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O POPULISMO

O Populismo na América Latina

Entre a crise internacional de 1929 e meados do século XX, a América Latina foi marcada por movi-
mentos político-sociais e governos que seriam chamados de populistas pelos estudiosos.

Dentre os principais governos populistas estão os de Getulio Vargas no Brasil (1930-1945/1951-


1954), o de Lázaro Cárdenas no México (1934-1940) e os de Juan Domingo Perón na Argentina
(1946-1955).

A crise internacional de 1929 e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) aumentaram as tensões soci-
ais e políticas na região e os governos tomaram medidas com o objetivo de intensificar o controle so-
bre o movimento operário. Por um lado, concederam direitos sociais e trabalhistas para amenizar pro-
blemas como, por exemplo, o analfabetismo, o desemprego, a fome, baixa remuneração e condições
precárias de trabalho.

Por outro lado, seguiram com práticas repressivas. Dentre as práticas repressivas podem ser desta-
cadas a proibição de sindicatos opositores, a perseguição (censura, prisão, etc.) a membros destes
sindicatos e a subordinação do movimento operário a centrais sindicais controladas pelos governos,
como a Confederação Geral do Trabalho (CGT) na Argentina.

De um modo ou de outro, pretendia-se afastar os trabalhadores do comunismo. A Revolução Russa


tinha acontecido em 1917 e os governos e as elites temiam que o mesmo ocorresse na América La-
tina.

A crise de 1929 afetou muito as economias latino-americanas, ainda essencialmente agro-exportado-


ras. A diversificação da economia passou a ser uma das prioridades. Os governos implantaram políti-
cas para apoiar, sobretudo, a industrialização, pois a queda das exportações agrárias, provocada
pela crise, também reduziu a capacidade de importação de bens industriais pela América Latina.

Esse processo de diversificação da economia se aprofundou com a Segunda Guerra Mundial. A Amé-
rica Latina novamente se viu diante da necessidade de 'substituir importações', aquelas que não mais
chegavam da Europa em guerra.

Além disso, com a economia europeia desestruturada pelo confronto, a América Latina ganhou impor-
tância como fornecedora de produtos para os países em guerra.

Outras medidas para desenvolver a industrialização foram o apoio ao ensino profissionalizante e,


como destacamos acima, a tentativa de controlar melhor o movimento operário para coibir greves e,
assim, aumentar a produtividade. A industrialização ainda foi favorecida pelas medidas sociais e tra-
balhistas, as quais aumentaram os mercados consumidores internos na América Latina.

Entretanto, apesar dessas e outras características semelhantes, esses governos apresentaram dife-
renças importantes entre si. Por isso o conceito de populismo, utilizado para designá-los, é criticado
por alguns especialistas, pois transmitiria uma visão homogênea sobre esses governos. Ainda em re-
lação ao conceito de populismo, apesar de ser o mais conhecido, não é o único empregado para se
referir a esses processos históricos.

O conceito de populismo apresenta um sentido predominantemente negativo e costuma ressaltar a


demagogia, o controle dos meios de comunicação, o uso intensivo da propaganda política, a manipu-
lação dos setores populares, a repressão aos opositores e os interesses pessoais como característi-
cas desses governos.

Outros autores preferem designar esses governos como nacional-populares. Nesse caso, o balanço é
majoritariamente positivo.

As medidas sociais e trabalhistas teriam fortalecido a noção de direitos entre os trabalhadores, inde-
pendentemente das intenções dos governantes ao implantá-las. Além disso, esses autores conside-
ram que as medidas nacionalistas desses governos ajudaram a desenvolver as economias latino-

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americanas diante do imperialismo europeu e norte-americano. No Brasil, ainda encontramos o con-


ceito de trabalhismo para se referir ao varguismo e o sentido é próximo ao de nacional-popular.

Quanto às diferenças entre Vargas, Cárdenas e Perón, podemos assinalar, por exemplo, a relação
com os camponeses.

Enquanto Vargas e Perón priorizaram os trabalhadores urbanos - apesar de terem tomado medidas
voltadas aos camponeses -, Cárdenas acelerou a reforma agrária no México. Essa diferença pode ser
explicada como uma herança da Revolução Mexicana do começo do século XX, a qual foi marcada
pela mobilização de milhões de camponeses por reforma agrária e participação política.

