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SÃO PAULO
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BELO HORIZONTE
CURITIBA
BRASÍLIA

Rua Marechal Deodoro, 344 9º, 11º, 13º e 14º andares 80010-909 Curitiba-PR
Fone (41) 3304-8800 Fax (41) 3304-8812 www.gaiasilvagaede.com.br gaiapr@gaiasilvagaede.com.br

EXMO(A). SR(A). DR(A). JUIZ(A) FEDERAL DA __a VARA DA SUBSEÇÃO


DE BLUMENAU – SEÇÃO JUDICIÁRIA DO ESTADO DE SANTA CATARINA

CIA HERING S.A., sociedade anônima de capital aberto, inscrita no CNPJ/MF


sob nº 78.876.950/0001-71, com sede na Rua Hermann Hering, nº 1790, Bom
Retiro, Blumenau/SC, CEP 89.010-900 (Doc. 01), vem, respeitosamente, por
seus procuradores ao final assinados (Doc. 02), impetrar o presente

MANDADO DE SEGURANÇA PREVENTIVO


COM PEDIDO DE LIMINAR

contra iminente ato coator do Ilmo. Sr. Delegado da Receita Federal do Brasil
em Blumenau/SC1, agente do Ministério da Fazenda, órgão vinculado à União
Federal, pessoa jurídica de direito público representada pela Procuradoria-
Geral da Fazenda Nacional – Seccional em Blumenau2, ou quem o substitua no
exercício da coação impugnada, com fulcro no art. 5º, inc. LXIX, da CF/88 e art.
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1° e seguintes da Lei nº 12.016/09, pelas razões de fato e de direito a seguir


expostas.

1
Delegacia da Receita Federal do Brasil em Blumenau-SC, localizado na Rua Namy Deeke, nº.
40, CEP nº. CEP: 89010-130.
2
P.S.F.N – Blumenau/SC, localizada na Rua XV de Novembro, 1305, 6º andar, Ed. Banco do
Brasil, CEP nº. 89010-001.
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I - DOS FATOS

A Impetrante é sociedade anônima de capital aberto que tem como objeto


social a fabricação e a comercialização de produtos têxteis e de vestuário em
geral, nos termos do seu estatuto social (Doc. 01).

Para o desenvolvimento de suas atividades, a Impetrante tem sua matriz


estabelecida em Blumenau-SC, mas possui também fábricas e
estabelecimentos de varejo localizados em outros Estados da federação, de
modo a expandir sua cadeia produtiva e ampliar sua atividade comercial.

Pelo fato de ter atividade em diversas unidades da federação, a Impetrante se


submete a diferentes regimes fiscais de ICMS instituídos pelos Estados-
membros, que contemplam, em muitos casos, a concessão de benefícios
fiscais para estimular a atividade econômica local.

Esse é o caso dos créditos presumidos de ICMS concedidos pelo Estado de


Goiás por meio do Decreto Estadual nº 4852/97 (art. 11, III, LII, LIII e LIV do
Anexo IX), que beneficia as saídas de produtos de vestuário para
comercialização, produção ou industrialização, instituído pelo governo do
Estado de Goiás com o propósito de fomentar a indústria e atrair investimentos
para o Estado.

Dentre os benefícios previstos, destaca-se a outorga de crédito presumido de


ICMS prevista no art. 11, III, LII, LIII e LIV, do Anexo IX do RICMS-GO (Decreto
Estadual nº 4852/97)3, para beneficiar as saídas de produtos têxteis do
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Estado.

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“Art. 11 - Constituem créditos outorgados para o efeito de compensação com ICMS devido:
(...).
III – para os contribuintes industrial e comerciantes atacadista, o equivalente ao percentual
de 2% (dois por cento) e 3% (três por cento), respectivamente, na saída interestadual que
destine mercadoria para comercialização, produção ou industrialização aplicando sobre o valor
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Ocorre que as autoridades administrativas federais, ao se depararem com tais


benefícios fiscais, têm firmado o entendimento de que os créditos presumidos
de ICMS devem compor a base de cálculo do IRPJ e da CSLL, por
representarem suposta receita auferida pela empresa, bem como por inexistir
previsão legal que determine a exclusão desses valores do campo de
incidência dos aludidos tributos4.

