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E-BOOK BP EDUCAÇÃO LITERÁRIA


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CURSO
“EDUCAÇÃO LITERÁRIA”
COM PROFESSOR CLÍSTENES FERNANDES

AULA 06 - SINOPSE

O Gênesis é uma obra diferente de todas as demais vistas no curso. Quais

conhecimentos podemos extrair dele? Como aquele “como se fosse”

quando corpo nesta obra? Por que essas histórias são essenciais e deve-

mos ler literatura? Esses são alguns dos temas desta aula.

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

Ao final desta aula, espera-se que você saiba: o que significa “Gênesis”;

quais as duas grandes diferenças do Gênesis em relação às outras obras

que tratam do mesmo tema; por que a Bíblia pode ser considerada

antropocêntrica; qual o trabalho de Adão; qual a importância dessas

histórias; por que é importante ler os clássicos; por que temos que ler

literatura.

BONS ESTUDOS!
INTRODUÇÃO

Sejam bem-vindos à última aula do nosso curso de formação literária.

Normalmente, na mesa, eu tinha comigo alguns livros, que seriam citados

ao longo de nosso encontro. Hoje, na verdade, eu esqueci de trazer o livro

sobre o qual vamos falar, mas estou respaldado pelo nosso maior poeta, na

boca de Vasco da Gama. Quando Vasco da Gama chega em Moçambique, o

chefe da ilha lhe pergunta “Cadê o livro da tua lei?”. Vasco da Gama também

não tem esse livro, pois não trazia consigo uma Bíblia, e disse: “Eu tenho

uma boa desculpa, porque eu não preciso trazer escrito o que deve andar

no coração”. E hoje vamos falar do livro do Gênesis, primeiro livro da Bíblia,

dentro dessa nossa perspectiva de formação literária. E eu posso dizer que

não trouxe uma Bíblia, mas tenho a desculpa de que isso tem que andar no

coração e não no papel.

E assim é, não só com este livro no caso, mas com todos os nossos

livros preferidos. É bom termos aquela lista de cerca de dez títulos que tem

que andar conosco no nosso coração. Nós nunca acreditamos em alguém

que diz: “Eu li um livro, é muito bom, mas eu não me lembro mais como

é. Eu lembro que na época eu gostei”. Então você não gostou, senão teria

relido e realmente o trarias no próprio coração. E assim é com a literatura,

eu quero ter como me lembrar de tudo aquilo que eu pensei enquanto lia. E

se realmente gostamos de um filme, até hoje, é capaz de nós comprarmos

o DVD para o termos na estante, como um troféu, como uma presa de javali

que nós caçamos na floresta.

E assim é com o livro. Eu já conheci pessoas que compravam mais

de uma unidade de um mesmo livro. Um, para emprestar, e o outro, para

ter ali. Afinal, emprestar livro é sempre complicado. Raramente os livros são

devolvidos. Raramente nós nos lembramos para quem nós emprestamos

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e, quando nos lembramos, a pessoa costuma dizer “Ih, já passei adiante,

emprestei para um amigo. Fala com ele”. É mais ou menos assim que a

coisa funciona.

2. GÊNESIS

Gênesis significa “a origem”. Em hebraico, bereshit significa “no

princípio”, porque é a primeira palavra que aparece na versão grega. Ele

fala justamente desse princípio de todas as coisas. No encontro anterior,

já falamos sobre Hesíodo e Ovídio, que narram também esse princípio de

toda a estrutura do cosmos, de toda a realidade visível e invisível.

2.1. A VERSÃO HEBRAICA DO SURGIMENTO

E Gênesis é a versão hebraica. Hesíodo fala da versão grega dos fatos.

No entanto, sua versão não é puramente grega, porque os gregos sofreram

influência dos egípcios, dos mesopotâmicos e de alguns outros povos. E

mesmo os gregos são um amálgama de povos diferentes, como os jônicos

e os dóricos. A versão hebraica também sofre muita influência de povos

mais antigos da Mesopotâmia e do Egito, mas há duas diferenças muito


grandes dessa versão em relação às outras.

Se nós formos para a China, também existem esses mitos e essas

histórias de como tudo surgiu. Em qualquer tribo indígena, também temos

essas histórias de como surgiu o céu e a terra. Ou seja, as realidades invisíveis

do céu e as realidades visíveis da Terra. O céu atua como um símbolo de

tudo aquilo que não pode ser visto, que está distante, que não pode ser

tocado. Nós não conseguimos chegar até as estrelas, enquanto as coisas

visíveis, temos como tocá-las e entendê-las com os próprios sentidos. Todo

mundo tem uma explicação para isso.

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2.2. A VERSÃO ATUAL DO SURGIMENTO

Hoje em dia, nós temos uma, o Big Ben. É uma boa explicação. Talvez

daqui a mil anos, as pessoas leiam a teoria do Big Ben com um fim literário,

pensando “Olha só que interessante o que se pensava no século XX - XXI

sobre a origem de todas as coisas”. Pode ser que isso aconteça.

O sistema de Ptolomeu, geocentrista, era ciência, era a conclusão

máxima a que se podia chegar sobre o movimento dos planetas com os

recursos disponíveis na época. E a conclusão máxima a que podemos

chegar hoje em dia são essas. Talvez seja o Big Ben, mas isso vai mudar.

No entanto, algo fica e esse algo é o processo todo. A criatividade do

homem, a engenhosidade, a inteligência, a imaginação postas em

prática e no papel pela sua vontade. Isso aí fica muito. Com certeza, são

textos que permanecerão para sempre.

