Você está na página 1de 17

Maquiavel

Luiz Eduardo de Oliveira Caldas 


e Cid Augusto Rosado (*)

Nicolau Maquiavel (1469-1527), historiador e filósofo


político italiano. Durante sua carreira como assessor dos
governos de Florença, Maquiavel tentou criar um Estado capaz
de enfrentar os ataques estrangeiros, garantindo a soberania.
Sua obra aborda os princípios nos quais o Estado deve se basear
bem como os meios necessários para reforçá-lo e mantê-lo. Seu
livro mais famoso, O Príncipe (escrito em 1513 e publicado em
1532), descreve o método pelo qual o governante pode adquirir
e manter o poder público. O maquiavelismo como doutrina tem
sido utilizado para descrever os princípios do poder público a
partir da máxima "o fim justifica os meios".

        Estadista, escritor e gênio revolucionário da política, na


opinião de uns; crápula que inspirou atos monstruosos a tiranos
na conquista ou na manutenção do poder, na visão da maioria.
Esse homem descrito por seus biógrafos como sendo magro, de
estatura mediana, lábios finos, fronte larga, olhar penetrante e
que suscita tanta controvérsia ao longo dos séculos é Nicolau
Maquiavel, nascido em Florença, em 3 de maio de 1469.

        Era o terceiro dos quatro filhos do advogado Bernardo,


descendente do ramo mais pobre da nobreza toscana, e de
Bartolomea. Iniciou os estudos de Matemática e Latim aos sete
anos de idade, entrando aos oito na escola de Battista da Poppi.
Teria lido clássicos italianos e latinos na infância e adolescência,
aprofundando posteriormente esse estudo para ilustrar as
teorias de dominação defendidas em suas obras.

        Na idade adulta, o primeiro grande pensador da Idade


Moderna gostava dos versos de Dante e de Petrarca para
mergulhar “na leitura de seus amores” e recordar as próprias
paixões. Vez por outra, lia ainda Ovídio e Tíbulo, considerados
por ele “poetas menores”. Queria ser reconhecido como poeta e
acabou irritado pelo fato de Ariosto não o haver incluído entre os
vates relacionados no Orlando Furioso. A história também lhe
negou o título almejado.

Na visão do tradutor Brasil Bandecchi, “Nicolau Maquiavel é


um dos pensadores mais discutidos de todos os tempos e suas
idéias têm sofrido as maiores distorções”. Segundo ele, as
injustiças que deram sentido pejorativo ao substantivo
“maquiavelismo”1[1] e ao adjetivo “maquiavélico”2[2] são fruto
da repetição de distorções provocadas por traduções inexatas,
análises superficiais ou conceitos forjados por quem nunca o leu.

Já a Encyclopaedia Britannica do Brasil (Barsa), no seu


nono volume, edição de 1997, assim abre o verbete sobre o
autor de O Príncipe ou Dos Principados, obra que revolucionou a
teoria do Estado e criou as bases da ciência política moderna:
“Gênio da política, Maquiavel inaugurou a astúcia inescrupulosa
como método de governo, por detectar e sistematizar

2
pioneiramente a amoralidade peculiar à conquista e ao exercício
do poder”.

Em O pensamento vivo de Maquiavel, Martin Claret concorda


com Bandecchi: “(...) histórias de ardis, assassinatos e espoliações
de governantes têm sido atribuídas a inspirações de O Príncipe, e
chegam a ter algum valor para compreender-lhe o significado.
Mas, freqüentemente, servem apenas para deformar-lhe o
conteúdo mais profundo e a relevância dentro da história das
idéias. Conteúdo e relevância que só podem ser apreendidos
quando se conhecem as circunstâncias em que a obra veio à luz”.

        Na Itália renascentista, tempo de Maquiavel, os pequenos


principados eram dominados por soberanos ilegítimos que,
diante da instabilidade política, da falta de um governo central
da influência do Império Germânico, da França e da Espanha,
precisavam agir rapidamente e com astúcia, apoiando-se
sempre na força de exércitos violentos para se manter, ampliar
ou tomar o poder. Foi justamente nessa atmosfera que
surgiram os tratados políticos de Maquiavel.