Podemos destacar, também, a relação com os intelectuais. No Brasil, os intelectuais eram mais de-
pendentes de empregos públicos, ou seja, dependiam financeiramente do Estado e, por isto, Vargas
conseguiu atrair ou neutralizar parte expressiva da intelectualidade.

Na Argentina, os intelectuais dispunham, por exemplo, de um mercado editorial maior e, assim, de-
pendiam menos do Estado, o que colaborou para que as relações entre Perón e o meio intelectual
fossem mais tensas.

Podemos apontar, ainda, que Cárdenas e Perón foram presidentes eleitos, diferentemente de Vargas
entre 1930 e 1934 e entre 1937 e 1945. Além disso, parece ter havido um culto maior às figuras de
Vargas e Perón: a diferença se explica, em parte, pelo pertencimento de Cárdenas a uma estrutura
partidária mais antiga e maior.

Um aspecto importante a ser considerado é a necessidade de se diferenciar a memória (re) constru-


ída sobre esses presidentes das experiências que sujeitos e grupos tiveram durante os seus gover-
nos.

Vargas, Perón e Cárdenas chegam a ser vistos como 'heróis' em seus países, como 'autênticos' de-
fensores dos interesses nacionais e populares.

Sem desconsiderar a importância das medidas sociais e trabalhistas para a melhoria da qualidade de
vida dos trabalhadores, é preciso não idealizar o alcance de tais medidas durante os governos des-
ses presidentes. Exemplo disso pode ser encontrado na carta de Antonio Ivo Vieira escrita para Var-
gas em 1939, analisada por Jorge Ferreira em Trabalhadores do Brasil: o imaginário popular (1930-
1945):

Tenho 4 filhos que necessitam de conforto e alguma instrução e eu com este parco ordenado de
350$000 mensais não estou na altura de dar-lhes nem siquer a instrução primaria, que infelizmente
até isto agora se paga: sofro grandes descontos em folha de pagamento (...); não tenho podido nem
ao menos sustentar os meus filhos com esse parco vencimento (...); a minha situação é mais que pre-
mente, é aflitiva e angustiosa e sei que tenho já direitos adquiridos para merecer uma promoção (...).
Nem roupa e calçado para os meus 4 filhos, posso adquirir, pois o meu ordenado mal dá para não
morrermos à fome (Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1997. p. 29).

Quanto a Perón, apesar das medidas sociais e trabalhistas e do controle do movimento operário pelo
governo, sobretudo o segundo mandato (1952-1955) foi marcado pelo aumento de greves.

Pode-se argumentar que esse aumento demonstraria o fortalecimento da participação política dos tra-
balhadores, o que teria sido estimulado pelo próprio presidente.

Porém, algumas dessas greves foram acompanhadas por violenta repressão, o que indica a existên-
cia de tensões políticas e sociais entre o governo e os trabalhadores.

O governo Cárdenas, por sua vez, foi marcado por uma reforma agrária expressiva. Entretanto, a
questão não avançou em todo o país, sofreu retrocessos durante os governos de seus sucessores e
ainda permanece pendente: no Estado de Chiapas, sul do México, o Exército Zapatista de Libertação
Nacional (EZLN), atuante desde 1994, tem a reforma agrária como um de seus principais objetivos.

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Além disso, nas últimas décadas do século XX, os trabalhadores latino-americanos passaram por mu-
danças no mercado de trabalho que resultaram na perda de direitos, muitos deles implantados por
Vargas, Cárdenas e Perón.

Diante disso, movimentos sociais e a esquerda de uma maneira geral passaram a ter como uma de
suas principais bandeiras a defesa desses direitos, ajudando a construir a memória desses governos
como 'paraísos' perdidos pelos trabalhadores.

Ainda é necessário problematizar o nacionalismo frequentemente exaltado nesses presidentes. Vale


ressaltar que o capital estrangeiro diminuiu bastante na América Latina com a crise de 1929 e a Se-
gunda Guerra Mundial, o que levou os governos da região a estimularem e priorizarem o capital naci-
onal.

Em meados da década de 1950, com a guerra terminada há dez anos e a Europa parcialmente re-
construída, o capital estrangeiro voltou com força à América Latina, como mostra a política de Vargas
e Perón quanto ao petróleo.