A teoria da evolução é algo que vai permanecer para sempre na

história da humanidade. Provavelmente, daqui a mil, dois mil anos, as pes-

soas vão olhar para essas teorias com o mesmo espanto com que olhamos

para o Gênesis, para Ovídio e para Hesíodo, para a ideia de que, no princípio,

era o caos. Esse espanto vai existir dentro dos estudos clássicos.

Hoje em dia, temos especialistas em Grécia Antiga, especialistas em

História da Roma Antiga. Com certeza, no futuro, existirá um especialista

do século XX ou do século XXI que vai olhar para esses textos, para toda a

nossa ciência, para a física quântica e não sei mais o que, com o mesmo

espanto. “Olha só que interessante, o pessoal na época movia as suas vidas

através dessa compreensão do cosmos”. E nós também temos certeza de

que, daqui a mil anos, ainda vão olhar com o mesmo interesse para Hesíodo,

para Ovídio, que distam de nós cerca de dois, três mil anos.

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2.3. AS DIFERENÇAS DO GÊNESIS

Eu disse que há duas diferenças no Gênesis. A primeira diferença é

que o autor daquele texto afirma que foi Deus quem lhe contou aquela

história, foi Deus quem lhe explicou aquilo tudo. Eu conheço a história

e sei que os textos são atribuídos a Moisés. Moisés declara conhecer a

história do mundo, que aprendeu com seu povo, os hebreus. Os hebreus

apresentam as suas genealogias. Nós sabemos que Abraão gerou Isaac e

este tem um filho, que é Jacó, o qual passa a ser chamado de Israel. Israel

tem doze filhos e esses todos vão para o Egito. Moisés sabe que é por conta

dessa história que seu povo estava no Egito. Quando escreveu, Moisés já

havia levado o povo para fora do Egito. Moisés tem essa cultura hebraica,

no entanto, adquire-a quando já é adulto, porque, até ser um jovem adulto,

viveu no meio dos egípcios e sua cultura era egípcia. Ele tinha toda uma

cosmovisão, uma ciência e uma sabedoria egípcias, que adquiriu dentro da

corte do Faraó, onde cresceu.

Moisés escreve aquilo tudo como sendo revelado. “Os homens sabem

das coisas, mas aqui estou dando a versão diretamente de Deus”. Isso

ninguém teria a arrogância de dizer. Nenhum poeta tem essa arrogância.

Ovídio, Virgílio, Homero, Camões contam que quem lhes diz as coisas é a

musa. Eles dizem que são as musas que lhes sopram no ouvido.

Realmente, para todos que escrevem, existe algo de inexplicável

quando conseguimos escrever dois versos bem escritos. Argumentamos

dizendo: “Eu só apliquei a técnica. Eu aprendi, vi como se fazia, imitei um

autor e isso saiu”. É verdade que nós também fazemos isso. Existe esse

esforço, esse processo rastreável na escrita de um texto. Contudo, existe algo

ali que não sabemos muito bem, é uma luz que nos vem e com a qual até nos

surpreendemos. “Opa, terminei o texto e não é que ficou legal. Da onde que

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me veio essa ideia de contar essa história ou de expressar essa impressão?

Como isso foi possível?”. Isso todo mundo percebe ainda hoje. Todos nós

podemos fazer essa experiência. Por mais que tenhamos técnica, há algo

que podemos chamar de inspiração. Inspiração, nós sabemos o que é. Nós

inspiramos o ar e também inspiramos alguma outra coisa que é espiritual,

que é essa musa.

2.4. O COMO SE FOSSE BÍBLICO

E Moisés afirma que não tem musa, não tem nada, que é o próprio

Deus, o Criador de todo o universo, que no princípio criou o céu e a terra,

que está falando com ele. Moisés começa a explicar que, no princípio, Deus

criou o céu e a terra. Nisso, já é diferente de todos os outros. Por quê? Porque,

em todos os outros textos, os autores afirmam que, no princípio, era alguma

coisa, estava ali alguma coisa. E Moisés diz que no princípio só tem Deus. E

antes de Deus? Não existe antes, porque não há nada além de Deus.

Isso já é bastante difícil de ser entendido. Sempre pensamos que

tem que haver algo antes. Para Aristóteles, por exemplo, na verdade, o

universo sempre existiu, é eterno. Não é que seja infinito, é eterno, pois

não tem começo. Mas na Bíblia está dito. Hoje em dia, a ciência diz que

Aristóteles estava errado, mas não há como dizer que a Bíblia também. Por

quê? Porque, por mais que tenha havido o Big Ben - que, inclusive, é uma

teoria de um padre -, não conseguimos explicar por que este ocorreu. Por

que houve o Big Ben? Alguém pode responder que foi o acaso, mas nós

nunca conseguimos enxergar o acaso em nada. Se eu deixar essa xícara

aqui em cima da mesa, ela vai ficar aqui. Não vai acontecer nada que não

seja explicável, que não tenha uma causa. E essa busca pelas causas, todos

nós temos. Nós queremos saber por quê. O homem naturalmente quer

saber por quê, ele está sempre a se perguntar pelas causas e entende

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que existe uma causa primeira. Aristóteles afirma que existe uma causa

primeira, a qual faz tudo se mover. Para ele, o universo é uma coisa estática,

mas existe uma causa que faz com que se mova, uma vez que vemos o

movimento.

Moisés diz que, no princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra estava

vazia, não havia nada, só havia o abismo. Ficamos nos questionando: “Como

assim, não havia nada, mas havia o abismo?”. Nós sabemos o que é um

abismo. Todo mundo já esteve numa montanha e já viu um abismo, um

despenhadeiro. Isso não é nada, isso é alguma coisa. Mas, lembremos

sempre que a literatura trata de como se fosse. Qual é a palavra que eu

posso usar para nada? Nada é uma palavra muito difícil. É só uma palavra,

porque não apresenta nenhum referente.