        Trabalhou como funcionário público, ocupando cargos de


relativo destaque. Era visto com maus olhos por parte dos
colegas de repartição que se sentiam ameaçados pela
capacidade intelectual dele. Os maiores postos que assumiu
foram o de Secretário da Segunda Chancelaria do Governo de
Florença, quando a ele concorreu pela segunda vez, e o
conselho Dieci de Balia, encarregado das relações exteriores
de Florença. Participou de várias missões diplomáticas.

        Casou-se em 1501 com Marietta de Luigi Corsini, tendo


seis filhos. Manteve durante anos um relacionamento amoroso
com a cantora Bárbara Salutari. Viveu tranqüilamente até 1512
quando acusado de conspiração contra os Médici foi preso e
torturado. Provada sua inocência, foi libertado e se mudou
para uma pequena propriedade em São Cassiano, nos
arredores de Florença, onde escreveu O Príncipe, A Arte da
Guerra e Comentários sobre os primeiros dez livros de Tito
Lívio.

        Em São Cassiano, passava as manhãs e tardes


conversando com gente simples, jogando o que Bandecchi
classifica de “jogo inocente”. À noite, vestia-se com fidalguia e
entregava-se ao estudo dos clássicos, conhecimento que
juntava à sua experiência de Estado para produzir suas obras.
Anistiado, voltou a Florença para exercer funções político-
militares em 1519. No ano seguinte, tornou-se historiador
oficial da república.

        Apesar da afirmativa de que Maquiavel era um pai de


família distante, encontrada na análise de Martin Claret, as
cartas dele mostram carinho, preocupação com o bem-estar e
a educação dos filhos, como a de 22 de abril de 1527, da qual
passamos a transcrever o seguinte trecho: “Recebi tua carta
com grande alegria, principalmente porque me dizes que estás
bem outra vez. Nenhuma notícia poderia me fazer mais feliz”.

        Mais à frente, ainda na citada mensagem ao filho,


Maquiavel aconselha: “(...) precisas educar-te, pois agora não
tens mais desculpas, trabalha bastante, aprende literatura e
música. Devias ver quanta consideração me têm pelos poucos
talentos que possuo3[3]. Portanto, meu filho, se quiseres ser

3
feliz, ser bem sucedido e considerado, estuda bastante,
comporta-te bem e aprende. Ajuda-te e todos te ajudarão”.

        Com o restabelecimento da república em Florença, a


partir do saque de Roma pelo imperador Carlos V, Maquiavel
foi novamente afastado do serviço público. Morreu pobre aos
58 anos, em 21 de junho de 1527, sem conhecer o sucesso de
sua obra – O Príncipe não teve a devida atenção por parte de
Lorenzo de Médici, a quem dedicou os originais, sendo
publicado apenas em 1532. Os seus restos mortais foram
sepultados no cemitério de Santa Croce

.Principais preposições
1.1  A política é a arte do possível
1.2  O possível baseia-se no que é, não no que deveria ser
1.3  Os homens são: ingratos, volúveis, simuladores e avarentos
1.4  Os homens têm menos escrúpulo de ofender quem se faz
amar do que quem se faz temer
1.5  A natureza do homem é imutável
1.6  Os fins justificam os meios
 
2.Influência no pensamento administrativo
2.1  Teorias pragmáticas sobre liderança e poder
2.2  Visão utilitária do ser humano
2.3  Concepções de estratégia e táticas políticas
2.4  Princípio do consenso de massa, necessidade de coesão
organizacional
 
3.Sociedade de Maquiavel
3.1 Cristandade em decadência: conflitos entre o poder divino
(Igreja) e o poder temporal (Estado)
3.2 Processo de ascensão do capitalismo: mercantilismo
3.3 Desenvolvimento do Estado Nacional: soberanos locais são
absorvidos pelo fortalecimento das monarquias e pela crescente
centralização das instituições políticas (cortes de justiça,
burocracias e exércitos)
3.4 Estado absoluto: preserva a ordem de privilégios
aristocráticos (mantendo sob controle as populações rurais),
incorpora a burguesia e subordina o proletariado incipiente
3.4.1 Inglaterra e França: consolidam poder central
3.4.2 Itália não realiza unificação nacional: é um conglomerado
de pequenas cidades- estado rivais, disputados pelo Papa,
Alemanha, França e Espanha.
 
