desenvolver um sistema de reforço A Stap congratula-se pela atribuição
pouco intrusivo de construções anti- do prémio ao jovem eng.º Joaquim
gas, concebido pelo eng.º Vítor Cóias. Cardoso, e, também, por ver indi-
A solução tecnológica de reforço e rectamente reconhecido um trabalho
reabilitação sísmica de construções Perspectiva global de um edifício antigo reforçado. no domínio da reabilitação sísmica
com estrutura em alvenaria de pe- de construções antigas, que procura
dra, propriedade da Stap (Patente apontar uma solução para a redução
Portuguesa n.º 102256; Patente Euro- da vulnerabilidade sísmica em zonas
peia n.º 00670005.8), conjuga as carac- mais susceptíveis. Nestas zonas (em-
terísticas mecânicas da alvenaria bora recorrente, não será demais
(boa resistência à compressão e ele- salientar), a reabilitação do edificado
vada inércia) com as dos materiais deve contemplar obras de reforço
compósitos baseados na fibra de sísmico e não apenas intervenções
vidro (elevada resistência à tracção não-estruturais.
e baixo peso). A ligação entre estes Destaca-se, também, o sucesso na
dois materiais é obtida por colagem parceria da empresa com a uni-
(contínua) e fixação (discreta) por versidade. Em colaboração com o
meio de dispositivos específicos de ICIST e o LNEC, a Stap tem vindo
confinamento transversal das alvena- a desenvolver soluções inovado-
rias. Estes dispositivos, denominados ras, em geral, relativamente pouco
“ancoragens”, “conectores de confi- intrusivas, de reabilitação e melhoria
namento” ou “confinadores”, melho- da resistência sísmica. A tecnologia
ram significativamente a fixação do desenvolvida insere-se na estratégia
reforço com faixas de fibra de vidro da Stap de encontrar as melhores
(GFRP) à alvenaria, resultando num tecnologias no segmento da reabilita-
melhor desempenho da solução de ção, incluindo a reabilitação sísmica,
reforço sísmico, tanto em condições Alçado de uma parede reforçada. A disposição das através da participação em projectos
faixas de reforço pode variar consoante as necessi-
de serviço (deformação e fendilha- dades de cada caso.
de ID em parceria com entidades
ção), como em situações últimas de do Sistema Científico e Tecnológico,
colapso. entre outras iniciativas.

Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009 39


NOTÍCIAS

Quercus e Oz celebram protocolo Darwin visitado


por milhares na
A realização, no passado dia 24
de Abril, de um seminário sobre
a Reabilitação Energética dos Edi-
Gulbenkian
fícios, na Universidade do Algarve,
em Faro, serviu de pano de fundo Decorrida na Fundação Calouste
para a assinatura de um protocolo Gulbenkian, a exposição comemo-
de colaboração entre a Quercus – rativa dos 200 anos de nascimento
Associação Nacional de Conservação de Charles Darwin e dos 150 anos
da Natureza e a Oz – Diagnóstico, da publicação do seu livro A ori-
Levantamento e Controlo de Quali- Vítor Cóias, gerente da Oz, e Hélder Spínola, vogal gem das espécies recebeu, ao fim de
dade em Estruturas e Fundações, Ld.ª. da direcção da Quercus, assinam o protocolo entre pouco mais de 3 meses, 161 mil visi-
O objectivo imediato do protocolo é a as duas entidades no fim do seminário sobre rea- tantes, dos quais 13 mil no último
colaboração no desenvolvimento do bilitação energética de edifícios, que recentemente fim-de-semana. No derradeiro dia,
teve lugar em Faro.
projecto de adaptação de um conjun- viam-se pessoas de diversas idades,
to de edifícios da antiga estação de O protocolo cobre, no entanto, objec- que esperavam pacientemente na
comboio de Sacavém para poderem tivos mais abrangentes, comprome- enorme fila que se formara junto
funcionar como sede da Quercus. tendo--se as duas entidades a colabo- à livraria da Fundação. Tal diver-
Nesse sentido, os edifícios serão alvo rar no sentido de promover a susten- sidade não era de espantar dada a
de um estudo preliminar, a realizar tabilidade no sector da construção, grande variedade de aspectos da
pela Oz, Ld.ª, sobre as características dando particular ênfase à economia vida e obra de Darwin abordadas
estruturais e construtivas, e será ava- do carbono, através de estratégias na exposição. Podia-se conhecer o
liado o seu estado de conservação. A orientadas para a eficiência energéti- desenvolvimento da ciência no sécu-
nova sede da Quercus vai recorrer ca dos edifícios. lo XIX, os diferentes seres com quem
a conceitos de arquitectura susten- A Oz (www.oz-diagnostico.pt) é Darwin contactou, a aventura no
tável, com o objectivo de assegurar uma empresa vocacionada para as navio Beagle e a própria vida par-
não só a eficiência energética dos inspecções e ensaios para recolha de ticular do renomado cientista. Este
edifícios, mas também a minimização informação com vista à elaboração pastor evangélico, que desistiu da
do impacto das obras de reabilitação de projectos de reabilitação das cons- medicina por não suportar ver o
a realizar, quer do ponto de vista truções existentes e, em particular, de sangue humano, guardou uma ines-
construtivo, quer do ponto de vista conservação e restauro do património perada surpresa para os lusófonos,
ambiental. arquitectónico do País. já que fez a sua primeira paragem (e
primeiras observações) a bordo do
Beagle em Cabo Verde, terminando o
périplo nos Açores, antes de regres-
sar a Inglaterra. Por outro lado, a
exposição reservava partes mais
interactivas, seja um espaço dedica-
do especificamente às crianças, seja
a possibilidade de se experimen-
tar um microscópio. Obviamente, a
parte dedicada à evolução humana
não faltou, havendo um painel com
réplicas perfeitas dos crânios dos
hominídeos nossos antecessores. A
partir desta data, a exposição irá
fazer, a exemplo do Beagle, uma
itinerância por cidades nacionais e
estrangeiras até 2011, altura em que
ficará permanentemente em Oeiras.
A iniciativa contou com diversos
parceiros, de entre os quais estão
a Fundação Calouste Gulbenkian,
a Câmara Municipal de Oeiras e a
Agência Ciência Viva.
Desenhos do projecto de arquitectura do edifício 3 da futura sede da Quercus.
RSB

