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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL pessoalmente, ou que conheci de fontes seguras.

O relato propriamente dito é precedido de


FACULDADE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
DISCIPLINA: LEITURAS EM JORNALISMO dois capítulos que traçam rapidamente as origens e as causas da Revolução de Outubro. Sei
PROFESSOR: ANTONIO HOHLFELDT
perfeitamente que esses dois capítulos são de leitura difícil, mas são essenciais para a
CADERNO DE TEXTOS PARA LEITURA NA DISCIPLINA
compreensão dos que se seguem.

Numerosas questões ocorrerão ao espírito do leitor.

7ª aula O que é bolchevismo? Em que consiste a forma de governo criada pelos

bolcheviques? Uma vez que os bolcheviques lutaram por uma assembléia constituinte antes

DEZ DIAS QUE ABALARAM O MUNDO da Revolução de Outubro, por que a dissolveram em seguida, pela força? E por que a

John Reed burguesia, hostil à Assembléia Constituinte até o aparecimento do perigo bolchevique,

resolveu assumir a defesa dessa mesma assembléia?

Prefácio do autor Essas questões não poderão ser respondidas aqui. Em outro volume, De Cornilov a

Este livro é um pedaço da História, da História tal como eu a vi. Não pretende ser Brest-Litovsqui, onde relato os acontecimentos até a paz com a Alemanha, descrevo a

senão um relato detalhado da Revolução de Outubro, isto é, daqueles dias em que os origem e o papel das diferentes organizações revolucionárias, a evolução do sentimento

bolcheviques, à frente dos operários e soldados da Rússia, apoderaram-se do poder e o popular, a dissolução da Assembléia Constituinte, a estrutura do Estado Soviético, o

puseram nas mãos dos sovietes. desenvolvimento e a conclusão das negociações de Brest-Litovsqui.2

Trata principalmente de Petrogrado1, que foi o centro, o próprio coração da Abordando o assunto da sublevação bolchevique, é preciso ter em conta que foi, não

insurreição. Mas, o leitor deve ter em mente que tudo o que se passou em Petrogrado em 25 de outubro (7 de novembro de 1917), mas muito antes, que se operou a

repetiu-se, quase exatamente, com intensidade maior ou menor e a intervalos mais curtos desorganização da vida econômica e do exército russo, final lógico de um processo que

ou mais longos, em toda a Rússia. remonta ao ano de 1915. Os reacionários desprovidos de escrúpulos, que dominavam a

Neste volume, o primeiro de uma série que estou escrevendo, sou obrigado a me corte do Tzar, haviam decidido deliberadamente a ruína da Rússia, a fim de poderem

limitar a uma crônica dos acontecimentos que testemunhei, e nos quais me envolvi concluir uma paz em separado com a Alemanha. A falta de armas nas frentes, que teve

1 Antiga S. Petesburgo, hoje Leningrado 2 Em Brest-Litovsqui foi assinada a paz com a Alemanha, em 1918.
como conseqüência a grande retirada do verão de 1915, a falta de víveres nos exércitos e disposto a levar até o fim a luta contra seu opressor, a classe capitalista. Ele não ignora que

nas grandes cidades, a paralisação da produção e dos transportes em 1916, tudo fazia parte existem ainda outras classes, mas exige que elas tomem parte, francamente, no conflito

de um plano gigantesco de sabotagem que a Revolução de fevereiro, no seu justo tempo, encarniçado que se aproxima.

impediu fosse executado até o fim. Os trabalhadores russos reconhecem que as instituições políticas norte-americanas

Durante os primeiros meses do novo regime, com efeito, não obstante a confusão são preferíveis às deles, mas não querem trocar um despotismo por outro (o da classe

que se segue a um grande movimento revolucionário como o que acabava de libertar um capitalista)...

povo de 160 milhões de almas, o mais oprimido do mundo, a situação interior e a força Se os operários da Rússia fizeram-se matar e foram executados às centenas, em

combativa dos exércitos melhoraram sensivelmente. Moscou, em Riga, em Odessa, se eles foram presos, aos milhares, nas cadeias russas, ou

Mas, essa “lua de mel” teve curta duração. As classes dominantes pretendiam uma exilados para os desertos ou para as regiões árticas, não foi para obterem os duvidosos

revolução unicamente política que, tirando o poder do Tzar, o passasse às suas mãos. privilégios dos operários de Goldfields e de Cripple-Creek...”.

Queriam fazer na Rússia uma revolução constitucional, segundo o modelo da França ou dos É assim que se desenvolveu na Rússia, no próprio curso de uma guerra exterior,

Estados Unidos, ou então uma monarquia constitucional como a da Inglaterra. Ora, as depois da revolução política, a revolução social que fez triunfar o bolchevismo.

massas populares queriam, porém, uma verdadeira democracia operária e camponesa. O sr. A. J. Sack, Diretor do Escritório de Informações Russas nos Estados Unidos e

William English Walling, no seu livro a Mensagem da Rússia, consagrado à adversário do Governo Soviético, exprimiu-se da seguinte maneira, no seu livro O

Revolução de 1905, descreve perfeitamente o estado de espírito dos trabalhadores russos, Nascimento da Democracia Russa.

cuja quase unanimidade apoiaria, mais tarde, o bolchevismo: “Os estrangeiros constituíram um gabinete, tendo Lenine como Presidente do

“Os trabalhadores compreendiam bem que, mesmo sob um governo federal, eles se Conselho e Trotsqui como Ministro dos Negócios Exteriores. Logo depois da Revolução de

arriscariam a continuar morrendo de fome, se o poder ainda permanecesse nas mãos de Fevereiro, sua subida ao poder parecia inevitável. A história dos bolcheviques depois da

outras classes sociais. Revolução é a história de sua ascensão constante...

O operário russo é revolucionário, mas ele não é violento, nem dogmático, nem Os estrangeiros, os norte-americanos em particular, insistem freqüentemente em

pouco inteligente. Está pronto para o combate de barricadas, mas estudou suas regras e, falar na ignorância dos trabalhadores russos. É exato que eles não possuem a experiência

caso único entre os operários do mundo inteiro, foi na prática que ele as aprendeu. Está política dos povos ocidentais, mas também é fato que eles estão perfeitamente preparados,
no que concerne à organização das massas. Em 1917, as cooperativas de consumo Isso era, evidentemente, lançar lenha ao fogo bolchevique. Os bolcheviques

contavam com mais de 12 milhões de aderentes. O próprio sistema dos sovietes é um responderam aguçando a guerra de classes e proclamando a supremacia dos sovietes.

admirável exemplo de seu gênio administrativo. Por outro lado, não há, provavelmente, Entre esses dois extremos, mais ou menos francamente apoiados por grupos

outro povo, neste mundo, tão familiarizado com a teoria do socialismo e com a sua diversos, encontravam-se os socialistas chamados “moderados”, compreendendo os

aplicação prática”. mencheviques, os socialistas-revolucionários e algumas outras facções de menor

William English Walling escreveu a esse respeito: importância. Todos esses partidos estavam igualmente expostos aos ataques das classes

“Os trabalhadores russos, na sua maioria, sabem ler e escrever. A situação possuidoras, mas sua força de resistência era quebrada das suas próprias teorias.

extremamente confusa em que se encontrava o país durante anos fez com que eles tivessem Os mencheviques e os socialistas-revolucionários afirmavam que a Rússia não

a vantagem de possuir por guias não somente os mais inteligentes entre eles, como uma estava preparada para a revolução social e que só uma revolução política era possível.

grande parte da classe culta, igualmente revolucionária, que lhes legou seu ideal de Segundo eles, as massas russas não tinham suficiente educação para a tomada do poder;

regeneração política e social da Rússia...” toda tentativa nesse sentido só poderia provocar uma reação a favor de um aventureiro sem

Numerosos autores justificaram sua hostilidade para com o Governo Soviético sob o escrúpulos, que poderia restaurar o velho regime. Por conseguinte, os socialistas

pretexto de que a última fase da Revolução não foi mais do que uma luta de defesa dos “moderados” foram obrigados, por circunstâncias especiais, a tomar o poder, não ousaram

elementos policiais da sociedade, contra a brutalidade dos ataques bolcheviques. Ora, são fazer uso dele.

exatamente esses elementos, as classes possuidoras, que, vendo aumentar a força das Acreditavam que a Rússia deveria atravessar, por sua própria conta, as mesmas

organizações revolucionárias da massa, pretenderam destruí-las a qualquer custo, para fazer etapas políticas e econômicas da Europa ocidental, para poder chegar, enfim, ao mesmo

parar a Revolução. Para conseguir seus objetivos, essas classes lançaram mão de recursos tempo que o resto do mundo, ao paraíso socialista. Dessa forma, estavam de acordo com as

desesperados. Para derrubar o Ministério Querensqui e destruir os sovietes, elas classes possuidoras no que dizia respeito a fazer, antes de tudo, da Rússia, um Estado

desorganizaram os transportes e provocaram confusões internas; para destruir os comitês de parlamentar – um pouco mais perfeito, em todo o caso, do que as democracias ocidentais –

operários, fecharam as fábricas, fizeram desaparecer combustíveis e matérias primas; para e, em conseqüência, insistiram na participação das classes possuidoras do Governo. Daí, a

destruir os comitês do exército, restabeleceram a pena de morte e tentaram provocar a desenvolver uma política de apoio, era um passo. Os socialistas “moderados” tinham a

derrota militar. necessidade da burguesia; mas, a burguesia não tinha a necessidade dos socialistas
“moderados”. Os ministros socialistas foram constrangidos a ceder, pouco a pouco, a Qualquer que seja a nossa opinião a respeito do bolchevismo, é inegável que a

totalidade do seu programa, à medida que as classes possuidoras exerciam pressão. Revolução Russa foi um dos grandes acontecimentos da História da Humanidade e que a

E, finalmente, quando os bolcheviques derrubaram todo esse edifício de subida ao poder dos bolcheviques é um fato de importância mundial. Da mesma forma que

compromissos, os mencheviques e os socialistas-revolucionários se encontraram lutando ao os historiadores se ocupam em reconstituir, nos seus mínimos pormenores, a história da

lado das classes possuidoras. É mais ou menos isso que vemos acontecer de novo, hoje, em Comuna de Paris, assim também eles desejarão conhecer o que se passou em Petrogrado,

todos os países do mundo. em novembro de 1917, qual era o estado de espírito do povo, a fisionomia de seus chefes,

Longe de constituírem uma força destruidora, parece-me que os bolcheviques suas palavras, seus atos. Fio pensando neles que escrevi este livro.

foram, na Rússia, o único partido a possuir um programa construtivo e os únicos que se No curso da luta, minhas simpatias não eram neutras. Mas, ao traçar a história

tornaram capazes de impor esse programa ao país. Se eles não tivessem triunfado no desses grandes dias, quis considerar os acontecimentos, relatando-os conscienciosamente,

momento exato, não tenho a menor dúvida de que os exércitos da Alemanha imperial esforçando-me para fixar a verdade.

entrariam em Petrogrado e em Moscou, em dezembro, e hoje um tzar cavalgaria novamente Nova Iorque, 1° de janeiro de 1919.

sobre a Rússia.

Hoje ainda é moda, após um ano de existência do novo regime, falar da Revolução

Bolchevique como de uma “aventura”. Muito bem, se for uma aventura, trata-se de uma das

mais maravilhosas em que já se empenhou a humanidade, aquela que abriu às massas Capítulo I - Os Bastidores

laboriosas o campo da História, fazendo com que hoje tudo dependa de suas vastas e Em fins de setembro de 1917, um professor de Sociologia que percorria a Rússia

naturais aspirações! Mas, lembremo-nos que desde antes de novembro o poder já havia sido veio visitar-me em Petrogrado. Ele ouvira de homens de negócios e os intelectuais haviam-

tomado e que, por meio dele, as terras dos grandes proprietários puderam ser distribuídas lhe garantido que a Revolução começara a declinar. O professor acreditou em tais

aos camponeses; que os comitês de fábricas e os sindicatos estavam organizados e iriam informações e escreveu um artigo sustentando essa opinião. Entretanto, continuou a viajar

realizar o controle operário da indústria; que cada cidade, cada vila, cada distrito, cada pelo país, visitando cidades industriais e pequenas aldeias do interior. Com assombro,

província, possuía seu soviete de deputados operários, soldados e camponeses, pronto para verificou então que a pequena Revolução parecia estar em nova fase de desenvolvimento.

assegurar a administração local.


Entre os operários das fábricas e os camponeses pobres ouvia-se freqüentemente governamentais sobre a propriedade da terra. Nas fábricas, os operários lutavam contra as

falar de “todas as terras para os camponeses” e “todas as fábricas aos trabalhadores”. Se o listas negras e os lock-outs 3. Mas, não era tudo: emigrados políticos que chegavam à Rússia

professor tivesse visitado as trincheiras, verificaria, também, que os soldados só falavam tornavam a ser expulsos do país como “elementos indesejáveis”. Houve mesmo casos de

em paz... pessoas que, voltando para casa, foram presas por terem participado da Revolução de 1905.

O homem ficou aturdido, mas não havia razão para tal. Ambas as observações eram Ao crescente descontentamento popular, os socialistas “moderados” respondiam

corretas. Na Rússia, as classes dominantes tornavam-se cada vez mais conservadoras, e as com: “Esperemos a Assembléia Constituinte que se reunirá em dezembro!” As massas,

massas populares, cada vez mais radicais. porém, não se satisfaziam com essa resposta. A Assembléia Constituinte seria muito bem

Os capitalistas, os negociantes e os intelectuais achavam que a Revolução não só já recebida, sem dúvida, mas existiam certos problemas que tinham de ser resolvidos com

fora demasiado longe, como durara excessivamente... Era essa, também, a opinião dos Assembléia Constituinte ou sem ela. Por tais questões, levantadas na Revolução Russa, –

socialistas “moderados”, que dominavam então, e dos sociais-nacionalistas mencheviques e paz, terra, liberdade e controle das indústrias pelos operários – é que havia tombado os

socialistas revolucionários, que apoiavam o Governo Provisório de Querensqui. mártires que dormiam para sempre no Campo de Marte.

Em 14 de outubro, o órgão oficial dos socialistas "moderados" escrevia: “O drama A data de convocação da Assembléia Constituinte já fora prorrogada por duas vezes

da revolução tem dois atos: no primeiro, destrói-se o velho regime; no segundo, cria-se o e, com toda certeza, seria protelada até que o povo se acalmasse e renunciasse às

novo. O primeiro ato já durou muito tempo. Chegou o momento de passarmos, quanto reivindicações revolucionárias.

antes, ao segundo. Convém lembrar as palavras de um antigo revolucionário: “Amigos, Enquanto isso, os soldados começavam a resolver a questão da paz a seu modo: pela

precisamos terminar a revolução imediatamente. Aqueles que a prolongam não colhem seus deserção em massa. Os camponeses incendiavam a casa de seus senhores e dividiam as

frutos...” grandes propriedades entre si. Os operários paralisavam a produção industrial pela

Entretanto, os trabalhadores, os soldados e os camponeses não pensavam do mesmo sabotagem e declaravam-se, freqüentemente, em greve. Está claro que, como era de se

modo. Achavam, mesmo, que o “primeiro ato” ainda não havia terminado. Na frente de esperar, os proprietários e a oficialidade procuravam contemporizar, fazendo todos os

combate, os comitês de exército destituíam sem cessar os oficiais que maltratavam os seus esforços e usando da sua influência para impedir qualquer concessão democrática.

subordinados. Na retaguarda, os membros dos comitês agrários, eleitos pelos camponeses,

foram encarcerados, porque tiveram a “audácia” de pôr em prática os dispositivos 3Coligação de patrões que, em resposta à ameaça de greve de seus operários, fecham as suas fábricas. (Nota
do Tradutor)
A política do Governo Provisório oscilava entre reformas sem o menor sentido Scobeliev: inicialmente, decretou o imposto de 100% sobre os lucros. Agora,

prático e a repressão sanguinária contra as massas revolucionárias. Uma lei emanada do procura dissolver os comitês de fábrica.

Ministro Socialista do Trabalho decretava que os comitês de fábrica deveriam reunir-se Avxentiev: prendeu centenas e centenas de agricultores, membros dos comitês

somente à tarde, depois das horas de trabalho. Nas trincheiras, eram presos os agitadores agrários, além de proibir a circulação de grande número de jornais de operários e de

dos partidos da oposição. Nenhum jornal radical podia circular livremente e os camponeses.

propagandistas da Revolução eram punidos com a pena capital. Tentou-se o desarmamento Tchernov: assinou o manifesto “Imperial”, decretando a dissolução do Parlamento

da Guarda Vermelha, e os cossacos partiram para o interior, a fim de restabelecer a “ordem” da Finlândia.

nas províncias. Essas providências eram apoiadas pelos socialistas “moderados” e pelos Savincov: uniu-se abertamente ao General Cornilov. Este “salvador da pátria” só

seus chefes que ocupavam pastas no Ministério, que consideravam ser necessária a não vendeu Petrogrado por motivos estranhos à sua vontade.

cooperação com as classes conservadoras. O povo, porém, abandonou-os, passando para o Zarudni: com a aprovação de Alexinsqui e de Querensqui, prendeu os melhores e

lado dos bolcheviques, que reclamavam paz, terra, controle da indústria pelos operários e mais ativos revolucionários, soldados e marinheiros.

um governo proletário. Niquitine: agiu como simples agente de polícia contra os ferroviários

Em setembro de 1917, a crise agravou-se enormemente. Contrariando a vontade de Querensqui: não vale a pena citar seus feitos. A lista dos seus “serviços” é

todo o país, Querensqui e os socialistas “moderados” formaram um governo de coalizão interminável...”

com a burguesia. Em conseqüência deste ato, os mencheviques e os socialistas Os delegados dos marinheiros da esquadra do Báltico reuniram-se em congresso,

revolucionários perderam para sempre a confiança que o povo trabalhador depositava neles. em Helsinque, e aprovaram uma resolução que começava assim:

Até meados de outubro, o jornal Rabotchi Put (O Caminho do Proletariado) “Exigimos do Governo Provisório a imediata expulsão do aventureiro político, o

publicava, diariamente, um artigo intitulado “Os Ministros Socialistas”, apontando às “socialista” Querensqui, que procura assassinar a Revolução e que age contra os interesses

massas os atos contra-revolucionários dos socialistas “moderados”. Nesses artigos, entre das massas trabalhadoras, mancomunando-se vergonhosamente com a burguesia.”

outras coisas, lia-se: De tudo isso nasceu a Revolução Bolchevique.

“Tsereteli: com o auxílio do General Polovtsev, desarmou os operários, chacinou os Em março de 1917, avalanchas de operários e de soldados se apoderaram do Palácio

soldados revolucionários e aprovou a aplicação da pena de morte no exército. da Taurida, obrigando a débil Dama Imperial a assumir o poder supremo da Rússia. As
massas populares, operários, soldados e marinheiros, passaram, assim, a dirigir a marcha da Os bolcheviques lançaram, então, novamente, a palavra de ordem ‘Todo o poder aos

revolução. Derrubaram o Ministério Miliucov. Foram seus sovietes que proclamaram ao sovietes!”, tão querida das massas, apesar de, nessa época, a maioria dos sovietes estar nas

mundo inteiro as condições de paz da Rússia: “Nenhuma anexação, nenhuma indenização. mãos dos seus encarniçados inimigos, os socialistas “moderados”.

Direito de os povos disporem de si próprios.” E em julho, a sublevação espontânea e Os bolcheviques sondaram os desejos do povo. Compreenderam as aspirações

desorganizada do proletariado, que assaltou novamente o Palácio de Taurida aos gritos de elementares e rudes dos trabalhadores, dos soldados, dos operários. Levando-as em conta,

“Todo o poder aos sovietes!”, demonstrou, mais uma vez, que as massas estavam decididas elaboraram o seu programa.

a impor a sua vontade. Os sociais-patriotas mencheviques, ao contrário, estavam ao lado da burguesia, em

Os bolcheviques constituíram neste momento um pequeno partido, mas se íntimo contato com ela, entrando em acordos, firmando compromissos. Em conseqüência

colocaram, resolutamente, à testa do movimento de julho. O fracasso dessa tentativa dessa ação, os bolcheviques conquistaram rapidamente as massas da Rússia.

sediciosa ergueu a opinião pública reacionária contra eles. Sem chefes, suas tropas Em julho, eram caçados como animais ferozes, insultados, desprezados. Mas, em

retornaram ao bairro de Viborg, o Saint-Antonie de Petrogrado. O Governo começou então setembro, os marinheiros da esquadra do Báltico e os soldados já haviam sido conquistados

a caçar os bolcheviques de maneira selvagem, prendendo centenas e centenas de militantes para a sua causa. As eleições realizadas nessa época mostraram isso de modo bem

do partido de Lenine, entre os quais Trotsqui, Cameaev e Alexandra Colontai. Lenine e expressivo, pois os mencheviques e os socialistas revolucionários, que, em julho,

Zinoviev, perseguidos pela justiça, tiveram de se esconder. Os jornais bolcheviques foram concentravam 70% dos votos, obtiveram apenas 18%...

proibidos de circular. Reacionários e provocadores espalhavam aos quatro ventos que os Um fato intrigou imensamente os observadores estrangeiros: o Comitê Central

bolcheviques eram agentes dos alemães. Gritaram tanto que acabaram sendo ouvidos. Executivo dos Sovietes, os comitês centrais do exército e da marinha e a direção central de

Mas, o Governo Provisório não conseguiu provar que os bolcheviques serviam alguns sindicatos, principalmente dos sindicatos dos telegrafistas e dos ferroviários, faziam

como agentes de Guilherme II. Ao contrário, ficou evidenciado que os documentos a violenta oposição aos bolcheviques. Contudo, era um fenômeno perfeitamente explicável.

respeito da imaginária conspiração pró-Alemanha não passavam de grosseira falsificação. Esses comitês haviam sido eleitos no verão anterior, quando os mencheviques e os

Aos poucos, os bolcheviques foram sendo libertados pelos tribunais, com ou sem fiança e socialistas revolucionários gozavam de enorme prestígio. Depois, a situação se modificou.

sem julgamento. Só seis permaneceram presos. Evidenciou-se daí por diante, aos olhos de Sabendo que não contavam mais com o apoio das massas, esforçavam-se agora para

todo mundo, a total impotência e indecisão do Governo. impedir novas eleições ou para retardá-las o mais possível.
O Congresso Pan-Russo devia ser convocado em setembro pelo Tsique, de acordo “A revolução – disse-me ele – é uma doença. Cedo ou tarde as potências

com a Constituição do Sovietes de Deputados Operários e Soldados. estrangeiras terão de intervir, exatamente como um médico que trata de uma criança

O Tsique justificava o retardamento dessa convocação, alegando que, dentro de dois enferma, ou alguém que a ensina a andar. É claro que a intervenção estrangeira não se fará

meses, a Assembléia Constituinte estaria reunida. E, na sua opinião, depois da eleição da de modo mais ou menos impróprio. Mas, os países acabarão compreendendo o perigo do

Assembléia, os sovietes deveriam desaparecer. Entretanto, pouco a pouco, os bolcheviques bolchevismo em suas próprias terras... como o perigo que representam para si as

conquistavam os sovietes locais, os sindicatos e as massas de operários, soldados e contagiosas idéias de “ditadura do proletariado” ou de “revolução socialista”. Acho que

camponeses, cujos sovietes eram ainda conservadores, porque a consciência política dos será muito difícil evitar esta intervenção. As fábricas estão fechando, os transportes

camponeses desenvolvia-se lentamente. Além disso, é preciso considerar que o Partido paralisam-se. Os alemães avançam. Entretanto, é possível que a fome e a derrota façam o

Socialista Revolucionário fora o partido tradicionalmente camponês, pelo menos durante povo russo voltar à razão…”

uma geração inteira. Apesar de tudo, porém, a consciência revolucionária desenvolvia-se O banqueiro Lianosov estava plenamente convencido de que os fabricantes e

também no meio agrícola. Isto ficou bem claro em outubro, quando o Partido Socialista comerciantes não poderiam, em hipótese alguma, permitir a existência dos comitês de

Revolucionário se cindiu, surgindo uma nova facção política, a Esquerda Socialista fábrica ou tolerar o menor controle operário na indústria.