4.Concepção de homem em Maquiavel 
4.1 Racionalidade instrumental: busca o êxito, sem se importar
com valores éticos
4.4.1 Cálculo de custo/benefício: teme o castigo
4.2 Natureza humana:
4.2.1 Homem possui capacidades: força, astúcia e coragem
4.2.2 Homem é vil, mas é capaz de atos de virtude
4.2.3 Mas não se trata da virtude cristã
4.2.4 Não incorpora a idéia da sociabilidade natural dos antigos
4.3 O homem não muda: não incorpora o dogma do pecado
original: natureza decaída que pode se regenerar pela salvação
divina.
 
5.Concepção da História em Maquiavel
 
5.1 Perspectiva cíclica, pessimista, de inspiração platônica
5.1.1 Tudo se degenera, se sucede e se repete fatalmente
5.1.2 Todo princípio corrompe-se e degenera-se
5.1.3 Isto só pode ser corrigido por acidente externo (fortuna)
ou por sabedoria intrínseca (virtu)
5.2 Não manifesta perspectiva teleológica à humanidade não tem
um objetivo a ser atingido
5.2.1 A política não admite a teleologia cristã: o caminho da
salvação, a construção do Reino de Deus entre os homens.
5.2.2 Também não pensa a história sob a perspectiva dos
modernos: não menciona a idéia do progresso à estrutura cíclica
 
6.Concepção de Política em Maquiavel 
6.1 Política: pela primeira vez é mostrada como esfera autônoma
da vida social
6.1.1 Não é pensada a partir da ética nem da religião: rompe com
os antigos e com os cristãos
6.1.2 Não é pensada no contexto da filosofia: passa a ser campo
de estudo independente
6.2 Vida política: tem regras e dinâmica independentes de
considerações privadas, morais, filosóficas ou religiosas
6.2.1 Política: é a esfera do poder por excelência
6.2.2 Política: é a atividade constitutiva da existência coletiva:
tem prioridade sobre todas as demais esferas
6.2.3 Política é a forma de conciliar a natureza humana com a
marcha inevitável da história: envolve fortuna e virtu.
6.3 Fortuna: contingência própria das coisas políticas: não é
manifestação de Deus ou Providência Divina
6.3.1 Há no mundo, a todo momento, igual massa de bem e de
mal: do seu jogo resultam os eventos (e a sorte)
6.4 Virtu: qualidades como a força de caráter, a coragem militar,
a habilidade no cálculo, a astúcia, a inflexibilidade no trato dos
adversários
6.4.1 Pode desafiar e mudar a fortuna: papel do homem na
história
 
7.Concepção de Estado em Maquiavel 
7.1 Não define Estado: infere-se que percebe o Estado como
poder central soberano que se exerce com exclusividade e
plenitude sobre as questões internas externa de uma
coletividade
7.2 Estado: está além do bem e do mal: o Estado é
7.2.1 Estado: regulariza as relações entre os homens: utiliza-os
nos que eles têm de bom e os contém no que eles têm de mal
7.2.2 Sua única finalidade é a sua própria grandeza e
prosperidade
7.2.3 Daí a idéia de "razão de Estado": existem motivos mais
elevados que se sobrepõem a quaisquer outras considerações,
inclusive à própria lei
7.2.4 Tanto na política interna quanto nas relações externas, o
Estado é o fim: e os fins justificam os meios
 