40 Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009


NOTÍCIAS / FORMAÇÃO

Património Mestrado em História e Património


desfaz-se sob da Ciência, Tecnologia e Inovação
os olhos da tem lugar na UNL
Câmara de
Lisboa A associação entre ciência e tecnolo-
gia parece hoje familiar, e até mesmo
impossível de separar. Entretanto,
nem sempre foi assim, somente
com a emergência da modernidade
foi possível verificar essa relação
que alterou a paisagem do mundo. contextualização no panorama euro-
Assim, à ciência e à tecnologia junta- peu e internacional.
-se a dimensão histórica. Visando Os estudantes serão integrados nas
abarcar estas três dimensões, essen- unidades de investigação do curso,
ciais para a compreensão da socieda- o Centro de História e Filosofia da
de contemporânea, a Faculdade de Ciência e da Tecnologia e o Centro
Ciências Sociais e Humanas (FCSH) de História Contemporânea, ambos
e a Faculdade de Ciências (FCT) da de grande renome. Destaca-se, tam-
Universidade Nova de Lisboa ofe- bém, a possibilidade das aulas decor-
recem o mestrado em “História e rerem em horário compacto, de
Património da Ciência, Tecnologia e maneira a incluir os candidatos já
Inovação”. inseridos no mercado de trabalho.
O curso tem a duração de quatro A formação dada aos alunos con-
semestres e possibilita a escolha de templa conhecimentos ligados à
um percurso ligado à história da conservação, musealização, econo-
ciência, da tecnologia e da inovação, mia, história, filosofia e arqueologia
ou um ligado ao património cien- industrial, todas tendo como cerne a
tífico e tecnológico. Os candidatos ciência e a tecnologia. Além disto, é
podem ser oriundos das ciências oferecido pela Faculdade de Ciências
sociais, das tecnologias ou das ciên- um programa de doutoramento em
cias. Um dos objectivos do mestrado ”História, Filosofia e Património da
Fachada do edifício n.º 180 do Campo Grande.
é a inserção da história e património Ciência e da Tecnologia”. Para mais
da ciência, da tecnologia e da inova- informações, consulte o sítio www.
Lisboa continua, dia após dia, a ção no contexto mais geral da histó- fct.unl.pt/candidato/cursos/2_ciclo/
perder o seu património edificado. ria de Portugal no período moderno hpcti/hpcti.
Agora é a vez do número 180 do e contemporâneo, assim como a sua RSB
Campo Grande. Construído no iní-
cio do século XX, o edifício apresen-
ta uma belíssima fachada de tardoz,
da qual ressaltam as estruturas de
ferro e os terraços em abobadilha. Lisboa. Além da situação descrita,
Trata-se de um dos exemplos mais foi referido o facto do imóvel não
vistosos deste tipo de arquitectura, se encontrar referenciado na Carta
o que pode ser comprovado no livro Municipal do Património anexa ao
Arquitectura do princípio do século XX PDM. O resultado da reclamação
em Lisboa, 1900-1925, editado pela foi o total silêncio da autarquia.
própria Câmara Municipal em 1991. Infelizmente, o descaso das autori-
Apesar disso, o imóvel encontra-se dades lisboetas dá espaço à desca-
em progressivo estado de degrada- racterização e empobrecimento da
ção, a que podemos acrescentar a nossa capital.
instalação de uma grande tela em RSB
que é publicitada uma construção
nova que irá ser erigida no local. Tal
situação motivou um apelo feito, por Pormenor em que se nota a degradação das estru-
um grupo de cidadãos, à Câmara de turas metálicas.

Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009 41


AGENDA

História da Ciência terá Mestrado alia Química e


1.º Encontro Nacional Património Cultural
A Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e o Está aberta, até 21 de Julho de 2009, a segunda fase de
Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) irão candidaturas para o mestrado em “Química aplicada
realizar, entre os dias 21 e 24 de Julho de 2009, o ao património cultural”. O curso é uma iniciativa do
“1.º Encontro Nacional de História da Ciência”. O Departamento de Química e Bioquímica da Faculdade
encontro terá lugar no CCCM, em Lisboa (Rua da de Ciências da Universidade de Lisboa em colabo-
Junqueira, n.º 30), e objectiva debater as vias e as ração com o Departamento de Arte, Conservação e
prioridades do desenvolvimento da investigação Restauro do Instituto Politécnico de Tomar.
em História da Ciência.
Informações:
Informações: www.dqb.fc.ul.pt/2ciclo/pcultural/
e-mail: inscrever@historiaciencia.fct.mctes.pt
http://historiaciencia.fct.mctes.pt

Análise estrutural Conservação de pontes


de monumentos na é tema de congresso em
Universidade do Minho Lisboa
A Universidade do Minho, em Entre os dias 3 e 4 de Julho de 2009 decorrerá, no audi-
parceria com a Universidade tório da Reitoria da Universidade Nova de Lisboa, em
Técnica da Catalunha, com a Campolide, o “1.º Congresso Nacional sobre Segurança
Universidade Técnica de Praga e e Conservação de Pontes”. O evento é uma iniciativa da
com a Universidade de Pádua, Associação Portuguesa para a Segurança e Conservação
apresenta o mestrado em “Análise de Pontes (ASCP), e tem a colaboração da Universidade
estrutural de monumentos e cons- Nova de Lisboa, da Universidade do Minho e do
truções históricas”. O mestrado Laboratório Nacional de Engenharia Civil. O objectivo é
é dirigido para engenheiros civis a troca de experiências e a apresentação de novas tendên-
com 4 ou 5 anos de formação, e cias nesse domínio.
tem duração de um ano lectivo. O
início das aulas será em Outubro
Informações:
de 2009. ASCP
Tel.: 253 510 498
Informações: e-mail: ascp09@ascp.pt
e-mail: secretariat@msc-sahc.org
http://www.msc-sahc.org/

Património Arquitectónico do Mediterrâneo


Terá lugar, entre os dias 15 e 17 de Outubro de 2009, na Universidade Lusíada de Lisboa, o “3.º Encontro Internacional
sobre o Património Arquitectónico do Mediterrâneo”. O evento tem por objectivo agregar todos os agentes envolvidos na
criação, protecção e salvaguarda do património arquitectónico em torno do conceito de cultura mediterrânica enquanto
cultura unificadora e berço de numerosas civilizações.

Informações:
http://ripam3.lis.ulusiada.pt

42 Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009


VIDA ASSOCIATIVA

O GECoRPA ganha três novos associados

O ano de 2009 tem sido profícuo na de referência, dando preferência aos A In Situ foi fundada em 1996 e é
defesa da excelência na conservação melhores materiais de construção uma empresa especializada na con-
e no restauro do património arqui- conjugados com as melhores técni- servação, restauro e no estudo de
tectónico. Neste sentido, apresen- cas de intervenção. bens culturais. Com o objectivo de
tam-se os três novos associados do Ao longo dos seus 20 anos de exis- permitir uma resposta abrangen-
GECoRPA: a Coberplan, Sistemas tência, a Matias & Ávilas tem vindo te às solicitações do mercado da
de Construção e Reabilitação de a crescer de forma sustentada devi- conservação e restauro, reuniu nos
Edifícios, Ld.ª, a In Situ, Conservação do ao seu objectivo permanente de seus quadros e colaboradores uma
de Bens Culturais, Ld.ª e a Matias & construir com um elevado nível de equipa multidisciplinar de grande
Ávilas, Construção Civil e Obras qualidade e cumprimento dos pra- mérito técnico-científico, especialis-
Públicas, Ld.ª. zos e orçamentos propostos. Nos tas em áreas como as estruturas
A Coberplan nasceu de uma neces- últimos anos, tem caminhado para arquitectónicas em pedra, a pintura
sidade do mercado em conceber, uma intervenção diferenciada e mural e decorativa, a pintura sobre
concretizar e dinamizar soluções em integrada no património edificado, tábua e tela, os recheios artísticos em
coberturas e pisos, tanto na reabili- agregando competências que vão talha, os revestimentos tradicionais
tação de edifícios como em constru- do diagnóstico de patologias e pro- em gesso e cal e os revestimentos
ção nova. Identificando esta necessi- jectos à identificação e reprodução azulejares e cerâmicos.
dade, a empresa tornou-se parceira de técnicas tradicionais aplicadas à
estratégica de grupos económicos reabilitação. RSB

Intervenção no quartel da serra do Pilar Reabilitação da fachada e cobertura do prédio na Trabalhos de fixação da pintura na cúpula da
(Coberplan). Av. Liberdade, n.º 177 (Matias & Ávilas). Igreja do Santíssimo Sacramento de Lisboa,
obra em curso (In Situ).

Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009 45


43
VIDA ASSOCIATIVA

Centro Nacional de Cultura:


reabilitação é discutida no Jornal Falado

Nos tempos anteriores ao 25 de onde podemos ir” na conservação e carece de um reconhecimento legal.
Abril, a comunicação oral revestia-se reabilitação. Deste modo, os critérios Outro dos pontos expostos foi o do
de especial importância, já que sendo que norteiam uma intervenção foram contributo da reabilitação para a sus-
um momento, e não um registo, per- enumerados, de forma a expor a plu- tentabilidade da sociedade. A reabi-
mitia uma fuga às malhas da cen- ralidade de bens que podem ser alvo litação proporciona o aproveitamen-
sura. Assim, o Jornal Falado surgiu, de trabalhos, desde parcelas de casas to do stock construído, o que evita
afigurando-se como evento/local de particulares até monumentos histó- o consumo de materiais e energia.
debate de ideias. Agora, em tem- ricos inteiros. Seria legítimo falar de Além disto, a reabilitação de cariz
pos eleitorais de certo desencanto reabilitações, mas entretanto a legis- energético possibilita um grande
democrático, à conversa chega a rea- lação não só apaga a multiplicidade aumento da eficiência dos edifícios.
bilitação urbana. Esta, longe de ser como destrói qualquer vestígio da Estes são responsáveis por 60 por
alvo de proibições, é frequentemente actividade. cento do consumo total de energia,
esquecida na prática, e desconhecida Segundo Vítor Cóias, a especifici- por isso a diminuição do desperdício
nas potencialidades. A fim de mos- dade da reabilitação é ignorada no inerente ao edificado pode equivaler
trar algumas das vantagens e requi- que concerne o aspecto jurídico, a à construção de algumas barragens.
sitos da reabilitação, o presidente do começar pelo CAE, que desconhece No final da apresentação ocorreu um
GECoRPA, Vítor Cóias, apresentou, palavras como conservação, restauro breve debate, em que a assistência
no dia 20 de Maio, a comunicação e reabilitação. Indiferente, também, não só colocou questões, como tam-
intitulada “O património arquitectó- é o código dos contratos públicos. bém referiu experiências na prática
nico e a reabilitação urbana”. Alienada, a lei ainda peca por juntar da reabilitação urbana.
Apesar da amplitude do tema, foi num mesmo estaleiro empresas de
possível sair do Centro Nacional de construção nova e de conservação. RSB
Cultura (CNC), entidade organiza- Concluiu-se que a formação especí-
dora do Jornal Falado, com uma ideia fica dos trabalhadores da reabilita-
geral de “onde estamos” e “para ção, essencial na prática quotidiana,

44 Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009


VIDA ASSOCIATIVA

GECoRPA e Pedra&Cal apoiam Congresso Património 2010

Organizado pela Faculdade de


Engenharia da Universidade do
Porto (FEUP), pela Direcção Regio-
nal de Cultura do Norte (DRCN) e
pelo Instituto de Gestão do Patri- RSB
mónio Arquitectónico e Arqueológico
(IGESPAR), o Congresso Património
2010 conta com o apoio do GECoRPA
e da revista Pedra&Cal. Num contex-
to em que a reabilitação do patrimó-
nio construído se torna cada vez mais
importante para o desenvolvimento
do país, o congresso visa discutir
e apresentar medidas de interven-
ção consentâneas com os princípios
preconizados em cartas e recomen-
dações internacionais. Neste evento,
que irá decorrer em Abril de 2010,
haverá um particular enfoque em
casos práticos.

GECoRPA nos Média

A reabilitação urbana em destaque no programa


“Sociedade Civil”, da RTP2
A convite da responsável pelo pro- lias e as empresas estão sobreendi- de intervenção muito diferentes
grama, Fernanda Freitas, o presi- vidadas e vai ser difícil mobilizar os da construção nova, uma deficien-
dente do GECoRPA participou no avultados recursos financeiros neces- te qualificação dos profissionais e
programa “Sociedade Civil”, trans- sários para uma reabilitação a sério. empresas envolvidas pode signifi-
mitido em directo, no passado dia 12 Em todo o caso, Vítor Cóias referiu, car intervenções de baixa qualidade,
de Maio, pela RTP2. entre outras, uma questão impor- logo, dinheiro mal gasto.
Vítor Cóias manifestou algum cep- tante a ter em conta se se pretende No programa estiveram presentes
ticismo em relação ao que se pode que a reabilitação seja bem sucedi- outros três convidados: Manuel
esperar do novo regime jurídico, da: a qualificação (verificação da Salgado, Vereador do Urbanismo do
face à ausência dos necessários competência técnica) dos agentes, Município de Lisboa, António Cam-
recursos financeiros, quer ao nível não só dos empreiteiros, mas tam- pos Rosado, presidente da Asso-
dos proprietários, quer ao nível das bém dos projectistas e de quem faz ciação de Moradores da Baixa Pom-
autarquias, quer ao nível da econo- a recolha preliminar de informação balina e João Cabral, do Colégio
mia geral do país. Portugal andou que serve de base ao projecto de rea- da Especialidade de Urbanismo na
anos de mais a dedicar-se à constru- bilitação (levantamentos, inspecções Ordem dos Arquitectos e professor
ção de habitações. e ensaios). Dado que a reabilitação da Faculdade de Arquitectura.
Em resultado, existem hoje centenas do edificado apela, em geral, para
de milhares de casas vazias, as famí- métodos de abordagem e técnicas
In “Sociedade Civil”, RTP 2, 12 de Maio de 2009

Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009 45


e-pedra e cal
Tema de Capa

Os Atlantes

2009 é o Ano Internacional de Astro- salvaguarda e à conservação do Há 400 anos, Galileu anunciava no
nomia (http://www.astronmia2009. património (www.cienciapt.net). seu Sidereus Nuncius (“Mensageiro
org/) e as actividades organizadas em No campo da botânica, que como das Estrelas”), que as ‘rústicas’ mon-
Portugal pela Sociedade Portugue- se sabe é historicamente indisso- tanhas da Lua não diferiam das da
sa de Astronomia conjugam o inte- ciável da astronomia, destaque Terra. Abria-se uma janela à ima-
resse pela ciência e pelo patrimó- para as notícias desta semana no ginação colectiva “De la Terre à la
nio, designadamente o arranque das Público (www.publico.clix.pt), que Lune”, desde Cyrano de Bergerac a
celebrações astronómicas promovi- dão conta de um ambicioso projec- Júlio Verne. E há já quem se inter-
das no âmbito do Dia Internacional to para a elaboração do primeiro rogue se, a este ritmo de alterações
dos Monumentos e Sítios, no Panteão Atlas Total da Flora Europeia, a ser climáticas, não será previdente ir
Nacional, em Lisboa. desenvolvido por uma mega equipa pensando numa nova Arca de Noé,
Por todo o país, têm decorrido pa- de investigadores de toda a Europa, ao estilo Atlânte de Edgar P. Jacobs.
lestras e observações astronómi- com a coordenação em Portugal, Aparentemente, a civilização sofre
cas nocturnas, abertas ao público da responsabilidade do investigador de uma deriva natural para a pró-
em geral, tendo por plataforma António Xavier Pereira Coutinho, pria destruição. Nesse sentido, ter-
de observação alguns monumen- do Departamento de Botânica da mino com a recomendação de uma
tos nacionais iconográficos, como o Faculdade de Ciências e Tecnologia visita à Reserva Botânica do Instituto
Mosteiro dos Jerónimos, o Panteão da Universidade de Coimbra. Em de Agronomia (www.isa.utl.pt), na
Nacional, o Mosteiro de Alcobaça e paralelo a este trabalho, o docente Tapada da Ajuda. Autêntica relí-
o Castelo de Silves. integra, também, a comissão res- quia do manto original, apesar de
Respondendo ao apelo do Conselho ponsável pela elaboração do Livro se encontrar num estado de semi-
Internacional dos Monumentos e Sí- Vermelho da Flora Portuguesa, -abandono, este valoroso patrimó-
tios (ICOMOS), o IGESPAR (Insti- onde se procede à catalogação das nio português ao serviço da ciên-
tuto de Gestão do Património Arqui- espécies ameaçadas no nosso país. cia resiste contra os ventos vora-
tectónico e Arqueológico) apresenta Este ilustre académico, meu primo, zes das grandes multinacionais de
uma programação de sensibilização homónimo e amigo, tem honrado OGM (Organismos Geneticamente
do público para a relação entre a a tradição de gerações que o pre- Manipulados).
ciência e o património cultural, pro- cederam na defesa da fauna e da
porcionando uma reflexão sobre o flora portuguesa através da ciên-
papel da ciência (e tecnologia) no cia. Importa, hoje, defender o patri-
património cultural, e incentivando mónio botânico, pois este constitui
ainda a discussão sobre os poten- um elemento imprescindível para a
ANTÓNIO PEREIRA COUTINHO,
ciais benefícios e ameaças da ciên- compreensão da nossa história e até
Arquitecto
cia no futuro, no que diz respeito à do património edificado.