Em 1953, Vargas criou a Petrobrás com capital nacional, mas a distribuição dos derivados do petró-
leo foi dominada por empresas estrangeiras. Na Argentina, apesar da nacionalização de recursos na-
turais determinada pela Constituição de 1949, o governo de Perón, em 1955, chegou a assinar con-
trato com a norte-americana Standard Oil para explorar petróleo na Patagônia. Devido ao aumento da
crise política que marcou o final do governo Perón, o contrato não foi efetivado.

Além disso, nos âmbitos artístico e intelectual, é preciso frisar que o nacionalismo dos governos Var-
gas e Perón gerou, muitas vezes, repressão aos opositores que defendiam uma arte e um pensa-
mento cosmopolitas, universais, independentes de fronteiras e contextos históricos. No caso da Ar-
gentina, podemos mencionar Victoria Ocampo e o escritor Jorge Luis Borges, dentre outros.

Os governos de Vargas, Cárdenas e Perón são processos históricos muito presentes na memória la-
tino-americana. É necessário considerar os seus legados positivos como frutos da ação de diferentes
sujeitos e grupos sociais e não só dos presidentes.

As medidas sociais e trabalhistas foram uma tentativa de conter o movimento operário - além de au-
mentar o mercado interno para os produtores agrícolas, empresários e comerciantes. Finalmente,
cabe fazer uma distinção entre as políticas implantadas para controlar os setores populares e o al-
cance destas políticas, pois o apoio recebido por esses presidentes nem sempre significou passivi-
dade política.

Populismo

Vargas, Perón e Rujas: exemplos dos governos populistas estabelecidos no continente americano

O populismo foi um tipo de situação política experimentada na América Latina entre as décadas de
1930 e 1960, que teve como grande contexto propulsor a crise de 1929. Nessa época, várias das na-
ções latinas – vistas como portadoras de uma economia periférica – viveram uma fase de desenvolvi-
mento econômico seguido pelo crescimento dos centros urbanos e a rearticulação das forças sociais
e políticas. Foi em meio a essas transformações diversas que a prática populista ganhou terreno.

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A política populista é marcada pela ascensão de líderes carismáticos que buscam sustentar sua atua-
ção no interior do Estado através do amplo apoio das maiorias. Muitas vezes, abandona o uso de in-
termediários ideológicos ou partidários para buscar na “defesa dos interesses nacionais” uma alterna-
tiva às tendências políticas de sua época, sejam elas tradicionalistas, oligárquicas, liberais ou socia-
listas. De diferentes formas, propaga a crença em um líder acima de qualquer outro ideal.

No campo de suas ações práticas, a tendência populista prioriza o atendimento das demandas das
classes menos favorecidas, colocando tal opção como uma necessidade urgente frente aos “inimigos
da nação”.

De fato, o populismo permitiu a participação política de grupos sociais que historicamente foram com-
pletamente marginalizados das arenas políticas latino-americanas. Contudo, esse tipo de ação das
camadas populares junto ao Estado não pode ser confundido com o exercício da democracia plena.

Uma das contradições mais marcantes do populismo consiste em pregar a aproximação ao povo,
mas, ao mesmo tempo, estabelecer mecanismo de controle que não permitam o aparecimento de
tendências políticas contrárias ao poder vigente.

De tal maneira, os governos populistas também são marcados pela desarticulação das oposições po-
líticas e a troca dos “favores ao povo” pelo apoio incondicional ao grande líder responsável pela con-
dução do país.

Além do autoritarismo e do assistencialismo, os governos populistas também têm grande preocupa-


ção com o uso dos meios de comunicação como instrumento de divulgação das ações do governo.

Por meio da instalação ou do controle desses meios, o populismo utiliza de uma propaganda oficial
massiva que procura se disseminar entre os mais distintos grupos sociais através do uso irrestrito de
rádios, jornais, revistas e emissoras de televisão.

A ascensão dos regimes populistas sempre foi vista com certa desconfiança por determinados grupos
políticos internos ou estrangeiros.

A capacidade de mobilização das massas estabelecidas por tais governos, o apelo aos interesses na-
cionais e a falta de uma perspectiva política clara poderia colocar em risco os interesses defendidos
pelas elites que controlavam a propriedade das terras ou das forças produtivas do setor industrial.

Dessa forma, podemos compreender que o populismo entrou em crise no momento em que não con-
seguiu mais negociar os interesses muitas vezes antagônicos das elites econômicas e das classes
trabalhadoras.

