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BIODIVERSIDADE

ELIDA SÉGUIN1

Nasci em Belém do Pará. Desde a mais tenra idade tomei açaí


pelo seu sabor. Esta fruta agora foi "descoberta" como um produto de
grande poder alimentício, indicado como coadjuvante para tratamento da
anemia. Ainda como paraense, sempre conheci as propriedades curativas
do óleo da copaíba, hodiernamente incorporado à farmacopéia
internacional como descobrimento inovador. Alguns conhecimentos
tradicionais estão se perdendo em nome da modernidade. Não pude
amamentar minha filha por problemas de saúde. Posteriormente uma
doméstica que trabalhava em minha casa teve um filho e incentivei-a a
amamentar. Ela se recusava dizendo que filho de rico tomava leite em pó
só os de pobre tinham que ser tratados como mamíferos. Teoricamente a
conservação e utilização sustentável dos recursos naturais só pode trazer
vantagens, vez que não está descartada a possibilidade de destruir algo que
amanhã pode ser a cura para uma doença fatal, trata-se de mais um desafio
que o Direito Ambiental apresenta a presente geração em benefício das que
virão.

A educação ambiental é importante instrumento de preservação


da biodiversidade, bem como a participação da coletividade nesta luta.
Valoriza-se a diversidade biológica como alavanca para o desenvolvimento
dos conhecimentos humanos e também por que todas as formas de vida. A
observação dos fenômenos naturais foi a forma inicial de aprendizado do
Homem, gerando uma cumplicidade para a utilização dos recursos naturais
- um contrato natural.

Como ensina Antonio Carlos Robert Moraes:

“Na verdade, o relacionamento do homem com seu ambiente é


equacionado no bojo de relações sociais historicamente
determinadas. Tratam-se de sujeitos históricos, portadores de
uma bagagem culturalmente elaborada e inseridos em estruturas
societárias que sobredeterminam seus atos (numa complexa
dialética entre necessidade e liberdade)”.2

O fomento à conservação da biodiversidade é alicerce à


sobrevivência humana e tem profundas implicações no desenvolvimento
econômico. A perda da diversidade biológica de um único ecossistema
pode desestabilizar toda uma região. Para alguns autores a diminuição da
1
Mestre e Doutora em Direito Público, Professora do Curso de Mestrado do Centro Universitário Moacyr Sreder Bastos, membro
do Instituto de Advogados Brasileiros, do CONSEMAC, da Sociedade Brasileira de Vitimologia e do Instituto Brasileiro de
Advogados Públicos (IBAP), Defensora Pública.
elidaseguin@openlink.com.br
2
MORAES, Antônio Carlos Robert, “Bases epistemológicas da questão ambiental: o método”. Meio Ambiente e Ciências
Humanas. 2ª ed. Hucitec, São Paulo, 1997.
variabilidade genética das culturas aumenta a vulnerabilidade geral,
tornando o Meio Ambiente mais fragilizado para combater doenças e
pragas.

CONCEITO

Biodiversidade ou diversidade biológica, segundo o Dicionário


Brasileiro de Ciências Ambientais, é :

"A variedade de organismos considerada em todos os níveis


taxonômicos, desde variações genéticas pertencentes à mesma
espécie, até as diversas séries de espécies, gênero, famílias e
níveis taxonômicos superiores. Mais genericamente, o conceito
de biodiversidade não está sendo considerado apenas no nível
das espécies, mas também dos ecossistemas, dos habitats e até
da paisagem; pode incluir não só as comunidades de
organismos em um ou mais habitats como as condições físicas
sob as quais eles vivem".3

O art. II da Convenção da Diversidade Biológica (CDB), firmada


durante a ECO/92, a conceitua como:

“a variabilidade de organismos vivos de todas as origens,


compreendendo, entre outros, os ecossistemas terrestres,
marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos de que
eles fazem parte" acrescentando que "Compreende ainda a
diversidade dentro das espécies, entre as espécies e de
ecossistemas” .

O IUCN assim definiu diversidade biológica:

“Diversidade biológica significa a variabilidade entre


organismos vivos, de todos os lugares, incluindo os inter alia,
terrestres, marinhos e outros ecossistemas e complexos
ecológicos dos quais eles fazem parte” (IUCN, 1994)

A CBD incorporou ainda uma visão de sustentabilidade do


manejo de Recursos Genéticos, Produção Florestal e de Eco turismo.

