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As Teorias do Jornalismo na imprensa brasileira:

novas visões
Robson Bastos da Silva, Francisco de Assis,
Isabela Rosemback, Kelma de Queiroz Jucá de Souza Rocha
e Paulo Daniel Gonçalves Gannam∗

Índice de autores como Nelson Traquina, Felipe


Pena e Jorge Pedro Sousa. As pesquisas são
1 Para iniciar a discussão 1 resultado da disciplina Teorias do Jorna-
2 As Teorias do Jornalismo 2 lismo, ministrada no 3o ano de Jornalismo
3 A Folha de S. Paulo em um aconteci- da Universidade de Taubaté, componente da
mento de grande repercussão 3 nova grade curricular implantada em 2003.
4 Subjetividade nas capas da Revista Os alunos-pesquisadores se preocuparam
Veja 4 em compreender e discutir o papel que os
5 As Teorias do Jornalismo nos editori- meios de comunicação exercem perante a
ais da Folha de S. Paulo 8 sociedade. São apresentados alguns estudos
6 Considerações finais 12 que discutem a mídia impressa brasileira
7 Bibliografia 13 na atualidade, desenvolvidos com base nas
teorias já consagradas pelos teóricos.
Resumo
Palavras-chave: Teorias do Jornalismo;
O objetivo deste trabalho é o de discutir as imprensa brasileira; jornalismo atual.
diversas Teorias do Jornalismo sob a óptica

Robson Bastos da Silva é professor assistente- 1 Para iniciar a discussão
doutor das disciplinas Teorias do Jornalismo e Histó-
ria do Jornalismo da Universidade de Taubaté (UNI- Com a mudança do currículo do curso de Jor-
TAU). Professor do Mestrado em Lingüística Apli-
nalismo da Universidade de Taubaté, foi in-
cada da UNITAU. Coordenador de Jornalismo da
Universidade Santa Cecília (UNISANTA) – Santos. cluída na grade a disciplina Teorias do Jor-
Doutor em Comunicação e Semiótica PUC-SP. Mes- nalismo para ser ministrada aos alunos do 3o
tre em Comunicação UMESP. Ex-diretor Cultural ano. Essa alteração ocorreu porque os pro-
do INTERCOM. Avaliador do Conselho Estadual de fessores do Departamento de Comunicação
Educação- SP. Parecerista da SBPC-Brasil. Os co-
Social sentiram a necessidade de introduzir
autores são graduandos do 3o ano do curso de Co-
municação Social, com habilitação em Jornalismo, da no curso questões teóricas e reflexivas sobre
Universidade de Taubaté. a área.
2 Robson Silva, Francisco de Assis, Isabela Rosemback, Kelma Rocha e Paulo Gannam

No currículo anterior, os estudantes de der a atividade jornalística passou a ser algo


Jornalismo discutiam apenas as correntes da comum aos estudiosos de comunicação que
Teoria da Comunicação e não recebiam in- trabalham na identificação de alguns fenô-
formações sobre os novos paradigmas do menos.
Jornalismo nacional e internacional. A dis- Traquina (2004) defende que, apesar de
ciplina propõe fornecer aos alunos conheci- existir um amplo acervo de estudos sobre
mentos sobre o porquê de as notícias serem o tema, elaborados no mundo todo desde a
de determinadas maneiras e também pre- década de 1930, quando foram criados os
tende discutir a chamada objetividade e sub- cursos de Mestrado e Doutorado nos Esta-
jetividade da informação. dos Unidos, não é possível afirmar que exis-
Desde o início do ano letivo de 2005, os tem respostas completas para os questiona-
alunos utilizam as aulas para discutir as di- mentos referentes à influência, frente à soci-
versas teorias e suas aplicações na mídia na- edade, dos meios de comunicação e dos pro-
cional. O resultado desses debates pôde ser fissionais que neles atuam.
observado nos seminários e trabalhos apre-
sentados durante esse período. Ao longo de várias décadas, e depois de
Como objetivo central, seguindo as dire- muitos estudos realizados sobre o jorna-
trizes curriculares do Ministério da Educa- lismo, é possível esboçar a existência de
ção, pretende-se criar um espírito crítico e várias teorias que tentam responder à per-
transformador nos alunos e futuros profissi- gunta porque as notícias são como são,
onais, visando torná-los melhores cidadãos recolhendo o fato de que a atualização do
e, conseqüentemente, jornalistas conscientes termo “teoria” é discutível, porque pode
do seu papel na sociedade e com maior ma- também significar aqui somente uma ex-
turidade profissional. plicação interessante e plausível, e não
Este trabalho é resultado de três pesqui- um conjunto elaborado e interligado de
sas realizadas pelos graduandos da Unitau e princípios e proposições. De notar, tam-
apresenta diferentes maneiras de observar as bém, que essas teorias não se excluem
Teorias do Jornalismo. Com enfoque na mí- mutuamente, ou seja, não são puras ou
dia impressa nacional, os estudantes focaram necessariamente independentes umas das
seus estudos em dois veículos: a Folha de S. outras. (TRAQUINA, 2004, p. 146)
Paulo e a Revista Veja, embasados na meto-
dologia de pesquisa bibliográfica somada às Entretanto, a bibliografia existente sobre
análises de conteúdo dos impressos. as diversas Teorias do Jornalismo auxilia, e
muito, as discussões sobre o mito da obje-
tividade da imprensa, visto que quem está
2 As Teorias do Jornalismo por trás das linhas das notícias publicadas
Há algum tempo, a função do jornalismo é um jornalista, dotado de uma carga emo-
e o papel dos jornalistas na sociedade vêm cional e subjetiva. Além disso, as empre-
sendo discutidos dentro do universo acadê- sas jornalísticas mantêm padrões que preci-
mico. Mas, nos últimos anos, com o advento sam ser respeitados e questões mercadológi-
da mídia digital, a inquietação em compreen- cas também são levadas em conta. Munidos