8."O Príncipe": não se destina aos governos legais ou
constitucionais 
8.1 Questão: como constituir e manter a Itália como um Estado
livre, coeso e duradouro? Ou como adquirir e manter
principados?
8.2 A tirania é uma resposta prática a um problema prático
8.3 "O Príncipe": não há considerações de direito, mas apenas de
poder: são estratégias para lidar com criações de força
8.4 Teoria das relações públicas: cuidados com a imagem pública
do governante
8.5 Teoria da cultura política: religião nacional, costumes e ethos
social como instrumentos de fortalecimento do poder do
governante
8.6 Teoria da administração pública: probidade administrativa,
limites à tributação e respeito à propriedade privada
8.7 Teoria das relações internacionais:
8.7.1 Exércitos nacionais permanentes, em lugar de mercenários
8.7.2 Conquista, defesa externa e ordem interna
8.7.3 A guerra é a verdadeira profissão de todo governante e
odiá-la só traz desvantagens.

 
PRINCIPAIS OBRAS DE MAQUIAVEL

Publicadas em vida

-         A Primeira Decenal, Florença, 1506.

-         A Arte da Guerra, pelos herdeiros de Filippo Giunta,


1521, prega a criação de milícias populares e o fim das
forças armadas permanentes que ameaçam a república.
Na introdução desta obra, incorpora o pensamento de
Platão de que os jovens escolhidos para fazer parte das
milícias precisam receber tratamento especial a fim de
se acostumarem aos percalços das guerras.

-         A Mandrágora, duas primeiras edições sem data. A


terceira é de 1524, em Roma. É considerada a maior
comédia Italiana de todos os tempos, recheada de
erotismo e sarcasmo.

Obras póstumas

- A) Os discursos sobre a primeira década de Tito Lívio ou


Comentários sobre os primeiros dez livros de Tito Lívio,
Roma e Florença, 1531, são o estudo comparativo dos
vícios da história romanas com o período renascentista.
Esta e a A Arte da Guerra são obras consideradas
importantes para se compreender O Príncipe.

"Discursos", como também é conhecida a referida obra, foi escrito


por Maquiavel quatro anos após haver concluído "O Príncipe", o que
justifica suas perceptíveis semelhanças com o primeiro. No entanto,
o que o distingue de "O Príncipe" é a análise detalhada da república,
em que o autoro claramente se coloca em favor desta, a apontar
suas principais características observadas no decorrer da história e
modos de melhorá-la, ou de ao menos mantê-la. Assim, pode-se
considerar Maquiavel como sendo, indubitavelmente, um pensador
indutivo - utiliza-se de inúmeros exemplos históricos com o fim de
sustentar suas afirmações. No entanto, seu propósito não é sempre
impecavelmente atingido, mesmo porque a realidade não segue
regras e é, portanto, muito mais complexa do que se pode teorizar.

A obra é começada com a citação da origem das cidades, que


podem estabelecer-se devido a um grupo de cidadãos juntar-se a
visar maior segurança; a estrangeiros que querem assegurar o
território conquistado, a estabelecer, ali, colônias; ou mesmo a
fim de exaltar-se a glória do Príncipe.

As repúblicas nascem com o surgimento das cidades e, assim,


constituem três espécies, que são: a monarquia, aristocracia e
despotismo. Três que podem evoluir para o despotismo,
oligarquia e anarquia, respectivamente. É claro, neste ponto, o
pessimismo de como a sociedade é vista por Maquiavel: é a
dialética de dois termos, que trata da sucessão entre
ascendência e decadência, a formar um ciclo vicioso. Maquiavel
acredita, ainda, que todos princípios corrompem-se e
degeneram-se, a ser possível ser corrigido somente via acidente
externo (fortuna) ou por sabedoria intrínseca (virtu).

A voltar-se às espécies de repúblicas, chega-se à conclusão de


que a sua melhor forma seria o equilíbrio, dito como ser a "justa
medida", segundo Aristóteles. Tal equilíbrio pode manter-se
através das próprias discordâncias entre o povo e o Senado, já
que estes, em conjunto, representam e lutam pelos interesses
gerais do Estado.