46 Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009


LIVRARIA

NOVIDADES

Térmica de Edifícios Sistemas fotovoltaicos. Da teoria à prática

Autor: António Moret Rodrigues, António Canha da Piedade, Ana Autor: Josué Lima Morais
Marta Braga Este livro começa por uma breve introdução à “Geometria Solar”,
Obra profusamente ilustrada, com dezenas de problemas resol- tratando o movimento da Terra em torno do Sol e estabelecendo
vidos e explicados, incluindo um caso de estudo descrevendo a a ponte para o aproveitamento da energia irradiada pelo Sol.
aplicação do RCCTE a uma situação concreta. Trata de forma simples das tecnologias associadas às células foto-
Este livro pretende fornecer o conhecimento elementar para o voltaicas, aos equipamentos de controlo e conversão, e ainda às
ajustamento do projecto à normativa regulamentar, mas também baterias acumuladores. O dimensionamento de um sistema ligado
fornecer bases científicas seguras aos que pretendem aprofundar à rede e de um sistema isolado são apresentados passo a passo
as matérias abordadas, de maneira a propiciar a procura de soluções inovadoras na no capitulo final.
satisfação das exigências de conforto higrotérmico com parcimónia no uso de recursos Destinado a todos os técnicos electrotécnicos e a projectistas de sistemas solares foto-
energéticos e na poluição ambiental. voltaicos, contém os conhecimentos necessários ao entendimento e desenvolvimento de
projectos de sistemas fotovoltaicos.
Edição: Edições Orion
Preço: € 40.00 Edição: Publindústria
Código: OR.E.6 Preço: € 30.00
Código: PUB.M.2

Sismos e Edifícios Guia de aplicações de gestão de energia e eficiência energética

Autor: Vários Autores Autor: Ann Bridge e Susan Lowndes


Uma excelente síntese sobre a caracterização do fenómeno sísmico Quando Ann Bridge – arqueóloga e botânica amadora – chegou
e as suas implicações na segurança anti-sísmica da construção nova a Portugal na qualidade de Embaixatriz da Grã-Bretanha, o pri-
e da reabilitação do parque existente. Especial ênfase prestada à meiro telefonema que fez foi a Susan Lowndes, filha da sua velha
nova regulamentação europeia anti-sísmica nomeadamente no que amiga Marie Belloc Lowndes. Apesar da diferença de idades, a
concerne à compreensão e aplicação do Eurocódigo 8 onde um história comum e as muitas afinidades fortaleceram a amizade
capítulo e um anexo completos são dedicados à sua explicação e entre ambas e, quando uma editora propôs a Ann Bridge a cria-
ao estudo de casos práticos. Uma obra única na língua portuguesa ção de um guia de Portugal, esta empenhou-se seriamente numa
realizada por alguns dos nossos maiores especialistas na matéria. parceria com alguém cuja experiência íntima do país e os grandes
Recomendado pela Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica! conhecimentos da história e da arquitectura de Portugal a transformavam na colabora-
dora ideal. Num pequeno carro, as duas amigas percorreram então as zonas mais remo-
tas do País, em busca de locais raramente visitados pelos estrangeiros, tomando notas,
Edição: Edições Orion tirando fotografias, analisando e verificando o que outros antes delas já haviam escrito,
Preço: € 63.00 por vezes com resultados surpreendentes. As suas descobertas são apresentadas neste
Código: OR.E.5 livro, publicado originalmente em Inglaterra no final dos anos 40, mas que, apesar das
excelentes críticas e de várias reedições, nunca até hoje tinha sido publicado no nosso
país. Quase sessenta anos depois de ter sido escrito, “Duas Inglesas em Portugal” é,
pois, muito mais do que um original guia de viagens, um documento inestimável sobre
um Portugal que já não existe.

Edição: Quidnovi
Preço: € 15,90
Código: QUI.G.1

Outros títulos à venda na Livraria GECoRPA

Sistemas de Construção X – Jóias da Coroa International Seminar on Theory and Practice in António Rodrigues.
em Terra. Demolições. Betão Tensionado. Conservation. A tribute to Cesar Brandi Renascimento em Portugal
Cabos de aço utilizados em obra

Autor: Jorge Mascarenhas Autor: Vários Autores Autor: Domingos Tavares


Edição: Livros Horizonte Edição: LNEC Edição: Dafne Editora
Preço: € 21.00 Preço: € 70.00 Preço: € 10.00
Código: HT.E.30 Código: LN.A.7 Código: DAF.E.12

Monumentos e Edifícios Notáveis do Praças Reais: Passado, Presente e Futuro


Algarve: castelos, cercas e fortalezas
Distrito de Lisboa

Autor: Natércia Magalhães Autor: Vários Autores Autor: Vários Autores


Edição: Letras Várias Edição: Assembleia Distrital Edição: Livros Horizonte
Preço: € 35.00 de Lisboa / Livros Horizonte Preço: € 19.80
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Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009 47


LIVRARIA

CD-ROM
Pedra & Cal
5 Anos (1998 - 2003)

Assinatura
Revista da Conservação do Património Arquitectónico Revista da Conservação do Património Arquitectónico
e da Reabilitação do Edificado e da Reabilitação do Edificado

Património

anual da
Fúnebre

Ano X – N.º 40 Outubro/Novembro/Dezembro 2008 – Publicação trimestral – Preço € 4,48 (IVA incluído)

Ano XI – N.º 41 Janeiro/Fevereiro/Março 2009 – Publicação trimestral – Preço € 4,48 (IVA incluído)
Pedra & Cal Reportagem
Requalificação do Museu de São Roque
Reabilitação pouco intrusiva de vigas de madeira