Revolucionária. “Em relação aos bolcheviques – continuou Lianosov – penso o seguinte: ou o

Ao mesmo tempo, vários sintomas indicavam que a reação começava a se tornar Governo evacua Petrogrado, declara o estado de sítio e autoriza o chefe militar do distrito a

mais confiante, No Teatro Trotsqui, de Petrogrado, durante a representação da comédia “Os tratar esses senhores sem as formalidades legais… ou, se a Assembléia Constituinte se

Pecados do Tzar”, um grupo de monarquistas interrompeu o espetáculo e quase chegou a deixar dominar por tendências utópicas, o Governo deverá contar com a força das armas

linchar os atores, por estarem “insultando o Imperador”. Certos jornais já pregavam para dissolvê-la…”

abertamente que a Rússia precisava de um “Napoleão russo”. Os intelectuais burgueses O inverno, o terrível inverno russo, chegava. Eu ouvi muitos homens de negócios

ridicularizavam os sovietes de deputados operários (rabotchique deputatov) chamando-o de dizendo: “O inverno foi sempre o maior amigo da Rússia. É bem provável que nos livre da

sabatchique deputatov, o que significa deputados de cães. revolução.” Sem o menor entusiasmo, os soldados sofriam e morriam na linha de frente. Os

A 15 de outubro, entrevistei um grande capitalista, Stepan Georgevitch Lianosov, transportes ferroviários cessavam por falta de combustível. As fábricas fechavam suas

conhecido como o “Rockfeller Russo”, um cadete convicto.


portas. E, no auge do desespero, o povo gritava que a burguesia era responsável pelos Governo. Gêneros de primeira necessidade e comestíveis eram armazenados

sofrimentos do povo e pelas derrotas das tropas russas. clandestinamente ou exportavam-se para a Suécia. Nos quatro primeiros meses de

Riga foi sitiada logo após o General Cornilov ter dito publicamente: “Será revolução, por exemplo, as reservas de gêneros de primeira necessidade desapareceram dos

necessário perder Riga, para que a nação torne a ter o senso do seu dever?” grandes armazéns municipais de Petrogrado. Os cereais acumulados davam para abastecer a

Nós, norte-americanos, custávamos a crer que a luta de classes fosse capaz de gerar cidade durante dois anos, mas, num mês, desapareceram. De acordo com um informe

ódios tão intensos. Vi oficiais na frente norte, que preferiam abertamente uma catástrofe oficial do último ministro da alimentação do Governo Provisório, o quilo de café, em

militar a qualquer entendimento com os comitês de soldados. O Secretário de Secção dos Vladivostoqui, era comprado por 4 rublos, enquanto o consumidor em Petrogrado pagava-o

Cadetes de Petrogrado garantiu-me que o descalabro econômico geral era parte de um a 26 rublos. Em todos os depósitos e armazéns havia toneladas de alimentos e roupas, que

plano organizado para desmoralizar a revolução aos olhos das massas. Um diplomata só os ricos podiam adquirir.

Aliado, cujo nome prometi não revelar, confirmou o que me dissera o oficial. Soube ainda Conheci numa pequena cidade do interior, um negociante transformado em

que algumas minas de carvão perto de Carcov tinham sido incendiadas e inundadas por revendedor – maradior (bandido), como dizem os russos. Seus três filhos tinham

seus próprios donos, e que muitos engenheiros de fábricas têxteis, antes de abandoná-las conseguido escapar ao serviço militar. Um deles especulava fraudulentamente com

em poder dos operários, destruíram suas máquinas. Empregados ferroviários haviam sido produtos alimentícios. O outro vendia ouro ilegalmente nas minas de Lena, na Finlândia. O

igualmente surpreendidos por trabalhadores quando inutilizavam suas locomotivas… terceiro era o principal acionista de uma fábrica de chocolate que abastecia as sociedades

Grande parte da burguesia preferia os alemães à revolução. Neste número, contava- cooperativas locais sob a condição de estas lhe fornecerem tudo de que necessitasse. Assim,

se o próprio Governo Provisório, que não escondia mais o seu ponto de vista. enquanto a massa popular só obtinha 125 gramas de pão negro, com cartões especiais de

Na casa onde eu residia, durante as refeições, só se falava na próxima chegada dos racionamento, ele conseguia em abundância pão branco, chá, açúcar, café, manteiga… Não

alemães, que viriam restabelecer “a ordem, a lei” etc… Uma tarde, tomando chá em casa de obstante, quando os soldados nas trincheiras, vencidos pelo frio, pela fome e pela miséria,

um negociante de Moscou, perguntei às onze pessoas presentes se preferiam Guilherme II não puderam mais combater, toda essa família gritou, indignada: “Covardes!” – que

aos bolcheviques. Os votos foram dez a um, a favor de Guilherme… “vergonha”, por “serem eles russos…” E quando, finalmente, os bolcheviques descobriram

Os especuladores aproveitaram-se da desorganização total para amontoar fortunas, e requisitaram os vastos depósitos, que “ladrões” eles eram…

que eram dispendidas em fantásticas orgias ou no suborno dos altos funcionários do


Auxiliando essa putrefação moral, moviam-se as antigas forças subterrâneas, agindo rapidez a uma existência nova e agitada. Num salto brusco, passava a situação política de

sempre com os mesmos métodos, desde a queda de Nicolau II – secretamente, mas em tal ordem, que os Cadetes tinham de ser considerados como “inimigos do povo”;

plena atividade. Querensqui, como “contra-revolucionário”; os chefes socialistas, Tsereteli, Dan, Lieber,

Os agentes da misteriosa Ocrana4 continuavam trabalhando como no tempo do Tzar, Gotz e Avxentiev, como reacionários; e homens como Vitor Tchernov e até Máximo

pró ou contra Querensqui, a serviço de quem pagasse mais... Secretamente, numerosas Gorqui, como direitistas...

organizações clandestinas funcionavam, como por exemplo, os Cem Negros, Em dezembro de 1917, um grupo de dirigentes socialistas revolucionários fez uma

ocupadíssimos em restabelecer, de uma forma ou de outra, a reação. visita privada a Sir George Buchanan, Embaixador da Inglaterra, pedindo-lhe que não

Nessa atmosfera de corrupção e de monstruosas incertezas, dia após dias, ouvia-se mencionasse o fato de terem ido visitá-lo, pois eles poderiam ser considerados como

cada vez mais forte o coro profundo dos bolcheviques: “Todo o poder aos sovietes! Todo o “elementos da extrema direita.”

poder aos representantes diretos de milhões e milhões de operários, soldados e “E pensar, disse Sir George, que há um ano atrás eu recebi instruções do meu

camponeses! Fim à guerra insensata e à diplomacia secreta, à especulação e à traição! A Governo para não receber Miliucov, pois ele era um perigoso esquerdista!”

Revolução está em perigo, e com ela, a classe operária de todo o mundo!” Setembro e outubro são os piores meses do ano na Rússia, principalmente em

O embate entre o proletariado e a classe média, entre os sovietes e o Governo, que Petrogrado. Sob um céu cinzento e nublado, nos dias mais curtos, a chuva cai incessante,

começara em março, estava no auge. Após um salto gigantesco, da Idade Média ao século ensopando tudo.

XX, a Rússia apresentou ao mundo alarmado, dois tipos de revolução – a política e a social Amontoava-se a lama em todas as ruas, cobrindo-as com uma camada movediça e

– através de uma luta sangrenta. pegajosa. A falência completa da administração repercutiu enormemente na limpeza das

Que vitalidade demonstrou a Revolução Russa, depois de tantos meses de miséria e cidades. Do Golfo da Finlândia soprava um vento úmido, que cobria as ruas com um

de desilusões! A burguesia precisava conhecer melhor a sua Rússia. Se assim fosse, a pesado manto de neblina gelada. Durante a noite, ao mesmo tempo por economia e por

“doença” revolucionária não teria chegado até onde chegou... medo dos zepelins5, Petrogrado ficava às escuras. Só raramente se acendia uma lâmpada, e,

Olhando para trás, vemos que a Rússia, antes do levante de novembro, parecia viver assim mesmo, fraca. Nas casas, em lugar de luz elétrica, empregavam-se velas ou lampiões

noutra época histórica, inacreditavelmente conservadora. Por isso teve que se adaptar com de querosene das 18 horas à meia-noite. Das 18 até às 10 da manhã do dia seguinte, a

4 Polícia secreta. 5 Durante a Primeira Guerra Mundial, os alemães usaram dirigíveis para bombardeamento aéreo.
escuridão era tão densa nas ruas, que nada se via à distancia de um passo. Os roubos e os inverno russo! Nessas filas de homens à espera de pão, ouvi muitas vezes palavras de

assaltos eram freqüentes. Nos hotéis, os hóspedes revezavam-se durante a noite montando descontentamento que, apesar de sua índole, as multidões russas deixavam escapar...

guarda com um fuzil na mão. Isto acontecia sob a gestão do Governo Provisório. É claro que os teatros funcionavam sem interrupção todas as noites, inclusive aos

Semana após semana, os gêneros de primeira necessidade escasseavam. A ração domingos. Carsavina apareceu com um não bailado no Marinsqui, e todos os amantes da

diária de pão foi diminuindo de 750 gramas, para 500 gramas, e, mais tarde, para 250, e boa dança foram vê-la. Chaliapine cantava. “A Morte de Ivan, o Terrível”, de Tolstoi, podia

ainda para 125. Afinal, veio uma semana em que se chegou a nada: não havia mais pão. O ser vista no Alexinsqui, representado por Meyerhold. E recordo-me de um estudante na

açúcar ficou reduzido à ração de um quilo por mês, mas consegui-lo era quase impossível. Escola Imperial de Pajens, que se manteve de pé, falando durante todo espetáculo, a olhar

Uma barra de chocolate, ou 500 gramas de caramelos da pior espécie, custava em toda fixamente para o camarote vazio do Tzar, que tivera as águias imperiais arrancadas... O

parte 7 ou 8 rublos, isto é, um dólar, ao câmbio da época. O leite não dava senão para a Crivoie Zercalo apresentou o “Reigen”, de Schnitzler, com suntuosa montagem.

metade das crianças da cidade; a maior parte dos hotéis e das famílias não teve leite durante Apesar do Hermitage e outros museus terem sido transferidos para Moscou, todas as

meses. Na estação em que as frutas eram mais abundantes, pêras e maçãs estavam sendo semanas realizavam-se exposições de pinturas. Grande número de mulheres intelectuais

vendidas a um rublo cada uma. assistia às conferências sobre arte, literatura ou temas filosóficos para principiantes. A

Para comprar leite, pão, açúcar e fumo era necessário esperar, numa fila, durante estação tesosófica foi bastante animada. E o Exército da Salvação, admitido na Rússia pela

horas seguidas, sob uma gélida chuva. Chegando em casa tarde, de volta de uma reunião primeira vez na história, enchia as paredes com cartazes anunciando suas reuniões

que se prolongara pela noite adentro, antes do nascer do dia, vi mulheres (muitas com protestantes, que distraíam e assombravam o auditório russo.

crianças ao colo) chegando àquela hora para serem atendidas mais cedo. Carlyle, na Como sempre acontece em casos semelhantes, a vida convenciona1 e fútil da cidade

História da Revolução Francesa, disse que o povo francês distingue-se, acima de todos os seguia o seu curso, ignorando a revolução tanto quanto possível. Os poetas faziam versos,

outros, pela faculdade de esperar. Na Rússia, o povo estava acostumado a fazer isso desde o mas não sobre Revolução. Os pintores realistas pintavam cenas históricas da Rússia

reinado de Nicolau, o Santo. Daí por diante, com intermitência, continuou a fazer filas, até Medieval, mas não reproduziam um só aspecto da revolução. As mocinhas das províncias

o verão de 1917, quando estabeleceu-se certa ordem. Não se pode fazer idéia da situação continuavam chegando à Capital para aprender francês e estudar canto, e os alegres oficiais

desses pobres homens, que ficavam o dia inteiro nas ruas frígidas de Petrogrado, em pleno exibiam nas ante-câmaras os bordados dourados, os bashiliqui 6 carmezins e as belas

6 A palavra deriva de bash (cabeça). Espécie de touca ou echarpe. Cobertura usada por certas tropas de
cavalaria, ornada com borlas.
espadas caucasianas. Mulheres da pequena burguesia saíam todas as tardes para o passeio realizar sua missão histórica, combatendo a velha ordem estabelecida, A Rússia inteira

ou o chá, levando consigo o minúsculo açucareiro de ouro ou prata e um pãozinho aprendia a ler, e lia política, história, pois o povo queria “saber”. Em cada cidade, em cada

escondido no regalo, repetindo nas conversas fúteis, que faziam votos pelo volta do Tzar e povoado, nas trincheiras, cada agrupamento político possuía o seu jornal e, às vezes,

pela entrada dos alemães na Rússia. Ou que, pelo menos, aparecesse alguém capaz de folhetos eram distribuídos aos milhares por centenas de organizações, atingindo o exército,

solucionar o problema das criadas... A filha de um amigo meu chegou um dia a minha casa as fábricas e os mais distantes rincões. A sede de instrução, durante tanto tempo insatisfeita,

sufocada de indignação porque uma mulher, condutora de bonde, a havia chamado de lançou a Rússia num verdadeiro delírio de manifestação de idéias. Só o Instituto Smolni,

“camarada”. durante os primeiros seis meses, expediu caminhões e trens abarrotados de brochuras e

No interior da imensa Rússia, tudo estava em atividade, preparando o novo mundo. manifestos de propaganda, que inundaram o país. A Rússia absorvia livros, manifestos e

Os servos, que sempre haviam sido tratados como animais de carga quase a troco de nada, jornais como a areia suga a água. Era insaciável. E não eram fábulas, história falsificada,

já começavam a tornar-se independentes. Um par de botinas custava mais 100 rublos e os religião diluída ou novelas corruptoras, mas teorias econômicas e sociais, filosofia, obras de

salários eram quase sempre inferiores a 35 rublos mensais: os criados não se sujeitavam Tolstoi, Gogol e Gorqui.

mais a permanecer nas filas e estragar os seus sapatos. Na nova Rússia, todo o homem e O “aluvião dos discursos franceses” na palavra de Carlyle, era uma simples gota

toda a mulher podia votar; havia jornais operários que explicavam esses novos e d’água, ao lado desse oceano. Conferências, debates, discursos nos teatros, circos, escolas,

surpreendentes acontecimentos. Havia sovietes e sindicatos. Os izvostchiqui (cocheiros), clubes, sovietes, salas de reunião, centros sindicais, quartéis... Comícios nas trincheiras, nos

além do seu sindicato, possuíam até um representante no Soviete de Petrogrado. Também bairros operários, nas praças públicas, nas fábricas... que espetáculo maravilhoso ofereciam

os garçãos de cafés e restaurantes tinham sua organização e recusavam gorjetas. Nas os quarenta mil operários da fábrica Putilov reunidos, dispostos a ouvir atentamente os

paredes dos restaurantes havia cartazes, dizendo: “Não recebemos gorjetas”, ou “Pelo fato social-democratas, os socialistas revolucionários, os anarquistas, dissessem eles o que

de ganhar a vida como garção, um homem não merece ser insultado com o oferecimento de dissessem, sem se importarem com a extensão dos discursos! Durante vários meses, em

gorjetas”. Petrogrado e em toda a Rússia, cada esquina era uma tribuna pública. Nos trens, nos

Nas frentes de combate os soldados estavam em luta contra os oficiais e já bondes, em toda a parte, repentinamente, surgiam polêmicas e discursos.

conquistavam a autodeterminação pela formação dos próprios comitês. Os comitês de A par disso, realizavam-se as conferências e os congressos pan-russos, onde se

fábrica tornavam-se mais experientes, aumentavam as suas forças e preparavam-se para reuniam habitantes dos dois continentes; as convenções dos sovietes, das cooperativas, dos
sindicatos, dos sacerdotes, dos camponeses, dos partidos políticos: a Conferência conselheiro privado, com a perspectiva de uma aposentadoria com bons vencimentos e a

Democrática, a Conferência de Moscou, o Conselho da República Russa. Havia sempre em possibilidade de conseguir a “Cruz de Santa Ana...”

Petrogrado três ou quatro convenções funcionando. Em todas as reuniões, eram rejeitadas Este é o caso do Senador Socolov que, em plena revolução, não pôde um dia

as propostas tendentes a limitar o tempo de intervenção dos oradores. Qualquer um podia participar de uma sessão do Senado, porque não vestira os trajes protocolares de serviço do

expressar livremente o seu pensamento. Tzar!

Fui visitar postos avançados do 12° Exército, perto de Riga, onde os soldados A revolta das massas da Rússia ia dirigir-se, logo depois, contra essas forças

extenuados, descalços, adoeciam no 1odo das trincheiras. Quando me viram, esses homens retardatárias, que detinham o avanço de um povo em fermentação e desagregação.

macilentos, com o sofrimento estampado nas faces, padecendo o frio e a umidade que

penetravam pelos vãos abertos nas vestes esfarrapadas, correram para mim, perguntando

ansiosos: “Você trouxe algo para se ler ?” GRÃ-FINOS EM SÃO PAULO

Muita coisa havia mudado. A estátua de Catarina, a Grande, diante do Teatro Joel Silveira

Alexandrisqui, teve uma bandeira vermelha nas mãos. Outras foram içadas nos edifícios

públicos, com as águias imperiais arrancadas ou cobertas. Nas ruas, em lugar da feroz Durante uma semana, fiquei atordoado com a vida elegante de São Paulo. Haviam

Gorodovoie (Guarda Civil), via-se agora uma polícia pacífica, desarmada, apenas me levado para algumas festas; primeiro um aperitivo, colorido e com pedaços de fruta

patrulhando. Mas, ainda havia uns tantos anacronismos. Por exemplo, a Tabel o Rangov – a dentro, depois uma carreira rápida de automóvel. Estive em jantares fascinantes. As

Mesa da Hierarquia – que Pedro, o Grande, criou com mão de ferro para subjugar a Rússia, mulheres, muito belas e perfumadas. Particularmente aquelas que puxam os cabelos para

ainda existia. Quase todo o mundo, dos alunos das escolas para cima, ainda vestia os cima, num jeito que abandona aos nossos olhos as lindas nucas nuas. Durante uma tarde

uniformes regulamentares, com a efígie do imperador nos botões e nas ombreiras. Depois inteira, fiquei semideitado numa poltrona de um apartamento chique, no Centro da cidade.

das quatro da tarde, as ruas enchiam-se de homens já velhos, com pastas debaixo do braço, O dono era um rapaz que eu não conhecia e que possivelmente talvez ainda não saiba quem

que voltavam melancolicamente para casa. Eram os funcionários dos ministérios e das sou e o que fui lá fazer. Fui de mistura com outros, como penetra. Os rapazes se vestem

repartições públicas, talvez calculando intimamente quantos colegas precisavam morrer muito bem e telefonam. Telefonam de cinco em cinco minutos e conversam com Lili, com

para que fossem promovidos e chegassem ao posto de chefe da administração ou a Fifi, com Lelé. Recebem também telefonemas de Fifi, de Lili e de Lelé. Conversei
longamente com um rapaz, inteligente e vivo, que eu conhecera de caminhadas pela Lapa e ou menos semelhantes: o libreto vai, vai e, perto do fim, tudo se torna grande e

discussões de madrugada, aqui no Rio de Janeiro. Está irreconhecível. Fez roupas novas (o maravilhoso. Depois a ópera acaba.

feitio de cada, me garantiu, não custa menos de um conto e duzentos), adquiriu novos

hábitos. Um dos hábitos: conversar sobre os feitos da noite anterior na pista do Jequiti. O maior da América do Sul

São Paulo sempre teve seu mundo de luxo, um mundo essencialmente grã-fino. É Um dia desses um rapaz paulista, faminto e desempregado, resolveu se matar. Subiu

coisa que acontece com todas as cidades que enriquecem. A riqueza paulista, é sabido, vem até o último andar do edifício Martinelli – pularia lá de cima. Mas a altura era enorme e o

de suas fábricas. Agora as fábricas estão trabalhando ainda mais, porque a guerra é rapaz vacilou. Lá embaixo, impaciente e aflita, a multidão esperava que o rapaz se

exigente. Dia e noite, os motores não param. Há uma turma de operários que passa o dia decidisse. Mas o rapaz resolveu não se matar. Os jornais anunciaram, se o rapaz pulasse,

inteiro diante dos motores. Quando chega a noite, a turma vai embora, muito cansada, e aquele seria o mais sensacional suicídio da América do Sul. O edifício de onde o rapaz ia

chega outra que se cansará até de madrugada. saltar é o maior da América do Sul. Mas não o será dentro em breve: ao seu lado já está

crescendo outro, que será maior do que o maior da América do Sul.