O Estado é, então, definido como o poder central soberano; é o


monopólio do uso legítimo da força, como diria Weber. As leis
são estabelecidas nas práticas virtuosas da sociedade e com o
cuidado de não repetir o que não teve de êxito. Por isso, é dito
que não há nada pior do que a deixar ser desrespeitada. Se isso
ocorrer, tornar-se clara a falha do exercício do poder de quem a
corrompe. Em contrapartida, em se tratando de Estado, tudo é
válido, desde a violação de leis e costumes e tudo mais que for
necessário para atingirem-se as conseqüências visadas: os fins
justificam os meios.

Nessa visão de poder do Estado, é clara a importância da


religião, pois em nome dela são feitas valer muitas causas em
favor do Estado. A religião é, sob a visão de Maquiavel, um
instrumento político-é usada de modo a justificar interesses os
mais peculiares e, também, como conforto à população, que
anda sempre em busca de ideais, a estar disposta até mesmo a
conceder sua vida em busca destes.

O êxito de uma república, consoante o autor, pode ser


estrategicamente obtido através da sucessão dos governantes.
Se se intercalar os virtuosos com os fracos, o Estado poderá
manter-se. Mas, se, diferentemente, dois ruins sucederem-se, ou
apenas um, mas que seja duradouro, a ruína do Estado será
inevitável, já que, desse modo, o segundo governo não poderá
utilizar-se dos bons frutos do governo anterior. Destarte, cita a
importância das república, já que nela os próprios cidadãos
escolhem seus governantes, de modo a aumentar a chance de
ter-se, consecutivamente, bons governos.

Com relação à política de defesa, onde há pessoas e não um


exército, é notada um clara incompetência por parte do
soberano, pois é de sua exclusiva competência formar um
exército próprio para a defesa da nação. É, também, de extrema
importância saber-se a hora própria para instituir-se a ditadura,
que, em ocasiões excepcionais, é necessária a fim de tomarem-
se decisões rápidas, a dispensar, assim, consultar as tradicionais
instituições do Estado. Contudo, ela deve-se instituir por período
limitado, de modo a não se corromper e deve existir até quando
o motivo o qual a fez precisar-se for eliminado. Após uma análise
teórica e comparativa - em termos históricos - é colocada ainda a
importância da fortuna, a qual tem contingência própria e o
poder de mudar os fatos. Assim, o autor define o papel do
homem na história: desafiá-la.

Com base na teoria do equilíbrio, conclui-se, então, que o ideal é


que se estabeleça um meio termo entre as formar de governo a
serem adotadas, a observar-se que a combinação das já
existentes pode mostrar-se muito mais eficiente. A forma que se
é administrado um Estado deve adaptar-se ao seu contingente
populacional, e não as pessoas às suas leis.
-         O Príncipe, Roma e Florença 1532. Na edição
Florentina, de Bernardo Giunta, estão Retrato das Coisas
de França e o Retrato das coisas da Magna. Sobre este
livro vale a pena transcrever o que dizem os
editorialistas da Enciclopédia Barsa: “Foi, porém, com o
pequeno livro Il príncipe que Maquiavel revolucionou a
teoria do Estado e criou as bases da ciência política.
Homem do Renascimento, ao romper com a moral cristã
medieval, estudou com objetividade os meios e os fins
da ação política, com base na observação escrita de sua
realidade. Elaborou assim uma teoria política realista e
sistemática, em que pela primeira vez se separa a moral
(ou razão) de estado”. Veio de O Príncipe, livro dedicado
ao prícipe Lorenço II, da família Médicis e duque de
Urbino, a concepção de que, para se alcançar o poder, os
fins justificam os meios.