A diversidade biológica, como não podia deixar de ser, está


espalhada por todo o planeta, tornando-se imprescindível para sua
efetividade a cooperação internacional. Outros documentos internacionais
trataram da proteção das espécies, sem utilizar o termo diversidade
biológica, podemos citar:

3
SILVA. Pedro Paulo de Lima e. Dicionário Brasileiro de Ciências Ambientais. Thex, Rio de Janeiro, 1999, p. 30.
• Convenção de Preservação da Vida Selvagem no hemisfério Oeste, de
Washington, 1940,

• Convenção Africana da Natureza e Recursos naturais (Algiers, 1968),

• Convenção de Ramsar, em 1971,

• a do CITES, em 1973,

• a Convenção de Espécies Migratórias de Animais Selvagens, em 1980;

• a Convenção da Vida Selvagem e de Habitats Naturais Europeus de


Berna, em 1979.

A ECO-92 foi responsável pela divulgação internacional deste


conceito, ampliando-o para abrigar setores sociais. Naquela oportunidade, a
Convenção sobre Diversidade Biológica foi assinada por diversos países,
inclusive o Brasil. O Decreto Legislativo nº 2, de 03.02.1994, aprovou a
assinatura.

São princípios que regem a conservação:4

“I- preservar o maior número possível de variedades de plantas


de cultivo, de plantas forrageiras, de árvores madeireiras, de
gado, de animais para a aqüicultura, de micróbios e de outros
organismos domésticos, assim como de seus parentes
selvagens.

II- Assegurar que os programas de preservação no local de


ocorrência protejam os parentes silvestres das plantas e dos
animais de valor econômico ou com outras utilidade, assim
como seus habitats; os habitats das espécies únicas ou das
espécies ameaçadas; os ecossitemas únicos, e as amostras
representativas dos tipos de ecossistemas;

TUTELA LEGAL

A CFR, no art. 225, § 1º, II, prevê que para assegurar a


efetividade do direito a um Meio Ambiente ecologicamente equilibrado,
deve o Poder Público:

Preservar a diversidade e a integridade do patrimônio genético do


País e fiscalizar as entidades dedicadas à pesquisa e manipulação
de material genético.

4
IUCN “Estratégia Mundial para a Conservação”, CESP, 1984.
A Lei nº 8.974, de 05.01.1995, criou tipos penais para a
manipulação genética e liberação, no Meio Ambiente, de organismos
geneticamente modificados. Criou ainda o Certificado de Qualidade em
Biossegurança.

Inegavelmente a determinação de definir espaços territoriais e


seus componentes, vedando qualquer utilização que comprometa a
integridade dos atributos que justifiquem a proteção, é uma forma de
proteger a biodiversidade, mas ela não pode ficar à mercê desta única
modalidade, demandam uma conscientização popular e uma ética.

ORDENAMENTO JURÍDICO
A Convenção da Diversidade Biológica, assinada em 05.06.1992,
aprovada pelo Decreto Legislativo nº 02 de 03.02.1994, entrou em vigor
internacional em 29.12.1993. No entanto, só foi incorporada ao
ordenamento jurídico pelo Decreto nº 2.519, de 16.03.1998, publicada no
DO de 17.03.1998.
Como vários documentos ambientais é um desconhecido do
grande público, em especial dos Operadores do Direito que não estão, na
sua maioria, preparados para desempenhar o novo papel que lhes cabe na
tutela do Meio Ambiente, onde a caça de quatro minhocas não pode ser
tratada como um crime de bagatela.

BIOPIRATARIA
A conservação da biodiversidade envolve outros aspectos além
da simples preservação, envolve enfoques econômicos e dos científicos.
Enfoques culturais e estéticos também pesam nesta balança da herança que
transmitiremos para as próximas gerações. A Convenção da Diversidade
Biológica reconhece a necessidade de fortalecer as relações de amizade
entre Estados como forma de atingir a paz mundial. O desenvolvimento
econômico e social e a erradicação da pobreza como prioridades
primordiais e absolutas ficaram apenas como belas palavras que não
saíram do papel para a realidade.

A biodiversidade é algo complexo centrada em repercussões


econômicas fortes. O desenvolvimento pode ser inconveniente para
determinados grupos, que sobrevive da miséria humana. Neste jogo de
interesses exsurge a biopirataria, que "consiste na coleta de materiais para
fabricação de medicamentos no exterior sem o pagamento de royalties ao
Brasil".5 Na verdade se o Brasil não adotar medidas severas para garantir a
defesa de seus recursos naturais terá sua soberania ameaçada.