A ópera Há coisas muito estranhas em São Paulo: os cafés não têm cadeiras nem mesinhas,

Então, as cifras vão crescendo. A gente lê os relatórios, tão frios, conversa com dessas onde a gente costuma sentar e conversar. O trânsito das ruas é dirigido por guardas

homens ricos, olha para as vitrines onde as peles e os brilhantes são cada vez mais caros – e rigorosos, como nas outras cidades importantes. E nas salas do Automóvel Clube homens

tudo isso nos está dizendo que São Paulo está cada vez mais rico. As mulheres compram as muito ricos jogam razoáveis fortunas, em alegres jogos de carta. Um financista de São

peles, compram os brilhantes, os homens jogam na Bolsa pequenas fortunas, jogam no Paulo, dono de várias fábricas e várias empresas, é homem sensível e inteligente, muito

Automóvel Clube o dinheiro que ganharam hoje, que ganharão amanhã. culto, que adora livros e faz versos. Seu rosto é cor-de-rosa, como o rosto das crianças.

O dinheiro torna tudo belo: o mundo elegante de São Paulo, neste ano de 1943, está Seus cabelos estão alvos, porque a vida cheia de trabalho do milionário os fez assim. Mas

num dos seus momentos de maior esplendor. Há uma atmosfera de conforto em tudo: as não existe ódio nem raiva na voz do financista: ele conversa sobre livros, lê suas traduções

mulheres, como as orquídeas que nascem de dezenas de enxertos, não poderão ser mais de poemas clássicos e sua voz é suave e absorvente, como uma esponja.

requintadas e preciosas. É como se fosse uma apoteose. Nas óperas a gente vê coisas mais

A flor
Mas os milionários são muitos. Raros são os milionários poetas em São Paulo, mas

há muitos outros que não fazem versos. Uma noite, no Jequiti-Bar, conheci alguns deles: o O "coin des bouquins"

milionário Lafer, o milionário Pignatari, o milionário Matarazzo, o milionário Crespi. Era O chá na Jaraguá faz parte do ritual grã-fino. Lili não o dispensa. Zezé e Lelé fazem

uma festa somente para milionários, e sobre todos aqueles sobrenomes repousava a força tudo, adiam tudo, mas não podem perder o chá na Jaraguá. O leitor, geralmente

paulista de hoje. Por detrás dos sobrenomes, há um mundo incrível: centenas de fábricas, desprevenido, estará pensando, sem dúvida, que a Jaraguá é apenas uma casa de chá. Não.

milhares de chaminés, milhares de motores, milhares de operários. Era um grupo terrível, A Jaraguá também é livraria.

avassalador. Com um gesto de mão, qualquer um deles poderia me aniquilar, me tanger Um dos seus freqüentadores, aliás, me corrigiu:

longe, lá na rua. Mas os milionários apenas sorriam. Sorriam e bailavam com as mulheres, – A Jaraguá é uma livraria. Apenas nos fundos existe um lugar onde se pode tomar

todas muito belas. Alguns daqueles homens, os pais de quase todos eles, haviam chegado chá e conversar sobre livros e quadros.

pobres ao Brasil. Mas São Paulo os estava esperando, e hoje eles são donos das fábricas, A intenção – intenção de alguns artistas e escritores – era muito boa. Mas me parece

das indústrias e dos lucros paulistas. que o grã-finismo está estragando o plano. A verdade é que a Jaraguá, que os seus

É noite e São Paulo rico está resumido ali na pista do Jequiti-Bar. Durante o dia, as idealizadores planejavam tornar imprescindível no mundo artístico e cultural de São Paulo,

mulheres fizeram coisas inúteis: acordaram tarde, almoçaram em bloco, jogaram pif-paf, é hoje, apenas, mais um ponto de reunião do grã-finismo, um ponto onde Fifi marca

compraram a revista Sombra, tomaram chá na Livraria Jaraguá, jantaram na Papote e encontro com Lelé para falar mal de Zuzu.

falaram das amigas. Um dos autores do plano da Jaraguá me explicou:

Os homens ganharam dinheiro. Alguns não fizeram muito esforço para isso: apenas - Nós fizemos aqui o que existe na Inglaterra. Você sabe (eu não sabia) que em

assinaram alguns papéis. Outros estiveram nas fábricas, conversaram com o gerente, Londres e outras cidades inglesas, principalmente Cambridge e Oxford, há o que se chama

telefonaram para o Rio. À tarde foram ao Automóvel Clube, um lugar triste como um a "livraria com sala de chá".

cemitério. Perderam algum dinheiro em jogos inocentes; mas o que perderam nem chega a O objetivo dos ingleses, em Paris também existem muitas livrarias idênticas, é criar

representar uma humilde fração dos lucros que conquistaram durante o dia. um ponto de reunião de artistas e intelectuais, enfim, um “coin des bouquins”, você sabe.

O Jequiti é o mar noturno onde todos se encontram. Um mar de felicidade onde – O quê?

todas as possíveis tristezas e decepções se diluem e se inutilizam.


– Um “coin des bouquins” como aquele de que fala Anatole France no “M. Podemos citar alguns nomes femininos, os mais requintados e sugestivos, que

Bergeret”, que encontrava os companheiros de prosa “chez M. Paillor, libraire, à l'enseigne formam a geléia grã-fina paulista: as Alves Lima, senhoras Nélia, Bebé, Vera e Stela, e as

de St. Margueritte”. Outro objetivo da livraria é o de vender bons livros antigos e senhoras Fifi Assunção, lolanda Penteado, Carminha da Silva Teles, Marjorie da Silva

modernos, livros de arte, boas edições e encadernações. Depois o Léo Vaz, sempre cheio de Prado, Belinha Sodré, Alice Mendonça, e muitas outras. Em qualquer festa de importância,

idéias, sugeriu a “Bolsa do Livro”. podemos encontrar todas elas, um grupo à parte, impermeáveis corno se estivessem

Em poucas palavras, a “Bolsa do Livro” é um pedaço de cartolina pregado numa enroladas em papel celofane.

parede da livraria. Um cavalheiro que tenha um livro raro para vender escreve o nome do Cintilantes de jóias, as senhoras do segundo grupo, o grupo "reserva”, têm olhos

livro e o preço na cartolina. Outro cavalheiro, que deseje adquirir uma raridade, faz a derramados sobre a gente de pedigree. É o grupo das filhas dos italianos ricos, o grupo de

mesma coisa. Na tarde em que estive na Jaraguá, visitei a cartolina: o lado das dona Odete Matarazzo, dona Débora Zampari, d. Rose Frontini, d. Irene Crespi, d. Mimosa

preciosidades ofertadas estava repleto. Pignatari, d. Helena Noquosi. O pai de dona Odete, por exemplo, veio ver o que havia por

aqui, e por aqui havia muito.

O sobrenome D. Odete casou-se com um homem muito rico. O que é mais: tem um sobrenome, e

Além do “quarto grupo” grã-fino, o grupo de Alfredo Mesquita e Roberto Moreira, os sobrenomes, quatro ou cinco deles, são os donos de São Paulo. D. Odete tem atrás de si

existem outros três grupos, cada qual com suas características próprias. O primeiro grupo é fábricas e exércitos de operários. É uma senhora muito poderosa.

formado pelos grã-finos de pedigree, os tais paulistas de quatrocentos anos, e representa o

pináculo do grã-finismo. São criaturas repletas de antepassados, aqueles senhores heróicos Dinheiro

e sem muitos escrúpulos que rasgaram as matas de São Paulo, vadearam os rios, D. Fifi Assunção e d. Iolanda Penteado são muito mais paulistas do que d. Irene

descobriram as montanhas e fizeram as primeiras cidades. Morreram todos, estão Crespi. São paulistas de quatrocentos anos. Vocês, que apenas são capixabas do princípio

enterrados na História, mas deixaram aos seus descendentes um presente régio: deixaram do século, não sabem o que significa, em São Paulo, ser um paulista de quatrocentos anos.

um cartão de visita, espécie de permanente com o qual um Prado, um Leme e um Alves É mais importante do que ter uma estátua na praça pública. O poeta Olegário Mariano tem

Lima podem entrar em tudo sem pagar nada. uma estátua na praça pública e passa despercebido na Rua do Ouvidor. Um paulista de

quatrocentos anos jamais será confundido na multidão da Rua Direita.


Apesar de tudo, é d. Irene Crespi quem tem o dinheiro. E fazem coisas terríveis: quando, por exemplo, a turma do primeiro grupo telefona,

As qualidades cronológicas de dona Iolanda e de dona Marjorie não podem ver com princípio da noite, para o Jequiti, pedindo mesa, o gerente é infalível na resposta:

bons olhos o passado um tanto rústico dos maridos da turma do segundo grupo. Mas o – Não é mais possível, cavalheiro. Todas as mesas de pista estão tomadas.

dinheiro está no segundo grupo, e o dinheiro tem voz eloqüente e poderosa. O dinheiro é a É que o grupo de “penacho” foi na frente e, com uma diligência típica, recrutou para

grande arma do segundo grupo: a arma que dá qualidade ao trabalho dos esforçados seus prazeres o que havia de melhor na boate. Por isso, leitor amigo, nunca se iluda: se você

italianos, que 1hes credencia na sociedade, que 1hes abre e às suas cintilantes esposas as quer conhecer a grã-finagem paulista e for uma noite ao Jequiti ou ao Roof, não se deixe

inacessíveis portas dos solares de Piratininga. O dinheiro atrai o primeiro grupo, e os levar pelos arrogantes e coloridos penachos, nem pelos envernizados cavalheiros das

quatrocentos anos de qualquer Prado ou Leme se derretem nos milhões do Conde primeiras mesas. Eles não são os tais. Os tais estão atrás, possivelmente nos piores lugares.

Matarazzo como manteiga em cima de uma chapa quente. O grupo do “estribo” se orgulha muito de suas relações com a gente chique. Diz

sempre: – “Ontem almocei com sicrana. Hoje à tarde tomarei chá com Fifi. Lelé me

O “estribo” e o “penacho” telefonou. Oh! diabo, esqueci de telefonar para Zuzu.” Vivem disso, boiando num falso mar

Mas há o terceiro grupo, um grupo lamentável e melancólico. É uma gente que não de grandeza.

vem lá de longe. Uma gente que nasceu por aí, de família recente, de médicos de Barretos

ou comerciantes de Bauru. Uma gente que não tem dinheiro. Os homens vivem dos seus Jerry, o oráculo

pequenos ganchos e comissões. Alguns escrevem em jornais uma literatura precária. Mas a Quando um ilustre casal paulista dá uma recepção em sua casa, já sabe para quem

serpente do grã-finismo tomou conta de todos, dos homens e das mulheres. As mulheres deve mandar os primeiros convites: para os maiorais do grã-finismo, os tais de quatrocentos

sacrificam os maridos, fazem milagres no orçamento mensal – contanto que se tornem anos, e para os dois cronistas sociais mais importantes de São Paulo: Jerry e Bilm.

dignas do Roof ou do Jequiti. É o grupo do “estribo” e o grupo do “penacho”. Os homens O verdadeiro nome de Jerry é Cornélio Procópio. É um rapazinho risonho, larga

se dependuram na vida mundana de São Paulo como se estivessem num bonde cheio. As fronte brilhante, com um bigode reto e fino, usa ótima dentadura e ótimo sorriso.

mulheres usam terríveis penachos, porque acreditam ser isto a característica principal da Diariamente, na Folha da Manhã, Jerry aparece através de sua literatura cor-de-rosa. Se

grã-fina, como o dente de ouro é característica em todo turco. Jerry, na noite passada, esteve numa festa elegante, descreve como foi a festa, fala dos

vestidos que viu, aplica adjetivos próprios aos melhores encantos femininos e masculinos,
pulveriza inocentes ironiazinhas sobre tudo aquilo que não lhe agradou ao olfato e à vista. ferveu. Um movimento intenso reinou naquele ambiente simpático, cheio de sol, de

Um grã-fino me disse: vivacidade, de alegria e de espontâneo entusiasmo.”

– Para que uma festa não seja um fracasso, tem que contar com a presença de duas “Os casais Fábio da Silva Prado, Edgard Conceição, Alberto Bianchi, Evaldo Foz,

pessoas: do Jerry e da Stela Alves Lima. Vitor Meireles, Francisco de Souza Dantas, Vitor e Eduardo Simonsen, Remo Prada,

Jerry tem algumas credenciais importantes: possui a tal história dos quatrocentos Roberto Ferreira, Luís Campelo, os Condes Silvio Penteado e Raul Crespi...”

anos, e sua família, ainda hoje, é dona de alguns recursos. Sua conversa é macia, sem “Deslizava pela superfície azulada de um mar muito calmo e muito manso a silhueta

espinhos. Os problemas do mundo não chegam até ele, e se chegassem Cornélio saberia alvíssima do Albacora o yacht bonito do casal Jorge da Silva Prado, que carregava amigos

como enfrentá-los: faria um muxoxo e telefonaria para Fifi, Fifi sem problemas nem para as delícias calmas de um longo cruzeiro.”

angústias. No mundo elegante de São Paulo, Jerry é mais importante do que d. Odete “Foi para que as tonalidades combinassem numa perfeita harmonia de cores que a

Matarazzo ou d. Irene Crespi. Dona Odete tem fábrica, d. Irene tem dinheiro. Mas Jerry tem senhora Horácio Lafer trazia um elegantíssimo slack em albene branco, d. Marjorie da

uma colona diária na Folha da Manhã que é o oráculo da elegância paulista. A coluna de Silva Prado, em amarelo e azul-pálido, a senhora Evaristo Almeida ainda de branco e

Jerry consagra ou põe abaixo qualquer pretensão grã-fina. Mas sua linguagem é sempre vermelho vivo...”

amena, porque um grã-fino nunca se compromete. E estilo de Jerry é como sua dentadura: “A silhueta esguia dos coqueiros desgrenhados, ao longo das praias alvas, parecia

uma coisa certa e limpa. Impossível é, porém, alguém saber se Jerry nasceu assim, com inclinar-se à beira d’água para melhor ouvir o murmúrio suave das ondas esverdeadas que

bons dentes, ou se o seu sorriso é realização de algum odontólogo caro. Aí embaixo vai na areia vinham morrer...”

uma amostra do estilo odol de Jerry. Trata-se de uma crônica que ele publicou há pouco no Debaixo de amendoeiras frondosas, indiretamente iluminadas, em mesinhas de

seu jornal sob o titulo de “Guarujá”. Diz assim: quatro, no ambiente simpático daquela casa normanda, o sr. e sra. Francisco Ramos de

“O tempo não quis fazer um papelão. Não quis também que todos ficassem Azevedo conversam com os amigos num finíssimo jantar que a um grupo grande de

desapontados. A princípio relutou com ameaças bruscas de nuvens baixas e acinzentadas. pessoas tiveram amabilidade de oferecer.”

Pingos grossos de chuva chegaram mesmo a cair. Depois, de repente, num abrir e fechar de “Os casais Armando Penteado, Eurico Sodré, Mariano Procópio, Evaristo de

olhos, um sol de ouro resolveu assumir a supremacia naquele céu sereno e azul cor de Almeida, Jorge da Silva Prado...”

turquesa. E o Guarujá viveu seus momentos de grande animação. A praia encheu, o cassino
“O vinho corria louro e generoso como a alegria franca da reunião, como as chamas O grã-finismo também tem os seus “intelectuais”, os seus literatos. Para qualquer

ainda mais louras daquelas pequeninas velas que iluminavam as mesas, como a grã-fino paulista, por exemplo, o maior escritor de São Paulo é o Sr. René Thiollier. René

amabilidade cativante de d. Zuleika, que, elegante num slack marrom e rubi, a todos Thiollier já é um cidadão bastante velho. Mas continua rico e elegante. Sua residência é

distribuía atenções e incalculáveis gentilezas.” muito famosa: chama-se “Vila Fortunata” e possui, entre outras surpresas, uma torre fina

coma um minarete. É lá em cima da torre, num pequeno gabinete, que Thiollier faz sua

Bilm literatura, uma mistura de versos acomodados e ensaios históricos sem grandes ousadias.

Bilm, a outra cronista mundana, é muito diferente de Jerry. Seu verdadeiro nome é Um dos cargos de René: o de secretário perpétuo da Academia Paulista de Letras.

Irene de Bojano. Jerry escreve pela manhã, Bilm escreve à tarde, na edição vespertina da Literato grã-fino é Guilherme de Almeida. Atualmente, apesar de uma seção meio

Folha. Bilm é muito mais seca do que Jerry. E também mais literata. Seu estilo, uma mundana que mantém na Folha da Manhã, Guilherme anda meio político com o grã-

coleção de lugares-comuns regados a adjetivos próprios, prefere cuidar das coisas do finismo paulista. É que ele cometeu o bruto erro de afirmar, numa reunião elegante, que

espírito: versos, teatro, música. Constantemente Bilm cita poemas dos seus poetas estava se inclinando para o socialismo. Houve um espanto geral e Guilherme perdeu alguns

prediletos, nacionais e estrangeiros. E suas preferências são muito instáveis. Bilm já gostou por cento do seu cartaz. De qualquer maneira, suas crônicas diárias não são melhores nem

muito de Alberto de Oliveira. Hoje prefere Vinícius de Moraes. piores do que as do Jerry. Às vezes são piores. Guilherme veste-se como um grã-fino do

Façamos uma demonstração prática: há uma festa em São Paulo, uma festa numa tempo em que Oswald de Andrade era grã-fino: polainas, pó de arroz no rosto e olhar vago.

casa particular, música, champanha e comidas. E prato para Jerry. No outro dia, acontece Outro literato do grã-finismo é o nosso já conhecido Roberto Moreira, que fez, há

qualquer coisa supergrã-fina no Teatro Municipal, como o Cega Rega ou o concerto de um vinte anos passados, uma conferência sobre Bilac. De lá para cá, em centenas de

pianista célebre: é prato para Bilm. Tal distinção faz com que Jerry nunca entre em atrito oportunidades mundanas, tem repetido a conferência para algumas gerações grã-finas de

com Bilm. Cornélio e Irene são bons amigos, com raios de ação delimitados. Jerry conhece São Paulo. Ainda não tive oportunidade de ouvir uma palestra do Dr. Roberto. Mas um

todas as cores do batom. Bilm está perfeitamente a par de todas as premières de sucesso na amigo me garantiu que na mesma existe mais recitativo do que na Biblioteca do Ar do Sr.

Broadway. Cesar Ladeira.

A especialidade de Paulo Assunção, outro “intelectual” da haute gomme, são os

Literatos da finesse brindes. Ninguém faz um brinde melhor do que ele, particularmente os brindes de
aniversário. O grã-finismo paulista tem seu historiador oficial: é o “escritor” Yan de voltar ao seio da haute gomme. Mas foi impossível. Hoje sua posição é a de um cidadão

Almeida Prado. Um dos seus poetas preferidos é o constante jovem Oliveira Ribeiro Neta, amargurado e revoltado com os seus antigos colegas de vida mundana. O que não quer

cuja árvore genealógica, no entanto, nasce em comprometedor solo sergipano. dizer que, de vez em quando e a pedido das circunstâncias, o inquieto humorista não corteje

Outro literato da finesse: Eurico Sodré. Eurico é sonetista e diretor da Light. Em alguns dos poderosos sobrenomes paulistas.

