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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Primeira Guerra Mundial

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918)

Vários problemas atingiam as principais nações européias no início do século XX. O século anterior
havia deixado feridas difíceis de curar. Alguns países estavam extremamente descontentes com a
partilha da Ásia e da África, ocorrida no final do século XIX. Alemanha e Itália, por exemplo, haviam
ficado de fora no processo neocolonial. Enquanto isso, França e Inglaterra podiam explorar diversas
colônias, ricas em matérias-primas e com um grande mercado consumidor. A insatisfação da Itália e da
Alemanha, neste contexto, pode ser considerada uma das causas da Grande Guerra.

Vale lembrar também que no início do século XX havia uma forte concorrência comercial entre os
países europeus, principalmente na disputa pelos mercados consumidores. Esta concorrência gerou
vários conflitos de interesses entre as nações. Ao mesmo tempo, os países estavam empenhados
numa rápida corrida armamentista, já como uma maneira de se protegerem, ou atacarem, no futuro
próximo. Esta corrida bélica gerava um clima de apreensão e medo entre os países, onde um tentava
se armar mais do que o outro.

Existia também, entre duas nações poderosas da época, uma rivalidade muito grande. A França havia
perdido, no final do século XIX, a região da Alsácia-Lorena para a Alemanha, durante a Guerra Franco
Prussiana. O revanchismo francês estava no ar, e os franceses esperando uma oportunidade para
retomar a rica região perdida.

O pan-germanismo e o pan-eslavismo também influenciou e aumentou o estado de alerta na Europa.


Havia uma forte vontade nacionalista dos germânicos em unir, em apenas uma nação, todos os países
de origem germânica. O mesmo acontecia com os países eslavos.

O início da Grande Guerra

O estopim deste conflito foi o assassinato de Francisco Ferdinando, príncipe do império austro-
húngaro, durante sua visita a Saravejo (Bósnia-Herzegovina). As investigações levaram ao criminoso,
um jovem integrante de um grupo Sérvio chamado mão-negra, contrário a influência da Áustria-Hungria
na região dos Balcãs. O império austro-húngaro não aceitou as medidas tomadas pela Sérvia com
relação ao crime e, no dia 28 de julho de 1914, declarou guerra à Servia.

Política de Alianças

Os países europeus começaram a fazer alianças políticas e militares desde o final do século XIX.
Durante o conflito mundial estas alianças permaneceram. De um lado havia a Tríplice Aliança formada
em 1882 por Itália, Império Austro-Húngaro e Alemanha ( a Itália passou para a outra aliança em
1915). Do outro lado a Tríplice Entente, formada em 1907, com a participação de França, Rússia e
Reino Unido.

O Brasil também participou, enviando para os campos de batalha enfermeiros e medicamentos para
ajudar os países da Tríplice Entente.

Desenvolvimento

As batalhas desenvolveram-se principalmente em trincheiras. Os soldados ficavam, muitas vezes,


centenas de dias entrincheirados, lutando pela conquista de pequenos pedaços de território. A fome e
as doenças também eram os inimigos destes guerreiros. Nos combates também houve a utilização de
novas tecnologias bélicas como, por exemplo, tanques de guerra e aviões. Enquanto os homens
lutavam nas trincheiras, as mulheres trabalhavam nas indústrias bélicas como empregadas.

Fim do conflito

Em 1917 ocorreu um fato histórico de extrema importância : a entrada dos Estados Unidos no conflito.
Os EUA entraram ao lado da Tríplice Entente, pois havia acordos comerciais a defender,
principalmente com Inglaterra e França. Este fato marcou a vitória da Entente, forçando os países da
Aliança a assinarem a rendição. Os derrotados tiveram ainda que assinar o Tratado de Versalhes que
impunha a estes países fortes restrições e punições. A Alemanha teve seu exército reduzido, sua
indústria bélica controlada, perdeu a região do corredor polonês, teve que devolver à França a região

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da Alsácia Lorena, além de ter que pagar os prejuízos da guerra dos países vencedores. O Tratado de
Versalhes teve repercussões na Alemanha, influenciando o início da Segunda Guerra Mundial.

A guerra gerou aproximadamente 10 milhões de mortos, o triplo de feridos, arrasou campos agrícolas,
destruiu indústrias, além de gerar grandes prejuízos econômicos.

O final do século XIX e a 1ª década do século XX na Europa, foram marcados por um clima de
confiança e otimismo. Os homens da época tinham a sensação de que a Europa teria o domínio
definitivo sobre todos os continentes. Porém, por trás dessa aparência de tranqüilidade estavam
presentes graves problemas econômicos.

Soldados franceses atacam alemães durante a Primeira Guerra Mundial. Foto de 1917.

O mundo encontrava-se dividido e submisso às grandes potências européias e aos Estados Unidos.
Não existiam mais territórios sem dono e as grandes potências brigavam entre si na tentativa de
expandir suas áreas de dominação econômica e política.

A Revolução Industrial trouxe transformações importantes para a economia capitalista: surgiram as


máquinas elétricas e os motores a combustão.

As indústrias mais importantes extraiam petróleo, fabricavam aço, máquinas e navios.

A competição capitalista estimulou o crescimento de algumas empresas; porém, levou ao fracasso


muitas outras. Empresas mais fracas foram compradas ou faliram, enquanto que as grandes ficaram
maiores ainda.

Os chamados monopólios (grandes empresas) passaram a controlar os grandes setores da economia.


Tais empresas queriam crescer e enriquecer cada vez mais. Desejavam matérias-primas (minério,
algodão, cacau), mão-de-obra barata (para trabalhar nas minas com salários reduzidos e lucros para
os patrões) e mercados consumidores.

Para conseguir tudo isso as empresas (monopólios) precisavam investir capital em outros lugares do
mundo e criar impérios econômicos (principalmente em países de economia mais frágil) e tudo isso
com a ajuda de seus respectivos governos.

Economistas alemães e ingleses do início do século XX chamaram essa nova fase do capitalismo
mundial de Imperialismo.

Esse choque de imperialismos acabou deflagrando a Primeira Grande Guerra.

O Imperialismo estava ligado a dois fenômenos:

1. Investimento de capital no estrangeiro

2. Domínio econômico de um país sobre o outro

Os países imperialistas colonizaram vastas regiões na África e na Ásia e justificaram as suas ações
baseadas no racismo (“raça branca merece dominar as demais”), etnocentrismo (“brancos civilizados

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levam progresso aos povos primitivos”), darwinismo (“nações mais fortes sobrevivem e mais fracas,
não”).

No começo do século XX, a indústria alemã estava ultrapassando a inglesa. Tanto alemães quanto
ingleses não queriam competir no mercado e para acabar de vez com a concorrência, seus governos
decidiram que uma guerra seria muito bem-vinda.

Porém, era preciso convencer o povo de que não havia outra saída. Para tal “serviço de
convencimento”, a imprensa foi fundamental, e cada país usava os jornais para tentar destruir
moralmente o outro.

Em 1871, a Alemanha se tornou um país unificado, essa unificação se completou depois que os
alemães derrotaram a França na Guerra Franco-Prussiana. Como conseqüência, a França foi obrigada
a entregar a região de Alsácia-Lorena, fato que levou os franceses a quererem vingança.

A Europa estava a um passo da guerra e os países disputavam novas colônias. A situação se agravou
ainda mais quando o arquiduque Francisco Ferdinando (herdeiro do trono austríaco) visitou Sarajevo. A
população de Sarajevo odiava os austríacos e o filho do imperador austríaco resolveu desfilar de carro
aberto pela cidade.

Francisco Ferdinando foi assassinado e esse fato é considerado a causa imediata da Primeira Guerra.

Porém, vários outros fatores também contribuíram para o advento da guerra.

• A construção da estrada de ferro Berlin-Bagdá: sua construção colocaria à disposição da Alemanha


os lençóis petrolíferos do Golfo Pérsico e os mercados orientais, além de ameaçar as rotas de
comunicação entre a Inglaterra e seu Império.

• Pan-Eslavismo Russo (união de todos os povos eslavos sob a proteção da Rússia): o Pan-
Eslavismo servia de justificativa para os interesses imperialistas da Rússia de dominar regiões
da Europa Oriental habitadas por outros povos eslavos (poloneses, ucranianos, tchecos, eslovacos,
sérvios, búlgaros, croatas...)

• Nacionalismo da Sérvia

• Conflitos originários da decadência do Império Turco

• A Alemanha e a Itália eram imperialistas, queriam e precisavam de colônias, para isso precisariam
tomar as colônias de outros países, já que não havia mais quase locais para serem dominados

• Crises no Marrocos: alemães, ingleses e franceses disputavam essa área

• Primeira e segunda Guerra Balcânica

Das rivalidades entre essas várias potências, surgiram dois sistemas de alianças. O que unia esses
dois blocos era a existência de inimigos comuns:

• Tríplice Entente (Inglaterra, França e Rússia)

• Tríplice Aliança (Alemanha, Império Austro – Húngaro e Itália)

A primeira guerra dividiu-se em 3 fases:

1. Guerra de movimento: momentos iniciais do conflito. O jogo de Alianças e as hostilidades


arrastaram vários países para o conflito

2. Guerra de Trincheiras: consistia na construção de trincheiras pelos alemães em solo francês.


Nesse momento foram introduzidas novas armas como as metralhadoras e os tanques.

3. Ofensivas

Em 1915, Japão e Itália entraram na guerra, porém, o primeiro se retirou do conflito após tomar os
territórios alemães na China e algumas colônias.

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Em 1916, houve duas grandes batalhas envolvendo Franceses, Ingleses e Alemães:

Batalha de Somme (1 milhão de 100 mil mortos) e a Batalha de Verdun (600 mil mortos).

Os EUA vendiam alimentos, combustível, produtos industriais e máquinas para a França e a Inglaterra.
Tudo pelo sistema de crediário (“compre agora e pague depois da guerra”).

Com o passar do tempo, a situação ficava pior (destruição, fome, miséria e matanças) e os EUA
começaram a temer que a França e a Inglaterra não pagassem pelas mercadorias compradas dos
americanos (os dois países deviam aos americanos quase 2 bilhões de dólares).

Com essa mentalidade, os americanos começaram a fazer uma forte campanha a favor da entrada do
país na guerra.

Em março de 1917, os alemães afundaram alguns navios americanos que iam comerciar com a
Inglaterra e no dia 6 de abril o Congresso americano votava favoravelmente a declaração de guerra à
Alemanha.

Em 1917, várias propostas de paz foram lançadas por países e entidades neutras. O presidente dos
EUA (Woodrow Wilson), em 1918, levou essas idéias ao Congresso no chamado “Programa dos 14
Pontos”.

Em março do 1918 (após a revolução socialista) o governo russo assinava a paz com a Alemanha e se
retirava da guerra. Bulgária, o Império Turco e o Império Austro- Húngaro também seguiam o exemplo
russo e se retiraram do conflito.

Enquanto os países se retiravam aos poucos do conflito, o povo alemão se rebelava contra a guerra.

Em 1918, a Alemanha foi transformada em República e o novo governo aceitou o armistício dando por
encerrado o conflito.

Em 1919, iniciou-se a Conferência de Paris (no Palácio de Versalhes), onde seriam tomadas as
decisões diplomáticas do pós-guerra. Os 27 países “vencedores” participaram da conferência.

O Tratado de Versalhes colocou de lado o “Programa dos 14 Pontos” e os “vencedores” impuseram


duras penalidades à Alemanha:

• A Alemanha perdeu suas colônias

• Ficou proibida de ter forças armadas

• Foi considerada culpada pela guerra

• Teve que pagar uma indenização aos “vencedores”

Com tudo isso, a Alemanha perdeu muito dinheiro e mergulhou na maior crise econômica de sua
história.

Na Alemanha, não havia mais imperador, agora o país era uma república democrática e esse período
foi chamado de “República de Weimar” que durou até 1933, quando os nazistas tomaram o poder
impondo um regime ditatorial.

Até então, essa foi a pior guerra que o mundo conhecera, foram 9 milhões de mortos e além deles, 6
milhões de soldados voltaram mutilados.

Além dessas, a guerra também trouxe outras sérias consequências.

• Famílias destruídas e crianças órfãs

• Os EUA tornaram-se o país mais rico do mundo

• O império Austro-Húngaro se fragmentou

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• Surgimento de alguns países (Iugoslávia) e desaparecimento de outros

• O império turco após 200 anos de decadência se dividiu

• Em 1919, foi criada a Liga das Nações (sediada na Suíça); porém, pouco tempo depois ela
fracassou

• O desemprego aumentou na Europa

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) foi o resultado dos atritos permanentes provocados pelo
imperialismo das grandes potências europeias.

Resumo

A Grande Guerra, como era denominada antes de acontecer a Segunda Guerra Mundial, foi um conflito
em escala global. Começou na Europa e envolveu os território coloniais.

Dois blocos enfrentaram-se: a Tríplice Aliança, formada pela Alemanha, Áustria e Itália, e a Tríplice
Entente formada pela França, Inglaterra e Rússia.

A contenda envolveu 17 países dos cinco continentes como: Alemanha, Brasil, Áustria-Hungria,
Estados Unidos, França, Império Britânico, Império Turco-Otomano, Itália, Japão, Luxemburgo, Países
Baixos, Portugal, Reino da Romênia, Reino da Sérvia, Rússia, Austrália e China.

A guerra deixou 10 milhões de soldados mortos e outros 21 milhões ficaram feridos. Também 13
milhões de civis perderam a vida.

Leia Tríplice Aliança e Tríplice Entente.

Em rosa, países da Entente; em amarelo, a Tríplice Aliança e em verde, países neutros

Causas da Primeira Guerra Mundial

Vários fatores desencadearam a Primeira Guerra Mundial.

Desde o final do século XIX o mundo vivia em tensão. O extraordinário crescimento industrial
possibilitou a Corrida Armamentista, ou seja: a produção de armas numa quantidade jamais imaginada.

O expansionismo do Império Alemão e sua transformação na maior potência industrial da Europa


fizeram brotar uma enorme desconfiança entre a Alemanha e França, Inglaterra e Rússia.

Antecedentes

Acrescentamos as antigas rivalidades entre França e Alemanha, Rússia e Alemanha, e Reino Unido e
Alemanha. Também os desentendimentos quanto às questões de limite nas colônias gerados
pela Conferência de Berlim (1880).

O antigermanismo francês se desenvolveu como consequência da Guerra Franco-Prussiana. A


derrotada França foi obrigada a entregar aos alemães as regiões de Alsácia e Lorena, esta rica em
minério de ferro.

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A rivalidade russo-germânica foi causada pela pretensão alemã de construir uma estrada de ferro
ligando Berlim a Bagdá. Além de passar por regiões ricas em petróleo onde os russos pretendiam
aumentar sua influência.

O antigermanismo inglês se explica pela concorrência industrial alemã. Às vésperas da guerra os


produtos alemães concorriam em mercados que eram dominados pela Inglaterra.

Todas essas questões tornaram o conflito inevitável a medida que acirravam os choques de interesse
econômico e político entre as potências industrializadas.

Estopim

A rede de alianças era uma bomba armada pronta para explodir.

Em 1908, a Áustria anunciou a anexação da Bósnia-Herzegovina, contrariando os interesses sérvios e


russos.

A fim de mostrar uma boa relação entre os novos súditos, o herdeiro do trono Austríaco, Francisco
Ferdinando, fez uma visita à região junto com sua esposa.

No dia 28 de junho de 1914, um estudante bósnio assassinou o herdeiro do trono austríaco Francisco
Ferdinando e sua esposa, em Sarajevo, capital da Bósnia.

Esse duplo assassinato foi o pretexto para a explosão da Primeira Guerra Mundial que durou até 11 de
novembro de 1918.

Leia mais em Causas da Primeira Guerra Mundial

Ilustração do assassinato de Francisco Ferdinando e sua esposa

Fases da Primeira Guerra Mundial

No começo do conflito, as forças se equilibravam, em número de soldados, diferentes eram os


equipamentos e os recursos.

A Tríplice Entente não tinha canhão de longo alcance, mas dominava os mares, graças ao poderio
inglês.

Os tanques de guerra, os encouraçados, os submarinos, os obuses de grosso calibre e a aviação,


entre outras inovações tecnológicas da época, constituíram artefatos bélicos de grande poder de
destruição.

Com artilharia pesada e 78 divisões, os alemães passaram pela Bélgica, violando a neutralidade deste
país. Venceram os franceses na fronteira e rumaram para Paris.

O governo francês transferiu-se para Bordeaux e na Batalha de Marne, conteve os alemães, que
recuaram.

Depois, franceses e alemães firmaram posições cavando trincheira ao longo de toda a frente ocidental.
Protegidos por arame farpado, os exércitos se enterravam em trincheira, onde a lama, o frio, os ratos e

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o tifo mataram tanto quanto as metralhadoras e canhões. Este momento é chamado de Guerra de
Trincheiras.

Em 1917, os Estados Unidos, que se mantivera fora da guerra, apesar de emprestar capitais e vender
armas aos países da Entente, principalmente à Inglaterra, entra no conflito.

Declarou guerra à Alemanha, por temer seu poderio imperialista e industrial.

Nesse mesmo ano a Rússia, saiu do conflito, por conta da Revolução de 1917, que derrubou o czar e
implantou o regime socialista.

Consequências

Embora a Alemanha continuasse sofrendo sucessivas derrotas, seus aliados tivessem se rendido, o
governo alemão continuava na guerra. Esfomeado e cansado, o povo alemão se revoltou e os
soldados e operários forçaram o kaiser (imperador) a abdicar.

Formou-se um governo provisório e foi proclamada a República de Weimar. No dia 11 de novembro de


1918, o novo governo assinou a rendição alemã. A Primeira Guerra chegava ao fim, mas a paz geral só
foi firmada em 1919, com a assinatura do Tratado de Versalhes.

As reações aos efeitos do tratado estão entre as principais consequências da Primeira Guerra Mundial.

Sendo assim, em 1939, pouco mais de 20 anos depois, provocaram a Segunda Guerra Mundial.

A Grande Guerra deixou profundas consequências para todo o mundo. Podemos destacar:

• redesenhou o mapa político da Europa e do Oriente Médio;

• marcou a queda do capitalismo liberal;

• motivou a criação da Liga das Nações;

• permitiu a ascensão econômica e política dos Estados Unidos.

Brasil na Primeira Guerra Mundial

Em abril de 1917, os alemães afundaram no canal da Mancha o navio mercante brasileiro Paraná. Em
represália, o Brasil rompe relações com os agressores.

Em outubro, outro navio brasileiro, o Macau, é atacado. No final de 1917, desembarca na Europa uma
equipe médica e soldados para auxiliar a Entente.

Um dos principais historiadores da Primeira Guerra Mundial é o letão Modris Eksteins. No seu livro “A
Sagração da Primavera: A Grande Guerra e o Nascimento da Era Moderna”, Eksteins diz:

“Em agosto de 1914 a maioria dos alemães considerava em termos espirituais o conflito armado em
que estava entrando. A guerra era sobretudo uma ideia, e não uma conspiração com o objetivo de
aumentar o território alemão. Para aqueles que refletiam sobre a questão, tal aumento estava fadado a
ser uma consequência da vitória, uma necessidade estratégica e um acessório da afirmação alemã,
mas o território não constituía o motivo da guerra. Até setembro o governo e os militares não tinham
objetivos bélicos concretos, apenas uma estratégia e uma visão, a da expansão alemã num sentido
mais existencial que físico.” [1]

Nesse trecho, Eksteins fornece um dado pouco explorado quando o assunto é a Primeira Guerra
Mundial: a visão que os alemães tinham de si próprios, a visão sobre o “destino” a ser cumprido na
Europa com o II Reich, comandado por Guilherme II. Esse dado é importante para se compreender a
ambiência do nacionalismo alemão (ideologia que encabeçou o pangermanismo) e sua relação com a
modernização tecnológica do II Reich, haja vista que a máquina de guerra do Império Alemão provocou
um verdadeiro escândalo durante a “Grande Guerra”.

A “vontade de guerra” dos alemães transformou-se em ações após o incidente em Sarajevo,


considerado tradicionalmente o estopim da guerra: o assassinato de Francisco

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Ferdinando, arquiduque e herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, aliado da Alemanha. O


arquiduque foi morto no dia 28 de junho de 1914 por um terrorista sérvio (Gravilo Princip) ligado ao
grupo ultranacionalista “Mão Negra”. Para compreendermos bem o motivo de a morte de Francisco
Ferdinando estar no epicentro do desenrolar da Primeira Guerra, é necessário saber que ele era a
principal figura que negociava os interesses germânicos na região dos Bálcãs. Com o seu assassinato
(pelas mãos de um eslavo), as tensões entre os dois principais projetos nacionalistas para a região
acabaram aumentando vertiginosamente. Havia um projeto de orientação pan-eslavista para os Bálcãs
que visava à criação da “Grande Sérvia” e era encabeçado pelo Império Russo. As disputas
nacionalistas da região dos Bálcãs eram travadas entre pangermanistas e pan-eslavistas Essa
ambiência desencadeou o conflito que logo assumiu proporções monstruosas.

Essas tensões remontavam à formação das alianças político-militares, conhecidas


como Tríplice Aliança e Tríplice Entente. Essa última foi formada em 1904, recebendo o nome formal
de Entente Cordiale, e abarcava França, Inglaterra e Rússia. O Império Russo, após a derrota para
os japoneses na Guerra Russo-Nipônica (1904-1905), estreitou suas relações com
a França, buscando apoio militar e econômico para precaver-se de eventuais conflitos em outras
regiões de interesse, sobretudo nos Bálcãs (apesar de já haver acordos desse gênero entre os dois
países desde 1883, como o chamado Entendimento Franco-Russo). A Inglaterra aliou-se à França
porque temia o desenvolvimento bélico do Império Alemão e lutava para impor limites às pretensões de
Guilherme II.

Já à Tríplice Aliança associaram-se a Alemanha e o Império Austro-Húngaro, que, desde a época de


Bismarck, estabeleceram um pacto referente às ações de dominação da região dos Bálcãs almejadas
pela dinastia dos Habsburgo. A essas duas nações juntou-se a Itália, que queria lançar represálias à
França em virtude da invasão da Tunísia, no noroeste da África, em 1881. Essa região era cobiçada
pelos italianos, o que aumentava ainda mais a tensão entre as duas alianças. Quando a guerra
estourou, em 1914, os exércitos que se mobilizaram estavam associados principalmente a essas seis
nações.

A iniciativa da guerra partiu da Alemanha, que executou o Plano von Schilieffen, isto é, um plano de
guerra elaborado pelo general alemão que deu nome a esse plano. A estratégia consistia em atacar
pelo Leste e defender-se pelo Oeste. A princípio, a guerra assumiu o caráter de “movimento”, isto é, o
deslocamento de tropas e os ataques rápidos e fulminantes (isso abrangeu os dois primeiros anos da
guerra). A partir de 1916, a guerra assumiu o caráter de “posição”, ou seja, buscava-se preservar as
regiões ocupadas por meio do estabelecimento de posições estratégicas. Para tanto, a forma de
combate adequada era a das trincheiras.

A Primeira Guerra Mundial foi reconhecida como a guerra das trincheiras em virtude das extensas
batalhas que foram travadas desse modo. O horror vivido nas trincheiras trouxe uma conotação
apocalíptica para aqueles que o viveram, como vários escritores que participaram da guerra, tais
como Ernst Jünger, J. R.R. Tolkien e Erique Maria Remarque. Os soldados entrincheirados sofriam,
impotentes, bombardeios e lançamento de gases venenosos, como a iperita (gás mostarda). Além
disso, a umidade e o frio acabavam trazendo várias doenças, como o pé-de-trincheira, que provocava o
apodrecimento dos pés, entre outros danos.

As principais batalhas da Primeira Guerra ocorreram em Ypres (na Bélgica) e em Verdun, Somme e
Merne (na França), sem contar aquelas do fronte Ocidental, como a de Dardanelos, no Estreito de
Istambul para o Mar Negro.

A guerra teve o seu fim em 1918, com a derrota da Alemanha, a ruína do Império Russo e a ascensão
dos Estados Unidos como potência econômica e militar. O Tratado de Versalhes impôs à Alemanha
vultosas medidas de reparação pelos danos causados pela guerra.

Causas

O século XIX foi marcado por inúmeras rivalidades entre as potências européias. Em pleno processo
de industrialização, países como a França, a Inglaterra e a Bélgica necessitavam de regiões onde
pudessem investir seus capitais excedentes e, por isso, disputavam pela posse de colônias em
territórios africanos e asiáticos (Imperialismo).

A Confederação Germânica e os Estados Italianos, depois de uma série de conflitos (principalmente


contra a França), conseguiram concluir seus processos de unificação, e logo esses novos países,

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Alemanha e Itália, partiram para a conquista imperialista, ameaçando o domínio inglês e francês.
Ao mesmo tempo, o Império Russo buscava expansão territorial e comercial e por isso rivalizava com
dois grandes impérios da época, ambos aliados dos alemães: o Império Turco e o Império Austro-
Húngaro.

Esta situação acirrou as disputas nacionalistas, o que levou a uma corrida armamentista (a chamada
“Paz Armada”) e a formação de 2 blocos de países inimigos, que prometiam se ajudar em caso de uma
guerra (Política de Alianças):

Tríplice Entente
• França
• Inglaterra
• Império Russo

Tríplice Aliança
• Império Alemão
• Império Turco
• Império Austro-Húngaro

Estopim da guerra: a questão balcânica


No inicio do século XX, a península Balcânica estava dividida entre o Império Turco e o Império Austro-
Húngaro. Porém com a decadência do Império Turco, surgiram países independentes.
O Império Russo logo se aliou a esses novos países e, dentre eles, estava a Sérvia, que tinha projetos
expansionistas. Em nome do nacionalismo eslavo, os sérvios pretendiam anexar a Bósnia-
Herzegovina, uma região que pertencia ao Império Austro-Húngaro.
Em junho de 1914, num cenário de agitações políticas, o arquiduque austríaco, Francisco Ferdinando,
foi assassinado em Sarajevo (capital da Bósnia), por um grupo terrorista nacionalista sérvio.
Por esse episódio, a Áustria declarou guerra à Sérvia. Os russos declararam seu apoio aos sérvios e
começaram a deslocar suas tropas. O Império Alemão, que desejava uma grande guerra a fim
enfraquecer as potências industriais aliadas dos russos, declarou seu apoio a Áustria.
Assim a Política de Alianças foi posta em ação e se iniciou a Primeira Guerra.

Guerra
Depois de algumas semanas sem nenhum combate, os alemães iniciaram seus ataques à Bélgica, e
chegaram a ocupar o norte da França (final de 1914).
Devido a igualdade de forças (humanas, tecnológicas e bélicas) as batalhas na frente ocidental se
intensificaram, sem que nenhum dos dois lados obtivesse vitórias significativas (Guerra de Trincheira).
Enquanto isso, na frente oriental a Tríplice Aliança marchava em direção à Rússia, aniquilando seus
inimigos.
Os europeus imaginaram que a guerra duraria pouco tempo e investiram tudo que puderam para obter
a vitória rapidamente. Entretanto, a guerra se prolongava, castigando não só os soldados, mas também
as populações civis, que necessitavam produzir mais e cortar gastos, vivendo em estado de penúria
(Guerra Total).
Em 1917, motins e greves estouraram por várias regiões da Europa. A situação foi particularmente
difícil na Rússia, que acabou por sair da guerra (ver Revolução Russa).
Também em 1917, os EUA entraram na guerra do lado da Tríplice Entente, piorando a situação dos
alemães.
Apesar do Império Alemão ainda não ter sofrido uma derrota significativa, seus recursos estavam se
esgotando. Em novembro de 1918, um golpe militar proclamou a República Alemã (República de
Weimar), e o novo governo assinou um armistício, pondo fim aos combates.

Tratados de Paz
O presidente dos EUA propôs um acordo conhecido como “Os 14 Pontos de Wilson”, que pretendia a
“paz sem vencidos, nem vencedores”, o que não foi aceito pela França.

Tratado de Versalhes
A Alemanha foi culpada pela guerra e sofreu duras punições: teve que pagar uma pesada indenização,
perdeu 1/7 de seu território, perdeu suas colônias, seu exército foi reduzido a 100 mil homens e foi
proibida a fabricação e utilização de armamento pesado por suas tropas.

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Tratado de Saint-Germand
O Império Austro – Húngaro foi desmembrado em Áustria, Hungria, Tchecoslováquia, Polônia e Reino
dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (futura Iugoslávia).

Consequências da guerra
– Guerra total e mundial
– 12 milhões de mortos e 20 milhões de mutilados
– Fortalecimento dos nacionalismos na Europa
– Crise econômica (uma estimativa: a Europa perdeu 8 anos de crescimento e 10 milhões de dólares
por hora, em 1918)
– Avanço tecnológico
– Japão: potência oriental
– EUA: centro econômico mundial
– Difusão dos ideais socialistas
– Revolução Russa

(PUC-RJ 2007) “Até aqui, era um fato elementar (…) que a Europa dominava o mundo com toda a
superioridade de sua grande e antiga civilização. Sua influência e seu prestígio irradiavam, desde
séculos, até as extremidades da terra (…) Quando se pensa nas conseqüências da Grande Guerra
(1914 – 1918), que agora finda, pode-se perguntar se a estrela da Europa não perdeu seu brilho, e se o
conflito do qual ela tanto padeceu não iniciou para ela uma crise vital que anunciava a
decadência.” (Texto adaptado de A. Demangeon. “O declínio da Europa”, pp. 13-14)

Para os que viveram a Primeira Grande Guerra (1914 – 1918), tal conflito veio a representar o fim de
uma época. Para alguns, iniciavam-se tempos sombrios e de decadência; para outros, era o alvorecer
de mudanças há muito projetadas.
Identifique um acontecimento que expresse a idéia central do texto acima transcrito, explicando-o.