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de embasamento teórico necessário, os alu- Na ocasião da morte do Papa, os jornais


nos Francisco de Assis e Isabela Rosemback brasileiros trabalharam a todo vapor para no-
pesquisaram a atuação dos editores na Folha ticiar os rituais e contar, durante vários dias,
de S.Paulo durante a cobertura jornalística da a história de uma figura mundial marcante,
morte de João Paulo II. A estudante Kelma acima de qualquer mérito religioso. No caso
de Queiroz Jucá de Souza Rocha observou da Folha de S. Paulo, que nunca foi de ceder
a subjetividade presente nos enunciados das muito do seu espaço à religião, percebe-se a
capas da Revista Veja, e o graduando Paulo realização de uma das mais completas cober-
Daniel Gonçalves Gannam estudou os edito- turas desse acontecimento. Em suas edições
riais da Folha, aplicando a eles várias teo- dentre os dias 2 e 9 de abril, vários cadernos
rias. O resultado desses trabalhos será apre- especiais foram incorporados, trazendo a tra-
sentado a seguir. jetória do Papa, além da cobertura imediata
do funeral.
Em artigo publicado no site Canal da Im-
3 A Folha de S. Paulo em um
prensa, Márcio Tonetti (2005) afirma que a
acontecimento de grande imprensa brasileira se rendeu à comoção do
repercussão mundo católico e deixou de apresentar ele-
mentos para despertar o senso crítico em seu
A cobertura da morte do Papa João Paulo II,
público. Ele observa que a Folha não se pre-
ocorrida em abril de 2005, serviu de base
ocupou em comentar as características dos
para a realização desta pesquisa, que busca
candidatos ao papado e tão pouco disponibi-
identificar a teoria do gatekeeper1 no tra-
lizou análises sobre o futuro do mundo ori-
balho realizado pela Folha de S. Paulo du-
ental.
rante a semana da morte do pontífice. Com
Para a realização deste trabalho, foram
base em pesquisas bibliográfica e documen-
analisadas oito edições da Folha de S. Paulo,
tal, além da coleta de informações com os
divulgadas entre os dias 2 e 9 de abril. Em
responsáveis pela edição da Folha, os alu-
sete edições, a Folha dedicou, nas primei-
nos chegaram aos resultados esperados, que
ras páginas, 52,2 % do conteúdo aos acon-
comprovam o caráter subjetivo e arbitrário
tecimentos que antecederam e sucederam a
dos processos de edição.
morte do Papa, apesar de outros fatos re-
1
De acordo com Traquina (2004), a teoria do ga- levantes terem ocorrido durante aquela se-
tekeeper surgiu na década de 1950, originalmente por mana.
David Mannin White, que foi o primeiro a aplicar o
Das observações realizadas, tendo em
conceito. “O termo gatekeeper refere-se à pessoa que
toma uma decisão numa seqüência de decisões [...] vista os gêneros jornalísticos citados anteri-
Nessa teoria, o processo de produção da informação é ormente, percebe-se que o trabalho desem-
concebido como uma série de escolhas [...] que passa penhado pela Folha se divide em dois focos
por diversos gates, isto é, ‘portões’ que não são mais de interesse: o presente e o passado. Com
do que áreas de decisão em relação às quais o jorna-
isso, reflexões necessárias sobre os passos
lista, isto é o gatekeeper, tem de decidir se vai esco-
lher essa notícia ou não. [...] A conclusão de White que a igreja poderia dar com a ausência de
é que o processo de seleção é subjetivo e arbitrário. seu líder e, conseqüentemente, com a elei-
(TRAQUINA, 2004, p. 150)

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4 Robson Silva, Francisco de Assis, Isabela Rosemback, Kelma Rocha e Paulo Gannam

