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Volume IV

População, modos e ciclos de vida:


Família, género e sexualidades

Manuel Carlos Silva et al. (orgs)


Centro de Investigação em Ciências Sociais (ed)
Instituto de Ciências Sociais
Universidade do Minho
População, modos e ciclos de vida:

Família, género e sexualidades


Índice

Família, género e intimidades.................................................................................................................................................. 1 


De mulheres e de saídas - Histórias....................................................................................................................................... 1 
Questionar a Nova Gestão Pública e o Género: Uma reflexão a partir da academia portuguesa ......................................... 12 
“Trabalho, família e género, articulando dimensões centrais da vida dos indivíduos”........................................................ 23 
Família, protecção social e redes sociais: algumas reflexões a partir da história de vida de uma família ........................... 66 
A intersectorialidade nas políticas para mulheres e do meio ambiente ............................................................................... 71 
A masculinidade não cai do "céu", ela nasce do "chão" ...................................................................................................... 75 
Transexualidade e transgénero em Portugal: dois “vazios” em debate ............................................................................... 84 
Em conversa com os amigos: a importância do grupo de pares na construção da sexualidade ........................................... 91 
Família, juventude e conjugalidade ..................................................................................................................................... 99 
Notas sobre família, hierarquia e gênero na Academia Militar das Agulhas Negras......................................................... 108 
“Não há ideais de pais, falhamos sempre”: dilemas da parentalidade no início do século XXI” ...................................... 112 
El camino hacia el empoderamiento político de las mujeres ............................................................................................. 127 
Famílias imigrantes portuguesas na cidade do Rio de Janeiro: rupturas e reconstrução de identidades ............................ 136 
De Castro Daire a Pernambuco: trajetória de uma família cristã-nova na economia açucareira e suas agruras com
a Inquisição ....................................................................................................................................................................... 143 
Mulheres e direitos humanos: desfazendo imagens, reconstruindo identidades ................................................................ 151 
Custos Sociais e Económicos da Violência Exercida Contra as Mulheres em Portugal: dinâmicas e processos
socioculturais .................................................................................................................................................................... 161 
Gênero e adoecer feminino: olhares sobre o corpo, a saúde e a doença ............................................................................ 166 
Vida conjugal, curso de vida e sexualidade....................................................................................................................... 178 
Homoparentalidade, Discriminação e Direitos Humanos: O caso Silva Mouta na Justiça portuguesa e no Tribunal
Europeu dos Direitos Humanos......................................................................................................................................... 188 
Tensões e assimetrias de género – Processos de ruptura conjugal e poder paternal .......................................................... 201 
Os jovens, os ventos secularizantes e o espírito do tempo. ............................................................................................... 210 
Privilégios e Direitos: Territórios sem Fronteira na Violência Doméstica? ...................................................................... 222 
Violência Psicológica contra a Mulher: Dor Invisível ...................................................................................................... 232 
A imbricação entre a violência física contra a mulher e a posição que ocupa na organização familiar............................. 244 
Os discusos que construiram as mulheres brasileiras, africanas e portuguesas ................................................................. 252 
As mulheres e a vivência pós-cárcere ............................................................................................................................... 256 
A arte da amizade na cultura digital: blogs femininos e feministas................................................................................... 260 
A importância da ampliação de discussões referentes à violência masculina após um ano de Lei Maria da Penha
no Brasil. ........................................................................................................................................................................... 267 
Poder e representação política de mulheres brasileiras - as cotas legislativas entre instituições e cultura* ...................... 273 
Para além do "Teto de Vidro": As Representações do “Ideal” de Mulher Executiva no Brasil......................................... 282 
Homens e Mulheres: Identidade Militar ............................................................................................................................ 286 
O Cotiadian de Crianças Residentes em Espaços de Reforma Agrária – Assentamento Nova Alvorada do Sul .............. 293 
Patrilocalidade, matrifocalidade e adaptabilidade no mundo rural de Santiago de Cabo Verde........................................ 300 
A violência doméstica contra crianças e adolescentes e o trabalho com as famílias no Brasil .......................................... 312 
Modos de vida, corpo e sexualidades .................................................................................................................................. 321 
Momentos queer no contexto educacional: desafios na construção de performances alternativas para os corpos ............ 321 
Desigualdades Sociais e Dissidência Sexual Feminina ..................................................................................................... 330 
Corpo e Ambiguidade Genital: o estranho e o peso do olhar ............................................................................................ 337 
A Lógica Perversa do Consumo, a Apatia e Depressão como Efeitos da Globalização .................................................... 344 
Amor, intimidade e sexualidade: roteiros amorosos e sexuais na época contemporânea .................................................. 352 
O corpo como projecto: modos de vida orientados para padrões de beleza ...................................................................... 368 
Metamorfose de um corpo andarilho: busca e reencontro do algo melhor ....................................................................... 377 
Corpo, subjetivação, ética e poder .................................................................................................................................... 383 
Hábitos Alimentares da Terceira Idade: um estudo comparativo entre as Classes AB x CD em São Paulo - Brasil......... 390 
O corpo e o sujeito na contemporaneidade: signos de memórias e traços de identificação nas transformações
corpóreas ........................................................................................................................................................................... 403 
Modos de vida e padrões de consumo: travestismo e prostituição em Juiz de Fora, Brasil ............................................... 414 
Corpo e infância: dialogando com a sociologia da infância .............................................................................................. 421 
Símbolos sobre o corpo: marcas de gênero no universo da tatuagem ............................................................................... 427 
Comportamentos sexuais, crenças, atitudes e conhecimentos de adolescentes/jovens portuguesas e cabo-verdianas
face à vulnerabilidade ao risco do HIV/SIDA: uma abordagem antropológica comparativa em contexto urbano. ........... 432 
Projecto Saúde e Prevenção na Escola e Protagonismo Juvenil ........................................................................................ 446 
Grupo gestor estadual em saúde e prevenção nas escolas – GGE/SPE ............................................................................. 452 
Narrativas da Alteridade: Corpos Femininos na Construção Luso-Afro-Brasileira .......................................................... 456 
Usos e construções de imagens representativas sobre a sensualidade da mulher brasileira em um contexto
migratório.......................................................................................................................................................................... 468 
Homossexualidade na Reclusão Feminina: Discursos, Representações e Práticas. ........................................................... 479 
A produção da sexualidade pela mídia .............................................................................................................................. 486 
Reflexões da violência e abuso sexual infanto juvenil ...................................................................................................... 489 
População, gerações e ciclos de vida ................................................................................................................................... 497 
A formação do indivíduo alicerçada em valores éticos e religiosos .................................................................................. 497 
As políticas sociais e o protagonismo da criança e do adolescente ................................................................................... 503 
Políticas públicas para a educação da primeira infância: a creche .................................................................................... 512 
Políticas Internacionais para o mundo do trabalho, repercussões no Brasil para as pessoas com deficiência. .................. 516 
Quando as crianças fotografam ......................................................................................................................................... 519 
Universidade Aberta para a Terceira Idade: o desafio educacional na pós-modernidade.................................................. 523 
Idoso: o crescimento de uma nova geração ....................................................................................................................... 533 
Práticas corporais para a terceira idade: facilitadores para o fortalecimento do corpo, da mente e da integração
social ................................................................................................................................................................................. 536 
Políticas Sociais Alternativas a Institucionalização de Idosos na Região das Missões - RS ............................................. 541 
Juventudes, Memórias e cultura: articulações para o encontro entre distintas gerações .................................................... 549 
Sociabilidades Juvenis em Teresina: o Trabalho de jovens no Lazer ................................................................................ 563 
Pescando histórias à beira mar: um estudo intergeracional ............................................................................................... 567 
Jovens e crianças intermediam relações geracionais: um estudo a partir de contos e lendas do lugar .............................. 571 
Coletivos juvenis e expressões culturais no Brasil ............................................................................................................ 575 
Mudanças na estrutura demográfica do Espirito Santo - Brasil......................................................................................... 585 
Políticas públicas e gestão do envelhecimento no Brasil .................................................................................................. 598 
Envelhecimento, subjetividade e espaços urbanos: nas ruas da memória ......................................................................... 601 
O envelhecimento populacional e o desafio àqueles que atuam com os novos atores sociais – os idosos ........................ 605 
A Vivência em Lar e a Privação da Intimidade ................................................................................................................. 610 
Juventude e diferenças de gênero nas culturas juvenis contemporâneas ........................................................................... 624 
Juventude e Noite: Narrando a violência e o risco. ........................................................................................................... 634 
Crianças, Participação e Cidades: uma geo-grafia da infância .......................................................................................... 639 
Reflexões Metodológicas Acerca De Uma Pesquisa Com Crianças Num Contexto Educativo Pré-Escolar..................... 647 
Investigação com crianças e metodologias participativas. Reflexões a partir da experiência numa escola da
periferia de Maputo. .......................................................................................................................................................... 653 
O Surgimento dos Novos Estudos Sociais sobre a Infância no contexto da Radicalização do Processo Histórico de
Individualização da Criança .............................................................................................................................................. 665 
Crime, dependência e direito ............................................................................................................................................... 680 
Da Exclusão e do Racismo à Criminalidade. Um Estudo de Caso no Bairro da Atouguia em Guimarães........................ 680 
O Poder e a Cultura de Violência em Alagoas .................................................................................................................. 693 
Memória e pertencimento: o discurso criminalizante e o samba como "território" de resistência. Uma experiência
na periferia de uma grande metrópole brasileira ............................................................................................................... 701 
Sistema de justiça criminal brasileira e cidadania dos aprisionados: prisão como castigo ou agente
ressocializador? ................................................................................................................................................................. 710 
A pena privativa de liberdade na penitenciária de São Luiz Gonzaga, no interior do Estado Rio Grande do Sul/
Brasil ................................................................................................................................................................................. 718 
Da atualidade e da oportunidade do tema "Tráfico de Mulheres para fins de exploração sexual" .................................... 730 
Eco da violência urbana: o cotidiano das crianças trabalhadoras do narcotráfico brasileiro ............................................. 735 
Quando o petro-capitalismo encontra a cleptocracia: crime organizado em Angola em contaxtos de integração e
fragmentação ..................................................................................................................................................................... 742 
Plantios de Maconha no Brasil, o Caso do polígono da Maconha: Atores e Relações Sociais na Cadeia Produtiva......... 746 
“Negócios e trapaças: O lucrativo comércio marítimo ilícito de africanos no município de Macaé (1830-1865)” ........... 754 
Violências e Conflitos Intersubjetivos no Brasil Contemporâneo ..................................................................................... 757 
Política e Questão de Família ............................................................................................................................................ 764 
Os Juizados Especiais de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher no Brasil – Primeiras Impressões ................ 771 
Programa Pró-Egresso de Toledo: a ação do serviço social .............................................................................................. 780 
Vulnerabilidade e exclusão X emancipação e gerenciamento do risco: o papel das políticas públicas penais e de
programas de apoio a ex-presidiários no Brasil................................................................................................................. 786 
As Penas Alternativas superam as prisões no Brasil, hoje. É um avanço ou um retrocesso? ........................................... 793 
Apoio familiar aos adolescentes egressos do sistema sócio-educativo da região de Ponta Grossa – Paraná – Brasil ....... 802 
Representações sociais do fenómeno das drogas nos meios de comunicação de massa .................................................... 809 
Um novo modelo de atendimento aos dependentes químicos ........................................................................................... 814 
A ordem pública e a segurança individual. A luta contra o cangaço e contra o PCC ........................................................ 825 
Representações de Justiça Polular na trajetória de um bandido social .............................................................................. 837 
Amor e dor: um estudo sobre as punições corporais em crianças e adolescentes na cidade de Natal/Rio Grande Do
Norte/Brasil ....................................................................................................................................................................... 844 
Reflexo das Ordenações Filipinas na Violência Doméstica Praticada no Brasil ............................................................... 849 
A memória que não faz laço social: crime e destrutividade .............................................................................................. 859 
A violência de gênero em Niterói: um registro de invisibilidades..................................................................................... 870 
Práticas e Políticas Culturais num Estabelecimento Prisional ........................................................................................... 878 
Direitos humanos: uma injustiça na realidade das prisões brasileiras ............................................................................... 890 
O corpo da mulher em situação de privação de liberdade: o feminino encarcerado. Do descaso ao abandono ................. 902 
Caldeirão em ebulição: análise da construção e manutenção da identidade de grupos antagônicos nas prisões ............... 907 
A matriz prático-discursiva da política de segurança pública no Rio de Janeiro de hoje .................................................. 913 
Tendências e desafios das políticas na gestão da segurança pública nas cidades: o caso do Estado do Rio de
Janeiro ............................................................................................................................................................................... 927 
Segurança pública e favelas no Rio de Janeiro: crime violento, polícia, riscos e rotinas .................................................. 932 
A Municialização da Segurança Pública: estudo de caso em São Leopoldo - RS ............................................................. 943 
Sobre a percepção de “direitos” e de “humano” entre operadores de segurança pública no Brasil ................................... 954 
A produção de “transparências” na polícia portuguesa. .................................................................................................... 956 
Formação dos magistrados no Brasil e a necessidade de reforma para um Poder Judiciário mais justo. .......................... 961 
As políticas de Educação Sexual existentes no Brasil e em Portugal como tema de estudo comparativo ......................... 969 
Algumas notas sobre o RDD e as políticas públicas de exceção no Brasil........................................................................ 981 
Livre convencimento, imparcialidade e subjetividade na decisão judicial ........................................................................ 992 
Pensando a justiça penal brasileira a partir dos conceitos de campo e habitus de Pierre Bourdieu ................................. 1002 
Solução dos Conflitos sócio-ambientais através do Poder Judiciário: o caso da carcinicultura na APA da Barra do
Rio Mamamguape-Pb ..................................................................................................................................................... 1007 
Criminalização da pobreza e judicialização das relações sociais: Reflexões a partir do olhar do Serviço Social ........... 1012 
Sistema Judicial e Reformas: o Caso Brasileiro .............................................................................................................. 1018 
Delinquência juvenil feminina: histórias de vida sobre transgressão .............................................................................. 1025 
A inserção da Juventude no processo de produção da violência na atualidade ............................................................... 1039 
Estudo sobre a incidência de homicídios praticados por adolescentes e o número de óbitos deste segmento no
município de Natal/RN-Brasil......................................................................................................................................... 1044 
Os adolescentes em conflito com a lei e a criminalização das classes perigosas: notas sobre o perfil étnico-racial ....... 1056 
Será a legislação penal contemporânea de emergência uma legislação de "linhas abissais"? Análise da
problemática brasileira à luz de espectáculos mediáticos ................................................................................................ 1061 
"Nem às paredes confesso": a relação entre a(s) justiça(s) e a(s) arquitectura(s) judicial(ais) ........................................ 1070 
Família, género e intimidades

De mulheres e de saídas - Histórias


Cenira Duarte Braga
Universidade Federal Fluminense
ritacsfreitas@uol.com.br

Rita de Cássia Santos Freitas


Universidade Federal Fluminense
ritacsfreitas@uol.com.br

Nívia Valença Barros


Universidade Federal Fluminense
niviabarros@globo.com

Resumo: Esta comunicação tem por objetivo recontar o “sair” das pioneiras da Escola de Serviço Social da Universidade Federal
Fluminense, localizada em Niterói (RJ,BR). Neste texto, utilizamos o depoimento de quatro pioneiras. Nestes depoimentos levantou-se a
história de vida dessas mulheres, suas memórias e contribuições para a história da ESSN, mas, sobretudo, da profissão do Serviço Social.
Esta comunicação fala da saída de mulheres que, por conta dessa ousadia – saírem de seus cotidianos de gênero e de classe – construíram
uma profissão. Enfatiza-se a história das mulheres como elemento fundamental para pensar a condição humana e a história de nossa
profissão. Nosso projeto, ao trabalhar com memórias e história oral, analisa o modo como essas mulheres, pioneiras nos anos 40, foram, aos
poucos, conformando uma ocupação. O estudo centra sua análise no surgimento da Escola, mas não se descola da realidade mais global onde
esses acontecimentos ganham vida. Elas partiram do zero e foram estudando, viajando, trocando experiências, elaborando apostilas,
construindo os primeiros livros, as primeiras técnicas, se organizando em associações, enfim, criando uma profissão. A memória da ESS
pode ser recolhida em várias passagens onde o público e o privado se entrelaçam. Foi uma escola/um trabalho importante em suas vidas. Não
podemos deixar de concluir utilizando uma frase de Nilda Ney, uma de nossas entrevistadas: “desde que a mulher foi trabalhar ela ficou
independente, porque o que dá independência à mulher não é o casamento, é a profissão e independência econômica e a cultura”. Como
feministas, não podemos deixar de concordar.
PALAVRAS-CHAVE: gênero, história oral e memórias
APOIO FINANCEIRO: FAPERJ.

Introdução
Esta comunicação é resultado de uma pesquisa intitulada “Niterói - Cidade das Mulheres”. Nesta pesquisa temos
como objetivo resgatar a memória de mulheres que fizeram parte da história da cidade de Niterói, situada no Estado do Rio
de Janeiro, Brasil. As mulheres tradicionalmente estão ausentes da chamada “história oficial”; assim, em nossa pesquisa
buscamos exatamente retirar da invisibilidade as mulheres de Niterói, ouvindo-as e preservando sua memória e, nesse
sentido, a história oral tornou-se uma metodologia imprescindível em nosso cotidiano.
Neste texto, recontamos um pouco do “sair” das pioneiras da Escola de Serviço Social da Universidade Federal
Fluminense (ESSN/UFF), localizada em Niterói. Para tanto, utilizamos o depoimento de quatro pioneiras da Escola acima
citada. Nestes depoimentos levantou-se a história de vida dessas mulheres, suas memórias e contribuições para a história da
ESSN, mas, sobretudo, da profissão do Serviço Social. Podemos perceber, dessa forma, como muitas mulheres conseguiram
“sair” de dentro dos cotidianos de gênero tão fortemente amarrados e construir uma profissão.
Assim, iniciamos nosso texto “apresentando” nossa cidade e um pouco da historiografia da cidade. Num segundo
momento, teceremos comentários acerca da construção da ESSN/UFF, o momento histórico, os sujeitos então presentes e em
seguida, vamos apresentar alguns desses personagens, algumas dessas mulheres, protagonistas dessa história. Como não
poderia deixar de ser, fazemos posteriormente algumas reflexões finais.
Contar uma história é também relembrar vidas. São as atividades diárias que realizamos em nosso dia-a-dia que
transformam os acontecimentos em fatos a serem rememorados. É assim que construímos nossas memórias. Partimos, em
nosso projeto, do pressuposto que toda profissão é construída através de várias pessoas, de várias gerações. E a gente está
fazendo esse trabalho justamente para que as novas gerações não pensem que tudo começou agora, e principalmente, que
nada termina aqui. Convivemos com vários problemas, mas apesar disso somos daquelas e daqueles que acreditam que ainda
assim temos o que comemorar. Olhar o passado pode nos ajudar muito nesse sentido.

Niterói – uma cidade e sua historiografia


Niterói é uma cidade relativamente pequena, ocupando uma área de cerca de 131.000 quilômetros quadrados (o
equivalente a 0,30 do território total do Rio de Janeiro), contudo é densamente habitada (possui hoje o quinto lugar em

1
população e densidade demográfica no Estado), possuindo quase quinhentos mil residentes. É tida como uma cidade com
uma boa qualidade de vida e a expectativa de vida dos moradores chega, segundo o IBGE, aos 68 anos. Todavia, ainda é uma
cidade que convive com grandes bolsões de pobreza.
Das janelas de Niterói se descortina a cidade do Rio de Janeiro – um dos mais belos cartões postais do país1. A
proximidade com o Rio traz vantagens e também desvantagens, uma vez que grande parte da população de Niterói flutua
diariamente entre as duas cidades, seja através das barcas que cortam a Baia de Guanabara, seja pela monumental Ponte Rio-
Niterói.
Os professores Ismênia de Lima Martins e Paulo Knauss – na introdução que fazem ao livro Cidade Múltipla:
temas de história de Niterói – lembram que a cidade é um objeto antigo dos historiadores; contudo, fazem a ressalva que ela
não é abordada da mesma forma pelas diversas investigações históricas. Nós também nos interessamos pela cidade e
entendemos que esta é um produto das contradições socais, culturais e econômicas que rasgam o seu dia-a-dia. A história de
uma cidade não pode ser encerrada em uma única leitura. Nesse ponto, a busca por uma certa objetividade na análise não
pode cegar os olhos do investigador para o fato de que construímos um olhar, uma interpretação – possível entre outras
igualmente possíveis. Nas palavras de nossos autores: “a história das cidades evidencia um movimento incessante de
significação variada dos espaços” (Martins e Knauss, 1997: 10).
Niterói surge nesse livro como um espaço “múltiplo”. Diversos projetos (sociais, políticos, econômicos,
individuais, classistas ou culturais) surgem e são estudados demonstrando a multiplicidade de sujeitos e processos sociais.
Comecemos nos perguntando como anda a historiografia referente à cidade de Niterói. O texto de Martins (1997) nos ajuda
nesse caminho. Neste, a autora estuda a historiografia existente acerca da cidade de Niterói.
A análise da história da cidade revela o modo como Niterói se constituiu tendo como uma grande referência em sua
vida a cidade do Rio de Janeiro2; isso é verdadeiro quando pensamos no mercado de trabalho (principalmente depois da
fusão), na esfera do político, pois afinal de contas, o centro do poder estava ao “nosso lado” – ou melhor, a nossa frente (e foi
transferido para o Planalto Central – Brasília3). Dessa forma, Niterói não foi efetivamente motivo de grandes reflexões
históricas. Ismênia Martins ao analisar a produção existente até a década de 80 constatou a existência de apenas 84 produções
que estudavam a cidade de Niterói. Estas se caracterizavam pela abordagem descritiva (presente em 49 das produções
estudadas). O século XIX é o alvo preferencial dessas análises, destacando-se também o baixo número de autores, o que
comprova que pouca gente escrevia sobre esse tema.
Os anos 80 e 90 não trazem grandes transformações nessa realidade, apesar da instalação do Programa de Pós-
Graduação em História da UFF: são poucas as dissertações e tese defendidas neste programa que tomam a cidade como
objeto de estudo. Fora do âmbito da universidade, segundo Martins, a produção continua tendo como referência a cidade do
Rio de Janeiro, o século XIX ainda é um privilegiado objeto de estudo e a abordagem política e administrativa continua
dominante (Martins, 1997).
Enfim, conclui Martins que a história de Niterói necessita ainda de um grande esforço; porém, “não se trata da
história de um lugar e sim de um espaço social permanentemente reconstruído. Nele atuam, na mesma cena, lideranças
políticas, nobres do Império e os comuns. E as relações sociais que aí se desenvolvem permanecem estranhamente ausentes
nos trabalhos examinados” (1997: 244). Este é um desafio a ser enfrentado: procurar novas abordagens, novos olhares, novos
objetos de estudo que nos permita nos aproximar um pouco mais de “tudo o que foi significativo para a construção e
transformação da cidade”.
Nesse sentido, dando “continuidade” ao texto de Martins, iniciamos uma pequena pesquisa na Biblioteca Central do
Gragoatá/UFF, que teve como objetivo fazer um levantamento inicial sobre a bibliografia existente que abrange a cidade de
Niterói, a partir das seguintes temáticas: História Política, do Patrimônio Artístico e Cultural, Biográfica, Econômica e Geo-
História4. O recorte temporal compreendeu o período de 1995 a 2005, ou seja, dez anos da produção historiográfica de
Niterói em livros, Trabalhos de Conclusão de Curso e Teses. Em relação aos livros compete destacar, do universo de 21
obras, a seguinte divisão:

Temática Número de obras


História Política 2
Geo-História 2
História Econômica 2
História do Patrimônio Artístico Cultural 8
História Biográfica 7

1
Embora, ainda que menos conhecida, Niterói possui igualmente belíssimas praias e recantos.
2
Cf. Martins (1997) e Ferreira (1997).
3
Niterói era capital do Rio de Janeiro. Com a mudança da capital para Brasília, Niterói perde esse posto, uma vez que a cidade do Rio, antiga capital do Brasil,
passa a ser a capital do Estado do Rio.
4
Trabalho apresentado na Semana de Iniciação Científica em 2006, com o título “Pensando a historiografia de Niterói: dez anos (1995-2005)”, de autoria de
Ellen do Nascimento Anacleto e Iohana Santos Fernandes.

2
Podemos observar a elevação no quantitativo das duas últimas temáticas. Creditamos esta situação à valorização,
pela Prefeitura de Niterói, da história da cidade, visando romper com a história niteroiense como parte da história carioca,
mostrando peculiaridades e riquezas desta terra.
Foram pesquisados, ainda Trabalhos de Conclusão de Curso e Dissertações de Mestrado. Nos TCCs predominam
os cursos de história e biblioteconomia. Observamos a predominância da abordagem da memória da cidade de Niterói, seja a
partir de imagens que caracterizam suas transformações, seja a partir de estudos sobre memória como construção de
identidade social. A temática do patrimônio cultural, por exemplo, revela a influência do sentido das imagens e as relações
desenvolvidas na história da sociedade brasileira e, sobretudo seus reflexos na cidade de Niterói. Dessa forma podemos
constatar que o resgate da memória da cidade está presente nas teses em diferentes formas de mensagem.
Em relação à história biográfica – central em nossa pesquisa – citaremos aqui duas obras: “Memória de Niterói: 12
depoimentos” coordenação de Júlio Vasco e “Personagens e imagens de uma cidade” coordenação de Ângela de Castro
Gomes. Ambos seguem uma metodologia semelhante: depoimentos de personagens importantes para a cidade, mas cujos
nomes não figuram na “grande história5”.
No primeiro livro todos os personagens são homens. No segundo encontramos o relato de apenas uma mulher
(Lizair Guarino). Outro livro, de Aníbal Bragança (Livraria Ideal: do cordel à bibliofilia), nos possibilita conhecer a vida de
um emigrante (Silvestre Mônaco) e um pouco do cotidiano da cidade, mas também não nos traz um olhar feminino sobre essa
cidade. Onde estão as mulheres de Niterói? Não desmerecemos os personagens escolhidos por esses autores, mas entendemos
que outros olhares, outras falas também são possíveis.

Essa pequena pesquisa ratificou nossa percepção da existência de uma grande lacuna no que diz respeito à história
das mulheres, à participação destas nos fatos históricos narrados nas obras pesquisadas. É importante enfatizar que apostar na
construção da história desta cidade a partir do olhar e da vivencia feminina6 não significa, para nós, a reconstrução de uma
“outra” história, verdadeira e definitiva. Interrogamos o passado e buscamos contar, reconstituir uma história, várias histórias
e trazer para o momento atual suas experiências, as imagens que ficaram no esquecimento e que podem nos ajudar a entender
um pouco melhor nossa cidade, nossa vida de mulheres e homens, hoje7.
As mulheres que entrevistamos nos dão uma “leitura” possível das experiências e dos processos históricos que
viveram (uma leitura que envolve o olhar feminino, uma posição de classe, etnia, idade, etc.). Suas histórias não se justificam
aqui apenas por serem mulheres que estiveram no chamado mundo público. Além dessa dimensão, o que enriquece seus
relatos é o modo como navegam pelas diversas dimensões, públicas e privadas. Nesse ponto se aproximam da descrição de
Rago (ao se referir a sua “biografada” Luce Fabri): “uma experiência de atuação no mundo público, sem perder, contudo,
uma forte inserção na esfera da vida privada” (Rago, 2001: 18).
No passado se aprende as várias histórias perdidas, as possibilidades que não se realizaram, mas também as
histórias que não foram contadas; enfim, temos acesso a outras leituras do passado (Rago, 2001). Essa perspectiva se
enriquece, em nosso entender, pela possibilidade de diálogo que estabelece entre várias disciplinas. Assim, tentaremos nos
colocar nesse debate.

Deixando a Niterói de hoje, avançamos no passado e retomamos aos anos 40, onde a história desse escrito começa.
É importante lembrar que os anos quarenta foram anos de grande movimentação na área social. O final do Primeiro Governo
Vargas vê emergir um grande número de instituições nesta área (o SENAI, o SESI e a LBA são grandes exemplos). A criação
da LBA, em 1942, demarca uma redefinição no Estado brasileiro com a incorporação da pobreza e da miséria ao discurso
oficial. Esse é o “mote” que gera a necessidade de profissionais preparados para atuar na área social.
Nestes anos surgem as primeiras Escolas de Serviço Social no Brasil. Os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro
(respectivamente) foram pioneiros. A LBA (Legião Brasileira de Assistência) foi criada em 1942, quando do ingresso do país
na guerra, com o objetivo de prestar atendimento as famílias carentes cujos maridos estavam no front. A criação da LBA
Fluminense possibilitou o estabelecimento do primeiro curso de visitadoras sociais – precursor da nossa Escola de Serviço
Social. Este curso foi ministrado pela assistente social Maria Esolina Pinheiro (fundadora da Escola de Serviço Social, hoje
pertencente a UERJ – Universidade Estadual do Rio de Janeiro).
Em 1943, a LBA Fluminense organizou cursos intensivos de treinamentos do voluntariado: Noções de
Enfermagem, Defesa Civil, Nutricionista e o de Visitadoras Sociais, coordenado por Maria Esolina Pinheiro (uma das
pioneiras da hoje Escola de Serviço Social/UERJ). Este último foi o embrião para a criação da primeira Escola de Serviço
Social de Niterói – uma escola tecida por mãos femininas e que congregou diversas mulheres interessadas em também fiar
um tempo diferenciado e tingir com novas a paisagem local.

5
Lembramos que nestes livros de história biográfica não se dá a utilização da história oral como metodologia, mas depoimentos colhidos na forma de
questionário.
6
Que, necessariamente, se diferencia do olhar e da vivencia masculina, não por uma questão biológica ou essencialista, mas por um olhar e uma vivência que
foram construídos social e historicamente de forma diferenciada.
7
“Nada do que aconteceu um dia deve ser considerado perdido para a história” – esse foi o ensinamento de Benjamim que ajuda a reforçar o que estamos
querendo dizer.

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A Escola de Serviço Social de Niterói
Este é o acontecimento: no dia 23 de agosto de 1945, na Rua Tiradentes, 148 surgia a Escola de Serviço Social do
Estado do Rio de Janeiro. Uma bonita casa, com uma bela varanda e um porão em seu interior que pertencera a família do
Desembargador Ferreira Pinto, e depois a Legião Brasileira de Assistência (LBA) – que a cedeu para o funcionamento da
ESS. Esta foi criada pelo Decreto Estadual 1.397 de seis de julho de 1945. Este decreto, na verdade, legitimou todo um
processo de lutas que não se esgotam na criação do fato em si. Foi a inauguração em 23 de agosto que deu vida a essa
instituição.
No Rio de Janeiro já existiam outras três Escolas de Serviço Social. No entanto, a de Niterói tem um diferencial:
era mantida em parte pela LBA e em parte pelo Estado; as alunas não pagavam mensalidades e suas turmas não eram
compostas apenas por moças da alta sociedade, mas por muitas professoras primárias vindas do interior do Estado que
recebiam integralmente seus salários para depois de formadas retornarem às suas cidades (o que nem sempre acontecia, como
poderemos ver). Ainda compunham as turmas funcionárias das poucas instituições sociais existentes (LBA, SESC, SESI).
No início o curso era considerado de nível médio e de natureza exclusivamente feminina. Como a profissão no
Brasil era ainda relativamente nova (ainda não tinha completado dez anos do surgimento da primeira Escola de Serviço
Social), podemos dizer que houve um esforço em conjunto para “fazer” a profissão do Serviço Social. Apresenta-se aí o
primeiro desafio: como funcionar um curso de Serviço Social sem professores desta disciplina? A solução foi convidar
professores com título universitário e que tivesse alguma experiência em “obras sociais” e as disciplinas mais específicas
ficariam sob orientação das assistentes sociais vindas de São Paulo.
Em 1946, a LBA decide focar suas atividades no atendimento à maternidade e a infância, transferindo os demais
“casos dolorosos” para a ESSN. Cria-se então o chamado Escritório Central, uma espécie de agência onde as alunas,
devidamente supervisionadas pelas professoras da área, resolveriam tais casos, servindo como um campo de estágio.
É importante registrar que se as primeiras escolas de Serviço Social surgem com a marca forte do discurso católico,
a escola de Niterói (ainda que possua em seu interior mulheres de formação católica) tem sua identidade assentada no Poder
Público. Este é um detalhe fundamental que marca toda a diferença para se pensar a história dessa escola e, respectivamente
do próprio Serviço Social fluminense. Por isso, nos voltamos neste texto a um resgate do que foram os primeiros dias, meses,
anos de nossa história. Entendemos que esse interesse se justifica, pois percebemos como muitas vezes olhamos o passado –
e estas mulheres –com o olhar do presente e as condenamos por um conservadorismo que, na verdade, nunca as caracterizou.
Ou melhor, que não as caracteriza unicamente. No entanto, essas mulheres são lembradas apenas de uma única forma, por um
único viés e não se percebem as contradições, os avanços que também realizaram. Vamos falar aqui de mulheres que foram,
antes de tudo, OUSADAS. Elas ousaram sair do “círculo restrito traçado a sua volta”. Elas foram muito mais longe. Mas, e
isso é fundamental não esquecermos, são mulheres “comuns”, são pessoas comuns como qualquer um(a) de nós. E isso é o
que as faz grandes.