Os países beligerantes sofreram uma profunda crise econômica e financeira nos anos
posteriores à Grande Guerra, levando ao desmoronamento de toda influência que tinham sobre
o mundo.

(FGV 2007) O contexto europeu do final do século XIX e início do XX relaciona-se à eclosão da
Primeira Guerra Mundial porque:

a) a Primeira Revolução Industrial desencadeou uma disputa, entre os países europeus, por fontes de
carvão e ferro e por consumidores dos excedentes europeus.
b) a unificação da Itália rompeu o equilíbrio europeu, pois fez emergir uma nova potência industrial,
rival da Grã-Bretanha e do Império Austríaco.
c) o revanchismo alemão, devido à derrota na Guerra Franco-Prussiana, fez a Alemanha desenvolver
uma política militarista e expansionista
d) a difusão do socialismo, principalmente nos Bálcãs, acirrou os movimentos emancipacionistas na
área, então sob domínio do Império Turco.
e) a corrida imperialista, com o estabelecimento de colônias e áreas de influência na África e na
Ásia, aumentou as rivalidades entre os países europeus.

As alternativas erradas contradizem as principais causas da I Guerra, que foram: a Segunda Revolução
Industrial, a formação do Império Alemão, a vitória dos alemães na Guerra Franco-Prussiana e o
nacionalismo eslavo defendido pelos sérvios com apoio dos russos.
Outro fator fundamental para acirrar as rivalidades européias no pré-guerra foi a disputa por colônias
entre as potências européias (“corrida imperialista”)

Eram 3h30 de 26 de agosto de 1914, em Rozelieures, na região de Lorena, fronteira com a Alemanha,
quando Joseph Caillat, soldado do 54.º batalhão de artilharia do exército da França, escreveu: “Nós
marchamos para a frente, os alemães recuaram. Atravessamos o terreno em que combatemos ontem,
crivado de obuses, um triste cenário a observar. Há mortos a cada passo e mal podemos passar por
eles sem passar sobre eles, alguns deitados, outros de joelhos, outros sentados e outros que estavam
comendo. Os feridos são muitos e, quando vemos que estão quase mortos, nós acabamos o
sofrimento a tiros de revólveres”.

Quando Caillat escreveu aquela que seria uma de suas primeiras cartas do front a seus familiares, a
Europa estava em guerra havia exatos 32 dias – e acreditava-se que não por muito mais

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tempo. Correspondências como a desse soldado de 2.ª classe que morreria de pneumonia em 1º de
julho de 1917 começavam então a trazer à luz para a sociedade a gravidade do conflito, que em seus
quatro anos, três meses e 14 dias mobilizaria mais de 60 milhões de combatentes e deixaria quase 9
milhões de civis e militares mortos, além de 20 milhões de feridos, em um dos piores momentos da
história da humanidade.

É consenso entre historiadores que a 1.ª Guerra Mundial mudou a geopolítica e as sociedades que
dela participaram para sempre, alterando de forma radical o mapa-múndi – uma transformação que
ainda reverbera em nossos dias. Os 1.567 dias de carnificina marcaram a queda da era dos grandes
impérios – alemão, austro-húngaro, russo, turco –, resultaram em um genocídio – na Armênia – e em
uma revolução – na Rússia –, devastaram cidades, regiões e países e abalaram por décadas a Europa,
abrindo as portas, após o Tratado de Versalhes, para a emergência de Adolf Hitler e do nazismo,
para a 2.ª Guerra Mundial, para o holocausto e para o mundo tal como o conhecemos hoje. "O tratado
de paz de fato impôs condições muito duras à Alemanha, que foram vividas de forma realmente
humilhante pelos alemães", disse Karine McGrath, diretora dos Arquivos do Palácio de Versalhes.

O Estado esteve em locais emblemáticos do conflito, como a célebre Ponte Latina, em Sarajevo, e os
campos de batalha de Ypres, na Bélgica, e Verdun, na França, percorreu centenas de quilômetros em
fronts, visitou ruínas e sítios de guerra, mergulhou em arquivos públicos e particulares, pesquisou
documentos, fotos e imagens, entrevistou descendentes de soldados e vítimas, ouviu historiadores e
militares na França, nos Estados Unidos, no Reino Unido e no Brasil.Foram sete meses de pesquisa,
além de consultas a quase duas dezenas de publicações inglesas, francesas, italianas, alemãs,
espanholas, americanas e brasileiras mantidas no Acervo Estado. Tudo em um esforço para
compreender por que a Grande Guerra é ainda hoje, 100 anos mais tarde, uma ferida em cicatrização.

EM SARAJEVO, ATENTADO É COMBUSTÍVEL DA DISCÓRDIA

Em 28 de junho de 1914, Gavrilo Princip atacou e abateu a tiros o herdeiro do trono da Áustria-Hungria,
Francisco Ferdinando, no evento que precipitou a 1.ª Guerra Mundial. Cem anos depois, o jovem
nacionalista sérvio ainda divide a Bósnia: herói ou terrorista?

Andrei Netto
ENVIADO ESPECIAL
SARAJEVO, BÓSNIA

Não havia representantes do governo da Sérvia nem das mais importantes autoridades da comunidade
sérvia da Bósnia-Herzegovina na noite de gala de 28 de junho de 2014 no Vijecnica, a reconstruída
biblioteca nacional do país. Naquela noite, um concerto da Orquestra Filarmônica de Viena, da Áustria,
realizado no prédio-símbolo de Sarajevo lembrava os 100 anos do atentado que matou o herdeiro do
trono da Áustria-Hungria, Francisco Ferdinando.

Do lado de fora, algumas dezenas de militantes carregavam faixas de protesto e cobriam seus rostos
com uma máscara: a do jovem nacionalista sérvio Gavrilo Princip.

Para os que estavam no interior do edifício de linhas neo-islâmicas devastado pelo fogo no cerco à
cidade, em 1992, e agora reconstruído, Princip foi um assassino. Para aqueles que protestavam no
lado externo, ele foi um herói. Em síntese, assim se divide a Bósnia-Herzegovina sobre o evento
político usado como pretexto pelo Império Austro-Húngaro, com apoio do Império Alemão, para lançar
a 1.ª Guerra Mundial. Um século após o célebre atentado de Sarajevo, a memória do assassinato de
Francisco Ferdinando e de sua mulher, Sofia, é alvo de paixões e de discórdia política.

Gavrilo preso pouco depois dos disparos. Crédito: Acervo Estado.

A controvérsia em torno do papel do jovem tuberculoso Gavrilo Princip no ataque faz parte de um
pedaço da história mais viva do que o próprio conflito de 1914-1918 no imaginário dos Bálcãs. Recém-
saída de mais uma guerra sanguinária, a península ainda sofre as consequências da implosão da
Iugoslávia e da 3.ª Guerra dos Bálcãs, entre 1991 e 2001, e com a profunda divisão dos povos da
região. O resultado é que sérvios, de um lado, e bósnios e croatas, de outro, têm visões opostas
também sobre o ataque cometido por nacionalistas do movimento Mlada Bosna, Jovem Bósnia, em
1914.

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A organização defendia a ideia da Grande Sérvia e a criação da Iugoslávia e se opunha à ocupação da


Bósnia-Herzegovina pela Áustria-Hungria, que invadiu o território em 1878 e o anexou em 1908. A
iniciativa de Viena de absorver parte da Península Balcânica contrariava as disposições do Tratado de
Berlim, que reconhecia a posse da região pelo Império Otomano, e serviu para acirrar o nacionalismo
sérvio dentro e fora das fronteiras da Bósnia, estimulado pelo apoio do Império Russo e de seu czar,
Nicolau II.

Casado com uma checa, Sofia, Ferdinando era considerado um sucessor progressista do imperador
Francisco-José, então com 84 anos. Nos meios políticos de Viena, imaginava-se que o arquiduque,
uma vez no trono, poderia ampliar a autonomia, a liberdade e os direitos dos eslavos do império, mais
numerosos do que os austríacos e os húngaros. Esse suposto perfil reformador – que jamais se
confirmaria, em função do assassinato – causava desconfiança na corte e na elite do próprio império,
ciosas de manter o status, mas sobretudo entre os movimentos nacionalistas da Sérvia, que almejavam
comandar a grande unificação dos “eslavos do Sul” em um país unido – a “Eslávia do Sul”, ou
Iugoslávia.

Foi nesse contexto que movimentos como Jovem Bósnia e Mão Negra, um grupo secreto suspeito de
ter ligações com o exército e o governo da Sérvia, conspiraram para o assassinato do arquiduque a
tiros de revólver, pelas mãos de Princip, após um primeiro atentado a bomba fracassado no mesmo
dia, ambos nas imediações de Vijecnica, que Ferdinando havia visitado instantes antes.

Cem anos depois, a memória do crime que segundo o historiador britânico Eric Hobsbawm marcou o
início do “breve século 20” ainda paira sobre Sarajevo. “Estamos em uma profunda crise econômica e a
maioria da população de Sarajevo não está interessada na 1.ª Guerra Mundial”, explica a historiadora
Vera Katz, pesquisadora do Instituto de História da Universidade de Sarajevo. “Mas entre acadêmicos
estamos muito divididos. Temos três divisões claras: sérvios, bósnios e croatas. Isso faz com que
tenhamos diferentes interpretações sobre o papel de Gavrilo Princip na 1.ª Guerra Mundial. Entre
historiadores sérvios, ele continua a ser um herói nacional.”

A controvérsia nos meios acadêmicos é tão forte que pesquisadores sérvios boicotaram uma
conferência internacional que reuniu entre 18 e 21 de junho historiadores do mundo todo em torno do
tema A Grande Guerra: Abordagens Regionais e Contextos Globais. Uma conferência em separado
será realizada em setembro, em Belgrado, na Sérvia. Para intelectuais como Miljan Maksimovic,
historiador bósnio de origem sérvia, as elites políticas bósnias e europeias tentam revisar a história,
apagando os traços do povo sérvio na cultura local e impondo o fardo da culpa pela Grande Guerra à
Sérvia. “O absurdo é que bósnios muçulmanos também impuseram grande resistência às tropas
invasoras austro-húngaras em 1878, mas dizem o contrário hoje”, afirmou Maksimovic à agência russa
Ria Novosti. “O fato é que essas iniciativas não contribuem à reconciliação global, mas aprofundam a
divisão.”

Um dos grandes pontos de insatisfação da população de Sarajevo Leste e da República Srpska


(República Sérvia da Bósnia, uma das duas que compõem a Bósnia-Herzegovina), onde se concentra
a população sérvia, é que uma versão da história sobre o atentado de Sarajevo e sobre Gavrilo Princip,
um “herói nacional”, está preponderando para o mundo. Para eles, austro-húngaros eram os invasores
a serem combatidos.

O que se vê hoje na Bósnia-Herzegovina, porém, é uma revisão desse papel e uma tentativa de apagar
da memória o culto a Princip. Em Sarajevo, a passagem sobre o Rio Miljacka em frente à qual
Francisco Ferdinando foi assassinado, que durante a existência da Iugoslávia de Alexandre I e de Tito
se chamou Ponte Gavrilo Princip, voltou a ser denominada Ponte Latina. Uma placa com os dizeres
“Que a paz reine sobre a Terra” hoje esconde a anterior, que descrevia o jovem como “um combatente
da liberdade” e o atentado como “um protesto popular contra a tirania”. As ruas em homenagem ao
herói/terrorista e ao movimento Jovem Bósnia foram rebatizadas.

No centro histórico, onde a maioria é de bósnios e croatas, há um projeto de construção de uma


estátua em memória do arquiduque. Na mesma região, existe um albergue chamado Franz Ferdinand.
“Os proprietários queriam usar o nome famoso para atrair turistas de outros países”, explica Sedad
Cholak, funcionário do hostel. “Eu diria que aqui é 50%-50%. Muitos pensam que ele foi uma boa
pessoa e muitos pensam que Gavrilo Princip era uma boa pessoa, porque ele o matou. Eu não sei…
Ele era um líder, a Bósnia fazia parte da Áustria-Hungria. Eu creio que ele era um bom homem.”

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Em um país no qual cada parede traz as marcas da mais recente guerra fratricida e onde todos os
espíritos ainda estão impregnados pelo horror do conflito dos anos 1990, essa “virada da memória” em
favor do arquiduque descontenta e indigna a população sérvia da Bósnia, que vê nas iniciativas a
glorificação do opressor. Por isso, há reações em curso em Istocno, periferia de Sarajevo Leste, em
Visegrad, na fronteira com a Sérvia, e em Belgrado, na Sérvia, onde monumentos à memória de
Princip estão em fase de projeto, já em construção ou inaugurados. “O ponto de início foi a retirada do
monumento a Gravilo Princip da praça na qual ele estava em Sarajevo, o que quer dizer que não há
intenção de se fazer uma boa representação sobre o início da 1.ª Guerra Mundial”, argumenta Ljubisa
Cosic, prefeito de Sarajevo Leste.

Quem também não gosta de todas as homenagens a Francisco Ferdinando é Gavrilo Princip. Não se
trata, claro, do herói/terrorista, mas de seu sobrinho-neto, que o Estado localizou em Sarajevo
Leste. Empresário do ramo hoteleiro e proprietário de um posto de combustíveis, Bato, ou Caçula,
como é chamado pelos íntimos, vive com discrição e não gosta de falar com jornalistas. Até pouco
tempo atrás, portava com orgulho o nome do tio-avô, fuzilado em 1941 a mando do líder nazi-fascista
Ante Pavelic, o “Führer croata”. Também participava com a família, a cada dia 28 de julho, de uma
reunião em uma igreja ortodoxa do centro de Sarajevo, de onde partiam para visitar o túmulo de seu
antepassado ilustre, que a escola iugoslava lhe ensinou ser um herói.

Hoje, aos 62 anos, entretanto, Bato começa a se esconder, e não apenas de jornalistas – o empresário
não quis gravar entrevista para a reportagem. Gavrilo Princip, o sobrinho-neto, lembra que a casa e o
vilarejo onde seu antepassado nasceu foram destruídos várias vezes ao longo do século e o risco
existe. Mas, sobretudo, foge da dimensão internacional que a polêmica sobre Gavrilo Princip, o
herói/terrorista, ganhou nos Bálcãs 100 anos depois do assassinato de Francisco Ferdinando.

1914: QUANDO HORROR SE ALASTROU

Na cabeça de líderes políticos e diplomatas, a 1.ª Guerra Mundial seria um conflito sangrento, mas
rápido. Cem anos depois, fortes, bunkers, crateras, armamentos, campos de batalha, cemitérios,
ossários e monumentos comprovam: foi uma guerra total.

Andrei Netto
ENVIADO ESPECIAL
PARIS E VERDUN (FRANÇA) E YPRES (BÉLGICA)

Em um extrato de uma mensagem escrita às vésperas da eclosão da 1.ª Guerra Mundial, o imperador
da Rússia, Nicolau II, rogou a seu primo e amigo, o imperador da Alemanha, Guilherme II:

Uma guerra vergonhosa foi declarada contra uma nação fraca; eu compartilho inteiramente a imensa
indignação na Rússia. Muito em breve não poderei mais resistir à pressão e serei forçado a tomar
medidas que conduzirão à guerra. Para prevenir a infelicidade de uma guerra europeia, eu te peço, em
nome de nossa velha amizade, que faça todo o possível para impedir que teu aliado vá longe demais”.

À correspondência, o kaiser responderia horas depois: “Não posso considerar a marcha à frente da
Áustria-Hungria como uma ‘guerra vergonhosa’. (…) A declaração do gabinete austríaco me fortifica na
opinião de que a Áustria-Hungria não visa a nenhuma aquisição territorial em detrimento da Sérvia.
Creio logo que é possível à Rússia perseverar, frente à guerra austro-sérvia, em seu papel de
espectadora, sem empurrar a Europa à guerra mais horrível que ela jamais viveu”.

O rei George V (dir.) e o kaiser Guilherme II (esq.). Crédito: Acervo Estado.

Membros da mesma família – ambos eram também primos do monarca britânico George V –, além de
velhos companheiros prestes a se tornarem inimigos, Nicolau II e Guilherme II compartilhavam em
junho de 1914 erros e acertos quanto à interpretação do conflito iminente. Líderes de potências
econômicas e políticas concorrentes, ambos sabiam que na realidade não se trataria só de um
desentendimento “austro-sérvio” e o início dos combates entre seus dois impérios também era uma
questão de horas. Documentos diplomáticos e de arquivos governamentais mostram que ambos
projetavam embates sanguinários, mas não acreditavam que um conflito longo estava por começar
nem que os campos de batalha se espalhariam pelo mundo.

Entretanto, em um intervalo de apenas 99 dias a partir de 28 de julho, quando a Áustria-Hungria abriu


as hostilidades contra a Sérvia, no marco da 1.ª Guerra Mundial, meio mundo seria tragado por uma

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sucessão de 19 declarações oficiais de guerra envolvendo dez países. Após a atitude de Viena, o caos
político se espalharia: a Alemanha declararia guerra contra a Rússia em 1.º de agosto e à França dois
dias depois; o Reino Unido se lançaria contra a Alemanha em 4 de agosto e contra a Áustria-Hungria
nove dias mais tarde; entre as duas datas, a Áustria-Hungria declararia a Rússia inimiga em 5 de
agosto. Em 23 de agosto, o Japão se uniria à Entente opondo-se à Alemanha, colocando a Ásia no
mapa da guerra. Enfim, em 5 de novembro de 1914, França e Reino Unido declarariam guerra aos
otomanos, empurrando a fronteira do conflito ao Oriente Médio.

Como a escalada da crise diplomática de 1914, a zona de guerra se alastraria pelo continente como
fogo em uma carreira de pólvora até 1917, com a entrada de Estados Unidos e latino-americanos,
inclusive o Brasil.

Tratava-se, então, de uma “guerra total”, industrial e globalizada. “É uma guerra que vai perdurar e vai
se industrializar, em que todos os progressos técnicos, todos os recursos dos Estados-Nação potentes
serão mobilizados”, diz Joseph Zimet, historiador e diretor-geral da Missão do Centenário. “É uma
guerra de sociedade, toda mobilizada a seu serviço. As fábricas, as mulheres, toda a economia vai
alimentar o conflito. A guerra não se ganha só nas trincheiras, ou por combates de artilharia, mas pela
mobilização econômica, social e mental na retaguarda.”

O general Ludendorff. Crédito: Acervo Estado.

Nesse conflito global, frentes de batalha se espalharam pela Europa, mas também pelos Bálcãs, pela
África, por Oriente Médio, Ásia, Oceania e Atlântico Norte. Seriam ao todo 19 grandes fronts e dez
batalhas em mares e oceanos até o fim da guerra. No segundo maior foco de tensão, no Leste
Europeu, ofensivas como a de Tannenberg, em agosto de 1914, não apenas contêm o ímpeto do
Império Russo e desestabilizam ainda mais o czarismo, como dão à Alemanha um símbolo de triunfo,
sob o comando dos generais Paul von Hindenburg e Erich Ludenforff. A caminho da derrota e da
revolução bolchevique, russos comemoram vitórias como a do cerco de Przemysl, que deixou 115 mil
pessoas mortas ou feridas entre 24 de setembro de 1914 e 22 de março de 1915.

Entre tantos embates, porém, nenhum foi mais mortífero do que a frente ocidental, em que soldados de
França, Bélgica e Reino Unido, e mais tarde de Estados Unidos, Canadá e Austrália, entre outros,
defenderam Paris de uma invasão. A devastação material e humana explica por que as linhas de front
se transformaram em museus a céu aberto da guerra 1914-1918. Fortes, bunkers, crateras, campos de
batalha, armamentos, cemitérios, ossários, monumentos aos mortos e até florestas são cicatrizes do
conflito muito visíveis ainda hoje na França e na Bélgica.

O general Hindenburg. Crédito: Acervo Estado.

Nesse front, ocorreu a Batalha de Marne, em 1914, decisiva para assegurar o fracasso da estratégia
inicial de ataque alemã, o Plano Schlieffen, e a vitória dos aliados no final do conflito. Nela, 2 milhões
de homens, entre franceses, britânicos e alemães, estiveram em trincheiras e ofensivas em Ourcq,
Deux Morins, Marais de Saint-Gond, Vitry e Revigny, comandados por generais que se tornariam
heróis nacionais da França, a exemplo de Joseph Joffre, Joseph Gallieni e Ferdinand Foch. Em sete
dias de combates entre 5 e 12 de setembro de 1914, mais de 100 mil franceses, 7 mil britânicos e 80
mil alemães morreram ou desapareceram e 250 mil outros soldados ficaram feridos.

No mesmo front ocidental, sucederam-se as Batalhas de Verdun e Somme, em 1916, que deixaram
306 mil e 442 mil mortos ou desaparecidos, respectivamente, além das de Chemin des Dames, em
1917, com mais 100 mil mortos, e a 2.ª Batalha de Marne, em 1918, que matou 280 mil soldados.

A alta mortalidade se dava por uma conjunção de fatores, entre os quais a chamada “guerra de
posições”. Essa estratégia, que duraria os quatro anos no front ocidental, explica Michael Bourlet,
doutor em História, escritor e pesquisador das escolas militares de Saint-Cyr Coëtquidan, na França,
era a forma encontrada pelos países invadidos de frear o avanço dos inimigos, custasse o que
custasse. “Em 1914, os estados-maiores fundamentavam suas estratégias em uma guerra de
movimento, rápida, que chegaria ao término de uma grande batalha decisiva”, conta Bourlet. “Ambos
os lados se dão conta, ao final da Batalha de Marne, em setembro de 1914, que a guerra será muito
mais longa. E então os lados se deparam com uma guerra de posições.”

A estratégia visa levar o inimigo à exaustão e à derrota, mas o resultado é a paralisia do conflito. A
alternativa, então, foi intensificar a partir de 1915 o desenvolvimento de novas tecnologias bélicas para

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infligir baixas em massa aos inimigos e tentar sair do impasse. Os bombardeios foram intensificados e
todos os meios industriais passaram a ser empregados para matar. Assim nasceram a guerra química,
o uso de tanques e os bombardeios aéreos.

Essas novas tecnologias obrigaram generais e comandantes a testar métodos em pleno conflito ,
enviando centenas de soldados para missões impossíveis e letais, como a conquista de trincheiras
bem guarnecidas e bem armadas ou de morros e colinas, pontos privilegiados para a visibilidade da
artilharia. No exército britânico, um jargão se criou entre as tropas para descrever a situação:“Leões
comandados por asnos”.

Essas batalhas, que figuram no rol das mais violentas da história da humanidade, tinham em comum
um elemento de base: o sofrimento humano descomunal. Um dos diagnósticos mais frequentes entre
soldados era a sensação de perda da condição humana. Em 10 de julho de 1916, um ano e meio antes
de sua morte no campo de batalha, o sargento francês Marc Boasson escreveu:

“Eu mudei terrivelmente. Não queria lhe contar nada da horrível fadiga que a guerra engendrou em
mim, mas você me força. Eu me sinto esmagado, diminuído, (…) estou pobre e nu por causa das
emoções desmesuradas, das experiências desproporcionais à resistência humana. Algo está dando
errado, uma perda generalizada. Eu sou um homem esmagado”.

À sua noiva, o soldado Henri Fauconnier diria em carta datada de 17 fevereiro de 1917: “É assustador
depender tanto do meio em que estamos. Mady, não é com um ser humano que você se casará”,
advertiu.“Às vezes eu sou um monstro, às vezes uma planta, às vezes um mineral. Nunca um ser
humano.”

NAS TRINCHEIRAS, MORTE, MISÉRIA E MEMÓRIA

Em uma guerra marcada pela multiplicação do poderio de fogo e pelas perdas em massa, fossas
insalubres colocaram inimigos frente a frente durante quatro anos, simbolizando o horror do conflito.
Hoje, elas dão voz à tragédia.

Andrei Netto
ENVIADO ESPECIAL
MASSIGES E VERDUN, FRANÇA

A 2.ª ofensiva de Champagne programada pelo general francês Joseph Joffre para obrigar o exército
alemão a recuar na região de Marne estava em seus últimos preparativos quando o subtenente Arthur
Charles Leguay, de 37 anos, recrutado em Le Mans e matriculado sob o número 1.657 no 2.º Batalhão
de Caçadores a Pé, desembarcou na estação de trem de Vitry-le-François em 15 de setembro de 1915.
Onze dias depois, de sua trincheira, sob a luz de velas, ele escreveu à sua mulher, Madeleine: “Parece
que seremos encarregados de perseguir o exército alemão e que receberemos ordem de não parar até
a margem do Reno. Quer dizer que queremos o sucesso completo”, disse o poilu (membro da
infantaria francesa), completando em tom otimista: “No momento em que escrevo, as baterias de
artilharia pesada bombardeiam o terreno para deslocar as tropas inimigas. Todos estão sorridentes”.

A placa de identificação de Leguay. Crédito: Arquivo pessoal.

O ataque ao qual Leguay se referia teve início às 4h45 de 30 de setembro de 1915. Seu objetivo era
tomar o vilarejo de Ripont e posições alemãs próximas às colinas de Main de Massiges, em
Champagne. Ao seu término, o balanço da operação do lado francês indicava 797 baixas, 159 mortos –
incluindo 17 oficiais – e 683 feridos. Além deles, havia 182 desaparecidos, entre os quais o subtenente.
A Madeleine, um de seus colegas de tropa escreveu: “Não posso dizer que ele esteja morto, mas o
viram cair ferido”. Como cerca de 700 mil combatentes jamais foram encontrados na 1.ª Guerra
Mundial, Leguay poderia ter sido condenado a jamais ser localizado. Em meio ao conflito, corpos
desapareciam por completo, desintegrados por granadas de obus ou soterrados por explosões nos
arredores. Mas sua sina foi diferente. Sua ossada acabaria encontrada por acidente em 16 de maio de
2012, 97 anos mais tarde, junto à sua trincheira, onde também estavam sua placa de identificação, os
estilhaços de obuses que o mataram e seu capacete, perfurado.

Seus restos mortais e pertences testemunham o horror da guerra nas trincheiras e nas “no man’s
lands” (“terras de ninguém” entre as posições inimigas) da Europa, onde 56% dos soldados acabavam

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mortos ou feridos, além de tantos outros doentes físicos ou mentais em razão das condições do
conflito.

O ataque francês em Massiges em 1915. Crédito: Acervo Estado.

Enterrar os cadáveres na 1.ª Guerra Mundial não raro não era possível em um conflito marcado por
trincheiras inimigas separadas em geral por 100 ou 200 metros, mas que poderiam estar frente a
frente, distantes 20 metros, como ocorreu em Vimy, na França. “Às vezes, entre uma trincheira alemã e
uma francesa, era possível ouvir as vozes, ouvir o ruído dos talheres durante as refeições, ouvir o
soldado inimigo limpar sua arma. Havia toda uma vida que acontecia nas trincheiras”, conta Alexis
Guilbert, militar de elite francês e estudioso da 1.ª Guerra Mundial. Essa vida, que também podia se
passar nos quilômetros de galerias subterrâneas da região de Aisnes utilizadas pelos soldados,
resumia-se a esperar o momento fatal do ataque. “Os assaltos eram extremamente letais. Quando uma
seção completa saía da trincheira, alemães e franceses alinhavam suas metralhadoras e logo não
havia mais nada. Regimentos inteiros desapareciam por nada.”

Cavalo pasta em uma antiga terra de ninguém conquistada pelos franceses em 1916. Crédito: Acervo
Estado.

Dessa forma, um em cada dez combatentes morreu na 1.ª Guerra Mundial, grande parte das vezes
abandonado em condições degradantes, sem oferecer às famílias condições para um sepultamento
digno. No campo de batalha, não raro a única opção era cavar covas rasas e provisórias ou abandonar
os cadáveres à espera de um bombardeio que também desse fim aos agonizantes, com frequência
deixados à própria sorte entre as trincheiras inimigas. Não bastasse a expectativa sombria de cada
soldado, os excrementos, ratos, infestações de insetos, barro, umidade, chuva e frio glacial se uniam
ao pesadelo, provocando epidemias como disenteria, cólera ou tifo, doenças de pele, gangrenas nos
pés e infecções das mais variadas, em uma época na qual a medicina ainda não contava com
antibióticos. Ao martírio físico, somava-se uma tortura psicológica: o risco que cada militar corria de se
tornar um “gueule cassé”, ou “cara quebrada” – o deformado. Para diagnosticar esse terror, os médicos
da Grande Guerra chegaram a criar um diagnóstico: a “obusite”, hoje reconhecida como uma
manifestação de estresse pós-traumático.

Assim eram a vida e a morte nas trincheiras e em campos de batalha de regiões como a belga Ypres
ou as francesas Somme e Verdun, segundo os testemunhos dos próprios soldados, deixados em
milhões de cartas trocadas entre os fronts de guerra e as famílias dos envolvidos. “Nem nos
surpreendemos mais com as condições de vida artificiais, quase injustificáveis, que não se
assemelham a nada de nossa vida e de nossos pensamentos de outrora”, escreveu em 1918 o tenente
André Pézard, mais tarde autor de Nous Autres à Vauquois, obra na qual descreve a ofensiva que
devastou a cidade de Vauquois, na França. Sob quatro horas de bombardeios, ele anotou: “Em meio a
uma desordem incurável, esperamos impotentes, sem imaginar nada, sem esperança de nada, o fim
de algo que nos pediram para suportar. Nós existimos, apenas isso. Não somos humanos”.