ção de um novo Papa foram deixadas em se- Um dos pontos a ser ressaltado é a decla-
gundo plano e pouco apareceram. ração dos profissionais da Folha de S.Paulo
Além do material publicado nas primei- que, ao serem questionados sobre o critério
ras páginas, a Folha publicou vários cader- de seleção para fotos publicadas na primeira
nos “Folha Mundo”, previamente prepara- página, responderam sucintamente: beleza e
dos para o acontecimento, de acordo com as informação. Essa afirmação comprova a hi-
informações cedidas pelo secretário adjunto pótese de que a edição dos jornalistas é sub-
de redação, Vaguinaldo Marinheiro, e pelo jetiva e arbitrária.
editor do caderno “Mundo”, Vinicius Mota. Outro fato a ser lembrado é referente ao
Além disso, uma equipe trabalhou exclusi- caráter de parcialidade apresentado em al-
vamente para a divulgação inédita dos acon- guns momentos pela Folha. A explicação
tecimentos daquela semana, diariamente das para essa tendência é a de o Brasil se tratar
8h às 0h. Quanto ao esquema de cobertura, de um país eminentemente católico e o as-
eles afirmam: sunto em pauta é de interesse da maior parte
da população. Assim, cumpre-se o que des-
Foi elaborado com base em um caderno creve Medina (1988), que percebe que uma
especial cuja estrutura estava preparada das ênfases das notícias diárias é o conteúdo
havia anos. Foi uma decisão conjunta da que desperte emoção.
chefia da redação e da editoria adquirir
material adicional ao que já dispúnhamos
e enviar três repórteres (sendo um foto-
4 Subjetividade nas capas da
gráfico) a Roma.2 Revista Veja
A segunda pesquisa discute como a subje-
Os editores esclarecem que a seleção das
tividade se faz presente no meio impresso.
manchetes foi baseada no “critério jornalís-
Como embasamento teórico é utilizada tam-
tico”, ou seja, os assuntos mais importantes
bém a teoria do gatekeeper, a qual destaca a
no dia. Realmente, as análises apontam uma
ação pessoal do jornalista. O objeto de es-
divulgação fiel dos fatos diários de maior in-
tudo é a Revista Veja.
teresse e acompanham certa ordem cronoló-
O objetivo deste segundo trabalho é ana-
gica (a doença, a morte, os rituais).
lisar a subjetividade das manchetes de capa
Partindo do pressuposto que o gatekeeper
de Veja, as quais possui uma convergência
é o exemplo da teoria que valoriza a ação
entre publicidade e informação, o que acaba
pessoal, conforme define Pena (2005), é pos-
por exercer um poder de sedução sobre o pú-
sível compreender que as decisões de divul-
blico consumidor. Veja é a revista semanal
gação dos fatos que são notícias, e como são
de maior tiragem no país, com a média de
divulgados, partem, muitas vezes, de valores
1.250.000 exemplares, conforme informação
pessoais, como pôde ser observado no decor-
fornecida pela revista3 . É natural, portanto,
rer desta pesquisa.
que uma revista com essa repercussão naci-
2
Depoimento concedido via e-mail em 3
Depoimento concedido pelo representante da
06/06/2005.
Veja, G. Garcia, em 05/11/ 2004.

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onal tenha importância no que diz respeito à mortos”, observa-se a presença da frase no-
formação de opinião de seus leitores. minal (identificada pela ausência de verbo),
Desse modo, é pertinente a análise das ca- o que caracteriza um texto opinativo. Nesse
pas de Veja no período de janeiro a abril de tipo de estrutura frasal, cria-se um impacto
2005. A pesquisa diz respeito a três edições: para o leitor, diferentemente de uma frase
5 de janeiro de 2005, 26 de fevereiro de 2005 verbal que, por possuir todas as informações
e 23 de fevereiro de 2005. É válido salientar (sujeito + verbo + predicado), gera menos
que os critérios que levam uma mensagem a expectativa.
ser notícia de jornal são: No destaque da página, é possível perce-
ber a perífrase, que é uma figura de lingua-
...fatores como a oportunidade, a proxi- gem que “exprime, por um grupo de pala-
midade, a importância , o impacto ou a vras, o que poderia ser expresso por uma só
conseqüência, o interesse, o conflito ou a palavra”. (VANOYE, 1993, p. 49). Na ver-
controvérsia, a negatividade, a freqüên- dade, não existe um mar composto por mor-
cia, a dramatização, a crise, o desvio, tos, o que ocorreu foi que um maremoto atin-
o sensacionalismo, a proeminência das giu um grande número de pessoas que esta-
pessoas envolvidas, a novidade, a excen- vam no litoral asiático; como as ondas eram
tricidade e a singularidade... (SOUSA, muito altas (chegando a medir 12 metros de
2002, p. 96) altura), os turistas e nativos do lugar não con-
seguiram escapar das águas que ultrapassa-
Sob esse prisma, pode-se observar como a ram o limite da praia (houve correntezas de
mídia impressa utiliza esses critérios de no- até 40 quilômetros por hora).
ticialibidade para destacar matérias de capa. Naturalmente, temas catastróficos tocam o
Além disso, tenciona-se examinar quais são emocional das pessoas em geral. Sob esse
os elementos de caráter subjetivo (teoria do prisma, então, a revista amplia essa possibi-
gatekeeper) que ampliam a notoriedade dos lidade quando coloca na capa a foto de um
fatos expostos na primeira página de uma re- homem chorando ao segurar uma pequenina
vista. mão de criança. A imagem por si só fala,
A primeira Veja de 2005 abre o ano com mas Veja destaca a dor na seguinte legenda:
uma notícia de repercussão internacional. “Um homem chora a morte do filho de 8 anos
No dia 5 de janeiro, a manchete era: “O mar em Cuddalare, na Índia”. Contudo, é vá-
dos mortos – A catástrofe no Oceano Índico lido ressaltar que “A tarefa da notícia não é
que matou 100 000 pessoas é uma advertên- chocar, mas informar” (MCLEISH, 1996, p.
cia sobre a fragilidade do homem diante da 74).
natureza”. É conveniente relatar que o editorial da re-
Os valores da notícia são definidos pelo vista, intitulado “Não, não e não!”, trata da
que é de interesse do público e o aspecto matéria secundária da capa (“Especial: uma
dramático é um dos elementos que influen- lista do que não fazer em 2005”). O que sig-
ciam na publicação de determinada notícia, nifica que o tsunami asiático roubou o pa-
como é o caso da primeira edição de Veja de pel de destaque da lista de orientações de co-
2005. Em relação à manchete “O mar dos meço de ano, ou seja, o editor (gatekeeper)