Dessa forma, além de demarcar nossa preocupação com o resgate da história local, outro ponto a destacar é nossa
preocupação de resgatar uma história onde a participação de mulheres apareça. Voltamo-nos para o resgate da história dessas
mulheres que, com todas as limitações (de gênero, de classe, raça) conseguiram fazer uma profissão e serem respeitadas por
seus trabalhos. Dessa forma, uma característica importante em nosso discurso diz respeito a necessidade de construir olhares
que estejam atentos para o cotidiano, para os chamados “pequenos acontecimentos” (mas grandes em importância) que fazem
parte importante de nossas vidas.
Assim, esse texto fala das saídas dessas mulheres de seus universos ditos femininos, de suas preocupações privadas
e do modo como pelo social adentraram no mundo público, modificando suas vidas, das pessoas a seu redor, modificando
mesmo a cidade onde circulavam. A “saída” de tais mulheres deve ser entendida segundo a concepção da historiadora
francesa Michelle Perrot (1999). Podemos caracterizar esse sair a partir de duas formas: sair fisicamente, buscando novas
formas de construir o Serviço Social e sair também moralmente, pois não podemos negar que, na busca por seus objetivos,
estas pioneiras tiveram que fugir dos papéis de gênero atribuídos às mulheres pela sociedade.
Estas “saídas” se caracterizam, no caso de nossa pesquisa, pela “viagem-ação” a partir do trabalho onde essas
mulheres puderam movimentar e transformar a realidade a sua volta e também a si mesmas. Mas se caracteriza também pelas
viagens efetivas que estas pioneiras tiveram que fazer, inclusive a outros países, para conhecer experiências em Serviço
Social, visando dar um embasamento teórico ao seu trabalho docente – e que repercutiu em seus mundos privados,
transformando valores e representações. Parafraseando M. Perrot, pudemos perceber o modo pelo qual as mulheres buscaram
tomar o pouco espaço que lhes eram deixados para ampliar seus conhecimentos, alargando suas influências à fronteiras antes
improváveis de serem alcançadas.
O artigo de Perrot fala da filantropia e da caridade como uma primeira forma de “saída” das mulheres não só dos
seus lares, mas principalmente das funções que lhes eram atribuídas. Essas “saídas” não só mudam a visão de mundo das
próprias mulheres – já que se fazia necessário realizar obras, fazer visitas domiciliares e atividades diversas das quais as
mulheres não estavam familiarizadas –, mas também abre caminhos para a amplitude (e ampliação) do trabalho social. A
transformação da filantropia em trabalho social representa de fato, um momento decisivo dessas saídas, já que com o passar
do tempo fez-se necessário a profissionalização das mulheres. Elas puderam, então fazer “do seu compromisso social um
exercício de liberdade pessoal” (PERROT, 1999, p. 509). Nesse sentido, queremos apresentar algumas mulheres que,

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quebrando essas barreiras, conquistaram não só seu espaço na sociedade, mas um espaço onde construíram uma profissão. A
partir de suas falas queremos relatar os desafios, as experiências e as conquistas no processo de organização e
desenvolvimento dessas mulheres para a construção do curso (e da profissão) de Serviço Social.
Queremos ressaltar também a importância da história oral dentro desse processo, pois foi a metodologia que
possibilitou que nos aproximássemos da memória e das lembranças dessas mulheres e de um tempo que passou – mas que
não foi um tempo qualquer. A História Oral tem sido muito questionada ao logo do tempo, mas é através dela que
procuramos e temos obtido um ótimo resultado na compreensão factual de um contexto por muitos desconhecido; que tem
por objetivo devolver ao povo sua própria história, ou seja, através disso colocar ao alcance de todos uma história contada por
seus próprios autores/atores – no nosso caso, suas próprias autoras.
Como afirma Paul Thompson (1992) em seu, hoje, clássico livro, já que a habilidade escrita é mais exigente e
restritiva que a fala, as palavras faladas “insuflam vida na história”, possibilitando o resgate de uma história contada a partir
das próprias experiências vividas pelas pessoas. Dessa forma, a história oral penetra em áreas que de outro modo seriam
inacessíveis, ajudando a transformar os ditos “objetos de estudo” em sujeitos, isso porque ela possibilita a abertura da história
para outras vozes, já que as testemunhas podem ser convocadas também entre as classes subalternas, caracterizando, assim, o
caráter “mais democrático”, que lhe atribui P. Thompson. Trabalhar na perspectiva da história oral significa abertura para
ouvir a voz, o relato as experiências das pessoas “comuns” e, nesse sentido, o cotidiano é um rico palco para nossa análise,
por permitir a apreensão do ser através da experiência vivida. O livro de Ecléa Bosi, ao falar de “lembranças de velhos” nos
acompanha neste projeto. Através de suas reflexões nos aproximamos de seus entrevistados, seus velhos dos quais colheu
suas memórias. Como enfatiza essa autora, não podemos perder de vista a dimensão social da memória. Esta não deve ser
encarada enquanto uma atividade meramente individual, ainda que a memória venha à tona a partir de um indivíduo. A
construção social da memória é um fenômeno que nos acompanha. Ela nos fala da sociedade, dos grupos, daqueles que
fizeram parte de nossas vidas e que ainda hoje lhes dão significado: “um mundo social que possui uma riqueza e uma
diversidade que não conhecemos, pode chegar-nos pela memória dos velhos”, é o que nos diz Bosi, à página 40 de seu livro.
Nossa preocupação foi e está sendo registrar a voz dessas mulheres e a partir disso, “a vida e o pensamento de seres que já
trabalharam por seus contemporâneos e por nós”. Trata-se de uma memória pessoal que também é “social, familiar e grupal”.
Através de suas falas, resgata-se o registro de um tempo, uma cidade, de desejos e esperanças (BOSI, 1987).
É através do relato da experiência vivida por essas mulheres que temos acesso a uma memória que muitas vezes a
história escrita não dá conta de transmitir. O resgate histórico da saída dessas mulheres que ousaram e lutaram e que
possibilitou a formação de nossa profissão torna-se ainda mais apurado quando levamos em consideração toda emoção,
detalhes pessoais e até mesmo confidências que mudam o rumo da compreensão e valores que se tinha até então.
Assim, o relato dessas mulheres nos faz refletir sobre a necessidade de se avaliar a dimensão do processo de
alteridade que viveram e que não pode ser medido simplesmente através de uma história escrita; esses relatos tem variáveis
que devem ser levados em consideração na reconstrução da história de saída dessas mulheres.

A criação da escola foi uma iniciativa da Primeira-Dama do Estado D. Alzira Vargas que criou inúmeras comissões
para atender as várias demandas emergentes no período. Entre estas, estava a criação da Escola de Serviço Social de Niterói.
“Alzirinha” (como era conhecida) parece ser uma pessoa bem próxima (afinal, o poder morava ao lado; bastava atravessar a
baía) e ela mesma recorda com orgulho (em entrevista que possuímos no Núcleo) que foi paraninfa de uma turma de Serviço
Social.
Como já foi falado, a LBA foi criada por causa da guerra. D. Darcy Vargas (mãe de Alzirinha) inicia uma grande
mobilização. D. Darcy também tinha uma presença atuante, ainda que não tanto quanto a filha (Costa, 1995). O principal
objetivo da LBA seria ajudar as famílias não dos pracinhas que foram para guerra e ganhavam em dólares, mas daqueles
foram convocados para guarnecer as fronteiras. E foi nessa época, afirma D. Alzira, “que eu tive a brilhante idéia (rs) de criar
a Escola de Serviço Social”. Podemos nos perguntar: e por quê? Ela mesma nos responde que era altamente importante para
o trabalho. E essa mulher não esquece o modo como as mulheres pioneiras, todas trabalhavam como voluntárias, “subindo e
descendo morros”, tendo como única ajuda o uniforme, “mais nada”. Provavelmente foi dessas experiências, desse dia-a-dia
que nasceu a seguinte reflexão: “aí eu comecei a verificar por elas que com um pouco mais de informação, de instrução, a
assistente social podia resolver sozinha sem apelar para mais ninguém”. Ou seja, era necessário profissionalizar – era
urgente, criar uma profissão e profissionais para trabalhar nela. A LBA assumiu parte dos encargos (como a realização de
obras) para a manutenção da escola, o pessoal era pago pelo Estado.
D. Inayá Moraes (hoje já falecida), uma de nossas entrevistadas, nos fala sobre a contribuição e o “valor” de
Alzirinha: “naquela altura ela já sabia que havia alguma coisa capaz de nos orientar e foi o que ela fez. Eu tenho a impressão
que a escola nasceu tão bem, foi tão bem gerida, ela não teve dificuldade para ser aceita e respeitada”. A escola surge, assim
contando com “o carinho de todo o mundo”.
Trata-se de uma escola criada por mulheres e que foi gerenciada, em grande parte, por mãos femininas. Mulheres
de Niterói, mulheres do interior do Estado que saíam de seus cotidianos e adentravam o mundo público na tentativa, nas
palavras de D. Violeta Campofiorito (uma de suas primeiras alunas e diretora da escola), de “dar uma melhor formação
técnica às Visitadoras Sociais” que já atuavam “com dedicação e certa eficiência”. Nessas saídas, modificaram as suas vidas
e deram uma nova feição à cidade.

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As primeiras professoras da Escola de Serviço Social foram de São Paulo e foram trazidas por intermédio do Luís
Carlos Mancini (secretário de Alzira Vargas). A primeira diretora da escola foi D. Yolanda Maciel, indicada pelo Centro de
Estudos Sociais de São Paulo. A equipe que organizou a Escola de Serviço Social de Niterói era composta ainda pelas
supervisoras Petra Maria Calazans e Heloisa Marcondes Faria. A primeira turma formou professoras e supervisoras de
Serviço Social que contribuíram para a construção e organização do aparato de proteção social no município.
Entre estas, podemos destacar Nilda de Oliveira Ney, Nair de Souza Motta, Arlete Braga, Maria Bittencourt e
Altair de Azevedo. O nome do professor Jamil El Jaick também é lembrado com carinho por todas. Era ele que, caminhava
pela praia com D. Violeta quando tiveram a idéia de falar com o antigo dono do Cassino Icaraí – para que aquele prédio
pudesse ser sede da reitoria de nossa universidade.

O antigo prédio da Rua Tiradentes logo se tornou um espaço aberto onde professores e alunos da escola e de outros
cursos se encontravam em festas, festivais e reuniões. Assim, a vida cultural da cidade de Niterói e o dia-a-dia da Escola de
Serviço Social se entrelaçaram.
Lá, no porão daquela primeira casa (um porão com muitas utilidades, vocês irão ver) foi feito o escritório central
para treinar as alunas. O porão foi um espaço de aprendizado profissional, “aprendia-se ali” com os casos sociais enviados
pela LBA. A cidade, nesse momento, vê aos poucos suas ruas, seus espaços sociais se transformando.
Em 1949 se formam as duas primeiras turmas da ESS (apenas seis meses separam uma da outra). Essas duas turmas
formaram a base do curso e assumiram a coordenação da ESS depois que a equipe de São Paulo retornou.
Em 1951, D. Yolanda Maciel se afasta da escola. Interinamente (no curto período de nove de setembro à três de
novembro) assume D. Altair Azevedo. Em três de novembro deste mesmo ano sai a nomeação de D. Violeta Campofiorito de
Saldanha da Gama (primeiro como interina e depois como efetiva). Depois de D. Violeta, assume a direção da ESS D. Nilda
de Oliveira Ney.
É importante entender a conjuntura de então. A bibliografia era pouca. As idéias circulavam com relativa
dificuldade e havia poucos estudos sobre nossa realidade. Não havia uma regulamentação para o exercício profissional nem
mecanismos associativos. Tudo, na verdade, estava por se fazer.
E elas não demoraram em colocar as mãos na obra. Violeta relembra o modo como a escola abria-se para a
comunidade “passando a ser um centro de convivência, onde estudantes de outras faculdades se reuniam e os principais
movimentos particulares ou do governo, nacionais ou internacionais, eram discutidos em seminários e encontros
comunitários” no interior da ESSN.
Todas, então, faziam traduções destes materiais adquiridos nas viagens e utilizavam como bibliografia das
disciplinas, e partindo destes conhecimentos, começaram a desenvolver produções acadêmicas próprias. A partir daí,
surgiram convites para dar cursos e palestras em vários estados brasileiros e outros países, e as professoras da ESSN – em
conjunto com outras pioneiras das outras escolas – tornaram-se referência em vários aspectos para a categoria dentro e fora
do país, formando uma rede para além de nossas fronteiras.
Lembremos que, neste momento, havia muitos congressos nacionais, internacionais e latino-americanos da
profissão e da categoria. Em 1947 ocorreu o primeiro Congresso Brasileiro de Serviço Social, importante passo para o
intercâmbio de representantes das principais entidades particulares e governamentais. Este foi uma preparação para a
realização do 2º Congresso Pan-Americano de Serviço Social, realizado no Brasil em 1949.
Continuando a narrar as práticas destas mulheres, podemos citar o papel desempenhado por elas nas associações de
classe. Violeta foi Secretária e Vice-presidente do Setor Leste da Associação Brasileira de Escolas de Serviço Social
(ABESS). Já Nilda foi presidente em uma gestão e vice-presidente em outra gestão da Associação Brasileira de Assistentes
Sociais (ABAS). Arlete foi da diretoria do Conselho Federal de Assistentes Sociais (CFAS) – hoje, Conselho Federal de
Serviço Social (CFESS), – o principal órgão da categoria profissional. Inayá foi presidente do Conselho Regional de
Assistentes Sociais (CRAS) – hoje CRESS – e da Associação Profissional de Assistentes Sociais, que se uniu ao CFESS.
A ABESS e a ABAS são duas entidades fundamentais, respectivamente, para regulamentação do ensino e
regulamentação da profissão. A ABESS tinha como objetivo promover um intercâmbio entre as escolas afiliadas e solicitar a
adesão a um padrão mínimo de ensino. A ABAS tem por finalidade a defesa dos interesses da categoria profissional e sua
Seção Regional de São Paulo é responsável pelo estabelecimento do primeiro Código de Ética Profissional dos Assistentes
Sociais em 1947.
Pela atuação nas diversas instâncias da organização profissional, nossas pioneiras se engajaram na luta pela
regulamentação da Escola como de nível superior e pela desvinculação com a LBA, pois deste modo ganharia uma maior
personalidade jurídica. Este movimento necessitava que as pessoas que o encabeçavam tivessem contatos na Câmara e em
outras agências estatais, demonstrando o quanto esta inserção no mundo público deveria permear a vida destas mulheres.
De uma metodologia mais globalizada, onde não havia divisão por especialidades, por influência norte-americana o
Serviço Social na Escola, após a regulamentação do ensino que ocorreu em 1955 passou a ser classificado em cátedras de
Caso, Grupo e Comunidade e os professores nomeados catedráticos. Tal nomeação exigiu um aperfeiçoamento ainda maior
dos profissionais e por estes estudos mais profundos surgiam vários convites de outras instituições para apresentar seus
trabalhos e lecionar em cursos especiais. Outro desafio era criar cursos de aperfeiçoamento após a graduação, como
mestrados e doutorados em nosso país, nossas pioneiras, iam buscá-los em outros países. Nilda, por exemplo, fez mestrado
nos Estados Unidos. Violeta fez curso de especialização na França sobre Educação do Menor – Pediatria Social.

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Mas, voltemos nossa atenção para o momento do surgimento. Para a criação de uma escola é fundamental pensar
nos estágios, no material didático (muito material foi traduzido), na criação de uma metodologia. Não se tem como
aprofundar muito nessa discussão neste momento; o que importa registrar é que o curso/a escola – na verdade, o Serviço
Social enquanto profissão – foi aos poucos construindo uma metodologia própria e as primeiras cátedras foram criadas (como
o Serviço Social de Caso, Grupo e Comunidade). A história da Escola de Serviço Social da UFF se junta a história da
profissão e ao modo como esta foi se regulamentando.
Gostaríamos de lembrar que a Escola de Serviço Social ficou sobre o ofício do Estado até 1955. De 1949 a 1955 ela
é uma Escola sem nível definido. Em 03 de abril de 1956, pelo Decreto Federal n. 38.968 a escola foi reconhecida como
instituição de nível superior e o curso passou de três para quatro anos. Mais lutas e a Lei Federal 3.848 (de 12 de dezembro
de 1960) cria a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UFERJ, hoje UFF). As lutas passaram, então, a ser pela
federalização da ESS – que em 13 de setembro de 1961 (Decreto 3.958) foi incorporada a universidade (junto com
engenharia, filosofia, enfermagem e ciências econômicas).

Depois da casa na Rua Tiradentes, a escola mudou para a Reitoria durante um curto período de tempo. Da reitoria,
ocupamos ainda uma casa na Praça do Rink e de lá viemos para o atual prédio. Em 15 de maio de 1959 foi criado o Diretório
Acadêmico Maria Kiehl (assistente social formada em São Paulo e que atuou no planejamento e organização da escola).
O que, vale destacar, nos chama atenção quando ouvimos os relatos dessas mulheres, é o fato como se articularam
para um intercambio; seja nacionalmente, conhecendo escolas por todo o Brasil, fazendo cursos, indo as Convenções da
ABESS (na época Associação Brasileira de Escolas de Serviço Social); seja internacionalmente, trocando experiências com
países da América Latina, mas também com os Estados Unidos (segunda grande influencia no Serviço Social do Brasil) ou a
França:
Eu entreguei o meu (trabalho de conclusão de curso) e ganhei um prêmio: foi a minha primeira bolsa de estudo. Recebi
como compromisso ir ao Chile, Argentina e ao Uruguai para conhecer as Escolas de Serviço Social de lá e para
pesquisar, desvendar o que se fazia de Serviço Social nesses três países porque eram mais ou menos contemporâneos
da nossa Escola de Serviço Social (...). Eu fui e passei três meses nesses três países e conheci as Escolas, conheci os
campos de estágio, Serviço Social Penitenciário que não existia, não se falava aqui em Niterói. Serviço Social e
Empresas dentro das fábricas, isso não se falava em Niterói (D. Arlete Braga).

Então a formação americana, era muito interessante. Quando eu fui para os Estados Unidos, eu fiquei um mês na
American University, em Washington para desenvolver o meu inglês e melhorar a pronúncia e também aprender, ouvir
conferências sobre a Política de Bem-Estar Social nos Estados Unidos. Eu lembro que quando eu vim de lá, eu vim tão
entusiasmada com as coisas que eu aprendi, que um dia as alunas fizeram, na Escola tinha um piano, elas fizeram uns
versinhos para mim e diziam: Dona Nilda toma “tenência”. Eu não esqueço disso, sabe? Para eu tomar tenência porque
estava no Brasil, porque eu estava entusiasmada, eu tive ótimos professores (D. Nilda Ney).

Além da vida acadêmica em seu sentido mais restrito, havia a preocupação com a ampliação dos horizontes dos
alunos e alunas da escola. Essas preocupações foi que fizeram o curso contratar aulas de português optativas, bem como de
piano e canto. Mas essas professoras estavam presentes também nas discussões sobre o alojamento e alimentação dos
estudantes. A sensibilidade fez com que promovessem propusessem cursos, instituições, projetos altamente significativos.
Não cabe aqui nesse escrito, mas as articulações com outras mulheres, como Emília Ferreiro da Nutrição (também por nós
entrevistadas) ampliava e muito as redes tecidas por essas mulheres.
Em todas essas instituições essas mulheres estiveram presentes. Com relação às instituições, no décimo aniversário
da Escola, foram criadas instituições que pudessem ampliar o aparato social no município. Podemos citar o Conselho de
Obras e Serviços de Assistência ao Menor (COSAM), entidade que estudava, pesquisava e debatia os problemas que
afetavam o “menor” (somos obrigadas, para ser fiel as denominações de então a manter essa terminologia). Violeta foi
presidente e uma das fundadoras, depois Inayá a substituiu na presidência desta obra.
A Cruzada de Recuperação e Assistência ao Cego Fluminense (CRACEF) e a Fundação de Assistência,
Recuperação e Integração Social (FARIS), também foram criadas nesta época de comemoração do primeiro decênio da
Escola. Ambas as instituições tiveram presente na sua coordenação a professora Violeta Campofiorito. D. Nilda tem
importante participação na construção do Serviço Social na área médica, especialmente em dispensários para tuberculoses e
também em vários cursos no interior do Brasil – até mesmo um curso de Serviço Social para homens. Essas mulheres
estiveram presentes, mais tarde, na interiorização com a criação da Escola de Serviço Social de Campos dos Goytacazes
(município do Estado do Rio de Janeiro).
As publicações começaram a surgir: revistas, livros, traduções; enfim, uma bibliografia própria. Assim, foi possível
melhorar a formação dos alunos e um dos veículos que contribuiu para essa melhoria foi justamente a ABESS (Associação
Brasileira de Escolas de Serviço Social) e a ALAESS8 (Associação Latino-Americana de Escolas de Serviço Social).

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Seria interessante repensar hoje essa realidade. Nossa inserção na cidade não é mais a mesma; nossa dimensão e articulação nacional e internacional
declinaram. O Serviço Social Latino-Americano nos é hoje, com raras exceções, um desconhecido. Precisamos reaver esses contatos!

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Enfim, passemos a conhecer algumas dessas nossas entrevistadas9

D. Violeta Campofiorito de Saldanha da Gama


A escola abriu-se para a comunidade passando a ser um centro de convivência, onde estudantes de outras
faculdades se reuniam e os principais movimentos particulares ou do governo, nacionais ou internacionais, eram discutidos
em seminários e encontros comunitários no recinto da Escola de Serviço Social.

Uma imagem inesquecível: D. Violeta, em sua casa, tocando piano para um grupo de professoras e alunas que ali
foram para conhecer um pouco de suas memórias. E que memória! E essa exaltação tem um duplo sentido: que memória ela
tem considerando os anos que já viveu e que memória ela tem considerando o conteúdo de suas lembranças... são muitas
histórias, impossível de revive-las aqui. Nossa intenção, nesse momento, é, na verdade, tentar apresentar um pouco dessas
mulheres e chamar as novas gerações, novos pesquisadores para buscar conhecê-las.
Violeta não nasceu em Niterói. É de Belém do Pará de nascimento, mas é niteroiense, acreditamos, que por opção.
Como as mulheres aqui entrevistadas, também foi professora (pré-escolar, primário e secundário). Foi da terceira turma da
ESS. Ao se formar, com o afastamento de D.Iolanda Maciel, foi designada diretora da escola. Foi diretora de 1951 até 1964.
Ficou na escola, como professora até 1977 – foram trinta e quatro anos na ESS. Importante registrar o modo como a Escola
de Serviço Social estava envolvida com a vida da sociedade de uma forma ampla. A frase que destacamos no início dessa
sessão dá uma idéia do envolvimento dessas mulheres e da escola nas coisas da nossa cidade e de nossa profissão. Este
envolvimento existia de um lado, pela participação das professoras na vida da cidade e por outro, pela rede de campos de
estágio que foram tecendo.
Violeta foi professora de Serviço Social do Menor e Serviço Social de Comunidade. Elaborou apostilas para essas
disciplinas que foram utilizadas em outras escolas. Foi dela (em colaboração com a professora Mercedes Trindade) a
elaboração do “Catálogo de Equipamentos Sociais de Niterói”, em 1985. A necessidade de elaboração desse tipo de catálogo
é algo que nos acompanha profissionalmente10.
O espaço é pouco e queríamos registrar apenas a vontade, o desejo existente nessas mulheres. Ouvindo-as, vemos
como suas saídas transformaram a cidade e a vida das pessoas nesta cidade. O aparato de proteção social do município foi
sendo, lentamente, construído. A presença de D. Violeta pode ser vista na compra do prédio para a reitoria, mas também nas
negociações para o funcionamento do HUAP, na aquisição (junto com a assistente social Maria Cândida Domingues e a
nutricionista Emília Ferreiro – uma das fundadoras da Faculdade de Nutrição) das dependências do antigo SAPS do Barreto –
que passou a ser de propriedade da universidade.
Sua presença se sente em várias cidades, como Bom Jesus do Itabapoana, e Campos. Suas viagens também foram
muitas: pelo Brasil e no exterior, fazendo cursos em França, Argentina ou Estados Unidos. Foi aluna e professora em vários
cursos. Foi homenageada em várias cidades. Sua presença é/foi marcante na cidade de Niterói. Mas queríamos enfatizar o
quanto foi importante para a expansão da escola.

D. Inayá Moraes
Eu acho que naquele tempo havia um contexto social muito bom para o serviço social e acho que a coisa já vem do
nascimento da escola. A coisa quando nasce bem, é bem aceita né? Tinha que dar certo né?

Essas são algumas palavras de D. Inayá quando se recorda da fundação da escola. Provavelmente ela tem total
razão quando diz que naquele momento existia um contexto propício. Mas, temos que enfatizar que esse contexto encontrou
com algumas mulheres dispostas a participarem ativamente da construção desse momento. Quando pensamos em D. Inayá
Moraes a primeira coisa que nos vem a mente é um par de olhos que parecem brilhar além do esperado. Apesar da idade era
ainda muito bonita, arrumada, cabelos impecáveis (e adoravelmente roxos – ou seria lilás?) e um sorriso confortador,
aconchegante. Por trás de uma figura que poderia parecer vulnerável, no entanto, percebe-se a força, a vontade, a presença
que deve ter encantado e “preocupado” a sociedade niteroiense. Inayá Moraes é natural de Niterói. Foi casada com o prefeito
Brandão Júnior. D. Inayá se destaca, entre outras coisas, por sua atuação política. Mulher de prefeito participou ativamente da
vida política da cidade – afinal, era sua “obrigação”. Participou da CRACEF e trabalhou na Ilha das Flores, recebendo os
imigrantes estrangeiros – “eu nem lembro mais são tantos imigrantes, tão queridos, tão amados”. Foi presença incansável na
criação do que hoje poderíamos chamar dos Conselhos de Direito (como o COSAM). A semente dessa participação começou
a ser plantada nesse momento. Os “pequenos jornaleiros” são também uma criação sua em parceria com o Jornal do Brasil.
Ouvindo-a vemos no quanto é preciso relativisar o peso (que realmente existe até hoje) da religião no Serviço
Social. Essa mulher não teve dúvidas em nos afirmar que “religião não tem nada a ver com trabalho social. O que tem a ver
com trabalho social é o respeito a pessoa humana e isso não é religião”. Talvez em nossa linguagem, hoje, essa preocupação

9
As entrevistas foram, em sua maior parte filmadas, hoje se encontram em formato de DVD e foram transcritas o que pode possibilitar o acesso a outros
pesquisadores.
10
E que nos remete para a toda discussão desenvolvida hoje em torno das chamadas redes sociais.

8
pudesse ser falada em termos de sujeitos históricos e cidadania. O que importa para o Serviço Social é o sujeito de direitos e
não um ideal abstrato – mas o ser humano.
Além de ser assistente social, ser “mulher do prefeito” (“que tem tudo na mão”; “tá na mão dela”) tornou-se, em
sua vida, uma questão crucial. A responsabilidade pelo social, pelo outro a acompanha em todas as dimensões. Torna-se uma
obrigação, mas eu me permito dizer que também é um prazer... Inayá faleceu no ano passado. Seus últimos dias passou na
cidade de Rio das Ostras – onde até já tem uma sala com seu nome, pois continuou fazendo história. E, para concluir,
deixamos alguns versos. Autoria? Da própria, pois além de tudo, ela é poeta!
Termino assim os meus versos
Pedindo desculpas à alguém
O que eu quis na verdade
Nem de longe alcancei.

Mas não deixou de tentar!

D. Arlete Braga
O grupo, vocês observem, foi uma mania da minha vida.

Falar em D. Arlete Braga é falar do Serviço Social de Grupo. Estar em grupo, organizar grupos foi sempre uma
prática comum nessa católica fervorosa (“eu tenho impressão que no decorrer da conversa vocês vão sentir que a vida de
grupo foi uma semente na minha vida desde a minha infância”). Realmente, não é difícil imaginar porque alguns alunos a
chamavam de “Grupolina”. A necessidade de trabalhar/viver em grupo pode ser percebido desde quando se organizou em
grupo para o pagamento de um quadro de formatura, ou na organização do Grupo Mocidade. Além do grupo, também desde
criança, segundo ela, havia a vocação para ser professora. Quando criança ensinava as bonecas, depois, ensinou filhos de
amigos, em aulas particulares. Atuou profissionalmente como professora e, por fim, chegou ao Serviço Social.
Trabalhando em Rodeio, ouviu falar que o governador do estado convocava professoras do interior para participar
de um curso que estava sendo programado aqui na cidade de Niterói: “nós iríamos fazer o curso e voltaríamos se quiséssemos
se não quiséssemos entraríamos numa nova profissão”. D. Arlete ficou e aceitou o desafio de uma nova profissão, onde
seriam abertos novos campos de trabalho e uma oportunidade para professores que trabalhavam no interior, mas que tivessem
vontade de mudar, era a oportunidade da mudança e de voltar para Niterói.
E ela começou o curso e, disciplinada, terminou seu TCC antes que as outras alunas tivessem iniciado o seu.
Ganhou, então, como prêmio, sua primeira bolsa de estudo. Foi ao Chile, Argentina e ao Uruguai para conhecer as Escolas de
Serviço Social e pesquisar, “desvendar o que se fazia de Serviço Social nesses três países”. (Mercosul?) Depois de sua volta,
defende o TCC e volta a ser professora:
“Quase todas nós tínhamos experiência técnico-administrativa de escola, tínhamos conhecimento de trabalhos sociais
de comunidade porque professora do interior era como, vamos dizer assim, uma sementinha do assistente social”.

Hoje, podemos analisar que as sementes do Serviço Social estavam sendo lançadas nesse momento. O fato é que a
Escola de Serviço Social alcançou repercussão nacional e mesmo internacional, no Serviço Social Latino-Americano – uma
dimensão, uma articulação que o Serviço Social brasileiro como um todo perdeu nesses últimos anos.
D. Arlete Braga trabalhou em inúmeras Escolas de Serviço Social no Brasil, ministrando cursos. Destaca-se em sua
vida as viagens. México, Uruguai, Venezuela (onde perdeu os óculos, lembra? E todos ajudaram a procurar – gerando, assim,
um “movimento internacional de procura aos óculos”).
Teve a experiência, rara ainda hoje, de dar um curso de Serviço Social para homens, em São Paulo e um curso
noturno, hoje bem comum. Na Escola de Enfermagem da UFF, havia uma disciplina de Serviço Social e dessa disciplina, ela
foi fundadora e a lecionou enquanto existiu no currículo.
Foi fundadora da Escola de Serviço Social de Campos – talvez a primeira interiorização da UFF que deu certo (e
uma das poucas). Para essa interiorização, Arlete ressalta o fato de ter feito um movimento comunitário para aceitação da
Escola, e a colaboração que teve das professoras de lá (como Heloísa Monteiro e Conceição Maria Costa Muniz).
Sabemos que lembra com orgulho o fato de ter sido a fundadora da cátedra de Serviço Social de Grupo, no Estado
do Rio e do Brasil. Fez parte da primeira diretoria do Conselho Federal de Assistentes Sociais – antigo CFAS e participou de
duas diretorias do CRAS.
Mas momentos que a “tocam” muito de perto é também recordar quando foi paraninfa pela primeira vez (o título de
seu discurso foi “O Serviço Social na atualidade fluminense”). Gosta de recordar das alunas que, hoje são amigas e
continuam fazendo parte de seu ciclo de amizade. Arlete Braga se aposentou em 1967 e foi fazer o curso de Serviço Social
em Montevidéu. Enfim, a semente foi lançada e germinou:
“A minha vida de trabalho, a minha vida de professora foi uma vida que eu trabalhei, que eu escrevi, que eu participei
foi uma vida plena que eu ganhei tudo que eu ganhei com muita dedicação, muito prazer”.

9
D. Nilda Ney
Eu encontro com assistentes sociais que foram minhas alunas e eu digo: a Escola era muito boa.

D. Violeta ficou na direção da Escola até 1966. Neste ano, em doze de abril sai a nomeação de D. Nilda de Oliveira
Ney, que segundo a própria, era a reencarnação da avó Ana, uma “generala”, uma lutadora. Gosto muito dessas suas palavras:
“eu nunca deixo as lutas no meio do caminho, eu tenho que lutar, porque se eu não lutar, eu vou me sentir infeliz para o resto
da minha vida. Posso perder, mas perco lutando”.
D. Nilda de Oliveira Ney nasceu em Santo Antonio de Pádua. Também foi professora indo trabalhar em Paraíso
Tobias, localidade pertencente a Miracema. Desde esses tempos, “já era líder”. Organizou cursos para as pessoas das
camadas mais pobres, ensinava ginástica, até natação (“tinha um rio, tinha feito uma pedreira assim e eu ia ensinar os alunos
a nadar e minha mãe ficava sentada com um bambu e uma corda, era a salva-vidas”).
Foi em Aperibé, outra localidade, que ouviu pelo rádio a notícia do curso de Serviço Social. Veio para Niterói e
conseguiu vaga no curso. Corajosa, enfrentou os próprios medos e organizou, a pedido de D. Iolanda o Serviço Social no
dispensário de tuberculose. Enfrentou os medos, quando pela primeira vez foi falar em público (coisa que mete medo a
muitas alunas até hoje) e teve que falar sentada (“porque as pernas não me seguram”). Mas apesar disso, “eu não tinha medo
não, minha filha, eu falava de qualquer jeito, nem que seja sentada”.
Buscou estágios, organizou cursos no Brasil. Foi catedrática do Serviço Social de Caso. A escola foi chamada para
iniciar o Serviço Social na Petrobras; “olha a projeção da Escola, porque era a Escola, não era a Nilda não”. Participou da
ABAS (sendo vice-presidente e depois presidente) e da ABESS. Uma marca característica dessas mulheres é a articulação
que possuíam e que se estendia a todos os espaços onde a profissão podia alcançar; por isso dissemos em nosso projeto que
dentro do possível elas realizaram o impossível. A regulamentação da nossa profissão é fruto dessa movimentação.
As viagens também se fazem presentes em sua vida. Argentina, Chile, e também os Estados Unidos (que ganha
projeção na profissão). D. Nilda vai várias vezes a esse país fazer cursos; cursos que modificaram suas visões não apenas
profissionalmente, mas foram verdadeiras “lições de vida” – não se sai impunemente de tantas saídas, tantas viagens: “foi
uma coisa de Deus, sabe? Eu vim de lá completamente diferente”.
Aprendeu, mas me atrevo a dizer que também ensinou. Afinal, não levava desaforo para casa. Uma vez
conversavam sobre a “família americana” e relataram estatísticas sobre o padrão de vida dos países da América Latina:
“Aquilo foi me enchendo, foi me enchendo e eu disse: esses americanos vão ter que me ouvir! Aí eu pedi licença (...)
eu disse a eles que o Brasil estava se desenvolvendo e eu acreditava nos jovens (...) e que um dia o Brasil ia ter um
padrão de vida bom e que ia prolongar a vida, mas por outro lado, pelo o que eu tinha observado nas minhas visitas às
obras sociais, eu preferia morrer cedo no Brasil do que ficar velha nos Estados Unidos, porque a organização familiar
no Brasil não era nuclear, era familiar”.

D. Nilda Ney morreu em 2004. Mas não é com sua morte que queremos encerrar essa texto. É do início de seu
mandado como diretora que surge nossa última lembrança neste escrito – que já se alongou demais. D. Nilda Ney dirigiu a
escola no período da ditadura, período que a Escola de Serviço Social era muito “visitada” pelo DOPS. Em pleno regime
militar, esta mulher assume a direção da escola que, mantendo uma inserção intensa na vida cultural e política do município,
era tida, naquele momento como o “Moscouzinho de Niterói”. O porão, agora, abrigava o Diretório Acadêmico.
A escola chegava a ser cercada pela polícia, consta que um carro do Correio da Manhã ficava na porta esperando
fotografar o momento em que a diretora seria presa. Uma faixa preta enfeitou a fachada da escola como forma de repúdio e
resistência ao Golpe de 64 (contudo, a faixa que ela mais gostava era uma outra que fora posta nos jardins da escola pedindo
que ela ficasse em – raro – momento em que chegou a pensar em sair da ESS).
Esses fatos, é importante enfatizar, não aponta para uma D. Nilda “revolucionária”; aponta, isso sim para uma
profissional séria que se sentia responsável pelas suas “meninas”: “elas eram levadíssimas”. No DA do Serviço Social se
reuniam estudantes de vários cursos. Uma personagem contraditória. Protetora? Talvez sim. Jamais entregaria a ficha de um
professor (“porque eu achava um absurdo querer inventar alguma coisa contra professora. Vê se eu ia entregar ficha de
professor e ficha de aluno? Morria, mas não entregava”). Por isso, ela protegia, mas sabia ser ditadora: “eu era ditadora, fazia
a portaria, chapa tinha que passar por mim, jornalzinho, tinha que passar”.