Além de cartas, imagens e fotografias – os primeiros registros modernos de um conflito armado de


grande amplitude – descrevem a inutilidade dos assaltos contra as trincheiras inimigas e o absurdo de
bombardeios, que chegavam a matar 90% dos homens.

Veterano mutilado durante a guerra. Crédito: Acervo Estado.

Durante décadas, em todos os fronts da Europa, esforços materiais foram empreendidos para apagar
os vestígios dessas trincheiras, verdadeiras cicatrizes do conflito. Hoje, entretanto, um movimento
inverso está em curso. Em diferentes pontos do continente, galerias utilizadas por aliados ou pelos
impérios centrais são preservadas ou mesmo reabertas, em uma forma de recriar a memória do
conflito. Trincheiras intactas ou reconstituídas podem ser encontradas em antigos campos de batalha
emblemáticos, como as trincheiras de Yorkshire, na Bélgica, ou de Chemin des Dames e Verdun, na
França. Entre as duas frentes francesas, por exemplo, situa-se Massiges, um grupo de colinas que
formava a fortaleza natural no vale do Rio Aisne. Essa região, estratégica para a artilharia de ambos os
lados, dava ao exército que a dominasse uma visão panorâmica sobre cerca de 30 quilômetros de
campos de batalha em diferentes direções. Perdê-la significaria para os franceses a provável conquista
de Paris pelos alemães. Para defendê-la ou conquistá-la, 4 mil homens morreram por dia só entre
agosto e setembro de 1914, no início do conflito. Sepultados em fossas coletivas ou em túmulos
isolados, grande parte dos soldados, como Leguay, jamais foi identificada. Antes abandonada, a área

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da colina foi adquirida por cinco moradores do vilarejo de 50 habitantes, que reconstituíram as galerias
de Massiges, transformando-as em um dos mais bem conservados sítios da guerra do país.

O poilu Dadure (segundo da dir. para esq.). Crédito: Arquivo pessoal.

O resultado do trabalho é que dezenas de soldados desconhecidos, franceses e alemães, vêm sendo
encontrados. Entre eles está o poilu Albert Dadure, morto em 7 de fevereiro de 1915, aos 21 anos, e
localizado 97 anos depois, graças ao trabalho do arqueólogo Yves Desfossés e do antropólogo Michel
Signoli, do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) da França. “Fazer esse trabalho me fez
entender que não podemos compreender essa guerra com os nossos conceitos de hoje em dia. Eram
sistemas de pensamento diferentes”, entende Pierre Labate, ex-militar do programa de armas
nucleares da França e hoje prefeito de Massiges e um dos proprietários da área da colina. “Quando
vemos a amplitude do sacrifício… Isso seria inadmissível hoje.”

Para Jean-Pierre Mainsant, outro dos cinco proprietários da área, a reconstituição das trincheiras é
uma homenagem às famílias do vilarejo, que ainda hoje vivem “mergulhadas na guerra”, mas também
aos parentes de vítimas, identificadas ou não, que caíram nas colinas de Massiges, longe de suas
casas. “Nós sempre fomos banhados na guerra de 1914. Nasci aqui, nascemos aqui. Sempre
convivemos com famílias que vinham em peregrinação”, recorda-se. Além de um estímulo à memória,
diz Mainsant, desenterrar o campo de batalha é uma forma de quebrar o silêncio que perdurou por
décadas na vida dos sobreviventes do conflito, a exemplo de seu avô, ao lado de quem trabalhou por
50 anos como agricultor sem jamais ouvir uma palavra sobre as batalhas. “Os que viveram à guerra de
1914”, diz ele, “não falavam do assunto porque tinham vivido coisas tão inacreditáveis que não
ousavam contar porque sabiam que não acreditaríamos.”

A REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA

O poder de fogo industrial mudou de vez os campos de batalha com seus aviões, canhões e
metralhadoras. Nos mares, o submarino pôs em risco os grandes encouraçados.

Roberto Godoy

A carruagem escura que circulava por Londres acompanhada por um pequeno comboio de três ou
quatro outras, quase sempre à noite, era um segredo aberto no fim do século 19. A cidade mais
importante do mundo sabia: a bordo, viajava a rainha Vitória. Ia quase sempre a igrejas anglicanas, ao
teatro ou a hospitais beneficentes. Também saía para cumprir funções de monarca. Vitória adotara
uma vida discreta desde a morte do marido, Albert, em 1861, e também depois da perda do filho Alfred,
em 1889. Todavia, a rainha era uma guerreira.

Avião inglês

O Sopwith Camel era um avião de caça britânico. Ele voava a 185 km/h e podia ser armado com duas
metralhadoras Vickers montadas em cima do painel de instrumentos

Interessada na história militar, acompanhou intensamente o conflito contra Zanzibar e a rebelião dos
Bôeres, na África do Sul. Naquele dia do outono de 1900, V itória estava sendo levada para conhecer
uma arma secreta.

O estaleiro Vickers, de Barron-in-Furness, no litoral norte do país, havia levado para um dique da
marinha real, no Tâmisa, o primeiro protótipo do que, muito tempo depois, viria a ser o Classe B.
Segundo o historiador naval irlandês J. H. Ryan, “a nave deveria provocar grande impressão: toda de
metal, tinha a proa esguia, uma torre pequena e suportes para um torpedo e uma mina de contato”.
Vitória tinha 90 anos. Ouviu a exposição dos engenheiros, andou ao redor do navio e sentenciou: “Que
honra pode haver em atacar sem que seu inimigo possa vê-lo e enfrentá-lo?”.

Ryan diz em seu livro, Victoria in War, ainda em elaboração, que os recursos para o projeto foram
reduzidos dramaticamente pelo governo. A rainha morreria no ano seguinte. O Classe B só viria a
navegar anos mais tarde, pouco antes do começo da Grande Guerra. Os alemães e seus submarinos
desenvolvidos ao longo de uma década devastariam os mares com as ações combinadas do pequeno
U-3 e do grande U-139.

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Fokker DR.I

Esse triplano desenvolvia até 185 km/h e levava duas metralhadoras. Tornou-se símbolo da aviação
alemã na guerra

Barão Vermelho

Piloto de caça alemão, Manfred von Richthofen abateu 80 pilotos inimigos durante a guerra e acabou
morto em 21 de abril de 1918.
Ele voava no triplano Fokker Dr.I

A visão mesclada das referências morais do romantismo, que terminava, e do início da era da
tecnologia como referência de desenvolvimento talvez tenha sido a peculiaridade militar da 1.ª Guerra
Mundial. A tropa britânica marchava para o combate vestindo grossas fardas de lã escocesa, camisa
de tricoline e usando gravata. Nos pés, as botinas de couro reforçado deixavam vazar para dentro os
pregos do solado depois de alguns dias de uso. Nas pernas, polainas de algodão.

Avião Aviatik

O caça aviatik tinha um motor Mercedes e foi aprimorado durante a guerra. Usado para
reconhecimento aéreo, ganhou duas metralhadoras para enfrentar os aviões inimigos

O soldado, todavia, poderia estar armado com um fuzil Lewis, de 7.7 mm. Desenhado nos Estados
Unidos, o Lewis foi provavelmente a primeira metralhadora leve da história. Atirava em rajadas usando
um carregador rotativo. Tinha poder de fogo inédito. Os mais modernos rifles de combate da época
eram semiautomáticos, acionados por ferrolho – um pequeno avanço em relação aos modelos de tiro
singular.

O conflito de 1914 a 1918 é o primeiro da história no qual a engenharia de armamentos e a tecnologia


militar tiveram emprego intensivo e extensivo. Se o advento do avião como vetor de ataque era
previsível desde os experimentos bem-sucedidos do brasileiro Santos Dumont – por meio da agilidade
de seu melhor projeto, o Demoiselle, de 1907, e dos dirigíveis usados como estação de observação –,
o advento do supercanhão francês Creusot, de 134 toneladas, deslocado sobre trilhos, surpreendeu:
as granadas de até 700 quilos que disparava atingiam os alvos a distâncias de 16 quilômetros com erro
estimado em apenas poucos metros.

Avião francês

O Spad era um caça francês que podia atingir a velocidade de 192 km/h. Carregava uma metralhadora
calibre .30

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A chegada do tanque mudou o campo de batalha. A proposta de um foco móvel de fogo pesado,
blindado, dotado de metralhadoras mais um ou dois canhões e capaz de avançar em terreno irregular
alterava doutrinas, consolidava a tese da guerra de movimento e, mais adiante, tornaria obsoleto o
conceito da cavalaria. O nome –tank, em inglês – aparecia pintado nas grandes caixas de madeira nos
quais eram embalados antes de serem transportados por trem, como se fossem grandes tanques de
armazenamento de líquidos.

O inventário da inovação técnica nos arsenais da Grande Guerra é imenso, diversificado, bem-
sucedido e supera os limites dos tópicos populares. O sincronizador entre a hélice dos primeiros aviões
de combate e as metralhadoras de bordo, cujos tiros deveriam passar entre as pás, fez do inventor, o
holandês Antony Fokker, um homem rico. Os pilotos dos aviões só se comunicavam com o pessoal de
terra por meio de bandeiras e luzes coloridas a curta distância. Especialistas americanos
desenvolveram um sistema de radiotelégrafos capaz de orientar todo o tráfego aéreo em um raio de
200 quilômetros – as primeiras torres de controle. Em 1913, pesquisadores das marinhas americana e
inglesa apresentaram um Vant – veículo aéreo não tripulado. Espécie tosca de drone, era lançado a
partir de uma rampa metálica e podia percorrer 90 km em uma só direção levemente ajustada por uma
bússola elétrica.

Na frente de batalha, a engenharia militar dedicou-se à construção de trincheiras que, além de algum
tipo de saneamento, servissem também à instalação de cabos para comunicações e redes de energia.
O benefício reduziu o índice de mortes por doenças decorrentes do ambiente insalubre das primeiras
valas e inaugurou a integração de serviços de campanha. A eficiência da luta noturna cresceu com
a munição traçadora que emite um pulso luminoso, indicando sua trajetória.

No oceano, imponência. O primeiro porta-aviões construído para servir de vetor de aeronaves


embarcadas, o britânico HMS Furious, entrou em ação em agosto de 1917. Num longo convés de voo
de respeitáveis 200 metros, abrigava 50 biplanos, armados com bombas de 50 quilos e um torpedo. As
frotas navais passaram a operar em novembro de 1916 dois sistemas decisivos: o hidrofone, que
aumentaria enormemente a capacidade da luta antissubmarina e, na mesma linha, as cargas de
profundidade – bombas subaquáticas detonadas por sensores que mediam uma combinação de
distância vertical e pressão da água.

Canhão 75 mm

Esse canhão francês foi tão importante que muitos creditam a ele o fato de a França não ter sido posta
fora de combate em 1914 pela Alemanha

Minenwerfer (morteiro)

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Os morteiros foram uma das armas mais comuns das trincheiras. Aqui, um modelo alemão de calibre
170 mm

Bertha

Canhão alemão que disparava projéteis de calibre 420 mm que atingiam alvos a até 12,5 quilômetros
de distância. Era fabricado pela Krupp

Tanque Renault RT17

Com seu canhão de calibre 37 mm, esse tanque leve francês foi o mais bem-sucedido modelo de
tanque utilizado na guerra, equipando franceses e americanos

Encouraçado

A era dos modernos encouraçados foi inaugurada pelo HMS Dreadnought.


Aqui o encouraçado Queen Elizabeth com seus oito canhões de 15 polegadas

Submarino U-139

Sua tripulação de 62 homens dispunha de 24 torpedos e dois canhões de superfície. Submerso viajava
a 7,6 nós (14 Km/h)

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NO FRONT DE YPRES, O MUNDO CONHECE A GUERRA QUÍMICA

Uso de gases mortais, como o mostarda, começou no fim da tarde de 22 de abril de 1915, nos campos
de guerra da Bélgica. Quase cem anos depois, vestígios ainda contaminam o solo e a água. Granadas
de projéteis químicos seguem sendo localizadas.

Andrei Netto
ENVIADO ESPECIAL
YPRES (BÉLGICA) E VERDUN (FRANÇA)

O front das tropas francesas da 45.ª e da 87.ª divisões em Langemark-Poelkapelle, na Bélgica, vivia
um intervalo sem combates por volta das 17 horas de 22 de abril de 1915. A tarde de sol primaveril e
temperaturas acima do normal da véspera havia dado lugar à de um céu cinzento, cortado por um
avião da força aérea francesa que fazia o trabalho mais importante: castigar com bombardeios as
posições da Alemanha na região. A grande questão do dia não era sobreviver, mas reorganizar as
trincheiras, caóticas, e prepará-las para a continuidade dos combates na “saliência de Ypres” – o
ponto mais feroz da ofensiva alemã em território belga.

A calma só foi quebrada por uma brisa que soprava de leste e por uma fumaça estranha, esverdeada,
opaca e espessa proveniente das trincheiras alemãs, que ia do solo a 10 metros de altura e se dirigia
às posições francesas. “A nuvem avançava em nossa direção, empurrada pelo vento. Começamos a
nos retirar, perseguidos pela fumaça”, relatou em seus registros militares o tenente Jules-Henri
Guntzberger. Nesse momento de pânico crescente, Guntzberger viu seus homens caírem um a um.
Alguns se levantavam, retomavam a marcha de recuo e caíam de novo, cada vez mais desesperados
para chegar à segunda linha de trincheiras.“Uma vez lá, os soldados desabavam e não paravam de
tossir e vomitar.”

A 2.ª Batalha de Ypres, de Richard Jack. Crédito: Reprodução.

O desespero e a incompreensão tomaram conta das hostes francesas. Às 17h20, na sede de comando
de Elverdinghe, o coronel Henri Mordacq recebeu um telefonema do front. O relato era assustador:
uma nuvem tóxica estava sufocando soldados e oficiais, que partiam em retirada, abandonando o front.
Correndo em direção à posição atingida, Mordacq cruzou com combatentes que se diziam
envenenados. “Por todo lado, havia pessoas fugindo, correndo como loucas, sem direção, gritando por
água, cuspindo sangue, alguns atirando-se ao chão e fazendo esforços desesperados para respirar”,
descreveu o coronel, em seus registros. Estima-se que 5 mil soldados franceses morreram sem que
nenhum disparo de arma de fogo tivesse sido feito, a maior parte asfixiados e afogados nas secreções
dos próprios brônquios. Outros 15 mil foram intoxicados, com diferentes graus de sequelas,
envenenados e sofrendo hemorragias internas e externas e destruição dos tecidos pulmonares. Eles
haviam sido as vítimas do primeiro ataque de grande amplitude de uma nova tecnologia criada para a
1.ª Guerra Mundial: as armas químicas.

Indignados com o ataque, França e Grã-Bretanha denunciaram a covardia da guerra empreendida


pelas forças armadas da Alemanha, que violava as convenções de Haia de 1899 e 1907 proibindo o
uso de gases asfixiantes ou tóxicos em artefatos bélicos. Berlim argumentou que a França fora o
primeiro país a usar armas químicas – granadas de lacrimogêneo, empregadas desde agosto de 1914
– e justificou a decisão de continuar a utilizá-las alegando que os textos da convenção se referiam a
armas e explosivos, mas não a contêineres com gases, como os usados em Ypres. O resultado foi o
pior possível: os diferentes lados em conflito imaginaram poder derrotar assim o inimigo entrincheirado,
tirando a guerra que já se estendia por nove meses do impasse.

A partir de então, os exércitos em luta se lançaram a uma corrida às armas de destruição em massa,
com o objetivo de aumentar o poder devastador dos gases – o que o químico francês Victor Grignard,
prêmio Nobel de Química de 1912, conseguiu ainda em 1915, com a introdução do fosgênio, mais letal,
incolor e mais difícil de detectar. Um total de 36,6 mil toneladas do produto foi empregado na guerra, a
metade por alemães.

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Bunker na região de Ypres. Crédito: Mastrangelo Reino.

Aos poucos, o arsenal químico se banalizou. Desprotegidos contra os gases, 56 mil russos morreram
em ataques alemães no front leste do conflito. Mas as tropas da Entente (aliança militar entre França,
Rússia e Inglaterra) também não se furtaram a usá-las, em especial as francesas, mas também
americanos e britânicos, que em setembro do mesmo ano foram vítimas de seu próprio estoque de
cloro na batalha de Loos.

Com a consciência do risco, tentou-se proteger os soldados. Uma das estratégias iniciais era urinar
sobre lenços, usados sobre as vias respiratórias, enquanto na retaguarda iniciava-se a confecção
das primeiras máscaras antigás, rudimentares. O resultado está registrado em algumas das mais
assustadoras imagens da Grande Guerra: a de combatentes cobertos com máscaras de pano, cujas
formas terrificantes se tornaram um dos símbolos da loucura destrutiva na Europa no início do século
20.

Meses depois do ataque de Ypres, no final de 1915, os exércitos de Alemanha, França e Reino Unido
distribuíram máscaras mais eficazes a seus combatentes: a Gummimaske, a M2 e a Large box
respirator representaram um avanço importante na proteção dos soldados. Graças a elas, o impacto
das mortes causadas pelas armas químicas foi marginal em meio ao cataclismo da 1.ª Guerra Mundial.
Dados do estado-maior do Reino Unido indicam que, após a tomada de medidas de redução do
impacto do gás, apenas 3% dos soldados atingidos morriam, outros 2% se tornavam inválidos e a
maioria, em torno de 70%, tinha condições de retornar aos combates em até seis semanas.

Mas o impacto psicológico das armas de destruição em massa foi destruidor entre militares e também
entre civis. Anos depois do fim da guerra, pais de família que haviam sobrevivido aos conflitos
padeciam de sequelas, que encurtavam suas vidas, às vezes por casos severos de asma, em outros
por incidência de câncer de esôfago.

Ainda hoje a lembrança desses soldados mortos, imortalizados no quadro Gassed, do pintor americano
John Singer Sargent, em 1918, é reverenciada por seus familiares, como uma forma de tributo por seu
sacrifício. “Meu bisavô morreu quatro anos depois de ter sido intoxicado pelo gás”, conta Charles Saint
Vanne, prefeito de Ornes, uma das cidades que desapareceram após o conflito, mas que seguem
existindo em termos legais. “Os alemães haviam utilizado gás em um dos combates e ele foi uma
vítima tardia, sofrendo de sequelas anos após a guerra. Zelar pela memória do conflito e de pessoas
como ele é um dever de memória que tenho em relação aos meus ancestrais.”

Terras agrícolas também foram inutilizadas por substâncias usadas na guerra química. Em Verdun, na
França, em meio à floresta plantada sobre os campos de batalha, há zonas de acesso proibido em
que a vegetação não cresce, porque o solo ainda está contaminado. O local foi apelidado pela guarda
florestal de “Praça do Gás”. Ali, após o armistício, 200 mil granadas de obus não detonadas no conflito
foram inutilizadas. Em 2004, um estudo da Universidade Johannes-Gutenberg, de Mainz, da
Alemanha, e do Escritório Nacional de Florestas, da França, indicou a presença intensiva de metais
pesados como cobre, chumbo e zinco, que se somam a arsênico e perclorato de amônia, dois
componentes dos sistemas de detonação das granadas. A concentração varia de mil a 10 mil vezes a
do meio ambiente e só três vegetais resistentes conseguem sobreviver – o que explica a ausência de
árvores no entorno, fechado ao público desde 2012.

O quadro Gassed. Crédito: Reprodução.

Segundo organizações ambientalistas europeias, a Praça do Gás da França é apenas um dos múltiplos
sítios de terras e lençóis freáticos contaminados por armas químicas na Europa. Há dois anos,

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

populações de 500 cidades e vilarejos do norte da França foram advertidas a não consumir água em
razão da elevada presença de perclorato de amônia. Os locais correspondiam a fronts da 1.ª Guerra
Mundial.

Consciente do problema, desde o final da guerra, em 1918, o governo francês proibiu o cultivo em
regiões que foram contaminadas, criando as “zonas vermelhas”. Nelas, estão os trechos com maior
probabilidade de presença de granadas que jamais explodiram na guerra – cerca de 15% do total – e
ainda não foram encontradas. Desse universo, 2% correspondem a armas químicas que continuam
expostas à natureza, em especial gás mostarda, fosgênio e difosgênio. Um campo militar na cidade de
Suippes, em Marne, na França, serve de depósito para 200 toneladas de granadas que ainda precisam
ser destruídas, em uma usina que entrará em operação em 2016.

Graças à mobilização internacional, em 1925 foi assinado o Protocolo de Genebra, proibindo a


utilização de gás em artefatos bélicos, assim como a produção e a estocagem de armas químicas –
ameaça que no entanto ainda não acabou.

Ypres, cidade devastada pelos combates, tornou-se um dos pontos de memória mais importantes
sobre o horror da destruição em massa. Prova disso foram as cerimônias realizadas na cidade em 26
de junho pelos 28 chefes de Estado e de governo da União Europeia, reunidos em cúpula na cidade. “A
principal mensagem que fica dessa guerra”, diz o historiador Dominiek Dendooven, pesquisador do
Flanders Fields Museum, o maior da cidade,“é a importância das decisões tomadas pelos dirigentes
europeus em 1914, o sentido de responsabilidade política que deveria ter prevalecido e teria permitido
evitar essa guerra”.

NAS CIDADES-MÁRTIRES, UM CONFLITO SEM FIM

Ypres, Verdun e Reims ressurgem das cinzas, que ainda marcam a vida de seus habitantes.
Douaumont, Louvement, Craonne e Vauquois não tiveram a mesma sorte: são os vilarejos fantasmas
da 1.ª Guerra Mundial.

Andrei Netto
ENVIADO ESPECIAL
YPRES (BÉLGICA) E VERDUN E REIMS (FRANÇA)

Todos os dias, às 20h, não importa o que aconteça, soldados do corpo de bombeiros de Ypres, na
Bélgica, fecham a Avenida Frenchlann no trecho sob o Memorial de Mennenpoort, a Porte de Menin.
Então os sinos soam: trata-se do “Last Post”, momento no qual os 35 mil habitantes da cidade,
queiram ou não, recordam-se dos 54.896 soldados da Grã-Bretanha e de outros países da comunidade
de nações britânicas mortos em batalha. Seus nomes estão gravados ali, assim como uma
homenagem aos 34.984 outros cujas identidades jamais foram conhecidas.

Eles representam as centenas de milhares de combatentes que tombaram nos campos da região de
Flandres na tentativa de conter o avanço das tropas da Alemanha no front oeste e a ameaça de
ocupação da França na 1.ª Guerra Mundial. A cerimônia é repetida desde 2 de julho de 1928 e só foi
interrompida pelo domínio da Alemanha nazista durante a 2.ª Guerra Mundial, voltando a ser realizada
na noite da liberação da cidade por tropas da Polônia.

A atmosfera à noite pode ser pesada na cidade, mas essa foi a homenagem decidida por seus
moradores no momento em que seus sobreviventes optaram por reconstruí-la das cinzas. Como Reims
e Verdun, na França, e Przemysl, na Polônia, Ypres é uma das centenas de cidades-mártires da 1.ª
Guerra Mundial na Europa. Ao longo do conflito, pequenos e grandes centros urbanos europeus foram
riscados do mapa, mas não da memória. Alguns foram reconstruídos e hoje são prova da tenacidade
de seus povos em apagar os traços da guerra.

Esse é o caso de Ypres. Quando projetou o monumento, o arquiteto britânico Reginald Blomfield
escolheu uma das portas pelas quais os soldados que defendiam a cidade partiam para o front de
Menin, onde enfrentavam as tropas alemãs. Como as demais portas, o local foi muito castigado pelos
bombardeios inimigos. Mas toda a cidade sofreu: em apenas três semanas na 2.ª Batalha de Ypres, em
1917, mais de 4 milhões de obuses foram lançados na região – o suficiente para arrasar as paisagens
urbana e rural de Flandres.

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

“Britânicos como Winston Churchill, por exemplo, queriam que as ruínas fossem mantidas como
estavam, como um memorial para a história da 1.ª Guerra Mundial. Mas as pessoas que viviam aqui
queriam retomar suas vidas. Então houve uma grande decisão a ser tomada”, explica o historiador
Pieter Trogh, pesquisador do Museu de Flanders Fields, de Ypres. “Decidiram reconstruir da mesma
exata forma que a cidade tinha antes da guerra. O que você vê hoje é de alguma forma um símbolo
maior de ressurreição. Duas guerras mundiais afetaram a região, mas eles quiseram dizer: você pode
destruir nossa cidade, ou você quis destruí-la, mas isso não será o fim. Nós vamos retomar nossas
vidas e transformá-las em um símbolo contra a guerra.”

O prédio da prefeitura de Reims, que foi destruído durante a guerra. Crédito: Mastrangelo
Reino/Estadão.

Em Ypres, a decisão da primeira geração de habitantes pós-conflito foi de esquecê-lo, ou ao menos


superá-lo, como em Reims, na França. Hoje, a capital da região da Champagne tem 180 mil habitantes
e uma vida acadêmica, cultural e econômica pujante. Mas não foi sempre assim no século 20. Dominar
a cidade fora um dos objetivos do exército alemão na busca da conquista de Paris. Foram 1.051 dias
de bombardeios sem que as tropas inimigas tenham colocado os pés no perímetro urbano, como
acontecera em Lille. O custo patrimonial da defesa de Reims, entretanto, foi colossal. O símbolo da
destruição, na memória dos habitantes, é a catedral da cidade, onde antigamente eram coroados os
reis da França. Hoje, a própria igreja é símbolo da reconstrução de uma cidade pulsante.

“Quando a Grande Guerra acabou, em novembro de 1918, das 14 mil casas da Reims pré-guerra, não
havia mais de 60 habitáveis. A catedral estava gravemente deteriorada”, lembrou em conferência o
historiador Jean-Jacques Becker, presidente e decano do Centro de Pesquisa Histórica da Grande
Guerra, de Perrone, na França. “Reims foi um caso singular. Foi a única cidade da França com mais de
100 mil habitantes – 113 mil no último censo antes da guerra – destruída dessa forma pela guerra.”

Já em Verdun, outra das cidades-mártires da Europa, epicentro da guerra entre 21 de fevereiro e 9 de


dezembro de 1916, a reconstrução não foi a prioridade, mas sim a memória. Nos campos de batalha
da região, nada menos do que 714.231 pessoas morreram – dos quais 362 mil franceses e 337 mil
alemães –, em um saldo trágico de 70 mil mortos por mês de combate. Pela região, passaram nada
menos do que 70% dos poilus, os soldados da França, o que tornou a batalha um verdadeiro emblema
da resistência ao inimigo. Além disso, fez com que todo o país tivesse a noção precisa da tragédia em
curso nos vilarejos da região, varridos do mapa pela força destruidora da artilharia.

O Forte de Douaumont. Crédito: Mastrangelo Reino/ Estadão.

Foram os casos de Douaumont e Louvement, vilarejos rurais situados no que ficou conhecido como os
campos de batalha de Verdun. Para lembrar suas vítimas, o governo da França considera-os desde
outubro de 1919 como existentes, mas com zero habitante. São os vilarejos-fantasmas da guerra, ou
as “cidades mortas pela França”.

Situado nas imediações do Forte de Douaumont, ponto estratégico pelo qual dezenas de milhares de
soldados perderam a vida, Douaumont, próximo da fronteira com a Alemanha, hoje é um campo verde
com uma sucessão infinita de crateras abertas pela chuva de obuses. Sobre a vegetação, restam
ruínas de construções e pequenos marcos que indicam onde existiam casas e viviam seus moradores,
pessoas simples como Jean-Baptiste Dupuis, Onésime Paquin ou Jules Hildebrand, pedreiros, ou
Jean-Nicolas Dabit, fabricante de sabão.

A poucos quilômetros de distância, Louvement tem ainda mais restos de sua vida de 100 anos atrás.
Entre o mar de crateras, há trechos de paredes inteiras desabadas durante as explosões, cacos de

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telhas, resquícios de fundações e encanamentos abertos. Sobre os entulhos, a natureza se reconstitui,


cobrindo o cimento e a pedra com limo. No lugar de todos esses vilarejos-fantasmas, balançam hoje
árvores de 20, 25 metros de altura. Elas foram plantadas pelo Escritório Nacional de Florestas (ONF)
em 13,4 mil hectares de terras onde um dia viveram 6.953 proprietários e suas famílias, evacuadas
durante a passagem do furacão de chumbo da Grande Guerra.

A terra de ninguém diante de Craonne e o Planalto Califórnia que a domina. Crédito:Acervo Estado.

Embora sejam mais frequentes nos campos de Verdun, vilarejos-fantasmas se espalham por grande
parte do Norte e Nordeste da França. Suas existências estão indicadas por placas ou pequenos
monumentos, como o obelisco que indica “Aqui existiu Ailles”, única reminiscência do vilarejo
desaparecido entre 1914 e 1918. Charles Saint Vanne é prefeito de uma dessas vilas extintas, a de
Ornes. “Nosso vilarejo foi inteiramente destruído durante a guerra, em 1916, no mês de fevereiro”,
conta. “Os habitantes foram evacuados, obedecendo à ordem de abandonar o local. Quatro casas
foram reconstruídas após a guerra, mas o que resta em geral são as ruínas.”