Projectos & Estaleiros


Estudo de Caso

0 0 0 4 0
0 0 0 4 0
Opinião

607727 077237

0 0 0 4 0

607727 077237
Obras em Património Arquitectónico

607727 077237

5
Proposta de alteração ao Código dos Contratos Públicos

5
5
Prémio GECoRPA 2008 - Casa José Régio

N.º 38, Abr./Mai./Jun. 2008 N.º 39, Julho/Ago./Set. 2008 N.º 40, Out./Nov./Dez. 2008 N.º 41, Jan./Fev./Mar. 2009
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Código: P&C.38 Código: P&C.39 Código: P&C.40 Código: P&C.41

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de 4 números
da Pedra & Cal
N.º 23, Julho/Ago./Set. 2004
Preço: € 4,48
N.º 24, Out./Nov./Dez. 2004
Preço: € 4,48
N.º 25, Jan./Fev./Mar. 2005
Preço: € 4,48
N.º 28, Out./Nov./Dez. 2005
Preço: € 4,48
à sua escolha
Código: P&C.23 Código: P&C.24 Código: P&C.25 Código: P&C.28

Nota: Os números 0, 1, 2, 4, 5, 6, 7, 13, 14, 25, 26 e 27 da Pedra & Cal encontram-se esgotados, contudo informamos que se encontram
reunidos no CD-ROM Pedra & Cal - 5 Anos (1998-2003), à venda na Livraria GECoRPA.

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ASSOCIADOS GECoRPA

GRUPO I
A. da Costa Lima, Fernando Ho,
Projecto, Francisco Lobo e Pedro Araújo Betar – Estudos e Projectos
– Arquitectos Associados, Ld.ª de Estabilidade, Ld.ª LEB – Projectistas, Designers
fiscalização Projectos de conservação e restauro Projectos de estruturas e fundações e Consultores em Reabilitação
do património arquitectónico. para reabilitação, recuperação de Construções, Ld.ª
e consultoria Projectos de reabilitação, recuperação e renovação de construções Projecto, consultoria e fiscalização
e renovação de construções antigas. antigas e conservação e restauro na área da reabilitação do património
Estudos especiais do património arquitectónico. construído.

PENGEST – Planeamento,
Engenharia e Gestão, S. A.
Projectos de conservação e restauro
do património arquitectónico.
Projectos de reabilitação,
recuperação e renovação de
construções antigas. Gestão, consulta-
doria e fiscalização.

GRUPO II
Levantamentos,
ERA – Arqueologia - Conservação
inspecções e Gestão do Património, S. A. OZ – Diagnóstico, Levantamento
Conservação e restauro de estruturas e Controlo de Qualidade
e ensaios arqueológicas e do património de Estruturas e Fundações, Ld.ª
arquitectónico. Levantamentos. Inspecções e ensaios
Inspecções e ensaios. Levantamentos. não destrutivos. Estudo e diagnóstico.

GRUPO III
Execução BEL – Engenharia e Reabilitação
AOF – Augusto de Oliveira Ferreira de Estruturas, S. A.
dos trabalhos & C.ª, Ld.ª Conservação e restauro do patrimó-
Alfredo & Carvalhido, Ld.ª Conservação e reabilitação de nio arquitectónico.
Empreiteiros Conservação e restauro do património edifícios. Consolidação estrutural. Reabilitação, recuperação e renovação
arquitectónico. de construções antigas.
e Subempreiteiros Conservação e reabilitação de
Cantarias e alvenarias. Pinturas.
Carpintarias. Conservação e restauro Instalações especiais em património
construções antigas. de património artístico. arquitectónico e construções antigas.

Coberplan, Ld.ª
Conservação e restauro do patrimó- Cruzeta – Escultura e Cantarias,
nio arquitectónico. COPC – Construção Civil, Ld.ª Restauro, Ld.ª
Construções Borges & Cantante, Ld.ª Reabilitação, recuperação e renovação Construção de edifícios. Conservação e reabilitação
Construção de edifícios. de construções antigas. Conservação e reabilitação de construções antigas. Limpeza
Conservação e reabilitação Instalações especiais em património de construções antigas. Recuperação e restauro de cantarias, alvenarias
de construções antigas. arquitectónico e construções antigas. e consolidação estrutural. e estruturas.

Pedra & Cal n.º 42 Abril . Maio . Junho 2009 49


ASSOCIADOS GECoRPA

Empripar – Obras Públicas


EL&A - Edificadora Luz & Alves, Ld.ª e Privadas, S. A.
Conservação e restauro do patrimó- Conservação e restauro do patrimó-
CVF – Construtora nio arquitectónico. nio arquitectónico.
de Vila Franca, Ld.ª Reabilitação, recuperação e renovação Reabilitação, recuperação e renovação
Conservação de rebocos e estuques. Edifer Reabilitação, S. A. de construções antigas. de construções antigas.
Consolidação estrutural. Carpintarias. Construção, conservação Instalações especiais em património Instalações especiais em património
Reparação de coberturas. e reabilitação de edifícios. arquitectónico e construções antigas. arquitectónico e construções antigas.

