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Cristãos em Babel

Egbert Schuurman
Copyright @ 1987, de Paideia Press Ltd
Publicado originalmente em inglês sob o título
Christians in Babel
pela Paideia Press Ltd,
P.O. Box 1000, Jordan Station, Ontario, LOR ISO, Canadá.

Todos os direitos em língua portuguesa reservados por


E M
Brasília, DF
www.editoramonergismo.com.br

1a edição, 2016

Tradução: Breno Oliveira Perdigão e Pedro Felipe Gonçalves Silva


Revisão: Luiz Adriano Borges, Adria Michelle Marcúz, Felipe Sabino e Rogério Portella


P ,
, .

Todas as citações bíblicas foram extraídas da


Versão Almeida Revista e Atualizada (ARA),
salvo indicação em contrário.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Schuurman, Egbert
Cristãos em Babel / Egbert Schuurman, tradução Breno Oliveira Perdigão e Pedro
Felipe Gonçalves Silva — Brasília, DF: Editora Monergismo, 2016.
Título original: Christians in Babel
ISBN: 978-85-69980-15-5
1. Igreja e o mundo 2. Cristianismo I. Título
CDD 201
S
Prefácio à edição brasileira
Introdução
I. Vertentes da futurologia
II: A redução da cultura pelo homem em um modelo científico e tecnológico
III: Cultura de babel
IV: O desafio para os cristãos
Sobre o autor
P

I
É um privilégio apresentar este clássico de Egbert Schuurman ao
leitor cristão de língua portuguesa. Schuurman, nascido em 1937 na
Holanda, é autor de diversos livros sobre a filosofia da tecnologia,
tratando do tema sempre a partir duma perspectiva cristã. Estudou
engenharia civil e, depois, fez seu doutoramento em filosofia sob
orientação de Hendrik van Riessen (1911-2000). Schuurman
posteriormente teve uma carreira paralela de professor universitário
e de político pelo partido da União Cristã, servindo como senador
em seu país entre os anos de 1983 e 2011.
Van Riessen, seu orientador, fora um dos pioneiros,
juntamente com Jacques Ellul (1912-1994) a criticar, do ponto de
vista cristão, o impacto da tecnologia na reorganização da
sociedade moderna. A diferença entre Ellul e van Riessen é
ilustrativa da diferença entre Schuurman e outros críticos
contemporâneos da tecnologia. O francês Ellul, embora protestante,
adotou a teologia neo-ortodoxa e, posteriormente, deixou-se
influenciar por vertentes mais radicais. Apresentou uma crítica
revolucionária à sociedade tenocrática, principalmente por conta do
seu efeito totalitário e regulador na vida moderna. Isso se alinhava à
sua defesa do anarquismo como uma opção viável para a política
cristã.[1] Van Riessen, por outro lado, contribuiu ativamente com a
abordagem reformacional na filosofia holandesa, fazendo parte da
segunda geração desse movimento juntamente com J. P. A. Mekkes
(1898-1987), outra figura influente na carreira de Schuurman.[2] Com
Mekkes e van Riessen, Schuurman aprendeu a julgar o papel da
tecnologia na sociedade moderna e a nossa visão da história e do
futuro à luz das Sagradas Escrituras. Entendeu, assim, que nada na
cultura humana é neutro: pelo contrário, nosso pensamento e
prática ou traz honra e louvor ao Deus Vivo, ou o rejeita e despreza.
Essas duas influências se fazem notar neste panfleto,
Cristãos em Babel, publicado em inglês em 1987 e agora
disponibilizado pela primeira vez em língua portuguesa. Os temas e
preocupações típicos do final da Guerra Fria se tornam evidentes
quando, por exemplo, o autor descreve a iminência dum confronto
nuclear de proporções catastróficas (p. 39) ou o perigo de ideologias
revolucionárias e utópicas inspiradas por uma nova variedade de
tradição marxista (p. 13-16). Ao aposentar-se da política em 2011,
Schuurman discorreu sobre a urgência de problemas mais familiares
ao público atual, especialmente as consequências negativas duma
sociedade materialmente rica, mas composta por adultos que
basicamente se comportam como adolescentes — drogas,
sexualidade desenfreada, vulgarização — significativamente,
características que podemos identificar não somente no “velho
mundo” da Europa mas também entre certos grupos emergentes
nas sociedades dos países em desenvolvimento.[3]

II
Cristãos em Babel apresenta uma crítica em tom profético à
sociedade pós-cristã, que se faz otimista em excesso quanto ao
poder da ciência, da mente humana e da tecnologia. Segundo os
entusiastas desse humanismo tecnológico, a esperança para
resolver nossos problemas sociais, biológicos, ambientais, etc. está
na descoberta científica e na sua aplicação prática. Tal aplicação se
move pelo ideal de controle da natureza e da sociedade. Essa
ambição de controle tem gerado tendências autoritárias e alienantes
na nossa organização social. Diante disso, cabe ao crente olhar
criticamente para o papel da tecnologia e da ciência, principalmente
considerando o patamar messiânico em que foram colocadas por
nossa cultura pós-cristã.
Seguindo o brilhantismo de Herman Dooyeweerd (1894-
1977) e de van Riessen, Schuurman situa essa tendência pós-cristã
dentro da cosmovisão humanista moderna, em que dois polos
opostos operam em tensão como base religiosa.[4] Por um lado, um
valor absoluto afirmado nessa cosmovisão nega qualquer restrição à
autonomia do ser humano, individual ou coletiva, afirmando o motivo
fundamental da “liberdade”. Tal liberdade leva ao impulso de
controlar o mundo à nossa volta, tornando-o em objeto à nossa
disposição. Esse ideal de controle emerge como algo necessário em
virtude do outro motivo fundamental e absoluto, o da “natureza”.
“Liberdade”, manifestada na noção de autonomia humana, e
“natureza”, manifestada na noção de limites externos a essa
autonomia são afirmadas ao mesmo tempo como motivos
independentes na cosmovisão pós-cristã. Fica clara a contradição
entre dois valores absolutos que impulsionam essa cosmovisão. Em
dada situação, um desses valores haverá de ceder ao outro.
Quando o ideal de controle se expande e passa a promover o uso
de poder não somente sobre o mundo natural, mas também sobre
outros seres humanos, esse ideal acaba por negar o ideal da
autonomia. A tensão não é só lógica, mas também prática, levando
a resultados desastrosos.
Com van Riessen e Dooyeweerd, Schuurman vê que a
ciência moderna e suas aplicações ganham um determinado sentido
dentro dessa cosmovisão e que, apesar de avanços e descobertas,
contêm dentro de si as raízes duma grave doença, cujos sintomas
temos visto nos males sociais e ambientais que permeiam o mundo
contemporâneo. Com Mekkes, por outro lado, Schuurman reafirma o
senhorio de Jesus Cristo sobre a história e principalmente sobre o
futuro. Nada no desdobramento da cultura humana acontece por
acaso. Mais ainda, a própria força dinâmica da história é Cristo, que
lidera a consumação do seu Reino, e cuja vitória final já está
decretada com autoridade divina.[5]

III
Como intelectual público, então, Schuurman tem procurado afetar o
pensamento e a prática cristã na sua inserção numa sociedade pós-
cristã. Em complemento a esse chamado e alerta aos crentes,
travou vários embates no plano político, nas décadas em que atuou
como senador pelo partido que Mekkes ajudou a fundar. Há alguns
aspectos interessantes na trajetória e nas ideias políticas de
Schuurman que devem ser destacados aqui. O leitor cristão desta
crítica aos efeitos deletérios de nossa cultura tecnocrática deve
tomar cuidado para não concluir erradamente que a solução para
esse problema passaria ou pelo rompimento revolucionário ou pela
reação anacrônica e retrógrada. Pelo contrário, o que recomenda
Schuurman é prudência e discernimento.
Em primeiro lugar, o cristão precisa entender, nas diversas
comunidades em que se insere, que é seu dever refletir sobre a
antítese entre a cultura pós-cristã que nos cerca e aquilo que seria
proposto por um engajamento mais bíblico, lembrando que a derrota
do sistema pós-cristão é uma questão de tempo, pois nada pode se
opor à vinda do Reino de Cristo (p. 45).
Contudo, em segundo lugar, é responsabilidade do crente
agir com discernimento, pois seria algo tremendamente
problemático simplesmente “apagar” todas as marcas do
desenvolvimento histórico e cultural que o mundo pós-cristão tem
obtido. Portanto, será um dever adicional do crente “reconhecer a
situação existente e achar formas de lidar com ela”, ao mesmo
tempo evitando a tentação do comodismo (p. 46). Em suma, temos
que começar com a situação atual e, partindo dela, “utilizar as
normas que foram dadas por Deus” para a formação histórica e
cultural.
Em terceiro lugar, essa mudança de rumo liderada pelos
cristãos deve ser engatilhada por uma aplicação mais rigorosa e
deliberada da cosmovisão bíblica (p. 47-8) mas, ao mesmo tempo, a
igreja institucional deve ser poupada de uma “hiperinflação”. Ela
tem, sim, a tarefa profética de denunciar o mal onde estiver, mas
cabe a outras associações cristãs promover objetivos e valores
culturais que vão além da proclamação do evangelho e da
ministração dos sacramentos — e isso deve ser feito sem perder de
vista o atual cativeiro babilônico do crente (p. 48-51).
Em quinto lugar, a política não tem o papel-chave nessa
guinada e redirecionamento que devemos, como crentes, promover
na nossa civilização. O ponto de partida é espiritual. O ponto
intermediário é ético e histórico. Só então a atuação política passa a
ter algum norte. Crer no contrário é defender “uma abordagem
superficial” que não lida com a raiz do problema (p. 52).
Finalmente, a política cristã que mais se conforma a uma
visão bíblica da realidade social e histórica é aquela que afirma a
diversidade das esferas da vida, cada uma soberana em seu próprio
âmbito. Por isso, seguindo Abraham Kuyper (1837-1920) e outros
intelectuais cristãos que influenciaram a plataforma de seu partido,
Schuurman manifesta-se a favor da “gente pequena” (para usar as
palavras de Kuyper) e contra a expansão tirânica do Estado
modernista e totalizante.[6]

IV
Na política cristã defendida por Schuurman, o Estado é somente
uma dentre várias instituições — e não o “todo” que abarca o resto
da sociedade como se fossem meras “partes”. Por isso, “o Estado
tem, diante da face de Deus, um lugar limitado e uma tarefa
definida”.[7] Ainda:

É uma tentação constante para o Estado tentar controlar


a vida inteira de seus cidadãos. A política cristã,
contudo, reconhece várias formas de relacionamentos
na sociedade que o Estado deve reconhecer como tendo
sua responsabilidade própria, como a família, a igreja, a
empresa de negócios, a escola, etc. Eles não são
subordinados ao Estado, mas estão no mesmo nível que
ele (…). O Estado tem sua própria estrutura distintiva,
com uma importante, mas limitada, autoridade ou
mandato (…). À luz disto, a tarefa do Estado é nada
mais nada menos que promover e administrar a justiça
pública, e assim também servir ao interesse geral
público. Tal Estado não é, e jamais deve ser permitido
transformar-se em, um Estado de bem-estar social
(welfare state), ou um Estado-babá (nanny state), ou um
Estado de poder (power state); ele é chamado a ser um
Estado justo, um Estado sob o império da lei.[8]

Aos críticos de plantão, convém esclarecer que não se trata


da noção promovida por igrejas liberais de forçar goela abaixo o
Reino de Deus na terra com a implementação de programas
políticos e sociais, e sim de buscar responder fielmente ao chamado
de Deus para o engajamento cultural dum ponto de vista bíblico e
que mantenha a antítese em relação à cultura pós-cristã.
Em termos mais concretos, Schuurman refere-se ao ideal de
defender a “pequena cultura pessoal”, respeitando o valor da vida
de cada indivíduo (por exemplo, no combate ao aborto e à eutanásia
ativa como políticas públicas) e apoiando o sustento e a defesa aos
mais vulneráveis na sociedade. Já do ponto de vista da “grande
cultura material”, para Schuurman, o cristão é chamado a falar
contra os valores culturais que tratam as pessoas e o resto da
criação como meras “máquinas” (por exemplo, a indústria de carne
bovina e suína e o agribusiness). Ele principalmente enfatiza no
combate a esses valores a postura pessoal no consumo, o uso da
denúncia por discurso e a decisão legislativa de negar
financiamento a orçamentos que utilizem os impostos no apoio a
projetos tecnológicos e científicos que envolvam “desenvolvimentos
antinormativos” — por exemplo, a indústria armamentista e as
viagens espaciais, principalmente quando muito pouco dinheiro é
direcionado à promoção de ideias para a melhoria civilizacional e o
alívio da miséria ao redor do mundo.[9]
Percebendo que tais ideias apelam tanto à chamada “direita”
como à chamada “esquerda”, o purista ideológico ficará talvez
insatisfeito. Deve-se, porém, ressaltar que essas aplicações da
cosmovisão cristã são apoiadas por certo realismo político que, ao
mesmo tempo, rejeita a ruptura revolucionária e utópica com o
status quo e a reação anacrônica e ingênua de retorno a uma “era
de ouro” que jamais existiu. O purismo ideológico, na hora de se
desenhar um sistema de filosofia política, é apropriado e até mesmo
necessário. Na prática, no dia-a-dia, no senado ou câmara, a
tomada de decisões é uma questão mais de direcionamento que de
destino final: estamos numa situação e inclinação que não nos
agrada. Deve haver um redirecionamento. Pequenas decisões
podem ser tomadas num ou noutro sentido. E, no final, um
redirecionamento fará a diferença, para o bem comum, em
cooperação ou co-beligerância com pessoas que seguem outras
linhas e valores.
E, com isso, fica sugerido um exemplo de como a agenda
cristã para uma cultura mais bíblica pode ajudar e recrutar até
mesmo aqueles que rejeitam essa cosmovisão, lembrando que só o
poder do evangelho e a ação do Espírito Santo de Deus podem, de
fato, mudar o coração do homem e operar para ampliar o impacto
duma igreja obediente neste mundo, no qual Cristo já reina.

— Dr. Lucas G Freire


Escola de Filosofia
Universidade North-West
África do Sul
I

Este livreto chama a atenção para os avanços da cultura na ciência


e tecnologia. Pretendo focar problemas e ameaças que
acompanham o desenvolvimento, dificuldades geradas por
fenômenos como energia e armas nucleares, tecnologia da
computação, desemprego, biotecnologia, manipulação genética,
poluição ambiental, esgotamento dos recursos naturais e fontes de
energia, legalização do aborto e demanda para o governo mundial.
A análise desses desenvolvimentos e de seus pressupostos
espirituais revela que nós já não vivemos em uma cultura cristã.
Existe uma correlação surpreendente entre o desenvolvimento da
ciência e da tecnologia, por um lado e do processo de
descristianização, por outro.
Para entender a correlação, precisamos avaliar o
desenvolvimento da ciência e da tecnologia e as forças espirituais
por trás dessa expansão à luz da profecia bíblica sobre o fim dos
tempos. Quanto mais nos aproximamos do dia do retorno de Cristo,
mais somos capazes, mediante a fé, de observar a proximidade do
Reino de Deus. A profecia bíblica mostra como o desenvolvimento
da cultura trará enormes realizações científicas e técnicas que, por
ironia, comportam seu declínio e desgraça.
Houve o tempo em que as pessoas falavam sobre a cultura
cristã. Esse termo agora é desprovido de sentido. Do ponto de vista
bíblico, nossa cultura provavelmente pode ser identificada como
babilônica. Aqui o homem adora vários deuses e os constrói, de
acordo com a permissão da ciência e tecnologia.
Tenho a intenção de avaliar essa cultura babilônica e chamar
a atenção para a posição dos cristãos como exilados nela. O tema
do exílio é eminentemente bíblico. Como exilados, não podemos
manter pretensões grandiosas; ainda assim, jamais podemos perder
o coração. Precisaremos aprender mais sobre nossa
responsabilidade na nossa cultura atual. Exilados anseiam por
retornar ao Deus vivo. Devemos rejeitar as falsas divindades da
nossa sociedade e dar continuidade a combater o bom combate.
I. V

Para fornecer uma análise sólida da cultura atual, precisamos saber


mais sobre o campo de forças espirituais por trás do
desenvolvimento da ciência e da tecnologia.
Começaremos pela investigação das duas vertentes
principais da futurologia humanista. Quando comparamos as duas
correntes às expectativas cristãs sobre o futuro, vemos os
problemas resultantes da ciência e da tecnologia na perspectiva
apropriada.

Futurologia evolucionária
Na ciência da futurologia moderna existe uma função religiosa. O
homem confia a vida à ciência e seus poderes. A tecnologia
científica tornou-se uma fonte profunda de inspiração para as
pessoas ansiosas em relação ao futuro. O homem contemporâneo
aceita o processo de evolução e, em seguida, aplica seu
conhecimento à eugenia para tentar fornecer às futuras gerações
um “equipamento interno” melhor. Assim, a tecnologia científica
moderna é vista como meio para melhorar o “equipamento exterior”
do homem. No passado, a evolução foi pensada para operar de
modo automático, sem intervenção humana; hoje, o homem
começou a crer na possibilidade de dirigir o próprio desenvolvimento
e o da sociedade.

Controle do futuro. O processo de mudanças rápidas e


incessantes da cultura ocidental desde a Segunda Guerra Mundial é
assustador. Encontramo-nos em uma corrida desenfreada que, se
não for controlada pelo homem, ameaça com um futuro sombrio e
perigoso.
Os futurólogos acreditam que essas grandes limitações do
futuro podem ser resgatadas apenas se aprendermos o controle
pelo uso criterioso da ciência. Seus esforços para coordenar o futuro
dependem da tecnologia e do método científico. Aplicando os
métodos científicos de controle às atividades não tecnológicas,
como economia e política, eles serão provavelmente controlados.
Assim consideram a tecnologia o motor do progresso cultural e
nosso crescente conhecimento científico o combustível que aciona o
motor. Depositaram suas maiores esperanças no computador em
relação às áreas de design de sistemas e da cibernética. O
computador, afirmam, é a ferramenta mais potente para nos ajudar
na pesquisa, orientação e controle do futuro. Todos os problemas e
as ameaças já existentes — mesmo os gerados pela própria
tecnologia — podem ser solucionados pelas descobertas da ciência
e da tecnologia mais recentes.
O método científico nas mãos dos engenheiros modernos
mostrou-se muito bem-sucedido no controle da matéria. Se esse
progresso significa progredir e expandir, os futurólogos argumentam
que o método científico também deverá ser aplicado a áreas não
especificamente tecnológicas. Isso significa que o homem, sua
sociedade e o futuro deverão ser manipulados pelo método
científico.
Os planejadores modernos pensam dessa forma
evolucionista e tecnocrática. Por isso, defendem o tipo de
imperialismo tecnológico proveniente da supremacia da ciência.

Motivo. Sabemos que a nossa cultura está na direção errada


quando analisamos o motivo predominante na orientação dos
tecnocratas. Ele foi secularizado de todo. “Precisamos estar tão
certos do amanhã como estamos em relação ao passado”, disse um
tecnocrata. Os velhos ideais humanistas do “conhecimento é poder”,
o “saber é prever”, são muito eficientes. O homem esforça-se para
redimir e manter a si mesmo. Por meio de seu conhecimento e
capacidades, suas exigências e desejos, ele se torna a medida de
todas as coisas. Ele está determinado a recuperar o paraíso perdido
pela própria força. O futurólogo Olaf Helmer promete que, se o
método de controle científico e tecnológico for aplicado de forma
coerente ao homem e à sua sociedade, não só o sofrimento
desaparecerá por completo: as guerras se tornarão uma coisa do
passado, e o homem será capaz de deleitar-se com a prosperidade
material sem precedentes.
O cristão precisa perguntar a si mesmo se ele deveria
preocupar-se de uma forma científica com o futuro. A resposta é
sim. Nossa sociedade tornou-se tão complicada em sua dinâmica
que é quase impossível dizer qualquer coisa sobre o futuro sem
recorrer à análise científica. Mas o cristão não deve permitir que o
conhecimento científico se torne a norma. Ele deve servir para
fortalecer, não erradicar, a responsabilidade do cristão.
Quando a responsabilidade do homem, não a ciência, torna-
se central, podemos ainda esperar notícias, oportunidades positivas,
em especial no sentido de soluções inesperadas para problemas
difíceis. No entanto, muitos planejadores secularizados procuram
obter soluções de forma arrogante, usando apenas as ferramentas
do imperialismo tecnocrático. Eles descobrem então, para seu
desânimo, que as soluções não podem ser alcançadas. Para obter
sucesso em nossas lutas em relação ao futuro precisamos rejeitar
toda pretensão de que a ciência e a tecnologia podem nos ajudar a
salvar a nós mesmos e assegurar o futuro.
Se não formos capazes de reconhecer as normas para o
futuro, falharemos em ver o homem como um ser criado à imagem
de Deus, e falharemos em conseguir providenciar motivos
seculares, a futurologia evolucionária nos dará o oposto de tudo o
que procuramos. O homem será preso por forças em contínua
expansão, que acabarão unidas e mobilizadas em uma única
potência global, ou seja, o futuro esboçado pelos futurólogos
evolucionários será a sociedade tecnológica em que todos, e tudo,
serão reduzidos a componentes de um sistema grande, abrangente
e totalitário. Nesse sistema, um ser humano será uma roda
denteada, totalmente intercambiável e substituível. E um estado de
mundo tecnológico será a personificação do poder do futuro.
Esse futuro não terá futuro. Ele trará opressão e problemas
insuperáveis, alguns dos quais já foram sinalizados pelo Clube de
Roma. No entanto, a maioria das pessoas, unidas em suas
preocupações materialistas comuns, parecem contentes em seguir o
caminho indicado pelos tecnocratas. Os resistentes a essa
tendência com paixão são os revolucionários.