Outros poucos vilarejos tiveram a chance de reviver. É o caso de Vauquois, em Verdun, destruído por
se localizar em um morro, excelente ponto de observação militar na época, ou ainda de Craonne, no
Chemin des Dames (Ouça a Chanson de Craonne), dizimada por ter tido o azar de existir em frente
ao Planalto de Califórnia, justo entre as trincheiras alemãs e francesas. Ambas voltaram à vida,
reconstruídas a algumas dezenas de metros das vilas originais, mas vivem sob a perpétua memória da
devastação provocada pela guerra. “Nos espíritos das pessoas daqui”, explica Virginie Keiser, diretora
da Citadela de Verdun, “de alguma forma a guerra ainda está acontecendo”.

A GUERRA DE VERSÕES CONTINUA

Os Sonâmbulos, livro lançado pelo historiador australiano Christopher Clark, relança o debate sobre as
responsabilidades pelo início da 1.ª Guerra Mundial. Para ele, a Sérvia e sua ambição nacionalista
estão no centro da explicação – e não a Alemanha

Andrei Netto
ENVIADO ESPECIAL
CORRESPONDENTE/PARIS

Às 10h43 de 31 de julho de 1914, o embaixador da França em São Petersburgo, Maurice Paléologue,


enviou um telegrama ao Conselho de Ministros da França. Em um texto seco e sucinto, o diplomata
informou que o imperador da Rússia, Nicolau II, havia ordenado a mobilização das tropas de seu país,
em resposta à declaração de guerra da Áustria-Hungria à Sérvia, sua aliada, três dias antes. “A Rússia
mobilizou suas tropas”, escreveu.

Por razões desconhecidas, a correspondência só chegaria ao Conselho de Ministros em Paris quase


dez horas mais tarde, após outro despacho, dessa vez vindo de Viena, que informava sobre a
mobilização das tropas da Áustria-Hungria contra a Rússia – uma reação ao primeiro ato hostil de São
Petersburgo. Ao tomar conhecimento da iniciativa bélica dos austríacos, o governo francês não hesitou
em afirmar em sua propaganda: a mobilização do exército da Áustria-Hungria comprovava a
responsabilidade do país pelo início da guerra contra a Rússia e, por extensão, contra seus aliados do
Ocidente.

A verdade, no entanto, era a inversa. A troca de telegramas, a ordem em que foram divulgados em
Paris e o fato de que o texto foi falsificado a seguir – com o acréscimo da frase “A Rússia mobilizou
suas tropas em decorrência de informações sobre as mobilizações austríaca e alemã” – são um dos
tantos vestígios documentais do esforço de cada um dos países envolvidos em manipular a verdade e
culpar o outro pelo início da 1.ª Guerra Mundial, mesmo antes de os combates eclodirem. Essa
obsessão pela responsabilidade da guerra, decisiva nas negociações de paz e na redação do Tratado
de Versalhes, em 1919, é ainda hoje uma veia aberta na Europa. Cem anos mais tarde, historiadores
continuam a debater: afinal, de quem é a culpa pela tragédia?

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A controvérsia no mundo acadêmico em torno do artigo 231 do Tratado de Versalhes, que


responsabilizava a Alemanha, já alimentou mais de 25 mil livros e artigos, mas jamais foi de fato
encerrada nesses 100 anos. Mais grave: por muito tempo, ela envenenou as relações internacionais,
em especial na Europa. Em 2013, essa ferida aberta ganhou uma nova interpretação pela publicação
do livro Os Sonâmbulos – Verão 1914: Como a Europa marchou para a guerra (The Sleepwalkers), de
autoria do historiador australiano radicado na Grã-Bretanha Christopher Clark, professor da
Universidade de Cambridge. Para o especialista em Prússia e Alemanha, a culpa do conflito foi, antes
de mais nada, de “sonâmbulos” – uma metáfora para os líderes políticos e diplomatas incapazes de
parar as engrenagens de uma guerra que se anunciava sanguinária desde o início do século.

A polêmica reaberta por Christopher Clark, entretanto, não está na responsabilização do mundo
político, quase um consenso entre historiadores, mas no fato de que sua obra recoloca a Sérvia, a
instabilidade dos Bálcãs e o atentado de Sarajevo de 28 de junho de 1914 no epicentro dos
acontecimentos. Ao longo do século que passou, acadêmicos que se debruçaram sobre a questão
viram no atentado em si, cometido pelo jovem nacionalista sérvio Gavrilo Princip contra o arquiduque
Francisco Ferdinando, apenas um fraco pretexto na decisão da Áustria-Hungria de declarar a guerra e
esmagar as ambições regionais da Sérvia.

Baseado em um trabalho de pesquisa em fontes primárias em arquivos de Paris, Londres, Viena,


Berlim, Moscou, Belgrado e Haia, Clark chega à conclusão de que o fanatismo nacionalista sérvio,
somado à ofensiva de potências europeias, como a Itália, contra territórios sob domínio do Império
Otomano, tiveram papel crucial na eclosão do conflito. Por extensão, ao apontar o dedo sobre a Sérvia,
o historiador lança luzes sobre o papel dos aliados desse país, Rússia e França à frente, minimizando
a importância das ambições imperialistas da Áustria-Hungria e da Alemanha.“Clark reverte essa
perspectiva e diz: 'A Sérvia organiza uma política de potência, sai vitoriosa das guerras balcânicas de
1912 e 1913 e tem um projeto político de reunificar todos os eslavos do sul, que existem entre os
austro-húngaros'", explica o historiador francês Joseph Zimet, diretor da Missão do Centenário da 1.ª
Guerra Mundial. “O grande problema é que a Bósnia-Herzegovina, povoada de 55% de sérvios, é
anexada pela Áustria-Hungria. Christopher Clark afirma que foi a Sérvia queprovocou a 1.ª Guerra
Mundial. (Para uma visão diferente sobre as causas da guerra, leia e ouça ao lado a entrevista para o
'Estado' do historiador inglês Max Hastings, autor de Catástrofe: 1914 - A Europa vai à guerra).

"Os alemães foram os responsáveis", diz Max Hastings em entrevista

Por que, passados 100 anos, ainda se fala tanto da 1.ª Guerra Mundial? O que fez dela algo tão
importante?

No passado, em especial na Europa e nos Estados Unidos, vimos muito mais interesse na 2.ª Guerra
do que na 1.ª. O povo britânico sempre teve uma ideia de que essas duas guerras pertenciam a duas
diferentes ordens de moral. A 2.ª tinha sido uma guerra “boa”, porque combatemos Hitler. A 1.ª tinha
sido “má”, primeiro porque morreram muito mais ingleses do que na seguinte. E também porque as
pessoas achavam muito mais difícil de entender por que motivo, afinal, estávamos lutando. Isso é meio
enganador, pois, afinal, (na 1.ª) ninguém viu do lado alemão nenhum demônio comparável ao
holocausto – e consideremos que as pessoas só chegaram a entender o holocausto depois de 1945. E
desde 1945 foi por causa do holocausto que ninguém no mundo se atrevia a sugerir que fosse errado
combater Hitler – ele era percebido como o demônio.

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Mas havia muitas outras situações em jogo.

Acredito, como expliquei no meu livro sobre a 1.ª Guerra, Catástrofe: 1914 - A Europa vai à guerra, que
a nossa visão é por demais simplista. Deveríamos reconhecer que foi tão necessário lutar contra a
Alemanha em 1914 como foi necessário em 1939. Não estou, com isso, sugerindo que o kaiser
Guilherme II e a Alemanha fossem demoníacos, comparados aos nazistas, mas porque a Alemanha
estava a caminho de dominar a Europa. A Grã-Bretanha e a França defendiam a liberdade e a
democracia e, portanto, era necessário enfrentá-la. E a maioria dos historiadores que eu respeito
acredita que, se a Alemanha tivesse vencido a 1.ª Guerra, e se, portanto, coubesse ao kaiser
Guilherme ditar a paz em Versalhes, então quaisquer que tenham sido os erros daquele tratado em
1919, os alemães teriam imposto um tratado muito pior, bem mais brutal. E que traria terríveis
consequências à Europa. Há outra coisa a destacar: não discordo de ninguém quanto ao meu enorme
respeito pela Alemanha de hoje. Essa Alemanha moderna é uma grande democracia, sem inclinações
militaristas. Mas acho que precisamos reconhecer que ainda temos o mesmo problema – da Europa,
em relação à Alemanha – que tínhamos em 1871 (quando da Guerra Franco-Prussiana).

E que problema é esse?

É descobrir como o resto da Europa poderá conviver com um Estado que é incomparavelmente mais
forte e eficaz que todos os demais, sem que o resto do continente se torne parte de um império
germânico. Embora o problema seja, em nossos dias, expresso de uma forma diferente, é ainda um
gigantesco desafio para a Europa moderna. Não estou acusando os alemães de nada nem sugerindo
que eles estejam se comportando de maneira errada – não estão. Mas é um grave problema que a
Alemanha seja mais forte que todo mundo no continente. É difícil para todo mundo conviver com essa
realidade.

Nenhum outro momento da 1.ª Guerra se compara a seu início, em que cruentas batalhas foram
travadas em larga escala. Como explicar esse começo assim tão fulminante e tão diferente de outras
guerras?

É que a maior parte da guerra, do Natal de 1914 em diante, afundou no impasse. Os exércitos, no front
ocidental, praticamente não se moviam, um lado olhava o outro na trincheira logo ali adiante, ambos
separados por um mar de lama. Mas antes disso, ainda em 1914, tinha sido completamente diferente,
com vastos movimentos de campanha, grandes companhias avançando centenas de quilômetros. O
exército francês, em especial, mergulhou nos combates parecendo as tropas de Napoleão, travando
batalhas ainda napoleônicas... Não eram batalhas do século 20. E a possibilidade de a guerra de 1914
ser ganha rapidamente... logicamente, isso só poderia ocorrer se um dos lados entrasse em colapso. A
França entrou em colapso em 1945, mas não em 1914. Enfim, havia essa crença de que um lado ou
outro poderia chegar à vitória rapidamente. Quem sabe isso poderia ter ocorrido, refiro-me a um
possível colapso francês, se a Grã-Bretanha não tivesse entrado na guerra.

Ao analisar a guerra o senhor tem dado muita importância, no entanto, a fatores não militares.

Essa é outra lição, que me parece uma incrível ironia de 1914: é que eles (alemães) não entenderam,
na época, que os fatores econômicos são uma força mais poderosa em assuntos mundiais do que
soldados – digo em termos gerais. Essa é a maior das ironias, a meu ver: se a Alemanha não tivesse
ido à guerra, nada poderia impedi-la de dominar inteiramente a Europa em questão de mais 20 anos,
por meios inteiramente pacíficos, econômicos e industriais. Tudo porque a Alemanha daquele período
e os generais do kaiser só contavam a força em número de soldados. Não foram capazes de entender
o triunfo que a Alemanha estava conquistando por métodos absolutamente pacíficos.

Como analisa a entrada dos Estados Unidos na guerra? Eles alteraram o equilíbrio de forças,
apressaram o final dos combates e levaram ao Tratado de Versalhes – que abriu caminho para a 2.ª
Guerra.

A contribuição americana não foi tão importante militarmente, mas econômica e moralmente. Poderiam
ter tido importância militar, e muita, se a guerra se prolongasse. O que pesou de fato foi o dinheiro
americano. De 1915 em diante, os aliados foram financiados em larga escala. Sem os créditos de
Washington, é difícil imaginar como França e Inglaterra levariam as coisas adiante em 1915.

(...) Os americanos cometeram um enorme erro em 1918. Foi insistir, como defendeu (o presidente)
Woodrow Wilson, que a Alemanha deveria assinar um armistício, em vez de uma rendição

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

incondicional. Com isso, deram o pretexto para que, mais tarde, os alemães dissessem que nunca
foram derrotados, que não tinham perdido a guerra, que o que houve foi uma traição dos políticos em
Berlim, que enfim eles traíram a Alemanha ao parar de lutar. É um argumento que me parece
procedente, o de que foi um equívoco permitir aos alemães a ilusão de que não tinham sido
derrotados.

Foi um final bem diferente do que em 1945.

Sim, e é interessante observar esse contraste. Lembro aqui um ótimo jornalista australiano, Alan
Moorehead, que escreveu em 1945: “Não encontrei na Alemanha de 1945 nenhum sentimento de
culpa, mas uma tremenda consciência da derrota”. Foi muito diferente de 1918. Nesse ano, a
Alemanha não chegou a ser ocupada pelos aliados. E não havia nenhum grande senso de derrota,
mas sim de traição. E você só vai adiante, com os alemães, se eles tivessem entendido que foram
batidos. Era (em 1918) uma Alemanha praticamente intocada e, do outro lado, uma França devastada.
Daí muitos alemães, naquele momento, não entenderem que tinham perdido.

O historiador Michael Howard lhe disse, numa entrevista, que a guerra entre Alemanha e Grã-Bretanha
seria inevitável, independentemente de os britânicos entrarem ou não na guerra na Europa. O que isso
significa?

Há duas grandes polêmicas sobre 1914. A primeira é sobre quem recai a responsabilidade pela guerra
no continente europeu, tema a respeito do qual os historiadores discutem intensamente, ainda hoje. Eu
acredito, pessoalmente, que a responsabilidade maior é dos alemães, por motivos que já expliquei no
meu livro Catástrofe – 1914: A Europa vai à guerra. A Alemanha, a meu ver, era a única força que
poderia parar as coisas, simplesmente dizendo à Áustria, em julho de 1914, que suspendesse a
invasão da Sérvia. Se Berlim tivesse mandado um telegrama a Viena dizendo “Pare”, não teria havido
guerra. Não quero dizer que não houvesse um conflito continental, mas não seria aquele iniciado em
julho de 1914.

Essa é a famosa teoria do “cheque em branco”, a garantia de que a Áustria podia resolver os
problemas com os sérvios, que a Alemanha seguraria os russos.

Sim. Mas muitos historiadores destacam um segundo debate, sobre se os britânicos deveriam ou não
entrar no conflito. Bem, há um ou dois historiadores na Grã-Bretanha, Niall Ferguson e John Charmley,
praticamente esses dois, que entendem que os britânicos deveriam manter-se neutros. Todos os
historiadores que eu respeito – Michael Howard, Margaret MacMillan, Hew Strachan – argumentam
que, numa guerra continental sem a Grã-Bretanha, a Alemanha venceria. E, em seguida, seria loucura
imaginar que os alemães ficariam quietinhos em seu mundinho europeu, vendo a Grã-Bretanha
controlando o mundo financeiro, as rotas marítimas mundiais, o seu imenso império em outros
continentes. Seria preciso ter uma visão notavelmente generosa das intenções dos alemães para
sustentar que deveríamos ter permanecido neutros.

Explicar a 1.ª Guerra Mundial vem sendo uma tarefa hercúlea de historiadores ao longo de décadas.
Mas esse esforço resultou em alguns consensos: o início do século 20 era um tempo de corrida
armamentista e militarismo exacerbado, de nacionalismos, imperialismos, disputas territoriais e jogos
perigosos de alianças e inimizades internacionais entre novas e velhas potências econômicas e
industriais. Guerras eram vistas não como tragédias a serem evitadas a todo custo, mas como um
instrumento político legítimo de coerção a ser empregado sempre que necessário para reordenar o
equilíbrio de poder no continente. Esse cenário geopolítico tenso aproximava algumas e opunha outras
superpotências da época – França, Alemanha, Áustria-Hungria, Itália, Grã-Bretanha e Rússia. Em uma
era marcada pelo colonialismo, o jogo de forças não se limitava à Europa, mas se estendia às colônias
e aos protetorados espalhados pela África, pelo Oriente Médio e pela Ásia. Daí à guerra mundial
bastou uma fagulha.

Nesse cenário, os movimentos nacionalistas da Sérvia exerceram de fato um papel desestabilizador,


como admitiram as obras do jornalista Luige Albertini e de historiadores como Pierre Renouvin, Fritz
Fischer, Annika Monbauer, John Röhl, Stefan Schimidt, Jean-Jacques Becker, Gerd Krumeich ou Jay
Winter, especialistas em 1.ª Guerra Mundial. Desse movimento extremista, participavam grupos como
Mão Negra – apoiador do Jovem Bósnia, ao qual Princip pertencia –, alguns dos quais com forte
presença no interior do Estado sérvio. Para a historiadora bósnia Vera Katz, pesquisadora do Instituto
de História da Universidade de Sarajevo, o atentado não passou de uma gota d’água.“As grandes

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potências, como Grã-Bretanha, Alemanha, Rússia, França, estavam preparadas para a guerra. Havia
tantas crises no mundo, como no Marrocos, no Japão e na Rússia, questões sobre o Império Otomano,
conflitos entre Rússia e otomanos… Creio que foi apenas uma faísca para o começo.”

Prova de que a região dos Bálcãs – um cruzamento entre ortodoxos, católicos e muçulmanos e entre o
Ocidente e o Oriente em plena Europa – era um barril de pólvora haviam sido a crise na Bósnia de
1908 e as guerras balcânicas entre Sérvia, Grécia, Montenegro e Bulgária contra o Império Otomano,
em 1912, e entre a Bulgária e seus ex-aliados, em 1913. Ao final desses conflitos, escreve Clark, o
equilíbrio geopolítico da região estava alterado, mas a Rússia desprezou as preocupações da Áustria-
Hungria com a situação na península. “Para a Áustria-Hungria, as guerras dos Bálcãs modificam
radicalmente a situação. Sobretudo revelam que Viena está isolada e as chancelarias estrangeiras não
compreendem nada da interpretação que os austríacos fazem dos eventos.”

Segundo Clark, a aliança entre Rússia e França se aprofundou também em torno dos Bálcãs em 1912,
pelas mãos do então chefe de governo francês Raymond Poincaré, que se solidarizou com o imperador
russo Nicolau II ao afirmar que “toda conquista territorial efetuada pela Áustria-Hungria romperia o
equilíbrio europeu e afetaria interesses vitais da França”. O aumento da sinergia militar entre russos e
franceses ajuda a explicar por que em 37 dias a Europa partiu de um assassinato político de
importância limitada – o de Francisco Ferdinando – a uma guerra generalizada que tomaria conta do
continente.

O problema da obra de Clark, segundo seus críticos, é sobrevalorizar a importância da Sérvia e do


atentado e minimizar a determinação da Alemanha para que a guerra acontecesse. Essa
“determinação” se tornou uma convicção da maior parte dos especialistas no assunto em 1961, quando
o historiador alemão Fritz Fischer lançou Os Objetivos de Guerra da Alemanha Imperial 1914-1918,
livro em que diz haver uma filiação direta entre a guerra franco-prussiana em 1870, a 1.ª Guerra
Mundial e a 2.ª Guerra Mundial, causada por uma elite industrial conservadora da Prússia com militares
e meios políticos, todos com o intuito de afirmar a superpotência alemã contra seus adversários na
Europa e empreender uma política imperialista agressiva na Europa do Leste, na África e no Oriente
Médio.

O argumento das Teses de Fischer se baseou em documentos de Defesa e diplomacia da Alemanha


que mostram a existência de planos de guerra, como o Plano Schlieffen, existente desde 1905, o
Conselho de Guerra de 1912, quando se cogitou o início das hostilidades por medo do rearmamento da
Rússia, ou ainda o Programa de Setembro, de 1914, no qual o governo do chanceler Theobald von
Bethemann Hollweg fez projetos de anexação e de domínio de territórios da Europa e da África – a
Mitteleuropa e a Mittelafrika –, atendendo às reivindicações dos diferentes grupos de interesse da
sociedade alemã.“Fischer comete a meu ver um grave erro: ele estabelece essa espécie de fio que iria
de Bismarck a Hitler, com Guilherme II no meio. Seria um fio lógico que levaria a Hitler. Ao afirmar isso,
Fischer diz algo que eu considero completamente falso” diz o historiador Frédéric Manfrin, diretor de
História da Biblioteca Nacional da França (BnF) e comissário da exposição Été 1914, em cartaz em
Paris.“Já Clark tem um gosto claro pela Prússia, sobre a qual ele fez seus estudos. Ele vai longe
demais na tese da inocência alemã e o papel que dá à Sérvia é bem discutível.”

A opinião de Manfrin reverbera a de outro historiador, o alemão Gerd Krumeich, professor emérito da
Universidade Henrich-Heine, de Düsseldorf, autor de um livro em que reflete sobre as
responsabilidades da guerra, Fogo na pólvora – Quem detonou a guerra de 1914?. Krumeich relembra
uma das teses do historiador francês Pierre Renouvin, de 1932, segundo o qual não há
“responsabilidade unilateral” pela guerra, mas reafirmou, em recente entrevista ao jornal Le Monde:

Os dois campos encheram pouco a pouco o barril de pólvora durante os anos precedentes, mas é
incontestável que foram os alemães que colocaram o fogo”.

Em meio à polêmica centenária, uma constatação de Clark parece bem aceita por todos: “Não há arma
do crime nessa história, ou na verdade há uma para cada personagem principal”, escreve ele. “Visto
por esse ângulo, a detonação da guerra não foi um crime, mas uma tragédia.”

BRASILEIROS NA GUERRA

Quando o governo declarou guerra à Alemanha, em 26 de outubro de 1917, brasileiros já lutavam e


morriam nos fronts da Europa. Barbárie do conflito marcou declínio da influência cultural e política do
Velho Mundo sobre a América Latina, diz pesquisador

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Andrei Netto
ENVIADO ESPECIAL
PARIS E VINCENNES (FRANÇA)

"Em 20 de agosto de 1917, combateu com coragem admirável e tomou sozinho uma trincheira,
obrigando dez inimigos a entregar as armas. Ferido por três estilhaços de obus, recusou-se
formalmente a ser evacuado", registram documentos da Legião Estrangeira da França a respeito do
tenente Gustave Gelas. Os relatórios continuam: "Suboficial de elite, voluntário alistado para a Grande
Guerra. De uma bravura à beira da temeridade, distinguiu-se em cada caso no qual participou por sua
coragem e suas realizações." Gelas seria um entre milhões de bravos soldados da 1.ª Guerra Mundial
se não tivesse recebido a medalha da Legião de Honra, que distingue os méritos civis e militares
eminentes na França. Ele também seria só mais um entre os agraciados pela distinção não fosse uma
particularidade: o bravo soldado Gelas era brasileiro.

Em 26 de outubro de 1917, o então presidente do Brasil, Venceslau Brás, assinou o decreto de


declaração de guerra à Tríplice Aliança, em uma cerimônia ao lado do ex-presidente Nilo Peçanha e de
Delfim Moreira, que também viria a assumir a chefia de Estado. Mas, muito antes da formalidade
histórica, esse outro Brasil já estava mergulhado na 1.ª Guerra Mundial. Desde o início do conflito,
brasileiros de diferentes origens se engajaram e partiram para os fronts da Europa. Eles são parte de
uma narrativa quase esquecida: a de soldados brasileiros que doaram suas vidas por pátrias
estrangeiras entre 1914 e 1918.

Seus traços deixados em solo europeu mostram que a 1.ª Guerra Mundial foi para os brasileiros muito
mais do que a participação restrita do Exército e da Marinha nos combates.

É provável que soldados brasileiros tenham vestido uniformes da Alemanha, da Áustria-Hungria e até
do Império Otomano, já que há registros da passagem de sul-americanos pelos três exércitos e
colônias de imigrantes dos três países no Brasil, uma fonte de alistamentos. Mas em nenhum dos
casos eles teriam sido tão numerosos quanto os que lutaram – e morreram – pela França e pela
Tríplice Entente.

O encouraçado São Paulo. Crédito: DPHDM.

Por meio do trabalho de especialistas, documentos de museus e arquivos públicos e papéis militares
guardados no Castelo de Vincennes, na periferia de Paris, é possível resgatar informações
surpreendentes sobre parte dos 81 brasileiros engajados para lutar ao lado da Legião Estrangeira em
solo francês.

O Estado teve acesso a documentos de combatentes como os oficiais Gustavo Gelas e Luciano
Antonio Vital de Mello Vieira. Também encontrou dados dos aviadores Lauro de Araújo, Hector Varady,
Eugenio da Silva, Virginius Lamare Brito, Olavo de Araújo, Manuel Augusto Pereira de Vasconcelos e
Fábio Sá Earp, treinados pela RAF, a força aérea real britânica, e alistados em combate pela França.
Eles representam um universo ínfimo entre os homens de todas as nacionalidades que estiveram na
guerra, mas ilustram a participação do Brasil que vai além da missão preparatória do Exército enviada
à França e comandada pelo general Napoleão Felipe Aché.

Do total de brasileiros em hostes da Legião Estrangeira, 15 morreram em operações nas mais ferozes
frentes de batalha da Grande Guerra. Outros sobreviveram e fizeram carreira na Europa. É o caso do
tenente Gelas, nome mencionado em algumas listas de grandes heróis da legião, merecedor de três
pastas repletas de documentos no dossiê 5ye.142.647 dos arquivos militares de Vincennes. Nascido
em 1890 em São Paulo, Gustavo era dentista e se alistou de forma voluntária como simples legionário,
a patente mais baixa da corporação, até ser promovido a tenente do 1.º Batalhão do 3.º Regimento
Estrangeiro em 23 de julho de 1922, um mês e oito dias após ser morto em combate em Meknès, no
Marrocos. Em 18 de setembro de 1918, sua participação na 1.ª Guerra Mundial lhe valeu a Legião de
Honra da França, um mérito raro entre brasileiros.

"Oficial de uma bravura excepcional. Conduziu brilhantemente seu pelotão ao ataque em 2 de


setembro de 1918, destruindo muitas metralhadoras, explodindo um importante depósito de munições
e contribuindo para repelir vários contra-ataques", diz a nota oficial do exército francês que justifica a
medalha. E completa: "Tomou em pleno combate o comando de ondas de assalto de um batalhão
privado de chefe, o reorganizou sob fogo violento e o manteve na posição conquistada. Infligiu ao
inimigo perdas muito elevadas e ajudou a progressão de unidades avançadas".

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Além dele, outro brasileiro chegou ao posto de oficial na 1.ª Guerra Mundial: o piloto Luciano Antonio
Pital de Mello Vieira, tenente da divisão Salmson da Legião Estrangeira. Voluntário registrado em 30 de
maio de 1917, ele teve vida breve no conflito. Faleceu em 31 de janeiro de 1918, na queda de seu
avião, aos 21 anos de idade. Em seu dossiê, 5ye162.330, estão suas notas de serviço, também
elogiosas, além de registros de saúde e do atestado de óbito.

Guerra mostrou ao exército a necessidade de mordenizar o país, diz historiador

A Primeira Guerra Mundial mudou o mundo e o Brasil, diz o historiador norte-americano Frank
McCann, autor de “Soldados da Pátria - História do Exército brasileiro 1889-1937" (Companhia das
Letras, 2007). Ele conta que, quando o confronto começou, o Exército Brasileiro tentava se reformar. O
País ainda estava sob o impacto da Guerra do Contestado, que mostrara a necessidade das
instituições militares por reorganização, rearmamento e treinamento e a impossibilidade do País de
enfrentar uma guerra moderna. Encerrado o conflito, o País e suas Forças Armadas sofreram
influências do confronto nas décadas seguintes, com o tenentismo e a Revolução de 1930. “(Com a
guerra) Os pontos fracos do modelo brasileiro se tornaram flagrantemente aparentes. E o nível de
impaciência com os velhos métodos e respostas borbulhava em todo o ano de 1920 e explodiu em
1930”, explica.

P: Por que o Brasil entrou tão tardiamente na guerra?

R: O Brasil manteve-se neutro até 1917, pela mesma razão dos Estados Unidos: não tinha nenhuma
razão para entrar na guerra até que os submarinos alemães atacaram navios brasileiros ao largo da
costa da França. A 1 de Fevereiro, depois de um debate interno na Alemanha e do fracasso de
movimentos da Alemanha pela paz, os líderes militares alemães decidiram retomar a guerra submarina
irrestrita. Eles acreditavam que os ataques de submarinos a todo o transporte, neutro e beligerante,
prejudicaria a vontade britânica de continuar a guerra. Eles estabeleceram que os EUA seriam
autorizados a enviar um navio por semana para a Grã-Bretanha. No entanto, em 03 de fevereiro de
1917, (um submarino alemão) afundou (depois de dar aviso) o navio da Marinha dos EUA
“Housatonic”. No mesmo dia os EUA romperam relações com a Alemanha e armaram seus navios
mercantes. Em 6 de abril o Congresso dos EUA aprovou a resolução para a guerra. No dia anterior em
5 de abril um navio alemão atacou o navio mercante brasileiro, o “Paraná “,na costa da França,
causando três mortes. E em 20 de maio um submarino alemão torpedeou o “Tijuca”, também ao largo
da França. O Brasil reconheceu que um estado de guerra existia com a Alemanha e o Império Austro-
Húngaro em 1 de Junho de 1917. Assim, ficou fora da guerra, até que foi provocado por ataques de
submarinos.

P: Como o senhor descreveria a participação brasileira na Primeira Guerra?