1912 publicou o seu primeiro e último livro de sonetos. Mas foi o nastante, pois que nessas Menotti del Picchia também pertenceu ao grã-finismo. Mas hoje os grã-finos não o

coisas literárias o grã-finismo não é muito exigente. suportam. Naturalmente, Menotti, que tanta coisa já fez contra tantos, deve ter feito

Figura ímpar na elegância dourada de Piratininga é o Dr. Roberto Somonsen, também algo contra os grã-finos.

proprietário de algumas das mais robustas cifras nacionais. Nas horas vagas, o Sr. O grã-finismo paulista não perdoa a Semana de Arte Moderna, que lhe roubou

Simonsen escreve livros, artigos e discursos sobre a “promissora situação financeira do alguns dos seus elementos mais brilhantes. Antes da Semana, a vida social de São Paulo era

Brasil”, da qual ele é um dos sustentáculos. O Sr. Simonsen é também conhecido e muito acomodada. A Semana, idéia do grã-fino Graça Aranha, trouxe os primeiros

admirado pelo seu amor ao vernáculo. Seus discursos e livros são primores de correção desentendimentos e os primeiros atritos. O único elemento da Semana que a haute gomme

gramatical. É verdade que o milionário Simonsen, tão cheio de afazeres lucrativos, não tem militante de São Paulo não perdeu foi Guilherme de Almeida. Mas a verdade é que

tempo para perder com as vírgulas e pronomes. Simonsen possui um gramático especial e Guilherme entrou na revolução modernista pensando que se tratava apenas de um outro chá

particular, o Sr. Marques da Cruz, que recebe mensalmente um ordenado convidativo das cinco. Recuou a tempo. O desenhista Belmonte conseguiu introduzir algumas cunhas

apenas para pôr em alto estilo as considerações do seu patrão e espatilhar nas leis de na finesse. É quase sempre convidado para as festas e os chás. Dá-se perfeitamente bem

Cândido de Figueiredo possíveis liberalidades lingüísticas do financista. com o pedigree e os sobrenomes. Suas charges, sempre bem comportadas e geralmente a

Oswald de Andrade também já pertenceu à nata elegante de São Paulo. Mas foi favor dos mais fortes, têm-no ajudado muito na sua carreira vitoriosa. Creio que Belmonte

expulso da finesse quando perdeu sua primeira fortuna. Depois disto, o finalmente é o único caricaturista (?) no Brasil que conseguiu juntar dinheiro com sua arte.

romancista de Marco Zero surgiu como dono de várias outras fortunas. Mas o grã-finismo

não pode receber em seu seio um cavalheiro que vive assim em altos e baixos econômicos. O colar da princesa

O que caracteriza um grã-fino do primeiro e segundo grupos é a sua posição econômica Mas nem sempre a vida de um grã-fino é plácida e rósea. De vez em quando

absolutamente estável. Durante muito tempo, Oswald de Andrade fez uma bruta força para acontecem tormentas e pequenas tempestades. Recentemente, por exemplo, o grã-finismo
paulista sofreu um bruto golpe. Foi o caso da “Colar da Princesa”. A história pode ser Uma senhora criou olheiras. Um rapaz, visivelmente abatido, retirou-se durante meses para

contada em rápidas palavras: quando D. Duarte Nuno veio fazer a América aqui no Brasil, uma fazenda do interior.

e resolveu casar com a melancólica princesa brasileira D. Maria Francisca, com o objetivo Antes do caso do colar, a monarquia gozava de real prestígio no seio da finesse

de consolidar as questões monárquicas entre Portugal e o Brasil, o grã-finismo paulista paulista. Mas parece que D. Duarte não é bom político. Com a sua falta de atenção tão

saudou o acontecimento com entusiasmo e alegria. Afinal de contas, teríamos em lusitana, o príncipe de testa olímpica bombardeou seu prestígio entre os elegantes de São

Petrópolis o momento mais alto da elegância nacional. Um príncipe de verdade, embora Paulo. Os monarquistas formam hoje uma minoria insignificante. Quando esteve em São

cabeçudo e meio falido, iria casar com uma princesa à moda da casa. Imediatamente uma Paulo, D. Duarte foi tratado muito friamente. Em companhia do pintor Di Cavalcanti, o

lista começou a correr os meios da finesse de São Paulo: os grã-finos resolveram dar um jovem nobre visitou vários lugares históricos: o museu do Ipiranga e os andaimes da Sé. No

rico presente aos nubentes, um precioso colar de diamantes, e a lista pedia donativos. museu aconteceu um detalhe pitoresco: é que os funcionários da casa tornaram o pintor Di

Houve grã-finos bem estabelecidos na praça que não pestanejaram: com uma penada rápida Cavalcanti pelo príncipe, prodigalizando-lhe atenções e reverências. O príncipe, um tanto

assinaram dez e vinte contos. Outros assinaram apenas cinco. Outros ainda, um tanto amuado, foi esquecido entre as relíquias históricas e os apetrechos indígenas. Nem chegou

encabulados, só puderam dar três. O colar foi comprado: parece que custou a razoável a visitar o “Jaú”.

quantia de 300 contos (foi antes dos cruzeiros). E por falar no pintor Di Cavalcanti, definamo-lo como um dos casos mais esquisitos

Depois fizeram-se os preparativos para o casamento. Os grã-finos mandaram fazer do grã-finismo paulista. O casal Di Cavalcanti, Di propriamente dito e a esplêndida pintora

casacas especiais, compraram novos pares de sapatos de verniz ou polainas, e as mulheres Noêmia, são queridíssimos nas rodas elegantes de São Paulo. O apartamento de Di, no

gastaram fortunas em vestidos e enfeites. Um carro especial da Central, com lavatório centro da cidade, está sempre povoado da melhor fauna local. Di recebe telefonemas e

completo, levaria a finesse até o Rio. Poucos dias antes do casamento miguelista, os grã- convites para as melhores festas e as mais disputadas reuniões. Todo grã-fino e grã-fina

finos já estavam todos prontos. Esperavam apenas os convites individuais. Mas aí populistas anseiam ser pintados pela Noêmia. É a mesma coisa que almoçar na Papote. É

aconteceu a tragédia. Os convites chegaram um dia, mas não chegariam para todos. coqueluche, como eles dizem. No entanto, apesar de perfeitamente acomodados na finesse,

Chegaram apenas para os que haviam assinado quantia mais grossa: a gente dos dez e vinte os dois não perderam nenhuma de suas qualidades. Noêmia é uma das pessoas das pessoas

contos. Foi uma decepção geral! Senhoras sensíveis tiveram ruidosos ataques de choro. mais vivas que eu conheço. E Di, no fundo, é quem mais se diverte com aquilo tudo e de
vez em quando consegue vender uma tela sua a qualquer grã-fino. Não se trata, portanto, de e não liga muito para os diletantes do Municipal. O carioca pega a coisa no ar, faz um

um diletante. trocadilho irônico, e esquece. Mesmo porque a finesse daqui é finesse de praia. De calção

de banho é impossível a gente distinguir quem é o milionário Carlos Guinle ou o

As considerações de Policarpo bookmaker da avenida. Ambos possuem o mesmo físico e a mesma lábia.

Quase todos os cavalheiros da haute gomme paulista são donos de fábricas ou vice- Mas a haute gomme paulista é maciça como um bloco bem unido: seus assuntos são

presidentes de empresas importantes. Ser vice-presidente de qualquer coisa é uma das seus assuntos, e é preciso atenção e carinho para eles. Quando tivemos aqui o Joujoux e

principais condições para o livre ingresso no perfumado mundo social de São Paulo. Existe Balangandãs, os populistas bateram com o pé e disseram que também queriam. Então os

até o caso de um escritor, dominado nestes dois últimos anos pelo grã-finismo, que fez uma balangandãs foram para lá. Agora, com a “Cega Rega”, aconteceu a mesma coisa. À hora

bruta força, há pouco tempo, para ser eleito vice-presidente da Sociedade de Escritores em que estamos dedilhando essas considerações, chega-nos o eco dos primeiros sucessos

Paulistas. Um título assim, num cartão de visita, teria algum efeito. dos grã-finos da praia do planalto. Os cronistas mundanos estão vivendo grandes dias. Jerry

Os grã-finos paulistas não suportam o Rio de Janeiro. Têm um ar de absoluto se derrete num mar de gozo. Bilm tem feito um tremendo uso da sua cultura.

desprezo para tudo que é carioca. Quando acontece aqui qualquer coisa de elegante e fora Mas houve também vozes discordantes. Uma delas foi a do jornalista Policarpo

do comum, eles ficam lá em polvorosa e providenciam logo uma função idêntica em Conceição, um pseudônimo, é lógico, no Diário de São Paulo, que teceu alguns

Piratininga, com mais lantejoulas e mais esplendor. Todo artista célebre e elegante que comentários pouco alegres sobre a farra grã-fina. Policarpo é de opinião, logo de inicio, que

desembarca no Rio é imediatamente convidado a ir a São Paulo. Quando havia transporte o “Cega Rega” não tem motivo de ser. Diz ele que no instante preciso em que as classes

fácil e o mundo estava melhor do que hoje, os donos das fábricas e as senhoras ricas pouco média e proletária sofrem na pele as conseqüências da guerra (não há açúcar, não há carne e

ligavam ao Rio: tomavam os transatlânticos e iam para a França ou para a Itália. Os os gêneros estão cada vez mais caros), não é direito que as senhoras pouco compreensivas

Matarazzo, por exemplo, no tempo em que a escola era risonha e franca, nunca passaram gastem quantias fabulosas em vestidos de seda e veludo para satisfazerem pequenas

um ano sem uma regular dose de luar de Verona e pombos na praça de São Marcos. A Itália veleidades artísticas. Policarpo diz mais: se o objetivo filantrópico do “Cega Rega” é

e o fascismo estavam no seu sangue. auxiliar a Cruz Vermelha, por que, em vez de representação no palco das grã-finas bem

O último desespero da finesse paulista foi a “Cega Rega” que algumas senhoras vestidas, não se entregou àquela instituição o que seria gasto com as sedas e os veludos?

jeitosas realizaram aqui no Rio. O povo carioca já está acostumado com esses desperdícios Não há razão para ostentação e para luxos descabidos, futilidades ostensivas que devem
contrariar muito os que, como os operários das fábricas paulistas, estão suando em bicas Ali estava a Condessa Amália Matarazzo, debaixo de uma chuva de cintilações; ali

nas indústrias de guerra do país. As considerações de Policarpo, apesar de um tanto gris, estava dona Ernestina Alves de Almeida, ali estava dona Maria Helena Ramos. E mais uma

como diz Jerry, são bastante lógicas. porção: dona Julieta Alves Lima, a Condessa Mariângela Matarazzo, dona Mimi Lafer,

Mas as considerações de Policarpo não chegaram ao mundo cor-de-rosa do grã- dona Renata Crespi Prado. A comissão de recepção não podia ser mais legal: dona

finismo paulista. Albertina Spengler, dona Belinha Sodré, dona Carmem da Silva Teles, dona Ana Alves

O “Cega Rega” teve lá uma brilhante estréia. É o que nos dizem os cronistas sociais Lima, dona Ester Cardoso de Almeida, dona Fifi Assunção, dona Raquel Simonsen e dona

cariocas, que também fizeram parte do elegante cortejo ferroviário que, nestes bicudos Iolanda Penteado. E por detrás de tais poderosas casamatas, todo um batalhão de inquietos

tempos de guerra foram a Piratininga mostrar suas brilhantes inutilidades. Um repórter bem e encadernados jovens.

informado nos declarou há poucos dias que a viagem daqui para lá, no comboio da alegria, No dia seguinte, a mesma fauna estava toda reunida no palacete (palacete vírgula,

foi uma verdadeira sucessão de prazeres e encantos. As senhoritas recitaram, os rapazes palácio) dos Condes Matarazzo, na Avenida Paulista (a Avenida Paulista também pertence

cantaram coisas formosas, e houve até ligeiros ensaios – o trem varava a noite, apitava nas aos condes), Henrique Liberal & Cia., na sua melhor maneira rococó, transformara os

curvas, furava túneis e cá dentro era um mundo de coisas cheirosas e gostosas. salões carcamanos dos condes em “oásis edênicos”, como afirmou, num repente de

Em São Paulo, a turma do “Cega Rega” desembarcou como um batalhão de heróis. entusiasmo, um cronista carioca. O cronista afirmou também que, naquela noite, “a

A grã-finagem paulista estava toda na estação. Jerry, algo nervoso, o passinho curto residência dos Condes Matarazzo honrava qualquer capital civilizada”, e nos deixou de

multiplicando suas parcas possibilidades de pedestre, contava com a pontinha do indicador água na boca quando se referiu aos “candelabros raros e aos quadros de valor inestimável”.

as figuras que iam descendo: se alguma houvesse faltado por motivos reumáticos ou

gripais, aquilo seria uma punhalada no frágil coração de Jerry. Verbas para o grã-finismo

Mas ninguém faltou. Gripes e reumatismos foram adiados. Quando o palco do Comento, com Fifi, a vida mundana de São Paulo, e ela me diz na sua vozinha:

Municipal se abriu, de noite, qualquer reformador simplista poderia perfeitamente, com – Está adorável! Nunca tivemos uma vida social tão intensa.

uma simples bomba, colher uma esplêndida e completa safra: ali dentro havia material É que os motores das fábricas estão trabalhando muito. Já não há horas vagas nos

suficiente para satisfazer a um batalhão de terroristas. domínios dos Matarazzo e dos Crespi. Os enormes portões da Mooca não se fecham:

expulsam, manhã cedo, uma tarde de gente cansada e cinzenta, engole mais gente que se
cansará durante o dia. Os relatórios, sempre exatos, nos contam coisas muito importantes. América do Sul. Há centenas de indústrias em São Paulo. Cada anúncio luminoso, um

Dizem, por exemplo, que os lucros de Matarazzo no ano passado foram de 700 milhões de anúncio alegre. Cada indústria pede centenas de motores, cada motor pede dezenas de

cruzeiros. É muito dinheiro e com ele os Matarazzo podem fazer grandes e belas coisas. operários. Dia e noite os operários manejam os motores. Os motores fazem dinheiro. Os

Algum dia (quem sabe?), Matarazzo fará um refeitório ventilado e claro para seus olhos e o sorriso de Jerry se derramaram satisfeitos sobre Fifi, como se Fifi fosse uma

operários. Fará também uma maternidade para as mulheres dos operários, não uma criação de sua coluna mundana na Folha da Manhã. Amanhã ele escreverá: “Na boiserie

maternidade elegante e cara, a melhor da América do Sul, como a que ele ergueu lá para os alta e clara de carvalho natural da sua sala de jantar, a senhora Stela Penteado Maurel

lados da Avenida 9 de Julho; apenas uma maternidade sóbria, mas que seja de graça. O sempre gostou de enfeitar as rendas cremes da sua toalha de mesa com o colorido quente de

Cotonifício Rodolfo Crespi S.A. teve, em 1942, um lucro sobre o capital de mais de rosas cor-de-rubi. Cinco candelabros antigos de prata acariciavam a suavidade do ambiente

cinqüenta e seis por cento. A Nitro Química, em 1942, teve um lucro de 28 milhões, 330 estilizado com a luz fosca das suas chamas pequeninas. Cupidos brancos de Saxe ofereciam

mil cruzeiros e alguns centavos. Em 1940 e 1941, os principais bancos reunidos somaram flores por entre os personagens medievais de uma tapeçaria de Aubusson, e os sorrisos

um lucro de Cr$ 123.263.456,00. E os bancos pertencem aos homens que são donos das amáveis de todos os convidados.”

fábricas e das industrias. A Fiação, Tecelagem e Estamparia Jafet fez bons negócios em Todos estão muito elegantes e adoráveis. E Jerry já sabe o que dirá, amanhã, de

1940, 1941 e 1942, a Jafet deu um balanço e seus donos foram presenteados com um cada um: “A senhora Maria Penteado de Camargo pensava em reabrir aquele salão

esplêndido resultado: um lucro de 16 milhões e 297 mil cruzeiros, 181 por cento sobre o moderno de d. Olívia, escondido entre as sombras e folhagens escuras. Guilherme de

capital. A Pirelli S.A. ganhou, em 1942, perto de 22 milhões de cruzeiros, 72 e meio por Almeida recordava a sua recente viagem a Ouro Preto; os senhores Lavanchy e Henry

cento sobre o capital. A S.A. Moinho Santista ganhou, no mesmo ano, perto de 39 milhões Gueyrand falavam da Suíça; o casal Jacques Pilon, de uma fazenda em Campinas... As

de cruzeiros, 53 e meio por cento sobre o capital. senhoras Maria Furtado Alves e Lima e Bebé Nogueira sorriam por entre as espirais

Sobre números assim, tão eloqüentes, é que o paulista repousa o esplendor da haute azuladas de seus perfumadíssimos Luckies... A noite úmida de fora escoava-se serena, por

gomme paulista. O Brasil está vivendo uma era de fartura. Uma fartura que, na verdade, entre as luzes mortiças dos salões franceses. Como seria bom se pudesse eternizar

não chega para todos. Mas chega para Fifi, para Lelé e para Mimi, orquídeas raras. De momentos assim...”

noite, quando se acendem as luzes de São Paulo, a cidade fica ainda mais imponente. Os É Jerry, seria muito bom. Seria adorável. Mas eu acredito não ser possível. (1943)

anúncios luminosos rasgam o céu: são anúncios das melhores e mais poderosas coisas da
voltou da lantejoulante noitada um tanto indignado com o comportamento e ação dos 500

tiras (na realidade, 100) contratados pelo conde para o policiamento do casório.

— A gente não podia dar um passo, que não sentisse uma porção de olhos espetados

em nossas costas. Quando a gente se aproximava, então, de um objeto de valor, era uma

A 1.002ª NOITE DA AVENIDA PAULISTA coisa afrontosa: um rapaz elegante e bem penteado logo se aproximava e ficava

Joel Silveira disfarçando. Horroroso.

Confesso que, durante toda uma semana, em São Paulo, andei esfaimado atrás de Talvez tenha sido afrontoso, mas foi prático. Na noite do dia 10 último, ao contrário

um convite para o casamento da filha do Conde Francisco Matarazzo com o “pracinha” do que vinha acontecendo em anteriores festejos organizados pelo conde, nenhuma jóia

João Lage. Dois ou três elementos da finesse, mesmo cônscios da traição que iriam praticar, desapareceu no palácio, nem ao menos um par de talheres de suas baixelas. O que os

me prometeram o ingresso disputadíssimo, mas falharam completamente. Um deles, convivas trouxeram de lá (canetas-tinteiro de ouro, broches de brilhantes, cotillons

visivelmente encabulado, me procurou no domingo, véspera da fase mais importante do prateados e dourados, mil ricas lembranças outras) foram dádivas friamente distribuídas

acontecimento, e tentou suavizar meu desespero com a seguinte promessa: pelo conde e perfeitamente enquadradas nas possibilidades, quase ilimitadas, dos seus

— Não se aborreça. Você não vai, mas eu vou e lhe conto tudo. lucros extraordinários.

A bem da verdade, digamos que o grã-fino cumpriu com sua palavra: a descrição da Como teria nascido a idéia da “mais brilhante festa já realizada no Brasil?” Dizem-

festa que me desfiou, na terça-feira, foi a mais completa e detalhada possível. Sem me que foi de uma conversa, aqui no Rio, entre o conde e elementos da sociedade carioca.

surpresas, porém. É que a imaginação do repórter, mais ou menos a par dos arrebatamentos Os referidos elementos haviam chamado a atenção do conde para a necessidade de uma

da fortuna, já havia criado, para uso próprio, uma versão antecipada daquela 1.002.a noite “festa brasileira, uma festa que deixasse seu brilho nos anais dos nossos acontecimentos”.

na Avenida Paulista. Houve apenas um ou outro incidente não previsto, como o leve atrito Particularmente, qualquer coisa que deslustrasse, com suas luzes, o feérico acontecimento

entre o Dr. Marques dos Reis e um conviva, por motivos desconhecidos, e a acalorada que foram os esponsais do cabeçudo Dom Nuno com a melancólica Dona Tereza. E quem,

discussão política entre o falangista Garcia Conde, representante de Franco no Brasil, e um no Brasil, poderia ser o organizador de tal empreitada? Somente ele, o Conde Francisco

progressista “big-shot” de nossas indústrias. No mais, o meu amigo me confessou que Matarazzo Júnior, feliz arrecadador de lucros avaliados em 400 milhões de cruzeiros

anuais. O conde teria retrucado não ter jeito para aquilo, no que foi respondido que onde há
dinheiro não é preciso jeito. E que motivo melhor para a “bela festa” do que o próximo Um balanço honesto, pacientemente colecionado durante a semana dourada, nos diz,

casamento de sua filha Filly? O tema Filly foi habilmente desenvolvido pelos referidos então, que antes, e à margem do casamento, mas a ele ligado, houve o seguinte: 26 jantares

elementos (a maioria deles tinha interesses particulares da festa: interesses profissionais e em residências particulares; 8 recepções; 16 ceias no Jequiti e 7 no Roof, não falando de

comerciais, principalmente) e os músculos sentimentais do conde acabaram por relaxar. uma série de pequenos incidentes mundanos; cocktails, chás com torradas, encontros

Naquela noite, quando o conde garantiu que seria realizada “a mais bela festa do Brasil”, fortuitos, coisas assim. Somem-se a isto os tremendos quarenta dias que antecederam o

uma fada mágica bateu com sua pródiga varinha na cabeça de vários cavalheiros nacionais. enlace, com aquele desespero aflito tomando conta dos cavalheiros e das senhoras, com as

Houve telefonemas na madrugada, houve consultas e intrigas, e dez ou vinte senhores mil consultas a alfaiates, chapeleiros, modistas, etc., e a uma conclusão lógica se chegará: a

adormeceram, os que conseguiram, certos de que seus capitais, por magia do conde, iriam de que nunca, a nenhum tempo, a elegância nacional viveu instantes tão absolutos.

ser aumentados, e que ótimos negócios encerrariam as atividades deste ano de 1945. De “Trabalhei mais nestes últimos trinta dias do que em dez anos de minha vida”, teria

resto, o ano da Vitória. confessado o Sr. Henrique Liberal a um amigo. E não era outra coisa o que dizia sua

“A mais bela festa do Brasil”, não foi, contudo, um espetáculo apenas. Mais do que fisionomia naquela noite em que o fui surpreender no Spadoni, ao lado dos noivos ilustres,

isso, foi uma sucessão de espetáculos e acontecimentos mundanos. Nenhum paulista poderá nas vésperas do acontecimento. Eu havia perguntado ao garçom por que razão o conde

esquecer aquela semana, um desfilar ininterrupto de recepções, jantares, ceias, bailes e estava ali com sua filha, seu futuro genro e mais alguns convivas almoçando num

festas. O Jequiti e o Roof foram tomados de assalto, o Esplanada viveu os seus dias mais restaurante, quando poderia ter ficado no seu palacete, onde naturalmente os cardápios são

intensos e brilhantes, nunca havia lugar para nós (falo dos mortais comuns) no Papote ou melhores. O garçom me informou que “o palácio da Avenida Paulista já estava todo

no Spadoni. Era, a bem dizer, o Congresso da grã-finagem nacional, antes tão dispersa nos arrumado, e que por causa disso o pessoal de lá tinha que fazer as refeições nos

seus movimentos, e que agora, atraída pela força magnética do Conde Matarazzo, se restaurantes”. Disse-me mais: “Ontem eles comeram no Papote, hoje almoçaram e

confundia num bloco interestadual, poderoso e aurifulgente. “Os próprios cronistas sociais jantaram aqui. Tem que ser assim até o dia do casamento.” Outro detalhe era aquele braço

se acharam numa trapalhada louca para identificar os grãfas”, me informou um rapaz esquerdo do Sr. Liberal metido numa tipóia, como se o famoso decorador tivesse saído,

paulista, e eu mesmo tive ocasião de ver, numa das fases preparatórias do casório, como o mutilado mas vitorioso, de uma cruenta batalha. “Parece que ele caiu de uma escada,

mundaníssimo Sr. Gilberto Trompowsky se emaranhava, o lapisinho nervoso sobre o quando pregava umas cortinas”, foi o que me informaram numa redação.

caderno de notas, no meio da complicada floresta de elegância.


Quanto ao noivo, o antigo “pracinha” João Lage, era, ali no Spadoni, a segunda ou alentadora: de fato a noiva havia sido mordida, mas de qualquer maneira o casamento seria

terceira vez que eu o via. A primeira fora naquela tremenda Porreta-Terme, no norte realizado. Depois, então, se cuidaria do resto. Eu estava no Jequiti, uma noite, quando a

italiano, no frígido janeiro. Alguém me apresentara ao pracinha-milionário, e creio que nuvem negra e pesada se transformou num puro e leve floco de algodão, nuvem de anjo.

conversamos quatro ou cinco minutos sobre coisas gerais: naturalmente sobre a neve, o Um cavalheiro vizinho passou a notícia para a senhora ao lado, a senhora para o outro

Brasil e os alemães. Vi-o novamente, em Florença, no hotel dos nossos soldados. E o via cavalheiro, e assim por diante. Quatro ou seis minutos depois, a nuvenzinha branca, talvez

novamente ali, no restaurante de luxo, o cabelo bem penteado, o olhar alto, o terno bem cor-de-rosa, chegava até mim:

cortado e a gravata discreta. Lá no front, o “pracinha” Lage se dissolvia e se inutilizava — Não será adiado!

entre os seus outros vinte mil companheiros de luta; mas nestes dias de agora, seu vulto A coisa me pegou de surpresa. Deixei de mastigar o amendoim, perguntei:

comprido e moço jamais poderá ser confundido com o de qualquer outro rapaz brasileiro. — Adiado o quê? As eleições?