Considerações Finais
Podemos perceber o quanto estas mulheres adentraram diversos espaços na busca pela ampliação do aparato social
da cidade e pela regulamentação do ensino e da profissão em âmbito nacional. Esperamos que com este trabalho
demonstremos o quanto foi complexo este processo e que elas não encontraram tudo pronto, mas tiveram o trabalho de
construir para que nós pudéssemos hoje desfrutar de uma categoria profissional com muitas deficiências, mas devidamente
regulamentada.
Um outro aspecto importante de destacar diz respeito ao entendimento da história do Serviço Social enquanto
elemento fundamental para se pensar a história das mulheres e a micro-história. Ainda acreditamos que o trabalho – enquanto
elemento que faz e refaz os indivíduos – é extremamente central para pensarmos a emancipação das mulheres.

10
A trajetória de construção do Serviço Social na Universidade Federal Fluminense acontece, portanto, a partir de
muitas realizações no campo da assistência, sobretudo na área da educação em Niterói e na LBA. Deve-se considerar também
a importância das contribuições de outras escolas e do empenho dessas pioneiras para que o Serviço Social se tornasse uma
profissão.
A partir desses meios iniciais e das lutas dessas e de outras mulheres para o reconhecimento do ensino, se inicia
uma reforma não só na universidade, mas em todo o campo de trabalho para as mulheres. Todo esse processo traduz a
ousadia e a vitória dessas mulheres que desafiaram o conservadorismo de sua época e transformaram a universidade num
espaço onde a mulher conquista a sua independência a partir de sua profissão. Como afirma D. Nilda, para a “defesa” da
mulher é fundamental a cultura, a instrução e a independência econômica: “no dia em que a mulher tiver independência
econômica, ela é dona de si mesma”.

Como enfatiza Bosi, não podemos perder de vista a dimensão social da memória11. Esta não deve ser encarada
enquanto uma atividade meramente individual, ainda que a memória venha à tona a partir de um indivíduo. A construção
social da memória é um fenômeno central para nossos estudos. Ela nos remete à sociedade, aos grupos, aqueles que fizeram
parte de nossas vidas e que ainda hoje lhes dão significado. Ao priorizarmos a memória de mulheres da universidade
destacamos também as memórias do trabalho, elemento constitutivo de nossas vidas. Narrar, falar contar: essas são
socialmente práticas mais próximas ao universo feminino, sempre pronto a montar, tecer, uma conta de retalhos que nos
aproxima das redes e das relações que “fiaram” em suas vidas.
Michael Pollak (1989) enfatiza o fato de que as histórias de vida podem ser consideradas como um instrumento de
reconstrução da identidade, posto que funcionam ordenando acontecimentos que balizaram uma existência. Assim, Pollak
parece não se importar tanto com o fato de tentarmos ordenar coerentemente o passado, dando-lhe uma ordenação lógica e
cronológica a posteriori; ao contrário, segundo este autor, é através desse trabalho (onde se reconstrói a si mesmo) que o
indivíduo define o seu lugar social e suas relações com os outros. A tentativa das pessoas de “ordenar” a história não é em si
nem boa nem má; é um fenômeno social que temos de enfrentar metodologicamente. Ao trabalharmos com os depoimentos
orais, temos que ter claro que não buscamos a “verdade”. Efetivamente tais relatos estão relacionados ao momento e às
visões do tempo presente, à história de seus depoentes, ao modo como estes se voltam sobre suas lembranças, bem como
sobre a dimensão política do que querem que seja lembrado; mas é nisso que está concentrada sua riqueza. Se for verdade
que os entrevistados buscam desenvolver uma lógica linear e racional (que é dada a posteriori) em seus relatos, é verdade
também que esta é logo “perturbada” pelas suas próprias reflexões, pelos intrincados caminhos da memória. Ao trabalhar
com essas mulheres temos claro que o que mais nos importava não era um relato objetivo e jornalístico do fato, mas
exatamente as coisas que elas lembram e o modo como lembram. E o fato de terem achado quem se dispusesse a ouvi-las.
Os fios de nossos pensamentos, de nossas falas vão se entrelaçando e a colcha de pensamentos resulta colorida,
diversa. Tecer, correr os fios da vida; tecer histórias; coisa de mulher. Nada muito racional, mas prático, amistoso, rico de
entrega e abandono (lembro das "conversas de mulheres", nas varandas, de que nos fala Gilberto Freyre!). Hoje, já não
contamos histórias. Hoje, ouvimos músicas, lemos livros e mostramos fotos (fatos?) e filmes. Isso nos redime da angústia de
ter que falar, de refletir. Contudo, há um pouco de nós em tudo que contamos. Benjamim afirma que existe uma relação
artesanal entre o narrador e a sua matéria, a vida humana. Pois afinal como afirma o poeta: “o pensamento parece coisa à toa,
mas como é que a gente voa, quando começa a pensar”.

Concluindo, a partir de nossa primeira pesquisa vimos surgir novos elos que compõem uma corrente (ou usando um
termo mais atual, uma rede12) envolvendo várias mulheres, fora do Serviço Social e mesmo do mundo acadêmico que
despertaram nosso interesse em dar continuidade a esses estudos13. Vários nomes substituem essas pioneiras. Situamos aqui
um começo. Contudo, homens e mulheres passaram pela direção da Escola de Serviço Social de Niterói. A vida dessas
pessoas construiu essa escola. A memória da ESS pode ser recolhida em várias passagens onde o público e o privado se
entrelaça. A história da escola é parte integrante da vida dessas mulheres e também da cidade de Niterói.
Concluindo, percebe-se a força que essas mulheres tiveram. Percebe-se também o amor que dedicavam/dedicam a
essa escola. Foi uma escola importante em suas vidas. Eu me pergunto se nós seremos capazes de construir uma Escola de
Serviço Social tão boa. O que estamos fazendo para isso?
Não posso deixar de concluir utilizando outra frase de Nilda Ney:
Desde que a mulher foi trabalhar ela ficou independente, porque o que dá independência à mulher não é o casamento, é
a profissão e independência econômica e a cultura.

Como feministas, não podemos deixar de concordar.

11
Cf. Halbwachs,1990.
12
Nos estudos sobre mulheres é interessante atentar para como se não o conceito, ao menos a realidade das redes se faz presente. Exemplo nesse sentido pode
ser visto em Ferreira (1996) ou Freitas (2000).
13
Analisar a participação das mulheres na constituição da universidade federal fluminense é tema de nosso projeto atual.

11
BIBLIOGRAFIA
ALBERTI, Verena. Para onde vai a fita? Dilemas na conservação de fontes orais, História Oral: um espaço plural (org.:
MONTENEGRO, Antonio Torres e FERNANDES, Tânia Maria), Recife: universitária; UFPE, 2001.
BENJAMIM, Walter. Obras Escolhidas I: Magia e técnica, arte e política, 7ª ed., São Paulo: Brasiliense, 1996.
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BOURDIEU, Pierre. “Compreender”. A miséria do mundo, Petrópolis: Vozes, 1998.
COSTA, Suely Gomes. Signos em transformação: a dialética de uma cultura profissional, São Paulo: Cortez, 1995.
FERREIRA, Elizabeth Fernandes Xavier. Mulheres, militância e memória, Rio de Janeiro: Ed. FGV, 1996.
FIQUEIREDO, M. B. “Democratização da Educação Superior (1945-1968) – transformações exemplificadas pela trajetória
da Escola de Serviço Social/Niterói da Universidade Federal Fluminense”. Monografia de Final de Curso de Pós-Graduação
em História do Brasil pós-30 (ICHF-UFF), 2007.
FREITAS, Rita de Cássia Santos e BRAGA, Cenira Duarte. Projeto Niterói - Cidade das Mulheres, Universidade Federal
Fluminense, Niterói, 2005
FREITAS, Rita de Cássia Santos. “Do Canto da Cigarra ao Trabalho da Formiga – a formação do ‘ethos’ do trabalho no
Rio de Janeiro dos anos 30”. Dissertação de Mestrado apresentado ao Programa de Serviço Social/UFRJ, março de 1994.
GÓIS, João Bôsco Hora. “Reprodução da hierarquia entre os gêneros e a preocupação com as condições de vida das mulheres
– a condição feminina no discurso do serviço social (1939-1950), Revista Gênero, vol. 1, n. 2, Niterói: EdUFF, 2001.
GOMES, Leila Maria Alonso. Proteção social no Estado do Rio de Janeiro – 1945-1964: o significado histórico da Escola
de Serviço Social da UFF, Niterói: EdUFF, 1997.
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MARTINS, Ismênia de Lima & KNAUSS, Paulo (org.). “Introdução”, Cidade múltipla: temas de história de Niterói, Niterói:
Niterói Livros; 1997.
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Afrontamento; São Paulo: Ebradil, 1999.
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Tribunais, 1989.
RAGO, Margareth. Entre a história e a liberdade: Luce Fabri e o anarquismo contemporâneo, São Paulo: Ed. UNESP, 2001.
THOMPSON, Paul. A voz do passado: história oral, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

Questionar a Nova Gestão Pública e o Género: Uma reflexão a partir da


academia portuguesa
Teresa Carvalho
CIPES - Universidade de Aveiro
teresa.carvalho@ua.pt

Rui Santiago
CIPES - Universidade de Aveiro
rui.santiago@ua.pt

Resumo: Apesar do aumento substancial da participação profissional das mulheres no ensino superior e na ciência em Portugal, a
reprodução das desigualdades de género na carreira continua a apresentar-se como uma constante histórica. Ultimamente, a intrusão do
mercado e da Nova Gestão Pública (NGP) no ensino superior tem sido objecto de alguma reflexão teórica e empírica sobre o seu potencial
efeito nas estruturas e processos das instituições de ensino superior (IES). No entanto esta reflexão é, ainda, muito escassa no âmbito da
configuração de género da carreira académica. Neste contexto, para além da caracterização empírica da presença actual das mulheres na
carreira académica e da análise dos termos e das condições do emprego académico, o objectivo geral deste estudo comporta, igualmente, a
formulação de um conjunto de hipóteses interpretativas sobre os potenciais efeitos dos pressupostos e práticas de mercado e da NGP na
constituição de género da carreira académica em Portugal. Os dados empíricos utilizados no estudo provêm das listas de docentes, por
instituição, divulgadas pelo Observatório da Ciência e do Ensino Superior (OCES/MCTES) para o ano de 2005. A análise destes dados
permite extrair algumas conclusões pertinentes do estudo: as IES portuguesas reproduzem as mesmas desigualdades de género na carreira
observadas em outros contextos internacionais; a carreira universitária e a carreira politécnica produzem fenómenos semelhantes de
segregação horizontal e vertical; as regras e procedimentos locais de recrutamento e selecção parecem começar a constituir-se como uma
importante componente na análise da presença das mulheres na carreira académica.

Introdução
O aumento da participação profissional das mulheres no ensino superior e na ciência, visível após a segunda metade
do século XX, não se tem traduzido em alterações estruturalmente substanciais na configuração de género da carreira
académica. A sub-representação das mulheres neste campo parece manter uma persistente e estranha tendência para se
reproduzir no tempo e no espaço, como é amplamente demonstrado em vários relatórios internacionais e estudos nacionais

12
(Rees, 2001; Kloot, 2004; Fiona, 2005; Stomquist, Gil-Antón, Balbachevsky, Mabokela, Smolentseva e Colatrella, 2007;
Amâncio, 2005; Harman, 2003; Bagilhole, 2000; Krais, 2002; Sauderson, 2002; Benshop e Brouns, 2003; Coates,
Goedegebuure, Van Der Lee e Mekk, 2008; Postiglione e Tang, 2008; Daizen e Yamamori, 2008; Finkelstein e Cummings,
2008; Locke, 2008). As crenças na ‘teoria pipeline’ – mais participação numérica das mulheres seria sinónimo de mais
oportunidades de igualdade na divisão social do trabalho académico - não encontra eco na realidade (Webster, 2001). As
mulheres continuam a ser travadas no ‘pipeline’ pelo ‘tecto de vidro’ (Rothausen-Vange, Muller e Wrigth, 2005).
Recentemente, vários estudos (Benschop e Brouns, 2003; Knigths e Richards, 2003; Krefting, 2003) introduziram
uma nova dimensão que constitui uma via promissora no aprofundamento da análise da estrutura de género da carreira
académica: o impacto nas desigualdades de género advindo da intrusão crescente, desde os anos 1980, do mercado e da Nova
Gestão Pública (NGP) no sistema e nas instituições de ensino superior. A questão geral que atravessa estes estudos pode ser
formulada da seguinte forma: a pressão para o aumento da produtividade (principalmente científica) dos académicos, a
avaliação da ‘qualidade’ do ensino e da investigação e os incentivos à competição institucional, assim como a vinculação
crescente do ensino superior à economia, surgem como factores susceptíveis de interferir negativamente no desenvolvimento
da carreira das mulheres académicas?
A procura de elementos de resposta para esta questão não constitui, neste estudo, a matriz principal da
caracterização empírica que se procura empreender sobre a presença das mulheres na carreira académica em Portugal. Porém,
a análise dos termos e condições do emprego académico que esta caracterização suscita não pode deixar de se cruzar,
frequentemente, com os novos contextos institucionais que configuram o sistema de ensino superior, fortemente marcados
pelos pressupostos e práticas de mercado e da Nova Gestão Pública. Este cruzamento constitui uma oportunidade para
formular um conjunto de hipóteses interpretativas sobre a persistência actual, no ensino superior português, de um conjunto
de mecanismos de reprodução da desigualdade de género na carreira académica.
Nesta perspectiva, é inicialmente percorrida a literatura sobre as principais incidências das questões de género na
carreira académica, explorando-se, igualmente, a relação destas com a nova gestão pública. Num segundo momento, são
analisados os dados oficiais disponíveis (ano, 2005) sobre o emprego académico no ensino superior português. Procura-se,
com esta análise, a realização de um duplo objectivo: detectar a composição de género da estrutura da carreira das
instituições de ensino superior portuguesas; proceder a um esforço de conceptualização a propósito do potencial efeito da
NGP sobre os termos e condições do emprego académico das mulheres. Finalmente, apresentamos algumas pistas futuras de
investigação, assumindo que as particularidades do caso português - forte participação das mulheres na academia - é
exemplarmente ilustrativa para a compreensão da reprodução, ainda que parcial, das desigualdades de género no ensino
superior.

As mulheres no ensino superior


Nos países ocidentais, durante o século XIX, e grande parte da primeira metade do século XX, as mulheres foram
praticamente excluídas das universidades e da ciência. A partir da segunda metade do século XX este panorama foi-se
alterando com a eliminação de algumas barreiras à integração e participação das mulheres no ES e na ciência. Em parte, esta
alteração decorreu da própria expansão e massificação dos sistemas, após a segunda guerra mundial, tornada possível pela
confluência de vários fenómenos que emergiram, principalmente, no contexto de expansão do estado-providência: as
necessidades do capitalismo industrial de uma mais numerosa e qualificada força de trabalho; o desenvolvimento do
conhecimento científico e tecnológico; o aumento das expectativas e das revindicações sociais sobre a educação; a
democratização do ensino não-superior; a acção, nos anos sessenta do movimento feminista e a luta pela igualdade de género.
Tomando este último fenómeno, é possível constatar que, desde o início dos anos setenta, ao mesmo tempo que ia
emergindo uma forte crítica feminista das desigualdades de género na sociedade e nas organizações, algumas mulheres
académicas documentaram diversas experiências de marginalização e de subordinação a que foram submetidas no interior
das instituições (Acker, 1994; Currie, Harries and Thiele, 2000). Os valores da masculinidade mantinham-se como uma
referência dominante na produção da ciência e no ensino superior (Asmar, 1999; Poole et al, 1997; Ruth, 2005; Rothausen-
Venge et al, 2005), sendo, a este nível, exemplar a dificuldade em institucionalizar, no campo das ciências sociais e na
academia, as áreas de ensino e de investigação sobre as mulheres.
Mais recentemente, um aumento substancial da participação das mulheres no ensino superior tem surgido como um
fenómeno referenciado em todos os sistemas dos países desenvolvidos (Sagaria e Adams, 2005; Webster, 2001; Sauderson,
2002; Smeby e Try, 2005). Contudo, paradoxalmente, uma forte reprodução das desigualdades subsiste como ‘norma’, em
particular na configuração de género das áreas de ensino/investigação e no topo da carreira académica e das estruturas
institucionais de poder. Padrões de diferença, baseados no género, continuam a reproduzir-se na forma como os papéis são
desempenhados no interior das instituições. As insuficiências da metáfora ‘pipeline’ (Webster, 2001) – a presença de um
maior número de mulheres na ciência e no ensino superior acabará por suplantar os obstáculos que se erguem à sua
representatividade no topo da carreira e nos domínios chave de decisão – mantêm, assim, à superfície a necessidade de
continuar a explorar, mais profundamente, a metáfora do ‘tecto de vidro’. As mulheres aumentaram a sua participação no
ensino superior, mas, de facto, a constatação da existência de discriminações e desigualdades de género nas universidades e
nas organizações de ciência e tecnologia (Kloot, 2004; Fiona, 2005; Stomquist, Gil-Antón, Balbachevsky, Mabokela,

13
Smolentseva e Colatrella, 2007; Amâncio, 2005; Harman, 2003; Bagilhole, 2000; Krais, 2002; Benshop e Brouns, 2003)
mostra que o fenómeno do ‘tecto de vidro’ (Rothausen-Venge et al, 2005) continua a ser uma realidade.
As discriminações e as desigualdades de género na estrutura da carreira académica poderão, em grande medida,
estar conectadas com uma menor ‘produtividade’ científica das mulheres (Asmar, 1999; Harley, 2003; Lafferty e Flemimg,
2000; Nakaie, 2002; Ruth, 2005; Smeby e Try, 2005), aferida em consonância com os padrões (masculinos) actualmente
dominantes nas instituições. A interpretação deste fenómeno é multidimensional, desdobrando-se desde dimensões
‘externas’, ligadas às dificuldades das mulheres em conciliar os papéis no domínio privado ou doméstico com os papéis
científicos – o estatuto marital e parental (Kyvik e Teigen, 1996; O’Laughlin e Bischoff, 2005; Rothausen-Vengen et al,
2005), em particular as pausas da maternidade (Harley, 2003), e os cuidados dos filhos (Kyvik e Teigen, 1996) – até
dimensões ‘internas’, que enfatizam as posições estruturais ocupadas pelas mulheres académicas no campo institucional.
Em relação às primeiras, subsistem algumas dúvidas sobre a sua interferência na actividade científica das mulheres.
Alguns estudos sublinham que as variáveis ligadas à família contribuem pouco, ou mesmo nada, para a predição da
produtividade científica das mulheres académicas (Perna, 2005; Sex et al, 2002; Toren, 1993). Todavia, as dúvidas parecem
ser menores quanto à interferência das segundas nesta produtividade. As mulheres académicas são mais envolvidas, e durante
mais tempo, nas actividades de ensino e na manutenção, na ‘periferia’ organizacional, das infra-estruturas pedagógicas e
administrativas (Olsen, Maple e Stage, 1995; Poole et al, 1997; Sax et al, 2002; Dêem, 2003; Morley, 2005) e este
envolvimento pode constituir um obstáculo ao aumento da sua produtividade científica e, consequentemente, à sua
progressão na carreira académica (Conley, 2005; Perna, 2005; Webster, 2001; Toren, 1993).
Em paralelo, a orientação dominante das universidades e/ou das unidades orgânicas para o ensino ou a investigação
(Harley, 2003) e a representação de género nas várias áreas disciplinares (Ciências ‘Exactas’ ou Naturais, Saúde,
Tecnologias, Engenharia, Humanidades, Artes e Ciências Sociais) constituem, ainda, outras dimensões institucionais que,
articuladamente, podem interferir na posição das mulheres académicas no campo institucional. Mais ‘acantonadas’ nas artes,
humanidades e ciências sociais, onde as tradições do trabalho individual são mais fortes (Asmar, 1999), é provável que este
‘acantonamento’ dificulte o acesso das mulheres a redes, a trabalho colaborativo e a financiamentos para a investigação
(Laffertty e Fleming, 2000), o que constitui uma forte desvantagem no avanço na carreira baseado na noção de produtividade
científica contínua (Harley, 2003).
Um novo tópico foi, entretanto, trazido para a discussão das questões de género na academia: a intrusão do mercado
e da Nova Gestão Pública – ou do managerialismo/novo managerialismo (Deem, 1998, 2003; Reed, 2002;) - na condução do
ensino superior (Meek, 2003; Santiago e Carvalho, 2004; Olssen e Peters, 2005) a qual, de acordo com diversos autores
(Amâncio, 2005; Berg, Barry and Chandler, 2004; Clarke e Newman, 1997; Deem, 1998; Carvalho e Santiago, 2008), pode
ser ainda mais desfavorável à participação das mulheres na carreira académica e nas estruturas institucionais de poder. Por
um lado, o percurso profissional das mulheres parece ser mais sensível aos ambientes e práticas institucionais de competição,
eficiência, eficácia, accountability e de avaliação da qualidade (Sagaria e Agans, 2006; Blackmore, 2002). Por outro lado, os
princípios do racionalismo, individualismo e flexibilidade, nos quais, crescentemente, as IES têm apoiado a ‘gestão’ dos
profissionais, também parecem colocar mais dificuldades às mulheres, sobretudo ao nível do recrutamento quando este se
processa pela via informal (Brouns, 2000; Benschop e Brouns, 2003; Rees, 2001; Bagilhole, 2007). Mas, mesmo depois de
um recrutamento com sucesso, as diferenças de género podem persistir nas condições de trabalho e de emprego, sendo
atribuídos às mulheres mais contratos a termo fixo, em comparação com os seus pares homens. A este propósito, Sauderson
(2002) refere-se à existência de uma ‘segregação contratual’ no ensino superior, a adicionar à segregação horizontal e
vertical.
A investigação desenvolvida sobre a intrusão do mercado e da NGP no ensino superior português tem enfatizado as
mudanças nas finalidades e objectivos do sistema e no governo das instituições (Santiago e Cravalho, 2004; Amaral e tal,
2003; Santiago, Magalhães e Carvalho, 2005), na ‘gestão académica’ intermédia (Santiago, Carvalho, Amaral e Meek, 2006)
e nos termos e condições do trabalho académico (Santiago e Cravalho, 2008). Parece-nos importante, agora, também iniciar
uma reflexão mais profunda sobre as possíveis consequências das mudanças ocorridas no sistema de ensino superior sobre a
carreira académica das mulheres. A análise dos dados oficiais existentes sobre a estrutura da carreira académica em Portugal
constitui um suporte pertinente para construir um certo número de hipóteses conceptuais sobre as desigualdades de género no
acesso, nos termos e nas condições actuais do trabalho académico.
As características dos dados empíricos usados neste estudo não permitem retirar conclusões seguras quanto à
influência da NGP no desenvolvimento da carreira das mulheres no ensino superior português (por razões explicitadas mais
adiante). Contudo, as indicações gerais que fornecem sobre a composição de género da estrutura da carreira académica abrem
as portas à inferência para sustentar uma melhor compreensão da persistência das desigualdades. A hipótese de que a NGP
produz implicações de género na selecção, recrutamento, condições de trabalho e emprego académico constitui um percurso
conceptual relevante nesse esforço de inferência.

Metodologia
As análises desenvolvidas na componente empírica deste estudo baseiam-se nos registos oficiais – listas de
professores por instituição - do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior/Gabinete de Planeamento, Estratégia,
Avaliação e Relações Internacionais (GPEARI). A informação qualitativa contida nestas listas foi codificada de acordo com

14
variáveis de género, subsistema, qualificação académica, posição dos professores na estrutura hierárquica da carreira e
regime de contratação, sendo os resultados desta codificação transferidos para a base de dados SPSS. Apenas foram
analisados os dados referentes aos académicos vinculados às instituições de ensino superior públicas (com exclusão das
academias militares) no ano de 2005.
A estrutura binária do ensino superior português projecta-se na carreira académica em dois percursos diferenciados
– universitário (Dec. Lei 448/79) e politécnico (Dec. Lei 185/81) - estruturados segundo uma hierarquia alongada –
Assistente Estagiário, Assistente, Professor Auxiliar, Professor Associado (incluindo a Agregação) e Professor Catedrático,
no caso das universidades; Assistente do 1º e 2º Triénios, Professor Adjunto, Professor Coordenador e Professor Coordenador
com Agregação, no caso dos politécnicos.
Para além do recrutamento por concurso público, os profissionais podem, igualmente, ser contratados a termo fixo
para posições correspondentes às formalmente previstas nos respectivos estatutos da carreira. A renovação dos contratos
destes professores ‘convidados’ (universidade) ou professores ‘equiparados’ (politécnico) pode ser decidida anualmente ou
por períodos de três (politécnico e universidades) ou cinco anos (universidades), após parecer dos respectivos conselhos
científicos das instituições ou das suas unidades (faculdades, escolas e/ou departamentos).
Para os propósitos do nosso estudo, categorizamos este último conjunto de posições com a expressão ‘estrutura de
carreira paralela/escondida’, na qual, em muitos casos, os académicos podem ser mantidos durante largos períodos de tempo
até à sua integração, ou não, no que designamos por ‘estrutura de carreira formal/oficial’. As restrições ao financiamento do
ensino superior e, sob a influência do mercado e da NGP, as alterações políticas e institucionais nas concepções tradicionais
de carreira – contrato individuais, flexibilidade e relativização da noção de nomeação definitiva – têm dado origem a que as
posições ‘informais’ se venham a confirmar, crescentemente, como a modalidade preferencial de recrutamento em várias
instituições de ensino superior. Como os profissionais não são imediatamente contratados no ‘trilho’ da nomeação definitiva,
os processos de recrutamento não se baseiam no quadro formal tradicional do concurso público nacional, mas antes em regras
e procedimentos definidas localmente.
A amostra usada neste estudo representa um conjunto de dados recolhidos no final do ano de 2005 e, nesta
perspectiva, constitui apenas um suporte para analisar um conjunto importante de condições institucionais que, nesse período,
envolviam o desenvolvimento da carreira académica. Tendo em atenção o facto de que os dados oficiais disponíveis têm sido
recolhidos e registados de forma diferente ao longo de vários períodos, tornou-se impossível compará-los desde a sua
publicação inicial em 1993.

A estrutura de género da carreira no ensino superior português


Em 2005, em Portugal, o número total de professores do ensino superior público ascendia a 24280, dos quais 14063
(58%) eram homens e 10217 mulheres (42%). Este número traduz uma posição peculiar de Portugal no contexto dos países
europeus (Rees, 2001), marcada, nos últimos anos, por uma ligeira tendência para o aumento da participação das mulheres no
ensino superior (Figura 1). De facto, embora de forma lenta, a percentagem de mulheres na carreira académica tem
aumentado de 40,8%, em 2000, para 41,4%, 41,6% e 43,1%, respectivamente em 2001, 2003 e 2005. Como argumentam
Amâncio e Ávila (1995), Portugal parece constituir um caso único no contexto da EU, atendendo a que, nos últimos 20 anos,
o desenvolvimento da comunidade científica portuguesa foi conseguido, parcialmente, através da contribuição das mulheres.
Todavia, o aumento da participação das mulheres na carreira académica não é paralela à tendência para a
feminização no acesso ao ensino superior. É importante não perder de vista que existem diferenças de participação das
mulheres estudantes entre os níveis de licenciatura e pós-graduados (doutoramento). Apesar do aumento da participação das
mulheres estudantes nos dois níveis de formação, este aumento é mais baixo na pós-graduação quando comparado com a
licenciatura. Em 1993, o rácio entre homens e mulheres que obtiveram o doutoramento era de 2.0 e, em 2002, de 1.2,
mantendo nos últimos 10 anos uma média de 1.4 (OCES, 2005).
Mas este aumento geral da participação das mulheres estudantes, neste período, não produziu um impacto similar
na composição de género da carreira académica nas universidades e nos politécnicos. Na verdade, este fenómeno não é
homogéneo no conjunto do sistema, persistindo diferenças relevantes entre cada um dos subsistemas.

15
Quadro 1: Evolução das diferenças de género no ensino superior

70.0
59.2 58.6 58.4 57.9
60.0

50.0
41.4 41.6 43.1
40.8
40.0
% Homens
Mulheres
30.0

20.0

10.0

0.0
2000/01 2001/02 2002/03 2004/05
Ano Académico

Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior/OCES 2004

Em 2005, apesar da presença de uma maioria de homens no corpo académico dos dois subsistemas, a participação
das mulheres na carreira do politécnico era mais elevada (N=4,713; 46.6%) do que nas universidades (N=5,504; 38.9%). Esta
diferença substancial pode, eventualmente, ser interpretada pelas seguintes ordens de razões: a institucionalização mais
recente do politécnico, o que teria facilitado a integração de mais mulheres na carreira como reflexo do aumento do seu
acesso ao ensino superior; o desenvolvimento da formação inicial ‘politécnica’ em áreas tradicionalmente mais femininas
(ciências sociais, educação e enfermagem); a orientação dominante para o ensino das actividades académicas do politécnico
e, simultaneamente, a oferta de condições de emprego académico mais instáveis e inseguras (Santiago e Carvalho, 2008).
No sentido de analisar a potencial existência de diferenças na participação dos homens e mulheres no ensino
superior, torna-se importante, agora, ponderar outras variáveis ligadas às áreas científicas e à posição ocupada na estrutura
hierárquica da carreira académica.
A observação do gráfico 2, revela a existência de um certo desequilíbrio na representação de género nas diferentes
áreas científicas. As principais diferenças verificam-se nas áreas de educação/formação de professores, artes/humanidades e
engenharia. Nas duas primeiras, as mulheres representam a maioria do corpo de professores – 62.9% na educação e 54.1%
nas artes/humanidades. Ao contrário, a engenharia surge como a área onde os homens constituem a maioria do corpo
académico (77%). A concentração das mulheres nas áreas de conhecimento, tradicional e socialmente estigmatizadas como
‘soft’ (Bourdieu, ) parece constituir um fenómeno comum a outros sistemas (Amâncio, 2005; Bagilhole, 2000; Benschop e
Brouns, 2003; Knights e Richards, 2003; Bailyn, 2003; Stromquist et al, 2007).

Gráfico 2: Distribuição dos académicos por áreas e género.

39,6
Serviços 60,4
38,5
Agricultura 61,5
48
Ciências 52
54,1
Artes e Humanidades Mulheres
45,9
48,7 Homens
Saúde 51,3
Engenharia 22,3
77,3
43,7
Ciências Sociais 56,3
Educação 62,9
37,1

0 20 40 60 80 100
Fonte Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior/OCES (2004/05)

Tomando agora os dados oficiais disponíveis, publicados entre 2001 e 2005, é possível verificar que apesar do
pequeno aumento da participação das mulheres na carreira académica pública, este aumento não tem impacto visível na
composição de género das áreas científicas (ensino e investigação). A taxa de participação das mulheres mantêm-se quase
semelhante na educação/formação de professores (61.5%, 2000; 62.9%, 2005), aumenta nas ciências sociais (38.4%, 2000;
43,5%, 2005) e nas ciências ‘exactas’ e naturais (44.7%, 2000; 48%, 2005) e decresce em áreas como as artes/humanidades
(61.5%, 2000; 54.1%, 2005). Da mesma forma, no caso da pós-graduação, o número de doutoramentos concluídos ou

16
reconhecidos em Portugal mantém uma configuração de género semelhante: a percentagem de mulheres que obteve o
doutoramento entre 1992 e 2002 - engenharia, 27.5%; ciências, 46.4%; agricultura, 45.5%; saúde, 42.4%; ciências
sociais/humanidades, 45.8% (OCES, 2005) – reproduz, globalmente, o ‘padrão’ de género (Amâncio, 2005) na repartição das
mulheres pelas diferentes áreas científicas das instituições de ensino superior (universidades e politécnicos).
A questão que pode ser colocada face a estes resultados é a de saber se a intrusão recente do mercado e da gestão
privada nas instituições amplia o efeito da segregação horizontal no desenvolvimento da progressão da carreira académica
das mulheres. Na verdade, como vários estudos o demonstram (Davies e Thomas, 2002; Blackmore, 2002; Slaugther e Leslie,
1997) a actividade de investigação nas IES é crescentemente valorizada pela sua capacidade crescente em atrair fundos,
bolsas e estudantes e produzir conhecimento útil para a economia e o mercado. Como as mulheres estão mais concentradas
nas áreas das humanidades e ciências sociais, onde a produção de conhecimento parece estar mais afastada das concepções
dominantes de ciência – empreendedora, comercial e estratégica - esta orientação política pode, eventualmente, ter um
impacto negativo sobre a avaliação da sua produtividade científica e, consequentemente, sobre o seu avanço na carreira
(Asmar, 199; Laffertty e Fleming, 2000; Harley, 2003; Slaugther e Leslie, 1997). Neste contexto, o discurso sobre o mérito e
a qualidade académica, mesmo apresentado como ‘neutro’, baseia-se em conceitos de competência e sucesso que são
construídos “… em torno das experiências de vida dos homens e de uma visão de masculinidade que surge como o requisito
normal e universal da vida da universidade” (Bailyn, 2003, p.143).
Para além da segregação horizontal, é possível detectar, também, um fenómeno de segregação vertical na
representação de género na estrutura hierárquica da carreira, configurando um conjunto de problemas significados pela
metáfora do ‘tecto de vidro’. Quando se considera a posição ocupada pelas mulheres nos diferentes níveis hierárquicos da
estrutura da carreira, a comparação que pode ser estabelecida entre os percursos formais (carreira oficial/formal) e informais
(carreira paralela/escondida) suscita um conjunto de questões sobre o impacto dos processos de recrutamento e selecção no
género.
Observando a posição das mulheres no percurso da carreira universitária ‘formal/oficial’ (Gráfico 3), torna-se
imediatamente visível que os homens constituem a maioria dos representantes em cada um dos seus patamares hierárquicos,
sendo as diferenças bastantes mais pronunciadas no topo. De facto, à entrada e na fase inicial e intermédia da carreira
(assistente estagiário, assistente e professor auxiliar) a participação das mulheres aproxima-se da dos homens (entre 39% e
45%), mas no topo as diferenças aumentam e as mulheres passam a representar apenas 32% e 22% do total do número de,
respectivamente, professores associados e catedráticos.
Provavelmente, esta segregação poderá, em parte, ser interpretada pela menor ‘produtividade’ científica das
mulheres, como tem sido observado em outros sistemas (Asmar, 1999; Harley, 2003; Lafferty e Flemimg, 2000; Nakaie,
2002; Ruth, 2005; Smeby e Try, 2005), crescentemente ligada à ‘cultura da performance’, cuja configuração integra,
predominantemente, valores da masculinidade. Neste contexto, as percepções e os estereótipos dominantes sobre a relação
entre os papéis que as mulheres desempenham no domínio privado – estatuto marital, maternidade e cuidado dos filhos
(Kyvik e Teigen, 1996; O’Laughlin e Bischoff, 2005; Rothausen-Vengen et al, 2005) - e o seu envolvimento na produção
científica podem contribuir para a manutenção institucional desses valores e suportar a reprodução da segregação vertical.