Uma palavra é o símbolo de alguma coisa. A palavra “xícara” é um

referente do objeto xícara. Existe a coisa e existe a palavra com a qual a

simbolizo. Se eu retirar todas as xícaras presentes aqui na mesa e falar

“xícara”, todo mundo sabe o que é uma xícara. E quando eu vejo uma xícara

de outro formato, eu também sei que é uma xícara, não precisa ser exata-

mente esta que está aqui. Até mesmo a criança, quando aprende a palavra

“xícara”, usa-a tanto para uma xícara vermelha pequena, quanto para uma

azul muito grande. Como ela associou uma coisa à outra? Porque existe

ali uma essência que faz da xícara uma xícara. A xícara apresenta alça. Se

não a possui, já não é uma xícara, é um copo. E a criança já aprende isso.

Se fizermos uma xícara de papel, a criança vai dizer “xícara de papel”, ela já

diferencia as coisas. Todos nós fazemos isso.

O nada é só uma palavra. Como é o nada? É tipo um abismo. É vazio,

mas não é que seja vazio. E se é a Terra, não pode ser nada. Neste ponto,

começam a surgir as dificuldades na leitura de um texto desse, porque nós

tentamos tratar isso com recursos da lógica, que é uma ciência desenvolvida

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na Grécia Antiga em 300 a.C., que está realmente na nossa inteligência. Nós

todos raciocinamos com lógica naturalmente, uns mais, outros menos, con-

forme vamos nos aprofundando no estudo dessa arte específica. De todo

modo, nós tentamos aplicar a um texto escrito, vamos dizer, por volta de 2

mil a.C. - pois não sei quando foi escrito exatamente, ninguém sabe direito

-, critérios de interpretação de hoje, quando é difícil até encontrar nesse

texto uma palavra…. Como se diz “nada” em hebraico antigo, do Antigo Tes-

tamento? Não existe essa palavra. Essa palavra é muito filosófica. As línguas

mais simples, as línguas de povos mais primitivos, no sentido estrito, não

apresentam uma palavra para nada. Eles dizem “buraco”, “rasgo”, “abismo”,

“vazio”, mas “nada” é uma palavra extremamente filosófica. Nihil em latim.

Ali, há um abismo. Como se fosse um abismo, como se fosse um vazio,

mas Deus cria o Céu e a Terra. Tudo que é visível e invisível já está criado no

primeiro dia. E Deus começa a separar um pouco as coisas. Deus vai criar a

luz. Sobre isso, pensamos: “Beleza, Deus criou a luz. Nós sabemos o que é a

luz, a luz tem uma causa sempre. A luz do sol, a luz das lâmpadas”. No outro

dia, Deus criou o Sol e a Lua.

E essa parte nos causa estranhamento, pois como Deus pode ter

criado a luz antes do Sol? Deus criou algo como se fosse a luz. E quem rec-

lama disso, falando coisas como “Como assim? Ele não criou a luz”. Deus

pode ter criado o entendimento das coisas, que nós também chamamos

de luz. Nós não dizemos: “Tive uma luz”? E nós falamos “Eu estava com uma

dúvida, mas daí eu tive uma luz e resolvi o problema”. “Entendimento” é

uma palavra muito filosófica e muito difícil de ser compreendida. Em um

desenho animado, quando um personagem tem uma ideia, inserimos uma

lâmpada ao lado da cabeça dele.

Por quê? Porque continuamos sendo pessoas assim como Moisés

era. Nós podemos entender a luz como o entendimento, a cognição. Para

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expressar essa ideia, podemos usar todas as palavras que quisermos, de

cunho mais filosófico ou científico, mas a melhor de todas é “luz”. É a mais

bela e a que mais explica. Como se fosse uma luz.

E a partir do momento que Deus cria a luz, começa a enxergar tudo.

O próprio Deus enxerga - e isso é curioso -, ele cria o entendimento das

coisas. E aí começa a separar a água da terra e forma os continentes. E as

águas de cima do céu também. Pensamos: “Não tem água em cima do

céu”. No entanto, se chove, é porque tem água no céu. A nuvem é uma

abertura no grande domo que existe em cima do céu.

“Ah, então eles eram terraplanistas”. Não importa. Pode ser o que

quiser. Em princípio, é terraplanismo, mas eu não preciso ser terraplan-

ista para entender o Gênesis ou mesmo crer no Gênesis. E pouco importa

também. A questão é que a leitura deste texto já é um exercício psicológico

e um exercício cultural, um exercício de cultivo da alma, e é para isso

que estudamos literatura. A literatura serve para eu pensar: “Como é a luz?

Que bendita luz é essa que foi criada?”. No encontro anterior, comentamos

da luz e da humildade, como a luz faz com que nós vejamos todas as coisas.

Na ausência da luz, nós não enxergamos. Por outro lado, nós não conse-

guimos ver a fonte da luz, assim como nós vemos toda a Criação, mas não

conseguimos ver o Criador. O Criador é como uma luz, é o que dá sentido

à existência de todas as coisas. E a pessoa pergunta: “Mas por que eu não

consigo vê-Lo?”. Você consegue ver o Sol? Você consegue ver as coisas ilu-

minadas pelo Sol. Eu posso colocar um óculos muito escuro para tentar

ver o Sol. Em 1994, houve um eclipse total do Sol. Eu lembro que pegamos

várias radiografias - algo que não sei se ainda existe - para conseguir olhar

para o Sol. Só que já não é mais o Sol, é outra coisa. Há algo no meio entre

os teus olhos e o Sol. Diretamente, nós não conseguimos olhá-lo.