Dissertei esta filosofia para o meu companheiro de mesa, que concordou com gravidade: — Não. O casamento! Não será adiado!

— É isso mesmo. E lá se foi a nuvenzinha, de ouvido em ouvido tangida pela brisa mais feliz e mais

Nuvem pesada e negra, ameaçando um desastre total, foi aquela que caiu, dez dias amiga. Passou a nuvem pesada, realizou-se o casamento, os noivos estão agora na mais

antes das festas, sobre o mundanismo paulista: em forma de um boato terrorista, a nuvem confortável das luas-de-mel, mas um enigma perdura: o mistério do cachorrinho doente. A

informava que a Senhorita Filly Matarazzo havia sido mordida por um cachorrinho de raça, noiva teria ou não sido mordida? O cachorrinho estava ou não doente? Ou, como me disse

e suspeitava-se de que o cachorrinho estava doente. Dizia-se mais: que a noiva fora um amigo, o termo “mordido” se referia apenas a uma ação simbólica? Espesso é o

entregue aos cuidados de todo um corpo clínico, que lhe vinha ministrando injeções mistério.

especiais e exigentes. Em suma: talvez o casamento tivesse que ser adiado. “A mais bela festa do Brasil”, ela propriamente dita, durou precisamente dois dias,

“O casamento seria adiado!” — como a mais potente das bombas atômicas, a três noites e três madrugadas. Começou precisamente no sábado, 8, às nove e meia da noite,

notícia desesperada pôs-se a estremecer os alicerces da Nagasaki mundana de São Paulo e quando foram realizadas as bodas civis, com apenas dez convidados, a gente mais eleita. Lá

do Rio. Os jornais telefonaram aflitos para os médicos conhecidos e alguns repórteres, mais estava a família Martinez de Hoz, lá estava o Barão de Saavedra, além de um redator

ingênuos, tentaram chegar ao mundo proibido do palácio da Avenida Paulista. Mas de especial de conhecida agência telegráfica estrangeira. Depois da cerimônia, foi o baile. À

positivo não se soube nada. A notícia transformou-se, dias depois, numa revelação mais meia-noite, os noivos dançaram a primeira valsa. “O conde tinha um sorriso de pomba nos
lábios”, informou um cronista. O palácio resplandecia, mil luzes, mil reflexos, as fontes O casamento religioso foi na segunda-feira (o domingo constituiu uma meia-trégua,

luminosas lá fora, o povaréu, anônimo e friorento, se acumulando paciente no sereno. com uma pequena recepção e outro baile à noite), e de uma certa maneira seu brilhantismo,

Depois, as Sílfides. Gentis e airosas, as bailarinas do Municipal, sob o compasso de uma com a igreja toda ornamentada, deixou na sombra os festejos com que os paulistas,

orquestra de cem figurantes, amaciaram e encantaram os privilegiados corações presentes naqueles dias, costumam agraciar o Imaculado Coração de Maria. D. Aloísio Masela foi

com a música chopiniana. Jacinto de Thromes, que sabe ser comedido, escreveu que nunca levado do Rio para a igreja de N. S.a do Carmo, na capital paulista, onde já se encontravam

viu uma coisa tão impressionante. O próprio conde, que nunca ligou muito para a música, três bispos. Quando, depois de tudo acabado, os noivos seguiram, na terça-feira, para a sua

ficou embevecido no seu lugar, mergulhado noutro mundo. 600 mil cruzeiros havia custado lua-de-mel, e o Dr. Franchini Neto, exausto, recolheu-se à sua residência (ele foi o mestre-

aquela formosura: 200 mil cruzeiros para a orquestra, trazida especialmente do Rio, e de-cerimônias de todo o esplendor, para o que, dizem, recebeu 30 mil cruzeiros), o conde

outros 400 para Dona Maria Olenewa, as bailarinas e a apresentação do espetáculo. havia despendido pouco mais de 6 milhões de cruzeiros. Não falando, é lógico, nas dádivas

Nessa noite, antes de se retirarem, os convidados (oitocentos, precisamente) especiais com que ofertou sua filha e o seu genro. Somente um colar de pedras,

deixaram suas assinaturas no mais esplendoroso “livro de ponto” já conhecido: capa tremeluzindo no colo de Dona Filly, custou 3 milhões e 500 mil cruzeiros.

folheada a ouro e papel da qualidade mais difícil. Antes e depois das Sílfides (que o Dr. Duas orquestras num total de perto de 150 músicos; caças raras mandadas vir de

Marques dos Reis não assistiu), foram as danças, que começaram às onze da noite e matas do Paraná; cozinheiros caríssimos (inclusive o mestre-cuca do Automóvel Clube);

terminaram nas últimas horas da madrugada do dia 10. Houve um intervalo nos festejos, fogos de artifício especiais; o penteador Gervais, que andou distribuindo suas mãos

entre a primeira fase da dança e o começo do ballet, para que o conde, irresistivelmente mágicas pelar enternecedoras cabecinhas paulistas (o penteado que ele construiu para a

pródigo, distribuísse entre os convidados ricos cotillons. Peguei num deles: uma caneta- noiva custou 2 mil e 300 cruzeiros); litros de champanha, uísque, mil bebidas outras; 100

tinteiro de ouro com o nome do agraciado gravado – aquilo não devia ter custado menos de tiras da Ordem Social, e smokings alugados para os mesmos; mobilização da Polícia do

quatro mil cruzeiros. Oitocentos convidados, oitocentos cotillons. A nota mais colorida da Trânsito; 400 apartamentos alugados nos mais importantes hotéis da capital; 200 mil

noite do dia 10 foi, no entanto, a chuva pirotécnica que caiu sobre os jardins do palácio cruzeiros de vestidos; todo o melhor conjunto coreográfico do país para uma exibição de

Matarazzo, precisamente quando o ballet (antes somente representado para o Sr. Getúlio pouco menos de duas horas; o Dr. Franchini com suas maneiras; perto de 500 mil cruzeiros

Vargas) ia na sua metade. “O conde gastou, só em fogos de artifícios, 300 mil cruzeiros”, é em decorações realizadas pelo gênio inventivo, agora um tanto gasto e repetido, do Sr.

o que me revela figura insuspeita e bem informada. Liberal; 80 milhões de cruzeiros de dote; 200 mil cruzeiros por um souvenir oferecido à
noiva pelos diretores do grupo Matarazzo; um núncio e três bispos; coral com a melhor sua oficina. Lua-de-mel, sim, mas depois das poderosas chaminés da Matarazzo gritarem o

música sacra de Palestrina — tanta coisa mais, meu Deus, que teria acontecido com o fim do segundo expediente do dia.

Conde Francisco Matarazzo Júnior? Que teria acontecido? Antes tão pacato, metido lá com “Moço, será que só a filha do Matarazzo tem o direito de ver o seu casamento

os seus negócios, de casa para suas fábricas, das fábricas para o maciço arranha-céu do noticiado pelos jornais? Gente pobre também não casa?”, perguntou Dona Olívia ao

Viaduto, e de repente, por artes diabólicas, o demônio da ostentação toma conta do seu repórter. E lá fomos nós para o casamento de sua filha. Era, afinal, uma compensação, um

espírito e o obriga àquele espalhafato todo. tanto melancólica, para quem não pode romper a terrível e impraticável parece que separa o

“Não sei não, meu senhor, mas acho que o Conde Chiquinho está gastando dinheiro mundo dourado do palácio da Avenida Paulista e o mundo prosaico da rua, o nosso mundo.

demais”, foi o que me disse, na redação do Diário de São Paulo, Dona Olívia Figueira E de tais compensações vivem os repórteres otimistas. (1945)

Ramos, mãe de uma outra noiva, imensamente mais modesta. Ela fora ali, atraída pela

publicidade que o jornal vinha dando ao imponente casório, e nos aparecia armada de uma

lógica ingênua e simples. Disse: HISTÓRIAS DE PRACINHAS

— Leio todo dia notícias do casamento da filha do conde, e pensei que os senhores Joel Silveira

podiam publicar uma notinha qualquer sobre o noivado de minha filha. Ela se casa sábado.

Como Dona Olívia chegara num momento bastante oportuno, teve mais do que 1. Experiências para o recruta

“uma notinha”; teve toda uma reportagem. Em companhia de Maurício Loureiro Gama, Escrevo esta minha primeira reportagem depois de vinte e duas horas a bordo do

estive na humilde casa da Vila Romana, onde se realizou o matrimônio da moça Nadir transporte que nos desembarcará amanhã, depois de amanhã, ou dentro em breve, a mim e a

Figueira Ramos, operária de uma das fábricas Matarazzo, com o rapaz José Tedeschi, milhares de soldados brasileiros, no primeiro porto italiano. É um mundo estranho e

torneiro-mecânico. Quando voltaram da igreja, na cidade, ela de azul, ele de marrom, misterioso que possivelmente levará muito tempo para ser inteiramente revelado. Ando

encontraram o seu pequeno lar enfeitado com algumas flores de papel crepom e outras pelos seus porões, me perco nos seus corredores que parecem não terminar, e cada porta de

naturais; duas cortinas brancas na janela, pão doce, goiabada, refresco de laranja, quatro ou ferro se abre para uma nova surpresa. Os avisos e os auto-falantes, que se multiplicam por

cinco garrafas de cerveja e algum guaraná. Os móveis eram rústicos, e ainda não estão todos os compartimentos, são guias orais e explícitos do que se deve e não se deve fazer.

pagos. E depois do casamento, no dia seguinte, Nadir voltou para sua fábrica e José para Estamos em guerra, somos uma multidão que segue para a guerra, e muita coisa não se
deve fazer: não se deve, por exemplo, atirar coisa alguma ao mar. Sou apenas um recruta, chocolate em tablete. Mergulhei, portanto, manhã cedo, em ovos, presunto, muito pão,

civil, transformado em cinco dias em soldado da ativa, e me emaranho e me confundo no laranjada, café com creme de leite, manteiga farta que contentaria perfeitamente durante

mundo diferente: os pracinhas, no seu convés nu ou nos corredores lá embaixo, olham toda uma semana qualquer dona de casa carioca.

atônitos para o meu distintivo (um C ríspido grudado numa farda de oficial) e não sabem se Mas a verdade é que estamos ainda atracados e o Rio com suas luzes brilhando

devem ou não me cumprimentar. Respondo, encabulado, à saudação de uns poucos, mas o perto, com o Cristo iluminado e as mil ilhas da baía, continua vivo dentro de todos. Um

tenente Justino Vieira, companheiro de camarote, já me garantiu que tenho credenciais de capitão me confessou, num canto do salão dos oficiais: – seria melhor que o navio fosse

oficial. A verdade, porém, é que cometo “ratas” que matariam de vergonha a qualquer logo embora. Enquanto a gente tem a certeza que está perto de casa, fica sempre com

oficial. Já falei com um “major” que era coronel e ontem misturei a calça de um uniforme vontade de telefonar.

com a túnica do outro. Mas esta gente que segue comigo é uma gente muito simpática e só Saber a hora e o dia em que o grande transporte deve se desgrudar do armazém e

posso ficar encantado com a maneira gentil e divertida com que todos encaram o recruta ganhar o mar alto é o problema capital. Um marinheiro americano me garantiu num inglês

que uma remota “linha de tiro” não conseguiu militarizar. mímico, que seria ontem de madrugada, e hoje, logo cedo, um dos serventes, na cozinha,

O tenente Antônio Caldeira Vitral, oficial de ligação, me leva até o gabinete de me segredou que não passava do meio dia. O presidente da República já nos visitou e

comando, num dos compartimentos de baixo, e me enche de dados sobre minha atual deixou despedidas para todos num discurso. Por coincidência, estava eu no meu camarote

pessoa. Vejo-me, de repente, transformado numa série de números: sou o C. G., o camarote arrumando a terrível bagagem (mais de 50 quilos sobre uns pobres ombros civis, do

107, beliche 146, e em caso de perigo (isola) já sei o que tenho de fazer – não perco a armazém para o navio e pelo navio adentro, através de mil escadas, até o 107) quando ele

calma, ajeito o cinto salva-vidas, se houver tempo, e corro para o “life-boat” 9, a bombordo. entrou no meu camarote. Confesso que fiquei sem jeito.

Seriam meus companheiros o capitão Ítalo, o capitão Mario, o capitão Darcy, o tenente Lembro-me perfeitamente da primeira camaradagem que fiz a bordo: foi um praça,

Justino, o tenente Ney Puente, o tenente Waldyr e os funcionários do Banco do Brasil, vindo da Bahia e que me apresenta um croquis do sr. Getúlio Vargas, apanhado quando de

Pedro Berwanger e Messeder, todos companheiros deste pouco confortável 107. Não devo sua visita, ontem de tarde. É um desenho mais ou menos (qualquer coisa como a maneira

esquecer também, às sete da manhã, de utilizar no máximo possível os variados e nutridos do desenhista Alvarus, por exemplo) e ele me pergunta se deve mostrar a obra ao

pratos da primeira refeição, pois que a próxima “bóia”, para o grupo de oficiais da primeira presidente. Sugiro-lhe, em resposta, que se entenda com qualquer oficial graduado e ele se

mesa, será somente às cinco da tarde, apenas com frágeis variações açucaradas de doces e perde num dos corredores da frente. As horas, porém, vão passando e agora é possível já
compor uma longa lista de amigos: o tenente Nestor Licio, um dos dentistas de bordo e que cabendo aos mais moços os primeiros dias. Sou o terceiro da lista, o que significa dizer que

também já foi da imprensa. Falamos de “A Manhã” de Mário Rodrigues, de “A Pátria”, amanhã, quinta-feira (dia de programa novo no Cineac), vou ter um dia cheio. O tenente

jornais onde ele trabalhou, e ele me pede que mande na primeira correspondência abraços Mendonça me felicita pela sorte, pois que, segundo ele, dentro de poucos dias, com o navio

para Osório Borba e Bezerra de Freitas, seus amigos. Deixo-os aqui. Outro bom andando e a turma enjoando, a coisa vai ser muito pior. Como somos 18 no camarote, tenho

companheiro é o tenente Milton da Rocha Alencar, a quem conto, em primeira mão, uma sólidas esperanças de não repetir mais a experiência de amanhã.

complicada história de malas. Acontece que recebi da Intendência do Exército, como todo

oficial expedicionário, uma mala A, uma mala B e um saco C. Mas não recebi 2. O mundo é muito pequeno

conjuntamente uma espécie de rol que existe e onde vem muito bem explicado o que deve No fim da tarde de ontem, ainda ancorados diante do armazém, um tenente da

ser arrumado nas malas e no saco. O resultado é que guardei cuidadosamente no saco C e infantaria surgiu com uma vitrola. Sambas, rumbas, tangos (particularmente tangos) e

na mala B, que vão para o porão e que só me serão devolvidos na Itália, tudo o que uma valsas entraram pela noite adentro, a última noite carioca. Mais tarde, pelas vinte horas, um

criatura normal, mesmo um recruta, necessita diariamente: aparelho de barba, sabão, toalha, regional de pracinhas ganhou um dos compartimentos de cima, e os cavaquinhos e cuícas,

pasta para dentes, coisas assim. O tenente Milton da Rocha Alencar ouve atentamente a dezenas deles, abafaram por completo os lamentos de Libertad Lamarque. Adormeço

minha história, narrada num tom profundamente melancólico e pede licença para soltar precisamente quando um grupo de oficiais, no salão ao lado e defronte de um piano

uma gargalhada. Solta e de súbito a história já pertence a todos, o que, afinal de contas, é incansável, inicia um programa coral que possivelmente se estenderá por algumas horas, já

uma solução: requisito de cada um pouco do que me falta e agora sou um cavalheiro que, excepcionalmente, não nos foi dito hoje quando devemos nos recolher ao

tranqüilo, munido de sua gilete e do seu pincel (emprestados), do seu sabonete, de sua pasta compartimento e apagar as luzes. Perco inteiramente as esperanças de, às vinte e duas

e de sua toalha (emprestada). horas, aproveitar o salão vazio e bater na máquina estas minhas primeiras impressões.

Hoje, pela manhã, me surgiu pela frente a primeira exigência militar. O capitão Escrevo, portanto, começo da manhã, depois que, com a largada do navio, deixo

Ítalo, comandante do compartimento, nos reuniu a todos e nos avisou que iria distribuir o Copacabana, o Leblon e Ipanema perdidos na névoa grossa e cinzenta. O auto-falante

serviço de faxina. Isto significa que cada oficial do 107, inclusive o correspondente e os onipresente nos avisa que poderemos ganhar o convés, para o espetáculo da saída da barra.

funcionários do Banco do Brasil, terá o seu dia de muito trabalho: varrer o camarote, limpar Lá vai ficando o Pão de Açúcar, lá está o Cristo, altíssimo e enrolado em nuvens pardas, e

as pias, forrar as camas, arrumar as bagagens, etc. A escalação é feita conforme a idade, jamais esquecerei do Rio a última visão que e ficou nos olhos: a linha certa das casas do
Leblon e a pedra da Gávea. O capitão, ao meu lado, derrama os olhos cismarentos na os oficiais, umas cem vozes confundidas numa só, afogam o piano com a “Cobra está

cidade que vai se afundando, e me pergunta, num tom de confidência: fumando”:

– Quando é que vamos ver isso de novo, heim, velho?

Um cruzador norte-americano nos segue a bombordo, e a estibordo vai o destróier “Tira o saco

brasileiro. Atrás vêm caça-minas e sobre nós voam aviões Vultee, da FAB, e um Blimp Bota o saco

gordo e prateado. Há também destróiers brasileiros que de vez em quando se somem, para Chegou a hora

surgirem depois, ligeiros como lanchas a motor. da cobra fumar”

Com a saída do transporte, as ordens se multiplicam: ordens para os oficiais, ordens

em inglês para a tripulação, ordens para os praças. Oficiais e praças devem se munir Descubro conhecidos a bordo: um oficial que foi meu companheiro de ginásio, em

imediatamente dos seus salva-vidas, uma cobra estufada e cáqui que teremos de trazer Sergipe, e um terceiro sargento, ex-colega do curso primário de D. Carlota, em Aracaju.

conosco, dia e noite, até o término da viagem. Os praças não devem ficar de tamanco no “Isto significa que o mundo é muito pequeno”, me diz o capitão, vizinho do beliche 146, e

convés nem trazerem suas toalhas em volta do pescoço. E todos, oficiais, praças, até os passa a me contar uma série de histórias semelhantes. Uma deles se refere a um

comandantes, devem se preparar para o primeiro exercício de abandono do navio. companheiro de armas, que ele deixou cabo no Pará, em Santarém, e foi encontrar

Às 10 horas da manhã o aviso se espalha pelo transporte, e no nosso camarote, em primeiro-tenente no sertão de Mato Grosso. Outro velho conhecido é o primeiro-tenente da

dois tempos, ficamos perfilados atrás do capitão-comandante do compartimento. Levamos Moto-Mecanização que, há dois anos atrás, numa reportagem movimentada e dolorida, me

o que a regra militar manda que levemos: bornal com biscoito, cantil com água fresca, estraçalhou o corpo dentro de um “jeep” e de um tank de 13 toneladas, lá para os lados da

óculos escuros para o sol. Chegamos até o nosso bote, o n° 9, mas desta vez ainda não Vila Militar. Ele me bateu no ombro, no primeiro dia a bordo, e perguntou: “Como vão as

desceremos ao mar: trata-se apenas de um exercício para que conheçamos, de uma vez por dores?” Indubitavelmente o mundo é muito pequeno.

todos, o caminho do barco, e nos habituemos a alcançá-lo sem confusão nem tumulto. Dois dias de navio e contato permanente no salão dos oficiais, são o bastante para o

Metade do dia, um “Catalina” passa raspando sobre nós, e podemos distinguir incentivo e o extravasamento das confidências: meninos gorduchos e de olhos espantados

perfeitamente um dos pilotos que nos acena. Os pracinhas estão lá embaixo, e aqui no salão (“Chama-se Luiz. Fez um ano no dia 28”. “O nome dela é Clara. É a mais mocinha”),
meninas de vestido branco, flagrantes de piqueniques na Tijuca e veraneios em São guerra”. Isto quer dizer que amanhã, a primeira refeição será às 5 horas e que agora não são

Lourenço. Todos deixaram pessoas queridas atrás: esposas, noivas, mães e namoradas. 21 horas, como ensina meu relógio, mas precisamente 23. Recolho-me aflito ao 146.