Futurologia revolucionária
Os futurólogos revolucionários objetam com tenacidade ao futuro
estático e rígido, percebido pela elite tecnocrática. Seu palpite é que
esse futuro serviria apenas os interesses próprios da elite; a
injustiça presente, o sofrimento, o mal e a opressão, serão
reforçados em vez de eliminados.
Além disso, eles temem que a guerra nuclear, o aumento da
poluição ambiental, e o atual esgotamento dos recursos minerais e
energéticos — todos eticamente inaceitáveis para eles — serão,
pela lógica, opções viáveis para os tecnocratas. Os tecnocratas
admitem a utilização de medidas limitadas contra esses problemas,
apenas adiando-os. Em uma data posterior, eles virão de novo à
tona de forma muito mais aguda. De acordo com futurólogos
revolucionários, isso ocorre porque tecnocratas subordinam a
história ao progresso da ciência e da tecnologia. Seu erro significa
que as atuais forças culturais e econômicas, junto com todos os
seus males, apenas serão reforçadas em saltos quânticos.

Revolucionário contra a evolução. Os revolucionários estimulam a


revolução. Para eles, a revolução, com o seu protesto, conflito e
ação, consiste no motor de combustão eterno da história. O
combustível para esse motor é a fantasia utópica, que curiosamente
se vale da ciência para se realizar. Os futurólogos revolucionários,
de maioria neomarxista, sentem que o cumprimento da história e do
futuro será frustrado pela abordagem técnico-científica. Eles temem
que o homem se torne prisioneiro das forças produtivas; como seu
trabalho é reduzido à atividade puramente produtiva, seu custo para
o sistema de lucro deve ser compensado pela escalada do
consumo. Os revolucionários, portanto, sentem que o homem se
tornará uma besta de carga na estrutura tecnocrática da sociedade.
Eles pulam para a defesa de pessoas que nem sequer estão
conscientes de sua situação, em parte por causa das forças de
entorpecimento mental exercidas sobre eles, pela síndrome da
produção-consumo e em parte por causa do próprio desejo ilimitado
pelo consumo. Os revolucionários insistem que o materialismo,
fundamental para a futurologia evolucionária, não redime o homem;
em vez disso, trará sua desgraça.
Desse ponto de vista, parece que os futurólogos
revolucionários e os futurólogos evolucionários (planejadores) são
de todo opostos. Os revolucionários se recusam a racionalizar a
situação atual, e se opõe com estridência às principais tendências
da cultura atual. Em vez de apresentar a história como um processo
evolucionário, eles enfatizam a descontinuidade da história,
insistindo que os atos exclusivos, inovadores e individuais são as
chaves para escapar da desgraça iminente do homem, as chaves
para a liberdade. Seu ideal não é o futuro planejado, determinado,
que se vale das ferramentas da ciência e tecnologia; em vez disso,
adotam a atitude de esperar para ver em relação ao futuro. Eles
argumentam que o passado, não pode apenas ser prolongado em
direção ao futuro, por extensão, e as forças políticas e econômicas
existentes, que usam ciência e tecnologia como ferramentas, não
podem ser autorizadas a continuar e consolidar sua força
indefinidamente. Elas devem ser desmanteladas e substituídas por
abordagens mais imaginativas que mais uma vez se valem da
ciência e tecnologia para conduzir a humanidade ao futuro
verdadeiramente utópico. Sua utopia dará ao homem um
caleidoscópio de opções que devem garantir um futuro livre,
enriquecido.
Tal utopia, no entanto, não pode permanecer apenas como
um desejo. Mesmo enquanto a estrutura atual da sociedade está
sendo desmontada, a nova utopia deve ganhar forma. A revolução é
o início de um processo de desenvolvimento em que o homem pode
voltar a ser uma vez mais ele próprio, não mais alienado de si
mesmo, como ele está em uma tecnocracia crescente.

Método. O método dos futurólogos revolucionários baseia-se,


portanto, na negação radical das premissas subjacentes, do
passado e presente. Os revolucionários resistem às forças sociais
“da instituição” existente e esperam trazê-los para o conflito aberto.
Só quando a instituição for derrubada haverá novo potencial para o
futuro. Só então a regra de independência e liberdade terá uma
chance. No entanto, nem mesmo eles estão certos de que seu
objetivo sempre será alcançado. Eles não estão particularmente
otimistas sobre o futuro, em parte porque as condições nos países
marxistas demonstram que a revolução não oferece nenhuma
garantia de liberdade. Não há garantia de que a revolução não será
transformada em uma ditadura mais ampla e tecnocrática, como
aconteceu na União Soviética. Os revolucionários atuais são,
portanto, muito mais radicais na percepção da revolução que a
velha guarda marxista. Os marxistas ortodoxos sentiam que uma
única revolução garantiria a redenção. Eles estavam errados. Os
revolucionários atuais pensam que a revolução deve consistir em
um processo permanente. Assim, só quando a sociedade encontra-
se em estado de revolução perpétua o progresso da ciência e da
tecnologia poderá ser guiado ao caminho da liberdade e paz para a
humanidade.
Para evitar a supressão, a exploração e os desastres, a
ciência e a tecnologia não devem ser colocadas nas mãos da
instituição. O poder da ciência deve antes ser colocado a serviço da
criatividade revolucionária e da revolução criativa com o objetivo da
realização do homem. O caminho da revolução perpétua é o
caminho da salvação. O erro primordial de Karl Marx foi propor uma
única revolução culminante. No entanto, quando essa única
revolução terminal chegava ao fim, as forças opressoras de novo
surgiam, sob a forma de uma elite que começou a transformar a
recém-descoberta liberdade do homem em escravidão. Quando a
destruição revolucionária é perpétua, a liberdade — no sentido de
criatividade — se alimenta da desordem perpétua.
Notei que os revolucionários atuais estão longe de ser
otimistas. A instituição aproveita todas as oportunidades para
reduzir as forças revolucionárias e, assim, impedir o cumprimento do
ideal revolucionário utópico. Além disso, as massas não veem
necessidade de uma revolução, e muito menos uma revolução
perpétua. As massas e os revolucionários geralmente estão
bastante satisfeitos em dormir o sono dos mortos. Por essa razão,
os revolucionários designam-se protagonistas da luta, criando assim
uma nova elite revolucionária. Mas foi precisamente seu objetivo
acabar com todas as formas de elitismo!

O plano de fundo espiritual-histórico


Para os tecnocratas, a história é absorvida na continuidade do
progresso científico-técnico. Mas, os revolucionários rebatem, tal
história produz uma sociedade de expansão do poder, repressão,
falta de liberdade e gigantescas catástrofes culturais.
Os revolucionários oferecem de fato um futuro “aberto”?
Apesar de suas alegações, eles não têm tanta certeza.
Na verdade, eles apenas pressupõem que a destruição do
antigo produzirá o “novo” melhor. Além disso, sua fé na revolução
como forma de enobrecer as ambições humanas não pode
esconder o medo de que a revolução possa muito bem levar a
excessos arbitrários. Isso torna o futuro dos revolucionários um fator
desconhecido. O desespero se esconde sob sua estridência.

O conflito entre os dois. A leitura superficial das duas posições


poderia sugerir seu antagonismo completo. E, de fato, uma batalha
constante, quase antitética, difunde-se entre elas. O conflito se
intensifica à medida que os problemas e catástrofes enfrentados
pela cultura Ocidental aumentam. É preciso localizar sua origem no
curso da história para compreender o conflito de forma correta.
Por que parte da cultura ocidental é tão arrogante no uso da
ciência e tecnologia para apoiar o sistema econômico e político
dominante, enquanto a outra parte, o segmento revolucionário, foi
tão hesitante e reservado em relação à atual cultura técnica e
científica, francamente desesperada?

Reforma e Renascença. O desenvolvimento da ciência e


tecnologia modernas tornou-se possível na cultura ocidental,
quando o homem europeu do início da Era Moderna ganhou novos
entendimentos da história, da natureza, do desenvolvimento da
cultura, e da liberdade humana. Desde o final da Idade Média, as
pessoas passaram a ver este mundo como aquele que deve ser
desenvolvido.
No entanto, nunca houve unanimidade a respeito de como
proceder em relação a esse desenvolvimento. Desde o início, dois
movimentos espirituais contrastam-se fortemente. Por exemplo, eles
responderam de modo diferente à questão da origem. A Reforma
definia o homem como um ser chamado à liberdade, mas
responsável perante Deus. Assim, a liberdade significava serviço e
mordomia. Em contraste, a Renascença via o homem autônomo e
autossuficiente — uma criatura capaz de descobrir e sustentar a si
mesmo. O desacordo fundamental entre a Reforma e a Renascença
não ficou claro de imediato, assim cada lado fez empréstimos com o
outro. No entanto, a Renascença secularizou com rapidez certos
conceitos cristãos. Isso era especialmente verdadeiro em relação à
filosofia e ao conhecimento. Pelo fato de a filosofia e o
conhecimento manterem pouco impacto na praticidade do cotidiano,
a influência da secularização começou com lentidão. Porém a
influência da filosofia e da ciência na cultura se intensificaram, além
da secularização. Nesse ponto, a ideia da autonomia humana, tese
perene e central no humanismo, começou a assumir a liderança em
toda a cultura ocidental.