Gráfico 3: Participação dos homens e mulheres na carreira ‘oficial/formal’ nas universidades

80

60

40

20

0
Prof Prof Prof Assi
Assist
Cat Ass Aux Est

Mulhe % 21,7 32 44,1 45,4 38,6


Hom % 78,3 68 55,9 54,6 61,4

Fonte: Fonte Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior/OCES (2004/05)

Por outro lado, a ligação da produtividade científica à reprodução da segregação vertical das mulheres pode, ainda,
ser interpretada por outros factores de ordem institucional situados nos domínios pedagógico/administrativo, científico e
político: a concentração das mulheres nas actividades de ensino e nas tarefas de manutenção das infra-estruturas pedagógicas
e administrativas (Olsen, Maple e Stage, 1995; Poole et al, 1997; Sax et al, 2002; Dêem, 2003; Morley, 2005); as próprias
características e estratégias das instituições e/ou das unidades (orientação dominante para a investigação ou para o ensino)

17
(Harley, 2003); a natureza científica e académica (ciências ‘exactas’, ciências sociais ou artes/humanidades) e os processos
de produção de conhecimento (ciência básica ou aplicada) dominantes nas áreas às quais as mulheres estão mais vinculadas
(Asmar, 1999; Laffertty e Fleming, 2000; Harley, 2003); a maior dificuldade das mulheres, em comparação com os seus
pares homens, em aceder a recursos, redes e colaborações (Conley, 2005; Perna, 2005; Kyvik e Teiger, 1996; Webster, 2001)
no desenvolvimento da investigação.
A tendência para a segregação vertical é ainda mais pronunciada na carreira ‘paralela/escondida’, onde parece ser
mais evidente a manifestação da desigualdade de género: as mulheres constituem 40.4% dos assistentes convidados, mas,
respectivamente, apenas 25.4 % e 20.7% dos professores auxiliares e convidados (Gráfico 4). Porém, torna-se também
importante sublinhar que os homens constituem a maioria nos níveis de entrada na carreira ‘paralela/escondida’ (60% dos
assistentes convidados e 75% dos professores auxiliares convidados), o que, eventualmente, pode assumir um duplo
significado: por um lado, os homens confrontam-se com condições mais precárias de trabalho, mas, por outro lado, as
mulheres têm mais dificuldades em entrar na carreira académica por esta via mais informal.

Gráfico 4: Participação dos homens e mulheres na carreira ‘paralela/escondida’

100

80

60

40

20

0
Prof. Cat Prof Ass Prof Aux Ass Conv
Conv Conv Conv

Mulhe % 5,7 20,7 25,4 40,4


Hom % 94,3 79,3 74,6 59,6

Fonte: Fonte Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior/OCES (2004/05)

Como se sublinhou anteriormente, os padrões de emprego na carreira académica do subsistema politécnico


apresentam um carácter mais complexo. A estrutura da carreira é menos hierarquicamente alongada, mas as situações de
precariedade são mais numerosas. Tal é devido, provavelmente, à existência de mais dificuldades na possível transição dos
académicos entre o percurso informal e formal, que conduz à nomeação definitiva, e na obtenção de uma posição de topo
nesta última posição.
Por outro lado, a produtividade científica assume menos peso na progressão da carreira dos académicos integrados
neste subsistema, em comparação com as universidades. Os politécnicos são instituições centradas, predominantemente, no
ensino vocacional e profissionalizante, onde a actividade de investigação tem sido substancialmente inferior à desenvolvida
nas universidades (Amaral e tal, 2002).
Todavia, os resultados inscritos no gráfico 5, mostram a existência do mesmo padrão de segregação vertical
observado no caso das universidades, mesmo que nos patamares iniciais da carreira a representação dos homens e mulheres
seja similar: as mulheres constituem 50% dos assistentes e 50% dos professores adjuntos. Neste sentido, parece que no
subsistema politécnico, aliás tal como na universidade, se observa o que Beate Krais (2002) sugere ao analisar o caso alemão:
o desaparecimento das mulheres no seu percurso ao longo da estrutura hierárquica da carreira, conduzindo-as à ‘mortalidade
académica’. O caso dos politécnicos mostra que esta ‘mortalidade académica’ não depende, apenas, da produtividade
científica, mas, provavelmente, também de outros factores institucionais ligados à hegemonia do ‘habitus’ académico
(Bourdieu, ) estruturado na cultura masculina.

18
Gráfico 5: Participação dos homens e mulheres na carreira ‘formal/oficial’ do politécnico

80

70

60

50

40

30

20

10

0
Prof. Coord Prof. Coord. Assist (1º 2º
Prof. Adjunt
‘agregação’ Triénio
Mulhe % 24 46,2 49,7 50
Hom % 76 53,8 50,3 50

Fonte: Fonte Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior/OCES (2004/05)

A paridade entre homens e mulheres no patamar inicial da carreira académica deste subsistema, deve-se, em grande
parte, à presença das escolas de enfermagem e de educação nas suas instituições. Em particular, as Escolas Superiores de
Educação, durante um largo período de tempo, tiveram a oportunidade de desenvolver a área educacional e de formação de
professores nos politécnicos e, frequentemente, em conjunto com as Escolas Superiores Agrárias, constituíram o seu núcleo
institucional mais forte. Este facto justifica o recrutamento de mais mulheres académicas pelos politécnicos, muitas vindas do
ensino não superior e/ou das áreas das humanidades e das ciências sociais. Mas a escassa presença das mulheres no topo da
carreira politécnica, como professores coordenadores com agregação, mostra que elas não experienciaram o mesmo tipo de
progressão na carreira que os seus colegas homens (Gráfico 5).
Além disso, os resultados inscritos no gráfico 6 mostram que, com a excepção dos professores especialmente
contratados, as mulheres continuam a ter uma participação mais baixa em todos os níveis da carreira ‘paralela/escondida’.
Estes resultados confirmam, como se viu antes, outros estudos empíricos, de acordo com os quais, para além da
produtividade científica, persistem, nas instituições, outros mecanismos que excluem as mulheres do avanço na estrutura
hierárquica da carreira académica (Bagillole, 2000; Rees, 2001; Krais, 2002). Mas, acima de tudo, estes resultados revelam,
também, a possibilidade dos processos de recrutamento e selecção não serem neutros, mas antes marcados pelo seu carácter
de género. A ausência desta neutralidade pode, eventualmente, estar ligada ao jogo da ‘old boys network’ (Benschop e
Brouns, 2003). Neste jogo, os homens, situados no topo da carreira e nos lugares estratégicos da decisão (Bagillole, 2007;
Ruth, 2005), agem como ‘gatekeepers’ na contratação e promoção, ‘agenciando’, assim, a cultura masculina da organização
(Sagaria e Agans, 2006) e a reprodução do sistema patriarcal das instituições.

Gráfico 6: Participação dos homens e mulheres na carreira ‘paralela/escondida’ do politécnico

80
70
60
50
40
30
20
10
0
Equip. Equip. Equip. Especiall
Outros
Coord Adjunt Assist Contrat
Mulhe % 30,1 34,6 44,7 59 28
Hom % 69,9 65,4 55,3 41 72

Fonte: Fonte Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior/OCES (2004/05)

19
Em suma, embora de forma mais evidente nos politécnicos do que nas universidades, os indícios que os resultados
deste estudo fornecem são de que a flexibilidade contratual, a instabilidade e a insegurança aumentaram na carreira
académica nas instituições de ensino superior portuguesas. Este novo ‘ambiente’ institucional, envolvendo os termos e as
condições do trabalho académico, é susceptível de agravar a insegurança institucional das mulheres e contribuir para a sua
concentração nos níveis mais baixos da carreira e nas actividades desenvolvidas na ‘periferia’ das instituições, ligadas ao
trabalho ‘invisível’, ‘pastoral’ e emocional de ensino e de manutenção das suas infra-estruturas (Laffertty e Fleming, 2000;
Ruth, 2005). Deste modo, as mulheres podem confrontar-se com mais dificuldades em lidar com os processos de avaliação
das performances, que, preferencialmente, se centram no que é visível e mais facilmente mensurável, em particular ao nível
da produtividade científica. A estas dificuldades adiciona-se a intensificação do trabalho académico que torna mais complexa
a conciliação dos papéis profissionais com os papéis socialmente dominantes atribuídos às mulheres na família.

Conclusões
Quando comparado com outros países europeus, o ensino superior português tem uma forte presença das mulheres
na academia e no sistema científico. Contudo, a análise dos resultados obtidos com este estudo permite assumir a conclusão
de que esta participação não produziu efeitos substanciais nas lógicas de segregação horizontal e vertical na carreira
académica. É possível, ainda, que esta segregação se acentue no contexto actual de mudança do ensino superior,
caracterizado por uma forte influência do mercado e da NGP.
Este estudo distingue duas formas através das quais é possível observar a persistência das desigualdades de género
na carreira académica no ensino superior português. Uma refere-se ao facto das mulheres académicas estarem concentradas
nas áreas de humanidades e ciências sociais, as quais são menos privilegiadas pelos financiamentos públicos e privados para
a investigação. Os profissionais destas áreas têm, assim, menos oportunidades para desenvolver investigação e menos
possibilidades de responder aos padrões mensuráveis de produtividade científica, actualmente hegemónicos na ciência e no
ensino superior. Desta forma, como as mulheres estão mais concentradas nestas áreas, podem, eventualmente, ter menos
oportunidades para publicar e, assim, avançar na carreira académica.
As actuais mudanças no ensino superior português, que, sob a influência da ideologia do mercado e dos
pressupostos e práticas da NGP, enfatizam, ao nível da investigação, a produção de um tipo de conhecimento utilitário,
conectado com a economia e o tecido empresarial, favorece as áreas científicas em que as mulheres estão menos
representadas, podendo produzir um impacto negativo na sua participação e progressão no ensino superior.
A outra forma de persistência das desigualdades de género pode estar ligada aos procedimentos do recrutamento e
de selecção dos académicos. Os resultados deste estudo fazem antever, ainda, que as desigualdades de género foram sendo
objecto de um trabalho ‘histórico’ de reprodução, pelo menos parcial, no quadro dos processos tradicionais de recrutamento,
consignados nos estatutos da carreira docente do ensino superior universitário e politécnico. Mas é legítimo formular a
questão de saber se, sob a influência do mercado e da NGP, que privilegiam processos mais locais, informais e flexíveis de
recrutamento, em detrimento do princípio da homogeneidade legal contido no quadro legislativo nacional, a reprodução das
desigualdades de género não se agrava, através da criação de obstáculos ao acesso e à promoção das mulheres na carreira
académica.
Como se mostrou neste estudo, as políticas igualitárias definidas após a revolução democrática de 1974, permitiram
um forte aumento da participação das mulheres no ensino superior, mas a intrusão crescente de uma cultura de gestão privada
nas instituições pode, eventualmente, tornar-se num privilégio informal que favorece os homens. Os resultados, embora
confinados à situação existente em 2005, fazem pressupor que as mulheres não só se confrontam com as barreiras
tradicionais que se erguem à sua promoção, como parecem enfrentar oportunidades desiguais no acesso à profissão
académica.
Em termos do ‘ponto de partida’, surgiram ganhos consideráveis no que respeita à participação das mulheres na
estrutura da carreira académica. Mas, questionando determinados pontos do trajecto na direcção da paridade e da igualdade
género, os resultados deste estudo permitem considerar a hipótese de, futuramente, se poder observar um retrocesso ao nível
do recrutamento e das oportunidades de progressão. É crucial desenvolver mais a investigação neste campo para tentar
responder melhor a esta hipótese, incluindo neste desenvolvimento estudos comparativos ao nível internacional. Torna-se
importante, também, analisar as tendências para a mudança nas modalidades de recrutamento e ponderar o seu impacto nas
relações contratuais. Mas, talvez, o maior desafio à análise das questões da desigualdade de género na estrutura da carreira
académica é o de tentar compreender melhor o ‘mistério’ da travagem no ‘pipeline’: porque é que mesmo nos sistemas com
altos níveis de participação de mulheres, como é o caso do sistema de ensino superior português, estas continuam a
confrontar-se com dificuldades para atingir o topo da carreira profissional?

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“Trabalho, família e género, articulando dimensões centrais da vida dos


indivíduos”
Diana Maciel
CIES/ISCTE
diana.maciel@iscte.pt

Cristina Marques
CIES/ISCTE
ana.c.marques@iscte.pt

Anália Torres
CIES/ISCTE
analia.torres@iscte.pt

Resumo: Desde meados de 60 do século XX que têm vindo a ocorrer transformações profundas na sociedade contemporânea que
contribuíram para a existência de novas formas de articulação do trabalho e da família. Trabalho e família são aspectos centrais da vida dos
indivíduos. Homens e mulheres trabalham não só porque precisam, mas também porque é importante para a sua identidade pessoal. Contudo,
formas tradicionais de articular trabalho com a família persistem: os homens continuam a sentir-se responsáveis pelo sustento da sua família,

23
apesar da aceitação da participação das mulheres no mercado de trabalho; e as mulheres ainda realizam a maior parte das tarefas domésticas
e dos cuidados com as crianças.
Com base nos resultados de entrevistas em profundidade, realizadas em diferentes contextos sociais e regionais (Lisboa, Porto e Leiria), a
indivíduos com diferentes contextos sociais, a viver em casal e em diferentes momentos do seu ciclo de vida, procura perceber-se como as
famílias portuguesas articulam trabalho e vida familiar. Analisa-se e discute-se a importância do trabalho para homens e mulheres, a sua
influência na vida familiar e o modo como as famílias dividem o trabalho pago e não pago.
Pretende mostrar-se que o trabalho é um valor importante para homens e mulheres. No geral, o trabalho tem implicações na vida dos
indivíduos, representando um ganho positivo na identidade pessoal, mas também condicionando os tempos familiares. Os homens,
empenhados na construção das suas carreiras, trabalham longas horas, tendo menos tempo para passar com as suas famílias. As mulheres
condicionam o seu trabalho de forma a adequar-se às exigências da sua família.

Introdução
Nos últimos anos têm ocorrido mudanças, nos diferentes países europeus, directa ou indirectamente, relacionadas
com as realidades familiares, como a descida da natalidade e da nupcialidade, o aumento do divórcio, dos nascimentos fora
do casamento, da coabitação e da taxa de actividade feminina (Torres et all, 2006). Os processos de afirmação das mulheres
no espaço púbico, aquilo a que Torres (2001) designa como a transição da ideia de uma mulher-natureza para uma mulher
indivíduo, afiguram-se como centrais.
É neste âmbito que o aumento da participação feminina no mercado de trabalho, nos vários países da Europa, é
desde a década de 60, uma tendência estruturante das sociedades contemporâneas. No entanto, esta participação das mulheres
no mercado de trabalho não foi acompanhada de uma maior participação masculina no trabalho não pago.
Durante vários anos, nos países da OCDE, a correlação entre as taxas de natalidade e a crescente participação das
mulheres no mercado de trabalho foi negativa, no entanto, desde os finais da década de 80, que se tem verificado que, na UE,
quanto maior é a taxa de participação das mulheres no mercado de trabalho, mais elevado é o índice sintético de fecundidade
(Torres et all, 2006)
Em Portugal, ao contrário do que acontece em muitos outros países da Europa, onde o regime de trabalho a tempo
parcial é a escolha de mães com filhos pequenos1, as mulheres trabalham, sobretudo, a tempo inteiro, sendo, aliás, o país
onde as mães de crianças até aos 10 anos mais horas por semana trabalham. No entanto, “as estruturas do emprego masculino
e feminino mantêm características distintas” (Torres et all, 2004: p. 86). Existindo uma maior “dispersão relativa das
mulheres por grupos profissionais e maior concentração dos homens em certas profissões” (idem). Os empregos femininos
são muitas vezes empregos com baixos salários e com poucas perspectivas de estabilidade, mas, encontra-se também uma
“preponderância feminina em sectores de actividade caracterizados por altas qualificações escolares, como é o caso das
profissões intelectuais e científicas” (idem), pese embora em muito menor número do que nos casos anteriores.
As mulheres, trabalhando ou não fora de casa, assumem a seu cargo a maior parte das tarefas domésticas, dos
cuidados com as crianças, idosos ou doentes; sendo que a menor participação das mulheres com escolaridade ao nível do
ensino superior na realização das tarefas domésticas resulta menos de uma maior divisão das tarefas, do que duma maior
“delegação numa empregada doméstica” (idem: p. 131). Deste modo os autores falam na existência de tarefas
“predominantemente femininas” e “não negociáveis”: a limpeza e a manutenção da casa e da roupa, e de outros mais
“negociáveis”, que dizem respeito à alimentação e aos cuidados com as crianças, onde a participação masculina pode ser um
pouco mais significativa. Esta situação pode ser explicada pela activação de “disposições que lhes foram inculcadas” ou por
uma resposta “às expectativas tradicionalistas sobre os desempenhos de papéis na nossa sociedade” (idem: p. 132). Recai
então sobre a mulher a responsabilidade da conciliação entre vida profissional e familiar; preocupar-se em ser boa
profissional, mas acima de tudo boa mãe e capaz de gerir as actividades domésticas.
O facto de serem as mulheres a estarem mais sujeitas a trabalhos precários e mal pagos, ao desemprego e ao
trabalho a tempo parcial (indicadores das desiguais oportunidades no mercado de trabalho), tem a sua correspondência na
maior valorização do salário do cônjuge como fonte de subsistência para o agregado doméstico e consequente desvalorização
do trabalho feminino. Os constrangimentos existentes ao nível do trabalho pago “tornam-se, efectivamente, uma fonte de
legitimação de uma divisão tão assimétrica do trabalho não pago, no interior da relação conjugal” (idem). Esta divisão
ideológica entre um homem a quem cabe o papel instrumental de ganha pão da família e uma mulher a quem cabe as funções
expressivas de cuidado com a casa e com os filhos, acaba por ser incorporada pelas empresas que criam diferentes
expectativas quanto ao papel do homem e da mulher, a quem ligam sempre os cuidados com a família.
Ora, para as mulheres o trabalho profissional não corresponde apenas à resposta de uma necessidade, surgindo
também como “fonte de sociabilidades, produtor de identidade social e indispensável, não só para a melhoria das condições
de vida da família, mas como forma de aumentar o poder negocial no interior da relação conjugal” (idem: p. 133).
Com base nos resultados de entrevistas em profundidade2, realizadas em diferentes contextos sociais e regionais
(Lisboa, Porto e Leiria), a indivíduos com diferentes contextos sociais, a viver em casal e em diferentes momentos do seu

1
Em Portugal, o peso do tempo de trabalho a tempo parcial na actividade feminina é pouco significativo (10,8%), para além de que as condições de trabalho
neste regime não se traduzem em verdadeiras opções, visto situarem-se em sectores profissionais pouco qualificados e com precariedade de emprego.
2
Foram realizadas entrevistas a 83 casais (os dois membros de cada casal, homens e mulheres) com pelo menos um filho, num total de 166 indivíduos, 72 na
Grande Lisboa, 54 no Grande Porto e 40 em Leiria, distribuídos pelas diferentes durações de casamento e pertenças sociais. Os dois membros do casal, homens e
Esta nota continua na página seguinte

24
ciclo de vida, procura perceber-se como as famílias portuguesas articulam trabalho e vida familiar. Analisa-se e discute-se a
importância do trabalho para homens e mulheres, a sua influência na vida familiar e o modo como as famílias dividem o
trabalho pago e não pago.

Trabalho pago e não pago: sobreposição no feminino


As sociedades contemporâneas são, nos dias hoje, palco de grandes e complexas mudanças (Carvalho da Silva,
2007), nomeadamente transformações no comportamento e formação familiar, com o declínio das taxas de divórcio, o
aumento da coabitação, o aumento da idade ao casamento, o declínio das taxas de fecundidade, que afectam várias dimensões
da vida. Também o mundo do trabalho tem sofrido grandes alterações, mas que não lhe retira a centralidade que tem na
sociedade e na vida dos indivíduos; uma das dimensões mais valorizadas por estes. O trabalho interpenetra a esfera da família
e das sociabilidades, denotando, deste modo, a sua importância nas dimensões mais subjectivas e íntimas da vida dos
indivíduos, assim como a sua importância para a estruturação das identidades pessoais (idem).
A centralidade do trabalho é algo “estrutural e estruturante das sociedades” (idem: p. 88). Apresenta-se como “uma
actividade central que estrutura a vida dos indivíduos e a vida social em geral” (idem); sendo um meio de produção de
riqueza, mas também de integração social, numa economia de pleno emprego. O trabalho pago é uma fonte importante de
desenvolvimento do indivíduo, enquanto um factor de produção e de socialização, uma expressão de qualificações, algo
profundamente relacionado com a valorização do trabalho e com a evolução dos modos de prestação do trabalho, fonte de
emanação de direitos sociais e de cidadania, direito universal, “fonte e espaço de dignidade e valorização humana” (idem), e
condição de acesso a padrões de consumo e estilos de vida (idem; Torres, 2004; Casaca, 2005; Torres et all, 2006; Crompton,
2006), conferindo estatuto social ao trabalhador (Kóvacs, 2002).
Deste modo, o trabalho constitui um termo complexo e ambíguo, significando, simultaneamente, “uma actividade
física e intelectual; um acto compulsório, mas também um acto de criação que constitui uma fonte de desenvolvimento e de
satisfação; é um meio de subsistência, mas ao mesmo tempo, uma forma de auto-realização e fonte de rendimento, de
estatuto, de poder e de identidade” (Kóvacs, 2002).
Em Portugal, a mudança na estrutura de trabalho e o aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho
deve ser explicada por várias razões. A partir da década de 60, a guerra colonial e a emigração, especialmente proveniente
das zonas rurais, levou à existência de um défice de mão-de-obra masculina e ao recrutamento de mulheres em todos os
sectores profissionais (André e Feio, 2000; Torres et all, 2004, 2006; Torres, 2004, 2006). No caso das mulheres com um
estatuto socioeconómico mais desfavorecido, houve a oportunidade de procurar trabalho nas grandes cidades, em fábricas ou
como empregadas domésticas. Por seu turno, as mulheres mais escolarizadas (com ensino secundário ou superior) tinham
oportunidades de emprego na função pública, nas empresas ou como professoras; contando com a ajuda de apoios domésticos
baratos, o que lhes permitia conciliar a vida profissional com a vida familiar (Torres et all, 2004, 2006; Torres, 2004, 2006).
Nos meios rurais, as mulheres ganham um papel mais activo nas actividades agrícolas (André e Feio, 2000). Com o 25 de
Abril de 74, a guerra colonial chega ao fim, mas deu-se simultaneamente uma maior abertura aos ideais de igualdade de
oportunidades entre homens e mulheres, que são transpostos na lei, permitindo a permanência da mulher no mercado de
trabalho.
No entanto, este desenvolvimento foi acompanhado por um considerável grau de exclusão social e aprofundamento
das diferenças sociais. A população feminina, devido às tarefas e responsabilidades que tem na família, vê-se ainda
confrontada com uma maior dificuldade no seu progresso profissional num mercado de trabalho, altamente competitivo
(André e Feio, 2000). Actualmente as taxas de actividade de homens e mulheres são muito próximas, todavia mantêm-se as
discriminações e desigualdades.
Nos últimos anos, Portugal tem-se afirmado enquanto um dos países da União Europeia com uma das maiores taxas
de actividade profissional feminina a tempo inteiro (65% de mulheres trabalhadoras actualmente; 84% trabalha a tempo
inteiro; poucas interrupções da actividade laboral ao longo da vida (Crompton e Lyonette, 2007); sendo que as mães
portuguesas mantém uma relação contínua com o mercado de trabalho, independentemente da idade dos seus filhos (Torres,
2004; Torres et all, 2004; Torres, 2006; Torres et all, 2006; Casaca, 2005). Ao contrário do que acontece em muitos outros
países da Europa, onde o regime de trabalho a tempo parcial é a escolha de mães com filhos pequenos3, as mulheres
portuguesas trabalham, sobretudo, a tempo inteiro, sendo, aliás, o país onde as mães de crianças até aos 10 anos mais horas
por semana trabalham.
No contexto da União Europeia, Portugal encontra-se também entre os países em que mais horas se trabalha
durante a semana, variando a duração média do horário de trabalho semanal a tempo inteiro em Portugal entre as 36 e as 40
horas semanais (Casaca, 2005), sendo para Crompton e Lyonette (2007) de 41,9 para os homens e 39,2 para as mulheres. No
entanto, quando se trata de homens e mulheres com filhos menos de 10 anos passa para 46,4 horas e 45,9 horas por semana

mulheres, foram entrevistados em simultâneo, mas de forma isolada. A unidade de análise foi então o indivíduo no contexto do casal, de forma a captar
separadamente a perspectiva de homens e de mulheres face às várias dimensões e estratégias de adaptação (da) e (na) conjugalidade e sua relação com o trabalho.
3
Em Portugal, o peso do tempo de trabalho a tempo parcial na actividade feminina é pouco significativo (10,8%), para além de que as condições de trabalho
neste regime não se traduzem em verdadeiras opções, visto situarem-se em sectores profissionais pouco qualificados e com precariedade de emprego.

25
em média, respectivamente (Torres et all, 2004). Portugal tem assim o mais baixo diferencial entre sexos no que se refere ao
tempo dedicado ao trabalho pago.
As mulheres portuguesas, com idades compreendidas entre os 25 aos 49 anos (fase da maternidade), são das que
menos trabalham a tempo parcial (Casaca, 2005). No entanto, são também as mulheres que estão mais sujeitas a vínculos de
contractos laborais mais precários. Desde a década de 80, que se assiste em Portugal a uma tendência para o crescimento da
flexibilidade do emprego. No nosso país a flexibilidade do emprego está associada a um padrão de relações laborais
precárias, sendo que as modalidades flexíveis de emprego são atravessadas por uma linha de género, em que os homens estão
mais representados no trabalho por turnos, no trabalho nocturno e no emprego por conta própria; e as mulheres no trabalho a
tempo parcial e no emprego temporário. Em 2002, 48% das mulheres em Portugal estavam envolvidas numa relação
contratual precária há mais de 3 anos. Na maior parte dos países da EU, a taxa de desemprego feminino é também superior à
masculina (idem; André e Feio, 2000). Em 2003, em Portugal as mulheres totalizavam 53% dos desempregados (Casaca,
2005).
Resultados de investigações recentes realizadas em Portugal e na U.E. mostram claramente uma profunda
assimetria na divisão do trabalho pago e não pago entre mulheres e homens (Perista, 1999; Torres, et al., 2004). É sabido, por
exemplo, que, em Portugal, as mulheres realizam a quase totalidade do trabalho não remunerado, mesmo trabalhando no
exterior aproximadamente o mesmo número de horas do que os homens. Na verdade, se os homens com actividade
profissional gastam mais 1 hora no trabalho por dia, as mulheres, na mesma situação, e em contrapartida, despendem mais
2,5/3 horas diárias em tempo de trabalho doméstico (Torres, 2004).
A entrada generalizada das mulheres no mercado de trabalho, considerada como dado estrutural das sociedades
contemporâneas, teve consequências variadas, directas e indirectas, na vida conjugal e familiar. Consequências directas,
porque tal tendência rompe, embora apenas parcialmente, com um modelo ideal de relação entre trabalho e família,
dominante durante grande parte do século XX e até aos anos 60. Ele assentava na ideia de complementaridade, através da
diferenciação das tarefas, entre homens e mulheres, sendo o trabalho para o mercado responsabilidade dos primeiros e o
“trabalho” familiar competência exclusiva das mulheres. Embora não se possa esquecer que tal modelo ideal na prática tenha
sido muito menos aplicado e tenha tido carácter menos abrangente do que durante muito tempo se procurou fazer crer, a
verdade é que se operaram, desde o momento em que essas ideias eram dominantes até aos dias de hoje, mudanças
significativas.
Quanto aos efeitos indirectos, na vida conjugal e familiar, da entrada generalizada das mulheres no mercado de
trabalho, verifica-se que essa inserção através da ocupação de um posto de trabalho, do exercício de uma profissão ou do
investimento numa carreira, tem consequências no plano da identidade pessoal e social, ao nível da autonomia, da melhoria
das condições de vida, ou da realização pessoal. Esses desempenhos podem assim contribuir para outras definições de si
enquanto pessoa, no quadro da própria conjugalidade.
No plano dos valores, a aceitabilidade de novas normas parece inequívoca e resulta, aliás, de um processo de
contínua e segura afirmação da igualdade de direitos das mulheres. Isso não significa, que no plano das práticas,
nomeadamente nas que à conjugalidade dizem respeito, se esteja no mesmo patamar.
Apesar dos dois membros do casal trabalharem profissionalmente as mesmas horas fora de casa, são as mulheres
que desenvolvem a maior parte das tarefas domésticas (limpeza, roupa, alimentação) e dos cuidados com as crianças, em
simultâneo com o desempenho das actividades profissionais. No caso dos homens é ainda muito reduzido o tempo que
dedicam às tarefas domésticas e mais significativo aquele que despendem com actividades de índole profissional ou mesmo
de lazer (INE, 2001; Perista, 1999). As tarefas que os homens menos realizam na vida doméstica são as que se relacionam
com o “tratar da roupa”, campo sempre remetido para o domínio dos cuidados e das competências adquiridas no feminino.
Restam assim para os homens, quase sempre, as tarefas mais esporádicas ou ocasionais, como as pequenas reparações de
equipamentos ou do espaço doméstico, enquanto que as mais rotineiras e regulares são normalmente da responsabilidade das
mulheres (Torres e Silva, 1998).
Em relação a quase todas as actividades, e independentemente do grau de instrução, a tendência da divisão
assimétrica do trabalho entre homens e mulheres, é clara, já que ficou visível noutras investigações mais recentes que as
mulheres afirmam realizar, substancialmente, a quase totalidade das tarefas domésticas, enquanto os homens apenas dizem
assegurar uma pequena parte. Esta assimetria é atenuada, nos níveis mais altos de instrução, pela maior participação
masculina, nomeadamente nas tarefas domésticas relativas à preparação das refeições (preparar refeições; pôr a mesa, lavar a
louça) e a fazer compras. Porém, tal afirmação tem o seu negativo no grupo de tarefas relativas à limpeza e manutenção da
casa e da roupa (tratar roupa, lavar, passar; limpar a casa) já que, nestas últimas, a menor participação das mulheres mais
instruídas (relativamente às menos instruídas) não resulta de uma maior colaboração masculina, mas sim da delegação dessas
actividades em ajuda não paga (mãe, sogra e filha) ou em empregadas domésticas. Podemos então continuar a afirmar a
existência de tarefas domésticas predominantemente femininas que permanecem como tarefas “não negociáveis”4 (as
relativas à limpeza e manutenção da casa e da roupa), ainda que noutras, “negociáveis” (como as relativas à alimentação e às
crianças), a participação masculina possa aumentar.

4
A classificação das tarefas em “negociáveis”, quando admitem a realização por ambos os cônjuges e “não negociáveis”, no caso inverso, integrando ou um
“pólo feminino” ou um “pólo masculino” é proposta por Bernard ZARCA (1990) “La Division du Travail Domestique. Poids du Passé et Tensions au Sein du
Couple”, Économie et Statistique, nr. 228

26
O género feminino permanece, assim, como variável determinante, mesmo quando as mulheres delegam essas
tarefas, seja sob a forma de trabalho familiar não pago (mães/sogras e filhas), seja na delegação das tarefas em empregadas
domésticas, são ainda e sempre as mulheres que as realizam.

A centralidade do trabalho na vida dos indivíduos


O trabalho é um aspecto central das sociedades contemporâneas. Homens e mulheres atribuem uma importância
fundamental a esta dimensão das suas vidas. Com a desvalorização do ideal de mulher doméstica, que não é mais visto como
um factor de identificação, o trabalho profissional tornou-se uma dimensão importante da identidade pessoal e social das
mulheres. Valoriza-se agora uma imagem de mulher companheira, “igual em direitos e deveres” (Torres, 2004).
Mas como será que homens e mulheres percepcionam a esfera do trabalho? Que peso tem esta dimensão nas suas
vidas? Que influências tem na família? Neste parte procura-se reflectir sobre os significados subjectivos e objectivos que o
trabalho adquire para os indivíduos, no que diz respeito a aspectos como o seu percurso profissional, o sentimento destes
perante o seu trabalho actual e a influência que o trabalho tem na família.
Defende-se a hipótese de que homens e mulheres valorizam o seu trabalho profissional, sendo que este adquire uma
importância a vários níveis, desde um nível mais instrumental a um nível mais expressivo. No geral, o trabalho tende a
influenciar a vida dos entrevistados tanto pela positiva, sobretudo ao nível da importância que adquire para a sua identidade
pessoal, como pela negativa, devido ao sentimento que os horários e/ou as horas de trabalho retiram tempo para a família, e
ao stress e às preocupações que se levam para casa.

