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XIII Semana de Extensão, Pesquisa e Pós-Graduação - SEPesq

Centro Universitário Ritter dos Reis

A grande reportagem multimidia e seu funcionamento linguístico-discursivo

Mariana Giacomini Botta1

1. Introdução
A grande reportagem multimídia é um dos gêneros jornalísticos nativos da internet.
Desenvolvida a partir de 2012, é considerada o formato ideal para o jornalismo na era
digital, no qual o internauta pode ter papel ativo, rearrumando as peças da narrativa de
acordo com seus interesses e desejos. Suas principais características são a composição
não linear, que permite diversos percursos de leitura, e a convergência de mídias, com
textos, áudio, fotos, infográficos, animação e vídeos usados de modo complementar para
contar uma história.
Trata-se de um produto mais bem cuidado que os demais conteúdos jornalísticos on-
line e envolve em sua produção diversos profissionais, com habilidades diferentes (texto,
vídeo, animação etc.). Por isso, traz prestígio para o veículo e é visto como uma ferramenta
para atrair e fidelizar o público familiarizado com a internet.
A primeira iniciativa neste gênero foi publicada no site do jornal The New York Times,
em dezembro de 2012. Trata-se do especial Snow Fall (http://nyti.ms/2wnVfbH), que conta,
de forma inovadora, o desenrolar de uma avalanche de neve no estado de Washington
(Estados Unidos), em fevereiro de 2012, que causou a morte de três dos 16 atletas
profissionais que praticavam snowboard nas encostas nevadas do vale Tunnel Creek. Neste
especial, a tragédia foi reconstituída por meio de uma narrativa multimídia, usando recursos
de áudio, vídeo, texto e animações, publicada. Em 2013, a reportagem ganhou o prêmio
Pullitzer e passou a ser considerada um modelo para a produção de conteúdo informativo
multimídia.
Atualmente, a classificação dos gêneros midiáticos, entre eles os jornalísticos, no
âmbito das pesquisas em comunicação social costuma ser motivo de polêmica, pois não há
um acordo sobre quais critérios devem ser considerados. Por isso, a taxonomia dos
gêneros jornalísticos adotada no Brasil reflete um consenso corporativo, é resultado de “um
sistema de organização do trabalho cotidiano [...], a partir das formas de expressão
adotadas nas empresas” (MARQUES DE MELO, 2003b, p.11 apud MARQUES DE MELO,
2016, p.49).
Essa forma de classificação costuma levar em consideração a função e as demandas
sociais, ou seja, a “promessa de conteúdo, ou de uma possibilidade de conteúdo, uma
espécie de contrato previamente acordado entre emissor e receptor” (TEMER, 2009, p.180-

1Doutora em Linguística e Língua Portuguesa (UNESP) e em Ciências da Linguagem (Université Sorbonne


Nouvelle), Professora do PPG Letras UniRitter, Endereço eletrônico: mariana_botta@uniritter.edu.br

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181). Desta forma, os gêneros jornalísticos costumam ser divididos em: (a) informativo; (b)
opinativo; (c) interpretativo; (d) diversional e (e) utilitário.
Para Marques de Melo (2003, p. 66), os gêneros que integram a categoria jornalismo
informativo são nota, notícia, reportagem e entrevista. A distinção entre os três primeiros
estaria na progressão dos acontecimentos e no acompanhamento da imprensa: na nota é
apresentado o relato de acontecimentos ainda em desenvolvimento; na notícia é oferecido
um relato integral de um fato; na reportagem é feito um relato ampliado de um
acontecimento, que já repercutiu na sociedade.
Para este autor, a chamada grande reportagem (ou dossiê) integra a categoria
jornalismo interpretativo, e tem a finalidade de compor um dossiê, o mais completo possível,
sobre um tema ou acontecimento. Ela é de natureza analítica e não visa a apenas informar
objetivamente a população sobre um acontecimento de repercussão, mas propõe fornecer
contextualização e análises de especialistas para ajudar as pessoas a conhecer um assunto
ou fato em profundidade. “É o material jornalístico que pretende familiarizar o leitor com um
fato determinado e procura detalhar ao máximo para apresentar a informação completa”
(CORDENONSSI; MARQUES DE MELO, 2008, p. 4). Transposição e adaptação da grande
reportagem para o suporte digital, a grande reportagem multimídia tem sido um dos
investimentos do portal UOL, que desde outubro de 2014 publica semanalmente um dossiê
multimídia na seção TAB (tab.uol.com.br).
De acordo com matéria publicada no portal no dia do lançamento da nova seção, a
ideia do TAB é trazer “reportagens inéditas, aprofundadas, provocadoras e de alta
qualidade”. Rodrigo Flores, diretor de conteúdo do UOL, disse, naquela época, que o TAB
traria “novos pontos de vista e abordagem sobre temas como sustentabilidade, mobilidade,
consumo, comportamento e tecnologia”. Ele afirmou também que a ideia era aumentar o
diálogo com o público jovem, que busca experiências variadas ao acessar um conteúdo e
tem hábitos de navegação diferentes do usuário tradicional.
O corpus dessa pesquisa é composto por 67 reportagens on-line, publicadas na
seção UOL TAB (https://tab.uol.com.br), entre 13 de outubro de 2014 a 14 de abril de 2016.
Para as análises linguísticas foram consideradas apenas as dez primeiras produções desta
série. O objetivo desse trabalho é observar e analisar o funcionamento linguístico-discursivo
deste gênero, a partir do que está inscrito na materialidade da sequência discursiva.