Horas vagarosas e insípidas são estas que vão das 10, quando acordamos do

segundo sono (o primeiro vai até às 6 horas, pois que às 7 tem início a primeira refeição, até 3. A guerra está mais próxima

às 15, quando ainda faltam duas horas para o segundo e último rancho). Então o jeito é se Outro dia de viagem, estamos chegando perto do Equador, e a temperatura alta

enterrar de rijo no jogo dos pauzinhos japoneses: o preto vale 35 pontos, o verde vale 10, o tomou conta do navio. Trinta e cinco graus à sombra. No instante em que escrevo, dentro de

azul vale 5, o vermelho vale 4 e o amarelo vale 3. Às 16 horas, porém, a monotonia é uma calmaria morna, o suor me inunda o corpo. Estamos dois fusos afastados da costa, e

quebrada com um acontecimento muito importante: abre-se a cantina do navio, servida por isto explica o adiantamento de nossos relógios. Quem dá a explicação é um oficial

um “boy” americano, e onde é possível comprar uma boa caneta-tinteiro por 15 cruzeiros, americano, que me mostra cartas e gráficos. Mostra-me também, num relance, o armamento

cigarro “Lucky Strike” a 1 cruzeiro o maço, papel e envelope por alguns centavos. Forma- que dispõe o transporte: naturalmente que não posso me estender a respeito, mas o leitor

se uma comprida fila diante do balcão pequeno e os oficiais saem carregados de pacotes de (me dirijo ao leitor aliado) deve ficar satisfeito em saber que, na matéria, estamos bem

biscoito, uma porção de miudezas, sabonete, talco e um “shampoo” para cabelo cujo aparelhados. Navio, destróiers, cruzadores e o “blimp” incendiado de sol continuam a

perfume uniforme acaba por tomar conta do navio. Diante da caixa registradora do “boy” é seguir em ziguezague, e agora já sabemos que não ancoraremos em nenhum outro porto

possível também trocar dinheiro brasileiro por americano, já que o troco é todo feito à base além, do porto de destino.

de dólares e centavos. E à base de dólares e centavos passam a ser, das 16 em diante, os Manhã cedo, antes das seis, o capitão, Joaquim Paredes, encarregado do rancho das

cálculos e as conversas orçamentárias de bordo, entre oficiais, sargentos e praças. praças, me leva aos refeitórios de baixo. Os balcões de fornecimento se estendem através

Uma novidade noturna: cinema a bordo, com um filme de John Carrol e Ann dos vastos salões, e sobre eles se acumulam enormes palestras de alumínio de onde saem,

Neagle. O aspirante de Caçapava define uma das heroínas da película como “magra e grossos e quentes, rolos de fumaça. Há aqui pratos que todos nós, oficiais lá de cima,

dentuça”, mas o capitão de cavalaria previne: desejaríamos provar, como um derivativo para o infindável sortimento de proteínas e

– Daqui a dez dias você vai achá-la uma gostosura. vitaminas com que enchem nossas refeições: há feijoada nacional, há arroz, largos pedaços

Quando me recolho ao 107, para o sono que irá até às 7, sou informado pelo de carne quase sangrenta. O capitão Paredes me diz:

comandante do compartimento que devo adiantar meu relógio em duas horas. “É horário de – Os praças, em questão de comida, estão passando melhor do que os oficiais.
Diante de cada balcão, desfila uma média de 400 homens. Chegam com suas que os ingleses e norte-americanos entrem na grande cidade de Reno, mas não pode

badejas vazias, enchem-nas, vão se colocar nas mesas coletivas. As filas chegam de todos esconder sua inquietação quanto à possibilidade da catedral local ser destruída.

os cantos do navio, da proa e da popa, e cada refeição dos pracinhas demora no mínimo três Hoje cedo, o coronel Paiva Chaves, que agora se senta a meu lado, na mesa 5,

horas. Falo com um cabo do Maranhão, enterrado no seu feijão com o arroz e na gelatina de entregou ao oficial louro, que toca piano com precisão e sentimentalismo a música da “Lili

cereja, e lhe pergunto o que ele achava da “bóia”. “Tudo de bom”, me responde. “Só falta Marlene”, a famosa canção que os nazistas de Rommel deixaram na África do Norte. Os

mesmo é farinha. Farinha é que levanta parede”. ingleses conseguiram uma nova letra para a música, tão bela, e o coronel Paiva é de opinião

Fico do lado de dentro de um dos balcões, e as filas passam diante de mim: centenas que os brasileiros devem compor a sua própria. Estão mobilizados, portanto, os poetas de

de fisionomias diferentes, e em cada uma delas é fácil descobrir um pedaço de chão bordo.

nacional. Cearenses de rostos largos, gaúchos de cara enrugada, e um deles, seco e Terceiro dia de viagem, a guerra está mais próxima, e as medidas a bordo vão

comprido, é sistemático no seu chimarrão da tarde. A maioria, no entanto, é de paulistas do ganhando severidade. Um discurso do coronel Mário Travassos, dirigido aos oficiais e

interior, particularmente de Caçapava. praças, pede que ninguém se deixe dominar pelo sentimentalismo e pela revolta contra a

No convés da proa, em cima, um dos capelães reza a primeira missa a bordo, e lá vida árdua e sufocante de bordo. “Não estamos numa viagem de recreio”, fala o coronel.

embaixo a multidão de pracinhas que já fez sua refeição se ajoelha e recita alto a Ave Maria “Estamos em guerra, numa viagem de guerra em direção a uma frente de combate. Já

que o padre canta. Há no final um discurso litúrgico, e fica mais uma vez avisado que Deus começamos a sofrer os primeiros rigores, mas muitos outros ainda virão”.

está com todos nós, e que, com sua graça, nada nos acontecerá. O padre previne também Infatigável, porém, é o “assustado” dos pracinhas, no convés de ré. Os

aos possíveis protestantes que não tenham vergonha de se confessar tais, pois que há um pernambucanos e paraibanos trouxeram canções e emboladas de suas terras, e há uma

ministro presbiteriano a bordo. modinha gaúcha, a história de um “peão de S. Gabriel”, que rapidamente vai se tornando

Hoje, antes das nove, voltamos a tomar conhecimento do mundo: foi irradiado popular.

através dos auto-falantes um pequeno noticiário telegráfico. Agora já é possível satisfazer a Um sargento da aeronáutica manda me avisar pelo seu tenente, comandante do seu

curiosidade do tenente Portocarrero, que, de cinco em cinco minutos me perguntava se compartimento, que também é jornalista e que deseja conversar comigo. Mas o tenente

colônia já havia sido conquistada pelos aliados. Ele confessa que está morrendo de vontade esqueceu o nome do sargento. De qualquer maneira, marco uma entrevista para amanhã,

depois do exercício de abandono do navio. E por falar nisto, hoje tivemos o segundo. Posso
já me considerar formado na matéria. Ao tocar o alarme, que no nosso caso é o aviso do formam filas diante das três pias, e duas cordas são estendidas ao comprido do camarote.

auto-falante, já estou perfilado atrás do capitão Ítalo, e num segundo me encontro defronte De um certo modo, a inovação veio quebrar a estética do 107, protegida pelo cuidado de 18

de minha baleeira, a de n° 9. residentes, mas a guerra é a guerra. Confesso sinceramente que lavar roupa não é o meu

Novas ordens: é proibido a praças e oficiais ficarem nos seus compartimentos das 8 forte. Faço, no entanto, o que posso, e lá estão, de mistura com a dos outros, minhas peças

às 12 horas. Todos os homens, ao se levantarem, devem cuidar imediatamente do seu que amanhã, quando enxutas, poderão ser novamente usadas. Enquanto esfrego e mergulho

beliche, forrando-o e arrumando toda sua bagagem. Devem também varrer seus camisas e cuecas na montanha de espuma que subiu do sabão americano, escuto, através

compartimentos e evitar toda espécie de desordem. Para aqueles que assim não procedam, dos amplificadores, as primeiras notícias de guerra do dia. Ficou agora estipulado que

foi reservada uma temível lista, afixada na sala dos oficiais, onde serão expostos o tamanho diariamente teremos dois jornais falados, em inglês e português, um à tarde e outro à noite.

do crime e o nome do criminoso. Forrar cama e varrer quarta são duas coisas que já fico A notícia do bombardeio de Tóquio é recebida no 107 com uma alegria ruidosa. Ela nos

devendo ao Exército e à guerra. veio de súbito, quando todos nos encontrávamos na lavagem improvisada, e nos deixou

No mais, apareceu hoje no 107 uma revista mundana de Paris de antes da guerra, suspensos por alguns minutos, os ouvidos no auto-falante do lado. Não posso mais esquecer

com centenas de belezas do “Folies Bergére”. Em vista das circunstâncias, porém, a a cena do tenente Mendonça, com a camisa escorrendo na mão, inteiramente alheio ao

maioria do compartimento foi de opinião que a mesma deveria ser arquivada até o primeiro transbordamento da espuma que ameaçava uma pequena catástrofe na pia n° 3. O tenente

porto. Justino deixou as mãos dentro da água branca, e somente o funcionário Modesto, do Banco

do Brasil, continuou inerte no seu beliche, aniquilado pelo terrível enjôo que já dura quatro

4. Exigências domésticas num transporte de guerra dias.

Hoje, pela manhã, logo depois da primeira refeição, as ordens de racionamento A notícia da nova ofensiva russa, 52 divisões intactas contra os exércitos nazistas,

d’água começaram a se suceder: fica estipulado, a partir de agora, que só será permitido um desencadeou uma calorosa discussão no 107 a respeito de exércitos e táticas. Encho meus

banho diário. Outro aviso nos informa que devemos, oficiais e praças, economizar no ouvidos leigos de lições estratégicas e militares, e entre outras coisas, aprendo que a missão

máximo a roupa que trazemos, e nos pede que lavemos nós mesmos, nas pias dos nossos da cavalaria (hoje a cavalaria significa batalhões motorizados, com “jeeps” e canhões e de

compartimentos e camarotes, a roupa branca já suja. De repente, então, o 107 se transforma vez em quando alguns cavalos) é ir na vanguarda, reconhecer o terreno e estabelecer

numa pequena lavanderia: capitães, tenentes, funcionários bancários e o correspondente contato com o inimigo. Seguem-se a infantaria e lá atrás fica a artilharia, com seus tiros de
longo alcance. Depois vem a engenharia, encarregada de consertar os caminhos destruídos. da manhã às 10 da noite. Há quatro dias que assistimos ao “Sunny”, com Ann Neagle, e

Foi isto mais ou menos o que aprendi quando o capitão explicou aos colegas em que somente eu já me sentei seis vezes nos incômodos bancos do “deck” central. Mas o

consistia e como se realizava a tática dos exércitos soviéticos. Deixo aqui a lição para o marinheiro americano, encarregado do aparelhamento cinematográfico, nos prometeu uma

leitor civil, possivelmente também um outro leigo. estréia para amanhã, qualquer coisa de Red Skelton, parece. Pergunto-lhe porque ele não

Subo o “deck” superior, de ré, onde americanos e brasileiros lutam boxe, e chego a nos dá noticiário novo de guerra, e ele me responde, num sorriso e no seu português

tempo de contemplar um espetáculo pouco comum: um nordestino franzino e de rosto largo atravessado, que nosso papel atual não é o de assistir a filmes de guerra e sim o de

(possivelmente um cearense) massacra o alto e forte catarinense, de cabelos louros. O representá-los.

catarinense corre de um lado para outro do “ring”, se apóia na corda, mas as luvas do Falei na última reportagem a respeito de um sargento jornalista que queria em falar,

franzino caem sobre seus músculos e carnes como uma saraivada inevitável. Às vezes o e hoje à tarde ele me apareceu no 107: chama-se N. Pithan e Silva, da Aeronáutica,

sangue sobe para o rosto do catarinense, que fica rubro como um lenço ensangüentado, e correspondente no Rio de um jornal de Porto Alegre. Foi convocado há quase um ano e,

parece que sua paciência chegou ao limite. Mas, antes que a reação tenha início, o está vendo se consegue agora acumular às funções de soldado as de correspondente de

nordestino assesta uma cabeçada em grande estilo no estômago do “barriga verde”. O juiz guerra. Há ainda um outro jornalista a bordo, o sargento Machado, que me pega no convés

marca “foul”, mas tudo foi consumado, e o catarinense abandona o “ring” se torcendo de para falar do seu jornalzinho de Caieiras (a “Folha da Noite”, parece) em São Paulo. Ele me

dores. conta entusiasmado que o órgão vem aumentando progressivamente de circulação, já se

A torcida vibra com uma corda muito tensa, e nos intervalos se ouve a já famosa estendeu até Juqueri e Jundiaí, e que ainda este ano terá uma sucursal em Campinas.

“Chegou a hora da cobra fumar”, uma letra simples que o tenente do compartimento 204 “Quando eu voltar, vou me dedicar inteiramente ao jornalismo”, me diz ele. “Tenho uns

encaixou na música do “God bless to America”. planos aqui comigo e naturalmente vou trazer da Europa assunto para o resto da vida”.

E lá fora, dos lados, na frente e atrás, é o mar. O mar negro e quase sujo das manhãs, Escrevo à noite, no salão apinhado de oficiais, e o Chopin do tenente pianista

o mar azul do meio-dia, tão claro e limpo que parece mostrar o fundo, o ignoto e purpúreo conseguiu impor silêncio à algazarra de minutos atrás. Mas é um silêncio pesado, triste, e

mar dos crepúsculos, quando o sol ferido abre uma estrada de sangue que vai do navio até o dentro dele o “Noturno” em fá-menor goteja como lágrimas de uma pessoa desesperada.

começo do horizonte. A rotina de bordo continua: os exercícios de abandono do navio, à Saio para fora, onde uma noite negra e sólida tomou conta do mundo. Mas até aqui chega

tarde, as ordens que os amplificadores multiplicam, o cinema com sessões contínuas das 10 também Chopin, e cada si bemol é uma recordação qualquer de coisas e pessoas que vamos
deixando na distância. Corro, então, para o cinema do “deck”, e aqui estão novamente poucos gastos. Então John comprara mais galinhas e mais patos, aumentará o tamanho de

diante de mim, pela sexta ou oitava vez, os cantos e bailados de “Sunny”. sua casa, e no fim do primeiro ano virá com sua esposa ao Rio. Ele tem andado muito,

conhece Londres, Roma, Sidney, mas me diz que o Rio é uma coisa formidável.

Quanto às agruras da guerra, também elas têm caído sobre a cabeça pelada e os

5. Um “Mitchell” ataca o transporte ombros convocados de John. Em princípios de 1942, quando seguia para Murmansk, o

John Sherwood foi convocado em 1941. Entrou numa fase aguda de treinamento, torpedo de um submarino alemão levou quase metade da popa do seu navio, e durante horas

num dos campos militares da Califórnia, acabou sendo incorporado à Marinha, como e horas sua baleeira lutou contra o feroz Mar do Norte, até que foi guindada para um

marinheiro mercante. Já acompanhou comboios à Inglaterra, Austrália e Rússia. É um rapaz “destroyer” soviético. Outra vez, no norte da Austrália, aviões japoneses derrubaram

de cabelo louros quase raspados, a pele branca e salpicada de sardas escuras, e ele me bombas sobre o transporte, e um estilhaço entrou na perna esquerda de John – ele suspende

mostra, à noite e no convés, o álbum fotográfico onde vem resumido o mundo muito amado a calça grossa de brim azul e me mostra o sinal preto, em forma de unha. Mas John não

que ele deixou nos Estados Unidos. Esta aqui, moça e bonita no seu “short” praieiro é pensa na guerra. Lubrifica as máquinas de bordo, sobe e desce o mastro, monta guarda aos

Elizabeth Sherwood, sua esposa. Casaram-se em 1940, e possuem um filho de três anos, canhões e metralhadoras anti-aéreas – mas seus pensamentos e planos são todos para o

um menino alegre e de cabelos cacheados, o retrato da mãe, que a objetiva amadorista de mundo pacífico e verde da Califórnia onde estão seus patos, suas galinhas, sua casa,

John pegou em cima de um velocípede de grandes rodas. John me conta que na vida civil é Elizabeth e Freddy.

um sossegado criador de galinhas e patos, numa estância californiana. É um negócio que dá No fim da tarde deste primeiro domingo no mar, o transporte foi “atacado” por um

ótimos resultados, e seu sogro, me diz, já fez com as aves uma pequena fortuna de mais de avião “Mitchell”, tri-motor e vermelho. Imediatamente todos os navios, “destroyers” e

50 mil dólares. Uma das fotos do álbum nos mostra a residência de John, na Califórnia. É cruzadores se puseram em linha de combate. Os canhões 105 e as metralhadoras “pom-

uma casa pequena e branca, de cortinas nas janelas e cercada por uma grade pontuda. Dos pom” alçaram suas miras, e o tiroteio começou. As balas “traçadoras” começaram a riscar

lados é a grama, naturalmente muito verde, como a gente vê nos filmes em tecnicolor, e caminho de fogo, visíveis e coloridos, entre os navios e a biruta do “Mitchell”. Era um

sobre a grama descansam e correm as galinhas e os patos de John. Depois da guerra – e o gaguejar sinistro e pesado, que parecia querer nos rebentar os tímpanos. Nas torres de

marinheiro John Sherwood não acredita que ela vá além de 1945 – ele voltará para sua comando e atrás de suas metralhadoras e canhões, quase afogados nos seus capacetes de

estância, e lá estão suas economias armazenadas em três anos de vida no mar, uma vida de aço, os marinheiros americanos compunham uma cena já muito conhecida dos jornais
cinematográficos: o martelar das balas estremecendo seus corpos, o tiroteio incansável e nova o oceano sem tamanho, que continuou azul, azul profundo, como vem acontecendo

veloz, o estampido retumbante do 105, e lá no céu as pequenas nuvens de fumaça que em todas as tardes.

dentro de pouco tempo acabaram por sujar todo o azul claro. Quando o aviso de “tudo limpo” foi dado, um silêncio pesado caiu sobre o navio.

O tiroteio nos pegou inteiramente de surpresa e os boatos começaram a correr livres Apenas o marulhar das ondas, o destróier da frente se sumindo e reaparecendo dentro do

pelo transporte. Disseram-me no corredor que se tratava de um ataque contra um submarino mar – um silêncio ofegante de uma pessoa que acabava de realizar um trabalho pesado e

nazi. Na sala dos oficiais, um tenente me falou apressado num provável ataque aéreo. E exaustivo. As cabeças dos pracinhas foram aparecendo na entrada que liga o convés aos

encontrei na sacada que leva ao tombadilho do comando, os olhos muito abertos para o céu, compartimentos, os grupos foram se formando, e de repente o “regional” (o cabo Bertolino

o reverendo Libeloto, naturalmente cheio de receio que as conseqüências da “batalha” não na cuíca, o soldado José Pinto, de Muriaé, no surdo) rasgou o navio de ponta a ponta com a

lhe permitissem dentro de poucos dias beijar em Roma a mão do Papa. Um pracinha, no canção nova que fora improvisada na noite anterior:

convés de baixo, botou a cabeça do lado de fora da escotilha, gritou que “a cobra começou

a fumar”, e mergulhou novamente na escuridão do seu compartimento.

Finalmente, a pontaria certa do destróier de ré cortou a corda da biruta pela metade, “Querida, amanhã é o dia da minha partida

e o pequeno balão vermelho ficou livre no ar e foi cair nas ondas, muito distante. Vou e sei que vou voltar

Dentro de poucos minutos, porém, o “Mitchell”, que havia ido até a costa, voltou Querida, amanhã é o dia da minha partida

com uma biruta nova. As “pom-pom” começaram novamente a gaguejar, dezenas deles, e Eu vou com destino a Berlim

os 105, no transporte, cruzadores e destróiers, ribombaram como um trovão seco que nos Oh! meu amor

sacudia dos pés à cabeça. Quando descemos para o jantar das 17 horas, o tiroteio Não quero que você chore por mim”.

continuava lá fora. Os pratos dançavam nas mesas e nuvens negras de fumaça passavam

pelas escotilhas abertas. Enfim, era a guerra, e foi unicamente este ensaio de guerra que À noite, no 107, dou um balanço no material de leitura que é possível utilizar até o

diferenciou o primeiro domingo dos outros dias passados a bordo. Antes e depois do fim da viagem. Mas há aqui pouca coisa de interesse: um “Manual de Reservista”, três

canhoneio e do “ataque”, a rotina foi a mesma – o domingo nem ao menos tinturou de cor revistas policiais, uma revista “Life”, a biografia do sr. Getúlio Vargas pelo sr. Frischauer,

edição Fisher, um livro do coronel Lima Figueiredo e um “safa onça” onde se pode
aprender, em poucos minutos, como se pede água em italiano ou se troca dinheiro em no rosto e uma venda nos olhos leva a pensar que tenha ficado cego. No mesmo helicóptero

inglês. Há também ainda, um “Eugênia Grandet”, de Balzac, mas acredito que se trata que nos trouxe, os feridos são levados depressa para o hospital. Um militar conhecido,

apenas de um ornamento de bagagem do funcionário Chevalier, já que até agora ninguém Capitão Whitekind, sempre simpático, faz um aceno quando me vê:

ainda o folheou. – Ei, Brasil, hoje vai ter barulho. Você está de sorte!

Como acontece depois de alguma baixa, a Companhia ficou parada. Só após a

retirada dos feridos é que recomeçou a “operação de limpeza de área”, com o apoio da

EU ESTIVE NA GUERRA Companhia B, mais à frente, e de duas companhias do Exército sul-vietnamita –

Hamilton Ribeiro estacionadas aqui perto e prontas a entrar em combate se houver contato com o inimigo.

A Companhia D recomeça a avançar, obedecendo à formação de pirâmide invertida:

Vinte de março. Meu último dia na guerra. Amanhã, 2l, já estarei em Saigon para na frente, a linha de vanguarda; no centro, o comando e as comunicações; atrás, os

cuidar da volta. Os soldados da Companhia Delta (ou D) vão fazer hoje outra batida numa enfermeiros, as armas pesadas e as forças de apoio. Shimamoto – um fotógrafo japonês – e

aldeia de camponeses, 20 quilômetros daqui. É a terceira vez que a Companhia D faz eu, os únicos jornalistas presentes, caminhamos cautelosamente, entre o comando e a

operação de limpeza nesse lugar, conhecido como “Estrada sem Alegria” – nome tirado do retaguarda.

livro escrito por um francês, que conhece bem essa região, onde ele próprio morreu no ano Henry, um soldado americano que fala espanhol, foi designado para me proteger e

passado, pisando numa mina vietcong. não sai do meu lado. É um tipo corajoso e amigo.

Às oito e meia da manhã, um helicóptero nos leva para junto da Companhia D, na Naquele instante, olhando Henry, pensei nos amigos que já fizera, nas coisas que já

tal estrada sem alegria. Quando o aparelho, atendendo aos sinais de fumaça que indicam a vira, nos meus quinze dias de Vietnam. E lembrei como tudo começara, em Nova Delhi.

posição dos soldados, começa a perder altura para pousar ao lado de uma plantação de

mandioca, notamos urna movimentação estranha. Só no chão é que a gente vai saber do que “O senhor não tem medo?”

se trata. Um soldado, ao atravessar uma moita de bambu, fez explodir uma mina, e dois

deles estão agora sendo atendidos pelos enfermeiros da Companhia. São dois porto- Às 5 da manhã, no aeroporto da capital da Índia, a recepcionista da Air France veio

riquenhos, Vargas e Rosas. Um está com as duas pernas em frangalhos; o outro foi atingido ao meu encontro:
– É o senhor que vai para o Vietnam? – Não é possível Este serviço é só para o pessoal militar americano. O senhor pode

– É. trocar o seu dinheiro nos bancos da cidade.

– E o senhor não tem medo? Estava criado o caso. O centro da cidade é longe do aeroporto, para chegar lá

– Bem... precisaria tomar um táxi e ia ser um problema pagar ao motorista. Dezenas deles, em

Eu era o único passageiro para Saigon no aeroporto de Nova Delhi e á recepcionista velhos Volks e Citroens caindo aos pedaços (precisam de manivela ou de empurrar para dar

ainda me disse que o avião talvez descesse na capital do Vietnam só por minha causa. Não a partida), ofereciam-se para me atender. A recepcionista da Air France resolveu o impasse,

era verdade. A bordo vinha um vietnamita, embarcado em Paris, que também ia ficar em avisando que um carro da companhia ia levar-me até o hotel:

Saigon. – Os táxis exploram muito. Não há medidor de corrida e eles cobram o que querem.

