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GRUPO I

A. Lê o seguinte texto.
Este dia pareceu belo a Dâmaso como se fosse feito de azul e oiro. Mas melhor ainda foi a
manhã em que Carlos, um pouco incomodado e ainda deitado, o recebeu no quarto, como entre
rapazes… daí datava a sua intimidade: começou a tratar Carlos por você. Depois, nessa
semana, revelou aptidões úteis. Foi despachar à Alfândega (Vilaça achava-se no Alentejo) um
5 caixote de roupa para Carlos. Tendo aparecido num momento em que Carlos copiava um artigo
para a Gazeta Medica ofereceu a sua boa letra, letra prodigiosa, de uma beleza litográfica; e
daí por diante passava horas à banca de Carlos, aplicado e vermelho, com a ponta da língua
de fora, o olho redondo, copiando apontamentos, transcrições de Revistas, materiais para o
livro… Tanta dedicação merecia um tu de familiaridade. Carlos deu-lho.
10 Dâmaso, no entanto, imitava o Maia com uma minuciosidade inquieta, desde a barba que
começava agora a deixar crescer até à forma dos sapatos. Lançara-se no bric-à-brac. Trazia
sempre o coupé cheio de lixos arqueológicos, ferragens velhas, um bocado de tijolo, a asa
rachada de um bule… (…)
Nesta intimidade de rosas havia todavia para Dâmaso horas pesadas. Não era divertido
15 assistir em silêncio, do fundo duma poltrona, às infindáveis discussões de Carlos e de Craft
sobre arte e sobre ciência. E, como ele confessou depois, chegara a encavacar um pouco
quando o levaram ao laboratório para fazer no seu corpo experiências de eletricidade… –
“Pareciam dois demónios engalfinhados em mim, disse ele à Sr.ª condessa de Gouvarinho; e
eu então que embirro com o espiritismo!…”– Mas tudo isto ficava regiamente compensado,
20 quando à noite, num sofá do Grémio, ou ao chá numa casa amiga, ele podia dizer, correndo a
mão pelo cabelo: – Passei hoje um dia divino com o Maia. Fizemos armas, bric-à-brac,
discutimos… Um dia, chique! (…)
Dâmaso era interminável, torrencial, inundante a falar das «suas conquistas», naquela sólida
satisfação em que vivia de que todas as mulheres, desgraçadas delas, sofriam a fascinação da
25 sua pessoa e da sua toilette. (…) Conhecia-se também a sua ligação com a viscondessa da
Gafanha, uma carcaça esgalgada, caiada, rebocada, gasta por todos os homens válidos do
país: ia nos cinquenta anos, quando chegou a vez do Dâmaso (…) [até] que a decrépita criatura,
farta, enojada já, teve de o enxotar à força e com desfeitas. Depois gozou uma tragédia: uma
atriz do Príncipe Real, uma montanha de carne, apaixonada por ele, numa noite de ciúme e de
genebra, engoliu uma caixa de fósforos; naturalmente daí a horas estava boa, tendo vomitado
abominavelmente sobre o colete do Dâmaso que chorava ao lado – mas desde então este
homem de amor julgou-se fatal! (…)
Eça de Queirós, Os Maias, Porto: Porto Editora (cap. VII), 2014, pp. 190-191.

Educação Literária
1. Partindo do excerto, traça um retrato de Dâmaso Salcede.
2. O narrador não esconde a sua antipatia pela figura de Dâmaso. Indica os recursos expressivos utilizados
para o efeito.
3. Atenta no excerto selecionado, indica a modalidade de discurso presente, explicita as suas marcas
específicas e o seu valor expressivo: “E, como ele confessou depois, chegara a encavacar um pouco quando o
levaram ao laboratório para fazer no seu corpo experiências de eletricidade…” (ll. 16-17).
4. Relaciona a vida de Dâmaso com a do Portugal da Regeneração.
1. Dâmaso apresenta as seguintes características:
• imitação de Carlos, reveladora da sua falta de caráter;
• bajulação disfarçado de ajuda a um amigo;
• exibicionista;
• mediocridade e ignorância ao confundir experiências laboratoriais com “espiritismo”;
• presunçoso ao assumir “as suas conquistas” de forma irresistível;
• ociosidade;
• boémio;
• (…)

2. O narrador tece várias críticas a Dâmaso, de forma mais ou menos explícita. Assim, recorre à ironia: “revelou aptidões úteis. Foi
despachar à Alfândega (…) um caixote de roupa, “regiamente compensado”, à adjetivação, de valor depreciativo, para o caracter izar:
“Dâmaso era interminável, torrencial, inundante”, quer para mostrar o tipo de mulher de quem era íntimo: “uma carcaça esgalga da,
caiada, rebocada, gasta (…)”. O comentário “desgraçadas delas” surge como um aparte do narrador para criticar a convicção balofa
de Dâmaso.

3. Neste excerto está presente o discurso indireto livre: não é apresentado verbo de comunicação; o discurso não aparece isolado por
marcas gráficas, as formas verbais apresentam transposições características de discurso indireto, com os verbos no pretérito imperfeito
e no pretérito mais-que-perfeito do indicativo. A narrativa integra as falas das personagens de uma forma fluída sem quebrar o ritmo
dos acontecimentos relatados.

4. Dâmaso é a imagem da burguesia medíocre e ociosa do Portugal da Regeneração, que se entrega a uma vida dissoluta, que se
esgota na imitação grosseira, que, sem ter consciência, se esforça ridiculamente para parecer o que não é. A sua obsessão do “chique”
não chega para disfarçar a degradação moral que varre a sociedade lisboeta, apesar da intensa vida social e cultural. Esta pe rsonagem
simboliza a ânsia de acesso à civilização, o desrespeito pelos costumes genuinamente portugueses, assinalando-se a falta de
originalidade e de dinamismo.

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