R: Foi muito pequena. O Exército enviou um hospital militar completo com os médicos para a França,
para cuidar dos feridos. A Marinha do Brasil envolveu-se em patrulhamento em conjunto com a
Marinha americana, e oficiais brasileiros serviram a bordo navios de guerra norte-americanos. Lembre-
se que naquela época o exército brasileiro tinha acabado de terminar um conflito longo e difícil no
Contestado, e não estava em condições de enviar tropas para a Europa. Quando a guerra estourou, o
Exército tentava reformar-se. Entre 1906 e 1912, três contingentes, totalizando trinta e dois oficiais,
passou dois anos treinando em regimentos alemães. Sua tarefa ao voltar foi atuar como instrutores nas
escolas do Exército para criar o moderno Exército Brasileiro. Eram os chamados Jovens Turcos. Em
1916 Serviço Militar Obrigatório entrou em vigor. O Exército estava sendo reformado e, na verdade,
estava sendo construído. Alberto Torres e Olavo Bilac estavam debatendo o papel do exército na
sociedade. A elite brasileira não estava muito interessada em aumentar a força do governo nacional. A
experiência no Contestado tinha mostrado ao Exército a necessidade de reorganização, rearmamento
e treinamento. Precisava de soldados que a lei 1916 foi muito lenta para fornecer. Na verdade,
centenas e centenas simplesmente se esconderam e não se apresentaram para o treinamento. E para
piorar a situação, em 1915 uma rebelião envolvendo sargentos do Exército, a Brigada da Polícia do Rio
e do Corpo de Bombeiros resultou em 256 sargentos presos, expulsos do serviço e removidos para o
exílio interno. Como resultado, o Exército estava seriamente limitado e sofria de tensão interna e
suspeitas.

P: Quais foram os impactos Da Primeira Guerra na organização e modernização das Forças Armadas
brasileiras?

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

R: A resposta anterior dá uma ideia dos impactos. Alguns oficiais que haviam treinado na Alemanha
queriam entrar na guerra, mas o Ministro da Guerra, General José Caetano de Farias, não quis ouvi-
los. Ele sabia que o Exército não estava em condições de ir à guerra. Assim, os Jovens Turcos foram
frustrados e tiveram de dedicar suas energias e entusiasmo na organização do Exército e treinando
oficiais subalternos e os recrutas previstos na legislação do Serviço Militar Obrigatório. Algumas de
suas frustrações fariam a bolha (que estourou) no movimento tenentista nos anos 1920.

P: O surgimento do tenentismo teve alguma ligação com a participacão brasileira na Primeira Guerra?

R: Certamente sim. Primeiro, houve a frustração de perder a grande guerra de sua geração. Então, no
fim da guerra, muito do que tinham aprendido na Alemanha foi desacreditado, ou, pelo menos,
desafiado, pela ideia de que o francês tinha sido vitorioso e assim suas ideias deveriam ser melhores.
Claro, isso ignorou as ideias americanas, britânicas, russas e seus papéis na guerra. O governo decidiu
empregar uma Missão Militar Francesa, que esteve no Brasil 1920-1939, que causou o aumento da
frustração no Exército. Os Jovens Turcos pensavam que sabiam o suficiente como organizar o Exército
a partir de uma mistura de ideias brasileiras e europeias. Assim, ao longo dos anos 1920, houve um
debate interno no Exército que parecia colocar as ideias francesas contra as alemãs. Na realidade, os
Jovens Turcos estavam se movendo em direção a um modelo brasileiro, mas não foram capazes de
implementá-lo totalmente. É significativo que o oficial de fundação da Academia Militar das Agulhas
Negras, José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, tivesse sido autorizado a servir como um oficial no
exército francês. Ele foi ferido em combate e, sem dúvida, suas experiências na linha de frente deram-
lhe muitas ideias sobre como preparar os oficiais subalternos para uma carreira militar. Ele fez da
AMAN uma escola militar verdadeiramente profissional.

P: Houve algum tipo de consequência política e de modernização do Brasil devido a Primeira Guerra?

R: A guerra mostrou o quão terrivelmente atrasado o Brasil estava. Líderes militares brasileiros ficaram
espantados com a rápida mobilização dos Estados Unidos e a formação de tantos milhões de soldados
e sua entrada decisiva na guerra na França. Eles podiam ver que o Brasil tinha de se industrializar para
se tornar uma sociedade moderna.

P: A República Velha brasileira começou a morrer na Primeira Guerra?

R: O mundo inteiro foi mudado pela guerra. A Revolução Russa não teria acontecido quando
aconteceu sem a grande mobilização que houve lá. As monarquias da Europa quase todos entraram
em colapso, à exceção de algumas. Provavelmente (sem a guerra) não teria havido a pandemia
mundial da gripe que matou milhões de pessoas, incluindo milhares no Brasil. Os pontos fracos do
modelo brasileiro se tornaram flagrantemente aparentes. E o nível de impaciência com os velhos
métodos e respostas borbulhava em todo o ano de 1920 e explodiu em 1930. O terrível derramamento
de sangue era um importante ponto de viragem na história do mundo. Tudo mudou. E, claro, a paz
falha deu origem à pior guerra de 1939-1945.

Wilson Tosta/RIO

Segundo dados do exército francês, a maior parte do elenco "franco-brasileiro" retornou ao país de
seus antepassados para lutar pela nação e por seus valores. São nomes como o do cabo Georges
Maximilien Carpentier, nascido no Rio de Janeiro e morto em Marne em outubro de 1915, ou o do
sargento Joseph Gérard Crouzet, carioca morto em Verdun em julho de 1916. "Eles não tinham
obrigação de se alistar, mas alguns fizeram a escolha", explica o comandante Michel Bourlet, doutor
em História, pesquisador das escolas militares de Saint-Cyr Coëtquidan, especialista na participação
latino-americana no conflito.

De acordo com Bourlet, há ainda dois outros perfis: "Um primeiro dos brasileiros que viajaram do Brasil
para se alistar e outro de brasileiros que viviam na França, trabalhavam, estudavam e decidiram se
engajar para combater na Grande Guerra". É provável que nessa última categoria estivesse o carioca
Luiz França Oliveira, soldado de 2.ª classe recrutado em Nice em 1915 e desaparecido na Batalha de
Somme, em 4 de julho de 1916. Ou ainda Candido Ferreira Bastos, também soldado de 2.ª classe,
alistado em Bayonne e desaparecido em Neuville-Saint-Vaast, no extremo norte do país.

O que as bases de dados da França não parecem revelar com fartura são os indícios da passagem da
missão preparatória brasileira, que teve as participações do tenente José Pessoa Cavalcanti de
Albuquerque e do major Tertuliano Potyguara, este último ferido na batalha do Canal Saint-Quentin,

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

próximo ao Chemin des Dames. Potyguara foi membro do estado-maior vinculado ao 6.º Grupo do
Batalhão de Caçadores Alpinos antes de passar ao grupo de oficiais do Brasil enviado para o front em
Saint-Quentin, em 2 de outubro de 1918, onde acabou ferido e atendido no Hospital Franco-Brasileiro.

Sobre o tema, o Estado localizou no Estabelecimento de Comunicação e de Produção Audiovisual da


Defesa (Ecpad), da França,fotografias que mostram os militares da missão em vilarejos e cidades
destruídas, em postos de observação e em rotas logísticas em Douchy, Fluquières e Etreillers, na
região de Aisne, muito atingida pelo front.

A mesma instituição guarda ainda fotografias e filmes históricos do Hospital Franco-Brasileiro em Paris,
registradas em julho de 1918 – cinco meses antes do fim do conflito. A instituição se situava na Rue de
la Pompe, na capital francesa. As imagens mostram a equipe médica, liderada por um certo "doutor Rio
Branco", ao lado de assistentes e pacientes feridos. Há ainda fotos de salas de operações,
enfermarias, radiografias e quartos especiais reservados aos oficiais. Além de auxiliar no atendimento
aos feridos em combates, a equipe brasileira socorreu vítimas da epidemia de gripe espanhola que
também dizimava a Europa, em paralelo à guerra.

Pelo menos outras duas missões médicas brasileiras sob o comando de Nabuco Gouveia, mas
subordinadas ao general Aché, estiveram no país, em agosto e setembro de 1918. Além de médicos,
enfermeiros e farmacêuticos, administradores e soldados participaram da expedição, que teria fim em
fevereiro de 1919, quatro meses antes da assinatura do Tratado de Versalhes.

Para o historiador Olivier Compagnon, pesquisador do Instituto de Altos Estudos da América Latina da
Universidade Sorbonne Nouvelle, de Paris, a passagem de latino-americanos pelo conflito na Europa
vai muito além dos atos de heroísmo de seus soldados ou das missões oficiais. Ela também teria sido
determinante para o rompimento de parte dos laços de admiração e exemplaridade que a Europa
exercia sobre o Brasil e outros países da região.

Em seu livro Adieu à l'Europe (Adeus à Europa, na tradução literal), recém-lançado na França,
Compagnon afirma que o desastre humano e humanitário representado pela 1.ª Guerra Mundial levou
a América Latina a uma "nova emancipação". O novo mundo viu a Europa, até então um farol de
cultura e modernidade, afundar na barbárie" , disse o historiador em entrevista ao jornal Libération,
delimitando o período como o início da ascensão cultural dos Estados Unidos sobre os países latinos.
"As narrativas e as imagens de trincheiras mostraram uma Europa mergulhada na guerra total. Ela não
poderia mais ser considerada o coração do mundo civilizado."

NAS PÁGINAS DO 'ESTADO', UMA VISÃO GLOBAL

Os boletins semanais de Julio Mesquita sobre a guerra iam muito além dos telegramas recebidos pelo
jornalista. Eles interpretavam o avanço do conflito e a política dos governos envolvidos.

José Maria Mayrink

Dois dias após a invasão da Bélgica pelo exército da Alemanha, o jornalista Julio Mesquita publicou,
em 6 de agosto de 1914, o primeiro da série de artigos que escreveria nos quatro anos seguintes sobre
a 1.ª Guerra Mundial. Com base nos telegramas sucintos e contraditórios recebidos na semana
anterior, o jornalista analisava, sempre às segundas-feiras, o desdobramento do conflito em seu
jornal, O Estado de S. Paulo, dando aos leitores uma visão global, clara e personificada da até então
maior catástrofe da humanidade.

A primeira impressão de Julio Mesquita foi de que a luta seria breve. Tanto assim que, três meses
depois, ele já se assustava com sua prolongada duração. Iniciado pelo Império Austro-Húngaro, que
declarou guerra à Sérvia em 28 de julho, um mês após o assassinato do arquiduque Francisco
Ferdinando e de sua mulher, a duquesa de Hohenberg, por um estudante bósnio em Sarajevo, o
conflito só terminaria em novembro de 1918. Mobilizou 65 milhões de homens, dos quais 9 milhões
foram mortos e 21 milhões ficaram mutilados.

O jornalista Julio Mesquita. Crédito: Acervo Estado.

Julio Mesquita sabia das limitações da informação. Para suprir a deficiência dos despachos do
telégrafo, de conteúdo parcial e censurado, recorreu a outras fontes, como relatos de jornais europeus,
correspondências de amigos e, mais adiante, testemunhos de combatentes, muitos deles filhos de

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imigrantes que se alistaram para lutar nas trincheiras. O Estado manifestava simpatia pelos aliados –
franceses, ingleses e italianos –, mas isso não significava antipatia pelas potências da Europa central
lideradas por Alemanha e Áustria. Como o jornal foi acusado de ser partidário, Julio Mesquita deixou
clara sua posição:

O Estado não nega as suas simpatias pelos aliados, mas já disse, e repete, que a essas simpatias não
corresponde nenhuma antipatia pelos súditos do kaiser, cujas excelentes qualidades de raça e de
educação intelectual, comercial e industrial não tem cessado de enaltecer.O Estado simpatiza com os
aliados, não porque antipatize com os alemães, mas porque diverge visceralmente da política
autoritária e militarista que desviou a Alemanha da sua luminosa missão e produziu esta guerra odiosa.
Contra esta política, sim, temos toda a má vontade, onde quer que ela se implante ou firme, na
Alemanha ou em outro qualquer país, inclusive o nosso”.

As batalhas ainda estavam começando quando Julio Mesquita previu, em 21 de setembro de 1914, a
dimensão da catástrofe que evoluía para a Guerra Mundial. Escreveu:

Sete dias e sete noites de luta encarniçada, sete dias e sete noites de sangue, sete dias e sete noites
de morte, sete dias e sete noites de extermínio entre milhões de homens das nações mais civilizadas
do mundo! Que incomparável tema para os Homeros e para os Shakespeares do futuro, se o futuro, no
caminho em que vamos, tiver forças para os produzir! Quem vencerá?”

Resposta imprevisível, admitia o jornalista, embora ele apostasse na derrota da Alemanha e seus
aliados. Sua maior preocupação, desde aqueles primeiros meses, era a extensão da tragédia.
Comparou com as guerras do passado o quadro do conflito no século 20. Com novas tecnologias, à
luta nas trincheiras se somavam as recentes invenções, como submarinos, aviões e zepelins. Julio
Mesquita citou um trecho do Padre Antônio Vieira, atual depois de três séculos, para descrever o horror
da guerra:

É a guerra aquele monstro... É a guerra aquela tempestade terrestre que os campos, as casas, as
vilas, os castelos, as cidades e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a
guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades... O pai não tem seguro o filho, o rico
não tem segura a fazenda, o pobre não tem seguro o seu suor, o nobre não tem segura a honra, o
eclesiástico não tem segura a cela e até Deus nos templos e nos sacrários não está seguro...”

Os boletins semanais de Julio Mesquita foram publicados em 2002 pelo seu bisneto Ruy Mesquita
Filho no livro A Guerra, obra em quatro volumes lançados pelo jornal O Estado de S. Paulo e pela
Editora Terceiro Nome. Cada volume reúne os artigos correspondentes a um ano de guerra, de 1914 a
1918. Participaram da edição Mary Lou Paris, Fernando Portela, José Alfredo Vidigal Pontes e
Napoleão Saboia. O jornalista Gilles Lapouge escreveu a introdução. A consultoria militar foi de
Fortunato Pastore.

Jornal enfrenta a censura pela primeira vez

A guerra trouxe ao País o estado de sítio e ao Estado, uma mordaça que durou de 24 de novembro de
1917 a 28 de fevereiro de 1918. A direção do jornal resistiu à ação da censura policial, controlada pelo
governador de São Paulo, Altino Arantes, deixando em branco o espaço de artigos inteiros ou trechos
amputados pelo gabinete de polícia. Ao todo, a ação autoritária golpeou 22 vezes o jornal. Os cortes
mais extensos ocorreram na edição vespertina, o chamado Estadinho. Ao todo, a faca dos censores
atingiu oito de suas edições. No Estado, os trechos afetados foram menores, mas a ação mutilou 14
de suas edições no período. A escalada autoritária começou em 17 de novembro, quando o presidente
Venceslau Brás decretou estado de sítio no Distrito Federal (então no Rio), em São Paulo e nos três
Estados da Região Sul do País. Em 23 de novembro, o jornal publicou uma nota escrita à mão pelo
presidente para o jornal. Nele, Brás pedia aos brasileiros que se unissem para enfrentar os perigos da
guerra contra a Alemanha, aumentando a produção agrícola contra a fome, e que ficasse alerta contra
espionagem inimiga “que é multiforme”.

Logo no dia seguinte, um sábado, a edição do Estadinho, foi alvo da tesoura dos censores. Na coluna
Tópicos, um trecho inteiro foi publicado em branco. Era o primeiro sinal de resistência. O segundo
ataque da censura contra o jornal aconteceu no dia 1.º de dezembro, quando os policiais responsáveis
pelo setor cortaram dois trechos do artigo O Estado de Sítio, assinado pelo jornalista Mário Pinto
Serva, no Estadinho. Mais uma vez, a direção do jornal decidiu publicar os espaços em branco. O
artigo cobrava que a atividade dos agentes da polícia contra a imprensa fosse controlada. “É preciso

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que o governo federal declare quais as garantias constitucionais que ficam suspensas e quais
permanecem vigentes.”

Serva, que trabalharia no jornal até o fim da década de 1950, tornou-se a maior vítima da ação dos
censores. O alvo de seus artigos era o estado de sítio e a forma como este, em vez de contribuir para
trazer apoio ao governo, estava alienando parte da nação com “sua série de medidas desnecessárias,
violentas e inconstitucionais”. No dia 4 de dezembro, os leitores ficaram sem o trecho final de seu artigo
sobre a inconstitucionalidade do estado de sítio.

A censura se agravou no dia 13 de dezembro, quando metade do artigo A Censura à Imprensa foi
vetado. O espaço em branco na página 3 do Estadinho mostrou o significado da ação policial. O jornal
manteve sua luta. A reação policial veio em 2 de janeiro de 1918, quando o artigo Sítio Ditatorial foi
proibido na íntegra. O censor Alarico Silveira justificou sua decisão: “O artigo não podia sair em
consequência do estado de sítio”.

O jornal publicou então apenas o título e um enorme espaço em branco em sua página 3. E Serva
decidiu pedir habeas corpus para publicar seus artigos. A censura continuou durante o mês de janeiro,
quando a Justiça paulista se negou a derrubar a censura. O jornal recorreu ao Supremo Tribunal
Federal em 19 de janeiro.

Um mês depois, metade da página 3 da edição vespertina foi publicada em branco. Era o espaço
reservado para mais um artigo censurado. A edição do Estado de 23 de fevereiro trouxe a palavra
censura escrita no meio de uma coluna em branco do noticiário político. Altino Arantes, do Partido
Republicano Paulista (PRP), estava no meio de seu mandato – ele seria substituído, em 1920, por
Washington Luís, que seria o último presidente da República Velha. Em 28 de fevereiro, a censura ao
jornal foi suspensa. No dia seguinte, Serva publicou o artigo vetado: A Censura Paulista. “Ao povo
brasileiro só resta uma última defesa legal – recorrer ao Poder Judiciário Federal, que tem competência
para desconhecer os efeitos de quaisquer atos do Executivo ou Legislativo infringentes dos textos
constitucionais”. Nos dias seguintes, o jornal publicou os trechos e os artigos suprimidos pela censura.
Chegava ao fim a primeira mordaça imposta ao jornal.

Marcelo Godoy

Serva, que trabalharia no jornal até o fim da década de 1950, tornou-se a maior vítima da ação dos
censores. O alvo de seus artigos era o estado de sítio e a forma como este, em vez de contribuir para
trazer apoio ao governo, estava alienando parte da nação, com “sua série de medidas desnecessárias,
violentas e inconstitucionais”. No dia 4 dezembro, os leitores ficaram sem o trecho final de seu artigo
sobre a inconstitucionalidade do estado de sítio. Sítio Ditatorial. A censura se agravou no dia 13 de
dezembro, quando metade do artigo A Censura à Imprensa foi vetado. O espaço em branco na página
3 do Estadinhomostrou o significado da ação policial. O jornal manteve sua luta. A reação policial veio
em 2 de janeiro de 1918, quando o artigo Sítio Ditatorial foi proibido na íntegra. O censor Alarico
Silveira justificou sua decisão: “O artigo não podia sair em consequência do estado de sítio”. O jornal
publicou então apenas o título e um enorme espaço em branco em sua página 3. E Serva decidiu pedir
habeas corpus para publicar seus artigos. A censura continuou durante o mês de janeiro, quando a
Justiça paulista se negou a derrubar a censura. O jornal recorreu ao Supremo Tribunal Federal em 19
de janeiro.

Um mês depois, metade da página 3 da edição vespertina foi publicada em branco. Era o espaço
reservado para mais um artigo censurado. A edição do Estado de 23 de fevereiro trouxe a palavra
censura escrita no meio de uma coluna em branco do noticiário político. Altino Arantes, do Partido
Republicano Paulista (PRP), estava no meio de seu mandato – ele seria substituído, em 1920, por
Washington Luís, que seria o último presidente da República Velha. Em 28 de fevereiro, a censura ao
jornal foi suspensa. No dia seguinte, Serva publicou o artigo vetado: A Censura Paulista. “Ao povo
brasileiro só resta uma última defesa legal – recorrer ao Poder Judiciário Federal, que tem competência
para desconhecer os efeitos de quaisquer atos do Executivo ou Legislativo infringentes dos textos
constitucionais”. Nos dias seguintes, o jornal publicou os trechos e os artigos suprimidos pela censura.
Chegava ao fim a primeira mordaça imposta ao jornal.

'Estado' era lido nos campos de batalha

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O jornal O Estado de S. Paulo tinha uma sucursal em Roma quando a guerra estourou em 1914. Seu
diretor, Ancona López, era uma fonte direta de informações para Julio Mesquita sobre o conflito, ao
mesmo tempo em que cuidava da parte comercial coletando anúncios de clientes na Itália.

“Uma difusão em O Estado de S. Paulo é a melhor garantia para a eficácia da publicidade das Casas
Italianas”, escreveu ao pé de um comunicado sobre a mudança de endereço, da Via Sistina 42 para a
Praça Veneza 88. No cabeçalho, apresentou o Estado como “jornal diário de grande formato, edições
de 16 - 24 - 32 páginas” , detentor do Prêmio da Exposição Internacional de Turim em 1911.

Com um escritório em Roma, o Estado conseguiu chegar aos combatentes aliados. Fotografias
enviadas da frente de batalha mostram soldados lendo os jornais na trincheira. Eram principalmente
ítalo-brasileiros, filhos de imigrantes italianos de São Paulo que foram convocados para a guerra.

Em outra fotografia, fornecida pelo colecionador particular Jorge Calixto Santos Filho e reproduzida na
edição de 19 de novembro de 2002, aparece o Cabo Siron com um exemplar do Estado nas mãos,
numa trincheira de Argonne, perto de Verdun, fronteira com Alemanha. Siron era francês e continuou
vivendo na França depois que sua mãe se separou do marido e mudou para o Brasil. / J.M.M

Ruy Mesquita Filho entusiasmou-se com o trabalho do bisavô ao ler A Guerra, que amigos de Julio
Mesquita publicaram em 1920, à revelia dele. Julio Mesquita não gostou e mandou interromper o
projeto, que previa o lançamento de mais dois ou três volumes. Julio Mesquita não assinava os
boletins, que apareciam sempre ao pé dos telegramas enviados pelas agências de notícias e pelos
serviços de informação dos países em guerra. O jornal divulgava tudo, cabendo a seu proprietário e
diretor, com suas crônicas, “ajudar os leitores do jornal a pôr um pouco de ordem nas suas reflexões e
corrigir as demasias, ora otimistas, ora pessimistas, das suas primeiras impressões”, como observaram
os editores do primeiro volume.

Os boletins foram escritos “às carreiras”, quase sem interrupção, apesar das constantes viagens de
Julio Mesquita a Campinas e à sua fazenda em Louveira. Quando estava fora de São Paulo, o trem
levava o malote com os telegramas pela manhã e voltava nas tardes de domingo com os artigos ou
crônicas para a edição de segunda-feira. Saíam também nas páginas do Estadinho, vespertino que
circulou de 1915 a 1921. “O Estadinho tinha espaço para abrir mais fotos da guerra que outros
jornais”, disse Ruy Mesquita Filho.

“Deixou-se de publicar os comentários que habitualmente saem nesta seção, por se achar enfermo o
seu autor, Dr. Julio Mesquita”, avisou o jornal, referindo-se ao período de 25 de fevereiro a 1.º de abril
de 1918. Na semana seguinte, em 8 abril, o jornalista retomou os artigos, com uma advertência inicial
aos leitores: “Talvez ainda não nos seja possível recomeçar, com a habitual pontualidade, a publicação
semanal destes boletins”, escreveu ele, acrescentando que “as últimas notícias, por sua importância
excepcional, pedem alguns comentários, que não adiamos”.

Também não houve comentários nas segundas-feiras de 24 de julho a 4 de setembro de 1916. Ao


retomar os boletins no dia 11 de setembro, Julio Mesquita justificou sua ausência: “Interrompeu-se há
algumas semanas a publicação destes comentários, mas os nossos leitores pouco perderam com a
interrupção”. Além de a agência de notícias Havas (atual France Presse) ter melhorado a qualidade de
seus despachos, conforme observou o jornalista, “os acontecimentos destes últimos dois meses, sem
dúvida importantíssimos, são dos que por si mesmos se comentam, tão depressa se forma, no espírito
de quem deles toma conhecimento, uma ideia exata de sua significação”.

Os boletins de Julio Mesquita iam muito além dos telegramas, pois, baseados neles e em informações
paralelas, interpretavam o avanço da guerra, analisavam a política dos governos envolvidos e
arriscavam prognósticos do que deveria acontecer, a curto e a longo prazos. O Estado diferenciava-se
dos jornais europeus pela capacidade de dar uma visão global do conflito mundial, enquanto os
jornalistas europeus se voltavam, cada um, para seus próprios países. Gilles Lapouge, correspondente
em Paris, cujo pai lutou nas trincheiras, reconheceu e admirou essa qualidade, o “olhar distante” do
jornal, ao ler em 2002 o primeiro volume de A Guerra, publicado pelos amigos de Julio Mesquita em
1920.

Trechos dos artigos de Julio Mesquita

Ferem-se aqui e ali, todos os dias, cinco, dez, vinte combates encarniçados. A verdade, porém, é que
se está travando, naquele trecho da Europa, há algumas semanas, uma só intérmina batalha, cuja

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

linha monstruosa se estende desde a Rússia até a França, com curvas mais ou menos suaves, ou
mais ou menos violentas, pela Áustria, pela Sérvia, pela Prússia e pela Bélgica. A Alemanha (para que
falar da Áustria?), no seu formidável ímpeto inicial, avançou. Mas hoje, onde não recua, também não
avança, o que será fatalmente a sua ruína, se algum acontecimento imprevisto não vier ampará-la na
queda iminente. E nesta queda muito provável, nada haverá que possa causar espanto ou simples
surpresa, porque é natural que homens não sejam capazes de realizar o que é sobre-humano.”

28 de setembro de 1914

Qual dos dois adversários alcançará primeiro o seu objetivo? Não sabemos e é muito provável que
ninguém o saiba. Por enquanto, o que se nos afigura mais acertado é aguardar os acontecimentos com
a pequena dose de paciência e de calma que é compatível com a situação tão cheia de sombrias
apreensões, não só para eles, os que lá ao longe matam e morrem, como para nós, os que, por este
vasto mundo de Deus, assistimos aterrados àquela hedionda carnificina.”

5 de outubro de 1914

Há seis meses que a guerra dura, e, dado um rápido balanço destes sinistros e lutuosos 180 dias de
ruínas e sangue, o que se verifica é que não nos faltava razão quando afirmávamos, logo no princípio
das hostilidades, que a Alemanha e a Áustria haviam de ser vencidas, porque, para vencer os Aliados,
seriam necessárias duas Alemanhas.”

1.º de fevereiro de 1915

Abusos não justificam abusos, e é de antiga e contínua observação neste mundo irremediavelmente
imperfeito, que violência puxa violência e que só é odiosa a primeira. A segunda até o feio nome perde,
porque se chama represália.”

22 de fevereiro de 1915

“Varsóvia caiu em poder dos alemães. Nunca pusemos em dúvida que caísse. O fato era previsto.
Somos os primeiros a recomendar aos nossos leitores que não depositem demasiada confiança no
poder muito limitado da nossa previsão, mas previmos a queda de Varsóvia, com alguma segurança há
bastante tempo...”

9 de agosto de 1915

“Cuida-se na Alemanha da organização de um ministério da alimentação pública, com poderes


ditatoriais. Soldados alemães esfomeados, cambaleantes, abeiram-se das fronteiras dos neutros
pedindo-lhes por esmola um pedaço de carne que a pátria exausta já lhes não fornece. Outros
desertam para comer.”

22 de maio de 1916

“Diríamos que, nesta guerra de tantas e tamanhas surpresas, a maior foi a que nos acaba de vir da
Rússia, se, de há muito, nesta e noutras seções de O Estado não estivéssemos insistentemente
pedindo aos nossos leitores que se não se espantassem com o que lhes dissesse o telégrafo de
Petrogrado (...). Em geografia política, a sede da Rússia é a Europa. Não existe, porém, na Ásia
remota e ainda misteriosa, nação alguma com tão alta e impenetrável muralha à volta do seu governo,
da sua administração, da sua sociedade, da sua língua, da sua gente...”

19 de março de 1917

'A Guerra' Traz os Boletins de todo o confronto

O trabalho de pesquisa fotográfica para o livro A Guerra fez Mary Lou Paris, da Editora Terceiro Nome,
trabalhar por meses em sua casa procurando uma linguagem que contasse a história dos boletins de
guerra escritos por Julio Mesquita. A obra A Guerra ficaria pronta em 2002 e se transformaria em um
grande sucesso editorial. Em quatro volumes, ela reuniu os boletins semanais publicados durante a
conflagração de 1914-1918 no Estado. “Foi preciso encontrar uma narrativa visual para essa obra”,
contou Mary Lou.

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Esse trabalhou revelou imagens insólitas, como as dos pombos-correio usados pelos militares. Outra
preocupação da edição foi mostrar a guerra como um conflito mundial, fugindo da visão eurocêntrica
que muitos na época tinham do conflito. Para Mary Lou, o contato com os textos de Julio Mesquita
trouxe uma grande surpresa: a capacidade de análise do jornalista.

“Ele tinha uma sensibilidade surpreendente. Recebia publicações de vários países e, por isso, reunia
informações das mais variadas nações em guerra”, disse Mary Lou. Com isso, Julio Mesquita tinha à
sua disposição o que era publicado em cada país beligerante. “Ele misturava em seus textos as
versões diferentes de cada país sobre os acontecimentos, criando dessa forma uma nova narrativa
sobre a guerra”, contou Mary Lou. A pesquisa das imagens para a obra reuniu material do Acervo do
Estado e de quatro outras publicações da época mantidas no arquivo do jornal. O primeiro volume trata
do início da guerra até a entrada da Itália no conflito, em 1915. O segundo volume dos boletins
semanais reúne os textos desde a entrada da Itália na conflagração até a ofensiva anglo-francesa no
Vale do Rio Somme, em 1916. O terceiro volume parte desse momento e se encerra no ataque alemão
à Riga, na Rússia, em 1917. Por fim, o último volume se inicia na queda de Riga e segue até o fim da
luta.