Como se demonstrará a seguir, em razão de sua especial natureza jurídica, os


créditos presumidos de ICMS não constituem receita tributável.

Apesar disso, não pode a Impetrante simplesmente deixar de oferecer à


tributação os créditos presumidos de ICMS concedidos pelo Estado de Goiás
sob pena de se sujeitar a autuações, com imposição de severas multas e
encargos moratórios, bem como a outras medidas constritivas.

Em vista disso, não resta alternativa à Impetrante senão a propositura do


presente writ para ver assegurado seu direito de não submeter os créditos
presumidos de ICMS por ela apurados com base no Decreto Estadual nº
4852/97 (art. 11, III, LII, LIII e LIV do Anexo IX) à incidência do IRPJ e da CSLL,
pelos fundamentos a seguir expostos.

da correspondente operação observando o seguinte (Leis nºs 12462/94, art. 1º, parágrafo 4º, II
e 13194/97, art. 2º, II "h"): (...).
LII - para o industrial fabricante de vestuário ou para estabelecimento atacadista a ele
pertencente, o equivalente à aplicação do percentual de 12% (doze por cento) sobre o valor
da base de cálculo correspondente à operação interestadual com produto de fabricação própria
destinado à comercialização ou industrialização, observado o seguinte (Lei nº 13453/99, art. 1º,
I, "m"): (...);
LIII – para o industrial fabricante de vestuário ou para estabelecimento atacadista a ele
pertencente, o equivalente à aplicação do percentual de 10% (dez por cento) sobre o valor da
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base de cálculo correspondente à operação de venda interna com produto de fabricação


própria destinado à comercialização ou industrialização, observado o seguinte (Lei nº
13453/99, art. 1º, I,"n"): (...);
LIV – para o industrial fabricante de vestuário, o equivalente à aplicação do percentual 10%
(dez por cento) sobre o valor da base de cálculo correspondente à transferência interna de
produto de fabricação própria destinado à comercialização em estabelecimento varejista a ele
pertencente, observado o seguinte (Lei nº 13453/99, art. 1º, I, "o")”.
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Nesse sentido, confira-se a Solução de Consulta nº 97 de 4 de Abril de 2003 (Disit 9ª Região
Fiscal).
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II – BREVES ESCLARECIMENTOS SOBRE OS CRÉDITOS PRESUMIDOS


DE ICMS CONCEDIDOS PELOS ESTADOS COMO INCENTIVO FISCAL

Os chamados “créditos presumidos de ICMS” são créditos especiais


concedidos pelos Estados e que não se confundem com os créditos
convencionais de ICMS. Estes últimos decorrem da não-cumulatividade do
imposto e correspondem ao “tributo pago na etapa anterior” da circulação de
mercadorias; por outro lado, os créditos presumidos de ICMS são
benefícios fiscais, concedidos com o objetivo de atrair empreendimentos
e incentivar a atividade produtiva do Estado.

Na maioria dos casos, a concessão de créditos presumidos de ICMS é


necessária para a própria viabilidade de certas atividades produtivas em
determinados Estados da federação. Explica-se.

Dada a extensão territorial do Brasil, de proporção continental, é natural que


certas regiões do país sejam mais favorecidas, por exemplo, pela grande
concentração de recursos minerais (as reservas de minério em Minas Gerais,
p. ex.), ou que outras regiões sejam beneficiadas por sua localização litorânea,
permitindo o escoamento de mercadorias para o exterior a um custo mais
reduzido (o que ocorre com Paraná, Santa Catarina e São Paulo), etc.

