Sinopse

Trinta anos após ter cometido um dos crimes passionais de maior repercussão no país, Doca Street conta sua versão da tragédia. Depois de uma violenta discussão com Ângela Diniz, Doca assassina a “pantera de Minas” à queima-roupa, na véspera do Reveillon de 1976. Defendido por Evandro Lins e Silva, um dos destacados juristas brasileiros, foi inocentado no primeiro julgamento. Mas não teve a mesma sorte no segundo: foi condenado a 15 anos de prisão. Após cumprir a pena, foi colocado em liberdade pela Justiça, mas não pela sua consciência. As anotações, feitas durante o tempo de prisão e reunidas em Mea Culpa, passam a limpo os dez anos mais tumultuados da vida de Doca Street – do primeiro trimestre de 1976, quando tem início seu caso com Ângela, a outubro de 1987. Segundo o autor, “para não enlouquecer, cheio de culpas e remorsos, comecei a escrever. Era fácil, punha no papel tudo o que passava na minha cabeça. Toda a dor, toda a angústia, todo o desespero que senti. Depois de algum tempo, cansado de escrever só sobre minha dor e de sentir pena de mim, comecei a escrever sobre o dia-a-dia do presídio”. Na cadeia ou “universidade do mal”, como ele define, conviveu de perto com os fundadores da facção criminosa Falange Vermelha. Com Mea culpa, o leitor está “diante de uma história com todos os ingredientes de uma verdadeira novela policial: dinheiro, infidelidade, drogas, amor, ciúme e, ao final, o cadáver de uma mulher”, observa o jornalista e escritor Fernando Morais nas orelhas do livro. “Embora o final já seja conhecido de todos, o leitor consome este livro como se devorasse um romance. Um romance que milhões de brasileiros acompanharam pela TV e pelas páginas policiais, e que agora é reconstruído por seu principal personagem.”

Mea Culpa
O depoimento que rompe 30 anos de silêncio Planeta Copyright © 2006, Doca Street Coordenação editorial: Pascoal Soto Assistência editorial: Carlos A. Inada Pesquisa: Miguel Said Vieira e Luiz Alberti Júnior Preparação de textos - Ioparte: Carlos A. Inada Preparação de textos - 2o e demais partes: Tereza Romeiro Revisão de textos: Túlio Kawata Diagramação e projeto de miolo: Equipe Planeta Capa: Vanderlei Lopes Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Street, Doca Mea culpa Doca Street - São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2006. ISBN 85-89885-53-4 1. Crimes e criminosos Biografia 2. Diniz, Ângela 3. Street, Doca I. Título. 05-4324 CDD-923.41 índices para catálogo sistemático: 1. Criminosos famosos Biografia 923.41 Esta obra é uma autobiografia, sendo de inteira responsabilidade do autor as informações nela

contidas. Alguns nomes foram trocados para preservar a identidade das personagens. 2006 Todos os direitos desta edição reservados à Editora Planeta do Brasil Ltda. Avenida Francisco Matarazzo, 1500 - 3a andar - conj. 32B Edifício New York 05001-100-São Paulo-SP vendas@editoraplaneta.com.br

AGRADECIMENTOS
A Marilena, meus pais, Cláudia Leal Fontana (que corrigiu os primeiros originais), Maria Zélia Street Aguiar, May e Luiz Carlos Street.

1
NÃO SEI EXATAMENTE EM QUE MOMENTO RESOLVI CONTAR ESTA História, nem por quê. Quando comecei, estava atravessando o inferno, com todos os demônios à minha volta. Sofri muito naquela época, no meio da loucura que era o presídio Ary Franco, conhecido como Água Santa, no bairro de Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Os "demônios à minha volta" não eram os presos, e sim os habitantes do inferno. Os de Dante, com os cascos divididos, que enchiam minha alma e minha cabeça, sem me dar trégua. Sentia-me mal, muito mal. Cheio de culpas e remorsos. Para não enlouquecer, comecei a escrever. Era fácil, punha no papel tudo o que passava pela minha cabeça. Toda a dor, toda a angústia, todo o desespero que senti, escrevi. Depois de algum tempo, cansado de escrever só sobre minha dor e de sentir pena de mim, comecei a escrever sobre o dia-a-dia no presídio. Quando me perguntavam o que tanto eu escrevia, dizia... um livro. Nunca meus companheiros de cela duvidaram disso. Brincavam comigo: "Olha... não vai esquecer de mim". Depois daquela época jamais deixei de pôr no papel todas as minhas emoções, tudo o que se passou à minha volta e pelo mundo. Lia, ouvia e via tudo o que saía na imprensa. Tudo o que chamava a minha atenção, dos assuntos mais variados, foi sendo armazenado: revistas, recortes de jornais e anotações sobre o noticiário da TV. Também acumulei centenas de cartas que recebi de todo o país e do exterior. Como não conhecia computador, isso tudo ocupava um espaço enorme. Um dia, há uns dez anos, olhando aquilo e achando que não me serviria para nada, joguei tudo fora. Só fiquei com o que tinha escrito. Incentivado por meus filhos e por amigos, resolvi colocar aquelas anotações em ordem. Devagar, fui passando a limpo os dez anos mais tumultuados de minha vida, do primeiro trimestre de 1976 a outubro de 1987. Por que Mea culpai Porque se trata de uma seqüência de acontecimentos que, além de mim, envolveram outras pessoas. Não é apenas culpa de um crime, é culpa de um todo e de suas conseqüências.

12 OLHEI AQUELA CENA HORRÍVEL MAIS ASSUSTADO DO QUE COM medo. Joguei a arma no chão, andei até o carro, entrei, manobrei e saí rumo a Cabo Frio. Apesar da confusão em que estava a minha cabeça, uma coisa me incomodava. Como é que havia bala na agulha? Enfim, esse detalhe não tinha mais importância, a vida não me interessava mais. Iria até a delegacia me entregar. Estava anoitecendo, a estrada era de terra e, depois de dirigir uns dez minutos, comecei a raciocinar novamente. Parei, abri a mala que estava no banco de trás, vesti calça e camisa, pus a mala no portamalas e continuei. Entrei na cidade e parei num posto de gasolina. Abasteci, comprei cigarros e peguei a estrada para São Paulo. Precisava falar com alguém, ver minha família. Você não comete uma loucura, um crime, um ato tresloucado e fica desesperado. Não, parece que você saiu do seu corpo e que está se olhando, assistindo a tudo. Eu dirigia em altíssima velocidade, controlava tudo à minha volta, a estrada, os carros que vinham e apareciam no retrovisor, nada me escapava. Percebi que não estava mais chorando. Pouco depois de Niterói havia uma barreira policial, pensei que fosse o fim. Mostrei meus documentos e me desejaram boa viagem e Feliz Ano-Novo. Quando entrei na via Dutra, a noite parecia mais escura. Me atrapalhei e segui por uma bifurcação paralela, que passava por dentro das cidades da Baixada. Em São João do Meriti, parei em um bar e fiz um lanche. Depois voltei à estrada certa e segui viagem. Dirigia como um louco e recomecei a chorar. Entrava nas curvas da serra a toda, parecia que queria despencar em um daqueles precipícios. 13 As últimas cenas na casa da praia dos Ossos estavam muito claras na minha mente. Vinham em flashes, e para suportar a dor eu urrava: — Deus onde está Você, para eu chorar no seu ombro? — Sentia que poderia enlouquecer a qualquer momento e continuava a urrar. A estrada estava vazia, provavelmente já era o dia 31 de dezembro de 1976. Continuava dirigindo a toda, não importavam mais as lágrimas, os pensamentos ou os urros. Não errava uma curva, não cometia sequer um deslize, embora naquela hora nada importasse mais, eu podia acabar com tudo. Às quatro da manhã, depois de dar várias voltas por São Paulo, de passar em frente à casa da minha mãe, no Morumbi, estacionei à porta da casa de um amigo que não negaria ajuda. Não estava mais chorando, tinha conseguido me controlar. Esperei que o segurança saísse da guarita e, como percebi que ele não viria até o carro, abri a porta e desci. Ele me reconheceu e se aproximou. Depois de um breve cumprimento, explicou que Laudse e Vera estavam na Bahia. Como ele estava ouvindo o rádio, perguntei se havia alguma novidade. — Não, senhor, só música sertaneja — respondeu. Tirei um cigarro e fiquei fumando no carro com a porta aberta, pensando no que fazer. Comentei com o segurança que tinha dirigido várias horas e que estava descansando um pouco. Lembrei que um amigo, o Paulo, grande advogado criminalista, morava ali perto. Eu mesmo tinha vendido a casa para ele. Despedi-me do segurança e cinco minutos depois tocava a campainha da casa do Paulo. Demorou um pouco, mas ele atendeu. Apareceu numa das janelas do primeiro andar. — Porra, é você, Doquinha! Que barulhão é esse? Expliquei que precisava conversar com ele com urgência. Em poucos minutos eu estava no meio de uma sala enorme, que dava para um jardim. Eu estava agitado, andando de um lado para o outro, e Paulo mandou eu me acalmar. Não conseguia começar a falar, mas quando consegui e narrei o que tinha acontecido, ele disse apenas: — Senta aí ou então deita — e apontou o sofá. — Preciso pensar, vou deixar a garrafa de uísque. Quando amanhecer, a empregada vai servir café, provavelmente Dirce e eu faremos companhia a você.

É claro que bebi, e não foi pouco, e fumei e chorei. Nunca tinha me sentido tão só, era a pior pessoa do mundo, mas, apesar do choque e da agitação, logo desmaiei. Acordei com o barulho da louça 14 e fui até a sala de onde vinham o ruído e o cheiro de café. O casal estava lá. — Oi! Que encrenca... Essa é das grandes, o rádio não fala de outra coisa! Toma um café reforçado que você vai fazer uma pequena viagem. Iremos nos encontrar com você mais tarde. Fique tranqüilo, não está tudo perdido. O café-da-manhã foi descontraído, éramos amigos havia muitos anos e eu sabia que estava seguro. Paulo era e é um grande advogado. Seria o meu advogado, se eu não tivesse ficado tão mal e perdido o controle da minha vida depois que minha família me encontrou. Só voltei a tomar decisões por conta própria em Cabo Frio, quando já estava preso na delegacia. Naquela manhã, depois do café, fui para a fazenda do Paulo para me recuperar um pouco, enquanto ele acertava tudo para que eu me entregasse. Antes de eu sair, perguntou se queria que minha família fosse avisada. Eu achava que ninguém iria querer me ver, então ficou combinado que, naquele momento, eu me esconderia até dos mais próximos. Parti com o motorista dele. Paulo recomendou que eu me sentasse no banco de trás, bem perto da janela, com o jornal aberto na frente do rosto. Em mais ou menos duas horas, estávamos em Leme. Na fazenda os empregados me conheciam. Já estavam avisados da minha chegada e não houve problemas. Fui instalado em um quarto grande, com duas camas. Abri as janelas e fiquei olhando o gramado maravilhoso e uma piscina não menos magnífica. Ouvi então um barulho pelas costas. Virei e dei com os empregados tirando a televisão. Era ordem do dr. Paulo, que não queria que eu me chateasse com nada, principalmente com os noticiários, pois até então não havia ninguém falando a meu favor. Fiquei sabendo, tempos depois, que nas primeiras horas o delegado e a promotoria ficaram muito à vontade para acusar, fazer declarações e encaminhar o inquérito a seu bel-prazer, exatamente por não terem ninguém para contestá-los. NÃO FIQUEI SÓ OLHANDO A PISCINA, LOGO ARRANJEI UM CALÇÃO E fui mergulhar. Como precisava daquilo... nadar foi como levantar depois de um pesadelo e espreguiçar. Não que eu tenha saído da água novo em 15 folha, mas, depois de atravessar a piscina várias vezes, me senti melhor. Depois almocei e cochilei. Quando acordei, Dirce, Paulo e a filha já estavam lá, junto com um casal que quase não vi. Estavam animados e falavam sobre a festa de ano-novo a que iriam logo mais, no clube da cidade. Ao ouvir aquela conversa, comecei a sentir uma angústia tão forte, tão violenta, que queriam chamar um médico. Fiquei preocupado, porque seria mais um a saber da minha presença ali, mas fiquei na minha. Paulo sabia o que fazia. Enquanto o médico não chegava, ele começou a falar sobre sua estratégia para a minha defesa. Já havia mandado um representante para observar o que estava acontecendo em Cabo Frio. Estava dando um tempo para ver que caminho a promotoria iria seguir. Era a primeira vez que eu encarava o problema. Não conseguia pensar num caminho de volta. Mas ele continuou: — Vou esconder você por alguns dias. As notícias são péssimas, eles estão pintando você como um criminoso perigosíssimo. O principal problema é a imprensa, qualquer boato é aumentado mil vezes. Estão procurando por você na fazenda de um tal de Henrique Cunha Bueno. — Este senhor, que teve sua fazenda invadida e revirada, é primo da minha mãe. Nunca me viu na vida, e eu nem sabia que tinha fazenda em Búzios. — Sua apresentação vai ser traumática, mas você vai estar preparado. Finalmente o médico chegou e, depois de conversar comigo, me examinou e aplicou uma injeção. Comentou que eu estava bem e me deixou um remédio para tomar antes de dormir. Eu estava

preocupado com as horas seguintes, todos sairiam para a festa e eu ficaria sozinho. Tinha medo disso, achava que poderia enlouquecer. Pedi que pusessem a TV de volta e, depois de muita discussão, consegui. Até eles saírem, fiquei conversando com quem aparecesse, da família aos empregados. Se pudesse, contrataria alguém para ficar comigo até conseguir dormir. Todos foram para a festa e fiquei sozinho naquele casarão. A primeira coisa que fiz foi pegar uma garrafa de uísque... que se danasse a recomendação do médico. Fui para o quarto, liguei a TV e comecei a beber. Não muito tempo depois, começou o noticiário: "Play-boy continua desaparecido" etc. Mostravam fotografias da "Pantera de Minas" e contavam sua história. 16 Mas, como era dia de ano-novo, logo estavam mostrando as festas no Rio e em outras cidades. Eu entendia o que tinha acontecido, e a dor e a angústia eram terríveis. Tive que beber muito para ficar completamente amortecido, embora isso só tenha acontecido mesmo quando tomei o remédio que o médico deixara. Ainda bem que ele deixou um só. Acordei quando o motorista chegou com pães e jornais. Fiquei chocado com aquilo em que havia me tornado. Segundo os jornais, eu não era só uma pessoa passional, era um playboy, um bagunceiro, um gigolô — homem perigosíssimo, procurado em todos os estados. Depois do café, fui nadar e voltei para o quarto. O pessoal da casa demorou para se levantar. O almoço saiu lá pelas quatro da tarde. Tínhamos acabado de nos sentar quando ouvimos um ronco de motor. Não estranhei, pois havia lugares a mais na mesa. Paulo disse para não me assustar, pois eram amigos que vinham ajudar. Quando vi um grande amigo meu e de Paulo, o Vicente Gusardi, saindo do carro, sabia que, pela amizade que nos unia, logo a minha família chegaria. Só ele poderia imaginar que eu estivesse com o Paulo. Vieram minha mãe, meu irmão e, por último, meu pai. Não os esperava; por isso, o susto foi grande, mas a alegria foi maior. Achava que não queriam mais saber de mim. Se eu mesmo estava horrorizado comigo, imaginei que eles também estivessem. Se estavam, não demonstraram isso. Todos me abraçaram com carinho e me apoiaram. Era óbvio que isso fazia eu me sentir bem melhor. O almoço foi quase alegre. A presença da minha família fez com que eu encontrasse um pouco de paz. Na mesa, a conversa girava em torno de vários assuntos, mas fui ficando alheio a tudo. No fundo, aquele primeiro momento com minha família ficaria para trás e eu teria de encarar o futuro. Mas que futuro? O que tinha acontecido não me levaria ao suicídio, isso nunca passou pela minha cabeça, mas para mim a vida havia perdido o sentido. Tenho certeza de que o que segura mesmo uma pessoa são os filhos. Quando percebi quanto eles seriam atingidos, resolvi que tinha de me entregar às autoridades para... para quê, meu Deus? O que poderia fazer para não traumatizar meus filhos? Era tarde demais, deveria ter pensado neles antes. E a família de Ângela? Não dava para encarar a situação sem enlouquecer. Meus pensamentos foram interrompidos pelo fim do almoço. Enquanto tomávamos café, Paulo e a minha família discutiam meus próximos passos. Chegaram à conclusão de que eu deveria voltar 17 para São Paulo, com os meus familiares. Não fui para a casa de nenhum deles, fui direto para um sítio em São Miguel Paulista que, provavelmente, pertencia ao Paulo, e no qual teria meu pai como companheiro. ERA UM LUGAR ESTRANHO, NO MEIO DE UM LOTEAMENTO, COM UMA casa muito bem construída e com tudo para ser habitada, embora provavelmente eu tenha sido o primeiro a usála. Graças a Deus, fiquei lá só três dias. Era um lugar triste, embora tudo estivesse organizado. Pela manhã apareciam leite, pão e jornais, sem que eu visse quem fazia a entrega. No terceiro dia, chegou meu irmão de criação, Chiquito. Trazia uma garrafa de uísque e maconha, a tiracolo. Que bom que

Trouxeram uma bandeja com gelo e uísque. já que o cerco estava se fechando e não deveríamos pôr a dona da casa em maus lençóis. Parecia perigoso. e acabei com o uísque que tinha trazido de casa. Este último era um homem agradável. xingando Chiquito por ter ido até lá. parecia um índio. Conversamos por várias horas. dezenas de vezes. Paulo disse que eu ficaria ali por alguns dias. foi por causa dele. antes que meu amigo me apresentasse a família. mamãe chegou esbaforida. O plano era ficar escondido por alguns dias na casa do gordinho. Batemos um papo brevíssimo. dois psiquiatras e mais um. O dr. Paulo José da Costa e dr. Antes de pegar a estrada. porque batemos papo por muito tempo. pondo em risco meu esconderijo. com o cabelo prestes a pratear. Algumas noites depois. que apelidei de "chefe". de terno e gravata. que eu tinha procurado quando cheguei de Búzios. a dona da casa me mostrou o quarto em que eu ficaria. Contei em detalhes minha história. Saí da banheira.ele apareceu. 19 . entrei em um carro que estava de prontidão e partimos. já era madrugada quando se foram. Assim que cheguei a esse oásis. Aí teria de ir até a piscina. com um muro de três metros de altura que cercava um terreno de 15 mil metros quadrados. Largamos papai no centro da cidade e seguimos para a casa da melhor amiga dela. de repente. Se eu concordasse. O primeiro era um gordinho bem moreno. O problema era um só: eu não podia sair de dentro da casa. Paulo e o dr. Apresentou-me as pessoas que trabalhavam lá e foi embora com a minha mãe. Mulayert e mais dois homens que eu nunca vira. naquele dia fatídico. apesar de papai estar de olho na gente. Se fiquei à vontade naquela noite. Mulayert. Algumas pessoas queriam falar comigo. pensei que a casa cairia em cima de mim. espetacular. me deitei e dormi algumas horas. Entramos no carro dela e fomos para São Paulo. Vera me entregou a mala e. que foram meus anjos da guarda por um bom tempo. o outro tinha a mesma altura. quando já estávamos nos despedindo. entrei e lá fiquei. e fui informado que ele tinha saído do caso. Fui imediatamente experimentar. pois meus companheiros estavam preocupados. Os cabelos da peruca eram compridos. abrir um alçapão que estava disfarçado pela grama e esconder-me na casa das máquinas. fui até o banheiro e dei com uma banheira que mais parecia uma piscina. fora a piscina encravada no gramado. Mulayert explicaram que ainda não era oportuno eu me apresentar à Justiça. A arrumadeira disse que tinham sido mandados pela minha 18 mãe e estavam esperando na sala em frente ao quarto. É claro que a enchi. nem sei quanto tempo. me deu uma peruca loira e um par de óculos escuros. Assim que ele saiu. Minha mãe deixara lá uma mala com roupas para mim. em Poços de Caldas. Apresentaram-se: dr. Paulo. até que alguém avisasse que podia sair. transmitia confiança. Apesar de eu estar num lugar lindo. Só sairia se chegasse a polícia. um barbante. Já era bem tarde quando me chamaram. Parecia uma verdadeira fortaleza. A viagem transcorreu sem sustos. e uma casa linda. parecia um roqueiro. Entrei no quarto. passamos na casa da Vera e do Laudse. 1m 65. o dr. Ao chegarmos. meu coração estava em frangalhos. mamãe apareceu novamente com o dr. pois estavam estudando vários aspectos das acusações e achavam que eu deveria sair do estado. A casa ficava perto da Chácara Flora. bem magrinho. Eu só me servia e renovava a água quente quando começava a esfriar. Aqueles dois senhores eram mineiros de Poços de Caldas e de total confiança. no meio de um magnífico jardim. Eram cinco homens: dois advogados. num passe de mágica. Despedi-me do pessoal e dos advogados. se não me engano. fui para um dos quartos. O dr. me vesti e fui encontrá-los. provavelmente analista. Fomos para a casa do "chefe". que era do seu marido. Quando me vi só. Mas devo muito aos dois. Perguntei pelo meu amigo e advogado Paulo. Fazia tempo que eu não ria e aquilo me divertiu. iríamos imediatamente para lá. coloquei os óculos escuros e.

Paramos em uma cidade pequena. entrei em lojas. fomos até o sítio de um amigo. e estamos atrasados. tenho de levar esse artista para fazer um show. O chefe parou. Comprei um livro numa livraria e voltamos para casa. subi morros. DA ROÇA PARA CASA. eu sou colega. Deu a seguinte ordem: — Façam ele andar. Estava o tempo todo de peruca. percebendo meu estado. num hotel razoável. fomos andando até o carro e voltamos para casa. Quando o chefe deles começou a buzinar de algum lugar lá perto. Ei. e. minha cabeça estava um caos. Pedi para ir a uma loja de sapatos. Eles não entenderam nada. Saí com o filho do "chefe".. e ele me disse que estávamos indo para um lugar chamado Águas Quentes ou Caldas Quentes. Fui o único a obedecer. O que poderia acontecer? Poderia ser preso? Isso aconteceria a qualquer momento. pagamos as contas e logo estávamos na estrada. eu poderia dar uma volta pela cidade. Eu pensava: "Chegou a hora". botas e violão. Rodamos mais ou menos duas horas. Era noite. Topei na hora. um rapaz de vinte e poucos anos. e entrei no carro com o chefe e seu ajudante. Andei muito. tinha pesadelos. mas a polícia local e a polícia rodoviária foram muito rápidas. e com um violão que apareceu sei lá de onde. Estava desconfiado que o telefone do Laudse estava grampeado.. volte para o carro! O policial ao meu lado ficou parado. angustiado. hein!? Disse que era melhor eu ficar no carro e ele me traria o que eu quisesse. é colega. Um policial fez sinal para pararmos. desci. Nem me dei ao trabalho de perguntar para onde ou por quê. Sentei num cupinzeiro e comecei a rir. Resolvemos voltar para Poços de Caldas. Quando isso passou pela minha cabeça. Andamos alguns quilômetros e depois de uma curva apareceu uma barreira com um batalhão de policiais. O dono da casa. No segundo dia eu parecia um louco: as horas não passavam. e avançamos até a barreira. eu me sentia com remorsos. e o responsável levantou os braços e disse: — Deixa eles passarem. contei casos. Nasci numa fazenda. Registrei-me com um nome que inventamos. junto com o filho. Somente nós dois: ele achava que procurariam o . de peruca e óculos escuros. só não parei em bancas de jornal. ao filho do gordinho. e como profissão coloquei: "músico". agora não lembro. Subi no carro e. NOVOS PLANOS: IRIA PARA OUTRA CIDADE. No dia seguinte.Achavam que. e por isso passamos a mão nas malas. sentia-me melhor e com fome. daqui a umas três horas eu volto para buscá-los. óculos escuros e violão. O chefe era muito esperto. jeans. A terapia tinha dado certo: eu estava cansado. estávamos os três no apartamento quando percebi que ele parecia um animal enjaulado. quando cochilava. O chefe tirou do bolso uma carteira e disse: — Pô. você. Comprei e saí com ela nos pés. 20 Não lembro por que ligamos para o Laudse — acho que tinha combinado antes. só pouquíssimos passarinhos. Era impossível manobrar ou sair em disparada. olhou para trás e falou: — Que susto. óculos. O sítio mais parecia um pasto: não vi nenhum animal ou plantação. Depois do jantar. estudei em escola agrícola. queria comprar uma bota. Pedi uma garrafa de pinga. tomei café num bar. Paramos em Poços para descansar. mais ou menos meia hora depois pedi para parar num bar na beira da estrada. agradeci à dona da casa. que tinham me levado para o mato para acabar comigo. Passeei sossegado pela cidade. saiu num jornal que eu havia me comunicado com um amigo num inglês horrível. talvez dez horas. O "chefe" pediu para ficarmos calmos. pulei por cima de córregos. meus olhos não tinham esquecido como eram os pastos. não fiquei preocupado. A certa altura pensei que aqueles caras tinham sido pagos para me matar. chamou outro anjo da guarda e. Olharam dentro do carro e mandaram todos descerem. Estava uma figura: de peruca.

Estava exausto. precisava de amigos para me ajudar a pôr a cabeça no lugar e. com três passageiros. O hotel não estava cheio. Já estava com a vida arruinada. tomei um refrigerante e fui para o quarto. O café era maravilhoso. ele ficaria de olho em tudo. fomos fazer uma exploração. como é hoje em dia. mas lá pelas nove horas estávamos tomando café-da-manhã. 21 Na verdade. nem pensava na minha defesa: que a Justiça decidisse por quanto tempo e como deveria pagar pelo crime que tinha cometido. uma pia e banheiro ao lado. que na época não era um lugar sofisticado. vá jogar. Depois do café. pelo menos por enquanto. uma pessoa que estava organizando os times fez sinal para eu ir jogar. fonte com água quente. Sugeriu que deixasse para mais tarde. uma caipirinha. O salão dessa vez estava quase lotado. perto da sede. piscina. mas antes de partirmos exigi ler os jornais do dia e dos dias anteriores. Disse que tinha lido alguns jornais e que as notícias continuavam ruins. mas me sentia tão horrível com o crime que tinha cometido que não tinha ligado para as notícias. Partimos rumo a Águas ou Caldas Quentes apenas três horas depois: pois. a lama e a piscina. Estava pronto para a próxima etapa. Discretamente fez sinal para eu não me aproximar. principalmente. o que nos deixou mais tranqüilos. Tinha ficado preocupado com o que Laudse dissera da imagem que a imprensa estava fazendo de mim. enxuguei a garrafa de cachaça. mostrou-se indignado. pães de todos os tipos. achávamos que talvez a polícia já estivesse desconfiada daquele roqueiro. 22 Logo que entrei no quarto. e o quanto antes. mas não podia deixar meus filhos e minha família passarem mais vergonha ainda por minha causa. mas havia uma mesa de canto e ficamos com ela. lá estava ele conversando com algumas pessoas. Concordei com tudo. outro lugar com lama para passar no corpo. Depois nos sentamos ao lado de uma espécie de coreto. fui tomar banho e deitar um pouco. Estávamos ali fumando quando um casal se aproximou. Segui exatamente o conselho do "chefe" e passei por todos os banhos. Mas não tirava por nada os óculos escuros. Já tinha lido e assistido a alguma coisa pela TV. Chegamos no começo da madrugada e alugamos um quarto com umas cinco camas. segundo ele. Ficamos dois dias na cidade. A princípio. Jantamos tranqüilos. Tinha abandonado o meu disfarce. Sugeri que pedíssemos uma bebida. como numa pensão de antigamente. achava que eu deveria experimentar todas as fontes. Quando conversamos pelo telefone. Quando fui para a piscina. Meu . férias. Só resolvi me defender porque a imprensa e a promotoria haviam criado um Doca que absolutamente não existia. O "chefe" me aconselhou a não olhar para ninguém. Depois de ler os jornais. precisava de um advogado para me apresentar da maneira certa. O "chefe" ficou desconfortável. e fiquei abismado com o tamanho do lugar e com as fontes: fonte que borbulhava. mas. Era começo de janeiro. se você quiser. lembrava um pouco os refeitórios dos colégios onde eu tinha estudado. Olhei para o "chefe" e ele disse: — Vou acabar de ler os jornais. Só estava fugindo porque precisava descansar. pois. Parei depois de quinze minutos. decidi que tinha de me defender.carro em que estávamos. os turistas estavam chegando. queria me entregar. de resto. no hotel não corríamos perigo. sucos etc. Nadei um pouco. Como eu estava de shorts. caminhamos um pouco e paramos no campo de futebol para assistir a um jogo que ia começar. Depois do almoço. Enquanto estávamos nesse papo o lugar foi enchendo. Não sei quanto tempo descansamos. enquanto eu lia os jornais. O refeitório era enorme. tinha uma variedade enorme de frutas. Horas depois. meu anjo da guarda também chegou. e por isso trocaríamos de carro também. tomamos café e saímos para fumar no coreto. saímos para jantar. os jornais estavam me transformando no mais repugnante dos mortais. lago e campo de futebol.

minha mulher e eu estamos aqui de férias. — O que vocês fazem? — Nós somos da polícia. pois estavam com fome. mas com a graça de Deus eles terminaram o café rapidamente. Saímos da estância e seguimos para Mococa. para onde chamaria seu ajudante e depois iria até Poços de Caldas. Trazia na 24 mão um chapéu. e quando chegamos ele desceu para acertar as coisas. já deveriam até ter uma descrição dele como meu guarda-costas. dizendo: — Imagine se ele estaria aqui. Não precisava me preocupar. no elevador e depois no quarto. e vocês? A resposta foi um espanto: — Trabalho no jornal O Estado de S. se tivesse feito isso. No caminho. O ajudante estaria hospedado no mesmo hotel e a cada duas horas deveria vir para cuidar do que fosse necessário: comida. que coloquei imediatamente. ele apresentaria a conta para a minha família. o "chefe" explicou que sentia que a situação estava ficando perigosa. se despediram e foram embora..companheiro foi logo me avisando: — Não fale nada. Eu não deveria sair do quarto do hotel em hipótese alguma. Foi o que fizemos. sem encontrar nenhum empregado ou hóspede. Eu não precisava me preocupar com dinheiro. bebida etc. ficou combinado que o "chefe" pagaria tudo e. Dei risada e disse: — É mesmo? A mulher se manifestou pela primeira vez: — Por que óculos escuros à noite? Respondi rindo: — Enxergo mal. começaram a contar que eram policiais. conversa vem. Mulayert. O hotel ficava no centro. — E continuou: — Ela acha que o senhor é a cara do Doca Street. quando eu tinha conseguido um habeas corpus e estava trabalhando numa loja de automóveis. Cerca de vinte minutos depois veio me buscar. um daqueles policiais me visitou. Mal tínhamos começado a comer quando entraram dois senhores. Acho que isso incomodou o marido. que haviam parado só para tomar café. antes de sair de São Paulo. Como não tínhamos perguntado nada. Deu boa-noite e se retirou para seus aposentos. Paulo e o dr. chegamos hoje. O marido interferiu. e o garçom trouxe aquele café maravilhoso. 23 Às SEIS E MEIA DA MANHÃ ENTRAMOS NO REFEITÓRIO E ESCOLHEmos uma mesa qualquer. só vamos passar aqui esta noite. De novo. Ele se levantou. conversa vai. mas quase voltou para me prender e. Deram bom-dia e sentaram-se à mesa ao lado. Conversa vai. O "chefe" avisou: — Vamos ver se eles vão embora mesmo. quando terminasse aquela correria. mas a mulher continuava me olhando esquisito. teria tido uma promoção. só balançamos a cabeça como quem diz: "Interessante". para ver a família e telefonar para o dr. a fim de saber o que fazer.. porque o dono do hotel era de confiança e eu só estaria sozinho no quarto. Paulo. entrei na recepção. Contou que não dera voz de prisão naquela manhã no refeitório porque não tinha acreditado que fosse eu. disse que estava com sono e pegou a mulher pela mão. conversa vem. Aparentemente todos concordamos. O casal sentou-se e puxou conversa. Meu companheiro ainda continuou a conversar alguns minutos com os dois. Nem olhei para eles. aí pagamos a conta e também vamos. Nem eu nem o "chefe" mostramos espanto. já que. Não havia vivalma no salão. esse já deve estar no exterior. Seu plano era me largar num hotel em Mococa. Saí do carro. Cerca de oito meses depois. de repente. .

Estou louca para puxar um baseado. Logo na entrada da casa. Quando o jantar foi servido e os convidados se dirigiram à mesa. ERAM MUITO divertidas. Era a famosa "Pantera de Minas". . o que deixava o ambiente descontraído. como era conhecido. O restante eram artistas. A música estava sempre na altura certa e não parava nunca. Ficamos lá queimando fumo. ao lado de um imenso gramado. Solidão? Angústia? Tristeza? Não. Em uma eu estava na capa. Comecei a ler as revistas. para ver como você está. as outras duas tinham chamadas das quais não quero nem me lembrar. Embaixo. . Chico. água e uma garrafa de pinga. pessoas de outras cidades. É horrível ver-se como criminoso e olhar seu retrato estampado na capa de uma revista. era só entornar. na despedida. que conheciam a maior parte dos convidados. Ainda bem que eu tinha a pinga. onde ele recebia os amigos e aconteciam as festas. e sem vida. muita dor. por alguma razão. só dor. havia uma sala onde. Durante o almoço ela sentou-se ao meu lado. às vezes. 25 Os comes e bebes eram ótimos e não paravam de chegar pelas mãos dos antigos empregados da casa. Naquelas duas horas. fomos dançar e depois continuamos a conversar. Minha mulher gostava muito de Ângela e queria recepcioná-la. Aliás. Solidão? Era muito mais que isso. o mundo desabou na minha cabeça. gente que Chico. daqui a duas horas meu ajudante estará aqui. o que completava a alegria do ambiente.Prefiro o banheiro. mas ela insistiu: . voltada para a piscina.. Não quis olhar os jornais. pois a maioria já se conhecia. Só Judas deve ter sentido o que senti. como manda a etiqueta. acho que isso não acontece com quem está em choque. Adelita e eu convidamos os cariocas para almoçarem em nossa casa no dia seguinte. O "chefe" saiu e voltou minutos depois. A festa era para um pessoal do Rio. ainda que na época não existissem DJs. ficava a sala principal. No fim da noite. bebia muito. era também alegre. O grupo principal era sempre o mesmo. Percebi uma hora que ela dava um risinho malandro e perguntei do que se tratava. NA RUA CAMPO VERDE.Era um bom quarto com banheiro. Passei dois dias no quarto. Foi numa noite dessas que minha mulher Adelita me chamou. Fechou a porta e eu fiquei ali.? Não adianta querer explicar. olhava as revistas que traziam as fotos de Ângela e sentia saudades.Quero que você conheça minha amiga Ângela Diniz. e por isso ninguém dançava. fique calmo. Em noites de festa essa parte da casa ficava toda iluminada. O nosso papo rolava fácil. . a sós com aquelas quatro paredes. continuamos conversando e bebendo. queria homenagear. parecia que éramos íntimos. do lado esquerdo.. A maior parte das pessoas estava comendo. A casa não era só bonita e grande. dançava. com revistas. eu me sentia o próprio. recebia no mínimo duas vezes por mês. no chão. Já a conhecia de vista e das colunas sociais. rindo e conversando por tanto tempo que de vez em quando alguém abria a porta e perguntava se íamos passar a noite lá. com árvores e plantas muito bem cuidadas. Logo após as apresentações ficamos a sós. Estavam todos descontraídos. bebi e chorei muito. que viera assistir a um torneio de pólo. — Não faça barulho. AS FESTAS NA CASA DO FRANCISCO. jornais. Todo mundo brincava. Mas mesmo assim fiquei fascinado com sua beleza. O que senti ao ler as reportagens a meu respeito e ver fotos de Ângela em várias idades. que além de vestiários tinha um bar muito simpático. rolava um jogo de pôquer. Até logo. vamos até o banheiro? Respondi que podíamos ir para o jardim. Não fiquei bêbado de cair. sem nada para fazer e sem ninguém com quem conversar. com ambientes amplos e acolhedores.

freqüentava a alta roda de Belo Horizonte. passeando pelo jardim. Tinha lido que ela havia sido presa por posse de drogas. Nesse intervalo falamos por telefone várias vezes por semana. Pegou a minha mão e foi me puxando até o quarto. ou as duas. durante o almoço ou mais tarde. Num momento qualquer. e algum tempo depois o ex-marido a processou por raptar a filha e fugir para o Rio. vou acordar a madame. na rua Mario Ferraz. Sua separação tinha sido traumática.Senta aí e me faz companhia. Não sei quanto tempo levou para acabarmos com tudo o que havia nas bandejas. Na verdade. até algumas vezes por dia. depois de conversar muito tempo com Ângela. Ângela era bem-nascida. Ficava em Cidade Jardim. ela chegou de madrugada. Comecei a pensar em ir embora. apesar de ela viver com Ibrahim Sued. Esse encontro seria no apartamento dela. com o pretexto de participar de uma concorrência ou visitar uma obra. pilastras para pontes. A casa era grande. cada um tinha o seu canto. Tinha também uma imobiliária. Também não me lembro bem do fato. No meio da cama tinha duas bandejas com um baita café-da-manhã. Aquilo continuou num crescendo e fomos ficando tão loucos que mal tivemos tempo de devolver as bandejas para o carrinho que . com quem teve dois filhos e uma filha. a Brasilos. Só fui reencontrá-la dois meses depois. mas não lembro se era maconha ou cocaína. Em outra ocasião. na rua Anita Garibaldi. Por incrível que pareça. do outro lado das bandejas. o sorriso maroto. quando um empregado havia sido baleado e morto. . mas dias depois do crime seu amante. um empreiteiro de Minas.e todos comeram e beberam muito. peguei um avião da ponte aérea e lá pelo meio da manhã estava tocando a campainha do apartamento dela. Quando estava disposto a partir e me levantei. Veio sentar-se ao meu lado e explicou que chegava sempre de madrugada porque não gostava de acordar na casa do Ibrahim. Já fazia alguns anos que estava separada de um empreiteiro muito rico. enterradas num balde de gelo. revelou a verdade e assumiu ter atirado na vítima. a vida maluca de Ângela era adrenalina para mim. Ela ligava para meu escritório ou eu para o apartamento dela. Entramos num quarto grande com uma cama enorme. duas meias garrafas de Veuve Clicquot. Não sei por que atrasei tanto nosso encontro. de quando em quando. amava minha mulher e não tinha motivo para me arriscar numa aventura. dei com ela parada no corredor. Sua beleza. e eu poderia estar tratando de negócios com algum carioca de mudança para cá. caixas-d água etc. Sentei-me num sofá e fiquei ali. em Copacabana. cabiam perfeitamente as duas empresas. que funcionava na mesma casa que a Brasilos. olhando as minhas mãos. Rio de Janeiro e São Paulo. De vez em quando parávamos para carícias e beijos. Acho que tinha medo da grande atração que sentia por ela. o passado de escândalos. Num fim de tarde. Apesar de praticamente nua. Com o endereço no bolso. trocamos telefones e combinamos que eu iria ao Rio para almoçarmos juntos. Tirei os sapatos e sentei-me à frente dela. parecia serviço de quarto de hotel cinco estrelas. Era 26 fácil arranjar uma viagem. pois. Eu tinha uma empresa que construía silos. Usava só a parte de cima de um babydoll 27 minúsculo e completamente transparente. estava completamente à vontade. já que aparentemente ela não iria aparecer tão cedo. A empregada que atendeu a porta perguntou: — O senhor é seu Doca? Senta um pouquinho. Acompanhando isso tudo. sorrindo com aquela cara malandra que mexia tanto comigo. li sobre um crime mal explicado em sua casa em Belo Horizonte. Apesar dessas facilidades o encontro demorou para acontecer. marcamos um encontro para o dia seguinte. as complicações com a Justiça por uso de drogas.

minha mulher não era de controlar ninguém. Com 42 anos. Do contrário. para mim dava no mesmo apresentar-me ao Salomão para narrar minha versão dos fatos ou entregar-me à delegacia de Mococa. naquele tempo secretário de Segurança do estado de São Paulo. combinamos que o próximo encontro seria em São Paulo. Antes de sair.estava ao lado da cama. Liguei imediatamente. podiam até me entregar para a polícia. não foi só uma transa.apenas aquilo que na época chamavam de "amizade colorida". um dos presos dizia que. já tinham arrumado um pesqueiro ali perto 29 . durante esse tempo sem vê-la. eu sairia de qualquer maneira. Não pedi para me tirarem dali. Paulo. ia estragar meu casamento. ali perto. Ela estava estressada e disse que. algumas paixões. O delegado de Cabo Frio dissera aos jornais e às revistas que eu tinha fama de bravo. Muitas vezes. dois filhos. até embaixo das camas. impossível era ficar esperando naquele quarto mais dois dias. como eu havia planejado. quando resolvi que tinha de voltar para casa. Dali em diante. Só dei por mim um pouco antes das oito da noite. Cheguei em casa às dez da noite. Disseram isso e me entregaram uma carta do dr. na fazenda de lide e Jean Louis Lacerda Soares.. seria como eu tinha previsto . que perdi completamente a noção de tudo. se não me tirassem do hotel. apesar de falar com ela todos os dias. Paixão? Perigo? Tem coisa melhor? 28 Lembro de comentar com Caio Figueiredo. Nesse tempo. e tinham revistado a fazenda inteira. meu sócio na imobiliária que ocupava a mesma casa que a empreiteira: — Deus queira que ela não me dê bola. Estar sóbrio e contar a verdade era fácil. pensei que era uma sorte ela não ter vindo imediatamente se encontrar comigo. e continuava garimpando até encontrar outra. mais ou menos. três casamentos. Está num hotel na Brigadeiro Luiz Antônio. Os jornais contavam que a polícia estivera em Cravinhos. dois amigos meus. lá. e que estivesse sóbrio e contasse a verdade. preocupados. exigi. Foi tudo normal. eu tinha razão para ficar receoso. Meus anjos da guarda estavam fartos de saber que meu estado era cada vez pior. tinha vindo passar o dia comigo.. Sei lá o que tinha acontecido. recomendando que eu não deixasse de ir à entrevista. eu tinha perdido o controle. e com tanta intensidade. a dela também. E ESTAVA DECIDIDO A ISSO quando meus anjos da guarda entraram para avisar que em dois dias eu daria uma entrevista para a revista Manchete. sairia de qualquer jeito e que se danassem. minha secretária me avisou: . mas que na delegacia teria de me comportar. babaca como eu era com mulher. mas eu estava assustado. EU PRECISAVA SAIR DAQUELE QUARTO. Tinha me envolvido emocionalmente. Nunca tinha me sentido tão à vontade com uma mulher.Dona Ângela ligou e deixou o telefone. Só voltei a me encontrar com Ângela duas semanas depois. até porque em dois dias assistiram à progressão do meu desespero e. Numa reportagem. O pior de tudo é que eu era daqueles que achava que a vida sem uma grande paixão não valia a pena.. consegui relaxar. gostava muito. Havia também declarações do coronel Erasmo Dias. Por isso. Gostava da minha mulher. Quando acabava eu sofria e jurava nunca mais me apaixonar. e eu iria encontrá-lo próximo a um campo de pouso abandonado. O jornalista seria o Salomão Schwartzman. Todas as vezes que me envolvia seriamente com uma mulher. Na verdade. assim eu não quebro a cara. começamos a tomar champanhe com laranjada e nos amamos tanto. Numa manhã. Diante disso tudo. A minha vida familiar estava tranqüila. playboy machão se dava mal. não era para estar de quatro daquele jeito. era pura paixão.. para relaxar. Ele viria de avião.

Se realmente quisessem saber a verdade. Escreviam que eu nunca tinha trabalhado e que sempre explorara mulheres. era só partir. Não estava nem aí para o resto. como era um dia ensolarado. . banheiro e dois quartos com beliches.para me instalar. a uma distância de dois metros e meio um do outro. Gianandrea Matarazzo não me deixa mentir. Lembro perfeitamente que estava ansioso. Dia de sol. Não esperamos muito. Não era mais fácil inventar tudo de uma vez? De volta ao pesqueiro. Hoje. ninguém tinha me visto. 30 Comecei pedindo que a entrevista fosse curta e me defendendo da acusação de vagabundo e gigolô. Na época eu era empresário e. passei o dia pescando e bebendo. porque tive de esperar o momento certo para sair do hotel. Em breve contaria a um jornalista importante a minha versão dos fatos de Búzios. Às vezes me perguntava por que insistiam tanto em me entrevistar. e foi mais duro ainda porque eu tinha parado de beber à tarde. e para jornais de todo o país e de fora também. e eu seria facilmente reconhecido. seria fácil. Ouvimos o ronco do motor de um carro. um pouco mais talvez. tudo muito simples. mas não me lembro. seguindo as instruções que havíamos recebido. Sei que estava calmo. e não na fazenda de um amigo. Talvez tivesse uma cozinha. noventa por cento era inventado. Meus dois companheiros se afastaram e Salomão se aproximou e me cumprimentou. Foi impossível dormir nesse dia. antes disso. sem pesquisar o meu passado. que me empregou atendendo a um pedido de sua mulher Yolanda. O lugar seria só nosso. À noite. não havia flashes para chamar a minha atenção — por isso quase não me lembro dele. O lugar onde eu estava era de alvenaria. mais ou menos. não havia ninguém. O fotógrafo japonês se manteve à distância e. ainda gozando de ótima saúde. Quando se deu por satisfeito. No meio havia uma construção com sala. era uma área fechada com cerca de arame que não devia ter mais de quinhentos metros quadrados. Depois de preso. ele partiu e eu também. Fiz a barba e separei uma camisa limpa. porque o Salomão provavelmente mexeria em feridas recémabertas. Tinha conseguido meu primeiro emprego em 1950. quando ainda era menino e queria parar de estudar. nos despedimos. Depois de viajar por uns quarenta minutos. passei o resto do dia descansando. como alguns órgãos da imprensa insinuaram na época. Evidentemente havia o rio. cerca de quinze minutos. não haveria outros pescadores. Cruzeiro e para a própria Manchete. que era presidida pelo saudoso amigo Ciccilo Matarazzo. Fazia vários dias que a minha cara estava estampada nos jornais e nas revistas. chegamos a um campo de pouso abandonado. Me incomodava não saber os próximos passos. eu podia olhar tudo em volta. Salomão foi muito profissional. e eu estava o tempo todo tranqüilo. que eu era "gigolô". já que. saímos para o encontro. Eu era empresário e tinha trabalhado a vida toda. para estações de rádio e TV. Foi na Metalúrgica Matarazzo. O pesqueiro não tinha nenhum luxo. não ultrapassou os limites em nenhum momento. dei com a peruca e os óculos escuros. dei várias entrevistas para Veja. tinha passado oito anos trabalhando no Banco Mercantil de São Paulo. Só havia concordado com aquele encontro para poder esclarecer e desmentir o que os jornais e as revistas publicavam. com meio metro de altura. fora os dois que cuidavam de mim. o texto não tinha nada a ver com o que eu havia dito. Quando amanheceu. Seguramente publicavam o que lhes vinha à cabeça. Nos dias que passei ali. Chegamos ao pesqueiro tarde da noite. À espera da entrevista. Devo ter falado um pouco sobre os lugares em que trabalhei. O telhado ficava apoiado em dois postes de madeira. e em seguida contei sobre o que ocorreu no dia 30 de dezembro de 1976. A entrevista aconteceu ali mesmo. Me sentia mais leve. Um repórter finalmente iria divulgar o que tinha acontecido. quando a entrevista saía. pois na época era diretor de lá. três de comprimento e um de largura. Estava tudo pronto. fui olhar o que eu tinha na mala. Pouco conversamos sobre outros assuntos.

fui carregado outra vez. Quando acordei. mas de pé não conseguia ficar. Eu. preso dentro de mim. pessoas que se diziam jornalistas tinham telefonado para minha cunhada. poderiam se machucar. eu iria para uma clínica por uns dias e depois me apresentaria às autoridades. achei que a medicação era para melhorar meu ânimo. que estavam na escola. Enquanto isso. de acordo com o combinado com o secretário de Segurança. enquanto arrumamos suas coisas. um deles se chama Odilon. além de ficar deitado. Chegando ao aeroporto. o senhor vai para o Rio. Ele respondeu que era impressão minha. quando meu irmão me surpreendeu: — Dois repórteres me abordaram na estrada e não consegui me desvencilhar deles. já que era impossível evitar o pessoal da imprensa. Fiquei apavorado. apagou as luzes. Acho que você deve atendê-los. entendi o que estava acontecendo e não podia mudar de posição. os filhos.. não consegui.ESTAVA DEITADO NO BELICHE DO PESQUEIRO. mandou todos ficarem em silêncio e saiu para ver o que se passava. Esses policiais foram educados. Puseram-me no chão.. os policiais me ajudaram com minhas roupas. Após esse telefonema. Em seguida. ou horas. Os policiais ficaram horrorizados com aquilo. depois. não me mexi. Foi quando ouvimos uma buzina insistente. Levante-se que vamos levá-lo ao aeroporto. onde me aplicaram uma injeção que me fez dormir por algum tempo. Dei a entrevista. querendo saber aonde meu irmão tinha ido. cuidadosos. alguns minutos. que se apressou em explicar que eu estava sedado e sem movimentos por pelo menos mais duas horas. me algemaram e me carregaram para o carro. Depois de uma breve conversa. o senhor está preso. Luiz Carlos partiu e me levaram para um quarto. o diretor nos esperava. Demorou para eu recuperar os movimentos. Demorou um pouco e. Quando chegamos à clínica. Você vai para São Paulo. Bem que eu não tinha gostado da cara daquele diretor. e um pelotão de policiais fez uma verdadeira muralha para evitar o olhar dos curiosos. ficaram comigo até eu me recuperar. Estava pensando nisso quando três ou quatro pessoas entraram no quarto. onde fui entregue a outros policiais. e por isso não fiquei assustado nem me senti desconfortável. justamente explicando 31 para uma delas por que não queria nada a não ser papo. 32 . percebi que me carregavam novamente. CONVERSANDO COM umas moças que o ajudante do "chefe" havia trazido. um deles me dizia que eu não seria maltratado. Logo chegou o diretor da clínica. Estava de barriga para cima e. Luiz Carlos me contou os novos planos. Não só obedeci como tirei um cochilo. fechar os olhos. Não sei explicar o que senti. . ela foi imediatamente buscar os filhos no Colégio Dante Alighieri e ficou trancada com eles em casa até meu irmão voltar.. deitei no chão e não me importei com nada. Na época. mais ou menos igual à que dera à Manchete. é claro. O policial que conversou comigo na clínica me orientou a. Estava me despedindo dos anjos da guarda e das moças. em algum lugar perto da porta de saída para a pista. O "chefe" ficou alerta. O policial não teve tempo de dizer ou fazer mais nada. que no aeroporto me entregariam para a Polícia Federal e então me transportariam em segurança. Vai falar com ele. chegou dizendo: — Seu irmão está aí. Se ela não colaborasse.. O diretor tomou a maior bronca.Somos da polícia. me lembrei imediatamente de tudo. Como eu estava completamente sonolento. quando voltou. achei que ele não era confiável e disse isso para o meu irmão. Olhei para aquele senhor e me assustei. Fui levado até um jatinho. decolamos em direção ao Rio de Janeiro. Como eu tinha chegado à clínica muito mal. Sentia-me completamente imobilizado. Minutos depois. Quando tiveram certeza de que eu não tinha nenhum problema e podia ser removido. quando tentei me virar.

para o DPI. naquela noite vocês cheiraram muito? Percebi naquele momento que estavam fazendo o trabalho deles. Medicou-me e aconselhou que me deixassem descansar. Acho que o diretor estranhou minha atitude. Paulo. vocês estavam loucões. Dr. Cederam-nos uma sala para que tivéssemos mais privacidade. e sim porque não queriam que a imprensa noticiasse que o "playboy Doca Street tinha privilégios". se despediu e voltou para São Paulo. minha pressão estava a 22 por sei lá o quê. 34 O dr. saímos em disparada para Niterói. O DIRETOR E OS AGENTES DO DPI continuaram conversando comigo. iriam me transportar para Cabo Frio. Os policiais não fizeram isso por maldade. Paulo respondeu. que procuravam impedir que a imprensa se aproximasse. Se ele não chegasse a tempo. Sei que fizeram isso porque. Como estavam algemados desde que eu tinha saído da clínica. tinha muita coca. pedi que ligassem para meus familiares e lhes contassem os últimos acontecimentos. me faziam algumas perguntas. fui levado até a sala do diretor. ficaram toda a curta viagem brincando entre si. Não sei se os policiais paulistas contaram aos colegas cariocas que eu vinha de uma clínica e estava dopado. como é que é isso? Conta pra gente. De vez em quando saía: — Fala a verdade. Apenas balançava a cabeça de vez em quando. porque de repente ele parou e mandou chamar um médico. Paulo José da Costa Jr. me anunciaram que sairíamos cedo para Cabo Frio. Falou que o dr. Tivemos dificuldade para chegar ao camburão. Voltamos para a sala do diretor. quando você atirou. seu cliente não se abre com ninguém. não deveria me preocupar. Ele me avisou que. meus braços e punhos doíam. quando cheguei ao Departamento de Polícia do Interior (DPI) de Niterói. Mandou que tirassem as algemas e fez sinal para que eu me sentasse em frente à sua escrivaninha.. Eu deveria estar pronto. Paulo chegou algum tempo depois. apenas tinha acontecido 33 uma briga violenta. PAULO NÃO CHEGAVA. Respondi que não. né? COMO o DR. Mas me lembro que me deixaram em paz. o delegado avisou que meu advogado chegaria a qualquer momento. Imagino que seu consultório era perto. porque tínhamos que sair assim que a escolta estivesse pronta. A chegada ao Rio foi uma repetição de São Paulo: fiquei cercado por policiais. A certa altura. queriam que eu abrisse a guarda. tamanha era a multidão. só que era moço. Garantiu que eu tinha o direito de agir assim. e todos começaram a conversar sobre o crime que eu havia cometido dezessete dias antes. concordando ou não. Ficou acertado que de quatro em quatro horas o carcereiro me traria o remédio. Essa providência provocou nova onda de risadas e provocações da parte dos policiais: — E você ainda fala que não usa pó. pois não demorou para chegar. mandou trazerem água e começamos a conversar. Ouvia aquela conversa toda sem me importar se eles estavam interessados em descobrir alguma coisa que me incriminasse. Se eu não estivesse atento. Examinou-me. Novamente me sentei num canto enquanto esperava o camburão. poderia contar alguma coisa que mais tarde poderiam usar em seus relatórios. Chamou os policiais que me trouxeram. Autorizou-me a fumar. Eles eram mais descontraídos que os paulistas. sobrou para mim: — Ouvimos dizer que você transa com todas as mulheres. tinha ligado do aeroporto e logo chegaria. De vez em quando. era só dizer à promotora e ao delegado que só faria declarações ao juiz. Não me lembro dele. pedi que avisasse ao diretor que eu usava um remédio chamado Privina e que sem ele não conseguia respirar. "brincando". no dia seguinte. meu advogado. e a conversa em tom de brincadeira continuou: — Dr. Ainda estava sonolento por causa da injeção que tinham me aplicado na clínica. também em tom de brincadeira. na primeira hora. Chegando lá. Fiquei assustado: . Antes que saísse. Depois que conseguiram me colocar no carro. Depois de mais um pouco de conversa fiada.Antes de entrar no avião.

Deixou só o dinheiro que tinha no bolso. e a porta abriu. achava que havia sido melhor assim. pois continuar a fugir e a esconder-me era pior. bem debaixo da janela. O carcereiro avisou que a luz ficaria acesa o tempo todo.. Voltou depois de algum tempo. andei e andei até não agüentar mais. Revistou-me. A minha cabeça estava a mil. Que confusão você arrumou! . Fiz isso. Perguntei 36 se ele poderia comprar escova de dentes. ele ficou conversando comigo: — Nunca vi tamanha multidão de jornalistas e de gente da TV para ver uma pessoa. Ângela. Comi tudo e tomei quase toda a água que 35 ele havia deixado. pasta. — Fica com esse remédio. Nunca esquecerei aquela refeição. Dormir era impossível. eu não quero ter que acordar de madrugada. Apesar de exausto. Enquanto eu tomava café. Pouco depois estava tudo lá. de frente para a porta. em seguida na clínica e agora ali. Disse que não. chute a porta. Arrasado como eu estava. tentando descansar. Não comia nada desde que entrara naquela maldita clínica. e funcionou: assim que chutei alguém apareceu. amassei e joguei no boi. então me sentei de costas para a parede. Quando amanheceu. as declarações do delegado de Cabo Frio.— Escolta! Pra quê? Eles riram e disseram: — Amanhã você vai ver. mamãe. Andei. Foi quando ouvi o barulho do ferrolho. que me acompanhou até a cela. Tinha acontecido muita coisa. não dava para voltar atrás. com uma minúscula janela com grades a dois palmos do teto. O combinado era que eu ficaria na clínica por quatro dias. um cano e uma torneira para o banho. ficou com o remédio e o cinto. e. Só não tomei tudo porque lembrei que o carcereiro não estava a fim de voltar durante a madrugada. Tinha feito uma cagada. Que lugar sinistro. Não li o papel. onde tinha acabado de dar uma entrevista. um dos policiais que me trouxeram de São Paulo entrou na cela. Misturava o secretário de Segurança. Conforme as instruções do carcereiro. sua família. porque achava que podia me prejudicar ainda mais. Era impossível subir e tentar olhar o lado de fora. e eu ali sentado naquele poço. que trazia um colchonete e uma coberta. NÃO TINHA VONTADE de sentar no chão e muito menos de deitar. No fundo. Fiquei ali sentado no chão daquela cela. a escolta. Se precisar de alguma coisa. aquilo tudo me excitava.-Em seguida saiu e trancou a porta de ferro. a mais ou menos um metro e oitenta do chão. Nunca pensei que ficaria tão ansioso para chegar logo a hora de partir para Cabo Frio. só que era outro carcereiro... No fundo dele. tinha que chutar a porta para chamá-lo. — Tente dormir que o dia de amanhã vai ser puxado. só consegui ficar deitado. Menos de 24 horas antes estava em um pesqueiro em Mococa. mas antes disse que em poucos minutos traria o jantar. o melhor era enfrentar a situação. em cima do boi. Chamaram o carcereiro. pensando no que teria acontecido com a promessa que o secretário de Segurança de São Paulo tinha feito ao meu irmão. Queria saber se eu daria entrevista pouco antes de sairmos para Cabo Frio. e só depois é que a polícia deveria aparecer. Fiquei preocupado que fosse algum recém-enquadrado que passaria a noite ali também. pão e manteiga. Ele então me entregou um papel com algumas perguntas de um dos jornalistas e saiu. Antes de sair contou que a rua estava cheia de gente. na maior parte jornalistas. leite. o pé-direito era muito alto. e a sala devia ter mais ou menos três metros quadrados. não parava de pensar. Num canto havia um "boi". Mas era o carcereiro. buraco no chão para fazer as necessidades. FIQUEI ANDANDO NA CELA POR ALGUM TEMPO. com o jantar e a Privina..

Na porta estava o delegado. Era uma perua Chevrolet. em pé nos parapeitos da janela. O delegado chamava-se dr. sem nem olhar para mim. e apontou uma cadeira para eu descansar um pouco. olhando para baixo. A chegada em Cabo Frio foi um alvoroço. que olhassem à vontade. até os policiais que haviam me trazido. pelos investigadores locais e por um mundo de jornalistas com câmeras de TV. e meu advogado não estava lá. ela deve estar chegando. sem falar nada. microfones. Quando chegamos à delegacia. Os policiais deram uma bronca: — Pô. e começou a conversar comigo enquanto esperávamos a promotora. e o diretor do DPI me acompanhou até o carro em que eu seria transportado. A confusão era tanta. disseram que você era bagunceiro e atrevido. Fui algemado. mas ele não deixou ninguém me entrevistar. solta. Lembrei-me do conselho do dr. se eu concordasse. Naquela altura pouco me importava. Confesso que fiquei aliviado.. Sentei atrás. Éramos nós. acompanhados pelo pessoal do DPI. Quando desci. Quando saímos. Pior ainda. Pediu água e café. a promotora estava chegando e nada do dr. que eu me acalmei. Todos saíram. um homem de cara zangada que veio até a viatura e me convidou a acompanhá-lo. E agora o delegado vinha com essa conversa esquisita. Era difícil ter alguma privacidade. houve uma movimentação na multidão e muitas vozes berraram: 37 — Solta ele. Senti vontade de urinar e pedi que parassem o carro. Era um prédio antigo. entramos no prédio e chegamos em seu escritório. comentando a repercussão que o caso estava tendo. O delegado e eu subimos as escadas. Estava pensando sobre isso quando a promotora chegou e cumprimentou o delegado.. Com muito jeito. Disse: — Me enganaram. Apesar da claridade do dia. com uma escadaria na entrada. lembro-me de uma centena de flashes. os carros da escolta e não sei quantos carros da imprensa. mas na verdade é muito educado. O delegado e eu fomos fotografados durante pelo menos dez minutos. De repente disse algo que me surpreendeu: — É difícil acreditar que você tenha cometido esse crime. e atrás da viatura uma escolta de mais três carros lotados de policiais. Na frente iam mais dois. Paulo. tomei banho e fiz a barba. Conversaram por algum tempo e resolveram que era hora de começar o depoimento. concordando. Vamos esperar a promotora. Aquele cortejo ia aumentando e chamava muita atenção. e eu saí um pouco da estrada. Eu estava muito aflito. dessas grandes. E então em coro: — Solta. Os policiais iam conversando animadamente. Eu não conhecia ninguém. será que o homem não pode nem mijar sossegado? O pessoal se afastou. vi que realmente havia uma multidão de jornalistas. mas apenas balancei a cabeça. Paulo. você está acobertando alguém? — Quem me dera — eu disse. Estava arrasado.. a multidão era tão grande que parecia um comício. Sentei-me na frente deles e .Depois do café. nos sofás. Passamos direto e pouco tempo depois estávamos na estrada. Voltei para o carro e a viagem continuou sem mais interrupções. Quando desci. A certa altura vieram me buscar. Chamaram o escrivão. momentos que tínhamos curtido tanto. muitas vezes tinha feito aquele caminho com Ângela. Na sala havia gente em cima do arquivo. entre o diretor e um policial. Newton. os jornalistas atacaram com fotos e perguntas. já que nos jornais o clima para mim estava péssimo. e ele mandou tirarem as minhas algemas. A viatura estacionou na frente da delegacia. Fiquei imóvel.. o pessoal que estava comigo também se assustou. A PM abriu espaço para os quatro carros. Imediatamente achei que seria linchado. mais tarde daria entrevistas. Não fazia isso desde que saíra de Mococa. interrompeu a bagunça e prometeu que. Só não tinha gente no lustre. Então começamos a tomar o seu depoimento. fios e toda a parafernália que na época eles carregavam.

e que esperava que me comportasse bem. — Seu pai e o carcereiro trouxeram. pois seria levado de volta para a cela. o delegado foi embora e fiquei ali. Deu para perceber a preocupação dele com o estado em que papai se encontrava. não 38 estava presente. por sua vez. que era médico e estava de olho no papai. É difícil explicar o medo que senti. Dessa vez eu não estaria sozinho: teria. cumprimentou todos e deu um abraço no dr. mas o delegado argumentou com toda a delicadeza: — Senhor Luiz. Tiraram fotografia e passaram tinta nos meus dedos para colher as digitais. que ia até o teto. que até então estavam sentados ou deitados. Revistaram-me. Estávamos caminhando quando comecei a ouvir o trabalho das chaves que o carcereiro usava e o barulho do ferrolho quando ele abriu a porta da grade. Aí chegou a hora de o dr. mas não havia alternativa. Descobri então que épocas de grande tristeza trazem alguns momentos de alegria. Paulo José da Costa. 39 Entramos na parte de trás da delegacia. Paulista e Waldemar. Ele entrou na frente e me puxou pelo braço. Se eu não provocasse ninguém. aquilo era coisa da imprensa. seis companheiros. parado. O pessoal que estava lá dentro também achou graça. machão se dava mal. A promotora foi embora e o delegado me mandou para o cartório da delegacia para me identificarem. O delegado parou na entrada e disse que era lá que eu ficaria. Antônio Moçambava. Evidentemente eu não sabia que era ele. Foi então que me avisaram que meu pai estava conversando com o delegado. encontrei meu pai e o Cláudio. Meu pai estava preocupado porque tinha lido nos jornais as declarações de um preso. Newton. sem saber o que fazer. Havia duas celas ocupadas e uma vazia. então argumentei que eram instruções do meu advogado. de altura mediana. eles também não se meteriam comigo. Newton me acompanhar até a cela. uma cama de campanha com um colchonete em cima. e por isso era o xerife. Papai quis acompanhar. com bigodão parecido com o do Stalin — aproximou-se e mostrou. um lugar reservado aos desordeiros. O delegado e quatro detetives me levaram até a cela. que dizia que. parou no meio da cela e começou: — Azulão. Expliquei que tinha dito exatamente o que ele sugerira. que meu depoimento seria perante o juiz. estava tudo sob controle. Simpático. infelizmente. Paulista — um homem branco. onde fica a carceragem. para a minha alegria. Só fiquei com o dinheiro que trazia comigo e com um barbante desses que arrebentam à toa. O Moçambava era o que tinha dito aos jornalistas que playboy lá ia ficar mansinho. Houve certo mal-estar. se levantaram. e disse que estava chegando só naquela hora porque teve de dar uma aula no Rio e estava de viagem marcada para Roma para dar algumas aulas. que andava muito tenso. Eram mais ou menos seis horas da tarde quando me disseram que tinha de me despedir de meu pai e do Cláudio. De volta à sala do dr. Nesse momento entrou na sala o dr.mandaram que eu contasse a minha versão dos fatos. Feitas as apresentações. Disse ao delegado e à promotora que faria uso do meu direito de só dar declarações diante do juiz. tiraram o meu cinto e guardaram meus documentos. Ele. Os presos. O delegado cumprimentou todos. Soube que era o preso mais antigo de lá. vá para o seu hotel. na delegacia. para que não tivesse de ir para a "Malibu". Tive de reunir todas as minhas forças e toda a coragem para tomar aquela atitude. filho da minha prima Maria Zélia. que servia para segurar minha calça. O delegado o acalmou. Que eu não me preocupasse. segundo o delegado. descanse e volte mais tarde para conversar comigo. Newton. Cabelo. num canto perto das grades. Apontou para uma cela vazia e deu um risinho. estudaremos horários para o senhor visitar seu filho todos os dias. de mais ou menos quatro metros quadrados cada uma. se justificou. Ver papai e Cláudio foi um deles. que. .

Quando o dia amanheceu. Sempre alguém estava pendurado nela. negro. seis sanduíches. estava tudo escuro. ele se levantou e disse: — Você deve ser importante mesmo. os presos improvisaram uma cortina com cabo de vassoura e sacos de farinha. se aproximou com um sorriso enorme: — Quer um café? Se quiser eu faço. e tive de vestir as do dia anterior. era de confiança. Estava desconsolado. A única coisa desagradável era que eu não tinha roupas limpas. mas me disseram que. Acendi um cigarro e olhei aquele pessoal dormindo no chão. escova. dissimulado. Era uma cama mesmo. esperando o . de roupa e tudo. para que eu não pisasse descalço no chão. Azulão. pasta de dente e um travesseiro. Achei que o pacote era muito grande. 40 SENTEI NA CAMA COM VONTADE DE CHORAR. olhando para as minhas botas. Havia uma cama. rindo: — Não dá para negar nada para o seu pai. Por duas horas. o pessoal só aceitou o pão. Caminhei em direção à cama preocupado com Moçambava mas. camarada perigoso que não gostava de muito papo — e o Cabelo — um mulato de mais ou menos 1m 70. O Azulão me trouxe mais café. vendo o movimento. Mais tarde me explicaram que Luiz. de tudo o que ele tinha trazido e de todos naquela cela se mostrarem amistosos. mas não aceitei. que por sinal estava limpíssimo. Me ajudaram a levantar. não era cama de campanha como a minha.. Como no DPI. Na nossa. que disse. Quando levantei a cabeça. Faltava um. Agradeci o café. A certa altura adormeci. e me responderam que tinha vindo junto com a cama. O Azulão fez um tapete com folhas de jornal. Enquanto a comida não chegava. baixo e muito forte. Minha cama ficava de costas para a parede que dava para o corredor e era onde começavam as grades. de bigodinho. eu estava arrasado. fechei a cortina de sacos de farinha e tomei um banho bem razoável. água para banho. a dois metros de altura. Não me importei mais com os outros e comecei a chorar. Estava morrendo de fome. o Luiz. Ficou pedindo para ver você até eu trazê-lo aqui. a água chegou e os meus companheiros deixaram que eu fosse o primeiro a tomar banho. Nervoso como estava. Estava assim. um índio de estatura mediana e cabelo oxigenado. Fiz isso em cima do boi. perto da porta. trabalhava na delegacia e só vinha para dormir. papai estava chegando com o delegado.. não tinha reparado nela quando chegara. sabonetes. Aparentemente. caí de novo. o Azulão fez café do nosso estoque. Estava reparando nessas coisas quando o carcereiro chegou com as minhas encomendas. toalhas. Quando saí do banho. Tirei a roupa e fui até o boi. Comi um dos sanduíches com uns goles de refrigerante e o restante deixei com os outros. Para que eu tivesse privacidade. refrigerantes e um quilo de café. Logo depois. talvez. todos dormiam. Apesar de papai. só no dia seguinte. quando percebi que debaixo da cama havia um pacote. Com o passar dos dias. Abri e vi um grande frango com farofa. o sexto preso. Chorei deitado. Lá estavam dormindo o Waldemar e mais um. Perguntei a um dos meus companheiros se aquilo era meu. fumei um cigarro. mas não por muito tempo. quis tomar banho. sem arrumar a cama. também de 41 costas para o corredor. Tentei me levantar e tive de segurar nas grades para manter o equilíbrio. MAS NÃO QUERIA Mostrar fraqueza na frente dos meus novos companheiros. não consegui coordenar os passos para ir até a cama e caí. quando me aproximei. Havia mais dois: o Waldemar — um caboclo baixo. Abri e eram roupas de cama. Bem em frente. serviram café e pão em todas as celas. nunca vi delegado fazer essas coisas. havia uma janela para a rua. Quando abri os olhos. Azulão arranjou com o carcereiro uma garrafa de água para eu lavar o rosto. segurando nas grades. que sempre estava atento a tudo. ele se nomeou meu secretário. Aproveitei e pedi que ele comprasse sanduíches. Então me levaram para a cama. refrigerante e pó de café. tinham me dito que eram seis. em cima dele havia um cano. a dois metros da minha. que eu ainda não havia conhecido. atravessando toda a cela.Quem estava sentado nela era Moçambava. Não consegui dormir novamente.

Tinham vindo me buscar porque o delegado queria me ver. 43 — Quer dizer que você é secretário do Doca. Isso me assustou. as lágrimas caíam. o dr. Foi a primeira vez que vi o Paulinho. ainda que me controlasse ao máximo para não soluçar. Meus companheiros entenderam a situação e me deixaram quieto. Comecei a andar sem direção e ele teve de me ajudar. Sentou na cama do Waldemar e pediu para o Azulão servir um cafezinho para ele. Paulo Badhu. você está péssimo. cada um teria o seu dia de 42 faxineiro. tinha acompanhado e relatado tudo. e um deles se machucou e estava fazendo um berreiro havia horas. Paulo encostou-se nas grades enquanto o carcereiro destrancava a porta. Paulo apareceu junto com o carcereiro. é claro. pois estava na delegacia quando vieram avisar ao delegado que havia ocorrido um crime na Armação dos Búzios. Não me lembro com qual dia fiquei. Eu estava a par da briga e. frango. e não um ambulatório. O Paulista.. Expliquei que não. O pessoal da cela fez um sorteio para organizar a limpeza. depois do banho. Expliquei que não conseguia parar de chorar e. que se tornou meu amigo e foi um dos meus defensores. naquela altura. ele é criminalista e veio visitar você. Ele continuou preocupado e disse que falaria com o delegado. depois do banho. mas não tive tempo de pensar no assunto. Comecei a chorar novamente. Paulo entrou na sala e os dois conversaram. usando um espelho. . O dr. Enquanto eu falava. porque não tinha conseguido parar de chorar e. o que está acontecendo? Contei que não havia dormido quase nada. Ele estava bravo porque na cela ao lado da minha dois presos se desentenderam. Mas. Ele então foi irônico: — Também. se alguém me maltratara. levantou e foi comigo até a cela. Expliquei que não. — Olha — disse ele —. por isso fique calmo. Apresentou-me: — Esse é o dr. Falou ao meu ouvido: — Não economize lágrimas quando estiver falando com o delegado. Um restaurante tem até um "filé Doca Street" no cardápio. não tinha conseguido caminhar até a cama. Despediu-se. para saber se ele sugeria alguém para me ver. parou: — Nossa. porque o Azulão se nomeou meu secretário e disse que faria a faxina no meu lugar. Paulo foi buscar um psiquiatra. Pegou a chave com o carcereiro e entrou comigo. Não é nada difícil encontrar jovens usando camisetas com seu rosto estampado. muito pelo contrário.. Pela primeira vez o delegado se dirigiu a mim com impaciência: — E vê se pára de chorar. aqui em Cabo Frio você é muito popular. O delegado quis saber se algum dos meus companheiros de cela havia me incomodado. eu estava tão mal que não queria saber de nada. não consegui me manter em pé. com a mordomia que seu pai deu a eles. Em seguida. Paulo perguntou se tinha acontecido alguma coisa. De repente. que isso não é coisa de homem. Estava me sentindo muito mal e voltei para a cama. Passado algum tempo. sanduíche etc. para ele autorizar que um médico me examinasse. Ele me contou que acompanhou meu caso desde o início. O delegado mandou chamar o Paulo Badhu. Newton mandou todos saírem da sala. advogado de Cabo Frio. estava com um jovem de paletó e gravata. que até tinham me ajudado quando passei mal. e além do mais não conseguia parar de chorar mesmo. Quando ele apareceu. Tenho um plano. O dr. da gritaria. Acompanhei os dois até a sala do delegado. O delegado conversou comigo para saber o que eu estava sentindo. pois eu nunca tinha visto aquele camarada. dizendo que iria procurar o delegado. Isso aqui é uma delegacia. depois nos falamos.carcereiro para dizer que não estava bem.

Normalmente. no estado em que eu estava. Ela falava enrolando um fumo. muito melhor que o meu.. .. ela havia se desentendido com o advogado que a representava nesse processo e em um outro. de sorrir com os olhos faiscando. Trabalhava muito em sua oficina de estofados.k. Estava linda daquele jeito: atravessada numa poltrona.. embora já soubesse do que se tratava. Tinha quatro irmãos: Nico. só de calcinha e camisa... Estava com medo. Achei que o momento não era oportuno para perguntar onde tinha sido presa. . Eduardo e Rodolfo. me distraí um pouco.. houve flagrante e ela ficou presa uns dias. Aquele era um momento que apreciava. O ex-marido a estava processando pelo rapto de um dos filhos. por posse de droga. Perguntei o que era aquilo.. pedimos uma garrafa de uísque e outra de vodca. e se não tomasse cuidado poderia ser condenada. bebendo e conversando. — Uma me beijou e me passou a mão.. uma senhora nascida na Argentina.. Gostava muito da casa. A minha ordem é: visitas só aos domingos. que fazia sofás e poltronas. Depois. Seus olhos faiscavam enquanto ela contava essa história. no Morumbi. o jeito de andar. O delegado viu aquilo e comentou: — Isto aqui está virando um inferno. acabaram de entregar. eu estava preocupado e ao mesmo tempo queria mais. Luis Felipe. ficamos bebendo e nos acariciando.. seu cheiro de fêmea. PERCEBI QUE ESTAVA NERVOSA E assustada.. nosso filho. e. A única coisa que me interessou e que me intrigava era: por que um psiquiatra? O dr. Eu tinha pedido ao carcereiro que comprasse jornal.. O que já veio de mulher querendo visitar você. tomar banho acompanhado de um drinque. disse que morria de medo de ser condenada. Ia enrolando o baseado e contando os poucos dias que passara presa. e somente as autorizadas por você e com o meu o. Sentamos na cama. às vezes ria debochada. tinham sido apenas duas tardes divertidas. Tinha ensinado as presas a se maquiarem na última moda. — Ah. para arrematar.. Analicia. que era sua bebida favorita. Quando demos por nós eram sete da noite. Deu um beijo demorado e carinhoso e pediu para eu deixar aqueles dois pacotinhos prateados na casa de uma amiga. estávamos altíssimos. pensei que você tinha entrado no avião com isso. Dei tudo para o Azulão e disse que podiam ler à vontade. Quando foi pega com droga. cheguei completamente doidão. A tarde passou rápido. no Rio ou em Belo Horizonte. Ele tinha posto em cima da cama. Mas Ângela não saía da minha cabeça. Com todo aquele movimento. e eu gostava de conviver com eles. mas ficou nisso. mas não quis saber do jornal nem das cartas. Era filha de um industrial. Logo em seguida. e de Alicia. cansada. a hora de brincar com ele era pela manhã e às vezes na hora do almoço. era a melhor opção. bom. E. 44 Dois pacotes bem embalados com papel prateado chamaram a minha atenção. Não a acompanhei à sala de embarque. vou ficar freguês. nos despedimos no carro. já estava dormindo. quando chegávamos. junto com algumas cartas que haviam deixado para mim. Tentava me convencer de que estava tudo bem: afinal. às vezes ficava séria. Minha mulher chegou em seguida. do sossego do bairro. Saímos correndo para o aeroporto.É fumo. O jantar na minha casa não saía antes das nove. UMA HORA DEPOIS FUI ENCONTRÁ-LA. Tinha passado uma tarde do jeito que o diabo gostava e estava em casa do jeito que eu queria: com minha família.Percebi que aquele homem sabia de tudo o que se passava na carceragem. o Jardim Guedalla. Nicolau Scarpa. ficamos doidões. Newton pacientemente explicou que. Tomou o café e comentou: — Porra. Pais e filhos eram unidos.. E tinha um detalhe: ninguém sabia que ela estava em São Paulo. ela ia jantar com Ibrahim na casa de amigos.

página virada. ter certeza de que ela estava feliz. ficou combinado que ele viria com Ângela e que o casal se hospedaria conosco no fim de semana. tinha medo de perder a linha e fazer alguma bobagem. Quando o dia nasceu. Ângela estava deitada no sofá. Sorriu para mim e disse. Se eu estava preocupado. Voamos alto. se aparecesse alguma oportunidade. mas fomos além.Não se preocupe. assim que tivéssemos certeza de que nossos cônjuges estivessem dormindo. no lusco-fusco dos primeiros raios de luz. queríamos melhorar o humor do Ibrahim que tinha levado um cano do Leão. enquanto eu preparava mais um drinque.Logo depois do jantar. por isso os quartos ficavam abaixo das salas. Lavei o rosto. Sabia que. escovei os dentes e subi para a sala novamente. Apesar de ter gostado da idéia. Fiquei aliviado. goleiro do Palmeiras. fiquei apreensivo. Só tinha passado algumas horas com ela.. As salas de visitas e de jantar ficavam no nível da rua. Minha mulher estava tranqüila. porque me lembro do Ibrahim apanhando para acender a lareira. Acendemos um baseado e ficamos deitados conversando baixinho. Voltamos para casa cedo. Quando subimos para o café. com uma grande ressaca moral. num espaço só nosso. Ela estava linda e sensual. Depois fomos a uma casa noturna. ele dorme como uma criança. tramamos aquilo rindo. Que piorou muito quando me dei conta de toda aquela loucura. tinha que agir rápido e sair dali. perto da lareira. No sábado convidamos alguns amigos para jantar. deixando agradecimentos e abraços. demos 46 uma olhada de longe e achamos que estava tudo bem. Precisava fazer alguma coisa. Não sei onde estivemos. Era um sofá enorme de camurça. Naquela noite não pensei mais no assunto. e a realidade me atingiu. havia bastante gente na casa: nós. Ângela 45 e eu não a desperdiçaríamos. encher minha mulher de beijos. se um dos dois não pudesse aparecer. de pijama. mas o aperto no coração continuava.. Acordei me sentindo esquisito. Na verdade. mimá-la. começamos a arrumar tudo rapidamente. assim ajudariam a fazer sala para as visitas. Como as fotos seriam feitas no sábado. contando que viria a São Paulo para entrevistar o Emerson Leão. mas já sabia que qualquer faísca provocaria uma explosão. muito além. que segundo a imprensa esportiva tinha as pernas mais bonitas do esporte brasileiro. as almofadas do sofá na mais completa bagunça. Mas não era hora para arrependimento. com aquela cara que só ela sabia fazer: . . Servi uma bebida e fui me juntar a ela no sofá. deitei e dormi até uma e meia da tarde. Ia fotografá-lo e queria permissão para usar a piscina da nossa casa. Nos separamos sem nos despedir. fazê-la sentir-se amada. tudo bem. meu filho e os empregados. Ibrahim e Ângela vieram e tudo correu bem. Tudo arrumado. Quando cheguei. Fui para o quarto com minha mulher e namoramos. Cheiro de amor. Em silêncio. tomei uma chuveirada bem quente. o Leão. minha mulher já estava dormindo. como sempre. acho que era inverno. lendo uma revista. Sentia um choque e um aperto no coração. Era o Ibrahim. lendo. daquele momento em diante esqueci tudo. achando divertida e excitante a situação. Tomamos mais alguns e fomos dormir. e aproveitamos um momento em que todos estavam dançando para marcar um encontro na sala de visitas lá de casa. percebi o movimento da nossa Bell (uma dobermann de cor albina) no terraço. Não a ocuparia por mais de uma hora. ainda estávamos à mesa quando o telefone tocou. Jurei para mim mesmo que nunca mais sairia com outra e que me dedicaria só à minha família. Ângela e eu ficamos sentados lado a lado. não tínhamos tempo para isso. o terreno da casa era irregular. o tempo todo de mãos dadas. Também combinamos que. Quando cheguei ao quarto. a empregada avisou que o almoço estava quase pronto e que os convidados tinham partido por volta do meio-dia. o Hipopotamus. senti que estava ligada naquele nosso momento. roupas espalhadas pelo chão. Entrei no banheiro. Afinal.

ele já está sabendo de tudo.. ninguém sabia de nada. agradecendo o fim de semana. Ibrahim telefonou. e eu freqüentava aquela casa com minha mulher. vou passar uns dias com Francisco. sempre que estivemos em público. Fui encontrá-la no fim da tarde. Depois. O médico a tinha proibido de andar. pelo menos. disse que queria retribuir o convite. diziam que era ignorante. Só chegou uns dez dias depois. dentro de uma semana ou duas. foi como amigos. que está querendo casar de novo. estávamos sempre juntos. dizendo que está precisando de mim. Conhecia a vida de todo mundo. sabia tudo o que se passava no governo. Quando ela chegou. Paulo Badhu fosse uma armadilha? 48 . fiquei preocupado. Por isso. só minha secretária Guida e Chiquito é que sabiam desse novo relacionamento. Era verdade. Estava na beira da piscina com o dono da casa e sua noiva. dizendo que tinha de fazer tudo sozinho e que ninguém o ajudava. pois antes. porque o Ibrahim ficou telefonando o tempo 47 todo. O Ibrahim precisava dela. Reclamou com ela. No começo da noite. Tínhamos lutado muito para ter um filho. O dia seguinte foi normal até o fim da tarde. ele telefonou de novo. Francisco era muito meu amigo. SEMPRE TINHA LIDO QUE SAIR DE UM MANICÔMIO JUDICIÁRIO É Muito complicado. antes que eu saísse do apartamento de Ângela. Aí me surpreendeu: — Amanhã ou depois estarei aí. nem nos seguintes. a coluna dele era a mais lida do país. Conheci melhor Ibrahim por causa da Ângela. mas antes eu já tinha ido para o Rio. Não sabia exatamente como devia agir. O que havia acontecido? Paixão à primeira vista? Estivemos juntos pouquíssimas vezes. Um alarme tocava dentro da minha cabeça. mas estava sofrendo muito com aquela loucura toda. ele punha todos no bolso. Naquela tarde. estava adorando amá-la. Reuniões com os corretores da imobiliária pela manhã e com o pessoal da Brasilos à tarde. No dia previsto ela não pôde vir. me telefonou dizendo que já estava instalada na casa do Francisco. Na verdade. Acho que naquela altura já sabíamos que nosso relacionamento não seria passageiro. telefonei para Ângela. Pura dor-de-cotovelo. e comentou que havia combinado com minha mulher nossa vinda. Lá pelas dez da noite.. Muitos intelectuais e gente da imprensa faziam pouco dele. E se toda a ajuda do dr. Mais uma noite cheguei em casa doidão. Num primeiro momento fiquei constrangido. O casal que nos recepcionava sabia que estávamos tendo um caso. Não se preocupe. não queria que virasse um "caso". ele detesta São Paulo. Eu não podia pôr tudo a perder. E foi bastante tumultuado.Afinal. de ponta-cabeça. admirava sua inteligência e coragem. não era para eu estar assim. seria dentro de quinze dias. uns dias depois. não tinha mais dúvida. Além disso. antes de ir para casa. Ângela ficou em São Paulo três ou quatro dias e passamos juntos boa parte do tempo. Tinha sido confuso. adorava a companhia dela e estava apaixonado. amava muito minha mulher. me incomodava estar à espera de um psiquiatra. ia dar um jantar para um pessoal importante. Telefonou. Eu. depende da avaliação de várias comissões. Queria saber dela e perguntar por que tinham partido: — O Ibrahim tinha se aborrecido com alguma coisa? — Nada disso. apesar de estarmos em plena ditadura militar. cobrando sua presença e ajuda. passar um dia com ela. Era um jornalista muito bem informado. Almoçamos e passamos uma tarde tranqüila. mas eu não tinha comentado sobre Ângela com ninguém e achava que deveria continuar assim. O encontro seguinte foi no Rio na casa do Ibrahim. Ia telefonar para minha casa logo mais e nos convidar para passar um fim de semana no apartamento do Ibrahim. ela passou oito meses deitada para não perder a criança. era muito bem relacionado com empresários e gente da "alta sociedade". Se topássemos. mas meu coração o desligava.

Não se assuste com a multidão nem com os flashes. serei eu o responsável. não olhei nem mostrei interesse. Fiquei pouco tempo na sala com o dr. Em seguida. O médico era cabeludo. Estava alta. pelo modo efusivo como se abraçaram. Todos levantaram de repente. a não ser conversar e jogar dominó. interpretarei que está me autorizando a agir e tomarei as providências. deitei e fiquei quieto. Se você voltar para a cama. me acompanhou até lá. Ninguém chegará perto de você. que aquele cara era louco e o tal do dr. pediu que eu explicasse o que estava sentindo. Percebi que ele era amigo do delegado. Ele me tranqüilizou quanto ao meu estado de saúde. Depois que Paulo e o delegado saíram da sala. o pessoal da cela estava preocupado. — Conheça o doutor Ivo. Paulo e o psiquiatra conversavam quando entramos. Quiseram conversar comigo. a PM fará um cordão de isolamento. não conseguiram. ganhará na certa. se eu começar e você der para trás. Mas. e precisava de pelo menos dez dias em uma clínica. Newton estava furioso. disse que concordava com tudo e que ele não tinha que se preocupar: faria a minha parte. que o Ivo constatou que 49 você está muito mal e que. Newton mandou o carcereiro levar o psiquiatra para o cartório e. Na carceragem. Contei o que tinha acontecido pela manhã.Estava todo enrolado nesses pensamentos quando o carcereiro avisou que o médico havia chegado. No caminho disse que o Paulinho (era assim que chamava o Paulo Badhu) ia conversar comigo mais tarde. vestia camiseta e calça branca. Você não deve estar sabendo. Disse que era óbvio. eu estava exausto e emocionalmente muito abalado. a responsabilidade será dele. Quem apareceu foi Paulinho. usava uma barbinha rala. Não dei a mínima para nada. — Você está causando o maior rebuliço na cidade. e que passara parte das últimas horas chorando. Por causa de toda aquela gente aqui em frente. quem vai ficar mal serei eu. Fiz um resumo. Mas não abri os olhos. Receitou um calmante e voltamos para a sala do delegado. esperando que papai aparecesse. Que seria guardado dia e noite pela PM. depois do banho. O dr. começamos a conversar. Newton. O carcereiro apareceu e contou que muitos repórteres estavam à minha procura. que o dr. o Ivo e eu levamos você para uma clínica. Se se candidatar a um cargo público. Alguém mexeu nos meus ombros duas ou três vezes. Olhei bem nos olhos do Paulinho. Não sei por quê. encolhido. se você seguir o meu conselho. Eu disse alguma coisa e fiquei observando enquanto ele tirava a minha pressão. Ouvi tudo isso sem me mover. O calor era brutal. Voltei para a cama e fiquei quietinho. e saí da cela de maca. Quando passei pela porta que dava para . Não me sentia bem e pedi para voltar para a cela e me deitar. mas muitos amigos seus estão passando temporada em Búzios e tentaram vir ontem te abraçar. Ele quis saber como haviam sido os dias em que estive escondido. depois de alguns minutos. Ivo chegou com alguns homens. Ivo. — Olha. Achei que a história não vingaria nunca. Que naquele momento estava trancado com o dr. Continue chorando e volte para a cama. não sei quanto. mas fiz sinal de que não estava bem. contei sobre a injeção que me aplicaram na clínica e confessei que estava com medo de estar ali. Ivo e o Paulinho no escritório. porque haviam transferido alguns presos para o presídio de Água Santa. O ambiente estava quente. Estava ansioso. — Não tente fugir. Centenas de jornalistas estão lá fora. Paulo nos apresentou. e ninguém tinha nada para fazer. Dr. no Rio de Janeiro. tinha mandado a PM pôr todos para fora e proibira a entrada deles na delegacia. Percebi que havia uma movimentação estranha na cela. Era o delegado. se acontecer alguma coisa. mais louco ainda. e ouvi o barulho das chaves e da porta de ferro rangendo. Você vai sair daqui na maca. Vou falar para o delegado que você precisa ir para um hospital. avisando que uma ambulância estava a caminho para me buscar e que eu seria transferido para um hospital. superabafado.

O dr. O investigador que me acompanhava foi embora. o que aconteceu? Não estou entendendo nada. desde que fugira. Repassamos tudo várias vezes. Que seriam inúmeros. Ivo entrou comigo. Dinheiro não paga o que ele fez por mim. a responsabilidade seria toda dele. a não ser para ir ao banheiro. O tempo era curto. Ivo explicou que estava com papai. Estou aqui para ajudá-lo. contei minha vida e meu romance com Ângela. Você terá que se recuperar e se preparar para agüentar tudo o que vem por aí. o dr. 51 Resolvi confiar no dr. Não se preocupe. cuidando da parte burocrática. vinte dias antes. O Paulinho convenceu o delegado de que. e em muitas ocasiões me desesperei e chorei muito. Dois policiais já estavam na porta quando cheguei. você ainda ama Ângela? De repente percebi que estava na porta da ambulância. Ivo e em Paulinho. Devia ter muita gente ali. pelo zunzum e pelo barulho das máquinas fotográficas. Mas abri um pouquinho e vi o delegado de um lado e o Paulinho e o dr. demorei uns quinze minutos para sair da ambulância.a rua. Não houve incidentes durante o trajeto. Também ficou acertado com o dr. Paulo José da Costa. Tinha certeza de que a promotora e o juiz não estavam gostando nada da minha saída da delegacia e da minha estada naquele hospital. Essa era a oportunidade de parar tudo e pôr a cabeça no lugar. 50 NA AMBULÂNCIA. se você quiser. Ivo que ele estaria comigo nos momentos complicados. o que tinham conseguido era um verdadeiro milagre. Afinal. rumo ao Hospital Santa Izabel. Disse também que ele iria até o fim. finalmente estava instalado num hospital. Depois de muita conversa e empurrões. me ajudou muito. Fora perguntas incríveis feitas aos berros. Ou estava fugindo. A paciência que teve comigo. do meu ponto de vista. Fazia muito calor e as portas tinham que ficar abertas para que não sufocássemos. fiquei no último quarto. Quando a enfermeira saiu. Acho que fui para o terceiro andar. e ele recomendou que eu não me levantasse. no hospital. ele nunca cobrou. Não sei o que esperavam conseguir. Os dois explicaram tudo. A chegada foi caótica. Concordei imediatamente. só meu pai teve igual. Bom. talvez algumas fotos de minha entrada. se a sorte continuasse me ajudando. é claro. mas avisou que passaria por lá três ou quatro vezes por dia. O dr. Notei que papai estava do meu lado e tive a impressão de que ele não estava entendendo nada. Perguntei pelo Paulo Badhu. Acredito que fiquei lá mais de quinze dias. de uma bondade extraordinária. Ele começou a rir e disse: — Você é corajoso. Conversei muitas horas com Ivo. Fui posto na ambulância e o dr. não havia tido um minuto de tranqüilidade. Ivo e uma enfermeira me ajudaram a colocar um camisolão e me aplicaram uma injeção. além do mais. de maca. uma semana. lembro bem: — Doca. . Esse homem. exceto os carros dos repórteres. à direita do elevador. se aceitasse. ALÉM DE MIM E DO IVO. mas que logo eles estariam com a gente. assinei um termo de responsabilidade na delegacia.. a polícia fez um cordão de isolamento e finalmente conseguimos passar e entrar no hospital. Ivo mandou eu não abrir os olhos. Na verdade. dez dias. foram eles que me socorreram na hora do aperto e. ou preocupado com a situação que tinha pela frente. na secretaria. que me desse tempo para pensar. De uma. o dr. para ver se estava tudo bem. não sei se de repórteres ou apenas curiosos. Aliás. que em princípio seria cadeia.. Perguntei ao Paulinho se ele queria uma procuração para continuar no caso junto com o dr. Ivo do outro. a fuga para São Paulo e tudo o que aconteceu até a volta para Cabo Frio. O velho foi logo dizendo: — Afinal de contas. preparando-me física e mentalmente para enfrentar a vida que me esperava. julgamento e pena a cumprir. se você tivesse alguma coisa séria lá. Ivo e eu ficamos sozinhos. com todos os detalhes. Paulinho e papai chegaram. ENTROU UM POLICIAL que eu já conhecia da delegacia. por isso deu tudo certo.

o que na visão do dr. 52 NO FIM DA TARDE. Evandro não era bom. não arredava pé da minha cabeceira. Só de passagem. um camarada me parou na rua e pediu um autógrafo — neguei. Alguns amigos que estavam de férias em Búzios tentaram me visitar. voltaria para a delegacia certo de que estavam trabalhando para que eu tivesse um julgamento justo. que era do Rio de Janeiro. Informaram que assim que possível entrariam com recurso. Havia um fato novo: uma equipe da promotoria tinha vindo me visitar para constatar se eu realmente precisava continuar internado. que veio acompanhado de sua equipe: seu sobrinho Técio Lins e Silva. Ela estava preocupada com o fato de eu estar sendo defendido por dois advogados — dr. porque o dr. argumentava ela. Evandro me entregou uma carta de mamãe. Em vista disso. os advogados de São Paulo já haviam gastado um dinheirão. Assim. Paulinho e Ivo mexeram os pauzinhos e com isso fiquei mais de quinze dias lá. papai me avisou que eu receberia a visita de um advogado famoso. recebi novamente a visita do dr. RECEBI A VISITA DO DR. mas ficava apavorado ao pensar que de uma hora para outra estaria voltando para a delegacia. No fim desse tempo estava mais calmo e forte. tinha bons antecedentes e residência fixa. No dia seguinte. No fim da visita. mas. decidi na hora. Evandro. porque ele continuava a dar aulas em Roma. Por dia. Ela não conseguiu falar com ele imediatamente. Paulo José da Costa estava lecionando em Roma e ainda iria demorar uns quinze dias para voltar. Paulo e explicasse os motivos da minha decisão. papai achava que era Evandro. Depois de uns três dias no hospital. — Me desculpe — ele disse —. de preferência o dr. O ex-ministro Evandro Lins era uma pessoa agradável e expunha seus pontos de vista de maneira muito clara. O dr.Além de Ivo. e pela primeira vez fiquei sabendo tudo sobre o processo. Talvez a imprensa estivesse falando tanto de mim que estava me tornando um herói. como não conseguiam. já que Evandro era um grande criminalista. a coisa 53 toda ia ficar muito cara. Permaneci mais tempo que esperava no hospital. Um ou dois dias antes de ser escoltado de volta para a cadeia. Era réu primário. Evandro deixou que eu lesse a carta e disse que não daria palpite. Uma vez. pois também achava que ter duas equipes de advogados era demais. recebi e assinei as procurações para que a equipe do dr. sabendo o rumo que a defesa tomaria. Ilídio Moura. me senti aliviado. E tampouco poderia esperar o julgamento em liberdade. Traçamos um plano de ação para que me sentisse mais confiante. Arthur Lavigne e o dr. mandavam recados. é claro. O nome desse novo advogado. e pedindo uma resposta. recebia em média de cinco a dez cartas de todos os cantos do Brasil. Depois de conversarmos. quase todas de apoio. Dr. e papai. Ivo me avisaram que não conseguiriam me manter por mais tempo no hospital. Optei por ficar só com ele. ele tinha convidado esse advogado para assessorá-lo. Conversamos longamente. Na mesma hora telefonei para mamãe para que ela falasse com dr. essas cartas eram no mínimo estranhas. Paulo José da Costa e dr. dr. uma enfermeira foi dedicadíssima. Evandro —. para que eu pudesse aguardar o julgamento em liberdade. quando esperava o julgamento em liberdade. Os advogados e o dr. que eu deveria pensar bem e depois telefonar para ele. Evandro desse . Evidentemente isso me incomodava. mas havia um problema: a comarca de Cabo Frio estava. disse que não entendia a atitude dele. ele falou sobre o andamento do processo e sobre a reação do juiz a minha permanência no hospital. Sugeriu que eu ficasse com um só. com um juiz substituto. o dr. é que meu filho admira muito o senhor. EVANDRO LINS E SILVA. Evandro e de seu pessoal. Aquela reunião me fez bem. Confesso que não pensei nem um minuto. Como da primeira vez. vivia no Rio e seria fácil falar com ele ou qualquer membro de sua equipe. fiel guardião. na época. Noventa por cento eram de mulheres. Evandro tinha feito um requerimento. a conversa não foi pesada. Apesar da gravidade do assunto.

minha mulher e eu. —. voltamos para casa. A localização era interessante: a rua começava em Copacabana e terminava no prédio. Só nós três ficamos conversando. Sabia muito bem o que estavam fazendo. Fomos ao restaurante de um amigo do Ibrahim. Elisa era introvertida demais e de pouca conversa. Era um apartamento grande e bem decorado. Os outros dois resolveram não jantar. no começo da tarde. Três grupos se encontraram na casa dele naquele fim de semana. começaram a cheirar cocaína e por lá ficaram —. Fomos os primeiros a chegar. Nem os donos da casa estavam lá. resolvemos tomar banho e dar uma descansada. o Ibrahim se retirou assim que voltamos. e me despedi com lágrimas nos olhos. Quando vi o casal me animei. Olhei para Ângela: seus olhos brilhavam. De vez em quando. em Ipanema. ele estava cansado. ela sabia muito bem o que estávamos fazendo. mas o pessoal do hospital tinha feito a parte deles. Dois dias depois da visita dos advogados. cinco minutos depois. Fomos recebidos por uma arrumadeira de uniforme que nos acompanhou até a suíte que ocuparíamos.. fui até lá. Ângela dizia brincando que ele era velho e precisava dormir bastante. cheirando a cocaína que nos ofereciam. que fez novamente um corredor humano. Ficamos uns cinco minutos no quarto. além do mais.. Adelita e eu ficamos batendo papo até o dia raiar. Tudo foi registrado por uma multidão de jornalistas. O Paschoal. que tinha dobrado de tamanho. e de até então só termos tocado nossas mãos. também paulistas. o Bife de Ouro. Paschoal e Elisa — que apareceram pouco. lugar da moda. Ângela também chegou. Quando resolvemos sair para jantar. Engraçado. ALÉM DE TUMULTUADO. E era mesmo.Já vou telefonar para dona Ângela avisando que chegaram. via-se o mar. minha mãe disse: — Conheça o colunista social Ibrahim Sued. íamos ao quarto de Elisa e Paschoal. no primeiro andar. tiveram de chamar a PM. denunciando que já tinha cheirado pó. eu conhecia bem e me dava com ele. Ficamos batendo papo. me enfiaram dentro do camburão e. Apesar de terem sido apenas dois dias. Estava mais calmo e com a saúde em ordem. intelectuais.Vim ver o que está acontecendo. Devia aquela recuperação ao dr. . depois do jantar. Os policiais me algemaram. Ivo. Falou isso rindo. e depois voltamos sozinhos para a sala. tomando drinques até tarde.. eu estava feliz. Não lembro o nome do lugar.andamento à minha defesa. Um imóvel grande na rua Rainha Elisabeth. numa rua transversal à avenida Atlântica. Para que eu entrasse no camburão.. cupinchas etc. Depois de alguns minutos. Como ninguém chegava. e às vezes trocado olhares ou um leve toque de lábios num encontro rápido no corredor. me lembro de uma vez quando era adolescente e estava almoçando com minha mãe no restaurante do Copacabana Palace. Minha mulher sabia muito bem o que se passava lá. pois os dois estavam embalados e nós queríamos um pouco. o casal foi até o quarto para trocar de roupa. admirar . Como depois de um tempo não voltou. Voltamos para a sala duas horas mais tarde e encontramos os anfitriões e o casal paulista. Foi tudo muito bem-comportado e. . eu estava na cela com os meus companheiros. mas não era a dela. com boas peças. Podia vê-la. Foram muito delicados. por isso não participava. bem atrás do Arpoador. Ele veio sentar-se um minuto a nossa mesa. O último prédio da rua. porque logo que chegaram foram para o quarto. só que ficava no Posto 6. Ângela. Como era o último. O FIM DE SEMANA NA CASA DO IBRAHIM FOI LOUCO E divertido. muita coisa aconteceu. policiais entraram no meu quarto no hospital e me levaram de volta para a delegacia. apesar de estarmos comportados. Seus amigos — jornalistas. 54 Aproveitamos que não havia ninguém e fomos conhecer o apartamento. um casal amigo de Ângela e conhecido nosso. porque no dia seguinte haveria um almoço para uns amigos do Ibrahim e.

animado com o sucesso do almoço. Não ficamos muito tempo e. Quando entrei. Acordamos tarde e quando aparecemos as salas estavam arrumadas com algumas mesas a mais. Se tivéssemos fome de madrugada. nunca falamos sobre planos para o futuro ou qualquer coisa do gênero. apesar de querermos estar juntos. Eu conhecia seu corpo. o casal falava sem parar. e fez caras quando entramos lá. Ao fazer isso senti a agradável sensação do contato com uma manta de vison. pois no quarto não havia cama de casal. Quando voltava do quarto do casal. pouco depois saímos e fomos cada um para seu quarto. Era uma manta linda. que preenchia todo o sofá branco. Ibrahim. Um deles eu admirava muito. o picadinho de lá era ótimo. berravam e faziam homenagens. não era nisso que estava pensando. Ângela estava deslumbrante. não é mesmo? Não dormimos. andava de um lado para o outro. Apesar de ser mais de uma e meia. Minha mulher e eu ficamos decepcionados porque chovia. propôs que descansássemos um pouco e. Nosso quarto ficava bem em frente. sua perspicácia e inteligência. o ambiente estava quase frio. nos acariciamos. minha mulher comentou. Ciente de sua figura. O Ibrahim era agitado. Em nossos encontros só nos amamos. mas . o jeito delicioso como ela se movia.55 seu movimento felino e conversar com ela. com o ar-condicionado a toda e a sala a meia-luz. ficamos apreciando o mar e o começo do movimento dos pedestres e do trânsito. eram muitos convidados. excitada pela droga. em vez de descansar como tinha sugerido. pegou o telefone e ligou para Brasília. gritavam. e não podia ficar sem sua companhia. apaixonado e não sabia o que fazer para corrigir o rumo. Como ninguém é de ferro. sentia sua presença envolvente. O almoço foi muito movimentado. Uma das mesas estava com o café-da-manhã. ficamos deitados numa das duas camas. para receber o pessoal que ia chegar para o almoço. Acho que não dormiram nada naquele fim de semana. e quando passamos por lá. Não pensava. e tínhamos planejado ir à praia. Não havia ninguém. rindo: — Não agüentou? É muita loucura. animada com o pessoal que ia chegar. O dia estava raiando. Ângela e eu fomos para o quarto 56 de Elisa e Paschoal. por prudência. o escritor mineiro Fernando Sabino. lá pela meia-noite. de pele da melhor qualidade. Só uma hora depois apareceram os anfitriões e o outro casal. nosso bom relacionamento me deixava completamente desorientado. Resolvi me juntar a eles porque tinha comido e bebido bastante e não conseguiria tomar banho ou deitar logo em seguida. ficava muito bem. Fomos para o quarto descansar e tentar dormir. É verdade que estávamos no Rio. Queria saber das novidades do governo e. fui sozinho para a sala. ela estava completa. Ali na sala. nos agarramos. excitada. queria ver aquilo. Mais tarde tomei um banho demorado e. fazendo frente única e deixando as costas de fora. acho que então até minha mulher se deixaria envolver por ela. com uma calça de linho azul-claro e um lenço de seda branco amarrado no pescoço e na cintura. dessas que americano compra no Havaí. sinal de que éramos os primeiros. lia quase tudo o que escrevia. Naquela época. Estava confuso. que nele. como fiquei pronto antes. já que não tinha abusado das visitas ao quarto de Elisa e Paschoal. e apesar da noite badalada os dois estavam com ótima aparência. Minha mulher foi ler e descansar. demos bastante bandeira. Mas não sabia nada sobre seus planos e ideais. Gostava da companhia dela. Imediatamente procurei por mais luz. ficamos conversando e namorando. que riam. escrevia. Fui até a janela e sentei-me num sofá. uma dupla muito bonita. Sabia que íamos nos drogar. Minha mulher estava ótima. por sua altura e ótima forma física. Por que tinha tanta necessidade de estar junto dela? Até aquele momento. Saíram de lá tarde. enquanto falava. O Ibrahim vestia uma camisa florida. Não demorei para pegar no sono. fôssemos a uma boate dançar.

conversando. Conversamos um pouco e adormeci. No corredor fez sinal para eu ir até a sala. Alguns minutos depois chegaram os ocupantes: eram meu irmão Luiz Carlos e sua mulher May. nossas e de outras mesas. Ela voltou para o quarto. subimos na mesa. Bati e entrei. do outro lado. combinamos de nos encontrar mais tarde. de camiseta. Era uma loucura. Faz muito tempo que isso tudo aconteceu. TIVE A IMPRESSÃO DE QUE MINHA RECUPERAÇÃO HAVIA IDO para o espaço. O dia já estava claro quando resolvemos voltar cada um para o seu quarto. O que teria acontecido? Fui até o corredor tentar ouvir alguma coisa e a vi fechando com cuidado a porta do quarto. Ainda tentei detê-la. Ao passarmos pelo quarto de Elisa e Paschoal. minha mulher me acordou. no mesmo sofá. comemos picadinho. Foi uma tarde engraçada de fim de semana. era muito gostoso ficar sentado ali. não . teríamos que tomar café e nos arrumar para ir almoçar no Anexo do Copacabana Palace. era imaturo demais. Papai tinha providenciado uma cama de verdade. Quando voltou.. o dia estava clareando. na piscina do anexo do Hotel Copacabana. com o dedo indicador nos lábios. Chegamos de volta mais ou menos às quatro da manhã. Nos cumprimentamos efusivamente. rimos. O que me fez prosseguir? Paixão? Drogas? Os dois? Provavelmente. Já devia ser mais de meia-noite quando chegamos a uma casa noturna. aquilo tudo me excitava. Chegamos à janela dançando. Ele achou aquilo divertido e foi até o quarto. Revoltado. estava vestindo um manto de vison que ia até o tornozelo e trazia na mão uma foto dele em Paris com aquele casacão. Ângela e Ibrahim chegaram e nos encontraram exatamente discutindo o custo da manta. Até hoje. ao contrário. Nem olhamos o mar e escorregamos no sofá macio. pusemos uma música. Mas eu não estava assustado. quase trinta anos depois. ela quis entrar para curtir um pouco. aquele lugar era um charme. sem esperar resposta. mas não deu tempo. jeans e botas. Pouco depois chegou minha mulher. Minha aparência era horrível. para fazer amor. apesar dos 42 anos. Nunca pensei que conseguiria mexer com essa parte do meu passado. A única coisa simpática foi o Ibrahim que fez: tirou várias fotografias deles. pois desde que saíra da clínica em São Paulo andava o tempo todo sem cinto. pois tinha esquecido o fumo. Voltamos para São Paulo ao anoitecer. Ibrahim tirou muitas fotos. mas a empurrei para o quarto dela. Daquele momento em diante não ligamos para mais nada. rindo e brincando como crianças felizes. vi que a luz dos outros convidados estava 57 acesa. com alguns amigos. Ibrahim contou que as fotos sairiam em sua coluna de domingo e que tiraria outras no dia seguinte. e meus companheiros de cela tentaram me animar. Na volta. O almoço foi ótimo e divertido. em Ipanema. Era adrenalina pura. que achou graça ao ver aquela manta e começou a calcular quanto teria custado. mas minha mulher me puxou e fomos para o quarto. dançamos.assim mesmo. 58 NA CELA.. Foi uma noite alegre. começaram a montar uma mesa. prontos para o prazer. depois da piscina. completamente apaixonados. Levantei sem fazer barulho e saímos do quarto. bebemos champanhe e dançamos. meu coração disparava. mas eu sabia que estava no inferno. numa delas. não me conformo que tanta estupidez tenha causado tanto sofrimento. café e água mineral. Dancei várias vezes com Ângela e. Ângela estava agachada do meu lado. Ficamos em total liberdade. Não sei quanto tempo depois senti meu braço ser puxado. nos beijamos. na temperatura daquela sala. Ao nos despedirmos na porta do quarto. fazendo sinal de silêncio. bebemos. Deitei na cama do jeito que cheguei. que lembro que ficava numa praça. sentia que estava hipnotizado. Abri os olhos. rimos. e na prisão não podia ter uma lâmina de barbear. A certa altura. onde tinha reservado uma mesa para o almoço. mas eu não era feliz. O dia estava cada vez mais claro e ela não voltava. Lá pelo meio-dia. mas cada um ficou na sua. Estavam sentados entre as duas camas.

Eu perguntava os nomes delas e. Depois que cheguei do hospital. Uma noite. como é vida de rico. Dr. — Conta aí. ameaçado. da minha prima Maria Zélia e da Vera Miller. que se mudara para um hotel ali perto só para ficar próximo de mim. Com o pretexto de que tinha se tornado meu amigo. mulheres e adolescentes. segundo a bandidagem. pois bandido que é bandido não se dá com polícia. o chefe dos investigadores de plantão mandou me chamar até a sala dele. do Ivo e do Paulinho Badhu. Newton era uma fera. Ficaram umas duas horas comigo. Nos dias de visitas. porque estava com sono. Paulista. . aquilo se tornou uma rotina. O carcereiro abriu a cela. Muitas vezes o delegado mandava me chamar para tomar um café na sala dele. era dia de visita. encobria tudo. os jornais e as revistas que papai me levava. Passava grande parte do dia lendo os livros. Ângela estava encrencada com traficantes. A certa altura. começou a rotina na delegacia.usava o barbeiro que ia todo dia à delegacia para fazer a barba de quem estivesse disposto a gastar cinqüenta centavos. Muitas vezes o delegado ia até a cela e sentava com a gente para tomar café. uma amiga minha. já que estava tomando uma medicação que Ivo receitara e não deveria ingerir álcool. Papai também me trazia as refeições. você deve estar cansado de ficar na cela. Aquele café com bolo era famoso na delegacia. e me contaram todas as novidades de São Paulo e do Rio. O carcereiro veio várias vezes avisar que minhas amigas queriam me ver. No dia em que seria julgado o recurso para revogar minha prisão preventiva. O mais provável era que o juiz o negasse. Ele chamou o carcereiro e me disse: — Vá com sua amiga até a cela e sirva a ela um café. Meus companheiros de cela faturaram doces. e até no presídio Edgard Costa. Uma moça de Belo Horizonte me escreveu durante todo o tempo em que estive na delegacia. à noite). que tinha tomado proporções gigantescas. bolos e até algum dinheiro para receber a visita de familiares que eu nunca tinha visto. disse que eu era muito desconfiado e mandou o carcereiro me levar de volta para a cela. disse que não podia 59 beber mais por causa dos medicamentos e pedi para voltar para a cela. Servi uma dose e comecei a tomar devagarinho. no presídio de Água Santa. e sempre vinha alguma coisa a mais. tentava descobrir quem eu estava acobertando. Mas entendiam que eu não sabia disso e nunca reclamaram. que todos os outros também comiam. Todos os dias. Para ele. café e água. Fora isso a gente tinha que se virar com algumas latas de água que enchíamos nos horários de banho. fumar um cigarro e jogar conversa fora. toma uma comigo e relaxa um pouco. mas comigo sempre foi justo. e o tempo todo havia gente perto das grades. Além do mais. Vera entrou e eu a apresentei a Azulão. como não sabia quem eram. Tudo isso sem nunca ter recebido uma linha da minha parte. Vera pediu ao delegado para conhecer a carceragem. vocês zoavam muito? Contei algumas passagens da minha vida que não tinham nada com nada e. e dezenas de cartas que recebia de todos os lugares do Brasil. pois não acreditava que eu havia cometido aquele crime. da uma às duas da tarde e às vezes durante uma hora. e eu. Nessa manhã tive a visita da mamãe. não as recebia. Em cima da mesa havia uma garrafa de uísque. de homens. — Senta aí. logo pela manhã o delegado me disse que eu não deveria ter esperança. Meus companheiros ficavam impressionadíssimos e ao mesmo tempo receosos. eles a tinham matado. depois de terminar a dose de uísque. do meu irmão Luiz Carlos. porque a imprensa não parava de escrever a respeito do meu caso. É verdade que ele sentia muita pena do papai. Ele deu uma risadinha. Fomos até lá. durante o tempo em que estive na delegacia. Moçambava. recebia visitas de papai. em Niterói. no Rio. Banho lá pelas sete da manhã (só havia água das sete às nove da manhã.

Esse cara me ajudou muito. ao menos pelo bolo. e o carcereiro teve de abrir a porta da cela. depois do depoimento. conversando com ela. Aprendi uma coisa nos cinco anos e pouco em que estive preso: ninguém é culpado. O pessoal ficou doidão. de mãos dadas. Precisava contar a verdade e ao mesmo tempo devia estar atento. Aliás. ficou minha amigona. todo mundo está na cadeia injustamente. Mas o Azulão foi diferente. que estava sempre pendurada. dizia que ele tinha uma barraca de vender sorvete perto da praia. Mas não era assim que me sentia. O nome dela era Ester. Alguns minutos depois ela entrou na carceragem. o carcereiro poderia entrar de uma hora para outra. O pessoal não gostava do Azulão. Sabia que. mas ela se oferecia por dinheiro a quem quisesse. sempre engraxada. Fiquei arrasado. No fim da tarde. ainda em Cabo Frio. Disse que havia vários dias uma moça insistia em me visitar. O único culpado panaca era eu. o dr. o acusou. Como o que é bom dura pouco. e que havia atraído uma menor e a estuprado. ela ia me visitar. O carcereiro deixou que eu saísse e nos conduziu até a "Malibu". até aplaudiu. por vingança. e Azulão lhe serviu um café fresquinho. pois. mas não passaria de uma semana. Dormia aos pés da minha cama num colchonete que mandei comprar para ele e qualquer movimento estranho me acordava. Eu iria prestar declarações pela primeira vez. provavelmente o juiz me transferiria para o Água Santa. ele fazia de tudo para me agradar. abraçou-o e tudo. e que naquele dia ela tinha trazido um bolo que parecia delicioso. encostados nas grades daquela cela que todos temiam. todos tinham verdadeiro pavor de serem transferidos para lá. Só parou de me visitar no Água Santa. Era uma caiçara vistosa. onde também morava. ela pediu que eu ficasse do lado de fora por um instante. De um jeitinho todo meigo. Chegou sorrindo para todos. ainda que já soubesse que seria assim. Acertou com o carcereiro que as visitas fossem no cartório. O bolo não passava pela grade. Muitas vezes. um dos . Paulinho disse também que em poucos dias eu seria interrogado pelo juiz. era sinal de que tudo estava andando. Nunca aconteceu nada de muito sério.Waldemar e Cabelo. Estava pensando a respeito de tudo isso quando o carcereiro apareceu. Estavam acostumados — porque eu fazia questão disto — a comer sem cerimônia os doces que eu ganhava. Ficamos ali. Só que ele não pagou e ela. meus parentes e amigos foram embora e eu voltei para a cela. nos presídios e penitenciárias em que estive. 61 uma morena realmente bonita. Voltamos para a sala do delegado dez minutos depois. e o carcereiro pôs um banquinho perto das grades para ela sentar. Ele confessava que realmente tinha transado com ela. No fundo. UM DIA ANTES DE EU DAR MEU PRIMEIRO DEPOIMENTO PERANTE o juiz. no corredor. depois daquele primeiro encontro e nos dias em que o tal carcereiro trabalhava. Conversamos apenas cinco minutos. Azulão já arrumava qualquer desordem que eu tivesse feito. Deveria ficar contente. Falavam coisas horríveis a respeito dos guardas e de toda a administração. estava acomodado e qualquer movimento estranho me apavorava. Paulinho Badhu avisou que o recurso fora negado. Ainda não havia uma data. eu não tinha cabeça para isso. Além do mais. sempre aparecia alguém assim. e com minha bota. Por esse motivo. As duas notícias mexeram muito comigo. os piores do estado. Vera sentou na cama do Waldemar. Fazia isso também com minha roupa. 60 Minha cama estava sempre arrumada. Se me levantasse para pegar um café. Não tive como recusar a visita. isso poderia causar sérios problemas. embora vestida com roupas simples. se o juiz não entendesse o que eu dissesse e mandasse o escrivão registrar algo diferente. Além do mais. porque depois da terceira ou quarta visita começou a namorar um dos funcionários. era um presídio para mil e quinhentos presos. Evandro e sua equipe vieram me visitar e deram algumas instruções. Esse nome era quase proibido dentro da delegacia. Vera conversou com todos e se encantou com a simpatia do Azulão. O pessoal ouviu e começou a me pedir para receber a moça.

87 diz: "No caso Doca Street. a não me intimidar. me tiraram da cela às oito e meia da manhã e me levaram até a sala do cartório.advogados estaria ao meu lado acompanhando o interrogatório. nem que fosse por alguns segundos. onde vesti terno e gravata e fiquei à espera do camburão com escolta que me levaria ao fórum. Ele me orientou a manter uma postura de respeito. quando iam ao fórum nem banho tomavam. ele riu e falou em voz alta: — Não se preocupa. Meus pensamentos estavam acelerados. achava que ia dar tudo errado. Nunca vou me esquecer desse garoto: se o levassem a uma festa do Country Club. segundo eles. Tinha começado a conversar com ele quando a escolta chegou. pois estava quase na hora da audiência. ninguém teria dúvida de que poderia pertencer a uma boa família burguesa. exigia dela dinheiro em espécie". Evandro escreveria mais tarde. Papai havia pedido que eu. que patrocinava as despesas. Meus companheiros tiraram uma da minha cara. Olhei para a porta da delegacia. parágrafo 3º. que a redigiu em linguagem veemente. Ao chegar ao fórum. Fiquei meio assustado. Achei estranho. e desse atenção a eles. são tudo otário. Quando chegamos ao camburão. O papo foi muito rápido. Vou transcrever um pequeno trecho do livro que o dr. a falar normalmente. era super-alegre e simpático. Por mais que o dr. Os policiais nem olharam para trás. assalto acompanhado de morte. abaixaram a porta e continuei a falar com os repórteres através das pequenas janelas do carro. No dia do depoimento. Os advogados também me explicaram como era a denúncia da promotoria. Finalmente o juiz entrou na sala e a audiência começou. Avisaram que eu teria pouco tempo. para eles estava bem. Foi mais uma conversa sem importância. panfletária. o dr. Embora sustentado pela companheira. concordei em falar com a imprensa pela primeira vez. e comentaram: — Esse aí ainda está vivo? Na porta da delegacia havia um mar de repórteres. não podia ficar dentro das celas. Tinha uns catorze anos. parasse. então ficava no corredor. era muita gente. Alguns se aproximaram dos guardas e pediram para falar comigo. Estavam presentes a promotora. junto com os policiais. quando cercado pelos jornalistas. Quando estava saindo. sem me exaltar nem fazer cara de triste. Evandro tivesse explicado. 62 É claro que não consegui dormir naquela noite. não satisfeito. Como era menor. O juiz ainda não tinha chegado. vi um garoto que falava com o pessoal das três celas. me algemou e me levou até o fórum. Depois de qualificar o réu. dura. A acusação da promotora não parava de martelar na minha cabeça. do Código Penal. e fiquei no corredor com a escolta e o delegado. alimentando-o e dando-lhe teto. o acusado. Afinal. a dra. a mesma multidão me aguardava. Maria do Carmo Alves Garcia. eles estavam trabalhando. os guardas me enfiaram lá 63 dentro. Fiquei esperando por pelo menos uma hora. a promotora assim descreveu o fato e classificou o crime: Já havia algum tempo o acusado vivia em companhia e às expensas de Ângela Maria Fernandes Diniz. mas os policiais fizeram um corredor de proteção e fui conduzido à sala de audiência. a promotoria era exercida por uma mulher. Os policiais disseram que. O livro se chama A defesa tem a palavra. que eu responderia diretamente ao juiz. de onde o delegado fez um sinal positivo com a cabeça. No corredor da carceragem. vestindo-o. dois advogados que a família de Ângela contratara para ajudar a promotoria. Evaristo de Moraes . e na p. porque. E era um bandido respeitado pelos demais. porque não podia responder à maior parte das perguntas. se eu concordasse. E assim foi: pediram que eu levantasse um pouco os pulsos e me fotografaram com algemas. Então. Tinha duas acusações pelo artigo 157. quando do oferecimento da denúncia.

só as grades e o boi. Falei que. Minha arma escorregou lá de dentro e eu. Contei quanto ela havia me impressionado com sua beleza e inteligência. nada. só a encontrara novamente alguns anos depois. Contei sobre nossos planos e como vivíamos. não houve nenhuma tentativa de fuga. Mas em certo momento. Não adiantaram os 64 meus argumentos. depois de várias doses de vodca. não paramos mais de nos ver. lugar para sentar. para fazermos uma festinha. das retiradas que eu tinha feito em minha conta bancária. dizendo que não queriam ficar junto com ladrões e assassinos. Quando voltei para a cela. entrei no carro e parti. Eu me virei e ele correu para o canto dele. Dizia que. pegou minha pasta de documentos. Resumindo. No entanto. comecei a atirar. e a atirou em meu rosto. horrorizado ao ver Ângela caída.. Eu a amava muito e não conseguiria viver sem ela.. a pasta caiu no chão e se abriu. o Azulão era estuprador e os outros dois eu não sabia. o delegado. Muitas vezes. também em São Paulo. Eu até gostei. apesar de ali estarem detidos homens perigosos. era muito melhor que falar sobre um assunto que me machucava tanto. O delegado estava bem-humorado. depois da minha chegada. Mas na primeira esquina resolvi voltar. e de tudo que havia se passado na casa entre as seis da tarde e as oito da noite. em 2003. pois uma noite despertei e Cabelo estava mexendo no bolso da minha calça. a primeira coisa que fiz foi relatar para o Paulista e o Waldemar a minha conversa com o delegado. em outra festa na casa de Francisco. Fingi que não percebi e ficou por isso mesmo. George Tavares. pois queria continuar vivendo com a mulher da minha vida. Tinham transferido alguns detentos para o temido Água Santa e novos presos haviam chegado pela manhã. trocado por um traficante. sentada em um banco de alvenaria. Lá não havia água para banho. voltei para a delegacia. então foram para a Malibu. Cabelo havia sido transferido para outra cela. por gentileza. irritada. em uma festa para comemorar meu aniversário. Falei também da minha mulher na época e de como tinha deixado meu filho recém-nascido e ela para viver com Ângela. Em seguida.Filho e o dr. e eu vivia mandando recado para ele tocar . Ao entrar novamente na casa. Nada grave. Encerrado o interrogatório. em São Paulo. O Paulista era assaltante de banco. depois daquele encontro. saí com o carro em disparada e só parei em São Paulo. Ele tocava violão.Se quiser ficar comigo. respondeu: . eram arruaceiros que brigaram num baile pré-carnavalesco. vai ter que fazer suruba com homens e mulheres. o Waldemar tinha matado um cara num assalto a uma residência. durante a discussão. falei a respeito dos acontecimentos do dia da tragédia na praia dos Ossos. Fiquei um tempo na sala do delegado. Ajoelhei e pedi para continuarmos juntos. Discutimos porque naquela manhã. em vez de colocá-la de volta na pasta. Começaram a reclamar. na casa de um amigo. Em seguida. que estava ao seu lado. como o Paulista e o Waldemar. Pediu que eu contasse para ele se ouvisse alguma trama. Disse que tinha conhecido Ângela e seu marido seis anos antes. ela convidara uma moça que vendia bolsas na praia para ir até nossa casa. Nessas ocasiões. esperando que arrumassem um lugar para mim. quando papai ia me visitar. ela dizia que eu era muito ciumento. Só consegui escrever sobre minha vida com Ângela há pouco tempo. Senti um enorme alívio por estar lá. o Paulista sempre me advertia para não cair nas esparrelas dos policiais. em Armação de Búzios. Depois narrei os fatos do dia do crime. Em casa. encontrei-a no corredor. Ângela resolveu acabar com o nosso relacionamento e eu peguei minhas coisas. Depois de me atingir. É difícil para eu lembrar do interrogatório e escrever a respeito de minhas declarações. mandava me buscar para que ele não ficasse de pé no corredor. O traficante eu conhecia. tudo documentado por cheques e comprovantes de remessa. Contei como era a nossa vida financeira.