Homens e mulheres querem trabalhar


Tal como Carvalho da Silva (2007) defende, o trabalho revela-se, para os entrevistados, enquanto algo central na
sua vida, sendo um plano da sua existência de que não querem abdicar, dado todas as suas propriedades instrumentais, como
fonte de rendimento, mas também dado as suas propriedades mais expressivas, como fonte de integração social, estatuto e
sociabilidade, construtor identitário e espaço de valorização e realização pessoal (idem; Kóvacs, 2002; Torres, 2004; Casaca,
2005; Torres et all, 2006; Crompton, 2006). Deste modo, a esmagadora maioria dos indivíduos entrevistados valoriza a sua
actividade profissional, sendo que as mulheres portuguesas, inclusive as mães de filhos pequenos, trabalham a tempo inteiro e
querem trabalhar no exterior (Torres, 2004; Torres et all, 2004; Torres, 2006; Torres et all, 2006; Casaca, 2005); reflexo
também de outra característica da actividade profissional que é a de implicar um ganho de poder na relação conjugal e de
maior autonomia (Torres 2004, 2006).
Em Portugal, homens e mulheres tendem a trabalhar a tempo inteiro e de forma intensiva, não interrompendo
geralmente a sua actividade profissional, sendo dos países da Europa em que as mães com os filhos pequenos mais horas
trabalham (Torres, 2004; Torres et all, 2004; Torres, 2006; Torres et all, 2006; Casaca, 2005). Desta forma, o casamento e a
maternidade parecem não limitar, significativamente, o acesso das mulheres portuguesas ao emprego. A ideia da mulher
doméstica tornou-se um estereótipo ultrapassado. Existe uma valorização cultural do trabalho profissional do trabalho das
mulheres que leva a que estas não saiam do mercado de trabalho devido à vida familiar, mesmo em situações em que não é
necessária a existência de dois salários (André e Feio, 2000).
Como várias pesquisas, de carácter quantitativo e qualitativo, têm vindo a referir o trabalho é considerado como
uma dimensão fundamental da vida dos indivíduos (Kóvacs, 2002; Casaca, 2005; Torres, 2004, 2006; Torres et all, 2004,
2006; 2007; Carvalho, 2007). No geral, tanto os homens como as mulheres, das várias gerações e posições sociais, valorizam
o desempenho de uma actividade profissional.
“Eu gosto do que faço. Trabalho a dias, não trabalho os dias todos da semana, também somos 5 pessoas cá em casa.
Mas gosto, dá-me prazer sair das casas e deixar tudo limpinho, ver que valeu a pena o esforço.” (Anabela canhoto, 41
anos, empregada. doméstica, Lisboa)

“Sempre gostei de estrada, sempre gostei de carros... E tem que se gostar muito daquilo que se faz, para a gente se
conseguir manter nesta profissão! Eu gosto imenso daquilo que faço, e portanto vou continuar até quando puder.”
(Pascoal Ramos, 39 anos, motorista máquinas perigosas, Porto)

Através dos discursos dos entrevistados, verificou-se que o trabalho das mulheres é largamente aceite pela maioria
dos homens. Tal como as mulheres tendem a valorizar a actividade profissional do seu cônjuge, é também geral a satisfação
que os homens exprimem em relação ao trabalho das suas esposas: “É um bom trabalho! E muito importante. Embora se
diga tanto mal, os professores é que podem mudar a mentalidade do país... sem os professores, é impossível!” (César
Lourenço, 40 anos, engenheiro informático, analista de sistemas, Porto).
Quando estas estão numa situação mais precária em relação ao mercado de trabalho, isto é, em situações de
desemprego ou de trabalho a tempo parcial, ou em situações em que o trabalho não as realiza, os entrevistados tendem a
referir que gostariam que a sua esposa estivesse a trabalhar e que conseguissem um trabalho que as fizesse feliz,
demonstrando assim um reconhecimento da importância do trabalho para a realização pessoal e construção da identidade
desta: “É uma preocupação ela estar desempregada e vê-la preocupada com isso.” (Alexandre Gomes, 33 anos, técnico

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empresarial, Porto);“Uma pessoa que sempre trabalhou e de repente fica sem emprego, ela psicologicamente não fica nada
bem” (Ricardo Almeida, 43 anos, patrão pequena empresa de calçado, Porto).
Alguns dos entrevistados afirmam que o trabalho e a vida familiar são duas dimensões separadas e estanques da sua
vida, uma não influenciando a outra. Todavia, a maioria dos entrevistados considera que o trabalho influencia, de alguma
forma, a família. Essa influência pode ser positiva: ao nível financeiro – a ajuda para a casa ou o ganha-pão, ao nível dos
horários de trabalho que permitem conciliar com a família – os turnos; ao nível das sociabilidades – dos contactos que se
fazem no trabalho; ao nível dos aspectos intrínsecos salienta-se a importância das rotinas e do ganho de responsabilidade, do
crescimento e satisfação pessoal, da valorização de si, do orgulho, da autonomia, do moldar da personalidade.
Mas pode também ser negativa: os horários de trabalho (o tipo de horário, o excesso de horas que se faz, a
necessidade de levar trabalho para casa ou a falta de controlo sobre os tempos do trabalho) fazem com que se tenha menos
disponibilidade para a família, nomeadamente para os filhos, e para os amigos; levam-se as preocupações do trabalho para
casa, chega-se cansado a casa, o estado de humor altera-se: são os nervos, o stress que se ganham. A um maior investimento
no trabalho, especialmente da parte dos homens, parece corresponder uma maior perda para a família. Neste sentido, o
discurso dos entrevistados aponta para uma “incorporação da norma assimétrica considerada adequada no masculino – os
homens devem centralmente ocupar-se do sucesso profissional e da família depois – e no feminino – as mulheres podem
ocupar-se da carreira se conseguirem conciliar trabalho e família, sendo que em caso contrário os interesses desta devem
sobrepor-se aos interesses daquela” (Torres, 2004: p. 90).
Veja-se então, de forma um pouco mais detalhada, como se processa esta influência do trabalho na família.

Separando as águas
Como foi referido, existem entrevistados, embora minoritários, que consideram que o trabalho não influencia a sua
vida familiar. Nestas situações, os entrevistados referem, sobretudo, que conseguem separar trabalho e família, que procuram
não levar os problemas do trabalho para casa, ou que o seu horário de trabalho permite conciliar ambos os domínios.
“ Se a pergunta for no sentido de saber se eu trago trabalho para casa, isso não, eu quando chego a casa, desligo.
Quando passo a porta de casa... Nunca trouxe questões de trabalho para casa, nem incomodo a minha mulher com
isso.” (César Lourenço, 40 anos, engenheiro informático, Porto)

Existem ainda casos em que, no geral, o trabalho não influencia a família, no entanto, em determinadas alturas,
quando se tem mais trabalho ou preocupações maiores, passa a interferir.
“Depende. Nessas alturas influencia um bocado. Eu e as minhas colegas andamos mesmo com um stress muito, muito
grande por causa dos prazos. (…) é então nessas alturas que eu noto que realmente ando mais um bocadinho com
menos paciência, é um bocado assim. Ando mais stressada, mais nervosa e noto que influencia um bocadinho, por
muito que a gente não queira, influencia sempre. Nessas alturas noto que se calhar prejudica um bocadinho, mas
pronto, a gente não consegue controlar tudo.” (Carolina Arroteia, 33 anos, contabilista, Leiria)

As influências positivas do trabalho: os rendimentos, as sociabilidades, a valorização da identidade, os ganhos de


autonomia
A maior parte dos entrevistados considera, no entanto, que o trabalho influencia a sua vida pessoal e/ou familiar de
alguma maneira. Assim, e a um nível mais instrumental, uma das influências positivas apontada pelos entrevistados (homens
e mulheres) remete para a importância do trabalho como fonte de rendimento, traduzindo assim as responsabilidades que os
indivíduos casados têm face à família.
“Influencia, influencia. Se eu não trabalhasse, qual seria o meu comportamento cá em casa? Para ter as coisas
alinhadas cá em casa, por pouco que seja, tem que se trabalhar. Isso não parece mas tem um peso bom.” (Valter Sousa,
37 anos, pintor de automóveis, Lisboa)

Existem também entrevistados, embora minoritários, para quem o tipo de horário de trabalho efectuado é uma ajuda
na articulação do trabalho com a família. É, assim, numa lógica de articulação entre ambas as esferas da vida dos indivíduos,
que o trabalho por turnos ou a flexibilidade nas horas de trabalho podem ser consideradas como uma mais-valia, permitindo
conciliar o campo profissional com o cuidado com as crianças e/ou com outros assuntos de âmbito familiar, quando o
cônjuge não está presente.
“Gosto muito do que faço, pela liberdade que me dá, e liberdade não significa que a gente não trabalhe, porque nunca
trabalho menos de 10 horas por dia. Só que preciso de ir ao infantário da garota, preciso de ir dar uma vacina à minha
filha, disponho desse tempo sem problema absolutamente nenhum, porque sei que o posso.” (Renato Barbosa, 36 anos,
gestor comercial, Leiria)

As sociabilidades são outro dos factores mais valorizados por quem trabalha. As amizades que se fazem no
trabalho, assim como o tempo que se passa juntamente com os colegas, são considerados como bastante importantes: “ Acho
que permite manter contacto com pessoas de fora, já que a nossa situação económica não permite grandes contactos de
amizade.” (Simão Costa, 59 anos, guarda de museu, Lisboa).

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Mas acima de tudo será importante realçar os aspectos intrínsecos que a actividade profissional traz aos indivíduos
e à sua vida familiar. Como se referiu anteriormente, o desempenho de uma actividade profissional é central para na vida dos
indivíduos, fazendo-os crescer enquanto pessoas, trazendo-lhes satisfação e orgulho a nível pessoal, valorizando-os.
“Influencia muito. Influencia muito porque o trabalho amadurece-nos, o trabalho dá-nos aquilo que se chama carimba,
a gente apanha desgostos, temos que ser exigentes, recebemos críticas pelo comportamento e pelo desempenho, isso
acaba por nos moldar. Acaba por nos ir moldando. Acabamos por encontrar tipos de pessoas diferentes que nos
influenciam, que nos cativam. É claro que sim, que influencia muito a minha vida. [Influência] positiva. A minha vida
pessoal é, familiar acaba por ser de alguma maneira [influenciada], mas é como disse há bocado, tento filtrar. É no
sentido em que nos engrandecemos um bocado, porque quando temos responsabilidades lá fora, no trabalho para o
exterior dá-nos uma segurança grande também na família. […]. E a minha esposa saber que tenho responsabilidades
também dá assim um certo orgulho, isso tudo ajuda-me numa boa relação. […]” (Renato Barbosa, 35 anos gestor
comercial, Leiria)

Directamente relacionada com a questão da realização pessoal, está o sentimento de autonomia que o trabalho gera
nos entrevistados, nomeadamente nas mulheres. O trabalho permite, a estas mulheres, serem independentes, não depender
dos seus maridos, terem a possibilidade de adquirirem as suas próprias coisas.
“Pronto, ai está, ter um ordenado é estar independente. Mesmo assim de vez em quando ele diz que ele é que me
sustenta e não sei quê, não sei quanto. Tenho o meu ordenado, sou independente, posso fazer dele o que quiser e não,
pronto. Acho que isso é muito importante, para não estar a pedir e pedir, não!” (Armanda Serra, 46 anos, empregada
doméstica, Leiria)

Ora, mas nem tudo são rosas e o trabalho tem, por vezes, uma influência na vida familiar que é considerada, pelos
entrevistados, como menos positiva.

As influências negativas do trabalho: menor disponibilidade para a família, cansaço e stress


Como se realçou, os entrevistados também sentem que o trabalho tem consequências negativas na vida familiar: são
as preocupações do trabalho que se levam para casa e geram maiores desentendimentos no casal e menor paciência para a
família; são os horários de trabalho que “roubam” tempo à família.
No que toca “às chatices”, isto é, as preocupações, o stress, o mau humor, que se levam do trabalho para casa, são
referidas maioritariamente pelos entrevistados mais qualificados, sobretudo pelas mulheres, embora seja também muito
referida pelos homens (mais de Leiria e Lisboa). Neste sentido, os entrevistados referem que não conseguem desligar da
pressão e das exigências profissionais, levando-as para o seio familiar, juntamente com a tensão e a impaciência gerada no
contexto laboral que acaba por originar, algumas vezes, o conflito conjugal ou parental: “No dia a dia, se tenho um dia mau,
chego a casa e discutimos por isso até porque às vezes fico bruta, pronto, um bocado chateada e ele também não percebe e
discutimos por causa dessas coisas.” (Patrícia Mira, 28 anos, escriturária, Lisboa); “Traz mais atritos, menos paciência
para as brincadeiras dos filhos, embora eu seja um pai que até liga muito a essas coisas.” (Joaquim Machado, 38 anos,
profissional de seguros, Lisboa).
Ora, se as chatices e as preocupações do trabalho são maioritariamente referidas pelas mulheres, os homens
queixam-se, sobretudo, das horas que trabalham que lhes deixa pouco tempo para se dedicarem à família e/ou a outras
actividades que desejem realizar: “Influenciou um bocado a vida familiar devido à ausência. A ausência levou a algumas
incompreensões e a alguns atritos.” (Duarte Ventura, 62 anos, engenheiro civil, Lisboa).
A questão das horas de trabalho é também reconhecida pelas suas esposas. Quando questionadas sobre qual a
influência que o trabalho do seu cônjuge tem na família ou o que desejariam mudar neste, a questão das horas do trabalho
vêm frequentemente ao de cima: “O que eu mudaria, punha-o a trabalhar das 8 às 5 e vinha para casa. Que assim já tinha
mais tempo para programar a vida dele.” (Olga Amaro, 34 anos, doméstica, Leiria); “Mudava estas questões do horário,
pedia-lhe para chegar mais cedo, pelo menos à tarde, à noite, para estar e ajudar com as miúdas, que com duas não nada
fácil...” (Luísa, 38 anos, professora do ensino especial, Lisboa).
Os próprios homens referem muitas vezes que, se há um aspecto que mudariam na sua actividade profissional, este
prende-se com as horas que efectuam no trabalho e o empenho que têm para com este, de modo a poderem ter mais tempo
disponível para si e para a sua família: “Ter mais tempo para estar com a família... neste momento era só isso” (Marco
Ferreira, 34 anos, motorista, Porto).
Deste modo, tal como foi referido em diversas pesquisas (Beck e Beck-Gernsheim, 1995; Torres, 2004, 2006;
Torres et all, 2004) os homens ao contrário das mulheres, não parecem encontrar na paternidade um condicionamento à vida
profissional. Contudo, expressam o seu desejo de estar mais presentes para a família e, especialmente para os filhos. Estamos,
assim, perante uma “reinterpretação moderna de uma divisão de papéis antiga” (Torres, 2004: 72), em que as mulheres já
sentem o direito ao desempenho de uma actividade profissional e eles se começam a sentir culpados por não darem tanto
apoio em casa como o ideal de simetria, que partilham com elas, implica. No entanto, o investimento familiar não é paritário
e as mulheres são forçadas a retrair-se na profissão.
Neste sentido, existem também mulheres que se queixam das horas de trabalho que têm que realizar, referindo
mesmo que gostariam de diminuir as suas horas de trabalho, de modo a poderem conciliar mais facilmente trabalho e família.

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“Influencia bastante porque (…) para os meus filhos agora não tenho tanta… eu falo deste, os outros eu criei-os,
dediquei-me totalmente a eles, este não, este foi criado sozinho com a avó. Tenho bastante pena, queria estar mais
tempo com ele, gostava de dedicar mais tempo.” (Florbela Ramos, 39 anos, empregada doméstica, Porto)

Alguns homens fazem também referência às horas de trabalho das suas esposas, sobretudo quando estas trabalham
ao fim-de-semana. O trabalho realizado aos sábados e, especialmente, aos domingos, leva-os a considerar que existem
determinados programas, como passeios ou viagens, que é difícil fazer em família: “Gostava mesmo que ela também não
tivesse que trabalhar tanto... para ter mais disponibilidade...” (Diniz Gouveia, 42 anos, corticeiro, Porto); “Em questão de
horários, pois, se ela pudesse ter um trabalho com um horário que pudesse estar, por exemplo, os fins-de-semana em casa
com o filho, arranjava-lhe um trabalho assim.” (Hermínio Matias, 41 anos, encarregado de armazém, Leiria).
Neste sentido, conciliar trabalho e família nem sempre é fácil, e às vezes é preciso fazer escolhas…
“Tive muitas vezes esse dilema: entre ser professora e ser mãe e eu: “mas porque é que tem que ser assim, ao que é que
tenho que dar prioridade?” e às vezes vinha esgotada, isso sentiu-se muita vez. (…) Era uma profissional competente,
nesse aspecto era só mesmo quando estava doente. Agora quando um filho estava com febre ou doente eu sofria que
não imagina, era por ele e era pelos alunos, então algumas vezes tive que faltar. Era assim, mas era um dia, dois, assim
que se apanhava melhor lá ia eu.” (Regina Ramalho, 56 anos, professora 1º ciclo em processo reforma, Leiria)

Através dos discursos dos entrevistados tornou-se visível como o trabalho é um aspecto central na vida dos
indivíduos, proporcionando-lhes uma fonte de rendimento, mas também uma fonte de identidade, de sociabilidade, de
integração social, de sentido de si. Deste modo, a actividade profissional é amplamente valorizada, sendo que os
entrevistados que não trabalham expressam frequentemente o seu desejo em fazê-lo.
Acresce ainda que a esfera profissional influência, geralmente, a vida familiar quer seja ao nível dos rendimentos e
dos horários de trabalho que possibilitam uma gestão objectiva da vida familiar, quer seja em termos de ganho de satisfação
pessoal ou, pelo contrário, de cansaço e preocupações que se vão repercutir no mundo da casa, de forma mais subjectiva,
embora não menos essencial.

Tarefas domésticas – mudanças ou permanências


Como referimos anteriormente, os resultados de várias investigações, levadas a cabo em Portugal e na União
Europeia, continuam a mostrar a forte assimetria existente na divisão do trabalho pago e não pago entre homens e mulheres
(Perista, 1999, 2002; Torres e Moura, 2004; Torres et al. 2004, 2006; Torres, 2006; Crompton, 2006; Amâncio, 2007;
Crompton e Lyonette, 2007; Singly, 2007; Cardoso et al., 2008).
Embora os discursos tendam a reproduzir uma lógica moderna de maior participação dos homens no espaço
doméstico, e apesar da grande participação das mulheres no mercado de trabalho, os homens não têm participado de forma
equivalente no trabalho não pago (Perista, 2002, Torres, e Moura 2004; Torres, 2004, 2006; Torres et all 2004, 2006). Deste
modo, apesar de, na maior parte dos casos, ambos os elementos do casal trabalharem no exterior, aproximadamente, as
mesmas horas, as mulheres continuam a realizar a maior parte das tarefas domésticas e dos cuidados com as crianças.
Ora, relativamente ao domínio do privado, e mais especificamente à divisão efectuada das tarefas domésticas,
interessou-nos olhar para as práticas e representações que surgem no contexto do casal. Será que existe alguma relação entre
práticas e representações neste domínio da vida dos indivíduos? Quais são os modelos ideais defendidos? E quais os
efectivamente praticados? Existirão diferenças entre casais com maior e menor duração de casamento? E entre os mais e
menos instruídos?
Partindo da exploração da relação entre representações e práticas e da análise comparativa do discurso de casais
residentes em Lisboa, Porto e Leiria, procurou-se chegar a uma tipologia onde se articulam os discursos dominantes com as
práticas. Neste sentido, da análise sobressaíram 3 tipos principais: os casais igualitários; os casais assimétricos atenuados e os
casais assimétricos tradicionais. Os casais igualitários defendem e praticam uma divisão mais igualitária das tarefas
domésticas, onde os dois elementos do casal procuram realizar as tarefas pelos dois. O trabalho profissional no exterior surge
como principal argumento para a procura do equilíbrio na esfera privada. Estes casais sentem-se satisfeitos com o modo
como as tarefas domésticas são divididas, consideram que esta forma de organização é justa e equilibrada.
No caso dos casais assimétricos atenuados, embora haja, geralmente, uma defesa dos ideias da partilha, na prática
as mulheres tendem a realizar a maioria das tarefas domésticas, enquanto que eles dão uma ajudinha (a pôr/levantar a mesa, a
fazer uns grelhados aos fins-de-semana, a cuidar dos filhos, nas bricolages, no jardim, com os carros). Apesar de
reconhecerem que a situação não é justa, eles vêm-na como menos injusta do que elas. Mas o reconhecimento desta injustiça
pode levá-los a sentirem-se culpados por não irem de encontro ao ideal de igualdade na divisão das tarefas domésticas. A
assimetria é justificada pela educação (eles não sabem como realizar muitas da tarefas, não foram educados para o
desempenho das mesmas), o hábito e com o facto de eles trabalharem mais horas no exterior do que elas. Além disso, elas
assumem as responsabilidades, o que os leva a “encostarem-se”. Quanto a elas, consideram que a divisão praticada é injusta,
recaindo o maior peso sobre elas. A empregada doméstica, sobretudo entre as mulheres mais qualificadas, vem atenuar esta
situação, retirando-lhes uma parte significativa das tarefas domésticas. No entanto, elas têm gosto na casa, preferindo,
frequentemente, desempenhar este tipo de tarefas, para as quais se sentem mais qualificadas: foram educadas para realizar as
tarefas domésticas, fazem mais depressa e melhor e têm uma maior disponibilidade. Esta dimensão das suas vidas é encarada

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de forma instrumental, a realização das tarefas domésticas é uma necessidade, não existindo, portanto, um ganho identitário
resultante da sua execução. Mas o facto das mulheres realizarem a maior parte destas tarefas pode fazê-las, à luz dos ideais
actuais de uma divisão igualitária das tarefas domésticas, sentirem-se culpadas, na medida em que são elas próprias que vão
assumindo a responsabilidade pelo seu desempenho. Os papéis sociais esperados a desempenhar do feminino e do masculino
encontram-se aqui bem patentes. Elas já esperavam que assim fosse e têm pouca esperança que a situação mude. Assim,
podem queixar-se, mas, geralmente, estão conformadas – é a queixa desmaiada.
Por fim, nos casais assimétricos, as mulheres voltam a assumir a totalidade ou a maior parte das tarefas domésticas,
sendo que eles podem dar uma pequena ajuda, especialmente após o nascimento dos filhos. Contudo, ao contrário do que
acontece com os casais que praticam um modelo assimétrico atenuado, aqui a assimetria das tarefas domésticas é sentida
como justa. Deste modo, a desigualdade no desempenho das tarefas domésticas é incorporada tanto por elas como por eles,
sendo naturalizada. É, então, do dever das mulheres a execução e a responsabilidade das tarefas da casa: preparar as
refeições, fazer as comprar e as limpezas, tratar da roupa, cuidar dos filhos. As tarefas domésticas fazem, assim, parte do
mundo do feminino. Elas têm mais jeito, maior sensibilidade, mais conhecimento e uma maior prática para as executar,
sabendo, portanto, desempenhar melhor as tarefas da casa. Neste contexto, o espaço doméstico pode mesmo ser vivido pelos
homens como um espaço de “disvirilização” (Torres e Moura, 2004). Por seu turno, elas podem retirar ganhos identitários no
desempenho das lides domésticas. Estas são algo que as valoriza; elas gostam de as executar e eles gostam que elas sejam
assim. A assimetria está naturalizada e os papéis sociais femininos a desempenhar estão incorporados: elas estão habituadas,
as mulheres fazem sempre mais, eles não sabem fazer; elas querem agradar. Ambos reconhecem que elas fazem mais, mas
sentem-se satisfeitos e consideram a situação justa.
Tal como referimos anteriormente, o resultado de diversas pesquisas que se debruçam sobre a divisão do trabalho e
não pago (Perista, 1999; Torres et al, 2004, Singly, 2007; Amâncio, 2008), mostram a permanência de uma divisão
assimétrica das tarefas domésticas. Há uma sobrecarga feminina; uma responsabilização por parte delas relativamente a este
domínio. Em casa elas fazem sempre mais do que eles (tratar da roupa, limpar a casa, fazer almoço/jantar), sendo que a
maioria trabalha fora de casa.
“Eu faço mais do que ele. Eu acho que a gente tem um botãozinho, é como se estivéssemos programados. Eu chego a
casa e começo logo a tratar do jantar, e entretanto trato de apanhar a roupa ou estender e aquilo vai tudo de seguida.
(…).” (Margarida Silva, 29 anos, empregada de balcão, Lisboa)

Eles tendem a dar uma ajuda e a realizar mais tarefas no exterior da casa. As tarefas que eles, geralmente, fazem
dizem respeito ao ajudar a lavar a loiça ou pôr a loiça a lavar, adiantar e/ou fazer as refeições, fazer grelhados, pôr a roupa na
máquina, ajudar/fazer as limpezas, fazer obras, tratar do quintal e ou do jardim, dos carros, dos animais: “Muito poucas, eu
não faço quase nada. Habitualmente eu trato das tarefas que têm a ver com os carros, com o jardim e, algumas vezes, se
estiver em casa, ajudo a fazer a cama…” (Martim Couto, 35 anos, sócio gerente empresa, Porto). Os entrevistados referem
também, frequentemente, que ajudam a tomar conta dos filhos: dar banho, ajudar a vestir, lavar/buscar à escola, deitar os
filhos e/ou apoiá-los nos trabalhos de casa. Fica então claro que, apesar do aumento da participação dos homens no cuidado
com os filhos, como tínhamos já mencionado anteriormente, os homens ficam encarregues de tarefas mais esporádicas ou
ocasionais, como as pequenas reparações de equipamentos, enquanto as mulheres têm a seu cargo as tarefas mais rotineiras e
regulares (Torres e Silva, 1998).
As mulheres mais qualificadas, tendem a ter uma empregada doméstica que as ajuda nas tarefas da casa, sobretudo
a passar a ferro e a fazer as limpezas. Vimos como, nos casais tendencialmente mais tradicionais, sobretudo do Porto, a
existência da empregada retirando peso à mulher, leva a um maior afastamento do homem em relação à casa, enquanto que
nos casais mais igualitários, de Leiria e Lisboa, a empregada vem atenuar as tarefas que o casal tem que realizar, sendo que
as restantes são divididas entre os dois. Deste modo, a empregada doméstica, embora tenha um papel fundamental no retirar
de tarefas às mulheres, pode não levar a uma maior participação dos homens nas tarefas restantes, justificando antes a sua
menor participação entre alguns casais.
“Houve uma altura em que ajudava mais... Não muito nas tarefas domésticas, por feitio, por educação, por uma série
de coisas. Depois, por uma série de coisas que aconteceram na vida… eh pá, tenho uma empregada todos os dias, tenho
não sei quê, portanto, demarquei-me um bocado e deixo-as para a minha mulher… E hoje os filhos também ajudam
imenso… a pôr a mesa, a levantar a mesa, em muitas coisas.” (André Teixeira, 42 anos, empregado de escritório,
Porto)

Contudo, é notória a manutenção de uma forte incorporação dos papéis tradicionais, sobretudo entre os mais velhos
e nos sectores operários: “é o dever da mulher”, elas preferem fazer; fazem “naturalmente”, melhor e mais depressa. Elas
podem ainda assumir a responsabilidade pela assunção das tarefas domésticas, sentindo-se culpadas. Por sua vez, eles
acomodam-se: “ela sabe desempenhar melhor”, é uma questão de educação ou de hábito.
“Porque tenho mais disponibilidade de tempo, venho mais cedo. (...) Uma pessoa é que acaba por ser um bocado
culpada de logo no início não ter distribuído as tarefas. Eu acho que a mulher aí é sempre a subcarregada porque
quando os miúdos são pequeninos é a mãe sempre que faz e eu acho que depois também a mãe acha que só a mãe é
que sabe fazer bem. (...) também acho que vêm de uns hábitos familiares, eu acho que os pais dele também não o
educaram nesse sentido, eu vejo que por exemplo as raparigas ajudam muito mais, eu em casa da minha mãe fazia de
tudo e o meu irmão não fazia nada. Se eu estou a fazer isto, ele pode estar a estudar um bocadinho mais com, dar uma

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explicação de matemática aos filhos, ajudá-los naquelas áreas que eu ajudo menos.” (Matilde Santos, 46 anos, chefe de
departamento de actividades culturais de museu, Porto)

“Aconteceu assim, porque ele, na altura que foi criado, não é? Eram as mulheres que faziam as lides de casa. Casou
ainda era isso. E depois eu também nunca lhe exigi, fui criada também assim, achava que a mulher é que tinha que
limpar a casa e que tratar da roupa e tratar da comida. Agora ao fim destes anos todos, não aprendeu, não fez.” (Juliana
Dias, empregada de balcão, Leiria)

Deste modo, homens e mulheres afirmam a sua identidade pessoal como completa. Sendo que a realização das
tarefas domésticas fazem parte das actividades performativas de produção de género, algumas mulheres assumem a sua
realização como forma de provar a sua identidade sexuada. De forma semelhante, alguns homens podem rejeitar a realização
de determinadas tarefas domésticas, em parte para evitar uma certa feminização da sua identidade (Singly, 2007).
A existência ou não de uma actividade profissional é um factor que influência na divisão das tarefas domésticas. No
caso das mulheres desempregadas há um “retorno” à casa, isto é, a falta de emprego leva as mulheres a assumirem as tarefas
como suas, mesmo como forma de contribuição para a casa.
“Eu acho que quando estou mais aflita por algum motivo, ele ajuda. Quando não estou, quando estou mais disponível
acho muito justo eu ter a responsabilidade da casa e de tudo, que parecendo que não, é muito, até com o miúdo é muita
responsabilidade e muito trabalho, mas acho justo porque ele tem muito trabalho.” (Mónica Amaral, 26 anos, socióloga
desempregada, Lisboa)

Mas não é apenas a questão do desemprego que leva as mulheres a assumirem a maior parte das tarefas. Quando
ambos trabalham fora de casa, mas existe uma percepção que os homens trabalham mais, as mulheres assumem a realização
das tarefas domésticas. Consideram que o cônjuge está cansado, já vem tarde, pelo que acabam por assumir essa
responsabilidade. No entanto, o facto das mulheres trabalharem fora de casa é motivo para que eles dêem uma ajudinha
(maior ou menor), sobretudo com os filhos.
“É assim, tento sempre ajudar a esposa, como ela tem trabalho, tem emprego, tento sempre ajudar. Nós temos dois
filhos, isso já se sabe com filhos em casa há sempre trabalhos dobrados […]. Ou faço eu as camas, por exemplo, ou
vou aspirar está ela a lavar a roupa. Pronto, é preciso estar sempre a conjugar as coisas, depois passamos em casa os
quatro…” (Manuel Carvalho, 35 anos, operário, Leiria)

O modo como as tarefas domésticas são realizadas entre o casal, geralmente, muda ao longo do tempo. Factores
como a mudança de casa, a contratação ou o despedimento de uma empregada doméstica, a situação perante o trabalho dos
indivíduos ou o nascimento dos filhos, geralmente implicam uma reorganização da divisão das tarefas domésticas no
contexto do casal. A maior participação dos homens no domínio do trabalho não pago aquando do nascimento dos filhos é
bastante exemplificativa dessas dinâmicas conjugais, no domínio das tarefas domésticas.
“Eu reconheço que [as tarefas domésticas] foram mudando devido à situação dos filhos, devido à situação da
profissão… foram mudando bastante. Por exemplo, quando casei, nos primeiros 3 anos, não fazia nada. A partir do
momento em que tive filhos, comecei a ajudar basicamente em tudo, naquilo que sei. E isso continua. Desde que
nasceu o segundo, as coisas começaram a ser insuportáveis só para uma pessoa… Há mais louça, há mais roupa, então
comecei a fazer… basicamente a fazer as coisas que ainda hoje faço.” (Diniz Gouveia, 42 anos, corticeiro, Porto)

A percepção da justiça e do sentimento quanto à divisão das tarefas domésticas está profundamente relacionado
com as práticas e as representações que os entrevistados têm neste domínio das suas vidas. Como refere Amâncio (2008) “as
representações sobre os papéis sexuais e os valores que lhes estão associados assumem particular importância, na medida em
que o grau de identificação com as normas que deles decorrem é determinante da capacidade de resistir ou não ao conflito
gerado” (idem: p. 187). Acresce ainda que as funções da vida conjugal não se inscrevem apenas sobre um registo da
igualdade (Singly, 2007). Há também uma procura do reconhecimento pessoal, que nem sempre é fácil de encontrar noutras
esferas da vida. Assim, se existem justificações, para o modo como a divisão das tarefas domésticas é realizada, que fazem
parte de uma concepção de igualdade, outras há que remetem para o reconhecimento do outro (idem). É ainda necessário ter
em conta que a vivência em casal é um contexto muito específico, sendo um lugar de afectos (Torres, 2002), onde mais do
que uma simples contabilização da realização das tarefas domésticas, há todo um conjunto de trocas simbólicas de contornos
afectivos e sexuais que ganham outros significados. Assim, é possível compreender como situações que objectivamente
possam parecer injustas, não sejam vividas como tal pelos membros do casal (idem).
Ora, entre os casais igualitários, tanto eles como elas, tendem a considerar a divisão das tarefas domésticas justas e
a sentirem-se satisfeitos. No entanto, também nos casais mais assimétricos (sobretudo nos operários) existe um sentimento de
justiça e satisfação perante a divisão das tarefas domésticas, relacionada com a forte incorporação dos papéis sociais de
género. Entre os casais assimétricos atenuados (em que eles dão uma ajudinha) existem diversos sentimentos perante a
divisão das tarefas domésticas: pode haver uma compreensão porque consideram que eles trabalham mais horas do que eles;
ambos podem considerar que a situação é injusta, mas estão conformados por uma questão de hábito ou de educação,
podendo, em alguns casos, sentir-se satisfeitos; um dos dois (especialmente elas), ou ambos, podem sentir a situação como
injusta.
Todavia, embora a maioria dos entrevistados nos dê conta da existência de desabafos, queixas ou críticas que são
feitas, sobretudo, pelas mulheres, uma parte significativa dos nossos entrevistados nega a existência de conflitos a propósito

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das tarefas domésticas. Quando “reconhecem” a existência de conflitos, falam sobretudo em pequenos conflitos,
especialmente, pelo facto delas estarem cansadas e de eles não participarem nas tarefas domésticas. Apenas uma pequena
parte dos entrevistados assume a existência de conflitos. Mas, à medida que a idade avança, os conflitos podem ser encarados
como normais e relativizados. Elas tendem a assumir, mais do que eles, a existência de alguns conflitos, ou pelo menos de
desabafos e queixas. São as mulheres profissionais técnicas e de enquadramento que mais parecem queixar-se desta dimensão
das suas vidas, o que poderá dever-se a um maior desfasamento nas suas expectativas iniciais com a vivência da sua realidade
actual.
“Às vezes lá coiso que ele podia me ajudar um bocadinho mais na limpeza ou qualquer coisa, naquelas situações que
eu vejo que ele não tem muito que fazer e podia-me coiso, mas também são essas poucas vezes, por isso… não, não há
assim…” (Carolina Arroteia, 33 anos, contabilista, técnica oficial de contas, Leiria)

No geral, as mulheres referem várias vezes que gostariam que o cônjuge participasse mais nas tarefas domésticas
ou que ajudasse sem elas terem que pedir. Algumas mulheres com mais de 20 anos de duração de casamento dizem que
punham os filhos a participar mais ou que lhes teriam ensinado a fazer as tarefas. Eles tendem a referir mais que elas que não
mudariam nada na realização das tarefas domésticas. Ambos dizem que gostariam de ter uma empregada doméstica, ou
quando já têm, que esta trabalhasse mais horas na sua casa.
“Se eu pudesse a cada um tinha que fazer as suas obrigações, tratar das suas coisas ou então dividir, um fazia uma
coisa, outro fazia outra, outro fazia outra, mas todos fazer, não é? Porque também um tar a lavar a roupa, outro a lavar
a roupa, outro a lavar a roupa também não dava, não é? Pronto, depois enquanto um lavava a roupa, outro tinha que
fazer outra coisa, dividir as tarefas por todos, isso é que devia ser assim.” (Armanda Serra, 46 anos, empregada
doméstica, Leiria)

Temos então uma presença do modelo assimétrico tradicional, sobretudo, entre os casais com maior duração de
casamento, entre os casais do Porto e/ou entre os casais operários. O modelo assimétrico atenuado está presente em todas as
regiões, sendo mais frequente entre os indivíduos mais qualificados de todas as gerações. Quanto aos casais que praticam um
modelo mais igualitário, constituindo uma minoria entre os entrevistados, encontram-se entre os indivíduos mais jovens e
qualificados de Lisboa, e em alguns casais mais qualificados com mais de 10 anos de duração de casamento, de Leiria e
Lisboa.