Se não houvesse qualquer intervenção nesse cenário, observaríamos uma


extrema desigualdade socioeconômica entre os Estados da Federação. Como
é evidente, as empresas sempre se instalariam nas regiões economicamente
mais vantajosas para a sua atividade, isto é, nas regiões em que encontrassem
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melhores preços para suas matérias-primas, ou em que tivessem menores


despesas operacionais, por razões geográficas. Chegar-se-ia à situação
extrema de que determinadas atividades produtivas só seriam
desenvolvidas em determinadas regiões do país, concentrando riquezas e
desenvolvimento nessas regiões, em detrimento das demais.
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Ao conceder benefícios fiscais, os Estados-membros conseguem atrair


investimentos que jamais seriam possíveis sem esses incentivos.
Fomenta-se a atividade produtiva de Estados normalmente preteridos na
destinação de investimentos, gerando renda, empregos e reduzindo as
desigualdades regionais do país.

Por fim, é importante lembrar que os créditos presumidos de ICMS atuam


como redutores de custo do imposto devido.

Como já exposto, a concessão de créditos presumidos de ICMS pelos Estados


tem a finalidade de compensar despesas que tornariam desvantajosas ou até
inviáveis determinadas atividades econômicas (despesas com frete, distância
da fonte de matérias-primas, etc.).

Assim, por meio da redução de ônus tributário, os Estados concedentes


buscam viabilizar e atrair investimentos que, de outra forma, provavelmente
não aconteceriam.

Assentadas essas premissas, passa-se ao exame de mérito da demanda, para


demonstrar que os créditos presumidos de ICMS não devem sofrer a incidência
do IRPJ e da CSLL.

III – DO DIREITO

III.1 – DA NÃO INCIDÊNCIA DO IRPJ E DA CSLL SOBRE OS CRÉDITOS


PRESUMIDOS DE ICMS
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O fenômeno da incidência tributária somente ocorre quando existe perfeita


subsunção entre a hipótese abstratamente prevista na norma tributária e a
conduta concreta praticada pelo contribuinte. Os incentivos fiscais na
modalidade de créditos presumidos de ICMS, como se demonstrará, não se
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enquadram nas hipóteses normativamente previstas para incidência do IRPJ e


da CSLL.

O IRPJ e a CSLL, previstos nos arts. 153, IV, e 195, I, “c”, da Constituição
Federal, têm como hipótese de incidência a obtenção de “renda e proventos de
qualquer natureza” e a apuração de “lucro”.

A incidência do IRPJ e da CSLL, portanto, tem como pressuposto lógico o


ingresso de receitas tributáveis pela empresa, que serão posteriormente
confrontadas com seus custos e despesas.

Os créditos presumidos de ICMS concedidos pelos Estados-membros não se


inserem no conceito legal de receita tributável, o que os exclui do campo
de incidência do IRPJ e da CSLL.

Corrobora essa conclusão o fato de que os créditos presumidos de ICMS


são outorgados para que o contribuinte suporte uma carga tributária
reduzida nas operações especificadas. São verdadeiras renúncias de receita
dos Estados em benefício do contribuinte, a fim de atenuar seu ônus com o
pagamento do tributo estadual, atraindo empreendimentos e gerando
desenvolvimento à economia regional.

Por fim, nem se alegue que os créditos presumidos de ICMS devem se sujeitar
à incidência do IRPJ e da CSLL, pelo fato de não haver previsão legal em
sentido contrário que autorize a exclusão daqueles créditos da base de cálculo
desses tributos.
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Isto porque a existência de uma previsão legal como esta é totalmente


desnecessária, haja vista que os créditos presumidos de ICMS escapam do
âmbito de competência constitucionalmente delimitado para a incidência do

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IRPJ e da CSLL, sendo desnecessária qualquer previsão legal de sua isenção


– o caso em tela é de não incidência.

