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Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Centro de Ciência Humanas, Letras e Artes


Departamento de Letras
Disciplina de Teoria do Poema - LET0569
Docente: Francisco Fábio Vieira Marcolino

Análise de poema: Fanatismo (Florbela Espanca)

Karolyne Lins

Natal
2019
Transcrição
Fanatismo - Florbela Espanca

[A] Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.


[B] Meus olhos andam cegos de te ver!
[B] Não és sequer a razão do meu viver
[A] Pois que tu és já toda a minha vida!

[A] Não vejo nada assim enlouquecida...


[B] Passo no mundo, meu Amor, a ler
[B] No mist’rioso livro do teu ser
[A] A mesma história tantas vezes lida!...

[C] "Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."


[C] Quando me dizem isto, toda a graça
[D] Duma boca divina fala em mim!

[E] E, olhos postos em ti, digo de rastros:


[E] "Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
[D] Que tu és como Deus: princípio e fim!...”

Em seu livro “O Teatro Épico”, Anatol Rosenfeld diz que:


no poema lírico uma voz central exprime um estado de alma e o traduz por meio de
orações. Trata-se essencialmente da expressão de emoções e disposições psíquicas,
muitas vezes também de concepções, reflexões e visões enquanto intensamente
vividas e experimentadas. (ROSENFELD, 2002, p. 22)
Portanto, ao realizarmos a leitura subjetiva de um poema, devemos ser cautelosos e
não tomar como verdade absoluta o que nossa interpretação compreendeu do
sujeito poético.

Leitura subjetiva - Paráfrase

Em 1923, aos 29 anos, a escritora portuguesa Florbela Espanca publicou o


Livro de Sóror Saudade e nele estava incluso o soneto intitulado Fanatismo. No
decassílabo de formato italiano, o eu lírico, que como deixa claro no verso 5, é
feminino, nos dá um apanhado do seu amor que de tão intenso está às margens da
obsessão. Dessa maneira, é possível perceber o fanatismo presente em cada um
dos versos e logo à primeira vista conseguimos entender o título.
Apesar de utilizar-se de figuras de linguagem, Florbela consegue manter a
comunicação clara e simples. Explico meu ponto de vista: no v. 2, quando escreve
“Meus olhos andam cegos de te ver!”, apesar de nos dar um verso paradoxal, a
escritora escolhe bem as palavras, tornando a sentença facilmente entendível para
que o ponto focal seja o sentimento que ela quer exprimir.
Ao lermos outros poemas do mesmo livro em que foi publicado nosso objeto
de análise, percebemos que é típico da escritora “rimar amor e dor”, como bem diria
Monsueto Menezes. Em Fanatismo, as quatro estrofes são repletas de declarações
e Florbela conclui o soneto com: "Ah! Podem voar mundos, morrer astros, Que tu és
como Deus: princípio e fim!...” e então a devoção do poema é arrematada com uma
comparação do seu objeto de adoração com Deus, figura aqui referenciada como
princípio e fim, ou seja, não há questionamentos sobre o quão absoluta é sua
influência na vida do sujeito lírico.
Se fizermos um arremate, não necessariamente na ordem “cronológica” do
poema, percebemos que quando o eu lírico ouve que tais sentimentos narrados
podem ser, não necessariamente efêmeros, mas findáveis, despreza e desdenha de
quem o diz.

Análise do plano imagético - Fanopeia

A experiência sensorial imagética que obtemos ao fazer o primeiro contato


com Fanatismo é a de uma jovem debruçada em sua paixão, que suspira pelos
cantos e está disposta a lutar contra tudo e todos para mostrar que isso não é
apenas um sentimento breve.
No sétimo verso (“No mist’rioso livro do teu ser”) nos deparamos com uma
das personagens da narrativa lírica sendo vista como um livro repleto de um
conteúdo misterioso, e que, para conhecê-la de fato, é necessário lê-lo repetidas
vezes e assim tentar desvendá-lo.
Abaixo, vemos outros exemplos de expressão do plano imagético do poema:
13 "Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
14 Que tu és como Deus: princípio e fim!...”

Análise do plano ideacional - Logopeia

Na introdução de ABC da Literatura, de Ezra Pound, o tradutor Augusto de


Campos mostra que para o autor existem três modalidades de poesia, e uma delas é
a logopeia. Vejamos seu comentário: “Logopeia - “A dança do intelecto entre as
palavras”, que trabalha no domínio específico das manifestações verbais e não se
pode conter em música ou em plástica.” (POUND, 2006, p. 11)
Utilizando a referência que Pound, por intermédio de Augusto, nos dá,
podemos traduzir a logopeia como o encontro das palavras com a nossa mente, o
efeito que elas causam quando tocam nosso intelecto.
Alguns versos do poema nos despertam sensações como a curiosidade do
porquê desse amor tão intenso que a voz poética explicita, são exemplos: “Não vejo
nada assim enlouquecida...” e “Pois que tu és já toda a minha vida!”.

Análise do plano sonoro - Melopeia

Norma Goldestein, em seu livro Versos, sons, ritmos, apresenta que a


aliteração consiste na repetição da mesma consoante ao longo do poema, e no
poema analisado, isso ocorre com a letra ‘m’. A escritora frisa também que cabe ao
leitor buscar seu efeito, em função da significação desse elemento no texto. Desde o
título fanatisMo, até o último verso a consoante é repetida, causando no aspecto
melódico do poema uma sensação de continuidade e maciez ao longo da leitura.
Se atentarmos à primeira estrofe, também temos no campo semântico do
poema a utilização de pronomes possessivos na primeira pessoa (minh’alma, meus
olhos, meu viver e minha vida), que reforçam de que lado parte a idolatria enfatizada
por meio de hipérboles em todo o texto.
O campo semântico do poema envolve figuras de comparação, metáfora e
hipérbole, como supracitado. Vejamos exemplos: quando Florbela escreve, no verso
14, “Que tu és como Deus: princípio e fim!...” faz uma comparação do ser amado
com o Deus bíblico, que como uma ouroboros, é princípio e ao mesmo tempo é fim.
Ou seja, significa que para ela não há nada mais importante que esta pessoa. No
verso 7, temos “No mist’rioso livro do teu ser”, que se trata de uma metáfora para
remeter à leitura que fazemos uns dos outros, como se fossemos livros, de fato.
O primeiro exemplo, dado como comparação, também pode nos servir de
hipérbole uma vez que o sujeito lírico compara o humano que detém seus
sentimentos mais profundos com Deus, que em teoria é um ser supremo. Outro
exemplo de hipérbole está contido no verso 4 “Pois que tu és já toda a minha vida!”,
quando o eu lírico explicita a importância que seu amado tem, tornando-se não
somente uma parte significativa da sua existência, mas toda ela.
Um adendo sobre o plano sonoro é que Florbela uniu as palavras de maneira
tão talentosa e cuidadosa nas rimas, que Raimundo Fagner, cantor e compositor
brasileiro, nos presenteou musicando o soneto sem precisar modificá-lo em nada na
sua estrutura.

Referências

ESPANCA, Florbela. Poemas de Florbela Espanca. 1. ed. São Paulo: Martins


Fontes, 1996.

GOLDSTEIN, Norma. Versos, sons, ritmos. 13. ed. São Paulo: Ática, 2005. p. 5-80.

POUND, Ezra. ABC da Literatura. 11. ed. São Paulo: Cultrix, 2006. p. 9-218.
ROSENFELD, Anatol. O Teatro Épico. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 2002. p. 15-
36.

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