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Depto. de Letras –PUC-Rio – 2012.2


Módulo: LET 2377- TEORIAS DA TRADUÇÃO
Professora: Marcia Martins
Aluna: Dilma Machado
Resenha 1
Texto:Em VENUTI, L. ”A formação de identidades culturais” Cap. 4 do livro Escândalos da
Tradução Trad. L Pelegrini, L. Villella. M Esqueda e V. Biondo. Bauru: EDUSC, 2002.

Quando Venuti diz que “a tradução exerce um poder enorme na construção de


representações de cultas estrangeiras”, ele chama a atenção para o caráter de formação da
prática tradutória e discute as estratégias do mercado que se dá por meio da subversão do
cânone local. Com isso a visibilidade do tradutor poderia ser promovida pela introdução de
gêneros estrangeiros. Para ele a desvalorização do trabalho do tradutor é resultado em parte
da tradução domesticadora. Os recursos que manipulam a língua alvo provocam a ilusão de
que o leitor está diante de um texto original, não traduzido, de acordo com suas palavras ao
dizer que “os textos estrangeiros são, em geral, reescritos para amoldarem a estilos e temas
que prevalecem naquele período nas literaturas domésticas, em detrimento de discursos
tradutórios mais caracterizados pela historicidade, que recuperam estilos e temas do passado,
inserindo-os nas traduções domésticas.”
Ao se tratar da intervenção consciente do tradutor na produção do seu texto por meio da
subversão do cânone, da estrangeirização da escrita e da inclusão de discursos
marginalizados, que Venuti advoga, e ao isolar os contextos sociais, isso também parece
implicar um problema em sua própria concepção: o deslocamento, para essa suposta instância,
da fixidez e estabilidade anteriormente atribuídas aos significados, de acordo com Frota. (p.
87).
Se para Venuti, o contexto e a interpretação têm como limite a ideologia de classe e se o
tradutor só rompe com o status quo se propuser conscientemente um texto de assimilação
problemática para o leitor, neste caso a subjetividade é excluída da escrita do tradutor e resta a
ele optar por um dos caminhos possíveis excludentes entre si: domesticar valores, discursos e
temática ou estrangeirizá-los. As literaturas estrangeiras podem perder sua história pela
seleção doméstica, afastando assim as tradições literárias que lhe conferem importância, pois
os textos são reescritos de acordo com estilos e temas que prevalecem num dado momento
nas literaturas domésticas, criando estereótipos. A tradução pode estigmatizar ou valorizar
etnias, raças e nacionalidades específicas criando respeito ou ódio pela diferença cultural com
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base no etnocentrismo. É possível notar a influência do romantismo enfatizando o herói, pois