O deus dos filósofos. Com timidez no início, mas de forma mais


agressiva depois, a filosofia postulou a liberdade humana como
direito, não como dádiva. Filósofos e cientista ocidentais viam o
homem como uma criatura que mereceu a própria liberdade. Eles
tentaram encontrar a liberdade na autonomia humana e, mais tarde,
tentaram dar espaço à autonomia nas áreas da ciência e tecnologia.
O primeiro filósofo de renome dessa nova era, René
Descartes, colocou o homem racional no centro do universo. Sua
filosofia antropocêntrica gradualmente permeou a cultura ocidental;
mais tarde, as pessoas passaram a adorar os esforços do homem
racional, em especial nos campos da ciência e tecnologia. Essa
religião do homem emerge, da mesma forma, em termos como
autointeresse, autodeterminação, autorrealização e autossuficiência.
No início, os filósofos continuam a falar a respeito de Deus,
mas o novo deus sem dúvida não era o Deus vivo da sagrada
Escritura. O deus dos filósofos havia sido criado à própria imagem
do homem.
Durante algum tempo, esse deus teórico ainda funcionava
como causa necessária, mas o homem tornou-se mais racionalista e
antropocêntrico, e a divindade desapareceu do cenário de maneira
gradual, deixando a filosofia completamente humanística e
científica. O conhecimento e a ciência tornaram-se as ferramentas
com que o homem poderia limpar o caminho para o futuro. Esse
caminho começou a se abrir quando a tecnologia moderna passou a
se desenvolver. Aos poucos, a ideia tomou a forma de que o homem
e o mundo poderiam ser levados à plenitude mediante do uso da
ciência e da tecnologia. E a escatologia cristã sempre recuou diante
das expectativas tecnológicas de redenção.
Quando os esforços combinados da ciência e da tecnologia
começaram a render frutos materiais no século XIX, a ideia
secularizada do progresso aprofundou o avanço entre as massas.
Muitos cristãos também abraçaram a ideia de progresso e, em
seguida, encontraram um estilo de vida ambivalente. Assim, o
elemento cristão da cultura ocidental foi atacado por pretensões de
autonomia humana e rebaixado, mesmo a partir do interior de
expectativas secularizadas sobre o futuro.

Antítese aparente. Mas isso não explica por que futurólogos


evolucionários e revolucionários quase sempre se opõem. Para isso
temos que mais uma vez retornar à história espiritual do Ocidente.
Ambos os evolucionistas sociais e revolucionários sociais, partem
da premissa de que o homem é autossuficiente, livre e autônomo,
uma criatura que pode estar em seus próprios dois pés sem a ajuda
de um Deus vivo. Este “homem livre” agora finge ser dono e senhor
tanto de si mesmo quanto do mundo ao seu redor e, por último, do
futuro.
Os evolucionistas sociais, planejadores e tecnocratas
baseiam sua certeza e confiança na ciência. Eles amarram a sua
ideia de liberdade do homem à idolatria de sua razão. Por isso, eles
também deificam os resultados de seu empreendimento científico.
As ciências naturais são de importância suprema para eles, porque
a realidade em que vivem se conforma estritamente às leis da
matemática, física e mecânica. Tudo é absorvido pela cadeia de
causa e efeito, até mesmo, em última análise, o homem autônomo.
Isso, é claro, destrói a liberdade humana, embora o homem também
combata a destruição de sua liberdade.

O Iluminismo. A questão da liberdade do homem e sua destruição


constitui a tensão interna da filosofia do Ocidente. A ciência
determinista postulada pela razão livre põe em perigo a liberdade do
homem. Às vezes, a luta no pensamento filosófico-científico entre a
ciência e a liberdade é moderada; em outros momentos, torna-se
bastante acirrada. Desde os dias do Iluminismo o conflito tem
crescido para além do aspecto apenas teórico e filosófico para a
esfera cultural.
Afinal, está no espírito do Iluminismo não apenas conhecer a
realidade de forma lógica, mas também ordená-la com lógica. A
intenção pode ser criar, por meio da razão científica, uma sociedade
que sirva a autorrealização da liberdade humana. No entanto, em
seguida, a ciência se torna suprema e autônoma, e os resultados da
ciência determinam a história da sociedade e moldam seu futuro.
Futurólogos evolucionários (planejadores) caem nessa armadilha.
Sob sua influência, o homem sofre séria ameaça. Ela se intensifica
na medida em que o desenvolvimento cultural se torna mais
dinâmico, mais complexo e mais obscuro para o homem comum.
O grau em que o homem moderno torna-se enredado na rede
da cultura técnica e científica determina a intensidade da luta para
desvincular sua liberdade dos tecnocratas. A resistência à
futurologia evolucionária toma forma em sua atividade cultural.
Mediante a revolução perpétua, ele procura desfazer-se das
correntes das forças da ciência e do jugo da tecnologia maciça. Hoje
principalmente os revolucionários neomarxistas atuam como porta-
vozes da resistência contra a tecnocracia cada vez mais crescente.
Em pé sobre o princípio da autonomia do homem, ela se volta
contra a instituição que pretende usurpar e controlar a história e o
futuro. Por isso apelam para a imaginação, a criatividade e a
liberdade histórica subjetiva do homem. Eles pretendem redimir a
liberdade autônoma do homem por meio da destruição
revolucionária da ordem existente.
Assim, a batalha entre futurólogos evolucionários e
revolucionários está no coração da luta entre dois tipos de
humanistas que concordam com a afirmação fundamental de que o
homem não precisa de Deus — é autossuficiente. No entanto, esse
acordo fundamental divide a cultura ocidental contra si mesma.
O próximo capítulo mostrará como essa luta entre tipos de
humanistas vai dominar o futuro do Ocidente. Qualquer futuro
proposto em que o homem e seu reino sejam centrais terão de ser
avaliados à luz da escatologia cristã, que é a luz do futuro de Jesus
Cristo e a vinda do Reino de Deus.

Pontos de vista sobre o futuro: futurologia versus escatologia


Até agora, tenho discutido as futurologias evolucionárias e
revolucionárias. Elas oferecem duas posições extremas do futuro
que são diametralmente opostas uma à outra. Tentei descrever suas
forças fundamentais para o seu funcionamento e as tendências que
caracterizam as duas vertentes.
O que estas duas futurologias significam para o futuro da
cultura ocidental? Há problemas e perigos em ambas as posições.
Vamos avaliá-las em termos da expectativa cristã do futuro, também
conhecida como escatologia. Como veremos, a futurologia
humanista tanto percebe quanto não consegue entender os sinais
“mencionados na escatologia cristã”.
A futurologia evolutiva define o futuro em termos científicos e
procura controlar a história e o desenvolvimento pelo poder da
tecnologia. Ela parece acreditar que sua própria imagem do futuro
leva em conta todas as diversas possibilidades. Futurólogos
evolucionários carecem da modéstia de antecipar fatores de todo
desconhecidos. Eles tentam integrar vários planos de contingência
para o futuro em um plano abrangente, universal. A execução desse
plano tão universal, no entanto, significa o aumento da restrição das
liberdades pessoais, uma vez que a execução requer a coletivização
e concentração de poder.
No século XX, a orientação para governar o mundo por meio
da tecnologia teve consequências desastrosas. O ideal humanista
de paz duradoura, presumivelmente realizável pela ciência e
tecnologia, foi eliminado mais de uma vez. O ideal de prosperidade
material universal e os progressos têm sido realizados apenas no
mundo ocidental, e à custa do resto da humanidade e do ambiente
maltratado. Enfrentamos uma alarmante escassez de recursos
naturais e energia. A ideia de progresso, com sua crença na
produção e consumo ilimitados, está em xeque-mate pelas
limitações da criação e finitude de recursos. Embora o homem
moderno se esforce para tornar a si mesmo e a seu mundo mais
“humano”, ele só consegue afastar-se dos companheiros e do
mundo.
Sempre que os tecnocratas são confrontados com tais
problemas, eles se voltam para a ciência e para a tecnologia a fim
de tentar resolvê-los. Eles desenvolvem novas estratégias que
conservam o poder de violar a liberdade humana. Vários congressos
mundiais e fóruns são realizados para lidar com problemas críticos,
apenas reencenando esse padrão.
Essa concentração e escalada de poder, e as catástrofes
delas derivadas — como, por exemplo, a poluição ambiental
irreversível e os perigos da energia nuclear — são contestadas
pelos revolucionários, que sempre chegam à defesa da humanidade
oprimida. Eles insistem na liberdade absoluta em sentido histórico
ou cultural. No entanto, quando se esforçam para dar forma cultural
a essa liberdade, também devem utilizar os poderes da ciência,
tecnologia e organização moderna. Invariavelmente surge a elite
revolucionária.
Por essa razão, os revolucionários desejarão passar para o
campo dos poderes existentes, ou eles próprios mobilizarão uma
força que parece mais totalitária e ditatorial que o poder contra o
qual lutam. Assim, traem as próprias ideias revolucionárias, e a
revolução devora seus jovens. A tensão cultural entre o controle
científico e tecnológico do futuro e a tentativa humana de escapar
deste controle continua aumentando e sendo intensificada. Para
permanecer revolucionária, seus adeptos precisam se tornar mais e
mais radicais, recorrendo, em última instância, à violência. No final,
haverá confusão.
Os tecnocratas controlam a realidade dessa tensão cultural e,
assim, desfrutam de uma vantagem sobre os revolucionários. Eles
não depositam sua fé no homem como ser puramente histórico, mas
sim, no homem como ser racional, científico, e na tecnologia em si,
por exemplo, em relação à análise de sistemas, cibernética e
computador. Além disso, as massas não têm opção além de colocar
sua confiança nos tecnocratas, e escolhem fazê-lo porque sua fé
nas bênçãos da ciência e tecnologia ainda não foram muito
abaladas.