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2.5. O NÚMERO SETE

Deus, depois de criar o Céu e a Terra, cria algo que dê luz e ilumine,

como é o Sol. Como Deus cria o Sol e a Lua, começam a existir o dia e a noite

e, a partir deste momento, o tempo pode ser contado. Novamente, a pessoa

pode interpor: “Mas já não havia passado quatro dias quando Deus criou o

Sol e a Lua? Como eram dias antes? É impossível tudo ter sido criado em

sete dias”. Esquece. Começa a ver na tua vida quanto tempo você demora

para começar um projeto e terminá-lo.

Por que a semana tem sete dias? Normalmente, quem tem empresa

sabe que é importante terminar as coisas até sexta-feira ou até os sábados,

se o expediente for de seis dias. Começar na quarta-feira e terminar na terça-

feira da próxima semana é muito ruim. No meio, há um domingo. E mesmo

se não fosse assim, usamos muito bem a semana e os meses, que são esse

conjunto de quatro semanas, um pouquinho mais, para fazer qualquer coisa.

Uma ou duas semanas é um bom período. Agora, uma semana e meia, dez

dias, é um período meio quebrado. Vemos que, com dez dias, já não nos

organizamos. Os dias são bons sendo sete. Por que são sete dias? Porque

se você olhar bem para realidade, vai perceber que precisamos de sete dias

para cumprir uma tarefa bem-feita, ou de sete horas, que são as sete horas

de trabalho mesmo. Quando dividimos o tempo em sete, acabamos por

conseguir fazer as coisas bem. Se existe uma explicação científica para isso,

eu não sei. É uma explicação empírica. E é assim que a literatura funciona.

Vemos que são sete anões, sete pecados e sete virtudes e que, depois,

com o cristianismo, a Igreja dirá que são sete sacramentos. “Para quê? Isso

é cabalístico, é mágica”. O pessoal usa o sete como se tivesse um poder

específico. Não, porque a vida espiritual, que é a vida dos sacramentos, é

como se fosse a nossa vida humana mesmo. Ou nós não precisamos de

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sete coisas? Para existir, nós precisamos nascer (1) e por isso precisamos

ser batizados (1), que é nascer espiritualmente. Nós precisamos comer (2)

e é por isso que existe um sacramento que alimenta, que é a eucaristia (2),

a comunhão. Nós precisamos crescer (3) também, não adianta só nascer.

Esse crescimento é o sacramento da confirmação (3), do Crisma, que é o

sacramento da maturidade espiritual. Nós também precisamos tomar

banho (4), nos higienizarmos. Se desde que nascermos, não tomarmos

banho, quantos dias duraremos? Não sei, espero que nunca tenham feito

essa pesquisa. Mas todo mundo percebe naturalmente que é importante se

lavar, até os animais percebem isso, e o homem não é diferente enquanto

um ser corpóreo. E aí existe o sacramento da penitência (4), eu vou lá tomar

um banho, vou me limpar, deixo tudo para trás. Nós também precisamos

aprender as coisas (5), porque senão não aprendo nem a andar. Se sou lar-

gado como um bebê, eu não faço nada, eu morro. Eu não vou completar

o fim da minha vida, o fim da minha existência. Se eu preciso aprender,

eu preciso de alguém que me ensine. Na vida, são os pais. Os pais são nat-

uralmente responsáveis por ensinar. Para isso, existe um sacramento que

transforma alguém em pai. Este é o sacramento da ordem (5), senão não há

condições de existir vida espiritual. É alguém que me dá comida, é alguém

que me dá banho. Eu também preciso me reproduzir. Isso é um fim natural

de qualquer ser vivo. Qualquer ser vivo se reproduz. É um fim da espécie

em si, não do indivíduo. Todos nós, enquanto espécie, percebemos que é

preciso reproduzir. E aí nós temos o sacramento do matrimônio (6). Por fim,

nós precisamos morrer (7). Para isso, existe o sacramento da extrema unção

(7).

Em geral, nós precisamos de algo além dessas sete coisas? Não, esse

é o básico. Podemos acrescentar que precisamos trabalhar para isso tudo.

É verdade, mas são todas coisas que vão servir a estas. Nós trabalhamos,

temos lazer, arte, cultura, tudo para servir a isto. A coisa é assim porque

é assim. Nós vemos que existem sete necessidades do homem, há sete

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momentos da Criação para, por fim, criar o homem, para estar tudo pronto

para quando o homem chegue.

2.6. O ANTROPOCENTRISMO

Isso é impressionante e também não existe em nenhuma outra

cultura. Falo desse antropocentrismo. O pessoal afirma que a sociedade

era muito teocêntrica até a Renascença e que, a partir desse momento,

passou a ser antropocêntrica, que apresentava o centro em Deus e, depois

desta, passou a ter o centro no homem. Eu digo que o Gênesis é a coisa

mais antropocêntrica que existe em toda a Antiguidade e, na verdade, até

hoje. O Gênesis não está dizendo que o homem é importante. Hoje em dia,

somos plantacêntricos, entre outros. Já esquecemos do homem, e de Deus

também. Colocamos qualquer porcaria como o nosso centro. Vale qualquer

coisa. Mas esse livro, comparado com os outros de que falamos aqui,

antigos também, é o único que afirma que o universo inteiro foi criado,

não só a terra, para, por fim, pegar um pouco de barro, ou seja, da própria

matéria dali, e fazer um sujeito. O homem, em qualquer outra cultura, é

um ser que foi jogado como qualquer outro, sem talento nenhum. Nós até

comentamos sobre isso. O homem não pode dormir sob sua própria pele,

não tem unhas afiadas para se defender, não tem pressas na boca, anda na

mata e se arranha todo, sangra, é supersensível, não pode ficar no sol porque

se queima, não pode ficar no frio porque tem hipotermia. Vai viver como

assim? Podia viver porque o universo criado era perfeito para o homem

viver solto, mesmo sendo tão sensível. Essa é a explicação que está dada

no Gênesis. Deus vai criando os animais aquáticos, as árvores frutíferas, cria

os animais terrestres e, por fim, o homem. E o engraçado é que a teoria

da evolução é bem bíblica. Charles Darwin era cristão. Os seres da terra,

os seres vivos, estão na ordem de sua complexidade. Primeiros as plantas,

depois os peixes, depois os animais terrestres, os répteis, os mamíferos e,

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depois, o homem. É meio parecido.

