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ÁREA ORGÂNICA

ESCUTE A VOZ DO SILÊNCIO, OUÇA A NATUREZA

REPORTAGEM POR
NAMIE MARTINS YOSHIOKA
SELINA JANIA RODRIGUES SILVA
OUT/2019
Área Orgânica:
escute a voz do silêncio, ouça a natureza

APRESENTAÇÃO
Esta é uma reportagem orgânicos para o mercado de
construída a partir de uma Goiânia e região. A Conectar foi
pesquisa de campo feita para a a iniciativa selecionada para a
disciplina de Comunicação para nossa pesquisa. As informações
a Sustentabilidade do curso de apresentadas aqui foram
Jornalismo da Faculdade de coletadas a partir de uma
Informação e Comunicação da entrevista com a proprietária
Universidade Federal de Goiás. Débora Meira de Oliveira,
Este material faz parte de uma durante visita a propriedade
iniciativa da disciplina que teve Fazenda Vale do Sol, onde é
como objetivo o mapeamento feita toda a produção.
das organizações que produzem 

INTRODUÇÃO

O mercado de produtos expostos ao lados dos “não


orgânicos no Brasil ainda é orgânicos”, podendo ser
insurgente em meio ao modelo contaminados pelos produtos
de industrialização e produção vizinhos. A vida pra quem se
de alimentos convencional. Nas empenha neste mercado não é
prateleiras dos hortifrutis de nada fácil e a fiscalização é
grandes mercados, nem severa e cara. Para isto, as
sempre são disponibilizados melhores alternativas para o
produtos orgânicos e, quando produtor orgânico é participar
sim, correm o risco de serem de feiras especializadas e de
confundidos com outros tipos Associações que facilitam a
de produção, como os certificação dos produtos.
hidropônicos. Também, há O rigor na fiscalização
grande probabilidade de serem e produção de orgânicos é

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escute a voz do silêncio, ouça a natureza

necessário, principalmente pelo É preciso observar ainda,


entretanto, que mesmo em
modelo em que o agronegócio
grande escala o sistema de
se desenvolve no Brasil. Neste produção convencional
setor, desde meados do século comumente dá prejuízo e só
passado, a modernização e o uso consegue se manter ativo por
de substâncias químicas na ser fortemente subsidiado pelo
Estado, com a bancada ruralista
produção agrícola foi ano após ano renegociando e
intensamente incentivada. anistiando dívidas do setor.
Dados que revelam essa (LONDRES, 2011, p.22)
realidade são mostrados no guia
elaborado por Flávia Londres Diante deste sistema, os
(2011) “Agrotóxicos no Brasil”, produtores orgânicos têm
trazendo a tona o quanto o uso de enfrentar grandes
de agrotóxicos movimentam o desafios no mercado, como
setor agrícola. Segundo a autora, resistir ao incentivo de uso
esse modelo de agronegócio, de produtos químicos, de
instaurado com a Revolução produções em largas escalas
verde, só tem trazido prejuízos, que não respeitam a
Com tudo isso, a agricultura sazonalidade e, também, a
química vem, ao longo das falta de voz e conhecimento
últimas décadas, apresentando no mercado. A produtora
resultados cada vez piores na
Debora Meire de Oliveira
relação produtividade x custos
de produção e deixando os não é imune a essas e outras
agricultores a cada dia mais dificuldades e as tem
estrangulados. Com margens de enfrentado durante todo o
lucro cada vez mais achatadas,
tempo que passou a atuar
somente a produção em escala
é capaz de proporcionar ganhos no setor. No entanto, diante
satisfatórios – um outro de todas as adversidades, o
elemento a contribuir para a seu engajamento e amor
concentração de terra e renda
pelo meio ambiente a
no país, marginalizando e
expulsando os agricultores motiva a seguir firme neste
familiares reféns do modelo mercado que por muitas das
convencional. vezes se mostra ingrato aos
produtores orgânicos.