Nesse sentido, segue entendimento do E. TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL


DA 4ª REGIÃO pela não incidência do IRPJ e da CSLL sobre os créditos
presumidos de ICMS concedidos pelos Estados. Confira-se:

“TRIBUTÁRIO. PIS. COFINS. IRPJ. CSLL. CRÉDITO PRESUMIDO DE


ICMS. INCENTIVO FISCAL. ESTADO DE SANTA CATARINA. BASE DE
CÁLCULO DA CSLL E IRPJ. NÃO INCIDÊNCIA. (...). 2. Os créditos
presumidos de ICMS, concedidos pelos Estados-Membros, não
constituem receita, porquanto se destinam unicamente ao
ressarcimento de custos de produção e, por conseguinte, não podem
ser contemplados para apuração do lucro da pessoa jurídica, para
fins de apuração da PIS, COFINS, CSLL e IRPJ, constituindo-se em
renúncia fiscal. Trata-se de estratégia econômica, não representando
faturamento por parte dos beneficiários, já que o desconto é repassado
para o preço final do produto, mantendo-se, dessa forma, a mesma
margem de lucro por unidade vendida. 3. Admitir o seu enquadramento no
conceito de receita bruta, para fins de incidência das referidas exações,
implicaria interferência indevida da União em matéria privativa dos
Estados, limitando a eficácia do benefício fiscal por eles concedidos. (...)”
(TRF4, APELREEX 5011547-74.2013.404.7201, Primeira Turma, Relatora
p/ Acórdão Maria de Fátima Freitas Labarrère, juntado aos autos em
12/09/2014) (destacou-se)

Da decisão acima, fica claro o entendimento consolidado pelo E. TRF4 pela


não incidência do IRPJ e da CSLL sobre os créditos presumidos de ICMS.

III.2 – DA INTERFERÊNCIA EM POLÍTICAS FISCAIS DOS ESTADOS-


MEMBROS. DA ANIQUILAÇÃO DOS INCENTIVOS FISCAIS CONCEDIDOS

Outro aspecto que merece destaque na presente controvérsia é que a


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incidência de tributos federais (IRPJ e CSLL) sobre créditos presumidos


de ICMS, concedidos pelos Estados-Membros, constitui inconstitucional
interferência da União em políticas fiscais dos Estados-membros, em
violação ao pacto federativo.

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Como já exposto, os créditos presumidos de ICMS constituem instrumento


precípuo de política fiscal dos Estados. É por meio deles que os Estados
renunciam a receitas tributárias para atrair investimentos e fomentar
determinados setores da economia local. Mais do que benefícios fiscais,
portanto, os créditos presumidos de ICMS constituem, por excelência,
instrumento de política econômica e fiscal dos Estados.

A forma Federativa de Estado, alçada ao status de cláusula pétrea pela


Constituição Federal de 1988 (art. 60, §4º, II, e art. 1º, caput, da CF) tem
como pilares a autonomia de gestão das Unidades Federadas e a não
ingerência em políticas econômicas e fiscais entre os entes da Federação,
salvo nas excepcionais hipóteses dos arts. 34 e seguintes da Carta Magna.

Além de contrariar previsões legais e constitucionais, o entendimento da


Autoridade Coatora pela incidência do IRPJ e da CSLL sobre os créditos
presumidos de ICMS teria como consequência o aniquilamento dos
benefícios fiscais concedidos pelos Estados. Isso porque a imposição
desses tributos federais ceifaria 34% dos créditos presumidos de ICMS –
sendo 9% de CSLL e 25% de IRPJ.

Nesse cenário, quase metade da renúncia fiscal feita pelo Estado-membro é


apropriada pela União Federal, por meio de tributos federais, configurando
clara interferência da União em políticas fiscais dos Estados, o que viola o
Princípio Federativo insculpido nos arts. 1º, caput, 34, caput, e 60, §4º, II,
da Constituição Federal, além de inviabilizar a redução das desigualdades
regionais do país, objetivo pretendido pela concessão de benefícios
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fiscais, em agressão ao disposto no art. 3º, III, da Carta Magna.