MINHA MULHER RECOSTADA. No dia seguinte haveria uma grande festa na casa de amigos.. Aí tudo descontrolou de vez. a gente ouvia os ensaios das escolas de samba. Seu nome era Sidnei. reclamava o tempo todo que o avião sacudia. 66 Ela não fora para Belo Horizonte e eu só cheguei ao escritório depois das sete da noite. Como faltavam poucos dias para o Carnaval. A desculpa era sempre a mesma. chegar em casa me fez mal. Não sei como conseguíamos não ser descobertos. quando foi preso. era melhor tirar aquilo tudo da cabeça e ir levando. ou qualquer coisa parecida. deu uma angústia terrível. As pessoas iam acabar reparando.alguma coisa. o Dílson Tavares.. quando ela chegava. Isso os incomodava.. solta ele. eu parecia um satélite fora de órbita. Joana e Pedro. Nem precisei de despertador para me alertar que estava na hora de voltar para casa. Ela fazia a mesma coisa. O sinal para apertar os cintos apareceu. Esses dois dias dela em São Paulo foram loucos. muita bebida. e nessa mesma noite minha mulher e eu fomos para lá e nos hospedamos na casa do Ibrahim.. Havia um refrão que eu adorava: "Oi. já estava lá. mais ou menos. muitas vezes tive que interferir para que meus colegas de colégio interno não se agredissem. conheciam Ângela. Colocava meu casamento em jogo porque queria viver duas vidas. não recebia visitas nem de advogados. A cada dia nosso envolvimento era maior. Ângela chegou e eu praticamente me hospedei na casa do Francisco. foram vários os fins de semana juntos. Fora isso. solta ele. solta o Doca. DE OLHOS FECHADOS. e ele tinha um negócio de importação. Solta. Pegava a ponte aérea bem cedo e às dez. Percebi que ela não dormia. Se tivessem pego a gente no sofá. No dia seguinte. estava correndo muito risco. ia visitar empreiteiras que participavam da construção da Ferrovia do Aço. Meu comportamento e meus horários me denunciavam. Voltava à noite. perdeu toda a mercadoria e o dinheiro que tinha. E de que adiantava eu ficar angustiado. estava sempre alegre. a amizade entre os dois casais tinha sido bastante repentina. Não sei como tudo aquilo passou despercebido. meu irmão de criação. e o Chiquito. o barulho teria sido enorme. os negócios. Dois dos corretores. Não queria avisar a família porque pensavam que era representante comercial. Ou nós íamos. pois também eram amigos da minha mulher. era hora de eu partir. Passamos a nos encontrar na casa de uns amigos dela e do Ibrahim que moravam em São Paulo. ou eles vinham. oi. solta". Tínhamos um bom anfitrião e ninguém para nos importunar. . fizemos de tudo: muito amor. estava andando na corda bamba e tinha medo que ela afrouxasse. Se a vida fosse só isso. só pensávamos em armar situações para ficar juntos.. Dizia que não era 65 da região e. A disputa pela única janela era um problema sério. eu não os conhecia. ele era bom de sambão. a vida como ela era. e a desculpa dela era que estaria em Belo Horizonte. VIAJAMOS DE MÃOS DADAS. visitando a família. Ela era uma gracinha e se dava muito bem com Ângela. Eu estava preocupado.. se bem que no meu escritório todos já soubessem que eu estava tendo um caso. A noiva dele trabalhava e. Algumas pessoas diziam que era sócio do Ibrahim. Qual era minha realidade? Dessa vez. Ângela e eu passamos a nos visitar durante a semana. Depois daquele. Só trabalhei um dia. Nesse ponto a coisa não andava bem. Chegar em casa era sempre bom. vinha e voltava no mesmo dia. O avião começou a pousar. se já tínhamos combinado que nos próximos dias ela viria se hospedar na casa do Francisco. Na manhã de sexta ela voltou para o Rio. muito meu amigo e que todos só conheciam pelo apelido de Grande. a realidade aparecia: os filhos. Estava cada vez mais envolvido com Ângela. estaríamos no paraíso. Apesar de morarem em São Paulo e conhecerem alguns amigos meus. para podermos ficar juntos? Dessa vez ninguém poderia saber.

Aquela altura eu já sabia que isso tinha acontecido. pois o meu sócio. Adelita não merecia. Almoços. Aproximou-se. Acontece que eu estava apaixonado. era como se vivêssemos juntos. os meus. Às vezes. Esse era amigo de verdade. um engenheiro argentino. ela não merece isso. Ficávamos no mesmo hotel. que um dia no meu escritório me passou um pito: — Sua mulher é muito bacana e gosta de você.Naquela época. só não tem A. Fazia isso naturalmente. Fiquei morrendo de 68 ciúmes porque ela fez um charminho. Converse com ela. Ninguém sabia receber como eles. não adiantou nada. Essas coisas são assim mesmo. Estávamos jantando de madrugada em um restaurante a poucas quadras do hotel. Curtíamos à beça fazer aquilo. nunca passávamos o fim de semana em São Paulo. eu freqüentava também um grupo dos amigos da minha mulher. mas deixei pra lá. Os dois grupos recebiam e eram muito convidados. não havia outro jeito. no meu íntimo o alarme já tinha soado várias vezes. sei lá. Nos fins de semana. Nessas viagens. com muitos quartos. Freqüentávamos muito a fazenda de uns amigos em Araras. era só para provocar. Tudo continuava. Pensei muito no que ele tinha dito. o Raul. mas é uma doença. divertidíssima.. Para piorar. Para onde íamos. mas não chegavam aos meus ouvidos. O Grande tinha razão. a gente pensa que é só uma farra sem conseqüência e é fisgado.. já não era o bastante. Bom. no trecho próximo a Itabirito. Escrever sobre isso me faz mal. duas ou mais vezes por semana. Que coisa. Ana e Benedito Sampaio Barros.. como é o destino. o contrato serviu como uma luva. ou para o Guarujá. Isso ajudou a esconder por algum tempo a minha situação. Passei a ir duas vezes por mês visitar a obra. os nossos amigos. apesar . quando ele apareceu.. o Bené. um ex-namorado. onde ele também tinha apartamento. levávamos nosso filho recémnascido. Inclusive Ângela. conte tudo e façam uma viagem. Estar apaixonado é uma delícia. nosso companheirismo. cumprimentou-nos e foi se juntar aos amigos dele.. jantares. saíamos de noite para andar a pé e acabávamos entrando num cinema.. na fazenda do meu sogro. dez anos mais jovens. ficava dois dias em Belo Horizonte. festas.. Sabia que ele tinha razão de sobra. A vida com a minha mulher era gostosa. Nessas ocasiões eu levava meu filho mais velho. Na nossa casa também sempre tinha muita gente entrando e saindo. Paixão é como cachaça. íamos muito para a fazenda do meu sogro. no dia seguinte. bagunça total. Deviam fazer alguns comentários. era sua personalidade. Acho até que não era por maldade. mas precisava de mais dez assim.. pessoal da minha idade. A. Ângela passou a visitar seus filhos na mesma época. que adorava aquele lugar. O único momento em que voltávamos à realidade era quando ela ligava para o Rio e eu para São Paulo. A não ser o Grande. aparentemente estava tudo normal. Estava dividido e não sabia o que fazer. E mais ainda. tínhamos o nosso amor. um número imenso de compromissos sociais. sempre tínhamos convidados. além dos amigos que conhecia a vida toda. A fazenda Cascata era um verdadeiro paraíso. naquele momento conselhos eram inúteis. que não a conheciam. jantávamos e almoçávamos juntos. casa sempre cheia. Adorávamos essas estadas em Belo. A Brasilos foi contratada pela Andrade Gutierrez para levantar pilastras de pontes da Ferrovia do Aço. Passar juntos três ou quatro horas. nunca vi colaboração igual. Foi um encontro rápido e sem importância. desses que toda mulher faz. não. Não que tenha entrado por um ouvido e saído por outro. Ele tinha me 67 mostrado o caminho. Só uma vez encontramos uma pessoa que a conhecia. mas a minha impressão era que vivia em outra dimensão. pois queríamos nos fotografar nus. nós o encontramos novamente numa loja onde estávamos comprando uma Polaroid. era o encarregado e sempre estava precisando de alguma coisa. os amigos da minha mulher. No entanto. Minas Gerais.

Na verdade. nos engalfinhamos não por briga. Não por causa de Ângela. filho. pois o engenheiro argentino tinha pedido que providenciasse na Argentina mais macacos hidráulicos. me abraçando e beijando até o último instante. Na viagem vim pensando em como tinham sido bons aqueles dois dias.de na despedida ela ter dito qualquer coisa como: "Quando passar pelo Rio me procura". Quando a abraçava naquele estado. já que o senhor não queria atender. mas me controlei. Eram muitas viagens e ausências. quando não tinha mais criança. Mas era tudo imaginação. Tinha um recado da Ângela... enfim.. No dia seguinte fomos para o aeroporto. achei que minha mulher estava desconfiada. aquele papo no aeroporto da Pampulha me assustara. mas não queria que ninguém ouvisse. Com a consciência pesada e com remorso. — Nossa. uma sensação de prazer que fazia meu coração querer sair pela boca. com tudo no lugar: mulher. Então ela riu e se desvencilhou de mim: . desconfiaria na certa.. Quando ligou novamente. investigando o que ela queria dizer realmente. 69 completamente arrasado.. No dia seguinte. a Cida subiu e me avisou: — Ela mandou dizer que. aquele que havíamos encontrado. empregado.Se você quiser podemos viver juntos. Cida foi até minha sala. Enquanto cada um esperava o seu vôo. estávamos muito loucos e quebramos o maior pau. ela nunca mais falará com o senhor. cheguei tarde ao escritório. porque ela resolveu contar as coisas que fazia com o exnamorado. Fiquei. que fosse à puta que o pariu. deixando o papo só para as duas. Também me amedrontava continuar com as viagens. ela passou uns dias sem ligar. Fui levando com esforço aquela resolução. estava de novo com ressaca moral. Nessa hora chamaram meu vôo. era só loucura e amor. telefonema. era muita loucura. Se calhasse de a minha mulher ligar para ela e saber que ela estava visitando os filhos. e eu dizia quanto ela era linda andando despreocupada. e ficamos sozinhos no nosso quarto. Sentia que estava muito envolvido e tudo estava caminhando naquela direção. É evidente que fiquei me mordendo. mas por amor. um pouco antes de Ângela chegar. se o senhor não atender. ficamos grudados e conversando a respeito daqueles dois dias.. e essa minha impressão aumentou. Me senti péssimo e. vodca e drogas. Encontrei minha casa como sempre. E voltou a me abraçar. Ele havia almoçado comigo no restaurante do hotel no primeiro dia. para piorar ainda mais. ela está uma fera. me perdia completamente em caminhos que nem sei. e ela conseguiu entrar na pista e caminhar comigo até a escada do avião. No final acabou tudo bem. Agora eu estava com medo de pensar naquilo. achei que minha atitude tinha chamado mais atenção ainda. Tinha que meter o pé no freio. disse que. Cheguei em São Paulo e passei pelo escritório. Fiquei tão aliviado que quis pôr fim a toda aquela loucura. Continuei firme. A noite. Uma hora. apesar das saudades e dos pensamentos que me pegavam desprevenido. por minha causa. percebi isso mais tarde. o calor do lar. seu Doca. Cida me avisava toda vez que ela telefonava.. e ela falara sério. Do que valia a vida sem Ângela? Valeria a pena pôr em risco minha relação com meus filhos? E minha mulher? Alguns dias depois. Fotografei-a nua em dezenas de posições. que eram o nosso principal equipamento. só com blusa e jéans. como muitas vezes naqueles últimos tempos. A primeira coisa que fiz foi dar ordens à Cida para não passar as ligações da Ângela. nenhuma providência a tomar. Foi uma noite de fotos. sem maquiagem. quando Ângela telefonou para bater papo e Adelita atendeu.. Depois do recado malcriado. Naquela noite bebemos muito e ficamos doidões. ela também tirou algumas fotos minhas. fiz sinal de que não queria falar. Será que um dia viveríamos juntos? Tinha olhado dentro dos seus olhos. .

é claro. a nada. Toda madrugada entrava um bando de bagunceiros completamente bêbados. senão ele não andaria pela cidade 71 prestando serviço para o delegado e para os funcionários. tinha sido só embalo e cama. Muitas vezes assisti aos dois em ação. Quantas festas e fins de semana a gente vai ter que inventar ainda? Ontem quebrei o pau com o Ibrahim e vim passar o dia aqui. O almoço foi ótimo. Estou na casa da Joana. isso eu queria e muito. Era um cara tranqüilo. Quando consegui falar. Por conta disso. Quando saí as duas estavam animadíssimas. o Luiz ficava mais com a gente. talvez pela fama de sujeito perigoso que o Waldemar tinha. além do mais. sem direito a telefonema. Concordei em atender o telefone. dançamos e. tinha que partir. a delegacia ficou movimentada. — Não estou entendendo nada. Depois ouvimos música. que se tornou meu amigão. A resposta foi mais ou menos assim: . como sempre. nos embalamos com pó e fumo. café ou revistas para mim. Quando nos despedimos estava tudo bem. Tudo tinha de estar sempre limpo. eu estava com saudades. e volta a emoção. NÃO CONSEGUI DORMIR NAS NOITES SEGUINTES. Como ele estava sempre no corredor. Era uma graça. Ao encontrar Ângela. fui sincero. Só saía quando tinha de fazer algum serviço na rua. saltitante. Quando faltavam dois ou três dias para o Carnaval. não porque tinha cedido e ia ver Ângela. e muito alegre. afinal ela não havia feito nada que merecesse aquele tratamento e. e na hora das refeições era ele que entregava a comida nas celas. Não tive tempo de dizer alô.Não leve aquela conversa a sério. elas se dependuravam em mim rindo e dançando. porque ganhava gorjetas. Os metidos. quando a carceragem ficava mais tranqüila. a tristeza. Às vezes. Ele passava o dia no corredor contando vantagem e relatando os assaltos que havia praticado. quando papai não estava (e isso era raro). mais vinho e licor. Ele gostava quando o chamavam. Eu me distraía com o violão e a voz do Sidnei e com o garoto. por que você está me tratando assim? Continuou desabafando por mais algum tempo. EU ME SENTIA como numa missa de sétimo dia: quando quem ficou começa a se conformar. Os demais — ladrões. Entre os companheiros ninguém comentava nada. contei todos os sentimentos que tomaram conta de mim 70 quando cheguei em casa e que estava assustado com a possibilidade de abandonar tudo por causa dela. Eu ficava tranqüilo e não pensava em mais nada. birinha. era sexta-feira e eu iria para a fazenda. aí vêm a missa. todas as dúvidas desapareceram. que perguntavam: "Sabe com quem está falando?". Foi difícil. Não devia ser nada grave. a banho. Dormia na cama com o Waldemar. Se bem que a gente fica o tempo todo pensando o que fazer para ficar perto um do outro. que o cobria todas as madrugadas. Joana sabia tudo de culinária. mas não tinha outro jeito. mas avisei que não poderia demorar. Concordei em ir. O que estávamos tendo afinal? Tirando alguns momentos em Belo Horizonte. vem até aqui e almoça com a gente. Toda vez que ligava.A danada tinha conquistado minha secretária. Fui para o almoço preocupado. batedores de carteira e traficantes — eram fichados e iam para as celas . o carcereiro deixava que buscasse sanduíches. conversava um pouco com ela. mas nenhum dos presos na delegacia sabia qual crime havia cometido. os amigos. o delegado obrigou-o a prestar serviços. estes ficavam mais 24 horas. Mas estava em dúvida se era amor ou apenas uma relação doentia. depois de doze horas e de uma bronca do delegado eram soltos. Serviu uma macarronada com todos os ingredientes. e iam direto para a Malibu. Se ficassem numa boa.

Newton liberou a sala dele para que ficássemos à vontade. Um entra-e-sai o dia todo. Dei um salto e levantei. entrou na minha . Os baderneiros iam para a Malibu por consideração do delegado. Era tudo o que meus companheiros mais temiam. DE MADRUGADA. que se levantou e estendeu a mão. comigo ali. apesar de não ser tão velho.. falando sobre coisas as mais variadas. conhecendo você e seu pai. Um dia ele chegou à carceragem. É rápido. não era? Respondi que sim. Como estavam escancaradas. Foi algum traficante? Ou vai puxar uma cadeia para proteger um criminoso? Dei risada. Então se levantou e disse que eu deveria ir com ele até o pátio. pois dr. Chamou seu amigo e os dois saíram. todas as celas estavam cheias. seus auxiliares o tratavam com o maior respeito. Dar uma de bravo na cadeia é arrumar problema na certa. mandou o carcereiro abrir a cela onde eu ficava. tudo sob o comando do Azulão. E agora. pediu por socorro. pelo menos. o delegado estava ocupadíssimo. ele sempre está do meu lado. e ele riu com desdém: — Então você é muito burro. gritou e chorou. Estranhei. com um revólver calibre 38. eficiente. Não me lembro se eram tambores ou uma bancada que havia lá. O que você fez foi pura burrice. se apanhassem ou sofressem qualquer tipo de assédio. começou a urrar. tinha o rosto todo enrugado. Depois das três da manhã. não acredito que seja capaz de cometer um crime desses. Disse que ia fazer tiro ao alvo e que era para eu ajeitar algumas garrafas que estavam no chão. preciso de um bom cafezinho. quando entramos. Mandaram que limpassem a cela e pagassem café e sanduíches. quando levou o primeiro tapa. Tiveram que pagar pedágio. — É verdade. Como não cabia mais ninguém na "Malibu" naquela noite. Berrou tão alto que resolveram tirá-lo de lá. Então ele pediu que o deixassem ir embora. Estava esperando no sofá e. Houve muitos assaltos a residências. Fiz isso e assisti aos primeiros seis tiros que ele deu. Só quem já esteve preso pode saber o valor de. dois cavalheiros. fomos para o escritório dele. Se abre com a gente. Ninguém agia daquela forma na frente dele. do lado de fora. Newton riu: — Quando saio em missão perigosa. Na minha entraram mais quatro.. Os quatro dias de Carnaval foram igualmente tumultuados. Aquele personagem chamou minha atenção pela atitude. entrou e sentou na minha cama: — Estou exausto. e o dr. — Você era casado com mulher rica. O pátio era grande. 73 Com a graça de Deus. já que. O amigo do delegado entrou na conversa.normais. papai chegou cinco minutos depois. Dr. o delegado ficou batendo papo. que. que sabia que. — Quero que conheça meu auxiliar e amigo. Balancei a cabeça afirmativamente. se fossem para as celas normais. não erra um tiro. Depois do café. continuou naquela posição. olhar a liberdade. Newton era temido. aproveitei aquele momento para ver a rua e o movimento. Do pátio. o algemaram nas grades. ACHO QUE FOI NA ÚLTIMA NOITE DE CARNAVAL. Ele acha que você não matou a vítima. Doca. No escritório estava um camarada de estatura mediana. porque estava com tanto medo que tinha se mijado todo. que tinha janelas enormes que davam para a rua. seriam assediados pelos outros presos e teriam de tomar muito cuidado para não se machucarem seriamente. eu pediria para mudar de cela. e mais uma vez expliquei que não estava encobrindo ninguém. O mais esperto que eu vi. todo cercado por um muro alto. 71 Azulão o serviu imediatamente. mas o delegado mandou que me sentasse. avisei que. Ele continuou: — E cometeu um crime desses. Apresentou-me a figura. Deu uma risadinha quando nos viu. Quando os quatro chegaram. tinham a maior mordomia.

que o Paulista o deixasse em paz. cercado por uns dez policiais. O Paulista me olhou com cara de poucos amigos. inesquecível. quando ele foi libertado e passou por nós. em direção à Malibu. Não sei se foi de propósito ou por desespero. o batalhão onde servia. Resmungou que o xerife naquela cela era ele. moça muito linda. Ele ficaria na toalha. para a penitenciária Vieira Ferreira Neto. Como tinha um bom comportamento.cela um rapaz. que tinha sido detido por carregar uma grande quantidade de maconha. apresentou-me sua namorada. aparentemente menor de idade. quando foi liberado para o convívio. Disse. O último arruaceiro que entrou na "Malibu" no Carnaval de 1977 foi um argentino. o delegado substituto apareceu junto com um militar e os dois o levaram. ao lado de seu colchonete. . Tenho certeza de que o Paulista e o Moçambava teriam se dado mal se tivessem abusado daquele menino.. fez sinal para que o menino se aproximasse e se ajeitasse no colchonete dele. pôs a cabeça entre os joelhos e ficou umas duas horas olhando para o chão. Ele chegou à carceragem nas primeiras horas da quarta-feira de Cinzas. Um dia ele apareceu. Voy a quejarme con el cônsul. vimos uma nuvem de policiais militares e civis. sua cara era de pavor.. O Carnaval acabou e tudo voltou à rotina na delegacia. no mínimo. Era bissexual declarado. ele nos apresentou. Foi. Falei para ele sentar no chão. De vez em quando. Pedi. O menino sentou-se com as pernas dobradas. O garoto se assustou com tanta consideração. O Paulista apagou o baseado e começou a estender uma toalha no chão. o Paulista estava queimando um baseado no boi. dias depois. No domingo seguinte. acompanhado de policiais militares e de investigadores. no centro do Rio. Em 1984. Eu estava deitado e tinha assistido à cena desde o começo. Baixo. Pude vê-lo bem de perto. se eu precisasse de alguma coisa. corpo de atleta. Era homem feito. que. mas dava para ouvir o berreiro e o barulho a um quarteirão. em Niterói. Moçambava levantou-se e ficou me encarando de maneira estranha. o argentino berrava: — Mucho peor que la policia de Perón. Ou melhor.. Lá pelas cinco da manhã. tinha uns dois metros de altura e estava em ótimo estado. Para disfarçar o cheiro. Percebi no dia em que chegou que sorria para mim e. Deu o seu nome. Passaram em frente às celas. trabalhava na secretaria. Durante todo o trajeto. Quando olhei para ele. ao lado da minha cama. lá pelas quatro da manhã. Continuei sentado. olhando para todos na cela. Em seguida. supostamente para tirar o cheiro de fezes. tinha pendurado uma trança feita com tiras de saco de estopa no cano de água que ficava em cima do boi e acendera a trança. Novos presos entravam. completamente bêbado. outros eram transferidos. um dos policiais saía voando e se esborrachava contra a parede ou caía no corredor. era só procurá-lo. pois o militar voltou sozinho até a cela e. ele me procurou e se identificou. 1m 80. durante a visita. cabelos loiros encaracolados até os ombros.. Só pude vê-lo 24 horas depois. de costas para as grades. com cara muito séria. Não sei o que tinha feito. dando pontapés e socos. me chamou. Não o reconheci. vindo do presídio da Ilha Grande. minha atual esposa. Parecia uma moça. Parecia uma parede. não vejo nada de mais nisso. olhos azuis. de gente. fui transferido da penitenciária Lemos de Brito. pedindo desculpas e querendo saber o que tinha acontecido. era arquivista. Tinha em sua ficha: assalto à mão armada e tráfico de cocaína. pois eu estava com Marilena. porque pararam um segundo em frente a minha cela. Quando abriram a porta que dava para o corredor da carceragem. o telefone de lá. cartas e mais cartas chegavam todos os dias. por que não dizer. e sem me exaltar argumentei: — Pedi pela nossa amizade. encostou a bunda nas grades e deu uma cutucada no meu braço. Quando ele entrou. mas completamente perdido. pela nossa amizade. urina e. 74 Mas não adiantou muito ter ajudado esse garoto. e dois ou três minutos depois jogaram o indivíduo lá dentro. Ele tinha dois palmos a mais que os policiais e sua mão parecia uma raquete de tênis.

dizendo que um advogado tinha ligado. o delegado disse que. houve em São Paulo outro assassinato que deveria despertar o interesse da imprensa. Durante vários anos fui capa das revistas de maior circulação. Com a presença do velho. em seguida. no Globo Repórter. Ele queria outra. Logo estávamos conversando. Fomos até a cela. Ela estava tendo um caso com o guarda-noturno de sua casa. Por conselho do dr. Só pediu para não mostrar a "Malibu". Mamãe. a entrevista ficou mais formal. publicou na íntegra o que lhe relatei. por sorte. o dr. UM DIA ANTES DE SER INTERROGADO PELO JUIZ DA COMARCA DE Cabo Frio. A imprensa pura e simplesmente não divulgou o caso. preocupado com o que a imprensa dizia a meu respeito. e sua empresa era e é a maior do seu ramo. ao me conhecer. Quando entrei. Algum tempo depois. tirou uma dezena de fotos e. sempre concordamos em ter esses serviços. Evandro. Não. O tratamento que o meu caso recebeu foi completamente diferente. Só na Veja fui "contemplado" com pelo menos duas capas. Matou um homem a tiros. me transferiu para o Água Santa. que eu conhecia desde criança e que sempre mereceu meu respeito e admiração. tanto com policiais como com meus companheiros de cela. mas. Às vezes eu recebia recados de mamãe. só respondia às de pessoas que conhecia. só porque deram um encontrão na calçada em que caminhavam.Já estava na delegacia de Cabo Frio havia quase três meses. no entanto. pouco tempo depois. na Manchete7. Não consigo compreender. Na entrevista. lendo jornais para ver se esquecia o calor que fazia naquele dia. nos despedimos. Posso até entender que uma pessoa transtornada possa cometer um crime sem sentido. Não porque eram pessoas desconhecidas. ensopava o lenço em água mineral e passava no rosto. dei de cara com o Salomão. Paulinho Badhu. Gostei de vê-lo. Estava fazendo isso quando o carcereiro apareceu e me levou à sala do delegado. Mas o crime quase não teve divulgação. O fotógrafo ficou muito à vontade. Durante o período em que estava fugindo. afinal ele tinha publicado o que eu dissera em minha primeira entrevista. Aliás. mudou de opinião sobre o meu caráter. sem inventar histórias. Salomão que o diga. por quem os leitores não teriam interesse. Falamos também sobre Ângela. para conhecer a minha cela e meus companheiros. ele e eu. O pai da moça. Às vezes. . saíram apenas algumas linhas a respeito. Mas o que 76 mais estranhei foi o que aconteceu com outros crimes que ocorreram na época. Um pintor conhecido cometeu um assassinato quando eu já estava preso. Newton. recebi novamente a visita do jornalista Salomão Schwartzman. como esse pintor foi absolvido sumariamente. que estava deixando todo mundo desesperado. papai entrou na sala. ela e o amante planejaram pôr fogo na casa enquanto ele dormia. nada disso. enquanto o fotógrafo fazia o seu trabalho. Estava sentado na minha cama. e é claro que pedia certa quantia de dinheiro. Pois o crime havia sido cometido pela filha de um figurão. 75 meu irmão Luiz Carlos e meu padrasto Luiz da Cunha Bueno vieram algumas vezes de São Paulo. Nas duas ocasiões em que me entrevistou. fiquei sabendo que o juiz. Não lembro se veio de surpresa ou se eu já o esperava. me escondendo por aí. Para livrar-se do marido. apareci sei lá quantas vezes. Logo depois. apresentei meus companheiros e conversamos por uns quinze minutos. Nos jornais. era uma das pessoas mais importantes do país. mas só pagaríamos quando eu estivesse com o alvará de soltura. não posso me queixar de Salomão. Ivo e Ester. mas havia também muitas de pastores de seitas de que eu nunca tinha ouvido falar. propondo me tirar da cadeia imediatamente. o delegado achou que eu deveria levar o Salomão e o fotógrafo até a carceragem. Das cartas que recebia. Contou que eu me relacionava bem com todos. A maior parte das cartas era de mulheres. quando ele começou a entrar mais fundo nesse assunto. nesse tempo todo fui assistido por papai. ao tomar conhecimento dessa entrevista.

Fiz muita força para não dar bandeira. No domingo à noite. os outros eram o presidente do Metrô na época. — Uns amigos da Joana e um amigo meu de Belo. João de Scatimburgo. Conversamos um pouco. A 120 QUILÔMETROS DE SÃO Paulo. Continuamos o papo por algum tempo e quando desliguei meu humor era outro. Como todos ali prestavam atenção no jogo. Era ela. onde também tinha uma mesa de sinuca e outra de pingue-pongue. A sala dava para um grande terraço. o fim de semana estava apenas começando e eu ia aproveitá-lo..Isso tudo me deixa triste e descrente do ser humano. Pelo volume da música e das vozes. Os dois irmãos mais moços.Vou chamá-la. Tomei alguns caubóis e agüentei firme. o mais velho. Era um prazer ouvir e participar das conversas de um grupo assim. um período difícil. gente na sala batendo papo e o pessoal mais moço na sala de cinema. Eduardo e Rodolfo. um sofá. Um de meus 77 cunhados. não pensei mais nela nem em com quem 78 dançava. Afinal. tirei aquilo da cabeça. quando tínhamos acabado de voltar. Por quê? Talvez porque vivêssemos. Jogando e bebendo. Dona Alicia e Nicolau. dormindo não poderiam estar. Substituí um dos parceiros quando ele foi dormir. passando o fim de semana. Minha cunhada. Ficaríamos hospedados no Copacabana Palace. uma poltrona de couro. Edmundo Vasconcelos e dr. Perguntei quem estava lá. Nesses quinze dias estive com Ângela várias vezes. por conta da ditadura dos generais. pais de minha mulher. Falou por um bom tempo com minha mulher. Nico. Foi o que aconteceu. . não fiquei embriagado. numa sala que era a menor da casa. Lembro bem o que senti quando ela disse aquilo. . ela está dançando. no qual empresários e amigos talvez tivessem regalias. No nosso último encontro combinamos uma passada rápida por Petrópolis. minha amiga de muitos anos. percebi que havia uma festa. que por sinal era um homem muito engraçado. pois eu tinha que ligar para um empreiteiro de Campos que encontraria na segunda e achei que o hotel era mais apropriado. era noiva de um advogado tributarista que mais tarde se tornaria um empresário muito importante e senador da República por alguns anos. ela disse que ia para o Rio no dia seguinte bem cedo. Fui sentar junto à turma da tranca. Quem atendeu foi Pedro. mas a mais movimentada.. dr. e ouvi ao menos o acerto que fizeram. E não queria que o pintor fosse preso. Resolvi telefonar para a casa da Joana. Ou eles vinham ou nós íamos. apesar do horário. Analicia. estante com livros. com certeza estavam acordadas. porque o Ibrahim já tinha telefonado várias vezes. ou na casa da Joana ou indo para o Rio e voltando no mesmo dia. pedi para falar com Ângela. jornais e revistas. e um intelectual e jornalista. Meus sogros tinham quatro casais de amigos que eram convidados constantes. e meus cunhados já estavam lá. No embalo em que as tinha deixado. Depois dos "olás". E as coisas estavam acontecendo numa velocidade fora do normal. o telefone tocou. Nos dávamos muito bem. quando aparecemos já havia uma mesa de tranca formada. Só cito o fato para mostrar que coisas estranhas aconteciam. Tinha a mesa de jogo. Gostava daquela família. Como fomos os últimos a chegar. dr. era casado com Marina Campelo. dei uma sapeada e me servi de um uísque. e o bar. Pensei imediatamente no ex que tínhamos encontrado algumas semanas antes. eram ótimos companheiros. Era um grupo alegre. Bernardes de Oliveira. Dois dos maridos eram professores doutores em medicina. por volta da meia-noite. de um carisma fora do comum. Não sou santo: cometi um crime e paguei por ele. CHEGAMOS À FAZENDA EM RIO CLARO. Dario de Abreu Pereira. Será que nossos cônjuges encaravam tudo aquilo como uma amizade tão agradável que queríamos estar sempre juntos? O que sei é que duas semanas depois estaríamos no Rio. na época.

Só de madrugada fomos para o hotel. Brincava completamente à vontade. Quando chegamos. com um aperto enorme no peito. Às vezes. Lá era e é sempre agradável. o dia estava lindo. Chegando ao Rio. quando entrei em casa me sentia péssimo. Mais tarde levei minha mulher para o aeroporto. Saímos quando Ângela teve certeza de que podíamos ir sossegados. aquele seguramente foi um. Não sei se eu estava ansioso ou se havia feito algo estranho. ouvimos música e mandamos uns baseados. Bom. Tive a impressão de estarmos perto do centro pelo trânsito. Liguei para Campos e falei com o meu sócio. que já estava me esperando com uma pequena mala de mão. Fui para a sala de sinuca e fiquei . Nunca esquecerei aquela caminhada curta. A viagem foi ótima. O segundo. Voltamos para o Rio. Queria saber se a viagem de Adelita tinha corrido bem. Em pouco tempo fiquei a par de todos os detalhes. O fim de semana no Rio foi normal. ali perto. ficamos lá um pouco para ver se Ibrahim telefonava. A viagem foi tranqüila. No domingo. deixei Ângela em seu apartamento e fui para o aeroporto. Fiz dois telefonemas. pedi na portaria que me alugassem um Galaxie e fui para o apartamento de Ângela. como sempre. Teria mesmo que me encontrar com o empreiteiro. que sempre estava a par de tudo o que se passava na minha vida. No dia seguinte. que confirmou nosso encontro na segunda. tirou um manto de vison e o vestiu. o Ibrahim não acha a Ângela e ela quer saber onde você está. Por precaução. 79 estávamos famintos e resolvemos comer num restaurante francês que elo conhecia. Teria de tomar cuidado e fazer de tudo para não piorar a situação. tinha esse compromisso. ela abriu uma sacola que havia trazido. No hotel. que ficava no pico de uma montanha. para aproveitar a vista. foi para casa. elegantíssima. duas horas depois. era uma loira linda. Assim que descemos do carro.. nós quatro almoçamos no Anexo do Copacabana. que remédio. Depois conversei pessoalmente com Chiquito. queria saber tudo sobre a reunião. Fui direto para o escritório. Embora tivesse estado calmo o dia todo. Ângela riu e só fez um comentário: — O que é bom dura pouco. Eu sabia que ele tinha uma namorada casada e que ia jantar com ela. tinha uma ótima casa. rir e brincar. Eu disse que ia telefonar para a empreiteira. mas achei-a pouco à vontade na hora de embarcar. o Hotel das Flores. curtimos cada momento. A noite era fria mas agradável. de tanto que paramos para beijar. Ele estava preocupado. Dirigi bem devagar. Dei para ele o telefone do hotel em que íamos ficar. Nossa estada foi breve. o primeiro para Chiquito.. cheguei em casa. Devolvi o carro e entrei no primeiro avião da ponte aérea rumo a São Paulo. na piscina.. onde minha primeira mulher.. Sua mulher telefonou. Tinha estado em Teresópolis. eu não conhecia a cidade. Ria com os olhinhos brilhando felizes. Estávamos ali conversando. Nada falamos que pudesse estragar aquele passeio. Ângela estava linda. quando estávamos sozinhos. paramos umas duas vezes para apreciar a vista. móveis para entregar. Eu a conhecia. acordamos e tomamos café-da-manhã no terraço. Estacionamos perto de uma grande praça e resolvemos caminhar um pouco. Quando voltei para o terraço e contei o que estava acontecendo.para termos pelo menos 24 horas só para nós. Esperar por Ibrahim era bobagem. Se a felicidade é feita de momentos. coisas do gênero. quando o telefone tocou. com os programas de sempre. Fiz um único telefonema para o empreiteiro. Demoramos um pouco para chegar ao restaurante. As oito da noite. ele falava dela. Glorinha Mariano. Era o Chiquito: — Deu bode. Só precisava arranjar um jeito de ficar lá mais dois dias para ir a Petrópolis. Apesar de a família Street ser de lá. Adelita tinha compromissos em São Paulo. namoramos. interromper a reunião e pedir para você telefonar assim que possível. sujou a barra.

lá por uns 80 minutos. Foi na casa dele que falei pela primeira vez que gostaria de morar em Búzios. bolsas de valores e do Htiti internacional. Fiquei esperando. mulheres e homens de negócios das duas maiores cidades do país poderia ser importante. Fizemos amor durante horas. apenas planos. Ângela estava sempre por aqui. Tinha medo de perdê-la. queria ter seu próprio espaço. e sofrendo por causa disso. As coisas tinham saído de controle. e não a loucura com Ângela. Muitas vezes. Ficamos abraçados por um tempo. O olho do furacão passou. no embalo. Sempre que telefonava para Ângela e perguntava: "Amor. a lista de convidados seria enorme. não queria fazê-la sofrer. evidentemente. Ibrahim era o cronista social mais importante da época. Como ela não tomou iniciativa. Minha mulher estava no telefone. Quando começamos a pensar que mais cedo ou mais tarde moraríamos juntos. foi ele o primeiro amigo que discutiu o assunto conosco. Quando desligou. Ela me olhou e chorou. Não me preocupei muito com a festa. Ele comentava os bastidores do poder. mas não podia ficar sem Ângela. sorriu para mim. e ela era ambiciosa. Minha mulher era empresária. Tinha atravessado vários governos. Durante a festa ele faria uma entrevista com a dona da casa para o Fantástico. almoçava e só então ia tratar de negócios. comecei a contar que Chiquito havia telefonado e me encontrado na empreiteira. Pedi que olhasse para mim e jurei que estava enganada. até a casa da Joana. tinha esperança de que nunca se realizasse. hospedada com Joana. Minha mulher resolveu dar uma grande festa para nossos amigos de São Paulo e do Rio. Estaria sempre alerta. Se tudo desse certo. como vai?". Chegava lá para o café-da-manhã às nove. Novas viagens para Belo voltaram a acontecer. liguei aTv.. Na coluna dele não havia só fofocas sobre a alta sociedade. tentar enrolá-la seria besteira. Que vida era aquela? O que queríamos? A amizade entre os dois casais continuou. jogando sozinho. Fora isso. Ao contrário das outras vezes. Não sei descrever o desespero que senti nessa hora. Imediatamente fui abraçá-la. Ângela e Ibrahim seriam nossos hóspedes. Afinal. eu estava dividido. andando de lá para cá. Meu radar estava ligado. Nada indicava que seriam para logo. estávamos sempre com o Francisco. Minha vida era tão louca que eu tinha a impressão de que minha família era que estava na paralela. Sofria tanto quanto ela. desconfiei que falava com Ângela. que era muito grande e demoraria para acontecer. É verdade que não perdíamos nenhuma oportunidade de estar juntos. O pai de Adelita era um homem importante no cenário nacional. falava de negócios. precisava de Adelita. não fiz para mim mesmo nenhum juramento ou promessa que não cumpriria. Finalmente desci para o meu quarto. eu tinha que tomar mais cuidado. Lembro do que pensava naquele instante. Adorava fazer amor com ela.. . Além de Joana. ela enxugou as lágrimas e fomos para a cama. Ângela e eu estávamos grande parte do tempo drogados e fazíamos quase tudo por impulso. e reunir amigos. Eu a amava muito. Precisava me acalmar. Continuou chorando e disse que eu já não gostava dela. Ela era muito inteligente. e que assim que pude tinha voltado. Talvez eu não estivesse enxergando bem o que se passava. Passava o dia com ela na casa da amiga. Eu a amava. Nessas ocasiões eu chegava ao meu escritório às quatro ou cinco da tarde. Mas achávamos que eram planos. planejávamos nossa união definitiva. assim como minhas idas e vindas para o Rio e. E tinha um grande complicador: meu caso com Ângela estava longe de acabar. E esperar que as coisas tomassem o rumo que tivessem de tomar. A festa tinha que ser bem planejada. Estava sendo muito egoísta. isso divulgaria sua imagem como empresária e pessoa do jef sef. 81 além de divertido. deixando que o argentino continuasse as reuniões. Que tempos loucos aqueles. Estava tão confuso que resolvi ficar quieto. de que adiantava tudo aquilo? Eu sabia que ela estava desconfiada.

Voltei para perto da cama. que eram enormes e de correr. Então fui andar pela casa. mais tarde. elas estavam se beijando. me puxando. não sabia o que fazer. Uma hora levantei. Nada de sério aconteceu. Ângela não ficava na casa da Joana e se hospedava na nossa. pois ela morava no Rio e eu em São Paulo. Tinha cabelos curtos. Então me encontrava com ela novamente. ela foi com a gente. não era a dela. Lembro de ficarmos os dois assistindo à TV na cama com Adelita. olhos claros. Depois resolvemos que um uísque ia dar estabilidade. chegava em casa. bati de leve. Ela atraía esse tipo de pessoa. Sentei na cama de Ângela. atenção. peguei a garrafa e o balde de gelo e levei de volta para o bar. Entrei no meu quarto e. convidamos a amiga também. Era uma pessoa muito agradável. Realmente tínhamos que planejar. Apesar de ligadíssimo. piscina. Só acordei quando a empregada trouxe o café-da-manhã. e se aproximavam dela para extrair alguma coisa. Entrei e comentei que sabia que elas estavam ligadas. se estivessem trancadas. As vezes. como estava tudo em silêncio. Seus olhos transmitiam um tipo estranho de inquietação misturada com angústia. mas fomos passar um fim de semana na fazenda e. nunca usei nada escondido. Não se incomodaram com minha chegada. mas fui para o quarto. Logo teria gente andando pela casa. não levava a sério a idéia de morarmos juntos. A babá e ele dormiam. Quando voltei e entrei no quarto. Estava de pijama de flanela. foi a amiga que abriu a porta. lavei o rosto e fui andar pela casa. como Ângela estava aqui. no começo da madrugada. E não era só isso. Uma vez. Então. é claro. me beijando e rindo. Acho que Ângela ficava com pena delas e chamava para si a responsabilidade de ser amiga. é óbvio. era impossível abri-las por . apesar de estranha. Depois do jantar. era uma madrugada fria. pouco antes de sairmos. depois que minha mulher foi dormir. O dia clareou. Olhava principalmente as janelas. Voltamos para São Paulo depois do jantar. mas ela não participava. Não era linda. de ouvir suas tristezas. em princípio. Fiquei lá por muito tempo. minha mulher e eu fomos dormir. além de. estavam ligadíssimas. então me juntei a elas. bebida. Depois fui para a cama e pensei em Maria Antonia até dormir. a cavalo. uma espécie de pára-raios. Uma amiga de quem ela gostava muito telefonou. já 83 havia surpreendido o guarda dormindo várias vezes. fumo. Fazia isso constantemente. Já no corredor vi que havia luz no quarto delas. tinha esperança de encontrar as convidadas acordadas. brincando de fazer barreira para eu não sair.eu ouvia a risada: "Planejando nosso próximo encontro". elas vieram junto. principalmente antes de dormir e ao acordar. e fui até o bar buscar uma garrafa. Minha mulher sabia das drogas. Conheci algumas amigas de Ângela que eram assim. E eu também. Acho que curtíamos mais esses momentos de perigo. e ouvi o barulho dos trabalhadores e de cascos de cavalo. Já a conhecíamos de um dos almoços do Ibrahím. jogamos baralho e. Muitas vezes. Mas naquela noite eu estava ligadão. era do Norte. A fazenda era perto e chegamos logo. e a amiga também. enchi a banheira com água bem quente. corpo proporcional. Não me lembro quando. Eram inquietas. As duas continuaram conversando. ficamos molhando a boca com uísque e nos beijando. chamava-se Maria Antonia. Instalamos a moça num dos quartos e fui olhar meu filho. Queríamos mandar mais uma. a adrenalina ficava a toda. Foram dois dias de 82 imprudência: passeios a pé. depois de passar boa parte do dia com Ângela. eu ia para o escritório e. carinho. fui para a cama de Ângela e fiquei lá até amanhecer. não me concentrava na leitura e o sono. tomava um banho e ia jantar na casa do Francisco. Nessas ocasiões ela brincava: "Seríamos felizes os três". Não queria saber de fofocas entre os empregados da casa. fui caminhando até a porta. Tinham trancas especiais e. Sempre gostei de ler. Como só íamos nós. não veio. Quando vi a cena.

parecia o conde de Monte Cristo. isso era considerado falta grave. não vi mais o delegado 84 nem a escolta. Despedi-me dos colegas e fui escoltado até a sala do delegado. posso fazer sim. A minha estava irremediavelmente de ponta-cabeça. Se um interno jogasse papel ou cigarro no chão. Depois que o pessoal do presídio assinou os documentos da minha transferência. passei por corredores e galerias até chegar ao C-1. deu instruções sobre os horários em que a água era liberada para o banho. Só ia dormir depois de ter certeza de que estava tudo bem fechado. Quando estávamos saindo. até aparecer um camarada. então o cubículo era trancado e reaberto às sete da manhã. o motorista levaria as duas para o aeroporto. que perguntou se eu queria cortar o cabelo e fazer a barba. Paramos duas vezes a meu pedido. OUVI BOATOS DE QUE SERIA TRANSFERI-do para o presídio de Água Santa. Dois dias depois. e a vida na minha casa voltaria ao normal. parar na galeria e conversar com um interno de outro cubículo. No Água Santa. Fui para o meu quarto. ninguém ali estava cumprindo pena. até eu. Ou o camarada estava esperando o resultado do seu processo. Todos conversavam animados. Era pouco antes das cinco e o lugar estava vazio. Enumerou uma série de coisas que eu não devia fazer. Ele e um policial militar ficaram dentro da cela esperando que eu me aprontasse. Acho que foi o dr. se quisesse viver razoavelmente bem ali. mas fui impedido pelo carcereiro. Explicou também que aquela era uma prisão de espera. Não fazia barba ou cabelo desde que saíra de São Paulo. logo cedo. pelo menos. A chegada ao Água Santa foi calma. não havia banho de sol. ele mostrou o beliche que eu ocuparia. explicou como funcionava o presídio. ou estava de castigo. . uma para tomar um café e outra para almoçar. principalmente com a limpeza do presídio. Newton que deu um jeito de eu ir para lá. que disfarçava o meu terror. Só a vida da casa. Dois guardas me levaram para uma sala enorme e me largaram sozinho por algum tempo. não posso fazer nada. Assim que entramos. à moda antiga. se fosse pego com drogas. teria que responder a mais um processo. junto com três policiais de sua confiança. Depois cumpriu a promessa que fizera e me acompanhou. que estava no cartório. A cama. virou as costas e foi embora. Usamos uma perua Chevrolet.fora. e sim "cubículo" — eram trancados. com a ponta torcida. que estava preso ali havia muitos anos. Aliás. Aquilo não me deixou nada tranqüilo. me ajudou muito nos primeiros dias. Tinha de pegar as minhas coisas e sair imediatamente. Em poucas palavras. Subi várias escadas. avisaram que o delegado e uma pequena escolta já estavam à minha espera. No meu tempo. Ester chegou e aproveitei para pedir que avisasse papai e o Paulinho Badhu da minha transferência. Alertou-me quanto ao diretor: era um homem justo mas muito exigente. Se ele acatar. era só concreto armado e grades. ficaria no quarto dos carcereiros. pois os internos trabalhavam na administração. No dia seguinte. Tinha visto vários presos sendo transferidos. O carcereiro trouxe minha mala. ouvi dizer que a promotora pediu sua transferência. DIAS DEPOIS DO CARNAVAL. Quis sortear a cama e o colchão entre meus companheiros de cela. é claro. Tudo correu bem durante a viagem. e todos saíam apavorados. O guarda que me acompanhou andava depressa. Pedi que deixasse o bigode. já haviam assaltado duas casas na vizinhança. só com autorização ou acompanhamento de um agente penitenciário. Às cinco da tarde todos deveriam estar de volta. Na primeira oportunidade. ficava aberto durante o dia. lá pelas nove da manhã. como era a disposição das galerias. Tinha mais ou menos quatro metros por quatro. Em princípio. Vou levá-lo pessoalmente e recomendá-lo ao diretor. e outras que podia ou devia. todos os cubículos — no Rio de Janeiro não se diz "cela". Eu tinha medo. Esse cara. o C-1. Não quis que eu fosse de camburão. Ele respondeu: — Quem manda é o juiz. Ele mesmo colocou as algemas. e justificou-se dizendo que era obrigado a seguir regras. se eu concordasse. perguntei ao delegado se era verdade e se ele poderia conseguir que eu permanecesse em Cabo Frio. Só o meu. como deveria tratar os guardas e os companheiros.

e ninguém queria perdê-lo. Fiquei ali mais de dois meses. Trabalhar era um prêmio. Não quero causar constrangimento a eles. do lado esquerdo. Os que não tinham dinheiro para mandar 86 lavar a roupa aproveitavam e faziam isso com a água que tinham dado e punham a roupa para secar no terraço. Quase no fundo. vi dois canos de saída de água.Havia cinco beliches. só havia dois lugares. só não podíamos ir até as outras galerias. é claro. no Água Santa. ao lado de uma mureta de um metro de altura que separava a cela do vaso sanitário. Todos tagarelavam muito a respeito do dia. 85 Não havia parede: o cubículo continuava por uma espécie de terraço com mais ou menos dois metros de largura por quatro de comprimento. Ferrugem (o Cenoura). junto às grades e ao corredor. eram doze ao todo. Meus companheiros começaram a chegar. Nilson (que eu chamava de Baitola). um de meus companheiros me ofereceu o dele. Não tive escolha. Rando era o xerife. Professor. Apesar de o Água Santa ser um presídio de espera. um ninho de pederastas. Em frente aos beliches. tomando conta da população carcerária. como trabalhávamos na administração. que o barbeiro me indicou. Já passava das cinco. esse e outro bem em frente. na camiseta vinha estampado o nome verdadeiro do Água Santa: Instituto Ary Franco. Aliás. cinqüenta de cada lado. sem autorização. A galeria C onde me encontrava era no último andar e desse terraço se via o céu além das grades que serviam de teto. era tido como um "come quieto". No cubículo do outro lado do corredor ficava o pessoal que trabalhava na cozinha. apenas um interno recebeu alvará de soltura. Cada galeria tinha cem cubículos. se molhava e saía para se ensaboar. Alonso. quando saímos de Cabo Frio. Só houve um incidente no cubículo durante o período em que estive lá. não tínhamos muito tempo para criar antipatia. e estivera viajando desde cedo. Ela só seria possível na parte de baixo dos beliches. e um deles disse que tinha sido ele que me atendera no almoxarifado e me entregara uma camiseta branca e calça azul. Sozinho. até porque. Alguns começaram a tirar a roupa e a pegar suas toalhas. o que. e para passar entre eles era preciso encolher os ombros. Quem lavava a minha era uma bicha caída. iam me cumprimentando e se dirigiam para seus lugares. havia água para quem quisesse tomar banho. e durante esse tempo. quase todos estavam ali cumprindo pena. porque era o que estava lá havia mais tempo. Então era a vez de o primeiro tirar o sabão. Quando não estávamos trabalhando. e justamente comigo. Nós do C-1 podíamos andar à vontade pela nossa galeria e pelo presídio. que devem estar vivos e recuperados. Aqui mudarei o nome dos meus companheiros de cela. fiquei observando tudo. No dia seguinte. no meu cubículo. No outro lado do prédio ficava o presídio para mulheres. Cabeça e Resende. enquanto outro entrava e fazia a mesma coisa. Como eu não tinha sabonete. com toalhas de banho dos dois lados. Mas isso era proibido. Paulo. Fiquei no último andar do beliche perto da entrada. jogávamos dominó ou escrevíamos cartas para a família. Fiquei sem roupa e entrei na fila. . O relacionamento entre nós era razoável. Zeca e Orlando ocupavam o beliche perto do terraço. que ali não existia privacidade. Conforme chegavam. ficava outro beliche. Mas esse cubículo era trancado. era considerado falta gravíssima. às seis e meia da manhã. Os banhos eram mais ou menos assim: cada preso entrava debaixo d'água. Fazia muito calor. logo depois das grades da entrada. Velho. Constatei. Ali sempre havia policiais militares cumprindo sua ronda. seus ocupantes só saíam de lá acompanhados por funcionários. Chico. Os outros eram: Dorminhoco. praticamente em cima do vaso sanitário. que eram usados para os banhos. depois do café — servido pelos próprios internos —. ou seja.

que papai dava um jeito de fazer chegar a mim. disse: 88 . Conversei com eles por alguns minutos e em seguida eles partiram. derramavam no prato de cada um a comida. escreveu uma dedicatória. fizeram festa para mim. tudo bem? Estendeu a mão e me encaminhou até o cubículo onde estava a pessoa com o livro. Os dois partiram e Bandeira me acompanhou de volta à galeria. cumprimentei-o e recebi o livro. que iam passando pelas galerias e. Insistia para eu me aproximar. mas logo voltei. tinha ouvido gritos horríveis. um interno me chamou. Carlinhos. Estava na hora do almoço. — Conhece o banqueiro Carlinhos. mas o Água Santa era "tranca dura".A imprensa está fazendo de você um herói. presidente de uma escola de samba? Estendi a mão para ele. Além das luzes. O sistema era meio complicado. Não era dia de visitas. que é como chamam. Doca! Tive que trazer meu neto para ver você. com sua educação e com a maneira como tratava as pessoas. Conseguiu conquistar papai. As luzes nunca eram apagadas e eu não tinha pregado o olho naquela primeira noite. que vinham das galerias de baixo. e aquilo era uma exceção concedida pelo diretor. Concordei. Houve um acontecimento no mínimo estranho naquela tarde. Quase não conversamos. Andei um pouco pela galeria para me exercitar um pouco. ele queria conhecê-lo de qualquer jeito. Tanto o almoço como o jantar eram servidos nos cubículos. tinha um livro na mão e queria me entregar. Mas ela era especial. queria me conhecer ou bater papo. O barbeiro tinha me avisado para não me aproximar das grades de outro cubículo para conversar. Nunca provei a comida de lá. No almoço comia na cantina e. Um guarda se aproximou das grades e me avisou que um senhor havia sido autorizado pela administração a vir até as grades e conversar comigo. Voltei para o beliche para dormir um pouco. que normalmente ficava carrancudo com qualquer pessoa que se aproximasse de mim e que ele não conhecesse bem. 87 O guarda avisou que papai tinha falado com o diretor e estava à minha espera lá embaixo. Felizmente um guarda aproximou-se sorrindo e apresentou-se: — Oi! Sou o Bandeira. Na época eram oitocentos internos. bolos e doces. embora curta. Os dois haviam trazido doces e frutas. Participei de um torneio de dominó que o . — Oi. o diretor autorizou Que alegria foi ver meu pai e dar com Ester sorrindo para mim. porque o pessoal dos outros cubículos me chamava. que ficava no beliche ao lado do meu. depois das cinco. Passei o primeiro dia quase sem sair do cubículo. tenho certeza que deve estar fazendo a felicidade do sortudo que se casou com ela. Ester me beijou com carinho e pediu que eu incluísse o nome dela na lista das pessoas que poderiam me visitar. antes de entregá-lo. A noite desse primeiro dia transcorreu sem novidades. Eu apenas respondia do meio da galeria com acenos de mão. Tachos enormes eram carregados por internos. O guarda queria saber se eu concordava em recebê-lo. Sempre tinha um estoque de frutas. Ester era incrível. Quando estava passando por um cubículo próximo do meu.todos saíram para a faxina. quando já estávamos todos no cubículo. no Rio de Janeiro. Mas. Uma moça também tinha ido me visitar e não queriam permitir sua entrada. Era um alto graduado da Marinha. Papai tinha ficado impressionado com ele. geralmente sanduíches. o cantineiro vinha para a tranca e trazia o que eu tinha encomendado. A visita foi ótima. O Professor. e logo vi um senhor que trazia pela mão um menino de uns nove ou dez anos. Bandeira apareceu para me levar de volta para o cubículo. qualquer trabalho feito no sistema prisional. como papai a conhecia. aproximando-se das grades. no jantar. todo mundo ficava trancado o dia inteiro. coca-cola e chocolates.

réus primários e reincidentes. Na hora percebi que. no pouco tempo em que os dois estiveram juntos. fui eu que comecei. apesar de deixar evidente sua autoridade. Disse que era muito difícil administrar uma prisão daquele tamanho. de pé: — Sou o capitão diretor desta instituição. podia-se conversar em voz baixa. ele me deixou tão à vontade que. cuja construção ainda não estava terminada e com verbas curtíssimas. Eu ME SENTI À VONTADE E DESCONTRAÍDO. 89 Ele sorriu. ao me pôr a par de suas preocupações. Para piorar. vesti o tênis e o acompanhei. Agora só havia uma maneira de tocar a vida em frente: tendo fé. — Não devo atrapalhar a administração. Passei a manhã de novo sozinho e resolvi tentar dormir um pouco. Principalmente com um efetivo de oitocentos internos quando na verdade fora idealizado para seiscentos. O CAPITÃO ERA UMA PESsoa agradável. O policial que estava de plantão fez sinal pedindo um cigarro. mas era proibida qualquer atividade. o caso adquirira dimensões extraordinárias por causa da imprensa. Depois da sirene. e ele pediu que eu repetisse o que tinha entendido. contei algumas passagens da minha vida. e tenho que conservar o prédio limpo. Era Alegria e triunfo. não me meter com drogas. Quando acabou. Passava esta imagem: ali quem mandava era ele. Vou acompanhar você até a sala do diretor. quando tocou a cirene todos baixaram a voz e o torneio terminou. Aproveitei a oportunidade para agradecer por ele ter recebido papai. Ele falou sobre a biblioteca. Sabia que nas galerias de baixo o clima era outro. Estava começando a me ajeitar quando apareceu um guarda alto. Não sei se cochilei depois que voltei para o beliche. jogar dominó. Ele disse que. E acho que tinha razão. A primeira pergunta que fez foi: — Já explicaram o que quer dizer pisar na bola? Respondi que sim. De madrugada fui até o terraço me refrescar e fiquei lá um bom tempo. Quando chegamos à recepção. Estava precisando de alguém para organizá-la e para distribuir os livros pelas galerias. como se estivéssemos conversando. Poucas vezes vi um olhar com tanto ódio como o daquele camarada. Fiquei apreensivo. fez continência em agradecimento e continuou a ronda. quando parou de falar. Abriu a gaveta e me deu um livro de autoajuda. em tudo e em todos. não tenho tempo a perder. porque meu avô me dera um igual quando eu tinha uns dez anos e morava na fazenda dele. infelizmente.Ferrugem organizou e. sem que pudesse selecioná-los de acordo com a gravidade dos crimes que tinham cometido. muito sério. lavar roupa etc. tinha ali internos de todos os tipos. que eu conhecia muito bem. Desci da cama. Foi mais uma noite sem pregar os olhos. e eu joguei um para ele. até da minha convivência com Ângela. que logo falou: — Sou o sargento chefe de segurança. um projeto novo para o qual tinha recebido muitas doações de livros. Falei do medo que tinha daquele lugar. e felizmente se retirou. Preferi pensar na segunda hipótese. papai havia conquistado sua amizade. Ande logo. fui o primeiro a entrar no banho. Não trocamos uma palavra. A conversa continuou. principalmente na . O diretor se apresentou. Ele reapareceu e me mandou entrar. o chefe de segurança mandou-me esperar e entrou. Acho que esse livro foi o primeiro livro de autoajuda. Não conseguia decifrar se aquilo era um sermão ou se ele estava se abrindo comigo. pois o ganhei de meu avô em meados de 1944. sei que. Fumou ali mesmo. — É por essa razão que não posso admitir que pisem na bola. pois. Ele disse que tinha reconhecido o "velho" na recepção e o convidara para um café. — Quem vive dentro desse esquema se dá bem em qualquer sistema prisional do Rio de Janeiro. não freqüentar outras galerias e cubículos sem autorização e fugir de encrenca com os companheiros. quando a sirene tocou.

um interno comete 91 um crime sério só para ir para uma delegacia e responder a outro processo. mantendo distância dos cubículos. Já fazia dois ou três dias que eu estava trabalhando. Não chamava atenção: era baixo. Nem os guardas se sentiam seguros. Era úmida e escura. . de pé. Outra coisa que chamou a minha atenção é que havia mais internos nos cubículos. O som alto das vozes soava estranho. De repente dava numa grade trancada e tinha que fazer todo o caminho de volta. Olhou com ódio em minha direção e disse: . A galeria B não era tão clara como a nossa. Nas galerias andamos pelos corredores. Acho que o único cara que impunha respeito lá era o sargento. dependendo da situação. pois queria agradecer ao médico e ao interno que o ajudava pela atenção que estavam dando a mim. Estivemos também na portaria. e ele contou várias histórias que ouvia. Aceitei trabalhar lá. Conversávamos muito. E autorizei seu pai a vir aqui visitá-lo sempre que quiser. Concordei. os cubículos tinham apenas luz elétrica. A "A" me assustou. prestando muita atenção para não errar e voltar à mesma grade. Ivo havia me receitado um remédio a cada oito horas. Não respeitavam muito esse negócio de "pisar na bola". Mas era muito simpático e esperto. dava em alguma passagem não permitida.Por mim você estaria na galeria A. Mas não tinha alternativa. porque a entrevista com o diretor tinha demorado. louco da vida. Para tudo o que eu precisava. começar tudo de novo. não sei por que essas regalias. no exercício de sua profissão. depois você se vira sozinho e vai para a sua galeria ou para a biblioteca. muito menos eles. Se errasse a escadaria. sempre no horário. Peguei meu crachá e pedi que me ensinassem como chegar à enfermaria. E não estavam muito preocupados com coisa alguma. Ele agradeceu: — Então você começa amanhã.. perguntou se eu daria uma entrevista à jornalista Marisa Raja Gabaglia."A". como ir parar em uma delegacia e responder a outro processo por drogas ou qualquer crime que cometessem lá dentro. Um interno que conhece o presídio vai ajudá-lo. Meu ajudante era jovem. pois tinha de passar por ela para chegar às salas reservadas aos advogados. e isso vinha sendo seguido dia e noite. andamos pelas galerias e por todos os setores da administração. Vou acompanhá-lo até a secretaria para você pegar o seu crachá de faxina. Do lado de fora. Estava distraído com aquela montanha de livros quando o Bandeira entrou para avisar que uma jornalista do Última Hora estava me esperando para uma entrevista. estava lá havia dois anos e conhecia tudo. Aliás. 90 Antes que eu saísse. depois de passar cinco anos em penitenciárias do Rio de Janeiro e de Niterói. Demorei uma semana para me orientar no Água Santa. Este fazia a minha barba todas as manhãs. O dr. Renato. como a porta que daria acesso à prisão feminina. pedia a ajuda dele ou a do barbeiro seu Antônio. e os cubículos eram lotados. por sinal.. sei que. não paravam de falar. vindos do presídio de Ilha Grande. que era onde ficavam muitos internos de castigo. Naquela tarde. ela era grande amiga da Ângela e tinha tido bastante contato com ela. muito bem-feitas. dei de cara com o sargento. leste e oeste. Estava preso por assalto à mão armada. pois havia livros doados espalhados por toda a biblioteca. ficava no subsolo. Por exemplo. em algumas estantes feitas lá mesmo. tinha vinte e poucos anos. Estava bastante ocupado. O remédio não podia ficar comigo. sul. Era tudo muito parecido. se ele acha que sua vida corre risco. Havia escadas em todas as direções — norte. a minha e a de quem quisesse. então eu dependia deles. cafuzo. meu ajudante na biblioteca. como boa parte da população carcerária.

e no dia seguinte descobri por quê. Comecei também a escrever sobre minha vida. porque meu antecessor já tinha bolado um sistema e eu apenas continuei o que ele havia começado. Mas ficou só na tentativa. sirenes tocavam por causa de alguma tentativa de fuga. ou seja. O pressentimento que ela teria uma morte trágica nunca me abandonou. Eu analisei isso. Depois daquele bloco e do primeiro caderno. Naquela tarde. Organizar a biblioteca foi fácil. me tratou profissionalmente. afinal. Como não guardei. comprei muitos outros. faria a mesma coisa. Era março de 1977. Também isso ficou só na vontade. A arma é uma fraqueza. Dias depois ela me mandou o jornal com a entrevista. sobretudo com o sentimento de um homem que anda permanentemente armado. Pedi que comprassem um bloco e um caderno para que eu me distraísse. Acompanhei o funcionário até onde ela me esperava. Inclusive para a provocação! Não vou poder nunca perdoar o gesto do Doca. impossibilitado de dar uma entrevista. é claro. após a contagem. Afinal. alguém que tem medo. pelo menos. Fora as vezes em que a sirene tocava e todos eram trancados para contagem e a PM revistava todos os cubículos. fiquei pregado no chão. rica e sei brigar. noite após noite. Um interno que trabalhava na portaria desapareceu. Hoje é um farrapo. Quando o Bandeira me avisou. Percebi que a guarda não ficou muito preocupada. transcrevo do livro de Evandro Lins e Silva. que. nenhuma fuga vingou. um homem que se arrasta lambendo os restos da vida. Tinha vontade de pedir para ele dizer que eu estava na enfermaria. Mas há um limite para tudo. tinha lido várias vezes nos jornais declarações de amigas da Ângela me esculhambando. Mulher bonita que vivia perigosamente. muito bem vigiado. . Não esperava por aquilo. ela respondia sempre 92 com a mesma frase desafiadora de sempre: Sou bonita. escolher um livro 93 e retirá-lo. Marisa havia sido amiga de Ângela. E pagou com a vida o preço que jogara tão alto. o Ary Franco era presídio de segurança máxima. Gravou toda a conversa. viverá sempre povoado de fantasmas". mas ao ficarmos cara a cara a emoção foi forte. E. com minha anuência. No período em que estive lá. ou porque internos estavam sendo encaminhados para a solitária por serem flagrados fazendo sexo. Marisa. A administração mandara um funcionário até a casa da irmã do detento e ele estava lá dormindo. achei engraçada. passado o primeiro momento. pediu que dissesse o que esperava do futuro. para a alegria geral dos internos. o medo de uma permanente agressão. A VIDA NO ÁGUA SANTA NÃO ERA Monótona. Ângela provocou! Gostava de provocar. Humilhado às últimas conseqüências. onde ficou dez dias. antes de eu sair. Os internos que trabalhavam podiam ir até a biblioteca. Não vou dizer que caímos nos braços um do outro. Evidentemente foi da cama na casa da irmã para a tranca. A resposta foi lacônica: — Nada. mas um candidato a morrer. anotando os acontecimentos do meu dia-a-dia. bateram palmas e deram urros de satisfação. e só descobriram isso às seis da tarde. quando souberam. sempre fazia alguma anotação. aos frangalhos. APESAR DE INSUPORTÁVEL. Mas houve uma escapada que eu. mesmo quando passava muito tempo sem escrever. Não soube brigar nem um pouco e com o sentimento humano não se brinca.Tinha tentado me preparar para essa entrevista. porque acho que. as palavras de Marisa no Ultima Hora: "Ângela Diniz morreu. de uma rebelião na "A". e daí em diante. assinando um protocolo. A defesa tem a palavra (p. saímos algumas vezes juntos. 233). se estivesse no lugar delas e matassem um amigo meu. foi constatado o seu sumiço. Nunca me defendi ou devolvi os xingamentos nas entrevistas que dei. que se defende. Tinham de devolvê-lo em quinze dias ou renovar o documento. Dia após dia. Mas eu o compreendo.

andava sempre com um livro debaixo do braço e sabia de tudo o que se passava nas galerias. e não os dos advogados do Estado. O Ferrugem. apesar de trancados. e além do mais era um amontoado de gente. Nos primeiros dez ou quinze dias de Água Santa. Às vezes aparecia na biblioteca com uma cara de mistério. Gostava de conversar com eles. O único que quando aparecia mandava a gente de volta para nossa seção era o sargento. fundei uma espécie de "hospital do livro". Era o mais inteligente dos meus companheiros do C-1. Acabavam sentando nos livros ou usando-os como travesseiros. Sempre tinha alguma coisa para vender. Mas isso era raro. que mandava anunciar em jornais e revistas. Era uma espécie de corretor. não havia dia triste para ele. Na "A". alvarás de solturas e dos crimes de cada um. como chefe da segurança. que ela estava namorando um funcionário da casa. baixo. além dos torneios de dominó e de damas. Lá não havia beliches nem colchonetes. O camarada escolhia uma. Ter de volta o dinheiro era impossível.O agiota está atrás de mim. com um papelote de coca e falando baixo: — Cheira. quem me trazia notícias era o dr. que eu chamava de Cenoura. Esse era um dos argumentos do Professor. O artigo do Chiquinho era o 121 — homicídio —. um estelionatário. cabelo e olhos pretos. cheira logo. já conhecia melhor meus companheiros de cubículo e já sabia alguma coisa da personalidade de cada um. À noite. 1m 68 de altura. mas na época em que entrou em cana era jornalista. um tremendo 171. antes de irem para a cadeia. Arthur Lavigne. Os três sempre recebiam visitas de familiares e não tinham problemas sérios. num canto da biblioteca. a conversa girava em torno de leis. parentes e amigos apareciam nos dias de visita. Minha mãe veio de São Paulo com minhas tias. O Professor não tinha cursado faculdade. tinha 1m 90 de altura. ele passava o dia andando pelas galerias. Da equipe do dr. Ester veio no começo. papai me visitou quase todos os dias. Caboclo. típico malandro brasileiro de antigamente. estava sempre numa boa. trabalhavam no departamento jurídico. Tinham até carteirinha de estudante.Para atender os que estavam trancados entregávamos em todos os cubículos uma lista semanal com as obras que tínhamos. 1m 70. como todo 171. . Nessa época. jeito de índio. os funcionários não se importavam com isso. o mesmo que o meu. onde tentávamos recuperá-los. além do traficante e do 94 Jogo do bicho. Eu freqüentava o departamento jurídico porque me dava bem com os dois. Não é nada recomendável ter de esconder-se deles por falta de grana para pagar uma dívida. Era metido a intelectual. porque tinha . era raro o livro voltar aproveitável. Havia na galeria dois estudantes de direito que. Sempre escrevia cartas à procura de uma companheira. era muito cuidadoso com tudo o que fazia. andar cheio de ginga. a pessoa tinha certeza de que só ele poderia tomar conta do cofre. Fiquei sabendo. Ele era branco. bigodinho. Paulo e Cabeça também eram 171. Chiquinho era especial. Paulo era branco. As descrições que fazia dele mesmo eram incríveis. parecia que estava de férias. cento e poucos quilos e. estavam cursando faculdade.. Era branco. mas artigo 171 é o que mais há nas cadeias.. que estou morrendo de medo — e então sumia. advogados. segundo alardeavam. Três deles. Paulo e Cabeça tinham freqüentado faculdade. esquelético. Quando queria dinheiro emprestado era difícil escapar da conversa dele. havia os agiotas. e assim continuou até eu sair dali. e eu ou meu ajudante providenciávamos a entrega. Constantemente estava se virando com o pessoal do presídio para receber a visita de alguma moça que tinha respondido a esses anúncios. Um minuto depois de conversar com ele. anistias. Alguns internos caídos preferiam os serviços deles. Cabeça tinha um cacoete: ficava o tempo todo passando a mão no queixo. aparência superconfiável. todos os que queriam vender um relógio ou algum outro pertence procuravam o Professor. depois de algum tempo. mas de repente sumiu. Chiquinho. Evandro. Na sociedade carcerária. Por causa disso. Era comum o pessoal da faxina visitar outros departamentos.

copo e talheres. como meus advogados que sumiam. principalmente se conquistar a antipatia de algum interno. Muitas coisas me preocupavam. Além do mais. e eu o pagava para ele fazer isso e arrumar a minha cama todo dia. quando ela voltasse para o Rio. as caçadas na África. e eu arranjaria reuniões com empreiteiros. Eu também não ia com a cara dele. onde vivi até os doze anos de idade. passaríamos dois dias na sua casa. segundo o padre ou radialista. no final da reza ainda tinha um sermão. segundo o locutor. Baitola. Isso seria 96 Durante a semana. Só percebi quanto aquilo tinha mexido com ela quando voltei para casa à noite e não a encontrei. Do Velho. mas muitas vezes pedi para o pessoal deixá-lo em paz. Foi uma tremenda gozação e o apelido pegou. O que escrevi na época era também muito triste. minha família. Os comentários eram de que a jovem também estava em cana. Zeca. O meu sócio já estava no Rio passando uma temporada. e coisas do gênero. venha jantar comigo . Eram palavras de esperança. ninguém gostava. e ele levantou a cabeça. Achei estranho. Minha mulher não engoliu a viagem. mas diziam que exterminara uma família. Um dia. porque cheguei tarde e geralmente ela já estava lá.disse. e o do meu pai. uma coisa triste e angustiante. Na verdade. eu passava por um momento que só conseguia superar com os remédios receitados pelo dr. Escrevia também sobre as viagens pelo mundo. Ninguém sabia dela. e às seis da tarde era a "Hora da Ave-Maria". UNS DIAS ANTES. A principal era que ele não tomava banho. a presença constante de Ângela na minha cabeça. Telefonei para o Ibrahim a fim de bater papo e contei que dentro de poucos dias estaria lá. Na casa do meu sogro. Se não tivesse esse apoio. Ele havia matado sua velha esposa para ficar com a grana e viver com uma jovem. Não me lembro que rádio produzia aquele programa. mas sua reação não foi instantânea. Muitas vezes escrevi revoltado que deveria ter pensado nos filhos e na família antes de fazer as cagadas. nas das minhas cunhadas e nas de amigos. no Norte. Estava pensando em para . lavar meu prato. Cada dia um de nós lavava o cubículo e era ele que fazia essa tarefa para mim. Dorminhoco e Alonso faziam parte do grupo. que eram todos de plástico. que. aí era ele que tinha de negociar. para uma reunião de negócios. era a única com lógica. estava preso havia pouco tempo e dizia que estava lá por 95 engano. e de onde saí porque venderam a propriedade. ÂNGELA LIGOU AVISANDO QUE IA A BELO RESOLVER ALGUNS negócios com seus advogados. qualquer pisada na bola pode virar um problema sério. Orlando. não precisava fazer nada. Durante boa parte dos dias.pouco tempo para cumprir. Depois de meia hora comecei a procurá-la. que não tinha feito nada. combinamos que. Convidou-me para ficar em sua casa. o xerife. procurando empreiteiras que também tivessem vencido concorrências em outros trechos da Ferrovia do Aço. Ele era muito humilde. Ainda que essa desculpa já fosse muito batida. a não ser que precisássemos de alguma coisa com a administração. seguramente teria enlouquecido. Rando. brincando. Água Santa é um lugar sinistro. eu o chamei de Baitola. Expliquei que ficaria num hotel. havia música nas galerias. eu não tinha a menor condição de prestar muita atenção naquele pessoal. só escrevia sobre a fazenda do meu avô. Não falava do crime que tinha cometido.De todo jeito. era dedicado aos detentos e hospitalizados. . você tem de estar atento o tempo todo para não fazer ou falar alguma coisa errada. Como não tinha coragem de escrever sobre minha vida com Ângela. no centro. por várias razões. O Nilson era do Espírito Santo. meus filhos etc. Ivo. porque era lá que seria a reunião. quer dizer pederasta. Às vezes o pessoal ficava irritado e punha o coitado na marra debaixo do cano de água. mas não me lembro muito deles. Como eu não podia ir.

falamos e bebemos muito até altas horas. Nossos concorrentes. Disse também: — Sabe como é. com equipamentos mais 98 . Já em São Paulo. o meu "coringa". Resolvi fazer o caminho de volta à pé. Não estávamos nem um pouco preocupados. O pior é que sofria por causar tudo aquilo. homem é assim mesmo. Se bem que durante o jantar ele só falou da amante. 97 Em nenhum momento passou pela nossa cabeça que estávamos exagerando. As duas me obedeceram e entrei no carro. Tomamos um aperitivo e liguei para minha casa. da casa dela. e muito. pensando nele. experimentando a cocaína que tinham trazido. Também me sentia mal por tratar Ibrahim com tanto cinismo. em vez de tratá-la com carinho. de certa maneira. Fiquei meio sem jeito. o ambiente ficou excitadíssimo. Lá pelas oito da noite. encontrei uma amiga sua com o namorado. já que quando abri a porta dei de cara com eles ajoelhados diante de uma mesa. Em casa conversamos e. Nunca conseguirei entender essa época. fui rude com ela e com mamãe. Ângela foi para a casa de Ibrahim e eu voltei para São Paulo. pelo menos até eu voltar da viagem ao Rio. Só fui buscá-la depois de alguns caubóis e. Falou também das frustrações com o casamento e das farras que tinha feito pelo mundo. e depois chegaram alguns amigos do Ibrahim. Ângela e eu não saímos da cama nem para almoçar. Depois que todos foram embora. Foi só sexo e drogas. O que você anda fazendo para ela ficar tão infeliz? Aquilo caiu muito mal na minha cabeça. apesar do trabalhão que ela me dá. Alguns minutos depois. Estava magoando quem eu amava. pensava naquela loucura. já estavam preparando os contratos. Como das outras vezes. já falei dele para vocês. a crise foi superada.Sua mulher passou o dia aqui. No fim da tarde. Não serviu o café-da-manhã nem o almoço. depois de um banho e uma refeição leve. Daíem diante.quem mais ligar quando o telefone tocou. na minha família. Era minha mãe: . Essa obra da Ferrovia do Aço está parada até hoje. Mandei minha mulher ir para casa imediatamente e proibi minha mãe de abrir a boca. Só fui para lá alguns dias depois. Um pouco antes de eu sair. já que Ângela teve que ficar um pouco mais em Belo. mas a mulher que eu amo é a Ângela. Ao entrar. saí logo que as visitas chegaram. Experimentamos. Ângela e eu continuamos até bem mais tarde. tive uma pequena reunião com Carlos. nos planos de viver com Ângela. por causa de problemas familiares e com os advogados. chegou outro visitante que também tinha entrado no racha da compra da droga. as reuniões de negócios de fato existiam. Demorei a reagir. Quando me dei conta já tinha passado. Tive a impressão de que a empregada já estava acostumada. cheguei para jantar com ele. meu sócio telefonou para avisar que já estava no aeroporto e que a obra em Itabirito tinha sido confirmada. Ia andando pela rua. Tínhamos problemas de custos. Ele era tão mais jovem que pensei que fosse filho dela. Estava tudo bem. só que fui para o apartamento da Ângela. pressentia que estava jogando o jogo errado e que minha vida estava indo para o lixo. Era bom andar um pouco. No meio da tarde. Como eu tinha reunião no dia seguinte. O jantar foi tranqüilo. ela ligou para o Ibrahim dando uma desculpa a fim de não ir ao jantar. Quem participou das reuniões e foi para um hotel no centro foi o meu sócio Carlos. no escritório. Depois. No caminho. mas não deixou faltar gelo em nenhum momento. Fui atrás do carro de minha mulher até em casa. Ibrahim conversou com minha mulher durante algum tempo. Dei uma bronca tão grande nas duas que ambas se assustaram com a minha reação. sozinho. Mas ela não ficou constrangida e logo me apresentou: — Este é meu namorado. No apartamento.

E eu. Fui para minha casa. o papo estava ótimo. Também era minha amiga de longa data. Abri e dei de cara com Adelita sentada na ponta da cama. Mas o assunto abortou quando sua irmã entrou na sala. inteligente. quando chegava em casa. eram grandes amigas. minha mãe era uma mulher vivida. No dia seguinte. não aparecia. Chorava copiosamente. Contei que tudo havia começado por pura farra. junto com um grupo de amigos. o papo se estendeu por bastante tempo. Muitas vezes saía do meu quarto à noite e ia para a sala ligar para ela. minha mãe ligou. O assunto era discutido a três. Assim que saíram. Francisco e eu tínhamos bebido bastante. nos falávamos por telefone pela manhã. queria saber se íamos falar de Ângela. Uma tarde. Não lembro como Ângela e eu voltamos a nos ver. foi a vez de o Francisco me convidar para um aperitivo. comecei a servir as bebidas e mandei avisar minha mulher que tínhamos chegado e que os dois esperavam por ela. Sem entender o que estava acontecendo.Ainda bem que avisei Adelita que você era um boêmio e mulherengo incorrigível. achei que era a melhor coisa a fazer. durante esse pequeno recesso. Não sei quanto tempo durou essa tentativa de acabar com aquela história e pôr tudo nos eixos. Atendi seu pedido e fui visitá-la. Ouvia as duas combinando de se verem num fim de semana. Chiquito. não tinha a menor importância se estavam desconfiando ou não. A noite. minha mulher apareceu. para um fim de semana na fazenda. . mas com o tempo as coisas complicaram. e queria ter certeza de que ele não tinha mexido no nosso preço. mas fiquei só no pensamento. Entrei e fomos direto para a sala tomar uísque. encontrava minha mulher falando com ela. Assim que chegamos. Estava tão bravo que resolvi fingir que nada tinha acontecido. No começo da noite cheguei à casa do Francisco. Estava curioso. Convidamos o Grande. . pedi desculpas por minha mulher. Voltei para a sala e continuei servindo os aperitivos. Por via das dúvidas. sei que no dia seguinte dei ordens para que a Cida não passasse os telefonemas do Rio. Muita coisa passou na minha cabeça naquele instante. Resolvi não dar explicação. Ficamos abraçados por um longo tempo. não me lembro. Aconselhou-me a cuidar melhor do meu casamento. envergonhado. Quando ela fazia isso. Lembra-se disso? Você ficou tão bravo comigo. Ela me viu e veio me abraçar. fui procurá-la. Fazia uns dez dias que não atendia seus telefonemas. Depois de algum tempo. no fim da tarde. Passou tanto tempo que a situação ficou constrangedora. Era difícil encontrar alguém com as qualidades da minha mulher. Tirei a roupa e estranhei que a porta do quarto estivesse fechada. Por conta da intimidade. ela se negou a recebê-los. então resolvi convidá-los 99 para jantar em casa e continuar a conversa. da minha separação. pois achava que Ângela estaria lá. minha mãe gostava muito dela. era porque tinha coisas sérias para falar. Conversamos umas duas horas. Da minha cama para a dela ou então para a cama da casa da Joana. Minha mulher telefonou várias vezes reclamando da minha demora. O papo continuou alegre. mas Adelita. Eu havia pirado de vez. Fui preocupado. elas e o Ibrahim. estranhamente. Pensava que encontraria Ângela. à tarde e à noite. e já tinha visto muita coisa.Antigos haviam apresentado um orçamento melhor. Estava com saudades. Ela era insistente. Quando não estávamos juntos. mas não me aproximava. Se falamos alguma coisa. Para ela essas coisas não eram novidade. transferiria qualquer interurbano para o Chiquito. Queria saber se eram verdade os boatos que ouvira. Joana e Pedro. entrei direto no banheiro e comecei a encher a banheira em vez de ir para o closet. queria que eu a visitasse no fim da tarde. Para encurtar a história. Eu não tinha noção do motivo daquela atitude. Logo começou tudo de novo. Voltamos com tudo. Em uma das vezes que Ângela veio se hospedar em casa. resolvemos levá-la. De uma coisa eu tinha certeza: a amizade de Francisco e Adelita havia chegado ao fim. eles resolveram ir embora.

Assim que ela o recebeu. Na segunda. mas consegui manter uma aparência calma.Para vocês tomarem enquanto esperamos o motorista que vem nos buscar. uma amiga do Ibrahim. o ambiente era muito bonito. o motorista chegou e fomos para o museu. Enquanto esperávamos. o camarada foi direto para o banheiro. Excitado com a droga e com o que tinha acontecido no almoço. grande jogador de pólo. estávamos cansados. . Após o almoço. Demos um jeito de nos separar do grupo e fomos para a porta. empurrei-a para dentro e depois para um dos reservados. quando voltei para a mesa. Tínhamos levantado cedo. Levantou-se e foi na mesma direção. Adelita e eu passamos um fim de semana na casa de Ibrahim. Quando a visita acabou. Meu pavio encurtou: segui-a até o toalete das mulheres. ligada. como bons amigos. Ângela e eu estivemos com o grupo o tempo todo. tirou uma caixinha de prata e abriu. Hiate Clube. Trazia na mão dois copos de vodca tônica com gelo e limão. Ângela veio nos receber. Botafogo etc. nos convidou para almoçar lá. que nos levou direto para o restaurante lotado. Já deitados. sua arquitetura moderna e a vista para o mar. estava dando uma festa. Depois de uns quinze dias de idas e vindas. Quando chegamos ao apartamento. reclamando que eu não tinha dado atenção a ela. Levanteime e fui para a sala. Segurei-a pelo braço e puxei-a na minha direção. estava tão encantado que dava a maior bandeira. Estava linda em um terninho amarelo bem claro. A conversa estava animada. só a sacudi pelos ombros. mas não vai demorar. não agüentou mais e seu corpo amoleceu. e tínhamos sido convidados. Fomos para o quarto descansar. Fazia pouco tempo que havia sido reformado. Dias depois. Adelita e eu entramos num táxi e voltamos para o apartamento do Ibrahim em Ipanema. que não agüentava ver que . visitaríamos as 100 instalações do museu. que iria para casa e que à noite nos veríamos na casa do Ibrahim. que ela estava alta. Quando apareceu. tanto e com tanta força que a cabeça dela ia para a frente e para trás. a minha mulher foi dar uma arrumada no cabelo e passar batom. pelos seus olhos. ninguém estranhou. O almoço continuou animado. parece que tinha sofrido um incêndio um ano antes. Ângela me ligou do Rio. que. foi atrás do bonitão do museu. Argumentei que a amava. levantou-se. o sorriso debochado a deixava com uma postura desafiadora. que logo disse: 101 — O senhor Ibrahim ainda está na redação. Adorava quando ela ficava assim. Não disse nada. Rapidamente serviu cocaína a mim e a ela. Ficamos numa mesa grande com outros convidados. Depois de alguns segundos. Ângela adorava provocar. Aproveitei a oportunidade para dizer a Ângela que também queria pois tinha percebido. Fomos recepcionados pela amiga do Ibrahim. Chegamos na sexta-feira pela manhã. para sair em ordem. De repente reparei que Ângela estava olhando para um homem. Depois cada um foi para seu quarto e acabamos de nos arrumar. Assim que entramos no apartamento. disse que não estava se sentindo bem. Ângela demorou para voltar. Estava completamente corroído de ciúmes. Depois. Quem abriu a porta foi a empregada. Um nosso amigo de longa data. Tudo foi tão rápido que. Seus olhos brilhavam. e mandou o garçom entregar-lhe um cartão. não conseguia descansar. Ângela estava lá. ele estava vazio. Empurrei Ângela para o vaso e saí. morro da Viúva. Levantava o copo para ela. Meia hora depois.Ninguém tomou conta de ninguém e foi um fim de semana legal. o almoço havia sido longo e a noite prometia ser agitada. que era presidente do Museu de Arte Moderna. minha mulher comentou qualquer coisa como: — Ângela não tem jeito. todos os convidados percorreram o museu para apreciar as obras. estava muito pálida. A tarde estava bonita e fomos curtindo aquele passeio: Hotel Glória. Ao me ver. Tivemos uma conversa áspera. por sua vez. Ela pegou a bolsa.

Reclamei. Lá Ibrahim mandava e. e eu a admirava muito. por ter sacudido Ângela e por não ter coragem de pôr fim a tudo aquilo. mas ninguém se aproximou. Senti um aperto no peito. apesar de lotada. e minha mulher e o Ibrahim apareceram. e fomos todos para a festa. — Em cima do travesseiro tem um presente para você. Espalhou cocaína sobre a mesa de centro. custando para embalar. Minha mulher. muito mais que isso. ouvimos vozes e risadas no corredor. Tinha achado a pergunta engraçada. mas quando olha para outras mulheres não te sacudo. pela vida louca que estava vivendo. Quando voltei para a sala. Adelita foi logo dizendo que eu tinha que me vestir. Estávamos todos muito alegres. Vê-la naquele estado me incomodou muito. em cinco minutos estávamos numa mesa de pista. Um abraço apertado e cheio de carinho. interrompi a conversa e levei Adelita para um canto. resolveu animar a festa. Poderíamos perfeitamente nos enturmar.. Sorri para ela e fui para o quarto. Uma das convidadas estava num porre horroroso. Abracei-a. Me sentia como se fosse dois. Estava ferina também. Voltei para o quarto e me servi de mais uma. Abri o chuveiro e não entrei. tentando me reconciliar com ela. — Também te amo. Meu argumento era tão preciso que ela sorriu e me abraçou. Ibrahim se divertia tirando fotos. e o outro. num sofá enorme. Tanta coisa que achei melhor interromper e voltar para o banheiro. O casal que recepcionava era festeiro. Aquilo era um "eu te amo". De repente. Chorei por minha mulher. Saímos e fomos todos.ela queria tudo e todos. Como o lugar estava na moda. pois eu ria muito. achou que o ambiente estava muito pesado. Abri a porta. alguém poderia chegar a qualquer hora. e fui até o sofá para ver se dava uma força e conseguia tirar aquela mulher daquela situação. e com tesão. Voltei para a sala. ajoelhou-se e começou a cheirar. fazia coisas para me enciumar. Não era apenas um presente caro. queria passar o canudinho para as outras pessoas. sarcástica: 102 — Fizeram amor à tarde? Nova lua-de-mel? Em seguida. Um queria parar. Voltei rindo para o meu lugar. Todos ali gostavam muito dele. Ela dizia que era livre e dona da própria vida. Era em Copacabana. Levantou-se rindo. Era uma jornalista famosa. olhando para a cama à procura do presente. mas ficamos num canto de mãos dadas. Minha mulher e eu não éramos os únicos paulistas. Algum tempo depois. Ibrahim nos chamou para ir a uma boate. por saber que eu a amava. Ângela e eu nos sentamos juntos. uma mulher linda. Balancei o pulso para mostrar e fui pegar algo para beber. com elos grandes e uma placa com minhas iniciais. Os três quiseram saber o que tinha acontecido. Às vezes. que era conhecido de todos e andava sempre alto. . Estava tão bêbada que ninguém se aproximava. dava a impressão de que ia vomitar ou cair do sofá. Aquela cena continuava e ninguém ia socorrê-la. Era uma pulseira de ouro. como você fez. Todos sabiam que iriam para a coluna dele. sentada sozinha. A festa estava morna. Um casal se juntou a nós. minha mulher e Ibrahim sorriram para mim e ele quis ver minha pulseira. disse que ela. era muito..Você é casado com aquela lá? Qual dos dois é rico? Ela não estava só de porre. — Como podemos pensar em viver juntos depois do que aconteceu esta tarde? Falávamos depressa. Suas festas eram famosas. Pediu para as pessoas se aproximarem. naquela hora. quase jornalística. num apartamento lindo. querendo dizer muita coisa. Olhou direto nos meus olhos e disse: . ela se afastou. Dois casais amigos deles se juntaram a nós. mais convidados chegaram. Sentei num banco com os cotovelos nos joelhos e as mãos na cabeça e chorei. Respondi qualquer coisa e mudei de assunto. Sabia muito bem o que aquela pulseira representava. Tinha acabado de me sentar e sorria para ela quando ela me surpreendeu. Na verdade eu estava assustado com aquilo tudo. Ângela se aproximou e disse baixinho. Um amigo meu.

Finalmente. onde o pessoal ficava na tranca o tempo todo e não tinha nem banho de sol. Rapidamente os bombeiros entraram e nos ajudaram a descer por um escorregador inflável. Depois de vinte minutos. Muitas vezes ouvi reclamações revoltadas de internos que contavam a vergonha que a esposa. Aquilo me estressou de vez. já que este era um dos negócios mais rentáveis. Dei as mãos para Adelita e tentamos ficar calmos. curtindo a preguiça. o avião começou a descer. A boate 103 ficava em Ipanema. A maior parte dos passageiros estava bem. ela comentou que Ibrahim ia ficar chateado por termos saído da casa dele assim. Depois de taxiar por um tempo que pareceu uma eternidade. Rimos daquilo tudo e fomos dormir. Era difícil imaginar como a droga entrava. Estávamos tão bem ali que nem saímos do apartamento. parecia calma. o alarme tocava e todos iam para seus cubículos. derrubando cadeiras e ele também. até estiletes eram encontrados. disse um monte de desaforos e ameaçou ir para cima dele. Da piscina se ouvia o burburinho alegre dos hóspedes. ouvimos o comandante: — Vamos para o aeroporto de Campinas. Tinham que tirar a calcinha e ficar de cócoras em cima de um espelho. Os funcionários desconfiavam da gente porque. como andávamos por todo o prédio. Puxei minha mulher para dentro de um táxi. sabíamos se ele estava metido em alguma encrenca. Pediu para pormos a cabeça entre os joelhos e começou a descer. Minha mulher deu alguns telefonemas. fomos para a casa do Ibrahim arrumar nossas malas e baixamos no Anexo do Copacabana. Muita gente saiu de dentro para ver ou apartar. que dava para a piscina. QUANDO A SIRENE TOCAVA DURANTE O DIA todos ficavam apreensivos. Entrei no meio. minha mulher permaneceu como sempre: calma e tranqüila. Quem tinha coragem de fazer isso seguramente sustentava com folga sua família. Quando já estávamos bem baixo. Não há ressaca que resista a um café-da-manhã no terraço do Anexo. Não se preocupem. No dia seguinte. Estávamos quase na pista. a pista lá é muito longa. um elixir. O cubículo C-2 . em princípio éramos os transportadores ideais. voltamos para São Paulo. Todos batemos palmas. e Ângela me tirou para dançar. irmã ou mãe tinham passado ao serem revistadas. quando um homem a pegou pelo braço e disse qualquer coisa no ouvido dela. que eram literalmente revirados. Durante toda aquela confusão. o avião não descia. de madrugada. Ela puxou o braço. Só poderei dar uma pedalada. em frente a uma praça. depois de uma soneca. principalmente lá. inclusive para Ângela e Ibrahim. e fomos parar no meio da rua. Ibrahim que só naquele momento apareceu. Mais tarde almoçamos de novo no terraço e. ficava dando voltas e mais voltas. e jogavam espuma na cabeceira. Nosso cubículo era sempre o último a ser revistado.Já era tarde. Só não desmontavam os beliches. usou o freio e o avião parou. Quando chegamos ao hotel. Ficamos ali. Minha mulher olhava. Quando chegamos a Congonhas. Nada de descer. Levantei a cabeça e vi que estávamos a poucos metros dos bombeiros e da espuma. os amigos do sujeito o colocaram num táxi e Ângela e minha mulher me acalmaram. Depois de algum tempo esvaziando os tanques de combustível. 104 A ÁGUA SANTA ASSUSTAVA. se traficava drogas dentro do presídio. Quando a administração pegava alguém puxando fumo ou cheirando coca. duas da manhã. O comandante falou novamente. A confusão foi grande. mas ninguém conseguiu nos segurar. explicando que havia uma boa chance de a única freada dar resultado. Alguns rezavam e uma senhora chorava discretamente. tomamos café no apartamento do hotel. O pedal do freio está com defeito. Aquilo é um colírio. Por exemplo. As visitas eram revistadas minuciosamente. já que a pista era enorme. olhei a pista. São incríveis as histórias que ouvíamos. por mais que conhecêssemos nossos companheiros de cubículo. para que a segurança do presídio tivesse certeza de que não carregavam nada na vagina. disse qualquer coisa da qual não gostei algo como: "Você não precisava fazer tudo isso". Havia muitas ambulâncias e carros dos bombeiros. porque nunca.

era mais visado ainda, porque lá estava o pessoal da cozinha e do almoxarifado, recebiam mercadorias em sacos ou em pacotes. De vez em quando alguém rodava por se meter nesse negócio de tráfico. A única seção que não tinha um chefe era a biblioteca. Quando eu ia entregar os livros nas galerias, o funcionário de plantão folheava um por um. No nosso cubículo, tinha um pessoal que estava sempre junto: Professor, Paulo, Chiquinho, Cabeça e eu. Saíamos pela manhã e, a não ser em caso de extrema necessidade, só voltávamos às cinco da tarde. Na hora do almoço o encontro era na cantina, e durante o dia dávamos um jeito e cada um ia à seção do outro. Procurávamos saber tudo o que se passava, para ficar bem longe das encrencas. No C-2, que ficava bem em frente ao nosso cubículo, o pessoal dormia no chão, em colchonetes. Tinha mais ou menos vinte pessoas lá. Um deles era um negro bonito, de 1m 80 de altura, uns 25 anos de idade. 105 Vou chamá-lo de Apoio. Nas refeições, carregava sozinho uma panela de arroz pelas galerias. Outras panelas do mesmo tamanho eram carregadas por pelo menos duas pessoas. Depois de servir o jantar, já trancado ele treinava capoeira. De vez em quando, dava uns dois passos para trás tomava impulso e dava saltos altíssimos, batendo com força os pés na parede. Era um camarada gentil. Quando queríamos repetir o prato, era o único que voltava e nos atendia. Eu só encontrava com ele no caféda-manhã e à tarde, quando o jantar era servido. Era introvertido, não era de ficar de papo com ninguém. Chiquinho me contou que o artigo dele era o 157, parágrafo 3º, assalto à mão armada seguido de morte. Treinando ou não, estava sempre com um rapazinho branco, com corpo de menino, 1m 65 de altura, mais ou menos. Reparei que Apoio e o menino dormiam em colchonetes vizinhos. E mais, o menino cuidava de tudo para ele. Tenho certeza de que, por mais vontade que alguém tivesse de abordar o garoto — na prisão, garoto é o rapaz que vira "moça" lá dentro —, não teria peito de enfrentar seu "protetor". Depois de algum tempo observando o comportamento dos dois, conversando com Chiquinho, disse para ele que tinha pena do garoto, por ter que ser mulher do Apoio. Chiquinho debochou e riu: — Você não percebeu ainda que a esposa é o Apoio? Um dia, eu estava muito chateado, transtornado mesmo, porque soube que teria de vir a São Paulo, para ser ouvido em um processo sobre um acidente que tive, no final dos anos 60. Depois, iria a Santos, para ser ouvido em processos por rixa que vinham desde os anos 50, no Guarujá. Os dois processos já haviam sido liqüidados. O do Guarujá, na época eu era menor de idade, e o processo já tinha caducado. No caso de São Paulo, eu já tinha, na época, ganhado a causa. O que a promotoria queria era me impedir de fazer uso da Lei Fleury, que me permitiria esperar o julgamento em liberdade. Alegava que eu não era réu primário. Pedi a meu pai que grudasse no dr. Evandro e não o deixasse em paz enquanto não desse um jeito naquela loucura. Apavorado, larguei a biblioteca aos cuidados do meu ajudante e fui à portaria, só para andar um pouco e ver se tirava a história da minha cabeça. Vi o tenente — o segundo na hierarquia do presídio, depois do capitão — conversando com uma funcionária que eu nunca tinha visto. Era uma mulata gorda e risonha, de uma simpatia irresistível. Estavam 106 perto um do outro quando cheguei. O tenente me viu e fez sinal para que me aproximasse. - Você conhece a Madrinha? É a encarregada da ala feminina. Ela apertou minha mão com um sorriso enorme. Com tanta impatia fiquei à vontade e comecei a conversar com eles. Tinha muita curiosidade sobre a ala feminina e fiz várias perguntas. Ela pacientemente respondia a todas. Explicou que as mulheres davam muito mais trabalho que os homens, porque tinham muitos problemas. Acho que a Madrinha também foi com a minha cara, pois em seguida me levou à ala das mulheres. O

tenente estava ocupado e sugeriu que fôssemos sozinhos. Ela me conduziu por um corredor que eu ainda não conhecia e, antes de entrarmos, pediu que não me dirigisse às internas. Andamos pela galeria inteira, ela ia falando com as moças, contando quem eu era, que trabalhava na biblioteca e que mandaria uma lista com os livros e revistas. Parava, aproximava-se de uma ou outra grade para fiscalizar alguma coisa, sempre sorrindo, chamando cada moça de "minha filha". Não achei que o lugar estava à altura das exigências do diretor. Era estranho, parecia encardido. Agradeci a Madrinha, que me levou de volta ao corredor e trancou a grade de ferro. Nos despedimos e fui para o setor de disciplina, que controlava a localização de todos os presos. Conhecia os internos que trabalhavam lá e queria pedir ao funcionário que me dispensasse, pois não estava me sentindo bem. Em frente à mesa dele, vi uma planta do presídio. Em um canto da página havia informações sobre o número de funcionários e de presos. Olhei várias vezes, não acreditava no que estava vendo. Onde estava registrada a quantidade de presos, lia-se: 1800. Perguntei se havia algum engano, mas o funcionário confirmou. Pelo barulho que se ouvia nas galerias, eu já desconfiava que tinha ouvido mal quando o diretor me informara que cuidava de oitocentos presos. Dali voltei para o cubículo, esperando que meu pai aparecesse e trouxesse notícias. Como não tinha nada para fazer, comecei a ler o que havia escrito no dia anterior. Lembro bem daquele instante, achei tudo muito piegas. Falava de Adelita e de Luis Felipe, meu filho: "Que tristeza, nossa mãe. Como pude abandonar Lipe e Adelita. Deus queira que eles consigam me desculpar. Chove forte, os rapazes que ocupam o beliche perto do terraço vão se molhar. Não existe nada mais triste que este lugar infecto. Com a chuva a tristeza aumenta. E Ângela, onde estará? Rezo 107 dia e noite para que esteja num lugar lindo. Meu Deus, o que aconteceu com nosso amor? Vou parar de escrever senão enlouqueço". Depois de ler aquilo, risquei tudo e escrevi: "É, hoje é dia de tristeza mesmo. Está tocando Olhos nos olhos com Maria Bethania, era a nossa música preferida. Tudo agora são lembranças". Estava angustiado com a viagem que faria, de camburão, até São Paulo e Santos. Escrevi o que me veio à cabeça naquele momento: "Que saudades dos nossos passeios de madrugada na praia dos Gravatás, de mãos dadas, rindo, brincando e nos beijando, beijos intermináveis. Onde está meu amor, meu sol, meu mar, meus sonhos? Sonhos, antes fossem sonhos, pelo menos eu despertava desse pesadelo. Tudo se deteriorou. Muito pó? Muita loucura? Muita... muita... muita...". Felizmente, no fim da tarde, dr. Lavigne e papai apareceram com duas boas notícias: a primeira era que tinham frustrado a armação para eu ir para São Paulo e Santos; além disso, dr. Evandro tinha encaminhado novo habeas corpus, pleiteando a revogação da minha preventiva. Que alívio! Estava livre do camburão e de interrogatórios sem pé nem cabeça. O dr. Lavigne foi embora e papai e eu ficamos conversando até tocar a sirene, sinal de que era hora do jantar e da tranca. Tive de largar papai sozinho e sair correndo, porque quinze minutos após a sirene havia um "confere" e o interno tinha de responder alto e mostrar-se para o guarda. No dia seguinte, amigos e parentes me visitaram: papai; Luiz Carlos, meu irmão, e sua esposa May; e meus amigos Carlos Rangel e Ronaldo Cunha Bueno. Numa madrugada, quase no fim de abril, a sirene tocou por cerca de quinze minutos. No terraço estavam dois policiais militares com metralhadora no ombro, completamente despreocupados. Voltei para o meu lugar e fiquei esperando. Nem um funcionário apareceu. Ouvi o barulho dos guardas e um berreiro, urros que imagino terem sido de dor, mas não vi nada. A administração, no dia seguinte, estava tranqüila, ninguém fez nenhum comentário. Houve uma ordem escrita, que todos os que tinham faxina assinaram: "É expressamente proibido ir à galeria A". O Chiquinho, que descobria tudo, me contou o que tinha acontecido. Três internos da "A" serraram as grades do cubículo e conseguiram chegar até a escada, onde foram flagrados tentando serrar as grades da porta de ferro. Os três foram para a solitária.

108 A VOLTA DO AEROPORTO DE CAMPINAS PARA SÃO PAULO, DE TÁXI, FOI um passeio. Adelita e eu viemos de mãos dadas, curtindo aquele momento. Afinal o fim de semana tinha sido atribulado. Para variar, eu me sentia aflito. Estava mais que provado que meu relacionamento com Ângela era explosivo. Mas eu também gostava muito da minha mulher. O que eu sentia por Ângela era uma coisa pesada, como um vício. Mas, longe dela, sentia falta do seu corpo, do seu cheiro, do seu jeito de ser e de pensar. Sua vontade de desafiar era insaciável. Perto dela me sentia envolvido por seu carisma, seus beijos, sua luxúria. Pensava nisso quando chegamos em casa. Paguei ao motorista, chamei o guarda para ajudar com a bagagem e fui para a sala preparar um uísque. Enquanto minha mulher foi ver nosso filho, fiquei ali sentado me perguntando o que queria da vida. O que eu estava procurando? Essas questões me afligiam. O que eu queria, arrebentar tudo? Quando comecei com Ângela, achei que éramos almas gêmeas e queríamos as mesmas coisas, tirar "sarro de tudo e levar a vida... Levar a vida, meu Deus do céu! Eu era um homem casado, tinha dois filhos. Nesses momentos a realidade me atingia em cheio, e eu sentia o abismo, ali, bem perto. A vida continuava, louca do mesmo jeito. Uma tarde, na casa da Joana, me abri com Ângela, dividi com ela meus conflitos e angústias. Ela ouviu tudo e reclamou por eu nunca ter me aberto daquele jeito antes. Depois, começou a falar de sua vida com Ibrahim, com seus filhos, e dos problemas que tinha com a Justiça. Contou que Ibrahim era uma pessoa maravilhosa e a ajudara muito, mas estava longe de ser um relacionamento definitivo. Ela não o amava e não esperava nada dele. Ao mesmo tempo, eu tinha aparecido e a transformara em uma viajante. Ela vivia na ponte aérea. Não estava reclamando, ela gostava de mim, era o preço. Mas pela primeira vez em muitos anos estava apaixonada e queria viver com alguém. Diziam que eu era uma pessoa difícil. Não se preocupava com isso, pois imaginava as coisas que falavam dela. Aquela noite cheguei em casa muito confuso. Tinha a certeza de que, em algum momento, teria de tomar uma decisão. A vida é engraçada, há um momento no qual tudo se acomoda. Comecei a encarar aquela vida de maneira normal, e as coisas caminhavam 109 para isso. Se não fossem as drogas, talvez nunca tivesse saído de casa "Talvez"... é estranha essa palavra, pode dizer tanta coisa. A vida caminhava de maneira também estranha. Às vezes parecia o globo da morte, onde os motociclistas ficam rodando, rodando e rodando. Minha mulher resolveu, de uma hora para outra, convidar um grupo de cariocas e paulistanos para um fim de semana na fazenda. Ângela e Ibrahim trariam um casal de amigos. Depois, Joana e Pedro, Chiquito e o Grande. No começo da noite, todos se reuniriam em casa e de lá partiríamos. Chegamos à fazenda tarde e cansados, acomodamos os convidados e fomos todos dormir. Aquele fim de semana, aparentemente, seria chato. Só aparentemente, pois Chiquito estava encantado com Joana, e Grande, de olho na mulher do amigo do Ibrahim, a Gracinha, um amor de pessoa, que era pelo menos vinte anos mais nova que o marido. O pessoal ficava apreensivo quando Ângela e eu sumíamos. Nunca estávamos no grupo e conseguíamos escapulir sem deixar rastro. Achavam que estávamos folgando demais e poderíamos ser flagrados. Na verdade, ninguém estava preocupado em flagrar ninguém. Era apenas mais um sábado e domingo entre amigos que não tinham nada melhor para fazer e se reuniram na fazenda de um deles. O Ibrahim e seu amigo eram os mais velhos, tinham pelo menos quinze anos a mais que os outros. Formavam uma dupla à parte. Chiquito estava com o caminho livre, pois Joana achou graça na situação e Pedro era uma pessoa estranha, meio alheia a tudo. Tinha problemas por causa de seu passado, parece que esteve preso na Itália, e por isso vivia aqui. Quase não saiu do quarto. O Grande

ficou fazendo graça para a mulher do amigo do Ibrahim, e minha mulher tinha ido pôr ordem na casa, porque resolvera convidá-los de última hora e fomos para a fazenda sem avisar. Olhando para trás, tento entender o porquê das coisas, e fico confuso. O que estávamos fazendo? A situação já andava complicada. Na última vez que estivemos no Rio, os acontecimentos foram estranhos. Era mesmo o globo da morte, girando, girando, e sempre no mesmo lugar? O fim de semana continuou. Ângela e eu estávamos ligadíssimos, só pensávamos em estar juntos. Saímos várias vezes para caminhar sozinhos. Não sei como não houve nenhuma cena de ciúmes. Fomos tão irresponsáveis que o Grande, na segunda-feira, falou: - Cara, vocês quase me enlouqueceram. O tempo todo foi por um triz. Uma hora, de madrugada, Ibrahim quase pegou vocês na cozinha. 110 É verdade, tínhamos corrido muito risco, mas não aconteceu nada. O fim-de-semana acabou e tudo voltou aos seus lugares. Na verdade, a única conseqüência daquele fim de semana foi que, alguns anos depois, o Grande se casou com a Gracinha.. Na volta, os cariocas dormiram na nossa casa e, no dia seguinte, Ibrahim e o casal voltaram para o Rio. Ângela foi para a casa da Joana. Aquilo já era normal, ninguém estranhou. Já tinha virado rotina eu passar parte do dia na casa da Joana. As idas para o Rio é que tinham diminuído. Eu estava muito atarefado com as duas concorrências que a Brasilos havia ganhado. Era comum que eu tivesse a sensação de querer, e também de não querer. Quando estava com Ângela, achava que, custasse o que custasse, queria viver com ela. Quando ela ia embora e eu passava mais tempo com a minha família, tinha certeza de que a minha casa era o meu lugar. Sentia isso mais forte quando desconfiava que Ângela aprontava quando não estávamos juntos Numa noite, jantando na casa de amigos, resolvi telefonar para Ângela, que tinha chegado no fim da tarde à casa da Joana. Ouvi uma música alta, sinal de que Joana tinha convidados. Apesar das palavras carinhosas, fiquei perturbado. Perturbação que aumentou quando, na volta do jantar, de madrugada, passei em frente ao apartamento de Joana e vi que as luzes estavam acesas. Tive vontade de parar o carro, ir até lá e acabar com a festa. Nessas ocasiões, corroído pelo ciúme, planejava ir levando a vida daquele jeito mesmo, pelo menos até dezembro. Todo ano, um pouco antes do Natal, íamos para Punta del Leste e só voltávamos trinta ou quarenta dias depois. Tinha esperança de que, longe de Ângela e perto de minha mulher, tudo se resolveria e a vida entraria nos eixos novamente. Louco da vida e cheio de ciúme, no dia seguinte não fui visitá-la. Passei a manhã no escritório, voltei para casa depois do almoço e não saí mais. No começo da noite apareceu Chiquito. Para ficarmos sossegados fomos para a sala de sinuca. Assim que começamos a jogar ele disse: — Ângela ligou várias vezes, e agora há pouco telefonou do aeroporto, louca da vida, dizendo que estava cheia de esperar. Aliviado com a atitude dela, resolvi dar uns dias para que ambos tivéssemos tempo para pensar. Chiquito deu risada da minha decisão. Voltamos a nos falar 24 horas depois. Liguei à noite, antes de sair do escritório. Tinha passado o dia tentando trabalhar e não pensar na vida. 111 Assim que atendeu, ela disse que aquela vida estava nos deixando loucos. Precisávamos decidir o que queríamos. - Ninguém agüenta viver assim. Resultado: no dia seguinte fui buscá-la no aeroporto e de lá fomos para a casa da Joana. Os argumentos dela eram justos. Estava cansada de estar sempre na ponte aérea ou escondida na casa da Joana. Poderíamos viver em Búzios ou em Belo, numa casa dela que ela havia acabado de reformar. Eu queria muito resolver tudo, também estava cansado. Mas tinha um filho de três anos, não podia

sair correndo assim, sem olhar para trás. Eu a amava muito... Por isso quis aquela conversa. Apesar disso, me sentia em queda livre, completamente desorientado. Resolvi que precisava de mais tempo para pôr meus negócios em ordem. A partir daquele mês, minha renda aumentaria. Durante dois anos iria receber, todo mês, uma comissão pela intermediação financeira que tinha acabado de realizar entre dois bancos. Isso me dava tranqüilidade, teria tempo de começar algum outro negócio onde quer que fosse viver. O complicado mesmo era a Brasilos. Um dos meus cunhados era meu sócio, e eu precisava transferir as ações da firma para ele. Apesar de minha cabeça estar um caos, sabia que com esses problemas logo chegaria dezembro e eu iria para Punta. Lá, teria a tranqüilidade para decidir o que realmente queria fazer. Tinha medo do sofrimento que ia causar ao abandonar mulher e filhos, que isso arruinasse minha vida e fosse impossível voltar atrás. Voltei para casa, depois de ter passado a tarde pensando em sair de lá. Ficava sem cabeça, principalmente porque quando entrava lá reencontrava minha vida. Aquilo tornava tudo muito louco. Eram dois mundos. Estava com um pé em cada um. Para mim, era difícil ser carinhoso com minha mulher, brincar com meu filho. Sentia culpa. Na época, muita coisa já estava diferente em nossas vidas, inclusive a social. Não saíamos mais com os amigos de antes. Estávamos sempre em programas com Ângela, Ibrahim e o casal de italianos. Uma tarde, uma amiga de muitos anos foi ao meu escritório. Não quis entrar, preferiu tomar um café no boteco da esquina. Depois de falar de banalidades e de me olhar por alguns segundos, disse: — Nossa, que saudades, você sumiu. Andam falando que você vai se mandar com a Ângela. 112 Não tive outra coisa a fazer senão sorrir. Minha amiga tinha bastante liberdade comigo, para perguntar o que quisesse. Parece que a vejo sentada, no banquinho do balcão, esperando minha resposta. Como não veio, ela disse: — Vê lá o que você vai fazer. Depois tomamos o café, conversamos mais um pouco e ela partiu. Logo ganhou corpo a idéia de uma nova festa em nossa casa. A lista de convidados era enorme. Cardápio, bebidas, garçons, música, já estava tudo arrumado, a data tinha sido marcada e se aproximava. Aquilo trouxe uma movimentação incomum à vida da minha mulher. Adelita tinha tanta coisa para resolver e precisava tanto de ajuda que aquele se tornou um momento de proximidade. Vivia recorrendo a mim para saber o que fazer ou quem convidar, principalmente quando se tratava de amigos do Ibrahim. Era um pessoal mais velho, que mal conhecíamos. Optamos por não convidálos. Na mesma época, Ângela passava uma temporada maior aqui, estava praticamente morando na casa da Joana. Talvez tenha ficado preocupada porque eu estava muito junto da minha mulher. Nessa nova temporada, não sei por quê, nos drogamos muito mais. Passamos dias inteiros juntos. Ninguém nos via, nem a dona da casa, pois não saíamos do quarto. Ângela passava por uma fase de grande beleza e sensualidade. Sua pele, seus trejeitos e seu desejo a deixavam no auge. Não conseguíamos nos separar. Quando não estávamos juntos, estávamos ao telefone. Foi tudo tão louco que comecei a me preocupar com o fim de ano em Punta. Ao contrário do que tinha planejado, comecei a pensar em como faríamos para ela ir também. Ângela não dava importância aos problemas que tinha com a Justiça. Não tomava conhecimento. Só a vi preocupada uma vez, quando já estávamos vivendo juntos. O advogado havia conseguido adiar uma audiência e ela comentou, rindo: — Era só o que faltava: eu presa e você solto por aí. Vou ficar doidinha. Quando falávamos sobre essas coisas, ela ria muito e sempre contava a história dos dias em que esteve presa e fazia permanente no cabelo das companheiras de cela. Uma tarde, pouco antes da festa, ela falou em tom de brincadeira, mas não muito: — Você podia ir até sua casa, pegar algumas roupas, e podíamos nos esconder por uns tempos na

que não sabia o que faria se resolvesse viver com ela. É verdade que nunca bebi tanto na vida. justificando um para o outro nossas atitudes. Uma tarde. Estava mais envolvido que nunca. minha vida familiar voltou um pouco à normalidade. Abandonar tudo? Telefonei para Adelita e convidei-a para ir ao cinema. Fomos ao cinema e depois jantamos. Parecíamos dois namorados adolescentes. o pão-duro do Caio. fomos a festas. disse qualquer coisa como: . ela se levantou. Ela não aceitou. Adelita e eu passamos um fim de semana na fazenda. Eu. exigir que as ligações fossem pagas por mim. talvez ciúme. curtíamos estar só nós dois. jantares. fugir era uma saída. e eu só poderia estar com ela à noite. Um tempo em Punta para pensar. em Punta. blusa e botinha. Mudei de assunto. Ou talvez. Sugeriu . só estive lá uma vez. Não fui outras vezes porque ela realmente tinha muita coisa para resolver.casa de uma amiga em Manaus. o vestido não ficará pronto. minha secretária. a ponto de meu sócio na imobiliária. íamos muito ao cinema. De repente. Em seguida foi para o quarto. quando a minha cabeça já tinha esfriado e eu procurava me concentrar nos assuntos do escritório. sem esperá-la. que estava numa ótima até aquele momento. acabamos de uma vez com esse negócio de ter que nos esconder. o telefone tocou. voltei para a minha sala. nos bastávamos. não precisávamos de ninguém. Fui ao seu encontro. como a obra ainda não tinha começado. Acho que ela ficou em Belo quase duas semanas. Passamos 114 temporadas na Argentina. Cida. comecei a falar da festa. Meia hora depois. Era Ângela. Mas naquele momento ri e levei na brincadeira. Fiquei aborrecido com a atitude dela. Quando chegamos em casa e estávamos entrando no quarto. Ela estava linda de jeans. Ângela e eu ficamos nos beijando. estivéssemos mais sensíveis. me leva para o aeroporto. Quem atendeu foi minha mulher. Batíamos longos papos. em Paris e em vários lugares. Garanto 113 que ninguém vai nos encontrar. Para mim. com toda a família dela. Vou arrumar minhas coisas. Durante esse tempo. é dona de um jornal importante de lá. Mas falávamos por telefone várias vezes por dia. A porta de trás do táxi estava aberta e ela sorriu ao me ver. Um deles dizia respeito ao processo de um caseiro que tinha sido morto no jardim de sua casa.. Enquanto isso. assistíamos a todos os jogos do Brasil na cama. teria de passar muito tempo sozinho. Ângela telefonou. mas. Chamei a Cida e pedi que acompanhasse o motorista até a copa e servisse um café. Ela manda na cidade. Não sei exatamente o que se passou na minha cabeça. Ficamos Paris trinta dias sozinhos. . Estava louco. Tranquei a porta e fiquei pensando. Em época de copa do mundo. logo nos primeiros dias. sem maquiagem. Saí e fui para o escritório. Só não bebia no escritório. Quando finalmente ela partiu. por seu namorado na época. Assim.Só vim dar um beijo. Estava terminando o que tinha para fazer e sentia saudades. . Passava esse filme na minha cabeça quando cheguei ao escritório dela e a I esperando na porta. Sempre fomos grandes companheiros. Nesse intervalo.Já que não vamos para Manaus. por ambos estarmos muito loucos.. avisou que Ângela estava me esperando em um táxi. A ponte em Itabirito estava contratada. dos convidados e da animação da minha mulher e do Ibrahim com a entrevista. Nada estava caminhando como eu planejara. era caubói o tempo todo. Aquela constatação me fez voltar à realidade. fui atrás dela e sugeri que partisse no dia seguinte. preciso experimentar o vestido que mandei fazer para a festa.Se eu não for. Ângela contava que teria de ir a Belo Horizonte resolver alguns negócios. sempre passávamos o fim de semana na fazenda sozinhos. já sabia que tinha de me preparar para largar tudo e ir embora. Ouvi a conversa pela extensão ao lado da cama.

que fosse buscá-la. Não sei quanto tempo depois. Ângela só voltou ao Rio porque Ibrahim a esperava desde o dia anterior. e decidi encontrá-la um dia depois do combinado. ela estava no aeroporto me esperando. na festa em Copacabana. entramos no apartamento e só saímos de lá para voltar a São Paulo. pediu que eu passasse o dia seguinte com ela. depois do almoço. No fim do dia. Não avisei a ninguém que estava indo para o Rio. parecia feliz. . conforme o combinado. Nem parecia que estivemos separados por quase duas semanas. No meio da tarde levei-a ao aeroporto.Você está indo para o Rio no próximo avião? Confirmei com a cabeça. Nem passou pela nossa cabeça que nos aeroportos e no avião poderíamos encontrar conhecidos. acordei com a criada batendo à porta. 116 . tenho uma reunião muito importante. escutei: . Fiquei pensando sobre essas coisas. e às sete da noite eu já estava em casa. fui encontrá-la novamente. O trânsito estava horrível. Na despedida. lembra de mim? Olhei para os lados. sou eu. como sempre. e eu fui para o escritório.Ela está na casa do senhor Ibrahim. mas que ainda tinha pendências. Fizemos as pazes e nos falamos várias vezes depois disso. e dona Ângela ligou para o senhor. Não queria pensar na minha vida dupla. bateu o telefone. cheia de luz. Fomos direto para o hotel. e ela aproveitou para me contar detalhes de sua separação do ex-marido. eu também tenho um compromisso que não posso adiar. ô bonitão. Será que ela se lembrava da festa? . Esvaziei um pouco a banheira e repus a água quente. . bem cedo. Mas a pista estava fechada. O meu vôo é o terceiro. Fiz várias ligações depois disso. Passaríamos uma noite e parte do dia no hotel. Ela ficou furiosa. O dia estava feio e tínhamos a informação de que os vôos estavam saindo com grande atraso. para ver quem era.. liguei para a casa de Ibrahim e me informaram que Ângela deveria chegar só na hora do jantar. pouco antes do almoço. 115 Conversamos sobre os últimos dias. Mas aquele instante era só nosso. Ficamos curtindo a espera no bar. Finalmente chegamos ao hotel. mas no dia seguinte. Ela se aproximou e me beijou. nem procurá-la mais. que tinham sido ótimos. não se enxergava nada. Doca. poderia ter aproveitado a oportunidade e salvado meu casamento. . e a empregada dizia sempre a mesma coisa: .Desculpe. Demorei a reconhecê-la. pois o destino dela era o Rio. Ângela e eu passamos o dia no quarto. Só voltei a falar com Ângela no dia seguinte. angustiado. Ela deu um adeusinho sem graça e se afastou. já estou com a ficha de embarque. Estava elegantíssima.Oi. Vamos trocar as passagens? Vou no seu lugar. Na verdade. disse que não precisava mais ir. mas na hora de marcar as passagens resolvemos que ela viria comigo e só voltaria para casa na tarde seguinte. pois ainda tinha umas coisas para resolver e isso poderia ser feito por telefone. Deixei-a na casa da Joana. No dia seguinte. Ela se levantou e caminhou sem olhar para trás.Sua esposa avisou que vai se atrasar. enchi a banheira e fiquei pensando na vida. Era aquela jornalista que estava de porre.Preciso de um favor. e com dois uísques na cabeça cochilei.. Cheguei cedo em Belo e. A intenção era voltar no fim da tarde. Sua presença chamava a atenção. Quando tentei explicar. Queria me desligar dos meus pensamentos. Quando chamaram para o embarque. A vinda de Ângela para São Paulo também não fazia sentido. que assinara havia algum tempo. Resolvi ser prudente. fui para o aeroporto. Fui chateado para casa. Decidi não retornar a ligação e ver o que aconteceria. Vi uma mulher sacudindo uma passagem e tentando desesperadamente se aproximar. Os alto-falantes anunciaram seu vôo. Ela estava linda. Os aviões só começariam a decolar lá pelas dez.

sem dúvida. sentado naquele beliche. Para mim foi um dia especial. pois é dia de visitas. Conheci internos que. A maior tristeza e decepção era a dos internos esquecidos pelas famílias. Tinha sido egoísta e irresponsável. por culpa nossa. queríamos também uma família. com a colheita de café ou algodão. que. tenho certeza. Depois de descarregarem.. enfim. como carinhosamente chamo meu filho. soltavam os animais para . que seria julgado em poucos dias. Logo que cheguei àquele presídio. que queríamos tudo da vida. e fica a realidade. mas depois tudo se acertou. antiga Estrada Velha de Campinas. continuavam na profissão. perto da via Anhangüera. Não por culpa da Ângela. o caído não tem saída. córregos. acho que ela também me amava". em março de 1977. Eu era um privilegiado. um abraço apertado de quem não queria sair. ela dizia aos berros: — Quer voltar pra ela. A imagem do meu filho me abraçando na hora da partida. fazendo isso. Da Cachoeira. Ao voltar para o cubículo. roças de café. No fundo. quando acaba a visita. triplicaram suas penas. no meio das nossas brigas. plantações de algodão e uma fantástica tropa de burros e cavalos. as bagunças e. No começo foi um pouco difícil. faxina e algum dinheiro. os prazeres. por exemplo. os guardas. Sempre 117 acabavam voltando. até as reservadas para os advogados eram cedidas às famílias dos internos. quando saí de casa e deixei Adelita. escrevi: "Será possível amar duas mulheres ao mesmo tempo? Os cinco anos que passei com Adelita foram felizes. como o tráfico ou o jogo do bicho. Geralmente enfiava a cara num livro ou aproveitava para escrever. Lavavam roupa. tinha visitas. Era lindo. Como deveria estar a cabeça de um adolescente cujo pai havia sido preso por descarregar a arma na amante? Apesar de tudo. e só passava bem na fazenda. felizes mesmo. era duro. chorei muito. Podiam tentar atividades mais rentáveis. Quantas vezes. Além de papai. Normalmente. Queríamos os amores. meu filho estava me visitando. tomava cuidado para não magoar os companheiros. não conseguiam. Era esse o nome da fazenda dos meus avós maternos. As salas de visitas ficavam todas tomadas.. no fim da tarde. apesar dos poucos meses de convivência. Se tinham coragem. os internos ficam arrasados. naquele dia tudo ficou em segundo plano. Os familiares vão embora. sem ao menos dar uma explicação ou um telefonema de adeus. sei que.. gado. para ir ao jardim-de-infância. faziam trabalhos manuais que vendiam nas galerias e para as visitas. eu estava infeliz. Ao vê-lo na sala de visitas. é bem remunerada. ele estava ótimo e demonstrava serenidade. Na verdade. quando cheguei ao cubículo. limpavam o cubículo no lugar do outro. Eu estava contente. apareceram de surpresa mamãe e o Raul — o Rá. eu achava que ainda não seria dessa vez. fiquei aliviado.. alguma coisa me avisava para não ter esperança. muitos deles viram indigentes dentro do sistema prisional. Ângela era muito inteligente e. está com saudades? Saudades era o que não me faltava.PRIMEIRO DE MAIO DE 1977. o bastante para saber que ao partir com ela. DIA esperado pelos internos com ansiedade. abandonando tudo. ao primário. a rotina. Duzentos alqueires de paraíso: rios. Naquela tarde. Hoje. Era horrível a culpa que sentia por ter saído de São Paulo com Ângela. ver os carroções chegando com os colonos. Estávamos todos comentando o habeas corpus pela revogação de minha prisão preventiva. eram obrigados a Prestar serviços para os companheiros para arrumar algum dinheiro. ALÉM DE FERIADO ERA DOMINGO. porque. Por mais que meus pais quisessem que eu ficasse em São Paulo. fora da cadeia. Tudo por um amor que sempre soube que não poderia dar certo. Na verdade. que na época tinha doze anos. muito duro. ela me conhecia bem. A prisão. Nem perguntei se estava indo bem nos estudos. Abandonados. chorei. eu estava deixando para trás uma mulher que amava. Por essas e outras o final do domingo era angustiante. sem receber ajuda externa. lendo o que escrevi no Água Santa. Eram muitas e de várias épocas da minha vida. Eu sofria de asma.