5
FIORILLO, Celso Antonio Pacheco & DIAFÉRIA, Adriana. Biodiversidade e patrimônio genético. Max Limonad, São Paulo,
1999, p. 66.
Muitas pesquisas e requerimentos de patentes internacionais se
iniciam com irregularidades na bioprospecção, ou seja, as coletas de
materiais, em países não desenvolvidos, são oriundas de procedimentos
ilegais, clandestinos ou de acordos de cooperação internacionais que são
verdadeiras "ruas de mão única". Retiram clandestinamente sementes e
ervas que tradicionalmente de uso popular e que são patenteadas por
multinacionais.

Visando coibir a biopirataria a CDB reconheceu que os recursos


genéticos não devem ser vistos como patrimônio comum da humanidade,
em face da soberania dos países sobre seus próprios recursos genéticos. No
entanto, sob o pretexto de que o patrimônio natural pertence a humanidade,
alguns países desenvolvidos podem tentar intervir na política de
preservação da Floresta Amazônica. O Sistema de Vigilância da Amazônia
(SIVAM) desempenha relevante papel de combate a biopirataria.

Tem-se de um lado países ricos em biodiversidade e carentes de


recursos econômico-científicos e de vontade política para proteger seu
patrimônio genético. De outro lado países que já destruíram sua diversidade
biológica, mas que dispõem de vontade econômica e política em
descobrirem velhos tesouros naturais. A transferência de tecnologia não
acompanha o acesso aos recursos genéticos.

A ciência redescobre antigas práticas que garantem o uso


sustentável de recursos naturais. E aí, o contato com a população local
torna-se extremamente vantajoso, pois queima etapas em complexas
pesquisas biotecnológicas. A sabedoria dos pajés auxilia o orientação a ser
impregnada à pesquisa. A matéria já foi objeto de Uma Comissão
Parlamentar sobre Biopirataria, em 1997.

TRANSGÊNICOS E A MUTABILIDADE DOS CONHECIMENTOS

Em 1948, o suíço Müller ganhou o prêmio Nobel de Química por


ter descoberto o DDT, que salvara milhões de vidas humanas na guerra, por
evitar tifo e malária, além de proteger colheitas. Hoje está substância é
condenada mundialmente.

A manipulação genética é um fato que não se pode desconhecer,


que invade desde a agricultura e a pecuária até pesquisas humanas.

Há alguns anos existiu um programa humorístico, Planeta dos


Homens, no qual um personagem, interpretado por Jô Soares, fazia
cruzamentos absurdos, como uma minhoca com um porco espinho para
produzir arame farpado ou um pé de fumo com um vaga-lume para surgir
uma planta que brilhe no escuro. Toda vez que se fala em transgênicos vem
à mente o desenho de Walt Disney, chamado Fantasia, onde Mickey
brincava de aprendiz de feiticeiro.
Novos toxicantes podem ser agregados aos alimentos através da
engenharia genética. A qualidade nutricional alterada por estes processos,
alterando a quantidade de nutrientes nos alimentos engenheirados,
modificando sua absorção e metabolismo nos seres vivos. Os efeitos
iatrogênicos que podem provocar nós só saberemos com o tempo.

O uso da reengenharia genética para criar na agricultura


resistência a pragas possa fazer surgir uma raça de vírus híbridos e de
doenças resistentes aos fármacos já conhecidos.

Alberto Nobuoki Momma lembra que

"a eloqüência do discurso e a retórica as maravilhas das plantas


transgênicas para o agronegócio, propaladas aos quatro ventos
pelos arautos do livre mercado global, procuram pintar um
quadro de avant-garde da biotecnologia como um poderoso
elixir para os problemas da alimentação e saúde humana".6

A Instrução Normativa 15, de 08.07.1998, da Comissão Técnica


Nacional de Biossegurança (CTNBio), aprovou normas para o trabalho em
regime de contenção com animais não geneticamente modificados onde
OGMS são manipulados (D.O. de 14.07.1998).

A MULHER E A BIODIVERSIDADE

Historicamente a mulher tem sido tratada de forma diferente,


como se o gênero mudasse sua classificação. Inegavelmente pesos
diferentes são atribuídos aos comportamentos masculinos e femininos.
Surpreende que, nas suas considerações, a CDB, reconheça à mulher papel
fundamental na conservação, como se ela não é pertencesse ao grupo dos
humanos, fosse uma espécie do gênero, e não gênero da espécie:

"na utilização sustentável da diversidade biológica e afirmando a


necessidade da plena participação da mulher em todos os níveis
de formulação e execução da política para a conservação da
diversidade biológica"

Cinthia Robert preconiza que "a dicotomia Estado Liberal X


Estado Providência as mulheres certamente experimentam as angústias pela
incerteza do amanhã".7 É indiscutível que, para o implemento de qualquer
política pública, o papel desempenhado pela mulher deve ser sopesado para
que seja determinada a divergência entre uma concepção conservadora ou
mais arrojada, mas sempre sintonizada com o momento social vivenciado.