Corrobora este entendimento a jurisprudência do E. TRIBUNAL REGIONAL


FEDERAL DA 4ª REGIÃO:

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TRIBUTÁRIO. PIS. COFINS. IRPJ. CSLL. CRÉDITO PRESUMIDO DE


ICMS. INCENTIVO FISCAL. ESTADO DE SANTA CATARINA. BASE DE
CÁLCULO. NÃO INCIDÊNCIA. 1. Os créditos presumidos de ICMS,
concedidos pelos Estados-Membros, não constituem receita, porquanto se
destinam unicamente ao ressarcimento de custos de produção e, por
conseguinte, não podem ser contemplados para apuração do lucro da
pessoa jurídica, para fins de apuração da PIS, COFINS, CSLL e IRPJ,
constituindo-se em renúncia fiscal. Trata-se de estratégia econômica,
não representando faturamento por parte dos beneficiários, já que o
desconto é repassado para o preço final do produto, mantendo-se, dessa
forma, a mesma margem de lucro por unidade vendida. 2. Admitir o seu
enquadramento no conceito de receita bruta, para fins de incidência
das referidas exações, implicaria interferência indevida da União em
matéria privativa dos Estados, limitando a eficácia do benefício fiscal
por eles concedidos. (...).” (TRF4, APELREEX 5014105-
70.2014.404.7205, Primeira Turma, Relatora p/ Acórdão Maria de Fátima
Freitas Labarrère, juntado aos autos em 27/11/2014) (destacou-se)

Por mais essa razão, deve ser afastada a incidência do IRPJ e da CSLL sobre
os créditos presumidos de ICMS.

III.3 – DA PREVISÃO TRAZIDA PELO DECRETO Nº 7.819/2012 –


RECONHECIMENTO PELA UNIÃO DE QUE OS CRÉDITOS PRESUMIDOS
NÃO SOFREM A INCIDÊNCIA DO IRPJ E DA CSLL

No ano de 2012, o Governo Federal instituiu o programa Inovar Auto, uma


política pública com o objetivo de estimular o investimento na indústria
automobilística nacional.

Instituído pela Lei nº 12.715/2012 e regulamentado pelo Decreto nº 7.819/2012,


o programa Inovar Auto prevê inúmeros incentivos fiscais a fim de estimular o
desenvolvimento e a inovação das empresas automobilísticas do país. Dentre
esses benefícios, destaca-se a concessão de créditos presumidos de IPI
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para estímulo de pesquisas em inovação e desenvolvimento tecnológico.

Tratando-se de créditos presumidos de tributo federal (IPI), matéria de


competência da União, o Poder Executivo Federal incluiu no Decreto nº

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7.819/12 o esclarecimento de que os créditos presumidos concedidos por meio


daquele decreto não se sujeitam à incidência do IRPJ e da CSLL. Confira-se:

“Art. 31. Os créditos presumidos do IPI de que trata este Decreto: [...]
II - não devem ser computados para fins de apuração do Imposto
sobre a Renda da Pessoa Jurídica e da Contribuição Social sobre o
Lucro Líquido”. (destacou-se)

Como dito anteriormente, a previsão legal expressa nesse sentido seria


desnecessária, pois os créditos presumidos de modo geral, concedidos como
forma de incentivo fiscal, não constituem renda tributável, sendo manifesto
que se excluem do âmbito constitucionalmente delimitado para incidência do
IRPJ e da CSLL.

Contudo, não se pode desconsiderar a importância da previsão trazida no


Decreto nº 7.819/12. Ela traduz o reconhecimento explícito, por parte da
União, de que os créditos presumidos não devem sofrer a incidência do
IRPJ e da CSLL.

III.4 – DA OFENSA À CONSTITUIÇÃO FEDERAL

A segurança pleiteada pela Impetrante possui amplo respaldo na Constituição


Federal de 1988.