A maior parte dos trabalhadores era italiana. assim que eles se livravam dos arreios. Zé e eu passávamos o dia pescando. os dias foram de grande expectativa. Só pensava no julgamento do habeas corpus. Claro que eu não podia fazer nada. porque eram muitas carroças. meu companheiro de cela em Cabo Frio. Fiquei puto da vida. A mesma conversa que tivemos quando ainda estava em Cabo Frio. SÓ ontem cinco foram transferidos para a Ilha Grande. que era como chamavam nossa casa. e disse que iria olhar a ficha dele. Adorava recordar e escrever sobre o tempo que passei em Goiás. porque a imprensa ainda fazia muito estardalhaço. Falei e cumpri. Mas sempre misturei todos os assuntos. O dia do julgamento do habeas corpus chegou.descansar e. quando papai e o dr. quando o primeiro habeas corpus foi julgado. Transferências eram constantes no Ary Franco. Lembrar dessas coisas me deixava com o coração apertado. Quando parava de escrever por algum motivo e recomeçava. Apesar de o campo ser ótimo. Arthur estava visivelmente preocupado com a minha ansiedade. Até futebol de salão tinha. Ele riu. mais tarde voltava para entregá-los ou retirá-los. ouvi chamarem meu nome. Quem estava na "A" queria ir para a "B". achei inacreditável a facilidade com que a Justiça podia atrasar as coisas. Tempos depois. arroz. quando fui transferido para Niterói. andando a cavalo ou passeando pelos pomares. Ia às galerias levar as listas de livros para serem escolhidos. eram meeiros em pequenas roças de milho. pedi ao tenente. Isso porque meu avô gostava de assistir às peladas. puxadas 118 por parelhas de quatro ou seis animais. Além de cuidar do algodão e do café. estranho e perigoso. o Paulista ainda estava na "A". Cheguei um pouco mais perto das grades para localizar de qual dos cubículos vinha aquela voz. Quatro desses fiscais praticamente tomavam conta da fazenda. Viajava pelo passado e conseguia me afastar daquele inferno e da minha consciência. Enfim. já que um dos juizes não pôde comparecer. e os internos não ficavam trancados. cada um na sua especialidade. Zé Migott só saiu da minha casa para casar. deitavam-se para espreguiçar. Aproximei-me assim que vi que era o Paulista. No fim da tarde. Dr. me distraía consertando as capas e folhas dos livros hospitalizados. Ele estava com um aspecto péssimo. não adiantava nada eu . E tudo por nada. já abordava outro assunto. Depois. pede para me transferirem para a "B". Assim mesmo. — Doca. Assim seria fácil um dia aproveitar aquilo. como as caçadas que tinha feito na África Equatorial Francesa e na divisa com o Congo Belga. Imediatamente percebi que a voz era conhecida. quando estava na "A" entregando alguns livros. feijão e. Por favor. 119 — Aqui é pior que o inferno. reuníamos a molecada que voltava da roça para jogar futebol. Depois daquele domingo. Não dormi quase nada. Apesar do medo que tinha de chegar perto das grades da "A". em Niterói. Falavam maravilhas de lá. Uma manhã. Seus filhos foram meus primeiros amigos. pois à tarde. fui estender-lhe a mão. Os cavalos só serviam para montaria e passavam o dia com os fiscais que percorriam as plantações. respondi que ia tentar. E assim eu ia misturando tudo. tentava escrever alguma coisa. No cubículo. às vezes jogávamos em um dos terreiros de café. Arthur me visitaram. mas me ajudava a viver naquele mundo da prisão. Tocava o meu dia-a-dia do jeito que dava. Explicou que tinha poucas chances. Três eram italianos e o administrador era alemão. que ficava ao lado da casa-grande. onde havia brejo. sou eu. e na "c" todos só pensavam em ser transferidos para o presídio Ed-gard Costa. o tempo em que morei na América do Norte etc. Era um espetáculo. informaram que o julgamento tinha sido transferido para o dia seguinte. Tinha organizado meus escritos por data. de tanta ansiedade. quem estava lá queria ir para a "c". assunto e importância.

vazio. Rando. O trajeto inteiro fiquei atento. Naquela noite. O Baitola não era tão bobo quanto parecia e poderia se vingar. — Se apresentem os dois que brigaram ontem à noite. Rando veio falar comigo. desci da minha cama e disse algo como: 120 . ficou louco? A resposta foi lacônica. o Baitola. me avisou que os funcionários já sabiam de tudo. Tomamos banho e depois todos tomamos café. Os companheiros entraram no meio para separar. estava preocupado. Ele estava tranqüilo. olhei para ele e perguntei: — Que é isso. Rindo. Deitei. O Baitola fez o mesmo. o lençol e o bloco em que eu escrevia. Não conseguia ler.espernear. perguntou: — O Doca ofendeu você? O que fiz em seguida foi puro reflexo. Quando os ânimos se acalmaram. O agredido para fazer exame de corpo de delito e o agressor para prestar declarações. Aproximou-se de mim e perguntou se eu queria. os cubículos estavam trancados e o corredor. Eu não entendia a atitude dele. não tive tempo de raciocinar. indicando que não havia funcionários por perto. resolveu se servir de uma caneca de café. Ia virando as costas quando me apresentei. e o Baitola. . o sargento e mais três guardas entraram na cela. Ele deu um passo para trás e atirou seu café em cima de mim. Os guardas ficaram andando pela galeria sem nos dar atenção. Sem sair de seu lugar. que éramos bons companheiros. Logo depois do café. pois estava com o nariz arrebentado e sangrando. Achava que a administração ficaria sabendo em pouquíssimo tempo. empurrado para um camburão e parar numa delegacia. Tinha medo de ser agarrado pelos funcionários. Acordei pela manhã com a sirene. virei de lado e dormi. por intermédio de um funcionário: — Seu pai telefonou e pediu para avisar que vocês perderam por um voto. o xerife. Disse que só iria depois de falar com o capitão. Quando Apoio passou com o bule. o sargento veio me buscar e me levou ao escritório do diretor. Assustado. estava nervoso e com medo do que estava por vir. O Baitola veio me pedir desculpas. Não sei o que passou na minha cabeça. seu rosto debochando de mim: — Escorreguei. Eu nem respondi. fui fumar um cigarro no terraço. sujando a camisa. Aconselhou-me a não dormir. começou a gemer alto. 121 Cerca de duas horas depois. A sorte foi que. No dia seguinte. segurei o Baitola pelos ombros e dei uma becada forte em seu nariz. Cagüetes não faltavam. Ele continuou: — Vão ficar trancados até os dois se apresentarem. fiquei desolado quando recebi um recado do papai. sem descer do beliche. àquela hora. Como se fosse abraçá-lo. Acertou o meu peito.Puxa. O pessoal do C-2 fez sinais. confabulou com os outros guardas e saiu. mas não dei atenção à preocupação do Rando. tratava todos com o maior respeito. Fiz exatamente o que não se faz com um sujeito como aquele. Permanecemos imóveis. quando o toque de silêncio já havia tocado e eu estava escrevendo. Havia um guarda andando nas grades acima da minha cabeça. alegando que tinha tido um momento de loucura. O resto do pessoal foi liberado e o sargento avisou que iria nos levar para a delegacia. — Expliquem isso para o delegado. fiquei sentado olhando um livro que estava no meu colo. O sargento se afastou Um pouco. A confusão chamou a atenção dos cubículos mais próximos. Fiz que não com a cabeça. que não se defendeu. O Baitola foi logo dizendo que na verdade não tinha acontecido nada. Teve início um alvoroço. não tinha percebido nada. andando de lá para cá. sempre tratei você tão bem.

FICAR UMA SEMANA SEM VISITAS E perder a faxina era muito melhor que responder a mais um processo e ser escrachado nos jornais como rebelde e bagunceiro até atrás das grades. recebia cartas do Brasil inteiro. Só acordei com o Rando me sacudindo porque já era hora da chamada e todos tinham de estar de pé e responder. O Baitola já estava no cubículo quando cheguei. tive muitas horas para escrever e pensar. Era incrível ter uma lei que me beneficiava e não conseguir fazer valer o direito a ela. Mas. mesmo sem poder me ver. Achava que estava sendo perseguido. mas caí de pé e minha moral está alta. Saí DA SALA DO CAPITÃO ALIVIADO. sou forte e continuarei lutando". Fui para meu beliche. só me servi de pão. as coisas não se resolvem assim. não esperava isso. o que evita muita encrenca. Então relaxou a postura. principalmente quando os pareceres dos magistrados não são o que a gente espera. Papai trazia e continuou a trazer. As coisas se acalmaram e. ele precisava de notícias novas a seu respeito. Não me conformava por não ter derrubado a prisão preventiva. não caia noutra. Ofereceume uma caneca de café e afastou-se sem dizer nada. em matéria de segurança. Não queria encrenca e. o capitão me dispensou. é muito perigoso. nós dois teríamos que passar sete dias juntos sem arredar o pé dali. Educadamente. Tinha pela frente sete dias sem sair daquele espaço. Tinha direito à Lei Fleury. era . Por sinal. — Na prisão. Contei exatamente o que tinha acontecido. para você aqui é melhor. ficou parado na minha frente algum tempo. que comi com café. Se bem que gostaria de saber quem foi o jornalista que me armou aquela armadilha.O capitão estava de pé. assim como dezenas de livros e bíblias. — Não posso deixar de castigá-lo. O capitão continuou: — Você vai perder a faxina e ficar uma semana sem visitas. — Lá realmente é melhor. Sinto que Deus me dá força. não me destruirão. e todos os internos andam mais à vontade. peguei um bloco para tentar escrever. e iria aproveitar para ler e escrever. Nem sei o que passou pela minha cabeça depois de ouvir aquilo. para o presídio Edgard Costa. Quando o pessoal da cozinha chegou com o jantar. mais aberto. emprego e residência fixa. Estava tão cansado que nem pedi que algum companheiro fosse à cantina e pegasse um sanduíche para mim. Tudo. inclusive jornais. Além disso. Durante essa semana não poderá sair do seu cubículo. O castigo para o Nilson será igual. é o que mais a gente faz no cárcere. as conseqüências haviam sido mínimas. Recebia jornais quase diariamente. além do 122 mais. Após ouvir atentamente. Acompanhou-me até a porta. Mesmo sabendo que sou discriminado pelo Judiciário. — Vou pensar — disse. Não era só contra o Judiciário a minha revolta. Sem poder sair do cubículo. Tenha cuidado. pois todos estão trancados. Tenho certeza de que o senhor Nilson o Baitola recebeu um bom dinheiro para provocá-lo e fazer o senhor ir parar numa delegacia. — Que pisada o senhor deu. era réu primário. graças a Deus. por isso resolvi não tirar a limpo a história de algum negócio entre ele e alguém da imprensa. Ajeitei-me no beliche e dormi pesado. Era puro desabafo. Com todos no pátio é mais complicado. Abaixei a cabeça envergonhado e pedi desculpas. e também para me revoltar. Descarregava no papel todo o meu rancor: "Confesso que a decepção foi grande. O pessoal faria comentários e isso despertaria antipatias. Não me derrotarão jamais. foram páginas e mais páginas assim. Aproveitei e pedi para ser transferido para Niterói. com bons antecedentes. me esperando em frente à sua mesa. que eram lidas pela administração antes que chegassem às minhas mãos. Foi um repórter que fez isso. Espero que o senhor tenha uma boa explicação. era doado à biblioteca.

inclusive de mim.. já que ele se dava bem com papai. era sair do Água Santa. escolhia um dos livros que trazia sempre comigo. arrume suas coisas e me acompanhe. Rando levantou e veio falar comigo: — Dá pra arrumar vinte conto pro Baitola pagar a condução? Dei o dinheiro com mais algum para o lanche. De repente. E. como um hálito incerto. quando passava pela "A" rumo à cantina. Responde-me o eco ao longe: "Oh! Minha amante. quando já havia sido liberado. Por isso. Mas nunca tive certeza se esse ódio era verdadeiro. sempre com o mesmo humor. O sargento não me suportava. cavoucando. por saber que não tinha condições financeiras para me casar. Venezuela e México". lembrei da minha primeira paixão. um funcionário entrou no cubículo com o alvará de soltura do Baitola. Ele me comunicou que eu seria transferido para Niterói. me tranqüilizou e disse que a tradução era um serviço que eu estava prestando. Recebi a notícia com alegria. Não era o que eu mais esperava. Ainda bem que tinha bastante papel. Quando cansava de escrever.. que você será libertado imediatamente. afinal.contra o mundo. No terceiro ou quarto dia de castigo. conversa vem. Acho que queria acabar comigo: "Não sei do Que estou reclamando. trabalhando na embaixada da Arábia Saudita. "O que aconteceu? Fui egoísta? Muita loucura? Tudo começou por tesão e virou um amor alucinante e trágico. mas.. larguei minha família falando sozinha.. ele dizia que era impressão minha. Um deles era de Castro Alves. Conversa vai. Cavei meu próprio poço e “cavoucando. Onde ela está? Longe ou perto?" Mas. O funcionário já estava impaciente. para o Instituto Edgard Costa. achei uma poesia que vinha a calhar: 123 É meia-noite. Alguns dias depois.. e que isso já era uma faxina.. e principalmente contra mim mesmo. Quando eu contava para o velho que tinha problemas com o sargento. O tenente riu. 124 -— Filhão. Ele queria que eu traduzisse o texto. onde estás?" E continuava a escrever.. Babava de ódio quando passava por mim nos corredores. Comecei a trabalhar imediatamente. recebi do diretor um envelope com um texto sobre "A organização das visitas íntimas nas prisões de alguns estados da América do Norte. Já estava levantando para agradecer e me despedir do capitão quando ele me interrompeu: . até chegar ao fundo". Até nos maus momentos eu a amava. que ocorreria dentro de quatro ou cinco dias. Mas voltou e ficou confabulando com o xerife." Em meio a esse mar de pensamentos que escrevia do jeito que vinham. E assim foi aquela semana. Já estava tudo arrumado para a transferência. Folheando-o. Nos dias seguintes. Com 42 anos de idade. Como um grito de agonia Eu digo ao vento. Ele arrumou suas coisas e se despediu de todos. fui procurar o tenente. o habeas corpus. quando dei por mim. Baitola me abraçou com lágrimas nos olhos. — Senhor Nilson. é claro. estava tudo irremediavelmente terminado. Deu-me também um dicionário inglês-português. e rugindo Passa triste a ventania. foram dias de autocrítica. porque o sargento tinha ameaçado me transferir para a "A".. Daí passei para o tempo em que vivi em Washington. Como um verbo de desgraça. todos os comentários sobre o Edgard Costa eram favoráveis. que me fez parar na África. fui me apaixonar. um gaiato gritava: — Doca! Vem me dar uma cabeçada para meu alvará de soltura chegar logo! Poucos dias depois fui chamado à sala do diretor. logo depois da "Hora da Ave-Maria". Pior ainda. que passa Por meus cabelos fugaz: "Vento frio do deserto. ele é gentilíssimo! Uma tarde. e com isso saí um pouco da fossa em que me encontrava. que estava escrito em inglês. o sargento não podia fazer nada sem a autorização dele ou do diretor.

É um lugar muito mais perigoso do que aqui. de maneiras nobres e sorriso largo.. Neste presídio não há celas. será convidado a jogar com a gente. Depois disso. assinaram o recibo que comprovava a minha entrada e fui levado à sala do diretor. Seus dois ajudantes estavam limpando o lugar. seis. Depois da troca de documentos de praxe. não tenha dúvida. com cinco beliches e um janelão que dava para o pátio. sinal de que o mar estava por perto. Muitos dos internos têm TVS. passei pelo pátio que servia como quadra de futebol. tomando banho de sol. que eles chamam de "estoque". O Português comentou: — Foi o capitão que escolheu esse lugar para você. homem alto. Foi só um minuto.. não faziam nada. o Português. foi logo dizendo que estava a par dos conselhos que o capitão Astério tinha me dado. futebol. vou lá à noite jogar futebol com o diretor. se tudo estiver bem. são vários dormitórios. ainda preciso falar com você. que ele ocupava com seus dois ajudantes. estará bem aqui. Todos ali estavam de calção e. Se quiser se dar bem com ele. Para ver alguma coisa era tão desconfortável que desisti. e depois outro pátio. — Conheça o xerife. não se resolve nada a socos. Um interno encerava o chão. O cheiro da maresia era forte. isso dá processo e mais cadeia. . não suje o dormitório. Um funcionário me levou ao dormitório. não contei quantos beliches havia. que acabava em um monte de pedras. a paisagem da ponte Rio-Niterói. Querendo. pessoal. peça para trazerem uma para você. Fiquei impressionado com sua educação. Era perto da janela. Olhando de fora. Por mais que os funcionários revistem os internos e todos os cantos do presídio. Mas fiquei na esperança. a praia está boa? 126 Todos riram. No trajeto. De cara. Fui apresentado ao interno que encerava aquilo tudo. O local era enorme. cuidado. e nós continuamos andando até a entrada do dormitório. lendo ou fazendo qualquer outra coisa. e eu ficaria na parte de cima. e o seu fica no térreo. — Se segui-los. bem menor. depois da quadra de futebol de salão. O Português mostrou um quarto com dois beliches. Nunca vi ele fazer isso. DOIS DIAS DEPOIS FUI TRANSFERIDO PARA NITERÓI. mas tinha no mínimo trinta. e logo fui encaminhado para a seção que recebe os internos. o prédio antigo parecia um quartel. Se você estiver em forma. você será liberado para o convívio. No seu dormitório ficam os faxinas e os elementos que consideramos de responsabilidade. Então. Logo ao chegar fiquei mais animado. onde havia uma arcada que levava a uma sala retangular pequena. há facas fabricadas pelos internos escondidas. me levou até a porta e desejou boa sorte: 125 — Uma ou duas vezes por mês. Ali estavam estendidos alguns internos. Ele lhe mostrará tudo. e era do tipo veneziana. No camburão só tinha um respiradouro. Tudo ali era perfeito e cheirava bem. parecia um espelho. que estava impecável. Num presídio como o de Niterói. Você tem que ficar sempre alerta. mulato. Depois verificamos se o lugar estava limpo e arrumado. Depois das apresentações. O funcionário que me acompanhava olhou para eles: — E aí. Vi o muro que o capitão tinha mencionado. Depois caminhamos até o fim do dormitório. e nesse caso deverá ser escoltado por um funcionário.— Espere. os apenados andam por quase toda parte. Cuidado com as drogas. O ambiente era outro. Assim foi. Os que não estão na faxina e não têm problemas com a administração podem estar jogando vôlei. pelo menos naquele momento. Há um muro que separa esse dormitório do resto do presídio. Nabuco era um capitão da PM. principalmente porque tem sempre alguém querendo fazer bonito para aparecer. a não ser que seja chamado pela administração. Não pude olhar a rua e o prédio por muito tempo. inclusive seu beliche. Só poderá sair de lá daqui a sete dias. Depois do sétimo dia. o capitão Nabuco. TINHA ESPERANça de ver a rua. fomos até o beliche que eu ocuparia.

adormeci. Fiquei bastante tempo conversando. Eles bem que precisam de uma ajuda. Quantas grades.. nove anos depois também achei uma comida bem razoável em um outro presídio-albergue de Niterói. conheci quase todos do dormitório. onde terminava aquela parte do presídio. Comecei com Água Santa: "Finalmente consegui sair do Ary Franco. Pensando bem. Me diverti enquanto o cara trabalhava. com colunas. Os dois ajudantes não perderam tempo. Enfim estou fora de lá. o que era Perfeito para ler um livro ou um jornal. sem rabiscar nada. passei pelo banheiro e voltei para o meu lugar. muito engenhoso. viam-se oito janelões. parecia um alfaiate tirando medidas. mas já sinto a diferença. De um deles me lembro bem: era baixo... Fechei os olhos. Na minha primeira semana. que eram servidas no fundo do pátio. magro. ainda não estou no convívio. quatro de cada lado da porta de entrada. instaladas de maneira a não serem atingidas pelos pés ou pela cabeça do vizinho. uma escadaria que subia mais ou menos três metros. O uso dos vasos sanitários e das pias é livre.. para ter alguma privacidade. Então subi ao meu beliche. que percorria toda a frente da casa. e acho que surpreendi a psicóloga. O diretor do Água Santa insistia que lá eu estava mais seguro. O interno que trabalhava com elas comentou: — É melhor ele não ver o desenho da minha casa. saí do dormitório duas vezes. Nessa época. Só tinha permissão para sair do dormitório para as refeições. Onde você põe o livro? Um pouquinho mais pra cá está bom? 127 Na primeira noite. Outra coisa que chamou a minha atenção foi o barulho de chutes e de palmas. aquele cheiro. tinha cabelos pretos e bigodinho. comecei a lembrar da casa da fazenda Cachoeira e desenhei a fachada da casa. E a galeria A. Nem usei meu novo abajur. que vinha da quadra de futebol. Antes de se afastar. Embriagado pelo barulho do jogo. Reparei também que não era proibido colocar toalhas ou cortinas nos beliches. saía pela manhã para trabalhar e retornava à noite. nunca quis escrever sobre ela. arrumaram a minha cama.. as duas para ir até o serviço social.. mas fazia o seu serviço muito bem. mandou que me acompanhassem até os chuveiros. — Deita aí. Os primeiros sete dias foram difíceis. não . Enquanto eu tomava um bom banho num dos chuveiros. não tinha do que reclamar. logo que as luzes se apagaram. Ao chegar ao terraço. Minhas poucas roupas estavam sempre limpas e bem passadas. Fiquei fazendo hora com o lápis e o papel na minha frente. Era um cara triste. não consigo descrever aquele horror.— Vou deixar você com meus ajudantes.. Como o desenho não saía. Meu avô chamava o terraço de Pretório. dei uma volta por todo o local. 128 O resto da semana. Também podem lavar e passar sua roupa. Instalou de um jeito que iluminava exatamente o meu colo. uma delas resolveu me incentivar: — Desenhe a casa onde você foi mais feliz. Fez mais uma observação: — Os três chuveiros podem ser usados das oito da manhã às cinco da tarde. falei sobre o tempo que tinha passado no Água Santa. que por incrível que pareça reproduzia bem a fachada da casa. Eram quarenta metros de frente. Era de arame grosso. não! Não quero mais escrever sobre aquele inferno. falava pouco. Não podia sair do dormitório nem receber visitas. Na primeira.. fiz alguns testes. Na segunda. O Edgard Costa foi o único lugar em que me servi da comida da casa. Hoje em dia. que falta de calor humano. Se quiser.. Um eletricista me vendeu um pequeno abajur feito por ele. Ela pediu que eu desenhasse uma bola. poderão arrumar sua cama todos os dias. mas prefiro correr algum risco por aqui. Chamava-se Mário. Reparei nas TVS de alguns internos. eu li e escrevi. Era boa. principalmente os que prestavam algum serviço. Mas podia mandar recados. Entreguei a uma das moças o desenho. Nas horas seguintes. Eram duas moças que aplicavam os testes. é uma prisão para mulheres.. e pedi que avisassem meu pai para trazer uma TV. Pode ser. numa área entre o dormitório e o muro.

Assim que o aparelho chegou. me alertou: — Quando tocar a sirene de recolher. O estranho mesmo foi quando entrei no dormitório e fui abordado pelo interno que me vendeu o abajur. em 1961 e fui morar com a Glorinha Mariano. O Português tinha me dito que o diretor autorizaria.vai ser agora. a Marcas Famosas. À noite o pessoal se espalhava pelo chão. Tento. Mesmo durante o dia. Era uma TV em cores de 21 polegadas. Na verdade. de um jeito que podia ser vista dos cinco beliches do "Recanto do Luxo". no meio dos internos. Não recomendo que você passeie com esse aparelho pelo pátio. Escrevi também sobre a época que cheguei dos Estados Unidos. comecei a pensar nos assuntos sobre os quais pretendia escrever. Li o que escrevi no Água Santa. que me explicou o que era o tal sumário: era uma audiência para ouvir as testemunhas de acusação. Como era dia de semana. mas o nome certo é "sumário de culpa". joguei todas as fichas. Ter de 129 voltar lá. de camburão e algemado. no dia em que o dr. falou: — Se você quiser instalo a TV perto da janela. deixa que eu levo a TV para você. não se abria comigo. O Português e seus ajudantes tinham cadeiras. perdia o fio da meada e divagava. que era um cara legal. para ser feliz. Estava tão distante de tudo que. Trabalhava numa agência da Volkswagen. Começava a enumerar os assuntos. preciso abrir para revistar. Precisava preencher meu tempo. um tênis forte e um chuveiro. que era como chamavam aquele espaço no fim do dormitório. Refletia a respeito da minha vida e escrevia: "Levanto às seis da manhã. Estava apreensivo porque tinham me avisado que em alguns dias iria a Cabo Frio para um sumário. papai não pôde ver o pátio. Tempo bom. nem pieguices". Atualmente. Não mexi uma palha. Assim que me viu. podiam usar do jeito que quisessem. perceber como era diferente o ambiente dos dois presídios. mas. ele foi cuidadosamente desempacotado. e cavaletes e andaimes usados na reforma do prédio apareceram num passe de mágica. já que seria para o benefício de todos. sem receber visitas. por mais que eu perguntasse. Só entendi o porquê quando ele foi embora e passei pela secretaria. Na época não sabia direito do que se tratava. nem liguei muito. sem entender nada. mas. . Pela primeira vez escrevi sobre o começo do meu romance com Ângela. Aquilo me deixava nervoso. Arthur me explicou o que era. Alguns dias mais tarde. já estava me acostumando com aquele tipo de comunicação instantânea entre os internos. estava tudo sem pé nem cabeça. servindo de pedestal para que o aparelho ficasse na altura certa. sem me fixar em nenhum assunto. apenas fiquei chateado por ter de voltar ao fórum de Cabo Frio. eu escolhia os programas. As MOÇAS DO SERVIÇO SOCIAL PEDIRAM AO CAPITÃO NABUCO QUE me liberasse para o convívio. assim que começava a escrever sobre o primeiro — que não podia deixar de ser a Cachoeira —. Tudo porque. três bolas de futebol de salão. Leio e tento escrever. E assim continuei a escrever. O agente. Papai anotou tudo e continuou com aquela cara de mistério. Aproveitei para pedir novamente uma TV. Sem nada para fazer. Mas tive de passar os sete dias de praxe no dormitório. era muito para mim. Quando ele Partiu. Chamou um funcionário e abriu o pacote. Tem muito olho grande. recebi a visita de papai. quando não estava interessado. Um funcionário me chamou: — Seu pai deixou essa caixa para você. tento e não sai nada. recéminaugurada. A TV foi instalada em frente à janela. que conhecia de toda a vida. o aparelho estava sempre ligado. Não queria falar no assunto. O "Recanto do Luxo" passou a ser o lugar mais freqüentado pelos internos. almoço às onze e janto às quatro. Sentia que ele estava diferente mas. continuei na mesma. já no convívio. de quem estava querendo contar algo. mas o destino tinha um straight flush".

O serviço social só dava apoio. começava a escrever tudo o que passava pela minha cabeça: "Continuo sem disposição para escrever. 130 — Até encomendei três bolas — eu disse entusiasmado. Pediu para elas darem a notícia no jornal do presídio. é um paraíso". Muitas vezes. vida de preso. Estendia a toalha e ficava lá. eu cuidaria do torneio. A polícia descobriu o crime porque encontrou o pé direito dela.Quando fui liberado para o convívio. Não sei por que me chamava de "Estilete". o capitão Nabuco mandou me chamar. tudo debaixo de uma mangueira. O capitão gostou da idéia e chamou as moças do serviço social para comunicar a decisão. O capitão Nabuco aparecia nos pátios e dormitórios de surpresa: se alguém pisasse na bola. No Edgard Costa. damas e dominó. ou faziam alguma atividade esportiva. que não largava a Bíblia. Fiquei sabendo de internos que não saíam de seus dormitórios. e logo aparecia um funcionário para dispersá-los.. se ele deixasse. A vida de sempre. a destrinchado e enterrado. Nilo.. não enterrara. evitava ter muitos contatos. o efetivo de funcionários e policiais militares era grande. o sol batia no meu rosto e eu. Andava também com o Professor. Aos poucos fui conhecendo alguns internos. pois o pegariam na certa. de quem o pessoal não gostava. Lá havia um grêmio que promovia atividades esportivas. Todos o temiam. Embora o Edgard Costa fosse pequeno. Logo que cheguei ao Água Santa. Ele havia matado a mulher. João. Aqui vou indo bem. Tinha também o sr. o diretor falava de uma "sociedade carcerária". desesperado. Andava por todos os cantos do presídio que os internos podiam freqüentar. nada de novo para escrever. pensando em Ângela. Ele dizia: "Este lugar. Conheci também o Nilson — que tinha muito cartaz com o diretor. mas eu gostava dele. tudo administrado pelos internos. de malandro de antigamente. A maior parte ficava andando do beliche para a cantina e vice-versa. Como no Água Santa. onde com a graça de Deus não tenho problemas". Contei que adorava jogar e. e eu tinha encontrado no grêmio seis uniformes e redes bem conservadas. era transferência na certa. distraído. perto do resto. o Mário e o Zuir. Às vezes. comecei a entender do que se tratava. jogos de xadrez. de andar lento. de olhos fechados. que não era interno. Talvez fosse por essa razão que tão poucos internos curtiam a praia. O que mais fiz foi tomar banho de sol na "praia". ou porque tinham muitos inimigos ou porque eram cagüetes. na liberdade perdida. e Nilo e Domingos. ele tinha muitas histórias. um senhor negro que era o mais velho do presídio. Ele não podia ir para outros presídios. Queria que eu aceitasse uma faxina. 131 Eu me dava bem com o Nilo. Todos eram da faxina ou diretores do grêmio. Dentro de alguns dias irei a Cabo Frio. o marceneiro e o eletricista. Era um preto enorme. que estivera no Água Santa comigo. mas parece que tinha dado cabo de muita gente. mas não podia compreender exatamente o que queria dizer. Acostumei-me a sempre carregar comigo papel e lápis. o Neuze. ajudantes do Português. mas arrendava a cantina do presídio. já que o conhecia desde a época em que estiveram na Marinha -— o Americano e o Irmão. Havia também um jornal e uma barbearia. Contei que alguns internos queriam organizar um torneio de futebol. não sei o que está passando comigo. via toda a minha vida passar como um filme. que ele. Conversávamos muito. O capitão não gostava de grupinhos. Nunca perguntei. Era muito deprimente abrir os olhos e constatar a dura realidade da prisão. me contou que esses internos tinham medo de ser mortos. Eram poucos os internos com quem eu me relacionava. Alguns faziam ginástica. porque era homem de confiança do capitão. . Tudo fazia de lá um lugar tranqüilo. outros ficavam em grupinhos tagarelando.

mas logo pararam de reclamar. sorrindo para mim. os nomes dos participantes foram postos em um pequeno saco e cada capitão sorteou os jogadores. Era de metal.. Consegui. Para que não fizessem perguntas que eu não queria responder. Na época. Houve muita confusão para formar os times. Para não haver briga. Ele ficava à disposição do diretor até este sair. O grande escândalo da galeria não é mais a sua cabeçada no Baitola. que falava para os companheiros: — Fui eu que instalei. na frente de quase todos os internos. a minha e a da Ângela. a cara do Paulinho da Viola. e o chuveiro só para o nosso dormitório. Um deles. só com o vison em cima do corpo. assistindo à TV. com medo do Apoio. ouvi uma voz que conhecia bem. Fiquei maravilhado.. . de madrugada. e no final o campeão levaria a taça. Tive sorte: os três jogadores mais cobiçados ficaram comigo. já que os que jogavam bem eram conhecidos.. Ficou decidido que o campeonato começaria em quinze dias. mas nada de extraordinário." 133 Rasguei muitas páginas assim. que será deles? É só sofrimento. todos jogariam entre si. Nesse meio tempo. A moça era bonitinha. Aliás. 132 Nos dias seguintes. Eram seis times. Preciso parar. por isso era sempre o último a entrar no dormitório. Comecei a lavar a cabeça e sentir a água morna caindo pelo meu corpo. meu amor. Linda. Foi instalado tão rápido que em menos de uma hora fui convidado a experimentá-lo. para não causar mais sofrimento. Depois a taça ficaria exposta na sala do diretor... como esse cara jogava! Os outros disseram que tinha marmelada. Seu corpo ainda não tinha sido encontrado.. sofro em saber que em oito meses arruinei toda a minha vida. Ângela estava alcoolizada e não foi discreta na abordagem. "É verdade. que tinha acabado de chegar. Como poderei esquecer nossos momentos tão mágicos.. me dou parabéns. imagino como está a família da Adelita. Uma noite. Agora estão em cubículos diferentes. Onde você está? Eu sei. ofertada pelo capitão. o Tião. que saudades. Ângela. já que estas eram para todos. presa na minha mente. Deus. Era um recado do diretor: — Pega suas coisas e vem jogar futebol. ela era apenas um personagem que havia gerado a discussão que terminou em tragédia. — Então. de uma só vez desgracei duas famílias. príncipe? Dei de cara com o Professor.As COISAS QUE TINHA PEDIDO PARA PAPAI CHEGARAM. Abri os olhos e vi o Domingos. Deus. havia sido profissional de um time de Campos. Estava com tantas saudades de tomar um banho quente que imediatamente abri a torneira. como pude. recebi uma notícia que me deixou arrasado. A notícia se espalhou rapidamente entre os internos. não poderia ficar no grêmio. contando as novidades: — Consegui sair do Ary Franco porque devo ser posto em liberdade em poucos meses. A alemã Gabrielle Dayer tinha desaparecido depois de despencar de umas pedras na praia da Ferradurinha. Assim. não estranhei e me aproximei para saber do que se tratava. nosso passeio a pé. Nilson apareceu nas grades da janela. me deixando constrangido no meio dos nossos amigos. Não agüento esta angústia e esta dor. ajudei o pessoal do grêmio na organização do campeonato. e não foi só isso.. depois dele sou eu! Quando estava acabando de tomar banho. lendo e escrevendo.. Lembro perfeitamente daquela manhã na praia dos Ossos. tomando um banho. em Petrópolis. meu Deus. e as buscas continuavam. me perdoe. três. Não era verdade.. só não acabei com minha vida por causa dos meus filhos. Ninguém ousa olhar para o moleque.. Era um mulato de 1m 90. O CHUVEIRO elétrico não fez tanto sucesso quanto as bolas.. Pensar nisso não leva a nada. A história me incomodava. passei dois dias no dormitório. Putz. e os filhos da Ângela. pois os jornais e todo mundo achava que a alemã era o pivô do crime. assim teríamos tempo de treinar. A história de agora é a surra que o garoto do Apoio deu nele.

menino. e prestando atenção nas instruções do Tião. Estava tão cansado. barba feita. estraguei tudo. não precisavam de artifícios para me condenar. no desespero. no Rio de Janeiro. Os quatro estavam tranqüilos. de camburão e com escolta da PM. Queria que eu voltasse ao convívio. Dormi mal. nosso jogador principal e treinador. — Não adianta você ficar deitado no beliche. banho tomado. Depois dessa primeira vez. o dr. olhar para a cara daquele juiz. andando de um lado para o outro. e logo a audiência começou. — Ouça as testemunhas de acusação com atenção e calma. O juiz não tomou conhecimento da minha presença. calça e camisa em ordem. Além disso. Eu estava completamente fora de forma. papai foi me visitar. Mas nem tudo foram rosas para a acusação. Evandro se despediu. temos de colocá-las novamente. Quando tivemos certeza de que nenhum jornalista nos seguia. pois comentou em voz alta: — Que pena. Ao nos afastarmos do presídio. dessa vez. que fazia questão de deixar claro que não ia com a minha cara. o diretor teve uma longa conversa comigo. Passei o dia amedrontado. sempre pedia a Deus que me ajudasse. Uma empregada trazida por uma amiga de Ângela para depor contra mim acabou se enrolando toda e contou que tinha depositado. virava criança. Cheguei ao fórum algemado. mas. podendo jogar futebol nessa época. Só caiu a ficha quando ele riu e comentou: — Aí. A volta foi tranqüila. Disse isso com tanta alegria e sinceridade que até perdi a concentração e dei uma paradinha na quadra. Para variar. junto com o dr. quem estava mentindo era eu. querendo se esconder da vida. Juntei todas as minhas forças e voltei para o treino. Tinha de esperar o dia seguinte e voltar a Cabo Frio. mas não me puseram trancado atrás. paramos para . por que não dizer. e jogava bem. Já estava me acostumando com o assédio da imprensa. Estaremos lá. e às seis e meia da manhã estava pronto. tanto na chegada como na saída da audiência havia uma multidão de jornalistas. Evandro. e falei para papai: 134 -— O Evandro está meio misterioso. não ligue para nada.. Naquela altura. Isso me estressava. não se preocupe se estão falando a verdade ou se é alguma mentira. Eu não estava nem aí. corri. ela continuou me ajudando. no meio de dois dos quatro policiais que me acompanhavam. parei e declarei que estava proibido pelo juiz de dar entrevistas. recebi um recado de meu pai dizendo que o habeas corpus tinha sido encaminhado e poderia ser julgado a qualquer momento. quando as testemunhas de acusação começaram a mentir fiquei preocupado. Às vezes. Queria que eu ficasse tranqüilo na audiência em Cabo Frio. um dia tudo isso vai ficar para trás.O grupo reunia funcionários e internos. Alguns dias depois. Fui no banco de trás. quem teria orquestrado aquelas calúnias? Eu era réu confesso. tiraram as algemas. Naquela primeira noite esportiva. Antes fui revistado e algemado. Seja forte. tomando vários cafés. Soube disso no intervalo de um treino de futebol. 79 mil cruzeiros na conta de Ângela. o destino que resolva os problemas. A tarde. Sabiam que eu não daria trabalho e me deixaram à vontade. avisaram-me que em breve iria a Cabo Frio para o sumário de culpa. Quando acabou de dar as instruções. e muito atentos. dizendo que estava tudo bem e que Evandro estava com muita esperança no habeas corpus. dei alguns chutes e. Voltei tenso para o pátio. me distraí bastante. Como já conhecia alguns jornalistas. o que será que está acontecendo? O velho me tranqüilizou. Depois da audiência. no sufoco. você vai ter que enfrentar muita coisa. que nem dei importância ao que Nilson me dizia. Só saí às dez horas. paramos no meio do caminho para um lanche.. Como a audiência seria só à uma da tarde. E acredito que fui atendido. Sempre que entrava no campo. a meu pedido. Levanta a cabeça. Apesar disso. — Quando chegarmos ao fórum. pelo menos uma vez por semana jogava junto com eles.

Era época do regime militar. Aquela foi uma época difícil.. Aí o clima esquentou e saí atrás dele. seu corpo. por sua beleza. sua inteligência e sua loucura. Na segunda partida joguei uns quinze minutos. Os jornais continuavam comentando o desaparecimento de Gabrielle. pára com isso. meus dois filhos. Doca. ela nunca exigiu nada. Outra coisa que me abalou foi um recado que recebi do dr. Quanto à história do "moreninho que batia no meu ombro". Foi no Edgard Costa que comecei a pôr a cabeça um pouco mais no lugar. Ângela e toda aquela tragédia. apitou acusando a falta. Soou um alarme dentro de mim e parei imediatamente. Entrei quando o jogo já estava ganho. muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. ganhou não lembro de quanto. como fazíamos todos os anos. meu casamento. de repente.. Um dos guardas estava do nosso lado quando. entramos no camburão e partimos rumo ao presídio. Achei que não era necessário. braço direito do capitão Nabuco: — Cuidado. do presidente Geisel. o que saía mostrava que estava com pena de mim mesmo. ou ia para a "praia" e ficava de olho fechado. Aquela etapa estava vencida. dois dos jogadores começaram a se desentender. assistíamos à pelada. Quando resolvemos morar juntos. O guarda imediatamente entrou em ação. Tinha perdido a estréia do meu time quando estava a caminho de Cabo Frio. Por que Ângela e eu resolvemos antecipar tudo? Estávamos tão loucos que achamos que aquela era a hora? Ou cheiramos tanto que tudo escapou do controle? Queria virar essas páginas mas não conseguia. Certa vez estava com alguns internos batendo papo e tomando refrigerante na cantina. Minha vida. vou pegar você. porque em breve iríamos para Punta del Este e passaríamos quarenta dias. me passaram uma bola de frente para o gol.. Desde que havia saído de Búzios. mas ouvi a voz de um funcionário. Tinha de concordar que Adelita tinha suas razões. Tinha vergonha disso. meu habeas corpus. foi uma decisão conjunta. a analisar os últimos anos da minha vida. mas foi de goleada. de que minha ex-esposa deporia contra mim. Notícias assim me deprimiam. mas isso era verdade para metade da cadeia. ela não faria aquilo. entrando no Edgard Costa. eles me devolveriam e pegariam o recibo acusando o meu retorno. ficava claro que era feliz e amava minha mulher e meu filho. teve de esperar o fim da quedade-braço. O que ajudava a me distrair era o campeonato de futebol. com muita dor. Adelita. Eu entrava na quadra para jogar futebol. nunca analisara com tranqüilidade tudo o que tinha acontecido. Tinha paixão por Ângela. por termos um filho. 135 Logo depois do almoço. Quando recomeçava a escrever. — Vamos nos despedir agora. porque só complicaria a cabeça do menino.. O Judiciário entrou em recesso por discordar das atitudes do novo governo. enchi o pé e. Evandro. um moreninho que batia no meu queixo calçou a bola. Fiquei sentado no chão. O subtenente. fui algemado e alertado de que. Pelo pouco que tinha escrito. A dor foi horrível. boa sorte. Um pouco antes de chegarmos. percebendo que algo estava errado. no fim de 1976. o pé e todo o resto. aquela camaradagem ficaria para trás. Agora era torcer para o habeas corpus. em abril de 1977. Nem mesmo nos despediríamos. Achei que ia alcançá-lo.almoçar. Assim. que era o juiz da partida. Soou o . 136 Mas achava que. — Não corre não. que seria julgado naqueles dias. mas continuei correndo atrás do agressor. era incrível. seu filho-da-puta. Distraídos. massageando meu tornozelo. Evitava falar sobre o assunto com os internos. Chutei tudo. até chegar ao Edgard Costa. Estreou bonito. Convenci minha mulher de que estava tudo bem. propôs que fizéssemos uma viagem.

No dia seguinte. Lembrou-se de uma notícia que ouvira de madrugada: — Você viu o que aconteceu com o juiz de Cabo Frio? Ele me contou o que tinha escutado pelo rádio: o juiz tinha atropelado e matado uma pessoa perto de Arraial do Cabo. como os outros. com uma cara superconfiável. ele. ninguém foi transferido. Entendia a preocupação dele. Se ele acordasse. Ele sabia que eu me achava perseguido pelo juiz da comarca de Cabo Frio. Graças ao Nilson. Evandro. Mandaram os internos ficarem de pé em frente aos beliches e revistaram tudo. Nesses dias. Estávamos falando sobre os presos que haviam sido indultados no Natal do ano anterior. que estava do lado de fora e me chamava em voz baixa. Era julho de 1977. Gostava de escolher suas vítimas no aeroporto. A noite. Queria saber se tinham aberto um inquérito. Nilson pôs o dedo indicador na frente da boca. me trazer o jornal O Fluminense nos dias seguintes. João era um homem bom. Era a respeito do diário encontrado no quarto de Gabrielle. Na hora em que escolhiam os jogadores de cada time. Estávamos fazendo muito barulho. fui acordado pelo Nilson. Evandro. papai me deixou um bilhete do dr. Imediatamente fiquei preocupado com o Português. que não era de falar muito. Os participantes da farra eram os meus vizinhos no "Recanto do Luxo". Quando contei por que queria o jornal. Ele era um deles e. O conteúdo da última página confirmava as declarações que fiz quando interrogado no fórum de Cabo Frio. conversava muito com o Americano. Demorei para entender o que acontecia. fiz sinal para irem embora e voltei para meu lugar. 137 Uma delas se aproximou da janela: — Me dá um beijo. além de perderem a faxina. Além de treinar e jogar durante o dia. Com o futebol. se tivesse jogo à noite eu estava lá. Quer que eu tire a blusa? E ria. chamou minha atenção: 138 — Não seja burro de querer enfrentar esse juiz. — Elas querem conhecer você. Era policial aposentado. fomos todos surpreendidos: o dormitório foi invadido por funcionários e policiais militares. todos bêbados. encontrei uma reportagem que me interessava. O sr. Com ele estavam dois internos e três meninas de programa. como ele não estava prestando atenção. Sozinho no meio do campo. Todos os jogadores se dispersaram e. a intenção era saber mais do acidente e contar para o dr. Respondi que dormira a noite toda. Tinha esse apelido porque sua especialidade era dar golpes em turistas. Mas eles foram mandados para outros dormitórios e ficaram recolhidos por trinta dias. Um ou dois dias depois. o funcionário olhou para nós. eu era sempre um dos primeiros. Ele só não apareceu na janela porque tinha ficado no serviço social com uma moça. Sorri para as meninas. informando que Adelita . arrendatário da cantina. de preferência casais mais velhos. fiquei sabendo que o Professor também tinha estado na gandaia. acabei entrando em forma. Levaram escoltados o Nilson. Folheando os jornais. riu e deixou por isso mesmo. Falei para o sr. Só nos campeonatos é que era reserva. O diretor me chamou para perguntar se era verdade que Nilson havia entrado no presídio com mulheres. Era um cara de 1m 80 de altura. Só tinha um jeito: castigar os dez. que você se fode de vez. os funcionários jogavam com alguns internos. Imediatamente pedi licença e fui até a cantina. mas acabei descendo do beliche e caminhei até a janela. fora prejudicado pela burocracia. embora convivesse com criminosos havia muito tempo. João. Num domingo de madrugada. Pela manhã. iria cagüetar na certa. Eu não queria enfrentar o juiz. e ele deu uma risadinha e me dispensou.apito e foi para o meio do campo. Assim eu ia levando aquela espera interminável. o Professor e os meus outros dois vizinhos. não conseguiu identificar os dois briguentos. e acho que era informante do diretor.

ele pegou o microfone. que achavam que eu tinha trapaceado no sorteio da formação dos times. Evandro tinha ido a Cabo Frio justamente para juntar as provas. mamãe e. A sexta-feira chegou. Um rapaz da nossa mesa tinha levado um tiro na cabeça e morrera. perguntando se era notícia de algum alvará de soltura. Levantei os braços como se tivesse marcado um gol e soltei um urro. A briga havia sido feia. Ana Maria Souza Dantas. Continuamos jogando conversa fora por umas duas horas. esquecida durante aquelas horas. tentando organizar as idéias. com decisão por pênaltis. dr.. As visitas de familiares e amigos fazem um bem enorme. Paramos o jogo e fui ver o que ele queria. e no fim de semana seria conhecido o campeão. Pedi licença a um funcionário e o acompanhei até a porta. Aquela seria uma semana muito importante para o campeonato de futebol. Queria que eu parasse o jogo para falar com ele. Ricardo Amaral e Guto Vidigal. esperando o resultado do habeas corpus. que cochichou alguma coisa no ouvido do diretor. o indulto fora concedido no Natal do ano anterior. e logo após o jogo o capitão Nabuco entregou a taça. Então chegou o final da visita. mas não conseguia. nos anos 50. Tive que receber o prêmio. Passei uns dez dias assim. Quando voltava. Todos o consideravam um homem honrado e íntegro. Seu alvará já está com o oficial de . resolvi continuar pensando em vôlei e futebol. Só me despedi do Americano. Antes de sair da quadra. Se precisassem. e eu só o conhecia de vista. pouco antes do jantar. "O que será que esse chato quer?". No fim de semana recebi a visita de vários amigos. continuava a escrever. recebi a visita do dr. no Guarujá.. mas no registro do grêmio o capitão era eu. ouvi no rádio que em algumas horas você será solto. mas. junto com algumas vaias dos inconformados. pensei. Só horas depois conseguia me recuperar. dei um pulo. Ela estava animada. Os documentos que provavam isso já faziam parte do processo. Uma tarde. apareceu um funcionário. era um dos nomes mais proeminentes da cidade. Ele vinha de Cabo Frio e estava sozinho. Foi um jogo duro. e logo desviava a atenção para a TV. Para me distrair. e joguei boa parte da partida. seu apoio era importantíssimo. embora não fosse criminalista. por conta de um processo de uma rixa em Santos. Os dias passavam. me deixavam muito mal. Evandro tinha contratado um advogado 139 de Cabo Frio que. Os alvarás de soltura estão em cima da minha mesa. ter esperança e depois ficar dias deitado no beliche. sem nenhum ânimo. já era sobre minha infância. Mamãe comentou que dr. além de não ter participado da confusão. Um dos times que disputariam a final era o meu. Uma tarde. tão mal que eu entrava em depressão profunda. No sábado vieram lide Lacerda Soares. Como ainda não tinha data marcada para os desembargadores do Supremo do Rio de Janeiro se reunirem. Alguns internos se aproximaram. estaria à disposição para ser testemunha de defesa. Tião era o capitão dentro do campo. para surpresa de todos. Quando li o bilhete. todos foram embora e eu caí na real. quando recomeçava. Abriram um processo. e o dr. A impressão que dava é que tinham marcado um encontro. Realmente tinha brigado num bar no fim da Enseada. estava começando um jogo de vôlei quando reparei num interno que trabalhava na enfermaria e fazia sinais para mim. O nome dele era Waldemar. como nas vezes anteriores... — Doca. No domingo vieram Raul.escrevera uma carta se solidarizando comigo. mas a despedida e a volta à realidade. dois times tinham sido eliminados. Depois da entrega da taça. Dava uma parada para pensar e. Evandro. Meu time foi o campeão. Ele estava muito animado. — Os internos que foram indultados no Natal podem arrumar suas coisas e ir para a secretaria. Waldemar. punha no papel a primeira puxada de fumo. Começava com a África. eu era menor e nem havia sido intimado para testemunhar. e deu empate. Não queria. como não podia deixar de ser. Papai. e eu estava cada vez mais tenso. Veio me contar que eu ainda não tinha sido beneficiado pelo habeas corpus. Era 7 de julho de 1977.

entrei rapidamente num táxi que nos esperava e parti imediatamente rumo à casa dos meus tios. O diretor. Olhava tudo o que estava à minha volta. Seguindo os conselhos de papai. Arthur Lavigne. — Deixa suas coisas aí. cheios de armadilhas. fui para meu beliche e fiquei esperando me chamarem. Não andamos pelo pátio como ele tinha sugerido. Pouco antes da secretaria. Já tinha perdido dois recursos e achava que poderia perder aquele também. Quer dizer. Vinte e quatro horas depois seria a festa. O diretor estava me esperando com o oficial de Justiça. só que desta vez . mas. o diretor veio me avisar que tinha chegado a hora. As roupas de cama. fingindo que assistia à TV. Técio também estavam lá. acho. Não dava para identificar ninguém. os travesseiros e as toalhas. Ao ver o Português. o capitão disse: — Não vou com a cara daquele cagüeta. Nilson carregou a pouca bagagem que eu tinha e. que era quem cuidava de tudo isso. mas não sei se via alguma coisa ou se apenas curtia a liberdade. vendo-os. Lembro da cara emocionada do meu pai e do dr. caminhei com minha escolta sorrindo para todos que estavam ali. Numa penitenciária. Como sempre.Justiça. Ainda temos algum tempo. Mas quando os dois chegaram estava tudo pronto. nos despedimos. lá no fundo.. Há um batalhão de jornalistas lá fora. Esses lugares têm muitos presos e poucos agentes penitenciários para vigiá-los. Onde eu iria trabalhar? Tudo isso passava pela minha cabeça enquanto o capitão sorria e fazia um sinal para que eu o acompanhasse. Alguns internos foram autorizados a me acompanhar até a secretaria. Estavam à minha espera no portão que dividia os dois pátios. São lugares perigosos. Todo cuidado é pouco. A semana tinha sido agitadíssima. QUINZE DIAS DEPOIS. No caminho. 140 Esperava aquela notícia de uma hora para outra. Ilídio e o dr. inclusive o Português. Quando finalmente cheguei à rua. EU ESTAVA SENTADO NO BELICHE. acho que tinha medo. vamos até o pátio caminhar um pouco. ÂNGELA E IBRAHIM CHEGARAM E SE HOSPEDARAM conosco. Lá pelas nove horas. Ao receber a notícia. um sorriso mal interpretado pode ter conseqüências muito sérias. 141 Ficamos ali sentados sem dizer nada. Não queria demonstrar nervosismo. me senti mal e caí no chão. alguma coisa atrasa e deixa a dona da festa a mil. Talvez meus amigos me rejeitassem. mas não tenho certeza se o dr. Não sei explicar. Estendeu a mão e desejou boa sorte. Sentamos numa pequena arquibancada que dava para a quadra de esportes. Passamos entre os beliches. fui atingido por centenas de flashes e perguntas que vinham de todos os lados. e ele ia cumprimentando e brincando com alguns internos. junto com os outros. e doei a televisão para o dormitório.. se assinei alguma coisa ou se apenas peguei aquele tão esperado habeas corpus e saí. eu tinha esperança. porque há muita pressão por parte da imprensa. e passamos o dia seguinte numa boa. Como me recuperei rápido. Reuni alguns internos. em direção à saída. Providenciei alguns policiais militares para escoltá-lo até o carro de seus advogados. você irá para uma prisão que não terá nada a ver com isso aqui. conversamos pouco. Os flashes me cegavam. Não sei exatamente o que aconteceu. QUANDO O DIRETOR CHEGOU. só ouvia o pipocar das lâmpadas. em Santa Tereza. dei para o Mário. Ele olhou bem nos meus olhos: — Provavelmente dentro de uns dois anos será seu julgamento. olhando para nossos pés. Na verdade. ou então vergonha. Nilson tinha dado um jeito e era um deles. Fui parar na enfermaria. sorriu. Se isso acontecer. caminhou comigo aqueles poucos metros que faltavam para a minha liberdade. no Rio de Janeiro. Acho que você será condenado. senti medo. ao sentir que a hora havia chegado. Sempre gostei de receber os amigos ou de ser recebido por eles.

andando pela casa. Avançamos muito nos planos de viver juntos definitivamente. misturou toda a minha cabeça. e nem mesmo 142 distância imposta por nossas obrigações nos fez parar de falar. holofotes. — É assim que vamos nos acalmar? Olhei de relance para a sala. Linda. A casa estava linda e. As razões eram claras: ambos gostávamos de nossos parceiros e um era amigo do parceiro do outro. Acho que era onde íamos buscar coragem. Tinha gente saindo pelo ladrão.vinha muita gente em casa. Conversamos muito sobre a dificuldade que teríamos com Ibrahim e com minha mulher. Seu andar era felino. minha amiga do coração. Daí em diante. Era todo mundo ficar de pileque. planejar vivermos juntos. foi saindo. Controlava o assédio da rapaziada. fotografava as pessoas 143 que interessavam e ia para outra festa. ela estava um arraso. Estava olhando aquilo tudo quando Ângela apareceu no terraço. Ninguém estava por ali. ela vinha caminhando em minha direção. Gente da velha guarda. Ibrahim. Arrastei Ângela para trás de uma árvore e comecei a beijá-la delicadamente. ou se já estava lá. escolheu começar a entrevista no momento em que a festa estava no . o bar. e o garçom apareceu avisando que os Primeiros convidados estavam entrando. Aquela aparição. A organização da festa havia sido perfeita. muito. O Ibrahim chegou. sorrindo para um fotógrafo amigo. os garçons. Ela ria. abri um farnel que tinha recebido naquela tarde. esperei ela aspirar e passar meu dedo em sua gengiva. Ele sempre era o primeiro a chegar. caíram matando. Era mais fácil para nós agir covardemente. o pessoal mais velho. constatei quanto a casa era boa para uma festa daquelas. sem olhar para trás. Falamos muito por telefone. Molhei o dedo na língua e enfiei no papel. a casa estava cheia. na moita. Ela esteve ocupada com problemas familiares e por alguma razão não pude ir ao seu encontro.. Não sei se veio direto do aeroporto naquela tarde.. o riroseli. Pouco antes de os convidados chegarem. Por isso falei para os garçons não pararem de passar as bandejas com bebidas. A excitação que sentia era muito forte. Acho que aproveitou e fotografou Ângela e minha mulher. a mesa.. e só trocávamos olhares. Repeti o movimento e fiz o mesmo. Ângela esteve alguns dias em São Paulo. encostei em sua narina. Nunca nos drogamos tanto como naqueles dias. tanto dentro como fora. A bem da verdade. cariocas e paulistas se misturavam. Só parou de chegar gente à uma hora da manhã. falando que precisávamos nos acalmar. Lembro da reportagem e da parafernália toda. Ângela e eu nos encontramos poucas vezes.. no momento certo escaparíamos sem aviso. As flores.. Com o vestido que ela usava. câmeras etc. A iluminação.. hospedada com Joana. Puxei-a pela mão e caminhamos até o terraço. a meia-luz. Nas semanas que antecederam a festa. eles tinham toda a razão. Enfiei a mão no bolso e. segurando seu punho. que havia chegado mais cedo e já tinha jantado. que estava muito elegante. eu gostava dela. só tinha um jeito de a festa ser boa e pegar fogo. da maneira mais feia. um pessoal mais jovem e a nossa turma. Quando isso acontecia. Não tinha jeito. para descontrair o ambiente. Cheguei ao hall puxando Ângela Pela mão. Uma semana antes da festa. muito mesmo. Duas horas depois. mostrando toda sua sensualidade. Fui para o jardim e caminhei até onde acabava o gramado e começava uma rampa que descia para a garagem. Ângela e eu tínhamos combinado de ficarmos comportados. que trabalhava junto com a colunista Alik Kostakis. com minha mulher e meu filho —. muito mais que isso. muito experiente. no exato momento em que constatava que amava a casa e tudo o que ela representava — que ela era o meu canto. Minha mulher estava lá. estava exata. Olhando de lá o meu coração apertou. seria fácil fazer amor com ela ali mesmo. seu cheiro de fêmea sempre causava aquela sensação.

quando estava na fazenda. No começo da noite. Depois daquilo tudo estávamos acabados. e eu tinha receio de que minha mulher se sentisse muito só. Mas não tinha coragem de executar nossos planos. eu estava bem. Um dia. Enfiei a cara no trabalho. Ficamos rompidos uns quinze dias. Só a vi novamente no dia seguinte. como antes. disse que eu era covarde e que não a procurasse nunca mais. Cansei de Pensar: "Sou um babaca. Não atendeu ao único telefonema que dei para explicar e fazê-la compreender minha situação. conversando em volta da piscina. e Ângela voltou para o Rio. O importante era pensar unicamente nos negócios e na família. me xingou. numa hora que não chamasse atenção. Não era um adolescente inexperiente. Ela e Ibrahim fizeram uma pequena refeição e voltaram para o Rio. mas sentia muita saudade de Ângela. nossos encontros continuaram aqui e lá. Foram dias difíceis. que tínhamos de parar com a ponte aérea. Mas muitas Vezes tive vontade de ligar para ela só . Estivemos juntos o tempo todo. A festa tinha chegado ao fim e nós quatro também. Apesar de eu estar feliz com os períodos que ela conseguia passar aqui. quando estávamos no jardim. Se conseguisse esquecê-la. O dia já estava raiando quando os últimos convidados se despediram. e as noites lá eram agitadas. Chegamos a combinar que eu sairia de casa dali a poucos dias. levando-a de volta para a casa da Joana. sentia muito ciúme. É impressionante o efeito da bebida num momento de dor. Não precisava ficar preocupado com a vizinhança. tanto durante a semana como na fazenda. Ângela e eu tínhamos combinado de dar um jeito de nos encontrar depois da festa. Tudo isso. fazia daquele o momento certo. Naquela tarde. pois vivia deixando tudo para depois. Levava a vida normalmente e. apenas com algumas malas. na casa do Francisco. e naquela região do Morumbi havia pouquíssimas casas. naquela época exagerei. lá pelas duas da tarde. eu também achava que a vida que levávamos era impossível. Meus sogros estavam passando uma temporada na Europa. ela disse mais uma vez que tinha de decidir. no jardim e em pequenos grupos. Mas nada aconteceu. Minha mulher. Depois da entrevista. Tomava caubóis o dia todo. Não me lembro de termos ficado bebendo depois. Joana recebia muito. 144 Não era só por causa do meu ciúme que brigávamos. Perguntei-me muitas vezes como tinha entrado numa fria daquelas. Só que avançamos no nosso plano de viver juntos. soube responder sem peruagem e sem cair nas armadilhas que os cronistas armam. Esse pensamento me dava força para não Procurá-la mais. mas nos momentos em que ficava sozinho sofria muito. era um inferno. e eu fui esperá-la no aeroporto. Voltamos a falar sobre o assunto numa tarde que passamos na casa do Francisco. Uma vez a discussão esquentou. procurei não pensar mais no assunto. e eu mal fui para o escritório. Foi um momento muito difícil. Depois daquele fim de semana. tudo ia ficar bem. Com a família ou trabalhando. Mas no fim da tarde seguinte estava de volta. Ângela ficou furiosa. para comentar a festa e a entrevista. . em que procurava mostrar normalidade. telefonei para o Rio e avisei que não poderia tomar nenhuma atitude. não tinha certeza de poder fazer o que estávamos combinando. nadava e andava a cavalo. Daí em diante. Estávamos em 1976. jogava cartas. e mais a música a toda. Quando ela cismava que eu tinha feito amor com minha mulher. Eu bebia muito e não ficava de porre. e durante esse tempo encerrava o expediente na quinta e ia para a fazenda com minha mulher.O que estamos esperando? Vamos passar a vida planejando? Ela passou três dias aqui. Depois de alguns dias. mesmo quando são grandes amigos dos entrevistados. com convidados nas salas. Se antes eu já bebia. a festa continuou alegre. Só de escrever sobre isso minha boca seca. Tinha muita coisa a fazer. vivíamos brigando. Na verdade. Acho que a entrevista apareceu duas semanas depois no Fantástico. muito inteligente. Que a vida que levávamos era muito sacrificada.auge.

Depois de algum tempo. Passamos a tarde juntos.Puxa. Outras vezes. Ficou combinado que ela iria para o Rio e. Os meus tios me acolheram como sempre.. nos olhando. quando eu disse que "o momento não era oportuno". O começo da conversa foi difícil. Fui carinhoso. Ri. Atendi imediatamente. só com a roupa do corpo. curtindo no quarto. Cada ponte aérea que chegava. sorrindo e me entregando sua pequena bagagem. passamos duas ou três horas na casa do Francisco. seu melhor assunto era eu? Não olhei para trás e subi as escadas da casa. Tinha certeza de que era um caminho sem volta. depois daquilo tudo. depois de bater o martelo numa decisão. quando Ângela e eu passávamos o dia juntos. assuma responsabilidade pelo que você . pois o meu pequeno estoque estava no fim. Minha resposta foi idiota. Voltar para a minha mulher e meu filho. amordaçada pela censura. a vida nunca mais seria a mesma. Devo ter dado alguma bobeada. sem tocar em assunto algum que pudesse comprometer aquela lua-de-mel. Nos dois dias seguintes. antes de ela voltar para o Rio. A imprensa havia enlouquecido? Ou. Eu sabia que desta vez ia embora e pressentia que a vida nova tinha pouca chance de dar certo. Mas logo se recuperou.para ouvir sua voz e desligar em 145 seguida. esperava ela aparecer.Ligação do Rio para o senhor. Ela me interrompeu: — Deus não tem nada a ver com isso. daria para mais um ou dois dias. e disse que ela sabia muito bem a verdade. . e não sair mais de lá. se desculpou por ter desligado o telefone na minha cara e perguntou se eu iria vê-la ou se preferia que ela viesse para a casa da Joana. nos fins de tarde. se iam ou não me prejudicar no julgamento. sentei junto a eles e. Perguntava a mim mesmo o que estava acontecendo. e ela chamou minha atenção imediatamente. Dando certo ou não. ela e Francisco iriam comigo até a porta de casa. fui até o Bexiga comprar pó. apesar de me esforçar para não parecer ansioso. quando era jovem e ia passar temporadas lá. nos abraçando e nos beijando. como se nada tivesse acontecido. quando voltasse a São Paulo. com muito carinho. nem tive tempo de pensar nos planos de esquecê-la. Duas horas depois eu estava no aeroporto esperando por ela. Se fosse só para mim. só que eu achava que o momento não era oportuno. Eu disse: — Sempre pedi a Deus que me protegesse. Faríamos isso com meu carro. exagerávamos. Respondi a todas as perguntas de bate-pronto.. por mais difícil que fosse. num momento que fosse oportuno. Só então tocamos novamente no assunto. e em seguida partiríamos para o Rio. Eram duas pessoas que eu amava e respeitava. me imaginava chegando em seu apartamento de repente. pois contávamos com o apoio e a ajuda dele. Não misture as coisas. sua vida vai continuar sendo uma aventura? A pergunta não era agressiva. 146 NA CHEGADA A SANTA TEREZA. Dona Ângela. tia Vera era muito amiga. Sua voz parecia normal. Antes. para me ajudar com as malas. prometendo que no dia seguinte atenderia a todos novamente. Acreditei quando falou que me amava e não podia viver sem mim. Tia Vera perguntou: — E agora. Enquanto papai telefonava para São Paulo e tomava algumas providências. pensei que eu fosse mais que um caso para você. via-a descendo a escada do avião. porque de repente ela estava ao meu lado. Pedi que papai me esperasse com meus tios e me deixasse sozinho com os repórteres. Como sempre acontecia na minha vida. Não importava se devia ou não respondêlas. apesar de ter ficado muda por um instante. Uma tarde. Mas. Que se danasse. entre alguns uísques. Dali para a frente é que pensaríamos no futuro. seria impossível. minha secretária Cida me avisou: . ainda que já tivesse dado muito trabalho a eles. DEI COM OUTRO ENXAME DE JORNAlistas. Ficamos uns cinco minutos no carro. o que vai ser. conversamos um pouco. pedi que me desculpassem e me despedi. queria era ficar livre daquilo. ficava tranqüilo. Fiquei um bom tempo com eles.

tia querida. junto com tia Vera e tio Tito. Ainda vou ter que pensar sobre isso. Com isso relaxei e fui descansar. Meu pai continuou no táxi. Combinei com o motorista uma viagem para São Paulo. mas nos falamos várias vezes por telefone. numa boa. A entrevista continuou. A viagem foi tranqüila. que era dali mesmo. A campainha tocou e a empregada veio perguntar se eu ainda iria precisar do táxi. Com o Luis Felipe era mais complicado. Olhei para aquela mulher amada por todos que a conheciam. o mais velho. A casa era grande e eu tinha total privacidade. no Morumbi. A imprensa. falei para minha mãe que iria atendê-los para que fossem embora. Acordei só no dia seguinte. me abraçou e me beijou muito. e às dez da manhã eu já estava na casa da minha mãe. mas fiz sem querer: — Porque galo em galinheiro alheio é galinha. estava tudo calmo. não apareceu. que não queria deixar minha mãe ver o neto. esperando eu acordar. Disse 147 para papai não se preocupar. Teria de ir para o aeroporto e embarcar para São Paulo. que ficaram comigo até enquanto eu cochilava. mais alguns amigos apareceram. Só meu amigo e irmão. parece que adivinhara que não nos veríamos de novo. Aí me ferrei. provavelmente já estaria em casa. Passei o dia quieto. consegui me desvencilhar das perguntas dos jornalistas e voltei para casa. E comecei a responder sua pergunta novamente: — Não sei. Estava preocupado com o dia seguinte. antes que alguém percebesse minha chegada. Ele não se dava bem com seu pai. O café veio junto com a informação de que a casa estava cercada pela imprensa.faz. que me esperava na sala de visitas. Antes. ninguém tinha pago ao motorista. O Raul. mas logo me entenderam. Depois de algum tempo. Fui imediatamente cercado pelos repórteres e comecei a responder a suas perguntas. Dei uma resposta cretina. Dei uma olhada para conferir se não havia ninguém da imprensa e saí. Minha tia faleceu pouco tempo depois. Levantei. Mas estava dando conta do recado. 148 Queria apenas dizer que o primeiro advogado. Não me preocupei. o ilustre professor doutor Paulo José da Costa Jr. Estava quase sem dinheiro. Recebi visitas de amigos e parentes. Assim ele descansaria um pouco. Seu carinho me fez chorar. A uma certa altura. que também era meu amigo. estaria me cercando desde cedo. voltei para São Paulo. que me esperava na frente da casa. Minha mãe. e havia perdido a renda que vinha de meus negócios de compra e venda de dinheiro. que também não teve continuidade. Naquela madrugada. E tinha de trabalhar o mais rápido possível. Chiquito.. sem sustos. não era do Rio. mamãe . Quando entrei e contei a novidade. Acabei meu café e fui ao encontro da imprensa. Já estava chamando papai para pagar e dispensar o táxi quando tive um estalo. todos ficaram meio surpresos. pois só estavam fazendo o trabalho deles. pensando na vida um bom tempo. Dei-lhe dinheiro para que enchesse o tanque. À noite. Entrei rapidamente. Fiquei ao seu lado. Todas muito difíceis naquele momento da minha vida. tomei banho e pedi para servirem o café-da-manhã no quarto da minha mãe.. fiz a barba. A primeira coisa que faria seria ver os meus filhos. sem que eu percebesse a gafe. pois não queria parar para abastecer. alguém perguntou por que eu havia trocado de advogado. às quatro da manhã. Com a confusão da chegada. Quando fui dormir. e o convite para trabalhar numa corretora de valores. Estava no mato sem cachorro. filho do meu padrasto. na certa. eu falaria com o motorista. Fiquei rolando na cama.. não tenho a menor idéia. comi e descansei um pouco. sem sair. sem problemas nem perseguições da imprensa. Ela achou que a idéia era razoável. Eu já tinha problemas com o meu sogro. Minha empresa estava nas mãos de outros. de Santa Tereza. e meu padrasto e amigo Luiz Cunha Bueno. abraçando-a com todo o carinho.

o Raul. ia à casa de umas primas de quem eu gostava muito. O que eu queria? Precisava desmanchar a imagem de playboy e gigolô? Talvez fosse isso. que viria a ser meu cliente pouco tempo depois. Paulo e eu saímos do fórum abraçados. me sentia sozinho. a gente sempre foi muito unido. Precisava recomeçar a vida rapidamente. Nos dias seguintes. O que a imprensa é capaz de fazer. Aquilo me incomodava. concessionária da Volkswagen.. em Fort Lauderdale. — É. entrou no meu quarto às dez da manhã. mulheres e senhoras. Dr. Chegava em casa e escrevia que não prestava. Foram uns quinze ou vinte dias difíceis. Reencontrei Raulzinho e fui conversar com meu amigo Guto Vidigal. me acolhiam muito bem. Quando escrevia coisas mórbidas. me desculpei publicamente. A bolsa da minha mãe estava e sempre esteve aberta para mim. Finalmente as férias acabaram. Como não abaixou. Fui aos bancos ver como andavam as minhas contas. eu só quis dizer que ele não era do Rio. por último. — Dono. amassava tudo. que olhassem. que tomava conta da casa e tinha criado minha mãe. no fórum da praça João Mendes. Não estranhei a notícia. queria que a poeira abaixasse um pouco. eu precisava de dinheiro. Os amigos da infância mantiveram distância. Aquilo não me satisfazia.. Precisava transferir minhas ações para o novo proprietário. Ao contrário. que estava com nova diretoria. Ela estava calma. É claro que Chiquito era um caso à parte. já tinha trabalhado para ele. Esperei uns dias para começar a sair de casa. Queria trabalhar. mas me avisaram que ela e nosso filho estavam na Flórida. bem trabalhados. Ele me convidou para trabalhar em sua corretora de valores e eu aceitei. e tenho certeza de que nenhum de nós ficou ressentido. Se me olhassem. quando comecei a vender carros na Marcas Famosas. quer dizer. e fui logo falar com minha mãe. depois de ter chegado dos Estados Unidos. que deu um fuzuê danado você chamar um tal de doutor Paulo de galinha. Os amigos que tinha feito nos últimos anos. resolvi tocar a vida pra frente assim mesmo. punha num cinzeiro enorme que tinha no meu quarto e botava fogo. Telefonei para o José Carlos Dias e ele acompanhará você ao fórum para fazer a bendita retratação. Num feriado prolongado fui para a fazenda delas em Goiás. os jornais ainda comentaram. Deixei passar uns dias e telefonei para Adelíta. apesar de nunca ter sido tão assediado por meninas.. sentou na minha cama e disse: — Dormiu bem? Depois vá até o quarto da sua mãe. Telefonei para alguns amigos empresários que estavam para chegar de viagem. Depois disso fiquei uns tempos meio perdido. meu irmão e. mas tinha o feriadão.. perante testemunhas e toda a imprensa. Um camarada legal. Nem tomei café direito. que deveria ter vergonha de estar saindo e me divertindo. Sozinho. Negócios de compra e venda de dinheiro são muito rápidos e. porque não sabia quanto tempo teria de liberdade. Guto me conhecia bem. mas ele falou para sua mãe que quer uma retratação pública. um empreiteiro argentino que já conhecia de vista. Ali eu estava em casa. dona Leonor — Dono —. Deram seu endereço e telefone. até porque já dominava o negócio. Pelo menos uma coisa boa aconteceria nos dias seguintes: meu filho mais velho. Saía com Chiquito. 149 Resolvi que tinha de levar o dia-a-dia como se nada houvesse acontecido. dizia que somente um jornal tinha publicado aquela frase infeliz. visitei a Brasilos. eu. Minha mãe dizia que eu vivia em motéis. Alguns dias depois. chegaria da viagem que tinha feito com um grupo de meninos do colégio.e eu nos recolhemos em paz. mas logo esqueceram o assunto. ganha-se bem. porque lembrei que tinha dado autorização para meu filho sair do país. Mas eu não tinha . mas não era dinheiro que eu queria. era bem recebido nos lugares aonde ia. E continuou: — Também não era para o Paulo ficar tão ofendido. Ao contrário do que esperava. Parecia que eu estava derrapando. No dia seguinte. me deprimia.

Meu balanço nesse curto período: tinha quebrado a cara em entrevistas idiotas. meu melhor companheiro era o uísque. O encontro foi marcado para dois dias depois. havia pedido desculpas publicamente ao dr. Não tinha peito para fazer meu trabalho. amor e compreensão. No primeiro dia. em vez de me dar prazer. Só vou ter que atender os clientes". me encontro perdido e desorientado". recebi um telefonema da Celita. além de jogar na bolsa. Devemos dar e receber amor para sermos felizes". fico constrangido. Fazia pouco tempo que estava fora da prisão. Ele ouviu pacientemente todas as loucuras que estavam embaralhadas na minha mente. escrevi: "Logo após a saída da prisão. Conversei um bom tempo com o padre Dario. da solidão e do arrependimento. ele não precisava dos meus serviços. Ela sugeriu que fosse tomar um café em sua casa e conhecesse um amigo. todos os dias. nas bocas da alameda Barão de Limeira. sei lá. tentara arrumar trabalho numa corretora de valores e. No dia 15 de agosto de 1977. no fundo. prima e amiga de muitos anos. apesar da liberdade de que gozam. ela atrapalhou minha cabeça de vez. escrevi: "A decepção de ver que no mundo aqui fora. agora que estou livre. Daquele dia em diante. que. era um dos maiores empresários no ramo de automóveis. Achei a entrevista fora de hora e. Éramos amigos e. Deu na cabeça.. os cidadãos vivem em uma selva tão grande ou maior que nas prisões". mamãe havia combinado com o Salomão Schwartzman uma entrevista. Tinha ansiado tanto pela minha liberdade "e. Era o Valdomiro Gouveia Ferrão. me sentia constrangido. Achei uma ótima idéia. Nos fins de semana ia para a chácara da minha cunhada em Jaboticabal. Não precisava fazer cerimônia com ele. Era angustiante esperar que a Justiça marcasse a data do julgamento. por algum tempo. o padre Dario. Como não procurava os amigos para não constrangê-los. Lembro bem de suas palavras: "O mais bonito da vida é o ser humano. 150 Além do mais..coragem de ligar para os homens de negócios e para grandes empresas. de casa para a loja. Sabia que beber não resolveria os problemas. Comecei a trabalhar na Miro Automóveis. tive momentos de alegria. Fui rodeado por novos amigos. passamos a falar sobre investimentos. ia vender carros na boca. um funcionário — que tinha trabalhado comigo anos antes —. assim Poderia vê-la. conhecido como Miro. A resposta dele foi a que eu queria: — Pode começar agora mesmo. Tenho esperança de que com o passar do tempo consiga viver em paz novamente e . estava decepcionado. que. depois de alguns minutos. "Mas agora resolvi parar com as falsas soluções e senti o grande peso da saudade. Sei que eles sumiram. Depois de alguns dias telefonei para um amigo e investidor. Conversamos sobre os velhos tempos e. Paulo. que até hoje não sei se eram amigos ou faziam média. Ia tocando a minha vida. Em novembro. Interrompi nossa conversa sobre investimentos e contei a ele minhas dificuldades. Substituí remédios e amigos por álcool e. que merda. confundia ainda mais minha cabeça. Até hoje reflito sobre essas palavras. TERMINEI A CONVERSA COM MIRO E FUI CONTAR A MINHA DECISÃO para o Guto. que foi feita no jardim da nossa casa e tinha acabado de sair nas bancas. 151 Quando conseguiu falar.. Na verdade.. transmitiu uma mensagem de paz. deu certo". No meio de tudo isso. Bebi muito naquela época. Eu ia falando com ele e pensava: "Não tenho coragem de falar com os empresários. agora. Eu já tinha trabalhado com ele no começo da década de 1960. joguei naquele número. Fora a minha vida sexual. que suportei pelos remédios que tomava. da loja para casa. Os jornais continuavam falando de mim. o Nando jogou no bicho o número da chapa do meu carro: 0610. Mas trabalhar numa loja de automóveis é outro caso. Pedi que me aceitasse como vendedor em sua loja.

Ele era sério. A loja do Miro era grande. O que fazia? Explodia em cima de alguém. e meu coração apertado. a mulher. o corre-corre das compras de Natal. os prazeres. Fui para Jaboticabal com minha cunhada. quase um ano antes: — Pode começar amanhã. passear. a vida". disse a Jean Louis que gostaria de sair da boca e voltar a trabalhar com ele. ficava arrasado. porque as manchetes eram sempre pejorativas. eu escreveria: "Por que essa vontade de cagar na cabeça de todo mundo? Qual é a grande revolta? A injustiça de ter nascido para viver um drama tão pesado? Não compreender que o homem possa viver para destruir e ser destruído? Merda. 153 Dei a entrevista na hora. a pobreza e a podridão? Sou fraco ou forte? Nasci à imagem de Deus? A natureza. Apesar disso. todos os dias. e isso devia irritar o pessoal. Era uma loja aberta. minha mãe foi para a praia. Um ano depois. que começou no Guarujá e acabou em Itacuruçá. quieto no meu canto. Nossas mães eram amigas íntimas. saí pelas tampas com ele. quando cheguei à loja e encontrei o Salomão.que possa fazer alguma coisa útil pelos outros. Marilena. Duas coisas aconteceram antes de eu sair do Miro. sem álcool e sem remédios. Depois. sorriu e deixou por isso mesmo. e testemunha de defesa no meu processo. Estava preparado. paguei uma semana de jogo que estava atrasada e avisei para ele não jogar mais. e com ele as festas. meu irmão e seu casal de filhos. como eram chamados. contar a ele a minha decisão de sair da firma e . Um pouco antes do dia 24. nesses testes minha parceira era uma moça que eu não conhecia. Fizemos uma viagem bonita pelas praias. Foram dias lindos. Creio que só agora. quando o apontador do jogo do bicho veio me entregar o papelzinho que comprovava a aposta. onde eu já tinha trabalhado. Logo depois da viagem cada um seguiu o seu destino. Ele era dono da Marcas Famosas. me disse algo de que não gostei. achava tudo um saco. Era uma mulher bonita. Ele queria outra entrevista. entrei numa espécie de curso de auto-ajuda. Ficamos muito amigos e. como se corrige a morte. Quando estávamos nos despedindo. A segunda e mais incrível foi a que mais me ajudou. Quando me comportava assim.. Passei as festas em família. Fui ao escritório do Miro. que era um empresário amigo meu. o Jean Louis de Lacerda Soares. Eu ia levando. Era meu amigo de muitos anos. pedi desculpas umas vinte vezes durante o dia. isso tudo me incomodava... Todos sentiam aquele ambiente. na restinga da Marambaia. Sossego. compravam e vendiam vários carros.. A resposta foi a mesma que a do Miro. estou conseguindo me encontrar. foi me fazer uma visita. Foi um ótimo curso. quando o curso acabou. loira de olhos azuis." Andava irritado por ser alvo de curiosidade e por não ter notícias dos advogados. 152 Para melhorar minha cabeça. tinha um gravador e. e me ajudou muito. Espero que não tenha vindo ao mundo só por vir e para terminar com a vida da Ângela. Trabalhar por trabalhar era pouco. apesar de tudo. que tanto amei e ainda amo. Sempre havia jornalistas rondando. como sempre. a mesa farta e. meti a cara no trabalho. o assassínio.. Uma noite. Enfim. mas. Só que me sentia culpado por me distrair. Fazíamos testes para treinar o que aprendíamos. Eram ensinamentos de controle de mente. É muito duro. Eu não dava entrevistas. a entrevista só poderia ajudar. A primeira foi no dia seguinte. Quando 1978 começou. Dezembro chegou. como pretendia mudar de emprego dias depois.. ou Mind Control. conseguia vender e punha algum dinheiro no bolso. Foram comigo Raulzinho e uma amiga. embora conhecesse seus amigos.. Então era fácil me fotografarem trabalhando. As duas me ajudaram. começamos a sair com freqüência. Eduardo Armando era sócio do Miro. dar risada. Eu continuava a jogar no número da chapa do meu carro. eu não tinha. estava acompanhado pelo fotógrafo japonês. no segundo andar. com seus três filhos. não estava contente. muito em moda na época.. a cidade enfeitada. uns dez anos mais moça que eu. que me fizeram bem. espero que Deus me ajude. entrava e saía quem quisesse.

Depois dessa arrancada. . Contei que havia suspendido a ordem do jogo diário. Avisei ao Miro: — Mesmo ele sendo mais velho. e com amigos. Ao fim de noventa dias tinha vendido ainda para a Tenenge. E eu continuava tendo todo o apoio da família. Entrevistas eu não dava. Careca era pequeno. não conseguia rejeitar.. Vinha rindo. o licenciamento. sabe o que aconteceu? Eu joguei para você. Daquele dia em diante. comecei a administrar os clientes que tinha conquistado. o que nunca dava menos de dezoito visitas por semana. passei fácil pelo ano de 1978. POUCOS DIAS DEPOIS DE RECEBER O DINHEIRO. no começo da tarde. Nem sei quantos telefonemas dava por dia. apesar de ter alguns convites para a passagem do ano. Eram quase dez da noite. Quando me viu. A imprensa metia o pau em mim e eu era tratado como uma pessoa muito especial. vai levar uns tapas. Numa delas. No dia seguinte. balançou a cabeça. Em vez de visitar dezoito firmas por semana. a distância entre nós era de cerca de cinqüenta metros. andava como sempre. Em dezembro. Graças a Deus. que fotografassem à vontade. trabalhei como um louco. a CBPO. se vier me gozar. levava a minha vida. Minha ex-mulher e meu filho tinham voltado. Era Marilena. Assim. aquela oportunidade. Você ganhou 25 milhões de cruzeiros. estava sentado no pára-lama de um dos carros quando vi o Miro quase despencando da escada do escritório. Isso aconteceu várias vezes.agradecer por ele ter me dado. no fundo da loja. a empresa deu uma festa em que distribuiu presentes para os empregados. com aquela sensação de sortudo com que a gente fica quando acerta no jogo. num momento tão importante. QUE DAVA PARA COMprar um fusca zero. Tem a entrega. havia resolvido ficar sozinho. No réveillon. Negócios pequenos. quando apareceu o Careca. na época do Natal. passava o dia no telefone. dá na cabeça. A primeira visita 154 que fiz foi à Rhodia. Minha função era procurar empresas que tivessem uma frota de mais de cem veículos. Ficava assustado quando me pediam autógrafos.. estava no meu quarto vendo TV quando o telefone tocou. O meu lema era produção: me obrigava a fazer de três a cinco visitas por dia. Doca. me despedi do Miro. no viaduto do Chá. Combinamos que trabalharia mais alguns dias. o apontador. você ganhou. Já nem ligava mais para os jornalistas. recebi o troféu de melhor funcionário do ano. do seu sócio e dos meus colegas. Eles queriam me fotografar. minha exfirma. cujo presidente era amigo de mamãe. Quanto à vida pessoal. a Fontoura White. e os resultados apareceram. No dia que você não joga. para esperar um vendedor que estava de férias. pode comprar o carro que queria tanto! Eu gelei. fiquei tão revoltado que disse a uma senhora que pedia um autógrafo para a filha: — Os jornais dizem que sou um gigolô e traficante. Tentei um relacionamento mais sério com Marilena. e meu relacionamento com a sua mãe era o de bons amigos. passei a faturar no mínimo vinte carros por mês só lá. No final do evento. o seguro e as merdas que acontecem no meio do caminho. Trabalhei muito. — Bem.. Vender frotas não é só vender. fiz muitos. Miro pôs a mão na cabeça e disse: — Jogo é assim mesmo.. é esse o ídolo da sua filha? A senhora se afastou.. a Cobrasma e a Bombril. Deu o número inteirinho. Até hoje não consigo entender o que se passava na cabeça das pessoas naquela época. A segunda foi à Brasilos. Nos três primeiros meses. e chegou com o andar rápido e as mãos para trás. a diretoria da Marcas Famosas e a maior parte dos meus colegas se davam bem comigo e me ajudavam a levar aquela situação.. todos no sistema de leasing. comecei a trabalhar na Marcas Famosas. Ele ria e gritava: — Você ganhou. No dia seguinte. mas ela não agüentou toda a galinhagem que me cercava e que eu. Ele me visitava uma vez por semana. E ficou me consolando. minha atual esposa. reclamando que eu era orgulhoso. por alguma razão. Eu estava no café. O novo proprietário comprou cinco kombis.

mas pressentíamos que a hora estava chegando.me convidando para passar com ela a virada do ano.. A ela devo tudo o que me restou. A imprensa aos poucos ia aumentando a pressão. o que será que vim fazer aqui?". para pegar minhas coisas. Ao pensar nisso. Marilena e seus filhos.. A cada momento sinto que nada mais me interessa. EU TINHA QUE ME DECIDIR.. nem sei se é medo. covarde por estar choramingando. então com dezesseis anos. Puta que pariu. mas está demorando. Meu trabalho também ia bem. tudo me enche o saco. rico. meu cotidiano mudou bastante. "Leio o que acabo de escrever e acho tudo ridículo. raramente escrevia. ir ao banco e fazer outras coisas. por isso meu melhor refúgio é meu quarto. Apesar de tudo. eu não pensava só em coisas tristes. e Zé. A porta nunca estava trancada. os jovens entravam e saíam à vontade.. e daquela data em diante ela 155 nunca mais saiu da minha vida. Depois disso. não quero nada. Covarde por não ter atirado em mim quando atirei na Ângela.. As recordações estão de volta. aumentara em muito a minha clientela. pobre. não consigo me concentrar em nada. filha do meu padrasto. O apartamento dela parecia um clube. Trabalhava o dia todo correndo atrás dos compradores das empresas e em seguida ia para a casa dela. Toda vez que me sinto próximo do julgamento tenho medo. eu prosseguia: "Nada é normal na minha cabeça. quero ganhar a batalha. quero ter uma nova vida. todos temos nossos caminhos. Quando apareço. principalmente quando sentia que a data do julgamento estava se aproximando. De vez em quando tinha uma recaída. talvez seja angústia. Mais uma vez pergunto: onde está o ombro de Deus para eu chorar. nem pôr a culpa no destino. porque o assédio continuava e nessas ocasiões Marilena dava um tempo em nosso relacionamento. Tinha encontrado um caminho para levantar o meu moral e ter esperança novamente. muito ruim e nada faço a respeito. .. quero fugir da verdade. Aliás. Mas em 15 de agosto de 1979 registrei a minha tensão: "A espera continua. com catorze. um nojo.. Levei um ano para fechar um negócio de 72 consorciados com os funcionários 156 da Arno. faço questão de estar impecável. Claudia. Uma semana depois. eu tinha momentos de depressão. o remorso e a solidão também. onde passei boa parte do tempo depois que saí da cadeia. e não está em nosso poder delineá-los. amiga e esperança.. vivíamos nos esbarrando. Isso fazia tudo voltar novamente. Nós já éramos amigos de longa data. quando fui passar uns dias no apartamento do Guarujá. Ângela e Francisco estavam vindo me buscar. com doze. Ela era amiga da minha irmã de criação — Zildinha.. Fui. Eles não sabiam a data. Acabei voltando para a cama e agora definitivamente não vou a parte alguma. Tenho certeza de que vou melhorar. Ruim. mulher. custe o que custar. Tenho pavor disso. desliguei o telefone. SOZINHO NO MEU escritório. Mas logo voltávamos às boas. Naquela época. Hoje levantei duas vezes para ir trabalhar. Vou ganhar esta batalha. Não quero arranjar desculpas. Além do mais. mas tenho pensado muito.. Como freqüentávamos o mesmo grupo e o mesmo clube. e tampouco eu. Não quero que me vejam assim. e agora estou me lixando. meu filho mais velho era amigo dos filhos dela. Quanta confusão. que havia muito se considerava de casa. quero ter paz!" IAVIA CHEGADO A HORA. ela representa quase tudo — mãe. tenho que reagir". Nestes últimos dias não tenho conseguido me controlar. trabalhador. A convivência com eles me ajudou bastante. pedir desculpas e me afogar na imensidão de seu amor? O que faz do ser humano o que ele é? Bom.. é duro demais.. me sinto covarde. covarde por não estar sendo forte para enfrentar a vida. Eu a tinha conhecido no começo da década de 1950. Inclusive meu filho. enfim. mau. Foi um bom tempo aquele. Marilena tinha duas filhas e um filho: Adriana. Meus bons momentos são com meus filhos. que tudo vá para o inferno. Provavelmente não mereço o esforço que ela tem feito para me ajudar.

liguei para o 158 escritório e falei com meu sócio. com a cabeça mais tranqüila. enrolei minhas coisas em alguns lençóis.a ligação. já que Adelita não me deixou sair com as malas. Não tenho coragem de contar como foi. Nenhum dos empregados se preocupou em me ver mais cedo. ele disse: — Vocês estão apaixonados mesmo. enquanto eles esperavam na rua bem em frente ao portão principal. Ao entrarmos no apartamento. me droguei antes de entrar em casa e logo depois que saí. pois minha mulher a tinha chamado durante a discussão para que impedisse aquela loucura. que encontrei na saída. mas fizeram uma grande loucura. Depois do almoço. antes de completar a ligação. conseguimos. definiríamos como as coisas ficariam.. Não lembro como ela descartou o Ibrahim. Francisco e Ângela demoraram um pouco. Dormimos abraçados e mantivemos esse costume até o fim. e só saímos quando Joana avisou que o almoço estava servido. Precisava que ela não fosse Para casa enquanto eu estivesse lá. na rua Augusta. Mas. Era a primeira noite de nossa união definitiva. pois costumava fazer isso. Dentro de alguns dias. eu arrumava minhas coisas. Mesmo quando quebrávamos o pau. Foi uma cena horrível. que chegaríamos em um ou dois dias. fomos dormir. cansados. na porta de casa. minha mulher se materializou na minha frente. me sentia mal. que vai dar em cagada. Durante o trajeto até a casa da Joana. Vou abrir uma Moet & Chandon. Finalmente. e com Chiquito. Quando Pedro chegou em casa e viu toda aquela bagunça. Sempre que me lembro daqueles momentos sofro muito. o que para mim foi uma eternidade. para ter a certeza de que não sentiria remorso.não me sentia pronto. engoli o choro e peguei o telefone. Comecei a chorar. embora no fundo do meu Peito eu soubesse que era abominável. Assim que me viu. o Caio. O sofrimento e o desespero foram imensos. Tinha que me concentrar e continuar com aquilo. pois tinham acabado de saber da minha separação.. Joana estava no telefone com Ibrahim. Acho que demorei mais do que esperava. Caminhei até a janela para ver se estavam chegando e tinha a impressão de estar subindo uma ladeira. A madrugada começou e. fui atingido em cheio pela realidade. Gostamos muito de vocês. Enchemos três malas grandes que Francisco emprestou e mais duas malas de mão de Joana. falamos de coisas corriqueiras. Tomamos café-da-manhã e voltamos para a cama. Liguei para minha mulher. Novamente fui até o telefone e então completei... A empregada avisou que Ibrahim tinha deixado um recado: para . Nem olhei para minha mãe. Fui em direção ao carro e parti. Francisco já havia partido. Por incrível que pareça. e viu as malas. sem olhar para trás. e como já tinha se encontrado com Francisco e Ângela no meu carro. Marcamos de nos encontrar num cinema: 157 — Dentro de meia hora na porta do Majestic. Enquanto Ângela falava com a empregada no Rio de Janeiro e pedia para ela arrumar tudo. Expliquei-me com os dois e pedi que continuassem os negócios. O champanhe e as drogas ajudaram a relaxar e a esconder a angústia que insistia em me atacar. Não tomamos conhecimento do conselho. nem tinha nada pronto. Angustiado e desesperado. No dia seguinte acordamos com preguiça e ficamos por ali mesmo. Joguei todas as fichas naquela história e. desliguei e abri a gaveta da minha escrivaninha. percebeu tudo. A essa altura. Quando caiu a ficha. De repente. só sei que comentou que ele estava furioso e recomendou que tivéssemos cuidado. pelo abismo para onde estava caminhando. junto com os telefonemas do Ibrahim que não paravam. Não comentávamos o que estava acontecendo. que estavam muito irritados. Finalmente chegamos em casa e. Tudo à minha volta se mexia. Espero que Deus me perdoe. nem dá para explicar o que sinto. Consegui manter uma conversação normal e convidei Adelita para ir ao cinema. voltei ao telefone. Naquele momento só estávamos preocupados com a montanha de roupa que saía dos lençóis. Depois fui até o arquivo buscar a garrafa de uísque e tomei um um grande gole direto do gargalo. Peguei o pó e me servi várias vezes.

para me defender. Havia repórteres de poucos jornais.. . muito alta. Fui pela manhã.. Ligou então para a mãe. Paulo. Se a bebida e a droga não tinham surtido efeito no quarto. droguei-me e tomei alguns caubóis. segurando o queixo com as mãos e olhando para os pés. em mais ou menos uma semana. 159 2 NO COMEÇO DE SETEMBRO FUI CHAMADO DE VOLTA PARA CABO Frio. no fim da tarde. isso era muito bom. Francisco apareceu. Nos despedimos dos amigos. Até que um dos advogados ligou. os advogados haviam pedido um reajuste de verba que. Pensei na minha ex-mulher e no meu filho. Como isso já era esperado. Estava echado.. Fizemos a viagem como se estivéssemos passeando. Ângela então pediu à mãe que contasse aos filhos. fizeram pouco depois. que estava arcando com as despesas. Poucos dias depois voltei a São Paulo e recomecei minha rotina de trabalho e tudo o mais. A promotoria e a defesa estavam se confraternizando. brincando. Segundo o dr. no banheiro. Depois de dois dias de instruções. Trazia notícias de muita fofoca a nosso respeito.ela não procurá-lo nunca mais.. passei umas horas lá fazendo exames psicotécnicos e sendo entrevistado por psicólogos. Perguntas? As de sempre. Ela já sabia. Ele podia tentar fazer alguma campanha contra nós. pois o Ibrahim tinha ligado. mudou seu comportamento comigo. fui até o fórum de Cabo Frio para cumprir mais aquela etapa. Não queria me emocionar e. Só voltei no fim da tarde. Eu estava ligado e continuei bebendo. para que não ficassem sabendo pelos jornais. embriagados pela bebida. do Jornal do Brasil e de O Dia. Era tão grande que minha mãe. apenas de O Globo. Mas foi por pouco tempo. Como o dia estava lindo. Ângela ficou preocupada. para ouvir e contrariar o libelo acusatório. sem Pressa. Sei lá o que queriam provar. Cheguei três dias antes da data porque tinha de ser instruído pelos advogados. Evandro. informando que o julgamento tinha sido marcado para o dia 17 de outubro. Para o libelo acusatório foi diferente. Então a realidade explodiu na minha cabeça. pois não era minha culpa. rumo ao Rio de Janeiro. e continuamos o passeio até o restaurante Paturi. fui para o banheiro e fiquei lá. Antes que ele saísse. bebendo. quieto. para exames. Os comentários eram de que o novo promotor era fogo. o ajudante da promotoria contratado pela família da Ângela — o dr. pegamos a via Dutra. Só às onze da noite começamos a beber e a usar droga. No dia seguinte. fui deitar e abraçar o meu amor. depois do almoço. Finalmente estávamos sozinhos: rindo. a pedido da promotoria. Aquilo me deixou tão abalado que não conseguia trabalhar nem prestar atenção em nada. pela droga e pelo nosso amor. Ela tinha trocado meus defensores quando eu estava foragido e ainda havia me deixado mal com o primeiro dr. Além do mais. e até a promotoria tinha sido substituída. já tinha sido intimado a comparecer ao Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro. e chorei. Vi os acontecimentos da tarde anterior como se fossem um filme. Poucos dias antes. o anterior era substituto. Assim. não tomamos conhecimento.. enfiamos nossa bagagem no carro e fomos para o Hotel Jaraguá. Evaristo de Moraes Filho — teria menos tempo para falar. Se bem que era uma coisa relativamente simples: tinha de ouvir as acusações para posteriormente contrariá-las. Ficamos de visitá-los em mais ou menos trinta dias.. ficou combinado que iria ao Rio almoçar conosco. A novidade era que havia um novo juiz. Resolvemos passar o dia com Joana e só sair de lá ao anoitecer. Ângela. puta merda. Muito louco. Como não adiantou nada. Em algum momento. Esse sim era fogo. adormeceu por algumas horas. sentado no vaso sanitário. era uma verdadeira paulada. Estávamos tranqüilos e resolvemos ir para um hotel e continuar festejando sozinhos. sugeri pararmos no Clube dos 500.

Evandro me contava tudo isso por telefone e me aconselhava a ir o quanto antes para lá. Tinham aberto a casa toda. Ele repetiu todas as tramas que estavam armando em Cabo Frio. eu acabaria com os boatos de que iria fugir. segundo o dr. No primeiro dia. o dr. mas acho que. 163 Existia. Falei com a diretoria que ia me afastar por mais ou menos um mês. Quando fui procurá-lo. Dr. tinha uma casa em Cabo Frio. O dinheiro que minha família estava gastando com os advogados era coisa de gente grande. Um amigo pôs à minha disposição 10 mil dólares e o avião dele. para evitar traumas. e o jardim. a mãe levou meu filho mais moço para fora do país. estavam preparando a casa para que eu recebesse meus convidados. O hotel serviu como nossa base durante toda temporada. Provavelmente era para aparecer na TV. expôs alguns de seus planos. Era só aceitar. Para assegurar a privacidade. que tinha uma propriedade lá. Com essa bal-búrdia toda. e May. mais por falta de carros do que por desatenção minha. Evandro. Fomos de carro. No dia seguinte. A minha produção nas Marcas Famosas tinha caído um pouco. os jornais disseram que tínhamos alugado casa de frente para o mar. Evandro ia alugar uma casa em Cabo Frio. e eu precisava economizar. A despedida foi dolorida. oferecido por eles. Jantávamos lá e usávamos o telefone. bem em frente ao Hotel do Peró. Na casa tínhamos café-da-manhã e almoço. Nem pensei no assunto. Evandro chegou para se instalar na casa que tinha arranjado e no mesmo dia tivemos nossa primeira reunião. onde ficamos. dentro de alguns dias. voltaram para Friburgo. A casa ficava a uma quadra da praia. Me puseram tão à vontade que parecia que já os conhecia havia anos. Em compensação. Ninguém entendia por quê. só um pouco mais longe da praia. Enfim. Havia muita coisa a ser feita e. pelo motivo que todos já sabiam. já tinha feito cagadas demais. estaria se hospedando na casa de um amigo. uma cidade próxima. pois queria estar perto do processo e do fórum. Dr. Papai e eu chegamos à praia do Peró dois dias depois. depois de uma boa noite de descanso. E foi o que fiz. Não é inacreditável que eu tivesse amigos antes de conhecê-los? Havia a casa principal e a de hóspedes. uma batalha nos bastidores. com tramas diabólicas. o Ludovico e a Mary. Liguei para meus amigos de lá e pedi que arranjassem uma pensão ou um hotel barato onde papai e eu pudéssemos ficar. Estava ocupado com esses problemas quando minha cunhada May contou que um primo dela. Parecia até que estavam adivinhando os planos do dr. meu filho. dos seus filhos e do Rá. arrumar as malas e ir. depois de me despedir da minha família e de Marilena.de quem gostava muito e era meu amigo. com rota segura até o México. muito bem-cuidado. Não tenho certeza. alguns grupos pediam a minha absolvição. não faltaram oportunidades. ele não tinha nada a ver com o processo. Contou também que. Afinal. No meio da grama. para São Paulo. Como um candidato a prefeito que queria depor contra mim. ele já tinha partido. com quatro quartos. Preocupado com os planos da promotoria que descobrira — ele tinha uma verdadeira rede de informantes —. industrial de Friburgo. após um churrasco na casa. para não chamar muita atenção. havia um muro 164 de três metros de altura. coincidentemente vizinha da casa onde eu estava. com os donos da casa. e poderia me emprestar. Evandro. além do mais. Só não fugi porque não quis. A espera começava. para me encontrar com o dr. uma bela piscina. Evandro. Dias depois. Outro camarada estava visitando os jurados a fim de ganhar simpatia para a acusação. O principal era um . Aliás. e haviam chamado a empregada para arrumar os quartos. May chegaria dois dias mais tarde. May e os donos da casa já estavam lá. na praia do Peró. Quando voltei. eu precisava conhecê-los. e comecei a planejar minha estada em Cabo Frio. A casa era enorme. fui a Macaé.

podia ir a Cabo Frio fazer compras. Depois de alguns dias. Nos primeiros dias. Promotoria e defesa se enfrentariam. — Precisamos lutar. Duvido que haja uma gravação autêntica com essa declaração — que estava em todos os jornais e que nunca fiz. mas só poderia vir em dois ou três dias. Ivo Saldanha. como alega Doca Street. para que tudo desse certo. Um memorial é um resumo dos fatos que serão debatidos no julgamento. que saudades dele. que durava no mínimo três horas. do julgamento.memorial descritivo que papai deveria entregar a cada jurado. onde dois grandes adversários se enfrentariam. a guerra iria começar. que vivia às custas da 166 vítima? Ou foi um crime cujo autor ainda não apareceu e anda escondido. Ninguém. Evandro pediu que eu aguardasse o fim da reunião. o circo estava armado. era uma invencionice sem fim. ERAM JORNALISTAS POR TODOS OS lados. por causa de sua idade avançada. sozinho. pois. Deveriam também pedir que entrassem em plenário sem um pré-julgamento.. No dia 7 de outubro. Mas ele era um pai. Como eu me sentia? Como em um tabuleiro de xadrez. A cada dia a tensão aumentava mais. enquanto Ivo e eu faríamos terapia na praia. fiquei chocado com o conteúdo. Evandro e Paulinho. aliás. 165 Pronto. Pelo menos as coisas não iam mal. Diziam que tinha matado pessoas na África Equatorial Francesa durante as caçadas nos anos 50. "Muitas vezes li que tinha matado "por amor". que me ajudara tanto e fazia parte da defesa. Quando o documento ficou pronto. das saudades. caso contrário a pessoa pode se machucar. Pensei na minha prima Maria Zélia. Como a própria imprensa dizia. E assim ia. Maria Zélia chegou e fizemos outra reunião com dr. Os jornais já estavam começando a comentar o grande combate que seria travado no tribunal do júri entre o mestre Evandro Lins e seu discípulo Evaristo de Moraes Filho. Dois dias depois. que eu fazia parte de uma quadrilha internacional de tráfico de drogas e tinha executado Ângela obedecendo ordens. Precisamos lutar com as mesmas armas que eles. chegamos à conclusão de que as visitas não eram malvistas pelos jurados. seus planos estavam em andamento. Dirigir um buggy nas dunas é muito duro e difícil. quis que fosse proibido pelo juiz.. Nessa reunião estavam o meu amigo Paulinho Badhu. Os dias iam passando e. de dinheiro etc. Começaríamos cedo. tinha coragem de pedir para eu parar. Precisávamos de mais alguém que ajudasse papai... nossa verdadeira guerra será o seu julgamento. a segunda a ser visitada. Telefonei na hora para ela. outros crimes. e o dr. Os jornais divulgavam histórias incríveis a meu respeito. Sem dúvida uma grande terapia. ainda que papai fizesse aquilo com grande sacrifício. Evandro. amigo e psiquiatra. segundo o dr. Na VERDADE. Eles haviam recebido os dois enviados da defesa quase bem. e ela concordou em ajudar. Luppi escreveu no jornal Folha de S. Que eu tinha cometido outro crime anteriormente. Requer muita atenção. o dr. Ele expunha a vida privada da Ângela. Fazia isso durante horas e esquecia de tudo. andando de buggy nas dunas. o repórter Carlos A. Só uma senhora. nem mesmo Ivo. além da terapia. logo após o café. Ela e papai deveriam começar imediatamente a visitar os 21 jurados e entregar a eles o memorial. Maria Zélia e papai fariam as visitas. tendo em Doca um perfeito bancador de seu ato? Um crime por amor. o paulista Raul Fernando do Amaral Doca Street. tinha se recusado a recebê-los. A promotoria. eu bebia muito. Percebendo meu mal-estar. que havia muito vinha me apoiando. Estabeleci uma rotina que teria de ser seguida à risca. ou um crime provocado por excesso de drogas? Ou ainda foi um crime premeditado nos bastidores do tráfico de entorpecentes e tendo Doca Street como executor da sentença. O memorial causou polêmica. ou levar papai e Maria Zélia até o ponto de . Evandro. ele não daria conta. quatro por dia.Paulo: "Crime passional motivado por ciúme? Ou crime ocasionado por acesso de raiva e perda da razão do companheiro de Ângela. em uma reunião com dr. EU ESTAVA CERCADO.

Daquele dia em diante.. trata-se de um crime passional. Tomava minhas vodcas. Aliás. quando seguiram o Ivo até lá. eu faria até pior. nem a família da Ângela nem a imprensa se deram conta do mal que poderão causar aos nossos filhos. com uma história completamente distorcida". sentamos no terraço. Não mostrarei nada que os jornais já não tenham mostrado nos últimos anos. Só tomei dois 168 . Só não conseguiram arrancar deles onde eu estava hospedado. Ele sabia de tudo. Além de me tornar foco das atenções. entrava e saía da casa e usava o buggy. Os repórteres já sabiam seu nome. Mas.. deitava na espreguiçadeira. que ainda está tão viva dentro de mim". nadava. O momento estava chegando. Preocupado com o rumo que aquela guerra. Além do mais. Só não foram atrás de mim porque chegar à praia do Peró era complicado. As coisas iam acontecendo. Fingimos que não havia ninguém. a marca do carro e das visitas que os dois tinham feito. Estava toda cortada. com hombridade e humildade. Evandro. Conversei muito com ele a respeito de poupar a Ângela. Entendo que uma mãe faça qualquer coisa para condenar o assassino da filha. escrevi: "Realmente. não é para envolver uma nação inteira. os jornalistas não tinham meios de chegar. Devia conseguir manter uma boa postura. Mas por que fizeram uma montagem? A impressão que dava é que queriam uma guerra entre as duas famílias. Em seguida. Os dias iam passando. minha tia Rosaura e minha cunhada chegaram. Era como se os repórteres não existissem. Que decepção. E por quê? Para ter mais audiência? Na época. só meu corpo estava presente. Minha mãe. Mas conseguiram fotografar todo nosso trajeto até a praia. quando os advogados me avisaram que em alguns dias seria entrevistado por uma Rede de Televisão. Pura montagem. gostaria de rever as fitas dessa entrevista. Dois dias antes do julgamento. para distribuírem os memorandos. Decidi não ver mais TV nem ler os jornais. Eu não tinha mais chão. Era tão assediado que.táxi. cinco minutos depois de Ivo pôr sua geringonça — o buggy que ele mesmo havia construído — dentro de casa. escrevi: "Que Deus me perdoe e me ajude a enfrentar estes momentos até o fim.. Também parei de beber.. porque a que foi Para o ar era uma piada. já tinha fotógrafo e jornalista trepado no muro. evidentemente. todos fingiriam que não havia ninguém nos observando. e o que eu havia dito foi completamente 167 modificado e emendado. ia tomando. Evandro mandava me chamar para conversarmos um pouco. Era quando eu ficava sabendo de tudo o que se passava nos bastidores. porque nunca reclamavam da minha desatenção. Mas descobriram isso no mesmo dia. assisti à entrevista que dei para a televisão e fiquei completamente enojado com o programa. Dali para a frente a casa estaria sempre cheia. e o que ela dizia coincidia com a edição que tinham feito. Toda manhã o dr. Tinha uma gravação com a mãe da Ângela chorando. ele foi entrevistado. e minutos depois entrei na piscina. Isso acontece todo dia. como dizia o dr. de novo sentia estar fora do meu corpo. os memoriais foram entregues. Alguns amigos vieram de São Paulo dar uma força e se hospedaram no hotel do outro lado da rua. nem fiquei impressionado. a população já havia sido alertada pela imprensa sobre a minha presença.. o que é uma mentira deslavada. onde. O argumento dele era sempre o mesmo: — A promotoria o acusa de gigolô e traficante. Afinal. fomos para as dunas. Numa das últimas vezes em que estive no centro. E que abusem o mínimo possível do nome da Ângela. as reuniões com os advogados eram completamente inúteis para mim. Terei que mostrar a verdade. quando deixei papai lá. Peço a Deus que conscientize esse pessoal para que isso não continue. e eu os despistei.. olhando tudo sem ter o comando de nada. Eu levava aquilo à risca.

O motorista deu uma volta no quarteirão. Antes de tomar banho e me vestir. virei para trás e perguntei ao dr. Respondi que estava. Quando a hora chegou. houve tumulto na saída de Doca Street. e se quisesse poderia olhar 169 cada rosto. onde se encontravam seus cinco defensores. De vez em quando ele me olhava com ódio. tomei dois goles de uísque e entrei no carro com papai. em uma enorme banca.goles de uísque puro quando saí de casa para o tribunal. mas a discussão continuou. Além da bebida e dos passeios nas dunas com Ivo. Antes de entrar. havia um grupo que me pareceu ser da família da Ângela. com poucos moradores. os advogados e eu fomos para o recinto reservado para o juiz. acompanhado pela minha família e por cinco advogados. Afinal. de costas para eles. mas mantiveram as aparências. aí eu ajoelhei e segurei suas mãos. e ele. vai ter que fazer suruba com homens e mulheres". examinar cada olhar. sentou-se e fez sinal para que me aproximasse. Evandro a pouco mais de um quarteirão dali e de lá irmos juntos para o tribunal. Foi contratado pelo Jornal do Brasil. . o juiz entrou e todos se levantaram. Ninguém se mostrou angustiado ou nervoso. À esquerda ficava o juiz. A pasta escapou da sua mão e caiu. Perguntou se eu estava bem. bem na minha frente. do outro lado. está aqui para comentar o julgamento. Resolvi voltar e pedir para ficar. na mesma altura. Queria me apresentar impecável. Podia ver todo o salão. porque a amava muito. Evandro se ele sabia quem era. À minha direita. Vi onde estariam os jurados. mandou que eu contasse em voz baixa o que tinha ocorrido no dia 30 de dezembro de 1976. continuei tomando banho de sol e nadando. Ao cair abriu-se e minha arma escorregou. Fiquei sentado na frente dos meus defensores. Precisava daquilo. Examinei rapidamente o lugar. a promotoria. curioso. Como não achei. Eu peguei e levantei atirando. fiquei duas horas meditando. O carro de Doca Street foi seguido pelos dos jornais até a casa do advogado Evandro Lins e Silva. CABO FRIO ESTÁ COM VOCÊ". para encontrarmos o dr. Se fosse condenado... Não iriam me ver derrotado e apavorado como alguns anos antes. Não percebi nenhum me olhando com ódio. com óculos de lentes grossas. me olhando nos olhos. Todos estavam nervosos durante os últimos dias. Do lado dele. Terminei a narração assim: — Entrei no carro e andei no máximo dez metros de marcha-a-ré. tinha de agüentar as conseqüências dos meus atos. manteria a postura. onde se encontravam documentos e minha arma. Em cinco minutos expus o que havia acontecido. quando cheguei algemado à delegacia. Ela as retirou rápido e disse: "Se quiser ficar comigo. Aproveitei que o juiz ainda não tinha entrado e comecei a observar os 21 candidatos a jurados. e me jogou no rosto uma pequena pasta. — É um grande advogado. Ele fez algumas recomendações a todos ali presentes. Cerca de setenta pessoas correram atrás. Depois que conseguimos entrar no fórum. os jurados. Logo depois disso." Só conseguimos entrar no fórum depois que a polícia fez um cordão de isolamento. As pessoas cercaram o carro e começaram a bater nos vidros. cabelo prateado. reparei nas pessoas que se encontravam mais perto de mim. Comecei a procurar meus familiares. mais ou menos meio metro acima do chão. enquanto esperava papai. 18 de outubro: "Apesar de a praia do Peró ser considerado lugar tranqüilo. Cerca de cinqüenta pessoas e de vinte jornalistas se aglomeraram em frente à casa. olhei para a rua e vi uma placa que dizia: "DOCA. a defesa e o réu. mas. fazendo Mind Control. Tinha passado a manhã me preparando cuidadosamente. e bem na frente deles estava um senhor muito bem-posto. As fisionomias dos advogados de defesa e de Doca Street deixaram transparecer que não esperavam tanta gente aguardando na frente do foro: cerca de quinhentas pessoas. Reproduzo um trecho do Jornal do Brasil do dia seguinte. professor e doutor. Isso não me incomodava. mas não perdi muito tempo com eles. o promotor e os auxiliares de promotoria contratados Pela família da Ângela.

Os debates iam começar com a acusação. mas mero usuário. uma declaração do dr. dizia em voz alta que a promotoria queria cansá-lo. Não iriam julgar uma rixa. acusação e defesa. só disse coisas que não tinham nada a ver com o processo. Era isso que tinha de ser julgado e que deveria ser investigado para que se apurasse verdade. fazem seguidos sinais mostrando a Éden que já está bom assim. estavam muito atentos. Eis o que declarava a reportagem. o advogado de Cabo Frio. comentou no dia 19: "Parece coisa de radionovela. denunciou o estranho desaparecimento. Foram onze horas para a leitura daquelas mais de mil páginas. cujo título era: "A batalha de Búzios": "Um homem matou uma mulher depois de uma vida em comum de dois ou três meses. Evandro. é maledicência. Em seguida. As duas partes tinham estudado e investigado cansativamente aqueles nomes. só sete comporiam o corpo de jurados. mas ele está mais Preocupado com a platéia: essa classe que veio aqui desmoralizar o júri de Cabo Frio". Das 21 pessoas da lista. Evandro naquela manhã. Dr. e cada uma poderia recusar três jurados. o juiz mandou que eu voltasse ao meu lugar e me advertiu das conseqüências se minha história não fosse verdadeira. e eu tinha de me esforçar para não dar uns cochilos.. que demorou horas. O República.. a promotoria pediu a leitura dos autos. um jornal que eu não conhecia. do diário de Gabrielle Dayer e . Desafio que se mostre qualquer prova dessa acusação" (p. Sebastião Fador Sampaio. mas não teve tempo. Por que não eram objetivos? Uma pessoa matou outra por tal motivo. "Se apresentou o acusado como um explorador de mulheres. por conseguinte. não tinha como provar nada. 171 O dr. Mello. Evandro às vezes reclamava. O que estava acontecendo? O que queriam todos? Um espetáculo? Vender jornais? Crescer em suas carreiras? O réu era confesso e estava ali.. com a mesma data do dia do julgamento. Foi objetivo. tinha coisa mais simples? Antes de sair da casa do dr. tinha quebrado o jejum de jornais e revistas e lido na revista Veja.. Não sei quanto tempo levou esse ritual. começou o sorteio dos jurados — o conselho de sentença. um maquereau. O promotor. A promotoria baseava sua acusação em fatos inexistentes e. completamente alheio a tudo aquilo. Estava desiludido. mas no final o júri foi composto por duas mulheres e cinco homens. Além do mais a voz do leitor me deixava sonolento. Não sei se o dr. Reproduzo alguns trechos da defesa do dr. A acusação teve duas horas para falar depois do promotor. porque ela não quis mais manter o vínculo". Eu estava longe. Evandro. Evaristo e George Tavares. que copiei do seu livro. o dr. Evandro estava cansado. uma briga feia que acabara em tragédia.. Depois da escolha dos jurados. Evaristo de Moraes que me dava esperança de ser julgado pelo crime que cometera e não por histórias inventadas. Os dois lados.. mas reproduzo o comentário da revista Veja do dia 24 de outubro de 1979: "O promotor chamou Doca de gigolô que vivia de explorar mulheres (não apresentou nenhuma mulher explorada por Street) e integrante de uma quadrilha internacional de tráfico de entorpecentes que o protege há muito tempo (não apresentou um só fato capaz de comprovar essa afirmação)". ocupou a tribuna. eu estava. o júri. os dois assistentes de acusação. Em seguida. E não tinha nada a ver se eu matara por amor ou se Gabrielle 170 tivera participação. Na sua vez. Jurados. depois da defesa do dr. na delegacia. onde estamos nós? Isso não é acusação. Onde é que isso se encontra nos autos? Eu desafio que se mostre nesse processo uma linha sequer que indique seja o acusado um traficante de tóxicos. A defesa tem a palavra: "Tivemos até agora versões de tal modo deturpadas que se tinha a impressão de que não estávamos dentro do processo. Éden T. num momento de paixão. 112).Após a exposição. Não sei quanto tempo ele falou. Evaristo só pôde falar na réplica.

Respondia a todos a mesma coisa: — Vou trabalhar e tocar a vida pra frente. Precisava retomar meu dia-a-dia e não olhar mais para trás. Evandro usava isso.. a bem da verdade. eu a amara muito. comentavam a atitude da população de Cabo Frio e o inconformismo da promotoria. a réplica e a tréplica. saindo de casa. já em São Paulo. Eu ESTAVA LIVRE. Por que eles me acompanhavam? Será que corria algum risco? A população estava indignada? Caminhava em direção à saída porque estavam me levando. No primeiro dia. Havia tanta gente que me distanciei dos policiais. um dia depois do julgamento. 229. Sentia que tinha sido covarde. tinha pouco a ver com o crime. Ainda em seu livro. da qual nunca mais me esqueceria: "Aquela moça continua sendo assassinada todos os dias e de diferentes maneiras". a defesa. Estava atordoado. e o dr. e da amizade dos seus filhos e do Raul. para dar um troco às mentiras da acusação. Parei para me dar algum tempo e olhar em volta. Muito menos pensar no julgamento. na p. Os debates duraram muitas e muitas horas e enveredaram pelo caminho que eu temia. beber alguma coisa forte e não pensar em mais nada. Dias depois. Fiquei apreensivo. Não enxergava direito. precisava sair dali. os jurados se reuniram para a decisão final. O juiz fixou a pena em dois anos de detenção e concedeu sursis. refugiado na casa da Marilena. May. Evandro argumentou para os jurados que cadeia. no meu caso. o dr. estava muito cansado e angustiado.mostrou cartas de banqueiros e empresários de São Paulo que testemunhavam a meu favor. que. que devia ter impedido que me defendessem remexendo o passado de Ângela. a vida particular de Ângela. parei no sinal ao lado de um ônibus. Que alívio. demonstra que no período em que vivi com Ângela recebi 260 mil cruzeiros em três cheques documentados nos autos. Entrevistaram os jurados. A decisão dos jurados: aplicar ao acusado a sanção por excesso culposo de legítima defesa. cercado por três policiais.. Ouvi que me chamavam. 172 O JULGAMENTO TINHA ACABADO. Quarenta e oito horas depois de chegar a São Paulo. A luz do dia bateu nos meus olhos e fiquei tonto. só ouvia o barulho das câmaras. Queria ficar descansando um dia na casa dela e depois seguiria para São Paulo. Tinham material de sobra. não tinha a menor idéia do que fazer. Quando conseguimos passar pela porta da sala do tribunal. Maria Zélia e papai estavam de mãos dadas para permanecerem juntos. Estava me aproximando da porta de saída. Um pequeno grupo de moças batia palmas. corri e entrei no carro onde minha família me esperava. entrou com recurso para anulá-lo. acho eu. Terminada a acusação. Algumas pessoas acenavam para mim. Eu estava envergonhado. Queria ficar só. olhei e vi dois rapazes fazendo sinal e berrando: . ESTAVA TAMBÉM exausto. Alguns microfones estavam muito próximos do meu rosto. 173 Não queria saber de nada daquilo. Está certo que ela usou seu passado muitas vezes para me humilhar. Para terminar. não seria solução para nada. embora isso fosse Praticamente impossível. uma moça quase arrancou a manga do meu paletó. Queria me abraçar. Deu um desespero tão grande que no dia seguinte bem cedo pedi à Maria Zélia que fosse embora comigo para o Rio. que. atravessamos um corredor e atingimos a rua. mas logo foi afastada. mas elogiava a perícia do dr. gozando do seu carinho e amor. comecei a trabalhar. Jornalistas pediram que falasse alguma coisa sobre meu futuro. Afinal. porque os jornais continuaram com o assunto por mais algumas semanas. Só comecei a me dar conta de mim mesmo dias depois. Evandro. confuso e sem saber ou entender o que acontecera. Eles se aproximaram e eu agarrei a mão de um deles. lia envergonhado e com tristeza uma declaração do Carlos Drummond de Andrade. depois de mais ou menos 25 horas no tribunal. Aproveitei um momento de hesitação dos jornalistas. Havia sido praticamente absolvido. A maioria dos jornais criticava a estratégia da "legítima defesa da honra".