2.7. O TRABALHO DE ADÃO

O homem estava pronto no Paraíso e tinha que trabalhar. Não era

viver uma vida largado, de bicho-grilo. O homem tem que trabalhar e o

ofício que Deus lhe ordena é de poeta, de escritor. Deus diz “Tens que dar

nome às coisas”. Nós falávamos outro dia que podemos dar nome às coisas,

mas é preciso contar histórias inteiras para criar uma palavra. Para uma

palavra nova, é preciso um contexto todo. Não adianta fazer uma lista

de vocabulário. Ou seja, quem cria a língua é o poeta. Comentamos que

Camões é o pai do português. Se não há um poeta no início, alguém com

extrema habilidade literária, não temos uma língua, não conseguimos

nos expressar e aí esquece a ciência, a engenharia, a matemática, o que

for. Primeiro tem que ter poesia, caso contrário, não há sociedade, não

há civilização. E é justamente isso que Deus manda Adão fazer. Deus diz a

Adão que existem todas aquelas coisas, mas nada tem nome. Por isso, Adão

deve dar nome a elas. Adão está só.

E é interessante que um poeta sem uma musa inspiradora não vai

para frente. Dante tinha Beatriz. Quando Beatriz faleceu, Dante ainda era

muito jovem. Ele só a viu uma vez. No entanto, ela se torna uma referência

fixa de beleza e virtude para Dante, na qual sempre pode se inspirar para

escrever. Não é uma inspiração de desejo carnal, nem nada disso.

Adão estava ali cantando, dando nome às coisas, mas a vida estava

dura, ele não estava muito inspirado. Para melhorar o trabalho de Adão,

Deus faz com que durma e dele tira uma costela, da qual faz Eva. Isha. Esse

é um problema nas traduções. Na tradução, às vezes perdemos alguma

coisa. Não tem problema ler a tradução, mas perde-se alguma coisa. Em

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português, está escrito que Eva será chamada mulher porque foi tirada do

homem. Essa frase não faz sentido nenhum. No original, está escrito que

será chamada isha porque foi retirada do ish. E há toda uma simbologia

no nome de Adão e Eva, na qual não iremos adentrar. Eva e Adão estão no

Paraíso e existe o mandamento “Crescei e multiplicai-vos”. Eles precisam se

multiplicar, assim como as aves do céu. Portanto, institui-se o matrimônio.

“Vocês dois já são uma só carne. Agora, enchei a face da terra de outros

homens”.

Adão e Eva estavam livres, mas só existe liberdade quando há algo

que não se pode fazer. Liberdade não é poder fazer tudo. Liberdade é ter a

possibilidade de fazer aquilo que é proibido. Se não há nada de proibido,

não há liberdade. Hoje em dia, há várias coisas proibidas. Há todo um código

de ética. Nós mesmos estamos sempre lutando para saber o que é o certo

e o que é o errado a fazer. Para Adão e Eva, era bem mais fácil. Eles só não

podiam fazer uma coisa: comer da Árvore da Ciência do Bem e do Mal.

Os dois estavam bem. Adão estava cantando, dando nome para as

coisas, tendo uma relação com a natureza muito mais próxima, conse-

guindo se comunicar com os animais. Não que os animais tivessem alguma

coisa para dizer para o homem, mas o homem os entendia. Hoje em dia,

se queremos entender um gato, precisamos estudar toda a anatomia dele,

seu comportamento, dentre outras coisas. Adão olhava para o gato e via sua

essência mesma. É diferente.

E então, há esse diálogo com a serpente. A serpente é o demônio?

Olha, suponhamos assim: você tem que falar sobre o demônio e ele é

invisível. As coisas visíveis são os animais e as plantas. Qual animal, planta

ou pedra você vai utilizar para dizer que alguém vai ali e faz uma maldade?

Normalmente, é a cobra, até porque, para alguém que está escrevendo o

texto, não foi revelado palavra por palavra. A ideia de revelação profética,

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assim como Moisés fez, não é revelada palavra por palavra. Ele tem a ideia

geral em si e precisa agora fazer que nem Adão e criar uma história para

aquela realidade que viu, que é espiritual e invisível. Ele entendeu, ele

recebeu sua luz, mas não adianta nada luz, agora tem que ter técnica para

escrever um texto literário.

Às vezes, temos um sentimento, uma angústia específica e quer-

emos expressar a nossa angústia. Para isso, nós contamos uma história que

a explica. Não adianta escrever “Eu senti angústia”. Isso não é uma história

e ninguém entende o que é angústia a partir de uma frase como essa. Por

exemplo: “Eu estou angustiado”. Como é estar angustiado? Você tem que

explicar que estar angustiado é uma espécie de aperto no peito, em que

não se tem tranquilidade. Essa é uma explicação, mas também há várias

outras e eu posso criar uma história inteira para isso.

E não é uma serpente que vamos usar para dizer que algo é mau?