De início, como demonstrado, o aproveitamento de créditos presumidos do


ICMS previstos no Decreto Estadual nº 4852/97 (art. 11, III, LII, LIII e LIV do
Anexo IX) não constitui receita tributável e, portanto, não se insere nas
hipóteses constitucionalmente previstas para incidência do IRPJ e da
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CSLL. A exigência desses tributos federais, logo, afrontaria o disposto nos arts.
153, III, e 195, I, “c”, das Constituição Federal.

A tributação dos créditos presumidos também implicaria transgressão ao


Princípio da Legalidade (art. 150, I, da CF/88), visto estar em desacordo com a
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legislação que disciplina a matéria, e ao Princípio da Capacidade Contributiva


(art. 145, § 1°, CF/88), haja vista que os créditos presumidos não denotam
qualquer manifestação de riqueza e não revelam capacidade contributiva
alguma por parte do contribuinte, não servindo de base para imposição dos
aludidos tributos federais.

Por fim, a incidência do IRPJ e da CSLL sobre os créditos presumidos de ICMS


previstos no Decreto Estadual n° 4852/97 (art. 11, III, LII, LIII e LV do Anexo IX)
inviabiliza a redução de desigualdades regionais proporcionada por esses
benefícios fiscais, e também representa uma indevida interferência da União
em políticas fiscais dos Estados. Daí porque a tributação desses benefícios
fiscais também ofenderia os valores tutelados pela Constituição Federal em
seus arts. 1º, caput, 3º, III, 34, caput, e 60, §4º, II.

IV – DA COMPENSAÇÃO

Reconhecida a inexigibilidade do IRPJ e da CSLL sobre os créditos presumidos


de ICMS previstos no Decreto Estadual nº 4852/97 (art. 11, III, LII, LIII e LIV do
Anexo IX), impõe reconhecer também o direito da Impetrante de compensar
administrativamente os valores indevidamente recolhidos a título destes
tributos desde os últimos 5 anos antes do ajuizamento da ação, com quaisquer
contribuições ou tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do
Brasil, nos termos do art. 74 da Lei nº 9.430/96.

Afastando qualquer dúvida quanto à possibilidade do direito à compensação


dos valores indevidamente recolhidos ser reconhecido em sede de Mandado
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de Segurança, o E. SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA editou a Súmula nº


213, a qual dispõe que “O mandado de segurança consiste em ação
adequada para a declaração do direito à compensação tributária”.

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Outrossim, para que os tributos indevidamente recolhidos não percam seu


valor com o transcurso do tempo, eles devem ser corrigidos monetariamente
até a data da compensação, através da incidência da taxa SELIC, conforme
determina o art. 39, § 4º da Lei nº 9.250/95.

V – DOS PRESSUPOSTOS NECESSÁRIOS À CONCESSÃO DA MEDIDA


LIMINAR

Frente às relevantes razões invocadas, resultam preenchidos, integramente, os


pressupostos autorizadores da concessão de medida liminar, para determinar
que seja suspensa a exigência do IRPJ e da CSLL sobre os créditos
presumidos do ICMS concedidos pelo Estado de Goiás com base no Decreto
Estadual nº 4852/97 (art. 11, III, LII, LIII e LIV do Anexo IX) em favor da
Impetrante.

O fumus boni iuris está presente e amparado pelas diversas manifestações


doutrinárias e na jurisprudência do E. TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 4ª
REGIÃO. A verossimilhança do direito invocado, portanto, é inequívoca.

O periculum in mora está presente na medida em que, caso as mencionadas


exações não cessem, a Impetrante terá que suportar o desfalque arbitrário,
manifestamente inconstitucional e ilegal do seu patrimônio, risco este que
assume uma conotação mais ameaçadora no contexto econômico atual.

Ademais, caso a Impetrante opte por deixar de oferecer os créditos presumidos


de ICMS previstos no Decreto Estadual nº 4852/97 (art. 11, III, LII, LIII e LIV do
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Anexo IX), concedidos pelo Estado de Goiás à tributação pelo IRPJ e pela
CSLL, dará margem para que as autoridades administrativas a autuem, para
imposição do pagamento dos referidos tributos, além de substanciais multas e
juros de mora e indeferimento da concessão de certidão negativa de débitos,

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certidão esta absolutamente indispensável para o regular exercício de suas


atividades.