Conclusão
No que ao trabalho diz respeito, foi considerado enquanto um aspecto central da vida dos indivíduos, tal como
referido por diversas pesquisas (Kóvacs, 2002; Torres, 2004; Casaca, 2005; Torres e Moura, 2004; Torres et all, 2004, 2006;
Crompton, 2006; Carvalho da Silva, 2007). Homens como as mulheres, das várias gerações, regiões e posições sociais,
valorizam o desempenho de uma actividade profissional.
No entanto, os entrevistados mais qualificados falam em realização pessoal, o que denota a importância da
actividade profissional para a construção da sua identidade pessoal. Neste sentido, os indivíduos, com maior duração de
casamento, deste sector profissional, fazem referência a um forte sentimento de satisfação com o trabalho, não só
profissional, como também pessoal, dando conta de um percurso escolhido e construído: de um projecto realizado. Mas, se os
entrevistados dos sectores mais qualificados falam de realização pessoal, as mulheres operárias, operárias fabris ou
empregadas domésticas, na maioria dos casos, sentem-se satisfeitas com os seus trabalhos, mesmo quando estes são pesados.
O trabalho do cônjuge é, geralmente, aceite, quer por homens, quer por mulheres. É assim que os homens referem
respeitar o trabalho da sua esposa, apoiando-as quando estas estão desempregadas e expressando o desejo que estas
encontrem um trabalho que as realize. Entre os entrevistados, existe assim uma aceitação generalizada do trabalho das
mulheres, o que vai de encontro aos referido por Torres (2004) e André e Feio (2000) sobre a importância cultural do
trabalho em Portugal e da perda de influência da ideologia da domesticidade.
A influência do trabalho na vida familiar é sentida pela generalidade dos entrevistados, existindo apenas uma
minoria que refere conseguir separar trabalho da família, que, usualmente, não leva problemas para casa e que tem um
horário que lhes permite conciliar ambas as esferas. Os horários de trabalho são um aspecto essencial no que se refere às
influências que este tem na família. Embora sejam uma minoria, existem entrevistados que referem que o tipo de horário de
trabalho (por exemplo, o trabalho por turnos ou a flexibilidade das horas de trabalho) efectuado é uma ajuda na articulação do
trabalho com a família. Contudo, os homens confessam, frequentemente, que o tempo que passam no trabalho os impede de
passar mais tempo em família e, especialmente, com os filhos. Existem também mulheres, nomeadamente as profissionais
técnicas e de enquadramento menos qualificadas, com mais de 10 anos de duração de casamento, que se queixam das horas
de trabalho que têm que realizar, referindo mesmo que gostariam de diminuir as suas horas de trabalho, de modo a poderem
conciliar mais facilmente trabalho e família.
Mas existem outros aspectos em que o trabalho influencia a vida familiar e/ou a família. Entre estes encontram-se a
possibilidade de obter um rendimento, algo que é sublinhado pelos operários e profissionais técnicos e de enquadramento
menos qualificados, traduzindo assim as responsabilidades que os indivíduos casados têm face à família. Outro dos factores
valorizados é o das sociabilidades, especialmente entre os mais jovens, mas também entre mulheres mais qualificadas e com
mais de 20 anos de duração de casamento de Lisboa. Ainda pela positiva, um outro aspecto a salientar é o do sentimento do

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trabalho como fonte de realização pessoal e de autonomia, o que é referido, sobretudo homens e mulheres mais qualificados;
sendo que os operários mais velhos de Leiria demonstram uma forte identificação com o trabalho.
Pela negativa, é ainda de destacar as preocupações que se levam para casa e que geram maiores desentendimentos
no casal e menor paciência para a família, especialmente entre as mulheres mais qualificadas.
Volta a salientar-se a importância do emprego na estruturação das identidades individual e colectiva. O trabalho é
um meio de acesso a uma fonte de rendimento, mas também de integração e coesão social, de satisfação, realização pessoal e
de sentimento de autonomia individual. A perda de um emprego implica para as mulheres uma perda de autonomia, material
e subjectiva, a possibilidade de assimetria das relações de poder entre homens e mulheres e de fortalecimento do
tradicionalismo das mesmas (Casaca, 2005). Assim, homens e mulheres são motivados pela esfera do trabalho. Mesmo para
as mulheres casadas e com filhos “o trabalho é um valor em si mesmo, que vai para além da necessidade económica de haver
dois rendimentos, tendendo a fazer parte de um modelo identitário feminino forte” (Torres et all, 2006). É neste âmbito que
se compreende que as mulheres “investem ou querem investir nas duas frentes [trabalho e família]” (idem: p. 140). Contudo,
a possibilidade destas poderem concretizar este desejo de “duplo investimento no trabalho e na família depende de condições
concretas e específicas que, variando de país para país, podem, nalguns casos criar dilemas e impor opções não desejadas”
(idem).
Já no que diz respeito às tarefas domésticas verifica-se a manutenção de assimetrias. Embora possam existir alguns
casais mais igualitários, sobretudo entre os profissionais técnicos e de enquadramento, na generalidade, as mulheres tendem a
realizar a maior parte das tarefas domésticas, enquanto os homens se limitam a dar uma ajuda.
Permanece então uma forte incorporação dos papéis de género tradicionais, em que as mulheres assumem para si a
realização das tarefas domésticas, que consideram fazer melhor e mais depressa. Para as mulheres operárias esta assunção das
tarefas domésticas traduz-se em ganhos identitários, que as identifica enquanto mulheres. Já para as mulheres com profissões
mais qualificadas a realização das tarefas domésticas assume-se com um sentido mais instrumental, aqui é a necessidade que
impera.
É curioso verificar que uma análise dos resultados ao nível dos valores e das representações sobre o género, o
trabalho e a vida familiar conduz a conclusões que são substancialmente distintas daquelas que podemos retirar dos dados
sobre práticas concretas de divisão do trabalho. Isto porque persistem descontinuidades importantes entre as práticas efectivas
de divisão do trabalho e as representações veiculadas pelos dois membros do casal. Globalmente, pode-se afirmar que as
declarações de adesão a valores tendem a ser substancialmente mais adeptas de valores modernos, isto é, num sentido amplo
e como sinónimo de aceitação das ideias de paridade, igualdade, simetria entre homens e mulheres, do que os padrões de
divisão do trabalho observados.
Com efeito, e embora se tenham registado evoluções muito significativas no que refere a uma distribuição mais
igualitária entre homens e mulheres do trabalho pago e não pago (pelo menos ao nível simbólico e ideológico), uma das
características das sociedades modernas, continua ainda a configurar-se no plano das relações de conjugalidade, padrões
assimétricos de partilha na maioria dos casais portugueses. Tal traço característico da divisão do trabalho entre sexos, quer no
que se refere às tarefas domésticas, quer no que diz respeito aos cuidados com as crianças, torna-se quase paradoxal quando
se analisam os resultados da avaliação da justiça dessa partição das tarefas. Sobre estes indicadores, tanto homens como
mulheres manifestam uma quase total concordância com as formas instaladas de divisão, considerando-as justas ou muito
justas (Torres, 2000).
Numa investigação realizada e coordenada por Torres (2000) ficou claro que do pequeno conjunto das mulheres
que classificam a situação como injusta sobressaem, como seria de esperar, as que trabalham profissionalmente e as mais
instruídas. Porém, estes valores são, de qualquer modo, surpreendentemente baixos se considerarmos a enorme sobrecarga de
tarefas que recai sobre estas mulheres. São mais as mulheres do que os homens a considerar a divisão das tarefas domésticas,
mais ainda do que os cuidados com as crianças, como injusta. Este dado não parece surpreender, mas pelo contrário e tendo
em conta por um lado, que a assimetria da divisão penaliza as mulheres e sabendo, por outro lado que os cuidados com as
crianças gratificam mais quem os assegura do que as outras actividades domésticas; surpreende-nos, sim, o facto de a maior
parte dos entrevistados (principalmente mulheres) viverem numa situação tão desigual ao nível das práticas e no entanto a
considerarem como justa, ao nível das representações.
De salientar, por outro lado, o facto de a maioria dos casais entrevistados afirmarem a inexistência de conflitos a
propósito da divisão das tarefas domésticas. Nota-se que embora a maioria dos homens e mulheres, independentemente de
exercerem actividade profissional, declare que os conflitos nunca existem, tanto em relação às tarefas, como em relação aos
cuidados com as crianças, as mulheres que têm profissão afirmam menos do que as domésticas que nunca há conflitos.
A análise dos discursos dos entrevistados, em especial nas dimensões da divisão objectiva das tarefas domésticas e
dos cuidados com os filhos, a avaliação subjectiva da (in)justiça dessa partição e os possíveis conflitos inerentes, permite-nos
afirmar que apesar de existir efectivamente uma sobrecarga para o lado das mulheres ao nível das práticas no contexto
conjugal, ela não é exteriorizada nos discursos seja na declaração de injustiça, seja na declaração de conflitos na relação
conjugal.
Há que ter sempre presente que estamos a lidar com as práticas efectivas e com as representações dos indivíduos,
mas inseridas num contexto muito específico, o da conjugalidade enquanto lugar de afectos (Torres, 2002). Assim, muito
mais do que a simples contabilização da prática das tarefas domésticas e da sua divisão mais ou menos equilibrada entre
homens e mulheres, há todo um conjunto de trocas simbólicas de contornos afectivos e sexuais na vida conjugal, que ganham

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outros significados. Deste modo, torna-se mais claro perceber que uma situação objectivamente injusta pode não ser vivida
nem declarada como tal pelos seus protagonistas.
O desempenho da maioria das tarefas domésticas e dos cuidados com as crianças é assegurado quase
exclusivamente e em termos globais pela mulher, o que está profundamente relacionado com as expectativas tradicionalistas
sobre os papéis masculino e feminino na nossa sociedade. Por isso, a mulher que desempenha um trabalho profissional tenta
corresponder às expectativas que integram o papel feminino, acciona disposições que lhe foram sendo inculcadas, tendo
sempre presente a preocupação em provar que para além de ser uma boa profissional, é principalmente uma excelente mãe,
também capaz da gestão doméstica. Sobre ela recai a responsabilidade de conciliar profissão e vida familiar, mas nunca sobre
o seu cônjuge. A prevalência destas profundas diferenças, explicáveis pelas assimetrias de género, é particularmente aguda
no caso português exactamente porque as mulheres, e em particular as mães, são as que mais horas trabalham
profissionalmente nos países da União Europeia (Torres, et al., 2004).

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Relações familiares violentas


Sandra Lourenço
Universidade Estadual do Centro-Oeste – UNICENTRO
sanlouren@ig.com.br

Resumo: A violência doméstica contra mulheres é uma das formas de materialização da violência estrutural inscrita no sistema de
exploração-dominação. Este trabalho analisou a realidade vivida por mulheres que sofreram violência doméstica desde sua infância.
Objetivou-se neste estudo analisar o modo de pensar e de agir dessas mulheres, tendo em vista contribuir no aprofundamento das
investigações nesse campo complexo. Utilizou-se a abordagem qualitativa viabilizando condições para a compreensão da consciência como

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imanente às ações dos sujeitos sociais. Optou-se por alguns instrumentos de coleta dos dados, tais como a observação participante, a
entrevista e a análise documental. Com relação às respostas das mulheres sujeitos da pesquisa, estas ocorreram de forma complexa. Nas falas
e ações dos sujeitos se presentificaram elementos instituídos e instituintes da ordem falocêntrica. Como consequências disso, as mulheres
encontraram dificuldades para compreender a realidade vivenciada, o que implicou em ações isoladas na tentativa de enfrentamento da
violência doméstica ou até mesmo na permanência em relações violentas. Evidentemente, a superação da violência contra mulheres é uma
arena onde interesses antagônicos de gênero travam duras lutas, porém é justamente essa arena contraditória que fornece as condições para a
sua superação.

Introdução
A violência contra mulheres é um fenômeno cuja visibilidade social foi possível por conta das intensas
reivindicações dos movimentos de mulheres. O abuso sexual; o estupro; o turismo sexual e tráfico de mulheres; o assédio
sexual e moral no local de trabalho; a discriminação; a violência institucional, cometida por omissão; a mutilação genital
feminina; os crimes ligados ao dote; o estupro em massa nas guerras e conflitos armados, são formas de violência contra
mulheres.
Os dados desse tipo de violência de acordo com Saffioti (1994) registrados não só no Brasil como nos outros
países, denotam o quão endêmica é a violência de gênero, atingindo todas as mulheres independemente de sua condição de
classe social, de cultura, de nível educacional.
Uma das formas de materizalização da violência contra mulheres é a violência doméstica. Esse tipo de violência é
uma violação de direitos e objetiva-se por meio da violência sexual, física e psicológica que, em geral são perpetradas pelo
agressor concomitantemente e, em muitos casos, reincidentemente.
Pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo em 2001 (VENTURI; RECAMÁN; OLIVEIRA, 2004), coligiu
dados sobre a desigualdade de gênero no Brasil, tendo como um de seus eixos a violência contra mulheres. Para a coleta de
dados, o Núcleo de Opinião Pública desta Fundação entrevistou 2.502 mulheres acima de 15 anos de idade residentes em
áreas urbanas e rurais em todo o território nacional. No que toca à violência doméstica, entendida como aquela que envolve
pessoas que vivem parcial ou integralmente no mesmo domicílio possuindo ou não laços de consanguinidade, a estimativa é
de que 6,8 milhões de mulheres (11% das brasileiras vivas) sofreram no mínimo um espancamento. Sendo assim,
aproximadamente, 2,1 milhões são vítimas de Lesões Corporais Dolosas (LCD) ao ano; 175 mil ao mês; 5,8 mil ao dia; 243 a
cada hora e, por conseguinte, quatro vítimas por minuto ou uma a cada 15 segundos.
Esse índice torna-se mais alarmante ao responderem espontaneamente, haja vista que, 19% das entrevistadas
declararam ter sofrido algum tipo de violência por parte de algum homem. Destas, 16% sofreram violência física; 2%
violência psicológica; e 1% assédio sexual. Na medida em que foi apresentada a tipologia da violência, 43% afirmaram ter
sofrido algum dos tipos de violência, sendo que destas 33% citaram a violência física; 24% foram privadas do direito de ir e
vir, sob ameaça de uma arma; 22% sofreram agressões; 13% sofreram estupro conjugal ou abuso sexual; 27% sofreram
violência psicológica (ofensas à conduta moral) e 11% assédio sexual. A tipologia de violência é classificada desta maneira,
isto é, em separado, para dar visibilidade à gravidade da questão, entretanto, vale ressaltar que os tipos de violência não
ocorrem isoladamente. Na verdade, o que se verifica de acordo com os relatos das usuárias dos serviços de apoio, é que são
praticadas mais de uma forma de violência concomitantemente.
O estudo aqui apresentado, nasceu da inquietação da pesquisadora frente à necessidade de apreensão da violência
doméstica a partir da vivência das mulheres que a sofrem. Entede-se que este é um elemento central para a compreensão
deste fenômeno complexo e que se presentifica no cotidano de um número significativo de mulheres.
Este trabalho analisou a realidade vivida por mulheres que sofrem violência doméstica desde sua infância.
Objetivou-se neste estudo analisar o modo de pensar e de agir dessas mulheres, tendo em vista contribuir no aprofundamento
das investigações nesse campo.
Para a coleta de dados, elegeu-se o município de Guarapuava, no Estado do Paraná, onde a pesquisadora atua como
docente em uma universidade pública, chamada Universidade Estadual do Centro-Oeste.
Esta pesquisadora, realizou um mapeamento da violência doméstica em Guarapuava, por meio do estudo e da
análise de todos os Boletins de Ocorrência (BOs) e Termos Circunstanciados (TCs) lavrados entre julho de 2001 e junho de
2002, visando levantar as seguintes informações: natureza da ocorrência, bairros com maior incidência, dados de
identificação da vítima e do agressor, como: idade, escolaridade, trabalho; o horário das ocorrências, entre outros aspectos
que facilitaram o conhecimento da materialização desse fenômeno naquela localidade.
Delimitou-se esse período (2001 a 2002), pois foram esses os documentos disponibilizados pela Polícia Militar, a
qual informou que os BOs lavrados em período posterior estavam passando por sistematização em banco de dados
informatizado e seriam disponibilizados em outro momento.
Corroborando a escolha por essa análise documental, a Delegacia de Polícia Civil (DPC) 14ª. Subdivisão, que
naquele momento era a responsável pelos casos de violência doméstica no Município, informou que a melhor maneira de
levantar esses dados seria a partir do estudo dos documentos disponibilizados pela Polícia Militar, devido às condições
precárias de atendimento da DPC, uma vez que não havia uma delegada na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de
Guarapuava, o que gerava uma situação em que raramente eram lavrados BOs dessa natureza. Por sua vez, a polícia militar
(PM) era a primeira a ser chamada para atender as ocorrências, tendo, portanto, um contato direto com essa realidade.

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Essa fase de análise durou aproximadamente 8 meses, durante os quais foram estudados todos os BOs registrados
no período eleito, totalizando 9.292 (nove mil, duzentos e noventa e dois), dos quais 11% eram referentes à violência
doméstica.
Pôde-se verificar com esse levantamento que, no Município de Guarapuava, aproximadamente 95 registros de
violência doméstica foram lavrados ao mês, sendo uma média de 3 ao dia. Vale lembrar que esses números elevados diziam
respeito aos dados que são registrados. Entretanto, de acordo com o Conselho Nacional da Mulher, estima que
aproximadamente 50% dos casos de violência doméstica não são registrados. Além disso, constatou-se que dos casos que
acionaram a PM, 95,7% das mulheres que sofreram violência doméstica não prestaram queixa.
O silêncio das mulheres, isto é, a solicitação de ações imediatas da PM ou da polícia civil (PC), rejeitando qualquer
forma de continuidade do processo criminal como a instauração do inquérito policial foi, muitas vezes, afirmado pelas
usuárias desses serviços, como o desejo de apenas uma represália, um susto no companheiro para que ele deixe de agir
violentamente. Comum tornava-se a prática de solicitar, horas depois ou mesmo no dia seguinte, que o processo fosse
“engavetado”.
Essa situação refletiu elementos da ordem patriarcal de gênero, cujas formas de materialização também se dão pelo
medo e a vergonha em denunciar a violência doméstica; pelas ameaças que vão desde a perda da guarda dos filhos até as
ameaças de morte e tentativas de homicídio; pelas inúmeras dificuldades de encontrar apoio até mesmo junto à rede familiar
e da comunidade onde vive; pelas influências culturais e religiosas que, ainda hoje, preconizam a manutenção do núcleo
familiar “até que a morte os separe”, conforme, por exemplo, o ritual do casamento católico; pelos preconceitos e
discriminações que muitas mulheres sofrem após a dissolução da relação conjugal. A autonomia financeira também pode se
tornar um agravante para o enfrentamento dessa situação. A escassez e precariedade dos serviços de apoio e de segurança que
acolham e acompanhem as mulheres cujos direitos são violados também potencializam as dificuldades de superação da
violência doméstica.
Com relação às localidades com maior incidência de registros, destacaram-se os bairros: Xarquinho, Santana, Carli
e Morro Alto, com 40% dos casos. Estes estão situados na região periférica da cidade, onde houve um maior número de
denúncias e, não necessariamente são os bairros mais violentos. O registro policial da violência conjugal contra mulheres em
bairros populares se deu em número mais elevado do que em bairros de segmentos abastados em função de que o recurso
policial foi a alternativa existente para as pessoas de segmentos pobres.
A violência conjugal doméstica não ocorre necessariamente mediante a condição de classe. É preciso cuidar para
não incorrer numa análise mecânica entre violência e pobreza. Para tanto, é preciso perquirir a realidade com o intuito de
levantar as suas conexões e a complexidade das relações sociais.
Outro dado constatado referiu-se ao maior número de ocorrências que se deram durante o período noturno (noite e
madrugada), totalizando 62,4%. Isso ocorreu, uma vez que, em geral, os membros da família estavam no espaço doméstico
nesse período, adensando os conflitos pela permanência em um período de tempo prolongado, momento no qual o homem
provedor encontrava-se nesse espaço, demandando dedicação direta dos demais membros para o atendimento de suas
requisições.
É importante deixar claro que, esta pesquisadora preocupou-se com a violência cometida contra mulheres, já que,
somente em Guarapuava essa população constituiu aproximadamente 85,3% das vítimas ao passo que 76,5% dos agressores
foram homens. A constatação de que o maior número de agressores no espaço doméstico foram homens e, em contrapartida,
as mulheres foram as que mais sofreram com essa violação de direitos é um fenômeno que ocorre não somente nesse
Município uma vez que, é derivado da ordem patriarcal de gênero, cuja primazia é masculina, compreendendo este o vetor da
violência.
Deparou-se com uma dificuldade no levantamento dos principais crimes cometidos contra mulheres por meio da
análise dos BOs, por conta do relato dos/das policiais que não detalharam as formas de violência, pois descreviam o que
elas/eles denominaram genericamente como maus tratos referindo-se a: violência física, verbal, sexual e moral abarcando
59,7% seguida da ameaça com um total de 27,6%. Os relatos das/dos policiais disseram muito pouco sobre os crimes
cometidos contra mulheres, o que dificultou o conhecimento desse fenômeno por meio desses documentos.
No tocante à faixa etária dos agressores, 53% encontraram-se entre os 21 e 40 anos de idade. Uma parcela
significativa das mulheres violadas (43%) também está nessa faixa etária, entre 21 e 40 anos, atingindo pessoas que se
encontram na fase reprodutiva da vida e que são consideradas economicamente ativas, exercendo ou não atividade
remunerada no momento da pesquisa.
No Brasil, de acordo com os dados da Fundação Perseu Abramo (VENTURI; RECAMÁN; OLIVEIRA, 2004),
53% das mulheres são consideradas economicamente ativas. No mercado de trabalho, as mulheres sofrem discriminações
como, por exemplo, as diferenças salariais entre trabalhadoras e trabalhadores que exercem funções idênticas. Essas
diferenças encontram-se em torno de 30%, conforme dados do IBGE (2003).
Outro aspecto destacado foi o fato de que os agressores exerciam majoritariamente atividades sem nenhum vínculo
empregatício, principalmente, como empregados domésticos, pedreiros, mecânicos e, ainda, aqueles que viviam de trabalhos
esporádicos, totalizando 63%. Isso revela que nos meios populares a violência doméstica é mais exposta, haja vista que, esse
é um fenômeno que ocorre em todas as classes sociais. Além disso, esse é um quadro referencial não somente dessa
localidade, mas que reflete a atual condição dos trabalhadores.

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Conforme dados do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (IPARDES), a população
economicamente ativa encontra-se em torno de 71.307, sendo que desta, apenas 29.807, aproximadamente 42%, exercem
atividade remunerada.
Dentre os agressores identificados no Município de Guarapuava, houve também 18% que eram profissionais
liberais: médicos, contadores, engenheiros, dentistas, entre outras áreas afins, demonstrando que a violência contra mulheres
ocorre independentemente de condição sócio-econômica e de formação educacional, além do fato de que há um crescimento
das denúncias nesse meio.
No caso das pessoas que sofrem violência, 26,1% não perfazem renda alguma, já que são donas-de-casa. 25,1% são
empregadas domésticas, o que dificulta a tomada de decisão no sentido romper a relação com aquele que é o provedor do lar,
uma vez que, um número significativo de mulheres não possui autonomia financeira.
Comprovando as estatísticas no âmbito nacional, os agressores são aqueles com os quais as mulheres estabelecem
relações de confiabilidade e de convivência, já que 57,4% dos perpetradores da violência são os homens com os quais as
mulheres mantêm relação de conjugalidade.
Esta é uma região repleta de contradições que não se objetivam de forma isolada, mas que refletem uma dinâmica
sócio-histórica mais ampla. Este espaço serviu de referência para a pesquisa, no caso, um Município no qual se depara com
interesses antagônicos de classe, com a acumulação do capital baseada em um modo de produção capitalista pautado na
exploração da mais-valia, sob um ideário burguês e latifundiário. Conta ainda com a precarização do trabalho e com
inúmeros sujeitos que não têm e dificilmente terão a possibilidade de ingressar no mercado formal de trabalho por falta de
qualificação e pela própria lógica do capitalismo maduro do século XXI que mantém um significativo contingente
populacional no mercado informal e sob os auspícios da flexibilização do trabalho.
A realidade torna-se mais complexa à medida que se depara com as respostas para o enfretamento das demandas
apresentadas pela população por parte do Estado. No aspecto sócio-econômico poucos são os investimentos para superar
tamanhas dificuldades. Em um estudo realizado pelo Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social, alguns
autores afirmam que isso se deve ao fato de que, em Guarapuava, a estrutura da terra está organizada em grandes
propriedades; há presença de atividades com baixo potencial gerador de emprego as quais são incapazes de desencadear
outras atividades, além do baixo potencial para o uso agrícola (MOURA; LIBARDI; SILVA;BARION, 2006).
Nesse contexto, analisou-se a manifestação da violência doméstica contra mulheres a partir do olhar desses sujeitos,
o que será brevemente apontado a seguir.

O desenho da pesquisa
Vários são os caminhos teórico-metodológicos para a construção de uma pesquisa. Ao pensar sobre esse processo,
definiu-se como direção aquela que possibilitasse investigar e explicar a dinâmica do real, do existente, levando-se em
consideração sua complexidade e contradições cuja materialização deu-se em um determinado recorte espaço-temporal
situado historicamente, brevemente apontado na introdução deste trabalho. Nesse exercício de investigação da realidade,
preocupou-se em analisar a realidade enquanto concreto pensado à luz de alguns de seus elementos para a maior aproximação
e compreensão do objeto de estudo, ou seja, o modo de pensar e de agir das mulheres que sofreram violência doméstica desde
sua infância.
O caminho metodológico foi, assim, iluminado pelo real em seu movimento,por meio da análise dos fatos e
acontecimentos, das relações sociais, das condições objetivas dos sujeitos investigados, bem como sua visão de mundo, sua
consciência enquanto ser ontológico, entre tantos outros elementos instituintes e instituídos pelo real em sua totalidade. Daí a
necessidade de perquirir permanentemente a realidade, ou, melhor dizendo, colar-se ao real.
Outra questão central na elaboração do caminho metodológico foi a compreensão de que a pesquisadora também é
sujeito do processo de produção de conhecimento, resguardados os devidos cuidados com o subjetivismo, que atribui
primazia ao indivíduo e suas representações em detrimento do real, bem como, com o objetivismo que, dentre outras coisas,
faz uma apologia à neutralidade científica.
O recorte temporal também foi considerado para fins deste estudo, uma vez que foi preciso situar o objeto também
na dimensão tempo. Assim, focou-se o ano de 2007, uma vez que, em 07 de agosto de 2006 foi criada a Lei 11.340. Esta Lei,
mais conhecida como Lei Maria da Penha foi considerada um avanço no sentido de ampliação das medidas legais protetivas
de urgência determinadoras de maior amparo às mulheres que sofrem violência doméstica e familiar.
Delimitou-se a pesquisa a partir dos primeiros cinco meses de criação da Lei Maria da Penha, acreditando-se que
esse período de implantação poderia agregar um número maior e mais qualitativamente significativo de elementos para este
estudo.
O caminho metodológico da pesquisa é algo que vai além de regras pré-estabelecidas definidoras do modo de fazer
a pesquisa. É um caminho que propicia a reflexão e um olhar diferenciado, investigativo e criativo a partir da apreensão da
complexidade e das contradições imanentes ao real enquanto concreto pensado. À guisa de perquirir o real, buscando
responder aos objetivos propostos nesta tese, a abordagem qualitativa trouxe contributos fundamentais. Dessa maneira,
debruçou-se sobre o objeto, fazendo uso dessa abordagem, tendo em vista o olhar das mulheres que sofreram violência
doméstica, o que viabilizou condições para a compreensão da consciência como imanente das ações dos sujeitos sociais, foco
desta pesquisa.

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Apesar das polêmicas em torno da questão qualitativa e quantitativa, acredita-se que ambas são instituídas e
instituintes do movimento do real em permanente interrelação, uma vez que qualidade e quantidade são inseparáveis
(MINAYO, 2004). Desta forma, supera-se a visão dicotômica entre qualidade e quantidade, percebendo-as como um
complexo constitutivo da totalidade.
A apreensão do modo de pensar e de agir dos sujeitos enquanto concreto pensado foi possível na medida em que a
pesquisadora se aproximou não apenas de indicadores, dados, índices quantitativamente sistematizados. Evidentemente, eles
alimentaram o estudo, porém foi imprescindível para essa análise perquirir profundamente o modo de pensar dos sujeitos,
pois a consciência está imanentemente articulada à dimensão concreta da vida do sujeito social. Sujeito este que se objetiva
no cotidiano, de maneira que ele não se desvincula da estrutura.
O cotidiano é instituído e instituinte de determinações históricas, isto é, trata-se de um dos níveis constitutivos da
história, no qual a reprodução dos indivíduos é a materialização da reprodução das relações sociais, num dado momento e
com suas particularidades.
Para captar essa imediaticidade e superá-la com vistas à compreensão das mediações foi preciso fazer a suspensão
do cotidiano, entendendo o campo contraditório de interesses antagônicos como fruto da relação capital-trabalho, adotando-se
assim, uma perspectiva de totalidade, por meio da qual se persegue a dinâmica e a complexidade da realidade. Assim,
entende-se que os elementos captados a partir do cotidiano dos sujeitos, seu modo de pensar e de agir devem ser analisados
em sua interconexão com as determinações históricas.
A escolha da metodologia qualitativa de pesquisa pautou-se na compreensão de que cada pesquisa é única e no
pressuposto de que a experiência social do sujeito foi fundamental para a apreensão do objeto deste estudo.
Uma arena de debate se constrói também em torno do método em pesquisa. Vale esclarecer que este é entendido
como o próprio processo de apreensão do movimento do real, ou seja, é a própria alma do conteúdo por que medeia a
complexidade do concreto pensado, enquanto materialização real e sua forma de apreensão no pensamento (LÊNIN, 1965).
Nesse sentido, dedicou-se em apreender a complexidade do movimento histórico e a sua base material na qual os indivíduos
se objetivam.
O método adotado para a produção do conhecimento aqui esboçado compreendeu o pensamento como um
complexo contraditório e em permanente movimento situado em uma dada historicidade. O uso da Triangulação foi um
recurso interessante para essa apreensão, implicando na utilização de diversas técnicas de abordagens e de análises, de vários
sujeitos e pontos de observação.
Optou-se por alguns instrumentos de coleta dos dados empíricos eleitos na medida em que se aproximava do
objeto.
A análise das experiências e vivências concretas, do imediato, do concreto humano foi entendida como um primeiro
exercício de abstração, a partir do qual foi possível estabelecer conexões e relações tendo em vista suas particularidades
captadas numa totalidade. A compreensão dessa realidade exigiu da pesquisadora a apreensão tanto do ponto de vista social,
com seus elementos gerais e suas particularidades como do ponto de vista dos fenômenos singulares e cotidianos.
O objeto deste estudo de pensamento em uma dada conjuntura histórica, política e econômica na qual os sujeitos
sociais encontram-se em movimento, cuja apreensão implicou numa perspectiva heurística, haja vista que, refletiu relações
concretas.
A escolha dos sujeitos desta pesquisa levou em consideração os objetivos propostos, os pressupostos teóricos e o
movimento da realidade, bem como as experiências que detinham enquanto sujeitos coletivos. Dessa forma, identificá-los foi
uma tarefa extremamente complexa.
Em nenhum momento houve a preocupação em levantar a representatividade numérica, pois a pesquisa qualitativa
prescinde de um grande número de sujeitos para se tornar válida, haja vista que pressupõe a aproximação do movimento do
real por meio da apreensão de significados e das experiências dos sujeitos coletivos, objetivando apreender o objeto
empiricamente em todas as suas dimensões (MINAYO, 2004). Nesse sentido, o que importou foi o significado que esses
sujeitos tiveram em função do objetivo da pesquisa (MARTINELLI, 1999).
Além disso, pressupôs-se como relevante não somente a recorrência de informações, mas também aquelas que
tiveram significância para a compreensão do objeto mesmo quando fluíram da fala de apenas um dos sujeitos.
Neste estudo, buscou-se o olhar das usuárias dos serviços de proteção, especificamente da Delegacia de Defesa da
Mulher de Guarapuava. A escolha desses sujeitos se deu por sua relevância para a pesquisa. Não houve uma delimitação de
um número a priori das mulheres que viriam a ser entrevistadas, pois, pressupôsse a inclusão de novos sujeitos na medida em
que fosse necessário. Previu-se apenas que as entrevistas deveriam ser realizadas com usuárias que já se encontravam em
acompanhamento nesse serviço.
Esse foi um momento bastante esperado pela pesquisadora já que pressupôs que as usuárias desse serviço
forneceriam novos e enriquecedores elementos para a análise do objeto de estudo. A pesquisadora acreditava que a única
forma de contato com essas usuárias, respeitando-se a ética da pesquisa com seres humanos, seria por intermédio dos/das
profissionais que as acompanhavam nos serviços públicos facilitando a criação do vínculo necessário para a realização da
pesquisa.
Todavia, a cada nova entrevista com os/as profissionais, tornava-se mais evidente que esse não seria um caminho
viável, uma vez que, somente uma profissional indicou sujeitos para a pesquisa. Os/as demais alegaram que a identificação
dessas usuárias não seria possível, pois o contato que estabeleceram com essas mulheres era apenas emergencial, uma vez

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que o acompanhamento desse público era assistemático e descontínuo, impedindo a identificação dessas usuárias nos serviços
onde atuavam.
Frente a essa dificuldade, a pesquisadora optou por realizar a entrevista com a única usuária com a qual conseguiu
estabelecer contato. Tal foi sua importância, que a pesquisa foi estruturada a partir do olhar desse sujeito, presente no corpo
deste trabalho como um todo.
Profundamente marcante pela quantidade e densidade de informações e de vivências, a trajetória dessa usuária
trouxe elementos fundamentais para este estudo. Sua vida foi permeada pela violência doméstica desde sua infância, sofrendo
os mais diversos tipos dessa violação de direitos humanos.
Esse sujeito foi considerado representativo, pois personificou o fenômeno da violência doméstica contra mulheres
em várias dimensões.
Enfim, trabalhou-se com práticas de pesquisa que consideraram o ser humano na sua totalidade, buscando a
compreensão cada vez mais detalhada e profunda do movimento do real, aproximando-se assim do objeto de estudo. Para
tanto, partiu-se de uma análise heurística, na medida em que os dados e informações coletados empiricamente iluminaram o
caminho da discussão teórica, possibilitando a apreensão do real enquanto concreto pensado e considerou-se aqueles com os
quais estabeleceu-se contatos para a coleta de dados e informações enquanto sujeitos históricos e não como objeto.

Violência doméstica: o olhar de quem a vive cotidianamente.