Não foi só Moisés que escreveu Gênesis assim. Os dragões estão em todas

as histórias antigas e até mesmo nas modernas. Na mitologia nórdica,

também há o dragão que mora numa caverna e é preciso vencê-lo para

se apossar do ouro dos nibelungos. Assim é a coisa. Em toda a literatura,

vemos que o uso de cobras e dragões para representar o mal é bastante

comum. O dragão nada mais é do que um réptil disforme, uma criatura

meio fantástica, imaginária, mas, mesmo para que a imaginemos, temos

que nos referir a alguma coisa que realmente existe, nós não conseguimos

criar nada 100% novo. Nós juntamos, nós fazemos quimeras. A quimera é um

ser mitológico cujas partes são de diferentes animais. Nós misturamos para

criar algo aterrador, mas isso não é 100% novo. Tente inventar algo do nada,

sem se basear em nada que existe, que seja visível. Nós não conseguimos.

Moisés tinha que falar dessa influência de um espírito maligno que

fez com que o homem desobedecesse, que tentou o homem. Mas o homem

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continuou sendo livre. A serpente não ameaçou a mulher dizendo “Se você

não comer isso, se você não desobedecer a Deus, eu acabo com vcê”. Até

porque, se fosse assim, não seria um pecado, porque ela estaria ameaçada.

Teria sido legítima defesa. Foi uma mentira. A cobra disse: “Deus disse que

vocês iriam morrer se comessem desse fruto, mas vocês não vão, Ele só não

quer que vocês fiquem sabendo das coisas assim como Ele sabe”. Eva ficou

interessada: “Opa, saber das coisas. Eu vou lá”. E assim Eva acaba comendo

o fruto proibido.

Por quê? Porque o homem quer, por natureza, saber. Essa é a Árvore

da Ciência, a Árvore da Sabedoria. E saber é saber aquilo que é bom e aquilo

que é privado de bem, que é o mal. Eva foi lá, pegou o fruto e o comeu. E

depois o deu para Adão. Eles se escondem, porque estavam nus. Isso é nat-

ural. Começam a fazer parte da própria natureza de uma forma mais íntima.

Antes disso, enquanto conseguiam entender a natureza, não precisavam

nem de roupas. Agora, sua natureza fica mais animalizada, porque já têm

medo. Eles ficam com medo porque estão nus. E Deus pergunta, como

quem não soubesse: “Mas como você sabe que estava nu? Por acaso você

comeu a fruta que eu tinha proibido?”. E Adão respondeu: “Foi a mulher

que você me deu que me fez comer o fruto”. Pronto, até ali estava tudo

bem. A primeira reação é sentir medo, mentir, acusar os outros e cometer

todos os pecados.

Levará vários milênios até Moisés resolver como se livrar dos pecados.

Moisés afirma que, para se livrar dos pecados, é só fazer dez coisas. Ele faz o

manual de instruções, assim como é o manual de um eletrodoméstico. Nós

falaremos disso daqui a pouco.

Adão começa a mentir: “Foi a mulher que você me deu que fez”. E

Deus pergunta à mulher: “E por que, mulher, você comeu o fruto e deste

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para o teu marido?”. Eva responde que foi a serpente. E assim vai, como se

dissesse “Eu nem tive muita escolha”.

2.8. OS QUESTIONAMENTOS

A primeira coisa é questionar: nós faríamos diferente? Não, ninguém

faria diferente. “Mas eles eram seres superiores a nós, eles não tinham feito

nada de mal, tudo da vida deles era bom. Tinha uma árvore de bacon,

podiam pegar bacon das árvores. Era uma vida maravilhosa, paradisíaca e

agora eles decaem disso, decaem desse estado paradisíaco”. E nós vemos:

eu realmente faria isso. Se tivesse uma coisa só que eu não pudesse fazer,

eu faria essa coisa.

Se alguém fizesse a seguinte proposta para você: durante trinta

anos, você tem que bater três vezes na madeira todos os dias e, no final

desse período, eu vou te dar quinze milhões de reais. Eu digo, vai ter um dia

que você não vai fazer. Você vai esquecer ou vai pensar: “Quer saber, eu já

nem acredito mais que vou receber o dinheiro”. Custa bater três vezes na

madeira? Não custa, mas trinta anos é muito tempo e nós não aguentamos.

É só isso, é só bater na madeira, o resto da tua vida você vive normalmente

e faz o que quiser, mas só vai ganhar os trinta milhões se bater três vezes na

madeira. Ninguém consegue. Ninguém consegue. Todos os dias? Não dá.

Imagina que tormento seria este. Imagine ter que se lembrar. A pessoa fala

“Eu ponho no celular uma notinha. Vai dar certo”. Sim, agora vai dar certo.

E daqui a três anos? Você vai pensar: “Meu Deus do céu, olha que loucura

estou fazendo. Eu fico aqui batendo na madeira todos os dias. Como eu vou

saber se é verdade ou não?”. Sim, mas não custa nada, está tudo bem. Se

você não ganhar, você não perdeu tempo nenhum, não aconteceu nada, a

sua vida foi normal. Mas vamos ficar loucos com uma coisa dessa. Se temos

que fazer, vamos simplesmente enlouquecer.

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E essa é a questão. A questão é: você pode fazer tudo que quiser,

mas para que você seja realmente livre, você não pode comer da árvore. O

que você quer fazer? Você quer comer da árvore. Pronto. A vida é assim. E

quando nós lemos, e aí que está a importância de lermos uma história

como essa, vemos que somos daquele modo também. E todo mundo é.

Uns mais, outros menos. Aquilo ali não está falando só de uma história da

carochinha, ou melhor, é uma história da carochinha e nós precisamos dela

para sobreviver. Aquilo nos abre a alma. Aquilo nos cultiva a alma. Se

você acredita em Deus ou não, é outra questão. Se o sujeito vai, por causa

disso, não ler a Bíblia, está cometendo um erro. Eu não acredito em Zeus,

mas eu estou a vida toda lendo Homero e Hesíodo. Não passa dois meses

sem que eu não pegue de novo esses livros e os releia.