2. Metodologia

Neste trabalho, utiliza-se como base para as análises a concepção de gêneros do


discurso de Bakhtin (1997, p. 279), que os define como formas relativamente estáveis de
enunciados, que refletem as condições específicas e as finalidades de cada uma das
esferas da atividade humana, não só por seu conteúdo (temático) e por seu estilo verbal
(seleção operada nos recursos da língua — lexicais, fraseológicos e gramaticais), mas
também por sua construção composicional.

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Segundo Moirand (2007, p. 93), os elementos considerados fundamentais por


Bakhtin para a delimitação e identificação dos gêneros correspondem mais à concepção de
texto que de discurso. Por isso, essa autora afirma que o estudo dos gêneros deve ser
realizado a partir de um modelo dialógico, que coloque a enunciação no centro da
constituição dos gêneros, e a intertextualidade no centro do esquema da comunicação.
Para ela, no estudo dos gêneros é preciso relacionar o que é interno (a estrutura do
enunciado) ao seu exterior (o contexto extraverbal). Dentre os elementos observáveis da
análise estão as recorrências, repetições, reformulações de palavras, construções sintáticas
e maneiras de dizer.
O método proposto por Moirand se apoia em formas linguísticas (pronominais e
lexicais) e semióticas (iconografia), pois a ideia é explicar os funcionamentos discursivos a
partir do que está inscrito na materialidade da sequência discursiva. Partindo das ideias
dessa autora, a metodologia deste trabalho consiste em cinco etapas: 1. Elaboração do
corpus; 2. Verificação dos temas mais frequentes nas reportagens; 3. Observação da
estrutura das reportagens (elementos textuais e multimídia); 4. Identificação dos elementos
linguísticos e discursivos recorrentes nas reportagens, nos títulos, subtítulos e linha-fina; 5.
Levantamento de características que delimitam o novo gênero do discurso (apenas nos
títulos, subtítulos e linha-fina).

3. Resultados e Discussão

Das 67 reportagens on-line que compõem o corpus dessa pesquisa, 23 têm como
tema questões sociais, como feminismo e preconceito, por exemplo. Tecnologia e inovação
são o segundo tema mais presente, em 14 reportagens, seguidos por comportamento (10) e
carreira e trabalho (10), e um pouco menos frequente é sexualidade, gênero,
relacionamentos. A seleção dos temas revela, além da tentativa de adequação ao perfil do
público-alvo das reportagens, o que o site entende como sendo assunto de interesse desse
público.
Quanto à estrutura, em todas as reportagens, sem exceção, aparecem, além do
texto, vídeos e fotos, em forma de galerias. Elementos bastante comuns são testes,
videoanimações, enquetes, infográficos (com e sem animação) e arquivos de aúdio. Em
menor número, também encontram-se games, quadrinhos, álbum com ilustrações ou
infográficos e frases destacadas (olho) com animação. Sobre os recursos multimídia mais
utilizados (fotos e vídeos), percebe-se que são aqueles com os quais os jornalistas têm
mais familiaridade, que demandam menos planejamento e que ilustram o conteúdo
satisfatoriamente.
A análise linguística foi realizada a partir de um recorte do corpus, sendo
consideradas as dez primeiras reportagens publicadas na seção TAB. No que diz respeito
aos títulos das reportagens, observa-se uma tendência à subjetividade, em oposição à
objetividade linguística característica do jornalismo tradicional. Ela é marcada pelo uso da