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6 Robson Silva, Francisco de Assis, Isabela Rosemback, Kelma Rocha e Paulo Gannam

julgou ser de maior interesse público a tra- divulga que o país e o PT, representado pela
gédia do tsunami de Sumatra do que uma re- figura do presidente da República, são “bur-
lação de coisas que não devem ser feitas no ros”, isto é, ignorantes, sem conhecimento
decorrer do ano. Segundo o editorial, a re- erudito. O PT, porque faz reformas prejudi-
portagem de destaque secundário durou três ciais para a nação. O povo, porque elegeu o
meses para ser concluída. E, ainda, a matéria candidato do partido para o cargo do Execu-
sobre a tragédia asiática tem 12 páginas, en- tivo.
quanto a matéria de destaque secundário tem É importante salientar que o editorial
22. dessa edição não diz respeito nem à man-
A revista de 26 de janeiro de 2005 traz chete principal, nem à manchete secundária
como manchete: “O PT deixou o Brasil mais da capa. O título “Os juros e a inflação” já dá
burro? – O obscurantismo oficial condena o indícios de que não há ligação entre o edito-
inglês, quer tirar a liberdade das universida- rial da semana e as chamadas da capa. Po-
des e mandar na cultura”. A matéria se re- rém, no conteúdo interno da revista também
fere à reforma universitária no país, a qual não existe nenhuma matéria que trate aberta-
causou polêmica por, entre outros fatores, li- mente o assunto. Ou seja, o editor analisou
mitar o mérito acadêmico, diminuir o valor uma questão que não foi pautada pela equipe
do idioma inglês e reservar metade das va- de reportagem para a revista do dia 26 de ja-
gas de universidades públicas para negros, neiro de 2005. Em outras palavras, o editor
índios e estudantes advindos de escolas pú- preferiu não falar, de modo opinativo, a res-
blicas. Entretanto, esse entendimento só é peito da reforma universitária.
possível após a leitura da matéria, porque as A manchete da revista de 23 de janeiro de
frases da chamada não são objetivas e drama- 2005 é: “O susto Severino – A eleição do ‘rei
tizam uma situação de âmbito político e so- do baixo clero’ para presidir a Câmara dos
cial. Além disso, a linguagem imagética traz Deputados é uma derrota do PT, de Lula e
duas orelhas de burro enquadrando a man- um golpe na imagem do Parlamento”. O as-
chete. Este fato, totalmente imbuído de sig- sunto se refere à surpresa causada pela vitó-
nificado conotativo, vai contra a questão da ria de Severino Cavalcanti (PP) nas eleições
objetividade do jornalismo. para a presidência da Câmara.
No quesito valor da notícia, a matéria se Veja, também nessa edição, usa o título ca-
enquadra em importante (acontecimento de racterizado por uma frase nominal que, con-
repercussão nacional) e imediata (fato real). forme já mencionado, é uma característica
Importante destacar que a forma como a no- de texto opinativo. Portanto, há um descom-
tícia é repassada faz com que qualquer leitor passo nessa manchete, visto que o título se
seja contrário à reforma universitária, pois a refere a uma reportagem. Assim, fica evi-
revista apresenta apenas o lado negativo. No dente o efeito surpresa com a vitória de Se-
aspecto gráfico, a foto das orelhas de burro verino. Quanto ao subtítulo, percebe-se o
fornecem um quê grotesco e vulgar à revista, uso da linguagem conotativa com a expres-
conseqüentemente, a primeira página acaba são “rei do baixo clero”, a qual não foi cri-
por adquirir uma natureza sensacionalista. ada pela revista porque já existia, signifi-
Implicitamente, a imagem aliada à manchete cando o representante dos deputados federais

