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I. O Caso Mortara
O convívio da Igreja com os ateus judeus sempre se mostrou uma
provação para os reinos católicos, para a plebe e, sobretudo, para a
Igreja. Faz parte do Magistério perene e da Douta Teologia da Igreja a
vedação ao esporádico, mas recorrente na História, ímpeto dos
governantes ou da população de batizarem à força pagãos e judeus.
Também foi posta a percepção de que os pais, mesmo pagãos, gozavam
de direito natural de educarem seus filhos. Apesar de expressamente
determinar que católicos não deveriam batizar crianças judias contra a
vontade dos pais, exceto quando à beira da morte, quando o adiamento
costumeiro à autoridade dos pais deveria ser preterido pela importância
da salvação da própria criança, não-raramente católicos acabavam
promovendo esses batismos. Nessas hipóteses, a despeito de o batismo
ter sido efetuado em circunstâncias indevidas, era agora a criança uma
católica. E, portanto, não deveria ser educada por não-católicos. Nesses
casos, a guarda da criança deveria ser subtraída dos pais e o menor ser
conduzido ao lar de famílias católicas ou a mosteiros, segundo
preconizado pela bula Postremo mense do papa Bento XIV, publicada
em 28 de fevereiro de 1747. Em Theologia moralis, Santo Afonso Maria
de Ligório endossa o prescrito dizendo:
“Em segundo lugar, é certo que se os pais abandonarem a fé para se
juntarem aos infiéis, seus filhos poderão ser batizados, mesmo que os
pais se oponham. A igreja tem o poder de coagir os pais a observar a fé,
pode também tirar os filhos deles.”

Já Édouard Hugon diz em Tractatus dogmatici – De sacramentis in


communi et in speciali, De baptismo: Lethielleux, que as crianças
batizadas tornam-se uma “coisa da Igreja, elas são unidas ao corpo da
Igreja, e a Igreja obtém o direito sobre elas; e, para que ela possa prover
sua segurança espiritual, ela é capaz de separá-los de seus pais.”

Segundo o famoso The Kidnapping of Edgardo Mortara de David


Kertzer, celeumas envolvendo batismo de crianças contra a vontade dos
pais foram comuns na história da Igreja e no séc. XIX. Sendo o mais
famoso o caso de Edgardo Mortara. Que deu início à controvérsia
internacional chamada de “caso Mortara”.

Mortara era uma família judia que morava em Bolonha. Eram pais de
uma criança chamado Edgardo. Na casa, trabalhava uma empregada
cristã chamada Anna Morisi que cuidava do menino. Segundo conta ela,
a criança teve certo dia que os pais estavam ausentes um passamento.
Pensando ela que a criança iria morrer, batizou-a.

O relato chegou ao Tribunal do Santo Ofício e, na noite de 23 de junho


de 1858, a carabinieri papais (Polícia dos Estados Pontifícios) arrombou
a porta da casa dos Mortara, sob as ordens do inquisidor de Bolonha, o
padre Pier Feletti, e raptou Edgardo. Pois crianças cristãs não poderiam
ser criadas por ateus. Jornais de toda a Itália, Europa e outros continentes
começaram a noticiar o caso como um grande exemplo de “irania papal”,
contrastados pelo desespero da “imagem poderosa da mãe de coração
partido que caiu gravemente enferma após o trauma que acometera sua
família”. Somente em dezembro de 1858, o The New York
Times publicou mais de 20 artigos sobre o caso. Já o inglês The
Spectator cravou que os Estados Papais tinham “o pior governo do
mundo — o mais insolvente e arrogante, o mais cruel e o mais
mesquinho”. Enquanto isso, a imprensa católica italiana ataca essas
publicações, alegando não ser impressionante essa campanha de ódio
contra o papa, visto que essas redações estão nas mãos de judeus.

A família Mortara possuía certa influência e o caso mobilizou chefes de


Estado e embaixadores de toda a Europa. Aqui, observamos o momento
histórico, como que num retrato, em que o arremedo de Autoridade da
Igreja sobre os Estados está ruindo. Apesar de a Igreja ainda ter poder
para agir pela Causa da Fé, esse proceder é abertamente contestado. Era
questão de tempo para que a Igreja fosse atacada de fato.