A vida continuava. 174 Que bom que eu tinha o apoio da minha família e da Marilena. seu carinho e ao ambiente da sua casa.. Ainda me olhava esquisito. Fiquei ali quase uma hora. Ela ouvia com paciência. Fora isso. Marilena e eu também. que eram muito divertidos. Tinha que fazer visitas. estava conseguindo caminhar. em um novo julgamento. nos desligamos de tudo. Uma vez convidei o gerente de compras da Rhodia. artistas. e com ele foram mais alguns".. junto com Churchill e Cecília. Eu estava triste e envergonhado. que isso era um absurdo. me distraí vendo os cavalos treinar enquanto passavam pela curva da Vila Hípica. A sala de vendas não era muito grande. Graças a seu amor. e achava que elas tinham todo o direito de ficar indignadas. conversamos muito. em frente ao Jockey. e eu não sabia por quê. Fora os almoços e jantares. pensando na vida e tentando compreender o que estava acontecendo. só para nós. Marilena e eu passamos o Natal e o réveillon em Jaboticabal. Era bagunçada mesmo. No ano e pouco que estávamos juntos. —. Valdemar Ramos. Aquilo mexeu tanto comigo que resolvi voltar para casa. Isso eu entendia. nunca deu um palpite. Não tive tempo de ficar pensando na vida. formavam um grupo alegre. Muitos fatos ou a maior parte deles estão incompletos. mas não tinha jeito. Muitas vezes abri o coração para contar a minha história e pôr para fora toda a dor e sofrimento. que. ao teatro etc. dar telefonemas. Já tinha passado por um julgamento. e aquilo até me animou. Não dei bola.— É isso aí. Será que ele esqueceu que eu estava livre? E não pensou que eu poderia estar falando de negócios? Já estava acostumado a ataques desse gênero. intelectuais etc. Foram dias alegres. Nesses primeiros dias do ano já aconteceram algumas coisas: o gerente de vendas da MF foi despedido. e tudo indicava que haveria outro. pois tinha amigos editores.. Em frente à nossa mesa. nadamos. para almoçar no Hotel Mofarrej. Até que seria engraçado.. As vendas não iam de vento em popa. mas iam. Deve ser alguma piada do Jean Louis. almoçar com os compradores das grandes empresas. Queria olhar? Tudo bem. não ia entender mesmo. porque admirava muitas delas — profissionais liberais. do Otávio Frias. esse pessoal é ligado ao Grupo Folha. Na época já estávamos muito unidos. Aqueles poucos dias juntos. anotei: "Hoje pus em ordem toda a minha papelada. Mas depois do julgamento começou um movimento encabeçado pelas feministas. Estavam lá convidados de May e Luiz Carlos. Marilena e eu ficamos mais alguns dias. Já estava pegando ritmo quando vieram me avisar que do outro lado da avenida haviam montado tripés com câmaras fotográficas. e elas tinham horror àquele nome: Doca Street. Tinha uma mesa redonda e vários telefones. Como ainda era cedo. valeram . Um mês depois eu estava levando a vida normalmente. fez muito bem. no Rio de Janeiro. eu tinha mais o que fazer. o La Tulip. na chácara de May e Luiz Carlos. Quando acabou a festa e todos foram para São Paulo. Elas seguraram a minha barra. familiares da minha cunhada com seus filhos. Não sei se valerá a pena publicar isso quando for possível. Será que estava louco? A casa ficava na parte mais alta do Jardim Everest. Marilena e eu voltamos a Jaboticabal para passar o Carnaval. embora não soubesse onde ia parar. Tenho de achar um tempo para continuar o que comecei. e que comecei a escrever no Ary Franco — Água Santa. ia ao cinema. meus sobrinhos. Jogamos tênis. Fui para a Marcas Famosas e retomei os contatos com meus clientes. Alguns dias depois. Outro dia. Foi a primeira vez que relaxei. Chamava atenção por onde passava. ele deu uma entrevista em que disse que eu estava me divertindo com amigos em um restaurante caríssimo. Logo desisti. onde está escrito tudo por que passei.. estava aquele senhor elegante que me olhara feio durante o julgamento. que gostava de esportes. ri e brinquei naqueles anos. vôlei. Também não imaginava que atuaria como auxiliar de promotoria um ano e pouco depois. falando com Jean Louis. Não perdi tempo e comecei a telefonar para minha clientela. Fui sentar no terraço para dar tempo de pôr as idéias em ordem.. eu tinha de sair. No começo de janeiro. Esse assédio não durou muito tempo. ele me dizia que me ajudaria na hora certa.

Escrevia algumas linhas por semana quando acordava de madrugada. A situação requeria senso de realidade... o que me deprime sempre é o fato de ter matado Ângela.não entendia. Está tudo razoavelmente bem. os dias não passavam. A aflição martelava minha cabeça nas madrugadas. Se precisasse telefonar. Achava aquilo uma boa estratégia. reféns americanos no Irã. quando voltava da casa de Marilena e ficava sozinho no meu quarto. parece um balão. quando eu falava com o dr. IA PONDO no papel tudo o que passava pela minha cabeça. em segundo. Meu irmão insistia para eu ir a um pai-de-santo famoso. Não sei se é a sociedade em que vivemos ou é o conjunto de tudo que me deixa completamente desorientado. por sua vez. é o julgamento do julgamento. entrei com tudo no trabalho. que sempre reservavam alguma coisa para mim. Foram dias de amor e passeios de mãos dadas. subindo. até agora tudo calmo. Todos tinham de bater ponto. Talvez até tenha várias saídas. poderia aparecer uma encruzilhada num estalar de dedos. grandes broncas em San Salvador. Precisava saber o que seria decidido sobre o julgamento para nortear minha vida. Comecei a visitar novas firmas. Quando o dia amanhecia e chegava a hora de trabalhar. Evidentemente se for analisar o diaa-dia e a falta de perspectiva não dá para ficar às gargalhadas. Punha o meu sono em dia e não ficava com aquela cara na sala de vendas. De tudo. Pressentia que teria de enfrentar um segundo julgamento. Fazia isso apenas na casa da minha mãe. Custo de vida no Brasil subindo. Acho que tinha o mesmo pressentimento que eu e queria me dar mais algum tempo. algo burocrático que estivesse emperrando tudo. quando voltava da casa de Marilena.. Ler era uma maneira de escapar da minha realidade. De quinta a domingo eu ficava com ela. o sono fugia e as 176 recordações. E agora? Estou num beco sem saída. Mas precisava encher o meu tempo. pois às vezes lia coisas que me lembravam fatos recentes ou passagens da minha vida. apesar dos dois recursos que estão em andamento no Supremo Tribunal do Rio de Janeiro. Fazer planos era impossível. não percebia entusiasmo na voz dele. escrevi: "Já é março de 80. Não há retorno. até os vendedores externos. ter bastante dinheiro para não ter que me preocupar com ele. fuzilaram o bispo que no ano passado estava indicado para o prêmio Nobel da Paz. Muitas vezes batia o ponto e voltava para casa. Não era raro fazer os dois ao mesmo tempo. Talvez fosse algo puramente técnico. As feministas estavam cada vez mais agressivas e. Ia escrevendo os acontecimentos devagar.muito. escrevia sobre o que acontecia pelo mundo. Me vejo num mundo que não entendo e considero apenas suportável. por razões que eu. mas só chegava depois da meia-noite. Era hora de ler e escrever. Quer dizer. Um para anular o julgamento e outro para mantê-lo". O dr. Logo depois. Assim eu enfrentava aquela imensa pressão. Evandro. não ter pena de mim mesmo. estou com o saco na Lua. mas as coisas andam bem esquisitas: greve dos metalúrgicos. Deus tem me ajudado. em primeiro lugar. estava exausto. "Os desembargadores deverão julgar se valerá ou não o julgamento. mesmo sabendo que não devia. Espero e toco a vida. não posso fazer com que ela viva novamente. pois minha carteira de clientes era grande e já dava muito trabalho. Ao mesmo tempo. trabalhava para atrasar essa decisão.. Evandro. Havia tomado posse o presidente . Eis a razão do desespero (é claro que isso não é o principal). Não mexi no passado e não me queixei.. às oito da manhã. uma página ou pouco mais. Na época. quais então? O ideal seria.. A noite. ". Acho que o futuro era tão incerto que nem queríamos pensar a respeito. Chega. Em julho de 1980. 175 Não queria ouvir ou ler os noticiários." Às VEZES FICAVA NA FOSSA E ESCREVIA SÓ POR ESCREVER. mágoas e problemas cresciam. tinha dois telefones na cabeceira. ". onde eu dormia de segunda a quinta. Não posso escrever que estou desanimado.

Tinha simpatia pelo Figueiredo. e o subtítulo é O caso Doca Street e algumas lembranças. Ele lhe pede algumas palavras sobre o livro. O seu título é A defesa tem a palavra. espero sintetizar o depoimento do dr. Quando terminava de ler o que escrevia. embora resumida. Nesse texto. Curtia minha fossa na solidão do meu quarto. é passado". Evandro me pediu que falasse com Samuel Wainer. como vai? Lembra de mim? Encontramo-nos um dia na casa do Jean Louis. Não há defensor que me redima perante mim. Tudo que Evandro conta e escreve é sempre atraente. é especialmente emocionante. Rá. É grande amigo seu. O papa também tinha visitado o Brasil e falado de amor entre os homens. poderiam me malhar em praça pública como Judas. Maria do Carmo Barreto Lins. Luis Felipe.. Marilena.Paulo. E soava triste. 177 As recordações me deixaram meio assim. A voz de Doca era a de alguém que envelheceu muito nesses poucos anos. é que Evandro acaba de publicar mais um livro. com medo. 178 Em setembro. O resultado do júri foi bom. curtido por sofrimento de sonho destruído". Sei que vencerei este estado de espírito. Agora faltam seis dias para os desembargadores decidirem se o . Seja lá o que for. A respeito disso escrevi: "Mas que amor podem sentir os que passam fome? Não conheço política e não sei quais os meios para que o abismo entre o muito rico e o muito pobre diminua. O que entendo e tenho lido sobre a história do homem é que esse problema existe há milênios". Falo-lhe em nome do professor Evandro Lins e Silva. Uma espécie de minha cronologia. Mas. me chamar de gigolô. era um gigolô e traficante" que tinha descarregado a arma na amante. É claro que a introdução de Doca seria dispensável. no caso Doca. não é? Desculpe incomodá-lo. escrevi: "Há um ano atrás. Evandro. creio que não faria o mesmo. Se o tempo retrocedesse com a forma de sofrer agora adquirida pelo gesto que não pôde deter. falando essas coisas para defender meu ponto de vista.. Pantera. Se não fossem meus filhos.João Figueiredo. eu a amei muito. Evandro — que recomendo aos que sabem que a vida se renova a cada dia. O dr. Ele não se libertará nunca de si mesmo. eu também estava acordado. Samuel faleceu dias depois de conversarmos por telefone. que assinou a Lei da Anistia. me imaginava em praça pública.. A defesa tem a palavra. Para Raul não haverá prisão maior do que a que tem no pensamento. traficante e muito mais. Ele foi meu defensor. A casa onde eu estava tinha sido sitiada por jornalistas.. havia sido muito mais que uma paixão louca. mas com um toque ainda razoável de autoconfiança. e luto para não transformarem mentiras em verdades. Pegava o que eu havia escrito no Água Santa e no Edgard Costa e ficava horas olhando aquilo tudo. para lutar por alguma causa. ele dizia: "O telefonema foi curto e educado: Aqui é Doca Street. pois faltavam oito dias para o julgamento. Algum tempo depois saiu um texto do Samuel na Folha de S. Pelo trecho da carta que transcrevo a seguir. com o título "O último artigo". Ele não se julga herói: é antes um anti-herói. Não tem parentesco com Evandro e parece resumir a média do pensamento feminino sobre o doloroso caso passional de Doca: na realidade a vítima começara a morrer desde que se tornara Pantera. mas parecia que era o mesmo assunto e a mesma página: "Apesar de tudo sei que ainda sou capaz de sonhar. E daí? Só que tenho filhos. saudades. nessa mesma noite e nessa mesma hora — duas da manhã —. Como seria a reação das pessoas? Afinal. triste em olhar para trás e rever minha vida. deprimida. Às vezes virava as páginas e tentava organizar por época o que iria escrever. para ele escrever algumas palavras sobre seu livro. que estarão fazendo a essa hora? Hoje li de um só golpe o livro do dr. Ficava Pensando se algum dia poderia emitir alguma opinião sobre política ou qualquer outra coisa. que permitia o retorno dos exilados políticos. acho que estou apenas assustado. Claro que eu me lembrava. Dez dias depois voltei a escrever. A carta é assinada por uma mulher de Recife. substituindo o general Geisel. Tenho que olhar é para a frente.

Luiz Carlos e eu estávamos na sala de espera do escritório do dr. acho que vou entrar pelo cano. não tenho dinheiro para contratar advogados. Mas a família está em estado de choque. me avisou que não poderia me defender novamente. e só saí de lá quando o pessoal da limpeza avisou que precisava limpar a sala onde eu estava. dr. outro com um gravador e o terceiro com uma espécie de cruz com três lâmpadas que. para mim. A impressão que se dá é que se algum homem cometer um crime passional neste país. Não há pavios a queimar nem sorte a ser lançada. Não vou ficar pensando nisso. Talvez medo. pois não abri a boca. mas. estava na porta da minha casa. Há uma pressão muito grande por parte das feministas por outro julgamento e. Vai começar tudo de novo. a palavra mais usada por aqui é machista. Foi aí que me dei conta do horário. Mas por que não cobram da Câmara e do Senado leis mais apropriadas?". Estão achando um pé no saco. sexta-feira. terei que ter muita força e coragem. Papai não. aquilo era a mesma coisa que ser condenado antecipadamente. Um com uma câmara. Mas eu não sou culpado. não sei. escrevi: "Dia 3. No primeiro havia uma expectativa muito grande. a esperança é a última que morre. Evandro. Evandro. mas acho que nem ele acreditava nessa tentativa. queria conversar sobre o novo julgamento De antemão. O dr. porque na arena se enfrentariam Evandro e Evaristo de Moraes. E depois? Conseguiria sair? Graças a Deus. me assustaram. imaginando passar por tudo de novo. Havia 179 pedido que eu fosse visitá-lo. e algo me diz que vou. como diria meu avô Raul: Do chão não passa. Meu irmão mais velho estará comigo. desanimado. Tinham uma lista de perguntas. Naquela madrugada. Veio um cafezinho e depois de um breve papo entramos no assunto que era o motivo da visita. me surpreendi. O pior é que mesmo que outro advogado apareça. sei lá para fazer o quê. concordo. vou ao Rio encontrar dr. Confesso que. mas é forte e deve superar essa barra tão pesada. mas só conseguiram me filmar. pressionarão para eu ser condenado. Estou calmo. Não queria pensar em mais nada. a culpa será minha ou do júri de Cabo Frio. quando dei por mim. alguma solução há de aparecer. Após alguns minutos de espera. também não queria mais escrever. e há as feministas". me peguem para bode expiatório. Arthur Lavigne.julgamento valeu ou se passarei por tudo de novo. seja agora ou daqui a vinte anos. No dia seguinte. Se tiver que passar por outro julgamento. Afinal. me preocupo com ele. já que tinha prometido à sua família que o julgamento de 1979 havia sido o último da sua carreira. Raulzinho está meio perdido. e assim mesmo se estivesse me vendo na tela. fomos recebidos por ele e toda sua equipe: dr. não tenho como pagá-lo". Um grande poço se abria e tudo indicava que eu cairia dentro. Se houver mais um. mas eu pressentia. se houver. às dez em ponto. A notícia do novo julgamento tinha me abalado de tal forma que saí da empresa pensando em ir direto para a casa de Marilena. Está certo. quando estava me aproximando da porta da entrada. Fiquei telefonando para clientes até tarde. APESAR DE TER ME PREPARADO PARA ela. ao acenderem. Ilídio Moura e dr. ERA UMA SENSAÇÃO NOVA E. Concordo com o movimento feminista. apareceram não sei de onde três camaradas. Fui para a Marcas Famosas e comecei a trabalhar. a noite acabou. . Resolvi entrar. não sei por quê. sem saber o que fazer. É uma sensação estranha. Desci e. Depois da decisão dos desembargadores. mestre e discípulo. A minha tinha morrido: um novo julgamento estava a caminho. É. ele é um santo e está sempre do meu lado. afinal. não sei exatamente o que sinto. com toda a razão. Técio Lins e Silva. a legislação que é. A resposta veio uma semana depois: "Não me surpreendeu a decisão de três desembargadores de anularem o julgamento. não tem sentido a mulher apanhar ou ser assassinada e seus algozes não serem castigados à altura dos seus crimes. Quando desligaram tudo eu me aproximei e disse educadamente que só daria entrevistas na TV ao vivo. havia começado tudo de novo. Evandro iria entrar com um novo recurso para tentar derrubar a decisão dos desembargadores.

Na véspera de Natal escrevi: "Enfim.. que na maioria das vezes o Supremo acompanha as decisões 180 das câmaras criminais e que deveríamos estar preparados para outro julgamento. Perguntei como deveria proceder para ter um defensor público. entrou na conversa: — Não. Novo julgamento à vista. não adiantava me debater ou ficar angustiado. Mas os meninos estão aí. e depois. Maridos mineiros que mataram suas mulheres. Jornalistas querendo faturar. era essa que eu ia usar. Ganhava bem. o melhor era meter a cara no trabalho. 181 Já nem pegava meu caderno para escrever coisas a esmo. Na volta. Dê alguns dias. jantávamos na casa de amigos e o que desse na telha. o que eu podia dizer? Se abrisse a boca.. para não escrever lamúrias. Aliás. quase de graça. Mas eu confiava no dr. Um novo advogado para ajudar na promotoria. Como já disse. Achava que o presidente Figueiredo e seus ministros não falavam a mesma língua Pelo menos era o que os jornais comentavam. mas quem sabe vocês chegam a um acordo? Ficamos conversando por umas duas horas para ver se dava para os "meninos" me defenderem. a realidade ia me atacando. Dr. quer dizer. mas eu não tinha condições de contratá-los.. depois de Sai r da casa de Marilena. nem coisa nenhuma.. Evandro. Ele é muito competente e vem acompanhando o seu caso com grande interesse. durante o vôo. era mais do que eu podia gastar. Evandro começou contando que já estava pronto o recurso extraordinário que impetraria dentro de alguns dias no Supremo Tribunal Federal. solicitando que fosse anulada a decisão da 2ª Câmara Criminal do Tribunal que tinha anulado o júri de Cabo Frio. Evandro. pintor famoso que. não poderei atuar em outro júri popular.. se o Brasil tinha problemas. se ele tinha carta na manga. Feministas de pedras nas mãos. etc". bebia. isso é loucura. era sempre a mesma fossa. aguardava os acontecimentos. até entrar no meu quarto de madrugada.. Para isso. Quando ficava muito desesperado. que passava por um momento político ruim. Tudo isso. a gente não se escondia. Afinal. E se a descobrissem? Não era difícil. Preciso organizar o que quero escrever". Sempre me lembro que escovava os dentes sem olhar no espelho. e isso era tudo. vou conversar com um advogado amigo meu. na casa de Marilena. Pelo menos durante o dia. não adiantava mais. tinha sucesso no meu trabalho. passeando na rua a pé. envolvia muita despesa com investigações. em seguida. Pelo menos dois criminalistas de São Paulo haviam se oferecido para me defender. não havia nada que eu pudesse fazer. Mas o risco de isso acontecer era mínimo." E assim voltava à fossa. Evandro. ao cinema. que só ouvia. Doca. Conseguia ir vivendo.. Às vezes me preocupava com a promotoria. íamos ao teatro. puxou o revólver e matou o distraído — tudo isso para os jornais são coisas da vida. no trabalho. escrevia sobre os acontecimentos do país. Era um trabalho caro. Quando chegava em casa já era outro. meu irmão e eu ríamos ao pensar nas manchetes se eu tivesse um defensor público: "ex-playboy. é uma pessoa da minha confiança. era aquele que estava esperando Segundo julgamento e não tinha dinheiro para contratar um defensor. . naquela altura eu não podia gastar nada. "Ex-playboy duro matou a amante e agora quer salvar o Brasil. somado. Abandonava rápido esses comentários. Acho que era para não me perguntar: "Por quê? Como?". levou um encontrão. Só tinha de ficar calmo e esperar os acontecimentos. estão atolados de compromissos. olheiros etc. Levava o meu dia sem prestar atenção nos noticiários e sem olhar para trás. como fizera dr..Dr. Explicou. e um deles teria de se mudar para Cabo Frio trinta dias antes. Quanto ao segundo julgamento. Os jornais não estão dando o mesmo destaque que dão para mim aos crimes cometidos este ano. 81 está aí. Já no caminho. Era muito importante estar atento às tramas da acusação. Continuou olhando para nós dois.

Estava tudo certo. e muitos amigos meus entraram nessa. o dr. apesar de o Raul ter sido reprovado e de o Lipe estar no exterior.. Na verdade eu não precisava me preocupar com isso. como no ano anterior. O tempo ia passando. Conversamos muito. O Carnaval chegou. senti um alívio na consciência.. começaram a sair algumas notícias sobre o novo julgamento. que na certa teria alguma idéia.. senti que faria tudo ao seu alcance para minha defesa. Se ele aceitara convite do dr. era uma barra tão violenta que o jeito era encher a cara. escrever. Humberto. vá. — Está com saudades dela? De seus filhos? Quer voltar para ela? Vá. burguesinho. Além do mais. o dr. A reunião com os dois me deixou tranqüilo. Não reclamei nem dei bronca no Rá. No Jornal do Brasil ele declarava que ajudaria a acusação como profissional. o famoso "caso Tieppo". Já havia lido algumas declarações do novo auxiliar da promotoria. O dr. Fora isso. apesar dos problemas por que passava a empresa e a indústria automobilística. é verdade. Marilena e eu continuávamos firmes e o resto da família também. alardeavam o golpe dado por um corretor de dinheiro. agora me deixava esquisito. sempre achei o Natal uma festa do comércio. me sentia culpado por isso e por muito mais. Depois de algum tempo fui novamente ao Rio. e Marilena e eu fomos para Jaboticabal.. pois me lembrava de seu olhar de ódio. olhar as ondas estourando e chegando de mansinho aos nossos pés. —-Até assim era bom." ERA FIM DE ANO. brigas. isso também.. Que fazer? Ora. que sempre encarei como um dia igual a outro qualquer. acabávamos na cama abraçados como uma só pessoa. o novo julgamento não tinha data marcada. era porque eu merecia ser defendido. não viajando. já tinha decidido: iria entrar com uma petição no tribunal de Cabo Frio para obter um defensor público. em 1979. Não era o que eu queria.. Largava tudo e ia para meu quarto com uma garrafa de vodca e algumas de coca-cola. Isso atrasaria um pouco mais o julgamento. Me refiro aos nossos passeios nas areias de Gravataí para ver o sol nascer. Em sua loucura começava. pôr para fora. A passagem do ano. Quando aceitou cooperar com a minha defesa. Crise é o que não faltava nos noticiários. tinha o Paulinho Badhu. será que foi isso? Não gosto de pôr a culpa em suposições. por quê? Não era isso que queríamos. Do jeito que escreviam. rindo. mas . drogados tivemos momentos felizes até quando ela fazia cenas de ciúmes. Afinal. Waldemar Machado. Como estariam os filhos da Ângela? E a mãe dela? Quando meus pensamentos tomavam esse rumo. Não era o que eu achava. Se não tivesse dinheiro 183 para a defesa e não conseguisse um advogado. Mais ou menos uma semana depois. um advogado de Cabo Frio. Humberto. Pelas fotos dos jornais. é claro. vi que era aquele senhor que durante o julgamento me olhara feio. Tinha simpatizado com o jeito do dr. Drogas. meu novo defensor. Onde estão as estrelas que olhávamos entrelaçados. dando pulinhos para trás. davam o fato como certo.. 182 Nos primeiros dias de 1981. A BEM da verdade. Linda. eu ia tocando a vida e as vendas. ciúmes. Evandro me avisou que o recurso não tinha surtido efeito e eu precisava ir ao Rio conhecer o dr. Desejo-paixão-amor. que se ocupavam também da posse do presidente Reagan. Evandro. Os prejuízos foram de milhões. só não tínhamos falado em dinheiro.. Waldemar Nogueira Machado era um ícone de honradez. "Onde estão os sonhos de ver o mundo juntos? Não.. nos Estados Unidos. mas eles achavam importante ganhar tempo. ALIÁS. eu sentia tudo isso e muito mais. que segundo os jornais dispensaria operários. Querendo ou não. MAS AS FESTAS NÃO TINHAM SENTIDO. Evandro e o dr. com os cantos dos olhos para não parar de beijar? Onde foi tudo isso? Viraram ménages. só que desta vez ao escritório do dr.O fim de ano mexia muito comigo. um dos mais ilustres cidadãos de Cabo Frio. Humberto Telles. No mesmo dia. uma ótima data para vender.. fizemos as contas e acertamos tudo por uma quantia que dava para pagar. ele. entraram com um agravo contra a decisão da Suprema Corte.

e mamãe estava pagando as notas promissórias praticamente sozinha. Sou pecador. é tudo por dinheiro mesmo. Se fosse preso. a data do julgamento foi confirmada para 5 de novembro. Aqueles últimos meses tinham sido difíceis. Percebi que. e quando isso aconteceu fiquei angustiado e com medo. Humberto. Tinha amigos e parentes com propriedades nesses estados. era incrível. O corpo de jurados só mudaria em meados do ano seguinte. De uma coisa eu tinha certeza: se fosse condenado. decidi que o jeito era trabalhar. ele devia saber o que estava fazendo. mas meu relacionamento com eles era difícil. Para não ficar pensando em coisas que eu não podia mudar. Evandro. Pelo menos teria a certeza de que um dia tudo estaria acabado. Tinha perdido o respeito pela maior parte dos seres-humanos. que não ia querer se separar dos filhos. as vendas estavam devagar. mas o dr. Fazia planos para o futuro. que se danasse. Eu não iria fugir. O dr. o resto era resto. é claro. O tempo ia passando. Quase todos moram na cidade há menos de três anos. Eles não entendiam nada daquilo.. sabia quanto eu precisava dela. estou preocupado porque o corpo de jurados é muito estranho. Até aí tudo bem. Depois de ligar para vários lugares encontrei-o no fórum. — Doca. Tinha características diferentes do dr. Tinha receio de fazer alguma grosseria com os dirigentes ou colegas. Queria tanto que marcassem logo a data para acabar com a expectativa. Querem fazer reportagem. teria direito a recurso e esperaria o resultado em liberdade. Em 6 de outubro. Minha mãe achava que eu não devia me intrometer. Respeitava as feministas e a família Diniz. O que não é por dinheiro é pela carreira. e também não ia abrir mão dela. não seria difícil arranjar isso. Tinha de concordar. Trabalhei até o último instante. Alguns dias depois. Humberto dizia que tínhamos cinqüenta por cento de chance de repetir o resultado do primeiro julgamento. o Brasil também. Meu . Além do mais. Como aquilo não saía da minha cabeça. mas uma coisa o incomodava. mas acho que eles compreenderam e tiveram paciência comigo. Ficou combinado que nos falaríamos por telefone. A minha angústia era um verdadeiro sinal de alerta. Não tinha ânimo de ligar para os clientes e participar de concorrências. Isso aconteceu no dia 8 de outubro e o julgamento seria em 5 de novembro. Eu também tinha esse problema. Mulher corajosa. para diminuir os custos com a ponte aérea. pois precisava desesperadamente de dinheiro. Marilena também foi paciente. Não me acertei com os novos diretores de vendas. A espera era penosa e me deixava nervoso. era normal. Se continuasse em liberdade gostaria de ir trabalhar em alguma fazenda em Goiás ou em Mato Grosso. Eu me sentia culpado. mas tinha muito medo. Entendia a luta da família da Ângela e a revolta das feministas. comecei a me preparar para voltar a Cabo Frio para mais um julgamento. telefonei para o dr. em Cabo Frio. Achava justo pagar por meu crime. mas não queria nem pensar o contrário. como o Paulo ele tinha achado estranho. iria ser julgado pela segunda vez. Não fazia a menor idéia de qual seria seu futuro comigo. que façam. Os negócios não iam tão bem quanto eu esperava.. liguei para o dr. e isso me deixava apreensivo. Minha produção não caiu. tinha de amá-la. Não consegui. Ele já estava a par e disse que não havia o que fazer. Assinei várias notas promissórias e voltei para São Paulo. Humbertoera 184 cavalheiro. Andava nervoso. Evandro. paciência. Gostava de agitar a imprensa.não à vista é claro. soube esperar. Uma manhã me senti estranho e não sei por que telefonei para o Paulo Badhu. Mas isso eram planos para depois da batalha. Não me afastei. Preocupado. O que eu não sabia era que não é fácil sair com vida de uma penitenciária. Entendeu a situação. com dinheiro. Ele estava lá porque soube que o novo ajudante da acusação tinha conversado com o juiz e estava reunido com o promotor. finalmente. só não fazia milagre. Algumas vezes atrasamos o pagamento das promissórias. e os outros? Calúnia não é algo errado? A uma certa altura achei que devia me afastar por uns tempos da empresa. Ela. O problema seria a Marilena.

mas só por telefone-Tomávamos Veuve Clicquot (a "viúva") com laranja pela manhã e. e fui até o espelho me olhar. brincando e fingindo arrancar e jogar o aparelho contra a parede. Senti todo o carinho. Lavei o rosto e voltei para o quarto. fomos a uma choperia na avenida Atlântica. Se a gente gostasse de lá e encontrasse uma boa oportunidade. arrumar confusão seria um péssimo negócio. Amigas de Ângela telefonaram e elas festejaram. e apontei para um . Não procuramos ninguém. Como o lugar também oferecia quartos para alugar. Marilena.amigo Ludovico. falando baixinho sobre essas coisas. que virou sala de visitas. Depois fiz uma sesta e dormi por algumas horas. se um dia aparecesse um negócio muito bom. porque a mesa era redonda e. 185 Um dia antes da minha partida. Perdemos completamente a noção do tempo. nem o Chiquito. fui para a casa de Marilena. uísque. apenas se divertindo. Eu. Eu não procurei ninguém. Achava que deveríamos curtir bastante e. Foram instantes de extrema felicidade para mim. estávamos animados e alegres. e o lugar dava de frente para o mar. se não estivesse alugada. quando percebemos que uma das moças estava em pé na nossa frente. todos foram para lá e se aboletaram na cama. Ela falou com a mãe uma ou duas vezes. O lugar estava quase vazio. alegres e despreocupadas. acho que ficava no Posto 5. Estava claro que eram meninas de programa em fim de noite. seus filhos. Afinal. seria um bom começo. Dormimos até tarde. mas assim mesmo pegamos uma mesa no fundo. só parando em seu apartamento em Copacabana. todo deformado. Mal conseguia ficar de pé. Não deveríamos correr atrás de negócios. Usavam roupas extravagantes. Ia para lá de carro. aquela foi uma tarde feliz. Ângela pensava diferente. Quando chegamos. Tínhamos combinado que só pensaríamos nessas coisas depois de passar algum tempo juntos. era verão. rindo. PARAMOS PARA COMER QUALQUER COISA E ACABAMOS BEBENDO MUITO. mas não inadequadas. quando resolvi descansar um pouco para depois seguir viagem. Foi uma lua-de-mel regadíssima. Com muito jeito consegui acalmá-la. Depois que começaram a falar mais baixo. Estávamos assim. . poderíamos pensar no assunto.Tinha vontade de arrancar esse telefone da parede. que aparentemente era conhecido delas. Queria passar o dia com ela e as crianças. como não estava sentado colado à Angela. Só nos separamos lá pela meia-noite. Estávamos abraçados. Numa madrugada. Ela ia telefonar para Belo para saber de uma casa que tinha mandado reformar e. após me despedir de todos na Marcas Famosas. com fome e sem nada no apartamento para comer. Angela e eu retomamos nossa conversa. com papai e Glória. Aquele não era o momento de olhar para trás. Ela queria um cigarro. comemos no quarto. Tive que arrumar lugar para pôr as minhas coisas. Eu também tinha bebido muito. cozinheira de Marilena. quando começou uma movimentação atrás de mim. Fazia muito tempo que eu tinha planos de morar em Búzios e explorar uma pousada. Seu rosto parecia uma uva-passa. ela sempre estaria lá como refúgio. Ficamos mais ou menos uma semana sem sair de casa. emprestara sua casa na praia do Peró. deixaríamos isso para o destino. Principalmente se a polícia aparecesse. Como continuei no quarto. depois 186 ela bebia vodca e eu. Até mudei de cadeira. tal era a quantidade de roupa que eu tinha conseguido trazer. Rá e eu. Tive um momento de arrependimento que me deixou perturbado. Também queria ir até Búzios. Não falamos no futuro nem fizemos planos para os dias seguintes. Naquela noite ela bebeu muito e ficou completamente embriagada. Estava satisfeito por estar vivendo com a mulher que amava e por não sofrer a angústia de estar longe dela. precisava de apenas um dia na cidade. amor e amizade deles. pagamos a conta e entramos na estrada novamente. em plena Copacabana. mais uma vez. porque àquela hora não havia serviço de quarto. Vozes e gargalhadas. passamos a noite lá. Era divertido vê-las conversando. Pedimos bebida no quarto e continuamos nossa festa. Como estávamos. para checar se o banco tinha depositado a primeira parcela da minha comissão. Apesar de toda a tensão. Ela ria muito e dizia que teria de alugar outro apartamento só para guardar meu enxoval. divagando e esperando. por minha vez. Quando dei com meu rosto me senti mal. Fizemos o pedido e pela primeira vez falamos no nosso futuro. procurar uma casa para passarmos algum tempo e ver se nos ajeitávamos. não entendia mais o que ela dizia. Eram quatro moças que falavam ao mesmo tempo entre si e com o garçom. Mas não podia pensar ou falar em nada que me fizesse lembrar da minha ex-mulher e dos meus filhos. Ângela estava furiosa.

poderia ficar. Ficamos dois ou três dias praticamente sem sair. Ângela não tinha interesse nela. Posto 5. Sem ter muito o que fazer. me abraçou e beijou muito. Na verdade. ele era bom de cama. Ângela começou a falar de uma viagem de navio que tinha feito com um camarada que eu conhecia. porque ela queria saber se estávamos dispostos a pagar o que ela pretendia e para onde iríamos depois. Em seguida fomos para um motel e passamos a noite. continuou a chover. as amigas se levantaram para sair. Mas. Nosso jantar chegou. algum dinheiro e meu revólver. Ouvi aquilo sem abrir a boca. dei por falta da minha pasta. segurei os ombros dela com firmeza e perguntei se ela havia entendido. ela se encheu dele e voltou. Essa pasta estava sempre ao meu alcance. Ela pegou. caminho para a casa do Ibrahim. com uma piscina no terraço e outra no quarto. se quiséssemos. Seu comportamento também mudara. e uma hora ela quis sair pelada do hotel. Na mesma hora lembrei que a havia esquecido embaixo da cama. Estava sempre com dinheiro. a moça ficou sentada tomando um drinque e conversando. A suíte que alugamos ficava em cima do mar. Guardava documentos. A moça gostou tanto da gente que nem aumentou a taxa. tirei-a lá de dentro. o sol batia em nossos corpos. Perguntou: 188 — Você acreditou mesmo que eu ia sair? No dia seguinte tentamos ir até Búzios. Já conhecia a história. cabelos curtos da mesma cor. Queríamos acabar o jantar e o vinho que tomávamos. nos excitando e deixando o ambiente muito sensual. O dia estava lindo. e essas coisas não passam de brincadeira. bonito e influente. Antes de retornar para dentro do carro. afinal. Ela respondeu que dependia de nós. Estava tão alto quanto ela. mas porque ali era a avenida Atlântica. Voltamos para pegar a pasta e retornamos para o Rio. queria assistir mais que qualquer outra coisa. arrastei-a até a frente do farol e então pedi que me poupasse. Ela me abraçou e sussurrou que me . Fiquei preocupado com o convite que fiz. rumo à praia. só saímos às sete da noite. quando chegaram à Europa. Em compensação. Ângela. então resolvemos voltar para o Rio. A pergunta era pertinente. e estava sempre comigo. contada pela outra parte. Era alta. mas não tinha a menor intenção de tomar chuva na praia. Mas. quando estávamos completamente embriagados. pois choveu o tempo todo. Naquela época. de madrugada. Na estrada. enfim. Quando parei para abastecer. Aquele programa nos animou. e comecei a abraçá-la e beijá-la. ou na mesa-de-cabeceira ou debaixo da cama. não pelo fato em si. Disse que. caminho para a casa de muitos conhecidos. Aliás. agradeceu e disse: — Você está muito bem acompanhado. veio ao meu encontro. Fiquei muito impressionado com a aparência do rosto de Ângela na madrugada. além de rico. A noite. Percebi que não conseguiria convencê-la. Mas fiquei muito bravo. era o negócio dela. Num momento qualquer. que estava na piscina e escutou. Só eu subi. mas encontramos tanta lama que desistimos. Consegui trazê-la de volta para a cama. Algum tempo depois.maço que estava na mesa. para pegar dinheiro e reforçar a "animação". a moça ficou louca por ela. Parei o carro. quem fechava os negócios também liqüidava a operação. No primeiro momento houve certo constrangimento. olhos pretos. Sua roupa também era 187 preta. Era uma pasta pequena. De lá fomos para casa. se era verdade ou não. Ficamos o dia todo lá. que não me contasse seus casos anteriores. Dissemos que sim. quando trabalhava no Banco Finasa de Investimentos. e no dia seguinte bem cedo fomos para Cabo Frio e nos hospedamos no Hotel Malibu. Acertamos tudo com a condição de que não tivesse pressa. muito branca. e uma se aproximou para saber se ela ia ficar mais um pouco. Sorri para ela e convidei-a para sentar com a gente. Comecei a usá-la e a carregar uma arma no final dos anos 60. a moça fez um comentário que nunca esqueci: — Você só está fazendo esse programa porque gosta muito da sua mulher e faz tudo o que ela quer. na hora de pagar. Ela ria e se divertia. bebemos bastante. menor que uma bolsa. — Eu também adoro ele. Ficou o tempo todo nos atiçando. Não entrei no mérito da questão. estávamos dentro do restaurante e não na calçada.

Acho que essa foi a primeira vez que saímos durante o dia. e aproveitei para mandar abraços para toda a família. A noite. quando percebesse que tinha jogado tudo fora? Quando entramos na avenida Rio Branco o carro quebrou. almoçamos num restaurante ali perto. já que no dia seguinte teria de comprar tudo de novo. fomos novamente à praia e estendemos nossas toalhas no Posto 12. porque depois da conversa séria e chata convidei-o para passar alguns dias conosco. No dia seguinte. um clube no final da avenida Atlântica. onde não havia ninguém da nossa turma. — Não quero mais isso. vi um rapaz que só poderia ser filho de minha prima Maria Zélia. Acho que era fim de semana. só serve para atrapalhar. Chegamos em casa quando o sol estava se pondo. Não dei bola. e fizemos nosso programa preferido: ficamos no quarto bebendo e namorando. Eu tinha parentes na cidade. de guincho. Ficamos em casa aquela noite. Fomos almoçar com um amigo de Ângela no Marimbas. e todos se levantaram para nos cumprimentar. Foi uma tarde agradável. típica do verão carioca. o Chiquito devia estar chegando.amava. andar um pouco. e o dia continuava lindo. Nossa chegada foi uma festa. Apresentei-o para Ângela e para os outros. Inclusive uma amiga de infância minha. e o carro. Arranjamos tudo para a chegada dele. Depois. Quando entramos no apartamento. Continuamos a viagem só de mãos dadas. no Posto 6. Entrou no carro. Pela manhã. Estaríamos lá mais ou menos em uma semana. Depois fomos almoçar num restaurante na rua Bartolomeu Mitre e encontramos montes de conhecidos. que acabara de casar. Chegamos ao apartamento de táxi. Sabia que deviam estar querendo saber de mim e que dariam notícias minhas para os familiares de São Paulo. Eu o reconheci porque era a cara do pai. Na manhã seguinte já estava bem. falei com um corretor de Cabo Frio. apesar de o almoço estar divertido. mas não os procurei. Combinamos um jantar na noite seguinte com algumas das pessoas que estiveram na praia conosco. Chiquito já estava sentado na sala com um copo de uísque na . com a ajuda da telefonista. Conversamos um pouco sobre meus negócios. e pedi a Chiquito que preparasse uma procuração para que ele pudesse assinar por mim. Chiquito se atrasou e chegaria só no dia seguinte. olhando a piscina e a praia. Assim. O carro tinha tido uma pane boba e já estava na garagem. depois do café-da-manhã. Além disso. O dia estava ensolarado. estava com arrepios. De lá se vêem toda a praia e toda a avenida Atlântica. Tudo nos convidava para ir à praia. Chegamos à uma da tarde e resolvemos estender nossas toalhas 189 em frente ao Country Club. conversando e bebendo. Ficamos com alguns amigos dela. em Ipanema. sem nos falar. voltamos para casa. Houve um momento em que começou a rir e me beijou. abriu a bolsa. Daqui a cinco horas estou aí. Senti arrepios 190 novamente e. Mas ali. até uma amiga de Ângela para fazer companhia. porque não havia tido tempo nem vontade. Chiquito telefonou e contou os últimos bochichos: meu sogro tinha mandado queimar tudo o que o lembrava de mim e tinha proibido que mencionassem o meu nome. O prejuízo seria grande. pegou o papel-manteiga com o que restava de pó e ameaçou jogar fora. a Xinha. olhando a piscina. senti arrepios novamente. Não me sentia bem.Puxa. Tratei de descansar para ficar logo em forma. até que enfim. Segurei sua mão e a impedi. — Já imaginou amanhã. Ângela conhecia muitos dos que estavam ali. e realmente era o filho da minha prima. de frente para a praia de Copacabana. Seria em um restaurante da moda. A resposta dele foi ótima: . Fui falar com ele. Precisei deitar. A localização do clube é privilegiada. Pedi que procurasse algumas casas em Búzios.

quando acordei. O jantar foi ótimo. Tomei um banho bem quente. Estavam algumas pessoas da praia e um casal que era amigo do Ibrahim e que estivera duas vezes na fazenda comigo. mas me desapontou. com o Leopoldo e a mulher dele. Na verdade. Ângela e ele se davam bem. Ângela. duas aspirinas e acompanhei o ritual com uma "carreirinha". Assim que chegamos ao apartamento. Chiquito e sua amiga iriam sozinhos. da empresa e de São Paulo. ninguém mais estava em seus lugares. Ela abriu a mala dele e procurou um shorts. Que gente agitada. Quando acordei. ficou tudo como estava. Assim que chegamos à piscina do clube. alguém sugeriu que fôssemos ao Country Club. sentou-se na minha cadeira e. Leopoldo e Mari. mas ele já tinha se programado para voltar naquela tarde. só ficamos conversando sobre nós. ele queria saber como eu estava e tudo o que tinha acontecido desde a minha saída de casa. uma camiseta e o obrigou a "acariocar-se". nós quatro fomos para a praia. Queriam saber tudo da minha nova vida. Para ficar à vontade e combater os arrepios. — Pô! Esse pessoal não pára. Quando Ângela se afastou. a amiga fazia parte do grupo que nos esperava. depois que você veio para cá. Os arrepios ameaçaram me incomodar. iríamos lá pela meia-noite. Boa parte do pessoal do jantar apareceu e. Continuava com arrepios. A reação dela me surpreendeu. uma tremenda bagunça. Não foi nada de mais. se não melhorasse. Nem descansei. Não sei quanto tempo dormi. Não mexemos as pedras nem os dados. e eu tinha agüentado bem a madrugada. afinal. Se você não . eu os tinha alcançado. Ângela trouxe um uísque para mim e uma vodca para ela. Ele disse que não tinha tido um minuto sequer para batermos um papo. Percebi que Ângela se aproximava e fiz um sinal para Chiquito esperar. mas. Mas tinha ficado chateado porque Ângela não havia dado importância ao meu mal-estar. o Caio. Em compensação. Ainda que se conhecessem havia pouco tempo. tinha usado o mesmo método da noite anterior: um bom banho. retomamos a nossa conversa e perguntei sobre meu cunhado e meu outro sócio. Devo ter apagado. que continuavam. O dia estava lindo e alegre. mas bebi mais. ela os acompanharia. Pediu um tabuleiro e disse que ia me ensinar a jogar. Convidamos Chiquito e insistimos para que ele fosse com a gente. duas aspirinas e um pouco de "alegria". comi bem e fui cheirar no banheiro algumas vezes. Mais tarde. só restava nossa mesa. pois não estava com vontade de ficar em casa.mão. O jantar continuou noite adentro. Quando dei por mim. Só esperavam por mim. Mas ficou combinado que. Quanto ao resto. Sugeriu que eu descansasse mais um pouco e. alegre. Talvez eu estivesse muito sensível naquele momento da minha vida e esperasse demais de Ângela. Fiquei ligadão. e falei para a Ângela que gostaria que ficássemos em casa. Ela chegou. — Parece que seu cunhado andou procurando o Caio. com um baita café-da-manhã. mas não parou de falar um minuto. Estava alegre por estar com meu irmão e amigo. tinha preparado ela mesma aquela bandeja e me encheu de beijinhos. se o dia continuasse bonito. e os amigos do Ibrahim vieram sentar ao meu lado. Ela riu muito da pressa do Chiquito em enfiar-se no quarto com a moça. Não me sentia bem e fui descansar um pouco. perguntou se eu gostaria de ir a Petrópolis mais tarde. Chiquito se trancou com a nova namorada no quarto de hóspedes. uma amiga e Chiquito estavam prontos. Mas tive de deixar os dois conversando. Se topasse. A noite tinha sido divertida. Se eles estavam embalados. acompanhado de um scquot geladinho. A certa altura. para saber a respeito de umas notas promissórias. porque reparei que 191 ela nem lembrou do meu mal-estar. para reanimar. estava com uma bandeja enorme do meu lado. nos encontraríamos na praia. A menina é um tesão. e todos resolveram ir embora. me abraçando. Chiquito viu um pessoal jogando gamão. depois de algum tempo tomando sol.

pois ele tinha reunido a imprensa para uma coletiva. assim que entramos no apartamento. fui surpreendido pela campainha. fomos ao hotel do outro lado da rua para jantar. Pensa que não sei da loira? Muito esperto. Antes de tirar as coisas do carro. Na verdade. Se bem que mamãe. tinha a impressão de que os arrepios haviam aumentado. ao mesmo tempo que dava uma gorjeta enorme para a moça. ele só falava com ela do jornal. porque telefone era a única coisa que a casa do meu amigo não tinha — ainda bem! Só falava com quem eu queria e quando eu ligava. Ele me olhou nos olhos por um longo tempo. não fazia a menor diferença. com esse negócio de ar-condicionado no carro e o quarto. Depois ligou para alguns amigos jornalistas. Era a empregada do Ibrahim. tomarmos banho juntos. como era a vida no Rio e quais os planos para o futuro.voltar as duas empresas vão fechar as portas. Se precisar. Pediu para publicarem que estávamos felizes e íamos viver em Búzios. durante o banho. que chegaria dez dias depois. Chegamos todos bem no Peró. Quando Ângela me abraçava no elevador. Eu quis saber do que se tratava e o que aquele gravador estava fazendo ali. Na volta. Tinha de me alimentar bem. Não me preocupei. nos dois últimos dias tinha tomado muito sol e. Ângela foi para o quarto onde Chiquito tinha ficado e telefonou para a empregada do Ibrahim. que mandei trazerem para casa. Depois da praia não tinha bebido nem usado nada. Já dei um dinheirão para essa empregada. Confesso que não fazia idéia de que Ângela tivesse tanto dinheiro. Depois de meia hora. Depois do almoço passamos em casa para pegar as coisas do Chiquito e fomos com ele até o aeroporto. Já sabíamos que ele tinha telefonado para a mãe de Ângela e agora íamos ouvir a conversa. e por isso não levei a sério a fita. Falei a verdade: estávamos só curtindo. eu estava preocupado com os arrepios. FINALMENTE. vai passar uns dias comigo em São Paulo. enchi a cara de uísque. no Rio. ele se uniu a ela de olho no dinheiro". Desde a época do . pois desconfiava que a empregada me passava informações. Foi tudo bem. escolhi o restaurante e pedi um jantar para dois. Mas Ângela ficou muito brava. A gravação era mais ou menos assim: "Esse homem só se dá com mulher rica. respondi a tudo o que perguntaram e saí correndo. A POUCO MAIS DE DUAS SEMANAS DO JULGAMENTO. Apesar de a febre ter baixado com a aspirina. Continuou olhando para mim. estava muito cansado e não queria guiar à noite. para dizer que o Ibrahim era mau-caráter e estava tentando desmoralizar a gente. rindo e pondo a fita no gravador. Ângela ria. para relaxar. achou que eu estava muito quente e. ligou para a mãe e pediu que não atendesse mais seu ex-companheiro. parei numa farmácia para comprar aspirina e um termômetro. Ainda tinha de buscar Maria Zélia. Depois. Trazia um gravador. cheguei a Cabo Frio. Enquanto ela abria o chuveiro para um de nossos programas preferidos. vi 192 Que estava com 39 graus de febre. Sua filha vai ficar sem um centavo. Ângela estava com a mania de usar um serviço de e ntregas que tinha aparecido na época. entrei na cama sozinho e fiquei esperando a febre baixar. e durante a viagem 193 . O Ibrahim. achei que era apenas um resfriado. Não pude ir direto para lá. a mãe e quem mais quisesse podiam acreditar naquilo. tive de passar no escritório do dr. Tomei aspirinas e. — Você está meio travado. Lá era também nosso centro telefônico. Ela estava tão brava que nem ouviu meus argumentos. Fui de carro. Conversamos sobre coisas sem importância. pôs o termômetro na minha boca. Liguei para lá. combinamos ir para Petrópolis só na noite seguinte. e Marilena sabiam o número do hotel. com papai e Glória. Era melhor deixar quieto e não dar notícias. e ele quis saber se eu estava feliz. — Eu sempre soube tudo o que ele falava. Humberto.

Eu no lugar dela faria o mesmo. que contém o primeiro julgamento inteiro. Alertou-me sobre dois fatos que o preocupavam: o corpo de jurados e as feministas. meu amigo. Só apareceram perguntas que me complicariam. Eram tantos aparelhos e técnicos que nos assustaram. mas respondi a todas. fui com a Glória fazer compras na cidade. Se conseguíssemos isso. O que mais uma vez eu não entendia era que montaram um tremendo aparato para a gravação e a apresentaram toda cortada. montadas com cenas da mãe da Ângela chorando e dizendo que queria justiça.. a palavra condenado era proibida. Humberto apareceu. Paulinho Badhu veio me visitar. A entrevista foi uma barra. Fizeram perguntas incríveis. Humberto. percebi que pegaram frases daqui e respostas dali. O dr. mas agora era o contrário: a data se aproximava rapidamente. Afinal.«acompanhado de sua esposa. Seria no fim da tarde e. Ele tomou a palavra. nada disso. os proprietários do hotel.. Não gostei da idéia. algo que deveriam ter vergonha de fazer. em vez do memorial descritivo.. mas nem tudo é perfeito. Eu estava de mau humor e sem a menor paciência de conversar com eles. Eu tinha medo. Eu estava completamente exausto. o que foi uma pena. Foram momentos agradáveis. andar na praia. era para me ajudar. A espera continuava. trazendo uma montanha de livros. de maneira que mudava o sentido do que eu havia dito. Quer dizer. dirigindo-se principalmente a papai e Maria Zélia: — Desta vez. Não era fácil. Em seguida. Waldemar Machado. No dia seguinte. Depois de explicar como deveriam proceder. quando o pesadelo ia acabar? Como o dia amanheceu feio. Evandro aceitou mais alguns drinques e foi embora. Queria que ele estivesse presente na entrevista com a Rede de Televisão. Não queria pensar no dia seguinte. Humberto continuou em casa. 194 A pergunta e a resposta não foram para o ar. e a conversa tinha caminhado para uma tentativa de acordo. e comecei a me sentir melhor. Estava irritado e com raiva do dr. O pessoal da TV apareceu no fim da tarde. o dr.. Fiz tudo isso no meu terceiro dia na cidade. Não era mais fácil pegar antigas entrevistas e montá-las no estúdio? Após a entrevista. banhos de piscina e muitos telefonemas para Marilena. Que merda. e uma ótima oportunidade para conhecê-lo melhor. estava exausto. Evandro. em dezoito dias seria julgado novamente e precisava estar descansado. Papai e minha prima estavam entregando os livros e eu fazia o que podia para não pensar em nada. muitas vodcas. O . e ele achava bom negócio. É claro que ela tinha razão. No começo da noite. Não o encontrei. Foi muito espirituoso e rimos muito. depois de tudo que ele tinha me arranjado. Uma das perguntas que respondi com raiva foi: — O que você achou do carnaval montado no seu primeiro julgamento? A resposta saiu de bate-pronto: — Ué. tomamos muitos drinques a mais. Não que eu quisesse sair impune. Estivera com o juiz e o promotor. Ambos acharam que era bobagem — o tempo provaria o contrário. vocês entregarão aos jurados o último livro que escrevi. segundo ele. foram vocês que promoveram. Precisava de um dia de sol. que contra a minha vontade tinha marcado uma entrevista com a Rede de Televisão. Quando assisti ao programa alguns dias depois. porque em seguida chegou o dr.primeiro julgamento tínhamos um bom relacionamento com Hebe e Eduardo. Queria aproveitar que os habitantes ainda não sabiam da minha presença. o dr. fui à casa do psiquiatra Ivo. que me recebeu cerimonioso como sempre. Depois de mais ou menos setecentos quilômetros de estrada e uma entrevista com um monte de jornalistas no centro do Rio. É. Depois procurei o dr. Ele contou algumas histórias de júris dos quais tinha participado. Não tive tempo de reclamar. uma montagem. telefonei para os advogados e expus os planos do Paulinho. eu seria condenado apenas a seis anos.

dei as entrevistas. fui para o bar. Engraçado. ele começará a ser julgado pela segunda vez. na véspera do primeiro julgamento. Quando cheguei à copa ele já estava lendo um e havia outros em cima da mesa. não conseguiria dormir. estava descansando no meu quarto quando escrevi meia dúzia de linhas: "Estou a poucas horas do segundo julgamento. por sinal — teve o apoio de um figurão das forças armadas. Até que o recurso fosse julgado. Trazia uma foto da Ângela e outra minha. Foi resolvido em 56 dias. Fui pedir para o motorista comprar os jornais. esse mesmo advogado. eu declarara aos alemães que o "que vai ser julgado amanhã será minha honra". Precisava de algo forte. APÓS UMA NOITE agitada. Os jornais anunciavam que um grupo de mulheres de Cabo Frio iria se juntar a um movimento do Rio e de Belo Horizonte. Num clima de aparente indiferença.Ivo chegou com equipes da Bandeirantes e da Record. mas não foi necessário.. ajudante da promotoria. Peguei o primeiro. Seu nome: Raul Fernando do Amaral Street. Que Deus me perdoe e me ajude". Preparei mais uma dose. no qual um cidadão matou o outro. há cinco anos. Segundo a notícia. Já tinha lido o que estava em cima. O jornal O Globo informava também que eu estava na mesma casa na praia do Peró com minha família e com uma nova mulher. Que fazer. motivado pela presença do mestre Evandro Lins e Silva. na acusação". a entrar com recurso para anular o julgamento. Segundo o jornal. 3 DE NOVEMBRO DE 1981 — HAVIA CHEGADO O DIA. 196 Comecei a folhear e dei com uma notícia que já tinha me chamado a atenção. Por que será que mentiam? Estavam fartos de conhecer todos os que faziam parte da minha comitiva. a cidade não parou como no julgamento anterior. e aparentemente todos dormiam. fui tão assediado. sinto como se continuassem a me entrevistar. 195 Como é que poderia negar algo para um amigo como o Ivo? Devo muitos favores a ele e ao Paulinho. praticamente sem motivo. Puro veneno. dei tantas entrevistas. Servi uma boa dose de uísque e sentei-me numa poltrona.. com absolvição. Depois disso. que andava meio zonzo. a calma é quebrada apenas pela chegada dos grupos feministas e de carros de reportagem. eu estaria em liberdade. segundo diziam. um ignorante na matéria. Era a mesma do julgamento anterior. Nos dias anteriores ao julgamento.. O duelo entre acusação e defesa já não é tão badalado como foi em 1979. A casa estava cheia. em que mal consegui dormir. outra notícia fora de propósito: "Condenação o levará direto para a prisão".. Argumentara que estava em "desuso". Minha mãe. Um crime de rua. Eram . em Búzios. e de seu discípulo. e sabiam muito bem que a mulher que estava lá e que visitava os jurados com meu pai era Maria Zélia — minha prima. eu havia dado a uma rede de TV alemã e que não correspondiam à verdade. na praia dos Ossos. Onde será que o Jornal do Brasil foi buscar isso? Gostaria de ver a gravação. ao lado de um monte de jornais e revistas. me servi de café e comecei a ler: "De trás dos muros altos da casa em que se encontra. Os periódicos informavam também que um novo advogado. quem deu? No mínimo. Remexi um pouco e achei uma revista antiga. Vejo holofotes eflashes. na rua dos Badejos. começa o julgamento. fui o primeiro a levantar. criticou esse tipo de procedimento. Um ou dois dias antes de ir para o tribunal. um homem sairá hoje rumo ao fórum de Cabo Frio. mais espaço eu ocupava nos jornais e mais repórteres havia em frente da casa e em cima do muro. Por que mentiam tanto? Na mesma página. foi. pelo assassinato de Ângela Diniz. Estava muito nervoso. cujo nome eu escondia. no dia do julgamento. Daqui a dois dias e uma hora. tia Rosaura e minha cunhada May tinham vindo de São Paulo. Às vésperas do seu 36º aniversário. Quanto mais perto estávamos do julgamento. iria visitar os jurados para distribuir um memorial. Evaristo de Moraes Filho. Não consigo fechar os olhos e descansar. E essa informação. se condenado. o réu — um pintor cuja obra admiro. A partir das treze horas. na defesa de Doca. o Doca. Outra notícia estranha trazia declarações que. e todos se concentrariam na porta do tribunal. Mas que foi um pé no saco. Eu tinha direito.

como se estivesse falando com ela. Cumprimentamo-nos e eles se afastaram. Se os meus estavam sofrendo. apesar de o delegado ter declarado o contrário aos jornais. Como não havia dormido quase nada. Fui cercado e agarrado. onde me mostraram a minha cadeira. Ele estava a uns dez metros de distância. o dr. Da primeira vez tinha ficado à direita do juiz. 197 A uma quadra do fórum. queria um acordo. e o juiz ordenou meia hora de recesso. Se fez isso. Concluída essa etapa. Um sentimento de perda. sabiamente. cheguei à porta dos fundos do tribunal. Quando achei que todos estavam mais calmos. Depois de muitas cotoveladas e empurrões. alegando que precisava ir ao banheiro. Ali havia seguranças. desci e fui ajudar meu pai. foi só para criar um clima. como estariam a mãe e os filhos dela? Enfiei minha cara na água morna do chuveiro até sentir que meus olhos não denunciariam que tinha chorado. A excitação daquela multidão de jornalistas era tanta que quase desisti e dei outra volta. para não cair no sono interrompi várias vezes. aumentaria ainda mais o sofrimento deles. Só não fiz isso porque. Humberto chegou. a acusação teve a palavra. Só me ajudaram quando cheguei e entrei. mas acho que o dr. depois de anos rezando sem nada sentir. a da casa era maior. como da outra vez. por achar estranhos os 21 jurados. No resto. e assoprou no meu ouvido: — Está tudo arrumado contra nós. Não consegui. Humberto me dissera. Em seguida. Não tenho certeza. Não havia seguranças. Ver nossas fotos me fez rezar. Depois fiz uma refeição leve. o juiz me chamou e mandou que eu contasse o que tinha acontecido. O tumulto era tão grande que eles também não conseguiam fazer seu trabalho. Depois de dar algumas ordens. Não queria que meus pais ouvissem. Olhei para o Paulinho para analisar sua fisionomia e achei que estava tranqüilo. eu o vi por cima das cabeças dos jornalistas. Esperei que se acalmassem um pouco para destravar as portas e descer. O resto da família iria depois. Humberto chegou a sugerir uma nova data para o julgamento. Depois ordenou que voltasse para o meu lugar. Fui para o banheiro. atropelaria pelo menos uns dez. agora estava à esquerda. Alguns investigadores conhecidos se aproximaram e me apresentaram o delegado. Parecia que eu estava assistindo à reprise de uma . os grupos feministas estavam em plena ação. Humberto fez que parassem a leitura e exigiu que as lâmpadas mudassem de posição. O dr. começou o julgamento. Eduardo Laranjeira. a visão era a mesma: a sala do tribunal. Tentei me aproximar para lhe perguntar sobre o que o dr. de culpa. rezei com fé. O sorteio dos jurados foi complicado. nervoso. Pedi perdão e chorei. Já não acreditava em nada e. Imediatamente lembrei do Paulinho. dava para ouvir o alarido. os holofotes das câmaras de TV estavam incomodando muito. mas o juiz entrou e voltei para o meu lugar. se arrancasse novamente. Além do mais. Batiam bem no meu rosto e me deixaram completamente ensopado de suor. abarrotada. ele me inquiriu por mais trinta minutos. mas logo estava em frente à entrada. que até aquele momento tinham sido simples espectadores. ao contrário do outro juiz. Terminada a leitura. procurando papai. o dr. e a voz do meirinho tinha sempre o mesmo tom. narrei os acontecimentos. chamar atenção e mostrar seu inconformismo com aquele grupo. Houve algum tipo de conversa com os operadores de TV. junto de mim. Houve muito bate-boca entre acusação e defesa. como da outra vez.fotos pequenas. Olhei para trás. Senti uma dor profunda e triste. estava cheia. entrei no carro com meu pai e fui para o tribunal. A leitura do processo durou oito horas. Fui encaminhado pelos seguranças até a sala do júri. Chorei baixinho o tempo todo. Como da outra vez. Sacudiam faixas e estandartes. 198 Quando terminei. que. Não sei como ele conseguiu. um desespero insuportável. tomar banho e fazer a barba. Dei a volta para entrar pelos fundos.

— Essa aí não tem jeito. então saí rápido dali. Deixei com ela e com os presos o maço de cigarros e todo o dinheiro que tinha comigo. Como ele demorava. todas cheias. que entrava . Fiquei no corredor. Fiquei esperando mais de uma hora. ele me colocaria com as moças.novela. até as acusações sem prova. Técio Lins. Se permitissem. Peguei minhas coisas. quando nos dirigíamos para as celas. Eu estava preso. fui até a cela das moças. Humberto e Paulinho argumentaram com maestria. cinco votos a dois. três de cada lado. que me devolveram naquela hora. Doeu olhar para meu pai e vê-lo chorar. Apesar da situação. Tinha uma escolta de mais de vinte policiais militares. Quando voltaram. Ao voltar para o corredor. me avisou que caberia um recurso e que eu ia esperá-lo em liberdade. Quando chegamos à delegacia. O carcereiro. Dei o cigarro. fingindo que limpava o suor da testa. Na defesa. já me esperava e não perdeu tempo: — Tire a roupa e ponha seus pertences em cima desta mesa. o dr. E foi me levando de volta para o seu escritório. O carcereiro balançou a cabeça. fiquei tão excitado que quase topei. só não me conformava com as calúnias. Ali pelo menos ouvia a algazarra dos detentos. me abraça um pouco. apesar de não ter permanecido mais que trinta segundos na calçada. enxugando o rosto com o lenço aberto. O carcereiro fez o trabalho dele sem me constranger. Tinha seis beliches de alvenaria. e fiquei esperando o delegado me chamar. as calúnias. Agora só me restava resignar-me e enfrentar a dura realidade. A cela era menor que a da antiga delegacia. a decisão era: culpado. De resto. Dr. e comentavam que minha prisão era irregular. Deixou-me lá e foi ao cartório. que estava ao meu lado na hora da sentença. onde ficava a carceragem. Mas estranhei quando me enfiaram na parte de trás do camburão e informaram que o meu destino era a delegacia. quase uma criança. vesti a camisa. pelo visto. pediu que o acompanhasse e devolveu meus pertences: — Você é sortudo. derrubando as mentiras e chamando a atenção dos jurados para o fato de que cadeia não redime. paramos e ficamos conversando. Foi tudo igual. encarei com naturalidade. e no princípio pensei que ele queria me proteger para que não passasse por tudo o que tinha passado vinte horas antes. ver se eu já podia ser fichado. O juiz leu a sentença: quinze anos de prisão. Por que não usaram só a verdade? Também achava que deveríamos ter seguido o conselho do Paulinho e ter feito o acordo. aconteceu um bate-boca entre o promotor e o advogado contratado para ajudá-lo. Um dos presos me chamou para pedir um cigarro e dizer que achava que eu ia ficar naquela cela. Após as réplicas e tréplicas. sabia o crime que tinha cometido. só avilta e degrada. Vou ficar bem encostada em você. A loirinha pegou a minha mão. explicou que a delegacia estava hiperlotada. e o assistente só falou na última meia hora. Fui empurrado para os fundos da delegacia. A loirinha tirou a blusa e me abraçou através das grades: — Não estou agüentando. Para não dizer que não houve nada diferente. algumas horas depois. Fiquei só de cueca enquanto ele revistava os bolsos da minha calça e relacionava meus pertences. não tinha sido como Técio imaginara. A última estava ocupada por duas moças. quando apareceu o delegado: — O senhor me acompanhe. os jurados se reuniram na sala secreta. uma delas loira. Quando o carcereiro voltou. Eram cinco. rindo: — Já estou ficando louca aqui. 199 os repórteres que nos acompanharam durante todo o trajeto já estavam lá. Me preparava para me aproximar do meu pai. não queria ficar sozinho. pôs em seus seios e disse. Todos começaram a sair do tribunal. conversei um pouco e voltei. Conversou comigo o tempo todo e. O promotor negou-lhe a vez. Em seguida. O juiz mandou soltá-lo e teve a maior discussão com o delegado. dei com o carcereiro. Mas o delegado ou o carcereiro poderiam chegar. e fomos para um corredor que dava para as celas. devolveu minha calça. Quando chegamos à cela delas. Vi que era um prédio recém-inaugurado.

Além do mais. porque o juiz queria ver se estava tudo bem comigo. para depois começar tudo de novo. que me acompanhou até a porta. Ela fez um comentário mais ou menos assim: — Achei a sentença muito pesada. Ao ler. Queria ir para a casa no Peró. Sei que estava cumprindo seu dever. No terceiro dia. eu ficava . Fiz meu drinque e fugi para a casa de hóspedes. Fiquei lendo jornais e revistas. Avisou que eu deveria ir para o fórum. deixando minha família e seu estresse para trás. Só estendia a mão Para pegar o copo e dar mais um gole. um maço de cigarros e o carro com motorista à minha espera. Mas nada acontecia. já que a imprensa não o conhecia. Foram três dias de chuveirão. mesmo depois da ordem de soltura. Marilena chegou. Resolvi passar dois dias lá e pedi à Maria Zélia que convidasse 201 l VIAGEM DE VOLTA TINHA SIDO COMPLICADA. Precisava trabalhar muito para aumentar minha conta bancária. — Queria saber se o senhor foi maltratado ou se houve algum tipo de violência nessas horas que passou na delegacia. espreguiçadeira. Fiquei pelo menos cinco minutos esperando que ele me atendesse. No final da viagem. nem dos familiares. Aguardava Mari-lena. na cobertura da minha prima. A prisão já é um inferno. Ele estava sem a toga. Ao chegar em casa encontrei minha família em pé de guerra. Tinha para todos os gostos. porque quero que saiba que saio sem ressentimentos. e eu disse: — Fiz questão de me despedir do senhor. em Copacabana. e eles foram embora. como da outra vez. Enquanto eu aguardava. Saí dali quando o aquecedor da casa não deu conta e a água esfriou. Atendi o telefonema do dr. Os policiais me acompanhavam até a saída. o motor fundiu. o delegado mandou me soltar. No fórum. esperando o sol secar meu corpo. sem grana. Jornais e revistas só leria algumas horas antes de ir para o aeroporto. me sentia seguro naquele lugar. Estendi a mão e ele a apertou. Marilena foi para o aeroporto.200 Com minha cunhada e com papai. mas nem ele nem ninguém havia me maltratado. Descansaria dois dias e voltaria de avião para São Paulo. a secretária do juiz sorriu e imediatamente me introduziu na sala do juiz. No final do dia. como um buda que pensasse sei lá no quê. A sala estava cheia. pedi que me comprassem refrigerantes e sanduíches. que descia queimando. encontrar minha família e tomar um banho acompanhado por um uísque duplo. Saí e me despedi dele e da secretária. enfiei minhas coisas no carro e fui com minha prima para o Rio. que dividi com os presos. cerveja geladíssima e amor. Fui direto Para a cama. Abri o chuveiro quente e sentei no chão. e parecia amistoso. onde pretendia recomeçar a trabalhar imediatamente. quando me viu. como sei também que enganos acontecem. mas consegui um guincho e assim cheguei à rua Sá Ferreira. então. MAS ACABOU BEM. que me informava estar voltando para o caso e que ele e Humberto já tinham pedido a anulação do julgamento. Demorou para levantar a cabeça e me olhar. mas quis me despedir do delegado. No dia seguinte. e discutiam por bobagens. tomando chuveiradas no terraço e me deitando na espreguiçadeira. outro julgamento enlouqueceria todo mundo. baseados em irregularidades no corpo de jurados. As notícias nos jornais e revistas eram as mais variadas. Evandro. e passamos três dias naquele apartamento. era melhor morrer. A única coisa que me interessava era não pensar em nada sério. Estavam superestressados. Respondi que achava que o delegado tinha entendido mal e cometera um engano. três horas antes de mim. Não acreditava que o recurso impetrado me livraria da cadeia. não atenderia telefonemas. Eu estava em Copacabana. deixando dinheiro. Estavam indignados por eu ainda star lá. exaustos. Aquela etapa estava terminada.

empresa de construção de pilastras de apoio a pontes. já casado novamente. hábitos moderados e até um certo cuidado com a própria imagem". A verdade não tinha a menor importância. salário. onde estive vivendo completamente dentro da lei (tinha green cará). viadutos e prédios. bastava conversar com qualquer morador da cidade que conhecesse os membros do júri para saber. Voltei. no qual comenta que eu tinha sido condenado a quinze anos e quase fui linchado. fui para o Banco Mercantil de São Paulo e só saí de lá em 1972. Real Transportes Aéreos.triste e descrente de uma grande parte dos jornalistas nacionais. usando de calúnias. montei com um ex-diretor da Finasa. Ora. Escreveram. montei a Docars — uma revendendora de carros usados. no aeroporto de Congonhas". 203 O jornalista Paulo Francis também escreveu num artigo: "Acho que Doca Street foi linchado neste segundo julgamento. O senhor Doca Street tem direito a um julgamento baseado na evidência e não prejulgado pela imprensa e opinião pública. encontrei um comentário sobre a diferença de atitude das pessoas do primeiro para o segundo julgamento: "É irônico que Doca tenha conquistado tanta antipatia precisamente nos únicos dois anos da vida em que foi um cidadão com emprego. em um ambiente completamente diferente do primeiro julgamento. tinha de voltar a São Paulo. e só voltei antes do que pretendia porque convocaram todos os imigrantes até 26 anos de idade para o Exército. se tivesse de vestir uma farda. com um amigo. meu carro estava com o motor fundido. no Jornal do Brasil do dia 7 11 1981. não existe uma notícia a esse respeito. seria pelo Brasil. no primeiro julgamento houve aplauso e cartazes a meu favor. já que. Bom. a convite do dr. Em 1964. NUNCA ME REVOLTEI CONTRA A VERDADE. fotografaram e falaram tanto que saí do ostracismo. trabalhei por alguns meses na Concessionária Marcas Famosas e depois. Se havia reportagens comentando o julgamento. uma série de opiniões sobre Doca. Depois dessa época. O que era aquilo? Preguiça? É mais fácil digitar uma mentira que perder tempo investigando para saber a verdade? Lendo uma reportagem na revista Veja de 11 11 1981. a maioria desfavoráveis. Uma afirmativa do advogado assistente do mistério Público antes do início do julgamento dá o que pensar: ele atribuiu à imprensa um papel importante na criação de clima favorável à condenação de Doca. imediatamente) que Doca seria condenado. vendi-o a um mecânico e . onde funcionou também a Brasilos. É preciso esclarecer que. em conversas na cidade. assinada por Marcos Sá Corrêa e Artur Xexéo. de volta dos Estados Unidos. escreveu um artigo intitulado "Quem perdeu foi a Justiça". e Diário Popular. Alguns juristas e jornalistas escreveram artigos. Vários jurados — entre os quais. teriam procurado o Ministério do Trabalho para verificar se existia uma carteira de trabalho com meu nome. o papel da imprensa é informar e não criar clima". Usavam da calúnia com um descaramento incrível. o mais notório era o pastor protestante Isaac Costa Moreira — já haviam manifestado. EU NUNCA MANIPULEI NINGUÉM. em Cabo Frio. Em 1960. A Justiça tem que ser baseada nas leis e não em rancores. Caio Figueiredo. 202 Se quisessem escrever a verdade. Ao chegar. Se isso desse muito trabalho. vou enumerar empresas nas quais trabalhei com carteira assinada: Metalúrgica Matarazzo. Feministas não têm que fazer passeata pedindo condenação de ninguém. porque o tiro da imprensa saiu pela culatra. mostrando inconformismo com as situações criadas naquele segundo julgamento. em que quase fui carregado em triunfo: "Quinta-feira à tarde. uma imobiliária na rua Mário Ferraz. se tinham feito negócios e trabalhado comigo. Gastão Eduardo de Bueno Vidigal. era para torná-lo mais excitante e vender mais. Já que não fizeram isso. manipuladas pelas feministas". Fritz Utzeri. poderiam ter telefonado para um dos empresários que escreveram cartas em minha defesa e perguntado em que se baseavam. Nunca me manifestei contra as feministas.

. Enquanto a aeromoça fechava a porta e outros funcionários tiravam a escada. tentando escrever alguma coisa. Eram três amigos: Aparício Basílio da Silva. como sempre. um funcionário da companhia me levou até o avião. Queria mais um dia longe de tudo. E foi o que fiz. chamando o gerente para botá-los para fora. Que bom que os encontrei. do que pensava e da esperança que tinha: "Se ficar um ano solto. em uma reunião para discutir minha nova maneira de agir (que desagradava à gerência). Contava que tinham tentado me entrevistar e eu os maltratara. eu só quero que você venda. 204 Com aquela resolução. Agora só tinha uma coisa a fazer: continuar a tocar a vida e esperar. Não conseguia mais trabalhar com o novo gerente da Marcas Famosas. Não pensei muito. Vendi tanto naquele início que nem tive tempo de organizar uma equipe. Às vezes. comecei a procurar a clientela. uma noite pus fogo em tudo. Passei a vender. Houve silêncio e eu tinha certeza que todos me olhavam. — Tudo isso aos berros. Consegui um vôo que já estava na pista. Só que fazia isso sem consultar o gerente. — Vem pra cá. Minha mãe tinha vendido a casa do Morumbi e alugado uma. Precisava pensar no meu emprego. vem sentar com a gente. Dias depois. no jardim Europa. que. já que as vendas aos frotistas só Podiam ser faturadas diretamente pela Volkswagen. oficina funcionava como um relógio. Nem tive tempo de ficar preocupado com a opinião das pessoas.. Minhas tias me censuraram: — Se você pretende um dia escrever alguma coisa. Depois disso guardei quase tudo. que espera infernal. fiquei de pensar. passei com a Marilena em Jaboticabal. na chácara com a May e o . pedi demissão padronizar e fui vender frotas para a Igapó Veículos. irritado. virei para procurar um lugar. almoçando com meu pai e minhas tias. Tinha recebido o convite de um pessoal de Porto Alegre para organizar uma equipe de vendedores frotistas. na angústia e na insônia da madrugada. Já tinham se passado cinco anos e agora a espera era outra: ou teria outro julgamento ou iria para a penitenciária por quinze anos. fiquei mais próximo da Marilena e do meu trabalho. resolveu tudo em poucas palavras: — Doca. Ana Cecília Americano e Miriam Gallotti. Não dei resposta na hora. No dia seguinte. Quem fez o contato foi o diretor de vendas do grupo. vou ficar bem feliz". inclusive da família. faça como achar melhor. Tudo com a anuência do diretor de vendas. VCHEGANDO A SÃO PAULO FUI DIRETO PARA A CASA DA MARILENA. jogar fora o que escreve de madrugada não ajudará. que já me conhecia. 205 Veio o Carnaval e. a Marcas Famosas só tinha de fazer a revido de entrega e entregar os veículos. O Globo anunciava minha volta às vendas de carros. Os clientes não queriam saber qual a empresa que eu representava. estou com saudades. Trabalhava muito e ia para casa da Mari-lena. Que sufoco. Ouvi uma gritaria e muitos gestos: — Doca. Pior é que foi verdade. Isso facilitou muito a minha vida. Andava irritado. as coisas que eu escrevia não faziam o menor sentido. Na manhã seguinte. me lembrava do presídio Edgard Costa. a viagem passou rápido. Ali só tinha bons profissionais. sentia que não escaparia da prisão. falamos e rimos muito por quarenta minutos. contei que tinha feito uma grande fogueira com tudo o que tinha escrito depois do último julgamento e tinha me assustado com a quantidade de papel que usara em tão pouco tempo. cedo. Quanto a isso eu estava tranqüilo. contatar as companhias de leasing e levar eu mesmo os pedidos para a fábrica. afinal estava esperando o resultado de um recurso que poderia me tirar do ar a qualquer momento.fui para o aeroporto.

eles tinham o mesmo pressentimento que eu. no começo de outubro de 1982. não queria dar tempo de me acharem. 5 7 1982. vendemos muito. isso ficou para outra ocasião. No pouco tempo que fiquei lá. amo muito. sem novidades. mas também foram pegos de surpresa e permaneciam quietos. Precisava ficar perto da minha família e de Marilena. Meus negócios vão bem. em Pinheiros. esperneou. Eu me sentia culpado por sua desatenção e insegurança. Alguns jogos assisto com a Marilena. É algo que guardo só para mim. era Humberto Telles. mas. Um deles. A primeira coisa era sair logo dali. A Igapó Veículos (a empresa dos gaúchos) ficava no bairro do Pari. 206 Agradeci aos gaúchos por ter passado aquela temporada com eles e me mudei para a Iguatemy S. para mantê-lo. não era só a espera do julgamento que me angustiava. Dei esses telefonemas de casa. Tinha de ser na mesma hora. Na volta do Carnaval. Eu o surpreendi exigindo que pagasse sua matrícula. Raul tinha repetido de ano e parado de estudar. deveria esperar o resultado lá. filho de Plínio. O recurso seria julgado em 48 horas. no fim do primeiro ano teria seu dinheiro de volta. Precisava descansar. o pastor Isaac.. Será que é porque alguns amigos me aconselharam a esperar a decisão do Supremo fora do Brasil? Eu não faria isso nunca.. com minha mãe e meu padrasto sentados na minha cama acompanhando tudo. Eu andava envolvido com meu trabalho naqueles dois últimos meses. ele me pegou completamente desprevenido. Sugeriu que eu ficasse hospedado na casa da Maria Zélia (era um endereço que ninguém conhecia). O melhor futebol do mundo deixou o povão com o grito de alegria entalado no peito. Não esqueci Ângela. apesar de muitas revendas estarem desesperadas e fazendo loucuras para vender. pequena e bem estruturada. eu lhe dei um Passat velho. eu estava na minha sala conversando com o Pérsio. procurei meu amigo Gastão e arranjei um emprego para o Raul no Banco Mercantil. Foi difícil convencê-lo a não ir também. há novidades no meu coração. Perguntei se queria ir para o Rio comigo esperar o resultado. 1 7 1982. estava visitando clientes. como são realizados no horário comercial. Para todos os efeitos. Eles entendiam a pressa. Amanhã o Brasil joga com a Argentina. percebemos que já nos conhecíamos havia muito tempo. Sucesso total. Gelei. pedir para ela avisar ao zelador . Se não há novidades na Justiça. ele teria de voltar aos estudos. liguei para meu pai e tivemos a maior discussão. Duas outras moças não poderiam fazer parte porque estavam envolvidas com os fatos. Além do mais. era fora de mão para mim. Se mantivesse o emprego e estudasse. no aniversário dele. porque avisei que em duas horas passaria lá de carro. Telefonei para Marilena contando as notícias. Ainda faltava tomar uma providência: ligar para Maria Zélia no Rio. Depois. não sentia firmeza. outros. mas cumpriu o trato. Uma tarde. mas em bom estado. Em 22 de maio de 1982.. Um amigo me apresentou o dono de uma concessionária ao lado da minha casa. no meu caso. Estávamos apenas jogando conversa fora. Demorei um pouco para pôr minha cabeça em ordem. não tenho vontade e não há novidades.. Ela topou e já começou a se arrumar.. Não foi desta vez. Despedi-me de todos. antes que o pessoal da imprensa aparecesse. Há tempos não escrevo. Amo Marilena. não tem domicílio em Cabo Frio. pedindo que ninguém informasse meu paradeiro. Ficou bravo. Mesmo assim. A secretária me passou um telefonema do Rio. Foi triste sair de lá sem aquela certeza de estar de volta em alguns dias. não tive tempo de pensar em mais nada. amar de novo. A. O tri. como se fosse proibido.Luiz Carlos. Veículos e Peças.. Brasil desclassificado. na empresa. Quanto ao recurso. como poderia? Quando penso nela (e isso é constante) tudo dói. nunca a esquecerei. Estamos em plena Copa do Mundo. Por que será que não acredito num resultado favorável se as razões do recurso são verdadeiras? Está provado que três membros daquele júri não deveriam estar lá. Eu deveria ir para lá. Plínio Calil e seu sócio Ernesto Colombo sabiam tudo de automóveis. Por mais que eu dissesse que dentro de alguns dias estaria de volta. quando fui conhecer o proprietário. Em 28 de junho escrevi: "Três da tarde.

Apesar da hora. Como se nada extraordinário estivesse acontecendo. apesar de não fazer cerimônia com eles. para levar nossa bagagem. Se nos amávamos tanto por que brigávamos? Eu não estava preparado para ela? Eu tinha lido em algum lugar — vidas vazias. Depois do jantar nos despedimos de nossos amigos e fomos para casa do casal que nos hospedaria. Nós só queríamos aproveitar a vida juntos. ele faleceu pouco tempo depois. acenou chorando. Olhavam para os pés. o casal. Nunca mais o vi. Agora precisava agir. Estava tudo pronto para que. Enchi a banheira com água bem quente.. Ela era alta e magra. de mãos dadas. quer dizer. educadas. Não os achava. Não lavou minha alma. estavam acesos. enlouquecer juntos. ninguém estava em casa. A casa da minha mãe tinha dois andares. Dessa vez não houve despedidas. Tinha acabado de fazer as malas. tomei um caubói e subi com outro. nem o meu passado. Fui novamente até o bar e tomei mais uma. Às nove da noite estávamos embaixo do apartamento dos nossos amigos e em seguida. o único que nasceu em São Paulo. Queria pensar. Comportei-me heroicamente... apesar de estar de pilequinho. na última hora tinha tomado muitas decisões. ajudei com a mala. Ao sair da banheira me enxuguei e penteei o cabelo sem olhar no espelho. se necessário. Deixei os dois ali e fui para o banheiro. A emoção era forte. mas não foi muito. Não sei quanto tempo durou aquele banho ao uísque. tinha pinta de intelectual rico.. Tenho dele a última imagem: quando cheguei no último degrau da escada e olhei. Não deixei que percebessem. depois desci. como naqueles últimos anos tinha feito tantas vezes. se o resultado fosse adverso. Estaria no Rio. Nós estávamos na parte de cima. éramos bons amigos. não naquele instante. Eu precisava ficar sozinho.. isso me daria alguns dias para estudar a situação e encontrar a maneira menos traumática de me entregar.. meu padrasto 207 fazia desenhos no carpete com o bico do sapato.. recomendava o tempo todo que tomasse cuidado. avisando que íamos chegar e nos hospedar com eles. conversando. tentar entender tudo o que tinha acontecido. A estrada estava um breu. . onde era pouco provável me procurarem. entrar no carro e partir. Mas antes precisava de um tempo só para mim.que eu iria chegar e ninguém poderia saber da minha presença lá. Petrópolis. eram um pouco mais velhos e demonstravam alegria em nos receber. Quando acabei de me vestir. A longo prazo não tínhamos. Se estava de pileque não demonstrava. fomos direto para o mesmo restaurante em que tínhamos estado meses atrás. lado a lado. com um ambiente que parecia nos transportar a Paris. Eu precisava. nos receberam superbem. pois eram tão educados que era impossível não ficar à vontade. Fomos para uma sala com lareira beber alguma coisa e conversar. apesar de termos brigado muito a vida toda. entramos no carro e seguimos para o Rio. Fomos devagar. Não me lembro do nome deles. Não quis perder tempo. Os arrepios não me largavam. Às vezes procurava na minha cabeça os nossos planos. 208 Chegando lá. Como tinha sido possível? Eu era louco por ela. Tinham aparência de intelectuais. assustado com a velocidade que eu dirigia. fui ao bar. em uma casa norme. os dois continuavam sentados na miinha cama. Era tarde e não me recordo de ter subido a imensa escada que levava à parte superior da casa. minha mãe me deu um beijo e correu para o seu quarto. não deixando que ninguém percebesse. Não queria ser preso e ter a imagem explorada. Fui para o quarto e encontrei os dois sentados na mesma posição. ELA LIGOU PARA UM CASAL QUE VIVIA EMPetrópolis. Ele também era alto e magro.. mas eram pessoas finas. meia hora pelo menos. se movia com muita classe. Estava começando a me sentir muito mal. cidade de onde viera a família de meu pai. NO DIA SEGUINTE. Parei na garagem da Marilena e subi. Não queria ver minha imagem. Pensar. Desta vez não pude curtir tanto aquele lugar agradável. Mais uma vez. Luiz me deu um abraço e eu desci.

Pouco tempo depois o marido chegou com os remédios. dei-lhe um beijo e comprei a rosa que um menino oferecia. eu relaxei. dormimos. sem arrepios ou enjôos. enjoado. fazendo cafuné e perguntando baixinho se eu estava melhor. que não podia ser mais cômica. saímos para passear. com Ângela dormindo abraçada comigo. O lugar era enorme e estava repleto de gente tomando caipirinha e comendo acepipes.Estava tudo pronto para uma noite gostosa. Fomos até o Hotel das Flores. Fui examinado demoradamente. chá e chamaram o pronto-socorro. De uma certa forma eu não tinha nada de que reclamar. 210 De Petrópolis fomos quase que direto para Búzios. Poucos minutos depois estava na cama novamente. Deitei numa cama enorme. Não era pelas discussões que tínhamos. ela deu uma risadinha e se aproximou como uma gata me dando beijinhos. já tive . aliás. passamos pelo Palácio Imperial e pela casa que foi de meu avô. Quase não tive tempo de me desvencilhar dela e chegar ao banheiro para pôr para fora tudo o que tinha ingerido. a Pousada dos Gravatás. Receitaram antibiótico e mais um monte de remédios e recomendaram uma massagem nas minhas costas. Dormimos até tarde e. mas sua mulher ficou e começou a ajudar. limpo e me sentindo melhor. Começou a falar que ele era riquíssimo. onde já tínhamos estado. Quando essa mistura começou a fazer efeito e eu quis me livrar dos cobertores. Fiquei meio constrangido e olhei para Ângela. estávamos sempre juntos e eu adorava sua companhia. muito bonito. O dono da casa retirou-se. não sentia uma entrega total da nossa parte. porque ela se esfregava muito mais que massageava. Ângela na beira e a amiga. Com os uísques. Para esquecermos de vez aquele incidente. mas de repente fiquei tão mal que eles perceberam. E o que me deixava mais apreensivo é que eu achava que ela sentia a mesma coisa. Alguma coisa me incomodava. Ângela veio me ajudar. quem vivia grudado como nós quebrava o pau de vez em quando. que hoje em dia é uma escola. depois abriu o chuveiro. e no dia seguinte fomos para a praia dos Ossos. suas loucuras. O dono da casa deve ter ido buscar os remédios. o casal levantou e veio falar conosco. muito frio. 209 A amiga. que segurei forte em seu pulso e pedi que parasse. que por sinal era ótimo. Sentia frio. adormeci Acordei horas depois. Tinha a impressão de que podia acontecer algo de uma hora para outra. Depois de me trocarem e agasalharem com cobertores. Só passamos em casa para pegar algumas roupas e o nome e endereço de uma pousada que alguém tinha indicado. seu corpo. e me enfiou na água bem quente. Antes que começássemos uma discussão. Estava me sentindo bem. Fomos os quatro para o quarto que tinham reservado para a gente. como ela sorriu. pois ficamos só nós três no quarto. Mas não me sentia completamente feliz. Eu me divertia com a situação. só disseram alô e partiram. como acordei bem. Não sentia firmeza. me senti melhor e pedi um uísque com aspirinas. que olhava aquela cena a pouquíssima distância. as aspirinas e aquele monte de remédios. encostada na cabeceira com as Pernas esticadas. o pessoal do pronto-socorro chegou. Tomei algumas caipirinhas e comi os aperitivos que puseram na mesa. Chegamos. Ângela achou meu pijama e começou a tirar minha camisa e calça para me deixar mais à vontade. que eu conhecia bem. mas ela só parou porque tive de virar e me sentar. Ângela cumprimentou um casal e cochichou em meu ouvido que tinha sido amante do rapaz. Mari e Leopoldo chegaram. e disseram que eu estava com um resfriado tão forte que afetara um pulmão. mas foi interrompida por mim. para poder segurar o copo e tomar aquela batelada de cápsulas de todas as cores. pediu que eu virasse de bruços. Eu me sentia melhor e continuava bebendo. Não era bem uma massagem. O prédio era antigo e enorme. tirou os cobertores e montou em minhas costas começando a massageá-las. tomamos mais algumas caipirinhas e fomos almoçar com nossos anfitriões. Ângela começou a rir sem parar. Dois médicos e um estudante. Entramos em algumas lojas e depois fomos a um bar famoso esperar Leopoldo e Mari. Nós já estávamos vivendo juntos há quase um mês. de roupa e tudo. na cama. Foram buscar cobertores. Olhei para Ângela. eram uns tapinhas com as mãos um pouco fechadas.

Na mesma noite voltamos para casa. Se bem que estava completamente diferente do tempo em que freqüentávamos aquelas praias. que estava ouvindo. era o melhor da cidade. Encontrei Ângela no corredor da parte de cima da casa. eu tinha conhecido o lugar só com casas de pescadores e de algumas poucas pessoas que tinham descoberto aquele paraíso. na minha opinião. durante o jantar. porque vendi quando ficou pronta. havia um boom imobiliário e era exatamente por isso que eu pensava em ter uma pousada lá. alugou uma casa na Armação por muitos anos e era a casa em que eu ficava. o que facilitou muito as coisas. queria saber se ele me hospedaria por dois ou três dias. O lugar só ia crescer. Na praia dos Ossos fui procurar meus amigos. tinha sido para pior. Um deles. em um condomínio e nunca a usei. abrimos uma garrafa de vodca que trouxemos de nosso estoque e pedimos gelo e água tônica. Quis falar com Adelita. Na segunda reunião a separação foi assinada. e nos dias que se seguiram passamos grande parte do tempo lá. o meu advogado e o de minha ex-mulher eram sócios. deu as costas para todos e partiu. o dono da casa. fizemos o que mais gostávamos: beber. Nós procurávamos uma casa e tínhamos batido na porta certa. Celidonio ofereceu a casa deles. voltei para a casa de Francisco. Ela iria providenciar dinheiro vindo de Belo para dar o sinal. como estávamos bem dispostos. A mudança. Eles não tinham idéia de que queríamos fazer uma pousada e eu tinha certeza de que Ângela naquele instante nem pensava no assunto. assim que ela assinou os papéis. Era A primeira vez que Ângela e eu ficaríamos separados. Não vou ficar aqui pensando nessas coisas. Tive de ser durão. recebemos um telefonema de Chiquito avisando que meu desquite estava pronto e eu deveria assinálo em dois dias. meu irmão Luiz Carlos. Ângela. que teve a mesma idéia e veio nos buscar. Eu era feliz e não sabia. Porque. que veio encontrar-se comigo para contar as novidades. me olhava com uma cara marota: — Já imaginou com que cara eu vou ficar se você tiver uma recaída e ficar por lá com sua ex? Eu vou junto. Naquele dia senti saudades da correria em que vivia antes de sair de casa. com o negócio praticamente fechado. Ângela compraria a casa e iríamos morar lá. Chegamos ao Rio e no dia seguinte viemos para São Paulo porque assim que entramos em casa. Provavelmente saberiam de alguma casa boa que estivesse à venda. Fora ele e os envolvidos no desquite. seguramente teria sido um bom investimento. Estavam com uma mulher que eu conhecia de vista. pois aquele local. "mandar" e namorar. Agora. Encontrei-os e eles nos convidaram para almoçar um peixe que estavam preparando.uma casa lá perto. em 1976. na minha visão dava perfeitamente para fazer uma Pequena pousada no terreno. Tive ímpetos de colocá-la no colo e abraçá-la. Zé Hugo e sua mulher Maria Alice Celidonio. estava com saudades de ir lá à noite. Chegamos numa segunda-feira e 211 voltamos na sexta. Gostamos da casa. Telefonei para Francisco. A partir daí. fui a pé até uma loja na avenida São João comprar material de limpeza para minha arma. Quando saí do escritório dos advogados. Como fazia tempo que eu não ia a Búzios. Fui com Chiquito. e se toda documentação estivesse em ordem em pouco tempo ela seria proprietária daquela casa. De lá. pedi ao Zé que nos levasse a um restaurante na praia da Armação. ninguém sabia de minha presença em São Paulo. mas era amiga de Ângela. demos de cara com o casal Celidonio. já que ela estava muito magoada e queria umas tantas coisas que não cabiam. Ela se entusiasmou. naquela época. já estavam lá havia muitos anos e gostariam de vendê-la. lá pelos anos 1960. Quando acabei de falar com Francisco. Lá pelas dez horas resolvemos jantar em um lugar qualquer e. mas. e se um dia nos cansássemos de lá. Foram duas reuniões com os advogados e nas duas vezes minha ex-mulher esteve presente. quando estávamos saindo da pousada. na avenida São Luiz. de . para visitarmos. No fim da tarde. voltamos para nossa pousada e. pois ele era comprido e se estendia até o alto do morro que ficava na parte de trás. Coincidentemente.

No dia seguinte fui ao consultório do professor Edmundo Vasconcelos que. Tinha escolhido um vôo mais longo. sentou-se ao meu lado e me surpreendeu ao dizer que. tivemos uma conversa séria. Eu continuei durão. que mudasse de atitude. Não podíamos perder tempo. Ela sabia o que estava acontecendo. porque ele se retirou para ir até o quarto. mas pedia. Sei lá. não beber não tinha nada a ver com andar quase nua na frente dos outros. curada. mas falou pausadamente que me amava. Olhou em volta para ver se tinha algo que pudesse usar para me atacar. ordenei que se deitasse e pedi que se acalmasse. que eu não tive certeza se era só amor ou se era amor e pena. Havia também uma bandeja com bebidas e gelo. disse um monte de palavrões e desaforos. Se eu quisesse. Pedi que não continuasse brigando comigo porque a amava. Queria viver o amor dos sonhos. Queria saber por que tinha tido febre e arrepios alguns dias atrás. Entrou no quarto de Francisco. com embarque no Galeão. era um dos melhores amigos do meu ex-sogro. sei que me ama. deixei-a deitada e me afastei. então desci para procurá-lo. ela pararia de beber. por nosso amor. Mais tarde. Examinou-me demoradamente e o resultado era uma pneumonia no pulmão esquerdo. a entrega total. quando eu estava sozinho na sala. formar uma família. Depois da consulta. ela estava alegre e linda. arrastei-a até o armário e exigi que se trocasse e pedisse desculpas. no quarto. Ângela apareceu. e não podíamos perdê-lo. Não tive dúvidas. Continuei olhando-a seriamente. Mudei de assunto e avisei que no dia seguinte iria ao médico. ia responder que mais tarde conversaríamos a respeito. Chamei-a de volta ao corredor. Contive o ímpeto de invadi-la e me Perder. que eu era um chato 212 queria mandar nela. do ciúme e do sofrimento que me causava andando quase nua pela casa de nosso amigo. zanzando de um quarto para o outro. pois as reservas com avião e tudo eram para dali a dois dias. mas está em ótima forma. depois de já estarmos na cama. (Não era o que eu queria. Jantamos em paz. Francisco não estava mais em seu quarto. Ela parou de esbravejar. mas ela fez sinal avisando que nosso anfitrião retornava. enquanto eu batia papo. acompanhei-a até o quarto em que estávamos e pedi que se vestisse. que se vestia como achasse melhor. como até aquela data só tínhamos rodado de um lado para o outro e não tínhamos tido uma lua-de-mel. que me conhecia desde minha adolescência. ter um filho.. que parava algum tempo em Brasília. saindo do quarto em seguida. Fiquei louco da vida. podia enxergar sua alma.baby-doll transparente. sem sentido e queria ser feliz. Um pouco antes do jantar. Sabia que o ciúme era horrível. — Depois disso mergulhamos um no outro sabendo que a felicidade era aquele instante. também enlouquecia. olhando uma porção de papéis. quando tive certeza de que ela não ia continuar se debatendo. tranquei a porta do quarto. Contei dos uísques. mas desistiu. aspirinas e tóxicos. Quando me viu deu um sorriso e fez sinal para acompanhá-la. é puro. que estava sentado na cama. . Fui soltando-a aos poucos e. Ângela me olhou com tanto carinho e ternura. Achei que ela ia se descontrolar de vez. Queria muito viver aquele amor. falei do amor que sentia por ela. Abraçado com ela e olhando bem de perto seus olhos. Ela me olhou com ódio. Encontrei-o na sala falando com o garçom. Contei sobre os calafrios. não queria acabar nosso amor louco. adoro você. — Você teve tudo isso de pé e farreando. pois não estávamos em nossa casa.. Dizia que eu não era dono dela. A casa tinha muitos empregados e ela com aqueles trajes tão impróprios. Seu olhar tão profundo e seu abraço com seu corpo fervendo me fazia viajar. Ficamos tomando drinques e conversando por muito tempo. além de ser meu amigo e de minha mãe. em Manaus. no Rio e depois em Petrópolis. O rosto dela estava desfigurado pelo ódio. mas seu olhar continuava furioso. Segurei-a. ela tinha feito reservas no Hotel Tropical. apesar de o quarto ter duas. os remédios que eu tinha tomado. nada disso. que queria as mesmas coisas. Que há muito tinha uma vida sem amarras. Mas não disse isso a ela para não interrompê-la.) Terminou falando 213 mais ou menos assim: — Você é diferente de todos que conheci. Dormimos juntos na mesma cama.

Ela estava no telefone e. Passeamos de iate no rio Negro.Pára de implicar comigo. Aquela era uma postura de quem estava de saco cheio. tirando o pente e as balas que se encontravam nela. Andou até o biquíni. Bebemos muito. tive sorte. veio me abraçar. Alguma coisa aborreceu Ângela. Tomei um caubói e depois me sentei e fiquei esperando e divagando. Quando puxei a parte de cima. algo tinha mudado depois que saí de São Paulo. eu era meticuloso demais. me preocupava por causa da maresia. devíamos ter telefonado antes para nos certificar de que ela estaria na cidade. na verdade. tinha outra paixão: a medicina. eu gostava do Ibrahim. Ela sabia que havia algumas pessoas e o garçom estava chegando com mais bebidas. inclusive conversado com Chiquito. não foi uma estadia legal. O ambiente ficou pesado quase o tempo todo. 215 Devolvi o telefone e fui para a sala esperá-la. e o vôo e o hotel. . Fui chamar Ângela. quando colocava o pente na arma. Mas respeitei o escritor que ele era. e ele não fazia parte dele. não tem ninguém aqui. chamou a moça que costumava atendê-la e ficou no banheiro. Retornamos de Manaus e. resolvi limpar minha arma. Retornei de meus devaneios. que ficava no térreo do prédio vizinho. . queria falar com ela em particular. apesar de ela estar protegida na pequena pasta. Comecei a limpar. por telefone. Abraçados. 214 ela era boa gente e mandava no lugar. Fiquei muito preocupado. Estávamos lá esperando nosso vôo. Chegamos a pedir outro quarto para não nos olharmos. como nos encontrávamos.conversamos por algum tempo. Como eu já tinha resolvido tudo. Não havia a menor possibilidade de ela estar lá. as malas estavam feitas. havia uma bala na agulha. Ângela. Assim ele aprende que não é o tal. durante a viagem. quando pedi que viesse falar comigo. levei um susto. Ficamos em Manaus cinco ou seis dias.Não vê que estou falando com um amigo? Pensa que estou sempre a sua disposição? Arranquei o telefone de sua mão. Chegou rindo e disse mais ou menos isto: — Fizeram muito bem de aprontar com o Ibrahim. Ele escutou atentamente e quando me levantei para partir foi comigo até a porta. coisas do destino. Talvez o fato de ter ficado decepcionada por não ter encontrado uma amiga de quem gostava muito e da qual viera falando o tempo inteiro. confirmados. mas não desliguei. — Não posso dizer que tenho saudades das vezes em que me apaixonei. Felizmente chamaram nosso vôo. Quando chegamos ao Rio. distraído com a limpeza. uma noite tivemos uma briga feia e tudo escapou de controle. começamos a nos preparar para voltar a Búzios. Eu conhecia a moça. no mesmo dia. arrumando o cabelo. Em uma tarde estávamos nadando nus. me surpreendeu vê-la sair da piscina dizendo que ia fazer pipi. quando um amigo do Ibrahim se aproximou. tinha certeza de que alguém mexera nela. Um escritor que eu tinha conhecido em um dos almoços que o Ibrahim deu. para olhar o cano. preparou nossa viagem. Quando voltou para água. fiquei mais ainda com a atitude de Ângela. é importante. levei uma bronca. Até aquele momento eu estava relaxado. na piscina enorme do hotel. Dormimos e fomos para o Galeão. Eu não tinha achado graça no passeio nu e perguntei porque tinha ido nua andando se podia ter nadado até o traje de banho. se a tivéssemos encontrado. Mas. nos hospedamos em um hotel lindo e moderno na beira do rio. Essa viagem foi esquisita. Se estava assustado com a arma. vestiu-o e entrou no toalete.Preciso falar com você. Enquanto eu fazia as reservas e tomava outras providências. a tenha estressado. Havia tempo que não fazia isso e. meus ataques de remorso por ter abandonado minha família e os ciúmes que sentia. contei sobre estar apaixonado de maneira descontrolada. que estava praticamente vazio. visitamos o Teatro Municipal. Mas isso não aconteceu porque bobeamos. Ângela continuava firme em sua conversa ao . e passamos o resto da tarde e da noite bem. bem à vontade. Não levei a discussão adiante. tomando um cafezinho. . O calor sufocante nos levara a beber muita vodca com laranjada e bastante gelo. O que tinha acontecido. Tive vontade de dizer umas boas para aquele panaca. tinha posto uma toalha na cama para não sujá-la e estava ali. Ângela estava com preguiça de ir ao cabeleireiro. Enquanto estive no consultório médico. disse apenas que Ibrahim era um bom sujeito e o que aconteceu tinha sido uma fatalidade. não puxava a parte de cima para armá-la. provavelmente teríamos nos divertido muito. rindo e brincando. — Fiquei muito puto com aquele camarada.

. que acertaríamos nossa parte na entrega. Depois ainda liguei para uma amiga jornalista." Tinha me preparado para aquilo. A Polícia de São Paulo tinha cercado o . Ângela também não entendeu e tentou acalmar a moça. depois de amanhã. Em seguida mostrei-lhe a arma e a bala na agulha. de ter de me apresentar. Expliquei como eu procedia com armas e perguntei como era possível a bala ter ido parar na agulha. seus olhos pareciam que iam saltar das órbitas. que. só faltava acertarmos nossos ponteiros. mas ela parecia tomada por um espírito. a cabeleireira começou a gritar. Ela disse que estava pedindo a um ex-namorado que comprasse pó e fumo e trouxesse para a gente. bom. nunca cheguei perto daquela pasta. sim. Estava tudo calmo novamente. Não parou de gritar apavorada até eu sair da porta. Paulo: "Condenado não se apresenta à Prisão. A decisão foi unânime: Raul Fernando do Amaral Street. A justiça provou que matadores de mulher e grã-finos de São Paulo também vão para cadeia. cumprirá quinze anos de cadeia pelo assassínio. Maria Zélia nos cedeu um quarto que tinha uma característica diferente: a varanda dava para dois morros. o Doca Street. aliás. Preocupado. Largou a escova e o secador e. Eu sentia o ambiente. não tocamos em assuntos ligados ao processo. Uma das subidas para esses morros ficava exatamente na rua Sá Ferreira. ódio de grã-fino? Eu pensei. Quem não estaria? Marilena e eu procurávamos manter a calma. perguntei a razão de seu mau humor. Apesar de nada termos combinado... perguntei quanto ia custar. Esperei uns quinze minutos para esfriarmos a cabeça e voltei ao banheiro. Achou que eu tinha interrompido por ciúmes. estava.. se tinha sido pirraça. 5 10 1982. . 216 3 CHEGAMOS BEM. O Estado de S. assistíamos a televisão e escondíamos um do outro nossas aflições. mas ele os tinha feito e era justo que publicassem. A VIAGEM FOI TRANQÜILA E SEM INCIDENTES. 6 10 1982. Doca Street se apresentará ainda esta semana. a Marisa Raja Gabaglia. apenas apareci novamente. mesmo depois do resultado adverso. ela estava brava e não iria desligar tão cedo. Em seguida. Antes de falar da arma. Quando apareci na porta. enquanto Humberto acertava as coisas com o juiz da Vara de Execuções Criminais do Rio de Janeiro. Discutíamos as reportagens.telefone. não lembro se ela acabou o que estava fazendo ou foi embora e mandou alguém acabar o trabalho. é melhor isso que traficante. mesmo sendo a uma pessoa conhecida. Ficamos lá por cinco dias. morrendo de medo..Francisco ligou exatamente na hora em que pus o telefone no gancho. Ela ria. ou será que todo traficante é grã-fino e gigolô? O que o pessoal de São Paulo tem a ver com o crime que cometi? Não dava para apenas noticiar o fato? O restante da reportagem foi normal. Demorou para voltar ao normal. continuei reclamando de que ela tinha demorado para desligar só de pirraça. Comentava os argumentos da defesa e da acusação e os ataques que o assistente da promotoria fez a meu respeito.. Pavão e Pavãozinho. acabavam comigo. tinha sido só um pouquinho. porque não queria pagar em cheque. também se achava pirracenta. O que é que os grã-finos de São Paulo tinham a ver com isso? Que mágoa. — afirmou o assistente de acusação". encostada na parede. Não entendi o que estava acontecendo. mas é claro que não estava pronto. e voltei para o quarto. cobria o rosto com as mãos. — E como é que vou saber. Ele tem de vir ao Rio amanhã e queria saber se poderia almoçar conosco. e a convidei para jantar. Como saí de lá. eu não estava fazendo nada. por Mariléia Miranda: "Tribunal rejeita recurso e Doca vai para a prisão. Ela continuava rindo e dizia que. jornal do Brasil-.

Lá pelas cinco da tarde. não ouvia um som. na rua Frei Caneca. não tente resolver as coisas da sua maneira. me olhou nos olhos e disse: — Qualquer coisa que você precise. Conheço Doca desde 1957. que tomava um pedaço da sala. Num certo momento. aqui. chegamos à sala do diretor. uma pessoa como você. mas diferente. logo apareceu um funcionário que nos levou até a sala do diretor. " e. logo após a portaria. dono da empresa em que trabalhava. tirando aquela cabeçada que você deu num interno do Água Santa. Conversamos um pouco e ele me convidou a ir até sua mesa. Tinha a nítida impressão de que tudo crescia e diminuía ao meu redor. 222 Depois de caminhar um pouco e subir uma escada. mas me segurei. que me levaram até o almoxarifado. — Maria Zélia e Marilena não sabiam o que fazer. por cinqüenta por cento do faturamento da revendedora". já dentro da penitenciária. arrumei. meia dúzia de camisas brancas e mais um jeans. Não me lembro de me despedir de Marilena e da minha prima. verifiquei que seu pai ia visitá-lo no Água Santa sem dia nem horário específicos. Darei ordem para que ele possa fazer o mesmo aqui. mas eu só via as bocas se mexendo. Você vai se apresentar à penitenciária Lemos de Brito. eram do Água Santa e do Edgard Costa. ao lado de sua mesa. Puxa! Que coisa. ficavam andando de um lado para o outro. me procure. Só lembro de estar no táxi com Humberto e chegar ao portão da penitenciária. Pus uma camisa limpa. Mala de mão. manter a calma e ficar com a mente atenta. Fez uma preleção sobre a sociedade carcerária e depois. Lendo sua ficha. Já vestido. As explicações não duraram muito tempo. que provavelmente não entendeu a razão daquela atitude. Ele estava de pé. eu enfrentava aquela duríssima realidade. irei buscá-lo de táxi. estava cercado por pessoas que empunhavam revólveres e escopetas. Pegou uns papéis. — É. no centro do Rio. rádios. escova de dentes e uma toalha de rosto. no final da entrevista: "Calil está satisfeito com o desempenho de seu funcionário. Estávamos tomando café-da-manhã quando Marilena me mostrou uma reportagem feita pelo Jornal do Brasil um dia antes com Plínio Calil. se explicava. que por sua vez era grande também. Estendeu a mão: Meu nome é Patrício Gomes de Sá. comecei a ouvir a algazarra dos pavilhões. Fiz um esforço tremendo para me concentrar. com mais ou menos três metros de altura por cinco de largura. Até hoje sonho com o barulho das chaves e das portas se fechando às minhas costas. logo reconheci.. aparentando concordância. pondo a mão em meu ombro. Enquanto Humberto. é muito perigoso. responsável. Depois pediu que eu me despedisse do Humberto e me entregou a dois funcionários.221 apartamento dela. Andamos mais . De novo corredores escuros e portas de ferro foram abertas e fechadas às minhas costas. Plínio afirmava: "Ele vai se apresentar. No meio tinha uma porta que dava passagem para uma pessoa só. Entre outras coisas. Tinha qualquer coisa de compaixão em sua atitude. Não sei como pude agüentar. dois sabonetes. Ao ultrapassá-la. O que me trouxe de volta à realidade foi a atitude dos guardas quando desci do carro. segundo garantiu. também com um sorriso. Eu sorria e balançava a cabeça para cima e para baixo. comecei a ouvir todo tipo de barulho: vozes. sua ficha é perfeita. jeans e um blazer azul-marinho. Tínhamos chegado a um portão de ferro. Deviam ser oito e pouco da noite. cheio de grades e portas de ferro. Ele sorriu para Humberto e o tratou como um velho amigo. Estava difícil controlar minha angústia. risadas. cama. consegui aparentar calma. mas até o chão me faltava. TVs etc. Meu coração estava completamente disparado. portas. e agora de uma hora para a outra estaria me despedindo para me apresentar. que. Aqui é diferente. em uma mala de mão. Quando dei por mim. Depois se dirigiu a mim. não tinha conseguido dormir à noite. O caminho era escuro. Por incrível que pareça. Maria Zélia e Marilena falavam sem parar.. Humberto telefonou: — Assim que escurecer. tudo se mexia.

Pediram. Era uma sala grande. aqui é muito. Não entrou. que estava com a minha carteira. cinqüenta de cada lado. pode falar. este é o seu cubículo. A resposta veio rápida: — Esse e a maior parte dos cubículos dessa galeria não tem luz. cubículo 21. Doca! O guarda apontou para um lugar: — Aí. venha falar comigo e entrego tudo para sua família. que aquilo seria meu mundo. As velas chegaram e o colchonete também. após a visita. tendo água. Fomos até o escritório onde ficavam os guardas que estariam de serviço naquela noite. trancou tudo e pediu que o acompanhasse. O senhor Jair mandou que um deles me acompanhasse até o cubículo. ela estava com o portão de grades aberto. O Pavilhão 2 ficava nos fundos e a segunda galeria. se ele não me chamasse ficaria ali. Meu nervosismo só não extrapolava porque segurava tudo na cabeça. do parapeito passou a mão por dentro procurando um plugue. perguntou se eu tinha mais alguma coisa. sexta galeria. a escada ficava mais escura e suja. Havia pequenos buracos de pregos nas paredes. O guarda pediu que ele me ajudasse e arrumasse uma lâmpada. a recebi de volta. fazendo um tremendo esforço para aparentar tranqüilidade. que se aproximaram e puxaram conversa. As paredes. todos os cubículos estavam em péssimo estado. que provavelmente deveriam ser amareladas. — Sou eu mesmo. poucos minutos depois. tudo do próprio presídio. um cano que. no teto havia dois fios ligados a um bocal sem lâmpada. então. Explicou que cada galeria tinha cem cubículos. Entreguei e. material de limpeza. Quando chegamos e entramos na galeria. por conta da pouca claridade e do balanço da luz da vela. olhando sem ver e escutando histórias sem entender. O xerife interrompeu o papo e me pediu para entrar (ele queria me mostrar o lugar). Três por três. esse pouco que tem aí. O funcionário. ac ompanhada da recomendação: 223 — Cuidado. porque a algazarra já não era tão grande. Os internos que nos viram pararam de falar e olhavam com curiosidade. pediu minha maleta. estavam de várias cores. Segundo os internos. O funcionário me entregou um cartão com meu nome. no terceiro andar (na verdade. tive a impressão de que muitos dos internos já dormiam. Em seguida. Em poucos minutos o lugar estava sendo iluminado e varrido. Pequenas tiras de tinta penduradas eram o que tinha restado da última pintura. atrás do balcão. um buraco no chão para as necessidades — o boi —. Eu estava abobalhado. Não tinha outro jeito de agüentar tamanho medo. mandou o cara que estava mais próximo chamar o xerife. e percebi que alguns deles me saudavam: — Oi. Mas deixa. jeans. que ele podia falar o que quisesse. na porta. Para suas coisas não ficarem aqui. Após responder negativamente. Pelo jeito vocês não forneceram. fazia sombras que. para que eu tirasse a roupa e examinaram tudo minuciosamente. dois lençóis e um cobertor. Um dos guardas. era o chuveiro. com a placa ALMOXARIFADO. tenho velas. que. um número e meu novo endereço: Pavilhão 2. olhando de relance. Fomos caminhando até o cubículo 21. Confesso que não estava entendendo nada do que ele falava. me devolvendo em seguida. arranjei um colchonete emprestado. e uma janela de dois palmos por dois. representava um quarto andar). Como não encontrou. sábado. eu estava tão preocupado por parar numa daquelas galerias. recebi de volta camisas.um pouco e paramos em frente a uma porta de madeira trancada com chave comum. A cada lance. Fui apresentado e eles me olharam com risinhos. com muitas prateleiras cheias de pacotes beges amarrados com barbante da mesma cor. como estava a dois lances de escada do segundo. Olhei para o chão e esperei. Ele levantou a vela para eu olhar melhor. Meu nome é Jair. . 224 O guarda nem tomou conhecimento do que ele falou e foi embora.

Aqui a lei é a Falange Vermelha. Ficou de pé e mandou que me sentasse. Um interno se aproximou e falou para o Baiano que eu devia acompanhá-lo. Levantei um pouco o corpo e me apoiei nos cotovelos. Sentei de costas para a porta. Perguntei para meu companheiro. aquilo tudo é falsidade. com ele na outra ponta. e essa é uma demonstração que não aconselho. toda pintada de branco. que separava a privada e o chuveiro elétrico do resto do ambiente. mesmo porque estava preocupado tentando compreender a situação. Passei novamente por escadas escuras e entrei na quarta galeria. se outro funcionário oferecer um outro lugar que . Estava tudo destruído. Não vai atrás da conversa do Patrício (diretor). Eu só ouvia. Do meio do teto. O Baiano me instruiu sobre o horário da água e aconselhou a ter uma lata de bom tamanho sempre cheia. ele disse que o chamavam de Baiano e estava preso por assalto à mão armada. — Vâmo. aceite e. Ele sempre tem uma privada para vender. — Quer um café? — Como aceitei. 1m 76 e tinha cabelos lisos.pareciam pequenos morcegos. nem conseguia enxergá-lo direito. Fique tranqüilo e fora de encrenca. Baiano estendeu o colchonete para mim e disse: — Descanse um pouco.. Ele estava sentado na cama. Havia também prateleiras brancas a mais ou menos dois metros do chão.. quem era o senhor Pira e qual era o setor dele. caía um mosquiteiro branco que tomava toda a extensão da cama. feche a porta. que é pedreiro. Estendi um lençol. assistindo à TV. daqui a pouco eles tranca a galeria. Nossos inimigos não vêm pra cá. Caminhamos até a metade da galeria. Uma figura impressionante. que já estava de pé. Começamos a conversar. Usava uma camisa e um calção desbotados e sandálias de dedo. Já tinha estado na Ilha Grande. que vai cumprir sua pena sossegado. eu mando o Português. procurá-lo. Eu só me tranco para dormir. — Esse aí é o Cuca. Eu estava me dirigindo para uma das cadeiras quando ele apontou para a cama. 225 — Ele é interno. como se estivesse o tempo todo lendo meus pensamentos. Eu não entendia por que alguém da administração queria falar comigo naquela hora. Quando chegamos ao cubículo do Pira. moço. o chão encerado. Assim que me viu. quer dizer. Pôs um cinzeiro em cima e pegou um cigarro. — Pela atitude preocupada do Baiano. abriu o cortinado. Se você quiser. magro. não tinha um cisco. não abria a boca. Era completamente iluminada. ele vai acompanhar você. Fiquei impressionado. enrolei o jeans que eles tinham me dado para servir de travesseiro e deitei. nos dois últimos anos não houve mortes nesta penitenciária. explicou que aquela era uma cadeia "aberta". Se quiser. negro da minha altura — 1m 86 —. mas se preferir vou buscar café e sentar no degrau da sua porta. Vão lhe oferecer uma "faxina". falou olhando para o corredor: — Acho que o Pira quer falar com você. Quando recomeçou. passe o ferrolho por dentro (era uma porta pesada com uma pequena janela com por-tinhola no meio). é muito ruim a sua galeria? Estive lá hoje vendo se dá para ajeitar pelo menos uma privada. Eu estava absolutamente surpreso com tudo aquilo. os cubículos nunca eram trancados. Ninguém prestou atenção nem me saudou. mandou o Cuca ir buscar no cubículo de alguém. com um olhar profundo. alguns internos que estavam lá conversando se retiraram. Era moreno. duas cadeiras em frente e uma cortina branca de banheiro. O camarada olhou para mim e sorriu. — Então. era melhor não continuar olhando. para conversar um pouco e fumar um dos seus cigarros. que serviu de mesa. Ele voltou logo com o café e com o caixote. vão para outros presídios. Em seguida. percebi que repentinamente interrompeu o que falava. tinha uma cama do lado esquerdo da porta. me levantei e fui ver quem estava na porta. o cubículo era todo branco. 226 — Só tranca quem tem medo. não discuta e vai ver o que ele quer.

— Não leva a . em dez minutos fecham a água. Daqui a cinco minutos vão trancar as galerias. já vestido. Voltar para aquela galeria era um alívio. Depois. altura mediana. após uma rebelião entre facções que tinha causado inúmeras mortes. 227 — É um dos chefes da Falange Vermelha. Depois do banho. Só um falou: — Doca. o senhor Pira falou que tem notícia do senhor aí.. uma barata voadora enorme bateu na minha testa. O senhor tem roupa para lavar? Se quiser. cabelo de índio até os ombros. Perguntei para o Baiano quem era e o que ele poderia querer comigo. Humberto Telles. — Apontou para o Cuca. Eu estava preocupado. quem era aquele camarada? Que coisa mais estranha. e estava limpa. — Ele não gosta de mim. Dormi profundamente. esperando tocar a sirene para trancar. Fiquei no chuveiro até que a água começou a diminuir. veio da Ilha Grande há uns dois anos. um guarda estava na "porta de grades". Foi um bom banho. Informaram também o pavilhão e a galeria em que eu estava.você goste mais. — Vou mandar levar café no seu cubículo. não troque. de volta ao meu cubículo. aquilo tudo tinha me intimidado. molhei o rosto. pode ficar com o jornal. Eu estava irritado. meio irritado. Tinha arranjado uma lata de vinte litros cheia de água e me avisou que no dia seguinte ia tentar desentupir o cano. eu lavo para o senhor. percebi que andar pelas outras galerias era permitido. é uma voadora." E continuava contando que às 19h 10 cheguei com meu advogado. empresta dinheiro para tomar um refrigerante? — Respondi que não tinha. peguei o jornal para ler novamente a notícia. Ao terminar a explicação. Mas não nego. fui até a janela dar uma olhada. Eu continuava mudo e ele continuou: — A que horas quer acordar amanhã? — Como não respondi. não tinha entendido a minha visita ao Pira. Não consegui. Abri e dei de cara com um camarada que trazia uma caneca de café. tem muitas por aqui. — Às oito está bom? Concordei e. só acordei com as batidas na minha porta. para meu espanto. Deitei e deixei duas velas acesas achando que elas pudessem me proteger de ratos e baratas. resolvi andar pela penitenciária. sempre agi sozinho e isso não é bem-visto. saiu um fio de água. Se eu andasse rápido. — Depois pegando mais um cigarro. podia tomar banho no chuveiro dele. Tomei café lendo o jornal. Desci as escadas e no segundo lance fui abordado por quatro internos. Deitei no colchonete e ele sentou no degrau da minha porta. Aceitei o convite e fui para o cubículo dele. Pela primeira vez. aproveite e combine o preço para ter isso todo dia. Mulato. levantou-se e se despediu espreguiçan-do. Levantei-me. que era elétrico. ele perguntou de novo. — Anda logo. seguindo o conselho do Pira. continuou. trinta anos. É temido e respeitado até pela administração. mas não tirei o olho dele e fiquei de ouvidos bem abertos. Pelo movimento das escadas. Quando cheguei ao meu cubículo. "Doca apresenta-se na Frei Caneca para cumprir seus quinze anos de prisão. depois tentei abrir a torneira do cano e. apontando para um ponto na altura da janela. os cabelos e escovei os dentes. eu estava muito assustado e me sentia completamente indefeso. Na verdade. Entreguei minhas roupas do dia anterior e "ela" foi embora requebrando. porque achei que tinha entendido mal. Baiano continuava sentado à minha porta. um pão com manteiga e o jornal O Globo. reparei que ele tinha uma perna dura e caminhava mancando. Ele já leu.. Como não parou de escorrer. fechei a porta e passei o ferrolho. Só compreendi o que tinha acontecido depois que Baiano a matou e disse rindo: — Não liga. Se preferir. Leva ele de volta. Depois de ler tudo. apesar da escuridão e da pobreza do lugar. meio gordo e sempre sorridente. — Meu nome é Baiana. depois que ele chegou acabaram as brigas e as confusões. não é bonito isso. pode tomar café na cantina. Quando cheguei à minha galeria.

Na saída. havia um lugar reservado ao pessoal que gostava de malhar. Aquelas estavam tão sujas. . com duas barras para ginástica e alguns pesos. Depois desse pátio. Diga para Marilena pegar o dinheiro na minha conta e comprar tudo. Este primeiro pátio dava num muro de mais ou menos cinco metros. Quando cheguei. que eu entendia. porque ninguém atendeu) e outra para Maria Zélia. logo à direita de quem vinha da administração e ao lado da sala de teatro e cinema. tinha outra penitenciária. não adianta procurar outra cantina. hoje é por conta da casa. Ué! De onde você está falando? Depois de contar sobre os orelhões e de matar algumas de suas curiosidades. Vi que tinha alguns internos esperando com talheres e pratos na mão. — Não preciso de mais nada. Nunca tinha visto mato e parasita crescer em paredes. Tinha um campo de futebol de salão. fritando alguns bifes e falando sem parar. dois travesseiros. mas a gente estamos com sede. O cozinheiro baixinho ao me ver pegou um prato. era grande e ladeava os pavilhões da frente. bem menor e com outro campo de futebol de salão. Imediatamente entrei na fila. Esse pátio era todo ladeado por bancos de concreto. lençóis. Eram três pátios. estava o segundo pátio. com dois pátios externos e um interno. Comprei chocolates. pedi para me ajudarem a chegar ao meu cubículo e fui naquela direção fumando um cigarro e carregando os biscoitos e chocolates que havia comprado. vê se lá fora tem melhor. vi o Cuca me esperando sentado na minha porta. O primeiro. que tinham nascido os dois. A escada era longa e escura. Tinha um baixinho. O terceiro e último pátio era onde ficava a cantina. com umas vinte mesas e bancos de concreto. Dois orelhões estavam ali. Algumas pessoas passavam por nós e eu percebi que eles desistiram de continuar conversando comigo. caía alguma coisa. o prédio estava em péssimo estado. Eram internos esperando 228 sua vez nos telefones públicos. Sentei-me ali e olhei o prédio. assim que me viram começaram a me cumprimentar. Esse último pátio ficava entre a administração e o refeitório. Me pegou pelo braço. pôs um bife pequeno com salada de tomate. Quando entrei na galeria. que também tinha um muro de cinco metros. De lá. — Meu nome é Antônio. que só não acertava na cabeça de alguém porque em volta do prédio. Caminhei um pouco. alguns até me cederam seus lugares. Quando chegou minha vez. experimenta. num prédio construído como se fosse uma ferradura. bem na minha frente. fiz um lanche conversando com o cantineiro. de vez em quando. Saí atrás do escritório da inspetoria. biscoitos e cigarros e tentei voltar para o meu cubículo. Conversamos mais um pouco e desliguei. Dava até para repetir e depois ainda fui contemplado com goiabada e queijo catupiri. Do lado de lá era o hospital penitenciário Depois do prédio do outro lado. fiz duas ligações: uma a cobrar para Marilena (que devia estar trabalhando. Realmente estava bom. A arquitetura era boa.mal. bem no meio da ferradura. então segui meu caminho. saía um cheiro delicioso de filé. como uma saia. me fez entrar e sentar num banquinho. Os presos. gordinho. mas cheguei ao térreo. havia um telhado de zinco. alguns metros apenas. Depois do campo. não? — Ela perguntou rindo. Aproximei-me curioso. Entregou um cadeado . pedi que mandasse um colchão. Das janelas. Como aí estava a cantina e já tinha tocado a sirene da hora do almoço. rádio e TV. a minha comida é a melhor. e dei com duas filas. ao relento e sem pintura havia tanto tempo. Era um pátio com um galpão de alvenaria. arroz e feijão e disse: — Doca. porque fui parar numa galeria onde um interno transformou um cubículo em cantina. Foi ótimo ter me enganado. Falei que estava tudo bem. num dos cantos. — Não quer mais nada. 229 Mas me perdi e fui dar em outra galeria. aqueles que esperavam me acenaram e abriram espaço.