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com pouco espaço na mídia, os desconheci- (2000), pode-se afirmar que as capas de re-
dos pelo grande povo. vistas de informação estão hoje cada vez
Na chamada secundária, observa-se a se- mais com apelo publicitário já que utilizam
guinte colocação: “A mártir da floresta recursos próprios da linguagem da propa-
– Junto com a irmã Dorothy morre outra ganda que, por sua vez, serve-se da lingua-
chance de um destino menos trágico para a gem literária com o fim de vender algo. En-
Amazônia”. Nesse destaque, também é no- tre esses recursos encontram-se: os adjeti-
tória a linguagem figurada quando Veja re- vos, as letras maiúsculas para chamar aten-
trata a freira assassinada como a “mártir da ção, as frases nominais para provocar inte-
floresta”. resse e criar impacto. Além disso, semanti-
No aspecto estético, Veja é bastante irô- camente, a publicidade vale-se da denotação
nica. Provavelmente, a revista não ficou e da conotação, da metáfora, da metonímia,
muito feliz com o resultado das eleições na da prosopopéia, da antonomásia etc.
Câmara, porque o comum seria colocar a Sob essa perspectiva, as chamadas da re-
foto do deputado com uma postura de ven- vista se apresentam com uma natureza sub-
cedor, uma vez que ele é o candidato eleito jetiva, através do uso de adjetivos, figuras de
para presidir a Câmara. Todavia, a foto es- linguagem e ausência de imparcialidade, esta
colhida do deputado Severino para ilustrar a própria da informação. Não existe objetivi-
capa mostra um homem com um olhar mor- dade total nas capas da revista; o leitor pre-
daz e um rosto maquiavélico. Somado a isso, cisa comprar o produto editorial para enten-
há uma coroa sobre a cabeça de Severino, co- der o assunto de destaque.
roa esta que pende para um lado, fornecendo No caso das revistas, a capa é o primeiro
a impressão de que irá cair. Ou seja, o rei- contato que o leitor tem com o produto.
nado do deputado parece incerto. Desse modo, ela tem de causar impacto, des-
Quanto ao editorial da semana “Tentações pertar interesse, gerar expectativa. A capa
Populistas”, o tema é economia, ou seja, é, pois, a propaganda da revista, uma em-
ocorre mais uma divergência entre as man- balagem sedutora irá promover mais venda.
chetes de capa e a “Carta ao leitor”. É Uma capa atrativa será moldada de acordo
conveniente ressaltar que a matéria sobre a com as escolhas e gostos pessoais do jorna-
eleição da presidência da Câmara tem quase lista que a elabora. O uso de determinado
sete páginas completas, enquanto a reporta- adjetivo, a conotação de uma informação etc.
gem sobre o assassinato da missionária tem são alguns exemplos de subjetividade que se
quase oito páginas completas. O que sig- fazem presentes na primeira página. À me-
nifica que a matéria a respeito de Dorothy, dida que o jornalista opta por usar um re-
provavelmente, seria o destaque da semana. curso para realçar um fato, ele está sendo
No entanto, a vitória inesperada de Severino parcial.
ganhou mais repercussão dentro da revista; Uma análise mais criteriosa deixa evi-
fazendo com que o gatekeeper optasse por dente, portanto, os preconceitos mais arrai-
colocar a reportagem da freira em segundo gados e a ideologia que guia o gatekeeper da
plano. revista. Porque, como a apresentação da no-
De acordo com Andrade e Medeiros tícia se mostra de modo subjetivo, ela acaba

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8 Robson Silva, Francisco de Assis, Isabela Rosemback, Kelma Rocha e Paulo Gannam

por expor os sentimentos e pensamentos que O editor de um produto impresso é alguém


povoam a mente de quem a escreve. Um jor- que possui filtros morais, religiosos, sociais e
nalista pode ser contra ou a favor de deter- políticos, que constituem sua ideologia. Ele
minado assunto (político, econômico, religi- tem uma bagagem cultural própria, desen-
oso, social), mas ele tem a obrigação de re- volvida a partir do momento em que come-
passar para a sociedade todas as informações çou a ser educado pelos pais. Esse editor, as-
que permeiam essa notícia. É muito fácil e, sim como qualquer outro ser humano, é de-
claro, irresponsável, mostrar apenas um lado tentor de um repertório único. Desse modo,
da verdade, especialmente, a verdade em que pessoas diferentes vão dar enfoques diferen-
o jornalista acredita. tes às mais variadas temáticas. Após a es-
Naturalmente, o “seletor das informações” colha da pauta que irá ser trabalhada até se
terá suas próprias conclusões, suas opiniões tornar notícia, cabe também ao jornalista (o
formadas. Contudo, uma vez que a imprensa gatekeeper) a seleção das minúcias, dos de-
é tida como o baluarte da democracia, nada talhes que serão colocados na matéria. Uma
mais justo do que tentar deixar à mostra to- determinada informação pode ser preferida
das as possíveis aparências da história con- em detrimento de outra, por exemplo. E,
tada. A verdade é como um dado, cuja face principalmente, a forma como a história será
varia à medida que se move o objeto. Ora contada faz parte da tarefa do jornalista.
se vê três pontos, ora se vê um ponto. O ân-
gulo de visão a ser adotado irá depender do
5 As Teorias do Jornalismo nos
referencial.
No entanto, o observador, por mais que editoriais da Folha de S. Paulo
seja um jornalista profissional ciente de suas Esse estudo que contempla o porquê as notí-
obrigações para com a sociedade, é uma pes- cias são como são, baseando-se, sobretudo,
soa, um ser humano como outro qualquer. nas proposições do professor Nelson Tra-
E, como tal, carrega consigo um conjunto quina, procura averiguar qual dentre as Te-
de valores, crenças, saberes acumulados úni- orias do Jornalismo podem melhor permear
cos, que são só seus. O ato de escrever é o Jornalismo desempenhado nos editorias da
essencialmente influenciado por tais caracte- Folha de S. Paulo, nas edições dos dias 2, 4
rísticas. Por mais justo, democrático e ho- e 5 de maio do ano de 2005.
nesto que o jornalista seja, ele sempre irá Segundo o professor José Marques de
ter “pré-conceitos”. Não há criatura humana Melo (1985), editorial é o gênero jornalístico
que não tenha seus preconceitos mais arrai- que expressa a opinião oficial da empresa so-
gados, nascidos da educação da mais tenra bre os fatos de grande repercussão, em deter-
infância ou advindos da própria vivência da minado momento.
pessoa. O jornalista é um mediador da notí- No dia 2 de maio, o primeiro editorial da
cia, portanto irá transmiti-la da maneira que Folha de S. Paulo se refere a um fundo edu-
a vê. Um determinado jornalista não irá ter a cacional, o novo Fundef, que contemplaria a
mesma visão que um outro colega de traba- educação infantil, o ensino fundamental e o
lho, logo os enfoques dados à matéria serão médio em todas as suas modalidades. De 32
sempre diferenciados.