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palavra você ou de algum pronome de 2ª pessoa em 40% dos títulos, numa referência
direta ao interlocutor, propriedade antes típica da linguagem publicitária.
Além disso, é interessante notar a recorrência no uso de frases da cultura pop, como
pode ser visto em:
(a) Me dê motivos – (Subtítulo da reportagem Correr pra quê? https://tab.uol.com.br/corrida-
de-rua/) => música do Tim Maia
(b) Sabe de nada, inocente – (subtítulo da reportagem Quem manda aqui? -
https://tab.uol.com.br/inconsciente/) => propaganda do site Bom Negócio
(c) O DNA revela seu infinito particular (subtítulo da reportagem Código temperamental -
https://tab.uol.com.br/dna/) => Canção de Marisa Monte
(d) Elas só querem se divertir (título de reportagem sobre o feminismo -
https://tab.uol.com.br/feminismo/) => canção Girls Just Wanna Have Fun, de Cyndi Lauper;
o subtítulo é: Liberdade, igualdade, fraternidade
Também são frequentes frases que ficaram famosas na internet (usadas em virais ou
memes), como:
(a) Quer que eu desenhe? (título de reportagem sobre Emojis - https://tab.uol.com.br/emoji/)
(b) Partiu parto (título de reportagem sobre tipos de parto - https://tab.uol.com.br/parto/)
(c) No brain, no gain (subtítulo de reportagem sobre as vantagens da vinda de estrangeiros
para o Brasil - https://tab.uol.com.br/brasil-estrangeiro/)

4. Conclusões

A análise aqui apresentada revela alguns aspectos ligados ao funcionamento


linguístico-discursivo da grande reportagem multimídia, vistos por meio de conteúdos
publicados na seção UOL TAB, do portal UOL. Mesmo sem ser exaustiva, ela revela
características importantes desse gênero nativo digital, que mostram mudanças
relacionadas com o novo suporte e com a busca pela conquista do público da internet.
No que diz respeito à seleção dos temas das reportagens, percebe-se o esforço de
adequação aos interesses do público-alvo das reportagens, ou ao que o site julga como
sendo prioridade para esse público. Sobre a utilização de recursos multimídia, os mais
usados são fotos e vídeos, aqueles com os quais os jornalistas têm mais familiaridade e que
demandam menos planejamento e investimento.
Estratégia da linguagem publicitária, o uso da segunda pessoa em 40% dos títulos
revela uma característica não apenas da grande reportagem multimídia, mas do jornalismo
on-line, que “precisa” atrair o leitor, que tem muitas opções de leitura na internet. Já a
utilização da primeira pessoa, mostra uma tentativa de aproximação com o leitor, visando
fidelizá-lo.
A intertextualidade, marcada nas referências a elementos da cultura pop e a outros
conteúdos que circulam na internet, sobretudo nas redes sociais também parece ligada a
uma estratégia para conquistar o leitor: as referências relacionam-se ao público-alvo

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idealizado pelo veículo, e esse compartilhamento de um saber comum causa efeito de


reconhecimento.
Pode-se, portanto, afirma que a grande reportagem multimídia, encontrada na série
TAB, do portal UOL difere das grandes reportagens tradicionais não apenas pela
convergência de mídias: tanto a seleção dos temas, quanto a linguagem utilizada visam
atrair o interesse de um público jovem, com acesso à educação e à tecnologia. Os
elementos intertextuais visam criar efeito de identificação desse público com o conteúdo,
por meio do compartilhamento de referências culturais.

5. Palavras-chave

Gêneros discursivos; Gênero discursivo digital; Reportagem multimídia; Análise dialógica.

Referências bibliográficas

ASSIS, F. Fundamentos para a compreensão dos gêneros jornalísticos. In: Alceu. Rio de
Janeiro: PUC-Rio, 2010, v. 11 (jul./dez.), n. 21, p. 16 a 33. Disponível em:
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CORDENONSSI, A. M.; MARQUES DE MELO, J. Jornalismo interpretativo: os formatos nas


revistas Veja e Época. In: Resumos do XIII Congresso de Ciências da Comunicação na
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Comunicação). São Paulo, 2008. Disponível em:
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Consulta em 20 ago 2017.

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classificatório. In: Intercom – RBCC. São Paulo, 2016 (jan./abr.), v.39, n.1, p.39-56.
Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/interc/v39n1/1809-5844-interc-39-1-0039.pdf>.
Consulta em 2 ago 2017.

MOIRAND, S. Le dialogisme, entre problématiques énonciatives et théories discursives. In:


Cahiers de praxématique. Aspects du dialogisme. Montpellier: Presses universitaires de la
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PUF, 2007.

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