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COMO TUDO COMEÇOU

Como psicóloga, Débora meses participando de


desenvolvia um estudo nomeado conferências que abordavam a
Ecopsicologia, caracterizado pelo Ecopsicologia. Foi em terras
despertar da consciência norte-americanas que
ecológica, através de vivências conheceu um trabalho de
adquiridas em contato com a ecoalfabetização em hortas
própria natureza. Para dar início ao orgânicas, desenvolvido na
seu projeto, a psicóloga cidade de Berkeley, São
necessitava de áreas preservadas Francisco, desde o ano de 1979.
para efetivar o estudo, entretanto, Se amparando nesta mesma
apesar de sua propriedade possuir ideia, retornou ao Brasil, e
uma vasta área de preservação, introduziu-se em cursos de
composta por mata e serra, ainda capacitação em agricultura
precisaria de uma infraestrutura e orgânica oferecidos pelo Serviço
respaldo jurídico para tal, que Nacional de Aprendizagem
permitiriam a entrada de pessoas Rural (SENAR), determinada em
no local, e as assegurariam caso aplicar a técnica no próprio
acabassem ocorrendo estudo. Ao se capacitar, foi
acidentes.  Encarando este introduzida à associação de
obstáculo, decidiu viajar para os produtores orgânicos de Goiás,
Estados Unidos, onde ficou por seis e, assim, começou a cultivar.

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A PROPRIEDADE

FAZENDA VALE DO SOL


A fazenda Vale do Sol pertence a
psicóloga Débora Meira de Oliveira e
está situada no município de Itauçu,
localizado a 70 km de Goiânia. A 
propriedade possui uma soma total
de setenta e nove alqueires, sendo
cerca de sete hectares certificados
para a produção de produtos
orgânicos. A propriedade é ampla e
possui uma paisagem diversificada,
contendo áreas de preservação e
formações florestais. Por ser cercada
por serras e pedras e possuir um
relevo com várias ondulações e
declives, o uso de maquinário para a
agricultura é dificultado. Devido a
esta condição, a mão-de-obra
utilizada na fazenda é
majoritariamente humana, contendo
apenas um funcionário, e,
eventualmente, uma diarista. Além
Captura Google Earth

da área orgânica, uma parte da


extensão é destinada a pastagem de
aluguel e também, para a sua própria
criação de gado de corte. Uma
porteira separa a área orgânica do
restante da fazenda. Em tinta branca,
há inscrito um pedido "escute a voz
do silêncio, ouça a natureza."
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CERTIFICAÇÃO

A propriedade orgânica é Como a certificação é recebida


certificada pela Associação de através da Associação, todos os
Certificação Instituto participantes precisam estar
Biodinâmico (IBD,2019), através aptos e em condições de serem
da sua participação na certificados, pois se um
Associação para o membro estiver fora dos
Desenvolvimento da padrões exigidos todo mundo
Agricultura de Goiás (ADAO- pode perder o selo.
GO).  Atualmente o IBD é a
maior certificadora da América
Latina e única no Brasil a
“A agrônoma que faz essa
oferecer certificados válidos
fiscalização, agenda e realiza todo
globalmente de produtos
esse circuito com todos do grupo. A
orgânicos. O Instituto tem
gente fiscaliza um ao outro
como objetivos auxiliar no
também porque é uma certificação
“desenvolvimento de padrões
em grupo, não é individual.
sustentáveis de produção e
Porque se alguém estiver fazendo
fomento ao Comércio Justo”. 
coisa errada todo mundo perde.”
Segundo a produtora, para a
Debora Meira de Oliveira
propriedade ser certificada é
preciso estar apta a uma série
de protocolos exigidos pela
certificadora e pagar um valor
para obter. A certificação dura
um ano e chega a custar em
torno de R$6.000,00 por ano.
Por ser um valor considerado
alto, uma das formas de obter o
certificado pagando menos é
participando de uma
associação, como a ADAO-GO,
Logomarca da Conectar Produtos
assim o valor passa a ser de 
orgânicos da produtora e psicóloga Débora
R$1.500,00 a R$ 1.700,00
Meira de Oliveira
anuais.
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PRODUÇÃO E
MERCADO
PROCESSO DE PRODUÇÃO