O homem sem Deus


Não raro, a ciência e a tecnologia são responsabilizadas pela
confusão em que nos encontramos. Todavia, afirmo tratar-se de um
grande mal-entendido. A origem do problema é o homem. Ele
chegou a se considerar o Alfa e o Ômega. Além do presente
imediato, as razões do homem moderno não são nada. O
significado da história e da vida se limita à realidade observável.
Desde o fechamento do acesso ao Deus vivo, a humanidade tem
colocado a esperança no que a ciência e a tecnologia podem fazer
no futuro. O espírito do homem ocidental tem sido tocado pela visão
de perfeição e plenitude. Afinal, ele a aprendeu do paraíso.
Entretanto, quando rejeita o amor de Deus e sua revelação, o
homem ocidental não usa a liberdade dada por Deus como
mordomo de Deus; em vez disso, ele a usurpa, enquanto tenta criar
uma utopia para refletir suas crenças. Quando o homem se separa
de seu poder, de sua liberdade e do chamado para obedecer a
Jesus Cristo, ele não incorre no paganismo, mas se torna um
indivíduo pós-cristão. Sem confiança religiosa em Deus, ele se
apega à nova religião secular da ciência e tecnologia, duas áreas
cujo desenvolvimento, ironicamente, só foi possível por causa da fé
cristã.
Ilegalidade e falta de sentido
Quando o homem rejeita a revelação e a história e explora a
tecnologia moderna e seu potencial de proporções sem
precedentes, a tecnologia assume características sinistras e
demoníacas. O homem moderno e secular torna-se tirânico quando
está no controle da terra e de todos os seus tesouros, esgotando a
si mesmo e o ambiente.
Além disso, como a secularização se intensifica e a
resistência cristã ao processo diminui ou desaparece, o homem
moderno e secular se tornará anárquico/sem lei e niilista — uma
figura descrita com correção como o homem do fim dos tempos.
Hoje em dia, a ideia de progresso ilimitado sem dúvida
conflita com o potencial limitado da criação. Assim, o progresso
material e seus valores tornaram-se motivos de discussão. A
esperança do homem secular de viver em um paraíso terrestre
parece arbitrária. Em vez de alimentar uma visão otimista do futuro,
as pessoas tornaram-se muito pessimistas, e as “respostas”
fornecidas por elas também estão longe da uniformidade. A casa da
humanidade secular está dividida contra si mesma de modo radical.
A ditadura arbitrária e tecnocrática opõe-se diametralmente à
ideia revolucionária de liberdade, que postula a destruição
necessária de todo o sucesso tecnocrático. Na ordem mecânica dos
tecnocratas existe um niilismo fundamental, e ele se contrapõe ao
niilismo do caos revolucionário. Os tecnocratas mobilizarão todas as
suas forças para criar uma sociedade tecnicamente simplificada, na
esperança de prevenir uma catástrofe; enquanto isso, em nome da
liberdade, os revolucionários parecem empenhados na destruição
da própria cultura.

A cultura caminha para o fim


A menos que o homem se converta de modo radical e se volte para
Deus, o conflito e o niilismo da cultura ocidental provavelmente se
intensificarão enquanto ele se dirige ao caminho da decadência
cultural.
A cultura sem Deus sempre carrega as sementes da
decadência, como Klaas Schilder demonstrou com tanta habilidade
no livro The Revelation of St. John and Social Life [O Apocalipse de
são João e a vida social]. As forças da decadência acabarão por
trazer sua ruína total. No entanto, uma vez que Deus não
abandonará até mesmo essa cultura, o homem experimentará a
falta de sentido na cultura sem Deus.
A rota traçada pelos humanistas, sejam eles evolucionários
ou revolucionários, chegará a um beco sem saída. A morte já
evidente da cultura é sinal da expectativa confessada na escatologia
cristã: o retorno de Jesus Cristo, com a finalidade de estabelecer o
Reino de Deus.
A escatologia cristã se opõe de modo total à futurologia
humanista. A escatologia acaba com o dilema do pessimismo e
otimismo, pois, ensinada pela Palavra de Deus, confessa que o
próprio Deus, mediante Jesus Cristo, é o Senhor sempre no controle
da história. Seu decreto inclui crentes e incrédulos, e ele se
desdobra para o advento do seu Reino. Os cristãos são chamados a
servir a esse Reino mediante sua fé, esperança e expectativa —
serviço que inclui suas obras científicas e realizações técnicas.
II: A

Por causa da influência predominante da ciência sobre a


cultura, e pela marca impressa pela tecnologia moderna, ela se
baseia, cada vez mais, no modelo científico e tecnológico. Uma vez
que tenhamos definido o modelo científico e tecnológico, teremos
melhor compreensão do nosso contexto cultural. Nó o faremos em
seis pontos.
1) A ciência tem se tornado mais independente, autônoma e
autossuficiente. As pessoas são convidadas a aceitar a ciência
como verdade única e, portanto, a aceitar com confiança religiosa as
conclusões por ela delineadas.
2) A ciência também está sendo evocada como principal
instrumento de controle humano sobre o mundo. Os homens
aumentam seu poder sobre a realidade mediante a exploração dos
meios científicos, em particular no desenvolvimento da tecnologia
industrial. Muitos acreditam que a tecnologia moderna não é nada
mais que ciência aplicada, assim a cultura, de acordo com um
modelo científico, torna-se cultura de acordo com o modelo
tecnológico. Dito de outro modo, o controle racional e científico da
natureza e da sociedade humana conduz ao controle tecnológico da
realidade.
3) A concentração no controle provém do anseio religioso do
homem de realização e libertação pessoal. O anseio universal pela
liberdade está relacionado de forma direta ao potencial da ciência e
tecnologia. Elas assumem um papel messiânico. O homem espera
ser libertado da miséria e sofrimento e encontrar a felicidade
material por seu intermédio.
4) Até a Revolução Industrial, a ideia de progresso motivou só
os homens da ciência. Mas, tão logo a prosperidade material da
Revolução Industrial tornou-se disponível para as massas, elas
aceitaram o progresso como artigo de fé. Filosofias como o
positivismo, o marxismo e o pragmatismo contribuíram para a
crença na tecnologia moderna como força libertadora.
5) As forças econômicas e políticas fazem muito para a
construção do modelo científico e tecnológico. Só por essas forças
poderia haver lugar para o desenvolvimento em grande escala. Por
esta razão, as forças ocultas da economia e política devem ser
criticadas, o que os neomarxistas estão felizes em fazer. No entanto,
a crítica neomarxista não penetra na raiz da questão; pode levar à
mudança de jogadores, mas os novos jogadores continuarão
apenas a construir o modelo científico e tecnológico.
6) Uma vez que a dinâmica religiosa do mundo é apóstata, a
cultura se tornará cada vez mais secular. A divinização da ciência e
da tecnologia anda de mãos dadas com a resistência à fé cristã. A
realidade transcendente tornou-se um mito, uma projeção. Acredita-
se que o próprio homem tecnológico e racional alcançará um dia a
utopia por ele mesmo concebida de controle e sujeição. Neste
mundo científico-tecnológico, o homem será senhor e mestre,
independente e soberano. Não haverá resquício de Deus no mundo.
Todos os problemas serão resolvidos por meio da democracia, que
pode canalizar a ciência e tecnologia de forma redentora.

Problemas e perigos
A realidade perdeu o significado de acordo com esse modo de
pensar. A realidade não é mais a criação, ricamente diferenciada, a
entidade viva e sustentada pela Palavra de Deus. Em vez disso, o
homem “cria” um mundo impulsionado pela dinâmica tecnológica e,
em seguida, tenta aceitá-lo como o mundo real, embora seja
desprovido de sentido. O homem moderno iguala o mundo
tecnológico à realidade total. Claro que a realidade criada não
permite essa redução. Todos os aspectos da realidade criada são
coerentes em uma unidade significativa. Todavia, se o homem nega
a coerência centrada em Deus, o desenvolvimento da realidade
humana provoca sua própria destruição. Ela pode vir com lentidão e
de forma cumulativa, mas virá.
É impossível a instituição de um mundo tecnológico
independente. O crescimento do desenvolvimento tecnológico é
limitado ao potencial da realidade criada. As fontes de energia e os
depósitos de minerais são limitados. Os problemas ambientais,
como a poluição de mares e oceanos e a contaminação do solo, da
água e do ar mostram como a tecnologia atual explora o meio
ambiente com perigo. A tecnologia também revela graves tensões
internas em torno de questões como a energia nuclear e a
biotecnologia. A crescente dependência da computação causou
desemprego, deslocamento social, solidão e alienação. As funções
específicas e únicas de cada pessoa, a responsabilidade individual
e criativa do homem — no contexto do mundo de experiência global
— está sendo eliminado de maneira sistemática do modelo
tecnológico da realidade. A cultura definida como unidade científica
e tecnológica se dilacera a partir de si mesma. Externamente reflete
uma abstração gelada, uniforme, impessoal e homogênea.
Criar um mundo científico e tecnológico independente e
deixá-lo dominar e destruir a globalidade da experiência traz sobre
nós os problemas e perigos que mencionei. Os problemas mostram
que a realidade é apenas uma, criada e mantida por Deus. Os
problemas também apontam que o conhecimento científico é
sempre impelido e permeado pelo conhecimento pré-teórico ou
suprateórico. A singularidade da visão cristã consiste no fato de o
conhecimento pré-teórico ou suprateórico se basear na fé,
fundamentada na revelação divina. Isso permite que os cristãos
sejam críticos e apreciadores da ciência e tecnologia. Observadas
do ponto de vista cristão, a ciência e a tecnologia só serão
significativas caso permaneçam em áreas limitadas da totalidade da
experiência humana, e não se tornem modelos pelos quais todos os
outros aspectos da vida são organizados — para seu próprio dano.

“O mundo da experiência” e “o mundo científico e tecnológico”