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milhões de alunos atendidos pelo novo fundo por divulgar, tendo em vista a interdependên-
de desenvolvimento educacional, o número cia econômica entre as nações do globo.
passaria para 47 milhões. O terceiro e último editorial da edição do
Basicamente, a opinião do jornal é uma dia 2 de maio é uma crítica ao “Caos Publi-
refutação à proposta do governo, apontando citário”, no qual a prefeitura de São Paulo
inúmeros fatores impeditivos para que a pro- estaria sendo altamente condescendente com
posta fosse aceita no congresso. E, assim, a situação, graças às receitas proporcionadas
encerra com severa crítica às propostas con- pelos descontrolados anúncios em locais pú-
sideradas mirabolantes do governo, como era blicos, em detrimento dos pedestres. Mas,
de se esperar da Folha. Neste caso, a teo- por que a Folha decidiu discutir um fato
ria sobressalente seria o organizacional, se- que há tempos vinha ocorrendo na cidade de
gundo a qual existiria toda uma hierarquia São Paulo? Possivelmente, a política edito-
de controle sobre a informação. O gateke- rial do veículo possui algumas diretrizes que,
eper, nessas circunstâncias, abre e fecha os de alguma forma, poderiam estar entrando
portões de acordo com o chefe do estabele- em choque com os interesses da prefeitura
cimento, perdendo, em parte, o seu poder de de São Paulo. Entretanto, o que se propõe
decisão sobre a informação. com essa discussão é estimular as diversas
A idéia central do editorial “O Ritmo dos interpretações acerca da divulgação da notí-
EUA” é a de que indicadores parecem corro- cia em discussão. Mostra-se, neste caso, e,
borar as expectativas dos investidores e ana- mais uma vez, que a teoria do espelho4 pode
listas de que a principal locomotiva econô- ser contestada, uma vez que a Folha pode-
mica do mundo está perdendo fôlego, com ria divulgar esta mesma informação positi-
uma moderada taxa de inflação. Ao cabo vamente, afirmando, por exemplo, que a pu-
da informação, se diz que analistas econômi- blicidade nas locações públicas é salutar por
cos reduziriam as projeções de crescimento proporcionar altas receitas à prefeitura e, em
da economia americana, apontando as não decorrência disso, fazer com que a responsa-
muito brandas conseqüências do cenário in- bilidade fiscal de Marta parecesse algo exis-
ternacional no Brasil. Apesar de contextua- tente.
lizar o fato, as informações de nada contri- Com relação aos editoriais do dia 4 de
buem para alguma atitude da sociedade em maio, o primeiro deles se refere à ques-
relação a isso. Parte-se do pressuposto de tão da volatilidade das cotações cambiais e
que as coisas são como são e de que cabe 4
Essa teoria é explicada no intuito de conceber o
apenas ao veículo informar que o Brasil só jornalismo como um contra poder de maneira mais
tende a piorar, em vez de estimular algum objetiva. “A metáfora presente nessa teoria é auto-
tipo de mobilização na sociedade que possa explicativa. Ela foi a primeira metodologia utilizada
contribuir para que a questão seja atenuada. na tentativa de compreender porque as notícias são
como são, ainda no século XIX. Sua base é idéia de
A teoria que pode ser aplicada à notícia seria
que o jornalismo reflete a realidade. Ou seja, as no-
tanto a organizacional quanto a do gatekee- tícias são do jeito que as conhecemos porque a reali-
per, por se tratar de um fato de interesse pú- dade assim as determina. A imprensa funciona como
blico (mas não da forma como foi concebida um espelho do real, apresentando um reflexo claro dos
a informação), que editor e diretoria optaram acontecimentos do cotidiano.” (PENA, 2005, p. 125)