Em sua obra "O Príncipe", Nicolau Maquiavel mostra a sua


preocupação em analisar acontecimentos ocorridos ao longo da
história, de modo a compará-los à atualidade de seu tempo
"O Príncipe" consiste de um manual prático dado ao Príncipe
Lorenzo de Médice como um presente, o qual envolve
experiência e reflexões do autor. Maquiavel analisa a sociedade
de maneira fria e calculista e não mede esforços quando trata de
como obter e manter o poder.
A obra é dividida em 26 capítulos, que podem ser agregados em
cinco partes, a saber:

*capítulo I a XI: análise dos diversos grupo de principados e


meios de obtenção e manutenção destes;
*capítulo XII a XIV: discussão da análise militar do Estado;
*capítulo XV a XIX: estimativas sobre a conduta de um Príncipe;
*capítulo XX a XXIII: conselhos de especial interesse ao
Príncipe;
*capítulo XXIV a XXVI: reflexão sobre a conjuntura da Itália à
sua época

Na primeira parte (cap.I a XI), Maquiavel mostra, através de


claros exemplos, a importância do exército, a dominação
completa do novo território através de sua estadia neste; a
necessidade da eliminação do inimigo que no país dominado
encontrava-se e como lidar com as leis preexistentes à sua
chegada; o consentimento da prática da violência e de
crueldades, de modo a obter resultados satisfatórios, onde se
encaixa perfeitamente seu tão famoso postulado de que "os fins
justificam os meios" como os pontos mais importantes.

Já na segunda (cap.XII ao XIV), reflete sobre os perigos e


dificuldades que tem o Príncipe com suas tropas, compostas de
forças auxiliares, mistas e nacionais, e destaca a importância da
guerra para com o desenvolvimento do espírito patriótico e
nacionalista que vem a unir os cidadãos de seu Estado, de forma
a torná-lo forte.

Do capítulo XV ao XIV, vê-se a necessidade de uma certa


versatilidade que deve adotar o governante em relação ao seu
modo de ser e de pensar a fim de que se adapte às
circunstâncias momentâneas - "qualidades", em certas ocasiões,
como afirma o autor, mostram-se não tão eficazes quanto
"defeitos", que , nesse caso, tornam-se próprias virtudes; da
temeridade dele perante a população à afeição, como medida de
precaução à revolta popular, devendo o soberano apenas evitar o
ódio; da utilização da força sobreposta à lei quanto disso
dependeram condições mais favoráveis ao seu desempenho; e da
sua boa imagem em face aos cidadãos e Estados estrangeiros, de
modo a evitar possíveis conspirações.

Em seguida, constata-se um questionamento das utilidade das


fortalezas e outros meios em vistas fins de proteção do Príncipe;
o modo em que encontrará mais serventia em pessoas que
originalmente lhe apresentavam suspeitas em contrapartida às
primeiras que nele depositavam confiança; como deve agir para
obter confiança e maior estima entre seus súditos; a importância
da boa escolha de seus ministros; e uma espécie de guia sobre o
que fazer com os conselhos dados, estes, raramente úteis,
quando se considera o interesse oculto de quem os dá.

Na última parte, que abrange os três capítulos finais, Maquiavel


foge de sua análise propriamente "maquiavélica" na forma de
um apelo à família real, de modo que esta adote resoluções em
favor da libertação da Itália, dominada então pelos bárbaros.

Terminada a breve exposição dos principais temas abordados no


livro "O Príncipe" aqui sintetizado, conclui-se ser tamanha a
complexidade organizacional de um Estado, que se recorre a
todo e qualquer meio, justo ou injusto, da república à tirania, par
ter-se como conseqüência não um país justo no sentido próprio
da palavra - ao menos não se julga, habitualmente, haver uma
possibilidade de fazer-se justiça com relação a todos os
integrantes de uma sociedade ou grupo de extensão
considerável, já que os interesses são os mais variados -, mas
estável, governável e próprio de orgulho por suas partes e,
principalmente, de respeito perante aos demais países/nações, o
que certamente propiciaria um meio sadio e mais tranqüilo de
viver-se, tanto ao Príncipe quanto aos seus seguidores.

- C) Histórias Florentinas ou Histórias de Florença, 1532,


escrita em estilo clássico, é a primeira obra de
historiografia moderna.

- D) Em 1549, Giunta une em única edição textos da


Segunda decenal, do Asno de Ouro (poema), dos Capitoli
e a novela de Belfegor também conhecida como O
Demônio que se casou.