Patrício pediu que eu permanecesse. e o diretor o orientou a procurar um cubículo em uma das galerias que tinha visita íntima ou parlatório. não é verdade? Todo interno com mais DE seis meses de prisão e que tenha companheira há mais de seis meses também. estes últimos funcionários públicos. Esse aí. Patrício está chamando. esteve na cantina do Antônio? — Fiquei espantado. que é um órgão ligado à Vara de Execuções Criminais. Lá. é melhor você ir logo. Em seguida. Batemos um papo de dez minutos e ele foi embora. Pira sugeriu a quarta galeria.com duas chaves. — Ofereci um cigarro e convidei-o a entrar. cometeu um crime pavoroso. Havia também uma sala de atendimento jurídico com universitárias e advogados do estado. Ele queria ir comigo. mas o dr. Pira retrucou rindo: 231 — Não liga. não precisava vir escoltado — e olhou para Pira. E daí. que estava saindo. — Zé. Eu não estava entendendo nada. com uma cara meio abobalhada. -DESCEMOS PARA O TÉRREO. para que eu pudesse me mudar o quanto antes. comecei a pensar em telefonar para Paulinho Badhu em Cabo Frio.— Você tem namorada. além dos internos. — Sabe que esse tipo de atividade é proibida aqui? A gente fecha os olhos. o Zé do Lago. — Então. qual seria a importância de tudo aquilo? Fiquei quieto esperando. — Aqui ninguém dá palpite. Quando entramos: —Ha! Você veio. Ele explicou que precisava de um documento da delegacia de Cabo Frio comprovando os quase três meses que estive preso lá e duas declarações que atestavam que Marilena e eu estávamos juntos havia mais de seis meses. Bati à porta e uma moça do serviço social. A minha permanência nas duas instituições dava quase 230 seis meses. manda o Pira entrar. Aqui tratamos todos com muito apreço e sem distinção. FOMOS DIRETO AO SERVIÇO SOCIAL. chefe da seção e funcionária de carreira do De-sipe (Departamento Estadual do Serviço Penitenciário). ao lado da enfermaria e do gabinete dentário. afinal esse pessoal tem de ganhar alguma coisa. Muitos deles têm família. A mulher nem olhou para ele e continuou: — Sou psicóloga. ele foi comigo até a administração e apontou a escada que dava na sala do diretor. que era a dele. loiro alto. Ele continuou: . mas ele balançou a cabeça e continuou: — O dr. Eu falei que estava lá porque ela me convidou. nem o diretor. — Com isso ela queria dizer que a presença do Pira não a intimidava. Aí fiquei interessadíssimo. não deixa mais seu cubículo aberto. Patrício não gostou da idéia. Dei de cara com Humberto.porque achava que a encarregada do setor ia encrencar com a rapidez com que o Patrício e ele estavam querendo fazer as coisas para me beneficiar com o parlatório. com os dados do Água Santa e do Edgard Costa. um dia destes eu conto. Agradeci o convite e entrei. — O Pira mandou isso emprestado. me fez entrar e aproveitou para me convidar a ir no dia seguinte até sua seção. todos o conheciam e de uma certa maneira o reverenciavam. QUE é um apêndice do prédio principal. que tinha vindo ver se estava tudo bem comigo. . Pira me acompanhou até o serviço social. Pra não me perder.. Patrício tocou uma campainha e apareceu um interno. Imediatamente. Dr. afinal eu calculava que tinha mais de 650 internos lá. Eu ia saindo junto. não. Com Pira era fácil andar pela administração. Pira entrou e foi logo sentando. Já estava a par do assunto. recém-formadas em psicologia prestavam serviços voluntários. Depois me mostrou minha ficha. tem direito à visita íntima. disse que ia pegar mal. Fomos direto para a sala da chefe. Dr. que deveria esperar alguns meses para eu ir para aquela galeria. isso aí é caô (papo furado)..

ele pediu para acompanhá-lo. fique uma semana andando por aí. Em seguida. você não devia estar aqui sem uma autorização. olhando para mim: — Vamos à cantina tomar um café? — No caminho para a cantina e durante o café falou sobre o chefe de segurança. ao se despedir. E cadê seu crachá? Como eu não tinha. antes de sair da administração. — Era um camarada de óculos. mandou que Pira saísse. Abriu uma gaveta e me entregou um crachá em branco. do serviço e começou imediatamente. quando se sentir adaptado. Manoel olhou para mim e para o funcionário — Waldique. Aqui. até um sorriso mal interpretado causa morte. Sr. mas usava farda igual à dos guardas. Waldique fez sinal para me sentar e o outro foi embora. — Tenho uma vaga de arquivista. comentou: — O período da adaptação é muito difícil. — Vim ver se você quer esse vaso. em frente ao meu cubículo. Todos me chamam de Português. qualquer dúvida venha me procurar. Aqui é o coração da penitenciária. Falou-me sobre o parlatório e pediu o nome da minha namorada e das pessoas que viriam me visitar.. — Ei! O que você está fazendo aqui? Deixa eu ver sua autorização. — Que autorização? Fui chamado pelo diretor e pelo Serviço Social. Sorriu para mim e começou a me instruir sobre a sociedade carcerária. entramos na seção de vigilância. vi no chão. Andamos mais um pouco e. poderá começar. Quando perguntei se havia luz suficiente. — Faço isso tantas vezes que sou capaz de fazer até no escuro. Deu o preço do vaso. cinco e pouco. um vaso sanitário. Fiquei preocupado que o pedreiro não conseguisse completar o serviço e fui olhar. Estava sentado e sorria para mim. este interno está por aqui sem autorização. Sr. Da entrada. Ande com cuidado. A sirene tocou. Manuel. Respondi que gostaria de tentar. Voltei para minha galeria sozinho. Voltamos à vigilância para pegar o crachá e o senhor Waldique. Ele resmungou que o pessoal não sabia trabalhar. quando estava passando por ele. se servir. cinqüenta de cada lado. chefe da segurança. 232 — Com isso você poderá andar por tudo sem autorização. Confesso que saí de lá pior do que quando entrei. Naquela hora. contendo seu histórico e sua localização atual. — O apelido dele é Manuel Caneta. aquele caminho eu já conhecia. daqui alguns dias. Se você quiser. — Aqui é só para criminosos muito perigosos. Quer dizer: pavilhão. preste muita atenção em tudo. coloco agora mesmo. Uma galeria é um corredor com cem cubículos. No final desse corredor. e todos menos o Português e o Baiano começaram a descer com prato e talher. Aqui. Passamos por várias mesas ocupadas por internos e chegamos ao funcionário. Dizia que não entendia por que um passional estava lá. senão vai para o "caderninho". Quer trabalhar comigo? — Ele era gordinho como o outro. quando um interno é posto em . começou a rir. quase um e oitenta de altura. Elas deveriam trazer fotos para ter carteira de visitante.. — Sou Manuel. o sr. Procurei por Pira. aqui é o verdadeiro inferno. em vez de uma parede. Dei os nomes e falei de minha estada em delegacias e outros presídios. Havia outras penitenciárias. — Depois. contei que tinha passado mais de seis meses nessas instituições e já estava providenciando as certidões. Na saída encontrei um guarda e. preencha este crachá e entregue para ele. Imediatamente tirou o crachá da minha mão e entregou para o interno ao seu lado — Chaves. meio saco de cimento e uma colher de pedreiro. Nesses arquivos estão as fichas de todos os internos. galeria e número do cubículo. Conversando com Baiano estava um cara branco. tem grades de ferro quadriculadas. mas não o encontrei.— Tudo bem? — e me estendeu umas fichas para serem preenchidas. com ele o jeito é andar na linha. Se bem que outros como você já andaram por aqui. começava a escurecer.

em uma Torre de Babel. eu tinha prestado atenção em tudo aquilo. nem ouvir rádio ou assistir à TV. tocava a sirene. O almoço do Antônio custava dois cruzeiros se a pessoa comesse lá. Tinha feito uma lista grande de pessoas que poderiam me visitar. 234 Aquilo para mim era o maior sofrimento. O Baiano que estava ali escutando se defendeu. — O cozinheiro dos funcionários mora nesta galeria e vem lá pelas oito. Fiquei curioso para saber por que ele não foi ao refeitório junto com os outros e perguntei a razão. O Baiano estava ali fiscalizando a obra. no escuro. Lambreta e Baiano vieram me visitar. "O medo. que já era carregado. Tinha andado bastante — diretoria. Mais tarde. vão me "passar o cerol" (matar). Cada vez que isso acontecia eu tinha de fazer um esforço tremendo para não demonstrar todo o medo que sentia. eu via as pessoas caminhando em um platô que estava bem em frente. Vinha com um prato na mão e uma expressão preocupada. Naquela hora. 233 — Esse aí não fui eu. Essas coisas eram muito baratas e a razão para isso era simples. mas nunca durante o dia. mas o Baiano tem uma protetora com muita influência. Deu essa explicação e foi para seu cubículo. que o senhor Pira tinha pedido para um guarda comprar. eu vou lá falar com ele. Ele traz comida para mim. Mas logo que passava por um momento desses precisava de mais autocontrole ainda para não demonstrar como realmente me sentia: com vontade de me atirar ao chão chorando e implorando para me tirarem dali. depois do "confere" e de trancarem as galerias. Naquele instante. Fui até a pequena janela e olhei. Fiquei ali. olhando e gozando aquele momento de tranqüilidade. o Baiano ficou retido na inspetoria — falava baixo para o outro não ouvir. havia umas moças olhando na direção da penitenciária. Tudo era permitido. já tinha olhado para lá naquelas três primeiras noites de prisão." Tinha de fazer muita força para parecer que estava encarando tudo com naturalidade. Então resolvi experimentar. também mancava um pouco. é feita olho no olho entre guarda e interno). Eu tinha impressão de ouvir risadas. mas Baiano se abriu comigo e com Lambreta: — Se me mandarem para Ilha. olhando aquele morro e vendo aquelas moças. Ele saiu para procurar o cozinheiro. só que bem baixinho. Se o preço fosse igual ao almoço do seu Antônio era bom negócio. e um interno que morava em frente a mim entrou na galeria. Era estranho.liberdade. podia fazê-lo. segundo me informaram tempos depois. que a princípio significava "silêncio". Toda hora estão querendo transferi-lo. Lambreta e eu conversamos por mais algum tempo e depois me tranquei. era tudo da cozinha da penitenciária. estava angustiado e cansado. Se o interno tivesse uma lâmpada direcionada para ler. Não perguntei. No pátio da cantina tinha a "reunião de Bíblias" — como são chamados os grupos religiosos —. tudo bem. segundo informaram. O pedreiro explicou que aquele era novo. O dia seguinte era sábado e eu estava apreensivo. Você quer também? Se quiser. Eu estava ali. — Ele é malvisto por muita gente. Caminhar pelos pátios e corredores era assustador. e geralmente sou eu que faço isso a Pedido dos xerifes. Veio até mim e disse: — Me chamo Lambreta. muitos deles com rádios a todo o volume e em estações diferentes transformava aquele ambiente. serviço social e vigilância. se mandasse entregar. Eu estava ali assistindo à colocação do vaso. tenho muitos inimigos lá. um pouco mais caro. depois do "confere" (a chamada antes de trancarem as galerias. Fora que a cada momento alguém se aproximava para pedir um cigarro ou algum dinheiro emprestado. queria ficar sozinho para pensar um pouco no meu dia. será que viria alguém? Acordei lá pelas oito horas e fui à cantina tomar café e comprar jornal. Reparei que os internos estavam se . O número de pessoas andando e falando alto. ali era o morro de São Carlos. os vasos são arrancados Para serem vendidos novamente. Mas na verdade não era proibido conversar.

além do mais. Era uma passagem que eu não tinha percebido. uns guardas apareceram e mandaram a gente se afastar. Eu também estava de shorts e sentei num canto. mas às vezes a bolinha escapava e passava por perto. Como havia muito barulho vindo do pátio 1. o senhor Hugo. Depois do refrigerante na cantina. que pareciam competir para ver qual era o mais potente. Andamos por mais uns quinze minutos e fui para o cubículo ler e tentar tomar banho no fio d’água que saía do cano. Um ou dois prisioneiros se exercitavam. cabiam oito pessoas confortavel-mente. Esses lugares eram todos do pessoal da Falange Vermelha. fiquei curioso e fui até lá. — Eu até gostaria de acabar com essa "raça" — dizia ele —. — Quem falou que ele é meu amigo? — Todo mundo sabe. em estações diferentes. No pátio da cantina. me avisou que o Pira tinha reservado a penúltima mesa para mim e a toalha que estava lá era emprestada pela cantina. 236 — É. Assisti um pouco e fui para o final do pátio. Depois de uns dez minutos já estava molhado de suor. Fiquei boquiaberto e assustadíssimo. onde estavam os aparelhos de ginástica.esmerando em deixar os pátios limpos. mas dentro do sistema e para a imprensa você é muito importante. Abri a porta do cubículo e dei de cara com o Cuca: . A água que caía do cano era tão pouca que demorei mais de uma hora para ficar como eu queria. convido para um refrigerante. que estava sentado a alguns metros. o diretor pediu para ele ficar de olho. Bóris dizia que era da região das serras. As mesas eram todas iguais. Os caras que abordaram você na escada para pedir dinheiro foram levados para a galeria dele e avisados que da próxima vez iam se dar mal. Era melhor não continuar fazendo perguntas. Ele entrou. porque ia entrar um caminhão. Começava num portão atrás da administração e ia até a cozinha. Que planos ele poderia ter para mim? Peguei meu jornal e me afastei. O dono da cantina. Fora uns cinco rádios a toda. retangular. — Meu nome é Bóris. banho tomado e uma camisa branca passada pela Baiana. que era a última. Voltei para a cantina e comecei a perguntar ao senhor Hugo o porquê de tantas atenções da parte do Pira. Tenho amigos policiais. Dizem que saiu briga entre os diretores para ter você em suas cadeias. de mais ou menos oitenta metros por vinte. ali não era um lugar tranqüilo. — Provavelmente ele tem planos para você e. Uma dupla jogava raquetinha (frescobol) bem. Li o jornal. sem camisa. Já estava pensando em sair dali. Depois comecei a me preparar para as visitas que começariam às treze horas. considerei-me pronto. contou que estava preso acusado de ter matado um empresário e era malvisto pela Falange porque achavam que tinha ajudado a Polícia a caçar assaltantes. as mesas estavam sendo decoradas com toalhas e com o nome de seus donos. Era um camarada educado. quando um cara. na área coberta. Olhei o nome da mesa vizinha. Agradeci e fui até lá. Eu não acreditava no que estava ouvindo. Em cima da minha havia um papel de cartolina com meu nome. Estava tendo um jogo de futebol. era do Pira. Seu amigo Pira não gosta de mim. Assim que começamos a caminhada. De barba feita. mas ele me olha esquisito. tinha uma reportagem com o motorista de táxi que tinha me conduzido até a penitenciária e outros comentários que àquela altura já eram velhos. A bola de futebol também estava toda hora por ali. ele sugeriu que andássemos em um espaço que ficava entre o galpão com as mesas e o muro que dava para a outra penitenciária. — Mas eu o conheci no dia que cheguei. 235 Aquilo me incomodava. mas não fiz isso. Apesar de ninguém ter se aproximado. mas nunca me meti a vingador. o portão fechou imediatamente após sua passagem e começamos a caminhar novamente. o resto estava de calção deitado em toalhas. a gente se fala. levantouse e me convidou para ir à cantina. do tipo muito branco de olho azul. Você é o interno mais famoso do sistema. tomando sol.

pois só podíamos acompanhá-los até o enorme portão de ferro. para variar. Na mesa ao lado se encontrava uma pessoa que estava sempre colado com Pira. Maria Zélia e Raul. Afastou-se em seguida e finalmente ficamos a sós. Papai comentava que ali era bem mais tranqüilo. com as crianças brincando e correndo alegres. com os odores que vinham das comidas. muitos rádios. Ficaram muito impressionados com o estado da galeria que ficava em cima da cozinha. cumprimentei minha prima. Não consegui me conter e subi para a galeria chorando e engolindo os soluços. Imagine se eles vissem por dentro. Pira tinha me avisado que era melhor os visitantes saírem vinte minutos antes. A impressão que eles tinham era igual à minha. Era grande o número de internos antes da inspetoria esperando por suas famílias. Os alto-falantes chamavam os internos assim que seus visitantes entrassem nos pátios. Normalmente essas visitas eram feitas só no domingo. que estava lotada de amigos e familiares. Passavam olhando e sorrindo. Nos dias de visita era proibido ir aos pátios sem que sua visita já estivesse lá. também estavam em petição de miséria. Foi um encontro emocionante. meu pai e meu filho me abraçaram durante muito tempo. mulheres com cestas enormes e. Impressionaram-s também com a quantidade de pessoas aglomeradas em torno de toalha espalhadas pelo chão. Na última opção. Por onde passávamos chamávamos atenção. 237 Quando voltamos para a mesa. Frutas. No final desse período os três já estavam exaustos. que separava a carceragem da administração e até aquele momento ainda estava aberto. pois depois das quatro horas não tínhamos mais o que conversar nem agüentávamos continuar sentados nos bancos. Quando cheguei à mesa encontrei papai. Um verdadeiro footing. Tanto papai como Raul agüentaram firme. Os alto-falantes não paravam de chamá-los.— Sua visita está esperando. O pessoal das galerias de visita íntima subia com suas esposas e namoradas. Havia de tudo. um rádio. mas ainda não tínhamos nos falado. que era a última a sair. Ou fazer como a família dele. não percebendo a tristeza do ambiente. que. os outros pavilhões e galerias. Fomos caminhando devagar. As 238 . eu e minha família. todos corno sempre tocando alto e em estações diferentes. tinham de agüentar a guarda reclamando que o horário estava esgotado. Os três olhavam o prédio com caras assustadas. Eram abraços sentidos com os dois procurando lenços para enxugar as lágrimas que insistiam em cair. a gente está sempre perto dele. conversando com Pira e sua esposa Renata. Tive de fazer força para manter uma postura normal. Pira me apresentou sua esposa e passou para sua mesa. Se bem que os guardas só se tornavam mais agressivos em caso de abuso. Apesar do cansaço. No final do corredor. em verdadeiros piqueniques. Ele veio até nós com sua esposa nos cumprimentar: — Meu nome é Jarra. não se preocupem com Doca. Tinham trazido uma porção de coisas. e Raul foi comigo. os três quiseram dar uma volta e conhe cer os pátios. eles olhavam tudo: as era des. Voltamos para o pátio da cantina e para a mesa. para não se submeterem à fila. mas sei que o estado deplorável do prédio e a pobreza da maior parte das famílias ali presentes os assustou. rádios. doces. Fui até a cantina buscar refrigerantes. Principalmente moças. uma ou outra mais ousada dava adeus. Se bem que o número de curiosos que passavam perto de nossa mesa era impressionante. de horror e tristeza. quinze minutos antes do fim da visita. Passado o primeiro momento. que estava mais controlada. o Pira está com eles. gente jovem. Desci correndo as escadas e fui pegar o cartão de autorização de entrada nos pátios. Fiquei assistindo à saída deles enquanto caminhavam em direção à saída. fiquei muito angustiado ao vê-los partir. como o que tínhamos acabad de deixar. Raul olhou para trás e acenou para mim. O horário de visitas nos fins de semana era das treze às dezessete horas. cigarros e outras coisas que davam Para carregar.

Se pudesse. ninguém está aqui por ter sido pego rezando missa'. A prisão. o Humberto já teria me avisado. A visita de Marilena me reanimou. mas não dava para entender. presídios e penitenciárias. à uma da tarde. Luiz Carlos e May também viriam e trariam boas novidades. mais que isso. fecharia os olhos e dormiria novamente. como eles dizem. Não. Tenho de ter muito tato com todos. Estava fazendo isso quando a água parou de cair. Como 24 horas antes pude pensar em reconstruir minha vida? Acho que naqueles poucos dias que se tinham passado o impacto foi tão grande. Senti-me confortado com a presença dela. estava em pânico.. Os papos são os mais variados. Correu um fio tênue. Precisava urgentemente me distrair e. sobre não . Passei os dois dias anteriores muito angustiado. a não ser à noite. assaltos a mão armada a simples transeuntes ou a bancos e joalherias. me fazia querer viver. A visita da família me reanimara. que era melhor morrer. Quanto ao resto. Mas. Hoje. ainda sinto a grande mágoa de fazê-los passar por tudo isso. não tinha esquecido Ângela. Marilena me informou que durante a semana chegariam a TV. Ensaboei e comecei novamente com o copo a me enxaguar. que não tinha dado para avaliar minha situação real. tráfico e seqüestro". me senti bem. e. incríveis mesmo. Naquele platô estavam novamente duas moças. talvez tenha esquecido minha realidade: vida de preso'. a alegria de ter seu apoio e sua presença me dava esperança. loucura e diversão. Conversamos. no fim de semana seguinte. é a carceragem. estaria apto a lutar. Elas punham as mãos em concha na boca e berravam alguma coisa. Quinze anos. pois achava que se houvesse novidades que realmente interessavam. mais que todo o resto. Resolvi levantar na marra e ir até a janela. com um copo comecei a molhar o resto do meu corpo. discutimos assuntos seríssimos. Assistir a meu pai e meu filho olharem as galerias da prisão e as janelas das celas não foi mole. antes do café. entrei embaixo e fiquei olhando para o morro. além do mais. pois. só me causa medo. Escrevi em 11 10 1982: "Ontem recebi minhas primeiras visitas: papai Maria Zélia e Raul. Algo terrível me corroeu o tempo todo. Ter acabado com sua vida e causado tanto sofrimento a seus familiares e amigos é uma dor muito maior do que estar preso. Todos com várias passagens por delegacias. o que mais precisava era de seu amor. Estava nu. um colchão de 239 viúvo e a bola de futebol que eu tinha prometido para a LEP (Liga Esportiva Penitenciária). a querer sair dali para continuar minha vida. Olhei e abri a torneira para ver se saía um pouco de água. namoramos e por alguns instantes. como poderia? Os momentos que vivi a seu lado estarão sempre em meu coração e minha mente. é verdade. raciocinava sobre os conselhos que tinha recebido de Pira. apoio e compreensão. nada fácil de acostumar com ela. Enquanto fazia esse ritual. Imediatamente puxei a lata de vinte litros que estava cheia e. Além da visita. era verdadeira. um dia depois. As abordagens para pedir algo são incríveis também. além disso havia um elo muito forte entre nós. Estava em plena segunda-feira de manhã. de que as duas estavam se comunicando com alguém das galerias. não tinha visto o morro ainda. o calor era tanto que endireitei o corpo para molhar a cabeça e o rosto. Estava sentindo algo muito maior do que medo. Encarar a realidade era tão traumático. já conheci os mais variados tipos: o pessoal que veio da Ilha Grande. Fora isso. debaixo do fio de água. vão de sorrisos e caras angelicais até a intimidação. quando os vi. mas hoje. mamãe. se tudo tivesse corrido bem. sem incidentes sérios. Fui atacado por um desespero tão grande naquela primeira segunda-feira de presidiário. Mas hoje (domingo). Nem perguntei do que se tratava. Enquanto eu tivesse seu amor. A impressão que tivera uma ou duas noites atrás. Realmente eu a quero muito. que não sabia o que fazer. Sentia que. Aqueles últimos anos de convivência não tinham só representado amor. Os crimes são de todos os tipos.. o diretor concedia uma "dormida" (uma noite com a companheira). outros do Água Santa etc. olhar o morro. uma vez por mês. Era muita cadeia. Era o Prazer de estarmos juntos.amantes chegavam às nove da manhã e saíam dos cubículos vinte minutos antes de terminar a visita. apareceram Marilena e papai.

olhei com mais atenção e vi no canto da página de O Globo minha foto com o seguinte cabeçalho: "Doca. como era o ex-policial Mariel Mariscot. uma das unidades do complexo da rua Frei Caneca. não recebe tratamento privilegiado da direção do presídio. ele se desentendeu com o funcionário também e agora estava na solitária. não conseguia me concentrar. Resolvi passar na seção da vigilância e pedir para começar a trabalhar imediatamente. assim não fica por aí sem fazer nada. um guarda interferiu. é atração no presídio". Tomei café. "Doca Street. Estava pensando nessas coisas. Havia cinco mesas: quatro para os "faxinas" e a do senhor Waldique. lendo o jornal e pensando no pobre Baiano. a fisionomia abatida. Deixei o jornal em cima do colchão. Em seguida fui à vigilância conversar com o senhor Waldique sobre começar a "faxina" imediatamente. a não ser velas que à noite iluminam debilmente a solidão de alguns presos. Está preocupado com o quê? A essa hora o funcionário está lá embaixo. E disse rindo: — O jornal já deu notícia de que você é estafeta. só era possível passar por ali com autorização da inspeto-ria. apareceu um interno que mais parecia . explicando que tinha receio. vestido geralmente de calça jeans e camiseta branca. o assassino de Ângela Diniz. num cubículo destruído. Ele trabalha como estafeta. — Quer ficar comabagana? Rejeitei. Ele está num cubículo comum. Quando o Chaves começou a abrir os arquivos para mostrar como funcionavam. Eu estava sentado num colchão emprestado. a Polícia Militar assumiria. vai lendo que depois o Chaves começa a explicar o serviço. Meu PRIMEIRO DIA NA SEÇÃO DA VIGILÂNCIA SÓ SERVIU PARA EU PERceber que ali era mais tranqüilo e seguro que os pátios. começou a rir: . caso contrário usava-se a porta instalada no meio dele. da galeria 6. comece a ensinar o Doca a mexer no arquivo. mas os próprios companheiros de cárcere lhe dão status. era a primeira sala à direita.demonstrar medo. Em seguida pegou meu isqueiro. As companheiras de outros detentos. diz uma funcionária do serviço social da penitenciária. que só dava passagem para uma pessoa. um preso comum. com uma caneca de café na mão e o jornal aberto. Armaram pra ele. Ali sempre havia dois guardas penitenciários. Percebendo o meu pavor. parecia que algo pressionava meu peito. foi até a janela e acendeu 240 um baseado. Olhou para o Chaves e disse: — Assim que você acabar de bater a transferência do Santana para a Una. quando o Cuca chegou com o jornal e o café. primeiro pavilhão. — É a coisa mais sensata. Trouxe duas novidades. encostado numa parede suja. Nos dias de visita aos presos é ele quem atrai as atenções gerais. é mantido como preso comum na penitenciária Lemos de Brito. onde falta água e não há luz. Folheava sem ler. ver Doca. mesmo de longe. A segunda era que havia um boato de que os guardas penitenciários estavam preparando uma greve e. por isso. tratam-no com um respeito só dispensado aos presos especiais. Senhor Waldique levantou a cabeça mas não fez comentário (Santana era o nome do Baiano). A primeira. — Apagou o baseado com uma gotinha de água. Passando pelo portão que separava os pátios da administração. joguei o café fora e desci até a cantina para fazer uma refeição decente. o n 21. — Pegou o jornal e me entregou." A reportagem seguia por mais duas colunas. 241 Não resisti e perguntei: — Quem é esse Santana? Foi Chaves que respondeu: — É o xerife de sua galeria. principalmente das mulheres. De repente. Esse portão só ficava aberto totalmente em dias de visitas. se isso acontecesse. Ele é a nova coqueluche da prisão'. o Baiano tinha se desentendido com um interno. — Senta na mesa junto à porta. as advogadas e as estagiárias de advocacia tentam sempre. sem crachá. pois fui até a porta com um olhar preocupado.

Fiquei na vigilância 243 bastante tempo. Passei pela seção e Pedi ao senhor Waldique para me dispensar. Trate de encarar a realidade e fortalecer seu moral. porque elas me convidaram para um café e perguntaram como eu estava.. eu estava aborrecido e Cansado. sair um fim de semana por mês e depois mudar de sistema. nunca vingam. mas dei de cara com as moças do serviço social. olhando da rua era impossível imaginar seu interior. é a mais indicada. fique algum tempo aqui todo dia e depois faça o que quiser. é um inferno. nem era necessário. Poderia usar seu telefone quando necessário. contei do conselho que havia recebido. Esses recursos impetrados. disse olhando para mim: — O médico me pediu para você ir trabalhar lá. esse senhor sempre foi legal comigo. mas não vou ficar Passando a mão na sua cabeça. farei os cálculos para você ficar sabendo quando começarão seus benefícios (visitar a família no Natal. ia comer na cantina e ir para o cubículo. ficar num albergue. muito bem vestido e com dois chaveiros repletos de chaves.. Esse começo de frase derrubou de vez meu moral. Acho que minha postura denunciava meu desespero. Se precisar de mim venha conversar. disposto a ir direto para o cubículo. Preenchi fichas e fui examinado superficialmente. mas por incrível que pareça uma conversa dessas. Dava para o pátio da entrada da penitenciária. Só . Com o tempo que fiquei na enfermaria e depois no serviço social. que tudo passa. Alto. é tudo conversa de advogado.um funcionário. Que paulada. para ir até lá só o crachá não adiantava. Cumprimentou todos e se dirigiu a mim: — Meu nome é Flávio. Não chorei minhas mágoas. loiro. como já falei no nosso primeiro encontro. para cuidar de sua agenda. Fui sincero ao recusar o convite. Por mim tudo bem. Saí de lá arrasado. tinha de ter uma autorização da vigilância. Aquela era a melhor faxina do sistema. — Falou isso e entregou ao senhor Waldique um papel da administração que tinha meu nome e número. por último. ele falou: — Não se preocupe com o horário. mas lembrei do conselho que Pira me dera na primeira noite em seu cubículo: "Se aceitar uma faxina e aparecer outra mais atraente. mas você que decide. dos arquivos e ajudar o Flávio. Percebi que ele entendeu e não se ofendeu. Por mais dura que seja. Se um interno aparecesse muito doente nesse intervalo. Ainda não recebi sua ficha. A fachada do prédio e o jardim eram impecáveis. Naquele dia. Precisava de uma pessoa 242 para trabalhar diretamente com ele. inclusive a chefe. Fique fora de encrenca. Ele só atendia três vezes por semana. A chefe da seção não amoleceu. Era atraente o convite para trabalhar na enfermaria. não lhe dá falsas esperanças. depois de ter entrado no sistema. ficará malvisto ". Ele mesmo me serviu um café e em seguida me convidou para ser seu "faxina". Isso aqui. que por sinal era muito bem tratado. o médico está esperando você. A enfermaria e o serviço social ficavam do lado de fora da administração. com um jardim sempre cuidado por dois internos da confiança da administração. Era só olhar para mim. tinha perdido o horário da água. Fez pensar no tamanho da minha pena. assim que recebê-la. Após passar um visto. Se tudo correr bem. em quatro ou cinco anos começará a usufruir de tudo isso. após pedir para me dispensar. cerca de dois anos. saindo para trabalhar e voltando para dormir. era só encaminhá-lo ao hospital penitenciário. Depois disso o médico mandou que me sentasse. trabalho na enfermaria. não troque. e. agora só à noite. Assinou meu retorno e falou: — Talvez com o tempo apareça uma oportunidade de trazê-lo sem traumas. — Vocês cometem crimes e depois ficam com essas caras de coitados. Fiquei muito tentado a aceitaro convite. a condicional).

precisarei de você se o Chaves faltar ou em ocasiões de grande número de internos entrando ou sendo transferidos. O médico já me avisou que você preferiu ficar aqui. Gostei da sua atitude, sinal de que soube dar valor a quem estendeu a mão primeiro. Fui para a cantina e depois de um pequeno lanche fui para o cubículo. Estava começando o segundo lance de escada — um lugar mal iluminado, que virava mais ou menos noventa graus à direita, quando fui abordado por dois internos. (O sistema de comunicação dentro das cadeias é incrível, eles já estavam ali me esperando.) Usavam um gorro de meia que cobria a cabeça até as sobrancelhas, estavam bem encostados na parede, onde a luz escondia mais ainda seus rostos. Disseram que algumas pessoas queriam falar comigo na galeria tal, número tal, e era para acompanhá-los. Falavam tão rápido que não deu para entender qual a galeria. Conduziram-me ao local do encontro. Era o último cubículo de uma galeria, mandaram eu entrar e ficaram na porta do cubículo da frente. Duas pessoas estavam lá, sentados em um colchonete. Os dois usavam gorros, a iluminação era só a que vinha do corredor. Pediram para eu sentar de costas para o corredor, no degrau da porta. Começaram perguntando como eu estava, mas depois foram direto ao assunto sem rodeios: — Estamos esperando uma grande quantidade de fumo, uns dez quilos. Só que falta uma parte do dinheiro, precisamos de... (disseram a cifra, não me lembro, mas, naquela época, a moeda era cruzeiros). Você dobrará seu capital em uma semana. Eu estava muito amedrontado, não conseguia e não queria ver suas fisionomias. Eles estavam completamente à vontade, esparramados no colchonete me olhando e esperando minha resposta. Demorei um pouco, tive de me acalmar e pensar o que responder. Quando me recuperei e comecei a falar, fui sincero mas dramatizei um pouco: — Passei por dois julgamentos que me deixaram completamente duro, tomaram tudo o que eu tinha. Se eu tivesse um pouco de dinheiro não estaria aqui. Eu estava disposto a não ceder nem um milímetro na minha posição, não emprestaria nem dinheiro para um cafezinho, se quisessem 244 acabar comigo, tudo bem, acabava também aquele inferno. Não olhava para eles para que percebessem que não tinha intenção de reconhecê-los Para dedurá-los. Ainda insistiram argumentando que poderiam começar com uma urna encomenda menor, mas eu, com cuidado, respondi: O dinheiro que o jornal anunciava que eu tenho é pura invenção. Estou completamente sem grampo. Aí, um deles, o que tinha falado o tempo todo, disse: Que pena, nós também não temos o dinheiro, vamos perder essa. E não fala pro Pira sobre nossa conversa, ele acha que tudo aqui é dele. Saí de lá sem escolta, estava tão nervoso que me perdi e acabei no pátio, ao lado da inspetoria. Mesmo que quisesse não encontraria a galeria e o cubículo onde estive. Só vi direito o rosto de um dos que me escoltaram, não nos tornamos amigos, mas me relacionei com ele. Era faxina da vigilância como eu e provavelmente o mentor daquela trama. Seu nome era Luiz, muito magro, um e setenta de altura, cabelos pretos, bigodinho e olhar assustado. Sua mesa ficava em frente à minha. Depois daquela experiência, resolvi ficar um pouco no pátio da cantina. Precisava me acalmar. Fui lá para o fundo, onde tem o portão de entrada dos mantimentos. Ali é mais tranqüilo para caminhar por causa dos guardas, que estão sempre por lá, de olho nos caminhões que entram e saem. Fiquei andando por muito tempo, só parei porque percebi que Hugo, arrendatário da cantina estava começando a fechá-la. Fui até lá para ver se me vendia um sanduíche e uma Coca-Cola. Ele mandou eu esperar, acabou de abaixar as portas que vinham do teto ao balcão, abriu a porta ao lado e me convidou para entrar. Fez dois mistos quentes que comemos junto com os refrigerantes, sentados em caixotes. Lembro bem dele e da conversa que tivemos. Era um sujeito de 1m 68 de altura, com propensão a engordar. Eu estava curioso, queria saber da cantina, pois só poderia ser um bom negócio com toda aquela gente. No sábado e domingo então, pelo que eu tinha percebido, ele

precisava de dois ajudantes. A resposta dele foi a que eu esperava: — Vendo bem, mas é muito perigoso, muitos querem comprar fiado. Prometem pagar na visita. Se a família não trouxer dinheiro no fim de semana, ele não aparece mais. Às vezes as quantias são pequenas, eu dou o crédito só para não voltarem. Bandido de responsabilidade não da problema, quem vacila são os que não são de nada, assaltantes de pulSeirinhas, relógios, essas coisas simples que transeuntes usam. Esta porta 245 já foi arrombada algumas vezes. Depois que o Pira veio para cá, melhorou muito. Porque, se a cadeia estiver bem, ele consegue uma porção de regalias. No Natal passado, as esposas que quiseram dormiram aqui, e no Carnaval ficaram os três dias. Ele mantém a ordem, quando alguém pisa na bola tem de acertar as contas com ele. O pessoal se caga de medo. Acabamos o lanche e eu, então mais calmo, fui para o meu cubículo Ainda não tinha falado com Marilena a respeito das visitas íntimas, estava receoso de que ela se assustasse. Era difícil para uma mulher como ela encarar uma situação dessas. Ela teria de trazer uma série de documentos, por exemplo, atestado de saúde, três cartas testemunhando que estava comigo havia mais de seis meses, fotos etc, e seria entrevistada pela chefe do serviço social. No dia seguinte ia pedir todos esses documentos, mas não ia dar detalhes. Tomei um banho naquele fio de água e depois me sentei no colchonete. Um pouco antes de fecharem a galeria o cozinheiro traria o jantar. Ainda não o conhecia, quem trazia a comida era o Lambreta. Tinha acabado de me esticar, ele apareceu: — Baiano mandou pedir sabonete, escova de dentes, pasta e cigarros. Se você me arranjar o dinheiro, amanhã eu levo tudo para ele. Entreguei o dinheiro e achei melhor não falar nada sobre a transferência, que naquela altura já estava pronta. No dia seguinte às oito da manhã, eu já estava no orelhão, telefonando para Marilena. Contei a conversa com a assistente social, a respeito dos benefícios. Acho que minha voz não estava boa e denunciava meu desespero, porque ela ficou bastante tempo me consolando e pedindo para eu não desanimar. Depois passei a lista de documentos que deveria trazer. Antes de desligar, ela me contou que ela e papai foram os últimos a sair depois da visita. Porque na entrada não receberam o cartão de visitante e a guarda achava que poderiam ter sido roubados e dois internos tentariam fugir, disfarçados de visitas. Ficaram quase duas horas presos na portaria esperando até a última visita sair, depois esperaram novamente os guardas conferirem todos os cartões. Em seguida fui para a vigilância, ainda com a impressão de ter estado no quarto com Marilena, pois enquanto falei com ela me senti ali, ao seu lado, sabia até a posição em que ela deveria estar. Meu Deus, como era difícil olhar em volta e não acordar daquele pesadelo. E, mais ainda, ser um número, não mandar em si mesmo e não ter vontade própria. 246
Passei o dia lá, me distraindo com os arquivos. Havia um ao lado da mesa do chefe, estava trancado, mas a chave estava lá. Abri e comecei olhar as fichas. Encontrei a ficha do Pira, era impressionante o número de assaltos à mão armada seguidos de mortes, artigo 157, assaltos a bancos e tráfico, fora os processos durante a fase em que ele esteve na Ilha. Ele me contaria essa história (da guerra na Ilha) um ano depois, em um fim de tarde, em cima do telhado olhando a cidade. Quando estava com a ficha dele na mão, o senhor Waldique, que estava entrando, chamou minha atenção. — Cuidado, essas fichas são confidenciais. Se algum interno pedir para você olhar e dar informação, diga sempre que não tem acesso, que só mexe com fichas de histórico familiar e localização no prédio. Só mexa nesse fichário se estivermos sozinhos, nem o Chaves está autorizado a usar este arquivo.

Pedi desculpas e ia me afastando, mas ele segurou meu braço e falou abaixando a voz: — Pode continuar, estão todos distraídos. Perguntei pela ficha do Baiano. — Está na mesa do diretor, ele será transferido para a Ilha em poucas horas. No fim do dia fiquei sabendo que ele tinha implorado de joelhos ao diretor para não ir e, além do mais, nem deixaram ele telefonar para sua "protetora". À noite, em meu cubículo enquanto jantava, logo depois do "confere" e com o Lambreta sentado à minha porta, perguntei o que o Baiano tinha feito. — Há muita política nas cadeias, você acabou de chegar, não entenderia se eu explicasse. Ele é traficante e tem muitos inimigos. — Em seguida me aconselhou: — O melhor é não falar desse assunto com ninguém. Um dia depois (creio que era 13 ou 14/10/1982), escrevi: "Acabou de tocar a sirene, são nove da noite, é hora do 'confere'. Os guardas vão às galerias e fazem a chamada, o preso tem de estar de pé na porta. Após conferirem, trancam as galerias e cada um volta a fazer o que quiser. Ontem, duas horas após o 'confere', quatro guardas voltaram e deram uma geral' em todos os cubículos. Parece que estavam desconfiados de que estava havendo jogo de cartas. O cheiro de maconha era forte, mas não deram importância a isso. Depois de revistarem do primeiro ao último cubículo e todos os seus ocupantes, foram embora".
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Nos presídios Água Santa e Edgard Costa, com um cheiro desses o diretor mandava trancar todo mundo até aparecer o responsável pela maconha; me interessei em saber por que não acontecia o mesmo ali O Lambreta respondeu, rindo, que só aconteceria alguma coisa se na "geral" achassem os tóxicos. — Por causa do cheiro, eles revistaram com mais atenção, como não acharam nada, ficou por isso mesmo. Hoje é quarta-feira e às 18h 30 percebi que muitos desciam. Em vez de perguntar o que acontecia, desci também e descobri que toda semana, nas quartas, tem cinema. Não tive astral para aquilo e voltei imediatamente para a galeria. Apesar do estado do cubículo, era onde eu me sentia melhor, principalmente se não aparecesse ninguém para conversar, o que nunca acontecia. Só tinha um jeito de me livrar dos papos fora de hora; era fechar a porta. Foi o que fiz naquele dia. Deixei a porta encostada para que ficasse bem claro que eu não estava trancado (até agora segui cem por cento os conselhos do Pira). O pessoal começou a chegar do cinema e uns quinze minutos depois houve o "confere", assim que os guardas trancaram as galerias, também me tranquei. A semana passou tranqüila, fiquei pouco tempo na vigilância, só o necessário. Andei muito, li jornais e falei com Marilena pelo menos mais uma vez. No sábado, já pela manhã, me preparei para a visita daquela tarde, pois, fora Marilena e papai, viriam mamãe, May e Luiz Carlos. Pressentia que seria uma visita difícil. E no começo foi, mas depois todos foram se controlando e tudo ficou bem. Mamãe, Marilena e papai estavam no pátio sentados à mesa quando cheguei. Luiz Carlos se atrasara por causa da entrega da televisão e de outras encomendas que eu tinha feito. Assim que chegou, mamãe e ele, que estavam muito emocionados ou chocados com aquilo tudo, começaram a chorar. A força que fiz levantando cedo para tomar sol, ido à barbearia cortar cabelo, pedido à Baiana capricho na camisa e ficado um tempão debaixo do cano, que hoje tinha um pouco mais de água, surtiu efeito. Vendo que eu estava todo arrumado, limpo e até perfumado, mamãe olhou para mim enxugando as lágrimas e disse sorrindo: — Até parece que você está no Copacabana Palace conosco. —- acrescentou: — Quando pegamos o táxi na porta do Copa e eu dei o endereço daqui, ele nos olhou assustado e quando chegamos disse: Já sei, vão visitar o Doca Street". 248 Dali para a frente a visita transcorreu bem. Começamos a falar de alguns negócios que eu tinha deixado pendentes. Tive de assinar alguns papéis e depois todos ficaram muito sérios porque mamãe

trazia um recado do Silverinha. Joaquim Guilherme da Silveira Filho, um grande amigo da família, desses que era amigo de toda a vida. Era dono da Fábrica de Tecidos Bangu e um homem muito benquisto no Rio de Janeiro. Foi criado dentro da fábrica e lá fez um grande amigo que cresceu com ele, porque tinham sido irmãos de leite. Esse amigo era banqueiro do jogo do bicho, presidente de um clube de futebol e patrono de uma escola de samba. Pois bem, ele mandaria um emissário visitar o diretor e conversar com alguns internos. Silverinha me mandou um recado: "Fique tranqüilo, vai estar tudo bem". Naquela altura, todas as promessas que faziam eu não levava a sério, fingia que acreditava para não ser desagradável. Fora isso, eu estava contente de ter minha família comigo, além do mais, todos se davam bem com Marilena que era, havia muitos anos, amiga de todos nós, desde a adolescência. A mesa estava cheia de frutas, doces e coisas que eu tinha pedido. Um pouco antes do final da visita, Pira apareceu com Renata, sua esposa. Eles queriam conhecer o resto da família. Mamãe, que já tinha ouvido falar nele, pediu para ele sentar ao seu lado e agradeceu a ajuda que vinha me dando. Ele olhou bem para ela e sorriu: — O Doca merece, ele é uma pessoa simples, e conhecido como ele é, poderá ajudar muito. Vi que ela ficou preocupada com o comentário e pisquei para ela, quebrando o mal-estar. Como no domingo anterior, apareceu o Jarra, cumprimentou a todos e entregou as fichas do serviço social à minha mãe e ao meu irmão, pois na próxima visita já teriam de possuir cartão de visitante. Em seguida, Pira sugeriu que começassem a se despedir para não terem de fazer fila na saída. Coitada da minha mãe, os enormes óculos escuros que usava para esconder sua tristeza não ajudavam, estava a todo instante passando um lenço no rosto. Além do mais, devia estar envergonhada. Era uma pessoa conhecida, orgulhosa de sua tradição familiar. Fui abraçado com ela até o corredor e, para não aumentar a emoção, ela apenas continuou andando. Papai se atrasou um pouco com Marilena e Luiz Carlos, e prometeram que no dia seguinte estariam todos de volta. Aproveitei que tinha muita coisa para transportar para o cubículo e não fiquei ali esperando eles desaparecerem. Era muito duro assistir à partida, dava uma sensação de solidão horrível. 249 Caminhando cheio de pacotes em direção ao cubículo, passei em frente à inspetoria (escritório onde ficam os guardas) e, como senti que um dos pacotes ia cair, coloquei alguns num banco de madeira em frente à porta, só para pegá-los de volta de maneira mais equilibrada, por que tinha de subir alguns lances de escadas. O inspetor do dia chamou minha atenção: — Aí não é lugar de vagabundo colocar pacotes. Pedi desculpas e segui meu caminho. "Vagabundo." Assim é chamado qualquer um que esteja preso no sistema carcerário carioca. Em uma das vezes que meu irmão esteve me visitando, fez a viagem de carro e, ao chegar à penitenciária, tentou estacionar no pátio. O agente penitenciário, além de não permitir, disse: — Aqui não é lugar de família de vagabundo estacionar. Os agentes penitenciários trabalham 24 horas por 48 de descanso, agora não lembro se eram seis ou oito por turno. Eles eram encarregados de fiscalizar a carceragem. Cada turno tinha um inspetor e todos obedeciam ao chefe de segurança, um funcionário que estava lá todos os dias. Naquela época era o senhor Manoel Caneta. Não preciso contar o quanto ele era odiado pelos internos. Uma coisa que nunca vi na Lemos de Brito foi um agente penitenciário sozinho nas galerias. No dia seguinte, todos voltaram e, depois de umas duas horas, mamãe e Luiz Carlos foram embora para o aeroporto. Assim que eles saíram, chegou o Grande, que foi me visitar várias vezes nos anos em que estive preso. Tinha se mudado para o Rio porque conseguira um bom emprego numa companhia de seguros. Ficou pouco tempo e, quando foi embora, o eterno companheiro, papai, foi junto, para que Marilena e eu tivéssemos alguns momentos a sós. Apreciamos a atitude dele, principalmente por que sabíamos o quanto isso custava para ele, pois, se pudesse, ficaria lá, preso comigo. Ficamos ali, abraçados, aproveitando aquele tempo que nos restava. Aproveitei para falar

sobre a visita íntima ou parlatório. No começo ela achou que não tinha entendido direito, mas depois riu, pois só então entendeu por que só ela tivera de trazer o exame médico. Um pouco antes de tocar a sirene terminando a visita, Pira e Renata vieram sentar-se com a gente, parece até que ele sabia o que estávamos falando, porque, assim que se sentou, avisou que eu ia mudar para um cubículo numa galeria de parlatório. Ia vagar um, o seu ocupante seria 250 posto em liberdade. Não era na galeria dele, mas era bem melhor do que aquela em que eu estava. A sirene tocou e Marilena foi embora, ia andando e parando para olhar para trás e dar mais um adeus. É uma sensação estranha que o detento sente ao ver sua namorada partir após a visita. "Será que ela voltará?" Setenta por cento dos internos são abandonados pela esposa, amante ou namorada, e vinte por cento, pela família. Os últimos se sujeitam a lavar, passar roupa e cuidar dos cubículos dos outros. Se quiser correr riscos para sustentar a família e fazê-la voltar, poderá ser apontador de jogo do bicho ou traficante, isso dá um dinheiro, mas... sempre tem o mas, o risco é grande. Se for pego e não conseguir se acertar com o agente penitenciário, vai ter de ir à delegacia para responder por mais um processo e ter a pena aumentada. Quando isso acontece, sair... só em fuga. Aí já estará fazendo parte de uma quadrilha e seguirá esses caminhos. Segunda-feira, até certo ponto, foi um dia calmo. Assim que cheguei à seção, vi minha televisão e um ventilador, que o Grande me presenteou. Fiquei trabalhando um pouco para esperar o chefe chegar. Enquanto isso, bati a ordem (uma espécie de certificado de propriedade) para eu possuir os dois aparelhos. É importante esse documento, porque ele traz as características dos aparelhos e isso vai para sua ficha, É uma espécie de proteção, caso seu cubículo seja assaltado. Se bem que todos compram e vendem TV, relógios, rádios etc, e nunca ninguém confere coisa alguma. Assim que seu Waldique chegou, levei o documento para ele assinar a liberação. Um interno que estava retirando um isopor profissional, desses que vendedores de refrigerante usam na praia, me perguntou se poderia ajudá-lo comprando o isopor, estava precisando de dinheiro urgente. Olhei para o chefe e perguntei se podia comprar e... qual a utilidade? — Serve como geladeira e, na cantina, vendem gelo em pedras grandes e moído também. Pode comprar, esse interno está indo para uma prisão-albergue e lá isso não tem utilidade. Fui com aquilo tudo para o cubículo, estava louco para ligar a TV. Fui ajudado pelo Careca, que era o eletricista oficial da cadeia. Era um sujeito enorme, cabeludo e barbudo e tinha esse apelido porque, numa tentativa de fuga da Ilha, raspou a barba e o cabelo para não ser reconhecido. Era uma criatura muito amável, quando não estava assaltando bancos. Lá, como não havia bancos, era um prazer ter sua companhia. Estivemos juntos o tempo todo em que estive preso. Tanto nas penitenciárias como nos albergues. Parece que morreu num tiroteio com a Polícia, 251 pouco tempo depois de conseguir sua condicional. Não tive a confirmação desse fato, mas se isso aconteceu foi uma pena, pois ele era um ótimo profissional e poderia ter refeito sua vida em qualquer grande construtora. Ajudou-me a levar as coisas e instalou a televisão. Como antena me vendeu uma geringonça com um fio que passava pela minha janela ia para o teto e enroscava numa das antenas ali instaladas, pertencente a outro interno. Só estive no teto uma vez com Pira. Quando vi as antenas e os fios "chupins", achei que pareciam teias de aranhas. Depois de tudo instalado, a experiência foi perfeita, parecia um cinema, só o controle remoto não funcionou. Era uma TV de catorze polegadas, e era a única colorida naquela galeria. Não podia me queixar de falta de companhia... depois disso, à minha porta, no horário do jornal e das novelas, sempre havia quatro ou cinco internos em caixotes, banquinhos e cadeiras. O Lambreta sentava-se no degrau da porta e não deixava ninguém passar, eu tinha medo de que os guardas aparecessem e o pessoal, para livrar a cara, jogasse as baganas no meu cubículo. Eu nunca teria pensado numa coisa dessas, mas tinha o Lambreta para ensinar as manhas. Aprendi muito com ele no pouco tempo em que fiquei naquela galeria. Depois que me mudei, quase

Finalmente fui para a galeria e para o cubículo. Ficamosna tranca até três horas. como os pátios. Tinha acabado de me esticar no colchonete. quando liberaram todos e os pátios também. Fico emocionado ao me lembrar dele e do Ivo.não o encontrava. era revestida com cacos de ladrilho e. era o Paulo Badhu. o próximo passo seria trancar todos. fora do prédio da administração. pessoal de coragem e raciocínio rápido. depois de adquirido. Ele estava a caminho do escritório do diretor. até a Polícia Militar assumir. para pedir que não trancasse e liberasse os pátios para os internos continuarem calmos. acompanhado de perto pela Polícia Militar. Outro boato mal começava e se tornava realidade: greve dos agentes Penitenciários. roupas de cama e um isopor que. que tinha vindo ao fórum do Rio e aproveitou para me visitar. aos poucos tudo voltou ao normal. toalhas. fui acertar o serviço com o Careca. neste caso. eu já tinha rádio.. A visita foi curta. meu advogado estava esperando. só com o Cuca e o Jarra. A Polícia Militar estava em número bem maior que a dos guardas . tomamos Coca-Cola e ele comprou pacotes de bolacha. percebi. voltei ao cubículo. A Lemos de Brito parecia um túmulo. entre a enfermaria e o serviço social.. Os outros andavam em número bem maior. água e refrigerantes. e me levou para o hospital. Depois da TV instalada e testada. que já estava trabalhando havia 24 horas. Resolvemos então que tomaríamos refrigerantes na cantina e compraríamos alguma coisa de que ele gostasse. Grande Paulinho. Digamos. as rádios e as TVS anunciavam duas fugas em Bangu. ele. biscoitos e uma caixa de Bis. como num passe de mágica. Aquele espaço eu freqüentava duas ou três vezes por semana. se pudesse passar despercebido. Sinal de perigo. sempre rindo muito e falando alto. quase não saíam de suas galerias. me tirou da delegacia de Cabo Frio. Alertoume que o chefe de segurança tinha interditado os pátios para esportes e. meu querido e bom amigo que. Estava sempre vazia. Nos anos que passei lá. tenho certeza de que seria sua opção. junto com Ivo. Escrevi uma carta e vi TV até tarde. Até eu. sempre esteve com gelo. Queria ficar um pouco quieto e escrever para Marilena-Mas não consegui. Encontrei com Pira no corredor entre os dois pátios. Depois. Muitos não saíam das galerias. aparecia de repente. rodeada por bancos de cimento armado recoberto do mesmo material. Mais tarde. teve de dobrar. ninguém apareceu para substituí-los. Acho que foi a última vez que estive com ele. E assim foi. tive na mão fichas de internos que nunca encontrei. mas só ele andava por todas as dependências. era fim da tarde. que não queria em hipótese alguma receber por seus serviços. o pessoal que foi ao refeitório teve 253 de sair em fila. Bom. porque meu pai vinha sempre me ver. e às quartas-feiras também. Era discreto. essa sala tinha quarenta metros quadrados. Tanto as visitas programadas como as das quartas-feiras eram em uma sala enorme. com medo de serem mortos. -EU ANDAVA AFLITO POR VÁRIAS RAZÕES: PRIMEIRO PORQUE DESDE cedo o ambiente estava esquisito. se tinha feito isso. Pira não era o único chefão. a guarda. Com isso tudo acontecendo. Aí começou o boato de que ficaríamos na tranca. Às três horas da tarde. para qualquer interno. quando estava 252 começando a descansar novamente. quando o ajudante do Hugo chegou com as encomendas. fui chamado para ir à sala das visitas. misterioso. quase tudo. Era impressionante o silêncio. Durante a semana era permitido receber visitas programadas. O advogado que estava me esperando me surpreendeu. Antes disso. mesmo nas quartas-feiras era raro algum interno estar lá recebendo visitas. não eram bem-vistos pelos companheiros e. e um agente penitenciário veio avisar que ia tocar a sirene encerrando o expediente. como o Baiano. acompanhando o chão. que era novato. uma galeria de cada vez. TV. que tinha assumido e andava por todas as dependências da penitenciária.

que estava ali no "seguro". nos chamavam pelo nome e vice-versa. pois a vida aqui é monótona e. Sentou-se no chão.) "Marilena amor. Para variar. começamos a nos beijar e a brincar de pôr pó um no outro e depois cheirar. queria escrever para Marilena e contar da greve dos guardas e os últimos acontecimentos. A maioria estava lá cumprindo penas curtas de no máximo cinco anos. Agora eu estava ali. Aproveitei para pedir que guardasse todas as cartas com histórias do dia-a-dia. 254 No presídio Edgard Costa. Fui para o pátio da cantina. o interno que pisava na bola ia para a solitária. tentando me concentrar. Havia exceções. Esse tipo de carta era entregue a Marilena durante as visitas. Mas não tinha outro jeito. — Deixou sim. que queria saber se o jantar podia ser naquela noite. O que será que ela viu? Para mim. uma poodle preta. aquele pessoal fardado militarmente e em maior número "deixava vagabundo bolado". de farra. quando uviam as novas sentenças. lembrava de Ângela e ficava tão acabrunhado que precisava ficar só. Voltei para o apartamento e o abri imediatamente. a "onda" já tinha sido . Toda vez que me sentia assim. Fui BUSCAR O PACOTE E PERGUNTEI AO PORTEIRO SE O PORTADOR "TINHA deixado alguma mensagem. Brincando e rindo. Depois daquela cabeleireira. olhando o Lambreta e me perguntando como tinha conseguido aquela façanha. Um crime a mais ou a menos não fazia a menor diferença. Ângela ria a riso solto por causa da interrupção de nosso idílio. Parecia que ficava mais perto de todos. que já era o dono do degrau do meu cubículo. como expliquei antes. ainda tinha processos a responder. quando fica excitante. sentado em frente ao computador. estão em meu poder. leio o começo daquela carta e acho engraçado. vai telefonar mais tarde. pois na seguinte o namorado já tinha compromisso. fiquei muito tempo conversando com Lambreta. a Manon. Chamei Ângela para me fazer companhia e experimentar aquelas mercadorias". eu por exemplo esperava a Justiça decidir se aguardava o julgamento preso ou em liberdade e o Nilo. Ele não incomodava. Nos dois presídios. Lembro tão bem daquele momento. Até hoje penso nela. ue estava preso havia muito tempo. desde 1977. todos tomavam cuidado para não arranjar encrenca. onde tranca nem existia. Por mais que os internos detestassem os agentes penitenciários. resolvemos que experimentaríamos as duas mercadorias. Então." Continuei escrevendo e narrando os últimos acontecimentos. O próprio Lambreta. 24 5 2004. fiz um lanche e subi. senhor. riam na cara do juiz. (Todas essas cartas e tudo o que escrevi. Já onde estávamos. não tenho nada para escrever. mas tinham uma postura diferente. (Hoje. Como o objetivo das duas era apresentar os novos companheiros. O primeiro tinha dois objetivos: castigo para os que tinham cometido faltas graves no sistema prisional e ser um local para os internos aguardarem o julgamento. ela teve uma premonição. pois tanto as missivas que iam como as que chegavam eram censuradas. porque tinha fugido duas vezes e cometido novos crimes. estava muito quente e ela apareceu nua. Era Marisa. As que só falavam de amor e pedidos (os mais variáveis) eram remetidas pelo correio. Depois de algum tempo todos se conheciam. Sempre pedia para passar a mão na cabeça dela por mim. até de nossa cachorrinha. Naquele fim de tarde conversamos sobre os presídios Água Santa e Edgard Costa e como era diferente o comportamento dos internos. ia me refrescar um pouco.penitenciários. Era escrevendo para ela que me sentia melhor. Sentei ao seu lado e. sabia tudo do sistema e seus conselhos eram preciosos. Aproveitei que a água estava chegando e pedi licença. perto de uma mesa baixa que ficava em frente ao sofá.) Depois de escrever. Não estavam armados. eu queria relaxar. havia internos com 120 anos de cadeia. era mais educado que a maioria e. o melhor a fazer é rezar para voltar à monotonia. Alguns. concordamos em recebê-los. fizemos isso. Estávamos nessa quando o telefone tocou. eram só três turmas que se revezavam.

todos vivendo no Rio. você anda abusando de falar nos seus "ex". — Aceitei porque é muito meu amigo e é um amor. ela era íntima. a Núria. a avenida. ele estava dormindo. Ângela esteve enturmadíssima o tempo todo. eu não vivo falando do meu passado. só estive com Marisa novamente no presídio Ary Franco. — Fala sim. foi gentil e fez seu trabalho de maneira limpa. fui até o banco confirmar o recebimento da primeira remessa da minha comissão. Eram paulistas do interior. quando pedimos a conta. depois procurei Ângela para irmos embora. não vamos esperá-la? Respondeu que não fazia cerimônia com a moça. achava incrível que. De todo jeito. Uma casa belíssima. Eu não quis discutir. amiga de Ângela como era. mas eram . outro dia até me chamou pelo apelido de sua ex-mulher. Não havia cariocas lá. bebi e nadei bastante. Ângela tinha convidado uma amiga de infância. pois queria que ela conhecesse a casa. que ela almoçaria e esperaria a gente. por mais alterada que ela tivesse. você vai gostar dele. Fomos a uma pizzaria e. 255 Marisa chegou rindo. Era um homem do Norte. Depois daquele dia. aquele grupo era surpresa total para mim. Enquanto ela falava com a amiga. No dia seguinte. me tranqüilizava. Não sei quantas pessoas tinha ali. telefonou confirmando o almoço e avisando que viesse com uma maleta para irmos a Búzios. eu fiquei meio de escanteio. Não sei se era uma timidez calculada porque ele era muito irônico e dizia coisas incríveis. Comi. como gostava muito da moça. em plena ditadura militar. quando foi me entrevistar. — Cuidado. Tínhamos de ir logo. Lá pela meia-noite ele sentiu sono e só então pensamos em jantar. servindo comida e bebida o tempo todo. Não me agrediu. com píer para as lanchas da casa e dos amigos. discreto e achava engraçado o jeito que Marisa conduzia as coisas. nessas ocasiões sempre prestava atenção em seus olhos e. Não gostei de ela ter aceitado o convite sem me consultar. Via sarcasmo. um bairro muito lindo. ainda teríamos de ir até Búzios. pois depois de algum tempo esquecíamos tudo. Fomos recebidos com grande alegria por todos. de frente para o canal. Até nisso ele era simpático. estávamos à vontade e fomos tomar banho juntos. 256 — E sua prima. Ela pôs o rosto bem perto do meu. brincando. cedo. Se for assim. durante umas duas horas. Muitas vezes discutíamos e ficávamos zangados. eu e você temos aos montes. pronta para irmos almoçar e tomar banho de piscina na casa do ex-namorado que tinha deixado a encomenda na véspera. Ela nunca tinha me falado deles. com empregados uniformizados. o que demonstrava que eram muito amigos de Ângela. Acredito que já eram os últimos dias de novembro de 1976. Eles estavam juntos havia pouco tempo e ela tinha orgulho dele. Percebi que aquele bate-boca não ia acabar bem e mudei de assunto. mas eu não conhecia ninguém. tinha me convencido. gente do Norte e de outros lugares. deboche. Quando voltei. Da piscina se via o canal. Eu achava chato. enorme. embora tenha perdido a amiga. Ângela estava de biquíni. os prédios de frente para o mar e a praia. para lhe fazer companhia e. Fiz cerimônia com aquele pessoal. O cotovelo apoiado na pizza que estava em sua frente e a mão segurando o queixo. puxando o namorado pela mão como se fosse um troféu. Marisa queria saber tudo de nossas vidas. A casa ficava na Barra. tímido. Ficamos conversando e tomando aperitivos por um bom tempo e nos divertimos muito com as tiradas do convidado. só tinha sabido de nós havia alguns dias pelos jornais.cortada. a posição em que estava era muito engraçada. para mim estava tudo bem. em Água Santa. Ângela não me deixou falar. mas queria que soubesse o que eu estava sentindo. E esse negócio de "ex". no final. nunca percebi ódio. não saímos mais de casa. por ele ser "ex". mas nunca rancor. Francisco telefonou avisando que não viria e transferiu a visita para a próxima semana. pois sua amiga estava chegando.

Ela respondeu que já viria. Tirei os olhos do trânsito por um segundo e comentei que estava tudo bem. e. Fizemos de propósito. Lambiscamos algumas coisas que trouxemos e depois preparei drinques. Só entrou no banheiro bem depois de sairmos. A casa estava em ordem. eu fui instalar o som. quando ela convidou a prima. de costas para mim. Encontrei Ângela e tirei-a para dançar. depois de algum tempo. não reclamou de ter almoçado sozinha. Entramos no banheiro e deixamos a porta aberta. porém não me preocupava. achava aquilo excitante. do jeito que eu gostava. e muito menos com a moça que eu ainda nem conhecia. A prima ficou na Coca-Cola. Ela estava "voando". a Núria ouviu a música e veio para o corredor. Eu a mava Ângela com toda a força do meu coração. Estava vazia. mas mesmo assim ela chegou bem perto: — Pára o carro. Ninguém nos esperava quando chegamos. Preocupava-me que outras pessoas de nosso círculo ficassem sabendo. eu já tinha percebido. estavam todos de bem com a vida. Estávamos loucos de excitação. Só que não dava Para satisfazê-la. Eu não tinha restrições a esse tipo de programa. não avisamos a moça que trabalhava lá. Ela ria. De repente disse: — Já sei! Esta noite vamos fazer amor com minha amiga. fomos tomar banho para em seguida viajar. mas estava longe de ser bonita. gosstoso. Apanhei um pouco. seu rosto se iluminou. eu adorava quando ficava louquíssima assim e acompanhava sua loucura.muitas. vínhamos cantando e brincando de contar o que mais tínhamos vontade de fazer ainda naquele dia. Quando chegamos e viu Ângela. Ângela fez ela se virar e me beijar. Saímos dançando e brincando. e a maioria foi nos acompanhar até o carro. quando ouvi baterem na janela. estava tomando um remédio e não quis álcool. eu quero você agora. Descansei um pouco e pegamos a estrada. olhava Ângela pelo espelho enrolando um fumo. fomos para o quarto e transamos. era impossível não fazer isso. O carro tinha bancos separados. para se arrumar. Além do mais. pois quando chegamos estava cochilando. ela é uma gracinha. ainda estava muito claro e o trânsito estava pesado. Muito pelo contrário. mas não veio. dentro de alguns minutos. isso na certa seria um complicador. era segunda ou terça-feira e não havia ninguém na vizinhança. Fomos até o apartamento com ela grudada em mim. Na volta. Assim que acendemos. Muitas vezes. Ela estava linda e eu a desejava. as roupas nos armários e colocavam a casa em ordem. Ficamos preocupados e . Ângela era transparente i fazia o que tinha vontade e quem não gostasse que se danasse. Viajar assim era agradável. invejava sua coragem. conversando. que temos boa fama? Aquela proposta não me surpreendeu. abrimos o chuveiro e ela chamou a moça. Nunca vi gente tão educada e alegre. mas. A música estava alta para aquela hora. um passeio. Era uma gracinha de pessoa e tinha um bom corpo. Cada um tinha de falar sua vontade. Enquanto elas arrumavam as camas. Eu fui o primeiro e disse que queria tomar banho de chuveiro com ela assim que chegássemos. Que fascínio as amigas tinham por ela. peguei meu copo e saí dançando com ele pelo corredor. Foi puxada para dançar conosco e acabou no meio de nós dois. A música parou e 258 ficamos discutindo quem ia colocar outra fita. ainda tinha o desejo que manifestei no carro. Mais uma vez Ângela ficou quase o tempo todo olhando. Contente. discuti esse assunto com ela. Nós tínhamos acabado de sair da piscina e não perdemos tempo. Enquanto eu fazia a barba. — O que você acha. Depois continuamos deitados. se queríamos construir 257 alguma coisa. consegui colocar uma música. aconchegados. — Quem você pensa que estava enganando quando a convidou? Chegamos ao apartamento e a moça estava a nossa espera.

bateram na janela.. A tarde ficamos em casa. sem hora para terminar. Maria Alice e Zé já estavam em casa. que ela obedeceu sem criar problemas. o próprio Zé Hugo faria o esboço. Abrimos uma conta conjunta e fomos a uma joalheria transformar um cordão de ouro que Chiquinho Scarpa tinha me presenteado em quatro pulseiras para Ângela. pedi que viesse me fazer companhia. pois ela estava apenas com a parte de cima do baby-doí Fiquei tão Puto.Doca.. ela no quarto de hóspedes fazendo ligações para Belo Horizonte. se começássemos logo tudo estaria pronto no réveilon. A Núria voltou antes de ônibus. Finalmente abri a porta. tinham vindo buscar o que lhes pertenciam e ver se tínhamos chegado. rindo. pois tínhamos sido grandes amigos e ficamos conversando. Nem falei do projeto de fazer uma pousada. No primeiro dia tratamos de pôr nossa vida burocrática em ordem. conferindo uma porção de papéis. para deixar a casa livre para as reformas. começou a fazer um desenho de como ele achava que a casa deveria ficar. Não pude fazer na hora. quando Ângela chegou com a Núria. Mais tarde chegaram pedreiros. Respondi que ia abrir a porta. Quando voltei. Ela não quis. Esses 259 Os dois dias foram ótimos. No dia seguinte. você está aí? Reconheci na hora a voz do Zé Hugo. estava acabando de me enxugar. . olharam a sala que estava um pouco modificada. num lugar privilegiado. Eu não queria tomar conta de nada e disse isso à ela. pois tinha esquecido o talão de cheques. que resolvemos começar imediatamente. Embalamos num papo bem ao estilo de Búzios de antigamente. Mais tarde. Zé estava com sua mulher. Ângela resolveu zanzar quase nua pela casa para dar ordens às empregadas. Zé Hugo era muito jeitoso e. mandei a empregada depositar dinheiro na nossa nova conta. e. estava na cama. É claro que demoramos um pouco. depois do almoço. Como ninguém respondeu. é? Rimos daquela idéia maluca. eu quase derrubei a porta e ninguém ouviu. como falei em reforma. foi uma semana tensa e desagradável. Olhou-me de maneira estranha e jogou todos os papéis no chão. uma delas para falar com seu advogado.Quietinhos no quarto. pintores e um empreiteiro. enquanto eu mostrava o banheiro e os quartos aos peões. provavelmente. Como a maior parte das ligações era para amigas e eu estava sozinho em nosso quarto. indicados pelo próprio Zé Hugo. e era nossa intenção passar a data lá. Viram luz e ouviram música e por isso bateram à porta. visitamos várias praias e andamos a pé doidões pelas areias. Ficou combinado que tudo seria entregue em quinze dias. Foram dias tranqüilos. Eram pequenas modificações no banheiro e nos quartos. Seu restaurante ficava de frente para o mar. Tive de parar tudo e pedir que pusesse um biquíni. — Estou pondo estes papéis em ordem e vou entregar tudo para você tomar conta. Nós gostamos tanto de suas idéias. fui procurar um velho amigo que tinha uma pizzaria na Armação. Abaixei para beijá-la e ela rejeitou virando o rosto. pois tinha afazeres. Demorei lá. Achei que aquela conversa estava tomando um rumo estranho e voltei para o quarto tentando entender o que tinha acontecido. porque estávamos nus. Entraram. — Então também não quero mais olhar. Depois que saíram fomos dormir os três juntos.quietos. Já no Rio as coisas não andaram bem. pago a outro para tomar conta. com os pés embaixo do bumbum. Ele preparava panelas. molhos e todos os apetrechos para fazer o almoço. Bateram novamente. estavam fazendo suruba. Fomos para o Rio dois dias depois. Aí quase que a tarde foi estragada. e comecei a servir bebidas aos recém-chegados. Eles ficaram com a gente até de madrugada. de madrugada. Tenho a impressão de que houve dois momentos em nosso relacionamento: antes e depois desse . Já tinha imaginado como seria a transformação. Fizemos as apresentações e Zé. disse: . Talvez ele pudesse me indicar as pessoas certas para fazer a primeira reforma.

Naquele momento alguma coisa mudou. Como achei esquisito. As portas dos quartos estavam abertas. A mulher era muito bonita e íntima de Ângela. o dia foi chato. . a não ser que se faça o movimento bem devagar. Apesar de tudo isso e muito mais. tudo bem. e fizemos amizade imediatamente. Se Ângela quisesse ficar descansando. só para olhar o cano. apesar de ter a chave do apartamento. De repente parecia que estávamos juntos havia muito tempo. muito confortável e decorado sem afetação. resolvi olhar a arma. e essa mudança fez a diferença. Ia começar a dizer qualquer coisa. ela estava bem. Não acreditávamos que uma das empregadas pudesse ter mexido em minha pasta e depois na arma. o nosso dia-a-dia era para ser em ritmo de lua-de-mel. Moravam numa cobertura. ele apareceu e elas também. TINHA BALA NA AGULHA. de frente para o mar. 260 Ao abrir a gaveta. Queria saber a mesma coisa que eu. Numa pistola automática. Abri a gaveta do criado-mudo e vi minha pequena pasta guardada de maneira diferente. a bala pulou fora e entrou outra no lugar. Do jeito que estava era impossível. Minutos depois ela apareceu. Tinha bala na agulha. já me contara que tinha uma em sua casa "em Belo. A amiga era casada com um ex-namorado de Ângela. O telefone tocou. coloquei as balas de volta nele. tudo na frente dela. Contei o que tinha constatado e ela se mostrou espantada. Ângela bebeu e resolveu implicar comigo. na esquina do Country Club. Um pouco antes do almoço. e eu fiquei sozinho na piscina. a bala que vem do pente expulsa a bala que está na agulha. nos ofereceu um quarto para que pudéssemos descansar também. Antes de voltar para o quarto. tinha sido colega de meu irmão. Aceitamos o convite. ele era de total confiança.. . Eu quis ir embora mas Ângela e os dois insistiram e eu fui para o quarto. Insisti. Tirei o pente da arma. Deveríamos chegar cedo para tomar banho de piscina e almoçar na cobertura. em um prédio de propriedade dele. O apartamento era espaçoso. ela disse que não podia. com um número enorme de andares. Todos bebemos e comemos bastante. sua postura era outra. Depois de mais alguns minutos desistimos de descobrir o que tinha acontecido e pusemos a pasta de um jeito que ficaríamos sabendo se fosse aberta novamente. Depois ficou muito tempo 261 trancada com a amiga em um dos quartos. que não sabia o que fazer e muito menos o que pensar. que... passei pela geladeira da copa. antes de colocar de volta da maneira correta. recoloquei o pente e acionei a trava.. quando se puxa a parte de cima para arrumá-la. iria esperar um pouco e sair à francesa. eu teria de tirá-la para abri-la. Aí foi agradável. Foi tênue. peguei a pasta e. Bom. peguei uma garrafa pequena de "Viúva". misturei com laranjada e fui arranjar alguma coisa para me distrair. dizendo que precisava dela. O zelador também não podia ser. Percebi sem perceber e acho que algo mudou em mim também. O camarada era um mineiro super boa gente. era para passar o dia. Baita prédio. mas durou pouco. ChameiÂngela. Minha intenção não era dormir. Quer dizer. Foi um almoço demorado e.Como é que essa bala foi parar aí? Ela entendia de armas. Eu sempre a deixava de modo que. Eu puxei normalmente. era uma amiga convidando para irmos almoçar no dia seguinte. Naquele momento acho que um alarme tocou dentro de mim. Por alguns minutos ficamos conjecturando como aquilo podia ter acontecido. quase imperceptível esse sentimento. Fiquei tão assustado.incidente. mas quando viu a arma sentou-se ao meu lado. O amigo tinha coisas para fazer pelo prédio. Passar o dia trabalhando e voltar para casa à noite. Não estava preparado para ter uma vida de rotina de uma hora para outra. isso são conjecturas atuais de quem tenta entender o que aconteceu. Mas não foi o que fiz. pudesse abri-la em seguida. assim mais tarde estaríamos juntos um pouco mais. como o dono da casa descansava depois do almoço. Como a pousada ainda era só um projeto. afinal já a tinha encontrado com bala na agulha uma vez Puxei a parte de cima e novamente levei um susto. na verdade.

Hoje em dia sei que ela tinha razão. Cortinas bem fechadas e telefone desligado.Como não me deitei e sentei numa poltrona. Fiquei pensando naquela conversa por algum tempo.Que pena que não estejam se dando bem. Estávamos do jeito que tínhamos chegado. vocês se gostam tanto. era mais complicada ainda. que só não queria ficar mais de duas horas sozinho na piscina. insistiu para que eu ligasse para a minha. estávamos vivendo juntos há pouco tempo e. na certa teria lhe dado um beijo para ficar tudo bem novamente. quando estive em São Paulo. Não o fiz porque. a fase de adaptação era sempre difícil. Não atendi sua sugestão.Desde quando viver junto foi fácil? Ainda mais duas pessoas como nós. levantou e veio me abraçar. me sentindo melhor. Diante . perguntei se não achava que tinha me deixado muito tempo sozinho enquanto ficava trancada com a amiga. Desvencilhei-me dela e voltei para a piscina. Me sentei ali com ele e vi que tomava alguma coisa. 262 Voltamos para casa e cada um foi para seu lado. Levei-a para nosso quarto e fizemos as pazes. desapareceu novamente. antes de deitar. sobre vários assuntos. Depois de falar com sua mãe. A empregada já estava acostumada.. inclusive sobre nossas mulheres. para assinar o desquite. Uma hora depois. Achava que acabar tudo era a pior solução. A reação de Ângela foi violenta. Fico trancada com quem quiser. Acredito que esse nosso embalo tenha durado umas 36 horas. embalado por uns bloody-marys e pelo papo alegre do meu companheiro. porém tinha de ter muita paciência. mas muito difícil. . querendo confirmar se íamos passar o Natal lá. A água escorria em seu rosto e ela sorria enquanto falava: . pois. ela para o quarto de hóspedes e eu para o nosso quarto. . nunca mais. Saiu do banho antes de mim. afinal. de shorts e biquíni. apesar de brava. O que você queria. amava Ângela e não estava conseguindo me relacionar bem com ela. quando então fizemos uma refeição e dormimos durante muito tempo. Se ela estivesse acordada. Ele ouviu tudo. Fui pensando que provavelmente não tinha sobrado nada. Sentia-me derrotado. Fui procurá-la e. ela me chamou para ficar perto dela. Caminhei para a cama. me queixei da vida para valer. então comecei a procurar o garçom para pedir algo forte. Voltei para a piscina e só saí de lá quase na hora do jantar. Estava enganado. não vinha e não deixava nos perturbarem. mas o que meus olhos encontraram foi Ângela vindo dos quartos. que disse que só me receberia sozinho. Conversamos muito. Largue tudo e venha morar uns tempos comigo. quando me viu na porta. pois as duas tinham ficado trancadas muito tempo. e a dele (tinham o mesmo nome). Ficamos da cama para o chuveiro e do chuveiro para cama até acabar o estoque de bebida e de pó. Comecei a me levantar para sair. mas. não queria conhecer nenhuma mulher ou namorada minha. Respondi que não. conversamos sobre nossas dificuldades. com o olhar perdido não sei onde. falava baixo. Telefonei para o Chiquito e contei tudo o que estava acontecendo.. Ele gostava muito dela. mas ela me agarrou. procurei por ela. resolvi ir um minuto até o quarto pegar um pouco de pó na sacola de Ângela. se enfiar na cama com a gente? Só estávamos conversando. o pequeno papelote estava intacto e Ângela dormia. Só muito tempo depois. chama minha atenção o tempo todo. Aí dei sorte. Ele disse que Ângela era uma mulher muito atraente. Eu tinha me sentado na cama. Acordamos de vez um pouco antes do telefonema da mãe de Ângela.Você é um chato. O "ex" estava lá sentado olhando para cima. e quando cheguei no quarto o papel manteiga estava aberto em cima da cama e uma garrafa de "Viúva" estava enfiada numa caçamba de gelo. . Pensar em ficar sem ela me deixava muito angustiado. Quando viu que eu estava com ele. debaixo do chuveiro.Fica aqui comigo.

em que encontrei até amigos de meus pais. comentou: — Ele é bonito. não fui visitá-la e nunca mais a procurei. que estavam com um pouco de tártaro pelo excesso de cigarros que fumava na época. 263 No dia seguinte. Almoçamos tarde na pizzaria de meu amigo e. os dois viviam telefonando. fomos à praia das Focas. ela ficava firme. Contou que estava passando uma grande temporada em Búzios e para se sustentar vendia bolsas e bijuterias pelas praias. viravam um tabuleiro de gamão. sarcástica.Você acha que vão me achar feia. Durante a viagem de volta. Eram de tecido e. mas quando só bebia. que era próxima de uma ótima pousada. mas é muito pitoresca. se as abrisse de vez. ir a bancos e até andar a pé e olhar vitrinas. mais como enfeite do que para jogar. Quando se despediu. A praia tem pouca areia. é quase tudo pedra. Tínhamos tempo para telefonar para os amigos. Naquela viagem. Ficou conversando algum tempo. provavelmente alemã. pois ela estava grudada em mim.. nada além de quinze minutos. Em uma tarde ela foi ao dentista e. não sei de onde. pois. esse era um sentimento mútuo. pois havia os habitantes. tomando vodca com laranjada e comendo um queijinho. Achamos que inicialmente. noutra. tomamos banho nus e. Quando retonava para São Paulo era para falar com papai ou Chiquito. é por isso que não quer que me vejam? Continuamos ali curtindo o sol. Podia até estar provando isso. perdia completamente o prumo e seu rosto parecia se desmanchar. apesar dos bancos separados. que tinha uma linda piscina natural. Na noite anterior tínhamos praticamente acampado. Fiz a viagem toda dirigindo com uma só mão. Angela estava ótima. mas tinha um corpo que chamava a atenção em seu minúsculo biquíni. quando não bebia ou bebia e cheirava. estávamos felizes. Antes do Natal estivemos mais uma vez em Búzios. como eu quis ir junto. mas a verdade é que sentia ciúme mesmo. chegamos no fim da tarde e voltamos na noite seguinte. pusemos a bolsa aberta no gamão numa mesinha de canto. que ficaria com cinco quartos 264 Onde desse para ver o mar por cima de nosso telhado. durante a semana não aparecia ninguém por ali. fomos a um jantar de um pessoal mais velho. dava para manter o corredor. eu sugeri que fosse sozinha. pois era à tarde e eu não tinha vontade . Aliás. que era o caso naquele dia. ou melhor.Você acha ela gostosa? Depois esquecemos o assunto. Ela se afastou e Ângela perguntou: . a família. Tive que interferir. para variar. não dava para dar bandeira. de manhã. então voltamos para a praia dos Ossos. Perguntou se podia mostrá-las. por mais vazia que a praia estivesse. objetiva em nossos planos. Nessa ocasião saímos duas vezes. Uma moça que vendia bolsas apareceu. Queríamos ver se tinham começado a reforma. em frente de nossa casa. no dia 27. Ela ria de minha preocupação. Quando ela marcou o primeiro encontro. estávamos preocupados com nosso quarto e com o banheiro. Entramos várias vezes no mar. Enfim. Queria fazer uma limpeza nos dentes. que nós dois conhecíamos. achou desconfortável. Como nós não sabíamos jogar. para ser exato. Não me incomodei e fui também. Ângela ia saindo do mar com o biquíni na mão. ela. Aliás.disso. que era o que mais gostava de fazer. pois íamos viver lá e. fomos conversar com os pedreiros. que nos esperavam para receber o dinheiro do material que ja tinham comprado e atravancava o corredor. Para provar que não era ciúme. em seguida. A praia era só nossa e de um ou outro caiçara que passava em seu barco de pesca. apontamos para nossa casa e a convidamos para aparecer quando estivesse por perto. uma para visitar uma amiga.. não era linda. além dos planos que estavam brotando e do carinho que sentíamos por aquele projeto. O papo foi curto e ficou acertado que a casa estaria pronta logo após o Natal. Faltavam alguns dias para o Natal e nossa casa na praia estava em reforma. mas não se preocupe. que tinha feito cinema e no momento estava casada com um nobre europeu que morava no Rio. Ângela não gostou. . Poderíamos ficar à vontade. A moça era estrangeira. já tinham mexido nos quartos e no banheiro. é apenas meu dentista. fiquei aguardando na sala de espera enquanto ela era atendida. naquele dia ela estava magnífica. construiríamos nosso canto. Com seu sotaque e sua simpatia vendeu-nos uma bolsa. pedimos que fizesse uma demonstração enquanto nos acompanhava numa bebida. depois de várias vodcas. além do material espalhado. falamos o tempo todo na continuação da reforma. na transformação da casa em pousada.

olhando seus olhos. logo após o senhor pagar a conta. enquanto esteve conosco. e daqui a alguns dias vou conhecer sua família. disse que a amava. Depois de umas duas horas pedi a ele que fosse chamá-las e comentei que estávamos ali abandonados fazia tempo. mas ela insistiu tanto. Chegaram ótimas. pois espero muito de nossa relação. não fiz nenhuma cena nem má-criação.. Ficamos os dois fazendo cerimônia um com o outro. que não desfaziam dos amigos dela. e não suportava saber que ela preferia as amigas. fomos para o chuveiro. Naquela noite aconteceu o que vinha acontecendo sempre. da decoração. ao entrar no carro. Enfiei a cara na revista que estava numa cesta de metal e esperei. Apareceram exatamente na hora em que eu tinha decidido ir embora. Finalmente a soltei. . cabelos pretos iguais aos olhos. depois sentaramse conosco. pacientemente. a decoração era bonita. permanecia no dormitório. e ela. um provinciano. Ela riu. triste. mas não abri a boca. da Europa. sem saber o que fazer. O local era enorme e tinha mais de cem camas. a mãe da Núria que tinha sido nossa convidada em Búzios telefonou aflita. sucos e bebidas a escolher. pois não era dia de visita. A amiga era realmente atraente. que cedi. Tive tempo de tomar alguns uísques. Falamos do Rio. na primeira hora. Mas. ela tinha tido namorados muito melhores. mas era mais apropriada à Europa. Você está começando a me maltratar. e ele. nos recebeu sentada e conversou normalmente. A amiga veio sentar-se ao meu lado e insistiu para comermos uma pizza. que tinha pôsteres e fotos de filmes de que tinha participado. que tinha estragado tudo e não sabia por que estava comigo. que não tinha nada disso. depois de uma grande polêmica na entrada. que estava do meu lado e já me conhecia. fiquei só ouvindo. Acho que era sincera. mas antes. Seguramente não era por causa de cama. . Estacionei o carro a menos de dez metros do prédio onde vivíamos. que gostava de mim. não entendo por quê. disse que eu era bobo. estava feliz da vida. Concordei e fomos a pé até a pizzaria. como ainda estava sob efeito de remédios. não me lembro dela entrando no ônibus ou coisa parecida. À tarde fomos visitá-la.. alegou que era tarde e íamos embora. Ângela ainda ficou por alguns minutos dando beijinhos e agradecendo. até a amiga convidar Ângela para ir ao quarto de vestir. . ela era uma mulher do mundo. Mas minha postura mudou. Na verdade estava arrasado. sorriso largo. Usava roupas normais. O ambiente ficou constrangedor e. Não manifestei alegria ou desagrado. não conseguia mais conversar. estou no seu. Finalmente conseguimos vê-la em um momento em que todos os internos foram para o pátio. só que me avaliou mal.Imagine. ela descarregou toda sua raiva. 266 sem mudar de posição. Não estou no meu ambiente. mas. explicou o histórico de cada uma. estendi a mão aos dois me despedindo e entrei no carro. segurei-a com força. notamos que sua voz estava estranha e deduzimos que . Moravam num apartamento em Ipanema de frente para o mar. Comi uma de mussarela. Havia chá com torradas. Talvez tenha falado mais. Ele era um senhor sisudo de 1m 80 de altura.Amo você. Eu fiquei muito puto. No dia seguinte. ela é uma gracinha e vai ficar louca por você. uma simpatia. Ficamos os quatro batendo papo por alguns minutos. Logo que chegamos. Tinha a impressão de que tudo o que tinha dito não fazia muito sentido para ela.nenhuma de conhecer um nobre europeu. tomei um bom vinho e não tomei conhecimento dos três nem do que diziam. meus negócios e meus amigos. foram ao bar e fizeram uma bebida. obrigando-a a me olhar. Com o tempo meu silêncio chamou atenção. bem branca. Eles tinham boas peças. Era estranho que isso tenha acontecido. alegres. Continuei dizendo que a amava e sentia ciúme. Subimos sem nos olhar. e Ângela. Depois fomos para a sala olhar 265 a vista magnífica e tomar alguma coisa. Queria saber se tinha acontecido alguma coisa durante o tempo em que ela esteve conosco. mas só ela estava lá. mesmo antes de a porta bater. — Deixei minha família. porque aquele senhor era um cavalheiro. ver um vestido recém-comprado.Ela voltou tão esquisita que tivemos de interná-la no Instituto Pineu. Lembro perfeitamente o que respondi. Ela ficou por alguns minutos de cabeça baixa e. percorremos todas as dependências do apartamento e paramos um pouco no escritório dela. não podemos passar a vida assim. Hoje em dia chego à conclusão de que me apaixonei por uma pessoa anos-luz à minha frente. acho que sim. e lá sempre fazíamos as pazes. Disse que eu era um desmancha-prazeres. e eu. que naquela tarde as coisas não tinham saído como ela tinha imaginado. careca e usava monóculo. mas acharam que o marido da amiga ia estranhar. Ele foi meio a contragosto e voltou dizendo que estavam trancadas experimentando roupas e viriam em seguida. contou que quiseram me chamar para ficar com elas. pois não tínhamos nada em comum.

e fomos convidados por uma senhora. Não fiquei chateado porque era um amigo de toda a vida e gostava dele. Ângela saiu de lá muito angustiada. me deu uma bronca e conselhos. Levei-a para nosso quarto. Ela ficou quieta. Todo o controle que mantive. Ângela andava pelo apartamento excitada. tinha escondido o pó tão bem que não lembrava onde o tinha posto. mas empurrei-a de volta ao chão. levantei-a pelas axilas e a carreguei até o carro. Era uma construção antiga. precisava falar com alguém da minha tribo. Deitei-me. Joaquim Guilherme da Silveira Filho. Mas precisava falar o que sentia. Depois olhou minhas mãos e perguntou para quem eu estava ligando. para ver se eu estava me aprontando. e me aconselhou a fazer o mesmo. causamos um pouco de zunzum. o pessoal começou a se retirar. Achou que o lugar era bom e deixou lá mesmo. Como não conseguia pôr a cabeça no lugar. enchi um copo 268 com uísque e tomei. com uma garrafinha de "Viúva" e uma pequena jarra de laranjada. Provavelmente até o Ibrahim estaria lá. também conhecida de minha mãe. Eu precisava falar com ela. mas quando entramos no elevador empurrei Ângela. esmurrei o pára-brisa de raiva.eram os remédios. Eu já tinha tomado a segunda garrafa de champanhe e tinha esgotado o estoque de pó. Na saída entregamos uma roupa que Ângela levara e deixamos algum dinheiro para ela dar gorjetas e ter um atendimento melhor. coloquei-a na cama e fiquei quieto no meu canto. tendo apenas a vista como companhia. Acho que a extensão da sala ou do quarto de hóspedes denunciou que eu estava fazendo uma ligação. Apesar de ter olhado minhas mãos e não ter perguntado o que tinha acontecido. Pena que estava maltratado. mas isso no Brasil é normal em prédios públicos. O elevador estava parado. chorava. Não era para levar que ela estava procurando. enquanto estive no apartamento. Avisei que estava no meio dos biquínis. Ficou nos olhando e segurando nossas mãos. como era conhecido. com os pensamentos embaralhados como estavam. Lançou-me um olhar de escárnio e um sorriso desafiador. Ela estava embriagada. Sentou-se ao meu lado e me deu um beijo. Não sei quantas horas dormi. Ela mesma trouxe a bandeja para mim. me comportei bem. 267 Ele não estava. Ela sabia que eu não a deixaria entrar no avião com aquilo. situado no morro da Viúva e tinha uma das vistas mais bonitas do Rio. Só aí percebi seu estado. sumiu. A paixão por ela. enquanto dizia que sairia logo e não sabia como tinha chegado lá. Não dei muita bola para todo aquele papo. pedi que se sentasse ao meu lado. estava tão descontrolado que esqueci de apertar o botão do térreo. já que à noite iríamos a uma festa onde encontraríamos os conhecidos de sempre. Olhei para Ângela e ela fez sinal para eu esperar um minuto. Demorei para terminar a refeição. Para não dizer que não tive reação. mas quando acordei estava sozinho. pois não ficaríamos em Belo Horizonte mais que 48 horas. pois queria tê-la esmurrado. amigos de minha mãe. 269 . Acho que o bairro é a Urca. porque tinha Ele não estava. para uma última taça em seu apartamento. com aquela cara toda desmanchada que me horrorizava. Quando exagera na bebida. minha mãe. Assim que chegamos. me chamou para um papo. ela me olhava não sei se com rancor ou assustada. o Silverinha. apesar da pouca luz do antigo elevador. você ficaria triste de ver seu estado lamentável. Se quer ficar sozinha com suas amigas pelo menos me avisa. Sei que não combinamos levar uma vida careta nem ficar grudados um no outro. um dos lugares mais bonitos da cidade. singela. No térreo arrastei-a para fora do elevador até a enorme porta de ferro. virei de lado. causamos um pouco de zunzum. Estou assustado com o rumo que as coisas estão tomando. Abri a porta e a enfiei lá dentro. Tinha de pôr meus nervos em ordem para dormir e ver como seria a vida. porque Angela entrou imediatamente. meus filhos. Tentou se levantar. Procurei minha agenda e liguei para o Chiquito. tudo girou e se apagou. eu estava junto quando ela colocou ali. muito bonita. A manhã passou e à tarde ela foi ao cabeleireiro. infelizmente já falecido. ela estava ótima e nova em folha. Em princípio iríamos a Belo encontrar a família de Ângela. não reagiu rindo nem nada. Só apareceu duas horas depois. O porteiro abriu e olhou assustado. Disse-me que estava arrumando a mala e levaria pouquíssimas roupas. só com a parte de cima do baby-doí A única lembrança da madrugada eram seus joelhos. Em uma das vezes em que entrou no quarto. Estava louco. Percebi que minha mão sangrava e Angela a beijava e dizia qualquer coisa como "tenho uma explicação". E comecei: — Se eu estivesse com nossa Polaroid na madrugada passada e a fotografasse no elevador. o apartamento era antigo. tudo rodava. Eu estava embalado e sem sono. lá pelas quatro. Um deles. e louco de raiva também. como se nada tivesse acontecido. porque tinha um pessoal mais velho. minha ex-mulher. porque com sua entrada repentina fiquei com o telefone na mão sem fazer nada com ele. Depois de uma certa hora. queria bem àquela moça. Olhando aquele prédio de fora fiquei impressionado com seu tamanho e arquitetura. ela abriu um champanhe e depois de uma taça foi com Ângela apartamento adentro alegando ir retocar a pintura. a impressão que dava é que ela que não se lembrava de tudo o que tinha acontecido de madrugada. me deixa horas sozinho em lugares estranhos para mim. a única coisa que providenciei foi uma refeição reforçada. — Falo com sua mãe quase todo dia e ela está preocupada com você. Chiquito dizendo "vem morar aqui". estava só esperando o momento certo. que caiu de joelhos. Seu cabelo estava em ordem e sua roupa também. Quando elas apareceram. que estavam ralados. não queria estragar tudo e começar a brigar. Nem sei como consegui chegar em casa. Quando entrei. Era incrível. Ela estava bem. estava cansado e de saco cheio. levantei-me.

Resolvemos procurar os familiares e amigos dela só depois de curtimos o hotel como fazíamos anteriormente. No dia seguinte chegamos a Belo Horizonte. sua irmã. quase deixamos para o dia seguinte nossa aparição. Você já sabe. Fomos a um lugar com música. apesar de Ângela ter bebido um pouco além da conta. muito amor. O resto da estada foi quase agradável. No dia seguinte houve almoço de Natal com distribuição de presentes. eu também bebia. elegantíssima. acho que não. dos negócios e de tudo o que estava acontecendo em São Paulo.. encostei a cabeça e dormi. E me chamou a atenção o mais importante. Resolvi encerrar o assunto e ver como ficariam as coisas Mais tarde telefonei a papai e Chiquito para desejar feliz Natal antecipadamente. quando eu bebia. que estávamos em fase de adaptação. Pedi para os dois ligarem para o Raul e dizer que logo viria passar uma temporada comigo em Búzios. queria que percebesse meu desagrado. queria saber dos amigos. repleto de gente.Ela ficou parada me olhando muito séria e me disse que tinha em relação a nós os mesmos planos que eu: morar em Búzios. que em pouco mais de dois anos ficaria sem renda.. saímos para jantar. e que eu procurasse compreendê-la e tivesse mais paciência com ela. pois sugeri que se olhasse no espelho para ver como ficava deformada quando alcoolizada. pois todos bebemos e comemos bastante. Apesar de a família e os amigos de Ângela estarem perfeitos em todos os sentidos. Chegamos e começamos a nos organizar para a viagem que faríamos à praia. Ele riu. Batemos boca e ela deve ter notado que alguma coisa mudara em mim. na reforma e em como ficaria a segunda etapa. O almoço acabou tarde. Durante a última noite no hotel e na viagem de volta. Falou novamente de sua casa em Belo Horizonte. Era uma família bonita aquela. algumas pessoas estão comentando que seu caso aí está acabando. onde se encontravam todos os familiares e alguns amigos. Bati um papo maior com Chiquito.. segundo ela. Acordei meio sem graça na hora das despedidas. Tudo correu bem. depois de um papo e de visitar a loja. que sua mãe me parabenizou pela alegria e felicidade que Ângela demonstrava. faqueiro etc. mas quem ama não desrespeita o parceiro sumindo e falando coisas que machucam. Para transportar essas coisas aluguei uma Kombi com motorista. em minha casa tem um quarto para você. quando Francisco telefonou. houve momentos de estresse. Acho que foi mais ou menos isso o que falou. Depois das apresentações e dos aperitivos. mantimentos. Mas eu. Depois disso. seus filhos. longe do burburinho do Rio e São Paulo. — Estamos tão ansiosos para curtir. naquele início de madrugada. Aquilo me desagradou de vez. Ângela telefonou para uma amiga para vir . 270 Eu estava chateado. sim. como sempre. Era importante essa parte para mim. fiz de propósito. Esteve o tempo todo perto da gente um grande amigo de Ângela. Estivemos tão confraternizados. Não por causa da família dela. Depois prometemos um ao outro que só discutiríamos coisas sérias sóbrios. que ainda não tivemos tempo de fato para nós. Olha. Mas os últimos dias tinham me cansado. A primeira pessoa que visitamos foi sua mãe. vestida com simplicidade. Na verdade não me aborrecia que bebesse. é bem provável que tenhamos jantado e saído. porque me abraçou muito e disse que estávamos cansados. sua mãe e seu cunhado. ficarmos grudados um no outro. a renda era muito boa e provavelmente até o final do prazo eu teria economizado uma boa parte. Voltamos para o hotel e no dia seguinte retornamos cedo. dizendo que se eu quisesse ficaríamos lá por uns tempos. não queria me esconder em Belo. Seus filhos também estavam lá e. cheirava e discutia parecia um "diabinho". Essas primeiras horas foram ótimas. queria viver em paz curtindo a mulher que amava. disse que viria no dia seguinte e gostaria de almoçar com a gente. Aquele banho e amor. Não sei se eles perceberam. um cronista social de quem ela gostava muito. Percebi isso quando pedi para que ela se olhasse no espelho. ficamos no Hotel Del Rey. Estávamos nessa de organizar. Ângela era querida por eles. Ela estava realmente linda. estivemos em sua butique no fim da tarde. ao chegarmos ao hotel provoquei uma discussão. — Você está mesmo é com saudades. desde que saímos de São Paulo. A situação era confortável. porque. só falávamos em Búzios. que detestava ver seu rosto quando se excedia na vodca. embora. levamos as crianças para tomar chá em uma confeitaria. A noite fomos à casa de sua irmã. Falei que não era nada disso. Só não tínhamos a Polaroid. Roupas de cama e mesa.. eles eram legais. Aliás. me sentei cansado numa poltrona. lá pelo meio-dia. não queria estar ali. Desta vez iríamos levar tudo o que precisávamos para permanecer lá.

E saiu. se é que a amiga foi para lá. falei: 272 — Me dá a chave do carro. Pequena. ia mostrar o arranhão em meu pescoço. querendo saber se estávamos bem. excitados que estávamos com a ida a Búzios. As acusações continuavam de ambas as partes. eles chegaram e o ambiente entre nós estava péssimo. só quero ir embora. Ângela estava com um vestido superprovocante. A essa altura não estava preocupado com as visitas. mas assim mesmo fechei a porta que dava para a sala. Ângela e a amiga conversavam. que pegou em cheio. até acharmos que elas estavam demorando muito.. que tinha a chave do carro e meus documentos. Bati à porta e pedi que me desse os documentos e a chave do carro. com a cabeça um pouco mais no lugar e já não agindo no impulso. Foi para o quarto em frente e se trancou. até a hora de nos prepararmos para esperar as visitas. aquela me incomodava. reparei que estava com outro vestido. mas só passei a mão. No segundo puxão. que comecei a revidar. já que mais tarde. Ela falou com voz calma: — Vai para a sala. e na segunda. um Maverick quatro portas enorme. Estava tão fora de mim. "Estão juntos e vão voltar. talvez o pessoal da sala tenha ouvido. mas era só encenação. Pedi que mudasse de roupa. pus algumas coisas dentro. pois fomos dormir tarde. numa discussão que tivemos no quarto. Foi me puxando assim até o quarto. Levei uma bronca tão violenta. Ela me olhou e riu: — Machucadura de amor é gostoso. Entrei. Só paramos porque as visitas chegaram.. Mas antes abriu minha gaveta e pegou qualquer coisa. — Que loucura é essa. mas lotou meu carro. ela trocou de roupa. laranjada e tudo o mais." O almoço terminou tarde e em paz. Pelo menos eu vi assim. Acho que foi a hora em que trocou de vestido. Ela riu e disse: "Não podemos estar melhor". vou pela janela. era Francisco preocupado. não tem coragem de se mostrar como é? Não dei ouvidos. Assim eles vêem o papelão que está fazendo. estava com uma calcinha minúscula e transparente. Bom. ela tinha um copo de vodca na mão e seu rosto começava a se transformar. até já abri. com uma abertura até à cintura. Conversamos por muito tempo. Depois de um café-da-manhã reforçado com 271 "Viúva". deitamos e ficamos abraçados. quando estava quase arrombada. Olhou. E ele respondeu qualquer coisa que a fez rir. passou a mão na fronte e abriu a porta do armário que tinha espelho. Do jeito que estávamos. Continuou rindo e me olhando. Revidei e falamos coisas horrorosas um para o outro. entrego lá embaixo. Quando saído banho. Acho que saiu quando começamos a discutir. Além do mais. a gente se ama! Palavras mágicas. Falamos um pouco na situação constrangedora que tínhamos criado e nos calamos novamente. passou a mão no local e mostrou que sua fronte estava um pouco roxa. já vou levar. Ela berrou: — Pode descer. já estávamos nos abraçando. Acho que ao chegarem. e uma Kombi. nem sabia o que enfiava na maleta. Não sei em que tom foi isso.também. Ela ficou meio zonza e saiu. Ficamos na cama até tarde. que passou rente e arranhou meu pescoço. abri a porta da copa e ia saindo. Eu não ia para a sala coisa nenhuma e àquela altura. Beijei ali e pedi desculpas. continuamos os preparativos para a pequena mudança. que fazia tudo automaticamente. Pedi licença ao meu amigo e fui até o quarto. Me deu um beijo carinhoso.. ainda dei um passo para a frente para continuar. ela destrancou. Em seguida me deu outro. Meti o pé na porta uma vez. O dia seguinte chegou e o almoço foi trágico.Recebi de volta uma enxurrada de desaforos. chegarei antes. Peguei uma pequena mala. Não demorou muito e o telefone tocou. Depois fui para o quarto onde ela estava para pegar minha pasta. Inesperadamente ela falou: "Pára com isso" e tentou me dar um tapa. . peguei minha pasta e quando ia saindo ela provocou: — Vai sair por trás. mas ela me segurou pelo cinto.. Depois que eles saíram. Falei alguma coisa como: — Vocês vão ficar aí? . Devolvi com um tapa perto da fronte. Ela a levara quando abriu a gaveta e só percebi naquele instante. foi até a sala procurar as visitas. Voltou em seguida dizendo que tinham ido embora. Quando se mexia ou andava ficava muito exposta. Francisco e eu ficamos na sala e as duas foram para o quarto. continuamos tomando uns drinques na cama..

Eu já estava mais calmo. Perguntei ao empreiteiro se ele achava certo não cumprir o prometido. Quem não agüentou mais fui eu. o que tinha me tirado do sério. Já nos aborrecemos na chegada. era conhecido em Minas e no Rio. pois tinha acabado de tomar banho frio. era a quase nudez de Ângela. e as filas para travessia eram imensas. Fui até lá e vi que estava só com a parte de baixo do biquíni e uma blusa completamente transparente e aberta por estar mal abotoada.No dia seguinte saímos em comboio. Nesse trajeto cumprimentamos o dono e depois umas pessoas que estavam por ali. Naquela época. Me dirigi à saída e encontrei-a conversando de longe com o rapaz e as pessoas que estavam com ele. (Não tinha. pois fazia muito calor. tinha me excedido. ficar um pouco sozinho. mas. se falasse o que sabia. Ia de cabeça baixa. ele não enchia o meu saco. Quando chegou brigou com a mulher. Estava chateado. Levantei-me chateado. que tudo estaria bem até o dia seguinte. perto da praia. Sabe quem é aquele homem lindo? Eu não sabia e ela me contou. por que estavam ali. entrou no carro e voltou para São Paulo. passamos pela piscina e chegamos a um lugar com mesas. Ela entrou pelo outro lado e sentou-se. pois começaram a trabalhar como se nada tivesse acontecido. um rapaz foi muito efusivo ao cumprimentar Ângela. Começamos a andar em direção à pousada. que ficava na outra ponta. naqueles últimos dez dias não tínhamos feito outra coisa senão brigar. que tinham aparecido. uísque e comida. Ângela apareceu dizendo que queria ir à pousada. Peguei a chave e a pasta e entrei no carro do jeito que estava. e com o eletricista do chuveiro elétrico. — Ele foi meu amante. Fiquei até meio sem jeito. Ela queria me atingir e conseguiu. Resolvi ficar quieto porque. e o banheiro estaria pronto em poucas horas. Ela riu e eu continuei. e comecei a esculhambar com todos eles: desonestos. contei: um amigo que alugava a casa com meu irmão a uma quadra dali. Ela estava a toda. Eu estava no quarto já de shorfs. quase no fim da praia. Confesso que me surpreenderam com sua educação. Ficamos falando sobre a reforma e sobre 274 A pousada. Sugeri que fôssemos embora. Eles estavam na entrada. Percebi que Ângela entrou na piscina. Nem metade da reforma estava pronta. Chamei os outros peões. pois estava com fome. Pelo nome eu o localizei. Ela ficou quieta por um momento e quando voltou a falar foi a respeito do camarada que a cumprimentou com tanto entusiasmo. o Carlinhos. Interrompi a discussão: . não existia a ponte Rio-Niterói. que é o seu lugar. mas eu estou a seu lado por amor. Entramos juntos na pousada.Vá colocar a parte de cima do biquíni que trato disso. mas agüentei firme. ficava à direita. que não estava funcionando. porque havia algumas mesas entre eles e nós. pondo algumas coisas no armário. Ficou tudo bem. que não estavam colocadas corretamente. Pedi que não se ofendessem comigo e cooperassem. deixei os homens trabalhando e saí. Demorou um pouco até acharem a conta e quando fui à piscina ela não estava mais lá. pôr a cabeça em ordem e descansar. Ela parou o que estava falando. Enquanto isso. e nós no fundo. Na verdade. já que me levantando evitaria um bate-boca. voltei para a praia e Ângela estava esperando na areia. Fiquei muito irritado com a resposta. Esse sim me punha louca. Achei o gerente e pedi que recebesse. sem fazer nada? Queria que começassem imediatamente. e pedimos que fosse buscar o empreiteiro. até aquela hora. irresponsáveis. Pedimos vodca. olhando para o mar. Vai ficar aqui comigo. reuni-los e pedir desculpas. avisei que ia para o Rio. como a Kombi estava muito carregada. Quando passamos por elas. Ela continuou. Aproveitei para alertar que andar quase nua no meio dos peões era procurar encrenca.. me olhou brava e saiu em direção ao quarto.. é uma gracinha e na cama é muito melhor que você. Já tínhamos bebido e eu tinha falado de sua quase nudez no meio dos operários.) Ângela continuou e eu voltei. falando no Ibrahim e dizendo que não agüentava mais. Se ela saiu brava. Que história é essa de qualquer briguinha "vou embora"? Comecei a rir. já sabíamos que para a construção caminhar a nosso gosto teríamos de estar presentes. A casa ficava praticamente na areia. Ela me olhava e perguntava: — Do que você está rindo? Para esfriar os ânimos. — Você não vai para Rio coisa nenhuma. . Saí procurando alguém que cobrasse a conta em vez de pedi-la ao garçom. — Vai fazer ceninha porque ele é melhor que você? Acho que vou voltar para o Ibrahim. ele respondeu que tivera problemas com outras obras. em outro ambiente.. Os caras foram legais. fez nos anos 60 uma viagem 275 enorme de São Paulo até Búzios. e ouvi Angela 273 exaltada reclamar com o pedreiro das janelas. Educadamente pediram que me acalmasse. tinha me excedido na bronca. eles é que não tinham feito a parte deles. aproveitamos para trocar de roupa. detestava humilhar as pessoas. Resolvi voltar.. só que cansei muito de tudo isso. não deram continuidade à discussão. chegamos muito antes. fui pagar a conta. Para nossa sorte a empregada estava lá. fora a bagunça e o abandono. depois da piscina. eu estava puto com aquele espetáculo. Sentamos longe deles. Assim que chegamos em casa. Escrevo de longe. mais um. o mundo iria cair. — Eu não sei você. porque logo iríamos construir uma pousada ali. peguei-a pela mão e fomos andando em direção à areia. Como estava de saída. Na segunda fase. em má hora.

Ela deu o nome e sacudiu a cabeça. de vez em quando entrávamos em casa para olhar o mundo de coisas que saía daquela Kombi. nos embalaram num papo sem conseqüência. e ficamos até tarde deitados no sofá de alvenaria. que se uniram a nós.Me disseram que ele comprou esta casa. sem pousada e com menos casas. — Posso me levantar sozinha. Apesar da noite idílica. Estávamos entrando e ela tropeçou e caiu. que saudades. Divertia-me com essa brincadeira. Quando mais tarde o movimento aumentou. Reparei que a Polaroid estava na bandeja e resolvi brincar um pouco. a primeira coisa que fiz foi observar SE SEU ROSTO. Já sentado lendo e tomando café. armando sua barraca. contando casos e rindo. é recalque. Esperei que se levantasse e entramos no mar. Ri e fui ajudá-la. Fingi que estava tirando fotos do Bocalato e sua família.— Só que eles eram casados havia muito tempo. vodca. Abraçados. fui ao quarto. e quando olhei vi a cabeça de um amigo sorrindo.. Até parecia a praia dos Ossos de outras épocas. e a vodca acabou rapidamente. Não achei e perguntei se ela tinha tirado do lugar. não liga. curiosa. Tomei uma chuveirada e abri a casa. pouco depois das nove horas eu já estava de pé. que tinha assistido àquela invasão de privacidade. Voltei para casa e Ângela estava preparando uma vodca com suco de laranja. A bandeja chegou em seguida. Só ameaçava. à luz de velas. Tomou um cafezinho e voltou para o quarto. abraçados sem nos importar com o barulho das outras casas e da rua. Pedi que fizesse uma para mim também. chegaram alguns amigos de Ângela. com a chegada de vizinhos. e vi um ônibus enorme e bacanérrimo chegando.. Olhei para ela para entender por que não podia ajudar. mas muito sofisticada e com muitas histórias de pileques homéricos. sem dizer bom-dia nem nada. tomou café e foi andar. Ela puxou o braço. e Ângela me puxou para ir com ela 277 até o mar. — Tirei e joguei na privada. não batia as fotos. apesar de a água em Búzios ser fria para o meu gosto. Já tínhamos dispensado as empregadas e a casa era só nossa. não é má pessoa. .. — Esta é a casa do Francisco. um paulistano como eu. Preocupado. um dos que estavam ali se despediu porque ia sair na lancha da Pesca. Luiz Bocalato. Pedi para a empregada deixar pronta uma bandeja com gelo. já perturbada logo de manhã? Como continuei sentado com o jornal na mão. era um verdadeiro apartamento. caminhamos até a água. que estava aberta. o chamamos para beber conosco. Diminuía luz da sala. Encontrei meu vizinho da direita. Quem seria aquela louca. Ficamos ali entrando no mar e bebendo. ela virou as costas e foi embora. uma puxando esquis e outra se preparando para sair para pescar. . já estava escuro e ficamos lá um bom tempo.Doquinha. laranjada e refrigerantes. perguntei à empregada. pus música e nos sentamos na calçada de pedra em frente à porta. Ela pôs o rosto bem perto do meu. quando vi Ângela chamando a alemã vendedora de bolsas que viravam tabuleiro de gamão. ele já chegou? Foi assim. A uma certa altura. iluminada pela luz fraca do poste na esquina.Conheço sim. Mais tarde fui olhá-lo. Bateram à porta. e fui até o mar molhar os pés. Logo após a sessão de fotos. examinando tudo. — Foi esta a casa que o Francisco comprou? 276 Apenas respondi não. Ângela levantou-se e foi até em casa mandar vir mais de tudo. Estava normal e isso me deixou tranqüilo. Entramos no mar e quando voltamos Bocalato estava na beira da água. que também vinham para o réveillon. Fui até a porta olhar o tempo. Uma mulher que eu nunca tinha visto entrou sala adentro. Quando fomos para o quarto estávamos bêbados e caindo de sono. Mais tarde. Ao passar por ele. O barulho do mar e a noite escura. Depois de mais algum tempo chegaram alguns conhecidos. só interrompido quando me levantava para servir mais vodca e uísque. Eu estava sozinho na sala lendo o jornal e esperando a empregada acabar de pôr a mesa. quando Ângela apareceu espreguiçando-se e pedindo café. Era Geraldinho Dutra. Já tínhamos bebido bastante. queria pó. Jantamos uma enorme salada. Todos bebemos. um amigo de quem eu e todos gostavam. Nos estiramos na beira do mar e ficamos tomando sol. andamos. contei o acontecido e perguntei se ela conhecia a "figura". Respondi não. quem era a pessoa. Ficamos pouco tempo na água e logo voltamos para nosso lugar. ela fez a pergunta novamente. estacionou quase em frente de casa. e ela insistiu: .. Apareceram duas lanchas. a essa altura já em ritmo de festa. Quase entrou pelo corredor. Acho que me aproximei delas com o Bocalato e pedi à alemã que tirasse fotos de nós três. . — Eu quero tomar banho de mar. Nadamos. todos falavam ao mesmo tempo. Na cozinha já havia café. e fomos para a praia carregando duas esteiras. Ficou ali um pouco. Era olhar para ela e perceber que queria agredir. Percebi que estava de pileque e queria provar que estava no controle da situação. Bocalato tinha voltado para sua barraca. e nós estamos só começando. Continuei ali sentado lambiscando e folheando os jornais. entramos e trancamos a porta. Uma das vezes em que entramos.

indo até a pia. como no dia anterior. Falei que não queria ir embora. enfiei numa mala e. Ela se debateu um pouco. Que destino. um rastilho de emoções incontroláveis que acabou nos unindo. tentei abraçá-la.Sol. como ela continuava na porta. Passou a mão na pia. não vai ser bom nem para mim nem para você! Ela não teve reação e eu engatei a marcha a ré e fui em direção à esquina. saiu para o corredor chamando pela empregada. se desequilibrou e caiu por cima dela. Peguei as poucas coisas que havia trazido. olhou rindo e falou: — Convidei a alemã para ir em casa. Uma moça que tinha acabado de chegar procurava o marido. que era larga. A resposta. Com todo o cuidado fui levando-a para o quarto e fiz que se deitasse. avisei que ia para o apartamento no Rio e só no dia seguinte ia para São Paulo. eu amo você. vai ficar esquisito. queria uma refeição. Durante aqueles longos momentos ali sentado. fui para o carro. Me olhou e falou sem emoção: . Ia continuar. Queria que tomasse banho e fizesse um curativo no tornozelo. Continuei andando a seu lado e pedi: — Não faça isso. Então. Ajudei Ângela a se levantar e reparei que sangrava na altura do tornozelo. Liguei-o na rede elétrica e ele funcionou. inquebrável. Tive de ampará-la até a casa.. estava cheio de gente conhecida e eu ia morrer de vergonha. quando se abaixou para lhe falar mais de perto. a vida estava insuportável. Quando voltei para o quarto. Fui atrás e. Olhou-me e não disse nada. Impaciente. por que tínhamos nos encontrado? Foi tudo como pólvora. ela não deixou. — Tomar uma decisão assim de cabeça quente é bobagem. que àquela altura parecia mais uma 278 bancada de tão cheia. que tinha deixado muita coisa para trás e feito muitos planos. Parei o carro e fui para a frente da casa novamente. Olhei rindo para ela e disse: . mas de repente adormeceu. Entrei.. Não se preocupe com seu dinheiro.. Ia me xingando. Pegou um cinzeiro enorme com as duas mãos e o atirou na janela basculante. disse que ela tinha dado muito trabalho e quebrado todo o banheiro. ela ficou por duas ou três horas. Fui para o banheiro e tomei um banho. Ela veio junto. em vez disso apanhei meu Water Pik. que tinha acabado de ser colocada. é só sacar de nossa conta. que ficaria tudo bem. Me sentia derrotado. abaixei o vidro e disse: — Não me deixe ir. Depois avançou contra mim e me deu um tapa no rosto. mas ela interrompeu. estavam todos animados. não naquela hora. continuou andando em direção a moça e. Enquanto pegava uma camiseta e um shorts. em duas lâminas. enquanto eu fazia isso ela se exaltou e passou a me insultar. tomava toda a parede. que tinha ido para o chão junto com todo o resto. um dia a gente se encontra e conversa. apoiando a cabeça nos braços e olhando o chão. Não porque tentasse entender o que acontecia. Tinha demorado de propósito. Fui em seu socorro e a moça saiu apressada. Demorei a me levantar. queria ir para a praia. eu me encaminhei em .Esse é dos bons. Sentei-me no chão em frente à porta. não sou sua propriedade. Abracei-a para ela parar. mas continuava queimando num caminho sem volta e sem parada. que era de madeira e enorme. Não revidei. veio quando ela já ia saindo do mar: — Então fica aí. além do mais de repente ela começou a cambalear. mas não dei importância. Não estava disposto a deixá-la sair naquele estado. e o coloquei de volta na pia. Ela não me deu mais atenção. que tinha estado conosco. Como iríamos consertar aquilo tudo? Em um certo momento percebi que ela estava de pé na minha frente. Se vivia atormentado por não estarmos sempre juntos. que vou sozinha. porque percebi que procurava coisas para atirar em mim. passei em revista toda nossa trajetória juntos. passei pela empregada e fui encontrá-la sentada em frente ao banheiro. Tirando os momentos em que estávamos a sós nos curtindo. achei que não me deixaria partir. sem saber o que fazer ou para onde ir. ia tentar convencê-la de que devíamos continuar juntos. Entrei no carro e. Entramos e até chegarmos ao banheiro estava tudo bem. Pedi que não fizesse isso. Ela foi muito rápida e se desvencilhou de mim. e jogou tudo no chão. Fiquei muito nervoso. para começar tudo novamente. agora acontecia o contrário.. 279 — Vá embora. ela estava sentada na cama. Fiz isso falando para ela se acalmar. espatifando o cinzeiro e a maior parte dos vidros da janela. não agüento mais ver sua cara. Naquela posição. tinha ficado naquela posição por muito tempo. num banco de alvenaria que cobria toda a extensão do corredor. mas saiu com a lancha de pescadores. os pensamentos é que me vinham. praia e mar. vamos nos divertir. Com tudo pronto.Arrume suas coisas e vá embora. tipo veneziana. Estava muito quente e Ângela foi andando sozinha para o mar. quando a abracei.