Quando as tensões políticas e sociais chegaram a tal ponto, podemos ver que grupos nacionais con-
servadores buscaram apoio político internacional, principalmente dos Estados Unidos, para varrer o
populismo por meio da instalação de ditaduras que surgiram entre as décadas de 1950 e 1970.

Na América Latina, os exemplos de experiência populistas podem ser compreendidos na ascensão


dos governos de Juan Domingo Perón (1946 – 1955/1973 – 1974), na Argentina; Lázaro Cárdenas
(1934 – 1940), no México; Gustavo Rojas Pinilla (1953 – 1957), na Colômbia; e Getúlio Vargas (1930
– 1945/ 1951 – 1954), no Brasil. Apesar de se reportar a uma prática do passado, ainda hoje pode-
mos notar a presença de algumas práticas populistas em governos estabelecidos na América Latina.

Populismo X Neopopulismo

Comecemos enumerando algumas características do neopopulismo latino-americano que o distingue


de sua forma antiga. Dois elementos básicos estabelecem a diferença entre um e outro, originadas,
principalmente, de contextos socioeconômicos diversos.

O populismo clássico correspondeu a um período de desenvolvimento “para dentro” das maiores na-
ções da América Latina, entre 1940 e 1960, aproximadamente. Assentava-se num tripé que tinha
como motor básico o Estado nacional-desenvolvimentista, apoiado socialmente na classe trabalha-
dora organizada e na burguesia industrial.

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O neopopulismo emerge em outra época, no âmbito da globalização, que se tornou nítida a partir dos
anos 1980. Em linhas gerais, o Estado mudou de configuração, sem deixar de ter relevância (há neo-
populismos mais fortes e mais fracos em função da consistência dos respectivos Estados), e a base
de apoio ao populismo mudou.

A burguesia internacionalizada ou desfeita abandonou o barco populista e a fonte de apoio popular se


alterou. O neopopulismo não se assenta sobre a classe trabalhadora organizada, hoje sem a impor-
tância de outros tempos, mas, sobretudo, em massas marginalizadas, predominantemente urbanas.

Sua composição varia de país a país e a diferença mais nítida diz respeito às populações indígenas,
como são os casos de Bolívia, Peru e Equador, com reivindicações étnicas específicas.

Como no passado, as novas lideranças populistas se caracterizam pelo personalismo, pela difusão
da crença no herói salvador, pelas práticas autoritárias.

Uma das raízes de sua emergência se encontra nos deslocamentos sociais provocados pela globali-
zação. Se não tem sentido demonizar esse processo histórico, é certo que ele deixou à margem seto-
res pobres ou miseráveis da sociedade.

Mais ainda, a modernização do sistema produtivo, ao mesmo tempo que representou ganhos de pro-
dutividade e possibilidades de ascensão aos mais qualificados, gerou enormes contingentes de de-
sempregados ou de trabalhadores informais.

Como o regime democrático não resolveu esses problemas e era ilusão pensar que pudesse resolvê-
los por simples decorrência de seus princípios, as fórmulas populistas, apenas adormecidas, vieram à
luz, contando com o apoio de populações desiludidas ou credoras de uma dívida histórica.

O neopopulismo tem sido objeto de avaliações muito diversas. Para certas correntes ditas de es-
querda, o neopopulismo (cuja expressão máxima é o regime de Hugo Chávez, na Venezuela) repre-
senta um novo caminho para o socialismo, uma “onda vermelha” que se espalha pela América Latina,
como se Deus escrevesse certo por linhas tortas.

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Essa visão encontra eco no polo oposto, na extrema direita latino-americana, para quem é ilusório fa-
lar em avanço do neopopulismo, pois estaríamos diante de uma ofensiva neocomunista com ramifica-
ções muito atuantes.

Não faz sentido minimizar o risco representado pela emergência das novas formas de neopopulismo,
que se irradia pela Venezuela, Bolívia, Peru, Equador e outros países. Mas também não é de se crer
na força inexorável da onda populista; afinal de contas, a América Latina é bem mais diversificada do
que parece aos hegemonistas apressados.

Uma referência à situação política de alguns países e às alternativas que se abrem nas várias dispu-
tas eleitorais do ano corrente nos ajuda a entender a diversidade do quadro e as perspectivas de afir-
mação da democracia a partir de diferentes posições do espectro político.