segundo John Jones até as traduções acadêmicas constroem representações domésticas de
textos e culturas estrangeiras, que apesar de consistentes são contraditórias, guiadas por um
conceito romântico de individualismo, no qual a atuação humana é vista com autodeterminante.
Ao observar as discrepâncias entre a tradução de Bywater de 1909 e o original grego na qual
Aristóteles discute a harmatia, Jones leu a tradução inglesa de forma sintomática, localizando
discrepâncias que não julgava ser erros e sim reflexos de opções calculadas.
Segundo Venuti “quando uma tradução acadêmica constrói uma representação
doméstica de uma cultura e de um texto estrangeiros, essa representação pode alterar a
instituição na qual estiver alojada porque as fronteiras disciplinares são permeáveis.”
Na tradução da ficção japonesa, o Japão é representado como uma terra exótica,
estilizada e estrangeira de forma sofisticada. Porém, os romances cômicos, não coerentes
com o cânone pós-guerra não eram traduzidos, ou se eram, foram abandonados. A nostalgia
expressa pelo cânone, que não mudou entre as décadas de 1970 e 1980, foi distintamente
americana e não necessariamente compartilhada por leitores japoneses. No final dos anos 80,
uma nova geração questionou o cânone e publicou antologias de escritores mais novos.
Quando Jerônimo traduziu a Bíblia para o latim, em 170 d.C, seu Antigo Testamento foi
traduzido do grego da Septuaginta, que era a língua aceita pela igreja, e não do hebraico. Ao
incluir os apócrifos e questionar a Septuaginta “julgando-a inadequada, invalidada por
omissões e expansões que refletiam os valores de seu patrono pagão e corrompida por
variantes que se acumularam em edições sucessivas” (Kamesar, 1993, p. 59-69) , ele causou
uma preocupação a Santo Agostinho, pois isso ameaçaria a consistência ideológica e a
estabilidade institucional da Igreja. O Papa Dámaso queria um conjunto padronizado das
Escrituras, buscando a uniformidade, e que a igreja do Ocidente se tornasse claramente latina.
Uma das maneiras de conseguir isso seria produzindo uma tradução latina da Bíblia, que
eliminasse as imprecisões das traduções mais antigas.
Como as traduções podem alterar o funcionamento de qualquer instituição social, elas
são obrigadas a basearem-se em normas e recursos culturais que diferem fundamentalmente
daqueles que circulam na cultura doméstica. (cf. Robyns, 1994, p.407)
Para Berman uma tradução ruim é etnocêntrica, pois prioriza o texto original, seu autor e
a cultura a que pertence e uma boa tradução reforça a língua e a cultura doméstica para
registrar o que é estrangeiro.
Não se pode restringir a ética tradutória a uma noção de fidelidade.
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A tradução que se orienta por uma ética da diferença, como postulada por Venuti e
Berman, não apaga as marcas da sua origem e coloca em risco a estabilidade da crença na
existência da superioridade de um texto, uma literatura, uma cultura, uma língua sobre a outra.
Esse tipo de ética propõe subverter a tendência de toda operação tradutória de se ajustar aos
parâmetros ideológicos e poetológicos vigentes no contexto da tradução, produzindo assim
textos fluentes, transparentes e domesticantes, provocando no leitor a sensação de estar
diante de uma obra original.
Venuti questiona a ética da diferença com três perguntas: “ É possível para um tradutor
seguir uma ética da diferença conscienciosamente? Até que ponto tal ética arriscas-se a ser
ininteligível, ao descentralizar as ideologias domésticas e a ser culturalmente marginal, ao
desestabilizar as operações das instituições domésticas? Um tradutor pode manter uma
distância crítica das normas doméstica sem condenar uma tradução a ser menosprezada como
impossível de se ler? “. E usa como exemplo para responder suas questões a versão inglesa,
feita por Megan Backus do romance Kitchen de Banana Yoshimoto dizendo que ela “ é muito
fácil de ler, mas é também estrangeirizadora na sua estratégia de tradução. Em vez de cultivar
uma fluência inteiriça que inscreva de modo sutil os valores americanos do texto, Backus
desenvolveu uma linguagem extremamente heterogênea, que comunica a americanização do
Japão, mas que, ao mesmo tempo, ressalta as diferenças entre a cultura japonesa e a
americana para um leitor de língua inglesa.” (p.162). A abordagem de Venuti engloba o papel
do tradutor, os valores socioculturais que orientam a tradução e as instituições que a
controlam.
Comparada com a versão de Miyoshi que na opinião de Venuti mostra-se mais
fortemente domesticadora, assimilando o texto japonês ao dialeto padrão do inglês, a de
Backus é mais evocativa e heterogênea. Para ele, ““o fator-chave é a ambivalência do tradutor
em relação às normas domésticas e às práticas institucionais nas quais elas são
implementadas, uma relutância em identificar-se completamente com elas aliada a uma
determinação em dirigir-se a comunidades culturais diversas, elitizadas e populares.”
Concluindo, o tradutor pautando sua prática em uma ética da igualdade ou da diferença,
é um agente importante no contexto cultural da comunidade a qual pertence podendo contribuir
individualmente ou coletivamente para a manutenção ou alteração da identidade cultural desse
contexto.

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