6
MOMMA, Alberto Nobuoki. Plantas transgênicas. Marketing e realidades. In Revista de Direito Ambiental, ano 4, julho-
setembro 1999, vol. 15, p.114.
7
ROBERT, Cinthia. Gênero: Mulher, in O Direito da Mulher, SEGUIN, Elida (org.) Lumen Juris, Rio de Janeiro, 1999, p. 3.
Centrado no gênero: mulher, um corte transversal do
ordenamento jurídico sugere que em relação ao tema existe um abismo
entre o direito que está no papel (law in books) e o direito que está sendo
praticado (law in action), através da manutenção de papéis injustos
discriminados apenas pelo sexo.

A isonomia entre sexos importa em uma igualdade de


possibilidades, real ou de fato, caracterizada pela participação de todos nos
benefícios e nos encargos. Trata-se na verdade de uma isegoria, ou seja,
assegurar igualdade na elaboração e aplicação das normas.

BIODIVERSIDADE E MERCOSUL

O Brasil firmou, como já mencionado, o Tratado de Assunção,


fazendo parte assim do MERCOSUL.

Em relação a diversidade biológica, a Resolução 10/94 do Grupo


Mercado Comum aprovou diretrizes básicas, estabelecendo-se a
necessidade de implementar um procedimento adequando ao texto do art.
129, ítem 3, do Código Aduaneiro do MERCOSUL, que determina:

"las mercaderías introducidas en territorio aduanero, que por su


naturaleza pongan en peligro la seguridad pública, la salud, y la
vida de las personas, de animales y vegetales, o el medio
ambiente, podrán ser sumariamente destruidas por la autoridad
aduanera".

CONSERVAÇÃO IN SITU E EX SITU

A sobrevivência de determinados grupos sociais depende


diretamente dos recursos naturais, como forma de auto sustento e
sobrevivência. Conservação in situ significa aquela cujos componentes não
são afastados de seus habitats naturais. Melhora-se as condições de vida,
estimulando a produção sustentável fulcrada em tradições locais. A
valorização do uso racional permite a defesa da fonte e a melhoria da
qualidade de vida da comunidade local, mantendo-a em seu habitat. A
contrário senso, a ex situ se processa fora de seus habitats naturais.

A ecologia de restauração, com o emprego de técnicas visando


recuperar o habitat, é uma solução que se descortina. Inicia-se uma tímida
atividade, malvista pelos ambientalistas, de criação de animais silvestres
em cativeiro, com finalidade de comércio e consumo, como as Fazendas de
Criação de Jacaré, no Estado do Mato Grosso do Sul.

A ex situ ocorre quando o ecossistema já não comporta, pelo seu


estado de degradação, a manutenção da espécie a ser defendida. Está sendo
muito empregada a reprodução assistida em cativeiro, com métodos de
inseminação artificial e de criopreservação. Congelam-se embriões que
num futuro serão desenvolvidos para serem reintroduzidos em habitats
restaurados.

Por outro lado, as utilidades presentes e futuras da biodiversidade


são difusas e habitualmente quase imperceptíveis para a maioria da
população, que vê, na exigência de sua preservação, uma atividade para
exóticos.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FIORILLO, Celso Antonio Pacheco & DIAFÉRIA, Adriana. Biodiversidade e
patrimônio genético. Max Limonad, São Paulo, 1999.
IUCN “Estratégia Mundial para a Conservação”, CESP, 1984.
MOMMA, Alberto Nobuoki. Plantas transgênicas. Marketing e realidades. In Revista
de Direito Ambiental, ano 4, julho-setembro 1999, vol. 15.
MORAES, Antônio Carlos Robert, “Bases epistemológicas da questão ambiental: o
método”. Meio Ambiente e Ciências Humanas. 2ª ed. Hucitec, São Paulo,
1997.
ROBERT, Cinthia. Gênero: Mulher, in O Direito da Mulher, SEGUIN, Elida (org.)
Lumen Juris, Rio de Janeiro, 1999
SILVA. Pedro Paulo de Lima e. Dicionário Brasileiro de Ciências Ambientais. Thex,
Rio de Janeiro, 1999.

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