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10 Robson Silva, Francisco de Assis, Isabela Rosemback, Kelma Rocha e Paulo Gannam

que estas seriam um fator de incerteza “re- O terceiro e último editorial dessa edição
gulatória” para empreendimentos exportado- diz respeito ao retrocesso do ato que concede
res, tanto quanto as lacunas freqüentemente aos presidentes de comissões permanentes e
apontadas em outros setores. Esta concep- provisórias da Câmara dos Deputados total
ção foi manifestada pelo jornal em resposta poder de nomeação para cargos de confiança.
aos, segundo ele, inúteis esforços retóricos A medida libera os presidentes dessas co-
do presidente Lula para tentar convencer o missões para indicar funcionários de confi-
meio empresarial de que a expressiva queda ança não apenas sem concurso, mas também
da cotação do dólar no Brasil seria apenas sem a necessidade de ratificação por alguma
um reflexo de um movimento externo. Neste outra instância. A iniciativa do compadrio
terreno, é importante destacar que um veí- e do empreguismo sai, por sua vez, fortale-
culo muitas vezes não se apresenta como um cida, em prejuízo dos critérios de mérito que
meio a favor do Estado, mas a serviço do em- precisariam sempre abalizar a contratação de
presariado. Nesse contexto, a teoria organi- funcionários pagos com o dinheiro público.
zacional mostra-se manifestar. Nesta óptica, também se demonstra que
O segundo editorial opina que não existe não haveria necessidade de se aplicar ne-
acordo internacional mais desigual do que o nhuma das teorias para dirimir o porquê de
Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNT). tal informação, tendo em vista a ressonân-
E que a existência de duas categorias de paí- cia que este acontecimento provoca na soci-
ses (os que estão e os que não estão auto- edade. O simples fato que comporta seria o
rizados a manter arsenais) pode ser admi- suficiente para que se divulgasse o conteúdo.
tida como excepcional e transitória, mas ja- Entretanto, olhando impassivelmente a
mais como definitiva. A pertinência desta in- questão, pode-se dizer que as teorias apli-
formação não precisaria de nenhuma teoria cáveis à veiculação da informação seria a
para ser publicada, em virtude de sua rele- organizacional, em conjunto com o agenda
vância para o mundo. Não obstante, a es- setting6 . No primeiro caso porque, em úl-
colha desse fato e o enfoque oferecido são 6
Conhecida como a “teoria do agendamento”, su-
elementos vinculados à teoria do gatekeeper gere que o mundo gira ao redor dos meios de comu-
e à teoria organizacional.5 nicação e que as discussões da sociedade são pauta-
5
das de acordo com o que está presente na mídia. “O
Essa teoria partiu dos estudos de Warren Breed, agenda setting, como é chamado nos Estados Unidos,
conforme aponta Traquina. “Esta teoria alarga a pers- surgiu no começo da década de 1970 como uma re-
pectiva teórica – do âmbito individual a um nível ação a uma outra teoria: a dos efeitos limitados, que
mais vasto, a organização jornalística. No seu estudo, teve seu auge entre os anos 40 e 60. [...] Nas pala-
igualmente um clássico dos estudos do jornalismo in- vras de Mauro Wolf, a passagem dos efeitos limitados
titulado Controle social da redação: Uma análise para os efeitos acumulativos implica a substituição do
funcional, Breed insere o jornalismo no seu contexto modelo transmissivo da comunicação por um modelo
mais imediato, a organização onde trabalha. [...] As- centrado no processo de significação. ‘A influência
sim, na teoria organizacional, a ênfase está num pro- da mídia é admitida na medida em que ajuda a estru-
cesso de socialização organizacional em que é subli- turar a imagem da realidade social, a longo prazo, a
nhada a importância duma cultura organizacional, e organizar novos elementos dessa mesma imagem, a
não uma cultura profissional. (TRAQUINA, 2004, p. formar opiniões e crenças novas.”’ (PENA, 2005, p.
152-153) 144-145)

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tima análise, uma informação acompanhada hegemônicos (EUA e União Européia). De