Por quê? Porque é importantíssimo. Aquilo ali é o que a humani-

dade inteira viu como o único método de cultivar algo que não vejo, que

é o meu próprio espírito, a minha própria mente. É a leitura desses textos.

Eu posso pegar a Bíblia e ler ou eu posso simplesmente rememorar as

histórias. Eu posso pegar e ler só um trecho. Eu só acho que não vale muito

a pena abrir a esmo, porque você pode cair no meio do Levítico, em que são

transmitidas regras de liturgia, e aquilo não vai fazer sentido nenhum, pois

você não terá o contexto específico daquilo que está lendo.

2.9. ALGUMAS HISTÓRIAS

O mais interessante é que mesmo no Gênesis, e o resto do Antigo

Testamento todo vai ser assim, encontramos diversas passagens em que

temos vários gêneros literários. Nós temos comédia dentro do Gênesis,

nós temos tragédia, nós temos epopeias. Tudo está ali. Se nós nos acos-

tumarmos a concretizar, a memorizar mesmo a narrativa, vemos que

qualquer outra história se encaixa naqueles formatos, naqueles arquétipos

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que encontramos ali.

Por exemplo, uma comédia. Abraão se casa com Sara e, quando Isaac

ainda não tinha nascido, eles vão para o Egito. O Egito é o lugar mais rico

e poderoso da época. Durante milênios, foi o centro econômico e cultural

de toda Antiguidade. Abraão, que é um sujeito muito rico, vai para lá fazer

negócios. Abraão sempre foi rico. Ele possuía um rebanho e alguns escravos.

Na época, isso era muito. Vê aquela parábola do jovem rico e pesquisa: o

que seria considerado um jovem rico? Sei lá, se o cara tivesse um cavalo, um

camelo e cinco vacas era riquíssimo. É mais ou menos isso. Abraão é rico,

tanto que vai ser recebido na casa do próprio faraó, porque, quando a pessoa

viajava, procurava alguém da sua mesma classe social e econômica para se

hospedar. Hotéis só foram existir após o surgimento do cristianismo. Criam

casas para peregrinos, hospitais e tudo mais. Só que as viagens de negócio

já aconteciam. Abraão vai para o Egito e fica na casa do faraó. Abraão pede

a Sara que se apresente como sua irmã, porque, como era muito bonita,

temeu que o matassem para ficar com ela. Abraão e Sara chegam lá e,

como é realmente muito bonita, o faraó diz que a quer para uma de suas

esposas. O faraó se casa com Sara e Abraão está apavorado, sem saber o

que fazer. Mas Deus castiga o faraó, porque pegou a mulher de Abraão. E o

faraó fica desesperado e acaba descobrindo que Sara é esposa de Abraão.

E ele vai cobrá-lo: “Abraão, como você não me disse que Sara é sua esposa?

Agora estou sendo castigado pelo teu Deus. Vá embora do Egito. Leve ouro,

leve um monte de presentes para aplacar a ira do teu Deus, mas vá embora

com a sua esposa”. No fim, fica tudo bem e Abraão sai dessa história mais

rico ainda. Ele não pede que Sara seduza o faraó, não aconteceu nada disso.

Abraão tinha um plano que não deu certo e, em princípio, ele não sabia o

que fazer.

E assim são todas as comédias. Até hoje, até um filme de comédia

é assim. Não estou falando só de comédia do teatro antigo. Se pegamos

“Comédia dos Erros” de Shakespeare ou as comédias de Plauto, a estru-

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tura é sempre essa. Há uma situação x, que normalmente é um plano. Este

plano não dá certo, mas, no fim, o resultado é melhor do que o próprio

plano. Comédia não quer dizer que é engraçado, que eu fico rindo. Comédia

é uma história que tem um final inesperado e feliz. “A Divina Comédia” é

justamente isso, é uma história com final feliz. Enquanto a tragédia tem um

final trágico. Comédia não é o que hoje nós entendemos por isso. Stand-up

até pode ser um show de comédia, pois, como não tem outra palavra, nós

usamos essa. Mas comédia significa isso, uma história com final feliz.

Isso é um pequeno trecho do Gênesis, não é nem um capítulo. Nós

também temos a história de José, o mais nove dos doze filhos de Jacó. José

fica sempre em casa, não sai para trabalhar com os irmãos. A mãe pede

que chame os irmãos para almoçar e ele faz isso. Ele chega para os irmãos

e diz: “Eu tive um sonho”. E aí o pessoal debocha: “Lá vem o sonhador”. José

era todo sonhador e contador de histórias, meio poeta. É sempre o cara que

se ferra. E ele conta: “Eu sonhei que estava ali como um rei e vocês todos

vinham e me adoravam, prostravam-se aos meus joelhos”. O que você faz

com um irmãozinho desses? Pegaram-no e o jogaram em um buraco.

Depois, tiram-no do buraco e o venderam para os esmaelitas, que então o

venderam como escravo para o Egito.

A história é bem demorada, mas, com a sua inteligência, José acaba

se tornando o administrador, o secretário da fazenda do Egito. Ele é a pessoa

mais importante depois do faraó. O faraó é meio decorativo, é José quem

governa mesmo o Egito. E quando os seus irmãos e o seu povo inteiro estão

para morrer de fome por causa da estiagem, ele os recebe no Egito. José

ainda faz uns testes para ver se estão arrependidos do que fizeram com ele,

mas depois os recebe e salva todo o seu povo, no Egito, que é uma terra de

fartura e abundância. Da mesma forma que hoje um refugiado pega sua

família e leva para um país rico e seguro. É a mesma situação. Essa comédia

também é algo que acontece tão frequentemente. E nós temos a referência

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disso em outras histórias e na história política de vários povos. Ali nós temos

esse arquétipo, essa forma da arche, a forma do princípio, do berishit, que

vai se reproduzir, assim como se repete na própria literatura, durante toda

a história dos povos. Essa coisa de imigração acaba se reproduzindo. E nós

sempre temos aquela referência ali da própria história de José.