Quando o auto-falante anunciou que começávamos a descer no aeroporto de Saigon, Quando apanham um estrangeiro, fazem a festa. Toda vez que o senhor tiver que usar táxi

a única impressão que me veio era a de que eu ia chegar a um lugar conhecido. A longa tenha o cuidado de combinar antes o itinerário e o preço.

preparação para a viagem tinha-me feito ler alguns livros sobre o Vietnam, e o fato de em Toquei para o Hotel Continental – o mais conhecido de Saigon – confiando em que

Saigon falarem francês dava-me uma certa sensação de intimidade com aquele povo que eu meus telegramas pedindo reserva de lugar tivessem chegado. Não chegaram. Não havia

ia ver pela primeira vez. nenhuma reserva em meu nome e o hotel estava lotado.

O aeroporto é uma praça de guerra. Barricadas, altas colunas de sacos de areia, O problema de alojamento é sério em Saigon, com a maioria dos lugares

porções de terreno isoladas com arame farpado, soldados e canhões. A paisagem se requisitados por militares. O recepcionista do hotel, para minha surpresa, dispôs-se a

completa com um edifício semidestruído por morteiros vietcongs, perto da torre de ajudar, telefonando a outros hotéis, querendo guardar minha bagagem, perguntando se eu

comando. aceitava tomar alguma coisa, para logo depois indagar:

Simples as formalidades de desembarque; um funcionário vietnamita só conferiu o – O senhor tem dólares? Posso trocá-los a 160 piastras. É só o senhor me passar

visto de entrada no país; nenhuma preocupação com a bagagem. discretamente o dinheiro...

Pronto – estava no Vietnam. Era 6 de março de 1968. Minha primeira preocupação No Vietnam, a cotação oficial é de 118 piastras por dólar, mas o mercado negro

foi trocar dinheiro. Vi uma tabuleta de “Exchange” e segui direto para lá. corre solto. Grupos de pessoas abordam os estrangeiros – os brancos – oferecendo até 220

piastras por dólar. Às vezes, é verdade, pagam mesmo o que oferecem. Outras, entretanto,
aplicam o golpe do dinheiro fora de circulação. Oferecem 220 piastras por dólar e, ao Observo com curiosidade uma coisa que muito me intrigou vista dos helicópteros:

fazerem a troca do dinheiro, entregam de volta um pacote de notas das quais só as de cima são montes de terra redondos e recobertos de grama e flores, de espaço a espaço, no meio

são piastras verdadeiras. As outras são velhas cédulas, hoje sem valor. Os mercadores de das plantações. Agora, de perto, sei o que são: túmulos. Os camponeses que morrem,

dólar das ruas de Saigon sofrem uma grande concorrência: a dos que oferecem mulher. Tão principalmente os velhos, são enterrados na própria terra que lhes dava vida, e isso é um

agressivos quanto os outros, sua “técnica de venda” se apóia na idade. dos traços religiosos do Vietnam: o culto aos antepassados.

– O senhor pode escolher à vontade. Nenhuma tem mais de dezesseis anos!

Guardam o trunfo maior para o melhor momento psicológico: “Cuidado: terreno minado”

– Temos também uma virgem. De doze anos! Por apenas 50 dólares!

Foi assim o meu primeiro contato com o Vietnam, caminhando cinco quarteirões de Segundo os americanos, estamos numa região infiltrada de inimigos. Eles têm

mala na mão, entre os hotéis Continental e Magestic, ambos na Rua Tu Do. certeza de que ali há subterrâneos vietcongs, túneis de depósito de munição e de alimentos,

Agora, aqui, bem no Norte do país, Saigon estava distante. e por certo, também, atiradores à espreita. A Companhia avança com cuidado. Nem que não

A região da “Estrada sem Alegria” é de várzea seca e fica a menos de 3 quilômetros tivesse havido a explosão que feriu os dois porto-riquenhos, os soldados sabiam que o

do mar. A terra é fértil e se vê que bem aproveitada, com sucessivas plantações de terreno estava minado: é o recurso principal dos vietcongs para proteger suas posições, já

mandioca, arroz e outros cereais. As plantações estão bem cuidadas, limpas, sem mato, mas que não têm gente suficiente para guardá-las. Dois sul-vietnamitas, militares profissionais,

não se vê ninguém. As casas estão vazias, algumas meio derrubadas por bombas, outras contratados para fazer a guerra, que conhecem a região, são encarregados de detectar as

completamente arrasadas. A desolação é conseqüência de operações militares anteriores: a minas e colocar placas de “danger” (perigo) toda vez que encontram uma, para evitar que

caça aos vietcongs é implacável e, ao menor indício de que uma família possa ser-lhes os soldados passem por ali. A sensação de perigo está no ar. As touceiras de arbustos entre

simpática ou possa fornecer-lhes alimento, a casa é destruída e o que existir de arroz é as plantações e as moitas de bambu parecem existir exclusivamente para nelas se colocarem

queimado pelo lança-chamas. A população concentra-se nas cidades próximas, morando minas. Cada vez que precisamos atravessar um bambual, calafrios percorrem a espinha de

cinqüenta pessoas numa casa onde normalmente caberiam dez. Ainda que abandonando cada soldado. Tem-se a impressão de que pisar ali é ato consciente de suicídio.

suas casas, os camponeses não abandonam as terras e há sinais de que, ainda naquela A 20 metros de mim, de repente, explode outra mina. Seguem-se gritos angustiantes

manhã, estiveram por ali capinando ou chegando terra nas covas de mandioca. de dor. Tudo pára. Henry, sempre do meu lado, sugere excitado:
– Feridos! Vamos correr para você poder fotografar. Sem responder, ele continuou caminhando para mim. Foi aí que senti a perna

Mas os de trás já nos passaram, entre eles dois enfermeiros. Henry e eu ficamos por esquerda. Os músculos repuxavam para a coxa com tal intensidade que eu não me

último. Ele insiste: equilibrava sentado. Para não cair, rodopiava sobre mim mesmo, em círculos e aos saltos.

– Vamos, você fará belas fotos. Instintivamente, levei as duas mãos para “acalmar” a minha perna esquerda, e foi então que

Observando a movimentação de todos em direção aos feridos, por um momento me a vi em pedaços. A calça no lado esquerdo tinha desaparecido. A visão foi terrível. O

passou pela cabeça a certeza de que o terreno entre a minha posição e a dos feridos, já tão sangue brotava corno de torneiras. Depois do joelho, a perna se abria em tiras, e um pedaço

fartamente pisado, não podia ter mais mina nenhuma. Com a máquina em posição de largo de pele, retorcido, estava no chão. Olhei em volta e não achei meu pé. Fiz um balanço

ataque, corri para os feridos, Henry ao meu lado. A cinco metros do local, vejo uma bota rápido da situação. Senti a cabeça muito quente e um fio de sangue no rosto. A perna

com um pé dentro, minando sangue. Penso sem querer pensar: direita, empapada de sangue, parecia ferida, mas estava com a perna da calça e com a bota

– Isso é que é pé frio! – senti certo alívio. A mão direita, muito queimada, minava sangue. Não sentia

Ouço uma explosão fantástica. E um tuimmm interminável que me atravessa os absolutamente nenhuma dor. O que mais incomodava era o incrível retesamento dos

ouvidos de um para o outro lado, dá-me uma sensação de grandiosidade. Sinto-me no ar, músculos da perna esquerda.

voando, mas, ainda assim, com uma certa tranqüilidade para pensar: Shimamoto chegou-se a mim, puxou violentamente a minha cabeça para o seu peito

– A guerra é de fato emocionante. Agora entendo como há gente que possa gostar de – numa posição em que eu não mais podia ver a perna esquerda – e, chorando, beijava

guerra... seguidamente os meus cabelos.

Uma cortina espessa de fumaça bloqueou-me toda a visão. Tive a certeza, então, de – José, oh José, oh José, como é que foi acontecer isso?. Uma idéia veio-me então

que a bomba tinha explodido a alguns metros de mim, exatamente sobre o Henry. Gritei: bem nítida:

– Henry, você está bem? Henry!... Henry!... – Vou morrer!

Um segundo após me senti no chão, sentado. A cortina de fumaça se esgarçou e vi Relembrei uma brincadeira de estudantes, quando combinamos que eu devia morrer

aproximar-se de mim Shimamoto, o fotógrafo japonês. Pergunto-lhe: com 32 anos.

– Shima, você está bem? – É, vou morrer.


De repente, ganhando espaço, devagar mas implacável, veio a dor. Uma dor aguda, lado, e até coçar um no outro. Fiz um reexame da situação e passei a acreditar firmemente

sufocante, que me fazia suar aos borbotões. Gritei: que aquela imagem de perna sem pé não se relacionava comigo, mas sim a um dos dois

– Ajudem-me, ajudem-me. Preciso de morfina. feridos antes da minha bomba. Pensava:

Os enfermeiros estavam cuidando dos dois feridos da primeira explosão – um dos – Se eu sinto os dedos, é porque eles existem, e não existe dedo sem pé, logo, o meu

quais, soube mais tarde, perdera as duas pernas e um braço. Quem veio em meu socorro foi pé esquerdo está lá, firme.

o Capitão Whitekind. Passou uma cinta em torno da minha coxa esquerda e deu um nó. Quando o helicóptero pousou em frente do hospital, com certo impacto ao tocar o

Com uma faca, cortou um galho de um arbusto e enfiou debaixo da tira de couro, passando chão, e eu recebi no rosto o calor e o sol do meio-dia, meu otimismo diminuiu muito.

a girá-la como um garrote, para evitar o esguicho se sangue do resto da perna. Enquanto ele Percebi que as dores iam voltar. Enquanto me transportavam para o hospital, um homem

fazia isso, chegou um enfermeiro. Demorou um tempão para tirar a seringa de morfina de caminhava ao meu lado falando e falando. Custei a perceber do que se tratava. Era um

um tubo plástico, que ele mordia nervosamente. Finalmente, injetou-me o sedativo na coxa padre católico. Perguntou-me em italiano se eu queria confessar e comungar. Numa reação

direita e passou a fazer com bandagens uma espécie de embrulho, para guardar o que que até hoje não entendo, respondi:

sobrava da perna esquerda. Feito isso “encanou” com dois paus a minha perna direita, – Obrigado, padre, eu sou protestante.

recobriu-a com novas bandagens. Depois, não sei o que aconteceu, pois a consciência me Ao que ele retrucou:

fugiu. A agonia – que deve ser atroz – de se sentir no meio do mato, esvaindo-se em – Numa hora dessas, meu filho, isso não tem importância.

sangue, enquanto o socorro não chega, essa agonia eu não passei. Aquela idéia veio-me de novo:

A próxima coisa de que me lembro foi o helicóptero-ambulância pousando a 5 – É, vou morrer!

metros de mim. Henry, Whitekind e Shimamoto tentaram carregar-me, mas não Não me lembro mais do padre, nem de maiores detalhes do hospital, a não ser do

conseguiram. Trouxeram uma maca. A viagem para o hospital foi até agradável. Puseram- momento em que entrei na sala de cirurgia e alguém me disse:

me de bruços numa posição em que eu não via nem uma perna nem outra. O efeito da – Não se preocupe, agora você vai dormir um pouco.

morfina, o barulho do helicóptero, mais a brisa fresquinha que me banhava o corpo, A recordação seguinte é já na cama, com a perna esquerda “encaixotada”, a direita

trouxeram uma grande sensação de tranqüilidade. Sentia – isso me deu um mundão de coberta de bandagens, o braço esquerdo encanado. Um médico estava me dizendo que eu só

esperanças – cada um dos dedos do pé esquerdo. Podia movê-los à vontade para qualquer ia ficar uns quatro dias no hospital, seguiria depois para os Estados Unidos e em vinte dias
estaria bom. Acreditei em tudo e estava bastante tranqüilo. Não suspeitava que aquele era o conclusão de que é um civil. Se tivesse morrido ontem, teria sido catalogado como mais um

primeiro dos quinze dias mais dolorosos, tristes e infelizes que eu jamais tinha imaginado inimigo abatido. Um jornalista francês me disse que “vietcong é um vietnamita morto”.

passar em minha vida. O médico tinha usado a velha política de enganar o paciente. Talvez tivesse razão. Por volta de 10 horas, levam-me para o aeroporto, onde um avião me

Dia 21: estranhas canções transportará para o hospital de Nha Trang. Viagem dolorosa, com três escalas. Dois dos oito

soldados da Companhia D, feridos no mesmo dia da minha mina, estão no avião. Nunca

O trauma e as drogas que se seguiram à operação de ontem me fazem passar um dia mais esquecerei o meu vizinho de maca. Ele recebera uma granada no rosto, e o olho

meio embaçado, sem muita consciência. Este, entretanto, será o dia da desilusão: toda a direito, o nariz e a boca se tinham transformado numa cavidade só. O outro olho estava

fantasia que eu alimentei durante a viagem de helicóptero sobre meu pé esquerdo bom, e ele o abria e fechava sem parar, talvez não conseguindo focalizar o que via. Como

desapareceu. A minha perna só vai alguns centímetros além do joelho. As lesões da perna eu, o meu companheiro de maca está fortemente drogado e não sente dor. De vez em

direita, ainda que muito espalhadas, são superficiais. A mão esquerda é que parece não estar quando, volta o rosto na minha direção e tenta falar alguma coisa. Quando movimenta as

bem: alguns dedos tiveram o tendão afetado. carnes do local onde antes havia sido a boca, produz estranho ruído, seus dentes mudam de

O médico vem avisar-me que vou ser transportado amanhã para o Oitavo Hospital lugar e o sangue espirra em meu peito. Não pude entender o que tentava dizer-me.

de Campo de Nha Trang, pois este onde estou – o 22° de Cirurgia – só presta para os Chegamos de tardezinha em Nha Trang, e eu, por ser estrangeiro, fui colocado numa cama

primeiros socorros. entre feridos vietnamitas.

Chega um paciente que atrai a atenção. Foi baleado várias vezes durante uma

operação de limpeza. É um vietcong. Vai morrer. Em seu delírio ele canta estranhas Dia 23: dor, morfina, náuseas

canções.

Segunda operação na perna esquerda, tomando toda a manhã. À tarde, um trinômio

Dia 22: o homem da grana que havia de continuar até quase o limite das minhas forças: dor, morfina, náuseas.

Como num sonho, revivia meu primeiro dia em Saigon. Até que me instalasse no

O vietcong não morreu. Resistiu bem às operações e agora está dormindo. O Hotel Magestic e trocasse de roupa, tive de suportar o calor do Vietnam: em março,

Intelligence Service do Exército, examinando seus documentos e interrogando-o, chegou à incomoda até carioca. Já eram 4 horas. E tinha ainda duas coisas importantes a fazer, antes
do “toque de recolher” – às 7 horas: a) procurar o representante diplomático do Brasil para A quatro dias do acidente, ainda não consegui comer. A simples visão das bandejas

avisá-lo de que, segundo um documento que eu ia assinar perante as autoridades de comida, fartas e generosas, provoca o vômito imediato. Nas horas intermediárias

americanas, “qualquer coisa" que acontecesse comigo no Vietnam não era de consigo engolir goles de leite, mas isso tem o seu preço: parece que o meu intestino

responsabilidade” do Governo americano, e que meu corpo seria entregue à Embaixada proclamou a sua independência e não tem mais nada a ver com o meu comando. Produz

brasileira “em caso de emergência”; b) alugar um carro, pois estava claro que se eu fosse coisas, movimentos e ruídos estranhos. Sinto também que a minha cama se banha de

depender de táxi pouca coisa ia poder ver em Saigon. Dei sorte: o representante do Brasil sangue e eu nem sei de onde é. A minha única vitória, hoje, é um urinol. A certa altura sinto

em Saigon, Rogério Corção, pôs-se à minha disposição e inclusive conseguiu, nesse mesmo vontade de urinar, um estreitamento, quase dor. Peço o urinol, mas não consigo nada na

dia, que eu alugasse um Citroen em bom estado. E dei sorte numa coisa mais: “aconteceu” primeira vez. Tento outras, faço massagens, movimento o mais que posso o corpo, e então

um Nguyen em minha vida. Nguyen é o nome mais comum no Vietnam: quase todo mundo consigo. Tomando 3 litros de soro por dia, tinha muito o que urinar.

é Nguyen, desde Cao Ky, homem forte do Governo do Sul, até qualquer vietcong. Nguyen Meu moral é zero: sofro dor o tempo todo, não posso comer, estou obrigado a uma

é Silva, é todo mundo e é ninguém. Por acaso encontrei o meu Nguyen: um rapaz que posição fixa – que já me fez um calo doído nas costas – e sem possibilidades de contato

falava francês perfeitamente, que já tinha trabalhado para os americanos, e que estava em com ninguém.

férias forçadas: a fabrica onde trabalhava, como técnico especializado, parara por falta de Tudo no hospital parece ruim: televisão ligada o dia todo, metade do tempo

matéria-prima. E Nguyen, ele próprio um jornalista frustrado, dispôs-se a sair todo dia mostrando filme de guerra, outra metade supostamente programa de humor, tratando dos

comigo, para me mostrar a guerra. Hoje posso dizer que tenho um amigo no Vietnam. problemas de desastradas donas de casa; a história de nos acordarem às 5 horas da manhã –

Quando Nguyen soube que eu tinha sofrido um acidente grave, deu um jeito de me fazer único momento em que trazem água para os feridos lavarem o rosto e a boca –; os

chegar às mãos uma carta patética, em que quase se desculpava por não poder ter ido junto vietnamitas ao meu lado conversando entre si e sem sequer querer saber de onde eu era,

comigo para a frente de combate, onde certamente teria evitado que a bomba me pegasse. tudo me parecia rim demais. Os soldados que atendiam os feridos, e que eu depois iria

achar tão simpáticos, pareciam-me – naquele dia – seres desprezíveis. Cheguei a imaginar

Dia 24: agora, os olhos que os americanos em vez de seres humanos deviam ser cavalos. Haveria então, entre eles,

duas raças: uma de tração e uma de trote. Os morenos e os pretos, colocados em parelhas

iguais, seriam os cavalos de trote. E os brancos, tipo daqueles sargentos de cabeça grande,
de 2 metros de altura e mais de 100 quilos, seriam os cavalos de tração. Cheguei a ver um

deles puxando arado, Dia 26: terceira operação

Mas o dia 24 ia terminar ainda pior: desde a explosão, vinha sentindo uma forte

irritação no olho. O enfermeiro primeiro lavou-os por fora e a coisa não melhorou. Depois, Mais uma operação, a terceira. E continua o trinômio: dor, morfina, náuseas.

deu um inútil banho de colírio. A irritação, como se meus olhos estivessem cheios de grãos Como num pesadelo, vejo-me de novo em Saigon, no Citroen preto, meu Nguyen

de areia, continuava. Chamaram então o oftalmologista. Ele examinou os dois olhos e viu do lado. Vou credenciar-me como “correspondente de guerra”. A guerra é uma coisa

neles fragmentos de metal da bomba; mais no olho direito do que no esquerdo, pingou organizada e um jornalista, devidamente credenciado, passa a ter facilidades de trabalho

remédio para dilatar as pupilas, anestesiou o globo e com uma agulha fina retirou os como eu nunca tinha visto antes. Passagem aérea, por exemplo, para as frentes de luta, é

fragmentos de dentro do olho. Como no direito o número de estilhaços era maior e a concedida gratuitamente – em avião militar americano –, bastando pedi-la com seis horas

limpeza chegou a sangrar, o médico recobriu-o com um tapa-olhos. Eram 10 horas da noite de antecedência. Uma vez no front, a gente é tratada como oficial, com todo respeito e

e eu recebia o meu remédio de dormir. A conseqüência viria no dia seguinte. admiração, cerveja e cigarros. Para estar com os papéis em dia nesta gueerra é preciso duas

credenciais: uma fornecida pela Governo do Vietnam; outra pelo MACV – Comando de

Dia 25: a escuridão Assistência Militar no Vietnam – dos americanos. Por honra da casa, primeiro se vai ao

Press Center do Vietnam, e a coisa não dura cinco minutos. Um risonho funcionário pede

Acordo cego. Com um defeito congênito do olho esquerdo, que só me deixou um uma carta de identificação da revista e duas fotografias. Fica com uma e a outra prega num

décimo de visão, e com o olho direito tamponado, eu não vejo nada. Começo a pensar cartão, que ele mesmo assina e entrega na hora. É tudo.

bobagens, como se tivesse perdido o olho direito. Quando vem a água para lavar o rosto e A credencial junto aos americanos – que é a que interessa – demora um pouco mais.

escovar os dentes, não enxergo direito a bacia, não consigo pegar o sabão, fico meio A gente assina o tal documento de que o Governo dos EUA não é responsável por nada que

desesperado. Grito então para que tirem o tampão do olho. Não podem. A ordem do médico nos aconteça aqui; depois lhes entrega um documento da direção da revista em que se diz

era que eu ficasse 24 horas com o olho protegido. Agüento mais alguns instantes, num que ela (a revista) se responsabiliza por todos os nossos atos, opiniões e despesas durante a

grande esforço de paciência, mas a certa altura não posso mais. Não quero continuar cego. estada no Vietnam, e anda um compromisso de não ficar no país nem um dia a mais que o

Se eles não tirassem o tampão, eu o arrancaria. Tiraram. necessário para o trabalho que for realizar. Os americanos são minuciosos, mas eficientes.
Em meia hora está tudo pronto A gente recebe uma montanha de papel com resposta a todas abertas – amarram uma corda de náilon que tem na sua extremidade um peso de 3 quilos.

as perguntas possíveis que se possam fazer sobre a participação dos americanos nessa Pode-se imaginar o que isso significa em dor. Só depois de alguns dias – nove no meu caso

guerra, desde o número de generais em ação até os fundamentos morais e jurídicos dos – é que o peso pode ser retirado, e então, só então, são dados os pontos para fechar a lesão.

bombardeios do Norte; ou mesmo o fato de que quatro netos do embaixador Bunker são Olhando o médico americano, lembro-me de repente de um médico vietnamita que

paulistas e moram no Jardim Europa – e recebe ainda um documento segundo o qual a me foi apresentado por Nguyen, em Saigon. Visitava um dos bairros atingidos durante e

gente pode (e deve) comprar nos almoxarifados militares o uniforme de “correspondente de depois da grande ofensiva vietcong do começo do ano, quando 19 mil casas foram

guerra”: uma calça militar, duas camisas, um boné, cuecas, camisetas, toalhas – tudo verde- destruídas na capital do Vietnam do Sul, em conseqüência dos bombardeios,

oliva –, um par de botas e dois pares de meias antivietcong. São meias compridas, grossas, principalmente.

parecidas com as de jogador de futebol. O detalhe antivietcong é que elas têm sola, uma O terreno onde ficavam as casas já estava limpo de entulhos e o único sinal de que

sola consistente de plástico duro e que vai servir – garantem – para evitar que a gente pise ali antes morava gente são pedaços retorcidos de bicicletas amontoados a um canto. Entre

em tachinhas envenenadas. Um jornalista francês, também recém-chegado, me disse, uma área destruída e outra, milagrosamente há uma casa de pé. É uma construção de pedra,

naquela tarde em Saigon, que a minha principal preocupação deveria ser “não parecer nova e muito sólida, e que no andar de cima mostra dezenas de sinais de bala. Mas está de

americano”. pé e lá dentro há gente. Nguyen pergunta ao dono da casa se ele aceita bater um papo com

– Deixe o cabelo crescer, escreva Bau Chi (imprensa, em vietnamita) no peito da um jornalista brasileiro. O homem, um médico, imediatamente nos convida para entrar,

camisa, escreva Press no boné, e, sempre que puder, deixe claro que você não é americano. serve chá e dispõe-se, em bom francês, a responder tudo que nós quisermos saber.