ALGUNS PONTOS DO PENSAMENTO “MAQUIAVÉLICO”

-         “O imperador não deve depender do papa, mas lhe ser


respeitoso”, contrariando a bula Unam Sanctorum, do Papa
Bonifácio VIII, segundo a qual “todo o poder se origina do papa e a
ele estão submetidos todos os homens”.

-         Foi também o primeiro a contrariar Dante, para


quem Deus era a fonte do poder do imperador (no plano
temporal) e do papa (no espiritual). De acordo com
Maquiavel, a origem do poder não é divina, encontra-se
na força, assim como a virtude não significa qualidade
moral, mas sim força e ação.

-         “Nas mercenárias o mais perigoso é a covardia e nas auxiliares o


valor”, defendendo que os príncipes devem ter milícias próprias,
identificadas com a pátria, evitando mercenários e a ajuda de
exércitos de outros países.

-         Apesar de escolher o cruel César Bórgia como


modelo ideal de príncipe, alegou que a conquista do
poder pela perversidade é mesquinha.

-         “As perversidades devem ser feitas todas ao mesmo tempo,


porque durando pouco ofendem menos, e os benefícios devem ser
concedidos aos poucos.
-         Os homens devem ser acariciados ou liquidados, pois
costumam vingar-se de injúrias leves. Aniquilados não
podem revidar.

-         “O príncipe deve ser mais temido do que amado. O ideal seria ser
igualmente amado e temido”.

-         “O povo é mais poderoso que os soldados.... A melhor das


fortalezas de um príncipe está em não ser odiado pelo povo”.

-         “Os homens esquecem mais facilmente a morte do pai do que a


perda do patrimônio”.

-         “Nas repúblicas há mais vida, o ódio é mais forte e há mais


desejo de vingança, e o povo não deixa nem pode deixar adormecer
a memória da antiga liberdade: por tudo isso, o caminho mais
seguro é arrasá-las ou habita-las”.

-         “Quem menos confiou na sorte manteve a conquista por mais


tempo”.

-         “O que o torna acima de tudo, odioso, é bom frisar, é usurpar,


roubar os bens dos seus súditos e conquistar-lhes as mulheres”.

-         “Um príncipe deve incumbir aos outros a aplicação das penas e
reservar para si a distribuição dos favores”.

-         “Tomar partido é sempre mais útil do que ficar neutro”.

-         É errado “acreditar nos aduladores que cercam os governos”.

-         “A sorte é mulher e só se submete quando é contrariada e


surrada”.

-         “Todos os profetas armados venceram e os desarmados foram


vencidos (...). Isso ensina que quando o povo não crê mais é preciso
fazê-lo à força”.

BIBLIOGRAFIA

MAQUIAVEL, Nicolau; BANDECCHI, Brasil (tradução). O


Príncipe. Editora Morais, São Paulo: 1992.
____________________; BANDECCHI, Brasil (tradução). A
Mandrágora. Editora Morais, São Paulo: 1992.

CLARET, Martins (editor). O Pensamento Vivo de


Maquiavel.Martin Claret, São Paulo: 1986.

Enciclopédia Barsa, 1997, volume 9, página 266.

4
[1] De acordo com o Aurélio: “S.m. 1. Sistema político exposto por Nicollò Machuiavelli, dito Maquiavel
(1969-1527), escritor e estadista florentino, em sua obra O Príncipe, e caracterizado pelo princípio
amoralista de que os fins justificam os meios. 2. Política desprovida de boa-fé. 3. Procedimento
astucioso, velhaco, traiçoeiro; velhacaria, perfídia”.

5
[2] De acordo com o Aurélio: “Adj.1. Pertencente ou referente ao, ou próprio do maquiavelismo;
maquiavelista. 2. Fig. Que tem, ou em que há perfídia, dolo, má-fé; astuto, velhaco, ardiloso”.

6
[3] Nicolau Maquiavel refere-se ao cardeal Cibo, com quem passava a manter relações de “tão grande
amizade que a mim mesmo espanta”.