O que queremos dizer com “nosso mundo da experiência”? Este
mundo é o mundo em que vivemos. Ter esperança, sofrer e lutar
representa o mundo em que vemos as coisas de forma simples, em
que sentimos amor; é também fé e confiança;, na verdade, a fé e a
confiança são os pontos essenciais do mundo. Este mundo da
experiência original e primária não pode ser compreendido de modo
pleno, ele é complexo, concreto, cheio, muito variado e inescrutável.
Todas as atividades humanas e seu significado — a ciência, a
tecnologia e o seu significado — pertencem a este mundo. Nosso
conhecimento do mundo primário e original procede da experiência
de ser intrinsecamente relacionado e envolvido com ele. É um
conhecimento intuitivo que precede e transcende todo o
conhecimento científico.
O segundo “mundo” é o mundo da filosofia, da ciência e de
sua aplicação. Também é o mundo do controle científico e
tecnológico. Para construir um modelo científico e tecnológico para
toda a realidade, como muitas pessoas fazem, deve-se subordinar o
primeiro mundo, o mundo do conhecimento primário e intuitivo, ao
segundo. Então, o mundo científico e tecnológico começa a dominar
o mundo cotidiano da experiência.
Os tecnocratas mantêm a ilusão de que a ciência fornece o
único conhecimento da realidade verdadeiro, completo e concreto —
uma crença que surgiu no Iluminismo. No entanto, quando o mundo
reduzido de forma drástica e abstraído da ciência se tornou o mundo
primário, o genuíno mundo primário da experiência total é reduzido
a uma abstração científica. Essa redução acabará mais tarde em
caos. As tendências dos modelos científicos e tecnológicos da
realidade podem ser vistas no crescimento urbano moderno, na
política industrial, habitação, nos cuidados com a saúde, na
assistência social, economia, política e defesa. Felizmente, pelo fato
de o mundo real da experiência se recusar a desaparecer, a
tecnologia jamais será completamente bem-sucedida. No entanto,
como o poder está concentrado na sociedade tecnocrática,
tomamos conhecimento do desaparecimento do amor, que não pode
florescer nas estruturas frias e uniformes dessa sociedade. Afinal, o
amor orienta-se de modo principal para o que é específico e único.
O grau de bem-estar social previsto no estado tecnológico não pode
alterar a queixa de que “ninguém se importa comigo”. Na cultura
tecnocrática, os laços essenciais do relacionamento humano são
cortados e substituídos por laços artificiais que prejudicam o amor,
destroem a compaixão e a empatia, e aumentam a alienação e
solidão. As pessoas que sofrem a agonia do mundo tão frio e
impessoal tornam públicos uma série de protestos e
reinvindicações.
O que está por trás da motivação do homem ao desenvolver
a ciência e tecnologia? Parece que o motivo consiste no anseio
humano de controlar toda a realidade mediante seus pensamentos e
ações. O desejo do homem é controlar a origem, a existência e o
destino de todas as coisas, sujeitando-as a si mesmo. O homem
continua tentando romper a realidade nos menores elementos
básicos, a fim de reconstruí-la de acordo com sua estrutura de
poder.
Esse motivo fundamental já era evidente na Queda, mas só
depois da Renascença, no período de forte influência do humanismo
moderno, essa tendência foi reforçada pela energia das ciências
naturais e tecnologias modernas.
Os protagonistas da Renascença deram adeus ao
cristianismo. Eles continuaram a usar a terminologia cristã, mas sob
a perspectiva antropocêntrica. A criação deixou de ser considerada
obra de Deus, e sim o trabalho das próprias mãos humanas. A
Queda, de acordo com os humanistas, não significou a negação de
Deus, mas a negação de si mesmo. A redenção não consiste na
restauração da comunhão com Deus por meio de Jesus Cristo, mas
a afirmação de que o homem pode aprender a se postar em pé
sozinho. Crer não significa confiar em Deus, em Cristo, mas sim
acreditar em si mesmo. Por último, o futuro não consiste no que
Deus quer colocar no caminho do homem, mas a organização do
mundo de acordo com as ideias humanas. O espírito da
Renascença tem permeado o pensamento da maioria dos filósofos e
cientistas modernos — incluindo-se o Iluminismo, a filosofia
moderna, o positivismo, marxismo e o materialismo. O espírito da
Renascença, com a autossuficiência e autorrealização do homem,
domina a evolução da economia, política, ciência e tecnologia. O
homem adotou a si mesmo como o padrão de todas as coisas, na
maioria dos setores da cultura, e a ciência é seu instrumento de
controle da realidade.
O racionalismo científico impulsiona a tecnologia a
proporções enormes. Ao mesmo tempo retarda-se o
desenvolvimento cultural — um fato triste que poucas pessoas
notam. A maioria, motivada pelo materialismo, considera as
questões não tecnológicas sem importância.
Outros motivos surgiram da mesma raiz da autonomia
pretendida pelo homem e da autossuficiência para reforçar o
racionalismo. Mais importante ainda, existe o motivo da “tecnologia
pela tecnologia”. Tudo o que pode ser feito, deve ser feito, e quanto
maior, melhor. E assim, o desenvolvimento técnico gira além do
controle humano. O homem pode fingir ser dono e senhor da
tecnologia, mas ele se torna, de fato, seu escravo. As pessoas são
aprisionadas pelo próprio trabalho quando se recusam a pensar nas
normas apropriadas para a tecnologia. Os problemas do meio
ambiente, e os perigos associados à energia nuclear, informática e
biotecnologia nos avisam de que a tecnologia está se tornando um
poder absoluto que ameaça a natureza e a cultura. Seu crescimento
parece estar fora de controle.
O segundo princípio que desempenha grande papel no
desenvolvimento técnico afirma que a tecnologia deve servir ao
poder econômico. O desenvolvimento tecnológico submete-se por
completo ao lucro. Prestamos pouca atenção a outras normas. Um
dos resultados dolorosos é a poluição ambiental generalizada. As
aberrações provocadas pela sociedade dominada por motivos
econômicos comporta sérios problemas. A bênção potencial da
tecnologia se transformou em maldição. A tecnologia, amiga em
potencial do homem, tornou-se sua inimiga.
Não podemos culpar apenas filósofos, cientistas, engenheiros
e economistas. Muitas pessoas associadas indiretamente à
tecnologia também são dominadas pelo espírito materialista, tanto
que atribuem à tecnologia um poder messiânico. Cegado pela
insaciável ânsia de prosperidade material, o homem moderno
idolatra o desenvolvimento tecnológico como meio de obter cada
vez mais bens de consumo e bênçãos materiais — “seu tipo de
felicidade”.
Assim, dentro e fora do processo do desenvolvimento
científico e tecnológico, descobrimos que os problemas e perigos
atuais são provocados por pessoas que se desenvolvem e
constroem sem normas. A normatividade da produção resulta de
sua pretensão — eles, e não Deus, determinam o desenvolvimento
da ciência e da tecnologia.
Como foi descrito antes, o homem moderno tem sido
enganado e aprisionado pelas ofertas de poder da ciência. Esta,
com sua abstração e redução, oferece o conhecimento de apenas
parte da realidade, não da totalidade. A aplicação ilimitada de
ciência corresponde a uma redução da realidade. Coisas tremendas
podem ser alcançadas, mas a redução pode muito bem levar à
aniquilação posterior da realidade.
Se, a fim de resolver os problemas existentes, os tecnocratas
se voltarem para mais um campo da ciência, os problemas podem
ser temporariamente suspensos. Entretanto, eles reaparecerão de
forma ameaçadora mais tarde. Se toda a tecnologia por fim resultar
na criação de uma ditadura mundial tecnocrática, então não haverá
mais espaço para a liberdade e responsabilidade humanas. O
homem se tornará então prisioneiro em um campo de concentração
universal.
III: C

Chegamos agora à questão de como descrever melhor o


desenvolvimento da cultura científica e tecnológica. Se os cristãos
puderem entender essa cultura de forma cabal, estarão mais bem
preparados para considerar o próprio envolvimento responsável com
ela.
Somos confrontados com muitos problemas e perigos,
incluindo-se a possibilidade de uma guerra nuclear global. Torna-se
cada vez mais claro que, por conta de uma guerra nuclear ou por
acidente, uma catástrofe global não é de todo impossível.
Precisaremos sujeitar essa possibilidade à Palavra de Deus.
Enfrentamos os maiores e mais prementes problemas da vida e da
morte em proporções globais. Este é um “sinal dos tempos”.
Como podemos perceber esse sinal? E como será nossa
reação? Talvez os cristãos tenham de perceber que estão
enfrentando um apocalipse. Talvez ainda subestimem o potencial de
destruição, em especial de uma guerra nuclear. As consequências
dessa guerra seriam quase indescritíveis. E se algumas gerações
futuras sobreviverem, elas também sofrerão muito.
Que tipo de cultura pode tolerar essa ameaça? Qual deve ser
a atitude do cristão em relação a isso? Essa cultura pode ser
chamada cultura de Babel. A responsabilidade do cristão em uma
cultura desse tipo não pode ser negada. Ele precisa apelar para o
retorno à vida cultural diante de Deus (coram Deo), ao
desenvolvimento cultural responsável. Ao mesmo tempo, o cristão
deve avaliar seus dias de acordo com a profecia; ele deve lembrar
às pessoas que o desastre indescritível terá lugar a menos que haja
arrependimento. Os cristãos precisam anunciar que as soluções
políticas não podem alterar o curso atual da cultura moderna. Eles
afirmam que sob o marasmo cultural do momento se encontra a
escolha religiosa radical do homem. Os cristãos devem avaliar o
espírito da cultura atual com base na Palavra de Deus, e com base
nela devem procurar respostas políticas normativas para os
problemas atuais. A avaliação profética e a análise cultural — tarefa
para a qual a igreja foi chamada — permitirá aos cristãos, incluindo-
se os ativos na política, exercer influência nos grandes
desenvolvimentos da cultura.
O que significa a expressão “cultura de Babel”? O motivo de
ser Babel decorre da ambição obstinada e da Queda do homem no
pecado, que muitas vezes se fez sentir desse momento em diante.
Esse motivo atingiu hoje proeminência sem precedentes, por duas
razões:
Primeira, vivemos agora em uma cultura secularizada, que
não se preocupa mais com Deus e seus mandamentos. Segunda, a
cultura secularizada tem à disposição enorme poder científico e
tecnológico. Vejamos a combinação mais de perto. Notemos que o
motivo de Babel se manifesta de forma integral e global em nossa
cultura atual. Ela continua impulsionando a ciência, a tecnologia, a
economia e a política para a formação de uma única entidade
maciça — esses setores aumentam a força uns dos outros para
seguirem juntos em direção à ausência de Deus. Essa cultura não
foi descrita em Apocalipse 13? A profecia afirma que a besta do
poder político aumentará sua força perto do fim dos tempos
mediante a mobilização da besta da terra. Não seria ela a besta dos
poderes da ciência e da tecnologia? Assim, a ciência e a tecnologia,
agora a serviço da política, apresentarão poderes, sinais e milagres
enganosos (2Ts 2.10). Dentro dessa cultura, a prosperidade material
será interpretada e até mesmo adorada como o progresso. A
humanidade escolherá de forma deliberada as coisas da terra em
lugar das do céu.
O desenvolvimento se tornará um superdesenvolvimento sem
precedentes na ciência, tecnologia e economia, e o
superdesenvolvimento se tornará exploração. O que foi chamado de
progresso passará a ser designado retrocesso, um tipo de
desenvolvimento retrógrado. A aparência de prosperidade material e
bem-estar do materialismo são ameaças reais e enganosas. As
catástrofes ambientais, o esgotamento dos recursos naturais e das
fontes de energia, a alienação gradual das pessoas, e o abismo
crescente entre nações ricas e pobres mostram que a poderosa
cultura de Babel é ameaçada pela impotência e decadência
internas. Mais uma vez, vê-se a verdade profética de Apocalipse 18.
Os versículos 11 a 14 deixam claro que o desaparecimento da
cultura de Babel coincidirá com o fim dos reinos mineral, vegetal e
animal, bem como com o fim do mundo humano. A ambição
obstinada do homem colocou a cultura no caminho da desgraça.
Esse caminho leva ao reino humano. No entanto, pelo fato de o
homem ser incapaz de governar com justiça, também ele o levará à
destruição e morte.
Como foi dito antes, a motivação de Babel procede do desejo
humano de recuperar o paraíso perdido por meio da própria força.
Os homens tentam deixar seu legado na terra, e criar o descanso
eterno e as condições para sua utopia. Caim e Ninrode foram
protótipos desses homens. O motivo de Babel se repete várias
vezes nas Escrituras: Sodoma e Gomorra, Egito, Babilônia e Nínive
todos demonstraram os sinais dessa cultura. A Bíblia muitas vezes
profetizou contra essas formas de ambição obstinada. O texto de
Apocalipse 11 nos mostra que mesmo Jerusalém, a cidade
escolhida por Deus, poderia tornar-se uma forma de Babel. Isto
deve nos dizer algo: precisamente na cultura ocidental e pós-cristã a
ambição obstinada do homem teve ampla liberdade, inspirada pelos
poderes da ciência e da tecnologia.
Muito se poderia dizer sobre a história desse
desenvolvimento. Mas é ainda mais importante vermos o que a
Bíblia diz sobre a direção religiosa da cultura de Babel. Lembro-me
de 2 Tessalonicenses 2.1-21 e 2 Timóteo 3.1-9. Se essas passagens
forem lidas no contexto de Romanos 1.16-32, a direção religiosa se
tornará mais clara. Romanos 1 nos mostra o que acontece com o
pagão e sua cultura, e nos revela a direção religiosa e o
compromisso dos não crentes. Os textos de 2 Timóteo 3 e
2 Tessalonicenses 2 descrevem a direção religiosa do homem
neopagão, secularizado, egoísta e o impacto cultural nesse sentido.
Romanos 1 é paralelo a 2 Tessalonicenses 2 e 2 Timóteo 3.
Olhando para a cultura moderna, pós-cristã e até mesmo anticristã,
pode-se dizer que seus males e desastres surgiram precisamente
por causa das potencialidades oferecidas pela ciência e tecnologia.
As forças modernas da ciência e da tecnologia são muito
ameaçadoras, e por essa razão demoníacas. A Bíblia nos mostra
porque elas são demoníacas: a cultura atual não só rejeita a
revelação de Deus como se vê pelas obras de suas mãos, como
ocorreu na cultura pagã descrita em Romanos 1, mas também
rejeita a revelação de Cristo. Da mesma forma que a rejeição da
criação como revelação trouxe consequências desastrosas para o
mundo pagão, de igual modo a rejeição atual da criação e da
Palavra encarnada ocasionou a multiplicação do mal. A
intensificação do mal é possibilitada pelas forças informes da ciência
e da tecnologia. Por quê? “Pois eles mudaram a verdade de Deus
em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o
qual é bendito eternamente. Amém!” (Rm 1.25; cp. 2Ts 2.10,11).
À luz dessa palavra profética enxergamos a razão de nossa
cultura poder ser chamada a cultura de Babel do fim dos tempos.
Ela combina pecado, apostasia, idolatria e ilegalidade com ciência e
tecnologia. Portanto, podemos lidar com os perigos inerentes às
forças sem lei da ciência e tecnologia, e com a corrupção destrutiva
da vida e da sociedade. A cultura de Babel é sempre de confusão.
Os observadores apenas da ilegalidade da vida e da sociedade,
ignorando a ilegalidade da ciência e da tecnologia não reconhecerão
a força espiritual profunda que une a desintegração espiritual de
nossos tempos. Mas os que tomam nota da profunda unidade
espiritual, observando também a revelação da ira divina sobre toda
a apostasia e ilegalidade, saberão que Deus entregou o homem à
decadência e cegueira (Rm 1.18,28; 2Tm 3.9).
Por meio da cultura de Babel o homem tenta erigir uma
contracriação. Seus esforços brilham como o ouro, e a ciência e a
tecnologia prometem um escape do juízo divino. No entanto, as
aparências enganam. Como contracriação, Babel carrega as
sementes da própria destruição, e afetará seu próprio julgamento e
morte.
No campo de força da ciência, tecnologia, economia e política
aparecem armas nucleares. A política de defesa só pode ser
compreendida no contexto das forças da ciência, da tecnologia e
dos interesses econômicos. Quando observamos todo o contexto,
passamos a enxergar que os acontecimentos mundiais atraem o
homem para um vórtice do mal e da morte. Quem pode escapar do
pensamento de uma guerra nuclear? Poderes
demoníacos passariam então a ser revelados em toda a sua força
(Ef 6.12); a humanidade teria de enfrentar as consequências da lei
do pecado e da morte (Rm 8.2).
IV: O