Segurei-a firme e puxei a parte de cima. eu nem tinha reparado. Aqui o pessoal estava consciente de que o . Olhei assustado para a arma e deixei-a cair aos meus pés. ele riu e fomos até o fim DO do corredor onde alguns internos estavam queimando fumo.. perdeu seus entes mais queridos. Era sempre 281 com muita dor que me lembrava disso. QUANDO PENSO EM ÂNGELA E FICO ANGUSTIADO. A greve dos agentes penitenciários começou. compreendia exatamente o que estava fazendo ali. Acendeu um que estava em sua orelha como o lápis de dono de boteco. Ela deve ser lembrada com respeito. De uma certa maneira era pura. eu amo você!" Ela me olhou. porque não soube compreendê-la. "Me abrace. Disparei várias vezes de maneira mecânica. acompanhado daquelas lembranças que pareciam não querer me abandonar mais. o dia em que saí de casa. Cometemos tantas loucuras. abri a porta e fui até o cubículo do Lambreta. sentia vontade de morrer. não que quisesse combater a hipocresia. COMENTEI COM AMIGOS. na novela Dancing Days. Não a mereci. A TV está ligada. não era isso. preconceituosa e falsa. PEÇO A TODOS DE DIREITO que me perdoem. Nesses momentos de profunda solidão. Os presos estão tranqüilos. houve tentativa de fuga e tiros. Fui para junto dela. Nunca a vi querer prejudicar ninguém. fechado naquele cubículo. ENVERGONHADO. com o fio de água caindo e olhando o morro de São Carlos. Muitos chamaram minha atenção. não a respeitava. Ela se levantou e foi para o banheiro. sinal de que esteve sempre pronta para ser acionada. desobedecemos a tantas regras e tudo acabou de maneira tão trágica. mas seus olhos não diziam nada. "19. Espero que agora eu descanse. um deles de apenas três anos. 280 ASSUMO MINHA CULPA E. Segurei suas mãos e pedi que reconsiderasse. aliás nós estamos. AChava a sociedade em que vivia horrível. mas naquela época. dois filhos. pelo amor de Deus. "Puxa! Nunca vi você antes e está me contando todas essas coisas. Então. DEPOIS QUE SAÍ DA PRISÃO. Aí. Ficava muito tempo pensando em Ângela. guerrilheira nata. por isso. mas a pasta escapou de sua mão e foi parar na porta do banheiro. Ângela. pus minha pasta ao lado e me ajoelhei em sua frente. era o que era e fazia o que queria. virei as costas sem olhar para trás. a paixão que tive por ela. programa que assistia na época do primeiro julgamento.Pode ficar. deixando para trás uma mulher que amava. . me livre e não fale mais nisso. Alucinado.e aí ficou exaltada: . colegas de trabalho e até gente que nunca tinha me visto tudo por que passei e vivi. discuto o assunto com Marilena. tudo voltava à minha cabeça. xingando-a. conforme a administração temia. Foi um banho demorado. transtornado.Se quiser me dividir com homens e mulheres. a pasta estava aberta e minha arma estava no chão. não estava à altura dela. Apesar da surpresa. não se escondia por trás de nada. por puro reflexo. foi a si mesma.. estava louco. Perdoe-me. que desabara ao receber os tiros.. já estava atirando. Não lembro de ouvir os tiros. muitos tiros. Fui atingido. assustei-me ao ver a cápsula ser remetida para fora. Mas não refletiu aqui. Se o fez.20 ou 21 10 1982. virei um pouco o rosto. Entrei com ela e tentei abraçá-la. No presídio de Bangu foi diferente. Meu Deus.sua direção e pedi: "Vamos fazer as pazes". Jogava limpo.. do jeito que estou não interessa a exatidão da data. POR MUITO TEMPO. Só os burocratas e a Polícia Militar estão aqui. Por querer se libertar." Também não sei por que fazia isso. olhando pela última vez Ângela. mas me rejeitou e voltou a se sentar no mesmo lugar. seu corno! — E bateu a pasta com toda a força em meu rosto. . tínhamos que ficar juntos. ÂNGELA. Levantei-me e fui apanhá-la. a necessidade que tinha de estar a seu lado. Quando me virei. nos amávamos. queria um baseado. Bagunceira. HOJE EM DIA. como pude? Me perdoe.

me preocupava com o fim de semana. era preciso atravessar matas e pântanos. Com todos eu mantinha negócios e escrevia para não perder contato e agradecer o apoio que me deram nos últimos cinco anos. eu ainda não o conhecia. vice-presidente do Banco Mercantil de São Paulo. por motivos que ele não explicou. as duas sem sucesso. — Se precisar. Fábio. Se agentes penitenciários começassem a . e se davam tão bem. O presídio ficava bem no centro da ilha. Valdemar. quem a matou foi o irmão. e era clara e sem cantos escuros. OUTRO que falava muito sobre a Ilha era o Lambreta. Já estava preso havia dezenove anos. se a greve continuasse. queimavam fumo tranqüilamente. achavam-na linda e falavam dela com uma certa nostalgia. O mais estranho era que todos que falaram comigo sobre a Ilha. Limpo. Aquele lugar era mesmo diferenciado. que pertencia ao General.. Se conseguissem chegar a uma pequena comunidade. um dos sócios da Bombril. comprador da Rhodia. a uns quarenta metros do portão que separava os pátios da administração. Esta conscientização é imposta por Pira e seu grupo (Falange Vermelha).. coisas que alguns internos espalham para tumultuar. Então subi também. pescador como ele. Ele tinha assumido a culpa para proteger o caçula da família. Só estive com ele depois de ele já ter se comunicado com Pira e com outros internos. Se eles estivessem calmos o dia todo. ele contou que estava preso pela morte da atriz Luz del Fuego (a primeira mulher que se apresentou nua no teatro brasileiro. um interno o ameaçou de morte. que mantinha um relacionamento com ela. Ele tinha recebido comida do refeitório do diretor e quis dividir comigo. até os rádios e TVS não estavam a toda e em alguns cubículos havia vasos com flores. Segundo ele. cheios de insetos e cobras. atento aos movimentos do senhor Waldi-que e do Manoel Caneta. Na vez que tentou fugir se deu mal. diretor da Fontoura. A escada para a quarta galeria era a primeira. Machucavam-se muito nessas travessias e eram facilmente alcançados pelos cachorros rastreadores dos caçadores de fugitivos. pode ligar. o emissário do meu amigo "banqueiro" (do jogo do bicho) esteve lá. Com medo. Um dia. Aproveitei para saber se a greve estava dando resultado. — Fique sossegado vai estar tudo bem. Antônio armou uma tocaia e o matou. a você ele atenderá. Assim que chegamos na galeria paramos no cubículo 1. que era enorme. bastante tempo. que já tinha pedido ao diretor autorização para se casarem. Tinha tentado 282 Duas fugas da Ilha. Esteve preso na Ilha Grande." No dia seguinte fui cedo para a vigilância. É verdade 283 que o Cuca estava sentado no primeiro degrau da escada um lance abaixo e um lance antes estava o Mãozão. e Gas-tão Augusto de Bueno Vidigal. tranqüilo. — Antes de sair deixou o telefone do escritório e da casa do "banqueiro". aumentando em muito sua pena. porque tinham muito medo. queria saber como estava o ambiente. Aproveitei para escrever para o Jucá. Lá pelas seis horas. Como resposta obtive uma risadinha e. apanhou muito enquanto voltava acorrentado. São só boatos. Para chegar ao pequeno vilarejo e arranjar um barco ou uma lancha.negócio é não ter bronca. fui à cantina no cubículo do Antônio. lotado na penitenciária vizinha. Passei o dia lá. que só fiquei conhecendo algum tempo depois. Encontrei com Pira quando ele ia subindo para sua galeria. pouco antes da inspetoria. Era agente penitenciário. era sinal de que não havia crise. qualquer pescador entregava um barco. Fernando Ferreira. havia boatos de que. dizia que fugir de lá era praticamente impossível. A conversa estava animada. Estava lá só para me visitar e falar com algumas pessoas. Contou também que nos últimos dois anos vinha namorando uma moça que arrumou por correspondência (pelo menos vinte por cento das namoradas dos internos eram arrumadas desse jeito). as visitas poderiam ser suspensas. Enquanto eu comia. comprador da empreiteira Tenenge. Uns dias depois.

que mataram um interno e balearam outros dois. em Angra dos Reis.subir. de 31 anos. Enquanto comíamos. mas não se assuste. que não morava na galeria. . ele ia me falando sobre a LEP. me identifiquei com a secretária e pedi o endereço. Na pasta havia cartas muito bem escritas. ao saber que seria transferido da penitenciária Lemos de Brito para a Ilha Grande. Prevista e até comunicada a parentes e autoridades. bolas de futebol de salão e de campo. que o time dele não esteja mais usando. Falamos com todos e fomos para o cubículo do Pira. madrinha. Encantado e aliviado. falei pela primeira vez. pedindo de desculpas por incomodá-lo e agradecendo antecipadamente. armados de estoques. Bolas. Após o almoço. feridos os dois e foram transferidos para o hospital Santa Lúcia. em 1976. Os dois internos que galgaram o muro em primeiro lugar foram encontrados no mato. para expedir a carta que deveria ser lida pelo Waldique. estava ali só tratando de algum assunto. o máximo que poderia acontecer era não ser atendido. com espaços vazios a serem preenchidos com os nomes das entidades contatadas e com o material ou materiais que iríamos pedir. que presidia: — Em janeiro vence meu mandato e você será o próximo presidente. que. Pira emendou: — Podíamos mandar uma dessas para o "banqueiro". Liguei para o escritório do "banqueiro". na Ilha Grande. desferidas por seu cúmplice no assassinato de um industrial. Pira me acompanhou até o orelhão para evitar que eu ficasse na fila. além do General. não terá que administrar nada. Outro interno foi encontrado morto. Assim que cheguei à vigilância. quinta-feira. que mantenho em meu arquivo até hoje: "PM mata preso na Ilha Grande. jogos de camisas. tente arranjar brinquedos para a festa dos filhos dos internos. cuide da minha filha ". os presos tentaram uma fuga em massa. Tenho certeza de que ele mandará material esportivo para nosso campeonato de futebol. já estava lá me esperando. mas estavam esperando no corredor. mas com que concordei. sendo necessária a intervenção da Polícia Militar. o pessoal da galeria saberia na hora. verdadeiras obras-primas. A única coisa diferente foi a mensagem que escrevi no final da página. tenho certeza. Até a noite de ontem. Ali. Disse que eu não saberia por onde começar. para fazermos seis times e montarmos um campeonato. mandamos uma carta muito 284 Bem escrita com timbre da LEP e assinada por mim. ele me informou que na Ilha tinham matado o Baiano e me mostrou o Jornal do Brasil com a reportagem. Daqui a alguns dias. foi o estopim de uma tentativa de fuga em massa do presídio. por volta de meio-dia. de próprio punho. Manoel foi morto com 42 estocadas. Na semana passada. Gostaria que você se comunicasse com alguns amigos para pedir donativos. Ele não se perturbou com isso e me passou uma pasta. Topei na hora. brinquei: — Quem foi o 171 que fez essas cartas? Dizendo que no sistema havia muitos com capacidade de fazer cartas para várias utilidades. No dia seguinte. apesar de não acreditar que viesse alguma coisa. Depois. camisas. — Dê uma olhada nisso. ontem à tarde. Pode ser material usado. calções. fiquei conhecendo o Marinheiro (acho que só o vi uma vez fora da galeria) e Magro. a morte do presidiárioManoel Santana. Mais adiante: "Manoel chegou a se arrastar aos pés do diretor da Lemos de Brito implorando que não o transferisse ". E: "A morte de Manoel causou revolta no presídio Cândido Mendes Ilha Grande Ontem. no Natal. redes para as traves. Havia algumas pessoas com ele. isso eu faço. A revolta foi contornada por soldados da 4ª Companhia da Polícia Militar. ele telefonou para sua madrinha e disse: Eles me apanharam e vão me matar na ilha. A reportagem continuava contando que ele tinha apanhado muito e no telefonema advertia a madrinha de que tinha chegado a hora "do ajuste final". Por favor. Depois dessa saraivada que me deixou sem fome.

tem uma reportagem do seu pai. negou que no presídio houvesse qualquer Problema. Por motivos de segurança. Dei uma olhada nas fichas e não achei ninguém que eu já tivesse conhecido. mas as galerias permaneciam fechadas. Após ler a carta para o "banqueiro" e esperar que eu lesse a reportagem. No dia seguinte. embaixo da escada que ia dar em sua galeria. não tinha idéia de onde era a LEP. até uma garrucha estava no meio de um dos pátios. Ajudei a fazer a documentação de transferência e quando ficou tudo pronto. cheguei ao segundo pavilhão e subi para o meu cubículo. Depois do almoço. a não ser a morte de um interno com 42 estocadas". os olhos pequenos sempre atentos a qualquer movimento. reparei que toda vez que passava por ali havia um camarada sentado no último degrau do primeiro lance. mais ou menos. os internos ficam inquietos e essa notícia— é capaz de haver alguma reação diferente. pois quando começaram a "geral" (revista em todos os cubículos) no dia anterior. a que levava à galeria de Pira. Era incrível.O Pira mandou para você. parecido com Mao Tse Tung. dez horas. Depois trancaram todo mundo. Pira me apresentou o mestre . Segundo boatos. que devia ter uns quarenta metros quadrados ou mais. Por ali se entrava numa marcenaria e estofaria. ele era quase invisível. Aquela notícia deixara o ambiente pesado novamente. estava sentado em uma banqueta em frente a uma prancha com vários projeta? de sofás. apesar de terem destino certo. Os internos comentavam que só abririam as galerias depois de limparem os pátios. 286 —. Chamavam-no de Xane. estaria sendo observada. maconha e tudo o que podia comprometêlos. Não perguntei. poltronas e cadeiras. Depois de passar pela primeira escada e pela inspetoria. estavam uns vinte internos ocupados em fabricar os desenhos que estavam sobre a prancha. Eu tinha de ir com ele mesmo. já era tarde. as portas já estavam destrancadas. enquanto disputam Campeonatos. Era um sujeito baixo. Olhando muito sério nos avisou: — Não comentem essas transferências com ninguém. Eram sofás e poltronas enormes. os internos atiraram pela janela estoques. Trabalhando com ele naquela sala. Está esperando você na LEP. Quando passei pela primeira escada.a polícia procurava nos matagais e proximidades do presídio muitos internos foragidos. — E depois. pois ocupava quase todo o térreo do primeiro pavilhão. quando acordei. Só os faxinas encarregados da limpeza dos pátios tinham descido. eu já estava na penitenciária havia mais ou menos vinte dias e nunca tinha reparado naquela porta. não pensam em besteiras. Waldique me aconselhou a ficar no cubículo: — Com esses PMS por aí. quando estava no cubículo me preparando para descer e assistir a uma pelada (anunciada no dia anterior e muito esperada. em Angra dos Reis. fui para a vigilância. porque. Em todo o trajeto vi grupinhos comentando a morte do Baiano e a tentativa de fuga da Ilha. Qualquer pessoa vinda da administração ou que estivesse transitando entre os pátios e os pavilhões. 285 Atendendo ao conselho do chefe saí rumo à minha galeria. a LEP está sempre precisando de ajuda e esses torneios são muito úteis. Na mesa do Chaves havia umas dez fichas de internos que seriam transferidos para várias unidades do sistema. Estava sempre com quatro ou cinco internos parados a sua volta. reparei que Waldique as trancou na gaveta. Entramos e fomos falar com o interno que era o chefe daquela seção. A 83ª DP. É para você vir comigo. para uma reunião antes do jogo. Encontramos o Pira saindo de uma porta. comentando a Carta pedindo material esportivo: — Que bom. Quando liberaram as galerias. porque seria entre duas galerias). Passei por ali todos aqueles dias e não o vi. Depois do café na cantina e de receber do Hugo os jornais que me trazia todos os dias. o Cuca apareceu com uma revista Manchete. Era grande tinha duas lâminas. naquela noite a Polícia Militar deu uma batida em todos os cubículos. O Alfredo era um sujeito baixinho. a data não está prevista. mas deveriam ir para algumas repartições públicas.

Estou no terceiro pavilhão. moreno. abrindo os braços. O pessoal estava batendo bola. Pira. Antes de ir para o pátio. Em seguida. distribuíram as camisas e o jogo começou. porque ouvi um dos jogadores reclamando que as camisas não chegavam. estive pensando nas cartas que Pira me mostrara. Aquilo tudo na mesma tarde era muito para mim. vestindo um jaleco cinza. o Jarra ficou assistindo ao jogo. achei melhor falar a verdade: — Não sei. batendo com as palmas das mãos nas mesas. enquanto os dois foram para um canto conversar. Xane olhou para mim. enquanto eles falavam a respeito dos shows. e vi que Alfredo gesticulava. aquele parecido com Mao Tse Tung). ele ia olhando tudo e todos. Não era agressivo. . Alguns protestaram alegando que eu tinha acabado de chegar à Penitenciária. Tinha esperança de que não me deixariam na mão. vou pensar e depois falo com vocês. estranhamente ninguém apareceu. Na verdade. Era impressionante a força de seu olhar. que continuavam a conversar. e começamos a planejar um campeonato de futebol de salão e a falar sobre o Natal dos filhos dos internos. Baixinho. Podia modificar um pouco e mandar para uma amiga que tinha herdado uma das maiores lojas de departamentos de São Paulo. Xane e eu fomos para uma 287 sala ao lado do almoxarifado. que era festejado sempre um domingo antes do dia 24 de dezembro. pira. camiseta e uma jaqueta também jeans. que eram várias. ambas já tinham confirmado. o Magro que não parecia estar interessado em nada daquilo. quero ver sua TV. Sentamo-nos em volta de uma das mesas. peça para o Cuca levar você lá. usava jeans. foi para sua galeria A sala era grande e cheia de mesas (ao contrário da estofaria. Pira tinha arranjado um show com Elba Ramalho e com Elke Maravilha. Pira e Xane pediram aos jogadores que se aproximassem e depois de um rápido intróito me apresentaram como futuro presidente da LEP. Estava louco para ir para a galeria ler a reportagem do papai e desligar tudo. A conversa demorou uns dez minutos e. me olhou de um jeito que não dava para perceber se ele sorria ou se estava apenas me estudando. era um quarto que pertencia à LEP. essa sala dava para o pátio da cantina). Deduzi que esperavam por Pira. me procure. antes de distribuir as camisas. Tinha no máximo 1m e 62 de altura.Alfredo. Pira ficou encantado com ela e disse que nunca vira uma daquelas. fui apresentado ao Xane (o observador da escada. Careca me disse que o controle remoto não funcionou. mas impunha respeito. pegamos dois jogos de camisas em péssimo estado e entramos no campo de futebol de salão. como quem indaga: "E você vai fazer o quê?". — Quando estiver sabendo o que vai providenciar para a festa de nossas crianças. Pira levantou a cabeça. o controle remoto 288 era com fio. que estava acompanhado do Jarra e do Magro. Fomos caminhando devagar. Careca e eu tínhamos ligado o fio de maneira errada. fiquei olhando pela janela que dava para o pátio 1. Fiquei olhando um interno encaixar partes do esqueleto de um sofá de dimensões enormes. e outros me deram tapinhas nas costas. Eu também não conhecia aquele modelo. Fomos direto para o centro e. Olhei para os dois. então. Para meu espanto. — Vamos até seu cubículo. Mas ainda não chegara a hora. Pensaria em mais alguns nomes. tirou o fio de um lugar. Levantou-se e saiu andando devagarzinho. Além de servir para reuniões da LEP também era usada pelas turmas religiosas. A reunião estava encerrada. para não atrapalhar os marceneiros e estofadores. Xane levantou-se. Como eu não estava preparado para aquilo e até duas horas atrás não tinha idéia de que eles tinham todos aqueles planos. entramos numa porta que eu também não tinha percebido. nem o Lambreta. olhar inteligente e sério. Finalmente a conversa terminou e os dois se despediram. bigodinho. Quando chegamos à sexta galeria e liguei a TV.

nos abraçamos longamente. para voltar ao cubículo. NO SÁBADO. Com a surpresa da visita da May. não me preocupei mais com a toalha. seus olhos cheios de lágrimas. de 22 10 1982.. arroz. que comida gostosa. Não nos importando com as pessoas que se encontravam lá. comemos metade de um melão que papai e Marilena trouxeram. Mas as vozes e os rádios nos trouxeram de volta. Se dos outros pátios se via que o prédio estava depauperado. mas não tinha outro lugar. nos dias de visitas. Quem fez aquela comida tão simples entendia da coisa. Ele me olhou demoradamente. porque ela já tinha entregado os documentos para começar com as visitas íntimas. mas fiquei com sono. Bem. alguma coisa se mexia na janela. algumas lágrimas escorriam pelo seu rosto. Posso estendê-la também. sua enorme coragem por me namorar e viver tudo aquilo. do próximo eu não tinha idéia. escondi o controle. Transcrevo uma frase da entrevista do meu pai. me tranquei e tentei dormir. mais a visita íntima. em pé. polenta. ele se levantou e foi embora. Ele não valia nada e esse tal de Lambreta é outro. Finalmente adormeci. muito antes de ela se tornar minha cunhada. lembrei das velas e acendi uma. Uma hora antes de começar a visita estendi a toalha. A sirene tocou. ela e Marilena eram e são grandes amigas. Um abraço sentido e profundo. Tirou o controle. Lembrava de Marilena naquela tarde. assustado. Só li a reportagem do papai umas cinco ou seis horas depois.. AQUELE FIM DE SEMANA. Assim que saiu. Mais tarde no cubículo jantei a comida que a família do Lambreta trouxe: carne. Daqui a uns dias você sai dessa galeria. Vê se não fica andando com ele por aí.. Achei que era um papel que tinha caído ali e fazia barulho por causa do vento. olhamos para cima e mostrei minha janela. Daquele dia em diante. enrolou no fio e colocou no colchonete. e a minha amizade com ela vinha de longa data.. a luz não acendeu. é malvisto. quando me tranquei. exausto. cujo título era: "Luiz Gustavo Street diz que não está sozinho em seu sofrimento. já vinha enfrentando problemas seríssimos com a sua família. MARILENA E minha cunhada May. Trocou um pouco os canais e desligou. queria assistir a Dallas. De fato algo se mexia na janela. que era praticamente embaixo do morro de São Carlos. ela me abordou: — Eu já lavo e passo essa toalha. vai pôr "olho grande". Quando parei de apontar a janela e voltei-me para ela. Acordei algumas horas depois. Aproximei- . Ela quis ver do pátio onde ficava o cubículo em que eu estava morando e onde 289 ficava o próximo que eu ia ocupar. Como já estava bem acordado. E faz um desabafo comovente: Eu queria estar na prisão com meu filho". Demorei muito para conseguir. Assim que eles saíram. Custei a achar o interruptor de luz. Patrício para não pôr você aqui. superlimpa.pôs noutro e começou a funcionar. se você quiser. Quando encontrei o interruptor. Mas antes recomendou: — Não use o controle. lavada e passada pela Baiana. Avisei o dr. aproveitei e comentei a morte do Baiano. Depois tentei ver TV. RECEBI PAPAI. começamos a conversar animadamente.. que nos tirou de lá por uma fração de segundos. Transcorreu tudo bem. Mostrei apenas a janela do atual. no meio do cubículo. por minha causa. a que pelos meus cálculos eu teria direito em trinta dias. dali se percebia que era a parte mais abandonada. Como estávamos sozinhos. que da cantina me observava. Fomos caminhando até o pátio 3. o pessoal dessa galeria é muito caído. a tarde ficou quase alegre. percebi sua tristeza. Retornamos para a mesa de mãos dadas e ficamos abraçados falando baixo até o término da visita. Quando passei pela cantina. repolho e pimentão. Como sobremesa. No domingo ela saiu às quinze horas porque ia almoçar com amigos. Marilena. Papai saiu com ela para Marilena e eu termos alguns momentos só para nós.. Até deserdada ela foi.

e Pincel (assaltante e ótimo eletricista). Humberto viriam me visitar. De noite assisti a todos os jornais das redes de TVS e não houve comentários. essas ratazanas são perigosíssimas. quando estive na vigilância. Um metro e setenta de altura. À tarde. Que carta carinhosa. com aspecto de uma pessoa bem cuidada. sentado. Gostava deles. — Não se preocupe. Estava de pijama e chinelo. João. na quarta galeria. eram ex-prisioneiros da Ilha e estavam interessados 291 nos noticiários. De um canto. afinal era o terceiro andar. puxei a tranca e abri. já que tinha vindo direto da loja. Aceitei e disse que ia pegar cigarros. Mantive contato com ele até sair da galeria. eu tenho tudo lá. Evandro e dr. aqui não tem nada. branco. Era muito bom em copiar assinaturas e documentos. Quer tomar um café em meu cubículo? Minha garrafa térmica está cheia. servindo-me num copo.me e levantei a vela para iluminar mais e levei o maior susto quando dei com os olhos da ratazana. vaso sanitário e chuveiro elétrico. Fique tranqüilo. cinqüenta anos. Quando cheguei ao cubículo com o colchão de "viúvo". em cima de livros. uma delas com uma pequena pilha de livros e revistas. se posto em liberdade. que custei a me recuperar das saudades que sentia de Marilena . Pediu licença para entrar em meu cubículo e foi direto ao vaso sanitário. quando fui transferido para uma penitenciária em Niterói. o prédio estava sem luz. Ele me apontou um rádio: — Acompanhei seus dois julgamentos. dois anos e meio depois. Conversamos enquanto fumávamos. perguntei o que fazia antes de ser preso. está assustado? 290 Expliquei o que tinha visto. chegou outro colchão que papai me mandou. O cubículo era limpo.Já destruí um cubículo para me defender de uma dessas. grudada na parede como num trem noturno. — Que foi. dr. olhei no corredor e não enxerguei nada. Para recebê-lo tive de ir ao serviço social assinar a nota. com algumas mortes. mas nunca exerci. enquanto estive na galeria estivemos muito próximos e eles me ajudaram muito. só que a dele tinha castiçal. Meu nome é Tonho. Uma tarde eu estava matando baratas com um desses sprays inseticidas e Pincel chamou minha atenção: — Não mata todas. A segunda-feira foi normal. Doca. Assistindo ao noticiário em minha porta: Lambreta. elas comem os percevejos. após uma rebelião. com penas pesadas. Os três. pois ele raramente saía de lá. Curioso. Havia ainda duas cadeiras. aumentando o espaço. Ela deve ter sentido cheiro de comida. . Queria saber como eu estava e avisar que dr. acompanhado de Capoeira. tinha condições de largar essa vida. Humberto. cubículo 5. ele retirou a garrafa térmica com café. Encontrei-o novamente. Não posso imaginar como ela conseguiu chegar lá. Fui até a porta. À tarde. encontrei uma carta da Adriana (filha de Marilena). começou um boato que deixou o ambiente carregado: rebelião na Ilha Grande. Nós quatro. vamos até lá ver se foi embora mesmo. que tomava boa parte daquele espaço e tinha dado um trabalhão para ir até lá. Ela também se assustou e saiu. depois iluminamos a janela e vasculhamos todo o local. me deixou tão emocionado. com muitas mortes. Nenhum deles. — Sou contador. ele se aproximou rindo. que trabalhava com dr. tinha uma cama original do tempo da construção. Podia levantá-la e deixá-la na paralela. Mas o barulho da tranca e a luz da vela chamou a atenção de um camarada que morava no começo da galeria que também estava com uma vela na mão. De ferro. Eu estava lendo quando ouvi barulho na galeria. às onze horas recebi o advogado. Só ouvi o barulho do seu movimento.

se despediu de todos e saiu. Chaves era do Piauí. até o senhor Waldique tinha um risinho sarcástico.e seus filhos. Pedi para ficar com aquela cópia para mostrar ao Humberto. E o Chaves não era exceção. ia para sua galeria e não saía mais. No dia seguinte tomei café e fui para o cubículo dele. me despedi e fui para a vigilância. Pira estava calmo. quando vi Xane aparecer na entrada da galeria. a sirene tocou e ele se despediu. Acabaram de sair e entrou uma figura incrível. Tinha esse apelido por ter sido preso em seu apartamento no Leblon com uma tonelada de cocaína. — Oi! Como vão todos? E o senhor. Era um senhor muito simpático e alegre. 293 Bom. Depois de arrumar o colchão em cima de dois colchonetes. Lá ninguém falava de fugas. disse apenas que as coisas estavam melhorando. com aparência de quem acabara de sair do banho. iriam cantar para o governador Chagas Freitas. na cadeia. Não perdi a pose e falei sobre futebol. Sua risada e os trejeitos o denunciaram. Com o tempo constatei que. Chaves me estendeu um requerimento e perguntou se ia tentar. afinal essa gente geralmente não perturbava. Ele era conhecido como Chico Tonelada e morava no cubículo 50. Eu andava desconfiado de que ele era homossexual e naquele momento tive certeza. estavam todos preenchendo requerimento para ir passar o Natal com a família. Tomava conta de seu cubículo como se fosse uma dona de casa. quase todos os homossexuais do sistema eram amigados. Lavava. A administração não tomava conhecimento desse comportamento. pois a Lei de Execução Penal não permite que ex-detentos retornem para visitar quem quer que seja. Mas nesses casos abria exceção. sobre o tempo e. muito boa gente. — Amanhã a gente se fala. Estava sempre de shorts. passava. quando entraram dois internos e um agente carcerário para retirar trinta saídas "extramuros".. O grande problema era quando um dos parceiros obtinha liberdade. barba muito bem escanhoada. parecia muito preocupado. Depois de falar com o senhor Waldique e pegar um requerimento de saída natalina. camiseta e tamancos. deitei e estava começando a relaxar. mortes em Bangu etc. está gostando do nosso hotel. quando ouvi a voz de Pira: — Que colchão bonito. Levantei para falar com ele e reparei que estava com um olhar estranho. na quarta galeria. Mas naquela altura eu já sabia das mortes de quatro detentos em Bangu. alguma reclamação? Eu costumava encontrar com ele em seus passeios pelo pátio. o que é irregular. branco. Eu sabia que não tinha direito. Perguntei se estava tudo bem. todos o cumprimentaram com muita consideração e alegria. Quando saía da vigilância. deixava arrumado e ia buscar comida para seu companheiro.. como ele costumava dizer. O Hugo da cantina me contara. comecei a arquivá-las. seu Doca. pôs em cima do arquivo e assoprou em voz baixa: — Um dos que foram cantar para o governador não retornou. Por algumas horas. Quando começou a explicar que as coisas no sistema estavam complicando. O que ficava geralmente enlouquecia. O Chaves se aproximou com mais algumas na mão. 1m 65 de altura. afinal não custava nada. o serviço social já tinha me avisado que só podia reivindicar visita à família depois de ter cumprido um sexto da pena. Houve casos de o diretor autorizar a visita. fique quieto em seu canto. Perguntei se podia fazer alguma coisa e obtive como resposta: — Pode sim. Saí da vigilância às onze horas e só retornei um pouco antes de acabar o expediente. com embalagem e tudo para não sujá-lo. A entrada dele no recinto deu um clima diferente. Parece que era aniversário dele. Todos lá pareciam estar se divertindo muito. 292 Estava estudando o requerimento. Como havia umas fichas em cima do arquivo. o caso do interno que não retornou depois da apresentação para o governador não teve muita .

antes de entregá-la. Vinha carregada de pacotes com frutas e outras coisas que não tinha na cantina. por causa da revista nas mulheres. enrolava-os um a um em jornal. mas. Humberto e João me esperavam. envergonhado. isso o fará sofrer muito. No dia seguinte. que só o recurso podia me ajudar. A comida era o fim do rancho do dia. telefonei para Humberto e pedi desculpas. Lambreta foi preso e arrastado de volta acorrentado e apanhando. não dava para o camarada deitar ou sentar por muito tempo. O dia seguinte foi ponto facultativo. depois veio para Lemos de Brito. A entrada era por cima. quando se está lá. o desespero é tanto que se faz perguntas absurdas. portanto uma única refeição." No fim do dia. Foi direto para a solitária. Foi assim naquele dia e seria sempre até o fim. Eu já estava farto de saber aquilo. Começo de pena é o pior momento de todos os piores momentos. tive o testemunho da brutalidade da vida naquela prisão. Os visitantes tinham de fazer duas filas. Humberto balançou a cabeça e me devolveu. Para me livrar dele tive que lhe dar um esporro e sair avisando para que não tentasse me acompanhar. Desci e o inspetor me acompanhou até eles. relator. um crente se aproximou para tentar me convencer a participar das reuniões de sua igreja. Marilena apareceu e fiquei aliviado. para ver se tinha direito de ir a Brasília. Seu pai e sua esposa estarão aqui. Estava tirando os pacotes de sua mão e papai apareceu. que foi transferido para o hospital penitenciário. mostrei a eles o requerimento natalino. Mas não tive sorte. que eram feitas pela Polícia feminina. Com aquela mistura salgada. Faça as contas e espere para reivindicar seus direitos na hora certa. Era sobre sua volta ao presídio da Ilha Grande depois da tentativa de fuga. os castigos e a sobrevivência. que acompanhava tudo de lá. com cimento misturado com areia. a tudo falta muito. dizendo que aquilo para mim não valia nada. "Nesta madrugada. Havia três portas. uma sensação de que ninguém iria aparecer. as caçadas aos fugitivos. Voltamos a falar do recurso e aí fiquei mais frustrado ainda. As fugas. escarrava no prato e ria. em pé. saiu tão doente da solitária. depois das férias forenses. a vigilância não abriu e eu fiquei parte da manhã pensando e registrando uma história que Lambreta me contara na noite anterior. Um pouco antes da visita estava tenso. o Hugo. como num poço. deixariam Papillon com inveja. pois seria julgado só em março. perto da inspetoria. a três metros de profundidade. mas como era ponto facultativo me fez essa gentileza. era servida por uma bicha recalcada que. que só os conservava secos por uns dez minutos. não liga. não era seu serviço. "Ao tentar fugir. Os meus visitantes sabiam disso e foram pacientes. Eu sabia que não adiantava nada ser mal-educado. desci para caminhar um pouco. Para guardar os cigarros que os companheiros mandavam. ria: — Essa turma é fogo. uma para os marmanjos e outra para as damas. e me aconselhou: — Não se iluda. conversei com o padre Bruno Trombeta da pastoral. E assim mesmo tinha de passar pelo desembargador. fui avisado que meus advogados me aguardavam. eles não tinham culpa. Chamaram meu nome pelo alto-falante e só aí pude ir ao seu encontro. Segundo o Lambreta. conversando com Lambreta mais uma vez sobre a Ilha.repercussão nos jornais. afinal amanhã é sábado. lá no fundo do pátio da cantina. Num desses dias que estava com o saco muito cheio. que era cavada na areia. Por mais que eu explicasse que não tinha interesse. segundo ele. As paredes e o chão eram cimentados. sendo que a segunda era de ferro. Quando cheguei na cantina puto da vida. tudo está muito longe. Só os internos se divertiram com a história. Uma tarde. que era uma pessoa que procurava ajudar a todos. perto do portão de entrada de mercadoria. Antes de entrarmos em qualquer assunto. Ela ainda teria de trazer seu cartão até a inspetoria. Também. esperando Marilena e papai aparecerem. uma das várias que existiam lá. onde permanecia. Fiquei 294 tão desanimado e de mau humor que larguei os dois ali e voltei para o meu cubículo. . ele continuava com sua ladainha.

que lavava e passava minha roupa. Ninguém sabia exatamente onde ele se encontrava e em todos os cubículos que estivemos havia dois ou três internos na porta. Ele foi claro comigo: 296 — Se o Xane mandar. eu não vou mandar fazer bolo nem acender uma velinha. O dia em que fui procurar Xane. a insegurança que este túmulo de vivos me dá. Outra coisa que chamou minha atenção foi a postura do Xane. Bom. havia três internos conversando. — Finalmente o encontramos deitado num colchonete. Quando perguntávamos por ele. Principalmente eles. Ela não acreditava no que via. quem está aqui nunca está sossegado. um isopor profissional.. mas as filas iam atrapalhar. um pouco mais acima. que não fazíamos a menor cerimônia com ele. mas estava de sapato de saltinho. e a esperança é que não estejam fazendo isso com a gente. Bom. por exemplo: tinha ficado combinado que o procuraria quando já tivesse idéias sobre quem procurar para angariar presentes para a festa de Natal das crianças. seus beijos envergonhados pela presença do papai. uma sacola que comprara no pátio. tem de andar o tempo todo vigiando tudo. com as emoções estabilizadas. Depois fomos até a 295 cantina comprar uma Coca-Cola e mostrei a Marilena um interno. agora não passavam de lembranças. e foi para o cubículo número tal. Ao voltarmos para a mesa encontramos papai conversando com Pira e sua mulher. E. fumo etc. Só trinta dias haviam se passado e eu já tinha visto tudo isso. é claro. feita de rede. na parede em frente. dependurada num prego. Já o conhecia. pelo menos uma vez durante o sábado ou no domingo. com mexericas e maçãs. que achava mais fácil falar com as pessoas por telefone. Durante a semana ele não aparecia nos pátios. Pois bem. os profissionais do crime. é de enlouquecer qualquer um. uma lata de bolachas e. que só não usava saia. andando pelo pátio e depois sentados na mesa tão grudados que parecíamos um só. Tive de chamar a atenção de Marilena porque ela não tirava os olhos dele. Já estou aqui há um mês. empilhados em cima do isopor estavam alguns livros. pois o pessoal está sempre armando alguma. Realmente ele era uma moça bonita. já que aqui tem de tudo (pó. começamos a falar sobre o parlatório. Na verdade. OLHO O CUBÍCULO. depois de alguns minutos. Marilena e eu. a Baiana. com seios e cabelos compridos. ele continuou deitado de lado com o cotovelo dobrado e a mão segurando a cabeça. Fiquei olhando aquelas coisas que me faziam lembrar de Marilena. um dos que estava de guarda entrava no cubículo e saía dizendo: — Ele estava aqui cochilando. SEGUNDA-FEIRA: AO ACORDAR.. mas só quando o assunto for de interesse dos internos. que era a única coisa que tinha lá. eu já tinha conversado com Pira. Ouviu o que eu tinha a dizer e falou: — Os orelhões estão liberados para você. ficamos bem. não posso esquecer do vaso sanitário. O calor de seu corpo. Na porta. Mas. O que constato mesmo é a dureza de encarar a realidade de estar aqui. e a Bianca. eles apareciam. Mas era fácil encontrá-las pelas galerias. também pudera. Papai ficou muito triste olhando aquele prédio em péssimas condições. jogos. que servia também de criado-mudo. também não andavam pelos pátios. as outras bichas que conhecia. e um ventilador. . o tempo passou devagar e lendo o que escrevi acho que muita coisa aconteceu. Entrei sozinho no cubículo.também trazia alguns pacotes. eu aqui esperando ansioso e eles cheios de pacotes numa fila quilométrica. A conversa foi rápida. jogo de bicho. revistas.) e só um ou dois se beneficiam do lucro desses negócios. desconfiando de tudo. No começo a visita estava meio tensa. Aliás. claro. abraçada comigo. A visita deles à minha mesa seria uma constância. QUE AGORA Tinha um colchão de viúvo. agorinha mesmo. toda vez que você quiser o Cuca vai junto e não terá fila. Ele esteve na vigilância à procura de informação sobre visita à família no Natal. o Cuca e eu estivemos em mais de cinco cubículos para achá-lo. Fomos para a mesa e só então pude abraçá-los. Para me lembrar que era o primeiro dia da semana.

Estava guardando o bilhete no bolso. E mais louco ainda era ver as presas também comprando. que me deixou tremendo até aquela hora. Um minuto depois. O mais incrível foi ver o pessoal do Presídio Esmeraldino Bandeira. Pagavam e recebiam por uma teresa de náilon. ia abrir a porta e enfrentar mais um dia de penitenciária. todos muito excitados. em que as janelas com grades davam para o pátio onde estávamos. Enquanto esperavam ficaram conversando com a rapaziada. não tinha nada no estômago por causa dos exames. Comia arroz. Infelizmente não era preciso ir até a rua para entrar no prédio ao 297 lado. para ir ao hospital penitenciário. quando alguém segurou meu punho. o mesmo agente que tinha mandado esconder o bilhete me entregou mais um. com degraus incompletos. Lembro-me da escolta. tinham enfiado a cocaína no bolso de outro. fomos encaminhados de volta para o pátio. despedaçada. cercados por alguns guardas. As presas foram para um cubículo no segundo andar. na hora do aperto. É verdade. feijão. provavelmente só muito pobre e maltratada. Na saída tínhamos de passar novamente pela inspetoria para carimbarem nossa volta. Um agente penitenciário viu e mandou escondê-lo. — Essa morena tem uma falha nos dentes da frente. Uma hora depois. — Meu endereço para você escrever. para esperarmos ser atendidos. calça jeans e desci. Quando estava passando pela catraca.. com pedaços de paredes querendo cair e escadas escuras (que iam para aquele pavilhão). fora o susto. seu humor inquieto e perigoso. eu quase morri de medo. Levantei. ninguém entra nem sai. Depois de passar pela inspetoria do hospital. Eu sabia de quem ele estava falando. Fazia isso e dizia em voz alta. Ele ria. Voltei e fui direto para a cantina do Antônio. os que foram pegos com balinhas 298 foram encaminhados para a delegacia. com horário etc. Às dez horas já estava com outra autorização. — Revistem ele e fechem tudo. Éramos quatro para fazer esses exames. vesti camiseta. e tudo ficou muito confuso. Os internos que estavam em pleno exame foram revistados lá mesmo. do presídio Talavera Bruce). Tudo em branco e preto como num filme antigo. voltamos sem problemas. Na hora em que o inspetor me segurou e começou berrar "revista ele". Isso daria continuidade ao pedido de visita íntima que estava fazendo.. mas não de mudarmos de prédio passando pela rua (não esqueceria isso). que tinha conseguido entrar com papelotes de cocaína (conhecidos como "balinhas"). Ouvíamos o berreiro das mulheres no segundo andar.Sabia que. Acho que passamos por um portão que dava direto no hospital. Olhei assustado e vi o inspetor. . para identificação. fomos levados para um pátio. Uma delas me chamou e jogou um papel dobrado. estava morrendo de fome. porque ali estavam também umas vinte presas que vinham de Bangu. bati uma autorização para ir à enfermaria e fiquei esperando o chefe chegar para assiná-la. ela sorrira para mim na fila. onde estivemos anteriormente. é em branco e preto. como do Esmeraldino Bandeira e do Água Santa. além de estar olhando para aquela moradia destruída. Nós quatro. Tivemos de tirar os sapatos e abaixar as calças e as cuecas. a do médico. Puseram a gente encostado na parede e nos revistaram minuciosamente. da Lemos de Brito. seu alvoroço. Não era feia. Finalmente chegou minha vez e fiz os dois exames. esperamos meia hora por uma escolta e seguimos em frente. vendendo-os para os internos do Água Santa. que ficava ao lado. sempre que lembro da Lemos de Brito. senão teria de tirá-lo de mim. e de pegar uma senha (em uma fila em que havia presos de outras unidades. Passei pela vigilância. quase imperceptível. Já tinha ouvido histórias de internos que. fazer exame de sangue e tirar raio X dos pulmões. muito fina.

Apesar de sua pouca idade. meu moral estava bom.. segundo os noticiários. sem sono começo a escrever sobre o dia de ontem. constatou que. era hora dos noticiários. Aí. Claudia e Adriana já tinham me escrito cartas muito carinhosas. Depois. Fez que sim com a cabeça. Depois do almoço subi e me deitei um pouco. perguntou: — Está procurando isso? Ele tinha anotado apenas "procurar cubículo em galeria de parlatório". são seis horas da manhã. dizendo: — Dr. me abria com ele. batemos papo. fui para minha mesa escrever algumas cartas. De posse dos exames e desses documentos. Contente com o resultado daquele dia. Depois. Em seguida me mandou à sala do diretor. Você já mudou de cubículo? Como isso não tinha acontecido. o telefone do Waldique tocou. Para o Raul eu escrevia sempre. os documentos teriam sido engavetados. fiz o mesmo na casa de minha mãe. com os dias que estava lá. realmente. mais o tempo que eu tinha passado nas duas outras unidades do sistema em 1977. ele curtia sentar e ficar assistindo. O diretor comentou: — Ela não está acostumada que eu me meta nesses assuntos. escreveu algumas coisas num pedaço de papel e desligou. Afinal. Ela demorou um pouco e quando apareceu e recebeu todos aqueles papéis. Aqui acho que chegou aos 42 graus". que conhecia todos os trâmites. porque lá onde eu estava de verdade era meio complicado. eu saberia achar as palavras certas. Despedi-me dele e de Humberto e saí. pensei na minha cama e imaginei mamãe entrando no quarto para me ver. adivinhei que eram os documentos que estava esperando. passou de 39 graus. talvez não tenha gostado de ter recebido os documentos da mão do diretor. Patrício me olhou. Humberto está lá com ele. eu só teria de mudar de galeria. Acordei com Lambreta batendo em minha porta. Pôs tudo de volta no envelope e saiu. que deveria providenciar os documentos que provavam minha permanência na delegacia de Cabo Frio e nos outros dois presídios. Mais ou menos dois dias depois: "5/11/1982. Depois de conferir os documentos. Como eu estava certo! Se não tivesse ido. pensando no Humberto. um deles foi o calor que. A uma certa altura ele comentou: — É incrível o seu poder de adaptação. para pôr em prática o que aprendi no Mind Control. Ele falava me olhando. Adriana e Zé eram diferentes. Dr. comentou com cara fechada: — Esse interno se mexe com muita desenvoltura dentro do sistema. Foi diferente por vários motivos. levantou-se e estendeu-me a mão. Consegui um passe com o chefe e fui até o serviço social fazer política de boa vizinhança. completamente molhado de suor. Fui direto para a mesa do Waldique. Procurei pensar no apartamento de Marilena e lembrei de cada canto. Comecei a escrever e parei. fez sinal para não me manifestar e pediu a ela que se empenhasse para tudo estar em ordem em quinze dias. a única coisa que as moças tinham de fazer era encaminhar aqueles . vi que meu advogado tinha um envelope amarelo na mão. Adormeci mas não profundamente. tomei café. lá pelas três horas. Tinha achado a chefe do serviço social esquisita. fumei. estava apto à visita íntima. queria saber o que ele escrevia enquanto falava no telefone com o diretor. Ainda não tinha me recuperado do susto no pátio do hospital. Tinha encerrado a entrevista. estaria pronto para o parlatório. respirei fundo e procurei ficar bem relaxado. Mas Cláudia. quando eu estava na vigilância. Mas aproveitaria que o dia tinha caminhado razoavelmente. não queria enchê-los com meus problemas. O diretor era sempre muito gentil. Assim que entrei na sala. Segundo Waldique. Respirei fundo várias vezes até me sentir bem relaxado.. 299 Depois mandou chamar a chefe do serviço social para entregar-lhe os documentos que tinham acabado de chegar. Quando ele me viu vasculhando sua mesa com o olhar. Algo me incomodava e logo descobri o que era. pedi a colaboração dele.bife e salada de tomate.

mas imaginava o estado em que deveria estar. É verdade que era pouco provável. apesar do medo que sentia. podiam muito bem me sacanear. ela prefere ver o diabo. tais como: enfermaria. Abriu o jogo de cara: — Vão tentar atrapalhar sua mudança. apesar de ter entregue a documentação pessoalmente. disciplina. Ela balançou a cabeça e. Voltei para o cubículo e comecei novamente a escrever as cartas que tinha interrompido. A noite.. — Ai! Passei uma noite maravilhosa. toma. Confesso que. No dia seguinte fui cedo para a vigilância. ela estava quase vazia. ele já conversara com o chefe de segurança e com o inspetor do dia). Ajudei a limpar a sala e a pôr as fichas usadas no dia anterior de volta aos arquivos. Já tinha falado com Marilena de manhã. deixei recado no seu cubículo para me procurar. por sua vez. primeira galeria. Afinal era só uma mudança de galeria. Reconheci entre eles o envelope amarelo. cubículo 7. Foi criado na vagabundagem e acredito que tinha mais tempo de cadeia que de liberdade. — Vá tratar disso. comentei aliviado que a primeira fase fora vencida e Pira respondeu: — É. discretamente. já que o Waldique era o encarregado dessas coisas. como ninguém sabia de nada. sem falar com ninguém (não era mau humor ou falta de educação.. quando cheguei ao serviço social encontrei o Pira. Não tinha a menor idéia de como fazer para pedir que me ajudassem. Fui procurar o xerife para mostrar a transferência e saber se estava tudo bem. Apareceu rindo e.. a qualquer momento poderia aparecer outro para ocupar o meu lugar. Meu novo endereço: Terceiro Pavilhão. leva isso de uma vez. a conversa daquele interno tinha me assustado. porque a aparelhagem. fui o primeiro a chegar. Dos outros três só conhecia melhor o Luiz. lá era o lugar mais seguro. acho que este cubículo está melhor que o atual. Era completamente louco. Tinha de andar rápido. Se os funcionários fossem unidos. abriu a gaveta e me entregou a transferência de cubículo. Adorava dar essas desbundadas de vez em quando.. Já estava terminando quando um interno sentou-se ao meu lado. Já estivera com ele na vigilância. que era a seção onde todo interno tinha de fazer contato se precisasse se movimentar pelas dependências não carcerárias. seus documentos estão junto com outros que só vão andar na semana que vem. . Quando cheguei à galeria. No pouco tempo de convivência naquele ambiente. então fiz o mais simples: expliquei que meu cubículo estava inabitável e sugeri que me deixassem ser o portador dos documentos até a disciplina. 301 Waldique chegou. desci para comer alguma coisa numa das cantinas. porque tinha uma reforma para ele fazer. Contou-me várias vezes que conhecia a Lemos de Brito desde menino. corria riscos enormes. já tinha assistido a tanta sacanagem que não dava para ter certeza de nada. Os outros três chegaram e ficamos batendo papo até o chefe chegar. quando ia visitar o pai. gabinete dentário (que só tinha dentista uma vez por semana. etc. ou não existia ou tinha sumido num passe de mágica). que. essa mulher não vai muito com sua cara e com a minha então. Eu nem tinha visto a nova moradia. hospital. 300 Tive sorte. Fui à inspetoria para saber se eles sabiam do paradeiro do Português. Agradeci e não falei que já tinha providenciado tudo. era ele que abria a seção todo dia. me apontou para uma caixa cheia de papéis. Segundo ele. tive de ficar esperando o Chaves.. quis ligar novamente mas a fila era muito grande.. Assim que ultrapassamos a portaria. o pessoal ia buscarbalinhas" na seção. traficava o tempo todo e. Pira aproveitou e saiu também.. Às vezes. foi direto para sua mesa como de costume. depois do jornal..documentos para a seção de disciplina. que. daria a autorização para a vigilância providenciar minha mudança de galeria. — Antes que o diretor me cobre.

mas aceitei. fiquei olhando e estudando meus novos companheiros.. um funcionário compraria. Tomamos o café. Na segunda-feira. fechou os olhos quando ela passou. era só começar. Agora. menos o cano do chuveiro e as barras das janelas. À noite. a mudança. Todos. que eram quatro ou cinco. forte com uma postura muito séria. Ele estava 302 acabando de pintar dois cubículos e só começaria em dois dias. o lugar estava quase limpo. pelo menos à primeira vista. Parado na porta depois de responder o "confere". respondendo "presente". Pedi emprestado para o xerife uma escova de bom tamanho. À primeira vista. Isso. Um tijolo.. Tinta não era problema. Aceitei por curiosidade. quando ouvi a voz do Português atrás de mim. e chuveiro. A cozinha e o refeitório dos funcionários ficava no primeiro andar.. o interno tinha que conservar o cubículo sempre limpo e ajudar a manter a higiene. fumamos batendo papo e fomos olhar o cubículo 7. Foi complicado. Olhando de fora. Era um roceiro da região de Campos. e ninguém ficou me olhando com curiosidade. me arranjara depois de ir comigo até o cubículo e estudar o problema. apesar de contar com a ajuda do Lambreta.. Enquanto o "confere" continuava. Pus todos os meus pertences para dentro. voltei para descansar e ver TV.Ele estava fazendo café e me ofereceu. mas saía. um balde e uma vassoura de piaçava. Comi um pouco da sua comida. olhando melhor. servindo de criado-mudo. Correu água do cano onde instalaria um chuveiro. pedi um orçamento em que constasse a colocação de chuveiro e vaso sanitário. pois achei interessante seu fogareiro. assisti à TV. posta numa lata com água. quer me fazer companhia? 303 Já tinha comido. Diante disso. não estava muito diferente do outro cubículo. O Careca apareceu e ligou a antena da minha TV na antena do vizinho e me prometeu uma lâmpada de cabeceira já instalada. A privada ficou num canto e o isopor como antes. vi que tinha uma pia no canto. A tábua só foi parar lá porque o inspetor. Eu pensava. me pareciam bem. já mandei comida para o senhor algumas vezes. Era desses camaradas que todos tratam com respeito. Isso era fiscalizado pelos próprios companheiros. Fui até lá e abri a bica. então. moreno. estava em bom estado. a fervia em poucos segundos. Depois desse dia. ia lá visitá-lo e comer alguma coisa. sou o cozinheiro do refeitório dos funcionários. Adormeci e acordei com o vizinho da frente me chamando. A cozinha era muito bem . muitas vezes na hora do almoço. Depois de uma hora de muita esfregação. é só pintar. o homem estava sendo gentil. Ele falava para o xerife que em duas horas pintaria tudo. Vou jantar daqui a pouco. colocar um chuveiro elétrico e uma cortina de banheiro. chefe da estofaria. que Alfredo. Depois de comer alguma coisa numa das cantinas. de pé. O colchão era enorme e a privada deu tanto trabalho para tirar que quase desisti dela. a mesma coisa. um fio ligado à rede elétrica (que naquela galeria funcionava) com uma resistência na ponta. que era um palmo mais largo que a cama. Depois combinamos que me traria jantar todas as tardes. conversamos sobre mandar pintar a galeria. ia começar o "confere". Para manter o lugar numa das duas galerias do parlatório. na hora do "confere". embaixo da janela. o vizinho da frente comentava que a direção estava pensando em acabar com as cantinas. ele fazia doces e bolos muito gostosos. que não queria concorrência. Além disso. não em abundância. E o pessoal estava achando que o responsável era o senhor Hugo. que devia alguns favores ao Alfredo. eu iria começar o mais difícil. inclusive o colchão. queria combinar com ele minhas refeições dali para frente. A cama (original). mas.. tinha de estar lá. Tinha de começar imediatamente. Tinha matado um vizinho por disputa de terras. Tudo branco. a mesma coisa. estava tão ruim como o outro. Descobri com o tempo que era temido por todos. perto do escritório do diretor. não ia fazer uma desfeita. O "confere" acabou e o senhor que falava isso se aproximou: — Meu nome é Antônio. que. Depositamos tudo no corredor da galeria e eu mesmo lavei o cubículo. queria pintado de azul.. Adaptei uma tábua.

— O Doca já contou que ele será o próximo presidente da LEP? Como não tinha contado. acendi a luz e comecei a Pensar na reforma que ia começar no dia seguinte. cheia de pacotes. demonstrando toda a amizade e amor que nos unia. Tive meus momentos com Marilena. que tocaria novamente em cinco minutos. Meu filho estava ótimo. mas você reduz muito meu sofrimento. apesar disso. Eu também fico cansado. quando senti alguém fazer cócegas na minha nuca. trabalhando e estudando. Peguei meu bloco e escrevi. Depois. Era muito exigente com seus ajudantes. do seu amor e do carinho que me dá. a água não era muita. entendendo que não adianta ficar sofrendo. às 7 da manhã. Em seguida tocou a sirene para horror do meu irmão. Hoje sei o que é verdadeiramente amar e o quanto tudo isso é profundo. com odores de todos os tipos de comida. Depois de me despedir de todos. na sua ternura e em todo o esforço que fazia vindo de São Paulo toda sexta-feira. Quando fiquei pronto e desci. quando no fim da tarde o diretor mandou 305 . mamãe e Caco voltariam para São Paulo pelas praias. que bom que você está chegando. fico imaginando os dois (Marilena e Raul) no ônibus. com papai na minha frente. Estava de mãos dadas com minha mulher e meu filho.. sem querer olhar a galeria e enfrentar minha realidade. enquanto ele e papai foram à cantina e demoraram um pouco. ela já tinha prendido a toalha.. Despediu-se e saiu apressado para não ouvir a segunda. como preciso de você." Dobrei mais aquela página com as outras e entrei debaixo do cano com a água aberta no máximo. expliquei do que se tratava. Contou dos shows e da campanha para angariar brinquedos que estávamos promovendo. estou há algum tempo trancado no meu cubículo. tinha engordado um pouco. Você 304 me fez ver a vida de uma maneira diferente. o ambiente ali era alegre e eu gostava de ir lá. só que seriam apenas Marilena. D.. Apesar disso. todos já estão cansados. escondida para me surpreender. Agora estou aqui. Amanhã teria mais. mas ele daria um jeito. que desde criança detestava esse tipo de som. Saí da mesa abraçado com minha mãe. O Português já tinha me avisado que o cano estava meio entupido. que foi ótima com Raul contando o esforço que estava fazendo. bem beijão. que desta vez agüentou e não chorou. Quando me viu me abraçou muito. beijão mesmo. não acostumo com a partida da família. Ainda não tinha água quente porque a reforma começaria na segunda-feira. Mas. Mas não foi necessário recomendar. As horas passaram rápidas.. Quando toca a sirene terminando as visitas. com aquele carinho. Em seguida chegou Marilena e fomos para a mesa. Ontem de manhã fui andar e tomar sol. queria pedir para pôr alguns pesos nas pontas porque ventava muito.montada e ele a conservava brilhando. Convidei-a para uma Coca-Cola e depois fui para o cubículo. papai e Raul já estavam me esperando. pois foram cinco horas de pátio em bancos de concreto. mas quando os vejo de costas sempre sinto falta de ar. Quero que saiba que a amo e que só agora compreendo o que é amor. "Amor. Domingo à noite. para passar aquelas horas comigo. Olhando aquelas folhas dobradas. Pira veio conversar a respeito da festa de Natal dos filhos dos presos. Estou passando um mau bocado. Agora. olhei e vi o Caco (Luiz Carlos). papai e Raul. com mamãe logo atrás. Antes de começar a me arrumar. depois fui assistir à Baiana estender a toalha. pela rodovia Rio—Santos. fora a fila para entrar. juntei as duas páginas que tinha escrito e dobrei-as para entregar a Marilena. Um beijo. esperei que eles desaparecessem. Um pouco antes de terminar a visita. Repleta de gente reclamando. depois da visita de hoje (domingo). trancado. Você é minha força e a razão de eu querer lutar. Comecei a rir ao lembrar da sexta-feira passada. comecei a pensar nela.

porque podiam olhar parte da cidade ou do morro. Comecei ajudando o Português com o entulho. após ser sanado o problema do vizinho. é porque vai. seduziu um menino de oito anos com balas e chocolates. para falar comigo e com algumas outras pessoas. vão ter de tomar alguma providência. Ele tinha esquentado e estava pronta para comer. ATÉ CORTINA PARA SEPARAR LAVAtório. Patrício já tinha falado dele e. Ele continuou: — É. eles são meus maiores clientes. fechou a porta e me puxou de volta. Quando cheguei à seção eles já estavam fechando. Pira apareceu. dava para perceber que era um prato. dei de cara com seu Antônio. Foi só o tempo de eu agradecer pela colaboração. — Vamos experimentar esse frango lá na galeria. trazia um pacote na mão. Estávamos no fundo da galeria onde tinha um sofá de bom tamanho. no dia seguinte seria visitado pelo Português. mas está sumindo muita carne e. ao vêlo. se continuar assim. ficaria de olho no Português. e o senhor Waldique indo embora. vinha da sala do diretor.. terminando a galeria. Comemos o frango e conversamos sobre muitas coisas.. queria comprar gelo e alguns refrigerantes. Estava divagando sobre essas coisas quando bateram à porta. que eu preciso falar com você. inclusive sobre o meu amigo "banqueiro". os internos sentavam-se com as pernas para fora. estuprou-o e matou-o. dependendo do pavilhão. Isso é um absurdo. Passei antes na cantina e encontrei Hugo chateado. e as cantinas estavam funcionando. Atrás. com cara de bonzinho. que já estava avisado. 306 Fui para a seção só para dar uma olhada. tudo brilhava. onde o fundo também tinha grades. Era fim de tarde e um dos internos que trabalhava ali cumprimentou-o.. se ele mandou uma pessoa aqui.. muitos deles como seu Antônio. Mas eu ria por causa do susto que ele levou quando contei que era o Português que ia reformar minha nova moradia. completamente desinteressados. estava achando que já tinha passado um bom tempo e. no dia seguinte só pensaria na reforma. Fui eu que toquei no assunto. A tarde estava muito clara e com a galeria encerada. O "confere" acabou e fui ao seu cubículo agradecer e levar um pedaço de bolo.. Nas outras galerias. Levou-o a um lago.. MEU CUBÍCULO ESTAVA PRONTO. Ele disse: — Não deixe ele sozinho nem um minuto. Que era pouca para o chuveiro elétrico. reza e fala em Deus o dia todo. ele costuma ajudar as ligas esportivas de outras unidades. E claro. De resto estava pintado. Agora virou "Bíblia". só que naquela noite era com comida vinda da casa dele. porque o entupimento vinha do vizinho. feita por sua mulher. deveria estar chegando. Mas chamei você por outra razão. se o material esportivo tivesse de vir. Continuava preso e sem nada. o "confere" ia começar. chuveiro e vaso sanitário tinha. Contei que estava tudo na mesma. vaso sanitário instalado. Ele me confidenciou: — Os donos de cantina acham que eu armei para eles. Como sempre. Fiz alguns amigos na prisão. pia funcionando e o cano com mais água. . que só foi colocado dois dias depois. Era para eu traduzir (o mesmo estudo que o capitão Astério tinha me dado para traduzir no Água Santa). mas agora tinha quarto para dormir e água para tomar banho. Novamente eu mesmo fiz a faxina. — Esse aí. havia grades grossas do chão ao teto. depois lavei e esfreguei até ficar exausto. Sua chave ficaria com o xerife. só o chuveiro não fora colocado. Às duas da tarde a reforma estava pronta. Além do mais.me chamar para entregar um estudo sobre visita íntima que estava em inglês. ele era educado e me levou até a porta. já que era fim do expediente. Tinha acabado a semana. apenas queriam ser amigos. Eu ri e ele também. Ao abri-la. Pira tranqüilizou-me: —Você não entende essas coisas. ele vai roubar tudo. que estendeu meu prato. é cleptomaníaco. Era chamado de João do Lago. inclusive da administração e prometeu a sua família que ia ajudar. Além disso.

que naquele momento queria trazer a ONU para Sucupira. Expliquei que não tinha ido lá para isso. na última carta que me escreveu. Todos o chamavam de Bigode. o atestado para as moças do serviço social. tão carinhosa. "dormida" para cinco internos que estão com a documentação quase pronta. com um bigode enorme. sempre com barba por fazer. eu mesmo levei. mas estendi a mão e aceitei.. Para substituir os exames que ainda não estavam prontos. Seu Antônio chegou com o jantar depois do "confere". Será que o médico daria o exame? E Marilena. liguei a televisão. que seu Antônio acabou de trazer. se assustará. Isso acontecia às vezes. Foi engraçado porque eu recebi a carta de manhã e ele esteve comigo à tarde. que era vizinho dele. Com a cabeça mostrou a ponta da cama para eu sentar. protocolado.vou pedir uma "dormida" ao diretor para esse fim de semana e pedirei. Eu não tinha nada a ver com aquilo. era matador profissional e diziam que tinha exterminado uma família na região dos lagos. Depois de dar algumas tragadas. fazendo força para segurar a fumaça que tinha puxado. pude ir à enfermaria. Fiquei muito excitado com as novidades e fui para minha galeria com aquilo na cabeça. Vou pôr você nessa parada. atestando minha saúde perfeita e me autorizando a freqüentar o parlatório. 307 — Faça isso rápido. e entrei sem cerimônia no cubículo ao lado. lá pelas quatro horas. Eu até preferia. era branco. agentes penitenciários estiveram na galeria. Acendeu o baseado e me passou imediatamente. provavelmente ele ainda não tinha jantado. Cabelo liso. Guardei um pedaço para comer mais tarde e fui visitar o xerife. Transferiram um interno para outra unidade. estará instalado? Era uma enxurrada de questionamentos angustiantes que eu só conseguiria resolver no dia seguinte. agradeci e voltei para o meu cubículo. já que havia mais quatro na mesma situação. Aí. ele chegava mais tarde. dormi pouco aquela noite. sentirá medo? Ficaria horrorizada com as galerias e com o cubículo? E o chuveiro. depois devolvo o prato. Por escrito. Era um documento encaminhado ao serviço social. Assim que o senhor Wal-dique chegou. Acho que fiquei tão relaxado que adormeci e acordei à uma e 45 da manhã. Aconselhou a pedir para o médico um atestado de saúde extra. À tarde. Geralmente. Passei pelo Português. Não poderiam alegar que eu estava sendo privilegiado. Para me distrair. Ele enrolava um baseado e não se surpreendeu com minha presença. quer para você? — respondi. quando a administração desconfiava que o interno corria risco de vida. Não gostavam dele. Desliguei a TV e comecei a pensar no Raul. O filme que estava passando eu já tinha visto. Foi o mesmo 308 que ligar uma pilha em mim. Tranquei-me e comecei a assistir Odorico Paraguaçu. é claro. não conseguia prestar atenção. Não adiantou muito. Como sempre. Evidentemente. não gostava de jantar cedo. enquanto os exames não chegassem. talvez me sentisse menos ansioso. em caráter excepcional. além do mais.. meu pensamento retornou àquela tarde com Pira me comunicando sua decisão de tentar incluir meu nome e o de Marilena na próxima "dormida". Agora era só esperar e ver se daria tudo certo. caído para a frente e olhar debochado. Consegui do médico a liberação dos atestados de saúde. E o primeiro nome da lista é o seu. . ele me tratava bem e era só o que interessava. — Deixa aí. Quando acabou de passar a língua na seda e terminou o que estava fazendo perguntou: — O que você tem aí? — Frango. Novamente fui o primeiro a chegar à seção. Entregou o mesmo frango que eu tinha comido com Pira.

Nada a fazia compreender que isso já tinha acontecido. De resto tudo é rotina. me sentia estranho envergonhado. barbeado e tudo o mais. livre e inteligente. Dor de lembrar o sofrimento que causei a minha ex-mulher. por não ter sido adulto o bastante. Enquanto arrumo. já devia ter vivido o suficiente para ter evitado aquele acúmulo de desatinos. encarava a prisão como uma etapa. se saíssem era para ir ao pátio. Teriam de voltar ao pátio no dia seguinte até quatro e meia. ficavam com a porta . O que sobrou foi a dor. Mil coisas se passavam em meus pensamentos. Relógios. Mas meus momentos de desespero eram constantes. o inconcebível. quase que deu zebra. A revolta era comigo mesmo. Sábado.. à uma hora da tarde. Agora. quero deixá-lo com jeito de quarto. tinham de chegar. rádios e outras coisas que eles conseguem em consignação. Agora há pouco. é claro que ela sofreu o impacto de encontrar um corredor enorme. Quando chegamos à galeria. Os casais que tivessem autorização poderiam ir se dirigindo para suas galerias. Eu tinha 309 muito tempo para pensar em tudo isso. consegui que Marilena viesse passar o sábado e o domingo comigo. mais tarde. Tinham me informado que a chefe do serviço social estava furiosa.. disso eu tinha vergonha. Também. Era verdade.. Alguns casais levavam os filhos pequenos ou recém-nascidos. Despedimo-nos de papai e subimos com nossos pacotes. É incrível. tinha três de revolta e dor. Será que tinha direito de pensar nessas coisas? Então. um passou berrando suas ofertas". Depois de muita luta e aflições. cinqüenta de cada lado. Houve momentos difíceis. me adaptar era tudo o que eu podia fazer. anotei: "Acho que conseguirei essa dormida tão surpreendente. nas paredes imundas e nos degraus de que faltavam pedaços. eu tinha um grande poder de adaptação. E o pior de tudo. Não dava para passar uma borracha e apagar tudo. porque aquele Doca de cinco anos atrás tinha mudado muito.. que era uma mulher linda.. eu só teria direito a visita íntima depois de cumprir seis meses da pena. Estava pagando por querer mais da vida e das emoções. Muitas vezes. um nada. acho que lá o pessoal é muito pobre. Marilena subiu as escadas prestando atenção em tudo. Os valores eram outros. ou encarava e vivia aquela vida ou enlouquecia. em reconstruir minha vida. o inexplicável. Afinal. Como Marilena e papai se atrasaram. Na visão dela. limpo e me certifico de que está tudo em ordem.. Às quatro e meia. Às vezes Marilena cochichava. sai um corretor. matar. dor por Ângela. mas fica no acho.. como se define um preso? Um número dentro da sociedade carcerária. passei bastante tempo no cubículo. eu também achava a mesma coisa que o diretor. Não sei explicar. Uma pessoa que perdeu a cidadania. Na outra galeria isso não aconteceu.Telefonei para Marilena para contar todas essas novidades e. eu estava pronto. aos 42 anos de idade. No meu caso. Não adiantava tentar esquecer. Será que ela perdeu o avião? E se na hora H ela sentir medo e for embora? Mas ela e papai chegaram e passamos uma tarde normal. como quase todas as portas estavam fechadas. entra outro oferecendo mais ou menos a mesma coisa. Alguns dias depois: "Nesses dois últimos dias.. os alto-falantes anunciaram a decisão do diretor de conceder a "dormida" naquele sábado. como fazia todo dia. Não eram todos que estavam sendo ocupados naquela tarde. Revolta. quando a visita terminou. eu não tinha opção. camisas. ouço pelo corredor da galeria corretores (assim são chamados os vendedores) oferecendo coisas para vender. Assim. Os internos que não recebiam suas 310 companheiras. rotina de prisão". não me revoltava estar preso. A cada minuto de adaptação e luta para vencer e fazer o tempo passar. toalhas de rendas feitas por internos. Estava preso. por um longo período. — Estou morrendo de vergonha de seu pai. Alguns casais subiram mais tarde. entrar em seus cubículos e não ficar pelo corredor. com cem cubículos. Banho tomado. O tão esperado parlatório. a minha expectativa era muito grande. quando pensava em Marilena. vamos ver como me saio.

Marilena começaria a visita aos domingos. Com toda a documentação em ordem. rimos. Telefonei para Marilena e pedi que me trouxesse um Código Penal. que subiram. Ele estava sentado à mesa com dois pacotes da Confeitaria Colombo. Meu isopor estava cheio de gelo e refrigerantes. Os casais com crianças se ajudavam e se revezavam estrategicamente para que o outro tivesse alguns momentos de tranqüilidade. Para piorar. porque as esposas eram amigas e se reuniam para fazer as refeições juntas. Queriam me informar que tinham recebido meus exames e estava tudo bem. Cinco minutos depois estávamos (nós. poucos foram os moradores da primeira galeria. Eu sabia de tudo isso porque já tinham me instruído a como me comportar no parlatório. As dormidas eram exceção. quando a sirene tocou a primeira vez. avisando que dentro de meia hora todos deveriam estar no pátio. Deixa eu explicar: os que tinham direito a visita íntima recebiam sua companheira todo domingo. Daquele minuto em diante esquecemos do mundo. meu amor. devia vir visitá-las. só que enorme). As leis de Execuções Penais eram mais conhecidas por alguns internos do que pelos próprios advogados. "cascuda" (mais velha) como diriam os internos. com requerimentos e pedidos ao juiz. no verão. Enterrado vivo. — O que você vai fazer com isso? — Estudá-lo. que para ela estava tudo bem.. Como o pão estava quentinho (tinha acabado de chegar). porque a maior parte não sabia da "dormida" ou não teve tempo de avisar. o volume de visitantes era enorme e não dava para sairmos dali. aconselhou-me: — Você tem de encarar isso como se estivesse doente e internado em um hospital. Namoramos. esperando uma reação de medo da parte dela. quando perceber. e Marilena trouxera sanduíches. um pouco antes do almoço. Marilena chorou. No domingo de manhã. Aquele minúsculo cubículo de penitenciária virou para mim "um mundinho de carinho e amor". quando Marilena estivesse na cidade durante a semana. Como papai chegaria às quatro. mas foi um minuto. Era exatamente assim que me sentia. estará curado. fui à cantina e voltei com uma garrafa térmica cheia de café. A chefe. das onze da manhã às quatro e meia da tarde. Muitas vezes se visitavam. mas com aquela atitude relaxei. com a Vara de Execuções Criminais. Agora era lutar pelos outros direitos. os internos) em nosso túmulo novamente. Perguntaram tanto se esteve tudo bem. Aquele foi o momento triste daquelas 24 horas. o apenado tinha de estar sempre atento. a partir das onze horas. Marilena e eu ficamos abraçados até o último instante. me abraçou com muito carinho. Duro mesmo foi assistir à partida. Assim que entramos no cubículo. olhou tudo e depois veio me abraçar e dizer que me amava e não interessava onde estávamos. Um dia. conversamos e fizemos planos até às quatro horas. um de empadinhas e outro de coxinhas. reivindicando seus direitos. Eu já tinha percebido que. Telefonei para meu pai que sempre queria saber tudo. que parecia mentira que tinham feito oposição à "dormida". que contei que me sentia enterrado vivo toda vez que as visitas iam embora. brincamos. É claro que ela não conseguiu esconder sua tristeza por ver minha moradia. Oportunamente. Elas foram tão legais. o que aumentava muito o calor. . nos amamos e assistimos à TV. As telhas daquele galpão eram de amianto. O dia estava muito 311 claro e quente.. Eu estive apreensivo. mas ele tinha vindo me trazer um rádio novo.aberta e deixavam as crianças no corredor. Ali a lei era respeito absoluto. fui chamado ao serviço social. me olhou e sorriu com tristeza. Ela estranhou. levei um pouco também. no terceiro pavilhão. No dia seguinte. Marilena esperou eu passar a tranca (um ferrolho igual ao de uma carabina. Naquele sábado. que era mais experiente e estava no sistema havia bastante tempo. o clima do Rio era obsceno. Lembro-me de papai dizer que. e começou a examinar o lugar. Devoramos aquilo em poucos minutos. abandonamos o cubículo imediatamente e fomos para o pátio ao seu encontro.

a mãe e a esposa forem visitar o juiz para pedir que atenda à petição.) Fui para a seção esperar papai chegar. segundo consta. só começaria a reivindicar esses benefícios depois de dois anos e meio. quando tocou a sirene. não derramei uma lágrima. ele entendeu e ficou preocupado. Como queria ficar sozinho. Disfarçadamente procurava localizar de onde vinha. passava na frente de todos. residência fixa. — Em conversas que tive com Pira. Atravessei a porta e dei com ele sentado conversando com Waldique. me abraçou. agradeceu muito ao Waldique e foi embora. que chegava em cima da hora e ia para o primeiro lugar da fila. se ela pudesse. isso nunca. depois de revistada pelas agentes penitenciárias. a trabalhar fora. um meio degrau. Marilena se emocionou. com fotografia e tudo. a esposa do Pira. com a documentação em ordem." No sábado. Era um pontinho de nada.. tirou Marilena de onde estava e a carregou com ela. de ônibus. ela recebera a credencial de visitante companheira. Nenhuma das mulheres da fila reclamou. para diante de uma condenação de quinze anos. voltando à noite para dormir. as bolas que usavam tinham sido doadas por mim. não precisava mais do Cuca. "Marilena e eu já sabíamos que. o vento que produzia era morno. 22/11/1982. que conquistava todo mundo. agüentei firme. Que bom. mas eu. Foi das primeiras a entrar. ligar o ventilador ajudava pouco. Eu continuei expondo meu ponto de vista para que ele e Marilena pudessem me ajudar. E se nessa época. De novo. pudemos curtir nossa intimidade. se eu o descobrisse. Era meio desanimador. depois de cumprir um sexto da pena. Eu estava muito excitado. O calor daquela semana foi terrível. trabalhar na prisão. com Waldique e com a chefe do serviço social. fechei a porta . Mas. mais uma vez.o outro tinha quebrado na mudança. Naquele domingo. os pátios estavam cheios e havia futebol nas duas quadras. dona Renata fez e pronto. Anotações: "O fim de semana chegou e no domingo (ontem). esquecer do mundo e de tudo em volta. me entregou o rádio. (É incrível estar preso. Assim mesmo. Os dois se encontraram na entrada e o chefe o convidou para tomar café. poderia tomar cuidado quando aquele indivíduo estivesse por perto. Todos se arrastavam pelos pátios e galerias. sempre que conseguia marcar um ponto no sistema. e para chegar à rodoviária foi de metrô. "Descemos e lá estava papai novamente com um piquenique. Mas. "O esforço que Marilena fez para não faltar neste fim de semana foi espantoso. verifiquei que os presos têm alguns direitos. ele concede os benefícios. Se novembro estava assim. recebi o Código Penal. Como o material esportivo que pedi ao "banqueiro" ainda não tinha chegado. Saiu de São Paulo na sexta-feira. em noventa e nove por cento das vezes. os dois começaram a fazer contas. teríamos um tempo só para nós. um dia antes. Conforme eu tinha pedido. Marilena esteve aqui a partir das onze horas. O próprio sistema encaminha ao juiz essas informações e. depois do "confere". Ele não podia ficar muito tempo porque tinha hora marcada com Evandro. não que eu quisesse revidar. deitei para ver TV. o pai. depois dessa explanação. porque Renata. Não dá para descrever exatamente a angústia que sentia e a alegria de cada conquista. cedo.. não queria pensar no resto do verão. o interno só tem de fazer uma petição. internos e guardas. começa a ter direito de visitar a família no Natal. Papai achou esquisito o meu interesse. Exemplo: se o interno tiver família. tiver bom comportamento e for primário. Bom. Alguns faziam piadinhas do tipo "esse cara banca a prisão inteira". pelo menos uma vez por semana. Isso aconteceu várias vezes comigo. Com um terço. Quando eu chegava aos orelhões pela manhã. depois de eu explicar que queria estudar 313 com profundidade o artigo 121 (crime de morte) e a minha sentença. A dedicação de meu pai era 312 tamanha. Apenas abracei-a muito e lhe entreguei uma carta para sua filha Cláudia que aniversariava.

Ele achou que eles não podiam estar mexendo em presentes que tinham sido doados para a LEP. Três bicicletas. pelo que eu entendi. quando conheci melhor o sistema. Uma santa. Para completar o dia. à noite não acendia a luz para não esquentar o ambiente. que conseguiu fazer uma movimentação de cubículos e colocar parte deles na quarta galeria. Acabei de fazer isso. mas o ambiente estava diferente. Eles diziam que ia sumir tudo. redes para as traves. eu estava sossegado. todos eram chefões. duas televisões e outros brinquedos a que na época não dei importância e não anotei. estava providenciando alguns presentes para serem distribuídos durante a festa. Tudo novo. Tenho de escrever líderes. Os nomes de Elba Ramalho e Elke Maravilha estavam em destaque. 291182. Passado algum tempo assim. Refrescava. Mas. Aquilo causou a maior discussão porque os guardas retrucaram que tudo ali era meu e estavam só olhando. Mas me valeu uma sinusite fortíssima. como os internos que trabalhavam lá contaram que havia doações de bicicletas e televisões para serem sorteadas na festa. tinha informações de que minha amiga. mas fez um comentário que era bem o seu estilo: — Que bagunça extraordinária. 314 O pátio já tinha avisos sobre a festa de Natal. O meu cartaz com os líderes estava alto. o corpo esfriava e a gente se sentia melhor. só com o ventilador ligado e mais nada. era um burocrata competente. fiquei entrando no chuveiro e indo para a frente do ventilador. é verdade. que me maltratou muito. Os dias que se seguiram foram terríveis. fizeram uma desordem danada e passaram para outro cubículo. Infelizmente. escrevi que encontrei Pira preocupado. Para encurtar a novela: fiz uma doação por escrito para a LEP e os presentes saíram do serviço social e ficaram expostos no auditório para que todos pudessem ver. em pouco tempo todos ficaram sabendo e comentando. Segunda-feira. como pude constatar depois. ficar bem quieto e não se mexer em hipótese alguma. porque naqueles últimos dias tinham vindo da Ilha alguns dos internos mais conhecidos da massa carcerária e. mas não eram fora de propósito. Fui chamado ao serviço social para receber as coisas que minha amiga mandou da sua loja em São Paulo. nos primeiros dias de calor intenso. bateram com força na porta. É verdade que ele se destaca. inclusive televisão. Algum tempo atrás. alguns pares de tênis e duas bolas de futebol. Quando Pira foi olhar os presentes. Apareceu cinco minutos depois com seu irmão mais velho e sua sobrinha Maria Zélia. olhei pela portinhola. papai e Marilena. para ver do que se tratava. Na época.e passei a tranca. Já estávamos no último domingo de novembro. Vieram seis jogos de camisa. Olhava para aquilo tudo com tristeza. O serviço social pôs tudo numa sala e ficou como depositário. o calor era tanto que as paredes suavam. Meu tio estava impressionado com o estado do prédio. sair e esperar do lado de fora. que hospedava os dois. Andam todos juntos. encontrou alguns agentes penitenciários tentando abrir uma das caixas para ver um dos aparelhos de TV. eu. para alegria dos marmanjos. dona da loja de departamentos. Revistaram a galeria inteira e foram embora sem encontrar nada. o calor não dava sossego e a sinusite também não. eu ainda não tinha mudado de . o material esportivo que pedi para meu amigo "banqueiro" também chegou. Eram seis guardas mandando eu abrir a porta. Os comentários eram incríveis. Dava para fazer seis times de futebol de salão. inexperiente. Marilena e eu fomos para o pátio às quatro horas e papai ainda não tinha chegado. que seria realizada no domingo anterior ao dia 24 de dezembro. Reviraram tudo. O ideal era deitar. Tinha trabalhado a vida toda no governo. 315 inclusive Pira. Ele falou pouco. Antes de abrir. ligado à indústria e comércio do país no exterior. A chegada desses presentes causou certo rebuliço e preocupação. essa minha prima. Quanto ao que se referia às crianças.

ele obteve parlatório de no mínimo quatro horas e "dormidas" se tudo andasse bem. embora fossem seus companheiros de longa data e pertencessem à Falange Vermelha. tais como mortes e rebeliões. na época em que foi preso de confiança e morava extramuros. dentro do sistema. É tudo estranho e. Água Santa. que de certa maneira o enfraquecia. perigosíssimo. e a chegada do pessoal da Ilha. Também. Eu não podia avaliar a razão de suas preocupações. "Amanhã (sábado). junto com os internos. Numa tarde em que Pira esteve no meu cubículo e estivemos conversando sobre a festa e sobre o torneio de futebol que ele estava pensando promover. Há momentos em que chego a pensar que o mundo desabou na minha cabeça.. papai. o prédio estava em péssimo estado. aliás. eu escrevia estas coisas: "Ando por aí feito um zumbi. conseguiu a transferência de um agente penitenciário para outro instituto. porque acabava com seu poder absoluto. além do mais. muita gente jurada de morte etc. desse jeito moroso que desanima qualquer um". em 1661987.. Todo este tempo eu estive. Na última semana.: Numa das revisões que fiz em meus relatos.. . um dirigente quis fechar a Lemos de Brito. além do mais.galeria. havia dois anos não ocorriam problemas sérios na Lemos de Brito. Não estou conseguindo me controlar. pareço um pintassilgo novo de gaiola. Não consigo entender nada. Ele desviou o assunto. Sei lá. Enquanto dr. Luiz Carlos e de quem mais aparecer para me visitar. Mas agora dois fatos o preocupavam. Sua filha mais velha.. a mudança de governo que ocorreria em poucos dias (e com toda a certeza o dr. Percebia que ele tinha muita força com o diretor. de Marilena. Vai ser aqui. Adriana. pois não tinha a menor segurança. na época em que assumiu a casa. do quanto ela era linda e que tinha sido feliz lá. Naquela tarde durante o papo me contou estes fatos: havia algum tempo. as coisas começaram a mudar. essa é uma outra história. está chegando dos Estados Unidos. Raul. o dirigente achava que o lugar era um caldeirão prestes a explodir. mas falou sobre a Ilha. O pior é que estou infernizando a vida de todo mundo." Era um momento terrível para mim. ele estava preocupado com a presença deles. que eu possa fazer para sair daqui. Depois do impacto da chegada. e assumiu o compromisso de. com a chegada do pessoal da Ilha. (Estou escrevendo o que ouvi e anotei naquela tarde. Em contrapartida. pois todo meu controle eu gasto aqui dentro. Ele só tinha me dito que as coisas estavam complicadas e que às vezes ficavam muito difíceis. Patrício seria substituído). não terei Marilena. Bom. dentro da lei. o prédio tinha passado por algumas reformas e não tinha havido mortes. Percebi que. 316 (Obs. comentei sobre o pessoal que tinha acabado de chegar da Ilha.) Segundo Pira. mais desesperado ficava. Tudo isso era comentado à boca pequena. A delegacia. aos sussurros. O diretor inteligentemente não fazia nada sem consultá-lo. esses tribunais superiores não vão me deixar sair daqui. Foi nessa época que Pira se comprometeu a acabar com as brigas de quadrilhas e com as mortes. May. reformar o prédio. segundo Pira. não acredito mais em recurso nenhum. Parece que foi o dr. Mas.) Os dias iam passando e quanto mais eu compreendia o quanto era complexa a sociedade a que agora eu pertencia. Por que deixariam? Eu não cometi um crime? Não fui idiota o bastante para fazer isso? Minha luta nem começou. Havia muitas brigas de quadrilha. logo após a troca de governo. Patrício. Patrício esteve na direção daquela penitenciária e Pira de olho nos internos. escrevi: Pira era o dono da cadeia. sei lá. e com a mudança de administração do Desipe (Departamento do Sistema Penitenciário). (Não vai aqui nenhuma crítica. Edgard Costa e os cinco anos de espera por dois julgamentos não tinham posto meus pés no chão. lá pelo dia 11. Uma delas foi a troca do diretor daquela casa. No fim da primeira quinzena de dezembro. segundo comentários. o impacto de começar a entender o emaranhado daquilo tudo. mamãe.. desabou mesmo. tinha pouco tempo de sistema.. esteve tudo razoavelmente bem. Não há absolutamente nada.

que nunca segurei uma arma em toda minha vida. como comida caseira. e tudo o que eles recebiam. Não tenho vergonha de dizer que tinha medo de ofendê-los. curioso. Ele achava que tinha sido dedurado. foi à janela ver o que se passava. Lâmpada. Mimo (educado. Segundo ele. Começou a ouvir sirenes de tudo que era lado e. Alguns internos ficaram tão encantados com aquele esporte. Uma semana depois. Se inscreveu e saímos para andar um pouco. Jogava até a exaustão.k. ele era educado e agradável. Uns tempos depois. ia batendo e rebatendo a bola com toda a força.. Era muito engraçado ouvi-lo contar esta história: ele estava em seu apartamento (não tenho certeza se era na Viera Souto). Uma vez emprestei dinheiro para Pira comprar uma televisão igual à minha. fizeram requerimento. nunca tinha usado tóxicos. o que dava na ida e na volta mais de 130 metros. porque podia jogar sozinho. seu interesse era estritamente comercial. porque trabalhava sozinho. gostava de conversar com o padre e. ele pagava pedágio em "mercadoria" para a Falange deixá-lo em paz.. que fez amizade comigo. eu dispensei o pagamento. inteligente.. que sempre estava cheio de refrigerantes. Jesus fez exatamente a mesma coisa: pediu dinheiro para comprar aparelho de televisão. Nunca esperou que aquele barulho todo fosse por sua causa. então começamos a fazer isso em dupla. esse pessoal que estava todo lá entrava em meu cubículo e se servia do meu isopor. eu aceitava mais por respeito a eles do que por vontade de usar. Verificou que o quarteirão estava cercado pela Polícia. e tudo estava claro. A campainha tocou e ele foi atender. a pena dele era grande e já tinham confiscado vários bens que possuía. que tive de doar as raquetes para a LEP e pedir à Marilena que trouxesse outras. nunca tinha tido contato com a Polícia. Abriu a porta e foi empurrado para o meio da sala por vários policiais de metralhadora em punho. Era um dos dois campos de futebol e eu ia para lá na hora do almoço. alegando que era em agradecimento pela sua ajuda. Em poucos dias fiquei conhecendo e fiz camaradagem com alguns dos que tinham acabado de chegar: Jesus. Muitos já tinham recebido a informação de que estava tudo o. comiam meus doces e frutas. As raquetes de madeira que Marilena me trouxera eram as melhores e muito vistosas. luxuosíssimo. Uma das pessoas que foram se inscrever foi Chico Tonelada. também adorou bater paredão. Esses últimos. Nos dias seguintes viria visitar a vigilância uma promotora da Vara de Execuções. Como já escrevi antes. sem fazer a menor cerimônia. quando me disse que me pagaria dentro de alguns dias. inclusive o apartamento. até ser preso. É verdade que pouco tempo depois.voando perdido. logo eu. Tinha caído num grande poço. apesar dos crimes muitas vezes hediondos . Só agora eu enxergava. bolos. Todos os internos que já se achavam com direito de visitar a família no Natal. Como também não me envergonho de dizer que tinha amizade por Pira e Jesus. Jesus. 318 Houve muito estardalhaço pelos jornais. A extensão que eu podia percorrer era enorme. O encarregado da lista era eu. para atender e entrevistar internos que estavam em dúvida se já tinham esse direito. Eu nunca sofri esse tipo de pressão. e também recebeu o mesmo tratamento. me ofereciam. pó e fumo. 317 Quando esse pessoal chegou. eu já tinha adquirido o costume de bater paredão no pátio 3. Paulo e outros. andando para a direita e depois voltando. — Imagine o susto que levei. que também mantinha ótimo relacionamento comigo. Segundo comentavam. que dava para o morro de São Carlos. só parava quando. com paredes que eram puro limo. quando me mudei para a quarta galeria. Também era verdade que ninguém chegava perto de mim. começava a mandar muitas bolinhas de tênis por cima do muro. E a grande parte teve o pedido negado. muito perigoso). Fazia grandes transações e.. já sem controle nos pulsos. um por andar. Quem quisesse falar com ela teria de pôr seu nome em uma lista.

Marilena já conhece. eram datas que não festejava. Além disso. Fizeram rifa. O que preocupava era se dois ou três de porre fizessem arruaça. de amor e de devoção. É bem provável que a bebida fosse deles. Eram duas turmas de pintores. Hoje. 121282. não há nada mais de que eu possa me envergonhar. Havia angústia para todos os gostos. venderam números. Falou de paz. Achei fora de hora. Como estava caminhando naquela direção.. Vi Pira no canto da quadra. distribuirão presentes. poderá até morrer. boas. comandada por Jesus. fiquei andando. eu tinha acabado de completá-los. (Talvez eu estivesse enganado. uma vinha com uma garrafa de cachaça.. o prédio estava no capricho. Fora esse trabalho todo. Como é possível? Ele bate paredão comigo todo dia.) O fim do ano me deixava triste e tenso. Isso deixava Pira preocupado. ia até a rua e voltava com tinta a ser misturada do lado de cá. essas coisas. As galerias foram liberadas aos 319 visitantes e familiares. Não que o cara da guarita percebesse. Domingo será a festa.. angustiados porque bandido que é bandido sai e não volta. mas foi em outra penitenciária e dois anos depois. entretido com as meninas do morro (aquele que eu via.que cometeram e contaram sem remorsos. lá dentro. senti suas mortes. puxando briga de faca na mão e. Fez um sermão bonito e desejou feliz Natal a todos os internos e a suas famílias. que amarrava na ponta de uma corda uma lata de tinta vazia. Quarenta e oito anos. enfeitaram-na toda. Inclusive a portaria da rua. porque já estava com 48 anos e mal via a bola. no fim da tarde. Outros. chegaram Xane. Que ficaram ali e tomaram conta de tudo até o fim. Outro que me dava com ele e mataram foi o Gordo. tudo bem. a semana passou bem. Eu tinha gostado do papai na entrevista. As bicicletas e TVS serão sorteadas. HA! Os muros e guaritas também foram pintados. Os dois morreram pela vida que escolheram levar. segundo ele. tentar jogar futebol e andar muito. acho que aquela visita não foi em boa hora. Fui caminhar no pátio 3 e acompanhar o pessoal pintando o muro. um rolo de que eu nem quis saber e muito menos averiguar. Tinha descido para bater paredão. Eu já estava tão cheio de conversa que nem me entusiasmei. gesticulando bravo com um dos pintores.. mas não da entrevista. trazia notícias.. do meu primeiro cubículo na sexta galeria).. me aproximei.. Quando morreram tempos depois. o cardeal Dom Eugênio Salles esteve aqui e rezou uma missa no auditório. Com esse negócio de bater paredão. Batendo o olho de repente. Os jornais de hoje noticiam que a Polícia descobriu um túnel na Ilha e que tentaram uma fuga em massa. O sábado e domingo sem Marilena foi esquisito. Humberto veio me visitar. Ele gesticulava dando ordens. Um dos desembargadores tinha reconhecido irregularidades no corpo de jurados. Alguns internos angustiados esperando sair no Natal. Pintaram as escadas. arranjaram até uma árvore de Natal de bom tamanho. Enquanto eu conversava com ele. Essa semana foi incrível. fiquei o tempo todo com a impressão de que ela ia . consertaram e pintaram toda a fachada do prédio. na época tive a impressão de que a entrevista foi feita só para faturarem 320 mais algum. mas no duro estava se divertindo. Sexta-feira. Ainda por cima me irritei porque ele trazia uma revista Manchete com a entrevista do papai. Escrevo tentar jogar. queria que deixassem minha família e aquele assunto quietos. os mais velhos e de confiança pintavam lá fora. Voltando se dará mal. mas. tudo se negociava. Será que mamãe e Raul virão? Se vierem e quiserem visitar a minha galeria e cubículo. Todos ficaram muito atentos a suas palavras.. porque fazia parte de suas vidas. De cada quatro ou cinco vezes que a lata ia e voltava. Reformaram a quarta galeria. afinal. A lata subia. como o muro estava impedido. Jesus e Paulo. Bom. melhorei um pouco meu ânimo e muito meu estado físico. acho até que ele não estava querendo olhar para aquele lado.

que estavam falando só sobre aquilo. deu o maior rebuliço. Cláudia. No meio da semana. já que não tinha direito a nada.. Jesus. eles ganharam duas. quando acabou a distribuição de brinquedos. Fui até lá e fiquei quieto na minha mesa. Ele ficou sentado comigo esperando a vez. a promotora da Vara de Execuções apareceu para ouvir e tentar ajudar alguns internos que não tinham conseguido autorização para visitar a família. porque durante a missa a voz do cardeal sumiu. Falavam a respeito do pessoal que iria sair no Natal. O Careca tratando da parte elétrica do auditório. principalmente quando Raul me abraçou e chorou. tinha de ir à penitenciária. uma hora antes de começarem a sair. como suas penas estavam se extinguindo. aos menores de idade e até às crianças. uma também saiu para um da turma. Ao se apresentarem em outras unidades teriam de argumentar que era impossível voltar. Apesar de ter muita gente. e o mais velho. Ouvi aquela conversa. acompanhados de um parente. e o Chico estava lá me esperando. Eu tinha decidido não assistir ao show nem acompanhar os sorteios e distribuição de brinquedos. o senhor causa muitos danos à sociedade. — E o senhor. Logo depois do almoço mandou me chamar. Até o Waldique já tinha ido embora. pelo menos de fachada. mas. Doía pensar nos meus filhos. Das três bicicletas. os que foram aprovados pela Vara de Execuções poderiam sair. mas não acreditei muito. 321 21121982. porque correriam grandes riscos. Depois de fechar a seção fui deixar a chave na inspetoria. Adriana e Raul. e Admílson. para esperar lá o complemento de suas penas. porque . Descobri mais tarde que o pessoal da Falange tinha tido muita sorte nos sorteios. Alguns eram assaltantes de responsabilidade e não poderiam voltar. injustamente ou por falta de algum documento. Paulo. Eu sabia que ela estaria lá e não fui à seção de propósito. que acabara de chegar do Água Santa. só nós três ficamos na sala. Os pintores dando mais um retoque aqui e ali. Eu não entendia por quê. o momento crítico foi a despedida. Até às onze horas. Ela perguntou pelo nome completo (já estava com a ficha dele na mão). não quer visitar a família? Respondi que ainda não tinha direito. Mãozão. se despediu dela e saiu sem olhar para trás. O último nome da lista era o do Chico Tonelada. deveriam se apresentar numa prisão aberta. Estavam todos com cara de santo e. Ela olhou para mim. geralmente era alguma armação. havia gente se movimentando para todos os lados. estiveram aqui. Num certo momento. Ele se levantou. Os internos queriam me homenagear por causa das doações. — Você viu? Aquela mulher me odeia. quando fui bater paredão. também recém-chegado. Mas. Peróska. mas esse veio da Ilha. Aí. Maria Zélia veio com papai e lá pelas quatro horas apareceu o Grande. estava com boa aparência. Em princípio ela estava lá para esclarecer e ajudar. além de Marilena e papai. Cuca. não é mesmo? Não posso ajudá-lo. Foi um dia ótimo. O prédio. No domingo. porque todos foram ao auditório assistir aos shows e aos sorteios. tive que sair de lá correndo. mas não sei que jeito os internos deram. traficante. Só mais tarde. fiquei tão desnorteado. bagunçou tudo. A semana estava agitada. vai cumprir a pena inteira sem privilégios. então preferi não participar. Como faltavam alguns detalhes. — O senhor é aquele Tonelada.chegar a qualquer momento. No dia seguinte.. para estar comigo. Se depender de mim. A Vara de Execuções tinha autorizado só vinte saídas. porque talvez não tivessem feito o requerimento corretamente.. Domingo.. e das duas televisões. quando acontecia isso. qual é o problema? Chico explicou que já tinha cumprido tempo necessário e seu requerimento tinha sido negado. 24121982. estávamos tranqüilos. eles estavam lá no pátio 3 tomando sol. Luis Felipe mal me conhecia. hoje foi a festa de Natal dos filhos dos internos. Como sempre. olhando para o Chico: — E o senhor. O juiz já estava acostumado com esse tipo de coisa.

que brinquei com Marilena que o bairro (Estácio) iria ficar doidão. Tudo me preocupava. Termino de escrever os fatos daquela semana e como sempre termino com um recado para Marilena. papai iria fazer uma visita ao juiz na Vara de Execuções Criminais. logo após o Natal. Escrevo dessa forma porque aquele pessoal não parava de tramar. Conseguiram contornar os problemas e os que realmente tinham autorização saíram com um pouco de atraso. deu a louca nos presos. porque o juiz que tinha assumido recentemente era o mesmo do primeiro julgamento. que tem direito a autorizar a saída natalina para alguns internos de sua confiança. demais mesmo. Veio para iluminar os meus dias e tranqüilizar minhas noites. O diretor só descobriu o que acontecia porque cagüetaram. que antecediam o próximo ano. No dia seguinte cedo. com timbre do Desipe. Era exatamente assim que me sentia naquela madrugada do dia 25. Pira conseguiu do diretor a "dormida" de fim de ano. 29121982. tenho minha família e um dia sairei deste inferno". Mamãe e Marilena estavam vindo pela ponte aérea e o tempo fechado daquele jeito me afligia. Andava pelo cubículo e repetia: "Eu não estou sozinho. No Natal Marilena não pôde ficar comigo. você é o sol de minha existência. Houve festejos nas galerias. e 1983 só poderia ser melhor. estavam começando a ter confiança em mim e a me contar algumas coisas. meu amor. o espanto foi maior: três pátios forrados de garrafas estilhaçadas. À meia-noite. Tudo começou com a lista do diretor. FORA A TURMA QUE TINHA SAÍDO PARA visitar a família no fim do ano e não tinha retornado. "Em tempo: desculpe se estou piegas. Pelo menos. do chuveiro até a porta e voltava novamente. O juiz. Nunca assisti a nada parecido. Perguntei para o Hugo: — E agora? As visitas começarão a chegar à uma hora. queria ficar longe das tramas. Você. Ficaram meia hora ou mais jogando coisas pelas grades das janelas. vetou a maioria dos nomes indicados pelos diretores. Ao meio-dia. eu estava achando os internos muito quietos. O cheiro de fumo era tanto. Era tão perfeita. não queria que nada acontecesse naquele fim de ano que pudesse atrapalhar os dois dias e as duas noites que Marilena passaria comigo. mas a virada de ano passamos juntos. e eu procurava me manter distante dessas conversas. era apenas uma visita. começaram a atirar garrafas e tudo o mais que não lhes servia nos pátios. que no primeiro momento não conseguiam saber qual era a original. Aí ouve a 322 confusão. na próxima semana. para que todos saíssem no Ano-Novo. Talvez fosse apenas impressão. mas obteve dele a promessa de que iria pessoalmente falar com o juiz. Nós não acreditávamos no que ouvíamos e assistíamos. Nestes dias. mas é assim que me sinto. Ficou com os filhos e familiares. — Todo ano é assim. O pessoal que estava na lista do diretor ficou desapontado." O primeiro Natal enjaulado. assinatura do juiz etc. Tudo direitinho. já estava pronto para receber as visitas que só começariam a chegar uma hora depois. é a bênção que Deus me mandou. O ano tinha acabado. naquele ano. Papai não iria pedir nada. Duas horas da manhã. Logo nos primeiros dias. O barulho que as garrafas cheias de água faziam quando explodiam no solo era incrível. 323 1983 ESTAVA COMEÇANDO E. quando fui à cantina buscar café e pão. 311983. naquele final de 1982 e começo de 1983 nada de anormal se passara. "Amor. Olho meu cubículo em . Evandro. e o pessoal armou outra lista. daqui a pouco eles descem e limpam tudo. Isso estava ficando cada vez mais difícil. Apesar da lista falsa. repetindo a mesma manobra e a mesma frase uma centena de vezes. Andava dois passos. 25121982. não ouvia um motor de avião passando. O dia estava horrível. Tinha sido orientado por dr. eu amo muito você.o diretor recebeu 106 nomes. Ele riu. que eu tivesse percebido.

e havia um para mim. continuei comendo olhando para ele. tendo um pouco mais de ventilação. Procurei Pira. na época certa irá me ajudar a sair. Marilena foi a primeira a perceber o que estava acontecendo e me cutucou.. maltratados e provavelmente corriam risco de se machucar. Por aqui tudo calmo e espero que continue assim.. Enquanto Antônio fazia o filé eu ia explicando como era o jogo. Ouviu tudo e comentou que ficava contente em ver que eu tinha arranjado um esporte para descarregar os "nervos". está do mesmo jeito que deixamos ontem. não querendo que ninguém o festejasse para não parecer mais importante que o diretor. Já tomei nota da data e do número. Waldique me deu um documento para ler. Depois de um certo tempo. recuperado do susto. arrumando a documentação de internos que saíram e se apresentaram em outro instituto. mas ele continuou. poderiam retornar aos cubículos. 711983. Eu estava sentado em sua cama. — Que honra. Olhei-a para saber se ela podia e como sua resposta foi "é claro. Riscamos uma quadra de tênis no pátio 3 e jogamos como se faz na praia. sentando ao meu lado com uma cara muito compenetrada. Os padrinhos escolhidos eram a chefe do serviço social e eu. — Não posso cobrar do meu padrinho de casamento. ele sabia usar sua liderança. Marilena entrou dia 31 às dezessete horas e sairia dia primeiro junto com os visitantes. é muita consideração me convidar. 325 Em seguida. esperando a sirene tocar para começar as despedidas. Fui um dos primeiros a chegar ao orelhão. num fim de tarde. Fico constrangido em pedir a ela que venha passar essas datas comigo.. entrou em seu lugar a mulher do Cara de . só que a rede era uma faixa no chão com quatro tijolos empilhados para termos uma noção de altura. Na vigilância estamos tendo bastante trabalho. Eram muitos. Antes de terminar o expediente. Hoje foi o casamento do Antônio. Era uma autorização para ele se casar. falei com mamãe e com Marilena. Nunca pensei que pudesse existir alguém que me desse tamanho apoio. Tinha batido bola com Jesus e precisava repor forças. os alto-falantes anunciaram que o diretor tinha concedido mais uma noite e os casais que tinham direito. — Você ouviu? Só na segunda chamada é que tive certeza de que ela estava certa. Depois de alguns minutos ele apareceu. Mas. (Ficar com a porta trancada ou simplesmente fechada o tempo todo não pegava bem. comecei a aplaudir como todos os que tinham esse benefício. ele escutava cozinhando e preparando uma salada de tomate e cebola.. — Hoje é no capricho e por conta da casa. porque assim dá para sentir a presença de Marilena. com noiva de véu. já que o calor era de quarenta graus. preciso desses papos familiares para não pirar. Seriam chamados de "vacilões". Na última hora. ele pôs um banquinho na minha frente e colocou a comida em cima. mas a solidão aqui é tão grande que esmolamos apoio e carinho. Era o primeiro boletim do ano na parte de elogios a internos. assim não precisávamos fechar a porta. se quisessem. e alguns não tinham sido aceitos pelos diretores. e ao mesmo tempo não perdíamos totalmente a privacidade. me mostrou um papel da Vara de Execuções.desordem. Comecei a arrumar o lugar e a instalar a cortina que Marilena trouxe para a porta. Como não sabia o que dizer. 324 Ainda não pus ordem no cubículo. — Não concordei. fui à cantina do Antônio comer um filé. quando já estávamos no pátio com papai. que não pôde aparecer. meu amor". depois da "dormida" de fim de ano. é claro. Era importante uma cortina ali. em vez da chefe do serviço social. 511983. queria cumprimentá-lo. O casamento seria dentro de dois dias.) 411983. Os que voltaram tinham de ser transferidos. grinalda e tudo. Um pouco antes do fim do ano. sério. faço isso todos os dias.

tem havido abusos e alguns deles desacataram um agente penitenciário. e os presos que trabalham terão salários. ele reluzia de limpo e era como a galeria. o estrategista. segundo os boatos. no meio do pessoal que tinha vindo da Ilha. e os outros impondo o bom andamento das coisas. Eu não conseguia ficar sem algum tipo de informação porque Jesus e Pira. Todas já tinham sido preenchidas durante a noite. depois. Aquele começo 326 de ano estava agitado. Lá tinha água o dia inteiro. Ficava a seis cubículos do Pira e a quatro do Chico . revólveres. Jesus.) Os internos estão comentando que a direção vai começar a endurecer. O casamento foi às onze horas. Procuravam armas. uma semana depois. Exatamente quando eu chegava à seção. Pira. havia gente de outras facções. Lâmpada e Xane. Como tem gente saindo. todos com penas enormes. tênis sem meia e camiseta. Precisava ficar sempre atento para não estar no lugar errado na hora errada. Ganhei de Jesus um espelho que media um metro quadrado. Lâmpada etc. Isso devia ser verdade porque Jesus e os outros que eu conhecia permaneceram na casa. Segundo ele. Dizem que. deixavam escapar alguma coisa. da quarta galeria. levará a mulher para viver com ele na região onde nasceu e cometeu o crime que o levou à prisão. Assim que for posto em liberdade. agora é meio-dia e pouco. Principalmente depois que arrumaram para eu me mudar para o primeiro pavilhão. escreveu com sangue várias mensagens nas paredes do apartamento. o Filho do Polícia e o Paulistão não andavam com ninguém. tem gente entrando. O Mimo. quando cheguei à vigilância. Naquele conjunto penitenciário.Gato. Bem que Pira tinha razão quando começou a se preocupar. todo branco. Um cubículo que reformei no capricho. Também tinha ouvido falar a respeito de estarem preparando uma fuga e fora isso havia boatos de transferências em massa para acabar com esse negócio de liderança da Falange Vermelha. Li os jornais com toda a atenção e fui para a vigilância ajudar a preparar os documentos do pessoal que saiu no fim do ano e iria ser transferido hoje para Bangu. Depois das últimas transferências. pois o calor está infernal. Voltei logo para o cubículo porque quero ler novamente os jornais de hoje e com muita atenção. avistava ao longe o relógio da Central do Brasil e baixando a vista enxergava o hospital penitenciário. o clima ficou quase calmo. está tentando fazer. na última semana deram batidas nos cubículos de manhã e à tarde. longe de mim julgar seu procedimento. Este último caminhava pela penitenciária inteira sempre com a mesma roupa. estavam sempre sozinhos. Eu sabia que eles se reuniam com os outros. e cada dia de trabalho valerá por dois. Tomando banho e olhando pela janela. que era seu amigo desde os tempos da Ilha. que estavam sempre comigo. Os boatos de fuga continuavam. (Estou apenas relatando o fato. Se bem que foram dezoito e chegaram vinte. Eu pelo menos estava achando o ambiente calmo. Há uma reportagem sobre a reforma penitenciária que o ministro da Justiça. havia montes de fichas a serem arquivadas. Uma manhã. entrou um camarada que matou um diplomata numa festinha a dois e. acabo de sair do banho. Estes é que retornaram na calada da noite. com Jesus. os presos que cumprem muita pena não devem ficar junto de condenados primários. apesar de a palavra final ser do Xane. quando fizeram na surdina as transferências que achavam necessárias. com moldura de madeira. Segundo fiquei sabendo. Antônio já está preso há dezenove anos e pelo que diz deverá sair de uma hora para outra. uma calça de agasalho marrom. porque os três estavam tramando uma fuga e o plano de cada um era discutido por todo o grupo. Abiáckel. este último como sempre sentado na escada da primeira galeria olhando tudo. depois da chegada do pessoal da Ilha. uma das prisões é albergue e é para lá que eles vão.

Tinham roubado um relógio de estimação e um cordão folheado a ouro. Enfiou a mão no bolso. Eu não sabia o que pensar nem o que fazer. Ele me dizia: — Nós não temos nada a ver com esses assaltantes e traficantes. — Eu sou traficante. Fiquei elétrico e não tinha para onde ir. Para mim. mas não consegui. Foi exatamente quando comecei a arquivar as fichas dos que tinham sido transferidos que Chaves. Obs. Foi executado com 45 estocadas. Não precisa se preocupar. tirou um espelho e com uma colher pequena de plástico começou a servir uma "carreirinha". . Tive várias situações semelhantes a essa. quando abri o chuveiro elétrico.. Igual. que levou o cara embora. Na noite anterior jantei no cubículo do seu Antônio e combinamos que ele continuaria a trazer meu jantar. meu colchão de viúvo.: Cara de Gato foi transferido pouco tempo depois para a penitenciária Milton Dias Moreira. Eu estava assistindo à TV e bateram à porta. cocaína na prisão era a pior das coisas. que ficava do outro lado do muro. — Vamos tomá-las geladas — e perguntou se podia usar o isopor para conservar a temperatura enquanto conversávamos.. Contou-me que outro preso tinha sido assaltado por dois encapuzados na escada. mandei entrar. que estava a meu lado. Não sei a que horas acabou a visita. Ele só saiu uma ou duas horas depois. tiraram-lhe os sapatos e a calça jeans. Só pensava que. Vim para cá pela manhã trazendo a última coisa que ainda não tinha vindo. traficava lá fora e agora faço isso aqui. Contou a história sentado em uma cadeira que comprara de um corretor. aquele que foi transferido para a Ilha e lá o mataram. porque o Bigode foi buscá-lo e de braços abertos dizia olhando para ele: — Ô negão. Se a Polícia Militar invadir. não sairia da cadeia tão cedo. em que não tinha condições de recusar um presente considerado tão precioso. mas é a mais perigosa. não sei como eles conseguiam usá-la sem poder fazer o que desse na cabeça. Aquele pó não vinha em boa hora. senão vai haver encrenca. Quando Waldique me avisou que o diretor tinha autorizado a transferência de cubículos. comentou: 328 — Deus queira que esse pessoal do Segundo Comando não volte mais. Já estou instalado na quarta galeria. tirou um envelope de pó e o colocou em cima do joelho. Eu matei por rixa e o senhor é passional. mas agüentei firme e o acompanhei. se dessem um flagra na gente. naquela noite. É por isso que estou encrencado. Achava que ele tinha toda a razão e daquele dia em diante comecei a me informar sobre a penitenciária Ferreira Neto. dez dias depois de sua chegada. Ele estava furioso. Ele trazia três latas de guaraná na mão. Um ou dois dias antes da mudança de cubículo tive uma surpresa desagradável da qual não pude escapar. Antônio ficou tão chateado que ia pedir para o diretor transferi-lo para uma penitenciária em Niterói. Nessa época. De outro bolso. a água desceu forte. seu cubículo tinha sido arrombado. chamou minha atenção preocupado: — É a melhor galeria. Deixaram-no de cueca. Ele dizia: — Estou tão chateado. pela primeira vez ouvia falar em Segundo Comando ou Falange Jacaré. Com a graça de Deus. cópia perfeita da história do Baiano. você me abandonou? Bendito Bigode. é lá que eles vão em primeiro lugar. em Niterói. Era o Cara de Gato (a mulher dele tinha sido madrinha de casamento do Antônio junto comigo). Depois que eles se foram não consegui dormir. com preguiça de olhar. examinando as fotos ali pregadas. Depois do "confere" trancaram 327 a galeria como de costume. Um rapaz negro de boa aparência e sempre sorridente. estão querendo me transferir e se isso acontecer vou morrer.Tonelada. não vim vender nada. O certo era relaxar e gozar.

tirando cigarros e entregando a quem pedisse. me contou que papai costumava ir uma ou duas tardes por semana conversar com ele. Depois. As visitas dos advogados me fizeram bem. correndo 330 pela grama. Não tinha pedido para ir. Humberto esteve aqui hoje no começo da tarde. Não era isso que me entristecia. O mais estranho. Tinha outro isopor menor para não me faltar líquido. Na galeria era diferente.. não agüentaria tudo de novo. Fui tão longe. acabou. falamos de tudo. quando li o Jornal do Brasil. Mas. sempre tinha refrigerante e água gelada. segundo. o dinheiro que eu tinha dava para não me faltar nada enquanto preso. ele me contou casos que me fizeram rir. abdiquei da oferta. Não que me do-esse não estar gozando a beleza do lugar e de suas praias. Apesar de achar que a penitenciária de Niterói era bem mais calma e adequada. e nunca neguei nada a ninguém. Ao sair 329 provavelmente teria de trabalhar no dia seguinte. é que na tarde anterior eu tinha entrado em alfa. já tinha nove anos. que não queria desagradá-lo dizendo que eu não acreditava que iriam anular o segundo julgamento. Agora. sua beleza. 19/1/1983. e assim por diante. Humberto. pois o calor era bravo. Com a simplicidade de sempre. Ao escrever meus relatos. mas ficou famoso pela fortuna que tinha conseguido acumular e. procurava não comentar o desespero e a tristeza que sentia ao lembrar de Ângela. Aquela era a tarde. Não tentarei explicar um sentimento desses. E depois eu tinha que tocar para frente. O que será que eles queriam de mim? Pira sabia que eu estava duro. isso eu tirava de letra. ficou uns trinta minutos comigo. andava pelos pátios o tempo todo enfiando as mãos nos bolsos. porque seria impossível caminhar se eles percebessem que atenderia a todos.. se fossem apanhados lá sem uma razão específica teriam de conversar com Pira. arranjar doações. Houve um ladrão de automóveis que não conheci.. 12 do Caderno B: "E Búzios saiu às ruas. Todos lá tinham mais dinheiro que eu. também não acreditava que simpatizavam tanto comigo que me queriam por perto. enfim. Tinha me aberto com ele. Quanto ao recurso. Meu cubículo era muito popular. Fiquei horas nessa manhã olhando essa manchete. A presença dele me fez bem. Pensava em todos que de uma maneira ou de outra participavam de minha vida. cubículo 46.. esqueciam de comprar refrigerante ou então ficavam doidões e tomavam todo o estoque rapidamente. que coisa. haveria gente que pediria para vender depois. perguntando se eu precisava de alguma coisa e se eu queria ser transferido para Niterói. amável como sempre. Falamos muito para aquele pouco espaço de tempo e não tocamos no assunto de advocacia criminal. meu filho caçula. Adriana casada. Ele sempre foi uma pessoa tão legal e humana. contando que tinha entrado na USP. em um instante de prazerosa solidão em meu cubículo. Para quê? Vai morrer comigo mesmo. disse que tinha vindo apenas fazer uma visita. Turistas e moradores foram para as ruas no último fim de semana em Búzios comemorar a abertura da temporada de verão.. me distraíram. Para não escrever que não tocamos em nada que lembrasse alguma coisa. provavelmente teríamos notícia depois de 15 de março. só que eram folgados. No fundo. na p. estava no primeiro pavilhão. Ele tinha consultado o Desipe e conseguiria a transferência de imediato. quarta galeria. Raul.. achava que se eu agüentasse pagar essa dívida me sentiria um pouco melhor. falar com o meu amigo "banqueiro" etc. Quem não era de lá só ia convidado. Eu estava mal desde aquela manhã. segundo contavam. Tudo começou com o telegrama de Cláudia (filha de Marilena). primeiro porque todos tinham medo e. Eu só parei de dar cigarros quando andava pelos pátios. Quando acabava. chegou o ministro Evandro Lins. Luis Felipe.. apesar dos abusos. sua inteligência e seu desrespeito a regras hipócritas. o filho .".Na quarta galeria não havia problemas desse tipo. saiu dr.. a outra filha de Marilena.

amigão, Zé Maria, na Votorantim. De repente, quando dei por mim, percebi que estive viajando, que tinha estado com os que amo. Estive tão próximo deles, que fiquei triste, aquilo poderia ter durado mais um pouco. Meu devaneio foi interrompido pelo começo do jogo da seleção gaúcha contra a seleção do povo. Mas não consegui prestar atenção. Acredito que todo preso ou hospitalizado tenha uma sensação de medo. Medo de um dia sumir todo mundo, porque todos se cansaram e porque a vida lá fora não parou e tudo continuou sem você. Hoje foi feriado, dia de são Sebastião, Marilena e papai vieram me ver, com a graça de Deus. Paulistão fugiu, ninguém imaginava como, mas ele tinha ido embora. Aparentemente a administração não se mostrou preocupada. A fuga é um direito do preso. Se ele não depredar o prédio e não agredir ninguém, não aumentará sua pena. Se bem que, no caso do Paulistão, isso não tinha a menor importância, a pena dele era de 520 anos. Assim mesmo ele saiu numa boa. Depois dessa fuga, que tinha virado tabu, pois a massa comentava sobre ela, mas o pessoal da Falange e da administração não tocava no assunto, havia revista geral pelo menos uma vez por dia. Muitas vezes faziam isso ao abrir a galeria às seis horas da manhã e voltavam à noite logo após o "confere". Trancavam a galeria, davam um tempo e voltavam. Pela manhã era para tentar pegar restos de alguém ou alguns que tinham se "embalado" e, descuidados, tivessem deixado resquícios de droga pelo chão ou em cima da cama. Baralho também dava um rolo danado. Eles abriam a galeria antes do toque da sirene, batiam com os cassetetes nas portas, para acordar os internos e faziam uma revista minuciosa. Geralmente revistavam três ou quatro cubículos, pois os outros, se tinham algumas coisas, se livravam delas, atirando-as pelas janelas ou escondendo tudo em cafofos (buracos, fundos falsos). A noite, quando voltavam depois do "confere" e tentavam abrir a galeria de mansinho, era para pegar o pessoal jogando ou usando tóxico. Homossexualismo também não era permitido e, se pegassem, os dois iam para a solitária. Normalmente não eram tão rigorosos e deixavam todo mundo em paz. Mas, depois daquela fuga... 331 Paulistão saiu por um túnel, a partir do auditório. Jesus me contou que ele saiu durante a seção de cinema. Contou também que, debaixo daquele conjunto penitenciário, o solo era um verdadeiro queijo suíço, de tantos buracos. Eles abriam, a direção tapava, mas onde tinha sido cavado um buraco, era sempre fácil abri-lo novamente. O ambiente estava ficando cada vez mais carregado, havia qualquer coisa estranha se passando. Evitava o cubículo do Pira quando o pessoal estava reunido. Um dia, ia passando por lá com Chico Tonelada, em direção ao meu cubículo, e Lâmpada me chamou, Tonelada me olhou... — Chi! Cara, eles te chamaram. Estavam enrolando um fumo que era um verdadeiro "Havana", e não pude sair fora, tive de ficar por ali. Além do Lâmpada e do Pira, estavam: Marinheiro, Nézão, Jarra, Jesus e General. Não precisava me preocupar com os agentes, já tinha visto Cuca e Mãozão sentados em lances diferentes da escada. Me deram um banquinho e sentei encostado à porta, do lado de fora. Estavam só jogando conversa fora. Eu detestava ficar assim num grupo daquela qualidade, tinha medo. Lâmpada, por exemplo, era matador temido, frio, ruim, em qualquer conflito sério era ele o encarregado da matança. Diziam que a família dele era dona de um ponto no morro onde viviam. Se esse ponto estivesse muito ameaçado, faziam de tudo para ele fugir da prisão, mas, depois que ele limpava a área, ficavam tão desesperados, que davam um jeito de ele voltar para a cadeia. Jesus, que se dava tanto comigo, era uma moça para se tratar, mas perigosíssimo, assaltava bancos e, segundo ele mesmo, na hora do trabalho, quem cruzasse a frente dele levava chumbo. Os companheiros contavam rindo essa história e ele confirmava que, se cercado pela polícia, tremia de medo, é verdade, tremia literalmente de medo e

para se conter puxava o gatilho aos berros. Daquele grupo todos se davam muito comigo, me chamavam de príncipe e tudo mais. Mas um deles me olhava de maneira estranha, o Marinheiro. Acho que ele me achava arrogante. Uns tempos depois, quando tomava café com ele, me olhou de frente e perguntou se eu já tinha apanhado de verdade: — Nunca ninguém quis te sentar a mão na cara de verdade? Era um pernambucano, magérrimo, 1m 80 de altura, com um bigodinho sempre muito bem aparado, raramente o vi fora de seu cubículo. Aquela pergunta respondi sorrindo: 332 — Não, meu amigo, com a graça de Deus nunca quiseram me bater. Com Nézão não me preocupava, sua família estava envolvida com jogo do bicho, cumpria pena pesada, foi quem o enviado do meu amigo "banqueiro" procurou em primeiro lugar. Pira, Jarra e General eram meus vizinhos na visita, não me fariam mal a não ser que fosse necessário. Felizmente aquela reunião terminou logo, Cuca chegou e falou qualquer coisa no ouvido de Pira, e todos se levantaram e foram para outra galeria encontrar Xane. 29/1/1983. Marilena e May me visitaram quinta-feira na parte da tarde, ficamos bastante tempo juntos. Adorei, fazia tempo que não estávamos assim, só nós. Hoje virão também Luiz Carlos e mamãe. Depois de amanhã terei Marilena a partir de onze horas. O que seria de mim se não fosse minha família? Uma ocasião, um senhor me abordou quando estava saindo da cozinha dos funcionários, eu tinha ido visitar o Antônio, meu ex-vizinho de frente. O senhor me dizia que era de São Paulo e precisava de dinheiro para mandar a mulher vir de ônibus visitá-lo. Convidei-o a ir até a cantina e pedi ao Hugo que lhe desse o dinheiro. Assim que o senhor se afastou, o cantineiro comentou: — Deixa de ser otário, ele vai pagar o traficante. Esse cara deve para todo mundo. Em seguida contou que ele era de Campos, estado do Rio, tinha algum dinheiro quando foi preso, mas ficou duro porque tinha muitos processos de estelionato, sua pena era grande e com tempo a família o abandonou. Para viver ele dava pequenos golpes nos otários recém-chegados. Em vez de ficar chateado fiquei com pena do camarada. A porcentagem de abandonados no sistema penitenciário é enorme. Depois disso sempre que me encontrava me pedia alguma coisa, um cigarro, um pacote de bolacha da cantina, coisas pequenas, eu sempre atendi, mas nunca conversamos sobre alguma coisa. 22/1/1983. Hoje perdi meus óculos de ler. Fiquei quase louco, sem eles eu não sou nada, pois o que mais faço é ler. Leio tudo que é best-seller, não me ajuda na pouca instrução que tenho, mas me distrai e me tira daqui enquanto leio. Fiquei tão desesperado que fui pedir ao inspetor que anunciasse a perda pelo alto-falante. Como ninguém apareceu, voltei para o meu cubículo. Quando passei por Nézão... 333 — Você esqueceu sua bicicleta (óculos) em cima do tanque do meu cubículo. Pela manhã eu tinha ido ver um tanque de lavar roupa que tinha instalado. Achei a coisa tão extraordinária que fui lá olhar e esqueci a "bicicleta". Apesar de estar sempre com Nézão, nunca falamos sobre nossos crimes. Ele estava constantemente enrolando um fumo. Fumava-os como se fossem cigarros. Acho que corria sérios riscos lá dentro, pois nunca saía da galeria. Era o único que não descia para esperar a mulher no domingo às onze horas, para visita íntima. Ela subia sozinha três lances de escadas cheia de pacotes. Naqueles dias os jornais falavam muito no novo governo (Leonel Brizola), em seus planos de modificar o sistema penitenciário, seguindo mais ou menos a linha do ministro da Justiça. Escreviam muito sobre Darcy Ribeiro, um intelectual muito querido no Rio e vice-governador. Nézão era um ardente brizolista, fumava seus charutaços e fazia discursos inflamados. Geralmente seus ouvintes

eram o Chico Tonelada, o Cuca e eu. Os planos do governo eram ótimos, tinha saído nos jornais fotografia do dr. Darcy contando das Fábricas de Escolas e etc. O discurso de Nézão foi tão inflamado, e o "fumacê" tão forte, que até escrevi uma carta ao governador, que evidentemente não mandei mas guardei. "Prezado governador, "Em entrevista ao Jornal do Brasil de 3/01 o senhor vice-governador Darcy Ribeiro fez uma explanação sobre as Fábricas de Escolas. É um excelente plano, principalmente se for executado, não vai aí nenhum desafio ou dúvida de minha parte. Será isso sim um prazer saber que finalmente alguém se interessa realmente pelo povo, etc. etc. etc." Depois de receber a visita de Antônio, que veio me trazer o jantar, comecei a assistir ao programa São Paulo Canta. Sinto saudades de minha terra apesar de reclamar tanto dela. Do seu governo, de sua explosão demográfica e da poluição. Dos catorze aos 22 anos conheci São Paulo de dia e de noite, a cidade não parava nunca, nem eu. Já aos dezesseis anos, com a altura que tenho hoje (1m 86) conhecia e freqüentava cabarés como: Maravilhoso, O Lido, Dancing Avenida. Adorava a vida noturna, os cabarés mencionados tinham orquestras estupendas com crooners fantásticos, Isaura Garcia, Ângela Maria, Orlando Silva e Silvio Caldas. É... faz tempo. 334 Hoje pela primeira vez fui eu quem preparou a visita de dois internos ao fórum. Isso acontece pelo menos duas vezes por semana, mas é o Chaves quem prepara esse expediente. Como ele não apareceu, tive de ajudar o sr. Waldique. Na vigilância, querendo ou não, a gente fica sabendo de tudo o que se passa na cadeia. Toda a vida do interno tem de ir para a ficha, e quem registra isso somos nós. Moradia, visita íntima, castigo, solitária (surda), comportamento, elogio, ida ao juiz, consultório médico, visitas etc. Tudo na vida do preso, do começo ao fim, tem de estar arquivado na vigilância. Os problemas são os mais incríveis. Outro dia um interno pediu para mudar de cubículo e de pavilhão. O "garoto" dele estava enchendo o saco, e ele não agüentava mais... — Não quero mais ver a cara dele — disse isso de pé, no meio da seção, indignado. Nas penitenciárias do Rio, a administração é tolerante com esse tipo de relacionamento, principalmente quando ele já vem há algum tempo. Separar um casal desses sem apurar bem os fatos pode causar um problema sério. À tarde, quando voltei para a galeria, vendo que Pira estava sozinho, parei em sua porta e comentei que tinha sido eu o encarregado de preparar a saída para o fórum de dois internos. Para fazer isso tinha mexido no arquivo e olhado sua ficha. Conferindo as datas, vi que ele tinha começado cedo no tráfico. Batemos um papo a respeito daquela época. Contou que nunca se conformou com a pobreza em que vivia, que a falta de perspectiva o desanimava e, quando começou, também era o início da repressão e a Polícia Civil, Militar e o Exército trabalhavam em conjunto, o que tornava tudo muito perigoso, principalmente nas fronteiras. Naquele momento estava relaxado, tranqüilo, era raro encontrá-lo assim. Continuando a conversa, me contou o estratagema que dois traficantes usaram para embarcar o pó que tinham comprado na Bolívia em um avião. — Os rapazes mandaram antes uma moça com um bebê de dois anos, que segundo eles era doente terminal. Foram para lá dois dias mais tarde. Depois de uma semana, quando o bebê morreu, abriram-no pelas costas, limpando seu interior e o enchendo com muitos quilos de cocaína. A mãe e o bebê regressaram de avião, só que ele veio num caixão no compartimento de carga. 335 Pira foi o encarregado de completar a negociação com o pessoal do morro. Tinha sido apenas o intermediário, quando recebeu a mercadoria, ela estava embalada e pronta para comercialização. 7/2/1983. Estou assistindo a Dallas, Marilena esteve aqui hoje, como aliás vem acontecendo todo

domingo. Ela acompanha todos os acontecimentos da penitenciária, pois, como já escrevi anteriormente, entrego a ela tudo o que anoto. A semana passada foi difícil, houve muitas transferências e é claro entrou outro tanto, e os que entraram, vieram da Ilha. O ambiente ficou carregadíssimo, há muita tensão no ar. O pessoal que não é bem-visto pela massa, como o Bóris, está apavorado. Os que se sentem assim têm uma saída, pedir seguro de vida. Nesse caso a pessoa vai para um pavilhão especial. Ficará junto com presos como ex-policiais, informantes etc. A pessoa que apela para isso está assinando uma confissão de culpa perante a massa. Ou dedurou, ou prestou algum serviço indecente para a administração. Se algum dia a administração cismar e mandá-lo de volta para o convívio, mesmo em outro instituto, estará marcado. Sentindo todo esse clima escrevi: "Estou ilhado, completamente ilhado. É um mundo que dificilmente poderá ser explicado. Tenho de conviver com ele. É um sistema com leis muito especiais e rígidas. Aqui tudo é estranho, muito estranho. Preciso ficar sempre atento, é horrível. O mundo será diferente depois disto. Espero não carregar mais cicatrizes em meu coração". É verdade que, fora a fuga de Paulistão, nada tinha acontecido. O que realmente me deixava apreensivo era o clima. Pira tinha mudado de postura, não queria saber de muito papo. Até estranhei quando mamãe esteve aqui com Luiz Carlos e ele sentou-se ao lado dela, chamando-a de segunda mãe. Ficou abraçado com ela muito tempo, dizendo que eu era um homem de sorte por ter uma mãe como ela. Aliás, naquele domingo aconteceu de tudo. O Luiz Carlos me pregou um baita susto, mas tornou aquele fim de domingo menos triste. Na saída enfiou no meu bolso quatro minigarrafas de uísque JB. Perguntei imediatamente como ele tinha feito para passar pela guarda e a resposta foi surpreendente: — Depois da primeira vez nunca mais me revistaram. Fiz ele jurar que nunca mais faria isso, pois eu podia ir parar na "surda". Ele continuou: — Quer que eu leve embora? — Morri de rir, é claro. 336 Depois do "confere", como Pira fazia muitas vezes, apareceu para me dar um pedaço de bolo de chocolate que Renata trazia toda semana. Quando lhe mostrei as quatro garrafas, a reação dele foi a mesma que a minha... — Como é que isso entrou? — Mas continuou sorrindo. — Logo depois que bebermos isso, vou moer as garrafmhas e jogar no ralo. Foi até o cubículo do General e voltou com dois "papelotes" e presenteou-me um. Em vinte minutos acabamos com as bebidas e os papelotes, e encorajado com os incentivos perguntei se não achava que o ambiente andava tenso. Ele respondeu meio a contragosto, mais ou menos assim: — O Patrício tem deixado qualquer um entrar aqui. Dias depois, ouvindo conversas aqui e ali, tive certeza de que os últimos que chegaram da Ilha eram de outras facções. 9/2/1983. Acaba de cair uma tempestade linda, raios, trovoadas, vento e chuva para valer, fiquei olhando pela janela até o tempo melhorar. Sempre achei bonitas as tempestades. Voltei-me porque percebi mexerem na cortina da porta, era o Cuca. Então comentei com ele a beleza das tempestades. Ele sorriu e: — Neguinho dos morro não acha, as encosta cai tudo. — E sorrindo continuou: — Se prepara, fugiram mais uns, Mimo e o Filho do Polícia estava com eles, o alarme vai tocá... Não teve tempo de acabar a frase e a sirene já estava disparando. Ficamos trancados até o dia seguinte, só nos liberaram depois de revistarem todos os cubículos. Comentava-se que o Manoel Caneta tinha posto guardas nos pátios para ficar olhando o que caía das janelas. Acho que caiu tanto estoque, fumo, pó, baralho etc. de tantas janelas ao mesmo tempo, que nada puderam fazer a não ser recolher tudo e jogar fora. Ao sermos liberados começamos a descer e deparamos com inscrições feitas nas paredes, durante

aquela madrugada. ABAIXO A MORDOMIA. FUJA, COVARDE. Só os guardas podiam ter feito aquilo, pois todos os internos estavam trancados. Aquilo caiu como uma bomba, o pessoal da Falange ficou muito revoltado. A cadeia ficou quieta, parecia um túmulo. Segundo comentários, Pira tinha organizado várias fugas, mas ele mesmo nunca fugiu. Parece que essa era a razão das inscrições nas paredes. 337 Como era véspera de Carnaval e Pira tinha arranjado com o diretor para as companheiras, esposas e namoradas passarem aqueles dias com a gente, a coisa ficou por isso mesmo. Assisti a Pira pondo panos quentes ao conversar com Jesus. Achava que só deveriam conversar a respeito depois do Carnaval e de cabeça fria. 10/2/1983. Ontem no fim da tarde papai esteve aqui, me trouxe um colchão novo, porque na última vez que revistaram meu cubículo rasgaram o antigo. Cecília, minha sobrinha, veio com ele. Trouxe montes de recortes de jornais com notícias sobre ela. Estava linda e radiante com seu sucesso, sua beleza e todos os seus sonhos. Levantou o meu astral, me diverti com ela. Depois que eles foram embora, fui avisado de que a "dormida" do Carnaval tinha sido confirmada e as mulheres poderiam entrar a partir das 14h 30 do dia seguinte. Fui imediatamente para o orelhão telefonar para Marilena para confirmar. Depois disso, como não podia deixar de ser, fiquei apreensivo. Será que daria tudo certo? Teria teto no aeroporto? Os aviões sairiam no horário? Quando cheguei à galeria estavam encerando o chão, o meu cupincha que lavava meu cubículo toda semana estava me esperando, mas, antes de começar a limpeza, foi comigo buscar o colchão. Tivemos muito trabalho para adaptá-lo porque era um pouco maior que o outro. Foi uma porta velha que o Alfredo (estofador) me arranjou e adaptou para mim, que quebrou o galho. Diminuiu um pouco o espaço, mas ficou ótimo. 14/2/1983. Marilena estava dormindo tranqüila, seu rosto estava sereno. Já estávamos juntos havia mais de 56 horas. Depois de uma ducha, deitei a seu lado e comecei a pensar naqueles dias. Ficamos quase o tempo todo isolados. Marilena não quis sair do cubículo para andar na galeria. A única vez que tivemos companhia, foi quando Pira e Renata foram nos visitar. Levaram frutas, bolos e ficaram lá com a gente no máximo trinta minutos. Sem ter o que fazer, peguei lápis e papel e comecei a anotar minhas impressões, como fazia sempre. Quando terminei, escrevi mais umas linhas só para ela: "Mar, sei lá o que aconteceria comigo se você não existisse. O relacionamento que temos é tudo de que preciso, o resto não interessa. Neste instante você descansa a meu lado e eu sinto que com você sempre por perto vencerei as etapas que virão. Um beijão." Era para ela ver só em São Paulo, quando fosse ler e guardar meus garranchos. Mas, depois que nos despedimos e voltei para arrumar o cubículo, encontrei uma carta debaixo do travesseiro. 338 18/2/1983. Tumulto, fuga e baita confusão. A Polícia Militar invadiu a penitenciária armada até os dentes. Tudo porque uma fuga foi detectada enquanto ainda havia vinte presos no buraco. Estes, quando foram tirados, apanharam muito antes de ir para a "surda". Muitos assistiram aos companheiros sendo surrados, e aí houve começo de tumulto. Foi quando a PM invadiu. Na verdade, a única coisa que fizeram foi nos trancar e revirar nossos cubículos. Revirar mesmo. Não sei como não rasgaram meu colchão de novo. Estavam nervosos, imagino que tivessem medo e qualquer movimento mal entendido feito de uma das partes podia virar tragédia. Depois de revistarem toda a penitenciária, abriram as galerias e os cubículos para que tudo voltasse à normalidade. Mas, infelizmente, as notícias que chegaram da Ilha davam conta de duas mortes de internos, e o ambiente ficou pesado de novo. De uma coisa tenho certeza, não vou morrer de infarto do coração, me conservei calmo o tempo inteiro. É verdade que não fui pego de surpresa, Pira na noite anterior me prevenira, e na hora que o tempo começou a querer esquentar eu estava na galeria. Se a fuga tivesse dado certo e ninguém fosse

surpreendido no buraco. Vou me concentrar nisso. Como ele sorriu. Sabia por que discutiam e não queria que ninguém soubesse disso. com mal-estar entre agentes e internos.. que queriam eliminar o pessoal da outra facção. viver aqui não é fácil. Não tirava a jaqueta curta de couro de cobra. e domingo Marilena estará aqui novamente. como se estivesse me dando uma gravata. não há nada que eu possa fazer. Queria ser um dos primeiros a ligar. tinham sido atacados por vândalos. em qualquer lugar que eu fosse estava acontecendo algo. e a dos que tinham acabado de chegar. ANIVERSÁRIO DE MARILENA. Usava bota também do mesmo material 339 até o tornozelo. Sempre doidão. mas havia turmas que eram odiadas e era sempre no turno delas que apareciam as encrencas. Ia tocar o alarme. — Não sei. olhei da escada e não havia ninguém nos orelhões. mas já chamei a companhia telefônica. Mercedão e Zé Cigano tinham chegado da Ilha já havia algum tempo. — Vem tomar café comigo. Achei estranho. Faziam uma reunião em frente à porta de Pira. Daqui a pouco chegam outros aparelhos. em seus turnos. Eu estava em um lugar de doidos e não adiantava nada eu ficar preocupado. e toda vez os internos ficavam revoltados. O chefe de segurança. geralmente as filas eram enormes nos orelhões. amanhã é dia de visitas. Parei ali com ele abraçado ao meu pescoço. Vendo aquele movimento resolvi ir para a vigilância. Por incrível que pareça. desci correndo as escadas. mandou buscar na surda dois internos para ele interrogar. o Pará e o Pele. . até o Waldique estava com uma cara marota. a revista geral seria feita pelos próprios agentes penitenciários e a vida ia continuar. porque Zé Cigano se mudou para nossa galeria. Aqueles dias estavam agitados. Se estávamos trancados nas galerias. Manoel Caneta. aquele acontecimento aliviou a tensão. Perdi uns cinco minutos para sair daquela situação. Era engraçado: havia turmas de guardas que. Não era defeito. LOGO QUE AS GALERIAS Foram abertas. Enfim. mas só vim conhecê-los melhor nos últimos dias. a prisão ficou silenciosa novamente. 340 Não era a primeira vez que isso acontecia. o destino que decida. aberta no peito e direto sobre a pele. de olho azul. admiro seu estilo. Toma o café e fuma esse comigo.. Ninguém soube a razão que fez Pele perder a cabeça. Estavam arrebentados. que queria paz. sempre estavam bem (as turmas eram de oito ou seis agentes).. entrei agora. justamente os dois que mais apanharam. e finalmente fui em direção à vigilância. 1/3/1983. Naquela manhã estavam agitados. que veio da Ilha e de outros lugares. Era famoso porque assaltou um acampamento cigano e levou uma fortuna em ouro. —Vejo você sempre calmo e tranqüilo. os internos estavam quase festejando os últimos acontecimentos na seção de segurança. olhando. — Tinha um fumo na mão e os olhos muito vermelhos. que já estou cheio de falar com esses cabeças-duras. Os orelhões ficavam bem em frente à inspetoria. Aproximei-me e constatei que estavam todos quebrados. O inspetor do dia estava parado na entrada. os únicos que poderiam ter feito aquilo eram os guardas. Agora com esses boatos da Ilha. só ficamos sabendo que ele jogou a máquina de escrever na janela e deu um soco na cara do Caneta. a do grupo do Pira. Ele era mais ou menos do meu tamanho. A situação era a seguinte: eram duas opiniões na Falange Vermelha. muito claro. perguntei se tinha idéia do que tinha acontecido. não teria tido a invasão da PM. Encontrei a seção no maior rebuliço. Mas quando passei pelo grupo Zé Cigano me abraçou. Passei por ele em direção à cantina..