de opinião desta ordem só seria admissível qualquer modo, o editorial se refere espe-
caso os proprietários do jornal assim o per- cificadamente à acusação de falsificação de
mitissem. No segundo caso, já que uma no- assinaturas para obter o registro do Partido
tícia desta natureza é passível de ser desdo- Peru, por parte do presidente peruano Ale-
brada em várias matérias, em virtude, como jandro Toledo. Para definir os parâmetros de
já mencionado, da maneira como afeta dire- noticiabilidade desta informação, é coerente
tamente toda uma nação. o agenda setting e a teoria organizacional,
Nos editoriais do dia 5 de maio, o jornal novamente.
tem como título do primeiro desses: “PIB Não raro, notícias envolvendo crise na
concentrado”. Segundo a opinião manifes- América Latina são selecionadas pelos jor-
tada pelo editorial, por mais que se pudesse nais em razão do critério proximidade (na-
ver, na comparação com um levantamento cional). Principalmente aquelas que sutil-
anterior, algum movimento de desconcentra- mente criem um ranço entre brasileiros e ha-
ção industrial, ele seria tímido, limitando-se bitantes de países limítrofes, com vistas à in-
às proximidades dos principais centros, sem tegração daqueles à ideologia dominante. O
efeito sensível nas grandes regiões. Também assunto é aproveitado momentaneamente e,
argumenta que políticas com vistas a reduzir logo em seguida, outras vozes começam a
a concentração de renda no Brasil não podem surgir, substituindo o assunto. Estando cons-
deixar de enfrentar o problema das desigual- cientes desse aspecto, os grandes proprietá-
dades regionais. rios dão vazão a este tipo de notícia e a seus
Uma das teorias aplicáveis a esse editorial desdobramentos.
seria a organizacional e a do agenda setting. No terceiro e último editorial objeto desta
No primeiro caso, como já definido, porque pesquisa, o jornal deu realce à avaliação do
todo e qualquer editorial, por ser uma ma- ensino, feita pelo Enade (Exame Nacional
nifestação da empresa em relação ao tema, de Desempenho dos Estudantes). Constatou-
sempre passará pelo crivo dos proprietários se, considerando-se 1400 dos cursos avalia-
e/ou diretores da organização. No segundo, dos (2000 no total), superioridade esmaga-
pode-se dizer que a notícia é caracterizada, dora do ensino público. Mais de 70% das
sobretudo, pelo critério da continuidade. instituições que tiveram notas insuficientes
O editorial subseqüente aponta: “Crise para aprovação pertencem ao setor privado,
Peruana”. Ainda que se constitua aparen- enquanto que quase 60% das que consegui-
temente em fato veraz, novamente observa- ram pontuação máxima são federais, e cerca
se como o veículo Folha de S. Paulo sempre de 25% são estaduais.
opta por dar ênfase a questões que estimulem Um dos critérios de escolha da informação
uma aversão aos países que, ao menos teori- seria o da compatibilidade ou não de valo-
camente, deveriam se unir ao Brasil, a fim res sócio-culturais da mesma em relação ao
de formar um grupo sólido para defesa dos público. Este tipo de fato gera bastante po-
seus interesses econômicos e sociais. É inte- lêmica e provoca na sociedade grande con-
ressante observar que, dificilmente, ocorrem tenda em torno do tema. Por afetar muitas
críticas veementes a governantes dos países

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pessoas, a notícia, por si só, deveria ser di- É certo que o jornalista, a todo o mo-
vulgada. mento, devido a várias circunstancias, acaba
Do ponto de vista das Teorias do Jorna- se tornando subjetivo e arbitrário. A deci-
lismo, tanto a organizacional quanto a do ga- são de escolher uma palavra em detrimento
tekeeper poderiam ser inseridas nesse con- de outra, já é uma seleção da notícia que
texto. O porteiro, já consciente da repercus- irá ser repassada para o público. No en-
são que poderia gerar tal informação, prova- tanto, a estrada que desemboca na objetivi-
velmente teve acentuada participação na sua dade do Jornalismo parece não ter fim, mas
escolha, convencendo seus superiores da sua o seu caminho deve ser eternamente perse-
relevância. guido. Quanto mais o jornalista for consci-
O fato de o editorial representar a opinião ente de sua limitação, mais ele irá se esforçar
do veículo em relação a um acontecimento para se aproximar da verdade do fato.
não significa, portanto, que a publicação da Nesse contexto, vale ressaltar que a pos-
informação não tenha passado pelos olhos e tura dos editores frente ao que é ou não notí-
pelas mãos do editor, para a feitura do texto. cia e à definição de manchetes e fotos acaba
Assim, ambas as teorias poderiam permear sendo influenciada pela linha editorial e pelo
este gênero jornalístico. perfil do veículo em que trabalha. No caso da
Folha de S. Paulo, a prática de uma pesquisa
diária com um grupo selecionado de leito-
6 Considerações finais
res funciona como um “termômetro” sobre o
Conscientes de que o papel da universidade que pensa a opinião pública, ou mais preci-
vai além de formar um profissional com samente o seu público-alvo, sobre o enfoque
conhecimentos técnicos e preparado para o de suas matérias.
mercado, os alunos da Unitau puderam ad- Dessas observações, os alunos-
quirir novas visões da imprensa brasileira, pesquisadores puderam concluir que o
ao estudar as teorias que contemplam o uni- jornalismo impresso é uma atividade per-
verso do Jornalismo. meada por uma série de fatores, dentre os
Este trabalho também partiu do princípio quais, as Teorias do Jornalismo esclarecem,
de que ler é muito mais do que decodificar em boa medida, a existência de conteúdos
sinais e que texto e imagem têm variados ní- e formas de transmissão da informação.
veis de significação, indo muito mais além Assim, foi cumprido o objetivo central da
do que está explícito. “Além da significa- disciplina ministrada no curso da Unitau,
ção explícita, existe toda uma gama de sig- que é o de formar profissionais com senso
nificações implícitas, muito mais sutis, dire- crítico aguçado e conscientes da função do
tamente ligadas à intencionalidade do pro- Jornalismo na sociedade.
dutor” (KOCH, 2002, p. 159). Por meio
dessas pesquisas, houve a possibilidade de
se demonstrar que as definições teóricas do
jornalismo podem ter direto aproveitamento
quando da análise de um veículo impresso.

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