No processo de cultivo, a Todo este preparo tem sido feito


produtora e psicóloga, desde 2010, onde o calcário
primeiramente faz a análise de precisa ser repetido apenas a
solo, para assim descobrir se a terra cada cinco anos, assegurando
precisará ser corrigida, e qual a um solo de pH equilibrado.
quantidade de adubo e calcário
que deverão ser usados. Em
seguida, utiliza da técnica de
gradiação, na qual se difere da
aração. Enquanto na aração a terra
é revirada, até o que estava por
debaixo seja movido para cima,
provocando a morte do solo, na
gradiação, a terra é apenas revirada
na parte superior e, então,
acrescentado esterco de galinha
poedeira.  No caso deste dejeto, a Armadilha de água doce para atrair os inimigos
da plantação sem a necessidade de produtos
produtora passou a fazer a compra químicos
na granja GAASA, localizada na
cidade de Inhumas, após ter feito a
análise se havia a presença de
metal pesado no conteúdo. A
manutenção do solo da
propriedade de Débora se dá,
basicamente, através do uso de
esterco e controle do mato por
carpideiragem. Sendo uma terra
fértil, não encara problemas  de
gergelim colhido
pragas ou doenças em sua
plantação.
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A produtora conta a dificuldade Na área orgânica, a psicóloga


que passou com algumas e produtora preferiu investir no
produções, como a do maracujá cultivo de grãos, como milho e
pérola do cerrado. O cultivo da fruta gergelim, frutas e raízes. A não
é mais complicado e no processo exigência de muita mão-de-obra,
muitas mudas se perderam, também influencia nas escolhas
restando poucos pés. Apesar da dos tipos de alimentos que serão
pouca rentabilidade e dificuldades produzidos. Já as hortaliças
encontradas no processo de cultivo, foram deixadas de lado pela
a produtora reconhece que a  fruta necessidade de comercialização
possui propriedades riquíssimas diária, dificultada pela distância
para a saúde. No entanto, o entre a área de produção e os
maracujá pérola do cerrado quase centros comerciais de Goiânia e
não é conhecido e nem encontrado Anápolis.
no mercado convencional.

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ALIMENTOS CERTIFICADOS
A Fazenda Vale do Sol possui uma grande variedade de produtos
certificados. Todos esses alimentos listados abaixo podem ser
cultivados e comercializados na propriedade  com o selo de orgânico:

Abacate, Abóbora, Açafrão, Acerola,


Amendoim, Amora, Banana (Terra, São
Tomé, Maçã, Marmelo, Ourinho, Prata),
Batata Doce (Branca E Roxa), Bertalha,
Cajá-anão, Cana Caiana, Cana Roxa,
Caqui, Copaíba, Framboesa Vermelha,
Gengibre, Gergelim Marrom, Gergelim
Preto, Goiaba, Graviola, Guatambu,
Ingá, Inhame Rosa, Inhame Roxo, Jaca,
Jenipapo, Jiló, Jurubeba, Lichia, Limão
(Cravo, Pérsia, Galego, Siciliano),
Limão Taiti, Mandioca, Manga,
Maracujá (Amarelo, Doce, Pérola,
Rubi), Massala, Melancia, Melão,
Memey, Mexerica Pokan, Milho,
Moranga, Ora-pro-nóbis, Pimenta Doce,
Pimentas Vermelha, Pitanga, Pitaya,
Quiabo, Sorgo, Taioba, Tamarindo,
Tanchagem, Tangerina