Analisou-se a categoria violência doméstica contra mulheres, visando apontar elementos constitutivos dos
processos sociais e a ordem falocêntrica de gênero a partir do cotidiano de uma mulher que sofreu esse tipo de violência ao
longo de sua vida. Atribuiu-se a ela o pseudônimo de “Esperança”, pois este foi o conceito central apreendido a partir da fala
desse sujeito durante toda a entrevista.
O contato com esse sujeito da pesquisa, que sofreu violência doméstica foi repleto de signficações. O início dessa
relação dialógica foi marcado da seguinte maneira:
- Qual o seu nome?
Perguntou a pesquisadora. E, em meio a um sorriso tímido, respondeu a entrevistada:
- Meu nome é tão comprido quanto a minha esperança!
Durante o relato foi possível imaginar o quanto de esperança essa mulher precisou para se fortalecer e enfrentar
tantas situações de violência ao longo de sua vida.
“Esperança” é uma jovem mulher branca, com 38 anos de idade que cursou até a quarta série primária. Atualmente
trabalha como empregada doméstica, buscando garantir a sua sobrevivência e de seus quatro filhos. Além desses quatro
filhos que residiam com ela, no momento da pesquisa de campo, possuia também uma filha que já estava casada e, que por
sua vez, repetiu o ciclo do casamento precoce tal qual a mãe. Porém, neste caso, não foi possível detectar se sofria algum tipo
de violência conjugal, já que Esperança não relatou sobre a vida da filha.
A sua condição de classe e de gênero trouxe particularidades fundamentais para a compreensão da realidade. A
questão da raça/etnia não se apresentou como um diferencial em nenhum momento do relato apresentado. Atribuiu-se à não
evidência desse elemento na vida desse sujeito, o fato de que Esperança é branca e, assim, pertencente ao grupo étnico
hegemônico.
A trajetória de vida de “Esperança” foi permeada por diversas situações de violência, especialmente no espaço
doméstico. Neste espaço, sofreu violência desde sua infância, por parte de seu padrasto, que se prolongou nas relações
conjugais. Além destas, também foi violentada em seus direitos nas instituições nas quais buscou apoio e proteção. Esses
elementos ficaram claros durante a entrevista realizada para coleta de dados e brevemente apontada ao longo deste trabalho.
Logo em sua infância, “Esperança” saiu de sua casa e foi morar com alguns parentes e conhecidos, tendo em vista a
relação difícil que mantinha com seu padrasto que exercia um controle absoluto sobre ela, seus irmãos, e sobre sua mãe,
[...] eu não tenho pai, eu fui criada por padrasto, sempre morando em casa de outros eu nunca morei junto com minha
mãe porque eu não gostava do meu padrasto era muito complicado [...] (informação verbal).

As complicações por ela aferidas no que toca à convivência com o padrasto se davam, no geral pela relação de
domínio que ele exercia sobre os enteados e na prática de atos violentos contra a sua mãe, seus irmãos e também contra ela,
para afirmar esse controle. De acordo com Saffioti (1997), esse tipo de violência é possível graças ao estabelecimento de um
território físico e de um território simbólico, nos quais os homens detêm praticamente domínio total, tendo assim, como
principais vítimas mulheres, crianças e adolescentes. Seu território geográfico é constituído pelo espaço do domicílio. Todas
as pessoas que vivem sob o mesmo teto, vinculadas ou não por laços de parentesco ao chefe do local, devem-lhe obediência.
No espaço doméstico os homens, em geral, ocupam o lugar de controle, exercendo a vigilância constante sobre os
que estão subjugados ao seu poder. Esse fenômeno incorre numa correlação de forças na qual o uso da violência torna-se um
ato concreto para assegurar o lugar de primazia de um sobre o outro, numa relação de poder e de impotência. A relação de
poder estabelecida pelo agressor/patriarca envolve a potência e a impotência. É justamente na ausência da potência que o
agressor age agressivamente, fazendo uso da violência como estratégia para manutenção de seu controle.

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O jugo do padrasto ao qual a mãe de “Esperança” permaneceu submetida ainda por um tempo significativo após a
saída dos filhos do domicílio, demonstrou o poder exercido por seu companheiro em relação a ela. O poder, por sua vez,
apareceu na forma de autoridade e, portanto, foi reconhecido e legitimado por meio da manutenção dessa relação conjugal.
O poder exercido pelo padrasto no espaço doméstico implicou em autoridade legitimada não só pela companheira,
como também materializou-se como um poder socialmente determinado pela ordem patriarcal de gênero, justificando
inclusive atos violentos.
O domínio do senhor do domicílio se deu, portanto, na relação com as pessoas com as quais mantinha vínculos não
somente consanguíneos como também de afinidade, no caso, os enteados e as enteadas que se submeteram, ao menos em um
dado momento, à lógica de um homem, considerado o chefe da família. Essa chefia não implicava no fato de o sujeito que a
detinha ser o provedor do lar, pois o sustento da família era proveniente do trabalho da mãe de “Esperança”, mas na sua
autoridade enquanto aquele que tomava as decisões e controlava o espaço do domicílio.
[...] Minha mãe trabalhava e ele era, vamos dizer bem pelo certo, gigolozão ficava só em casa e a minha mãe era quem
sustentava a casa (informação verbal).

A compreensão do espaço-domicílio é muito importante, haja vista que, o poder do senhor rompe os muros desse
espaço e se presentifica em todos os lugares por onde os sujeitos subjugados passam, pois na verdade, o controle é
proveniente da relação de opressão física e simbólica.
Esse controle consolidado no espaço domiciliar está consubstanciado na sociedade patriarcal que exclui as
mulheres dos processos de tomadas de decisão, desconsiderando-as como sujeitos históricos, seja no espaço privado ou no
espaço público.
A polissemia do conceito de patriarcado atribuído à sociedade torna-o polêmico, fazendo-se necessário o
esclarecimento teórico da importância da utilização desse termo para afirmar o vetor da violência, evitando-se assim que o
mesmo seja diluído nas relações sociais.
O patriarcado aponta para a dominação da mulher pelo homem, enquanto categorias sociais cuja prática se
desenvolve há, aproximadamente, seis milênios, de acordo com Lerner (1986).
Entende-se que a existência da relação patriarcal incide não somente na hierarquização entre os sexos, mas também
na contradição de seus interesses, isto é na manutenção do status quo para o homem e a busca pela igualdade entre os sexos,
pela mulher.
O patriarcado enovela-se com o racismo e com as classes sociais não de forma quantitativa, mas na realidade que
resulta dessa junção.
No tocante ao capitalismo, depara-se com o traço comum, presente na classe dominante em seus diversos
segmentos, que não são homogêneos, cujas singularidades consistem na sua capacidade e competência para dominar e
explorar a classe que vive do trabalho (ANTUNES, 1998). A subordinação daqueles que vendem sua força de trabalho no
mercado é absolutamente necessária para que haja a exploração, através da qual as classes dominantes obtêm lucro e se
efetivam enquanto tais. Há também nestas, aspectos heterogêneos. As classes médias possuem um traço interessante: os
trabalhadores e as trabalhadoras não estão ligados diretamente ao processo produtivo, porém, têm em comum com os
operários e as operárias o fato de que ambos são dominados pelas diferentes frações da burguesia. Assim, tanto a classe
média, quanto as operárias e os operários e os excluídos e as excluídas do processo produtivo estão submetidos a uma
ideologia conservadora, de aprovação do esquema de dominação-exploração.
Vale ressaltar, que as mudanças aspiradas por parcelas significativas da sociedade, acabam por serem solapadas
pelas posições sociais de algumas frações da classe média. Assim, os choques entre as classes e segmentos de classe,
contribuem para atrasar as conquistas da classe trabalhadora. Tendo em vista a divisão sexual do trabalho, percebe-se que ao
se tratar da produção, esse campo é destinado, predominantemente aos homens, aos quais é atribuída, historicamente, a esfera
pública, enquanto que à mulher, fica restrito o campo da reprodução, não só biológica, mas também dos aspectos culturais e
sociais a serem perpetuados através das gerações. Pode-se questionar essa postura dicotomizadora entre a produção e a
reprodução, uma vez que essas categorias formam uma totalidade no mundo das relações sociais. Embora a mulher venha
assumindo significativos espaços na esfera pública, ainda há muitas conquistas a serem efetuadas.
A questão étnica também compõe o sistema de exploração-dominação. Em termos de racismo, na sociedade
brasileira não são apenas os negros e mulatos que sofrem discriminações, mas também índios, asiáticos e, às vezes, europeus.
Ressalva-se aqui, a mulher negra, que na sociedade brasileira ocupa a última posição, justamente por sua condição de gênero
e de etnia (SAFFIOTI, 1987).
Assim, o sexismo, o racismo e o capitalismo contribuem para a manutenção do poder e do quadro de contradições
existentes, quer no que se refere ao gênero, etnias e as classes sociais. Esses três sistemas de dominação-exploração
fundiram-se de tal maneira, que será impossível transformar um deles, deixando intactos os demais.
Para a apreensão dos rebatimentos do sistema de dominação-exploração no âmbito das relações entre homens e
mulheres, há uma categoria relevante. É a categoria gênero, a qual contribuiu diretamente neste estudo.
Gênero como uma categoria de análise histórica, dentro de uma perspectiva cultural, é analisado por Joan Scott e
Linda Nicholson. Para essas autoras, gênero se refere a um conjunto de significados e de símbolos construídos sobre a base
da percepção da diferença sexual, porém ampliando-o com a compreensão cultural e histórica, considerando-o como uma
categoria de análise.

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Essa é uma concepção interessante, na qual há o enfoque do processo de construção histórico e cultural, abordando
a relação de poder existente entre os sexos, numa perspectiva analítica. Nesse sentido, Scott (1990) esclarece que gênero
implica em quatro elementos, numa proposição inicial.
O primeiro refere-se aos símbolos culturalmente disponíveis que evocam representações simbólicas e
contraditórias. O segundo, sobre os conceitos normativos que evidenciam as interpretações do sentido dos símbolos,
expressos nas doutrinas religiosas, educativas, científicas, políticas ou jurídicas, com combinação binária do masculino e
feminino. Um terceiro aspecto reporta-se à análise da natureza do debate ou repressão produzindo a aparência de uma
eternização na representação binária do gênero, devendo incluir uma noção de política e uma referência às instituições e à
organização social. Por fim, um quarto elemento: a identidade subjetiva, devendo-se estudar as maneiras pelas quais as
identidades de gênero são construídas e relacioná-las com as representações sociais, organizações, entre outras,
historicamente situadas.
Saffioti também discute o conceito de gênero, afirmando que é uma categoria ontológica, histórica e não só de
análise. Gênero está vinculado à natureza transformada pela cultura.
Assim, a categoria gênero pode ser pensada em várias perspectivas e seu entendimento certamente contribui para a
compreensão da dinâmica social. Isso, porque a questão de gênero está imanentemente articulada às formas de exploração-
dominação e na luta pela sua superação, uma vez que é concebido como uma relação entre sujeitos historicamente situados.
Nesta tese corrobora-se o pensamento de Saffioti que compreende gênero como uma categoria ontológica, que tem seu
referente primeiro no sexo e que, devido às mediações históricas, afastou-se desse, instituindo-se e instituindo a construção
cultural de socialização do masculino e feminino, na relação homem-homem, mulher-mulher e homem-mulher, permeados
por relações hierárquicas de poder.
Uma questão premente nessa análise é que, justamente por sua condição relacional, o uso da categoria gênero não
torna claro qual o vetor da exploração-dominação que também se objetiva pela violência. Assim, reafirma-se a análise de
Pateman no sentido de que não é possível substituir a categoria patriarcado por gênero. Para tornar claro qual o vetor da
violência, utiliza-se nesta pesquisa a categoria ordem patriarcal de gênero.
A lógica de poder estabelecida no espaço doméstico pelo padrasto de “Esperança”, retrata de forma muito clara que
a experiência individual reflete as particularidades de um todo universal, já que ele reproduziu no cotidiano o ideário da
ordem patriarcal de gênero, inclusive, de diferentes maneiras. Outro modo de coerção e de violência exercida pelo “patriarca”
foi a prática do abuso incestuoso contra dois filhos: um menino e uma menina. “Esperança”, bastante emocionada, relatou
que,
[...] Na época quando a gente saiu de casa a minha irmãzinha de 6 anos ficou [...] e ele era pai dela mesmo sabe, dessa
menininha. [...] Essa menina, quando ela cresceu [..] com os seus 11 anos ele tentou violentá-la pela primeira vez. Não
conseguiu porque ele [o outro irmão, também filho desse padrasto] correu pedindo socorro. Quando a minha irmã fez
13 anos [...] eu morava longe e eu não sabia de nada. Eu fiquei sabendo já teria acontecido tudo. Pra resumir ele
engravidou a própria filha. Minha irmã ficou bem revoltada, ficou meio fora de si [...] depois de tudo o que aconteceu
com meu irmão também (informação verbal).

O “patriarca” era aquele com quem os irmãos de “Esperança” passavam a maior parte do tempo, haja vista que a
mãe trabalhava fora do domicílio. A princípio, seria o adulto masculino com o qual essas crianças teriam estabelecido o
maior vínculo de confiabilidade, o que potencializou o sentimento denominado na fala acima de revolta.
O poder atribuído ao homem pela ordem patriarcal de gênero, como no caso em estudo, também se materializou no
controle não só das consciências, mas também dos corpos daqueles que estavam subjugados à lógica do patriarca, no caso a
mãe de “Esperança” e de seus irmãos. Enquanto amo e senhor esse homem, teve legitimada a autoridade em relação àqueles
que estão sob seu domínio, apropriando-se deles e atribuindo-lhes um papel de objetos de sua posse. Esta relação personifica
as demais estabelecidas na sociedade que atribui primazia aos homens.
Mesmo em escala significativamente menor, deparou-se com mulheres que cometeram violência contra crianças,
adolescentes e idosos. Todavia, a lógica do patriarca é personificada independentemente da constituição biológica, isto é,
tanto os homens quanto as mulheres em determinadas condições sócio-históricas materializam a ordem patriarcal de gênero,
embora, ressalve-se que os homens são os que têm primazia nessa personificação. Quando a mulher age dessa forma é porque
recebeu de seu o seu amo e senhor essa atribuição de agir nos moldes do patriarca.
O abuso incestuoso constitui-se em uma violação de direitos. Concretiza-se em uma relação de opressão e de poder,
uma vez que, o agressor e a vítima possuem posições completamente díspares, não só no aspecto geracional, mas também de
autoridade e de decisão.

Em busca do sonho: a família ideal


Na perspectiva de resistência ao poder e à violência do patriarca, naquele momento personificado pelo padrasto,
“Esperança” e seus irmãos encontraram como único caminho a saída do lar. É complicado considerar esta como uma
alternativa uma vez que, viviam uma situação na qual não havia possibilidades de escolha. Na verdade foi uma tentativa de
afastamento do jugo daquele que os violentava, sem ter como enfrentá-lo nas condições que se encontravam.

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Com isso, os irmãos separaram-se de sua mãe e cada um, a seu modo, procurou condições de sobrevivência com
outros familiares e amigos. Debruçou-se neste momento, sobre o caminho trilhado por “Esperança”.
“Esperança” deparou-se com várias dificuldades em sua trajetória de resistência ao patriarca. Dentre elas as
relativas à convivência em lares substitutos que vão desde a questão econômica até a aceitação de um indivíduo que não
pertencia aquele núcleo familiar. Esse contexto levou a que buscasse uma nova alternativa: o casamento precoce, como se por
meio do estabelecimento de uma nova relação, pudesse superar as dificuldades vivenciadas. Esse foi um caminho que, no
processo de enfretamento da situação vivenciada, se apresentou como uma possibilidade em determinadas condições
objetivas.
“Esperança” relatou que o casamento representava a possibilidade de uma vida que lhe garantisse condições de
sentir-se pertencente a um núcleo familiar, onde teria condições para viver relações de afeto e de companheirismo.
Essa perspectiva de “Esperança” baseou-se na construção social sobre família. Construção social esta que, nos
últimos anos vem apresentando profundas mudanças.
A partir da segunda metade do séc. XX, o casamento e o conceito de família sofreram influências das mudanças
sociais. Mudanças estas fruto de ações decisivas provenientes das lutas duramente travadas pelos movimentos feministas que
colocaram em pauta questões como a igualdade de gênero, a redefinição de papéis masculinos e femininos nos espaços
públicos e privados e a constituição da mulher como sujeito histórico, para citar alguns dos inúmeros avanços alcançados.
De acordo com Szymanski (2002), família é compreendida como uma associação de pessoas que escolhem
conviver por razões afetivas e assumem um compromisso de cuidado mútuo, todavia, para Marx e Engels (2002) ao
analisarem a divisão social do trabalho e as suas consequências no caso a propriedade privada, o Estado e a alienação da
atividade material afirmam que a família é o embrião da apropriação privada e que, portanto incide na relação hierárquica de
poder.
Bertaux, (1979) analisou as estruturas das relações sociais, tendo em vista as trajetórias sociais, especialmente no
tocante ao lugar da família na estrutura de classe. Para ele, as ligações entre os membros da família se sustentam não somente
por laços de afetividade e de cuidado mútuo, idéia esta oposta ao pensamento de Szymanski, mas, primeiramente, unem-se
com vistas à produção, ou seja, suas relações são em princípio relações de produção e, assim, se situam no campo da vida
prática material sob determinadas condições de classe.
No Brasil, as reflexões sobre as novas estruturas de família influenciaram mudanças legais, fruto dos processos de
luta das mulheres. Exemplo disso, em 1986, o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher realizou em Brasília uma
Conferência Nacional que contou com a participação de aproximadamente 1500 mulheres de todo o território
nacional e que culminou na elaboração da Carta das Mulheres Brasileiras ao Constituinte. Por meio das reivindicações, a
maioria (80%) das propostas apresentadas nessa Carta foi incorporada na Constituição Federal de 1988. Também o Código
Civil Brasileiro – Lei 10.406/2002 vigente desde janeiro de 2003, na esteira do art. 226 da Constituição Federal avançou
nesse sentido. Um dos marcos desse avanço foi a extinção da expressão família legítima, que dizia respeito somente àquelas
formadas pelo casamento formal e passa a utilizar família ou entidade familiar. Esta é composta, de acordo com esse Código
pelo casamento civil ou religioso com efeitos civis; pela união estável, e pela comunidade formada por qualquer dos pais e
seus descendentes. Há assim a legalização de constituição familiar mediante a comunhão plena de vida. Em seu Artigo 1511
também estabelece a igualdade de direitos e deveres dos cônjuges.
Em meio a essa realidade plena de complexidades e contradições, permanece a busca por parte de vários sujeitos
sociais em seu cotidiano, da família enquanto um espaço de proteção.
Há relatos de indivíduos que, como “Esperança”, ainda hoje reproduzem o conceito explicitado por Gomes (1988)
com bastante propriedade, denominado de família pensada. A família pensada é aquela idealizada como uma união exclusiva
de um homem e uma mulher, que se inicia por amor, com a esperança de que o destino lhes seja favorável e que ela seja
definitiva.
Um compromisso de acolhimento e cuidado para com as pessoas envolvidas e expectativa de dar e receber afeto,
principalmente em relação aos filhos. Isto, dentro de uma ordem e hierarquia estabelecida num contexto patriarcal de
autoridade máxima que deve ser obedecida, a partir do modelo pai-mãe-filhos estável. Todavia, a família ao tornar-se real,
concreta apresenta-se, muitas vezes, bastante distinta da pensada, mas nem por isso deixa de ser o chamado ninho de Perrot.
Infelizmente, a questão toma outras dimensões quando a violência se presentifica nessas relações.
“Esperança” buscou nos seus dois casamentos o distanciamento de relações violentas como as que vivenciou em
sua infância e em sua adolescência. Sonhou com a constituição de uma família que de fato, se tornasse um espaço de
acolhimento, de troca de afetos, de cuidado mútuo. Todavia, se deparou com uma realidade bem diferente.

O encontro com a realidade: o sonho desfeito.


A busca pela constituição de uma relação conjugal baseada em afeto e segurança tornou-se mais uma arena de luta
e de resistência para “Esperança”. Casou-se duas vezes e tanto no primeiro casamento quanto no segundo, o sonho da família
ideal não se tornou uma realidade. As relações conjugais que vivenciou se tornaram, em certa medida, a continuidade da
família já vivida por ela em sua infância. Tal como seu padrasto, os seus companheiros tornaram-se seus agressores.
“Esperança” continuou sofrendo com a violência doméstica, que passou a ser perpetrada na relação de
conjugalidade. Violência doméstica constitui-se em uma das formas de materialização da violência enquanto categoria

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histórica e socialmente situada em um sistema de dominação-exploração pautado no patriarcado, racismo e capitalismo,
como abordado anteriormente. A apreensão das particularidades desse fenômeno incidiu na precisão de alguns tipos de
violência, especialmente no que se refere à violência de gênero e à violência intrafamiliar, os quais, mesmo que sobrepostos,
possuem especificidades.
Essa violência é majoritariamente praticada pelos homens contra as mulheres enquanto categorias, cujas relações
são hierárquicas e antagônicas, pautadas na ordem patriarcal de gênero, sendo assim mais ampla e se presentificando nos
mais diversificados espaços e nas mais diversas relações entre os seres sociais. A Convenção Interamericana para Prevenir,
Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher, em seu Capítulo I Art. 1º, define a violência contra a mulher como, “[...]
qualquer ação ou conduta, baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher,
tanto no âmbito público como no privado”.
A violência de gênero pode ocorrer inclusive nas relações entre os familiares ou nos espaços domésticos,
sobrepondo-se a essas. A violência intrafamiliar é aquela que ocorre entre os membros de uma mesma família,
independentemente de sua estrutura, isto é, seja ela: nuclear, extensa, monoparental, de casais, adotiva etc. Isso implica em
dizer que uma das especificidades desse tipo de violência é que ela envolve pessoas que possuem vínculos não só de
consanguinidade, mas também de afinidade, podendo se materializar para além do espaço domiciliar.
A violência doméstica, de acordo com Saffioti (2004) se sobrepõe em alguns aspectos com a familiar, porém atinge
também pessoas que, mesmo não pertencendo à família, vivem parcial ou integralmente no mesmo domicílio do agressor
como, por exemplo, empregadas domésticas.
As relações violentas no espaço doméstico independem de sua formalização, corroborando-se o pensamento de
Szymanski (2002) no que toca a constituição das relações familiares por laços de afetividade e de cuidado mútuo.
Interessante notar que essa violência extrapola as relações conjugais durante a sua vigência e muitas vezes, mesmo após a
dissolução dessas relações, os agressores continuam a desferir ações violentas contra as mulheres, demarcando assim a
continuidade do seu território, agora somente simbólico.
Ocorre na medida em que o agressor entendido como o “patriarca”, estabelece uma relação hierárquica de poder e
de controle contra aqueles que não possuem condições de resistência e de luta e que se encontram sob o seu domínio
geográfico ou simbólico, com dito anteriormente. Majoritariamente é perpetrada por homens contra idosos, crianças,
adolescentes, mulheres e empregadas domésticas, dada a supremacia masculina na sociedade androcêntrica.
Numa das falas de “Esperança” também ficaram claros alguns pontos para a análise das formas de pensar
socialmente construídas sobre a violência. Um deles reportou-se ao fato de que a violência, para esse sujeito, é fruto de um
processo individual e, como tal, sua solução encontra-se em ações individuais.
Evidentemente que esse fenômeno é objetivado por indivíduos, entretanto, esses indivíduos, enquanto seres sociais
exprimem em seu cotidiano um ideário mais profundo, instituído e instituinte das relações sociais contraditórias pautadas no
sistema de exploração-dominação.
As estratégias e instrumentos de violência podem ser diferenciados por classes. A restrição ao poder econômico de
compra e ao status de classe pode ser uma forma de violência, que mantêm as mulheres em relações violentas com homens
ricos. Em contrapartida, para as mulheres pobres a condição de sobrevivência e um teto para abrigá-la e aos filhos pode ser
também uma razão para mantê-las junto ao agressor. A materialização da violência de gênero, a exemplo da violência
familiar e doméstica, ocorre independentemente da condição de classe, raça-etnia, de cultura, de nível de escolaridade,
embora possa ser potencializada pela questão econômica.
“Esperança” apresentou claramente como se deu a materialização da violência doméstica,
[...] sofri violência durante 15 anos [...] pelo meu marido [...] era espancada, era acuada dentro da casa, ameaçada de
várias formas [...] Sofri a violência que está no meu direito de ir e vir, decidir por mim mesma [...] quando tentava sair
fora da relação ele usava o meu filho de 9 anos, porque eu tenho 2 filhos com ele [...] me chantageava. [...] Engravidei
do primeiro casamento e [...] já era uma violência [...] aconteceu de engravidar e quando eu contei pra ele [...] ele dizia
que eu estava grávida do pai dele, que eu estava grávida do irmão dele. [...] estava tão nervosa [...] pelo stress todo eu
acabava abortando as crianças. Ele fazia questão de me chamar de vaca, de piranha, de vagabunda, que eu era uma
porca, uma porca com os filhos [...] No segundo aborto o meu marido perguntava pra uma pessoa e pra outra: - Esses
chás do fundo do quintal que fazem, ele fazia, ele tinha o trabalho de fazer chá pra mim e me dar. Não sei se foi o chá
ou se foi o stress mesmo que acabei perdendo o segundo [...] ele usando de violência naquelas horas ele achava que
seria um meio também de eu abortar e aí acabava machucando. Até chegou uma vez eu briguei, a gente se enrolou lá,
[...] ele queria introduzir o cabo de uma escova pra tirar a criança (informação verbal).

Nesta fala ficou claro que a violência doméstica contra mulheres ocorre por meio de agressões físicas, emocionais,
morais e sexuais e que, muitas vezes são cometidas concomitantemente.
A violência doméstica contra mulheres constitui violação de Direitos Humanos e Liberdades Fundamentais e,
assim, não pode ser considera apenas como uma ruptura de qualquer forma de integridade da vítima. Como quebra de
integridade, situa-se no terreno da individualidade. Como violação de Direitos Humanos atinge o humano-genérico e a situa
no sistema de exploração-dominação pautado no patriarcado-racismo-capitalismo.
A partir da análise de alguns casos acompanhados por esta pesquisadora enquanto assistente social no CIAM, em
Bauru, foi revelado que, muitas mulheres alegavam que preferiam continuar com os companheiros agressivos dentro de casa,

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pois, se eles deixassem o lar, correriam o risco de que os chefes do tráfico das comunidades onde moravam, invadissem suas
casas, para usá-las como pontos de apoio.
A permanência da figura masculina, representava para as mulheres pobres, certa proteção em relação à violência
urbana. Em contrapartida, as raras vezes que essa instituição foi procurada por mulheres ricas pertencentes à classe
dominante, elas afirmavam que preferiam manter a relação violenta a perderem o conforto e o poder aquisitivo que
desfrutavam pela condição de classe de seus maridos. O que fica claro é que o recorte de classe se objetiva concretamente nas
relações conjugais violentas, sob determinadas condições.
Um dos elementos eminentes da violência doméstica conjugal apareceu claramente na fala de “Esperança”: a
permanência em uma relação violenta por um tempo considerável, no caso durante 15 anos. Realidade essa vivida por mais
de 20%, em média, das 2.502 brasileiras entrevistas pela Fundação Perseu Abramo (VENTURI; RECAMÁN; OLIVEIRA,
2004).
Esta pesquisadora atribuiu a essa permanência uma série de fatores que concretizam a ordem patriarcal de gênero,
como: a ideologia da defesa da família e a importância da figura masculina na vida da mulher; a falta de serviços de apoio e
de proteção e a desinformação, a escassez de recursos financeiros suficientes para recomeçar a sua vida em outro lugar e o
medo das ameaças do companheiro. Esta situação se repetiu continuamente durante o segundo casamento de “Esperança” o
que por sua vez, reiterou a realidade vivida por inúmeras mulheres que sofrem violência conjugal.
A família real, concreta, sob determinadas condições de classe, raça/etnia e de gênero é constituída, muitas vezes,
por indivíduos que possuem visões de mundo e interesses antagônicos, o que pode levar à conflitos, violências,
concorrências, tornando-se uma arena de luta. Longe de refletir o conceito de família ideal, pode se tornar um espaço que
ameaça a vida. A fala de “Esperança” ao se reportar ao fato de que seu padrasto além de ameaçá-la e de agredi-la fisicamente,
tentou estuprála, deixa mais clara essa questão,
[...] fiquei abalada com o que aconteceu e o que acontecia comigo quando criança, de pessoas tentarem [...] de você ver
uma pessoa adulta, uma pessoa que te cuida e essa pessoa acaba fazendo coisas que acabam marcando por uma vida
inteira e eu fiquei assim [...] (informação verbal).

Não obstante fatos como estes se repetirem cotidianamente, a família permanece sendo pensada enquanto um
espaço de proteção. Evidentemente há inúmeras famílias que o são, todavia não é possível atribuir essa característica a todos
os grupos familiares. Mas, mesmo assim, a família mantém seu status de instituição harmônica, ao menos em tese, e para a
qual há uma conjugação de forças sociais para isso. O risco dessa ideologia da defesa cega da família está na manutenção do
núcleo familiar mesmo que para isso, se pague um preço muito alto, até mesmo com a própria vida de um ou mais de seus
membros.
Além disso, a violência conjugal tem uma característica peculiar: é perpetrada pelas pessoas nas quais as mulheres
buscam companheirismo, apoio, afeto e cuidado. Em algum momento, houve um encontro e uma promessa de afetividade e
confiabilidade. Houve a construção de um projeto idealizado de vida em comum que, muitas vezes geraram frutos: os filhos.
São relações compostas por esperanças e frustrações, sonhos e desilusões, amor e ódio, encontros e desencontros. Essa lógica
complexa e contraditória compõe a rotina dos casais em relações violentas e que pode criar uma relação de co-dependência e
o estabelecimento de uma relação fixada na violência.
É possível entender a ambiguidade das mulheres, que ao mesmo tempo desejam romper a relação violenta, mas
retomam a convivência com o agressor. Há diversas situações nas quais as mulheres buscam auxílio externo seja na Polícia
Militar ou em serviços de apoio e dizem que só querem dar um susto no agressor, mas não querem prejudicá-lo, afinal ele é o
pai de seus filhos. Claramente está posto que se trata de uma relação que envolve, de alguma forma, a afetividade e
confiabilidade, incorrendo em inúmeras dependências entre ambos.
Esse relacionamento fixado pode ser personificado por outros sujeitos ao longo da vida. Uma determinada mulher
que sofre violência após conseguir romper definitivamente uma relação violenta com um companheiro pode iniciar uma nova
relação, com outro sujeito que age tão violentamente quanto o primeiro como no caso de “Esperança”.
Além da dependência por relacionamentos dessa natureza, esse fenômeno se explica também pelo fato de que não é
possível romper espontaneamente com o ideário androcêntrico e, com isso, tendencialmente, a probabilidade de se deparar
com homens que reproduzem esse ideário é significativamente maior do que com homens que já o tenham superado.
Outra razão é que, há a manutenção dos padrões de relacionamento apreendidos na infância.
“Esperança” trouxe uma reflexão baseada em suas percepções empíricas que ilustram com propriedade essa
afirmação.
[...] via a mãe e se criou com a mãe, abaixando a cabeça pro pai, o pai fala mais alto, o pai grita com a mãe, o pai bate
na mãe, a mãe não faz nada, a mãe não pede socorro, a mãe não pede ajuda e ela acha que quando ela crescer [...]
porque eu penso assim, nós somos espelhos para os nossos filhos e tudo o que você faz ele vai te copiar, e ela vê, e o
filho homem a mesma coisa. A filha também se criou vendo a mãe naquela situação e ela vai na sua vida matrimonial
agir da mesma forma, eu penso assim. E o menino também: -Ah o pai bate na mãe pra ela calar a boca e ela obedece
[...] eu vou fazer assim pra minha mulher também (informação verbal).

“Esperança” evidenciou também o quão importante foi o apoio familiar que recebeu para enfrentar a violência
vivenciada. Embora a família a tenha acolhido, num primeiro momento, sentiu muitas dificuldades para se manter afastada do
agressor. As pessoas que a ajudaram durante o primeiro casamento foram os familiares de seu companheiro, especialmente

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uma das irmãs dele. Entretanto, esse apoio era restrito, já que a distância entre as residências dos familiares e a de
“Esperança” não garantia a sua segurança.
[...] não encontrava apoio [...] as portas estavam fechadas de todos os lados [...] existem pessoas por detrás dessa
história que me ajudaram que me deram bastante força e é por isso que eu estou aqui em pé [não sabia o que fazer por]
falta de informação (informação verbal).

A permanência em relações conjugais violentas também ocorre pela ausência de apoio não só de parentes e amigos,
mas principalmente de serviços públicos que ofereçam proteção às mulheres e seus filhos quando do enfrentamento da
violência conjugal.
O total desconhecimento de “Esperança” em relação aos seus direitos, inclusive aqueles relativos à guarda dos
filhos tornou-se uma das questões potencializadoras de sua fragilização fazendo-a voltar ao jugo do agressor. Além do fato de
que este a ameaçava dizendo que ficaria com a guarda dos filhos, também tinha medo em relação às possibilidades de que o
companheiro cometesse violência e abuso também contra a sua prole.
[...] quando tentava sair fora da relação ele usava os meus filhos [...] me chantageando porque de certa forma, também
eu voltava pra relação por medo que ele fizesse alguma coisa com o meu filho tipo como teria acontecido com a minha
irmã e com o meu irmão também. Então, eu acabava voltando de medo. Não porque eu quisesse (informação verbal).

A existência de recursos de apoio e de proteção são elementos fundamentais para o enfrentamento da violência
doméstica, inclusive porque constituem meios que devem garantir a veiculação de informações e efetivação dos direitos das
mulheres.
Essa permanência e retornos contínuos para as relações violentas também pode se dar em função da ausência de
recursos financeiros para a garantia de sobrevivência das mulheres e de seus filhos, pois, muitas vezes essas mulheres são
impedidas de trabalhar fora do lar pelos maridos, sob os auspícios da infidelidade feminina.
Conforme dados da Fundação Perseu Abramo (VENTURI; RECAMÁN; OLIVEIRA, 2004), 9% das mulheres são
as provedoras do lar e 36% auxiliam nas despesas. Essa é uma realidade que denota as dificuldades para as mulheres
deixarem o espaço doméstico e garantirem a sua sobrevivência e a de sua prole.
A tolerância das mulheres nas relações violentas não implica sua passividade ou consentimento. Saffioti (2004)
citando a posição de Nicole Claude-Mathieu afirmou que as mulheres enfrentam a violência sofrida com os instrumentos que
individualmente possuem, haja vista que, “sendo detentoras de parcelas infinitamente menores de poder que os homens, as
mulheres só podem ceder, não consentir”.
Pressupõe-se que, se “Esperança” tivesse acesso às informações sobre os seus direitos e se fosse acompanhada por
serviços de proteção e apoio a mulheres que sofrem violência conjugal, sua trajetória de vida seria diferente. A tomada de
consciência sobre a sua condição de sujeito e, a possibilidade de contar com o suporte necessário para seu fortalecimento, por
meio de ações de acompanhamento no âmbito social, psicológico e jurídico, além de um espaço que a abrigasse e seus filhos,
seria possível o seu empoderamento enquanto sujeito de direitos, possibilitando a tomada de decisão de acordo com suas
demandas, antes mesmoque se envolvesse em uma segunda relação conjugal violenta.