Nessa “cultura de Babel” que parece uma inclinação do inferno para


a destruição, os cristãos devem aprender a ver que a armadura de
Deus nos prepara para lutar contra domínios e potestades, contra
forças da escuridão e espíritos maus (Ef 6.12).
Os cristãos não podem se deixar atrair para a estrada da
contracriação. Em vez disso, devem seguir o caminho da
renovação. Estamos no caminho para a nova Jerusalém, e
precisamos ser conduzidos a ele de forma contínua. A remoção de
Babel e a luta contra ela colocará o cristão na posição de
estrangeiro e portador da cruz. Esse será o tipo de testemunho
encontrado em Apocalipse 11. Ele é uma profecia e ao mesmo
tempo uma advertência para o retorno às normas divinas, que
ensinam e permitem a verdadeira liberdade e responsabilidade.
Não podemos de boa-fé evitar o mundo. A “cultura de Babel”
é uma perversão do Reino de Deus que se alimenta das forças do
Reino de Deus. A Bíblia a chama “cultura da escuridão”, e a
escuridão não pode extinguir a luz que irrompeu sobre este mundo
com a vinda de Cristo (Jo 1.5). Mediante a vinda do Reino de Deus
a cultura de Babel será julgada. A perspectiva de renovação,
representada pela glorificação de Cristo, é a perspectiva de
pensamento e ação responsável.
Se os homens da ciência, tecnologia, economia e política
fizerem escolhas responsáveis, normativas, a ciência e a tecnologia
não serão mais forças ameaçadoras. Elas contarão com
possibilidades fascinantes na pesquisa atual para divulgar os
segredos da criação. Para essa descoberta e revelação não haveria
fim. Já o caminho que conduz ao reinado do homem sempre
ameaça o fim, pois ameaça a humanidade com seus
desdobramentos destrutivos e demoníacos.
Se mais uma vez os homens descobrirem o caminho da
normatividade na ciência, tecnologia, economia e política, ou em
outras palavras, buscarem o Reino de Deus de forma responsável,
seus esforços gerariam muitos problemas. A maneira certa de seguir
os mandamentos de Deus seria arriscada, pelo fato de muitas
estruturas culturais atualmente estarem bloqueadas na perspectiva
do reino humano. Precisamos aceitar esse obstáculo quando
procuramos prosseguir com a nossa perspectiva cristã sobre a
cultura. Teríamos primeiro de reconhecer a situação existente e
encontrar maneiras de lidar com ela, pois somos sempre tentados a
acomodar-nos com a natureza e poder da cultura de Babel.
Está cada vez mais difícil para o cristão viver na cultura de
Babel e ainda assim não fazer parte dela. Escolher a
responsabilidade de estar coram Deo [diante de Deus] significa
resistir às forças poderosas da ambição humana e de suas
vontades. Responsabilidade também significa rejeitar a revolução.
As mudanças revolucionárias são incapazes de fornecer soluções
para os estados de ilegalidade existentes, pois elas mesmas não
possuem nenhuma lei. Os cristãos enfrentam a enorme tarefa de
começar com a situação existente, decadente e tentar renová-la,
utilizando as normas dadas por Deus.
Se os cristãos tivessem mais discernimento sobre o que de
fato acontece no mundo, eles seriam menos enganados por
motivações mundanas. A compreensão do mundo deve consistir na
base de sua apologética, em especial quando eles tentam usar
ações de princípios em atividades culturais. Nossa cultura hoje
tende para o niilismo, e parece que os cristãos são muito propensos
a escolher a tecnocracia ou a revolução. Muitas vezes vemos jovens
cristãos tomando partido, e depois trocando-o pelo oposto. Há
sempre argumentos convincentes em ambos os lados. O ponto de
vista vencedor é então modificado e acomodado antes de se tornar
uma atitude cristã. Por meio dessa oscilação e compromisso, o
pensamento político cristão e suas ações nos países da Europa
Ocidental têm praticamente tudo, mas perderam a dinâmica
central. Por que isso aconteceu? Porque os cristãos não
conseguiram reconhecer o conflito espiritual inerente aos motivos
culturais que determinam o desenvolvimento contemporâneo.
No passado, as armas da apologética defendiam a fé cristã
contra a força espiritual do paganismo. Defesa semelhante deve ser
configurada agora contra o neopaganismo, a força espiritual
moderna e a marca registrada da cultura secular. Essa apologética
deveria enfrentar com ardor filosofias, ideologias e sistemas de
pensamento que, como falsas revelações, desejavam muito fazer o
poder religioso apostatar.
A apologética cristã deve propor a visão unitária do homem
biblicamente responsável, normativa, cultural e histórica. Ela ajudará
os cristãos a testar os espíritos e permitir à igreja lembrar a seus
membros o privilégio de ter o Reino e o modo de vida acessível a
ele, a despeito de toda a angústia e problemas que surgirem na
cultura conducente à morte.