Falava-se em mudanças e na melhoria do sistema penitenciário. todos os diretores de instituições seriam substituídos. que por sinal tinham deixado de visitá-lo e nem se lembravam mais dele. o que mais preocupava as falanges (que dominavam as penitenciárias e presídios) eram as mudanças no Desipe. Logo cedo um amigo do Pira veio me procurar. Dr. 11/3/1983. Havia grande expectativa com relação ao novo governo. mas. Bom. Amigos como Fernando são raros. o resultado de ser jogado na rua foi trágico. tinha acabado de falecer. Com Zezinho. Se me dei bem logo nos primeiros dias em alguns negócios. tinha falhado. usei a verdade. Tentaria com o juiz da Vara de Execução minha ida até São Paulo. Ia ser posto em liberdade em poucas horas. porque Pira gostava dele pelos velhos tempos de Ilha e permitia que traficasse ou anotasse o jogo do bicho. provavelmente descendente de índios. iriam tentar fazer contato. nos próximos dias. Foi quando conheci Chiquito. trazendo notícias do dr. quando me deu essa notícia. e terminou encontrado dias depois num matagal. sob escolta. A um certo momento da festa. Para variar. Duas coisas o preocupavam: a primeira é que estava preso havia dezessete anos e não sabia para onde ir. Fernando conhecia bem uma pessoa da Suprema Corte. Estava bem na penitenciária.. pasta e escova de dentes. — Será que o seu amigo "banqueiro" pode me arranjar um emprego? Não pude mentir numa situação dessas e prometer fazer algo que não faria. depois de tanto tempo ele tinha aparecido. . Não posso negar que esse pessoal às vezes. isso precisava ser comemorado com "um bom retorno".. ela ia ficar preocupada. Como eu telefonava toda manhã e exatamente naquela. A segunda era grave: se fosse para o morro de origem. 4/3/1983. quando cheguei a São Paulo. pois tinha estuprado um menino que era bonitinho na época e. 1m 70 de altura. Seu esforço naquela época não deu resultado. só por telefone e correspondências. Ele não tinha boas notícias. naquele momento. Mas. quando fui chamado à sala do diretor. pois os tribunais estavam saindo do recesso e provavelmente o meu recurso seria finalmente julgado.. O senhor Waldique se ofereceu para me acompanhar. anos depois.. Leonel Brizola. Ninguém reclamou seu corpo. E ele foi para a rua completamente despreparado. Fizeram 341 festa. e os dois. Então pedi para passar um telegrama e telefonar. Muitos saíam assim: término de pena e rua.. chegou ao morro e quando se apresentou à família foi recebido com alegria. Apesar de ser dia de semana papai esteve aqui. me diverte. Evandro e ele. Estava lendo sobre a posse do novo governador. Fiquei muito triste com sua morte. A notícia da sua chegada se espalhou rapidamente e ele e seus familiares receberam a visita dos atuais chefes. na verdade. para que tivesse um mínimo de coisas. onde tinha sido chefe. iria correr sérios riscos. comentou que o ex-chefe que volta geralmente é morto pelos que estão no poder. Hoje o dia começou "bem". 9/3/1983. dia 15 de março para ser exato. o procurei. dr. Precisava de um lugar seguro para se organizar e depois tentar tomar o morro de volta. Mas tudo deu em nada. além de me surpreender. Estava lendo uma reportagem sobre o novo secretariado. que era um cabra macho. um tênis. porque Luiz não era meu pai. sempre me lembrarei dele. Provavelmente. essas coisas. levou vários tiros e facadas. Depois de dezessete anos.. Patrício empurrou o telefone para mim e pude falar com minha família. foi porque sua mão esteve estendida. em especial. 3/3/1983. ele saía lá pelas dez horas para ir a bancos e fazer compras. como sabonete. seu filho e meu melhor amigo. Normalmente. Pira. meu amigo e padrasto. acho que o camarada não sabe nem andar fora daqui. que conhecia pouco o "banqueiro". era o todo-poderoso do local. Evandro e de Fernando Ferreira. Luiz da Cunha Bueno. naquele tempo um dos sócios e presidente da Bombril.Continuei meu caminho rumo à cantina para tomar café e pedir a Hugo que passasse um telegrama para Marilena. Por falta de opção foi para o morro procurar seus familiares. eu tinha onze anos quando ele e mamãe começaram a viver juntos.

mas vivi lá e acho que vale a pena obrigar os internos a aprenderem uma profissão. Era estranho o desaparecimento. porque esse preso era um senhor que todos respeitavam. indicado pelo secretário da Justiça. os outros agentes já estavam no pátio esperando e o alarme disparou. era de confiança e trabalhava na portaria. Quatro internos carregavam o primeiro sofá. segundo os jornais. estava mal. Não discutia isso com ninguém. para seu espanto. A população tinha grandes esperanças em seu governo. As únicas empresas que estavam tendo lucro eram as multinacionais. Eles e Alfredo foram parar na surda. convidou alguns jornalistas para visitar a penitenciária aqui do lado. Não sou ninguém para estar dando palpite. é claro. o alarme de cá tinha tocado também. descuidado. A não ser que mude a visão dos administradores. 23/3/1983. 15/3/1983. Quando os quatro internos chegaram com o outro sofá. Como foi ponto facultativo. Os quatro que carregavam eram os mesmos que fizeram as reformas. por conta própria. e Brizola prometera que traria algumas para o estado. tinha fiscalizado as caixas d'água. pois só o mestre Alfredo sabia tocá-la. Deveriam investir nisso. Via as fotos de Ângela sem vida. Outro assunto que merecia a atenção dos jornais era a CPI do Serviço Nacional de Informações (SNI). punha a culpa na Justiça. Depois da posse. Resolvi ficar por ali porque o clima estava esquisito desde o dia anterior. a não ser. no chão. que o guarda desconfiou e resolveu olhar com mais atenção. ninguém sabia se tinha fugido ou se estava morto. porque do resto falei até demais. ouviu um gemido. A dificuldade para colocá-lo 342 no caminhão foi tão grande para aqueles quatro homens. a presença de Marilena e da família. naquela manhã. a tentativa não teve sucesso. Eu estava no chuveiro. tinha acabado de me levantar. Era de lá o alarme. Um interno estava desaparecido. Ficaram horrorizados com as "surdas". Mas depois de algum tempo percebemos que. Enquanto faziam isso. Passei o dia praticamente sem sair do cubículo. Pelo que ficamos sabendo. Hoje assumiu o novo diretor do Desipe. ficaram prontos ontem e deveriam sair hoje pela manhã. tão demorada. Continuei acompanhando da minha janela os internos no teto do hospital. Esperto. apesar de a confusão ser ao lado. Pira. a ponto de amigos. com o estado do prédio e. com o corpo escondido em algum canto. Para encurtar a história: havia um interno em cada sofá. no hospital penitenciário. se não exportássemos não sairíamos da crise. que não ia nem para a frente nem para trás. Mas. apesar de necessária. tinha de ser prioridade. minha preocupação era com 343 meu estado de espírito. tentando se esconder. em . Eu tinha interesse em tudo o que se passava no país. Ela e papai faziam tudo o que era possível para amenizar meu sofrimento. são os do momento em que atirei na Ângela. tinha medo de me sentir por fora. Quando digo assuntos não discutidos. Mas tinha dias que eu sentia tanto remorso e tanta dor. que não conseguia fechar os olhos. Com esse clima preferi ficar assistindo pela TV à posse do Brizola. eles acharam que a guarda estaria desatenta. não recupera. Era dia da posse dos novos governadores. com a pobreza da população carcerária. Olhei através das grades da janela e vi internos no telhado do hospital. quando Marilena perguntava o que estava me perturbando. conhecidos e até gente que nunca tinha visto me aconselhar a esquecer os tempos de cadeia. que estiveram sendo reformados na estofaria. Nada me animava. O país.Dois sofás enormes do Desipe. deixou a arma disparar e morreu. Acredito que a prisão. Um guarda da portaria resolveu limpar sua arma e. mandou que o depositassem no chão e fossem buscar o outro. Só muito tempo depois falei sobre isso com Marilena. Quanto ao interno. O alarme tocou. A seção de estofaria ficou parada daí em diante. Outra coisa que me preocupava naquele momento era o ambiente entre internos e agentes penitenciários. o agente sentou com toda a força no sofá e. estava preso havia muito tempo. dos cubículos. fotos que vi nos jornais na época em que estava fugido. um toque longo e intermitente: quer dizer fuga. a Milton Dias Moreira. por conseguinte.

que era na Semana Santa. — Vai tomar no cu. A Vara de Execuções do Rio até que faz sua parte. —Isso era motivo de risada. — Deixa comigo. estou na cama. de outros presídios. rancores antigos. Segundo os líderes. como sempre que eu dormia. que a administração atual conhecia e evitava. Beijos. Não adianta nada apenas prender. É meia. as minhas disritmias ficam um pouco mais rítmicas e. daquela época para cá. tu tá cheio de caô. não tem mais família e as únicas pessoas que restaram são as que conheceu no cárcere. Que Pira andava esquisito e tinha um monte de gente falando em armar arapucas para os guardas. "Mar. guardas que estiveram na Ilha e naquele momento estavam ali. sou eu. Mas era a opinião da liderança de internos. Agora. Este é só um bilhetinho para dizer que estou morrendo de saudades (lugar-comum) epara estar presente com você pelo menos na hora em que você estiver lendo o mesmo. Escrevi as linhas acima depois de receber. Resposta: — Vai à tua luta... Zé e Cláudia chegaram há pouco e mandam beijos. sua visita e este carinhoso bilhete pelo correio. Tive oportunidade de ver. amorzinho. vagabundo. quando falamos minha cabeça muda. como esta tarde. O cara sai. dentro do possível. que houve transferências e entradas em grande número. pois sei que sábado estaremos juntos novamente. qual é. Até pedi que não comentassem essas coisas na minha frente. Era uma discussão com um pessoal de outra galeria de visita íntima. que o pessoal que atendia os apenados eram dedicados. que tô bolado (de saco cheio). como sempre. Diziam que a liderança. foi censurado por algum funcionário.. não saí desde as seis e meia.. Se estavam tentando embaralhar tudo ia dar problema. por falta de interesse.benefício da própria sociedade. não estava tentando arranjar "dormida" no próximo feriado. São Paulo. Estou escrevendo em 2004 e. O discurso tem de sair do palanque para a população ter um pouco mais de tranqüilidade. Ando tão apaixonado por você. é melhor ainda. Com a mudança de governo e a certeza de mudança na administração. Acho até que era coisa antiga. tu é vacilão (que só faz bobagens) como 345 todo mundo nessa galeria. Streetinha. Aí ouvi a voz de Pira. percebo que as coisas pioraram e muito. principalmente nos casos das penas longas. eu amo você." 344 Carinho entre nós não faltava. mas as condições eram muito precárias. 24/3/1983. coisas da rua. nas quintas-feiras. Já tinha assistido a Jesus e Lâmpada falarem que dois presos que tinham acabado chegar da Ilha teriam de morrer. 22/3/1983 Amor muito querido. pois nunca tem verbas. que. Só tu queria vender bagulho (fumo). A coisa era muito complicada. Está umfriozinho bom para isso. estavam tentando misturar todas as facções para complicar a vida do próximo diretor.. havia muita desconfiança entre os internos e os administradores que estavam de saída.. eles se divertiam com meu medo. acabei de falar com você. tu fica me pondo pilha (irritando). . Eu também conheço tua vida. praticamente ao mesmo tempo. Eu conheço tua vida na Ilha. Hoje acordei com uma tremenda confusão perto da minha porta. sempre com o capitão Theobaldo querendo dar "carrinho" (transferência) em quem não formava (pensava da mesma maneira) com tu. (Recebíamos as correspondências abertas). — Depois dá alguma coisa errada e o único que sabe sem ser vocês. isso não queria dizer que tenha sido verdade. também era verdade. Boa noite. vou resolver essa parada. quando você vem. amor. na época de albergado e depois na condicional.noite. tu era "garoto". que estava trancada. é verdade. na Ilha tu era "alemão" (olheiro da administração).

nas visitas de domingo e nas "dormidas". Já estava havia dois dias sem bater paredão. Isso e mais jornalistas visitando e querendo entrevistas. decidi fazer uma visita ao diretor. geralmente procurava Jesus para ir comigo. ele me deixou claro no primeiro dia que poderia procurá-lo sem aviso prévio. Aquele interno desaparecido apareceu depois de uma semana. sairia matérias nos jornais e eu até adivinhava qual seria o texto. mas levantou-se.. Finalmente retornaram e eu pude sair dali.. e um dos internos que trabalhava na mesa ao lado da minha estava de porre. — Até que enfim.. Promotores e advogados do Estado entrevistavam internos que reclamavam estar com pena vencida. pois estava lá havia vinte anos e não tinha família. Muitas reclamações eram pertinentes e alvarás de soltura estavam para chegar há muito tempo. Depois.. pedia para darem um tempo. Cumprimentava o senhor Waldique e saía de fininho. se me fotografassem. pois. sorrindo: — Onde você acha toda essa força e resignação? Me lembro bem da resposta. eu passava pouco tempo na vigilância.A princípio. porque mais tarde fiquei me perguntando aonde tinha ido buscar aquilo: — Resignação é a primeira coisa que se aprende na cadeia. e você sabe o porquê. educado. as fichas que tinham sido remexidas estavam arquivadas. Foi difícil. os promotores e advogados do Estado procurando gente para soltar. Eu ia até a vigilância e encontrava promotores examinando os arquivos.. aliás. O ambiente estava cheio de novidades. e esses eu transferi. bateu à porta e entrou. já que o álcool o pegou de tal jeito que saiu arrastado. As mulheres dos líderes estavam sempre lá. Afinal. — E continuou: — Já tenho problemas de sobra. mas não sei o que me deu. Ia em direção à cantina. e eu os evitava. arranjaram para ele trabalhar num dos albergues do Desipe. Mas. vocês estão aqui para cumprir pena e não para servir de pano de fundo a políticos. Como ele não tinha para onde ir. constatou que meu nome não estava lá. Os feriados se aproximavam. Só que eu tinha meu parceiro Jesus. A intranqüilidade de Pira com "entradas e carrinhos" me deixava assustado. jogavam paca. Esteve escondido dentro da caixa de água. O Desipe autorizou outras visitas de jornalistas. 29/3/1983. — Isso tumultua muito. — Mandou que eu me sentasse e ficou me olhando por algum tempo. Batemos um longo papo. Será que era tão séria assim a situação? Outra coisa: será que teríamos "dormida"? Fui até a vigilância marcar presença. em se tratando de cadeia. ficou num porre que deixou todos ali preocupados. Fez caras. Eu tinha doado quatro pares de raquetes e o pessoal jogava frescobol. Mal começou a beber. Essa situação causava um certo frisson na massa e 346 tumultuava minha cabeça. O juiz só vai liberar para sair na Páscoa quem saiu no fim do ano. mas o "velho" percebeu sua presença e mudou de lugar. você apareceu sem eu intimá-lo. Ele demonstrou claramente seu desagrado com a invasão de jornalistas. Ia bater paredão. se apavorou. Mas tudo acabou bem. Se alguém da administração visse aquilo. que. Estava tudo em paz. Bem que Pira estava desconfiado e esteve procurando lá. iria sobrar para todo mundo. Subi e pedi para João do Lago ver se o diretor podia me atender. isso não era verdade. Agora já não era tão fácil usar o muro do pátio 3. e só se falava em sair para visitar a família e na "dormida". Demoraram a voltar pois tiveram de fazer muito ziguezague para evitar os agentes penitenciários. O "velho" ficou sabendo que seu alvará de soltura estava na mão do diretor. advogados e até estudantes de direito. Olhou uma lista que estava na gaveta. tudo é possível. Mas atrapalhavam a batida de paredão. Eu tomaria conta da seção enquanto Chaves e Luiz o levavam. Decidimos levá-lo para sua galeria. Tinha arranjado uma garrafa de álcool e não achou nada melhor que jogar metade fora e completar novamente com laranjada. Hoje em dia já . promotores. Waldique não estava. Um minuto depois eu estava ouvindo..

comentou: — Até agora ninguém sabe quem disparou o alarme. Sabe. já estão dizendo que foi armação dos guardas. Não acredito que alguém possa entender a sociedade carcerária. Os internos que estão achando que têm direito à visita à família nem resposta vão ter. quando o alarme tocou e era tudo armação daquela turma de guardas. o tiro saiu pela culatra. quando estava lá. à porta. que estava sempre calmo e tirando sarro de tudo.. optei por sentarmos em um lugar que qualquer administrador ou agente que aparecesse não tivesse dúvida de que eu estava apenas recebendo uma visita. Não sei porque Pira está fazendo esse mistério. os guardas estejam realmente 348 tentando misturar todos os internos para acabar com as lideranças das falanges. Levantou-se e foi até a porta comigo. vá encontrá-lo. — Já consenti. passando por um bando de promotores e advogados que estavam sendo encaminhados para a saída. quando tocou o alarme. já ia atendê-los. — Seu pai esta aí. Pois foi apenas um alarme falso. Falou isso. dormir com elas. perguntei pela "dormida". É certo que temos de pagar por nossos crimes. tem de entrar no diário do inspetor. Durante todo o tempo em que ficamos juntos. olhando e fazendo cara de quem estava de saco cheio. com a mudança de governo. e ele. meu humor melhora. quando você pede para "dar um tempo". Olhei para o Chaves. acredito que em algum daqueles momentos me senti gente. não avisou que vinha na quinta-feira. Voltou quinze minutos mais tarde dando a visita por encerrada. usava uma das minhas camisetas. era guerra mesmo. deu para esquecer um pouco esse inferno e o complô dos guardas. aquele pingo de alegria vai saindo e você fica. Nós dois estávamos no salão. Retrospecto: Marilena esteve aqui na quinta-feira. Namoramos. Era o pique. 3/4/1983. Era sábado à noite. Marilena. Assim que entrei na seção. Lembro-me tão bem. mas tem de ter um "tempo" para não enlouquecer. É duro voltar. Parece o ralo de uma banheira. Pouco tempo depois. São 23 horas de domingo. assistimos à TV. Marilena e eu só falamos uma vez sobre o clima que havia entre agentes e internos. contava da "dormida" no sábado. Marilena e eu curtimos a "dormida". deixa o Pira pôr o aviso na LEP.347 compreende. depois nos desligamos do mundo. Estranhei a atitude de todos. não podiam mais ficar aqui. — Não fale nada sobre a "dormida". Marilena ficou 29 horas aqui comigo. Acompanhou Marilena até a portaria e eu voltei para a vigilância. 6/4/1983. dar com a galeria e com tudo aquilo. promotores e jornalistas por ali. longo e intermitente (fuga). Há uma guerra velada entre guardas e internos. naquele clima quase de guerra entre guardas e internos. Se quiseram chamar a atenção dos promotores e advogados do Estado que aqui estavam. era uma mistura de tranqüilidade e revolta. Animado. — O telefone tocou. mas só olhou e saiu novamente. abrir a porta. É um choque muito forte e o sofrimento é terrível. foi autorizado por escrito. 2/4/1983. Enfim. Talvez. conversamos sobre o futuro. esquecendo que estava naquele lugar horrível e degradante. Era o que me sobrava. Quando olhou para mim novamente. Aproveitei que houve uma pausa porque alguns guardas entraram sem se anunciar e ele teve de atender. apareceu um agente.. demonstrou . Pareciam exaltados. com sua presença. Foi ótimo. Esta sala e o serviço social eram um pouco além da administração e da carceragem. Marilena me surpreendeu. quase de guerra uma ova. como sempre. perguntei quem fugira. aquilo era um "tempo". tenho que atender aos guardas. na hora do "confere". ele atendeu e me olhou depois de ouvir o que diziam. Não sabendo o que fazer. ao lado do serviço social. e depois de responder à chamada voltamos para nossas mulheres. Ainda não entendi a razão. Aliás. quando era criança e brincava de pique. nós (os internos) ficamos sempre de pé. e eu explicava para ela todo aquele movimento de advogados. Ele fez sinal que esperassem.

senão o senhô vai caí daí. 8/4/1983. todas elas. no final da reunião. O diretor vai apresentar seu substituto. dr. Pedro Brito. Marilena entrou aqui e ficou 29 horas comigo. Hoje deve estar fazendo seis meses que estou aqui. e ela deveria ser organizada em conjunto pela administração e pelos internos. apesar dos comentários sobre revoltas nos presídios de São Paulo. não tinha a menor experiência de sistema penitenciário. estava com o saco cheio por causa do resultado de Brasília. Só aí percebi que aquela era minha última esperança. mas com o passar das horas aquilo foi tomando conta de mim. — Como vocês conseguiram a liderança? Foi aterrorizando os companheiros? Resposta dos dois: — Chi! É uma história muito antiga. Sugeriu que cada galeria tenha dois representantes e que esses dois façam relatórios a ele. Não é visita íntima. — Foi assim que Cuca definiu aquela convocação. Achei que tinha me olhado esquisito. De todo jeito. eu iria para a rua na hora. Não fui à reunião. Acredito sinceramente que a intenção do diretor era boa. Pira apareceu no meu cubículo. o alarme acabou de tocar e o alto-falante convoca todos os internos a ir para o auditório. alguns aplaudiram. segundo Chico Tonelada. Outra coisa que demonstrava a inexperiência desse diretor foi a pergunta que fez ao encontrar Pira e Jesus. o Cuca se levantou e falou: — É melhô o senhô fazê o nosso jogo. 349 Mas o que estava deixando o pessoal mais curioso era a reunião de todas as turmas de guardas com o novo diretor. eu assisti quando todos voltaram para as galerias. no auditório. O que salvou foi que. Mas o terremoto que essa reunião causou. Segundo Chico Tonelada. poderão receber os visitantes. sua presença foi um bálsamo. mas voltou e fez mais um anúncio: 350 — No dia da festa. Mais tarde. é para todos os familiares e amigos. Também. os internos se rebelaram na hora e deixaram claro que "as lideranças iam continuar e que isso era religião". os internos achavam que os guardas tinham feito a cabeça dele e manifestaram isso na reunião. A gargalhada foi geral e ele então concordou e deixou tudo na mão dos internos. quando saía da cantina. as galerias. . O ambiente ficou carregado. preferi ficar lendo. Esse papo foi em uma reunião com todos os internos no fim da tarde. Começou na Ilha. na saída do auditório. Dia do Trabalho. Sexta-feira. Era promotor público. visita normal. depois do "confere". o diretor ia saindo. Em qualquer grupinho só se falava nisso. que foi comentar os acontecimentos em meu cubículo. No momento em que recebi a notícia não fiquei muito abalado. 7/4/1983. dotô. Os internos também não concordaram e. E ainda quase trombei com o novo diretor de manhã. se Brasília anulasse o segundo julgamento. só estamos nessa vida há mais tempo. acho até que nunca tinha entrado em uma penitenciária até poucos dias atrás. mas ele não soube se explicar. Essa guarda não perdia por esperar. — Muito caô e depois trocamos de diretor. era Semana Santa. O dia foi calmo. Os comentários a respeito da sugestão eram todos iguais: — O homem está louco. segundo Chico Tonelada. fui informado que a Suprema Corte de Brasília tinha confirmado minha sentença. quer dois dedos-duros em cada galeria. No fim do dia. ele anunciou que ia dar uma festa no dia primeiro de maio.incompetência. o novo diretor quer acabar com as lideranças. O clima esquentou. No sábado. Aí. Afinal. mas ninguém é líder. vamos chamar esse fato de "Jupirão".

Depois de umas duas horas de um certo tumulto. Era escuro. Nos dias que se seguiram. Bianca estava no meio dos que estavam levando "carrinho". um sorriso sem um ou dois dentes. uma hora depois da troca da guarda. o Preá vai assinar os crimes. Eu também não estava bem. procurar a Baiana que estava atrasada com minha roupa e limpar meu cubículo. É claro que acordei mal. seu Waldique mandou te chamar. tinha ocorrido um incidente na galeria enquanto esperávamos por nossas companheiras. era uma questão de política. — Você conhece o Capeta (Adilson)? Daquele dia em diante. cabelo carrapicho. Quando acordei e abri os olhos percebi que tinha um camarada sentado à minha porta. Tocaram alarme falso. Os guardas que estarão no plantão são os que estão causando problemas e essas mortes vão prejudicá-los. Sentei-me e ele olhou para mim. Passei pelo cubículo do Pira e parei um minuto. frutas e refrigerantes. e os guardas. andou por todo o prédio e conversou com alguns internos. Segunda-feira. Não se preocupe com a gente. O bate-boca entre General e Lâmpada me deixou assustado. tomando café e deixaram as moças na chuva por uma hora. de olhos bem abertos. Marilena estava ótima. havia tempos sem cortar. a "dormida" mensal. por exemplo. isso já está decidido. Como eu tinha bolo. estava garantida. vá para a sua seção e fique lá. Ele mudou de assunto. vai ser logo de manhã. dois "alemão" (inimigos) vão morrer. Vai arrumar mais confusão com eles. Choveu. Sábado. Ontem à noite. que era praticamente meu vizinho. ele adorava o Chico Tonelada. de sacanagem. acordei com ressaca moral e com muito medo. Então era Capeta para tudo: ir à cantina buscar coisas. Tinha um bando de internos saindo e um outro entrando. porque um acha que não vale a pena provocar. Sentei-me embaixo do chuveiro e fiquei algum tempo. O que não adiantava nada. Falava baixo para não me acordar. Pira me explicou: — Na quinta-feira. trazia meu jantar e o do Chico. Tinha a cabeça grande para seu corpo. Então. na visita. acho que era para sair um pouco da seção. um na cantina e outro em seu cubículo. depois larguei o corpo na cama e dormi pesado. dr. naquele exato momento. Lâmpada e os outros querem ir à forra com os guardas já. não fui à cantina tomar café. Quando falei isso ele se sentou preocupado e quando contei que a Bianca estava 352 . mas não me enganou. ficaram conversando. Uma discussão boba. Além disso. isso é orientação do Desipe. Comentei que estava entrando e saindo muita gente. Quando tudo acabar. deixaram nossas esposas na chuva etc. Vamos pegar os "alemão" em lugares diferentes. fiquei sabendo o motivo da discussão e me apavorei mais ainda. Quando desci. vamos ser mais visados ainda. — Expliquei que tinha ficado abalado com as notícias de Brasília e tinha preferido ficar só. subi até a galeria. Dizia que de uma certa maneira ia continuar tudo igual. Aí a discussão. falou de "Jupirão". Ele continuou: — Esse doutorzinho vai causar problema com essa história de dois representantes por galeria.— Por que você não foi ao auditório? Se você forma com a gente. nem sabia bem por que estava fazendo isso. — Depois me avisou: — Nesse dia saia tarde do cubículo. o Capetinha passou a fazer parte do meu dia-a-dia. Estava de costas e conversava com Nézão. Pedro. mas violenta. mas no domingo ela chegou chateada. e uma barbicha. Nézão encostou na porta. Vesti-me rápido e fui para a vigilância atender o chefe. Era esperto. arranjou uma faxina muito boa na cozinha dos funcionários. Olhou e sorriu. o novo diretor. Ao voltar para o cubículo estava exausto. pelo volume de entradas e saídas. toda tarde. pois havia pelo menos cinqüenta rádios ou aparelhos de TV ligados a toda. 11/4/1983. O General e o Lâmpada discutiram 351 . tem que estar junto. — Oi! Sou o Adilson. já levei as raquetes e bati paredão até não agüentar mais.

nem parecia que tinha missão tão macabra. Durou uns cinco minutos. em breve seriam eles.. espera mais um pouco. mas não chama ninguém aqui dentro de dono de cadeia. Não consegui dormir a noite passada. mais danos e até uma revolta. isso é uma ofensa. o silêncio era total. O alarme tocou e não parou mais. — Essa Bianca. Mais tarde estive com Pira. quem sabe o que Pira e Bianca tramam. ainda mais porque Lâmpada esteve me visitando. eu já estava vestido e pronto para destravar a tranca da minha porta e sair em direção à vigilância. —Você é meu irmãozinho.. com ressaca moral. Mas olha.no meio. me chamou: — Aonde você vai? Fui até ele e contei da minha conversa com Pira. mas nunca esqueci sua reação. 15/4/1983. Ficamos conversando até tarde e teve um momento em que eu já estava doidão e resolvi dar uma opinião sobre alguma coisa. Ao sair para a galeria. É pouco provável. por que. enrolando outro charuto e. Ela estava aflita? Respondi negativamente: — Pelo contrário. Ele riu. Tive a impressão de que o tempo tinha parado. com seu gemido agudo. rindo e rebolando. O que chamava a minha atenção era a tranqüilidade com que eles encaravam a situação. vem Lâmpada. o Paulo tá chamando. mas não tocamos no assunto. Nunca vi camarada tão tranqüilo.. e usei uma frase mais ou menos assim: — Você que é meio dono da cadeia. não vou comer cu. Quando parou. o ambiente está esquisito. vi Chico Tonelada.. o mundo não girava. Ele estava calmo e não tocou no assunto. parou e ficou me olhando. principalmente se olhar pelo aspecto de que haverá mais mortes. Resposta surpreendente: — Mais tarde eu vou.. Assim que me viu e percebeu que eu ia descer. A princípio eu não sabia de nada. Feito isso me entregou e. é para nós. dizendo que.. de que misturar facções começaria uma guerra. Aquilo deveria chamar a atenção da administração. — Essa aí tá brilhando. só de shorts com as mãos na cabeça... sabe para onde ela foi? — Respondi: — Foi para a Ferreira Neto em Niterói. Aliás. em direção à vigilância.. Ele ficou olhando para o teto pensando. ao ouvir o que eu disse. Eu sabia que ele e Jesus eram os chefes do "bonde" (grupo de internos encarregados da "limpeza"). De repente levei um susto e quase caí. ele catou uma calça e saiu a toda. Sei que eles não tinham outra coisa a fazer.. nosso príncipe e não vou ficar bravo. pesado. só o silêncio sepulcral era percebido. . Assim não ficaria tão ansioso esperando o alarme tocar. fui perguntar ao Chico Tonelada o que podia significar aquilo. Não tenho a menor idéia do que sugeri. — É.... — Lá não tem problema. olhando o relógio da Central do Brasil. você deveria ir para lá.. ela sabe muito. Faria exatamente como Pira tinha me instruído. Abriu a mão e jogou um "papelote" na cama.. Estava sentado à sua porta.. daqui a pouco dois iriam morrer. Segurou-me: — Fica aí. não sei por que está aqui. Mas o melhor no momento era tomar um banho. Ela pode estar guardando armas para ele. Passou a língua na seda para dar acabamento ao "charuto"... 353 — Acende aí! Eu estava fazendo isso e o General apareceu à porta. saiu dando adeusinho. Estava sentado na beirada da minha cama. bandidos. me trataria como príncipe. Isso se não estivessem prevenidos e não revidassem. Isso aqui é um perigo. Tinham de tomar uma atitude e tomariam. o que pioraria a situação. Como não entendi nada. mas não é impossível. Fez um "charuto" enorme e só foi embora depois de acabar com meus refrigerantes e meu pão de forma. Acordei muito mal. não. se não tomassem aquela atitude. Eu nunca tinha sentido algo assim. se eu fosse dela.

foi atacada por uns dez internos e levou mais de oitenta estocadas. do movimento de policiais militares entrando e saindo. 354 A Polícia Militar já tinha entrado e prendido o Preá. resolveu matá-los. Esperei quase uma hora e desci. apavorado e sem saída. Encontrei Wal-dique sentado em frente à mesa do Chaves. Parecia com pena da vítima e aliviado por tudo já ter acabado. — Está tudo bem. fui direto para a seção. onde tinham planejado pegar uma das vítimas. fiquei completamente desnorteado. Enquanto estive com ele. mas o som de rádios e o barulho estavam de volta. pôs a mão na altura do coração. suas primeiras palavras foram: — Já passei o diabo no sistema e não pensei que aqui tivéssemos que continuar as "limpezas". provavelmente. Não consegui lanchar nem almoçar. Quando ia continuar. Só então olhou o outro lado do balcão e encontrou o coitado lá deitado. depois que Jesus terminou o lanche e saiu. o telefone tocou e ele foi para a sala do diretor. logo após o lanche. lá ou a caminho. Falavam baixo e. Waldique disse: — Não acredito nessa história. cheio de sangue. O movimento de policiais militares tinha acabado. o mataram com mais de cem estocadas. Alegou que as vítimas o perseguiam e o ameaçaram de morte. Jesus apareceu à porta. queria ficar sozinho. Que. Os internos que encontrei no caminho falavam alto e riam. O movimento de internos era menor. Fui para o meu cubículo. tudo. No começo não tinha idéia sobre o que falávamos. Convidou para comermos qualquer coisa na cantina. tudo voltou ao normal. Segundo o que o Hugo me contou. . mas não titubeei. O primeiro a morrer foi apanhado de surpresa em seu cubículo. quando me viram. Foi ele quem me contou. que ficava na mesma galeria que o do Chaves (ele me confirmou tudo mais tarde).Ele estava muito assustado. e provavelmente sem vida. e deu-lhe mais algumas estocadas. o que aconteceu foi o seguinte: mais ou menos vinte 355 internos passaram pela cantina falando alto e rindo. de recolherem os corpos e de todos os chefes de seção se reunirem com o diretor. esperávamos a sirene chamando para o almoço. Isso tudo me incomodava. que dois internos tinham morrido. sabiam que aqueles dois iriam morrer. Até um interno que não tinha nada a ver com o "bonde" entrou no cubículo da vítima depois de ela já estar deitada. ou quase todos. tinha dado a primeira estocada. O chefe disse para eu sentar e ficar calmo. Quando abordou o assunto. só se deu conta porque um desavisado que ia chegando saiu rápido e apontou para o chão. só os próprios não conheciam seu destino. sorriu para mim. a não ser que ninguém mais tinha aparecido. que se apresentara à inspetoria e se declarara o autor dos crimes. Como ele não percebera nada estranho. mas lembro perfeitamente da tranqüilidade e da disposição dele comendo o hambúrguer e tomando Coca-Cola. fizeram sinal para me aproximar. Nem parecia que ele tinha comandado o "bonde" (grupo que participou do crime) que fizera o serviço ali um pouco antes e que. me contou que na cadeia todos. — Coisas de cadeia. conversando. O "bonde" fez um amigo de confiança da vítima bater em sua porta. Quando ela abriu. O número de internos desse "bonde era maior. Eu não tinha a menor vontade de acompanhálo. como se nada tivesse acontecido. aquela manhã me tirou do ar. Não pararam apenas passaram por lá. saí imediatamente e acompanhei-o até lá. nem olhei para o lado da cantina. O outro foi pego na escada. Todos os "faxinas" da vigilância estavam ali. Convidaram-no a tomar café na cantina e. Não perdi tempo. Depois dos crimes.

tudo tinha de ser analisado. saio dentro da lei. Seus esclarecimentos eram a pura verdade. verem dois cadáveres sendo postos num rabecão. acabei por jogar todas as bolas por cima do muro. No dia seguinte só cheguei à seção um pouco antes das dezessete horas. Depois de telefonar para Marilena. Bati paredão das sete às oito. Não acharam nada na quarta galeria (que foi a única naquela noite a receber a visita dos guardas). os guardas vão estar tomando conta do refeitório. apesar de que.Naquela mesma tarde. Podiam perfeitamente fazer isso sem me deixar nu. Não acharam nada. morava fora do presídio com a minha mulher. Aquela história de o Pira começar a chamar mamãe de segunda mãe era estranha.. que não vi mais nada desde que entrei ali. Eu preciso sair daqui. — Ninguém vai ver a gente. tenho saudades de lá. Na quinta-feira. não dava para deixar passar nada. está tudo bem com o príncipe. que vou levar você pro telhado. o meu cubículo sim. Nunca tinham me revistado. O mar. Quando apareci no salão. se eu agüentar mais dois anos. disse: — Vamos pegar sanduíches e Coca-Cola.. Revistaram todos e tudo. quando ela esteve aqui com Marilena e viu os "presuntos" saindo. Só não vimos o sambódromo porque não existia nem o projeto. mamãe e Marilena estiveram me visitando. Revistam tudo e você volta para colocar tudo em ordem. Estranharam também porque. Ficou por ali. Quando elas se aproximaram. Agora. nesse estado de ânimo. para mim principalmente. que parecia todo riscado por causa dos prédios. na época em que fui preso de confiança. mandaram que eu entrasse e tirasse a roupa e examinaram a bainha do jeans. olhou um mapa que mostrava todos os cubículos e depois me convidou para comer um sanduíche. Pira dizia: — Esta cidade é minha. Só acharam estranho. armários desmontados. que é bater aquela bola no muro. nossa casinha de pescador. É um lugar lindo. O telhado era tão velho quanto o prédio. pedem para a gente sair e esperar na galeria em frente à porta. foi a época mais feliz 357 de minha vida. Mas estava exausto. viram Jesus e Lâmpada dando adeusinho. Muitos colchões foram cortados. Tinha acabado de sentarme em meu lugar quando Pira apareceu. O que estava mal era o forro. na hora em que estavam entrando. Acredite. ele também faz só. Logo que saímos da seção. e o guarda da guarita eu conheço. gosta de andar sozinho e o esporte que gosta. não tinha dormido direito e. voltei ao cubículo e só saí para ir à seção no fim do expediente. Sentamo-nos num lugar alto e ficamos olhando e assistindo ao pôr do sol. a horta. para abraçála e tranqüilizá-la. Isso era tudo sujeira e abandono. 18/4/1983. passei por muita coisa dentro do sistema. mas a mim era a primeira vez. eles disseram: — Não se preocupem. que coisa mais exaustiva. com Capetinha assistindo e apanhando as bolas. lá em cima era bonito. após virarem o cubículo de ponta-cabeça. Fiquei emocionado ao ver a cidade que eu sempre amei. Também achei estranho ele aparecer em meu cubículo para ter uma conversa séria (que tinha sido interrompida pela "geral"). Como a vida ali era complicada. os fios soltos ou os que saíam. não se envolve com nada. mas acho que estavam a fim de me humilhar.. — Perguntei se não havia problemas com os guardas.. Quando há uma "geral". as caixas d'água. Já estou preso há muitos anos. ele chegou até a escrever bilhetes para ela. a tarde está fresca e de lá se vê a cidade. Ele dizia: 356 — Ele se dá bem com a massa. uma atitude. emendados em antenas. A viagem é longa e a barca desconfortável. Eram tempos de linha-dura e todos . de uma janela que dava para o jardim da entrada. Um sorriso. elas estavam bem. Quando a gente chega lá é muito sacrificado para a família. Com um bastão de ferro batiam no solo e nas paredes dos cubículos à procura de "cafofos" com drogas ou armas escondidas. Fiquei preocupado. mas estava bem conservado. ele deu um jeito de ir até o salão onde estávamos. Mas. Desta vez. custei a dormir naquela noite pensando nisso. que iam com minhas cartas. a maior parte na Ilha Grande. nem comigo nem no cubículo.

Provavelmente ele tinha inspecionado aquele pátio e não tinha encontrado ninguém. O Chaves era engraçadíssimo: — Nossa. A inspetoria dava para os orelhões e para uma das portas do refeitório. Tínhamos que dormir escoltados por companheiros. Depois começaram com as transferências malucas e está tudo desse jeito. pegou um telefone e ligou para a mulher dele. 358 Descemos e fomos em direção à nossa galeria. mas parei porque ouvi vozes no corredor. pois ele estava me cercando há dias. Foi nessa época que formamos a Falange Vermelha. quando os presos saíam de lá tinham gente para procurar e planos para executar. eu ouvia mais o barulho de seus passos. Hoje em dia já existe a Falange Jacaré e o Terceiro Comando. Fui para um dormitório repleto e dormia na sexta cama de um beliche. Apesar da vantagem da surpresa. ali havia uma certa união. ouvindo aquele homem contar uma parte da sua vida. Olhei naquela direção e vi uns cinqüenta policiais militares. tínhamos de passar em frente à inspetoria. Assistíamos a suas conversas. Então decidimos atacar o dormitório dos inimigos. Eu segui em frente e subi a escada que ficava a uns quinze metros de lá. ele estava na porta. Eu já estava entrando. perguntei o que ele queria falar comigo desde a noite anterior. uns quarenta minutos. mas. saí cedo da galeria e fui para a vigilância. . Precisávamos dormir com gente tomando conta. Sabia que tudo o que tinha acontecido ultimamente tinha o dedo dele. Nós tínhamos conversado muito com os políticos que estavam lá. ele conhecia a minha situação. achamos que era o momento e atacamos com estoques e lanças. e furar alguém no sexto andar não era difícil. Não abri a boca. aqui no Rio de Janeiro. 19/4/1983. Para fazer isso. conversando com Chaves. com medo de sermos mortos. não interrompi nem uma vez. Fora que. o inspetor ficou olhando desconfiado. Quando me recuperei vim parar aqui. Até pouco tempo atrás. houve muita resistência e muitas mortes. porque eram contra o atual regime. mais uns quinze agentes penitenciários entrando no auditório.éramos condenados pela Lei de Segurança Nacional. quanto homem fardado. seus planos e aprendemos a nos organizar. a Falange Vermelha comandava a Ilha Grande. Acho que durou um bom tempo essa narrativa. Éramos quatro na seção naquele momento. Acho que alguma coisa muito séria está para acontecer. antipático. Aqui mesmo tem uma porção deles. presos como a gente. será que vieram fazer visita íntima com a gente? Não sei se o diretor ouviu. como sempre. seu Waldique devia estar no auditório junto com os outros. Peguei umas fichas que estavam em cima do arquivo e. Por isso escolhi o último andar do beliche. O Chaves chegou rindo e brincando. amanhã a gente se fala. e abriu a porta. Mas sempre tem os que não concordavam e começavam a querer organizar outros grupos. Os internos que não concordavam conosco se agruparam e quiseram tirar nosso poder. quando percebemos. Cheguei tão cedo que tive de ficar sentado à porta esperando o Chaves chegar. Se bem que o pessoal de lá fabricava lanças. Não falavam alto. Tinha dormido bem. Fiquei o tempo todo quieto. e como aparecemos vindos do pátio 3. As mortes começaram novamente. Tínhamos receio de ter o dormitório invadido. era por causa dos "alemão". e sabia também que ele estava certo numa coisa: não se devem misturar quadrilhas. Estávamos intrigados com aquele monte de policiais e guardas no auditório. e conseguimos muitas regalias para os internos. não por causa dos companheiros de dormitório. Preocupado com a conversa que iria ter com Pira. Magro. Começamos a voltar e. Para demonstrar despreocupação. Numa noite escura. fui arquivando. apesar do pressentimento de que Pira iria me pedir alguma coisa muito séria. — Preciso pensar mais um pouco. antes de entrar no forro do telhado. e agora não entendia bem o que estava acontecendo. Pira parou nos orelhões. mais ou menos. Me acertaram muitas estocadas e acabei num hospital. Seria dinheiro? Era pouco provável. Com a Falange as rebeliões e as mortes diminuíram. Isso nos rendia uma porcentagem e auxílios.

Ele achou melhor eu pedir sanduíches da cantina do Hugo. não de tiros por dívidas com o tráfico nem de balas perdidas pela guerra por pontos nos morros e favelas. — O ambiente está sinistro. examinou tudo o que eu tinha e pôs tudo no lugar.) Depois da sua visita. resolvi ir à cantina do Antônio. Tinha ido me procurar porque precisava de alguns cruzeiros para resolver uma "parada" que o estava preocupando (uma pequena dívida de jogo). Que haveria fugas e mortes. Queria comer um bife acebolado com arroz e feijão. — Será que sua mãe me esconderia por uns tempos? Ela não correria risco. Além do mais. pois no mínimo acabariam as quadrilhas ligadas às drogas. Antes de entrar. pus um shorts e fiquei esperando. depois chegou no meu armarinho com espelho. mas nunca pararam de funcionar. vão fazer outra coisa. Fiz um lanche rápido e fui me arrumar para voltar à seção. ele é capaz de se aborrecer por eu pedir isso à sua mãe. Os pátios estavam cheios. lá ninguém me conhece. mas só. está cheio de polícia conversando com o diretor. Naquela época do ano o clima era mais agradável e dava perfeitamente para ficar no cubículo sem o ventilador. Eu já tinha 359 passado os olhos. Pira realmente me pegou de surpresa e demorei um pouco para me recuperar. Os pátios 1 e 3 estavam ocupados com jogos de futebol. a Time. Levantou meu colchão com cuidado. mas. O artigo era sobre a liberação dos tóxicos. Eu garanto.. apesar de seu plano de sair em dois anos por término da pena. Depois de alguns minutos o diretor apareceu com o chefe de segurança e uns quinze policiais militares. Ele bateu com o dedo indicador no fundo e fez um barulho oco. Desci com Capeta. Tirou o espelho enorme que Jesus tinha me dado e me chamou para ajudar a colocá-lo de volta. quando Pira chegou. tinha de voltar para a cozinha dos funcionários. Morreria gente por isso. escova de dentes etc. tivesse de fugir. até começar a falar. passou a mão em volta. que Lâmpada me arranjara. O Capeta apareceu e eu pedi que fosse em meu lugar encomendar e trazer a comida. Quando chegaram ao meu cubículo. que tinha um artigo que me interessava: "Cocaine folly". Tinha acabado de ler o artigo e folheava a revista. Que. quando notei que o pessoal estava subindo e avisando que ninguém podia sair das galerias porque ia começar uma "geral".. Sentou-se na cadeira. o primeiro com futebol de salão e o terceiro com futebol de campo. mas ele não aceitou. Já estava na escada. O espelho ficava na pequena porta e lá ficavam o copo. . fui deixando para depois. Resolvi ir para o cubículo e ler uma revista que Marilena trouxera. eu saí e entrou um policial alto e gordo.barba clara e óculos. se fosse necessário. disse: 360 — Com licença. Não agia como os outros que tiravam as coisas e jogavam no chão. como tinha preguiça de ler em inglês (pois tinha de me concentrar muito e assim mesmo perdia uns trinta por cento). A não ser os "faxinas" que estavam nas seções. ficou olhando para os pés. e puxou a cortina. Ela não faria nada sem falar com ele. convidei-o para um lanche. ninguém sabia da reunião que estava acontecendo no auditório. o diretor nos ordenou impaciente: — Saiam daqui. (Nunca mais tocamos naquele assunto. Mas. Examinou minha Tv e o rádio. Dizia que a situação estava incontrolável. As cantinas estavam proibidas. olhou e passou a mão atrás do vaso sanitário. Expliquei que a única pessoa que poderia convencer mamãe a escondê-lo era o meu amigo "banqueiro". Eu sempre fui a favor da liberação. papai talvez aparecesse. talvez. Pira ficou pensando um pouco e disse se levantando: — É melhor eu pensar um pouco mais. Voltei.

dos Rollings Stones e de outros sucessos. Pira dizia que ele era muito exigente.. estando no lugar errado na hora errada. Tinha assaltado muitos bancos e. Dizia brincando que em último caso serviam até de alimento. depois que a "geral" acabou e a Polícia Militar foi embora. Soltei um suspiro demonstrando toda minha tensão. que tem de fazer um trabalho desses. fumo e pó à vontade. ainda não sabia seu nome. um grande amigo do Pira. com várias "gerais" e boatos de fuga em massa. — E acrescentei: — Nossa! Que susto. Sua pena era grande e sua ficha criminal maior ainda. algumas pessoas tinham morrido. A impressão que dava é que era o contrapeso. se retirou desejando boa tarde. pois tudo ficou registrado na vigilância. fumo. Tirando a cama e alguns livros. Depois de uma semana tumultuada.Olhou para mim e disse: — Vem aqui. Apesar de termos trocado algumas palavras. educado. No pouco tempo que esteve lá fizemos boa amizade. empurrou o fundo com o dedo e depois puxou. dias depois. às quatro da tarde. olhava a jovem liderança com certo ar de superioridade e os desprezava. 26/4/1983. — Comprei de um corretor. Ele riu e perguntou onde eu tinha arranjado aquilo. Não tive provas disso. havia de tudo. exerciam uma liderança muito forte entre o pessoal jovem. pois. baralhos e até papelotes. alguns deles foram transferidos. Não conseguia me concentrar para analisar os novos acontecimentos dessa situação. na quarta galeria. Foi morar em frente ao meu cubículo. Não tomava conhecimento das baratas e insetos que incomodavam tanto a gente. e ninguém parecia preocupado. Estoques. Na mesma época chegou o Professor. nem me lembro mais. O guarda riu e me aconselhou a examinar bem o que comprava na cadeia. Andavam sempre em grupo e o líder tinha aparência de adolescente. um verdadeiro cavalheiro. Marilena chamou minha atenção: — Não acha que está tudo muito quieto e o pátio quase vazio? Expliquei que no auditório tinha apresentação de teatro dos internos e outras coisas como declamações e preparação para o Dia do Trabalho. pois. A intranqüilidade era constante. — Aqui tem um "cafofo". só comprovei que catorze internos foram parar nas "surdas" e. e algumas famílias já estavam se retirando para evitar filas na portaria. Naquela tarde o pátio ficou cheio de tudo. Mas. Pelo que pude reparar. — Me aproximei e. nesses "trabalhos". No domingo. descemos para encontrar papai. 1m 80 de altura. naquela mesma noite. Realmente tinha um fundo falso. falava baixo. A vida estava difícil. na hora que fizeram aquela "geral". pouco cabelo. não adiantava jogar o pó na privada ou no boi e tentar puxar a água. há mais ou menos um mês. Na nossa galeria não encontraram nada. É difícil esquecer um camarada educado. não tinha mais nada. Mulato. Era cuidadoso com sua aparência. sendo mais velho. então me pedia para traduzir algumas músicas dos Beatles. óculos e uma postura diferente de todos. que era de preocupação. impunha respeito e tinha idéias próprias. novamente. pois havia muita desconfiança por parte dos internos com a nova administração e com o pessoal que o ex-diretor tinha deixado vir da Ilha. Tirando tudo de dentro. como sempre. Esteve muitos anos na Ilha. era o único morador da galeria naquela situação.. Ouvi dizer que apanharam bastante para contar como tinham arranjado aquilo. Alguns internos que tinham chegado da Ilha. Era calmo. 361 24/4/1983. Não era casado e não tinha namorada. cortaram a água. 20/4/1983. todos andavam prestando muita atenção em tudo para não entrar em uma gelada. No final da visita. Continuando a rir do meu susto. . Postura diferente da do Pira. só que felizmente estava vazio. mas descuidado com o cubículo. Ele gostava de recitar poesia para as moças durante a visita. vou ter de tirar a parte de trás. que estava próximo. mas nas outras pegaram uns caras de bobeira com fumo e pó. como sempre.

na porta da sua casa. onde estavam passando um filme. a penitenciária inteira. houve um apagão e o auditório ficou às escuras. pois estava ansioso para pôr meu cubículo em ordem. Eduardinho perdeu uma perna por causa de um tiro que levou em um assalto na Bahia. Estava muito envolvido com aquilo tudo e principalmente com alguns daqueles fugitivos. (Essa reportagem saiu em 25/4/1983. O jornal trazia também a foto de Mimo com o título "Uma vocação de bon vivanf. Eduardinho e o Marinheiro estavam entre os vários que tinham partido. quando todos estávamos no auditório. Nas penitenciárias. como todos os internos. depois da Ilha Grande.: Mimo foi morto pouco tempo depois. só na nossa galeria faltavam três. depois que as visitas foram embora. espantosa. com o sucesso da fuga. apesar disso. Marilena tinha razão. Alguns internos 362 estavam faltando. Depois do "confere" naquela noite. o alarme tocou. e. piadinhas e muita movimentação da guarda e da administração. Eu tive uma sensação estranha e. Jesus. andam em completa liberdade entre os guardas". Tocaram a campainha. Em seguida. a instituição não poderia ser definida como tal. Os guardas estavam agitados. para eles pensarem que era algum defeito. Não tive tempo de arrumar nada quando o alarme tocou.. No momento que Marilena achou que estava tudo muito quieto. Em 1985. os fugitivos usaram um bueiro que ficava ao lado da portaria daquele complexo penitenciário. segundo o jornal. fizeram a gente subir para as galerias. longo e intermitente. Toque de fuga. ninguém sabia de nada. mas. interromperam a programação e todos nós fomos para as galerias. 564 internos eram vigiados por apenas nove guardas". algo estranho se passava. Tinha fugido três vezes do Instituto Penal Cândido Mendes (Ilha Grande) e sempre negara pertencer à Falange Vermelha. durante o dia. Jesus. tinha descido às pressas com Marilena. olhei por todos os cantos e não o encontrei. tudo voltou ao normal.É. procurei por Pira. Os jornais dos dias seguintes noticiaram a fuga e comentavam sobre o apagão e sobre o espanto das autoridades. até certo ponto. O jornal também deu destaque à Lemos de Brito: "É considerado como o presídio de população carcerária mais perigosa. gargalhadas.. Quando a luz voltou e tudo parecia sob controle. O que sei é que em um certo momento apagou tudo. escreveram que tinha tido sucesso como jogador 363 de futebol. ele atendeu e foi fuzilado pela Polícia. se não fossem. Houve assovios. Jarra. Era mais fácil encontrálo na capela conversando com o padre. que tinham acabado de tapar todos os buracos embaixo da penitenciária e lacrado com cimento todos os bueiros da região. encontrei o . Realmente eu nunca o vi com Xane.. (Marilena.) Aquilo foi apenas para confundir os guardas. alguns internos escaparam por baixo do palco. Todos os internos estavam com cara de santo. sem tranca nas portas. Encontrei Pira vendo TV. Enquanto tomavam providências para trazer a luz de volta e a atenção dos guardas estava voltada para isso. Acrescentaram ainda que: "Ontem.) O jornal se enganou ao informar que só quarenta presos tinham cubículos individuais. Segundo o Jornal do Brasil. franceses e americanos. papai e eu não percebemos porque estávamos no pátio e lá ainda havia sol. Nem parei. Pira. Lâmpada e os outros. Segundo comentavam. Obs. cerca de quarenta detentos vivem em cubículos individuais. Mimo. cariocas. Quando tudo voltou ao normal e as luzes se acenderam. A fuga ocorrera durante o apagão na penitenciária. Também. fomos todos para o auditório. quando eu já estava albergado. tinha atuado em clubes mineiros. Professor. Ele concentra o maior volume de presos de alta periculosidade. todos os cubículos são individuais. Após a visita. que desde a tarde esteve encoberto por uma Kombi. Senti-me exultante. a fuga começou por um buraco feito na parede do auditório. inclusive o Professor.

sendo que os guardas cumpriam seus turnos. caso fosse necessário. ninguém notou. Como descobriram: na troca da guarda pela manhã. me transportando por instantes para nosso quarto. Eu não tinha nada a ver com isso. na mesma época (1985). O mais estranho é que. Eu arquivei essa ficha. quando o advogado do Lâmpada veio visitá-lo. Eles eram minoria. Eu conseguia sentir exatamente o ambiente e quando Manon (uma poodle miniatura) latia. Nesta madrugada sumiu o Lâmpada. Nunca tive confirmação desse fato. um deles ia acordar com a "boca cheia de formiga". apesar de achar que se alguma autoridade lesse ia dar um rolo danado. ao me ver de sua janela. abram o portão para eu sair. tinha certeza de que ela sabia que Marilena falava comigo. Não entendendo a razão de um desaparecimento tão espetacular não ter saído nos jornais. era melhor ninguém saber que eu tinha lido a ficha. é que deram pela sua falta. na hora em que arquivei. não teriam a menor chance. veio me abraçar. Anotaram: um telefonema anônimo alertara que o interno conhecido como Lâmpada tinha se evadido. na Milton Dias Moreira. que morava em uma pensão ao lado do posto. Os guardas encontraram na inspetoria um aviso: se continuassem com aquilo. que tinham visto ele descer de uma Kombi do Desipe de madrugada. Batemos um papo curto. aparentemente. É claro que houve reação imediata. Daquele momento em diante. O alarme tocou. como sempre. pois ele não foi encontrado. esfregou e pediu: — Guardas sejam bons comigo. pois era dia e ele não podia ficar se expondo. Aquela história estava cheirando a encrenca. Para surpresa geral. Terminado o telefonema. não havia ninguém na sala. . Ninguém tinha espaço. o relacionamento entre internos e guardas ficou traumático. tinha comprado 50 mil cruzeiros em balas e doces para distribuir entre a criançada. Aqueles eram momentos sagrados. Quem resiste ao poder de uma lâmpada maravilhosa? 3/5/1983. Narrava os fatos e contava que Lâmpada. As mulheres dos internos começaram a reclamar de abuso ao serem revistadas nos dias de visita íntima. o alarme também tocou na penitenciária vizinha. houve uma "dormida" e a festa de primeiro de maio com "Jupirão" e tudo. Segundo me informaram. Jesus tinha morrido em um assalto a banco.Professor em um posto de gasolina. Era voz corrente na galeria que o Lâmpada tinha saído vestido de guarda e tinha gastado 600 mil cruzeiros. lá também tinha desaparecido um interno. Também. para festejar seu retorno ao morro da Cachoeirinha. Esses telefonemas eram cedo. meu trabalho era pôr a ficha no lugar e foi o que eu fiz. trocando tiros com a Polícia. tudo estava normal. numa reportagem do Jornal do Brasil. eu captava sua alegria e seus pulos. não começava meu dia sem aquilo. resolvi dar mais uma olhada na 365 ficha. Pelo menos eu só encontrei notícia dos desaparecimentos no dia 13 de maio. 5/5/1983. nem nós. Eu tinha batido paredão logo cedo. Preferi então ficar quieto. Depois disso nunca mais ouvi falar nele. Só à tarde. O ambiente ficou carregadíssimo. Todos andávamos em grupos. houve o "confere" e só então constataram seu desaparecimento. 364 Apesar do ambiente. nada havia de anormal no relatório deixado pela guarda que acabara de sair. nem os guardas. Os jornais só ficaram sabendo desses fatos dez dias depois. falei com ela de olhos fechados. ele pegou sua lâmpada maravilhosa. antes das sete. 2/5/1983. pois no dia anterior. Como sempre. fui para a vigilância e arquivei a ficha do Lâmpada. O seu advogado não entendeu nada. Não a encontrei e fiquei tão preocupado que nem perguntei nada ao Chaves. Parei para abastecer e ele. conforme a promessa do diretor. sempre preparados para sair rapidamente da carceragem. a primeira coisa que fiz hoje foi telefonar para Marilena. que estava em cima do arquivo e continha informações sobre sua fuga. Só que não foi exatamente daquele jeito que descobriram.

Ela e minha lavadeira (a Baiana) se desentenderam. Cinderela". também morreu na saída de um forró na periferia. Já faz dois dias que o alarme não toca e não há "geral". davam pernadas. que eu possa olhar o mundo novamente. Ambas são perigosas e acabaram se machucando muito. mas eu nunca acreditei e não queria ter falsas esperanças. Não quero sentir de novo que eu não participo mais dele". É. foi coisa de cinema. Sei lá. que tinha dispensado a visita da namorada por causa dela. tiveram de baixar no hospital. mas foi só na administração. (Mesmo com dois incidentes que mexeram muito com minha cabeça. A lei entre os internos é clara: bandido que é bandido não volta. mas não conseguiu. ocupou o cubículo que lhe pertencia antes de ser transferida. pouquíssimos conseguem. com tudo contribuindo para deixar a administração preocupada. O diretor tentou castigar os que se apresentaram ao Desipe. Em 1987. uma coisa boa: o diretor concedeu uma "dormida" no próximo sábado. fiquei acompanhando a limpeza do meu cubículo. oitenta por cento da penitenciária acha que tem direito. Apesar de o clima continuar pesado. Era assaltante para qualquer ocasião. Alguns dias atrás. Quantos voltarão? Por mais que o novo chefe de segurança seja um homem de experiência. mas o que gostava mesmo era de arrastar os "bofes" para um "boa noite. Estivemos juntos na penitenciária Lemos de Brito. sem escrever nada. o pessoal da Falange Vermelha estava indo embora sem alvará (fugindo). xingamentos. socos. após ficar sozinho. ninguém soube por quê.. O NOVO DIRETOR Tinha pegado uma batata pelando na mão. . 6/5/1983. muitos tentam. Próximo domingo é Dia das Mães e 52 internos irão visitar suas famílias. MAIO COMEÇOU COM OS ÂNIMOS AGITADOS. e de eu pressentir que algo iria acontecer. mão na cintura e rebolados. assaltante de bancos. 9/5/1983.depois telefonei para Marilena e agora de tarde recebi a visita de dr. Um grupo está reivindicando visita à família no Dia das Mães. Como era apenas uma estadia de dois ou três dias. um rapaz bem-apessoado. como não foi caracterizada a fuga. A "dormida" que o diretor concedeu transcorreu normal. apesar da violência... me contaram que tinha sido solta e morta em seguida. voltou porque tinha de fazer um tratamento no hospital. e na Ferreira Neto. segundo me contaram. Ele tinha algumas notícias sobre o meu recurso e parecia entusiasmado. Uma delas com a marca do ferro de passar nas costas. O serviço social está repleto de pedidos para encaminhar ao juiz da Vara de Execuções Criminais. escrevi estas poucas linhas: "Peço que Deus me conserve tranqüilo. em Niterói. Mal tomou posse e mataram dois internos. porque.) Nos dias que se seguiram houve problemas. em Niterói. o juiz acabou mandando todos para a penitenciária Ferreira Neto.. No final. no Rio de Janeiro. e quebraram um pau que. O diretor não se conformava que a maior parte dos internos que saiu no Dia das Mães tinha se apresentado no Desipe em vez de no presídio. Parece que o novo diretor não pensa assim: — Tem de voltar e pronto. ia assistindo ao Capeta limpar o cubículo. não poderá prever quantos estariam dispostos a retornar. em vez de ir bater paredão. Para aumentar a tensão. que os sonhos não me abandonem.. no Desipe. 366 No meio de toda essa confusão. houve um fato que quebrou a tensão. Durou mais de quinze minutos. Com isso na cabeça. A luta para sair é sempre incansável. ninguém tinha coragem de apartar. caíram no mundo. As duas quase se mataram no meio de griti-nhos. um pouco antes de eu vir para São Paulo na condicional. Acordei cedo e.. foram 29 horas de namoro e companheirismo. Puxa! Se acontecesse de eu ir para a rua e sair daquele inferno. de bloco e caneta na mão. e golpes de capoeira. Seu amante. como ela mesma dizia. Marilena e eu nos conservamos tranqüilos. Bianca tinha muitas especialidades como criminosa. Aconteceu uma briga incrível: a Bianca (há sessenta dias transferida para o Instituto Ferreira Neto) passou uns dias aqui. E os que não se apresentaram lá. Humberto.

Cuca. que assistia a essa reunião. aparentemente estava tudo normal. nem o trabalho do pessoal na piscina. Era necessário saúde e muita atenção em todos os acontecimentos. pois tinha chamado um companheiro. Um deles no Marinheiro. Os internos das galerias de visita íntima estavam reunidos para achar um jeito de as crianças ficarem no pátio. Pira imediatamente achou que era possível. prestando atenção no jogo de futebol. continuava batendo paredão até a exaustão. que já não estava mais sozinho. os guardas estavam se dando mal com os novos administradores. Não era só no conjunto penitenciário de Frei Caneca que as coisas não andavam bem. que continuava em sua mão. Cuca mostrou o cigarro. O ambiente estava pesado em todo 368 o sistema. avisado. E lá tive um momento de descontração que só o Cuca seria capaz de proporcionar. em Bangu. o material.) Com ele. foi . me transportava para outros lugares. foram mais dez de outras galerias. O pátio 1 estava cheio e ninguém deu atenção para aquele fato. As administrações conseguiram esconder os fatos por uns dias. Precisavam ter algum tempo de tranqüilidade. Ele gargalhava ao ouvir o meu pedido. Pira conseguiu a autorização. como também não sabia que tinha sido capturado no túnel. O que será que o guarda foi fazer lá? Não acredito que tenha ido até Bangu só para agredir um administrador. No presídio Esmeraldino Bandeira. ladrilhos. que. Para acender o baseado. Capetinha e eu assistíamos aos arremates. é bem verdade que grande parte eram best-sellers. O número de pessoas trabalhando era incrível. acendeu um baseado. queriam revistá-lo. misturando as falanges. enquanto eles ficavam com as esposas nos cubículos. Bom. Depois de uns vinte minutos o Cuca apareceu no fundo da quadra caminhando em nossa direção. Vinha andando devagar. atrás da quadra de futebol de salão. Quando chegou perto abriu um sorriso e enfiou a mão na boca. Para descontrair. a diferença de ambiente. (Eu não sabia que ele estava lá. tirando a dentadura e o baseado. Pira continuou fiscalizando a obra. Foi construído no pátio 1. que estava escondido entre o céu da boca e o "aparelho de mastigá”. 12/5/1983. 14/5/1983. Abordado pelo guarda. o futebol não parou. Dois dias depois. como ele costumava dizer. arranjo o material. A impressão que dava é que era tudo muito bem orquestrado. sacos de cimento. Toda semana Marilena me trazia um ou dois livros. mas nós ficamos sabendo durante os acontecimentos. Era um jeito de descarregar a tensão e de ficar em forma. muito moleque. Coisas fora do comum aconteciam: o diretor de Bangu foi agredido por um guarda e. era enorme. mais estranho ainda. falei brincando: — Podemos construir uma piscina. O Cuca. ele tinha usado um cigarro. se distanciou um pouco. Eu estava lá havia quase oito meses. areia e material impermeabilizante. Lia muito e estava sempre com um livro na mão. Eu. Telefonei para o meu amigo "bicheiro" e pedi que me fizesse mais esse favor. Esse tanque ficou pronto em tempo recorde. Eu achava e acho que as transferências feitas a esmo. tinham posto fogo no paiol. entre a época que cheguei e a que estava vivendo. só paravam para ir dormir (mão-de-obra tinha à vontade). deu vários "carrinhos". Mas um guarda mais atento percebeu e veio em direção ao Cuca. e eu. Numa tarde ensolarada e com a "piscina" já na fase de acabamento. se fosse uma piscina do chão para cima. tinha acontecido uma rebelião com conseqüências seríssimas. Nesta madrugada a administração foi ativa. Capetinha e eu ficamos preocupados. que tinha sido capturado e estava na "surda". Para que ele não tivesse tempo de nada os guardas o levaram para a inspetoria. Pira. Além disso. recebemos o material para uma piscina de quatro metros quadrados por mais ou menos oitenta centímetros de altura. é que ele pertencia ao efetivo da Lemos de Brito. não falavam a mesma língua. É claro que não iam deixar a gente fazer um buraco. mas assim mesmo era ótimo.367 Acho que foi nessa época que Pira conseguiu com o diretor a ordem para construir uma piscina. Eram tijolos.

ouvi barulho e saí para a galeria. Nem sempre vinha de avião (por razões óbvias) e aí o sacrifício era ainda maior. resolvi escrever para Marilena. a caminho da rodoviária. o que tinha saído da minha galeria. nem ouvir os boatos. a coisa era mais embaixo. e era voz corrente que o governo que tinha saído deixara dívidas e. Ali. Prefiro estar sempre sozinho e não me 370 interessar por nada. voltou e procurou no balcão de achados e perdidos da estação. para a casa de Ana Maria e Bené. Ilha Grande. os jornais já tinham farejado falta de comida nos presídios e algumas notícias já tinham aparecido. Uma vez foi furtada no metrô. nossos amigos do coração. Queria saber o que estava acontecendo. Procuro ficar por fora de tudo. Quero sair desse humor horrível. Tinha vivido muita coisa em minha vida. mas aquilo que eu assistia agora era outra coisa. era um dos conselheiros de Pira. Toda sexta-feira saía de São Paulo no 369 fim do trabalho e vinha para o Rio. as facções não se entendem. "nem pensar". Sabe de uma coisa? Que se foda o mundo que não estou nem aí". que também assistia a sua saída. pensar a respeito. A administração não me incomoda. se ele fosse para a Ilha. Levaram o morador do cubículo 6. Será que a nova administração não percebia que pelo menos inicialmente era melhor voltar atrás e deixar cada facção em um instituto? A não ser que isso fosse um plano de extermínio. do que fazer o jogo da nova administração.. verba. pois achava que só estava preocupado comigo mesmo. Em meados de maio escrevi: "Quanto pode agüentar um ser humano? O clima aqui está quente. E se ele morresse lá. Achava que estava me tornando uma pessoa pior. com mais dinheiro do que quando fora surrupiada. era melhor todos se aliarem por uns tempos. Marilena entrou chorando.. fugas e sei lá o quê. me deixa assustado. pois tinha ficado sem os documentos. sempre na retranca. Camarada quieto. A partir do momento em que começaram as transferências e mesclavam as falanges. andava muito irritado. pois havia tempos não fazia outra coisa senão trabalhar e vir me ver. Uma reação que tive me assustou e me deixou de ressaca.. Segundo Tonelada. Apesar de saber que aquela situação requereria uma centena de Madres Teresas de Calcutá. O ambiente carregado tinha me atingido e eu estava perdendo o controle. tinha ido para Campos do Jordão. que. Lá pelas três da manhã. para seu espanto.também um da nossa. Ao chegar à vigilância na manhã seguinte. correria risco de morte. Tinha de tomar mais conta de mim. Tive vontade de falar com Pira sobre essa hipótese. percebi que Marinheiro e todos os que foram transferidos de madrugada tiveram o mesmo destino. Tinha outra coisa que agora tinha piorado: a mendicância.. Achou sua carteira e. Ela me trazia uma mala de roupas de cama e .. ao sair no domingo. Marilena merecia aquela semana de descanso. Ficava preocupado quando lia o que eu escrevia em momentos de desespero. Parece que a situação era caótica. Havia muito já não tinha boa opinião a meu respeito e agora. Não ligo se há mortes.. Os caras que estavam chegando não tinham nada. Nunca entendi quem eram os beneficiários. Como não conseguia dormir e ainda era alta madrugada depois que os guardas levaram o morador do cubículo 6. corria risco de morte. Como isso era hipótese e eu nunca tinha me metido nos rolos deles. Só o conhecia de vista. pois não há nada aqui que desperte meu interesse. eu estava vivendo numa fábrica de transformar seres humanos em animais. Deixá-los todos misturados para que eles se liquidassem. Quando lia isso novamente ficava mal. Na última visita íntima. por conseguinte. A meu ver manipulavam para a desordem. Foi engraçado. pois procuro ficar invisível. vivendo ali. inclusive a credencial de visita da penitenciária. Analisar tudo aquilo. alguém morreria aqui. pelo menos um. Era preocupante. Ao perceber que tinham lhe batido a carteira. os cubículos estavam destruídos. fiquei bem quieto no meu canto.

Não podia agir assim. foi baleado em sua casa e morreu na hora. que já tinham se desvencilhado das minhas mãos. 21/5/1983. no dia seguinte. era tragédia na certa. 18/5/1983. 371 — Ei! Você não está me reconhecendo? Sou cunhado do Pira.. fiquei péssimo ao ler as anotações desses dois acontecimentos que tinham ocorrido na última "dormida". Pois é. em mim e em tudo. Não podia relaxar. Mas outros dois que saíram um pouco antes por término de pena. voltou para o morro de origem e nem teve tempo de reivindicar seu antigo comando. que faleceu alguns dias depois.. Só do Complexo Penitenciário Frei Caneca. depois.. parti para cima dele. Não com insultos. aquele de quem mataram a mãe também. vendo seu estado. Um foi posto em liberdade no começo do mês. Fora isso. quando ele apareceu no começo da carceragem. olhou e continuou seu caminho. não sabia que era sua esposa. Desses. Dali em diante me policiei o tempo todo. era o motorista do camburão que levava e trazia os internos que iam ao fórum. que. sendo que alguns atingiram sua mãe. que tocava seus negócios no morro onde viviam. que faleceu hoje. quando descemos para o pátio para encontrar meu pai. silêncio total. Minha sorte foi que eu o conhecia e era meu camarada. que estava chateado com a minha reação. Eles diziam muita coisa. às vezes. Naquele dia ele estava na revista substituindo um colega. escrevi o que estava sentindo. essas anotações eram entregues a Marilena em forma de carta. Quando ela apareceu fui ao seu encontro e. veio sentar ao lado do papai. quando ele entrou em casa. olhando para mim: — Não fica chateado. o Desipe autorizou uma centena de internos a visitar suas mães. a mulher e o amante o esperaram sentados num sofá e. Além disso. durante essa farra. Confesso que tive medo. eu conhecia e bem. o terceiro personagem levantou-se e sentouse na mesa ao lado (que era do Pira). agora. era burrice e loucura. me olhavam feio. Os outros membros da quadrilha resolveram festejar e. daí nosso relacionamento. Esse guarda só conhecia os internos que trabalhavam na vigilância. Marilena me puxou e tomamos o rumo da escada que levava à galeria. Quando Pira chegou.. A vida dessa turma vale pouco e eles não tomam o menor cuidado. tinha de ficar de olho nos outros. Ela o apontou. . Hoje. Na revista. havia três grandalhões sentados à minha mesa. Depois de três dias de sua chegada. — Você está procurando encrenca tratando minha mulher de qualquer jeito? Acha que por eu estar aqui não vou tomar providências? Quando ele percebeu que Marilena era minha mulher. nove morreram trocando tiros com a Polícia em assaltos a bancos e carros-fortes. muito medo. Pira me contou como morreu o Roso. Abraçou-me e explicou que estávamos vivendo momentos difíceis. o Tonho Maluco. deram-lhe mais sessenta tiros. Eu parei e fiquei olhando para ele.. Ainda reclamei que eles deviam ter bagunçado a mesa do cunhado e não a minha. Muitos dos que não voltaram da visita à família no Dia das Mães já morreram. O que ele não sabia é de seu amante. os jornais já informaram e as famílias identificaram seus corpos. ia até a vigilância só para bater papo comigo. O outro. O sangue subiu e eu os tirei de lá segurando os dois pelos cotovelos (também tive sorte). foi emboscado na chegada. Eu não conhecia nenhum. Como já contei. Os outros dois. zoando e incomodando papai. o guarda virou a mala e jogou tudo no chão e ela teve de catar tudo. Nesse dia anotei mais um fato e.. — E. levou seis tiros. Amanhã conversamos. eu não olhei o nome no documento. Dos que não voltaram. que estava ocupada pelo meu pai. Mas o mais incrível é que atiraram também em sua mãe.algumas frutas. Já tinha saído para fazer compras para mim e. Ele tinha de recolher e devolvê-los na seção. Quando ela o apontou. ele ficou falando para ela andar logo. onze presos. por exemplo. mas falando sério e com meu rosto muito perto do dele. — Desculpe. até no barulho e nos sons. Ela acabou de contar. Ele era visitado normalmente pela mulher. era dono de sua mulher e de seus negócios. Um guarda se aproximou. perguntei o que havia.

Ele queria ficar perto de mim. não estou agüentando a barra. foi a Polícia ou a família armou? Já escrevi anteriormente sobre a família do Lâmpada. aqui só dois cubículos estão vagos. Segundo os jornais. davam um jeito de ele voltar para o cárcere. Bom.. No Jornal do Brasil há uma foto grande de uma passeata em Angra dos Reis protestando contra a falta de segurança. esses caras aprontam paca. na Milton Dias Moreira. morando de favor na casa de minha prima e amiga do coração Maria Zélia.. (Os jornais matutinos não comentaram nada. Marilena querida.. 28/5/1983 (sábado). Segundo o mapa da vigilância. Leonel Brizola encontrou o estado em situação de falência. que viram verdadeiras feras. amor? Estou com medo. Minha mulher. caçadores de presos e cachorros. quando sair daqui. onde é que vim me meter.) O segundo é que virão de lá vinte internos. "SOCORRO! Sabe o que mais me apavora? É pensar que. Achavam ele muito louco e perigoso e. tinha de consolar e. 26/5/1983. enfrentava a crise que se abatia no país. que deixava Marilena cansada e a maior parte das vezes irritada com a demora e com os papos inacreditáveis que era . a qualquer dia da semana). Escrevendo me sinto perto de você. Um achava que o outro não tinha feito o bastante por mim. Isso tudo mexia com a cabeça de todos. Aqui no Rio. Escrevi para Marilena: "Amor. me ajuda. Ninguém se apresentou como autor do crime. Pedro não me tirou a regalia de receber visitas da família. Segundo ouço pelos corredores da administração. INADIMPLÊNCIA. separados há quarenta anos e agora se encontrando constantemente por minha causa. tensa e irritada com papai. Meu pai era um aposentado. e com isso não voltava para seu apartamento em São Paulo. Papai e mamãe. viviam às turras. não quero nem pensar no que pode acontecer se faltar comida nas prisões. Um beijo". Sabe o que é. Há dois boatos. quando ele "limpava" o morro. a constante fuga de presos e a concessão de passes livres a presos de alta periculosidade. não consigo pensar. Continuando: estou preocupado. amor. Amor. ESSA É A PALAVRA MAIS LIDA EM JORNAIS e revistas. Agora sei o que é viver no limo. Deixa eu ser piegas.24/5/1983. matas e praias tentando recapturá-los.. Brincar. Se estava ótima ontem. e não era raro as posições se inverterem nos dias de visita. hoje chegou diferente. logo nas primeiras horas encontraram um interno morto com uma centena de estocadas.. e a mais ouvida em qualquer noticiário de rádio e TV. Ao invés de ser consolado. aqui do lado. É uma situação complicada. quero saber dele.372 O fato: o Lâmpada "dançou" (foi preso). . Problemas paralelos aos da prisão não eram novidades para mim. preciso de notícias. Ainda teremos um colchão com um lençol do tamanho do céu para deitar e rolar e nunca deixar de brincar. é disso que preciso. A Polícia e os caçadores de fugitivos estão nos pântanos. inclusive para comida. antes que tivesse idéias. uma corretora de imóveis. Isso se refletiu diretamente no sistema penitenciário. Minha cabeça está a mil. vivendo e olhando a vida por seu intermédio. Quanto ao resto. não existirá mais nada para mim. e peça para mamãe ligar para o Luis Felipe. até interferir e resolver problemas. seja sempre a minha Mar. Ainda tinha a fila. Medo de ficar aqui muito tempo. Na Ilha houve fuga em massa. cerca de dez presos tiveram sucesso na fuga e conseguiram chegar à cidade. fora de horário e de dia de visita (dr. Não fique triste com esse humor. De uns tempos para cá diariamente acontecem mortes e fugas em todos os setores do sistema. liga para o Raul. Não houve "robôs". Falta dinheiro para tudo. 373 a mata fechada. Eles pagavam para ele sair e. o que quer dizer que "carrinhos" vão ocorrer. os fugitivos acuados por policiais. Marilena esteve aqui ontem.. armavam para ele ser preso.. nem comigo mesmo. que ficou em pânico.. às vezes. Hoje. temos comida para mais dez dias. já fazia tempo que não desabafava. Eu adoro você. o primeiro é que fugiram 32 do Água Santa. para eu poder mergulhar em sua vida. nem sei como analisar.

374 29/5/1983. molhando meu rosto e respingando em meu corpo nu. A tarde estava muito quente. Búzios. Adorava aquilo. E senti nitidamente que ambos tínhamos atingido o desamparo total. primeiro caderno: "Condenação de Doca Street pode ser anulada . vem outro tanto que são contas e compromissos de tudo que é tipo. etc. que ficava em cima da manilha do esgoto e saíram junto ao muro na rua Violeta. olhava sem perceber. Ângela. e quando ela e papai partiram. Um tiroteio entre quatro dos onze presos — que desde o dia 26 estão foragidos do Instituto Penal Cândido Mendes Ilha Grande — e empregados de um casarão colonial. Quando eu começaria a viver novamente? Quando iria subir numa encosta para apreciar o Sol. no dia seguinte. O jornal noticiava também uma tentativa de fuga no presídio Esmeraldino Bandeira. Mas. Marilena dizia que era porque. Jornal do Brasil. só namoramos. Perdi o sono. é o que eu pensava enquanto olhava através da tempestade que caía. vivendo recluso. 4/6/1983. no fim da tarde." Segundo a mesma reportagem. — Para cada correspondência que recebo de você. Tudo tinha sido postergado em minha vida. Nem tocamos em assunto de família. Na vista constante de meu observatório ficava o relógio da Central do Brasil. me enxuguei. todos os dias. fiquei preocupado. Uma comissão de moradores etc. Quando ela partiu. resultou na morte de um detento e no ferimento grave em um dos caseiros. contas para pagar etc. estava de braço dado com papai e os dois nem se lembravam do dia anterior.. é claro. Fiz isso com o pouco de claridade que ainda restava. Os presos do A-4 e A-6 iriam junto. "Os moradores da Ilha Grande voltaram a viver em clima de tensão e medo. naquele exato momento. Essa fuga ocorreu no dia 26 de maio. Os boatos de fuga de Água Santa e Ilha Grande se tornaram realidade. peguei meu bloco e anotei aquele momento. Informava ainda que estes últimos eram de facções contrárias à Falange Vermelha. O tempo tinha parado. Gabriel Garcia Márquez). Sempre que sentia essa vontade de viver e de olhar a natureza. seus filhos. Anteontem. os fugitivos estavam procurando a lancha do proprietário da casa. Mas. Elaborei um intrincado nó de compromissos falsos. 3/6/1983. O domingo esteve ótimo. especialmente. Não quis acender a luz. a Lua e as estrelas? Saí da janela. bicudos um com o outro.. em letras garrafais: FUGITIVOS INVADEM CASAS NA ILHA GRANDE E UM MORRE. Segundo os jornais.. em Bangu. um novo plano de fuga foi descoberto. na praia de Iguaçu. que até minha família (mulher e filhos) viraram estorvos para mim. no bairro de Engenho de Dentro. 12. Parece que embaixo do Instituto Penal Ary Franco só existem tubulações. teria cinco horas sozinho com ela e provavelmente descobriria o que estava por trás daquela zanga. Na mesma folha. eu estava protegido de problemas como concorrência no trabalho. agora o buraco era no cubículo A-2. para desorientar minha mulher.obrigada a ouvir.. o apetite e me senti tão só. Perdi de vista os amigos e passei por cima dos convencionalismos para encontrar-me com ela" (Mis putas tristes. passei a tranca interna na pesada porta. a vida. preferi deitar e ficar quieto. mas não para mim. um detento do Água Santa comandou uma fuga com 29 presos que tinham vindo da Ilha. dentro das devidas proporções. o mundo girava. tirei a roupa e fui apreciar o aguaceiro que caía. Esse grupo também faz parte dos oponentes 375 da Falange Vermelha. p. o mar. sempre gostei das tempestades. os filhos e a família era assaltado por pensamentos que me tiravam esse direito. ela não estava bem. como eu ia enfrentar minha consciência quando retornasse à vida novamente? "Fiquei louco por ela. empurrada pelo vento. Nessas horas baixava em mim uma calma espantosa. Aquele sábado. Cavaram um buraco no cubículo A-25. Eram seis da tarde e a tempestade continuava cada vez mais forte.

só ponho camisa e jeans para ir à seção. Estava agitado. mandaram todos embora. a Polícia Militar ajudou os guardas do instituto vizinho a dar uma "geral". pacote e aumento dos combustíveis. Não me acostumo. que bom sentir aflição e ficar torcendo para que não falte no nosso dia. apareceu o chefe de segurança acompanhado do da vigilância. Não esperava mais sentir essas emoções. vozes vindas do jardim." Marilena veio antes de São Paulo e. Depois de algum tempo de papo e de olho no olho. Isso foi um sonho de uma noite de verão. Estará aqui e eu não vou perder um segundo. Hoje o agito começou cedo aí do lado na Milton Dias Moreira. quando o diretor entrou e mandou que eu me despedisse rapidamente e fosse para meu cubículo. Enquanto isso. Houve um "confere" e em seguida foram até o cubículo do Pira. para que juntos possamos tirar tudo um do outro e da vida. telefonei para dr. Beijão. li os dois jornais que Hugo me traz todos os dias. Marilena continuou calma. É ótimo estar a seu lado e perceber a vida. 377 Ninguém sabia para onde eles iam. indexação. Para não ficar pensando nisso. Evandro e perguntei quais eram as minhas chances. que fico achando que Marilena não vai conseguir chegar. de cabo a rabo. mais dois sumiram. Mas essa é a melhor postura. "Amor. no fim da tarde. e a porta do meu cubículo está sempre aberta. Entram de repente e revistam tudo. Resposta: — Ah. fiquei preocupado com as minhas economias. Sinto medo. Os jornais só falam em inflação. Se Deus existe. Só de imaginar que você vem. pois o pessoal que anda vestido é constantemente abordado pelos guardas. Provavelmente vão usar o mesmo método aqui uma hora dessas. que os leva à inspetoria para serem revistados. beijar e amar você com tudo. pois até para andar por aqui está difícil. isso depende do humor dos ministros. É difícil andar de calção e peito nu pelos pátios como todos fazemos. Por eu ter o privilégio de passar pela vida e encontrá-la tão intimamente. Um pouco antes de partir Pira pediu para falar . nem os agentes. Mas. para investigar como estávamos realmente.: Tudo o que foi tentado em Brasília me foi negado. mas os guardas estão agitados. bato paredão. vai ter "dormida". Ia continuar a falar alguma coisa para que ela se distraísse e se conservasse calma. pois estava sendo transferido. e se assustaram com o que acharam: três revólveres e uma granada. O lado de cá de nossa parte está tudo bem.pelo STF". Quando mostrei isso ao Pira ele riu. eu agradeço por me mandar você. desindexação. minha estrutura é abalada. Sugar juntos esse elixir às vezes tão amargo. O ambiente está tão carregado que não consigo me concentrar para escrever. Já percebi que toda vez que temos uma regalia dessas acontece alguma coisa. Eu mantenho a pose de despreocupado. Havia outros internos ali recebendo visitas. Ele e o Peróska. para me deixar aflito. — E você acredita nisso? Obs. porque expliquei que os internos que tinham vindo do Água Santa (vinte) não queriam ficar e provavelmente isso estava causando alguma apreensão. chegou para me visitar. Aí. lá pelas duas horas da tarde. o negócio era se conformar e puxar uma cadeia (tentando ficar vivo). só Marilena e eu fomos contemplados e pudemos ficar no gabinete dentário. Aflige a eles e a mim. porque o Waldique deu um pouco mais de tempo para a gente se despedir. Marilena foi embora e eu subi. começamos a perceber uma movimentação esquisita. da portaria e da rua. 376 O Dia dos Namorados está próximo. apesar do calor carioca. 9/6/1983. Em seguida. Havia também ronco de motores e freadas. me avisou que o quarteirão estava todo cercado por tropas de choque da Polícia Militar. Há pouco. Houve uma catástrofe em São Paulo: inundações fora de época e neblina estão transtornando a vida de meus conterrâneos. Vamos ficar completamente à vontade. Mandaram ele arrumar suas coisas. Só consegui sentir que tinha chances de algum sucesso depois da reforma do sistema penitenciário. como a esperança é a última que morre. De abraçar. meu filho.

nunca vi ele se meter em nada. muito tempo atrás. quem formar primeiro bate. procurei me inteirar de quantos da Falange Vermelha tinham restado. raquetes. Eu procurava não passar perto deles. mas ainda impunham respeito. Acho que não. A cadeia estava perigosa para todos. em sua primeira reunião com os internos (à qual. Ele tinha uma reação engraçada quando me via: começava a rir e balançar a cabeça e vinha me abraçar. quando fui trabalhar com Gastão Eduardo de Bueno Vidigal. Nove jogam e.. o estrago tinha sido grande. porque precisava dele. que consiste em jogar nos quatro últimos páreos do Jockey Clube. Nessas horas o melhor era me tornar invisível. Na verdade. que consiste em formar trincas e seqüências na mão. Era o olheiro. aliás. Zé Cigano também. tinha ficado. Outras modalidades de entrada de dinheiro apareciam na reportagem. com pedágios pagos por traficantes como Chico e Nézão. quieto como sempre. que ele era perverso e que por trás de sua enorme simpatia existia um homem cruel e perigoso. a LEP (liga esportiva da 378 qual eu era presidente) teve seus armários arrombados e os materiais esportivos. Segundo o jornal. quando coincidia de me encontrar. que me olhou nos olhos por um longo tempo. lá pelas vinte horas. foi para ajudar. porque a maior parte do pessoal já tinha fugido. E agora? O Jornal do Brasil de uns quinze dias atrás (15 de maio). vestindo camiseta do Água Santa (esses caras agora estão aqui e são meus vizinhos. nos pátios e em meu cubículo. entraram no lugar de Pira e Jarra). se eu estava na chuva tinha de me molhar. para ganhar é preciso acertar nos quatro vencedores. embora insistissem. Aparentemente tudo tinha virado de pernas para o ar. e com custo. não espere nada dessa administração. só fazem traição. É claro que ele não era santo. quando era trazido por um "avião"). Mas nunca me sentei para jogar. pois nunca me interessei em saber onde ficavam esses armários e nem tinha participado da organização dos torneios. ele tinha toda razão. nem me dei conta disso. bolas de futebol etc. com essa transferência. o ar estava pesado e havia cheiro de morte. Ele costumava andar pelo banco inteiro sempre atento a tudo e. Mais tarde. como uniformes. Isso já tinha acontecido comigo antes. Ele vivia indo à minha mesa durante as visitas conversar com papai. na verdade. Algumas vezes. Na Lemos de Brito. tinha feito uma reportagem de uma página com o título: NA CADEIA. o ambiente era de desconfiança. Só então destrancaram a galeria. depois me estendeu a mão e falou em tom normal. eu pelo menos estava me sentindo perdido. Outro jogo era o bolo dos quatro pontos. senão ele não estaria ali nem pertenceria à Falange Vermelha. prometera que não transferiria ninguém de surpresa e sem avisar à família. 15/6/1983. porém. era um dos que tinham restado e tentava pôr ordem na casa. Detestava essas ocasiões. entrei num deles e a convite ficava por ali "cafungando" (cheirando pó) e puxando fumo.comigo.. sem medo que ouvissem o que dizia: — Até logo. Trazia a foto de dois oponentes da Falange Vermelha. Eu. o diretor. havia vários cubículos cassinos. andava desafiadoramente. um preso pode perder até 100 mil cruzeiros numa tarde. Com suas roupas de couro. dono do Banco Mercantil de São Paulo. eu só tinha uma função: arranjar o material para a liga se manter ativa. amigo. A piscina estava vazia. Voltando à Falange Vermelha. Levaram-me até ele. quando tive que procurar Pira. pagam como nos cassinos. alguns até morrido e agora. sempre esteve por perto nas galerias. A reportagem informava que esses "negócios" geravam 30 milhões de . Contavam como os tóxicos entravam nas cadeias (duas maneiras: sem custo. cordões e pulseiras de ouro. estavam pelos pátios. os guardas voltaram e levaram o Jarra. Nos dias que se seguiram. para sentarem-se à mesa. cercado por um pessoal que eu não conhecia bem. confidente e amigo inseparável de Pira. Diziam muitas coisas do Jarra. ria e dava palmadas nas minhas costas. Tais como jogo do bicho e cun-ca. eu não fui). Quanto ao Pira e sua advertência contra a administração. Cheguei à conclusão de que eram poucos. Xane. GRUPOS BRIGAM POR PODER E DINHEIRO. Todas as vezes que se aproximou de mim e dos meus (e foram muitas).

se serviam sem cerimônia. mas tinha me ajudado e eu o estimava. mas a informação estava tão por fora que nem vou comentar. até aquele momento. A reportagem comentava sobre a Falange Jacaré. na quarta galeria. Nézão. como o Jarra e o Xane. . pois a batida foi tão leve que não tínhamos certeza se realmente havia alguém. Então olhei o pequeno embrulho com atenção. foi de novo falar comigo e deixou em meu poder as coisas de valor que possuía: televisão. Depois. para ser convidado a me associar na compra de alguns quilos de maconha para triplicar meu capital. Não sabia e não procurou saber. rádio e outras coisas que agora não lembro. Afinal. Fiquei muito chateado. Marilena já estava de pé ao meu lado. Pira não fazia nada sem pensar muito e sem planejar os mínimos detalhes. eu estava muito tenso com os últimos acontecimentos. abri um pouco a portinhola. Tudo em letra de forma. pelo menos não com aqueles custos. Se bem que um sorriso e um abraço lá. depois de fugas e "carrinhos". Junto. na galeria. conversando e conjeturando sobre o futuro próximo naquele instituto penal. Esta carta encontra-se comigo. Naquela época eu vivia procurando saber onde ele se encontrava. Ele não reagiria nunca. Quando registrei esses fatos. emprestei dinheiro para o Pira e Jesus comprarem televisões iguais a minha e não aceitei o retorno. quarta galeria. como de fato não o fez. Saiu carregando algumas poucas coisas. Saiu andando devagar e se despedindo com a cabeça dos companheiros. encostando o ouvido na porta para perceber se ela estava só. ninguém mais tinha me abordado. Agradeci e fechei a portinhola. Se a Polícia Militar cercou o conjunto penitenciário da Frei Caneca a pedido do diretor porque ele estava com medo de uma reação do Pira. Sabia muito bem que não iriam buscá-lo sozinhos. Estava escrito: Doca Estrite — 4 do primeiro 36 (queria dizer primeiro pavilhão. aflita. tirando o dia seguinte à minha chegada. e matar Pira e Jarra. contei tudo o que tinha acontecido. me entregou os registros de posse da TV e do rádio. pedi que procurassem Humberto para ver se conseguia me transferir para a penitenciária Ferreira Neto. Depois de alguns instantes bateram novamente. Tirei com cuidado o papel envolto ali. podiam vir acompanhados de cem estocadas. é porque não conhecia nada a respeito dele e dos poucos que o cercavam. ele já tinha me oferecido essa opção há algum tempo. Não falou nada. como se fosse um anel com uma folha dobrada no seu interior. como já escrevi antes. 379 Bom. nas portas do cubículo. do jeito dele. deitado ao lado de Marilena. que se encontra à altura de um homem de pé. Desconfiado. 16/6/1983. Estará sempre na lista dos amigos que tive. Na hora de sair. Tonelada e eu ficamos conversando sobre tudo o que estava acontecendo e achávamos que tinham cercado o prédio porque a ordem era invadir se houvesse reação. estendeu a mão e me entregou um papel.cruzeiros por mês. O negócio era ficar calmo e entregar o destino a Deus. durante a visita. Como já contei. Citavam meu nome como um dos que pagavam pedágio. Domingo. gente mais nova e barulhenta. o que não era verdade. Outros grupos comandavam. Eram simpáticos comigo. Paramos de falar e ficamos prestando atenção. Agora estava em meu cubículo. só dois estavam lá há mais tempo que eu: o Chico Tonelada e Nézão. durante o parlatório. abri e vi que era uma carta do Pira. meu isopor estava sempre cheio de refrigerantes e. Ontem. Estávamos ali deitados falando sobre essas coisas e bateram de leve na porta. mas era melhor que ser 380 olhado com antipatia e rancor. no cubículo 36). Vi uma das visitantes que conhecia de vista e perguntei se precisava de alguma coisa. Pira podia ser o que fosse. quando fui escoltado a um cubículo. 18/6/1983. queria saber o que era aquilo. Marilena e papai tinham estranhado a falta de Pira e sua mulher na mesa ao lado. naquela noite o Jarra já tinha saído. eu não entendia por quê. na hora que soubesse que estava levando um "carrinho". Agora. Mas não tinha nada a ver com fornecer tóxico de graça para as falanges venderem e se sustentarem. em Niterói.

o que queria dizer que passaria mais um dia no Rio. LEMBRANÇA A ESPOSA: ABRAÇO. morreria na certa. PIRA DOMINGO 381 4 ESCREVI UM BILHETE AGRADECENDO O CONSELHO E INFORMANDO que ia tomar providências de sair rumo a Niterói o quanto antes. Os dois convidados morreram. fizeram a refeição e retornaram para as galerias de origem. Iria procurar dr. Não teve jeito. ESSES ACONTECIMENTOS SÃO ROTINA: PORÉM EU. Só voltaram duas horas depois. só trancaram a galeria. MUITAS COISAS RUINS VIRAM PELA FRENTE. depois que Marilena e papai saíram. Quando voltei para o cubículo. FUI OU SAÍ DAÍ INJUSTAMENTE. Encontrei com ele na porta da vigilância quando estava de saída. AS COISAS AÍ VÃO TOMAR RUMOS MUITO DIFERENTES. Aquele silêncio inquietante reinava. os guardas trancaram todos em seus cubículos. As suas coisas estavam em meu poder. uns dias antes da transferência do Pira. PARA SUA TRANQÜILIDADE PROCURE SUAS CONVINIÊNCIAS E MELHOR CONDIÇÃO DE PAGAR SUA PENA TRANQÜILO. Procurei o cubículo do companheiro da moça que me entregara o bilhete. bem guardadas e em segurança. GOSTO DE VOCÊ. Serviu um café e me pôs a par dos acontecimentos. com mais de cem estocadas cada. em Bangu e no Água Santa. SÃO COISAS QUE NÃO POSSO FALAR. Não demorou muito e o alarme tocou. Os internos não saíam das galerias para nada. 385 Na semana passada. 9. TEM UMA LINHA DIRETA DAÍ DA QUARTA PARA CA ONDE ESTOU D. Nenê Cara de Cachorro (que era quem passava os filmes no auditório). Os que não tinham recebido visita foram ao refeitório. AGUARDO UMA RESPOSTA. foi para lá e quinze dias depois foi chacinado. Juninho e Belizário foram hoje para a Ilha. Depois de muita conversa consegui convencê-la de que papai daria conta disso. UM CONSELHO DE AMIGO IRMÃO: ACEITE UMA PROPOSTA QUE VOCÊ ME FALOU DE IR PARA NITERÓI. os pátios estavam vazios. na Milton Dias Moreira. 19/6/1983. implorou e explicou que. de uma hora para outra foi transferido. Quando saíram. Olhou com tristeza e reclamou. fui até o cubículo do Tonelada. para fazerem o "confere" e dar uma "geral". Ele devia saber o que estava acontecendo. como sempre. para onde ia. AMIGO. Pediu. Marilena estava preocupadíssima. acusado de ter ajudado na fuga ocorrida na noite do apagão. — Antes do término das visitas. Com liberdade de sair dos cubículos para andar pela galeria. entreguei a resposta e agradeci a gentileza. — Estão fazendo o que sempre fazem: transferem a gente para morrer. PIRA. o ambiente ficou sinistro. Em seguida. muitos se trancaram em seus cubículos. AMIGO. TE CONSIDERO. na Ilha. sobraram seis cubículos vazios na nossa galeria. e isso atrapalhava seus negócios. Humberto pessoalmente. outros cinco convidaram outro companheiro para fazer a mesma coisa. o governador ficou .AMIGO E COMPANHEIRO DOCA: COMIGO TUDO BEM E FAMÍLHIA TAMBÉM. principalmente depois de ler o bilhete do Pira. cinco internos convidaram um companheiro para puxar fumo em um cubículo. Sarará. Com tudo isso acontecendo aqui. Domingo. Com a saída deles. Até aquele momento ninguém tinha se apresentado para assumir os crimes.

sim. Eram recém-chegados de outros 386 institutos. barba mal aparada. vivendo aquele momento. Não dando alimentação à vida. Em um outro trecho. explicou. As transferências e as fugas do pessoal da Falange Vermelha tinham deixado a cadeia quase sem liderança. domingo à noite. O pessoal comentava que alguém interessado em acabar com as lideranças. Andava pela penitenciária inteira. Geralmente roubam no domingo seguinte o bilhete que todas recebem para entrar e devolvem na saída. mas falava a mesma língua. Dos companheiros que tinham restado. falava manso e impunha respeito. Impunha respeito seguindo os conselhos de Xane. mas elas não ligam a mínima. resolveu cometer um crime para continuar preso. Chico Tonelada e eu estivemos conversando. a morte de mais dois presos. faturando para o homem delas ou para elas mesmo. Quer dizer. Aquilo que aconteceu em Esmeraldino Bandeira acontece aqui. Reuniu seus secretários e exigiu providências. Por sua experiência e perspicácia. estava delatando as tramas. da Milton Dias Moreira. que. mas estava do lado de lá do muro. Parte dessa reunião saiu numa reportagem do Jornal do Brasil. É arriscado. Para não escrever todos. ou os matadores. Não conseguiu por pouco. Transcrevo partes da reportagem: "O tema dominante na reunião com o secretariado foi o sistema carcerário e. também faziam terrorismo para liderarem toda a penitenciária. que pertenciam à Falange Jacaré e agora contavam com aliados chegados de outras instituições..preocupado. Monstro e Xane podiam contar com Zé Cigano. evitou muito derramamento de sangue. como todos da administração. É a segunda vez que espalham que ele foi morto trocando tiros com a polícia. no Instituto Penal Lemos Brito. e o encontro de três mulheres no Instituto Penal Esmeraldino Bandeira — em Bangu. o que requer quebrar tudo para poder encontrar as armas de fogo e os estoques". que. tinham idéias próprias. odiado pela massa. Pira tentava continuar comandando. dentro das paredes. desconfiança geral. para evitar outras mortes nos presídios. A administração tinha trazido um chefe de segurança que era muito parecido com os membros das falanges. mas tinha de usar bastante terrorismo para impor ordem e controlar as lideranças mais jovens. com o seguinte título: "Brizola teme tragédia nos presídios".. estava sempre com um jeans surrado. como é o caso do Lâmpada. tentou atear fogo no diretor. e por isso conhecia melhor e se dava com o pessoal mais jovem. "Essas vistorias. Entram na visita e conseguem ficar escondidas. só para homens". e muito mais perigosa. Polaco. causando problemas para a visitante distraída. Um interno aí do lado. É. Pele e seu irmão Ratazana. Passam a semana aqui. embora aliadas (pelo menos se diziam). 24/6/1983. eram unidos e destemidos. morreram ou voltaram para a prisão. Não usava uniforme. sendo alimentado por ela. Fui condenado à reclusão. Ele era danado.. descobria as coisas e transferia os que iam morrer.são difíceis porque os presos não escondem armas debaixo do travesseiro e. Comentaram que ele estava para sair e. às vezes.. graças a sua rebeldia. todos os que 387 fugiram. não tendo para onde ir nem família a procurar. devia ter ótimos informantes. Era. ou em liderar. só observando. escapando ao controle. Às VEZES FICO TÃO ASSUSTADO QUE GOSTARIA DE SER UMA SOMBRA vivendo na floresta. . mais especificamente. o primeiro passo é desarmar todos os que se encontram nas celas. rodando por muitas cadeias. vivia levando "carrinhos". Se sua morte for confirmada. era complicado. Para entender a situação só estando lá. Em contrapartida. Falávamos do boato da morte do Jesus. isso não quer dizer que preciso viver com um bando de malucos. que aparentemente continuava sob seu comando. o diretor do Desipe informou que. desconfiava de tudo. horas antes dos acontecimentos. Cabelos brancos. o mais feroz era o Monstro.

Quando isso acontece fico desesperado. Tenho flashes da Ângela. "para reproduzir o que quiser". Segundo a escolta. Veio buscar as coisas do Pira. quando olharam mais atentamente. Quando já estava de posse de tudo. Talvez fosse melhor não enfrentar minha consciência e abrir os olhos. Quando eu ficava assim com esses flashes e pensamentos estranhos. um deles saiu daqui na semana passada. Ia fazer um exame que aqui ao lado não tinham como realizar. estava na Bahia. ele evaporou. Se isso não fosse feito. a primeira coisa que aparece é a notícia de que mataram três na Ilha Grande. Pelo menos poderia perceber que estava em um lugar pagando PENITÊNCIA. Havia boatos de que mortes ocorreriam. Em vez disso. essa movimentação de internos salvou algumas vidas. apesar de ser sábado. vendidas para o próximo ocupante.. Voltou a falar que queria um representante de cada galeria. Houve uma atitude nova da parte dos guardas quando havia fugas ou transferências: assim que os internos abandonavam os cubículos.. Dão o nome dos mortos e. Pois é vandalismo arrebentar melhorias. Lembro tão bem de um filme a que assisti. arrebentaram todas as melhorias encontradas nos cubículos (feitas pelos internos). ele não estava mais lá. Não consigo entender. mas se quiserem alguma coisa do Pira têm de trazer ele de volta e isso eu duvido que aconteça.. diziam. Será que é isso? Querem invadir com a Polícia Militar e matar os líderes? 28/6/1983. Pelo menos a meu ver. o diretor convocou todos para comparecerem ao auditório. Não foi numa boa hora. Quem será que ele está tentando enganar? 29/6/1983. Só Freud daria um jeito na minha cabeça. ele ia reunir todos no auditório e promover uma espécie de eleição. não fica preocupado. da penitenciária aí do lado. — E saiu rebolando. vasos sanitários. Segundo o comentarista. para conversar com a administração. Estes últimos três meses abalaram minha estrutura de tal forma que não estou entendendo mais nada. fecho os olhos. Não tenho confirmação disso. Bom é o Kafka. A impressão que dá é que querem que haja reação. Coisas estranhas aconteceram: parece que o diretor do Desipe esteve aí do lado. organizando uma quadrilha. dando a entender que as verbas andavam curtas e não dava para reformar o prédio . conversando com o Pira. Só sairiam do auditório as galerias que tivessem eleito seus representantes. para evitar que fossem saqueadas e. chamava-se O homem que chutou a consciência. eu gostava do Jesus. deitado de barriga para cima e. A escolta se distraiu na sala de espera e. acho que ao fazer isso a administração se iguala aos presos. que. Quando eu era adolescente. Ontem apareceu aqui uma bicha.tem um que levou um tiro na perna e ficou sem ela e o Professor. armários etc. Por que será que isso acontece com tanta freqüência? Falta de costume? O cara fica muito tempo na cadeia e perde a mão? Apesar de tudo. adorava futebol. para não olhar a janela e as grades.. e Dostoiévski na minha história. já sabia que acabaria reproduzindo imagens que me abalariam. Não tenho outra coisa a fazer. Procuro evitá-los. Ele na cabeça. Não é de saudades nem por estar aqui. Hoje sumiu um interno que saiu escoltado para ir a um hospital. Seria uma demonstração de fraqueza da parte do Desipe. levantar e sair do cubículo. ligo a televisão. — Eh! Você é uma gracinha. Ela é mágica. conseguiu pôr Pira para falar comigo de orelhão para orelhão. para enfrentar a realidade de minha situação. o secretário de Justiça disse que essas mortes não têm nada a ver com a guerra dos presídios. pois não consigo fechar 388 os olhos. À tarde. era muito engraçada. senão enfrentá-las. se entendi bem. que suas imagens surgem. me fazem sofrer. Relaxo. Estou no meu cubículo. 25/6/1983. Talvez eu possa virar um lagarto. espelhos. Pediu que cada galeria se reunisse e elegesse o representante nas próximas 24 horas. eu sou de confiança. Este novo chefe de segurança tem faro e é claro que tem informações na hora certa. Depois. que escreveu sobre o cara que virou barata. respiro fundo e deixo minha mente à vontade. Fez isso porque eu não queria entregar nada sem confirmação do proprietário. depois. Hoje aconteceram mais transferências. Ela não ficou brava.

Não tenho vontade de escrever. é difícil dominá-lo. Entrou no sábado às treze horas e saiu no domingo.. desta vez às quinze horas. Ficar doente num lugar como este é complicado. depois que sair do auditório. Todos que concordassem deveriam levantar as mãos. Em seguida. estava concedendo uma "dormida" no começo do mês. Mais uma vez. Sabia que todos estavam armados e a qualquer momento aconteceria uma guerra. Estive com uma gripe tão forte que tremia como vara verde. perguntou se eu era português. Nos últimos tempos. Desses. mas o substituto era conhecido e em pouco tempo eu estava sentado à frente do diretor.. proibia o uso de chuveiro elétrico. Dezessete presos fugiram da Ilha nesta madrugada. Há problemas sérios. perguntei a razão..) 11/7/1983.. Eu estava me dirigindo para a reunião e o encontrei no corredor. já me sentia bem melhor. e eles têm prioridade. Perguntou meu nome e endereço e nome de algum familiar para entrar em contato em caso de emergência.. o único que eu conhecia bem era o Cuca. até o fim da tarde não tinham localizado ninguém. ia continuar quando viu o meu crachá. 9/7/1983. (Nunca ele conseguiu que deixassem de usar os chuveiros elétricos. Chamoume e mandou que fosse procurá-lo após a conversa no auditório.imediatamente. apenas pediu aos guardas que fossem avisando os internos nos pátios e nas galerias. 6/7/1983. mandaram quatro arrumarem suas coisas. Tinham passado por chuvas fortíssimas e estavam com grandes dificuldades. algumas horas depois. não tinha ânimo nem de bater paredão. passe lá no meu escritório. Tinha informações de que os fios elétricos estavam em péssimas condições e não lhe restava outra alternativa que a proibição. Eram poucos os que tinham esse conforto. mentira dele. Era muito difícil encarar os novos companheiros e o clima constante de perigo. Tudo calmo. Ontem. 18/7/1983. além de não anotar nada em meu bloco. para que ele vistoriasse uma. (Naquela época ninguém tinha ouvido falar em HIV. o diretor convocou todos para irem encontrá-lo no auditório.) 4/7/1983. Ele tinha um bloco na sua frente e pela sua postura ia fazer anotações. Acho que é por causa do ambiente sinistro e da visita que o Humberto me fez. policiais militares estiveram aqui para uma "geral". porque não conhecia ninguém da nova administração.. ele subiu para seu escritório e eu o segui de perto. A aprovação foi unânime. Apesar de ajudados por um helicóptero. A conversa no auditório foi curta. Terminado o papo no auditório. Pegar uma autorização com duas vias na inspetoria. Como estranhei a pergunta. Estou sendo atacado por uma crise de inspiração. O número de internos com essa doença é enorme. Ele é dedicado e traz muitos remédios que recebe como amostra grátis. Fez questão de me explicar como eu devia proceder para ir encontrá-lo. Então. como doentes com tuberculose. Não era mais Zé do Lago que atendia na recepção. de tão alta que era a febre. Não mandou tocar a sirene. Não há recursos e o médico só vem duas vezes por semana. Ela me fez chá. A Polícia e os caçadores de fugitivos estavam nas matas tentando recapturá-los. 5/7/1983. Veio me avisar que não conseguia me transferir para Niterói. — É por causa de seu sotaque. Depois. 390 — Bom. Marilena esteve aqui. Também foi o único que saiu reclamando: 389 — Esse diretor falou que não transferiria sem avisar. pois iam ser transferidos. e. da noite de 9 para 10 de julho. . Em compensação. não sei como consegui fingir que andava tranqüilo e despreocupado. que tomei com aspirina. ele queria saber se todos concordavam em doar um dia de refeição para os estados do Sul. — E saiu sacudindo a cabeça. apesar de haver muita trama no ar e de todos se olharem com desconfiança... você é "faxina". Medo.

com esse tipo de delinqüentes. uma espingarda calibre doze. Olhou-me com estranheza e pediu que eu escrevesse e assinasse aquilo. Agora. — Às vezes fico muito preocupado com a violência e quando o senhor tomou posse fiquei muito apreensivo. Respondi que não queria saber de jornalistas naquele momento da minha vida. que veio mas foi barrado pela guarda do dia. Eram impressionantes. darei um jeito de atendê-lo. Ele continuava curioso. Street. vinham alguns internos indignados porque um companheiro tinha levado uma surra de alguns guardas.Respondi que tinha ascendência inglesa. E avisar que no dia seguinte ia ter a imprensa na porta para entrar junto e fotografar o companheiro.. Os militares não conseguem pôr ordem na casa. Quando um grupo de internos resolvia enfrentar os guardas. como sempre. Descendo. Isso tinha acontecido no dia anterior e o camarada estava todo estropiado na "surda". Informei que estava com um recurso impetrado no Supremo Tribunal Federal. queria saber como me sentia no cárcere.. Quando o inspetor nos viu. Era uma concordata grande. avise o inspetor do dia. alguma coisa assim. correu para a inspetoria e tirou. de uma rádio e televisão americana.) Só depois que teve certeza de que queríamos apenas falar com ele é que relaxou. Naquela noite apareceram na TV os estragos que as chuvas causaram no Sul. A providência era tocar o alarme e chamar a Polícia Militar. esperaria o próximo em liberdade. Hoje. se tivesse sucesso. ele respondeu: — Acho que sua pena é muito alta e não devia estar preso aqui. — Para facilitar. mas não estava interessado. o grupo em sua fase áurea reunia cerca de 30 mil operários. Desejo que seja feliz em sua administração. Ele estava desaparecido. Talvez falar ao telefone. De saco cheio respondi que consultaria meu advogado antes de assinar qualquer coisa. alguém da família avisou o pessoal dos Direitos Humanos. peço por gentileza que rejeite qualquer tentativa de entrevistas. para anular o último julgamento e. Os guardas se apavoravam. geralmente dava coisa séria. Abordava também a situação de penúria por que estavam passando alguns setores do comércio e da indústria no Brasil. Mas voltando ao fato do espancamento: os guardas estão abusando e querendo descarregar seus . com a chegada da família para visitá-lo. sua tristeza era enorme. Além disso. quis saber sobre a minha situação jurídica. Eu fiquei. seus companheiros não o achavam. Uma noite. Mas hoje. 391 Com minha ficha na mão. para fora da carceragem e do prédio. não sei de onde. uns dois meses atrás. Pira e eu descemos até a inspetoria para pedir alguma coisa (agora não lembro o que era). meu sobrenome. mas o recurso ainda não tinha chegado em Brasília. Tinha perdido o pai e uma tia na mesma semana. chorou muito. queria dizer "rua" e eu era paulistano. Que pena que o país esteja tão mal. Marilena e papai se foram. os guardas tiveram de contar que ele estava de castigo por desacatar um funcionário. aqueles internos iriam até a inspetoria reclamar dessa atitude. Assisti à saída deles até fazerem a curva no corredor e se virarem para me acenar adeus. — Tenho aqui uma carta da NBC. Se precisar falar comigo. no nosso encontro tão esperado de todos os domingos. tinham acontecido aquelas mortes e algumas fugas. Marilena não estava bem. 24/7/1983. com medo que virasse tumulto e não tivessem tempo de sair correndo. Imediatamente. (É proibido agente penitenciário ou funcionário 392 entrar armado no interior das prisões. pois tinha conhecimento pelos jornais que o sistema carcerário estava sem verba. Domingo. Citava a concordata das indústrias da família de um ex-amigo. Eu ia pensando nisso e subindo a escada para a minha galeria. Em seguida. antes de trancarem a galeria. Que entendia o interesse da imprensa brasileira e de outros países. Querem saber se você concorda em fazer uma reportagem sobre machismo.

nem de escrever. Às vezes são removidos para o Manicômio Judiciário e. não estavam lá há muito tempo. Hoje reuniu todos novamente e começou a eleição na marra. Quando as vi. 25/7/1983. — Quais seus planos para o futuro? Uma moça que estava junto interrompeu. A nova política carcerária adotada pelo novo governo.. Que bom. para não desagradá-lo. atendi. Além disso. sou do Tribunal de Alçada. que alegria. Olhou para mim. parei e já ia saindo. Não tenho muitas anotações daquela quinzena. Mais tarde. Na semana passada. Bom sinal. e. Anda por aí maltrapilho. Já sei que se virou e é motorista. era constrangedor para o interno. no refeitório. na verdade queria representantes. quando voltam limpos e bem tratados. pois de uma hora para a outra podia acontecer algo e os visitantes poderiam se tornar presas fáceis. Ele dizia que aquela era uma atitude democrática e queria candidatos. Os dois eleitos — Americano e Ary — aparentemente eram da confiança da massa. Abri a pesada porta e os deixei à vontade. Hoje recebi carta do Raulzinho. Tenho certeza de que isso fará bem a ele. Raul. mas eu tinha me livrado de ser candidato. pois a seu ver isso facilitaria o diálogo entre a administração e os internos. Tinha certeza de que ele ia me propor isso. Respondi apenas: — Não me diga. teve de se apresentar para servir no Exército e foi convocado. — Ouvi dizer que você recebe mulheres aqui todas as noites. Dizia que deveria abrir para que vissem que eu não tinha privilégios. — Nossa. E ele continuou. Como tinha certeza também de que ele era sincero e estava querendo fazer uma administração justa. dizem que são orgias fantásticas. explicando que não queria dois dedos-duros. que ficava muito exposto. só dois foram eleitos para representar todas as galerias. achei que mesmo distraído tinha me saído bem. mas o funcionário que as acompanhava me chamou. Ninguém tomou muito conhecimento do fato. de deixar as cadeias praticamente abertas à visitação pública. 26/7/1983. falando sozinho. O diretor desistiu de esperar que os internos elegessem os representantes das galerias. pois não bateram nele na hora. já que é democrático. Jogou feijão num dos "faxinas" que servia a comida. pois quase todos se encontravam almoçando e lá fizeram o serviço.recalques nos internos. era perigosa. ele tem até geléia. principalmente quando o visitante era insensível e fazia perguntas idiotas. Um senhor me olhou e disse: — Sabe. Você não tem religião? Gosta de ler? O homem não esperava resposta. pensando no assunto. — Se abrirem aquele isopor encontrarão um resto de champanhe da orgia de ontem. dependendo da idade. Não me contive. Conseguiu que cada galeria elegesse dois representantes. só os conhecia de vista. me reservo o direito de não ser candidato. Está bem . Eu conhecia o funcionário e. 393 Andava muito deprimido e não tinha vontade de nada.. Eu não sabia dessa visita e desavisadamente entrei na galeria. Os guardas agiram rápido e com covardia. que estava vazio. Pelo menos que eu me lembre. A quarta galeria recebeu a visita de um grupo que se dizia do Tribunal de Alçada. que estava completamente distraído e perguntou: — Não é verdade. encheram de socos e pontapés um interno que é um coitado e está meio louco. Mas antes disso fez uma preleção. Ele já está um homem. Tinha umas quinze pessoas. abusam sexualmente deles. porque há muitos doentes mentais mendigando abandonados pelas cadeias e eles são desprezados. Veio ao meu encontro e pediu que eu abrisse meu cubículo. Arrastaram-no até o pátio 3. — Acho que sim. A minha resposta tinha causado algumas risadas. você não acha tudo isso democrático? Respondi de bate-pronto a primeira coisa que me veio à cabeça.

gelada. deitado em teu corpo. "Assim. Levantei-me e fui até lá olhar o relógio da Central do Brasil. por exemplo. ficando na ponta dos pés e olhando para baixo. assistia e ouvia. Talvez pelos boatos que corriam pelos presídios. Ia subindo as escadas e prestando atenção nos presos. Naqueles dias de fossa. Acontecia e muito. e eu tinha certeza de que algo muito sério estava para acontecer. não eram só imbecis que nos visitavam. que prestava serviços extraordinários aos internos e ao sistema. Conheci uma advogada que se dava com o irmão do meu pai. Depois. Resolvi escrever para Marilena. se pudesse não saía do cubículo. não tinha nada a perder e a autorizei a tentar a transferência. Ela já tinha problemas. não tinham nada para fazer. ao voltar. de caneca na mão. vesti camiseta ejeans e fui para a vigilância." Acabei de escrever isso e olhei para as grades de minha janela. a OAB. Enfim. naquele momento. Tinha também um pessoal da Pastoral. era como gado indo para o cocho. nas suas feições tristes e aparvalhadas. a caminho do refeitório para o café-da-manhã. descia me preparando para falar com ela alegre e brincalhão. Como não tinha nada a ver com isso.. não tomava banho e não fazia mais nada. à espera de alguma movimentação. não ia preocupá-la mais ainda. A corda bamba estava muito esticada e o palhaço estava tremendo. apesar de acreditar no trabalho do padre. Como a LEP estava arrombada. Marilena. Tinha de sair e andar por tudo. Não escrevia. 2/8/1983. Disse que tinha condições de pedir minha transferência para Niterói. caminharemos até o mar. que quando nos visitava era orientado pelo padre Bruno Trombeta. Isso já tinha sido tentado pelos promotores e advogados do Estado no começo do governo e já 394 tinha rendido alguns resultados. Hoje. que derretido te invadirei para aquecer teu coração. quero dizer que te amo. pois era bem informado por Capetinha. mas na fossa. Eu assistia àquilo deprimido. morreu David Niven. Ficava na minha. levantei cedo e fui para o orelhão falar com Marilena. Que pena. Eles tentavam fazer um levantamento de todos os internos com penas vencidas. encontrei como sempre o telhado do hospital penitenciário. Segundo o professor Roberto Campos. A minha situação está feia. Nesse dia peguei o bloco decidido a escrever. subi para a galeria. de que as mulheres sozinhas é que se envolviam nessas coisas. Eu estava que era uma fossa só. ao sol forte. Como toda manhã. E um dia. aqui e lá fora. Tinha gente interessada. saqueada e desativada. por exemplo. A covardia. E então. Não sei por que não acreditei na moça. e juntos sorriremos com alegria. tinha medo. para sentir a vibração. O cavalheiro ia saindo e falando ao cicerone: — Mas é incrível. 29/7/1983. Depois do café eles iam para os pátios. mas a do Brasil não fica atrás. em vez disso. mesmo que fosse a do inferno. tinha muitos disputando o poder. a traição e a sordidez reinavam. Aquilo acontecia todos os dias. pois deu a visita por encerrada. 27/7/1983. Depois de conversarmos como todos os dias. . será que tem alguém do nível dele para conversar? Evidentemente. tio Tito. Querem experimentar? Senti que o funcionário já estava arrependido. Havia um 395 cheiro gostoso de café que Capeta tinha acabado de trazer da cantina. Fiquei mais deprimido ainda. estive numa reunião promovida pela Pastoral. Não continuei a freqüentar essas reuniões. que eu estava atravessando. Não porque não acontecia nada na cadeia. nem que fosse tudo a esmo e sem sentido. sem mais nem menos. Mas. beijando-o com a força de todo o universo num orgasmo de felicidade. Esse era o humor. Eu tinha de dar um jeito de sair desse humor. para que eu te beije. ficarei tão quente.. dentro de pouco tempo o país fica insolvente. De calção e peito nu. Eu não via porque não queria ver.