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LIXO
finais de semana, em Goiânia, e
Dos resíduos gerados na também para clientes já
propriedade, é feita uma conhecidos.
compostagem do lixo orgânico Devido esta produção
para ser colocado nos canteiros inconstante, a produtora ainda
de cultivo. O lixo seco, não não se considera uma empresa.
orgânico, é juntado, recolhido e Existe uma ausência de
levado para a cidade. Os que rotatividade, além de atuar
servem para reciclagem, como sozinha no processo de plantio,
arames e plásticos, são embalagem e comercialização
vendidos para uma pessoa que dos alimentos. A Conectar ainda
a proprietária tem contato na não tem engajamento nas redes
cidade e o restante descartado sociais, tendo apenas um grupo
de forma convencional. no WhatsApp para comunicar
com os consumidores. Como
MERCADO empresa, há ainda um caminho a
percorrer para se desenvolver e
Para comercializar os
consolidar como tal no mercado.
alimentos orgânicos produzidos
Apesar desta realidade, Débora
na área certificada da fazenda,
consegue visualizar a plantação
Debora participou, durante três
como um projeto piloto de uma
anos, da feira semanal em
futura empresa.
Goiânia. Entretanto, em alguns
meses, a produtora não tinha
quase nada para vender, tendo COMUNICAÇÃO COM A
apenas poucos produtos SOCIEDADE
sazonais para comercializar. 
Esta redução na produção levou O valor daquilo que a Fazenda
a agricultora a deixar de ser uma Vale do Sol representa dentro do
comerciante regular na feira. ecossistema e a contribuição
Atualmente, a Conectar para a sustentabilidade a
participa das feiras quando está produtora leva na comunicação
na época de um produto que que ela tem com a sociedade: o
tem muito, comercializando nos da informação e conscientização.

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Além, desse contato informal, foi


realizado em julho de 2019, um Dia
de Campo na fazenda, juntando a 
“Hoje em dia, as pessoas acham
ecopsicologia e agroecologia. Seu
que se você plantou sem veneno, filho, formado em agronomia, ficou
sem agrotóxico é orgânico. Então responsável em ensinar sobre o
sempre passo essa informação: controle biológico e a parte teórica,
“Olha, não é orgânico, para ser enquanto a produtora instruiu
orgânico tem que ter selo, tem que sobre o que é a ecopsicologia.
ter uma série de diretrizes que você Aquilo que era dito em teoria era
tem que respeitar. Você é aplicado na prática. Durante o dia
fiscalizado. Tem toda essa análise. de campo, os participantes
E tem que ter o selo, se não tem é puderam combater o estresse,
agroecológico.” estar em contato com a natureza,
conhecer a produção, conhecer a
Debora Meira de Oliveira
propriedade, e se capacitar para
trabalhar na área. “É um trabalho
de beija-flor mesmo, é um contato
direto de estar conversando”,
concluiu a produtora sobre o papel
Neste contato com a comunidade de conscientizar e informar.
sobre a importância do consumo
de orgânicos, Débora também
destaca o sabor, a nutrição e o
impacto positivo que este tipo de
alimentação gera nas pessoas.
Uma das ferramentas que a
agricultora usa é o WhatsApp
onde ela administra um grupo
sobre os seus produtos. Nele ela
compartilha vídeos, informativos,
não focando apenas na
alimentação, mas, também, no
aspecto educacional, social,
ecológico, ambiental, de saúde e
de espiritualidade. 

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REFÊRENCIAS
LONDRES, Flávia. Agrotóxicos no Brasil: um guia
para ação em defesa da vida.  AS-PTA – Assessoria
e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa.
Rio de Janeiro: 2011.

IBD Certificações. Disponível:


https://www.ibd.com.br/ Acesso: 21 de outubro de
2019.

Ficha Técnica
Diagramação
Selina Jania Rodrigues Silva

Texto e Fotografia
Namie Martins Yoshioka e Selina Jania Rodrigues Silva

Disciplina
Comunicação para a sustentabilidade

Professora
Lisbeth Oliveira

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