Aqui, estamos falando da Bíblia como obra literária. Para aqueles

que tiverem fé, é preciso lê-la das duas formas, como uma leitura espiritual

mesmo, mas também nunca esquecer que é uma obra literária. Hoje, nós

temos um pouco de preconceito, dizemos coisas como: “Um crente chato

que fica citando a Bíblia”, e não lemos a Bíblia porque não queremos ser

uma pessoa chata que fica a citando. Nós temos que acabar com esse pre-

conceito. Se nós citássemos Homero, todo mundo acharia que a gente é

culto e não que é chato. O sujeito não lê a Bíblia e quer ser culto, sendo que

é a principal obra da nossa cultura. Nós temos que conhecer todas aquelas

narrativas ali, não tem jeito.

O mais interessante é que a comédia que tem na vida de Abraão,

que se repete tantas vezes em outras comédias, até hoje, se alguém quiser

contar uma história com final feliz, vai ser mais ou menos essa a narração

que vai criar. No entanto, na Bíblia, chega a parecer que é forçação de barra,

porque, quando nasce Jesus, um sujeito chamado José sonha - José son-

hando, eu me lembro disso - que tem que ir para o Egito para poder salvar

o menino que nasceu. E ele vai. Ele levanta, pega sua mulher e vai para o

Egito. Isso parece a história do outro José.

Há quem pense: “Com certeza, os evangelistas copiaram a outra”.

Dá mais trabalho tentar fazer isso. Tente inventar uma nova história. Pode

ter o código da Vinci, aqueles homens que se esforçam para inventar uma

história baseada em elementos bíblicos, mas seria a primeira vez que isso

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teria acontecido dentro da Antiguidade. Um publicitário, que quer inventar

uma história baseada na anterior para tentar convencer as pessoas, para

que possa anunciar “Veja só, está acontecendo o que aconteceu no Antigo

Testamento”. E por que o sujeito demorou tantos séculos para inventar essa

história? Mas enfim, mesmo que eu não acredite, que ache tudo aquilo

literário, publicitário, tenho que reconhecer que são grandes publicitários,

pois conseguiram criar o Novo Testamento fazendo com que tudo aquilo

que o Antigo dizia acontecesse. Fazendo com que o que aconteceu com

um povo inteiro, acontecesse na vida de um homem. Alguém consegue

criar uma história. Porque todo ele vai ter essas referências. E se a Bíblia é

assim, se conseguimos ler o Antigo e o Novo Testamento e ir encontrando

essas referências… e não é uma referência assim, como está lá no Evangelho

de São Mateus de: isso aconteceu porque o profeta Isaías tinha dito que iria

acontecer. Não, não são só referências assim. É referência deste tipo: nós

temos o José que vai para o Egito salvar a família e nós temos, mais de milê-

nios depois, um outro José que vai para o Egito para salvar a família. Nós

temos um menino que é posto dentro de um buraco e que sai do buraco e

vai para o Egito. Onde Jesus nasceu? Nasceu no buraco em que guardavam

as cabras e os animais.

2.10. OS DESTINOS POSSÍVEIS

E nós vemos que o resto da literatura inteira é assim. Há certos des-

tinos possíveis, humanos, que estão expressos na literatura. Às vezes,

eles são comédias, às vezes, são tragédias, às vezes, são epopeias, viagens

como a de Ulisses ou de Eneias, ou como as de Paulo ou de Pedro. Alguns

apóstolos, quase todos, têm um fim trágico. Outras, como a mãe de Jesus,

têm um fim apoteótico, glorioso. E assim a coisa vai. Nós vemos que existem

essas possibilidades na vida. E a literatura é aquilo que, diferentemente

da história, aponta: não foi assim, mas é possível que seja, é possível que

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tenha sido ou é possível que isso ainda aconteça. “Não é possível que exista

Zeus”. Poderia ser, mas é como se fosse, é possível que seja. Se nós não

baixarmos um pouco da nossa necessidade de entender as coisas como

ciência exata e absoluta, não vamos conseguir entender, porque não

vamos ter linguagem formada, nós não vamos ter a imaginação for-

mada e a imaginação formada é que nos dá, primeiro, a possibilidade.

Por exemplo: “Talvez, se eu calcular certinho, eu chegue a uma conclusão

sobre esse problema da física, porque pode ser que a conclusão seja tal,

ou tal, ou tal, ou tal”. Só o cálculo me dirá. Eu estou imaginando. Eu vou lá,

emprego toda a minha vontade, baseado naquilo que eu imaginei, e uso

a minha inteligência para calcular e chegar a uma resposta. Mas se esse

primeiro passo, a imaginação, não estiver bem treinado, através da imitação

de outros imaginadores, como são os poetas e os escritores, eu nunca vou

conseguir chegar mais adiante. E é por isso que nós temos que ler literatura.

Não adianta nós ficarmos tentando inventar a roda lá no final, chegarmos no

topo do conhecimento científico exato e preciso, se não tivermos a capaci-

dade de educar essa outra potência da nossa alma, que é a imaginação.

Dito isso, termino esse nosso curso de formação literária. Muito obrigado

a todos. Saibam que estou sempre acessível nas redes sociais para ajudar

todos aqueles que eu puder e que realmente quiserem.

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