Com apresentação de Ruy Mesquita Filho e artigos de Gilles Lapouge, Fortunato Pastore, Jorge
Caldeira e João Alfredo Vidigal Pontes, os quatro volumes do livro A Guerra podem ser encomendados
no site da editora.

O diretor do Estado não errou em nenhuma previsão. “Não há esforço humano capaz de impedir que
desta vez se corrijam as fronteiras dos diversos países da Europa, de acordo com o princípio das
nacionalidades, pelo qual outrora a França tanto se bateu, que parecia abandonada para sempre
depois das vitórias alemãs de 1870/71”, alertou Julio de Mesquita em 17 de janeiro de 1915, cinco
meses após o começo da guerra. Ele acreditava na vitória dos aliados, mas temia, ou previa, que o
inimigo não se entregaria definitivamente. “A Alemanha, se sucumbir, sucumbe numa longa explosão
de incrível vitalidade, que faz estremecer o universo em seus alicerces”, escreveu, prevendo em
seguida que a Alemanha “cai para ressurgir”. A reação dos militares alemães ao Tratado de Versalhes,
que restabeleceu a paz em julho de 1919, oito mês após a assinatura do armistício para encerrar os
combates, favoreceu a ascensão do nazismo de Adolf Hitler e levou à 2.ª Guerra Mundial (1939-1945).

Em seu último boletim, publicado em 14 de outubro de 1918, Julio Mesquita adiantou-se mais uma vez
na previsão do que estava para acontecer, enquanto os países em guerra ainda buscavam caminhos
para a paz. Seu comentário de despedida:

Esta seção do nosso jornal já não tem razão de ser. Comentavam-se aqui, semanalmente, os fatos da
guerra. Ora, a guerra, a bem dizer, acabou. Armistício não é paz e nem ao armistício ainda chegamos.
É mais provável, porém, que as nações aliadas dos Estados Unidos o não neguem, e que os generais,
que comandam exércitos em luta, o não embaracem. Além disso, em tais condições a Alemanha o
pediu, que não há receio de que, por sua iniciativa, o fogo devastador se reacenda. O indomável
orgulho alemão quer que o mundo acredite que o império deve a sua derrota à deserção da Bulgária,
da Áustria e da Turquia. Não é exato. O colosso ajoelha-se porque não pode conservar-se de pé...”

Na avaliação de Fortunato Pastore, consultor militar que analisou o conflito no livro A Guerra, em 2002,
“os editoriais que Julio Mesquita escreveu durante a 1.ª Guerra Mundial revelam-se uma verdadeira
aula de política internacional e de estratégia militar no início do século 20”.

Julio Mesquita e 1914

A guerra explodiu em 3 de agosto de 1914. As batalhas, a carnificina, estavam longe. Mas Julio
Mesquita fez questão de que os brasileiros acompanhassem de perto a tragédia. A informação era
rara, muitas vezes censurada ou mentirosa. Pouco importava. Julio Mesquita era jornalista e
semanalmente publicava em O Estado de São Paulo um longo relato da guerra. Esses artigos foram
reunidos em 2000 pela editora Terceiro Nome e O Estado de São Paulo. Li os quatro enormes
volumes. Magníficos.

As histórias da Grande Guerra, há cem anos, são inúmeras. Os grandes sábios e poetas edificaram um
monumento para contar o horror de 1914-1918. Julio Mesquita, em seu Brasil longíquo, desprovido das
fontes de informação, não podia concorrer com testemunhas europeias do drama, como Barbusse ou
Genevoix, Ernst Junger ou Erich Maria Remarque. Entretanto, seus artigos são tão belos quanto os
daqueles autores do drama. Às vezes mais profundos. E mais modernos. Qual era sua receita? O

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

distanciamento e o uso sutil que fez dele. Seus artigos ilustram uma frase do filósofo francês Jean-
Jacques Rousseau: “Quando queremos estudar os homens, é preciso olhar de perto. Mas para estudar
o homem é preciso aprender a observar de longe”.

Nós, franceses, ou os alemães, estávamos próximos do massacre. Nós só conhecíamos batalhas


como as do Marne, do Chemin des Dames, do Somme, de Verdun. A guerra era um duelo entre duas
nações vizinhas, França e Alemanha. Essa guerra era nossa, de franceses e alemães. Era o nosso
tesouro, nossa memória comum, nosso inferno e nossa abominável glória compartilhada. Os artigos de
Julio Mesquita fazem explodir essa imagem entorpecida. Certamente ele concentrou sua atenção em
Verdun ou em Somme, mas trouxe para a frente do palco todos os atores invisíveis que, nos jornais
franceses ou alemães, ficavam na sombra dos bastidores.

Com Julio Mesquita não são Berlim e Paris que combatem ferozmente: é o mundo inteiro que dança e
morre na fogueira. Pensamos na grande pintura clássica. Em torno do tema principal, no fundo do
quadro, vemos personagens secundários que se agitam, camponeses, um cachorro, uma carroça, que
entram no quadro e mudam seu sentido. Assim trabalhava Julio Mesquita. Enquanto o mundo tinha os
olhos fixos no Marne ou no Somme, ele fazia sair à noite as tropas russas que lá na Prússia Oriental
derrotaram os soldados do alemão Hindenburg. Mais além, introduz no seu quadro os soldados
britânicos cavando trincheiras nos Dardanelos, no Império Otomano. Nos relatos franceses da época, a
guerra é um “assunto provincial”. Nas narrativas de Julio Mesquita, ela é “global”.

A guerra de 1914 foi uma guerra profética. Anunciava, como um pregador do Antigo Testamento, os
contornos do mundo no futuro, primeiramente a 2.ª Guerra Mundial, que incendiou o planeta inteiro e
foi a réplica distorcida daquela de 1914, em seguida o mundo de 2014, arrebatado pela globalização.

Global é a guerra descrita por Julio Mesquita e também global é a atenção que ele prestou ao que
ocorria longe das batalhas: as fábricas que produziam os obuses, os quartéis onde os generais geriam
a morte, nas estações de telégrafo que colocavam em comunicação todos os compartimentos da
guerra, nos ministérios onde eram tramadas alianças, rupturas, traições. Nos hospitais onde eram
cortados braços e pernas, nos portos aonde chegavam as provisões para os milhões de soldados. O
milagre é que essa ampliação prodigiosa da “distância focal”, nos relatos de Julio Mesquita, é
reproduzida numa narração clara, fácil de ler, ordenada. Precisamos abordar também o estilo. Erudito,
às vezes repleto de referências à literatura antiga. A frase é ágil, elegante, sensível, abrasadora ou
indignada, mas sempre sem as “grandiloquências” degradantes que desfiguram a maioria das
narrativas sobre a Grande Guerra.

Para começar, ele estava numa posição de desvantagem, acompanhando o drama a partir de um
observatório a dez mil quilômetros do local. Julio Mesquita fez da dificuldade uma força, da fraqueza
uma superioridade. Seu texto é magnífico. E nos faz ver, sentir, sofrer, tocar nessa guerra do outro lado
do mundo. Não é bombástico. E em cem anos não adquiriu nem uma ruga sequer. Foi escrito esta
manhã. É um “clássico”.

O PRIMEIRO TIRO

Fronteiras da Europa em 1914

Na noite de 28 para 29 de julho de 1914, as águas do Danúbio foram sacudidas em Belgrado por
estilhaços de granadas de artilharia. Eram austro-húngaras e haviam sido lançadas horas depois de
Viena declarar guerra ao pequeno reino sérvio. Os generais que planejaram a ação pensavam ter
começado o que seria a terceira guerra balcânica. De fato, o chefe do estado-maior austríaco, Conrad
von Hötzendorf, confiante no apoio alemão, acreditava poder acertar as contas com a Sérvia em três
meses, confinando o conflito ao Sudeste europeu, assim como acontecera nas duas disputas
anteriores que haviam envolvido, em 1912 e em 1913, a Bulgária, a Romênia, o Império Otomano, a
Grécia, Montenegro e a mesma Sérvia.

Mas a presença de um dos grande poderes europeus nesse cenário e o sistema de alianças que ligava
as potências do continente mudariam tudo dessa vez. A Rússia decretou a mobilização geral de seu
exército no dia 30 para proteger a Sérvia, sua aliada. Em 1.º de agosto, a Alemanha, que apoiava os
austríacos, declarou guerra à Rússia. A França, aliada dos russos, decidiu reunir seus soldados no
mesmo dia. No dia 3, a Alemanha declarou guerra à França e deu um ultimato à Bélgica: dar livre
passagem aos alemães. O governo belga negou o pedido - o rei Alberto I decidiu resistir. O país

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acabou invadido no dia 4. A violação de sua neutralidade fez a Grã-Bretanha declarar guerra à
Alemanha.

Os austríacos que lançaram as bombas em Belgrado naquela noite de verão terminariam o ano de
1914 com 957 mil baixas em suas forças, entre mortos, desaparecidos e prisioneiros. Foram repelidos
pelos russos na Galícia (atual Polônia) e, depois de tomar Belgrado em 2 de dezembro, expulsos da
cidade pelos sérvios no dia 13. Seus exércitos deixaram para trás um rastro de 4 mil civis assassinados
na Sérvia - os soldados seguiram as ordens de generais que consideravam, "em um país habitado por
uma população inspirada por um ódio fanático, toda bondade de coração fora de questão". O conflito
balcânico que imaginavam começar se transformara rapidamente em europeu e, pouco tempo depois,
envolveria o planeta: a 1.ª Guerra Mundial.

Raymond Poincaré e a União Sagrada

Republicano moderado, ele nasceu em Bar-le-Duc, de onde sairia durante a guerra a Via Sacra,
estrada que ligava a França a Verdun e sua frente de batalha. Foi eleito presidente da França em 1913,
depois de desrespeitar um pacto entre os partidos republicanos. Nas semanas que antecederam a
deflagração, Poincaré viajou à Rússia, onde incentivou a intransigência de seu aliado, garantindo o
apoio francês em caso de guerra com as potências centrais. Foi acusado de querer a guerra para
retomar da Alemanha a Alsácia e a Lorena, perdidas na guerra franco-prussiana de 1870. Em sua
biografia sobre o político, John Keiger mostra que os papéis privados de Poincaré demonstram que o
francês não era um defensor da guerra e era menos antialemão do que se supunha. Sua mensagem
ao parlamento francês deu o tom de como o mundo político de seu país reagiu à guerra: "A França
será heroicamente defendida por seus filhos; nada deterá, diante do inimigo, a União Sagrada à qual
hoje estão fraternalmente unidos na mesma indignação contra o agressor e na mesma fé patriótica". /
M.G.

ARTILHARIA PESADA

O capitão alemão Harry Kessler tinha 46 anos no começo da guerra. Em suas memórias, ele conta que
estava perto de Liège, na Bélgica, em 12 de agosto de 1914 quando encontrou um grupo de artilheiros
austríacos recém-chegados de Trieste. O porto no Adriático pertencia então ao Império Austro-
Húngaro. Os recém-chegados cruzaram a Áustria e a Alemanha para trazer em segredo quatro
canhões Skoda que disparavam projéteis gigantes de calibre 305 mm. Não eram as únicas peças de
artilharia pesada a chegar naquele dia. Havia outras quatro peças de calibre 420 mm fabricadas pela
indústria alemã Krupp. Eram os gigantes Bertha.

Alberto I, rei da Bélgica

O rei que rejeitou o ultimato alemão para permitir que o vizinho atacasse a França por meio de seu
território subiu ao trono em 23 de dezembro de 1909. A resposta do kaiser Guilherme II ocorreu em 4
de agosto, quando suas tropas violaram a neutralidade belga. O rei dos belgas assumiu o comando de
seu pequeno exército e resistiu ao invasor durante quatro anos instalado atrás do Rio Yser, na região
de Flandres, a única de seu país que os alemães não conseguiram ocupar durante a guerra. Sua
família tinha ligações com a nobreza alemã - ele mesmo ostentava os títulos de duque de Saxe e
príncipe de Saxe-Cobourg-Gotha e sua mãe era a princesa Marie de Hohenzollern-Sigmaringen-, o que
aumentou ainda mais a surpresa na Europa causada por sua resistência ao invasor. O Exército belga
lutou ainda na África (Togo e Namíbia), mas se manteve fora das grandes ofensivas aliadas até pouco
antes do fim da guerra. / M.G.

Todo esse poderio de fogo tinha um objetivo: pôr de joelhos os fortes de Liège, que desde o dia 5 se
recusavam a se render aos alemães. No dia 15, estava tudo acabado. O peso das bombas dos
canhões venceu a resistência belga. O general Gérard Leman foi achado inconsciente entre as ruínas
e aprisionado. Sobre a cena que se seguiu, o historiador inglês John Keegan escreveu: “Da maca, na
qual seus captores o colocaram, ele disse ao general alemão Otto von Emmich: ‘Peço-lhe que dê seu
testemunho de que você me encontrou inconsciente’.”

A invasão da Bélgica começara em 4 de agosto. Ao mesmo tempo, o exército francês atacava na


Alsácia e na Lorena. Com seus casacos azuis e calças vermelhas, os homens marcharam em direção
às posições alemãs em colunas cerradas com bandeiras e fanfarras. Parecia uma cena napoleônica. A
guerra, no entanto, mudara. Milhares foram ceifados pelas metralhadoras e pela artilharia inimiga. Em

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um único dia – 22 de agosto –, os franceses sofreram 22 mil baixas, mais do que qualquer outra nação
em um único dia durante a guerra.

A ofensiva francesa foi um fracasso. Enquanto isso, os alemães aterrorizavam a Bélgica. Nas primeiras
semanas da guerra, 5. 146 civis belgas e franceses foram mortos em 129 represálias contra a
população civil ditadas pela paranoia alemã contra a ação de franco-atiradores. Em Louvain, o invasor
ateou fogo à biblioteca da universidade, queimando 300 mil volumes, executou habitantes e deportou
1,5 mil deles para a Alemanha. Massacres e pilhagens ocorreram em dezenas de cidades, como em
Dinant, onde 647 civis foram fuzilados diante de mulheres e crianças. Vencida a resistência belga, os
alemães caminharam para Paris. Queriam envolver o exército francês e acabar com a guerra em
menos de 40 dias. Marchavam triunfante. Nada parecia detê-los. / M.G.

A GUERRA NO LESTE

A frente Galícia

Em janeiro de 1914, o czar Nicolau II se encontrou com Théophile Delcassé, o embaixador francês em
São Petersburgo. Conversaram sobre um possível conflito na Europa: “Não vamos deixá-los pisar em
nossos pés e, dessa vez, não será como na guerra no Oriente: a nação nos apoiará”, disse o czar.
Nicolau II pensava no perigo de uma nova revolução, como a que ocorrera na Rússia em 1905, depois
da derrota do país na Guerra Russo-Japonesa.

Os exércitos de Nicolau II se dividiram em agosto de 1914. Dois deles se dirigiram à Alemanha,


invadindo a região da Prússia Oriental. Em Gumbinnen, no dia 20, eles bateram os alemães, que se
retiraram em meio a colunas de refugiados. O governo de Berlim pensava que o czar precisaria de 40
dias para mobilizar seus homens. Surpresos com a rapidez russa, decidiu trazer da França dois corpos
de exército, enfraquecendo as forças que invadiam aquele país. “Sem Gumbinnen, jamais teria havido
a vitória do Marne”, escreveu o historiador francês Marc Ferro. A derrota no Marne impediu a vitória
alemã em 1914.

Na Prússia, Gumbinnen provocou a mudança do comando alemão no Oriente. Os generais Paul von
Hindenburg e Erich Ludendorff assumiram a situação e manobraram suas forças de tal forma que
conseguiram cercar o 2.º Exército russo em Tannenberg. Foi a maior vitória alemã da guerra. Seguiu-
se depois o impasse, com os exércitos imóveis entrincheirados um diante do outro durante o inverno.

Mais ao sul, na região da Galícia (atual Polônia), austríacos e russos mobilizaram milhões de homens
desde a fronteira da Romênia até a Alemanha. A sorte da guerra na região mudaria rapidamente, mas
o ano terminaria com um desastres austríacos. Eles perderam a fortaleza de Lemberg e 150 mil de
seus homens estavam cercados em outra fortaleza, a de Przemyls (no sul da atual Polônia). O começo
da guerra significou para os russos a perda de 1 milhão de soldados e de outro 1,26 milhão para os
austro-húngaros. A incapacidade bélica do exército de Viena fez os alemães terem certeza de que
estavam “acorrentados a um cadáver”: a monarquia austríaca dos Habsburgos. / M.G.

Enquanto isso no Brasil...

O começo da guerra de 1914 viu a posse na Presidência do Brasil do mineiro Venceslau Brás. Ele
havia ocupado a Vice-Presidência durante o governo de Hermes da Fonseca (1910 a 1914) e derrotara
o republicano-liberal Ruy Barbosa. O País vivia no sul a Guerra do Contestado, uma rebelião de
caboclos contra os governos estadual e federal em torno da posse de terras em Santa Catarina, que só
acabaria em 1916. Em São Paulo, as famílias da elite cafeeira eram grandes, como a do futuro
presidente Washington Luís, fotografada pela revista Careta.

O futebol era já o esporte mais popular do País – o Flamengo se sagrara campeão carioca pela
primeira vez em 1914. Já os paulistas tiveram dois campeões naquele ano – o Corinthians e o São
Bento –, pois duas ligas distintas organizaram campeonatos no Estado. A publicidade anunciava novas
facilidades da vida moderna: "A senhora está satisfeita com seu marido?" Assim, com essa pergunta,
começava o texto do anúncio da Société Anonyme du Gaz do Rio de Janeiro para convencer que “o
bom marido” era aquele que comprava um fogão a gás para sua mulher. O anúncio ocupava uma
página da revista Careta e estava pouco antes da reportagem sobre as façanhas dos aviadores da
Escola Brasileira de Aviação, em Deodoro.

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Naquele ano, as "pessoas de bem" da então capital federal frequentavam o elegante salão do
Copacabana Club durante o carnaval. Em 28 de junho, quando o jovem Gavrilo Princip matou o
arquiduque Francisco Ferdinando em Sarajevo, o crime que prendia a atenção do mundo era outro: o
assassinato de Gaston Calmette, diretor do jornal francês Le Figaro. O jornalista foi baleado por
Henriette Caillaux, segunda mulher do ministro das finanças francês, Joseph Caillaux. O motivo do
crime foi o fato de Calmette ter publicado cartas privadas do ministro.

O Estado publicava no dia 1.º de agosto a manchete: A guerra austro-sérvia. No dia seguinte, adotaria
como manchete a palavra que marcou sua primeira página pelos próximos quatro anos: A
Conflagração. A guerra definitivamente entrava no cotidiano dos brasileiros. / M.G.

BATALHA DO MARNE

A Invasão da França

O jovem Yves Congar tinha dez anos e vivia em sua Sedan, na França, perto da fronteira da
Alemanha, quando escreveu em 29 de julho de 1914: “Eu consigo pensar sobre a guerra. Gostaria de
ser soldado e lutar”. Congar se tornaria um dos mais influentes teólogos da Igreja no século 20.
Dominicano, foi consultor do Concílio Vaticano 2.º e se tornaria cardeal em 1994, um ano antes de sua
morte.

Depois da Bélgica, os alemães invadiram a França. Sedan foi uma das cidades ocupadas e saqueadas
pelo invasor – o pai de Congar foi tomado como refém pelos alemães como prevenção à resistência da
população. Os exércitos alemães se dirigiam à região de Paris, um setor defendido apenas pelos 100
mil homens da Força Expedicionária Britânica e pelo 5.º Exército francês. Contra eles, marchavam três
exércitos alemães.

Os aliados foram batidos em Moons, Le Cateau, Maubege e retiravam-se em direção a Paris. Os


alemães atingiram a região do Rio Marne. Não sabiam que o marechal francês Joseph Joffre ordenara
a disposição de uma nova tropa, o 6.º Exército, para defender a capital francesa. Soldados foram
transferidos de trem da fronteira com a Alemanha a tempo de salvar a França. O contra-ataque
começou no dia 5. Sobre essa situação, escreveu o general francês Ferdinand Foch: “Minha direita
está ruindo, minha esquerda está recuando. Excelente. Ataco com meu centro”.

Às 9h02 de 9 de setembro, o 2.º exército alemão recebeu uma das mais dramáticas ordens da guerra:
retirar. Uma brecha entre ele e o 1.º exército alemão se havia aberto e colocava em risco toda a frente.
O mais impressionante da decisão foi ela ter sido tomada por delegação. De fato, foi o tenente-coronel
Richard Hentsch quem a determinou como enviado do chefe de estado-maior alemão, general Helmuth
von Moltke, para avaliar a situação. Para o historiador inglês Max Hastings, a derrota alemã no Marne
foi a “virada, o momento decisivo da 1.ª Guerra Mundial”. / M.G.

A QUEDA DE PRZEMYLS

O grande cerco de Przemyls começou em 17 de setembro de 1914. A cidade-fortaleza mantida pelo


Império Austro-Húngaro na Galícia (atual Polônia) contava com uma guarnição de cerca de 150 mil
homens. Era a chave das defesas do império dos Habsburgos diante dos Montes Cárpatos e acabou
envolvida pela maré russa que tomou a região depois que o exército de Viena foi derrotado perto de
Tarnopol, obrigando os alemães a correr em ajuda de seus aliados.

No fim de 1914, o avanço alemão em direção a Varsóvia havia obrigado os russos a levantar o cerco à
cidade. Era 9 de outubro. E foi por pouco tempo. Com o fracasso da ação alemã, os austríacos
também tiveram de se retirar em 26 de outubro, deixando mais uma vez a cidade-fortaleza sitiada. Ali
perto, no Rio Vístula, o filósofo Ludwig Wittgenstein acompanhou o drama da retirada.

Wittgenstein deixara Cambridge e se alistara no exército austro-húngaro. Foi designado para um barco-
patrulha. A guerra o decepcionou rapidamente. A começar pelos colegas da tripulação. O filósofo
descobriu que “compartilhar uma grande causa (a guerra) não enobrece a humanidade”. “Os russos
estão em nosso encalço”, escreveu no diário. “Trinta horas sem dormir”, anotou. Ele e seus colegas se
retiraram para Cracóvia.

Przemyls passou todo o inverno cercada. Trinta mil civis compartilhariam o destino dos militares. No
começo de 1915, a falta de comida levou ao abate de 13 mil cavalos do exército – na época, o

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transporte militar era largamente dependente da força animal. Em 23 de janeiro, os austríacos


lançaram uma ofensiva para tentar libertar a cidade. Ela fracassou assim como a tentativa seguinte, em
27 de fevereiro. Em 22 de março, a guarnição austríaca se rendeu. Cento e dezenove mil soldados
tornaram-se prisioneiros russos.

Os russos ficariam ali poucos meses. Em maio, os alemães e austríacos começaram uma grande
ofensiva. Em julho, Przemyls foi reconquistada. Em agosto, os russos se retiravam de Varsóvia e do
restante da Polônia.

A frente oriental

Pedro I, rei da Sérvia (1844-1921)

Quando o bombardeio austro-húngaro atingiu Belgrado em 28 de julho, fazia um mês que Pedro I havia
passado o governo de seu país ao filho, o futuro Alexandre I, que se tornou regente em razão da saúde
debilitada do pai. Pedro havia saído vencedor em duas guerras balcânicas - a primeira contra o Império
Otomano e a segunda contra a Bulgária. Colocado no poder pelos ultra-nacionalistas, pretendia criar a
Grande Sérvia, enfrentando a Áustria-Hungria. A Sérvia se tornara uma monarquia constitucional. Em
1914, um nacionalista sérvio - com o auxílio de oficiais do serviço de informações do país - matou em
Sarajevo o arqueduque austro-húngaro Francisco Ferdinando. O episódio levou o vizinho poderoso a
declarar guerra ao reino de Pedro I, que resistiu durante o primeiro ano até que em 1915 foi invadido
por forças austro-húngaras, búlgaras e alemãs. O exército sérvio e Pedro se retiraram pelas
montanhas em direção a Corfu, onde foram resgatados. Em dezembro de 1918, Pedro se tornou o
primeiro monarca da recém-criada Iugoslávia, que englobava a antiga Sérvia e três áreas do antigo
Império Austro-Húngaro: a Eslovênia, a Croácia e a Bósnia-Herzegovina. Morreu em 1921. / M.G.

O CAMINHO PARA LOOS

A frente ocidental

O escritor e poeta inglês Robert Graves contou em suas memórias (Goodbye to At All; leia a resenha
do jornal inglês The Guardian) como sobreviveu nas trincheiras da frente ocidental desde que se
alistara em 1914. “Eu me mantive de pé e vivo bebendo cerca de uma garrafa de uísque por dia.”
Graves foi um dos soldados que participaram da grande ofensiva aliada no Artois, na França, entre
setembro e outubro de 1915.

O velho exército imperial inglês de antes da guerra havia sido consumido no fim de 1914 na 1.º Batalha
de Ypres, no sul da Bélgica. Reconstituído com os voluntários que chegaram aos quartéis cantando It’s
a Long Way to Tipperary, música-símbolo dos homens de uniforme cáqui, o exército inglês teve de
cavar trincheiras a exemplo dos outros combatentes da frente ocidental para sobreviver. Do outro lado
do arame farpado da terra de ninguém (espaço entre as trincheiras inimigas), os alemães cavaram
mais fundo.

No começo do ano, uma primeira ofensiva inglesa fracassara em Neuve-Chapelle. Em maio, os


ingleses atacaram novamente. O alvo era a Crista de Aubers, no Artois. Ao mesmo tempo, os
franceses tentaram conquistar outra área elevada na mesma região, a de Vimy. Os ataques só
acrescentaram mais algumas dezenas de milhares de nomes às listas dos mortos nos campos de
honra publicadas pela imprensa inglesa.

Chegava o dia 25 de setembro. Os ingleses usaram seus engenheiros para colocar minas embaixo da
linha de trincheiras alemãs. Iam explodi-las no momento em que o avanço de seus soldados
começasse. Durante quatro dias, a artilharia martelara as defesas alemãs. Por fim, abriu centenas de
cilindros com o gás cloro, mas o vento contrário fez com que o veneno fosse parar nas linhas inglesas.

Quando deixaram as trincheiras no dia 25, os ingleses pensavam que haveria pouca resistência.
Avançaram de peito aberto em direção aos alemães, que saíram de seus abrigos profundos cavados
nas trincheiras e assumiram os postos em suas metralhadoras a tempo de provocar um massacre. Dos
15 mil britânicos que se lançaram ao ataque, 8 mil foram mortos ou feridos no primeiro dia. A batalha
durou até 14 de outubro. Custou 60 mil baixas aos ingleses e 30 mil aos alemães.

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JIHAD

O prédio em estilo barroco, ao lado do Bósforo, abrigava a embaixada alemã em Constantinopla. Seu
titular era o barão Conrad von Wangenhein, um amigo do kaiser Guilherme II, com excelentes relações
com o governo dos jovens turcos, o grupo político que se rebelara contra o sultão Abdul Hamid II em
1908 – ele acabou exilado e substituído pelo irmão, Maomé V, em 1909. Em agosto de 1914, o alemão
recebeu em seu gabinete o embaixador americano, Henry Morgenthau, e fez uma revelação: o Império
Otomano entraria na guerra do lado da Alemanha, mas o que importava mesmo era “o mundo
muçulmano”. Mais do que ganhar um aliado, os alemães contavam em transformar a conflagração em
uma jihad, uma guerra santa que sublevasse o Islã contra os russos, ingleses e franceses.

As previsões do embaixador começaram a se cumprir em 29 de outubro de 1914. Navios turcos


bombardearam quatro portos russos no Mar Negro. Em 2 de novembro, a Rússia declarou guerra à
Turquia e foi seguida no dia 5 pela Grã-Bretanha e pela França. No dia 14, o xeque Ul-Islam, em nome
do sultão Maomé V, decretou a jihad. Havia 270 milhões de muçulmanos no mundo em 1914, dos
quais 140 milhões viviam sob o mando franco-russo-britânico. Contra esses países, o sultão esperava
lançar o “fogo do inferno”.

Mas os jovens turcos tinham outros planos. Mobilizaram suas melhores tropas para invadir o Cáucaso,
na Rússia, em vez de lançá-las em direção à Índia – a joia da coroa britânica – ou o Canal de Suez, no
Egito, então protetorado britânico. Sem botas e casacos de inverno, o exército turco enfrentou - 31°C e
congelou na Batalha de Sarikamish. O desastre levou à perda de 75 mil homens.

A derrota provocou pânico. Os armênios – cristãos que viviam na região – foram transformados em
bode expiatório. O governo turco decidiu deportá-los, provocando a maior crise humanitária da guerra.
É impossível calcular quantos armênios morreram. As estimativas vão de 1,3 milhão a 2,1 milhões. O
chamado pela guerra santa fracassou. Nenhum movimento de resistência muçulmano nasceu do
decreto de jihad turco.

