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FUNDAÇÃO ESCOLA DE COMÉRCIO ÁLVARES PENTEADO

FECAP

RELAÇÕES INTERNACIONAIS

DANIELLE PAROLA VAQUEIRO


NATÁLIA FALCÃO HENRIQUES FERREIRA

A TEORIA REALISTA DE RAYMOND ARON

SÃO PAULO

2010
INTRODUÇÃO

A teoria realista consiste na ideia de que o Estado é o ator principal das

Relações Internacionais e que o sistema internacional é anárquico e deriva do

equilíbrio de poder, e da defesa dos interesses dos Estados.

Para o estudo das Relações Internacionais, o pensamento realista de Aron é

indispensável, pois ele se encontra entre os autores mais renomados nesse assunto,

e existem peculiaridades interessantes a serem estudadas, como por exemplo, a

distinção entre os conceitos de poder e potência.

Aron foi pioneiro ao usar o termo potência, e gostaríamos de aprofundar

nossos estudos nessa distinção, que até hoje é utilizada.

Inicialmente pretendemos introduzir a teoria realista, seguindo para um estudo

mais aprofundado da contribuição de Aron para a mesma. Pretendemos com isso

mostrar algumas diferenças entre poder e potência. Analisando o capítulo 2 do livro

‘Paz e guerra entre as nações’, e outras obras para auxílio teórico.


A TEORIA REALISTA

Segundo Arenal (2007, tradução nossa), o pensamento realista é um

pensamento político que leva em consideração as implicações para a vida

política dos fatores de segurança e poder que são inerentes à sociedade

humana.

Os pensadores realistas clássicos destacam autores como Hobbes,

Maquiavel e Tucídides para desenvolver as premissas e os princípios do

realismo do século XX.

A contribuição de Tucídides foi com relação ao conceito de anarquia

internacional, a de Maquiavel em relação à sobrevivência do Estado como

ator, e destacam em Hobbes o conceito de estado de natureza. Conceitos

dos quais serão agora discutidos1.

Algumas premissas podem ser consideradas comuns a todos os

realistas. E tem como centralidade o Estado, que possui como objetivo central

sua sobrevivência, sendo esta de maneira independente (autoajuda), ou por

meio de alianças e a “resultante anarquia internacional”.

Há duas características comuns a vários realistas, a primeira é a

ênfase no que ocorre no sistema internacional considerando que o que ocorre

dentro dos Estados não é relevante para análise das relações internacionais

(Estado como uma caixa preta). A segunda é um pessimismo pronunciado e

definitivo em relação à natureza humana.

1
É importa ressaltar que tais conceitos foram incorporados pelos realistas ao
desenvolverem sua teoria, e sendo assim são pressupostos do Realismo das RI.
Entretanto, é fundamental conhecer as bases em que os teóricos realistas se
apoiaram.
Em relação ao poder, alguns realistas defendem que mais do que o

poder em si, é o equilíbrio de poder que importa, todavia outros defendem

que os Estados devem buscar o poder como um fim em si mesmo.

O realismo normalmente é associado à imagem de um Estado com seu

representante em um combate perpétuo. Suas características como corrente

de pensamento são:

• O pessimismo antropológico, nega a possibilidade de progresso. Para

os realistas o importante é política de poder, e como não há

possibilidade de romper este círculo, qualquer tentativa de aperfeiçoar

o sistema está condenada ao fracasso.

• Os realistas acreditam que podemos tentar entender o processo de

mudança histórica, mas não controlá-lo.

• Não há uma relação naturalmente harmoniosa entre os Estados, pois

estão em uma constante competição, já que não existe uma confiança

mútua.

• O realismo estabelece uma distinção entre os códigos de moral do

indivíduo e do Estado. O homem de Estado, enquanto defensor da

comunidade internacional, não está limitado em sua atuação por

normas éticas e morais que regem os indivíduos. Em virtude da “razão

de Estado”, atuações inaceitáveis no “seio” do Estado são plenamente

válidas na política internacional.