Assim, torna-se mister a concessão imediata da medida liminar, a fim de que a


Impetrante não se veja sujeita ao recolhimento do IRPJ e da CSLL sobre os
créditos presumidos de ICMS concedidos como incentivo fiscal pelo Estado de
Goiás com base no Decreto Estadual nº 4852/97 (art. 11, III, LII, LIII e LIV do
Anexo IX), pelos fundamentos já expostos.

VI – DO PEDIDO

Por todo o exposto, requer a Impetrante digne-se V. Exa. a:

(i) conceder a medida liminar, inaudita altera pars, para determinar que a
Autoridade Coatora se abstenha de exigir o IRPJ e a CSLL sobre os créditos
presumidos de ICMS concedidos pelo Estado de Goiás por meio do art. 11, III,
LII, LIII e LIV do Anexo IX do RICMS-GO (Decreto Estadual nº 4852/97), por
não configurarem receita tributável;

(ii) notificar a Autoridade Coatora para prestar suas informações no prazo legal;

(iii) dar ciência da impetração do presente Mandado de Segurança à


Procuradoria Geral da Fazenda Nacional, para que, querendo, ingresse no
feito, nos termos do art. 7º, II da Lei nº 12.016/2009;

(iv) ao final, após ouvido o Ministério Público Federal, conceder a ordem de


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segurança para assegurar o direito da Impetrante de:

(a) não sofrer a incidência do IRPJ e da CSLL sobre os créditos


presumidos de ICMS previstos no art. 11, III, LII, LIII e LIV do Anexo IX,

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do Anexo IX do RICMS-GO (Decreto Estadual nº 4852/97), por não


configurarem receita tributável; e

(b) compensar os valores indevidamente recolhidos a tais títulos, na


forma do art. 74 da Lei nº 9.430/96 e alterações posteriores, desde os 5
anos anteriores ao ajuizamento da presente ação, com quaisquer
tributos arrecadados e administrados pela Secretaria da Receita Federal
do Brasil, aplicando-se, desde os recolhimentos indevidos, os juros
SELIC previstos no art. 39, § 4º, da Lei nº 9.250/95.

Requer, outrossim, digne-se V. Exa. a condenar a parte contrária ao


pagamento das custas e demais despesas relacionadas com a impetração e
acompanhamento do presente mandamus.

Dá-se a presente causa o valor de R$ 100.000,00 (cem mil reais).

Termos em que, pede deferimento.


Blumenau, 18 de dezembro de 2014.

Mangini/ PR332615
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RELAÇÃO DE DOCUMENTOS

Doc. 01 – Documentos societários da Impetrante;

Doc. 02 – Instrumento de Procuração;

Doc. 03 – Razões contábeis que comprovam a contabilização dos créditos


presumidos de ICMS – por amostragem semestral, no período de 2009 a 2014;

Doc. 04 – Cópia do Registro de Apuração do ICMS de Goiás dos anos de 2009


a 2014;

Doc. 05 – Cópias de Notas Fiscais de operações em Goiás, no período de


2009 a 2014 – por amostragem;

Doc. 06 – Cópia dos recibos de entregas das DCTF’s da empresa referentes


aos exercícios de 2009 a 2014;

Doc. 07 - Balancetes de Verificação consolidados dos anos-calendário de 2008


a 2014;

Doc. 08 - Cópias das DIPJ’s da empresa nos exercícios de 2008 a 2013 (anos-
calendário de 2007 a 2014);

Doc. 09 - Cópia dos DARF’s de recolhimento do IRPJ e da CSLL referentes ao


período de 2008 a 2014; e

Doc. 10 – Comprovante de recolhimento de custas de preparo.


Documento recebido eletronicamente da origem

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