No Chile, o governo da Concertación (aliança entre socialistas e democratas cristãos) segue seu
curso positivo de mais de uma década, reforçado pela vitória da socialista Michelle Bachelet.

Num contexto conturbado e, portanto, muito diverso, o presidente colombiano Álvaro Uribe goza de
grande popularidade e tem tudo para se reeleger nas eleições do final deste ano.

No Peru, a ascensão nas pesquisas de um ex-militar nacionalista-populista, Ollanta Umala, abenço-


ado por Chávez e acusado de violação dos direitos humanos, parece estar declinando, ao ser supe-
rado pela candidata conservadora Lourdes Flores.

No México, a candidatura populista de López Obrador, que parecia irresistível, cede lugar a uma dura
disputa com outros nomes (Roberto Madrazo, Felipe Calderón).

Não se trata aqui de endossar simplesmente as figuras antipopulistas, mas todas elas, com seus mé-
ritos e defeitos, têm compromisso com a democracia.

Uma boa forma de conservar um razoável otimismo acerca da consolidação da democracia consiste
em olhar para um passado de pouco mais de três décadas. Brasil, Argentina, Chile e Uruguai eram
então países assolados por ditaduras militares que se diferenciavam apenas pelo grau de violência.

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Hoje, o Chile é uma referência democrática; a Argentina, ainda que com laivos populistas, vai se rea-
firmando política e socialmente; o Uruguai, governado pelo socialista Tabaré Vasquez, interrompeu,
pela via democrática, mais de cem anos de um revezamento entre “blancos” e “colorados”.

E o Brasil? Se a crise do PT e os apetites eleitorais estão lançando o presidente Lula, cada vez mais,
numa retórica populista, há boas razões para crer na estabilidade das instituições democráticas e na
sua consolidação. Afinal de contas e apesar dos percalços, temos mais de 20 anos de regime demo-
crático -e isso, na América Latina, não representa pouco.

Populismo e Neopopulismo: Breves Comentários Sobre o Conceito e Seus Determinantes

Análises recentemente publicadas no jornal o Estados de São Paulo, voltam a questionar os “populis-
mos” da América Latina e do mundo sem acordarem quanto à possibilidade de se examinar os gover-
nos neopopulistas de democracias mais recentes, com as lentes conceituais do passado. Questio-
nam-se, afinal, se é possível classificar, em termos de populistas, os governos eleitos democratica-
mente de períodos mais atuais.

Para avaliar o problema, antes de mais nada, é necessário separar a definição conceitual de popu-
lismo, de seus possíveis determinantes. Populismo não é exclusivo de estado fascista, de estado so-
cialista ou do estado novo.

Líderes populistas constantemente utilizam a retórica de outros movimentos de maior consistência


ideológica. Em sua trajetória recorreram ao socialismo, ao nacionalismo, ou até mesmo ao libera-
lismo. O populismo não é, portanto, uma força isolada na política, associa-se a outros grupos e à dife-
rentes ideologias para sobreviver. Pode ser de esquerda ou de direita, de cunho nacionalista ou libe-
ral.

É um projeto político de poder; um método racional que se utiliza de constantes apelos emocionais
dirigidos ao público, por uma liderança polarizadora, cujo maior propósito é o de angariar a legitima-
ção de uma maioria mais necessitada “o povo”. Perpassa a história de regimes e continentes e veste
a roupa do sistema político que lhe convém naquele momento.

Na América Latina o populismo não é um aspecto marginal do desenvolvimento das sociedades. Não
foi um movimento separado de outros movimentos políticos modernos. Os populistas apenas abraça-
ram, com maior fervor, uma visão fortemente polarizadora e em alguns contextos também, mais antis-
sistêmica da política.

Portanto, contribuíram frequentemente para solapar os regimes democráticos que pretendiam expan-
dir e aprofundar. Disseminou-se em boa parte dos países mais ‘modernos’ (leia-se mais industrializa-
dos, urbanizados e com maior nível de escolaridade), como Brasil, Argentina, México e Uruguai e
também nos países menos desenvolvidos, como Bolívia, Equador, Venezuela e Paraguai.

É um conceito bastante controverso, pois a sua ocorrência concreta é resultante de múltiplos elemen-
tos a serem considerados: primeiro, os atores do sistema político que se situam tanto do lado da
oferta (de quem governa) como da demanda (de quem elege e apoia o governo); segundo os fatores
exógenos relativos ao ambiente macroeconômico e político-institucional os quais contribuem para que
lideranças populistas prosperem em determinadas regiões e períodos.