“En concreto, los realistas consideram la política como uma

lucha por el poder. Actuar racionalmente, es decir, actuar em

favor del proprio interés , es acrescentar el poder, aumentar la

capacidade y habilidade de controlar los demás. Acrescentar el


poder para promover los propios interés es seguir los dictados

de la naturaliza. La admisión de planteamentos moralistas,

legalistas e incluso ideológicos sólo puede desembocar o en el

pacifismo y el despotismo o em la revolución . Únicamente, la

prudencia y la oportunidad deben actuar como limites de la

acción. De ahí, el pragmatismo característico del realismo. De

esta forma, el realismo es basicamente pessimista,

conservador, empírico, pragmático, receloso de los princípios

idealistas y respetuoso com las lecciones de la história.”

(ARENAL, 2007, p.108)


A TEORIA REALISTA DE ARON

Aron difere a sociedade internacional e a sociedade nacional. Na primeira, os

valores, as leis e o poder são altamente descentralizados, enquanto que na

nacional, os valores, as leis e o poder são centralizados.

Sendo assim, “na sociedade internacional, os atores, isto é, os Estados, não são

guiados por normas e leis, mas sim por seus interesses próprios”. (NOGUEIRA,

João Pontes; NIZAR, Messari. Pág. 39)

Para Aron a diplomacia e a guerra possuem os mesmos objetivos, pois os

dois têm o objetivo de defender o interesse nacional e se unem quando necessário.

Aron inclui um “objetivo não material” para a guerra. Para Aron existem

guerras em busca de recursos e territórios (que tem um fim quando o objetivo é

atingido), e guerras em busca da glória (que não possuem um objetivo, mas buscam

a glória). E esta sim, torna a “paz negociada virtualmente” impossível de ser

atingida. Porque a glória não é mensurável, o que a torna ‘virtual’.

Sobre poder e potência, podemos notar que “poder é a capacidade que tem

uma unidade política de impor sua vontade às demais. Em poucas palavras, o poder

político não é um valor absoluto, mas uma relação entre os homens” (ARON, 2002,

p. 99), já a potência deve ser considerada uma coisa mais mensurável, mais

objetiva.

Para Aron, poder é remetido a ação, e potência aos meios (recursos) a serem

mobilizados.

A potência pode ser ofensiva ou defensiva, no primeiro caso o Estado deve

ter recursos para impor sua vontade, e no segundo, recursos para resistir.

Essa distinção é inédita até então, e no francês existem palavras para

designar esses conceitos, pouvoir (poder) e puissance (potência). Quando se traduz


o texto de Aron, muitas vezes essas palavras se confundem com seus respectivos

conceitos, o que força o leitor a contextualizar, e aplicar os conceitos corretamente,

independente da tradução.

Por isso se faz necessário o pleno entendimento da idéia de Aron ao distinguir

poder e potência.
CONCLUSÃO

Esperamos ter conseguido demonstrar algumas diferenças entre os conceitos

de poder e potência, que em nossa opinião é a maior inovação de Aron, e a maior

contribuição do mesmo para as Relações Internacionais.

Sem dúvidas Aron é um autor muito importante para o estudo das Relações

Internacionais, e nossa intenção não foi tentar provar isso, até porque sua obra é

muito vasta e envolve muitos outros conceitos além dos observados neste trabalho.

Fica claro, por exemplo, que Aron inovou em outros aspectos como quando

colocou a glória como objetivo não material para a guerra, diferente de Morgenthau

que colocava o prestígio como objetivo não material do poder.

Frisamos que nossa intenção era demonstrar o avanço no pensamento

realista, com a teoria de Aron e suas inovações.


BIBLIOGRAFIA

ARENAL, Celestino del. Introducción a las relaciones internacionales. 4. ed. Madrid:

Tecnos, 2007.

ARON, Raymond. Paz e Guerra entre as Nações. Tradução por: Sérgio Bath. 1 ed.

Brasília: Universidade de Brasília, 2002.

BERTOGLIO CARDOSO, Rodrigo. O conceito de soberania nos realistas

clássicos: Aron, Morgenthau e Carr. Disponível em < http://www.abed-

defesa.org/page4/page8/page9/page3/files/MarcosSantos.pdf> Acesso em:

26/10/2010.

NOGUEIRA, João Pontes; MESSARI, Nizar. Teoria das relações

internacionais: correntes e debates. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.

VIOTTI, Paul R.; KAUPPI, Mark V. International relations theory: realism, pluralism,

globalism, and beyond. 3rd ed. Boston, Mass.: Allyn and Bacon, 1998.