Dia 27: o médico amarelo – Foi um escândalo. Ninguém jamais podia imaginar que o vici (os americanos

chamam o vietcong de vici e mesmo os vietnamitas já se acostumaram com a palavra)

Nunca imaginei que fosse sofrer tanto na minha vida. Hoje o médico me disse a tivese condições de atacar em pleno coração de Saigon.

razão de tanta dor. Uma perna amputada, se deixada livre, encolhe, atraída pelo O Doutor Hoang conta que no dia da ofensiva ele estava atendendo um cliente em

repuxamento dos músculos. Assim, tratadas as feridas, elas se curam, mas a perna retorce, outro bairro quando percebeu alguma coisa estranha no ar. Voltou depressa para casa e

enrijece e nunca mais poderá assumir qualquer das suas funções. Para evitar isso, os entrou, quando intensa fuzilaria já se escutava no bairro. Encontrou a mulher e os cinco

médicos juntam os músculos, tecidos e nervos da região amputada e – com as feridas filhos apavorados na cozinha: havia soldados na garagem. Foi vê-los.
– Eram os vici. Estavam uniformizados como regulares do exército do Governo, Um padre católico, americano, teve uma inspiração divina e ficou bastante tempo à

mas usavam sandálias de pneu em vez de botas. Aparentavam todos – eram quatro – ter beira da minha cama, provocando-me para que eu falasse. Forçava-me, queria que eu

menos de vinte anos e apresentavam nítidos sinais de fome crônica e, ainda, o ar cansado de “chorasse as mágoas”. Conseguiu. Estou reclamando da dor, do isolamento, da distância, do

quem tivesse viajado a pé durante dias. medo que tenho de morrer sozinho, da impossibilidade de comer a comida do hospital.

O vici desembarcavam um pacote de munição e exigiram do Doutor Hoang que Reclamo de tudo, enfim. E, afogado em tanta infelicidade, começo a chorar. É o que o

deixasse as portas da casa abertas, pois eles talvez fossem utilizar o segundo andar para padre pretende. Iria dizer-me, depois, que sentiu que eu estava em alta tensão emocional e

atirar contra um posto americano a poucos metros dali. que o desabafo através do choro só podia fazer-me bem.

Qualquer vietnamita consegue identificar pelo sotaque os habitantes das três Esse padre ia tornar-se o meu primeiro amigo no hospital. Descobriu todos os

principais regiões do país: do Norte, hoje nas mãos de Ho Chi Min; do centro, região das médicos que falavam espanhol e francês e trazia-os, um de cada vez, para conversar

cidades de Hue e Da Nang; e do Sul, região dominada por Saigon e antiga Conchinchina. comigo. Isso me fez um bem muito grande, principalmente porque os médicos no Vietnam

Pergunto ao Doutor Hoang se aqueles vici eram do Norte. – talvez por ficarem com o pior pedaço da guerra, as lesões e a morte – geralmente são

– Não. Eram sulistas e me pareceu que vinham das províncias centrais. contra essa carnificina estúpida. A partir desse dia tinha certeza de que continuava sendo

Hoang, em seguida, diz que é contra os vici. Mas há uma espécie de vaidade em sua gente, pois alguém, a qualquer hora do dia, vinha procurar-me só pra conversar.

voz quando ele continua: Quando da minha crise de choro, cobri o rosto com o lençol e solucei alto, sem

– Durante a ofensiva, o número de vici em Saigon foi estimado em 3 mil. Eram receio de que os outros ouvissem, sem nenhum constrangimento. É que os meus vizinhos

livres-atiradores, sem retaguarda. Para se opor a eles juntaram-se mais de 150 mil soldados de cama, todos vietnamitas, regularmente também choravam. Chorar era, ali, fato normal.

entre americanos, sul-vietnamitas e aliados. A cada vici de sandália correspondiam Um detalhe: não vi nenhum americano chorar. Mesmo os que se encontravam nas piores

cinqüenta dos mais bem equipados soldados do mundo. condições, agüentavam firme a sua dor.

Dia 28: chega o padre Dia 29: dor que não existe
Quarta operação; entro na sala às 9h30 e só saio às 13 horas. Passo o resto do dia Dia 31: o menino baleado

com muita, muita dor, principalmente nos dedos do pé que não existe mais. É intrigante

esta dor no vazio, onde a gente não pode passar a mão para tentar aliviar um pouco. A dor é Consigo, de manhã, comer dois ovos cozidos com sal e isso mie deu uma satisfação

de dedo esmigalhado em pedra, de um corte feito a faca entre a unha e a cabeça de cada imensa. Estava impressionado com o meu emagrecimento, desde o dia em que me tiraram o

dedo. tubinho de soro da veia do braço, e o buraco nem se fechou. Fiquei com a impressão de

que, por falta de alimento, jamais ia recuperar a saúde. A medicina americana pode curar-

Dia 30: ainda o jejum me – eu pensava –, mas essa comida vai acabar me matando.

Depois dos ovos, tornei um café, fumei um cigarro e senti que estava começando a

As dores diminuíram pela metade. E fico sabendo a razão: a operação de ontem foi viver de novo. Recomeçaram a ter importância para mim as pessoas que me rodeavam. O

para fechar as feridas, e para tirar o peso que fazia a tração muscular na perna esquerda. rapaz da Companhia Delta, cuja desgraça foi a causa da minha – pois eu corria para

A dor agora é suportável: o que ainda está ruim são as náuseas. Não consigo comer fotografá-lo quando pisei na mina –, está em sua cama, resignado como um budista. Perdeu

nada. No breakfast, a simples visão da omelete viscosa me faz afastar a bandeja. No as duas pernas na altura da coxa, perdeu um braço inteirinho, seu corpo ficou

almoço, a carne tipo presunto também não deu, e nem quis ver o que haveria no jantar. estranhamente pequeno, mas o rapaz resiste. Seus olhos são vivos, e mostra uma grande

A enfermeira da tarde, urna moça rechonchuda e risonha, mas que não perdia a confiança – não sei em quê. Há um outro ferido terrível que observo da minha cama: com

autoridade do posto – era tenente, a Tenente Roy –, impressionou-se com o meu jejum, frutuosa do crânio, ele está dependurado pela cabeça, com pernas e mão amarradas, imóvel.

então de nove dias, e me disse que quando deixasse o serviço ia preparar em seu quarto De seis em seis horas mudam a posição de sua cabeça – e é só. Tudo o que move nele são

algumas guloseimas para me trazer de noite. Cumpriu a palavra. Apareceu às 9 horas com os olhos, acompanhando os enfermeiros. Mas a figura mais dramática desta ala do hospital

um prato cheio de variadas e coloridas formas de mortadela e frios em lata. Tentei, na sua é a de um montagnard – vietnamita das montanhas, que luta a soldo no lado dos

presença, experimentar alguma coisa. Não pude, a náusea foi mais forte. A Tenente Roy re- americanos. Ele é baixinho, e os pijamas do hospital, naturalmente seguindo os manequins

solveu então dar ordem à cozinha para só me servir ovo cozido. americanos, lhe assentam muito mal. Uma vez por dia, é empurrado no corredor para fazer

exercício, e isso é um espetáculo macabro. Uma perna é mais comprida do que a outra e ele

saltita perigosamente, ameaçando cair a todo momento. Os braços desapareceram numa


bandagem volumosa e dá impressão de que foram decepados pela metade. Não usa camisa. Mas traz também notícias curiosas, como esta: “Rowney Green, England – Centenas de

Da cintura para cima, inclusive a cabeça, sua pele é tostada e quebradiça, como um lombo casas desta cidade ficaram sem luz, porque uma vaca defecou justamente em cima dos fios

de leitoa assada. Está vermelho como um tomate e não tem cabelos. do transformador. Demorou muito tempo para que se identificasse a cheirosa causa da

– Foi napalm – diz-me um médico. pane.”

Pois esse boneco, quando passa saltitando diante da minha cama, me olha com

simpatia e sorri. Não entendo tanta resignação. 1° de abril: mais morfina

Às 3 da tarde, todo dia, a nossa ala do hospital é sacudida com gritos de desespero.

É a hora do curativo dos ferimentos de Kim-Thiem, uma menina de catorze anos, baleada O recurso do ovo cozido funcionou bem. Hoje de manhã, comi dois, e, animado,

em várias partes do corpo. Os soldados realizavam uma operação de limpeza numa aldeia, e experimentei flocos de milho com leite. Perfeito. Desde que suspenderam a morfina

seguiam a norma: quem tenta fugir é vici. Kim-Thiem vinha andando pela rua, assustou-se (substituindo-a por cápsulas para a dor), a náusea também foi embora. Sinto até vontade de

com os soldados, e correu para casa: levou bala como vietcong. chupar uma “fruta de leite”.

O hospital tem também o seu mascote, o menino Van-Thanh, de seis anos, que foi Estávamos no mercado de Saigon. Nguyen ia comprar a “fruta de leite”, uma

baleado no pé numa confusão qualquer. Não tem pai nem mãe conhecidos. Os americanos, curiosa e doce fruta vietnamita que ele tinha prometido levar para a filha. Me fez

tanto os que servem no hospital quanto os feridos, tratam-no com imenso carinho. Um lhe experimentar uma. Tem de fato um leite doce e, tanto por isso quanto por sua forma, a fruta

dá de comer, outro embala-o nos braços para dormir, outros acercam-se de sua cama com se chama também “seio de mulher”. Mas o que me espantou no mercado foram os preços:

doces, balas e brincadeiras para fazê-lo sorrir. Van-Thanh, entretanto, às vezes cai num uma manga custa 120 piastras, isto é, 1 dólar. Uma maçã, importada dos Estados Unidos –

choro sentido e demorado, que nem todo o carinho do hospital consegue parar. como quase tudo atualmente –, custa 220 piastras, quase 2 dólares. Eles pagam o preço da

O relativo bem-estar me faz até aceitar, pela primeira vez, o jornal que circula no guerra. O caso do arroz – que o vietnamita come pelo menos três vezes por dia – é o mais

hospital. Chama-se Pacific Stars and Stripes, e é – como se lê no cabeçalho – “uma dramático. Antes da guerra, o Vietnam, ainda não dividido em do Norte e do Sul, e então

publicação autorizada das Forças Armadas dos EUA no Extremo Oriente”. É um jornal bem um país maior do que a Itália e a Alemanha Ocidental, exportava para a Europa mais de 2

feito, de 24 páginas, com quatro edições diárias, que dá muita notícia sobre a guerra e, mil toneladas de arroz por ano. Hoje, o Vietnam do Sul importa – dos Estados Unidos, da

principalmente, a relação das baixas americanas e a consignação das medalhas de mérito. Tailândia, de Formosa – mais de 60% de suas necessidades de arroz.
O dia 1.º ainda me reserva mais emoções. Aparece o médico William, que nos Vietnam, pouco menores do que este “oitavo hospital de campo”, alguns do mesmo

últimos dias tem demonstrado uma simpatia comovedora, veste-me um pijama azul – até tamanho – fazendo de duzentas a quatrocentas operações por mês – e outros maiores e mais

então eu estava sem roupa, coberto por lençóis – e me põe numa cadeira de rodas! É bem equipados, com condições para fazer até oitocentas operações por mês. Médicos,

emocionante poder movimentar-me. Vou ver um a um, nas suas camas, os feridos com equipamento, pessoal especializado, medicamentos, sangue – há de sobra. Eu recebi até

quem troquei olhares e acenos esses dias todos. Tudo parece brilhar. Aparece o cirurgião, agora dez transfusões de sangue, alguns outros receberam quinze, e nunca falta sangue. Por

bate palmas pelo meu progresso e diz que vai fazer-me um exame importante: se a ferida orientação militar, os hospitais só completam 60% da sua capacidade, reservando 40% de

estiver bem, sem infecção, ele poderá liberar-me para a viagem amanhã. A felicidade vagas para as “situações de emergência”, como a da ofensiva do Tet, no começo do ano,

aumenta. Quando, entretanto, o médico termina o exame, vem a decepção: a pele não que lotou todos os hospitais e obrigou a diminuir de trinta para dez o número de dias que

recobriu ainda todo o campo da lesão. Ficarei mais uns dias no hospital e talvez seja cada ferido podia ficar no mesmo hospital. Normalmente, o esquema é este: o hospital tem

submetido a uma quinta operação. Subitamente o dia escurece. Levam para longe a cadeira trinta dias para curar um ferido no Vietnam. Se não consegue no prazo, o doente é

de rodas, a dor volta, e com ela mais morfina. encaminhado para o hospital militar americano de Tóquio, que tem outros trinta dias para

botá-lo de pé. Se também não consegue, o ferido está “salvo”: seguirá para os Estados

Dia 2: o ferido número 31.843 Unidos, sem mais obrigações de lutar no Vietnam.

O ferido que se cura dentro do prazo nos hospitais do Vietnam volta para sua base.

Estou me sentindo bastante bem hoje. O cirurgião, logo cedo, vem cheirar a minha Ferido três vezes, é dispensado das operações de guerra e passa a trabalhar na retaguarda.

perna e diz que o cheirinho está bom – quando há infecção o cheiro é ruim. Fará amanhã O Major Morales diz que o diretor de um hospital americano no Vietnam tem que

novo exame. Se a situação da ferida tiver melhorado, porá o meu nome na lista dos estar de olho para não encher a sua casa com doentes da terra:

passageiros para a viagem do dia 4, para os Estados Unidos, via Japão. A esperança me – Se a gente fosse aceitar o internamento de civis vietnamitas, atacados de doenças

invade. comuns, os hospitais ficariam imediatamente lotados, e não haveria vaga para nenhum

Pergunto ao Major Morales, diretor do hospital, o que significa esse número ferido de guerra.

colocado no meu braço: 31.843, 21 de março de 68. Ele diz que é o número de feridos que

passaram pelo hospital, este ano, até aquele dia. Os EUA têm outros quinze hospitais no Dia 3: a grave doença do medo
– Você pode viajar amanhã!

O dia todo vai ser de suspense, à espera da palavra final do cirurgião: viajar amanhã Com o coração cheio de alegria, lembro de minha máquina, peço-a, quero fotografar

ou ficar ainda neste hospital triste e monótono. Um médico vem conversar comigo e faz algumas das pessoas com quero passei os quinze dias mais terríveis da minha vida. Vem a

comentários sobre uma estranha doença que ataca o pessoal americano no Vietnam. E máquina, mas vem com ela a decepção: está avariada pela bomba e não posso tirar

doença de fundo psicológico, com sintomas variáveis – diarréia, insônia, dores difusas pelo fotografias do hospital, dos feridos, dos enfermeiros, Van-Thanh, Kim-Thiem, do Dann –

corpo, tonturas. Ataca os recém-chegados, e os que estão com dias contados para voltar; um médico americano, o próprio americano tranqüilo.

vem daí o seu nome, doença do “short time” – doença do pouco tempo.

Nos recém-chegados, a doença é o medo que cada um tem de enfrentar aquela terra

desconhecida, hostil. Nesses, a doença é rápida e facilmente curada. Nos que estão com

dias contados para voltar, é mais grave: Dia 4: “Pra mim, acabou!”

– Passei onze meses e meio no Vietnam e não me aconteceu nada. Será que vão me

acertar logo agora que estou a duas semanas de voltar pra casa? – comentou um sargento Meu último dia no Vietnam. Um aviãozinho me levará a Cam-Rahm Bay – base

que estava internado com “short time”. aérea de onde saem os aviões de longo percurso e, também, os superbombardeiros que

O caso mais triste dessa doença, aqui em Nha Trang, foi o de um jovem médico que, atacam diariamente o vici – e, daí, um outro me transportará para o hospital de Tóquio.

dois meses antes de voltar, sentia tonturas e tornava todas as precauções possíveis para não Amanhã ou depois um poderoso jato me levará aos Estados Unidos, onde eu terminarei

ser ferido ou morto. Só saía de casa para ir ao hospital, do hospital só ia para casa, e fazia meu tratamento, que incluirá uma boa perna mecânica. Pra mim esta guerra acabou. Uma

esse percurso de jipe. Um dia, desconfiando que o motorista – americano – pudesse ser, de coisa, entretanto, não me sai da cabeça: por que o pequeno Van-Thanh não pode parar de

convicção, um vici, dispensou-o e dirigiu, ele próprio, o jipe do hospital para casa. Mas chorar? Por que os americanos que têm medo e os sem medo não podem voltar para casa?

correu tanto – queria chegar logo –, que capotou. Teve fratura no crânio e seus colegas não Por que os vietcongs não retornam aos arrozais?

têm certeza de que vá recuperar as faculdades mentais. FIM

O cirurgião chega à tarde. Faz um exame doloroso na perna, mas profere a

declaração da minha independência:


comprimento, ao longo da estrada, e era trabalho da Primeira Divisão desalojá-la de lá.

Assim nós soubemos Hamilton estava com a Companhia Delta, à qual foi dada a tarefa de limpar a aldeia pelo

norte. Hamilton e Shimamoto alcançaram a Companhia fora da aldeia, depois de chegar à

Saigon, 21 (France Presse) – Urgente – O jornalista brasileiro José Hamilton zona de combate, num helicóptero do Quartel General da Primeira Divisão de Cavalaria,

Ribeiro, de REALIDADE, foi ferido ontem num pé ao explodir uma mina, quando seguia em Camp Evans. Os dois jornalistas só resolveram participar dessa operação depois que

as operações da Primeira Divisão de Cavalaria dos Estados Unidos. não conseguiram sair de Camp Evans com duas companhias para fazer um assalto aéreo.

DA NANG, 22 (France Presse) – O jornalista brasileiro José Hamilton Ribeiro foi Antes de se decidirem, Shimamoto disse a Hamilton que a estrada era

levado hoje para um hospital militar americano na cidade costeira de Qui Nhon, a 400 freqüentemente minada e que o famoso escritor Bernard Fall (especialista na guerra e em

quilômetros ao norte de Saigon, depois de ter sido ferido ao norte da zona de combate, por assuntos sobre o Vietnam contemporâneo, autor do livro “Hell in a Very Small Place”,

uma mina, que cinco soldados haviam pisado antes dele. A pequena mina antipessoal de 80 sobre a queda de Dien Bien Phu) havia sido morto lá, por uma mina, no ano passado. Treze

milímetros arrancou parte de sua perna esquerda, abaixo do joelho. jornalistas morreram e mais de 130 foram feridos durante a guerra do Vietnam. Mas

Ontem à noite, José Hamilton disse a seu guia e companheiro no Vietnam, o Hamilton insistiu: queria ver a guerra de perto.

fotógrafo japonês Keisaburo Shimamoto: “Estou bem, não se preocupe comigo.” Ele lhe O oficial comandante da Companhia Delta designou então para ajudar Hamilton um

fez o sinal com o polegar levantado, no 18º Hospital Cirúrgico, na cidade de Quang Tri, soldado que sabia falar espanhol.

logo abaixo da zona desmilitarizada. Por volta das 10h45 do dia 2O, colunas da Companhia Delta começaram a

Hoje à noite, o encarregado de negócios da Embaixada Brasileira em Saigon, ziguezaguear lentamente pelas cinco ruas paralelas da aldeia. Hamilton, alto e encorpado,

Rogério Corção, disse à France Presse: “Ele se está recuperando, e resistindo muito bem.” era o último de uma coluna encabeçada pelo comandante da Companhia. Movendo-se

Hamilton Ribeiro, que estava no Vietnam há duas semanas, foi ferido dois dias estrada abaixo, seguindo o flanco da aldeia cercada de campos de batata-doce e milho, o

atrás, quando participava de uma operação de limpeza da Companhia Delta, da Primeira soldado guia de Hamilton lhe disse: “Caminhe exatamente nas minhas pegadas.”

Divisão de Cavalaria do Exército Americano, ao longo da “Estrada sem Alegria”, De repente, houve uma explosão à direita da coluna. O comandante decidiu

aproximadamente 10 quilômetros a sudoeste da cidade de Quang Tri. Uma força norte- investigar, e a coluna deixou a estrada e se dirigiu para um edifício semidestruído, lugar

vietnamita havia sido descoberta ao sul de uma tortuosa aldeia com 4 quilômetros de aparente da explosão. Movendo-se em fila indiana, andando cuidadosamente, o pequeno
grupo estava a meio caminho da casa quando houve outra explosão menor. Hamilton era

uma baixa. A “Estrada sem Alegria” havia conseguido outra vítima.

Uma explicação da Companhia Delta: a areia foi sendo socada cada vez mais a cada

pisada, tornando-se dura bastante para que a mina detonasse justamente quando Hamilton

pisou nela.

Casado e com uma filha, o brasileiro estava planejando uma viagem aos Estados

Unidos, depois que saísse do Vietnam. O fotógrafo Keisaburo Shimamoto está há três anos

no Vietnam e conheceu Ribeiro há duas semana, em Saigon, através de um amigo comum.

Ele disse hoje à noite: “Eu me sinto culpado.”

Nota da Redação – Hamilton Ribeiro está nos Estados Unidos, em tratamento num centro

militar de reabilitação de Chicago, em companhia da esposa. Ele foi ferido algumas horas

antes que se expirasse o prazo do único seguro que conseguiu fazer, de apenas catorze dias,

na Loyd´s de Londres.

Durante sua hospitalização em Quang Tri, REALIDADE conseguiu manter

permanente contato com Hamilton Ribeiro, através do diplomata Rogério Corção, que

colocou os serviços do Itamarati no Vietnam à disposição da revista.