Por fim, em 25 de abril, franceses, ingleses, australianos e neozelandeses desembarcaram na


Península de Gallipoli, no Estreito dos Dardanelos. Ficaram lá até 1916 e o ataque – concebido por
Winston Churchill, então primeiro lorde do almirantado inglês para levar à derrota da Turquia –
transformou-se em mais um dos desastres militares da guerra. Cento e dez mil turcos e aliados
morreram na campanha. Outros 200 mil ficaram feridos.

FRATELLI D'ITALIA

A frente italiana

Quem dá mais? Essa é a pergunta que pode definir a política em relação à guerra do primeiro-ministro
italiano Antonio Salandra. Ele mesmo a chamava em 1915 de “sacro egoísmo”, ao indagar qual dos
dois lados da guerra poderia assegurar mais ganhos territoriais à Itália em troca de seu apoio. A
entrada da Itália na guerra está intimamente ligada ao chamado irredentismo, movimento que buscava
unir debaixo do governo de Roma todas as regiões habitadas por italianos. Como a maioria delas
estava sob domínio austro-húngaro, não era difícil prever qual lado receberia seu apoio. E assim foi: a
Itália, que antes da guerra era aliada da Alemanha e do Império Habsburgo, as chamadas potências
centrais, declarou guerra à Áustria-Hungria em 23 de maio.

Milhares de italianos e filhos de italianos ao redor do mundo se mobilizaram para lutar pelo país. De
São Paulo partiu em 1915 o jovem Amerigo Rottelini. Nascido em 1894, ele era filho do jornalista
Vitaliano Rottellini, dono do jornal Fanfulla, editado em italiano na cidade. Amerigo se tornou tenente do
exército real italiano e morreu em 24 de agosto de 1917, quando conduzia um assalto com seus
soldados. Em São Paulo, o comendador Ermelino Matarazzo fundou o Comitatto Pro Patria, para reunir
doações em dinheiro, alimentos e roupas para os soldados italianos e seus familiares – esforço que lhe
valeu o reconhecimento do governo italiano.

Quatro quintos da fronteira italiana com os austríacos eram constituídos de montanhas de até 3 mil
metros de altitude cobertas de gelo e neve no inverno. Explosões ali podiam facilmente provocar
avalanches. E os italianos atacaram nos Alpes da região do Trentino e no Vale do Rio Isonzo, perto do
Mar Adriático. Só nas quatro batalhas do Isonzo, em 1915, 54 mil italianos morreram e pouco terreno
foi conquistado. Um novo impasse com os exércitos imobilizados em trincheiras surgia na Europa.

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

O MUNDO EM GUERRA

Gás

Civis russos vítimas do gás alemão. Crédito: Acervo Estado

Os alemães inventaram a guerra química. Em 1914, o gás foi usado em Neuve Chapelle, em outubro
de 1914. A quantidade era pouca e passou despercebida pelos ingleses. Em janeiro de 1915, nova
ação alemã. Dessa vez, na frente oriental. Em Bolimov, testaram um gás lacrimejante contra os russos,
mas a maior parte congelou. Foi só em abril de 1915 que seu exército esperou o vento soprar em
direção aos franceses e liberou gás cloro de seis mil cilindros abertos em suas trincheiras. Quase seis
mil soldados morreram. Durante a guerra, ingleses, franceses e alemães usaram 130 toneladas de
gases venenosos. Depois do cloro, outros agentes, como gás mostarda e o fosgênio, foram utilizados.
A arma que se tornou um dos símbolos da guerra seria banida delas por meio de tratado internacional
em 1925. / M.G.

Às 9h15 de 25 de setembro, o bombardeio das linhas alemãs cessou. Dois milhões de obuses haviam
sido lançados pela artilharia francesa em três dias. Foi quando os homens do 23.º Regimento de
Infantaria Colonial se lançaram ao ataque. No fim do dia, mil deles estavam mortos, mas a posição
alemã em Massiges, na Champagne, no norte da França, estava conquistada. Os regimentos coloniais
eram constituídos principalmente por soldados da metrópole enviados às colônias. Eles foram
mobilizados para a guerra assim como as unidades de tirailleurs (atiradores), formadas pelos povos
das colônias.

Quase um milhão de marroquinos, zuavos, spahis, senegaleses, marroquinos vietnamitas e malgaxes


foram enviados para a luta na Europa. Os ingleses mobilizaram 1,3 milhão de tropas do Canadá, da
Austrália, da Nova Zelândia e da África do Sul, que lutaram na Europa. Outro 1 milhão de africanos e
hindus entraram no exército inglês. Eles combateram os otomanos na Mesopotâmia, no Sinai, na
Palestina e enfrentaram os alemães na China e na Tanzânia, nos Camarões e na Namíbia, as três
principais colônias alemãs na África.

No Oriente Médio, a revolta árabe – com a ajuda do oficial inglês T.E. Lawrence, o Lawrence da
Arábia interpretado por Peter O’Toole no filme dirigido por David Lean – e a promessa inglesa de
terra e liberdade para árabes e judeus começariam a desenhar a crise que toma conta da região até
hoje. Os ingleses contaram com os japoneses na ação contra as colônias alemãs na China e no
Pacífico. Em 7 de novembro, os 5 mil alemães da guarnição de Tsingtao se renderam aos 60 mil
japoneses e 2 mil britânicos que os cercaram. A tomada de Tsingtao marcou o início do expansionismo
japonês na China,política que levaria o país a atacar Pearl Harbor em 1941. Os japoneses
completariam sua ação na Grande Guerra tomando para si as Ilhas Marina, Carolinas, Marshall e
Gilbert.

Em 7 de junho de 1915, o jornalista Julio Mesquita escreveu no Estado:

Não se contentou o império do Mikado com o rico prato de gordas e saborosas concessões e
magníficos privilégios que a Alemanha lhe preparou, a Inglaterra lhe ofereceu, e ele aceitou por conta
de maior quantia. O Japão quer mais e tenta reduzir a pobre China, hoje mais desamparada que
nunca, a uma quase completa vassalagem, resolvendo assim, quase sem esforço, (...) o amplo e
complicado problema da dilatação do seu domínio e da sua supremacia no Extremo Oriente.”

Na África, os alemães foram derrotados na Namíbia e em Camarões em campanhas nas quais os dois
lados mobilizaram grandes contingentes de tropas nativas. Do outro lado da África, o general alemão
Paul von Lettow-Vorbeck lutou contra ingleses, sul-africanos, portugueses, moçambicanos, congoleses
e hindus. No começo, tinha 3 mil askaris (soldados negros) e 200 oficiais alemães. Depois, aumentou
seu exército para 20 mil homens – seus inimigos eram 300 mil. Lettow-Vorbeck se rendeu em 25 de
novembro de 1918, depois de o armistício ter sido assinado na Europa.

1916

O ANO DE VERDUN

A Batalha de Verdun

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Quem não viu esses campos de morte jamais terá a menor ideia deles. Em Verdun, os mortos não
contavam. Nem se enterravam. Da lama inescapável à sede infinda, o ambiente tornava improvável
que a vida de um soldado durasse mais de 15 dias na frente de batalha.

“Quando a gente chega, os obuses chovem em toda parte e a cada passo. Apesar de tudo, é
necessário avançar. A gente deve se contorcer para não passar sobre um morto coberto no fundo da
trincheira. Mais longe, vários feridos recebem curativos, outros são levados em macas para retaguarda.
Uns gritam, outros gemem. Vê-se os que não têm mais pernas; outros estão sem a cabeça e
permanecem várias semanas no chão”, escreveu em uma carta um soldado da 65.ª Divisão de
Infantaria francesa, em julho de 1916. A luta ali só terminaria em dezembro.

Para a França, 1916 é o ano de Verdun, o ano da batalha que o estado-maior alemão planejou para
sangrá-la até o fim. O plano era atacar a histórica fortaleza e forçar o inimigo a contra-atacar até
esgotar suas forças. O assalto alemão começou em 21 de fevereiro. Um conjunto de 1,2 mil canhões
disparou em uma frente de 20 quilômetros de extensão. O avanço inicial alemão foi avassalador. O
Forte de Douaumont, o coração do sistema defensivo de Verdun, caiu às 3h30 do dia 25.

A cidade só não caiu por causa da determinação francesa. O general Philippe Pétain assumiu o
comando. A estrada que ligava Verdun a Bar-le-Duc se transformou na Via Sacra. O tráfego ali não
parava, dia e noite. O que parecia ser a véspera da vitória alemã se transformou em mais uma batalha
de atrito, um moedor de carne e de materiais. E assim foi até que os franceses contra-atacaram. No dia
21 de outubro, os marroquinos e a infantaria colonial retomaram Douaumont. Na noite de 2 para 3 de
novembro, foi a vez da reconquista do Forte de Vaux. Em 15 de dezembro, a última ofensiva francesa
assegurou mais cinco fortificações e fez 11,3 mil prisioneiros. As baixas alemãs chegaram a 337 mil –
dos quais 143 mil mortos –, enquanto as francesas atingiram 377,2 mil – 162,4 mil mortos.

O MASSACRE DO SOMME

Um general que participara de sessões espíritas na qual conversara com o espírito de Napoleão e
pensava poder se comunicar com Deus era o homem que os ingleses encontraram para comandar seu
exército em 1916. Assim era Douglas Haig, conta o historiador inglês John Keegan. No dia 1.º de julho
de 1916, ele lançou seus homens no vale do Rio Somme contra as defesas alemãs – alguns dos
abrigos inimigos tinham mais de dez metros de profundidade e eram impenetráveis para qualquer
projétil de artilharia britânica.

Pior do que as defesas alemãs foi a inépcia do comando. Em alguns setores, nem mesmo o arame
farpado que separava os ingleses dos alemães foi destruído e isso significava a morte para qualquer
soldado que tentasse atacar o oponente. Dos 100 mil ingleses que subiram o topo de suas trincheiras
para avançar contra o inimigo, 19.240 morreram e outros 38.230 ficaram feridos ou desaparecidos no
primeiro dia da ofensiva.

Os ingleses insistiram nos ataques nos meses seguintes. E lançaram mão de uma grande inovação na
história das guerras. Em Flers, no dia 15 de setembro, eles levaram 32 Mark I para a frente de batalha.
Eram monstrengos que se deslocavam lentamente e carregavam dois canhões de 57 mm e quatro
metralhadoras. Eles surpreenderam os alemães, mas ainda levaria algum tempo até que esse invento
se tornasse decisivo nos campos de batalha.

Depois disso, a chuva se encarregou de deixar o terreno do Somme intransitável. Até que em 18 de
novembro as operações na região foram suspensas. Um balanço de perdas é difícil de se fazer. Hew
Strachan, outro notável historiador inglês da 1.ª Guerra, calcula em 650 mil as baixas alemãs –
incluindo aí feridos leves – e 614 mil dos aliados, das quais 420 mil foram britânicas. Tudo isso para a
conquista de poucos quilômetros de terra e pelo sonho de abrir uma brecha na linha inimiga e, assim,
pôr um fim à guerra. / M.G.

GUILLAUME APOLLINAIRE

O poeta Guilhaume Apollinaire foi um dos escritores que combateram na 1.ª Guerra Mundial. Engajou-
se na artilharia e foi ferido gravemente em combate. Calligrammes, sua principal obra, tem como
subtítulo "poemas da paz e da guerra" (Apollinaire, Oeuvres poétiques, Gallimard, Bibliothèque de la
Pléiade). As imagens da guerra e de suas misérias estão presentes em diversos poemas de
Apollinaire, como neste, Cota 146, o terceiro dos Poèmes à Madeleine.

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COTA 146¹

Planos Desolação inferno de moscas Fusão de verde


branco e vermelho
Salvas de 50 bombas nas trincheiras tal qual
de quatro nos debatemos para expulsar a po-
eira do tapete
Crateras góticas como as catedrais
Rumor de moscas violentas
Cartas lacradas em uma caixa de charutos de Oran²
A entrega d'água vem com suas vasilhas
Os feridos vão sozinhos pelos inumeráveis caminhos
secos
Ramificações de Decauville
Lá se joga esconde-esconde
Se faz a cabra-cega
Que sonhos
Madeleine o que não é do amor não tem remédio
Tuas fotos no meu peito
E as moscas metálicas são pequenos astros talvez
A cavaleiro a cavaleiro a cavaleiro a cavaleiro
Ó plano onde em toda cratera vegetam os homens
Ó plano onde as trilhas vão como os traços sobre
a ponta dos dedos nas pedras monumentais de Gravinis
Madeleine teu nome é uma rosa incerta
rosa dos ventos ou da roseira
Os vaqueiros vão às fontes a 7 km daqui
Perthes Hurlus Beauséjour nomes pálidos e tua Cidade sobre
Tourbe³
Cemitérios de soldados cruzes onde chora o quepe
Sombra de carne putrefata as árvores assim raras
são mortos pregados na cruz
Ouvi chorar o obus que passa em tua testa

1. Cota é a designação militar de uma elevação em um terreno. Os artilheiros, como era o caso de
Apollinaire, usavam referências na paisagem para calibrar o tiro de seus canhões

2. A caixa pode ser de charutos, mas também craniana, ou seja de cabeça. As cartas estariam
lacradas na cabeça. Nesse sentido, Oran, na Argélia, seria uma referência às tropas colonias vindas da
África para combater na França.

3. Cidades do Vale do Rio Marne, onde se travaram combates na 1.ª Guerra. O Tourbe é um rio da
região do Marne. Apollinaire foi ferido na cabeça durante os combates.

COTE 146

Plaines Désolation enfer des mouches Fusées le vert


le blanc le rouge
Salves de 50 bombes dans les tranchées comme quand
à quatre on fait claquer pour en faire sortir la pous-
sière un grand tapis
Trous semblables à des cathédrales gothiques
Rumeur des mouches violentes
Lettres enfermées dans une boîte de cigares venue d'Oran
La corvée d'eau revient avec ses fûts
Et les blessés reviennent seuls par l'innombrable boyau
aride
Embranchement du Decauville
Là-bas on joue à cache-cache
Nous jouons à colin-maillard
Beaux rêves

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Madeleine ce qui n'est pas à l'amour est autant de perdu


Vos fotos sur mon coeur
Et les mouches métalliques petits astres d'abord
A cheval à cheval à cheval à cheval
O plaine partout des trous où végètent des hommes
O plaine où vont les boyaux comme les traces sur le
bout des doigts aux monumentales pierres de Gravinis
Madeleine votre nom comme une rose incertaine
rose des vents ou du rosier
Les conducteurs s'en vont à l'abreuvoir à 7 km d'ici
Perthes Hurlus Beauséjous noms pâles et toi Ville sur
Tourbe
Cimitières de soldats croix où le képi pleure
L'ombre est de chairs putréfiées les arbres si rares sont
des morts restées debout
Ouïs pleurer l'obus qui passe sur sa tête.

O GENERAL E O MONGE

A Ofensiva
Brussilov

1.º de junho a 29 de setembro

Gregory Rasputin era um monge que acreditava que podia resolver problemas das mulheres com
casamentos conturbados mantendo com elas relações sexuais. Suas crenças e escândalos pareciam
pôr em risco a segurança do próprio estado russo ainda mais quando sua influência sobre a czarina
Alexandra o permitia fazer e desfazer ministros. A mulher de Nicolau II acreditava que Deus enviara o
monge, pois só ele parecia cessar os sofrimentos do herdeiro do trono, seu filho Alexei, que era
hemofílico.

Rasputin era contra a guerra e tentou fazê-la parar ou limitar seus efeitos, mesmo durante as batalhas
vitoriosas. O místico se tornara um estorvo para nobres e militares, entre eles Aleksei Brussilov, o mais
competente entre os generais russos da 1.ª Guerra. Em 4 de julho de 1916, apoiado por quase 2 mil
canhões, ele lançou a ofensiva que levaria seu nome na região da Galícia (atual Polônia). Tinha 200
mil homens para lutar contra 150 mil austro-húngaros. Em pouco tempo, Brussilov abriu um brecha nas
defesas inimigas e fez mais de 100 mil prisioneiros. Alemães e austríacos tiveram de trazer tropas da
França e da Itália para detê-lo, mas suas vitórias continuaram em agosto e setembro. Os combates
haviam provocado quase 2 milhões de baixas nos dois lados quando o monge aconselhou a czarina a
pedir a Nicolau II que acabasse com a ofensiva, o que foi feito.

A decisão fez de Brussilov um conspirador. Ele se juntou ao grupo de civis e militares que pretendiam
prender a czarina, depor o czar e entregar o poder ao seu primo, o grão-duque Nicolau Nicolaievitch.
Depois da Revolução de Fevereiro, que deporia a monarquia em 1917, Brussilov comandou os
exércitos russos até agosto, quando foi substituído após o fracasso da ofensiva lançada pelo governo
provisório de Alexander Kerensky. No fim de sua vida, Brussilov viveria aposentado em Moscou e
apoiaria o esforço de guerra soviético em 1920 no conflito com os poloneses. Morreu em 1924. / M.G.

Francisco José, o imperador da Áustria-Hungria

Em 1917, o império dos Habsburgos era uma entidade doente. Um espectro o rondava desde que
Francisco José I subiu ao trono aos 18 anos: a revolução. Era 1848. As revoltas na Boêmia, em Viena
e na Hungria levaram à abdicação de Fernando 1º em favor de seu sobrinho. O homem que se formara
à sombra do conde de Metternich e do general Joseph Radetzky (homenageado pelo compositor
Johann Strauss com a marcha que leva seu nome) esmagou as rebeliões, mas teve depois de ceder.
Primeiro, por meio do acordo com os húngaros, criando o dualismo da monarquia.

Depois, assistiu ao longo declínio militar do império, derrotado nas guerras de reunificação da Itália (por
franceses e piemonteses, na Batalha de Solferino, em 1959) e da Alemanha (pela Prússia, na Batalha
de Sadowa, em 1866). Teve de aceitar o voto universal no império em 1907, ao mesmo tempo em que
anexava a Bósnia-Herzegovina. Quando a guerra começou, sua autoridade estava esgarçada. A morte

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do sobrinho e herdeiro, Francisco Ferdinando, em um atentado cometido por nacionalistas sérvios em


Sarajevo, foi usada pelos falcões de sua corte para levar o império à guerra em 28 de julho contra a
Sérvia, decisão que arrastou a Europa e depois o mundo para a conflagração. Morreu em 1916. Com o
fim da guerra e a derrota no conflito, o império se desfez. / M.G.

BLOQUEIO

Winston Churchill dizia que havia um único homem na Inglaterra que podia perder a guerra em uma
única tarde. Esse homem era John Jellicoe. Desde 1588, nenhum almirante britânico havia tido sob seu
comando toda a esquadra do país. E, se ela fosse derrotada pela frota de alto-mar alemã, o reino
ficaria indefeso. Para o escritor Max Hastings, Churchill exagerava. Mesmo que Jellicoe sofresse
pesadas baixas, faltaria aos alemães meios de impor um bloqueio ao Reino Unido, única forma de
esmagar a Grã-Bretanha.

A guerra no mar começara em agosto. No Pacífico, o almirante alemão Maximilian von Spee levou seu
esquadrão da China ao Chile, onde afundou na Batalha de Coronel, em 1.º de novembro, os
cruzadores britânicos mandados para interceptá-lo. Foi a pior derrota inglesa nos mares durante a
guerra. Para enfrentar Spee, os britânicos mandaram dois cruzadores de batalha e cinco cruzadores
leves. O encontro ocorreu em dezembro diante de Port Stanley, nas Ilhas Malvinas. Três navios
alemães foram afundados pelos ingleses e 2,2 mil marinheiros morreram. Pouco antes, os alemães
haviam perdido seu cruzador Emden nas Ilhas Coco.

Depois disso, só em duas oportunidades durante o conflito a guerra no mar envolveria os


encouraçados das grandes frotas. A primeira foi em Dogger Bank, quando os alemães perderam a
maior oportunidade estratégica durante a guerra de enfrentar com todas as suas forças uma parte
reduzida da esquadra inglesa. A segunda vez foi em Jutlândia, a grande batalha naval da guerra.
Jutlândia foi um desses momentos em que o dito de Churchill poderia ter se transformado em verdade.
As duas grandes esquadras se enfrentaram no Mar do Norte entre os dias 31 de maio e 1.º de junho.
Vinte e cinco navios foram a pique, matando 8,5 mil marinheiros. Depois disso, a frota alemã não mais
deixou seus portos.

A guerra no mar continuaria até 1918. Mas a Alemanha apostaria unicamente em seus submarinos
para dobrar a Grã-Bretanha e acabar com o bloqueio inglês, que a partir de 1917 começou a sufocar a
economia alemã. O uso indiscriminado da guerra submarina atingiria navios de países neutros, como
os Estados Unidos e o Brasil, que declararia guerra à Alemanha em outubro de 1917. Tudo isso por
nada, pois, no fim, os submarinos se mostrariam incapazes de atingir decisivamente a Inglaterra e os
seus aliados. / M.G.

A GUERRA NO CÉU

O capitão americano Eddie Rickenbacker decolou em seu avião para abater balões inimigos.
Amanhecia e não havia previsão de que aviões inimigos estivessem no ar até que um caça alemão
apareceu diante do avião Spad do capitão. Eles sobrevoavam a região entre o Rio Meuse e a Floresta
da Argonne. O caça alemão começou a atirar e Rickenbacker respondeu. Ambos foram atingidos. O
inimigo caiu entre as trincheiras americana e alemã, tornando-se um dos 26 aparelhos abatidos pelo
piloto americano na guerra.

Com o motor avariado, o capitão pousou em um campo em Verdun. Foi quando os mecânicos
examinaram a aeronave. Havia 27 perfurações em seu avião. Uma delas entrara pelo lado direito do
para-brisa. Quando era criança em Omaha, no Nebraska, no Meio-Oeste americano, o capitão
Rickenbacker sofreu um pequeno acidente. Uma cinza quente caiu em seu olho direito, deixando um
ponto negro em sua pupila. O problema não impediu que ele se tornasse uma dos principais ases da
aviação na 1.ª Guerra Mundial. Mas Rickenbacker sempre teve medo de que o pequeno ponto negro o
impedisse de ver a aproximação de um avião inimigo. Por isso, ele mirava com o olho esquerdo, o que
o fazia se inclinar para esse lado no cockpit de seu avião. Foi o que o salvou naquele dia. A bala
passou a uma polegada de sua cabeça.

Poucos dos maiores ases da guerra sobreviveram ao conflito. O alemão Manfred Richthofen, o Barão
Vermelho, morreu em 21 de abril de 1918 depois de derrubar 80 inimigos. O major inglês Edward
Mannock morreu no dia 16 de julho de 1918 após abater 73 inimigos. O italiano Francesco Barraca fora
abatido dias antes, em 19 de junho, depois de colecionar 34 vitórias contra os inimigos. Em 11 de

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setembro de 1917, foi a vez de o capitão francês Georges Guynemer ser morto. Ele havia vencido 53
combates e sobrevivido a sete pousos de emergência após ser atingido por inimigos.

A 1.ª Guerra Mundial viu o avião se transformar em uma arma letal. Além dos combates entre pilotos,
eles também foram usados para metralhar e bombardear tropas e cidades. Era o começo de uma era
que tornaria o domínio dos céus uma das condições para a vitória na guerra moderna. / M.G.

1917

REVOLUÇÃO

Marcelo Godoy

Um exilado russo que vivia na Suíça escreveu em setembro de 1914: “A transformação da atual guerra
imperialista em guerra civil é a única palavra de ordem proletária justa”. Nos anos que se seguiram, o
grupo clandestino que ele – Vladimir Ilitch Lenin – comandava se tornaria a mais poderosa força
política de seu país. Sob a promessa de paz, pão e terra para o povo, os bolcheviques acabaram com
o conflito com a Alemanha. Retiraram o império do czar da conflagração mundial, mas o país
mergulharia até 1921 em uma guerra civil tão mortífera quanto a primeira.

No começo de 1917, dois anos e meio de guerra, com suas doenças, mortes, destruição e fome,
haviam colocado a Rússia novamente à beira da revolução, como em 1905, quando o país perdera o
conflito para o Japão. Em janeiro, um agente secreto da polícia do czar escreveu: “Crianças estão
emaciando. A revolução – se isso ocorrer – será espontânea, semelhante a um motim contra a fome.”
Em 22 de janeiro, sua previsão se cumpriu. Cento e cinquenta mil trabalhadores marcharam por
Petrogrado e dezenas de milhares fizeram o mesmo em outros cidades russas. Alguns carregavam
cartazes: “Abaixo a guerra” e “Abaixo a autocracia”. Em 8 de março (calendário ocidental), mulheres da
indústria têxtil entraram em greve. Em dois dias, 200 mil trabalhadores estavam parados.

Nas ruas, o embaixador francês, Maurice Paléologue, os ouvia cantar a Marselhesa. Fora da cidade, o
czar ordenou que a guarnição de Petrogrado restabelecesse a ordem. Mas, no dia 11, os soldados
começaram a se amotinar. Na tarde seguinte, mais de 20 mil deles estavam nas ruas. Impedido de
voltar a Petrogrado, o czar parou no quartel do general Nicolai Ruszkiy. Ele e o chefe do estado-maior,
general Mikhail Alekseyev, aconselharam-no a abdicar. Entre a lealdade ao soberano ou à nação,
disseram, o exército escolheria a segunda. E assim foi. Nicolau II renunciou em favor de seu irmão
mais novo, Miguel, que por sua vez renunciou um dia depois e convocou a eleição de uma Assembleia
Constituinte. Um governo provisório sob o comando do príncipe Georg Lvov assumiu o poder.
Acabavam assim três séculos de domínio dos Romanov.

UM PLANO INFALÍVEL

A frente ocidental

Janeiro a maio de 1917

Os aliados tinham tudo planejado. Os ingleses atacariam da direção norte, no Artois, para o oeste
enquanto os franceses avançariam do sul, no Chemin des Dames, em direção ao norte. O movimento
criaria duas grandes pinças para cercar os alemães na região do Rio Somme, que formava uma
saliência na frente de combate. Mas, dias antes de os ataques começarem, o inimigo se retirou da área
que deveria ser envolvida pelo avanço aliado, deixando a ala esquerda da ofensiva francesa na região
do Rio Aisne sem oposição.

“A conclusão lógica era adiar toda a operação”, escreveu o historiador inglês Hew Strachan. Mas os
aliados decidiram o contrário. E um dos motivos para isso foi salvar a Rússia. “Não esqueçam que o
exército francês está fazendo preparativos para uma grande ofensiva, e o exército russo tem o dever
de honrar a sua parte nisso”, escreveu o embaixador francês em Petrogrado, Maurice Paléologue, ao
governo provisório daquele país em 13 de março.

A retirada alemã diminuíra a frente de combate que seu exército devia cuidar. Durante meses, seus
homens haviam escavado uma grande fortificação, conhecida como Linha Hindenburg, e ali se
abrigaram à espera dos aliados. Mesmo assim, os ingleses atacaram na região de Arras em uma frente
de 24 quilômetros onde o inimigo ainda se mantinha firme. Eles reuniram 2,7 milhões de projéteis de

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

artilharia com espoletas rápidas, que explodiam quando a bomba tocava no solo, aumentando seu
impacto e cortando facilmente o arame farpado.

Durante todo o inverno, tropas canadenses foram treinadas para se acostumar com o terreno que
deveriam conquistar. Os soldados avançaram logo atrás do fogo da artilharia, que fazia uma barragem
logo adiante. Por volta das 13 horas de 9 de abril, eles haviam avançado 3,5 quilômetros e capturado
as colinas conhecidas como Vimy Ridge. Os alemães trouxeram reforços. Em pouco tempo, barraram o
avanço aliado. Mais um plano para resolver o impasse da guerra de trincheiras começava a atolar. /
M.G.

OS MOTINS DO EXÉRCITO FRANCÊS

A abdicação do czar na Rússia coincidiu com uma série de crises governamentais na França. O
comandante do Exército, Joseph Joffre, havia sido afastado depois de ser considerado culpado pelo
fracasso da estratégia em 1916. Seu sucessor como comandante-em-chefe, o general Robert Nivelle,
tinha certeza de ter a fórmula para romper as linhas alemãs e ganhar a guerra. Isso significava mais
ofensiva.

Para azar dos soldados franceses, seu general escolheu atacar o Chemin des Dames, a região que
abrigava as mais fortes defesas alemãs em toda a frente ocidental. Três exércitos se lançaram em
direção à catástrofe em 16 de abril. As bombas da artilharia francesa caíram em trincheiras alemãs
vazias – de sua posição mais alta, os inimigos puderam antever toda a preparação de Nivelle e se
retirar.

O massacre foi quase completo. Quando o fogo dos canhões cessou, a infantaria francesa foi
surpreendida pelas metralhadoras alemãs colocadas em pontos estratégicos. Em uma semana, os
hospitais que esperavam 10 mil feridos estavam lidando com 96 mil. Uma divisão senegalesa, cujos
soldados já sofriam com o congelamento, perdeu 60% de seu efetivo. Os soldados começaram a
desobedecer. Cerca de 40 mil deles, concentrados entre as cidades de Soissons e Reims, recusaram-
se a voltar para a linha de frente.

Era uma espécie de greve contra o comando incompetente e as péssimas condições de vida nas
trincheiras. Eles queriam também mais licenças para visitar suas famílias. Os soldados ainda estavam
dispostos a defender a França, mas dentro de suas condições. Diante do desastre militar e da crise no
exército, o governo resolveu nomear o general Phillipe Pétain chefe do estado-maior em 29 de abril.
Era o começo da queda de Nivelle.