In Situ – Conservação de Bens


Culturais, Ld.ª MIU – Gabinete Técnico
Conservação e restauro do de Engenharia, Ld.ª
património arquitectónico. Matias & Ávilas, Ld.ª Construção, conservação e reabilitação
Reabilitação, recuperação e reno- Conservação e restauro do patrimó- de edifícios. Conservação e reabilita-
vação de construções antigas. L.N. Ribeiro Construções, Ld.ª nio arquitectónico. ção de património arquitectónico.
Instalações especiais em património Construção e reabilitação. Reabilitação, recuperação e renovação Conservação de rebocos e estuques e
arquitectónico e construções antigas. Construção para venda. de construções antigas. pinturas.

NaEsteira – Sociedade de
Monumenta – Conservação Urbanização e Construções, Ld.ª
e Restauro do Património Conservação e restauro do patrimó-
Arquitectónico, Ld.ª nio arquitectónico.
Conservação e reabilitação Reabilitação, recuperação e renovação Policon - Construções, S. A.
de edifícios. Consolidação estrutural. de construções antigas. Conservação , restauro e reabilitação Poliobra – Construções Civis, Ld.ª
Conservação de cantarias Instalações especiais em património do património construído e Construção e reabilitação de
e alvenarias. arquitectónico e construções antigas. instalações especiais. edifícios. Serralharias e pinturas.

STAP – Reparação, Consolidação


Quinagre – Construções, S. A. Somafre – Construções, S. A. e Modificação de Estruturas, S. A.
Construção de edifícios. Construção, conservação Somague – Engenharia, S. A. Reabilitação de estruturas de
Reabilitação. Consolidação e reabilitação de edifícios. Serviço de Engenharia Global betão. Consolidação de fundações.
estrutural. Serralharias. Carpintarias. Pinturas. – Obras Públicas e Construção Civil. Consolidação estrutural.

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ASSOCIADOS GECoRPA

GRUPO IV
Fabrico e/ou
distribuição
Umbelino Monteiro S. A.
de produtos ONDULINE – Materiais Tintas Robbialac, S. A. Produção e comercialização de
de Construção, S. A. Produção e comercialização
e materiais Produção e comercialização de produtos de base inorgânica
produtos e materiais para o
património arquitectónico e cons-
de materiais para construção. para aplicações não estruturais. truções antigas

Para mais informações acerca dos associados GECoRPA, das suas actividades e dos seus contactos,
visite a rubrica “associados” no nosso sítio www.gecorpa.pt

Pedra & Cal n.º 37 Janeiro . Fevereiro . Março 2008 51


PERSPECTIVAS

Reabilitação do património
Duas Inglesas muito cultas que nos fazem reviver o passado

A casa ou o lugar em que em cada


aldeia ou vila se podem encontrar
as chaves dos monumentos a visitar.
Um dos aspectos mais surpreen-
dentes desta obra diz respeito às
críticas, por vezes muito severas, às
campanhas de obras que então se
espalhavam pelo país, sob a alçada
da então DGEMN, com vista à cha-
mada reintegração na traça primitiva.
As extensas campanhas de obras,
impulsionadas pelo dinâmico minis-
tro Duarte Pacheco, dirigidas por
Baltazar de Castro e viabilizadas
pela política orçamental de Salazar,
estendiam-se nessa época por todo
o país. As autoras, distinguindo por
vezes os benefícios dessas obras,
não hesitam em criticá-las muito
severamente, com a destruição sel-
vagem de riquíssimas obras de arte
resultantes de períodos posteriores
à sua construção. De tal maneira,
que chegam a comparar alguns des-
tes desastrosos resultados com os
bombardeamentos aéreos causados
na recente guerra mundial pelos
aviões da Luftwaffe. Essas destrui-
ções sacrificaram, em nome de uma
perversa pureza de estilo, notáveis
conjuntos de azulejaria e de talha
dourada.
Uma obra documental, só agora num contexto de profundo conhe- Um dos aspectos mais interessantes
publicada em Portugal, depois de cimento da História da Arte, não só deste livro, para além da sua abran-
ter conhecido várias edições em portuguesa, centenas de edifícios gência e rigor crítico, é a maneira
Inglaterra, na altura em que foi escri- ao longo de todo o país, incluindo como são descritos, em detalhe, as
ta, veio revelar um olhar inédito as mais remotas vilas e aldeias. No obras em referência, o que se tra-
e extremamente interessante sobre quadro desta expressiva descrição, duz num invulgar instrumento para
o Património Português. Trata-se plena de uma rara capacidade crí- ensinar a ver.
de “Duas Inglesas em Portugal – tica, as autoras dão a conhecer os Livro disponível na Livraria Virtual do GECoRPA
uma viagem nos anos de 1940”, de usos e costumes de uma riquíssima
Ann Bridge e Susan Lownds, edi- tradição rural, incluindo referências
ções Quidnovi, com prefácio de Ana a romarias, peregrinações, feiras e NUNO TEOTÓNIO PEREIRA,
Vicente, filha de uma das autoras. festas populares ligadas aos traba- Arquitecto
A obra regista meticulosamente, lhos agrícolas. E até, imagine-se!

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