Desenvolvimento da consciência ética


Temos lidado com os problemas da vida cultural científica e
tecnológica, salientando que esses problemas são sinais da
ambição obstinada do homem para formar a cultura. Escapar da
estrada que leva à morte só é possível se as pessoas escolherem
um caminho diferente. E afirmamos que a missão profética da igreja
é apontar o melhor caminho.
No entanto, devido às limitações legítimas da igreja, não
podemos resolver a crise tecnológica. Para essa tarefa, há cristãos
vocacionados, em sentido individual ou grupal. A tarefa da igreja é
advertir contra motivos errados. O caminho certo pode ser
percorrido apenas se nos permitimos ser guiados pela sabedoria
bíblica, que embora antiga, permanece sempre nova e relevante.
Na dinâmica bíblica, o homem não é o centro da
realidade, ele não é uma criatura totalmente obstinada e ambiciosa.
A Escritura mostra a criação do homem à imagem de Deus e,
portanto, enfatiza sua responsabilidade. Como criatura responsável,
o homem deve amar a Deus acima de tudo e o próximo como a si
mesmo. Os resultados políticos e práticos desse amor implicariam
em o homem desistir do desejo de poder e procurar promover a
justiça e a retidão. Para a economia, o amor significa que as
motivações dele não são mais impulsionadas só pelo lucro, mas
pelo exercício da administração responsável. Para a ciência, o amor
significa que o conhecimento não é mais a força bruta, mas serve ao
interesse da sabedoria. É preciso considerar a ciência e a tecnologia
servas úteis da humanidade, em vez de mestras tirânicas.
Não precisamos negar o grande significado da ciência ou da
tecnologia. No entanto, devemos resistir à crença na independência
do homem obstinado que se tornou parte dela. Por meio da fé
apostatada do homem, o desenvolvimento da ciência e tecnologia
tende a determinar o curso de nossa cultura: na verdade, sua
função deve ser limitada a um meio que leva à elaboração da
cultura. A ciência e a tecnologia precisam ser submetidas a
pensamentos e ações responsáveis.
Podemos entender melhor o serviço que a ciência e a
tecnologia prestaram à cultura quando voltamos aos motivos
originais. A Bíblia nos ensina que o homem recebeu permissão para
usar a criação como base, mas apenas com o intuito de preservá-la.
Manter apenas a criação, sem desenvolver a cultura deixa o homem
caído refém das forças naturais. Já construir sem cogitar a
preservação significa ser arrogante. Ignorar a preservação criteriosa
e discreta acabará se transformando em uma situação em que os
perigos naturais são substituídos por perigos culturais; as forças
tecnológicas prejudiciais ameaçarão provocar a ruína total.
No contexto de sua vocação harmoniosa para construir e
preservar, o homem se vê como imagem divina. Edificar e conservar
confirmam seu amor em relação ao Criador e Redentor. Assim, ele
trata a criação com a preocupação e respeito merecidos. A
humanidade responsável reconhece a necessidade de desenvolver
a criação e resistir a todas as formas de distorção e desordem.
Caso o homem permita ser habilitado pelas normas bíblicas, seu
esforço cultural pode ser uma bênção mesmo para o reino da
natureza. Isso ocorreu nos dias do rei Salomão (1Rs 4.33,34); como
agora também pode ser, se permitirmos que nossa economia,
política, ciência e tecnologia se tornem ações harmoniosas para
construir e preservar, ou dito de outra maneira: se eles se tornarem
parte da busca pelo Reino de Deus.
Sem dúvida, não é fácil alcançar a interação harmoniosa
entre construção e preservação. Muitas pessoas vão resistir com
força ao sentido bíblico. Mesmo depois da rejeição dos ídolos da
ciência e da tecnologia, muitas pessoas se voltam para outros
ídolos, como o da liberdade revolucionária ou da natureza. Outros
tentam projetar uma estratégia modificada para a ciência e
tecnologia, mas continuam com uma visão fechada do mundo e da
vida que ainda exclui a Deus.
Todavia, Deus não se permite ser excluído, e assim faz com
que os desenvolvimentos culturais desse mundo fechado deem
errado. Nós reconhecemos seu juízo aqui, e ainda, ao mesmo
tempo, ouvimos seu chamado para voltarmos para ele e seguirmos
suas normas — isso nos dá esperança. O horizonte dela é o
horizonte do Reino de Deus, que será o cumprimento da
reconciliação e renovação de toda a criação. Com essa perspectiva,
não precisamos nos considerar peregrinos ou espectadores em todo
o mundo, mas sim cidadãos do Reino que veio uma vez com Cristo
e virá novamente. Nós pertencemos a este mundo, mesmo estando
exilados na cultura de Babel.
Exilados sim — embora não sejamos construtores da cultura
hostil —, também não somos seus escravos. Nossa relação com a
cultura é uma das tensões. A exigência do Deus de amor que rejeita
essa cultura também demanda que a solucionemos, baseando-nos
no amor. Assim, o cristão não pode evitar seu ambiente cultural,
mas também não pode esperar para ver muitos frutos do seu
mandato em uma cultura tão hostil. O conceito bíblico de viver e
atuar no amor e na graça de Deus é diametralmente oposto ao
conceito cultural de Babel. A Bíblia rejeita de modo absoluto a
pretensão humana que, com o uso da ciência e tecnologia, pode
elaborar uma contracriação, à qual ele mesmo atribua significado.
A Escritura nos chama a viver e trabalhar reconhecendo a
ordem da criação, e confessando que só Cristo pode dar sentido e
expectativa de renovação. Em Cristo, o Reino de Deus já foi dado a
nós, e no seu regresso, nos será dado nas dimensões recriadas.
Essa é a verdadeira visão da história. Essa perspectiva não pode
ser alterada pelas pretensões da norma cultural de Babel. A
perspectiva bíblica parece nos dar recursos com os quais
combatemos a redução do significado da cultura na ciência e
tecnologia, pois endereça nossa atenção para o rico e inesgotável
significado. A cultura de Babel reduz a ciência à caricatura da
verdade. Como exilados, podemos testemunhar seu significado
autêntico e pleno, concentrando-nos no significado originário e
normativo.
Essas preocupações globais sobre a temperatura, o
armamento nuclear, a biotecnologia, os problemas da informática e
energia, como também problemas pessoais, como o aborto, crime, a
dissolução do matrimônio e da família e a crescente decadência da
nossa sociedade, problemas com raízes pessoais que assumiram
proporções enormes. Vivendo no meio de todas essas oscilações e
perversões, os cristãos precisam portar-se de forma responsável, o
que significa servir e ao mesmo tempo testemunhar os valores que
a sociedade deve honrar. Por isso, os esforços pessoais não devem
ser esquecidos, pois a reforma cultural deve começar nessas áreas.
Muitas vezes pensamos em dimensões globais e analisamos nossa
cultura como parte da cultura global, mas devemos começar pelos
pequenos esforços culturais. A ciência e a tecnologia podem nos
ajudar em nossos empenhos, mas devemos sempre ter em mente
que elas são forças potencialmente subversivas, que mais uma vez
podem nos aprisionar se não forem usadas com correção.
Será útil dizer algumas coisas sobre política, onde as
pessoas costumam procurar soluções. Os cristãos devem, em
primeiro lugar, buscar um caminho diferente, começando com
questionamentos como pano de fundo espiritual e histórico. Tendo o
pano de fundo religioso do problema, eles deverão articular um
posicionamento ético antes de poder olhar para a política como
responsável pela solução — uma abordagem superficial iniciada e
terminada na política, cuja eficácia será apenas aparente. Poderia
mencionar, nesse contexto, as atuais discussões políticas
relacionadas com armas nucleares, no âmbito global, e, como
exemplo, as questões mais pessoais, as discussões sobre a
legalização do aborto.
Suspeito que muitos cristãos considerem minha abordagem
impraticável. No entanto, afirmo que aceitar a responsabilidade e
normatividade permite grande variação de possibilidades e
benefícios, e também um curso estável. O curso atual da cultura de
Babel pode parecer um caminho para a liberdade, mas o homem
acabará encontrando-se prisioneiro da própria desorientação, em
um curso que oferece nenhum futuro, apenas medo.
Quem se mantiver em contato apenas com o
desenvolvimento real, corre o risco de sempre se acomodar a essa
evolução. Já os que se orientam pela perspectiva do Reino de Deus,
dada ao homem na graça, faz mais que se manter com os
fatos. Eles resistirão ao espírito de desenvolvimento ateu, e também
vão aceitar as próprias responsabilidades para prosseguir na
abordagem biblicamente normativa. A Bíblia nos dá os exemplos de
José, no Egito, e Daniel, na Babilônia, e os exemplos das duas
testemunhas em Apocalipse 11 também são encorajadores e
esperançosos.
No final destes capítulos, concluo que devemos antes de
tudo, aprender a ver o Reino de Deus como a meta final da história
e dos nossos esforços culturais. Devemos sempre lembrar que o
Reino de Deus é um presente outorgado, também concedido
verdadeiramente agora, e, por fim, será conferido a nós mais uma
vez no futuro. A renovação final nos mostrará o verdadeiro
significado dos nossos esforços culturais. Então, mesmo a Babilônia
se tornará Jerusalém. Esse mistério divino, que nos foi revelado ao
longo da história, não pode ser de todo compreendido; no entanto,
trata-se de uma dinâmica que concede vida e merece nosso
respeito, devoção, gratidão e senso de responsabilidade.
A visão normativa da vida na cultura que rejeita as
expectativas culturais frenéticas e sua revogação imediata é descrita
de forma mais precisa pelo profeta Jeremias na carta aos exilados
na Babilônia. As palavras são serenas, mas repletas de
expectativas:

Assim diz o S dos Exércitos, o Deus de


Israel, a todos os exilados que eu deportei de
Jerusalém para a Babilônia: Edificai casas e habitai
nelas; plantai pomares e comei o seu fruto. Tomai
esposas e gerai filhos e filhas, tomai esposas para
vossos filhos e dai vossas filhas a maridos, para
que tenham filhos e filhas; multiplicai-vos aí e não
vos diminuais. Procurai a paz da cidade para onde
vos desterrei e orai por ela ao S ; porque na
sua paz vós tereis paz. (29.4-7)
E:
Eu é que sei que pensamentos tenho a vosso
respeito, diz o S ; pensamentos de paz e não
de mal, para vos dar o fim que desejais. (29.11)
S

Egbert Schuurman (1937) estudou Engenharia Civil na Universidade


Tecnológica de Delft e Filosofia na Universidade Livre de Amsterdã. Ele
lecionou Filosofia Reformacional nas Universidades de Delft e Eindhoven e na
Universidade Agrícola de Wageningen, e foi membro do Parlamento holandês
entre 1983 a 2011. Schuurman foi aluno de Dooyeweerd e Van Riessen na
Universidade Livre de Amsterdã. É autor de Religião e tecnologia (Mackenzie)
e Fé, esperança e tecnologia (Ultimato).

[1] Veja, principalmente, Jacques Ellul. Anarquia e Cristianismo. São Paulo:


Garimpo, 2010 (trad. Norma Braga); A Técnica e o Desafio do Século. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1968 (trad. Roland Corbisier).
[2] Veja, dentre outros, Johan Mekkes, Time and Philosophy. Sioux Center:
Dordt College Press, 2012 (trad. Chris van Haeften); H. van Riessen, The
Society of the Future. Philadelphia: Presbyterian & Reformed, 1957 (trad. D.
H. Freeman); Wijsbegeerte. Kampen: J. H. Kok, 1970.
[3] Egbert Schuurman, “Courage in politics: The challenge for Christian
politicians”, Pro Rege 46(4): 22-34, Junho 2016. Tradução de palestra
proferida em 2011, p. 23.
[4] O argumento é também comunicado em segunda mão nas obras de
Francis Schaeffer e Cornelius Van Til, com papel e terminologia ligeiramente
diferenciados. Veja Herman Dooyeweerd, Raízes da Cultura Ocidental: As
Opções Pagã, Secular e Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2015 (trad. Afonso
Teixeira Filho).
[5] “Courage in politics”, p. 23.
[6] Abraham Kuyper, Pro Rege: of, Het Koningschap van Christus, 3 Vols.
Kampen: J. H. Kok, 1911; Schuurman, ‘Courage in politics,’ p. 29.
[7] “Courage in politics”, p. 29.
[8] “Courage in politics”, p. 29-30.
[9] “Courage in politics”, p. 31-2.