No começo de maio, soldados que se dirigiam a Chateau Thierry contavam a Internacional e gritavam
“abaixo a guerra e “longa vida à revolução”. Em 8 de maio, Pétain substituiu Nivelle como comandante-
em-chefe do Exército. No dia seguinte, a ofensiva no Chemin des Dames foi suspensa - a França
registrava 187 mil mortos ou feridos.

Os motins foram reprimidos com vigor moderado: dos 629 soldados condenados à morte entre maio e
outubro, só 43 foram executados. Pétain aumentou as licenças e atendeu a outras reivindicações dos
soldados. O mais importante, porém, é que a partir dali o exército francês adotou a defesa como sua
estratégia de guerra./ M.G.

A MORTE NOS FLANDRES

'Tempestades de Aço'

O escritor alemão Ernest Jünger lutou na Primeira Guerra durante quatro anos. Foi ferido diversas
vezes e fez de suas notas durante a guerra seu mais famoso livro: Tempestades de Aço
(Stahlgewittern). Eis um trecho sobre Passchendaele:

Defrontamo-nos em todo lugar com traços da morte. Parecia que não podíamos encontrar alma viva
nesse deserto. Aqui, atrás de uma cerca arruinada, um grupo jaz – os cadáveres ainda recobertos pela
terra que chovera sobre eles após o estouro do obus. Ali, dois mensageiros estão estendidos na borda
de uma cratera de onde ainda sobe a fumaça de gás da explosão. Em outro lugar, numerosos corpos
dispersos em um pequeno espaço: um destacamento de intendentes tombados em meio à chuva de
fogo, ou uma seção desgarrada de reforços que ali encontrou a sua morte. Fizemos nossa entrada;
abraçamos com um olhar os segredos desses cantos mortais e voltamos a desaparecer na fumaça.”

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Tradução da edição francesa (Orages d’Acier): Marcelo Godoy

Durante um ano, engenheiros ingleses cavaram a 25 metros de profundidade galerias em direção à


Crista de Messines, na Bélgica. Vinte e quatro túneis foram abertos. Debaixo dos profundos abrigos
das trincheiras do inimigo, os britânicos depositaram 500 mil quilos de explosivos. Com a exaustão de
franceses e russos, Londres foi obrigada a fazer sua ofensiva sozinha. A escolha da marinha e do
exército foi atacar nos Flandres, no sul da Bélgica, a fim de avançar até as cidades costeiras de Ostend
e Zeebrugge, acabando com as bases que os alemães criaram para seus submarinos naquele país.

Eram 3h10 de 7 de junho quando 19 detonações das gigantescas minas criaram “rosas com pétalas
carmim ou enormes cogumelos de fogo e terra, que subiram para o céu”, escreveu o historiador John
Terraine em The Road to Passchendaele. Dez mil soldados alemães foram soterrados pelas explosões
que, de tão fortes, chegaram a ser ouvidas no sul da Inglaterra. O bombardeio que se seguiu foi
terrível. Dois mil canhões causaram outras 15 mil baixas no inimigo. Por volta da meia-noite, toda a
região leste da crista estava nas mãos dos britânicos. Era o começo da campanha de Passchendaele,
a pequena cidade belga que se transformaria em sinônimo de perdas inúteis e da futilidade da guerra.

Para o general William Robertson, chefe do estado-maior imperial, os ingleses estavam voltando aos
seus velhos princípios. “Em vez de planejar romper a frente inimiga, nosso objetivo é dobrar o exército
inimigo, o que significa lhe infringir perdas mais pesadas do que as que sofreremos.” Com a crista em
suas mãos, britânicos, canadenses e australianos avançaram em direção ao Planalto Gheluvelt. Mas,
no fim de agosto, pouco avanço havia sido feito. Mesmo assim, a ofensiva seguiu adiante.

A chuva era contínua. A lama era tanta que só se conseguia caminhar por cima de passarelas de
madeira. Mulas afundavam até afogar em buracos abertos por explosões que estavam cheios de lama
e água. Era impossível para a equipe de um canhão atirar com rapidez e precisão – cada vez que os
tiros eram feitos, a bateria afundava no solo.

Em novembro, quando a ofensiva foi suspensa, os ingleses contavam 275 mil baixas – 70 mil delas
eram mortos. Ao todo, os aliados perderam cerca de 500 mil homens. Mais do que os 380 mil de seus
inimigos. O plano de Robertson fracassara. / M.G.

OS YANKEES – E OS DÓLARES – ESTÃO CHEGANDO

Em 28 de novembro de 1916, o Federal Reserve americano publicou uma advertência contra a compra
de títulos de tesouros estrangeiros. A Grã-Bretanha gastava então US$ 250 milhões por mês nos
Estados Unidos – metade para si e a outra para seus aliados. Entre outubro de 1916 e abril de 1917,
França e Inglaterra gastaram US$ 1,5 bilhão nos EUA – seis quintos desse total saíram das venda de
títulos públicos em Nova York. O investidor médio americano estava totalmente dependente da vitória
dos aliados da Entente – aliança militar que reunia Grã-Bretanha, França e Rússia. Uma semana
depois da advertência do Fed, US$ 1 bilhão haviam evaporado no mercado de ações.

George V e o nome de sua família

A guerra já estava no fim de seu terceiro ano quando George V tomou uma decisão: mudou o nome da
família real inglesa de Saxe-Coburg-Gotha para Windsor. O nome anterior era por demais germânico
em uma época em que os britânicos se preparavam para mais uma controversa ofensiva no continente
– em Passchendaele, na Bélgica –, preparada pelo general Douglas Haig. George V, rei da Grã-
Bretanha e da Irlanda e imperador das Índias, era um monarca popular, o que não impediu em 1916 o
levante nacionalista da Páscoa de incendiar uma das partes do império: a Irlanda. O fuzilamento de
vários líderes rebeldes não deteve o plano de Eamon de Valera de obter a independência do país na
década seguinte. Foi em seu reinado que a Índia começou a dar os primeiros passos rumo à
independência. Morreu em 1936, antes que a crise colonial após a 2.ª Guerra Mundial abrisse caminho
para o fim dos grandes impérios coloniais. / M.G.

Alheia a isso, a elite militar alemã não queria mais saber dos argumentos do chanceler Bethmman
Hollweg. Exigia que a guerra submarina fosse feita sem restrições. Queria torpedear qualquer navio
que se dirigisse à Grã-Bretanha, fosse de país neutro ou não. Afundar tudo o que se aproximasse das
ilhas inimigas era a única saída possível contra o bloqueio naval que os ingleses impunham à
economia de Berlim. Os comandantes da marinha e do exército colocaram o kaiser Guilherme II contra
parede. Obtiveram o sinal verde em 8 de janeiro de 1917 e, em 1.º fevereiro, o país soltou as rédeas
dos submarinos.

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Dois dias depois, os Estados Unidos decidiram romper relações diplomáticas com a Alemanha. No dia
17 de fevereiro, o embaixador americano na Grã-Bretanha foi informado pelo governo de Londres
sobre uma das maiores descobertas feitas durante a guerra pela espionagem britânica. Os ingleses
haviam decifrado os códigos alemães e conseguiam interceptar suas comunicações. Em reação à
decisão americana, o chanceler alemão, Arthur Zimmermann, teve outra de suas grandes ideias.

Ele se lembrou da rivalidade entre mexicanos e americanos - em 1916, os Estados Unidos mandaram
uma expedição ao México para lutar contra os rebeldes liderados por Pancho Villa. Decidiu, por meio
do embaixador alemão em Washington, incentivá-los a invadir o Texas e entrar na guerra ao lado da
Alemanha.

Um dia antes, o tesouro inglês tinha em sua conta um rombo de US$ 358 milhões nos EUA e gastava
US$ 75 milhões por semana. O telegrama de Zimmermann foi publicado pelo presidente americano
Woodrow Wilson. Em 2 de abril, ele discursou para a nação. Os Estados Unidos entravam na guerra. A
economia dos aliados e muitos especuladores americanos foram salvos da bancarrota. / M.G.

1918

ADEUS ÀS ARMAS

Marcelo Godoy

João XXIII em uniforme militar (sentado, segundo da esquerda para direita). Crédito: Acervo Estadão

São João XXIII

Angelo Giuseppe Roncalli, o futuro São João XXIII, fez o serviço militar em 1902 e era sargento quando
foi convocado para a guerra. A lei italiana não isentava padres e seminaristas: como os outros
cidadãos, eles eram obrigados a combater na linha de frente. Era essa a expectativa de Roncalli, como
ele escreveu em 23 de maio de 1915 em Il Giornale dell’Anima, diário no qual registrou as reflexões
espirituais e os principais acontecimentos de sua vida, da adolescência à véspera da morte.

“Amanhã vou partir para o serviço militar na área da saúde. Para onde me mandarão? Talvez para o
front inimigo? Voltarei para Bérgamo ou o Senhor me destinou minha última hora no campo de guerra?
Nada sei. Só desejo uma coisa: a vontade de Deus em tudo e sempre e a sua glória no sacrifício
completo do meu ser. Assim, e só assim, penso me manter à altura de minha vocação e mostrar meu
verdadeiro amor pela pátria e pelas almas de meus irmãos”, escreveu no diário.

O futuro santo não foi para o front. Por indicação de um ex-aluno, acabou designado para um hospital
militar de Bérgamo, aonde chegavam centenas de soldados feridos na luta contra os austríacos no
norte da Itália. Partiu de volta à cidade onde trabalhava como professor de seminário no dia seguinte à
sua designação para servir no hospital militar. “Por volta do meio-dia, acompanhando 25 homens como
se fosse um general no comando do exército da Itália, eu partia da estação de Milão para Bérgamo,
onde me incorporei à enfermaria presidiária e imediatamente o capitão Volpi anunciou que eu fora
destinado ao hospital militar do seminário.”

Roncalli considerava a guerra um mal terrível, mas tratava com amor e dedicação os ex-combatentes
que chegavam feridos da linha de frente, assim como se comovia com o sofrimento de suas famílias. O
amor da pátria, para ele, vinha em primeiro lugar. Desejava a paz, mas achava que, “se a pátria chama
e impõe sacrifícios, esta é a voz de Deus”. Cumpria seu dever ao lado de soldados que, conforme
observou, “encolhem os ombros, riem, dizem besteiras ou amaldiçoam” quando se fala de pátria.

“Os homens que nos governaram e nos governam não merecem os nossos sacrifícios, ma a pátria hoje
em perigo os merece”, escreveu em 20 de dezembro de 1917 a seu irmão Giuseppe, soldado no front.
Desde o ano anterior, padre Angelo Roncalli era capelão militar e tinha o posto de tenente. Dava
assistência espiritual aos feridos, administrando os sacramentos e conversando com cada um,
inclusive os não católicos. Além dos combatentes, chegavam também ao hospital centenas de
prisioneiros italianos repatriados pelas forças austro-alemãs, por serem portadores de moléstias
graves.

O tenente-capelão Roncalli deu baixa no dia 10 de dezembro de 1918, após a assinatura do armistício,
com a derrota de Alemanha, Áustria e seus aliados. Destinou então à Casa do Estudante, que fundou

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

em Bérgamo, os soldos recebidos por quase quatro anos de engajamento no Exército. Até depois de
ter sido eleito papa, São João XXIII falava com carinho dos soldados e da disciplina da vida na
caserna, apesar de seu horror à guerra. /JOSÉ MARIA MAYRINK

A 11.ª Batalha do Rio Isonzo em agosto causou 166 mil baixas para os italianos. Desde que a guerra
começara, seu comandante, o general Luigi Cadorna, planejava atingir o Porto de Trieste, no Adriático.
Sob domínio austro-húngaro, a maioria da população tinha origem italiana. Dois anos depois, os
homens de Cadorna haviam avançado apenas um terço do caminho – só em 10 de agosto de 1916,
eles haviam capturado a cidade de Gorizia.

Ao mesmo tempo em que avançavam palmo a palmo, o número de deserções crescia – passara de
2.137 em abril de 1917 para 5.471 em agosto. Duas brigadas se amotinaram. Até o implacável
Cadorna – 750 soldados italianos foram fuzilados durante a guerra, o maior número entre todos os
exércitos em conflito – reconhecia que seus homens precisavam de repouso.

Faltou combinar com os alemães e os austríacos. No dia 24 de outubro, depois de um breve


bombardeio, eles avançaram na região do Alto Isonzo. "Quanto mais longe penetrávamos em terreno
hostil, menos preparadas estavam as guarnições para a nossa chegada e mais fácil era a luta",
escreveu o então tenente Erwin Rommel, que mais tarde seria o mais famoso marechal alemão da 2.ª
Guerra Mundial. Em pouco tempo, seguiu-se uma enorme debandada italiana. Ernest Hemingway a
retratou no livro Adeus às Armas.

Soldados atiraram em oficiais que tentavam impedi-los de fugir ou se render. Em semanas, o exército
italiano perdeu quase 700 mil homens, dos quais 40 mil foram mortos e 280 mil capturados pelo
inimigo. As deserções atingiram 350 mil. Greves gigantescas estouraram em Milão e em Turim. Uma
demonstração antiguerra na primeira cidade foi reprimida à bala, deixando 41 mortos e 200 feridos. Foi
preciso reforço inglês e francês para impedir a derrota total. Cadorna foi destituído e substituído por
Armando Diaz. Mais folgas, melhores rações, tratamento menos severo e, principalmente, o fim das
ofensivas pacificaram o exército que aguentou em junho de 1918 a ofensiva austríaca no Rio Piave.

Após o fracasso inimigo, os italianos decidiram que era chegada a hora de atacar novamente. Em 24
de outubro, iniciaram a ofensiva do Monte Grappa ao Adriático. No dia 27, eles atravessaram o Piave e
os soldados austríacos se recusaram a contra-atacar. No dia seguinte, a Checoslováquia se declarou
independente do Império Habsburgo. No dia 29, os croatas e sérvios decidiram se separar de Viena e
foram seguidos no dia 31 pelos húngaros. O exército imperial, que perdera mais de 500 mil homens,
deixara de existir. No dia 3, os italianos desembarcaram em Triste e no mesmo dia um armistício foi
assinado. A guerra chegava ao fim nessa parte da Europa. / M.G.

A Ofensiva Caporetto

26 de outubro a 12 de novembro de 1917

O FLAGELO

O cruzador Rio Grande do Sul. Crédito: DPHDM

Os primeiros doentes surgiram no cruzador Bahia. Eram 70 na manhã de 6 de setembro. A última


epidemia castatrófica da história, a gripe espanhola, encontrou a frota brasileira em Dacar, no Senegal.
"Os doentes caíam ardendo de febre, cobertos de suor emplastrado com moinho de carvão, sem ter
nem sequer quem os auxiliasse a tomar banho e mudar de roupa, pois os poucos válidos que lhes
poderiam assistir nisso diminuíam de hora em hora, de minuto em minuto. Essa situação era ainda
agravada pela falta de toldo diante do sol da Dacar", escreveu o capitão-tenente Orlando Marcondes
Machado.

A Divisão Naval em Operações de Guerra (DNOG) era a maior contribuição do Brasil ao esforço de
guerra dos aliados. O País entrara no conflito mundial em 3 de novembro de 1917, depois de romper
em 11 de abril relações diplomáticas com a Alemanha. O motivo foi o torpedeamento do navio
brasileiro Paraná, na costa francesa, efetuado por um submarino alemão. Três tripulantes da
embarcação, que levava 94 mil sacas de café, morreram. O café era então o maior produto de
exportação do País.

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O governo brasileiro decidiu enviar dois cruzadores, quatro contratorpedeiros, um rebocador e um


tender de sua esquadra para patrulhar a costa africana entre Dacar, no Senegal, e o Estreito de
Gibraltar, no Mediterrâneo. Depois do Bahia, a gripe se espalhou pelos demais navios. A doença
chegou ao cruzador Rio Grande do Sul no dia 7 e, na manhã seguinte, já havia derrubado 160
marinheiros. Entre 10 e 20 de setembro, 95% da tripulação estava doente.

A gripe matou 20 milhões de pessoas ao redor do mundo – tanto quanto a guerra em quatro anos. Dos
2 mil marinheiros brasileiros, 156 morreram. No Brasil, a doença matou o presidente eleito, Rodrigues
Alves. Para a publicação inglesa The Sphere, "Influenza ou La Gripe podia se tornar entre os ingleses
mais mortal do que uma ocupação inimiga ou mais implacável e destrutiva do que os hunos". A frota
brasileira, que fora paralisada pela doença, só conseguiu chegar à Europa em 10 de novembro, um dia
antes do armistício que pôs fim à guerra. /M.G.

O sobrevivente

O Laurindo Pitta. Crédito: Fabio Motta

O último remanescente da Divisão Naval de Operações de Guerra (DNOG), formada pela Marinha do
Brasil para combater na 1.ª Guerra Mundial, ainda navega. O Laurindo Pitta, rebocador construído na
Inglaterra em 1910, foi usado em tarefas de apoio. Desde 1990, faz passeios pela Baía de Guanabara.
Com 104 anos, o Laurindo Pitta, um barco com 514 toneladas de deslocamento e 39 metros de
comprimento, ganhou há anos motores mais modernos, a óleo diesel. Recebeu equipamentos de
salvatagem (botes salva-vidas) e de combate a incêndio, além de radar. O resto é conservado (ou foi
reconstruído) como na época da guerra.

“Na década de 90, o Laurindo Pitta estava morto. Foi decidido transformá-lo em navio-museu”, relata o
diretor de Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, vice-almirante reformado Armando de
Senna Bittencourt.

Além do Laurindo Pitta, a DNOG foi formada pelos cruzadores Bahia e Rio Grande do Sul, pelos
contratorpedeiros Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba e Santa Catarina e pelo navio auxiliar Belmonte.
Iniciou viagem em 7 de maio de 1918. Em 25 de novembro, foi atacada e reagiu com cargas de
profundidade e tiros de canhão. A Inglaterra atribuiu aos brasileiros o afundamento de um submarino
alemão. Teria sido o único feito pela frota do Brasil no conflito. / WILSON TOSTA

A ÚLTIMA OFENSIVA

A frente ocidental

21 de março a 4 de junho de 1918

O jovem tenente Ernst Jünger saltou na primeira trincheira. Virando-se de costas depois de invadi-la,
ele se deparou com um oficial inglês, que trazia a túnica desabotoada, de onde pendia a gravata por
meio da qual ele o agarrou e o jogou em um parapeito de sacos de areia. Atrás dele, a cabeça grisalha
de um major surgiu e gritou: "Abata esse cachorro". Tenente das Sturmtruppen, as tropas de assalto
alemãs, Jünger conta em seu livro Tempestades de Aço o que se seguiu. "Alguém pensaria estar em
meio a um naufrágio", escreveu. Os ingleses fugiam por todo lado. "Eu apertava como em um sonho o
gatilho de meu revólver, mas fazia tempo que eu não tinha mais balas no tambor. Um homem ao meu
lado jogava granadas entre os fugitivos."

Os alemães voltaram a atacar na frente ocidental em 21 de março de 1918. Desde 1916, não faziam
isso. A saída da guerra da Rússia e da Romênia permitiu a Berlim transferir tropas para a França e
lançar um grande ataque antes que a presença do exército americano na Europa mudasse
definitivamente a balança de forças da guerra. Era, portanto, a última chance de vitória de Berlim.

Naquela manhã, Jünger conta que o combate foi liquidado em um minuto. "Os ingleses saltaram fora
de suas trincheiras e batalhões inteiros fugiram pelos campos." Transformaram-se em alvo fácil para o
inimigo e em pouco tempo os campos se coalharam de corpos. Os soldados alemães haviam
avançado após cinco horas de bombardeio, muito pouco para os padrões da guerra. A neblina permitiu
que as Sturmtruppen se aproximassem das metralhadoras inglesas sem ser notadas. Das 38.512
baixas inglesas no primeiro dia da ofensiva alemã, 21 mil eram de soldados feitos prisioneiros. Os

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ataques alemães produziram um avanço que não se via desde 1914 – foram 64 quilômetros em
direção ao Rio Somme.

O primeiro ataque, batizado como Michael, terminou em 5 de abril. Quatro dias depois, o general Erich
Ludendorff lançou o segundo, chamado Georgette. Dessa vez, o alvo era a área dos Flandres, na
Bélgica. Apenas 19 quilômetros foram conquistados. O próximo ataque alemão foi a Operação Blücher,
lançada em 21 de maio no Chemin des Dames. Os alemães chegaram a ficar a 90 quilômetros de
Paris, que bombardearam com sua artilharia. Mas foram detidos por americanos e senegaleses em
Chateau Thierry. Juntos os dois lados perderam aproximadamente 800 mil homens. Pressionado pela
fome e pela debacle de seus aliados, a Alemanha de Guilherme II não aguentaria muito tempo mais. /
M.G.

A ERA DA REVOLUÇÃO MUNDIAL

Após a queda dos Romanov, uma questão atormentava os aliados: por quanto tempo a Rússia
permaneceria na guerra. Seu exército se desfazia com milhares de deserções. A pregação
revolucionária seduzira parte da tropa com a perspectiva da paz imediata. Foi então que o desastroso
ministro do exterior alemão, Artur Zimmermann, resolveu ter mais uma ideia. Ele convenceu o kaiser
Guilherme II a permitir que Lenin deixasse a Suíça, onde estava exilado, e atravessasse a Alemanha
em um trem lacrado em direção à Rússia. Sua aposta era que a ajuda ao revolucionário marxista
contribuiria para a retirada dos russos da guerra.

A Revolução de Fevereiro colocara no poder uma série de governos provisórios liderados primeiro
pelos moderados do partido Kadete e, depois, pelo trabalhista Alexander Kerensky. Até que em 7 de
novembro (25 de outubro pelo calendário russo) chegou a vez dos bolcheviques. Sob a liderança de
Leon Trotsky, organizador do Comitê Militar Revolucionário de Petrogrado, e orientados por Lenin, os
bolcheviques se sublevaram. Tomaram a Fortaleza de Pedro e Paulo e o Palácio de Inverno,
derrubando o último governo Kerenky.

A aposta de Zimmermann parecia correta. Em pouco tempo, os bolcheviques retiraram a Rússia da


guerra por meio do Tratado de Brest-Litovsky. A chegada ao poder dos marxistas em Moscou se
voltaria, no entanto, como um bumerangue contra as potências centrais. Berlim seria convulsionada no
fim da guerra por uma revolução que derrubaria o kaiser e inauguraria a República de Weimar, sob o
comando do social-democrata Friedrich Ebert. A Áustria-Hungria seria dilacerada por movimentos
nacionalistas e Viena assistiria a uma revolta comunista, logo sufocada. Em 21 de março de 1919, o
poder na Hungria cairia nas mãos dos comunistas liderados por Bela Kun. Durante 133 dias, uma
República Soviética comandou o país até que tropas romenas o invadiram e depuseram o governo.
Estava aberta a era da revolução mundial.

Em março de 1918, o ex-exilado russo escreveu: “Esta violência constituirá um período histórico-
universal, toda uma era de guerras com o caráter mais diverso – guerras imperialistas, guerras civis
dentro de países, entrelaçamento de uma e outras, guerras nacionais, de libertação das nacionalidades
[…]. Esta época – de gigantescas bancarrotas, de violentas soluções bélicas em massa, de crise –
começou”. Por 74 anos, o regime que Lenin inaugurara com a ajuda do conservador alemão
Zimmermann se manteria na Rússia e difundiria o espectro da revolução pelo mundo. /M.G.

A GUERRA QUE DUROU 31 ANOS

A frente ocidental

18 de julho a 3 de outubro de 1918

Europa atual

A vitória aliada começou no Bosque de Belleau, no Marne. Os franceses recuavam diante do ataque
alemão e cruzaram com os recém-chegados marines. “É melhor vocês recuarem”, disse um oficial
francês ao capitão Lloyd Willlians. “Recuar? Raios, nós acabamos de chegar”. O contra-ataque dos
fuzileiros navais americanos entrou para a história da corporação. Era 4 de junho de 1918. Os
americanos começavam a chegar em grande número à frente de combate na Europa.

Pouco mais de um mês depois, o general Charles Mangin, conhecido como Açougueiro, lançou seu
exército – o 10.º francês – adiante em Villers-Cotterets. O bombardeio começou às 4h35. A infantaria

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

avançou atrás da barragem da artilharia acompanhada por centenas de tanques leves Renault FT17.
Armados com um canhão de calibre 37 mm e com uma metralhadora, os tanques levavam uma
guarnição de dois homens e transpunham rampas de até 45° de inclinação e valas de até 1,8 metro de
largura. A uma velocidade de 7 quilômetros por hora, eles ajudaram a levar franceses e americanos de
volta até Soissoons, no Vale do Aisne.

Os aliados começaram a expulsar o exército de Berlim da França. Exaustos, os alemães viram o total
de seus homens cair de 5,1 milhões para 4,2 milhões depois da ofensiva da primavera. Eles haviam
produzido pouquíssimos tanques – o gigante A7V. Dependiam principalmente dos veículos ingleses e
franceses capturados. Seus inimigos reuniram perto de Amiens 530 tanques ingleses e 70 franceses
para atacar no dia 8 de agosto ao lado de soldados canadenses e australianos. O sucesso foi
gigantesco. Em quatro dias, os alemães tiveram de recuar até a região que ocupavam no começo do
ano. “Foi o dia negro do exército alemão”, disse o general Erich Ludendorff.

Depois disso, uma sucessão de ofensivas aliadas levou os alemães a procurar a paz em outubro.
Derrotado, o exército germânico recuou para suas fronteiras. No dia 26 de outubro, Ludendorff, que
rejeitava a negociação de paz, foi forçado a renunciar. A revolução batia às portas de Berlim. O kaiser
foi obrigado a renunciar. O armistício entre os alemães e os aliados foi assinado em um vagão
ferroviário em 11 de novembro, em Compiègne, na França.

Guilherme II, o último imperador alemão

Em 31 de março de 1905, o kaiser desembarcou em Tânger e declarou seu apoio ao sultão do


Marrocos contra a ação francesa – em acordo com a Inglaterra – de expandir as áreas sob seu controle
no norte da África. As duas potências coloniais queriam pôr fim à rivalidade entre elas e decidiram
dividir as áreas de influência de cada uma na África, o que deixou a França livre para expandir seu
império do Oeste da Argélia para o Marrocos. O rei da Prússia e imperador da Alemanha tinha poucos
interesses no Magreb. O homem que chegara ao trono em 15 de junho de 1888 apoiava o caminho
novo da política internacional alemã, definida pelo chanceler Bernard von Bülow: a Weltpolitik (política
mundial), que representava um triplo desafio à hegemonia britânica com seus planos de expansão
comercial, marítima e colonial. Sua decisão de dar apoio incondicional à Áustria-Hungria contra a
Sérvia é considerada uma das causas diretas da guerra. Reagiu à mobilização do exército russo
declarando guerra à Rússia e invadiu a Bélgica, violando a neutralidade do país para atacar a França –
aliada russa –, o que fez a Inglaterra entrar no conflito. Deixou a condução da guerra aos seus
generais, e a derrota deles o fez abdicar. Era 9 de novembro, e a Alemanha mergulhara em uma
agitação social que parecia levá-la à revolução. Dois dias depois, o armistício entre os beligerantes pôs
fim à guerra. Deposto, Guilherme IIviveria recluso no seu exílio na Holanda. Dali, viu Hitler chegar ao
poder e iniciar a guerra em 1939. Morreu em 1941, uma semana antes de a Alemanha invadir a União
Soviética. / M.G.

Mais de 600 cemitérios da 1.ª Guerra existem hoje na França, que os tornou sepulturas perpétuas e
contratou mais de mil jardineiros para fazer sua manutenção. Os britânicos perderam quase 1 milhão
de soldados na guerra. Os franceses tiveram 1,7 milhão de mortos, os austro-húngaros 1,5 milhão de
militares, os alemães 2 milhões, os russos 1,7 milhão, os italianos 460 mil e também se contam aos
milhares as mortes de turcos, de americanos e de outras nações envolvidas na conflagração.

E de quem foi a culpa por essa catástrofe? “Se quisermos apontar o dedo desde o século 21, nós
podemos acusar esses que levaram a Europa em direção à guerra de duas coisas. Primeiro, pela falta
de imaginação em não perceber o quão destrutivo um conflito assim poderia ser e segundo por falta de
coragem para resistir àqueles que diziam não haver outra opção se não a guerra. Sempre há o que
escolher”, escreveu a historiadora canadense Margaret Macmillan em The war that ended peace - The
road to 1914 (há uma edição portuguesa: A guerra que acabou com a paz).

A guerra iniciara aquilo que o historiador inglês Eric Hobsbawn chamou de “era do massacre”, aberta
por um conflito travado em “torno de metas ilimitadas”. Ela ia abrir, na opinião dele, uma única era de
conflito que só terminaria em 1945, na 2.ª Guerra. “Retrospectivamente, os 31 anos desde o
assassinato do arquiduque austríaco em Sarajevo até a rendição incondicional do Japão devem
parecer uma era de devastação comparável à Guerra dos 30 Anos no século 17 na história alemã”,
escreveu Hobsbawn.

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PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

A 1.ª Guerra não resolveria nada, não acabaria com as guerras ou garantiria a autodeterminação dos
povos. Mas, ao acabar com impérios, semear revolução e guerras e reordenar os Bálcãs e o Oriente
Médio, ela lançaria as sementes de conflitos que sacodem o mundo até hoje. “Em resumo”, escreveu
Strachan, “ela não mudou apenas a Europa, mas o mundo no século 20; ela certamente não foi uma
guerra sem significado ou objetivos.” /M.G

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