5/8/1983. às dezesseis horas. pensei me sentindo o próprio machão. É. 19/8/1983. pelo menos para a administração. apesar de termos ouvido os tiros e o alarme de fuga. Os diretores estão espertos. "Que bom se todos os problemas daqui fossem entre bundões". Ao contrário. A semana foi movimentada. descobriram um buraco que chegaria à rua. ela não está com raiva de mim. Novamente Marilena tratou de mim. Às onze horas nossas mulheres chegaram. O pior é que desconfiam de um interno que está . Houve tiroteio. em seguida. Eu estava perto. 7/8/1983. Estava me preparando para bater paredão quando percebi uma discussão entre dois internos que estavam remexendo areia e cimento para um pequeno conserto no muro. Marilena chegou brava. Percebeu que não adiantava continuar com aquele clima e descontraiu. de fonte limpa. Tremia tanto que parecia que estava com maleita. Eu sei. Ninguém tinha dúvida de que alguém tinha cagüetado. o alarme soou. pensei que ia morrer. Esse fato deixou a cadeia muito mais eriçada. oito internos armados com dois revólveres e estoques. Na terça-feira. que se danasse o mundo. Doía tudo. Depois. É estranha essa ameaça. o Pira faz uma falta danada. e o outro remexia o cimento com uma enxada. Desconfiança é o que se respira aqui. Molhei a cama. O remédio foi o mesmo: chá e aspirina. No próximo sábado tem mais uma. arrombaram o cofre de armas e foram passear. 397 22/8/1983. alguma coisa eu já tinha aprendido. porque até o momento as fugas daqui foram sem nenhuma violência. trancaram a gente por mais de três horas. Esperei tanto essa "dormida". Os líderes desconfiam de todo mundo. saíram para o tudo ou nada. me aproximei para assistir ao bate-boca. Com um refém. xingando o outro de "vacilão do caralho". tudo permaneceu calmo. fizeram um "confere" e. tinha discutido com papai antes de sair da casa de Maria Zélia e. O astral daqueles dois sempre me fazia bem. Na hora em que foi descoberto havia quatro internos lá. que há dois ônibus "coração de mãe" esperando para levar o pessoal daqui e dali do lado até a barcaça que vai para a Ilha. Adivinha se a água chegou depois que a visita íntima terminou. 396 Do lado de cá. Como eram dois coitados. com a ferramenta levantada em direção ao desafeto. largando a enxada no monte de areia. 15/8/1983. ela começou a rir. Um carregava uma lata de vinte litros. Outros internos se aproximaram dando bronca nos dois. Quando descemos. Os boatos de que Pira estava se preparando para pular o muro e atacar algumas lideranças e os guardas eram constantes. aí do lado. Aparentemente o diretor está contente. Hoje apartei uma briga ridícula entre dois "vacilões". renderam duas portarias e ainda roubaram as armas da última. Que alegria. até os fios do cabelo. uma "geral" minuciosa. fizeram às seis e meia da manhã. Nós pagamos com falta de água no parlatório pelo que os internos. O que estava com a enxada aparentava calma. Que recalque. que duas horas antes de Marilena chegar peguei a maior gripe da história. Esses caras são corajosos. desde a tentativa frustrada de fazer um buraco até a rua. que se danasse a vida. Tinha se casado com a amiga da Ângela que andava flertando com ele desde os fins de semana na fazenda. Na outra gripe eu estive péssimo. autorizará a entrada da Polícia Militar. Logo depois que acharam o buraco. estiquei o braço e tirei a enxada de suas mãos. será que estão desconfiados? O diretor daqui fez uma ameaça muito séria: se houver fugas com violência. me aproximei calmamente. o colchão e a Marilena. fui surpreendido com a presença do Chiquito e do Grandão. e cinco minutos depois a água foi cortada. trabalhando. Saíram saindo. e eu me afastei rumo à cantina. quando a água acabou. Pelo que ficamos sabendo ninguém se feriu. Segundo ele.. O vigia da guarita olhava tudo sacudindo a cabeça e rindo. os presos têm desaparecido no ar. pois nunca tivemos tantas "dormidas". Afinal. É claro que não demonstrávamos "tristeza" pelo sucesso da fuga. 8/8/1983. Grandão tinha novidades. Avançou sem muito apetite. nesta. Sabia que aos domingos eu triplicava o estoque de água mineral. Domingo. Zoaram..

Tem várias fugas do sistema e tem uma peculiaridade: nem os guardas nem os internos gostam dele. Nos tempos em que ele vivia aflito porque tinha de fugir para não morrer.ocupando um cubículo perto do meu. Depois de morar lá por algum tempo.. . Só precisava dar um jeito de colocá-lo junto com os documentos que vinham da Vara de Execuções e iam direto para a mesa do inspetor. Muito educado. Para agradar alguns líderes. porque me encontrava na inspetoria. Nunca mais o vi. a outra o tráfico. 398 Atendi e uma voz de mulher disse: — Oi. espertos e. Contou muitos casos de golpes que dera por esse Brasil afora. Não acredito que tenha sido ele o delator. quando eu já estava "albergado". tez clara e olhos azuis. Pele e seu irmão Ratazana dominavam tudo e não dividiam nada. que conferia e cumpria as ordens. ia à noite assistir à televisão comigo. O guarda que foi buscá-lo ainda ficou atropelando: — Vamos. É claro que o preço era tão bom que o comprador estava aflito para fechar o negócio. Foi para uma prisão-albergue em Niterói. conseguiu com o agente penitenciário que ia todas as tardes ao fórum buscar documentos. os guardas ficam na inspetoria e só controlam horários de entrada e saída. Fico preocupado porque ele me procura muito e gosta de conversar comigo. Com o grande número de transferências e misturas de falanges. Houve tentativa de acordos. ao me despedir. Ao se despedir me contou que. ao mesmo tempo. pelo seu tamanho). Lá. cuidadosos. ele falsificou seis atestados de saúde e ordens de freqüentar a galeria de parlatório. Os atestados e autorizações eram tão perfeitos que passaram batido. era um cara divertido. mas falei com ele por telefone numa noite. 1m 70 de altura. Me olhou com aquele jeito calmo dele. Uma tarde. havia vários documentos iguais a esses na mesa da moça do serviço social. Já estava lá havia alguns meses e tinha passado o dia fora. uma semana depois. e ele ganhou mais um tempo de vida. anunciouo: "Vende-se urgente.. depois do expediente. Conversamos muito. ao desligar. Eram ordens de transferência assinadas pelo juiz da Vara de Execuções. Seu nome é Jeffrey: altura mediana. ele foi ao meu cubículo se despedir. e tinha seu cubículo perto do meu. já era ele se identificando e dizendo que entenderia se eu. as prisões se tornaram um ninho de inimigos. Assistiam ao Cavalo (esse apelido vinha de Cavalo Mecânico.. papel. Um suposto escrivão passou a escritura no próprio local. nos desejamos boa sorte e. Eu estava assinando o retorno. onde eu estive três anos depois. Os internos conseguiram colocar os falsos no meio dos originais. Aquele era um momento muito perigoso nas prisões do Rio de Janeiro. não tenho tempo a perder. o que queria dizer que preferia tocar minha vida para a frente sem me relacionar com o passado carcerário. em um dia de grande expectativa e torcida. Uma falange explorava os jogos. Segundo ele. Depois. perguntei se ele sabia como andavam as coisas. dissesse "até qualquer dia". assinatura. inclusive minha. quando o telefone da inspetoria tocou e o inspetor me passou o telefone. conversando com Chico Tonelada em seu cubículo. Um apartamento em Copacabana que conseguira alugar. carimbos e tudo o mais. Batemos um papo cuidadoso. motivo de viagem e doença". o documento estava perfeito. Inclusive um no Rio de Janeiro. É um falsário famoso. Zé Cigano e outros que sobraram da Falange Vermelha se movimentarem acesos. usei a "senha". Polaco. Essas transferências eram feitas no fim da tarde. Já me avisaram que ele é a bola da vez e eu também já o avisei.. Vendeu-o montando certidões negativas e livro de escrituras falso. sorrindo e chamando minha atenção: — Não dê mais o telefone daqui para as moças. Simulou estar doente e ter de viver na Itália. Avisou-me que iria fugir com um documento de transferência para uma prisão-albergue. ninguém toma conta da portaria. Mas a Falange Jacaré estava mais forte. Como houve muitas entradas e saídas de internos ultimamente. pois tinha gente nova na galeria. não muito. perto dos filhos. que colocasse a transferência falsa no meio das outras. No final da tarde.

Foi bom estar com eles. ter paciência e resignação. porque pouco depois o guarda que tocou o alarme declarou que foi engano. com as mãos segurando a cabeça. Não sei. a presença deles em nossa galeria é loucura total. olhava as lágrimas se esborrifarem no chão e me xingava: burro. eu morrer provavelmente. tinham vindo do Água Santa e não quiseram ficar. pensando nos últimos dias. mas continuam em guerra. estava pronto e a caminho. que não havia fuga. esperando não sei o quê. essa porra desse recurso. Precisava superar o medo. Alguns preferem sair com a adrenalina no máximo. pouco antes de as visitas entrarem. Pelo que fiquei sabendo. depois do tumulto a visita transcorreu em paz. E quantos mais passarei? 4/9/1983. sai dizendo. babaca. — Cadeia é isso mesmo. Pelo menos a curto prazo. segundo o jornal. Estava em algum lugar do fórum.. vou passar o verão aqui. Quanto ao resto. agora é mistura de falanges na mesma galeria. Continuei sentado.. quando vim para cá. Deram tiros de vários calibres. era difícil. Há muitos pedidos de transferência. É. desesperador. Com esse tipo de alarme e as mortes aí do lado.. garrafas e latas. filhinho de papai. Graças a isso estamos sofrendo uma . Raul e. Ontem. Já estou aqui há onze meses e. Porra. houve treta nos negócios das polonetas. Mas. claro.. Enquanto faz isso comentamos os acontecimentos de ontem. forte e confiante. a Polícia Militar está forçando a barra para entrar e pegar o pessoal das falanges. O Exército tem feito bem a ele. Segundo se comenta entre os internos. os cotovelos no joelho. as três mortes e os quatro feridos no PP daí do lado. idiota. não adianta espernear. o inspetor ficou louco da vida e encaminhou ao diretor um relatório. assistir àquilo tudo e ainda olhar para o futuro. bonito. otário. A esperança de anular o último julgamento está cada vez mais longe... Vejo o Gangorra empurrar a cortina da porta. assim que as famílias se retiraram.. Estar preso. tocaram o alarme de fuga com violência. ser um peixe fora d'água.. Irã e Iraque não se agüentam mais. chegaram de volta os presos que. Tinha me metido numa armadilha sem saída. A Polônia não paga ao Brasil. como os três que saíram hoje de manhã. 31/8/1983... preciso sair daqui. Descobri que o recurso ainda não tinha ido para Brasília. principalmente na animosidade entre presos e guardas. papai. Foram muito esquisitos o alarme e os tiros. algum tempo atrás. mais um grupinho e mais uma liderança. Apesar de tudo. a família inteira esteve aqui. aqui no Rio. que cismavam que era alcagüete.. estamos todos querendo sair daqui. Quantas vezes. Dois foram para a quarta galeria. Mamãe.— Sinceramente.. Depois de ajeitar gelo. a Rússia derrubou um avião de passageiros que invadiu sem querer seu espaço aéreo. 399 Hoje.. O que será isso? Um complô para que haja conflito? 25/8/1983. Eu não tenho nada com isso. Marilena. Resignação. a cadeia ficou em polvorosa. evaporando no ar. Empurraram as visitas 400 que estavam esperando na fila. sentado na minha cama. é o ajudante do Hugo (da cantina). pelo menos segundo os advogados. eles que se entendam.. não. o ambiente ficou carregado novamente. Fiquei orgulhoso de ver meu filho. será que não vou ter sossego? Antes era o Jeffrey. quero estar em paz com todo mundo. A América Latina está falida. Caco. que ficaram superassustadas. tenho até medo de saber. porra. No sábado. um deles para o cubículo que era do Jeffrey (que anteriormente foi do Professor). é só maldade. Essa declaração causou indignação geral... nunca pensei que isso passasse pela minha mente.. Entra e começa a reabastecer o isopor.. A escapada inteligente de Jeffrey e esses acontecimentos aí do vizinho refletiram direto em todo o conjunto penitenciário Frei Caneca.

Meu companheiro continuava tremendo. que perguntei se ele estava passando mal. ficou tudo escuro. . Fora os "faxinas" de lá. iria ligar para Marilena e ir para a 401 vigilância. os sons peculiares da Lemos de Brito foram voltando ao normal e depois de algum tempo a luz também voltou. Aparentemente está tudo em ordem. Nossa. Respondeu tentando acender o cigarro. seu olhar era de quem estava muito assustado. com os bastões de ferro. que já dura mais de duas horas. A porta foi aberta e mais dois internos entraram. houve um silêncio pavoroso. para os orelhões. o que me deixou mais tranqüilo. até bolas de futebol apareceram e. Desliguei logo e me virei para ir até a seção.. Um companheiro que também trabalhava lá — o Luiz — apareceu (aquele que no primeiro dia me escoltou até um cubículo com dois caras que queriam que eu me associasse numa compra grande de maconha). 12/9/1983. que trazia a foto do Nézão e do Monstro. Aos poucos. Nesta madrugada. antes de começarem o "confere". Ele estava branco.. Capetinha apareceu. — Está havendo um tiroteio na quarta galeria. em Niterói. estavam ali refugiados mais uns cinco internos de outras seções. enquanto os guardas reviravam tudo. Mas todos sabemos que de uma hora para a outra vai explodir tudo. ele foi para o refeitório dos funcionários. Andava com o saco tão cheio que nem me interessei em ler a reportagem. mandou a gente ficar com a porta fechada. as peladas recomeçaram. O chefe. me pediu um cigarro. era um dos que tinham acabado de chegar. quando o encontrei duas semanas depois. serra as grades e as coloca de volta direitinho. correrias e berros por um bom tempo. Tive a impressão de que ele estava se arrastando. mas sem trancá-la. Não sei o que deu em mim. Assustei-me e olhei em volta. 8/9/1983. acompanhado do Capeta. engoli um café da noite anterior e desci. Aproximei-me dele para ouvir o que balbuciava. — Eles vão me matar.. Nesse momento pude ver um companheiro da quarta galeria passar cercado de policiais militares.. que estava saindo apressado. e eu. que algo sério está para acontecer. estão se preparando para a guerra.. vão entrar e matar a gente. Ouvi mais alguns tiros e a correria da Polícia Militar invadindo. Agora há pouco. Tomei um banho e me vesti. Meu companheiro apavorado estava pregado no chão. Os guardas estão desconfiados de que os três que fugiram saíram pela janela em uma teresa.. Só ele para me fazer rir naquele dia. ouvindo tiros. Dois guardas apareceram e mandaram a gente ir para a seção e não sair de lá. nos dois pátios. estamos todos com os olhos bem abertos. não agüentava mais tudo aquilo. os guardas e a Polícia Militar começaram a bater em nossas portas com cassetetes. Tremia tanto. tinha na mão a Última Hora. Quando chegamos embaixo. A "geral" foi demorada e por causa disso eu tinha decidido dormir até mais tarde. Olhei pela janela e as luzes da vizinhança também estavam apagadas. — Eu já entrei em cana várias vezes e nunca tiraram uma foto minha. ele estava todo machucado de tanto apanhar. Ele ia comentando que eu vivia nos jornais. que o pessoal da pesada também aparecia de vez em quando. a coisa está brava.."revista geral" minuciosa. Além de procurar cafofos no chão e nas paredes. parecia rezar. Não o conhecia bem.. batem também nas grades das janelas para ver se estão serradas. que não conseguia parar na cama. Estranhei que não havia muita gente e em pouco tempo consegui falar. vagabundo é esperto. Ouvi os primeiros tiros. Todos tivemos de sair para a galeria. Os guardas se assustaram. Acho que estão achando a mesma coisa que eu. (Mais tarde.) Ficamos ali fechados. É. Já mandei para a Vara de Execuções três requerimentos pedindo transferência para o Instituto Penitenciário Ferreira Neto. Peguei-o pelo braço e arrastei-o para a vigilância. Vivia lá e ainda ia ler a respeito? Saturado daquilo tudo. Ficamos escoltados por uns quarenta policiais militares. Há que tirar o chapéu para esses camaradas.

me avisou: — Conseguiram abrir um vão para a cozinha e estão distribuindo pão. é claro). aquele pão vinha em boa hora. Para não dizer que o PM da minha frente não teve a menor reação. quando viu os cabelos brancos do Chico e o seu corpo frágil. sem ninguém tomando conta. mandaram que tirássemos as calças e as cuecas e levantássemos os braços. essa comida é nossa mesmo. Quem tinha de morrer. Ficamos ali até aparecer o chefe de segurança. nos revistaram. policiais abriram a porta e . Um helicóptero voava a cinco ou dez metros acima dos telhados. Era de se supor que eles aguardavam ordens. Com a fome que eu estava. Os companheiros tinham medo e com razão. por via das dúvidas. três só na minha galeria. Quando deixamos para trás os escritórios e entramos nas dependências da carceragem. até a entrada do refeitório. onze tinham morrido. atingimos o pátio 1. Como eu tinha dado minha camisa para o Chico. Tirei minha camisa e joguei para ele. Avisou que alguns cadeados tinham sido arrombados e saiu. que conversava comigo. do outro lado. 402 Depois disso. já estava tudo terminado.. a porta foi aberta completamente e o chefe de segurança apareceu.De repente. Poucos minutos depois. Será que se aproveitaram da situação e mataram alguns internos?) O refeitório tinha janelas que davam para o pátio da cantina. Era fechada com portas de correr. Mandaram que saíssemos em fila indiana e nos encaminhássemos para o refeitório. Era bem provável que os tiros tenham sido para cima. Daí em diante. Todos estávamos com muito medo. Depois de revistados. fazendo um ruído e um vento pavorosos. No início eu achei aquilo loucura. queriam fazer uma barricada. O corredor por onde passávamos era parede de um lado e PMS portando metralhadoras e escopetas do outro. levantei os braços e em voz alta pedi que me ouvissem.. balançou a cabeça positivamente. até aquele momento. Antes que tomassem uma decisão (se fariam ou não uma barricada). Fiquei na frente da porta. Fecharam a porta e nos deixaram sozinhos. ele chamou um dos comandantes da PM e explicou que éramos "faxinas". (Naquele instante. Quer dizer. acreditava que os policiais não tinham tido muito trabalho para acabar com aquela guerra. desorientados a meu ver. Só então fiquei sabendo das mortes. que não se preocupassem com a gente. Enquanto passava por eles. iam fazer uma grande bobagem. Resolvi que precisava intervir e explicar a besteira que estavam por fazer. pois eu sabia que os pátios. quietos e muito atentos. de dois por dois metros que dava para a cozinha. mas Capeta dizia. e meus companheiros. os que eram parecidos também morreram. pavilhões e galerias já estavam ocupados por policiais militares havia algum tempo. já estava morto. raciocinando a respeito. fechando a porta. Ele entrou e mandou que fizéssemos fila novamente. Parte do pessoal entrou em pânico. Quando eles entraram. Segundo os comentários. eles (os policiais e funcionários) não tinham nada contra nós e se fizéssemos uma barricada poderíamos ser mal interpretados. Vi Chico Tonelada nu. nus. tomando chuva. por uma hora mais ou menos (já vestidos. rindo: — Hoje não teve "rancho" pra ninguém. apavorados. Capetinha. vou buscar pão pra gente. Era para subirmos para as galerias e abrir as portas de nossos cubículos. O dia estava escuro e chovia fino. O último dos PMS do corredor em que estávamos passando era um sargento enorme. Atrás dele se via uma quantidade enorme de PMS. Em uma invasão há alguns anos. Assim que entramos no refeitório. olhei algumas vezes para o pátio à minha direita e vi os internos que estavam nas galerias e nos pátios na hora do tiroteio. com um megafone na mão. Na parede em frente. fiquei por algum momento pelado. o corredor era de PMS dos dois lados. ficamos ali juntos com 403 os "faxinas" das outras seções. com policiais armados tomando conta. havia uma abertura como se fosse uma janela. Não o usou uma vez sequer. deitados. a porta foi aberta por um funcionário de outra seção. Precisavam compreender que. policiais mataram inocentes que eram parecidos com um dos chefes de quadrilha. Para fazer isso. começamos a ouvir tiros de escopetas.

Entrei carimbando mais ainda o chão. Meu cadeado estava arrombado. só pensava em voltar para o cubículo. vão comer. O espelho que Jesus tinha me dado estava arrebentado. Mas isso não aconteceu. Dava-me bem com ele. Os PMS que estavam nos pátios também ouviam a discussão e se mostravam inquietos. Entrei na fila e fui ao refeitório só para cumprir a ordem. Era do morador do cubículo 33. ali tinha alguns espaços em branco que eram preenchidos por quem ia chegando. todos ainda estavam nus. Depois. Para entrar tive de caminhar pisando naquilo. durante todo o tempo que a polícia revistou as galerias e cubículos. comecei a ouvir um bate-boca de grandes proporções.) Aqueles homens nus não estavam mais com medo dos PMS e suas metralhadoras. Oitenta por cento do pessoal que continuava nu se negava a ir para o rancho 1. mandou que eu descesse e me juntasse aos demais no auditório. Não queria comer. pelo jeito. Na escada para a quarta galeria subiram poucos e chegamos inteiros a nossos cubículos. Parei para tentar não entrar. Os que ainda estavam nus no pátio 1. onde seria servido um lanche. me encaminharam novamente para o auditório. fomos separados por pavilhões e galerias e ficamos . de novo sem ninguém encostar em mim. Não conseguiu me passar mais informações. Olhando-me. a porta escancarada. depois de muito bate-boca. — A Polícia não matou ninguém. E pior. disse: — Não arrebentaram sua TV porque cheguei a tempo. O que será que elas pretendiam. que já estava quase lotado. quebraram nossas coisas e. Lá dentro o tumulto era grande. Para mim. Só por isso perguntei indignado. misturando-as. Eles berravam para o diretor e para os PMS: — Vocês que estão vestidos. porque um policial à paisana. mandou que entrássemos em fila e nos encaminhássemos para o rancho 1 (refeitório). são coisas do momento. com um megafone na mão. que tinha acabado de chegar e. Na porta do meu havia um rio de sangue. Tinham de ter estudado melhor a situação. alto e bem afeiçoado. mexendo as pedras do tabuleiro? Que tudo explodisse? Finalmente. — Por que arrombaram algumas portas. o risco de arrebentar tinha de ser levado em conta. O chefe de segurança me pediu para entrar e conferir se faltava alguma coisa. mas mandaram que eu continuasse. — Não falta nada. mataram alguns internos? Ele balançou a cabeça.começamos a subir para as galerias. Um PM mandou que eu me sentasse perto da porta de saída. nem sentei. o chão todo carimbado de botas que tinham passado pelo sangue. As autoridades do governo recém-empossado estavam fartas de saber que algo muito sério estava para acontecer. Fui direto para o auditório. agora com o sangue da sola dos meus sapatos. O companheiro ao meu lado me contou que tinham ficado no pátio nus. estava lá desde minha chegada. Só que naquela época era chefe da disciplina. Fora os "faxinas". (A corda tinha esticado 405 demais. Um pouco antes da entrada. A impressão que dava era que estávamos num campo de concentração. e vocês pediram isso. Passávamos o tempo todo por corredores de policiais. 404 Eu conhecia bem o Norberto (chefe da segurança). também não saíam do lugar. incrementaram a guerra entre facções. e não havia uma autoridade maior para pôr fim naquela situação. só quebraram o espelho. Desci passando novamente pelo corredor polonês. Quanto ao resto. Era um sujeito educado. passar a tranca na porta e ficar sozinho. pertencia à Falange Jacaré. Eu estava revoltado. a coisa estava escapando do controle. fui direto para porta da saída. muito pior. embaixo de chuva e do vento do helicóptero.

enquanto revistaram todos os cubículos novamente. no tiroteio acompanhado de mortes. como se estivéssemos em "ordem unida". dei um nó e joguei em um canto. Disseram até que isso aconteceu quando eu estava subindo. Juntei as quatro pontas do lençol. mas o cheiro continuava forte. O pessoal subiu levando chutes. vi minha figura toda torta e cheia de vazios no que tinha sobrado daquele enorme espelho presenteado por Jesus. olhou para ele e pediu desculpas alegando: — Apreensivo como estava. não estava dormindo. Sei lá onde ele estava. bateram à minha porta insistentemente. Depois jogaria tudo fora. — Sou o diretor. quando Pira. além do mais. deram ordem para começarmos a subir. Isso não vai ficar assim. pontapés e tapas. Eu não assisti a esse fato. Eu subi com muito medo.. Louco da vida. — Esse aí é o Raul Doca Street. pois nos dias que antecederam ao tiroteio e à invasão não tive cabeça para nada. PENSEI QUE ERA UM DELES. e quando se aproximaram reconheci a voz da repórter. Felizmente eu tinha água e pude tomar um banho. apesar de o número de mortes cometidas por internos ter sido o mesmo (duas). O sangue de Reginaldo Donato do 33 tinha sido enxugado. Apesar do cansaço. na penitenciária. após os acontecimentos do dia. provavelmente tinha ido ao toalete. correu em direção ao comandante e disse: — Os senhores não podem fazer isso. Estava intacta. Pressentia que algo muito sério estava para acontecer.. o rosto parecia um quebra-cabeça retorcido. Mas.. As lágrimas desceram com força e eu fiquei me olhando chorar. A minha porta foi a única. Pensei que estava pronto para deitar. Aquilo era a coisa mais surrealista que tinha visto em minha vida. levei um tapa nas costas. Apesar de muito cansado. Lâmpada e outros da Falange Vermelha ainda estavam aqui. pois estavam ali desde cedo. feitas de sangue. provavelmente porque estava praticamente vazio. E levou um tapa na altura da orelha. Jesus. Jarra. e o senhor em mangas de camisa. em seguida. Só me pegaram de novo quando entrei na galeria. Antes de me deitar. 406 E levei um pontapé na altura da coxa. também houve uma invasão de PMS (em pequeno número) e. que não sei se o que contarei agora se passou na época das primeiras mortes ou agora. sou promotor de Justiça. por pavilhões e galerias.. que escapou. Vale a pena registrar que naquela madrugada. Um batalhão de homens nus e vestidos. Infelizmente esses relatos se perderam. mais ou menos. Comecei a escrever esses fatos no dia 12. mandaram que fizéssemos fila por galerias. pois minha cama estava repleta de cacos do espelho. Por ocasião das primeiras mortes. Estive quieto e mudo durante o tempo todo em que . Meu estômago doía. ouvi vindo de baixo. mostrou seus documentos. Eram 22 horas quando começamos a subir. Quando estávamos todos enfileirados. Isso estava acontecendo antes de o diretor aparecer. Era o chefe de segurança com uma repórter de uma rede de televisão. Depois de muito tempo. passei uma toalha molhada no chão para tirar as marcas de botas e sapatos. tendo de subir escadas em corredores poloneses constituídos de PMS com raiva.. o senhor sabe muito bem. As paredes e portas de cubículos estavam pipocadas de tiros. A luz estava apagada e assim ficou. de repórteres. mas tive de tomar mais uma providência. Ia passando a toalha úmida enrolada em um rodo.esperando divididos. 14/9/1983. mas era voz corrente. mas causou um grande impacto na imprensa. Não foi nada comparado com os últimos acontecimentos. assim que viu aquilo. entre os dois ranchos e o auditório. Quando estava no meio do primeiro lance de escadas. Nunca mais esqueci o que refletia ali. que ele tinha iniciado sua revolta em minha defesa. naquele canto direito. mas tive de parar duas ou três vezes para vomitar. Faz tanto tempo que tudo aconteceu. O comandante não ficou muito preocupado..

o chefe de segurança se identificou. Nézão. que vou levar pelo menos um.. Despedi-me de papai e do dr. cheio de estocadas e um tiro. Na verdade.. dedos-duros e pessoas que não podiam permanecer no convívio. mas não conseguia. dentro de dois dias. que já tinha sido lavado e escovado com água. no susto que tinha levado ao encontrar a galeria toda furada de balas. estaríamos recebendo ali nossas mulheres. por passagem de "bondes" ou tiroteios na galeria. durante a visita íntima. parece que chegou a ser socorrido. Eu estava acabando de ajeitar meu cubículo. os cubículos. avançou mesmo de mãos limpas. Seu companheiro. Ontem. o alarme tocou e a visita teve de terminar. limpa e passada. não sei por quê. Evandro. Eu não ia deixar filmarem meu cubículo. Lá tinha tudo. pediram. Agora com esses boatos de invasão é que entendi. 407 pois. morreu na hora. junto com mais alguns. Ele estava na galeria. com um grito de guerra. pois aquilo já era passado e. que nenhum dos que confirmaram esta história conseguiu reproduzir.. havia começado o boato: Pira e seus companheiros do setor B (Milton Dias Moreira) iriam invadir o setor A (Lemos de Brito). Fiquei abraçado com ele bastante tempo. Quando apareceram na galeria e iam fechar a porta. que foi me devolver a camisa. Haviam encontrado um buraco que vinha da Milton Dias Moreira e acabava do lado de cá do muro. Evandro. Iam trancar a gente. mesa de sinuca. aos berros: — Venham. me dava com ele. Bom. e a segunda. Ele. e quem não tivesse pedido "seguro" para ficar com ele na "Especial". Segundo me contaram depois. covardes filhos-da-puta. percebendo a situação em que se encontrava. mas não agüentou e faleceu mais tarde. quando estava na visita com papai e não tinha conseguido atendê-lo. fez riscos de sangue no próprio rosto e no peito. eu . Desde o dia anterior. 408 No caminho de volta à carceragem. Chico Tonelada. A repórter insistia que a reportagem seria para o meu bem. ouviu tudo e viu uma boa parte. Enquanto fazia isso fez um discurso. por causa de mortes. Donato. Estava preocupado. Ali era prisão de quem pedia "seguro": ex-policiais. corria perigo.estiveram à minha porta. Ficaram ali tentando por uns vinte minutos. podia receber visita todos os dias etc. achava que tinha feito mal em recebê-la ali. como já escrevi. Eu pensava em Marilena. telefone. eu sabia que ele estava pouco se importando com o Supremo em Brasília. Zé Cigano sapateou no rio de sangue de Donato e depois. O buraco tinha sido tapado e havia sentinelas (guardas penitenciários) ali tomando conta (acho que estavam morrendo de medo). Quer dizer. pois era dia de seu aniversário. querendo saber de mim. Obs.. sabão e água sanitária. ficou ferido. que saíram mais preocupados do que quando entraram. Papai estava assustado com tudo o que andava acontecendo na Lemos de Brito. Eu não conseguia tirá-lo de lá. Agora era tarde. E novos fatos já estavam acontecendo. estavam na "Especial". ele e o Jarra. contou os acontecimentos do dia anterior à invasão. O que levou foram muitos tiros e estocadas.: Eu não estava entendendo como Pira andava me telefonando. Bateram. levaram os primeiros tiros. Puseram-me a par dos acontecimentos e me mandaram subir para a galeria. mais os outros que tinham levado "carrinho" no mesmo dia. logo após a invasão de PMs. fiquei sabendo do que se tratava. ensopando as mãos. Zé Cigano e Monstro ficaram de tocaia. Tinha feito isso duas vezes. na Lemos de Brito. Dois funcionários vieram me buscar. mas estava longe de ser uma nova vida. esperando o Reginaldo Donato sair do cubículo com um companheiro que o visitava. Tínhamos de lavar a galeria. Era um outro dia. Nós estávamos trancados. devia tê-la poupado. queria que eu o tirasse dali. Marilena e Luiz Carlos estavam se virando na surdina para me tirarem dali. a nós mesmos. Nada adiantou. mamãe. papai esteve aqui com dr. a primeira quando a bicha amiga dele veio buscar seus pertences que estavam comigo. Ela ficou horrorizada com meu espelho arrebentado daquele jeito. Queriam ver como eu estava e contar que finalmente o recurso tinha chegado a Brasília. Uma das razões de ele estar tão revoltado era essa.

o alarme da Milton Dias Moreira tocou. pela TV. atritos entre eles. cada um em seu cubículo. uma notícia chamou minha atenção. e ouvi sua voz." O artigo prossegue. Em artigo de outro jornal. Conclusão final: dois apareceram mortos lá do outro lado. O noticiário continuava falando sobre os últimos acontecimentos no sistema penitenciário. que não era forte. aquilo não ia terminar nunca. Por que não poderia haver lideranças entre os presos?". é inconcebível que o governador Leonel Brizola venha a público proclamar. comenta: "Existem lideranças entre operários. que participava da reportagem. vem demonstrar que a lei da selva está em pleno vigor no universo penitenciário do Rio de Janeiro. E os assassinatos cometidos com assustadora regularidade. Mas. violências. há menos de uma semana de um conflito de graves proporções aqui perto. brigas.. atribulações. prostitutas e homossexuais.. também segurando um espelho. novas rebeliões. É atribuição do governo estadual zelar pelos detentos. Essas lideranças nós. facções que se digladiam há dois anos pelo controle dos presídios do Rio. Continuando: "Cabe ao Estado fiscalizar e gerir a segurança dos presos. Logo. negros. absolutamente.. — Vai continuar fedendo.. e o preso só está dando em retorno a discórdia. E com a proteção do diretor do Departamento do Sistema Penitenciário. e o nosso também.) Os internos começaram a abrir as portinholas das portas e berrar para os outros. mais adiante. Vi que ele punha sua mão para fora. que se recusa categoricamente a admitir a existência de facções e organizações em luta nos presídios". vieram contribuir para demonstrar que a situação carcerária do Rio — das delegacias dos subúrbios aos institutos penais — está longe de controle. mas acho que foi apenas um toque de alerta. o Jornal do Brasil começava com um título em negrito: TERROR NOS CÁRCERES. que espera novas mortes. discursando que 12 mil internos vão trabalhar. No dia 14. (Estávamos trancados literalmente. Acabei de ouvir as notícias e comecei a escutar a bagunça na galeria. Liset Vieira.deveria ter pensado nisso antes. "Os principais líderes das falanges Vermelha e Jacaré. e apareceu o Cavalo declarando que. que o novo governo tenha dado aos internos. no Instituto Penal Lemos de Brito. de repente.. as mortes iam continuar. prestarão depoimento na próxima semana na CPI da Assembléia Legislativa. Era sobre a Ilha Grande: dez internos tinham sido mortos naquela tarde. mencionando a "desorganização do sistema penitenciário. Na mesma reportagem. do começo ao final da pena.. imerso nos meus pensamentos. que hoje conta com 12 mil presos. líder do PT. Sinceramente não vi nada. "O assassinato de oito detentos na Ilha Grande. Depois de algum tempo do noticiário sobre a Ilha. Também acho que estão "viajando". a falta de recursos para resolver o problema e o caos reinante nessas penitenciárias"." 410 (É claro que posso estar enganado. o título era: "Deputados querem ouvir os líderes das facções". De março até agora. Eu estava olhando a TV e nada via. pelo menos até aquele momento. se não mandassem os líderes da Falange Vermelha que estão na "Especial" de volta para o setor A. É. 409 — Ouviram as notícias? Coloquei o braço esquerdo para fora. É igualmente inconcebível que ainda existam grupos armados e organizações criminosas operando no interior dos presídios sob os olhares complacentes de guardas pagos pelo Estado. e mais adiante. procurei à minha direita a porta do Chico e chamei por ele.) Mais adiante a reportagem comenta: "Esse sistema. levando na mão um pequeno espelho. não podemos reconhecer e estimular". um líder do PDE disparava: "A única coisa que está errada é que nós demos tudo ao preso. . rebeliões de presos e fugas em massa transformaram-se numa assustadora rotina. mas eu duvido que algum líder vá depor. está apodrecendo a olhos vistos".

em seguida. liberaram todos os pavilhões e galerias. Dei um pulo da cama. Foi tudo calmo. água e refrigerantes. alguns que até já tinham morrido. com a graça de Deus. Mais animado. Bóris. trancariam todo mundo. já estava tudo resolvido. desci correndo as escadas e me apresentei ao inspetor. meu amigo. enquanto arrumávamos minhas coisas. pois. Tive sorte. Já estava quase terminando quando o Capeta. Fui 411 direto para a seção. carregado por Capetinha e mais dois outros internos que resolveram me ajudar chamava atenção e não era só pelo tamanho. Ele sorriu para mim e me entregou os documentos de transferência. antes de sair. hortas. pensava nas informações que tinha a respeito da penitenciária de Niterói. as coisas não tivessem ficado tão feias. Capeta.Gostaria de saber onde. e fui dar um abraço em Chico Tonelada. muito pelo contrário. pedia que comparecesse à inspetoria. chuveiro. que trazia meu jantar do refeitório dos funcionários. Deixava para trás gente de que jamais esqueceria. dia a dia. 412 Convivi com eles. ou fugido. precisava ouvir sua voz e ter outro tipo de papo além daquele carcerário. a Ferreira Neto. pocilgas. A primeira coisa que fiz foi perguntar se estava tudo bem. Era ampla. estaria mais protegido. armário. Como estava. Logo cedo telefonei para Marilena. como Jesus. e os outros que com ele foram para a "Especial" naquela tarde alguns meses atrás. me respeitaram. me despedi de todos que estavam na galeria naquele momento. Ia sair para ir à vigilância. Pira. Tirando meu colchão. Não tinham como recuar. Seria transferido para Niterói de uma hora para a outra. comecei a comer. porque a administração teve medo de que reagissem. parecia mais uma chácara. Ia começar um "confere" e. Tinham convivido comigo ali. que me fazia companhia. Mas. esteja aqui. Cuca. depois de duas horas. Consegui dormir por muito tempo. Acordei com Capeta. Antônio (cozinheiro dos funcionários). me cutucou e fez sinal para que prestasse atenção. provavelmente teriam evitado todos esses seríssimos acontecimentos. e eu repito. cheio de gelo. era ordem do governador. Atento. Peróska. como o Lâmpada e o General. Descemos bagunçando e rindo. Luiz. não tinha o menor preparo para viver aquilo tudo. não me interessa o que fizeram ou por que fizeram. a TV. — Dentro de trinta minutos. estava acontecendo tudo de novo. Saí do cubículo. Queria ficar quieto. O camburão que vai levá-los a Niterói já está esperando. um isopor tamanho gigante. foram ótimas as notícias que recebi. comecei a ouvir meu nome ser chamado insistentemente na "boca-de-ferro" (alto-falante). Enquanto fazia isso. Acho que o Desipe faz até demais com as verbas que recebe. não acharam nada e. minhas roupas e coisa de higiene pessoal. nunca negarei a amizade que tive com eles. Se tivessem estudado a situação carcerária antes de começar a mexer atabalhoadamente com a massa. Talvez. tinha um campo de futebol. que muitas vezes me chamava de irmão e a quem provavelmente devo minha vida. o resto é conversa fiada. Abri e dei de cara com um guarda. queimávamos um fumo. em caso de invasão. Careca. Talvez. Chaves. Eu estava muito apreensivo. estivemos juntos no mesmo barco. pois era grande e sua passagem pelas escadas do primeiro pavilhão. Pressentindo que era minha transferência. quando bateram à porta. entreguei meu prato pro Capeta e saí pedindo que ficasse ali me esperando. Na entrada da galeria. aproveitar para relaxar de fato. talvez. era muito saudado entre esses grupos. fui para meu cubículo tomar banho e fazer a barba. enfim. deixei tudo para os internos: cortinas. inclusive os "faxinas". Que susto. pois o ambiente não denunciava nenhuma tragédia. se não tivessem transferido esse pessoal. O colchão causou problemas. Tomava muito cuidado com tudo o que dizia e fazia. Monstro e os que foram transferidos com o quarteirão todo cercado por policiais militares. Bigode. Não tinha problemas com as novas lideranças. já tinha aprendido que lá. e . um bando de PMS esperava acabar o "confere" para dar outra "geral". Almocei na cantina do pátio e subi. 15/9/1983. parei na porta para responder ao "confere". confiaram em mim.

Por dentro parecia a nave de uma igreja. com os ouvidos bem abertos. pude ver um bar e ouvir seus ruídos de vozes e gargalhadas. Não tinha mais nada para olhar. com aquele barulho característico das cadeias. um parque. Havia muita claridade. era uma masmorra grande. por causa de suas condições de pobreza e desamparo social. Depois de alguma discussão. a 413 única coisa que se via por aqueles minúsculos buracos era um pedaço de portão de ferro. Dizendo que ia buscar uma vassoura. havia uma porta de tamanho normal para passagem de uma pessoa por vez. O interior foi iluminado pela lanterna do inspetor. Fomos até o último cubículo. seguiríamos viagem. Disse que o camburão era para transportar presos e não fazer a mudança para eles. O inspetor. pois estava torcido e encolhido. um senhor idoso com sotaque português e muito educado. ficamos no camburão por mais uns trinta minutos. por ser continuação das grades. Dois guardas deveriam escoltar-nos até a viatura. o motorista chiou. Depois da chegada. pois. fecharam a porta e trancaram com cadeado. e pelos buraquinhos da pequena janela ia acompanhando nas calçadas as pernas das pessoas caminhando. já dentro do instituto. Leonel Brizola. Eu também permaneci de pé no escuro. Acho que a porta era pesada e de ferro.. Depois que fomos instalados. Depois de revistados. Caminhamos uns vinte metros e entramos numa carceragem incrível. pronto para me defender de ratazanas e voadoras (baratas grandes). Para entrar. Paramos num farol. Ele estava furioso.. Eles tinham agido rápido. olhando aquele portão e imaginando o que me esperava do lado de lá. uma . talvez. Fazia quase um ano que não via a rua. até que conferissem os documentos e dessem a operação por terminada. a um palmo do chão. demorei um pouco para abrir os olhos de vez. AQUELES MINUTOS DE ESPERA FORAM TERRÍVEIS. passamos por uma porta grande e imperceptível naquela escuridão. passamos pela ponte e finalmente chegamos. porque começaram a me revistar. do lado direito. Comecei a pensar na Marilena e na minha família. O portão. apreciei a viagem. não tinha mais como permanecer naquela posição. fui com a cara encostada nos furos da janelinha. Agora estava ali. saiu fechando e trancando a porta. além do meu colchão e TV. Bom. e parece que ele telefonou para o governador. imunda e fedida. fora a profundidade. o inspetor conseguiu convencer o motorista e a escolta de que. Finalmente os guardas apareceram e nos ajudaram a descer. dr. 16/9/1983. Fui sozinho. Por fora. pediu desculpas: — São ordens — disse ele. para além da rua. quase imóvel. Meu colchão estava de pé. porque o pessoal do camburão era capaz de encrencar por causa de nossa bagagem. fomos encaminhados para a inspetoria. num aperto danado por causa do colchão. no meio. O trajeto deve ter durado uns 25 minutos. se coubéssemos com todos os pertences. Quem sabe. ele voltou. Depois. encostado na parede. pela escuridão da noite. Encaminharam os outros dois para as galerias e eu fui para a "surda". que vi da viatura. não pude ver direito. Dava a impressão de que todas as luzes estavam em cima da gente. amigo da família. Depois de uns vinte minutos. Ele tinha razão. O CAlor fez meu corpo e minhas roupas ensoparem de suor. tivesse razão de chamá-los de guerrilheiros. Não pude continuar a olhar. trouxe um fio elétrico com uma lâmpada na ponta. o engenheiro e governador do Rio na época. mas a frente era de grades de uma espessura nunca vista. tinha mais ou menos seis metros de comprimento por três de altura... falaram com o dono de um jornal. Reparei que tinha árvores e. O camburão atrás é apertado e dividido em duas partes. mas o inspetor achou melhor nos acompanhar. um dos que também fariam aquela viagem tinha um aparelho de TV que era quase uma tela de cinema.novamente repito. descemos com minhas coisas e me apresentei à inspetoria. Apesar do imenso desconforto e das ameaças de cãimbras. Havia mais dois internos que iriam comigo para a mesma penitenciária. Para poder respirar.

só subindo uma rampa. — A gente faz o que pode. Era um mulato enorme. pois tinha mulher e muitos filhos. Ajeitei-me ali como pude. percebi isso pelos comentários indignados com o argumento do diretor. ele era bem menor. Aqui. apesar de estarem fora do convívio. Pedi que me comprasse água.. que a fazia piscar o tempo todo. bolachas. eu não tinha direito a regalias. — Imagine. Família que conseguiu na cadeia. Mais ou menos dois anos depois. Que coisa mais desagradável. Era só levantar a proteção. pois a lâmpada além de fraca tinha o fio em péssimo estado. eu não ia pedir nada para o meu amigo "banqueiro". — Meu nome é Milton. Ele me olhou curioso. inconformados com isso. Fiquei preocupado. eu dedo para o diretor. alguns internos. Não estava na "surda" de castigo. A partir das seis da manhã. ao sair. lembra? Tive de sair de lá para não ser morto pelo seu amigo Pira. Até acordar de vez. a Falange não tem vez. não fazia política. em Edgard Costa. por que será que sabiam tanto a meu respeito? Qual o interesse? Ali no "Sítio". fiquei de costas para aquela porta. camisa e bermuda de grife. balas e cigarros.. — Já sei que vai para a minha galeria. Assim que ele saiu. qualquer coisa mande me chamar. e terceiro na Lemos de Brito eu andava com os membros da Falange Vermelha e podia muito bem ter arranjado inimigos. O lugar era sinistro. Aquele pessoal sabia muito sobre mim. que em vez de portinhola como as outras. Era incrível. tinha uma cobertura móvel por fora. e eles vinham olhar. que. Era uma maneira que a administração tinha de saber se o preso tinha inimigos. podia estar tomando banho ou sentado no vaso sanitário. que era levantada toda vez que alguém quisesse. passei só dois dias na Lemos de Brito há uns dois meses. Tranqüilo. da minha altura. e sim para ser olhado. me deitei e apaguei por muitas horas. mais uma vez encontrava solidariedade onde menos esperava. 414 tinha o formato de uma capela. a proteção caía de volta.. Depois de varrer um pouco. Só acordei quando um guarda veio trazer café e pão. ia deixá-lo em paz definitivamente. foram reclamar com o diretor. Estava exausto por ter passado dias tão tensos e angustiantes. A janela era pequena e. Não é tão tranqüilo quanto dizem. Sujeito quieto. Continuei exposto à curiosidade dos internos por cinco dias. estavam trancados em cubículos normais. Nesses casos. o Doca nunca se meteu em nada. esperou o guarda voltar com minhas encomendas e me entregou a garrafa. bem barbeado. por cinco dias. um dos dois era transferido. Estivemos conversando por alguns minutos. assim o chamavam. pois os outros dois. Eu não me lembrava daquele camarada. Voltaram com uma explicação quase razoável. iria à direção e contava. — Lembra de mim? Estivemos juntos em 1977. quando estivemos juntos seis anos antes. encostou um interno que trazia uma garrafa térmica com café. Orlandão. mas atendeu ao meu pedido. iria direto para a galeria de parlatório. mas quando dava opinião era atendido por todos. com um sorriso largo e resignado. como era chamado o lugar. percebi que me olhavam por uma abertura na porta. sem me importar com nada. 415 como só eu fui para a "surda". segundo. Se o interno olhasse e tivesse medo de quem estivesse ali.vassoura e dois colchonetes para pôr meu colchão em cima. com o teto alto e oval. Primeiro. na época em que saí albergado. não deixo entrar. tinha matado um juiz num assalto.. Não esperava essa delicadeza dele e agradeci muito. ou precisasse matá-lo para continuar vivo. olhar. estendi o colchão em cima dos colchonetes. segundo ele me confirmou dias depois. acho que oitenta por cento dos internos fizeram isso. Lá trabalhava na alfaiataria. pois seu crime era grave. . Não sei como se virava. Muitos olharam. chocolates. para atingi-la. só que com 120 quilos mais ou menos. Você vai se dar bem aqui no Sítio do Pica-Pau Amarelo. Com seu sotaque carregado. No fim da tarde apareceu um camarada. ele continuava lá. mas dá para "tirar" (cumprir) a pena.

assim. Tinha uma mureta que escondia o boi. tiveram de me deixar sair. enquanto não me viu não sossegou. ficaram sabendo da minha transferência pelos jornais. um dos internos que era "faxina" do serviço social apareceu e perguntou se eu queria mandar algum recado para meu pai. Dr. eu não teria nada a temer. — Bem-vindo ao Sítio do Pica-Pau Amarelo. Depois do campo se via outro prédio no mesmo formato. que estava no portão. naquele lugar. no cubículo 7. Moramos na mesma galeria na Lemos de Brito. se aparecesse alguém ele iria embora. De vez em quando alguém aparecia. Em frente a esse observatório. e o lugar malcheiroso. esse cuidado eu sempre tive. No segundo dia. dizia que estava feliz por eu ter saído do inferno e estava com saudades. Enquanto me aproximava ele dizia: — Aqui também sou o xerife. retangular. Escrevi uma cartinha contando que estava bem. um cano onde eu iria instalar um chuveiro. No meio desse campo havia dois postes finos. lá pelas catorze horas. nunca carreguei ou guardei . Aliás. João. Fiquei preocupado. 21/9/1983. a dois metros do chão. mandaram ele me procurar. — Olha! Bandidão carregando mudança pro Doca.. Estava tentando ver mais alguma coisa. mas ficamos bem contentes de nos encontrarmos. quando me mudei pela primeira vez para uma galeria de parlatório. Papai era fogo. uma janela com grades que dava para um campo de futebol de salão. Virei rápido mas pela portinhola eu só via o bigode e um sorriso com algumas falhas nos dentes. Depois que foram embora voltei para a "surda" e fiquei lá por mais umas duas horas. Esse era um direito que eu tinha. via do lado direito parte de um campo de futebol.. que eu não teria privilégios. No terceiro dia recebi um telegrama de Marilena. eram longos. Entre os dois. que denunciavam que ali também se praticava voleibol. Quando o inspetor foi me tirar. era impossível. no terceiro pavilhão. Ali. pois só então eu teria direito à visita. Eram as regras daquele instituto. 417 Só então reconheci o Bigode. alguns internos vieram junto e ajudaram a transportar minhas coisas. Ao passarmos pelo pátio. De lá eu via também algumas árvores e bastante mato rasteiro. do outro lado. primeira galeria. com pena. devia contrastar com o prédio onde eu estava (que seguramente era muito antigo). Humberto e seu sócio. Será que tinham feito minha caveira? Pelo que eu sabia. havia um prédio pequeno. naquela masmorra centenária. vieram me visitar e papai veio junto. No quarto dia. já ninguém vinha me olhar. receber meus advogados. Estavam surpresos. Não posso dizer que foi uma festa. mas parei porque ouvi uma voz conhecida às minhas costas. na minha ficha tinha um elogio por comportamento. que o vozerio e os rádios dos duzentos e poucos homens que estavam naquele prédio mal chegavam aos meus ouvidos. Mas os guardas. Não estava completamente destruído. tendo de ficar na "surda" para ser olhado e depois ainda tinha aquela explicação. No último dia. construção moderna. o muro alto atrás das traves. dois andares com cinqüenta celas de cada lado. estava sendo tratado como um bandido perigoso. dr.Os dias ali. alguns internos cumprimentavam e outros gozavam com a cara do Milton. As paredes da "surda" eram tão grossas. estava queimando um fumo e passou a mão para dentro da portinhola para que eu desse um "tapa" em suas próprias mãos. comprido. Mas era para saber se estava tudo bem. como sempre. A galeria era limpa e o meu cubículo — o número 239 no térreo (de um prédio de dois andares exatamente iguais) — ficava do lado esquerdo de quem entra. que ele e Marilena não se preocupassem e só viessem me visitar no 416 sábado da segunda semana. Explicou que o diretor era um promotor linha-dura e não tinha recebido o "velho". Às vezes subia a rampa para chegar à janela. Ele. para me trazer para o cubículo.

Durante aqueles dias de tranca. O domingo tinha chegado e a visita íntima iniciava às dez horas. Depois de limpar tudo. Tinha comigo o colchão. Nos quatro dias que passei ali sem sair. Pelo menos uma vez por dia Milton vinha bater papo comigo. como em . educada e se vestia com elegância. me contou que morava no último cubículo do corredor. já de volta ao meu cubículo. com visitantes e internos caminhando por ali. Do lado esquerdo eu via a cantina. para fazer um reconhecimento do lado do fundo do "Sítio". bem preto. embora tivesse sido homem. e vivia com uma "criatura" que o visitava ali. Fiquei bastante tempo olhando para algum ponto. Era muito rica e tinha feito uma cirurgia de transformação na Suíça. Ficaria trancado mais três dias. jornais. com um espelho de mão emprestado pelo Orlandão. com um pano em cada pé até ficar tudo seco e os ladrilhos brilhando. que dava para uma parte do "Sítio" desconhecido para mim. depois de contarem os presos às 21 horas. Arranjaram uma cadeira. com três canos finos que giram e atiram água nas hortaliças. Bem em frente tinha árvores. roupas e produto de limpeza. Minha TV e rádio só viriam quando eu fosse para o convívio. recebi muitas visitas dos companheiros.. Marilena e eu tivemos oportunidade de vê-la. conservando meu isopor cheio e me prestando pequenos serviços. Aquilo me fez rir e pensar com saudades na fazenda de meu avô. Antes de olhar pela janela. do mesmo lado que o meu. Puseram-me em um cubículo. Podia ficar ouvindo música ou vendo televisão. apagavam as luzes. um 418 colchonete e uma vassoura. Bianca apareceu e levou minha roupa para lavar. No fim da tarde. Numa das visitas que me fez. voltando ao cubículo onde me encontrava. um pacote de bolacha e spray para matar as formigas e baratas. À direita. sua roupa deve estar encardida. tão famosa que fizeram até um filme a respeito de seu líder. fui para a janela. para secar meu cubículo. Adorava música e. às 23 horas. O camarada que foi à cantina buscar essas coisas era homossexual. punha o rádio ao máximo e dançava em rodopios. virou a viatura de rodas para o ar. Bom. Depois arranjo uma "caída" para ajudar com essas coisas. bem na hora em que eu pensava que não pegariam nada. Ele gostava muito dela. trancavam todo mundo e. uma enorme horta. Era bonita. no segundo andar. Milton também tinha ficado famoso por resgatar sozinho o líder em um camburão que ia levá-lo a uma audiência no fórum. Depois deitei para ler os jornais. de altura mediana. com olhos muito espertos e sorriso maroto. Havia também um córrego ali. mas lá. durante todo o tempo em que estive lá. Aqui era diferente da Lemos de Brito. Um pouco antes me tiraram da galeria e me levaram para o pavilhão que eu via de minha janela. mais tarde. ainda por cima. Se fosse no interior de São Paulo eu diria que era um lambari. num fim de tarde. Tinha pertencido a uma das quadrilhas mais famosas do Rio. e no apelido carinhoso que os presos tinham posto naquela penitenciária: "Sítio do Pica-Pau Amarelo". lavando meu cubículo. Daquele dia em diante ele estava sempre por perto. Acordei tarde com o Bigode me chamando porque estavam fazendo o "confere". As portas e chaves eram comuns. Havia pessoas trabalhando. apenas recordando com saudades meus avós e a felicidade em que vivi até os doze anos.. do outro lado do campo de futebol de salão. tomei um banho de cano. mas dormi profundamente.. sem nada ver. — É só dessa vez que vou fazer isso. Rendeu os guardas. Pedi a um interno que me arranjasse na cantina água mineral.. uma garrafa térmica com café. naquele dia bastante movimentada. Chamavam-no de Sargento. tive de tratar da higiene do local. mas tinha de ser bem baixo. tinha uma aparência simpática. conservei a portinhola aberta para pelo menos poder olhar o movimento. porque dois meninos pescavam e um tirou um peixe minúsculo.nada. ajeitavam aqueles regadores de solo. liberou seu companheiro e chefe e.

Onde você estava a massa era de assaltantes e traficantes. Sabia que era traficante dos grandes. Porta-te bem. Agarra-te logo a uma. tomavam a chave do camarada. Era a minha primeira noite na galeria. — Aqui é diferente — dizia ele. o que fazia. deixa que eu arrumo tudo. Respondi apenas que ele estava vivo. que ia começar (a quadra era iluminada).. passaria por um empresário de sucesso. A porta ficou aberta como na Lemos de Brito. até o teto. O tempo vai passando e você aprende como é a vida na cadeia. Tem muita covardia. Era o time dos guardas contra um dos times dos internos. 419 O "confere" tinha acabado. tinha vindo para consertar a fiação e conseguiu ficar. se traficava na cadeia. o rádio e uma cama que papai tinha providenciado e estava na inspetoria. todos no "seguro". No meu caso. Não ia impor nada. o Milton está pinel. nem me passava pela cabeça me envolver em qualquer tipo de atividade que não fosse a "faxina". Tinha sessenta e muitos anos. cara limpa. fiquei assistindo ao Sargento lavar meu cubículo. Enquanto arrumava tudo me contou que já estava lá havia dois meses. Apenas sentia que a situação era outra. Feito isso. Virei rápido porque percebi que abriam minha porta. como em qualquer cadeia. vendo TV e anotando os acontecimentos. — Você não entende nada disso. não dá para confiar em ninguém. Já tinha passado pelo meu batismo de fogo e.. por ouvir falar.. ligou a TV na antena de um vizinho e me emprestou um chuveiro elétrico. Não dei nenhuma informação importante. Já sei que tem chefe de seção a querer-te para faxina. Estávamos pensando como íamos fazer com a TV. cama. depois disso foi um sucesso.qualquer quarto. aqui é de raptores e chantagistas. Já o tinha visto de longe na horta. em caso de ficar na "tranca" (de castigo no próprio cubículo). 23/9/1983. que eu disse ao homem que és educado. eu estava na janela olhando o jogo de futebol. regulando em idade comigo. Aparentemente satisfeito com as informações. Bom. Falei de bate-pronto enquanto lhe dava um abraço: — Me falaram que aqui não tinha ninguém da Falange Vermelha. eu ainda não tinha recebido minha chave e. o eletricista que tinha instalado tudo para mim na Lemos de Brito. Se fosse pego ia para a "surda". Bom. Em um terno bem talhado.. Um camarada. instalou um pedestal em cima da porta para o ventilador. O pagamento teve de ser o mesmo da última vez. puxou conversa da porta. refrigerantes ou gelo. — Amanhã vais para o convívio. Conhecia aquela voz. como estava. Boa sorte. "garotos". Conversamos por uns vinte minutos. gozando de boa saúde. Fiz lavar tudo. aparência agradável. Respondeu olhando em meus olhos. muito dedo-duro. Os perigos são outros. não preciso te dizer. o "Sítio". sem um fio de cabelo. mesmo porque nunca tinha conversado com Nézão sobre suas atividades na cadeia ou fora dela. será respeitado ou não. é que a coisa 420 funcionava assim. era o Careca. . A porta permaneceu aberta e alguns vieram bater papo e saber informações sobre os acontecimentos do setor B.. Dependendo do seu histórico. lá. — Não têm acontecido mortes. com mania de perseguição. o que propiciava ao preso sair se quisesse. que pus em cima de uma mesa que o Sargento me vendeu. Saí para o convívio às catorze horas do dia seguinte e fui direto para o serviço social ver se minha documentação e a de Mari-lena estavam em ordem. Eu fiquei tratando de arrumar minhas coisas.. só que com o cabelo todo branco. noventa quilos. Estavam e fiquei aliviado. usava óculos. na tarde do último domingo. ex-policiais. passamos a falar sobre onde estávamos. Era o inspetor que tinha me recebido na chegada — o senhor Manoel. não liga. alguns pacotes de bolacha e refrigerantes. Sorriu para mim. não ia permitir que ninguém entrasse pelo meu cubículo adentro para pegar água. Quis saber do Nézão. ventilador e a TV. — Sei até quem te falou essa bobagem. gente que era do grupo do Mariel Mariscot. 1m 64. 1m 75. Não era por egoísmo. depois fui procurar o Sargento para me ajudar a carregar a TV. Depois colocamos tudo para dentro.

Num dos prédios de fundo. porcas e filhotes.) Por onde eu ia. que aceitei não só por educação. 23/9/1983. O meu era o primeiro. que tinha me levado comida todos os dias desde minha chegada. Fizemos um acerto e eu continuei recebendo almoço e jantar no meu cubículo. era o encarregado da seção de disciplina. O cubículo era limpo e confortável. Dali para cima tem mais dois andares de celas. ouvindo sobre os dissabores que tinha com seus advogados. mas com o canto dos olhos percebi na porta a presença do Bigode. que honra. Apresentei-me ao inspetor. Assisti ao futebol de campo e de salão e fui ao refeitório dos guardas agradecer ao Baldaracci (o cozinheiro da cozinha dos funcionários). logo depois da inspetoria e do auditório. dei um pulo de . Aqui. Esse cara era incrível. me avisaram que era considerado falta grave estar em pavilhão que não fosse o seu. Foi construído em 1856.. pocilgas. Lembrava uma pequena catedral. onde ficava a "surda". ficava a alfaiataria e a sapataria. que me entregou um chuveiro elétrico que papai tinha acabado de deixar com ele. tudo nos seus lugares. estão as celas. Tem dois andares. ali eu podia circular à vontade. nos outros só com autorização. convidou-me para um café em seu cubículo. Hoje. Ele não faz isso com ninguém. Foi logo se abrindo.. todo mundo tem o rabo preso com ele. a aparência sinistra. a frente é de grades de ferro até o primeiro andar. fui para lá. 421 — O Celso veio conversar com você em seu cubículo. porcos. vão estragar sua característica principal. Pela "boca-de-ferro". se percebe uma enorme nave. Levantei-me cedo. com seu jeito debochado. O prédio era bonito. com uma TV enorme de última geração. chuveiro elétrico e cama muito bem arrumada. Para atingi-las. o interno encarregado me mostrou tudo. também de ferro. era notado e saudado pela maior parte das pessoas. é agiota. mas. pedi licença ao inspetor e. que se compra em camelôs) debaixo do chuveiro na altura do meu rosto. uma horta enorme e até um campo de futebol. estava sujo. se não me engano. Tinha esse apelido por causa de um personagem de novela. como por curiosidade. mamãe e papai apareceram no portão.. além de cozinheiro dos guardas. com corrimãos e proteções igualmente de ferro em toda sua volta.. Acho até que. Tomei o café. sobe-se em escadas de ferro e anda-se em corredores de ferro. Já estava preso havia muito tempo e já tinha direitos que não conseguia fazer valer. além de ser o encarregado da horta. Na horta foi onde me demorei mais. autorizado. Na pocilga. Examinava meu rosto. Os pavilhões 1 e 2 ficavam do lado direito de quem entra. de costas para o campo de futebol. tomei café na cantina e depois fui andar. que não conseguiam tirá-lo de lá. para poder fazer a barba tomando banho. uns 200 mil metros quadrados com prédios. Pediu que avisasse o "velho" que o diretor não ia deixá-lo me visitar fora dos dias e dos horários permitidos.Em vez de se despedir. dão uma impressão mais pesada ainda ao ambiente. Aquilo era gigantesco. à esquerda. se um dia resolverem 422 limpá-lo. como eu queria visitar o prédio do pavilhão 3. Fabricavam também bolas de futebol de salão. Os três pavilhões davam para um pátio. Sábado. Precisava me exercitar e andei por tudo. Quando me liberaram para o convívio. o que eu ia visitar. dava a impressão de que o Corcunda de Notre Dame ia sair de lá a qualquer momento. Matador temido na "Baixada". No térreo. Principalmente pela pouca luz existente lá. como se fossem pequenos altares que volteiam as naves das igrejas. É incrível olhar da segunda galeria aquele enorme espaço vazio. sua presença em qualquer lugar causava pânico. fui chamado à inspetoria. até alguns guardas. As portas das celas. 24/9/1983. internos ou funcionários. porque Celso fez questão de me mostrar todos os canteiros. Ao entrar. do lado esquerdo. Sua cor era cinza-escuro. De volta ao meu lugar. calças jeans e roupas usadas no sistema penitenciário. Olhei-me e vi o quanto as últimas semanas e a "surda" tinham me deixado abatido. (Faziam uniformes. fui colocar um espelho (desses comuns. cinqüenta de cada lado. Ninguém respeitava muito isso. sinalizando uma personalidade organizada e meticulosa. quando Marilena. Não estava maltratado.

a horta e o córrego não tiravam a aparência de penitenciária do lugar. cadeira e tudo. que tinha em uma das mãos um pacote. Uns dias depois que saí para o convívio. escreveria um livro. Tive pena deles. tez clara com o rosto cheio de bexigas. Mas choveu e nós tivemos de ficar em um galpão de alvenaria. como os de ontem. Tinha grande interesse em saber como se portar em sociedade. Aquele tinha sido um mês atípico. As horas passaram rápido e eles se foram. jogou o pacote em direção de uma das janelas da galeria. Marilena estaria aqui comigo. parecia que tinha marcado um gol. A primeira vez que lhe falei sobre isso. Só não me lembro se ele veio da Ilha ou do Água Santa. que . era membro destacado da Falange Vermelha e. Segundo comentavam. Delatou um parceiro que o ajudava e agora estão cada um numa "surda" e com mais um processo nas costas. apesar do tamanho. pelo menos quarenta por cento tem direito de ir passar esses festejos com a família. como a imprensa o chamava. com seus muros altos e guaritas com policiais armados. que é a vista que tenho de meu cubículo e percebi que os guardas corriam atrás de um interno. roubar automóveis. Pertencia à quadrilha de roubo de automóveis da época. As árvores. sentia uma grande necessidade de saber tudo sobre etiqueta. o diretor esteve na seção examinando as fichas dos internos. para que ninguém que tivesse direitos deixasse de consegui-los. era incrível vê-lo jogar futebol. De tanto nos cruzarmos caminhando pelo "Sítio". Não tinha tempo para tristezas. Era um sujeito alegre. Quais as diferenças dos copos de vinhos tintos e brancos. Estava passando pela quadra de futebol de salão. passeávamos pelo "Sítio". Milton. era a primeira vez que eu via um diretor tratar pessoalmente dessas coisas e. Enquanto esteve no "Sítio" me procurava muito. não conseguiu seu intento. Os DIAS NO "SÍTIO" SEGUEM CALMOS. me fez jurar 424 que o incluiria em minhas histórias. pois chegamos com poucos dias de diferença. 17/10/1983. Mas. um pouco antes de terminar o expediente. acho que esperavam um lugar melhor. fui procurado por Tenório. comentei que anotava tudo o que se passava na prisão e um dia. quando o Português (o mesmo que reformou meus cubículos no setor B) acabasse a reforma de dois outros cubículos. também tinha curiosidade e. Na correria. Quando ele se viu cercado. para ser honesto. em torno de 1m 90. 23/10/1983. Veio para o convívio uma semana depois que eu. Agarraram-no e o levaram para a 423 delegacia mais próxima. Bom sinal. que já estava comprado. à procura de penas vencidas e das fichas dos que têm direito a sair no fim do ano. muito inteligente e. se tivesse coragem. nos tornamos bons camaradas. toda vez que a chuva dava uma parada. por minha vez. já pensando no Natal e na troca de ano. Já tinha arrumado mesa debaixo de uma árvore. A NÃO SER POR alguns acontecimentos que considero de rotina em uma cadeia. embora deixasse transparecer não ter muita simpatia por Pira. Aqui. 120 quilos. Enorme. exatamente na hora em que estava dando minha caminhada. Mais tarde. Os jornais do dia 20 de outubro noticiaram o fato e confirmaram que os rapazes não entregaram seus fornecedores. enfim. Ainda não tinha tido tempo de pintá-lo e de colocar o vaso sanitário. ainda por cima. tinha ganhado muito dinheiro. pedir urgência na revisão do restante das fichas. Eu. com mesas e bancos. onde ele confessou que iria traficar no interior da penitenciária. O restante da massa procura se comportar. Paulinho Badhu esteve aqui me visitando e acha que tenho grande chance de ter meu segundo julgamento anulado. O Gordo tinha duas especialidades: assaltar bancos e. tinha chovido quase todo o tempo. com toalha.alegria. mas que só seria colocado na próxima semana. No dia seguinte. era muito ágil. era seu parceiro e sabia de nossa amizade. Como escrevi antes. ou o Gordo. a maior delas. Anotou também dois nomes que iria indicar para o indulto que o presidente da República dá todo final de ano. e eu precisava dar um jeito de melhorar o espaço. pedia sempre para eu explicar como segurar o garfo e a faca nas refeições. fizemos amizade.

tinha ódio de todos da Falange Vermelha, me procurava para dizer que achava que um dia eu ainda ia me dar mal por me dar com aquela gente. Para desespero dele, a direção tinha colocado o Gordo em nossa galeria. Era vizinho do Orlandão. Milton comentava: — Você já viu os caras que gostam de você? — E enumerava: — Tenório, Orlandão, Cabo Pereira, Celso... Porra, você está louco... A administração presta atenção em tudo. Eu brincava com ele, perguntando por que não tinha incluído o nome dele. Ele respondia na lata: — Eu não gosto de você. Mas Tenório não ficou muito tempo com a gente. Nessa época, quase em frente ao meu cubículo, vivia Selton. Era um rapaz boa-pinta, educado, que também se dava bem comigo. Gostava de me contar suas farras e conquistas. Era assaltante, não pertencia a nenhuma facção e era muito perigoso. Não era bem-visto, era bonito, arrogante e não respeitava ninguém. Estava em constante atrito com a administração e, no momento em que fazia anotações sobre ele, estava na "tranca". Tinham achado duas facas em seu cubículo e, segundo ele alardeava, sabia quem o tinha delatado. Parecia uma fera ali trancado, berrando a todo pulmão, jurando de morte seu delator. Antes de ser trancado vi várias vezes ele e Tenório conversando. Nos últimos dias, Tenório ficou muito tempo na sua porta confabulando. Uma das vezes que estavam assim nessa trama, passei por eles ao sair do meu cubículo. Quando passei, Tenório me chamou. Estavam queimando fumo e Selton disse rindo: — Toma aí pra tu chegar doidão na vigilância. — E falava para o Tenório: — Ele morre de medo de tomar um flagra. Dei um "tapa" para não ser desmancha-prazeres e já fui me virando para ir embora, mas Tenório me segurou. — Espera, vou com você, vamos tomar um café. E o outro pela portinhola falava: — Conta pra ele. A história era a seguinte: fugiriam no domingo lá pelas seis horas, logo depois do café. Tenório me contou tudo. Iriam ter armas que chegariam no sábado. A mula, que era de confiança, fornecia bolachas 425 e balas para a cantina, e Tenório o conhecia. O sujeito pensava que estaria trazendo três quilos de "bagulho". Para convencê-lo a fazer isso foi necessário ameaçá-lo de ter a filha raptada. Dentro da maconha estaria uma metralhadora Uzi. Quando ele acabou de contar, disse: — Venha assistir a nossa saída, ninguém vai se machucar. Logo depois do café, às seis e meia. Você fica encostado no porta-estandarte assistindo a tudo. Eu, apavorado, dizia que ele era um louco por me contar um negócio desses. Os fatos: sábado, depois da visita e do "confere" às dezoito horas, os guardas trancaram a galeria como de costume e foram jantar. Dois internos ficaram jogando damas em frente à porta de grades da galeria e outros ficaram nas janelas olhando para dar alarme se acontecesse algo estranho. Um interno foi batendo de porta em porta e avisando: — Seu Tenório está esperando na galeria. Assim que fui avisado saí para encontrá-lo. Tenório estava sentado no chão com os três quilos de maconha na sua frente. —Bom, vagabundos, hoje vai ter pra todo mundo. E, compenetrado, começou a desmanchar o tijolo. Não sei se era um tijolo, dois ou três. Eu estava tão impressionado com tanta loucura que fiquei à distância olhando aquele bolo de gente em volta dele, pronto para pular para dentro do meu cubículo. Selton tinha aberto sua porta e caminhava de volta com a nove milímetros na mão. Sorriu para mim, entrou no seu cubículo e se trancou novamente. Juro que rezei. Rezei para não cismarem e darem uma "geral". Depois do "confere" das 21 horas, quando todos estavam trancados, e eu estava tentando me concentrar na TV, bateram de

leve na minha porta. Levantei-me e dei com o Selton na portinhola rindo. — Vim me despedir. E me estendeu a mão pela portinhola adentro. Que alívio vê-lo voltar ao seu lugar. No dia seguinte, às seis e meia, um interno, como todos os dias, saiu do refeitório com um grande bule e se dirigiu ao portão, batendo no portãozinho. Como todas as manhãs, o guarda abriu para pegar o bule. Ao fazer isso foi rendido por Tenório, Selton e mais dois que eu não sabia que iriam junto. Segundo os jornais (não fiquei assistindo como tinha 426 sugerido Tenório), o policial não se intimidou e se atracou com um deles. Sei que não foi o Tenório, porque ele ficou ameaçando o policial militar da guarita e caminhou em direção à rua, onde parou um carro obrigando um casal que passava distraído a descer e seguiu seu destino. Também, segundo os jornais, havia um Corcel II à espera dos quatro fugitivos, que por alguma razão preferiram seguir no carro do casal que ia passando. Uma ou duas semanas depois, num fim de tarde, Baldaracci bateu à minha janela. Mas não foi para entregar o jantar, isso seria mais tarde. Novidadeiro, veio contar que tinham trazido o Tenório de volta. Estava na "surda", a mesma em que eu estive quando cheguei. Segundo Baldaracci, ele chegou todo arrebentado de tanto apanhar. Contou também que o prenderam em Maricá, Rio de Janeiro, no centro da cidade, em uma cabine telefônica. Depois das fugas do Tenório, Selton e dos outros dois, quase todos os dias havia "geral" em todas as galerias e muita investigação para saber como as armas tinham entrado. Com o Tenório de volta a coisa ia ficar preta para o lado dele. 21/11983. Hoje pela manhã saí mais cedo da seção e fui jogar futebol, era apenas uma pelada. Dois times escolhidos na hora. Optei por jogar no gol. Pela primeira vez tive um contato mais próximo com ex-policiais. Estavam todos na arquibancada assistindo à brincadeira. Era futebol de campo, onze para cada lado. No meu time, jogando na meia-esquerda, havia um interno que acabara de vir para o convívio, Cabo Terêncio (a patente fazia parte do apelido, não era militar). Ocupava o cubículo que tinha sido do Selton. Altura mediana, mas de constituição muito forte e compacta, da largura de uma geladeira. Era falante e alegre, gostava de falar de sua profissão (matador profissional) e de como ele tratava bem sua família até ser preso. Dizia: — Eles tinham de tudo: casinha toda mobiliada, escola, boas roupas e até uma ajudante para minha mulher ter mais sossego. E o meu serviço era limpo. Eu estudava a vida do "paciente" até achar o momento certo de pegar o bichão, aí era um tiro só. Ele não sofria nadinha. Me prenderam justo quando eu estava comprando um carro. O jogo ia bem, todos se esforçando, eu até que não fazia feio. Como nunca treinávamos, era uma correria embolada, e eu estava mais assistindo, muito atento, é claro. A uma certa altura comecei a ouvir me 427 chamarem. Como não conseguia localizar de onde vinha a voz, continuei prestando atenção nas jogadas. Mas, pouco tempo depois, ouvi meu nome novamente e a pessoa dizia... — Olha a sua direita no pavilhão 1. — Só aí localizei, a dois metros e meio do chão, na pequena janela da "surda", Tenório fazendo sinais. Na hora, fiz sinal também, para ele esperar, que depois do jogo estaria lá para atendê-lo. Para enxergar seu rosto tive de ficar um pouco afastado, porque a janela era mais alta do que parecia. Sua cara enorme e redonda estava bem, não parecia machucada. Ele olhava para os lados para ver se tinha algum funcionário por perto, e eu, percebendo isso, também prestei atenção. Estava "limpo", ninguém tomava conhecimento da gente. Enquanto ele falava em voz normal, pedindo jornais, cigarros e café, deixou cair um papel prateado, no chão do pátio. Recolhi o papel (desses que estão nos maços de cigarro), desamassei e li. Tinha um número de telefone com o nome de um advogado e

o número de um cubículo com o nome de seu habitante. Era para eu entregar o papel à pessoa que, por sua vez, tomaria as providências. Essa pessoa era o Zezão, o técnico de TV, que por sinal tinha deixado meu aparelho novo. Cobrou muito, mas ficou novo. À tarde pedi ao inspetor autorização para levar alguns maços de cigarros e café para Tenório. Autorizou, mas pediu que fizesse isso logo, porque dois delegados de duas delegacias diferentes entrariam a qualquer momento para interrogá-lo. Um dia depois, à tarde, após o parlatório, pois era dia de Finados, Marilena e eu estávamos sentados num banco atrás da seção de disciplina, lugar que gostávamos de ocupar, pois ficava embaixo de uma mangueira. E vimos quando levaram Tenório para fora, para ser interrogado novamente pelos delegados e pelo diretor. Estava cercado por uns oito funcionários. Duas horas depois, passou por nós novamente indo em direção à "surda". Cercado pelos funcionários, ia levando alguns tapas e pontapés. Sua cara não demonstrava preocupação com aquele tratamento, quando passou por nós, olhou-nos num cumprimento quase imperceptível. Marilena ficou horrorizada. Aqui no "Sítio", ao contrário do que ocorria na Lemos de Brito, não me dava bem com todo mundo. Havia alguns que estavam sempre comigo, mas, com essa política que adotei de manter distância, mesmo nos casos de gente educada como o Alemão, que era poliglota e tinha 428 um papo inteligente, eu ficava na paralela. O camarada que tinha mais intimidade comigo era o Baldaracci. Outros com quem eu mantinha um relacionamento mais estreito por trabalharmos juntos ou por estarmos na mesma galeria: o Bigode, que era xerife, o Milton, o Tenório, que quando estava no convívio andava sempre comigo. Tinha ainda o Celso e os dois que eram de Vitória, o farmacêutico, Pedrinho e Raul, um camarada tranqüilo e muito educado. A Bianca, Orlandão, Careca, Sargento, o Belmiro, que também trabalhava na vigilância e era o queridinho das moças da social e, ultimamente, o Cabo Terêncio. 25/11/1983. Essa semana não foi ruim, pelo menos jornalistica-mente. Um jornalista, Tarso de Castro, que é amigo de alguns amigos meus e sempre me arrasou, hoje limpou a minha barra ao comentar em sua coluna o julgamento da artista de TV, em artigo intitulado: "Uma assassina e o feminismo". Alguns trechos: "Pois o fato é que um júri formado por cinco mulheres e dois homens absolveu, exatamente por cinco a dois, a assassina... E condenou, por conseqüência, o movimento feminista — à morte... Seu crime é, no mínimo, dez mil vezes pior do que o que aconteceu com Doca Street e Ângela Diniz. Sabe-se que neste mesmo jornal reivindiquei a condenação de Doca, coisa que me custou rompimento até mesmo com queridos amigos. Mas Doca, a partir do momento em que cometeu o crime — e o fez de forma passional —, comportou-se com decência, não apelou para mentiras de moralismo e coisas afins. Não fez isso. E, para falar claro, já deveria estar solto. Sou insuspeito, o mais insuspeito de todos, para afirmar que ele já pagou demais. Mas ele tem fama de rico e isso o transforma num ser imperdoável, não é verdade?" (O artigo continua por mais duas colunas.) Uns dias depois, uma jornalista, Irede Cardoso, desgostosa com o artigo acima, escrevia contra o autor e afirmava que eu estava em liberdade. (Por que será que mentem?) Isso obrigou meu irmão fazer uma declaração num jornal que tinha um espaço para esses casos, chamado "A Palavra do Leitor": "Doca Street está preso. Queira por fineza solicitar à sra... jornalista de sua equipe de reportagem retificação da informação falsa onde declara que meu irmão Raul Fernando Street (Doca) está em liberdade. Encontra-se o mesmo preso no presídio Viana Ferreira Neto, alameda São Boa Ventura, 763, Niterói. Luiz Carlos Street (São Paulo — SP)." 429 Na mesma coluna desse desabafo, veio um pedido de desculpas da jornalista. (O nome certo da

penitenciária é Vieira Ferreira Neto.) 7/12/1983. HA TANTOS BOATOS A RESPEITO DE PIRA DEPOIS QUE ELE conseguiu sua liberdade, que não dá para ter certeza de nada. O último é que ele está baleado, se restabelecendo depois de uma tentativa frustrada de retomar o comando do seu morro de origem. 11/12/1983. Hoje é domingo, e Marilena, como sempre, esteve aqui no "Sítio" desde as onze horas, e também, como sempre, papai veio às quatro. Estivemos passeando na horta e papai ficou impressionado como era bem tratada. Se impressionou também com o Celso ("faxina"), por sua boa figura e educação. Quando eles foram embora, e eu voltava para a galeria, encontrei o Celso na porta. Braços cruzados no peito, prestando muita atenção na movimentação dos internos. Como me encontrava com ele ali todo o final de visita, e sempre com a mesma postura, perguntei o que representava aquilo. Na hora ele me olhou desconfiado. Depois, caiu na gargalhada e disse: — Só você pode me fazer uma pergunta dessas. E me puxou mais para perto dele para não atrapalhar a visão e poder falar mais baixo. Enquanto olhava ia falando: — O meu negócio é emprestar dinheiro, e se eu não receber os atrasados, logo após as visitas, mais tarde eles gastam tudo, e eu vou ter de ficar bravo. Lidar com vagabundo não é fácil. 14/12/1983. Hoje mudamos a vigilância de sala, deu um trabalhão. Agora está instalada no mesmo prédio que a inspetoria. O senhor Manoel foi para outro setor, em outra unidade. 16/12/1983. Pela manhã, recebi a visita do filho do ex-presidente da Volkswagen, Axel Shulz Wenk. Além de ser dono de concessionária, é médico, assim conseguiu me ver por alguns minutos. Entregou-me um cheque e um recibo para assinar, referente à venda de uma pequena frota de veículos que fiz para a Fontoura White. Meu amigo e cliente Dirceu Fontoura tinha comprado alguns carros para a empresa e exigiu que a venda continuasse minha. E esse cavalheiro, proprietário da concessionária que entregaria os veículos no Rio de Janeiro, veio me fazer uma visita e me pagar. 430 Amanhã é sábado e tem a festa dos filhos dos presos, mais tarde terá o jantar para nossas famílias. Papai e Marilena estarão aqui me fazendo companhia. São meus heróis, como poderei agradecerlhes? Marilena vem de São Paulo e papai de Copacabana, mas com grande sacrifício, se apoiando em sua bengala, aos 81 anos de idade. O visitante constante é uma pessoa muito especial, vem cheio de pacotes, enfrenta uma fila, o mau humor dos guardas e às vezes o mau humor do visitado que, desesperançado por várias razões, não consegue naqueles momentos expressar sua gratidão, permanecendo "bicudo" durante o período da visita. 18/12/1983. Domingo, dezoito horas. Nessa hora Marilena já está a caminho de São Paulo. Por economia foi de ônibus, pois neste fim de ano serão muitas idas e vindas, fazer tudo de avião é uma paulada nas finanças de qualquer um. 23/12/1983. Sexta-feira, a lista dos que sairão já chegou da Vara de Execuções e está com o diretor. Amanhã, após uma conversa no auditório, esses presos poderão sair, mas terão de estar acompanhados por um membro da família. Estou assistindo ao show do Rei. Um pouco antes de começar, dois internos vieram se despedir, Raul e Reinaldo, me abraçaram e disseram: — Não fique triste. O seu dia vai chegar. Fiquei contente em ver a felicidade deles. Tenho bom relacionamento com os dois, são tranqüilos e estão a um passo da liberdade. Reinaldo é casado, tem família numerosa, esteve na Marinha. Na época de um conflito no canal de Suez, foi mandado para lá, para patrulhar a região. Era um cara certinho, mas quis comprar uma casa para a família e participou de um assalto a banco. Às vezes me

acompanha nas caminhadas pelo "Sítio". Como hoje à tarde por exemplo. Fiquei o tempo todo olhando o céu, que estava cheio de nuvens. Como sempre, o tempo piora quando a família está para chegar. Amanhã deverão me visitar Raul e mamãe. Marilena só vem no domingo, tem ceia no dia 24, com seus filhos. O show foi ótimo, só que as canções românticas me deixaram nostálgico. 26/12/1983. A família esteve aqui conforme o planejado e o tempo cooperou um pouco, não atrapalhando o tráfego de aviões que chegaram e partiram no horário, apesar das chuvas. 431 O Natal já foi, agora só faltam as festas de entrada do ano de 1984. Depois que os familiares saíram, fiquei sentado na minha cama, durante muito tempo, com lápis e papel na mão. Como não tinha nada de novo para registrar, apenas comentei com algumas linhas o ano de 1983: "Para quem gosta de viver perigosamente, 83 foi um ano daqueles. Passei por grandes apuros, acho que nem posso calculá-los, pois não dá para saber o que se passava na cabeça daquele pessoal, o que planejavam e o que poderiam preparar para mim, se fosse necessário. Devo ter passado por mais perigos do que percebi, mas estou aqui, no Sítio, a salvo. É uma penitenciária, mas o ambiente é completamente diferente, os perigos são outros e dá para se conservar fora de encrenca. Resignação e paciência são os conteúdos principais para ir saldando a dívida". Os internos que saíram tinham até nove horas da manhã de hoje para retornar, olhando os cubículos de minha galeria, não percebi ninguém faltando. Os dias vão passando, e todos que saíram estão eufóricos com a próxima saída do fim de ano. Menos os dois que não voltaram, porque foram pegos assaltando e estão trancados esperando mais uma condenação. Milton, que não tinha conseguido sair no Natal, agora sairá. Ficará hospedado em Teresópolis na casa de sua namorada ex-homem. Ele está radiante. Parece que anteriormente já esteve albergado, mas andou aprontando e voltou a ficar em presídios e penitenciárias. 30/12/1983. Como no dia 24, alguns dos internos que estavam saindo vieram me abraçar e desejar feliz Ano-Novo. Milton foi um deles, me abraçava e dizia: — Estarei com a criatura que amo, em seu palácio em Teresópolis. Raul, ao se despedir, estava em dúvida se voltaria ou não. Isso era praxe nos fins de ano, o camarada só deixava de voltar na segunda saída, para não começarem a procurá-lo antes. Eu estava bem, minha mulher ia entrar dentro de alguns minutos para passar o dia comigo e, mais tarde, participar de mais um jantar, oferecido pelo diretor. Para melhorar meu humor, tinha visita dia 31 e dia primeiro. De todo jeito valeu, Marilena e eu não olhamos para o diretor-geral nem para ninguém. Ficamos quietos num canto namorando. Aliás, acho que ninguém do lado dos internos prestou atenção nos diretores e 432 em seus discursos chatérrimos. Só ficamos chateados com a falta de respeito com os convidados, que chegaram às três e só entraram às cinco, tudo por pura política. 31/12/1983. Normalmente somos cem na galeria, e a esta hora, onze e meia da noite, já estamos trancados. Mas, hoje, somos apenas 48 e só a galeria está trancada. Todos estão tranqüilos com as portas abertas, mas sem nenhuma manifestação de euforia pela mudança de ano. Estou vendo TV e escrevendo estas linhas. Há pouco Gal apareceu em um show. Que maravilha, é um rouxinol. Pronto, 1984... saio do cubículo e cumprimento de longe o Celso, o Bigode, o Clodoaldo e outros. Vou até o cubículo do Orlandão, queria lhe desejar um bom ano, pois ele era sempre delicado, perguntando se estava tudo bem comigo, se alguém me incomodava. Era um anjo da guarda, só que na surdina. Não realizei meu intento, ele dormia.

quando entra na galeria.J1984 ESTAVA COMEÇANDO. Nem ele . Foi bandido da pesada porque nunca conheceu outra vida. 16/1/1984. é só o que se ouve. Seu 434 mundo só foi aquele. Ele tem aspecto de uma anta. SEGUNDO COMENTÁRIOS. parece uma geladeira. ele gostava. a partir daquele momento. seu tudo. 1/1/1984. Pelo que eu lera a respeito. estavam cheios de gente assim. e está morando no cubículo em frente ao meu. que logo no primeiro dia já foi ser "faxina" da cantina. Para isso teriam de arranjar um emprego. Adorava o Pira. era seu amigo. Hoje veio para o convívio. Fama. Quem quiser usá-lo como fêmea. dentro de poucos meses. não sei por que ainda me revolto com essas calúnias. traficante. É verdade que aquele é um pavilhão com duas galerias de solteiros. que é para acabar com ele de vez: Dois Cu. passar talco e ficar deitado nu em seu cubículo. 30/1/1984. Não estou completamente careta. Eu o chamava de Carradine. um camarada enorme. Esse. Às vezes fico muito tempo sem usá-los. para visitar os seus e tentar arrumar trabalho. bela fama. começava a achar melhor desistir de tentar anular o segundo julgamento. Mataram o Cuca. Ah! Fodam-se os que pensam assim. Estes. desde que chegou. De toxicômano e. Aqui do fundo do poço voltei a tê-los. Sei muito bem o que me espera quando estiver livre novamente.. uma criança. pelo que ouvi dizer. mas há ocasiões em que sinto que ofenderei quem me oferece e tenho de fazer jus à fama que tenho. segundo alguns jornais. Resolvi parar e. Ele vai para o pátio. nem o fundo do poço destrói sonhos. Há mais uma figura fora de série que também acabou de vir para o convívio. Os internos que saíram tinham de chegar até as 22 horas. Mas resta uma esperança. Derrubarem-me mais do que eu mesmo me derrubei é impossível. nada disso. Eles vinham chegando devagar. dou trombada com tóxico o tempo todo. Era único. por incrível que pareça. tem fila em sua porta. Já faz mais de um mês que parei de fumar. Não sei por que resolvi isso. poderiam ir para uma prisão aberta.. pararam também de me pedir cigarros no pátio. porque nos últimos dias do ano andei conversando com alguns internos que viviam nesse regime. Se não conseguissem ficariam por aqui e sairiam a cada quinze dias. Segundo me contaram. Na construção da piscina passamos por um momento muito engraçado. Quase todos. Já sabia tudo a respeito. como era carinhosamente tratado pelos parceiros. Evandro indignado durante o primeiro julgamento. e de alguns lugares gritam "Dois Cu". seu cão de guarda. sem o entusiasmo da hora da saída. por sua larga experiência no setor. quando ele enrolou o guarda escondendo o "bagulho" atrás da dentadura. com isso. mas este foi para o pavilhão 2. 25/1/1984. mas nunca entendeu por quê. É um português. Pior de tudo foi o apelido que lhe deram. que muitas vezes contesto se tenho direito. Não que eu ache que vencerei todas as batalhas como um espadachim de filme de capa e espada. A REFORMA DAS leis de execuções penais ou penitenciárias do ministro Abiáckel estava na reta de chegada. Tem uma característica no mínimo desconfortável: é antipatizado pela massa. Hoje tive uma notícia triste. Ficava na escada do pavilhão olhando o movimento para que o jogo continuasse tranqüilo. porque aqui dentro 433 é impossível. já que era difícil um ex-presidiário arranjar algo. seu diâmetro é razoável e sua altura não passa de 1m e 65. O mais extraordinário é que. Ele perguntava. mas causou sensação desde a primeira noite na galeria onde se encontra. ao contrário do outro. encarando os jurados: — Não é estranho que meu cliente seja acusado de traficante e nunca em todos estes anos tenha sido preso? Ele tinha toda a razão. ele gosta de tomar banho. Cucão. nunca fui preso nem como usuário. Os albergues. pois por bom comportamento e um sexto da pena poderia trabalhar fora e passar os fins de semana em família. Mas. que fique à vontade. é um cara simpático. Meus sonhos. seriam transferidos de qualquer jeito e teriam algumas horas por dia para procurar uma colocação. Isso me faz lembrar dr.

acabou vindo para cá um pessoal jovem e perigoso. É uma selva cercada e perigosa. Esqueleto foi hoje para o presídio Edgard Costa. aqui corriqueiros. ficam com uma postura que deixa os guardas desconfiados e acho que. Uma senhora gorda. Há poucos dias. vão dar uma "geral" daquelas acompanhadas da Polícia Militar. mas é preciso estar sempre muito atento. ela sempre traz bombons ou flores para as agentes. barca (Rio—Niterói) e o calor arrasador. quando não levam "carrinho". 4/2/1984. Conheço também as armadilhas naturais que acontecem nestes passeios. Até hoje não vi ninguém enfrentá-lo. todos os acusados são chamados à inspetoria e verificados. E continuando com a biografia de Carradine. Ele não toma conhecimento disso. ficam falando que vão se vingar. Esses fatos. A meu ver com razão. mas mantive o andar firme e. que já tinham enfrentado ônibus. pediu seguro por carta. embora no setor A não comentassem sobre isso. tornam os dias na sociedade carcerária cansativos. mas geralmente é causada por Milton. mas só uma revistava. Um camarada como ele até pode ser assim. tramam fugas. Os internos que ele acusa têm muito trabalho em desmanchar suas futricas com a administração e depois. um pacote do tamanho de uma caixa de sapatos veio voando por cima do muro. É um sujeito esquisito com o apelido de Esqueleto. Tenho telefonado para ele todos os dias e percebo mal-estar e . Com o número muito grande de transferências para prisões semi-abertas. até os policiais militares que estão nas guaritas já me cumprimentam. a qualquer momento. É importante andar para não ficar enferrujado. o velho artista. Estou muito preocupado com a saúde do papai. era a cara do Cuca. COM AS ÚLTIMAS TRANSFERÊNCIAS. Domingo passado. se colocou numa posição tão perigosa que acabou pedindo seguro de vida. Com isso. que só fez papéis de bandido. Quatro meses e meio no "Sítio" e dois Natais na cadeia. sem semáforos para avisar-nos quando podemos passar. Um dos que estava tramando mortes. Como não dá para peneirar essas informações. Pois é. inclusive o dele. ele é pai do ator que fazia até pouco tempo atrás o seriado Kung Fu. O AMBIENTE FICOU mais tranqüilo. Instituto Plácido Sá Carvalho. Tem muito tempo de cadeia e é muito sagaz. começaram a aparecer armados e houve até briga de faca. que. O chefe de segurança experiente resolveu a situação. por exemplo. Alguns dos novatos já chegaram tramando a morte de inimigos. depois que passei pelo pacote. De tanto caminhar em todas as direções. mas a gente se acostuma. direcionada ao diretor. Sempre há algum tipo de perturbação.nem os outros. em um faroeste memorável. Parece que a carta era longa e continha histórias que causaram mais de quinze "carrinhos". suada e cheia de pacotes que estava no fim da fila armou o maior barraco. Com o calor. fica dedurando a torto e a direito. o mau humor dos guardas é mais evidente e causa alguns problemas. diz que se garante e vai continuar com o dedo engessado. Bigode foi transferido para a prisão semi-aberta em Bangu. 6/2/1984. conheço cada palmo deste lugar. Às vezes até ficam trancados alguns dias. Fiquei assustado. 435 28/2/1984. Para não ficar mal com a massa. com medo do pessoal das falanges. para que a administração tenha certeza dos fatos. Caiu a um metro de mim. passando perto da pocilga. mais um passo e me acertaria em cheio. não olhei para trás embora percebesse a movimentação às minhas costas de pessoas que provavelmente esperavam escondidas na pocilga. brigaram com as agentes carcerárias. armar uma armadilha para ele não é fácil. 1/3/1984. pois esse era o nome de um artista americano que fez o papel do bandido que matou Jesse James. Saiu daqui com fama de colaborar com a direção. No último fim de semana não apareceu e para isso acontecer é porque esteve muito mal. Com Marilena nunca há problemas. quadrilheiro antigo e provavelmente com muitos inimigos. Milton vai se tornando odiado. pois eram onze funcionárias. A proximidade do Carnaval os deixa mais excitados. pondo mais quatro agentes para ajudar. as esposas e companheiras carregadas de pacotes.

sem notícias de Brasília. que procuraram cooperar para que tudo desse certo. pois entrou com o braço numa tipóia. que virá amanhã. achou que ia ser assaltada. Essa filmagem quebrou a rotina e trouxe um pouco de distração para os internos. Trocaram tiros com 437 guardas e PMS. foi liderada pelo Alton. Como foi que esse armamento entrou no setor B? 31/3/1984. preso recentemente. Os sons das poucas televisões da galeria estão mais altos que nas avenidas e salões. 5/4/1984. tinha acabado de receber o presente que mandei e se preparava para almoçar com as amigas. o tema é Marilena. fiquei sem meu pai. Uma das atrizes. Mataram dois na Lemos de Brito e com isso o pessoal da Falange Jacaré foi todo . Naquele dia. Mas. usando o pavilhão 1 para filmar cenas de uma rebelião e fuga de um presídio de mulheres. não entendeu nada. Estava assustado. todos sabem que voltar ao seu lugar de origem depois de muito tempo de ausência é sentença de morte. Segundo contaram. o diretor e sua secretária. ao descer do ônibus. e logo pela manhã nos falamos. que está virado para a porta. fez um acordo de paz no morro onde se encontra e vivia. com muitas dores. Como foi ajudada por umas pessoas que iam passando. Ao sair. A Frei Caneca sempre é um mar de surpresas para a administração. e acabou concordando. aproveitou para saber tudo sobre ela. Uns dias antes do Carnaval tive notícias de Pira. 436 É Carnaval. Houve uma tentativa de fuga que. o Jornal do Brasil de hoje informa que novas leis de execuções penais foram aprovadas ontem. 4/4/1984. mulheres se atiravam de cima do muro em cima de enormes caixas com colchões. Ficaria uns tempos com ela e meu irmão. quiseram me conhecer. 23/3/1984. Será que vão deixá-lo tranqüilo? É incompreensível. Enquanto escrevo ouço a folia na avenida e a dos internos que assistem em meu aparelho de TV. meu amigo e protetor. Batemos um papo muito simpático e recebi de presente um livro. Os presos aplaudiram muito. e os cubículos estão abertos o tempo todo. Já estava recuperado dos tiros que levou. parece que foram de raspão. Espero que nos próximos dias apareça tudo. não viu mais os assaltantes. Ela estava contente. as moças da equipe me apelidaram de "pavão misterioso". Marilena foi a primeira. Infelizmente. mas fazem isso. a reportagem não entra em detalhes sobre os benefícios. No dia anterior. Sábado. levei um grande susto. Escrevo no escuro por causa do calor. Dr. Hoje é aniversário de Marilena. artistas e técnicos de uma companhia cinematográfica. ontem e hoje. Estiveram aqui. quando foi me visitar. pois nunca tinha visto Marilena e. para melhorar a humanização no cumprimento das penas. Como depois do primeiro dia de filmagem me mantive afastado e assisti tudo à distância. O nome da rosa. May esteve aqui e me ajudou a convencer papai a ir para São Paulo se tratar. Ficou arrasado e no dia seguinte se despediu de mim chorando. para variar. As filmagens continuaram durante todo o dia de hoje. durante todo o tempo. Estavam bem armados e parece que Alton portava uma minimetralhadora. sua companheira me causou ótima impressão. Atendeu-a muito bem e um dia depois. O filme se chamará Feras em fuga. 14/3/1984. mas foram surpreendidos. 30/3/1984. resolveu sair correndo e caiu. Evandro esteve aqui. Os que não têm TV se aglomeram nas portas dos que têm e são os mais animados. segundo os boatos. em compensação. Domingo às onze horas em ponto as mulheres começaram a entrar. — Você tem sorte. o Filho do Polícia. Construíram túnel que dava na rua. 26/3/1984. Mais tarde jantará com os filhos e com Raul. me estendeu uma das mãos e colocou a outra em meu ombro tentando me consolar pelos atrasos do Supremo e a ausência de meu pai. substituindo papai. Março passou e. inclusive à noite. ele esteve muito mal. A dor foi mútua.dor em sua voz. quando ela apareceu em seu escritório.

enfim. É um rapaz negro. como fazia todas as tardes. a nova lei de execuções penais estava para sair e esse caminho me parecia o mais seguro. de ir para um terceiro julgamento e ter de voltar novamente. Amanhã é sexta-feira e terá parlatório. Nas crises entope o boi de seu cubículo e fica sentado com uma vara imaginária tentando pegar um peixe. nem recurso ou mais um julgamento.. 26/5/1984. mas. O avião passa. Durante o fim de semana só falamos do recurso. Um leve aceno de liberdade e a adrenalina vai ao máximo.. Saí em direção à horta. Durante o tempo que estiveram aqui fiquei o tempo todo de cara alegre e abraçado a eles. e muito gostoso de passear. Meu coração dói. Que bom. Passa os dias andando e falando sozinho. Evandro não ia cobrar a defesa que faria junto .. Se bem que. Nesses passeios era raro alguém se aproximar e. interrompi o que estava fazendo na vigilância e fui caminhar. Não era inveja. E. ficar sem a visita deles então. Chegaram muito cansados. Contaram que algum tempo atrás o estupraram lá pelos lados da pocilga.. Aquilo me mortificava. 438 No fundo.. fui andar pela horta e pensar no recurso que estava para ser julgado. Parei e fiquei vendo o avião se afastar. sem comentários. depois de um certo tempo. com a grana curta daqueles dias.transferido para a Ilha. Conhecendo-me como a palma da sua mão. Eu estava exultante e ao mesmo tempo com medo. Confesso que não entendo a administração. 16/4/84. duas passagens de avião. o "Maluco Beleza". eu abortava a caminhada. como é a liberdade. Tinha medo de ser posto em liberdade. mas acho incrível ele estar aqui. Dr. Hoje finalmente tive notícias de Brasília. Bom. ele esteve no manicômio duas vezes. Depois que cheguei no "Sítio". Mas naquela tarde eu estava especialmente triste e esperava um monomotor. Melhor ainda é que domingo tem novamente. bem tratado. falo com Marilena. O recurso será julgado em 5 de junho. de ser apenas um número. Mas. Não sei mais o que é a vida. Não é o único maluco por aqui. nem pensar. Ando tão piegas. A vida passa e eu também. Em tardes de vôlei. eu seria posto em liberdade no mesmo dia. seu nome é Fubá. O avião passa. como alguns o chamavam. O preso é assim mesmo. "As caminhadas de reflexão". o que me entristecia era a Páscoa. ouço o barulho da rua. Chegaram na rodoviária do Rio e pegaram outro ônibus para cá. só tinha vontade de ir também.. quero viver. Não sei qual é seu artigo. Tem um que é bem mais louco. Ele passou como sempre e eu senti todo o peso de não existir. 24/5/1984. não participar da euforia dos que iam passar com a família.. depois. Direitos adquiridos não têm volta.. nem sabia por onde estava caminhando. se o recurso fosse julgado a meu favor. Sempre que precisava de sossego ia para aquele lado. quase todos. Como demorou para se decidirem a julgá-lo. era um lugar agradável. É definitivo. quando me deu a notícia sobre Brasília. num túmulo de mortos vivos. foi logo dizendo: 439 — Não vá deixar de comer por causa disso. escrevo isso e choro por amá-los tanto e perceber o esforço que fazem para estar comigo. Marilena. nem como se vive lá fora. como as chamava. Marilena e Raul vieram passar esses dias comigo. Não acreditava que pudesse ser absolvido. A vida também. inofensivo e com olhar triste. saía um pouco antes da vigilância. Pensava nisso enquanto caminhava depois do expediente. Depois de receber essa notícia. falo com Marilena. ida e volta. Os que têm direito acabaram de sair. Sábado. todos sabem que lá é reduto da Falange Vermelha e é difícil o Comando Jacaré se criar ali. Marilena e Raul vieram de São Paulo de ônibus. No caminho encontrei o Macaca Fina. Essa mistura de pensamentos me acelerava a tal ponto que. que passava todos os dias na mesma hora. quando isso acontecia. passarão a Páscoa com suas famílias.

No fim de semana mamãe virá com Marilena. procurava me cansar. . Era um homem educado e atencioso. foi com ela. quando estou jogando esqueço de tudo. mas não atenderei seu pedido. o principal. ia começar uma "geral". entre eles. o que mais posso fazer? Tento me distrair lendo jornais e vendo TV. mas. Tenho saudades da minha cidade. Direi que vou pensar. Ele irá à Vara de Execuções e. dentro de alguns dias. Apesar de cinza e de seus rios poluídos. O alarme tocou e todos tivemos de voltar para os cubículos. com medo de não conseguir dormir. não pergunto isso a ninguém. Pouco tempo depois. num livro ou nos programas da TV. Quando escrevi contando a fuga. Evandro ao vivo. Fugiu com mais alguns. além de eu estar mais perto da família. Agora está na "surda" esperando sua transferência para Água Santa. Adriana. Escrevi sobre ele quando de sua fuga da Lemos de Brito. Jesus. rumo ao Rio e com a certeza de que passaria muito tempo sem voltar. Mas tínhamos de providenciar sua passagem e talvez a hospedagem. Dois internos morreram no período de uma semana. Esse é um que dificilmente voltará para a prisão. 3/6/1984. segundo pesquisas que andei fazendo. Segundo ela. Hoje. Marilena irá à Vara de Execuções. Cláudia e Adriana. só expectativa. Pinheiros e Tietê. Mataram o Mimo. não conseguia. 10/7/1984. onde esperará outro julgamento. Evandro o documento que deverá fazer parte do recurso. de espancamentos de presos para roubo de objetos pessoais e abuso do uso da "surda". Isso aconteceu há dois dias. saía arrastado da galeria um interno que cumpria sete anos por tráfico. Na delegacia não conseguiram que ele contasse como tinha recebido o "bagulho". Marilena morria de medo dele. a Lemos de Brito é notícia. Provavelmente foi o profissional do crime mais perigoso que conheci. Nunca caminhei tanto. esteve me visitando e contando todo o seu relacionamento com juizes e promotores de São Paulo. 28/5/1984. para contrariar. Depois que comecei a jogar vôlei duas vezes por semana.. por falta de atendimento médico. aquela cidade é muito especial. é importante que o juiz e os promotores comecem a conhecê-la e a acostumar-se com meus requerimentos reivindicativos. futura advogada. tentará me convencer a pedir minha transferência para São Paulo. Pedirá ao juiz que me deixe visitar papai no Dia dos Pais. Aliás.. Marilena fazia planos de ir a Brasília. Por mais que tentasse me concentrar no meu trabalho. gostava muito do padre. terei mais chances de conseguir a prisão semi-aberta. estava sempre na capela. Amanhã é o dia. aliás. Semana tensa. Ontem Fabinho Motta. queria assistir à defesa do dr. antecipei que morreria em sua casa ao atender à campainha. e seu filho Zé Maria. Nunca perguntei seu artigo. Estou conseguindo controlar meu estado de espírito. Nossos comentários eram animados. Seus prédios que parecem até um paliteiro. ou Manhoso. Marilena foi a Brasília levar para o dr. É por aqui que travarei minha luta. como também era conhecido. Há outras acusações: os internos acusam os guardas de roubo de alimentos. Foi levado para a 78 DP com cerca de oitenta "trouxinhas" de maconha. Comecei a me sentir bem-disposto e. Também. participo da brincadeira com alegria. Esperar o dia do julgamento e ficar supondo como será o resultado tomou conta de todos os meus pensamentos. 440 4/7/1984. Alguma prova talvez. 11/7/1984. Agora há pouco acordei pensando em São Paulo. Ele acha que lá. terá sua liberdade de volta. Como sempre. estou contente porque amanhã é sábado e estarão com ela suas duas filhas. Lembro tão bem do dia que saí de lá com Marilena do meu lado. Dizia que tinha olhos gelados. ganhei mais peso. advogado criminalista paulista. Fora isso. 1/6/1984. só mesmo se não lhe derem a menor oportunidade. as avenidas marginais sempre congestionadas. não pôde ver o documento por estar em um envelope fechado.aos ministros da Suprema Corte. Sabemos que não dará certo. Esta semana vou perder meu companheiro Baldaracci. não foi só isso. 4/6/1984.

prenderam. o Zé Maria. Por causa de seu sofrimento. tem de tudo. não poderei cumprir pena na minha cidade. Mesmo portando uma pistola calibre 45. Hoje pela manhã. Não tinha vontade de nada. Eu. para mim. . o tempo custa a passar. assassinado pela Polícia em Volta Redonda. O inspetor achou dentro do globo de luz. em Madureira. pois não tivemos a menor intenção de lhe dar conselhos. mais uma vez rezo e peço perdão. Raul e o filho dela. ele. e sempre sonhei passar uma boa parte 441 da vida entre Ipanema e Leblon. levei um susto que me deixou de pernas bambas. vários flagrantes de venda de tóxicos aconteceram. no desespero de ver que seu filho ainda corre grande risco." A reportagem termina com seu histórico como um dos líderes da Falange Vermelha. ele nem aceitaria. além de não serem poucos. mas quando tudo acabar. Irei viver lá. são os mais bonitos do país. que sempre esteve com a lâmpada queimada. Acho graça. para ela não restaram esperanças. Policiais da 28 DP. é melhor nem pensar num futuro próximo para não ficar mal.. no fundo da galeria. A quantidade de maconha a ser comercializada quadruplicou. em seu primeiro dia de convívio.. a vida noturna é insuperável. muita maconha. A boemia lá é deliciosa. Entre eles estava Zé Cigano. Mas. que fazia parte do grupo de Manhoso. apesar de não ser permitido acompanhantes em uns. ontem à tarde. Mais tarde. muito menos de escrever. O meu filho. lembro da mãe de Ângela. na quadra de futebol de salão. quando conversamos. não reagiu. chamavam-no de "verdugo". pronta para ser vendida. 442 1/9/1984. que bate em minha janela. Marilena está longe. Até isso é complicado para decidir. as mortes continuaram. provavelmente só de passagem. os jornais trouxeram ontem notícias sobre sua prisão. mas Zé está na UTI. bem debaixo de minha janela. 28/8/1984. 10/8/1984. Apesar de agnóstico. O que sei é que com a chegada deles a penitenciária ficou mais agitada. Marilena está desesperada. Ouço alguém festejando o gol que acabou de marcar aí. Sei por Raul que ela não sai do hospital. Como já escrevi antes. assaltante condenado a penas superiores a 150 anos de reclusão. os conhecia de vista do setor A e creio que não estiveram lá por muito tempo. batíamos paredão. dois foram para a delegacia com mais de cem balinhas (pa-cotinhos de pó). nem conseguia falar. Nas últimas 24 horas. Só voltei a fazê-lo porque aconteceram coisas que tinham de ser registradas. sofrendo muito. só chorava. Nestes últimos dias a cadeia mudou. pensando em Marilena. São quase dezesseis horas. e o boato era que os dois eram os executores.com toda a população trabalhando enlouquecida. mas porque o Sol. por ora não preciso decidir nada. andávamos pela penitenciária toda e sempre o vi gentil com todos. que fugira do instituto penal Lemos de Brito em 26 de abril de 1983. particularmente. não posso me queixar. foi uma festa. faz as grades refletirem no chão. que dormia no banco ao lado. Todos o temiam no setor A. tiveram um acidente na via Dutra. Bom. no seu sofrimento.. nesses dois bairros vizinhos que.. morro de pena e de saudades. porque amo o Sol e a praia. parecendo não querer que eu esqueça que estou preso. mas não por ouvir a manifestação de alegria. Quando nos encontramos na cantina. Andei muito deprimido. frenético e excitante. Depois de tantos boatos sobre a morte de Jesus. Quanto aos outros recém-chegados. para todos os gostos. "Polícia prende fugitivo do Lemos de Brito condenado a 150 anos de reclusão. Falou isso numa boa. eu e o Careca (eletricista) nos garantiu que ficaria calmo e estava apenas esperando os poucos meses que faltavam para acabar sua pena. não teve um arranhão. Estou deitado em meu cubículo. 21/8/1984. quando falei com Marilena. têm um ritmo diferente. depois que eles fugiram. voltando de um churrasco. Houve mortes na época em que ele e Lâmpada estiveram lá. Chegou um pessoal da pesada.

me dou conta de que passei a semana sem anotar nada. 5/10/1984. abate um de pena. Depois de duas semanas. Estamos entrando na Semana da Pátria. queria uma orientação. Depois de uns dez minutos de assédio. pois pelas minhas contas já podia requerer visita à família e até prisão semi-aberta. que às vezes vem aqui visitar seu primo. para saber notícias ouvi: — Nem que chova canivete faltarei no próximo fim de semana. Estava abatida. dá dois anos e seis meses. Ele tem planos de repetir o que fez no ano anterior. haverá um show com uma cantora famosa. lá de dentro. Isso queria dizer que seu filho estava melhor e que ela estava mais tranqüila. sexta-feira. mesmo sem o código novo. o diretor reuniu todos no auditório para coordenar os trabalhos. falando com ela. — Você deseja falar comigo? 444 Como respondi positivamente. fazendo força para conter uma gargalhada: — O vizinho veio reclamar que estavam tentando arrebentar o seu muro. dando uma ou outra orientação e se encaminhando para a saída. Hoje. Tiraram. e os internos com direito a visitar as famílias neste fim de fim de ano já começam a procurar o serviço social para se inteirarem sobre o requerimento a ser encaminhado à Vara de Execuções. tenho direito de visita à família. Ontem. Contando com o que cumpri da primeira vez. em pleno dia. mas em sua última visita confessou que não tinha como fazê-lo. que se encontrava a seu lado. olhou para mim. 24/9/1984. que acompanhava o grupo a curta distância. Poderá ser um requerimento contendo todos os nomes. A nova lei diz: a cada três dias de trabalho. Afinal. Fiz minhas contas e. Humberto tinha prometido se encarregar desse assunto e de cuidar de minha transferência para Magé. Estava contente. Não se sabe se foram dedados. avisou ao inspetor. pois o mínimo que podia . Ele parou na saída do auditório. Agora os três estão na "tranca" e vão responder a um processo por tentar destruir propriedade pública. ou se é verdade o que o inspetor contou. Quando acabou a reunião e todos saímos para o pátio. 28/9/1984. Eu fui atingido em cheio. o novo Código de Execuções Penais já está valendo e quase todos tiveram uma melhora na situação. uma marreta e imediatamente começaram a marretar o muro para tentar fazer um buraco. O astral aqui está em alta. completamente cercado pelos internos. porque já tinha cumprido seis meses em 1977 e desde aquela época sempre tive faxina. Agradeci e me afastei. principalmente os primários. que é grudado no da penitenciária. resolvi abordá-lo. ele ia conversando. Como estava muito tumultuado. Apesar de ter sido uma semana diferente. três internos encostaram o carrinho de limpeza (desses grandes com tampa) no muro que fica atrás do pavilhão onde estou. A lei de execuções diz: primário com bom comportamento pode começar a visitar 443 a família com um sexto da pena cumprida. Percebendo essa movimentação. o Alemão. fiquei de lado esperando uma oportunidade. com seus históricos. ou cada um faz o seu e o serviço social só encaminha. para me encaminhar a seu escritório após o almoço. Não era só eu que queria falar com o diretor. A administração está começando a pensar na festa de Natal dos filhos dos apenados. com ar cansado de tanto hospital. Mas hoje. Um jantar com um membro da família no Natal e outro no fim da tarde do último dia do ano para os internos que ficarão. Marilena entrou no domingo às onze horas. não era só a festa das crianças e a visita aos familiares. Eu só preciso saber por onde começar. José Maria não andou passando bem e Marilena não pôde vir. Outras comemorações farão parte dessa semana: um curto campeonato de futebol e palestras.5/9/1984. Ia respondendo por alto às perguntas.

Saí de lá e fui para meu cubículo. Passado algum tempo vi que ele me dava um copo de água. só parei de chorar muito tempo depois. 10/10/1984. me conservei calmo. me falou: — Eu mesmo vou pedir ao juiz a autorização para seu Natal e fim de ano em família. depois pegou minha ficha e sem ler seu conteúdo me perguntou. logo após o muro do lado esquerdo da penitenciária. 1m 76 de altura.. talvez uma pequena casa pré-fabricada encostada no enorme muro. Quando voltou. — É ali. Era um homem entre 35 e quarenta anos. você tem meia hora para contar tudo. Toda vez que lembrava das últimas palavras do diretor.. logo após uma rampa. Depois voltei para o enorme portão e. o policial da guarita me saudou. Era um fio de esperança misturado com emoções e lembranças que estavam escondidas. Quando terminei chorava muito e me desculpava. mas falou. — Não se preocupe. me chamou para um cafezinho enquanto ele não chegava.. chorava mais ainda. me levou até a porta e. com acenos de mãos. a briga. quando levantei os olhos. explicando que não conseguia me controlar quando imaginava o sofrimento e o desespero da família de Ângela. quinze minutos depois. Dava-me bem com a secretária do diretor e com uma das advogadas do Estado. Fiz isso envergonhado. olhando à direita. Às duas e quarenta e cinco. aquele escritório do meio. Ele não mostrava impaciência. o escritório do diretor e o dormitório dos guardas. E queria muito isso. muitas árvores e um pátio de terra batida com uma construção malfeita de madeira. Agora. Dei alguns passos para a frente para poder olhar melhor a rua e parei um instante para ver os carros e os pedestres.. a discussão. — Vamos.. mas eu nunca tinha ido aos escritórios externos. Não pôde me servir café porque o telefone tocou e ela desapareceu em uma saleta. a volta.. Sentou-se à sua mesa de trabalho e fez sinal para me sentar bem à sua frente. Descobri tempos depois que era ali que as visitas eram revistadas.acontecer era ver a rua. como foi que você matou a Ângela? 445 Apesar de me pegar desprevenido. Remexer no passado daquele jeito. quando se despediu. Ficou um minuto me estudando. Fiz a mesma coisa do lado esquerdo e. daqui a gente vê quando ele sai de casa. além de ver a rua. E fechou o portão às minhas costas. Novamente corriam boatos de que Pira tinha se ferido em um assalto e estava no sertão . Ele se levantou considerando a reunião terminada. Voltei ao dia 30 de dezembro de 1976 e narrei toda aquela manhã na praia. iria ter a oportunidade de discutir meus problemas com uma pessoa diretamente ligada à Vara de Execuções. Comecei contando a grande e repentina paixão que tive por Ângela e comentei que só mais tarde tinha compreendido o quanto eu era provinciano e despreparado para viver em sua companhia. o diretor entrou e me pôs em sua sala. os tiros e a fuga. me desculpando novamente. conta aí. do lado esquerdo o serviço social. o inspetor me chamou e abriu o portão. Isso me deixou ansioso. tinha mexido tanto comigo que novamente eu parecia estar fora do meu corpo. ambas iam muito à vigilância conversar com a gente. — Então. Voltei logo para a vigilância e fiquei esperando. A secretária do diretor. todos os fatos que se passaram depois que voltamos para casa. olhando-me assustado. a minha saída. nem almocei direito. acompanhei o muro com o olhar até encontrar a guarita. estava a rua.. Já tinham me explicado como era a vizinhança. Voltou para o seu lugar dizendo que imaginava meu sofrimento e ficou sentado. Do lado direito. largando a mulher que também amava e meu filho recém-nascido. esperando eu me recompor. com olhos atentos atrás dos óculos. Contei também a dor que sentia ao lembrar da maneira que saí de casa. A minha frente. como num confessionário. E me apontou para uma residência de bom tamanho. que assistia a tudo da porta do escritório. Demorei um pouco para me concentrar e começar a falar..

liberaram a "tranca" no dia seguinte e ficaram de olhos e ouvidos bem abertos. duraram mais de quatro horas. de armas e de falta de assistência médica nos presídios do Rio. Alegou que lhe tiraram um relógio. onde eles podiam criticar a Polícia. Já nem prestava atenção nessas histórias. onde se encontram as pocilgas. teríamos de soltar muitos presos para cederem seus lugares a "senhores" bem mais perigosos. limpo e seguro. que. é melhor nem enveredar por assuntos que envolvem a sociedade. pois a história se espalhou e todos puseram a maior "pilha" (pressão) no assaltado. depois de confirmarem tantas v