Na atualidade, do lado da oferta, há lideranças polarizadoras e carismáticas que adotam a estratégia


populista em contextos democráticos. Por isso buscam estabelecer uma ponte direta com o eleitor,
sem intermediação de partidos políticos tradicionais que não contemporizam com os projetos políticos
destas lideranças “salvadoras”.

Daí o surgimento de políticos outsiders do regime, que abrem mão de disputar uma vaga em partidos
mais estabelecidos na sociedade para se projetar em partidos novos, criados verticalmente, e tam-
bém em movimentos que compactuem com um projeto político centrado na disputa entre “Nós” (o lí-
der identificado com a maioria dos necessitados) e “Eles” (todo o resto da classe política tradicional,
considerada elitista e corrupta). Esse tipo de estratégia se exemplifica no caso do partido de Fer-
nando Collor de Melo na década de 90  o Partido da Reconstrução Nacional, que se desenvolveu no
discurso de Collor contra os corruptos e “marajás”, excluindo a si mesmo desse emblema elitista.

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Cabe destacar que houve partidos, movimentos e até sindicatos no passado que atuaram com
grande capacidade de mobilização populista e angariaram conquistas trabalhistas importantes. Po-
rém foram estruturas hierarquizadas, centralizadas e que careciam de instâncias intermediárias de
controle.

Funcionaram como veículos bastante eficazes para o sucesso do estabelecimento de governos popu-
listas; como exemplos, a CGT (Confederación General del Trabajo) na Argentina de Perón, o APRA
(Alianza Popular Revolucionaria Americana) peruano, o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) ancorado
amplamente no Estado de Getúlio Vargas no Brasil e o PRI (Partido Revolucionario Institucional) de
Lázaro Cárdenas, no México.

Lideranças neopopulistas, no entanto, são avessas às instituições representativas, promovendo uma


verdadeira batalha para deterioração das mesmas, pois do lado da demanda, há um público (antes
analisado em termos de “massas desorganizadas” por analistas do populismo das décadas de 30–70)
cujas demandas não são suficientemente absorvidas pelas instituições representativas e sofre, de
modo mais drástico e direto, com as crises econômicas e político-institucionais.

Trata-se de uma grande parte da população, que via de regra, desconfia dos partidos políticos como
capazes de solucionar os seus problemas e que espelham, em contrapartida, o mal desempenho
destes representantes na arena decisória.

Com relação à influência de fatores exógenos, se na América Latina dos anos 30–70, o populismo
denominado “econômico” esteve associado às crises macroeconômicas produzidas por indisciplina
fiscal e expansão desmedida de políticas redistributivas, hoje, em tempos de restrição fiscal estipu-
lada pelo Consenso de Washington, o populismo é também analisado como fenômeno político-eleito-
ral, decorrente de contextos propagados por instituições representativas que funcionam mal, caracte-
rizando, assim, o chamado “populismo político” pela literatura especializada no tema.

Sob essa ótica, lideranças (neo) populistas estarão sempre focadas em atrair para si, o apoio da po-
pulação mais carente e insatisfeita com os partidos políticos e com a classe política em geral; porém,
essa estratégia terá mais dificuldade de prosperar onde as instituições representativas democráticas
desempenharem, na prática, maior eficiência e eficácia na utilização dos recursos públicos, compro-
misso com a pluralidade de demandas na sociedade, transparência e respeito às leis.

Em suma, populismo é uma estratégia personalista e centralizadora de conquista de poder político e


que se torna bem sucedida em ambientes onde ocorre a convergência de alguns fatores decisivos:
uma liderança capaz de aplicar o método centralizador do projeto populista de poder; uma maioria ca-
rente e insatisfeita com desempenhos partidários e com a “classe” política; um clima econômico dete-
riorado e instituições representativas deficitárias, cujos mecanismos mal arranjados ou intencional-
mente modificados, permitam que o poder seja centralizado na figura do líder “salvador”.

E ainda que esse líder prospere em defesa da grande maioria dos desfavorecidos, sua tendência co-
mumente autoritária, inviabiliza a concretização dos direitos sociais de forma duradoura. Esta estraté-
gia, aparentemente tão bem-intencionada em algumas democracias recentes, já provou não ser uma
solução plural e republicana.

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