A luta solitária.
“Esperança” também contribuiu para a compreensão de uma das inúmeras dificuldades que as usuárias encontram
para denunciar a violência conjugal. Este relato refere-se ao vivido por ela na Delegacia de Defesa da Mulher.
- Aí eu fui pra Delegacia e foi assim:
- Gostaria de registrar uma queixa.
– Contra quem? [Falou o escrivão]
- Fulano de tal.
- Por quê?
[...] Não tinha Delegacia da Mulher aqui. Ela existia, daí ela fechou e, agora, ela voltou de novo. Só tinha um número
na Delegacia da Mulher. O rapaz que me atendeu, que me ouviu na Delegacia, ele digitou o meu nome no computador,
endereço, aquela coisa toda.
- Por quê a senhora quer registrar uma queixa?
E contei:
- Estou tentando sair de uma relação assim, assim [...] não dá muito certo, ele me ameaça, ele tem arma de fogo dentro
de casa. Já tentei sair outras vezes e voltei por medo, porque ele ameaçou os meus filhos, ameaçou a minha família [...]
E, ele [...] com os pés em cima da escrivaninha sabe [...] depois que eu comecei a contar ele parou de digitar o
computador, colocou os pés e cruzou os braços e assim olhando com uma cara bem cínica [...] ele só falou num tom de
voz mais alto que a minha:
- E por que é que a senhora não fez uma queixa antes? É porque a senhora consente com o que está acontecendo!
Então eu fui procurar ajuda e, como diz o ditado, sai com o rabinho entre as pernas. Saí de lá [...] porque você vai
pedindo um socorro e eles te recebem assim [...] já está com medo já arranquei forças não sei da onde pra denunciar e
daí, chego lá e sou recebida nessa situação [...] Aí eu não fui mais. Eu fiquei muito tempo, depois disso [...] muito,
muito tempo [...]

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[...] Voltando lá eles mandaram uma intimação pra ele e ele foi. A pessoa que escutou ele era homem e são poucos os
homens que respeitam o direito da mulher, até nas autoridades competentes e o tabu ainda eles dizem que já caiu, não
caiu não. Não é verdade, em algumas áreas ainda não, pode ser que eu esteja errada, mas eu sei é isso. E mandaram
uma intimação, ele foi intimidado [...] e chegando lá, ele conversou com uma, eu não sei se era delegada ou assistente
de delegada e, não estou lembrada, e conversou sabe [...] Ele levou ela na manha, no bico e ficou o dito pelo não dito.
Eu saí de megera e ele ficou de bom. A verdade foi essa.
E passou uma régua, uma borracha e nem o nome dele ficou lá. E foi por isso eu fiquei durante muito tempo, acuada
[...] me sentindo presa naquela situação, uma situação que eu tava tentando sair a qualquer preço, porque eu não era
feliz com essa pessoa (informação verbal).

“Esperança” sofreu as consequências da violência institucional, ou seja, um atendimento que também a violentou
em seus direitos e a culpabilizou pela violência sofrida. Nem sequer foi ouvida com dignidade e, com isso, as poucas forças
que havia reunido para recorrer à justiça se esvaíram.
Esse é um quadro vivido por tantas outras mulheres que são humilhadas inclusive nos serviços que legalmente têm
por função a sua proteção e segurança.
Há diversas situações nas quais são recorrentes atitudes de violência ou de indiferença por parte dos/das
profissionais que impedem o efetivo atendimento das demandas das usuárias, uma vez que elas nem ao menos conseguem
denunciar os crimes sofridos.
“Esperança” complementou o seu relato relembrando a situaçãovivida por sua mãe, dizendo que,
[...] na época o socorro não tinha como não tem até hoje. Minha mãe deveria ter sido acolhida com essas crianças [...] o
dever da lei é cuidar (informação verbal).

Essa difícil realidade descrita por “Esperança” e vivenciada por tantas mulheres leva ao não enfrentamento da
violência conjugal e até mesmo ao fato das mulheres sentirem-se as rés, quando na verdade são elas que têm os seus direitos
violados.
Há casos de mulheres que conseguiram romper uma relação violenta, por meio da tomada de atitudes individuais de
enfrentamento. “Esperança” é uma dessas mulheres. Decidida em separar-se legalmente de seu primeiro marido, comunicou a
ele a sua decisão:
[...] Quando eu cheguei na presença dele com esses papéis [para a separação judicial] ele falou:
- Quer ver o que eu faço com isso?
Ele rasgou em mil pedacinhos aqueles papéis e disse assim:
- Não tem Lei porque eu mato e quero ver quem é que faz isso [...] quem é que vem aqui e toma meus filhos e, se você
continuar fazendo isso eu vou te matar! (informação verbal).

Situações como esta, infelizmente, são corriqueiras. Quando as mulheres conseguem enfrentar a violência conjugal
sofrem diversas ameaças, agressões e até mesmo tentativas de homicídio. E, se vêem sozinhas, pois não podem, muitas
vezes, contar nem com os recursos de proteção e apoio legalmente instituídos, ora porque inexistem em algumas
localidades, ora porque neles também são violentadas em seus direitos.
“Esperança” diante de mais essa dificuldade reuniu forças para romper definitivamente essa relação. Contando
apenas com o apoio de seus familiares e também de seus empregadores que informaram sobre a Lei “Maria da Penha”,
separou-se de seu marido.
Atualmente, “Esperança” mora com seus filhos e continua trabalhando como empregada doméstica, porém não vive
mais com nenhum companheiro. Além de conseguir romper as relações conjugais violentas, demonstrou interesse em
contribuir com outras mulheres que também vivem situações semelhantes às dela.
Eu tenho uma vizinha minha que sofre esse tipo de violência pelo marido. O marido bate nela, ele bebe, xinga,
espanca, ela e as crianças e inclusive ela tem que sair de casa. Ainda estou procurando um jeito de chegar até ela e
conversar e contar que existe essa Lei que ampara, porque ainda existem mulheres que tão presas, são violentadas de
todas as formas e tenham medo de ficar na rua, tenham medo de morrer, como já aconteceu [...] então eu acho que nós
mulheres [...] tem que se unir e gritar por esse direito que a gente tem. Eu penso assim (informação verbal).

“Esperança” personificou um sujeito múltiplo e contraditório, conforme o pensamento de Lauretis (1994, p. 208).
Ela é um sujeito que vive em determinadas condições históricas e objetivas, constituindo-se enquanto sujeito e objeto da
história. Enquanto indivíduo situado em uma dada realidade, cuja existência se materializa concretamente, enfrentou as
situações de violência com os instrumentos que possuía. A compreensão de violência desse sujeito e suas formas de
resistência, iluminadas também pela produção teórica aqui apresentada, foram fundamentais para o aprofundamento deste
estudo. Para tanto, o modo de pensar de “Esperança” foi apreendido a partir de sua singularidade, isto é, em sua
cotidianidade, buscando sua compreensão enquanto concreto pensado.

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Conclusão
Este estudo foi construído em meio a inúmeras inquietações, questionamentos, reflexões e dúvidas, que
contribuíram para o adensamento de meu conhecimento em relação ao tema o que, em muitos momentos, colocou em xeque
a minha maneira de pensar enquanto pesquisadora.
Pleno de significações foi o momento no qual conheci “Esperança”. Tal foi a importância desse contato que me
debrucei ao longo de todo o processo investigativo sob o olhar desse sujeito extremamente representativo das mulheres que
sofrem violência doméstica.
Busquei também as interconexões do objeto de estudo com as condições objetivas e suas determinações, partindo
do pressuposto de que a realidade social só se apreende por aproximação, pois é mais rica do que qualquer pensamento que
possamos ter sobre ela (LÊNIN, 1965).
Para tanto, debrucei-me sobre a categoria violência e sua materialização no espaço doméstico perpetrada por
homens contra mulheres na relação de conjugalidade. Fundamentei o estudo sobre os avanços teóricos, legais e políticos que
se referem ao enfrentamento desse fenômeno.
A análise da violência doméstica da ótica das mulheres que a sofrem, incidiu na compreensão de suas
particularidades que, por sua vez, remeteram ao estudo dessa categoria fundamentada em um sistema de dominação-
exploração pautado no patriarcado, racismo e capitalismo (SAFFIOTI, 1987), cujo ideário se presentifica em todas as
relações sociais. Assim sendo, as ações dos sujeitos sociais são permeadas pela ordem hegemonicamente androcêntrica,
etnocêntrica e capitalista.
A violência é uma categoria que tem sua existência na correlação de forças entre interesses antagônicos e
contraditórios reais e se inscreve no campo de relações sociais situadas em determinadas condições sócio-históricas,
econômicas e políticas (SILVA, 2004).
Violência doméstica costumeiramente aparece como um ato pontual, localizado somente na esfera individual, sem
suas interconexões com a totalidade, no entanto, esse tipo de violência inscreve-se num circuito que se (re)produz como um
processo que não se limita à esfera individual e cuja realização supõe determinadas condições sócio-históricas.
As ações violentas possuem teleologia e contam com sujeitos intencionais que as realizam com, pelo menos, um
mínimo grau de consciência, uma vez que toda atividade humana possui caráter teleológico, isto é, o ser humano projeta
finalidades a partir não só de necessidades, mas também, de possibilidades, que por sua vez, conduzem a uma ação
(LUKÁCS, 1979b). Dessa maneira, esse fenômeno se objetiva na realidade, com sujeitos reais, a partir de determinadas
particularidades e em dado momento histórico.
A superação desse ideário implica na articulação de ações complexas no âmbito sócio-histórico cultural, com a
apreensão crítica do sistema de dominação-exploração da classe, etnia e gênero. Para tanto é preciso estabelecer a unidade
teórico-prática já que o conhecimento só é alcançado na relação que teoriza a realidade e a prática desenvolvida. Com isso
revê e reformula a análise teórica a partir de elementos implícitos na própria realidade.
É fundamental também a incorporação da categoria gênero de forma transversal em todas as esferas da vida social,
especialmente na formação profissional e de projetos mais amplos no âmbito jurídico, social, político, educacional, de
movimentos sociais, entre outros.
Enfim, para o enfrentamento da ordem patriarcal de gênero e de suas formas de materialização como a violência
doméstica, são fundamentais não somente a elaboração e execução de políticas públicas; a dotação orçamentária no âmbito
Federal, Municipal e Estadual; a criação e implementação de serviços de apoio e proteção pautados nas demandas e na modo
de agir e de pensar das mulheres que sofrem violência doméstica; o enfrentamento dos limites institucionais, ou ainda, a
formação profissional comprometida com a apreensão crítica da realidade e com a perspectiva de gênero. Na verdade,
acredito que somente com a materialização de todos esses elementos conjuntamente articulados com a construção coletiva de
estratégias de luta frente às condições de vida das mulheres que sofrem violência doméstica, será possível construir um
caminho que leve ao processo de crítica transformadora desse ideário. Evidentemente é uma arena onde interesses
antagônicos travam duras lutas, porém é justamente essa arena contraditória que fornece as condições para a sua superação.

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O caleidoscópio da “violência conjugal”: instituições, atores e políticas públicas no Rio de Janeiro 1

49
Aparecida Fonseca Moraes
Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS/UFRJ)
cimoraes@terra.com.br

Carla de Castro Gomes


Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS/UFRJ)
carlota@gmail.com

Resumo: Ações destinadas ao combate da violência conjugal foram incorporadas às políticas públicas em muitos países. Inspiradas nos
valores feministas que defendem os ‘direitos das mulheres’ a uma vida privada não violenta, estas são vistas como um importante caminho
de promoção da justiça de gênero. Considerando as dimensões culturais e práticas sociais implicadas na experiência brasileira, a
comunicação expõe um conjunto de problematizações a partir da interação de grupos de atores importantes nesse processo: organizações que
representam o Estado (delegacias policiais), organizações influenciadas pelo feminismo (centro de atendimento a mulheres vítimas de
violência) e mulheres vitimadas. Tendo como campo de pesquisa a cidade do Rio de Janeiro, são pontuadas algumas dificuldades no combate
à violência conjugal considerando três contextos ou dimensões: A) a difusão dos valores do feminismo e os desafios postos nas
particularidades da nossa sociedade para que estes se concretizem. B) a dimensão da judicialização dos conflitos ocorridos na intimidade,
onde se sublinha as tensões na introdução de tal ordem reguladora, especialmente quando os casos implicam em publicização da desarmonia
conjugal ou familiar. C) as trajetórias das políticas de combate à violência conjugal no Brasil, tendo como principal expressão as Delegacias
Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs). Os principais resultados apontam para a coexistência de expectativas bastante
diferenciadas nas políticas de combate à ‘violência conjugal’. As formas de compreensão das dinâmicas dessa violência e dos papéis dos
atores envolvidos expõem ambiguidades e confrontam projetos de instituições do campo feminista, do Estado e as mulheres vítimas que
recorrem aos serviços.

1. Introdução
Em muitos países as políticas públicas incorporaram ações destinadas ao combate da violência de gênero. Inspirado
nos valores feministas que defendem os ‘direitos das mulheres’ à vida privada e conjugal não violenta, o desenvolvimento
dessas políticas é considerado um dos caminhos de redução das desigualdades de gênero, de promoção da igualdade e da
justiça social (WALBY, 2004).
A partir de pesquisas realizadas no Rio de Janeiro, esse capítulo apresentará algumas dificuldades das instituições
envolvidas no combate à “violência conjugal” 2 para forjarem os acordos necessários a uma compreensão compartilhada de
justiça que implique no reconhecimento de uma posição igualitária das mulheres, de acordo com o ideário que inspirou esse
campo de ação pública. A trajetória das políticas de combate a esta violência, na qual chama atenção o momento atual de
regulamentação e implementação da lei “Maria da Penha” 3, expõe um necessário debate acerca das possibilidades e
dinâmicas de distribuição de justiça por tal via, especialmente em torno de sua administração pública e consequências nas
instituições que integram o sistema de justiça-criminal.
As políticas de combate à violência de gênero no Brasil se fundamentam em um tipo de reconhecimento, o da
opressão das mulheres, e têm como principal objetivo mudar essa posição. O pacto da agenda social do governo federal em
vigor no país admite que o combate à violência contra as mulheres requer percepção multidimensional e que coloca também
a exigência de políticas que acelerem a redução das desigualdades entre homens e mulheres, prevendo em sua política
nacional de enfrentamento uma ampla parceria com vários Ministérios e outros órgãos do poder público.4
No entanto, alguns estudos brasileiros vêm, de alguma maneira, apontando a coexistência de padrões institucionais
muito variados nas políticas de combate à ‘violência conjugal’, indicando que as diferentes formas de compreensão dos
conflitos e das ‘violências’, expõem confrontos de projetos e de expectativas entre instituições do campo feminista,
instituições do Estado e famílias das mulheres vítimas que recorrem aos serviços.5 A nossa pesquisa, realizada no Rio de
Janeiro, também mostrou que a implementação das políticas de combate à violência conjugal confronta referências culturais
múltiplas e distintas, tornando problemática a institucionalização de novos padrões culturais consoantes com a agenda global
introduzida pelo feminismo.
Embora o feminismo e os direitos humanos alcancem difusão e penetração crescentes na nossa sociedade e
instituições, o tratamento das questões postas por esses movimentos e seus processos políticos está longe de produzir
resultados lineares. Consideramos que os diferentes caminhos percorridos na trajetória de incorporação destes novos
conteúdos, ao contrário, introduziram um plano permanente de tensões entre valores e direitos universais e práticas sociais

1
Essa é uma versão provisória e resumida de um capítulo a ser publicado na coletânea Gênero, violência e direitos na sociedade brasileira, organizada por Bila
Sorj (IFCS) e Aparecida F. Moraes (IFCS). Parte da pesquisa desenvolvida para esse trabalho contou com o apoio da FAPERJ, através do Edital Direitos
Humanos/FAPERJ (2005), sob a outorga da professora Bila Sorj, a quem agradecemos também as inúmeras contribuições e supervisão da investigação.
2
Entendida como uma violência que ocorre no âmbito privado ou em outras relações de intimidade, entre parceiros amorosos.
3
Lei nacional, promulgada em agosto de 2006, que trata de maneira específica da violência doméstica e conjugal contra a mulher. Consulte seção 4 para mais
informações sobre a lei.
4
Considerando as políticas de combate à violência contra a mulher como “formas de combate às desigualdades de gênero e de estabelecimento da justiça de
gênero”, desde 2003, através da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres (SPM), o governo federal intentou combater a “fragmentação” identificada nessa
área através da criação da Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres. Ver, SPM (2003) e SPM (2007).
5
GREGORI (1993); BRANDÃO (1998); PASINATO IZUMINO (2004), entre outros.

50
locais que orientam os atores e as instituições. Não se trata de interpretar essa questão opondo processos de modernização (e
de universalização de valores) e práticas que expressariam mera resistência às mudanças.6 Interessa destacar as tensões postas
nessas articulações, assim como alguns dos seus resultados díspares ou mesmo paradoxais quando são confrontadas as
expectativas dos diferentes atores e instituições.
Tal complexidade, sem dúvida, é o pano de fundo de toda análise que aqui empreendemos. Ao mesmo tempo, no
âmbito de uma reflexão sobre a construção da igualdade através das políticas feministas, chamamos atenção para os estudos
de FRASER (2002, 2000), a fim de destacar um dos aspectos que a autora aponta como condição para a promoção da “justiça
de gênero”: o da mudança na hierarquia de status na qual estão colocados homens e mulheres. Isso significa considerar,
previamente, que os modelos de status são perpetrados através das instituições sociais que regulam a interação social de
acordo com normas que impedem a paridade, ou seja, o reconhecimento da posição das mulheres como parceiras plenas na
interação social. Assim, por exemplo, a difusão de um conceito equivocado de reconhecimento poderia terminar
privilegiando, pela via da institucionalização de valores, traços associados com o masculino e/ou calcados na própria cultura
patriarcal. 7 Nessa dimensão analítica, as nossas considerações são de que o campo de políticas governamentais de combate à
violência de gênero no Brasil, se desenvolve através de uma tensão permanente entre os valores disseminados via as novas
perspectivas da “justiça de gênero” e aqueles que, presentes na nossa cultura, obstam tal alcance .
Isso posto, priorizamos, então, uma análise das dimensões culturais, práticas sociais e políticas implicadas nessa
experiência, para expor um conjunto de problematizações a partir da interação de grupos de atores importantes nesse
processo. Através de pesquisa qualitativa, mostramos como essas dificuldades apontadas emergem nas rotinas das
instituições que combatem a ‘violência conjugal’ e sublinhamos o fato de que a agenda de direitos difundida pelo feminismo
vai sendo transformada, dotando de caráter contingente o campo de realização dessas políticas públicas. Como em um
caleidoscópio, a percepção do fenômeno da ‘violência conjugal’ se alterna de acordo com os lugares que os atores ocupam
nesse campo e oferece várias possibilidades de combinação. Identifica-se, nesse caso, a coexistência de diferentes valores e
moralidades que compõem o quadro das políticas de combate à ‘violência conjugal’, o que é especialmente marcado por
expectativas que, em geral, são díspares e poucas vezes compatíveis, entre grupos de profissionais influenciadas pelo
feminismo, grupos de policiais que atuam nas delegacias e as mulheres que recorrem a essas instituições.
Três contextos ou dimensões implicados na produção das políticas públicas de combate à violência de gênero no
Brasil são destacados nessa abordagem: A) as expectativas e valores do feminismo, bem como os seus reflexos na produção
dos estudos sobre gênero e violência no Brasil; B) a regulação e judicialização de questões da intimidade das famílias e das
relações de afeto; C) as trajetórias das políticas de combate à violência conjugal no Brasil, tendo como principal expressão as
Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs), instrumento que hoje, programaticamente, se procura
integrar a uma ação multisetorial de combate à violência.

2. Expectativas do feminismo e estudos sobre gênero e violência no Brasil


A penetração dos valores do feminismo nas diferentes sociedades não se realiza sem tensões e por isso também
encontra desafios para se concretizar. O ideário feminista sustenta as suas reivindicações na referência a direitos universais e
a um padrão global de justiça. Nessa construção social, valores como autonomia, emancipação e livre-arbítrio das mulheres,
de alguma maneira constituem as principais expectativas de mudanças dos movimentos feministas. A expressão mais
concreta desse “universal” construído pelos atores coletivos do feminismo se mostra através de um conjunto de práticas
institucionais, principalmente através do desenvolvimento das comunicações e das instituições globais.8 O feminismo
conseguiu fazer com que a violência contra as mulheres fosse reconhecida como uma violação dos direitos humanos,
tornando o fortalecimento dos sistemas de justiça criminal em defesa destas um requisito para os governos nacionais que
aderiram a tal agenda de direitos. Essas mudanças, sem dúvida, aumentaram a circulação de valores do universo feminista,
mas esta muitas vezes termina por confrontar expectativas bastante diferenciadas na vida concreta dos indivíduos,
especialmente das mulheres. Não obstante as grandes conquistas e oportunidades alcançadas pelo feminismo em sua
perspectiva globalizada, os problemas também foram tecidos em novas tramas que tendem a colocar mais desafios.

6
Conforme já foi explorado em outras análises (SORJ & MORAES, 2008; SORJ, 2002; MORAES, 2006), tal complexidade pode ser examinada nos recentes
debates sobre a globalização e sistemas culturais. Estes debates parecem ter atualizado uma antiga disputa no interior da sociologia que confronta as chamadas
“teorias da modernização” e interpretações “culturalistas e historicistas.” A primeira foi responsável por um tipo de interpretação na qual a superação de valores
tradicionais prevalentes nessas sociedades viria mediante a emergência de elites modernizadas (GERMANI, 1969, apud. SORJ & MORAES, Op. Cit.). A
segunda enfatizou os processos de resistência às mudanças estruturais e culturais introduzidas pela modernização (BERGER, BERGER & KELLNER, 1974,
apud. SORJ & MORAES, Op. Cit.).
7
Nancy Fraser propõe uma “abordagem bidimensional” capaz de englobar tanto questões de distribuição, quanto de reconhecimento. Uma “injustiça de gênero”
seria realmente reparada se houvesse mudança tanto na estrutura econômica quanto na hierarquia de status na qual estão colocados homens e mulheres. Não
temos o propósito de tratar essa dupla face de redistribuição e reconhecimento, tal como é vislumbrada na ampla agenda de estudos da autora. Ao mesmo tempo,
uma consideração à abordagem via status é bastante adequada às nossas problematizações. Tal abordagem, de fato, não significaria reduzir o debate à “questão
de identidade”. Segundo Fraser, o reconhecimento requer exame dos padrões institucionalizados, de valor cultural, para verificar seus efeitos na posição
(standing) relativa das mulheres. Esses padrões institucionalizados assumem formas variadas, podendo estar codificados no Direito, nas políticas
governamentais, nas práticas profissionais padronizadas, interações cotidianas etc., constituindo modelos que representariam “séria violação da justiça”
(FRASER, 2000, pp. 113 e 114; 2002, pp. 65, 66 e 71).
8
Refere-se, principalmente, aos grandes eventos, órgãos e conferências internacionais.

51
Já se afirmou que o século XX, marcado por estrondoso questionamento da ordem patriarcal, teria sido outro não
fosse a reverberação polifônica do feminismo (CASTELLS, 1999). O feminismo não só é o principal ator coletivo no
contexto das mudanças experimentadas nas relações de gênero, como os seus movimentos também difundiram um campo
rico de interpretações sobre a opressão feminina. No caso do tema da violência, as argumentações feministas mais
consolidadas estruturaram a compreensão de que tal fenômeno é a consequência mais nefasta da dominação masculina. De
forma bastante genérica, podemos dizer que as seguintes idéias pautaram as principais estratégias dos movimentos feministas
para o avanço de políticas públicas de combate à violência conjugal: a denúncia de um tipo de vitimização que atinge as
mulheres, mas, ao mesmo tempo, a afirmação do potencial das mulheres para agir diante da violência conjugal. A
reivindicação de políticas que pudessem eliminar essa violência trazia embutida a idéia de que as mulheres agiriam com
autonomia e de maneira determinada, no sentido de publicizar a opressão do homem violento nas suas vidas.
Foi com o quadro de idéias e interpretações feministas, que a maioria dos estudos de gênero dialogou ao longo do
tempo. Conforme sublinhou HEILBORN (1993), se podemos falar de “estudos de gênero” no Brasil, estes de alguma forma
se firmaram através do diálogo com o feminismo. Entre os estudos de gênero e violência, diferentes explicações para a
posição de vítima da mulher embalaram as principais discussões interpretativas.
Entre aqueles estudos que acentuaram o tema da vitimização da mulher estão os que se alinharam à explicação de
que esta é, principalmente, fruto da socialização dos homens e que, portanto, tem forte conteúdo histórico assentado na
herança patriarcal.9 Heleieth SAFFIOTI (1994), por exemplo, em alguns dos seus respeitados e cotejados trabalhos,
apresentava a violência de gênero no Brasil como parte da nossa organização social, uma vez que na família é forte a idéia de
que a mulher se constitui propriedade do homem e que por isso não é vista como agredida ou abusada de fato pelo seu
marido.
Tensões interpretativas sobre o grau de “cumplicidade” ou “passividade” das mulheres também marcaram boa parte
das produções sobre gênero e violência, principalmente na década de 1990. De fato, conforme salientado por MACHADO &
MAGALHÃES (1999, p.175), nesse novo contexto de crítica à perspectiva que homogeneizava a vitimização das mulheres,
os estudos passaram a se dedicar a problemática das “atitudes que levam mulheres a se manterem em relações de violência e
até mesmo a contribuírem para a continuidade do jogo”. As próprias autoras, através de estudo etnográfico e entrevistas
realizadas com vítimas de violência conjugal e agressores, em uma DEAM no Distrito Federal, optaram por uma proposta
interpretativa em condições de “enfrentar os dilemas e a complexidade do campo da violência doméstica”. Com o objetivo de
incorporar a demanda dos direitos, mas também decifrar os motivos do envolvimento das mulheres nas relações conflituosas,
as autoras trataram o assunto através da categoria “casais violentos”.
O trabalho de Maria Filomena GREGORI (1993) teve grande repercussão e encetou uma reflexão mais profunda
que problematizava o papel de vítima das mulheres nos casos de violência conjugal. A base empírica de sua pesquisa,
desenvolvida através de etnografia e entrevistas com mulheres e profissionais em uma organização de apoio a vítimas de
violência conjugal, focou as relações interpessoais de casais em contextos de conflitos que antecediam a violência física. Em
alguns casos analisados, a autora mostrou também que a irrupção da violência acabava contribuindo para a restauração dos
papéis de gênero, o que era almejado do ponto de vista das mulheres.
Por caminhos diferenciados, outras análises também acabaram abordando a complexidade das interações que
ligavam afetivamente homens e mulheres em relações violentas, bem como as condutas ambíguas dos pares envolvidos. As
pesquisas que mostraram as expectativas e motivações que orientam as vítimas de violência conjugal a procurar a delegacia,
deixaram ainda mais evidentes que são bastante sinuosos os caminhos por onde se percorre o reconhecimento desses direitos.
Duas análises são especialmente importantes para o nosso estudo, uma vez que elas expõem que o uso das DEAMs pelas
mulheres segue lógica diversa do movimento feminista e da própria instituição policial.
A consagrada pesquisa de BRANDÃO (1998) em uma DEAM no Rio de Janeiro mostrou que quando as mulheres
se referem aos conflitos conjugais, a categoria ‘violência’ é pouco citada e que elas “não compartilham a concepção da
violência como algo que fira a integridade (física e moral) individual, conforme dispõem os preceitos jurídicos”, ou “ideais
feministas.” 10 As mulheres utilizam a DEAM como ‘recurso simbólico’ que é “coerente com ideário que compartilham e
com as condições sociais em que vivem.”11 Para Brandão, a polícia é acionada como recurso de auto-proteção e repreensão
do parceiro, porém, a “negociação se faz efetivamente entre vítima e acusado, no âmbito privado, mediante a influência
indireta da DEAM.”12

9
Esta concepção foi bastante difundida nos estudos brasileiros e influenciou muitas pesquisas no decorrer dos anos 80 e início dos 90. Cf., SORJ e HEILBORN
(1999). A discussão bibliográfica apresentada por SORJ e HEILBORN (Op. Cit.) embasa boa parte de nossos comentários.
10
Idem, p. 65 e 77
11
Ibidem, p.77.
12
Conclui autora: “(...) A suspensão da queixa constitui-se, portanto, em mais um elemento de negociação que a vítima disporia para barganhar com o acusado,
no sentido de que ele volte a cumprir as obrigações masculinas assumidas ou, no mínimo, não a perturbe mais. Em suma, sem abrir mão de seus valores ‘holistas-
hierárquicos’, as mulheres recorrem estrategicamente à ordem legal (cuja matriz está dada pela tradição ocidental moderna), mas não delegam total e
incondicionalmente à DEAM a resolução de sua crise conjugal e familiar, procurando gerenciá-la paralelamente à ação policial. Embora não compartilhem da
concepção de cidadania que preside as demandas jurídico-policiais, acredito que elas tenham um modo peculiar de ‘lutarem’ pelo que consideram ser ‘seus
direitos’” (Ibidem, p.79 e 80).

52
O segundo trabalho a ser agrupado nessa perspectiva é o de PASINATO IZUMINO (2004) que, ao examinar a
aplicação da lei 9099/95 no contexto do fluxo do sistema de justiça-criminal de São Paulo, 13 argumenta que “a decisão de
recorrer à polícia e a capacidade legal de intervenção no processo judicial, conquistada pelas vítimas sob esta legislação,
revelam um modo de exercício de poder pelas mulheres.” 14 Assim, as delegacias e os Juizados Especiais Criminais
(JECRIMs) estariam se apresentando como “espaços privilegiados para o empoderamento das mulheres.” 15 Conclui a autora,
que não se trata de um auto-reconhecimento das mulheres como “sujeitos de direitos”, mas uma “ampliação de seu espaço de
negociação” que, ao mesmo tempo, expressa “vários dos anseios do movimento feminista”, com a diferença de que estes são
buscados por uma “leitura muito particular e individual.”
O que se pode concluir é que as pesquisas sobre o assunto apontaram ambivalências nos sentimentos das mulheres
quando a violência ocorre na intimidade dos afetos. Mostram ainda que o pêndulo de imagens que oscila do extremo da
“vítima passiva” ao outro, o da mulher que reconhece o seu direito à igualdade legal e desencadeia comportamento pró-ativo
no contexto de vitimização, ainda corresponde a construções típicas, ideais, que não abarcam as ambiguidades de mulheres e
homens que integram o cotidiano das famílias e a intimidade dos casais. De fato, são grandes os desafios para teorizar as
relações conjugais brasileiras imersas em conflitos e que eclodem em violência.

3. A judicialização dos conflitos na intimidade


A dimensão da regulação e da judicialização de questões que tocam na intimidade das famílias e nas relações de
afeto ou amorosas dos casais, implica em observar o grau de adesão de uma sociedade a um determinado processo de
modernização. Trata-se de uma política de combate à violência que para se realizar necessita da publicização de algum um
tipo de desarmonia familiar, ou afetiva, ocorrida entre parceiros de uma interação conjugal. Em geral, os desdobramentos
dessa publicização, implicam na introdução de uma nova ordem reguladora na vida das pessoas envolvidas, frequentemente
expressa através do poder de judicialização que é conferido ao Estado. As lógicas dos “afetos” e os valores morais que
moldam o cotidiano das famílias são defrontados com uma ordem de formalidade e racionalidade jurídicas.
Em muitos contextos, as classificações das formas de violência dirigidas às mulheres e postas pelo feminismo
assumiram dimensões institucionais relevantes. Essas novas experiências podem ser definidas nos termos de GIDDENS
(2002) que, ao referir-se às instituições da modernidade, identificou-as como palcos privilegiados de auto-identificação dos
atores, “constituindo-os e sendo constituídas” por eles, e promovendo um entrelaçamento entre vida individual e experiência
institucional.
Essa nova institucionalidade pública tem se mostrado, principalmente, através das agendas políticas dos governos e
das ações das organizações não governamentais. Em várias partes do mundo diversas instituições trabalham pelo fim da
violência, responsabilizando-se por campanhas legais, pesquisas, criação de abrigos e centros de atendimento para mulheres
agredidas ou violentadas sexualmente. No Brasil, organizações governamentais e não-governamentais têm expandido seus
esforços para responder à violência contra a mulher nos últimos anos e, especialmente a partir da década de oitenta, o
movimento feminista começou a transpor para o campo das políticas públicas as primeiras propostas para enfrentar a
violência de gênero. Assim, se procurou promover a compreensão de que este tipo de violência é um produto social inscrito
no âmbito das relações de gênero (SORJ e MONTEIRO, 1985).
Em relação aos casos trazidos pelas mulheres que procuraram as delegacias pesquisadas, analisamos apenas aqueles
nos quais a denúncia da agressão e/ou violência tem como perpetradores homens conhecidos que tenham mantido ou que
mantenham alguma forma de conjugalidade com a vítima.16 Admitimos que nas relações conjugais onde as agressões se
manifestam, também está presente um tipo de “violência simbólica” (BOURDIEU, 1999) que ultrapassa os limites do físico e
que se desenvolve via sistemas de representação que operam diferenças nas relações entre os sexos. Também consideramos
que as dinâmicas da ‘violência conjugal’, ao exporem-se de formas múltiplas, reforçam um padrão de “conflitualidade
interpessoal”.17
O tratamento de conflitos pessoais nas instituições públicas modernas vinculou questões privadas e da dimensão da
intimidade. Um aspecto que manifesta uma forma de regulação, pelas instituições, de tipos de agressividade e de conflitos
nas relações familiares e pessoais, é o que tem sido nomeado “judicialização”. A ‘judicialização’ é, antes de tudo, a
introdução do universo impessoal do Direito no mundo pessoal e privado. Como processo complexo, não se limita à
‘violência conjugal’e “(...) traduz duplo movimento: de um lado a ampliação do acesso ao sistema judiciário, e por outro, a
desvalorização de outras formas de resolução de conflito” (RIFIOTIS, 2003, p.05).

13
A Lei 9099/95 transferiu para os Juizados Especiais Criminais (JECRIMs) a tarefa de arbitrar sobre os crimes de menor potencial ofensivo.
14
Op. Cit., p.03
15
Segue a autora: “Os números ascendentes de queixas registradas nas DDMs nos últimos anos são indicadores de que estas mulheres reconhecem nas
delegacias e nos Juizados um espaço de exercício de poder. A queixa policial marca a passagem do problema do espaço privado para o público.” (Op. Cit., p.24 e
25)
16
Seja no presente, passado distante ou recente, podendo ser “marido” ou “ex-marido, “companheiros” ou “ex”etc.
17
Segundo SUÁREZ e BANDEIRA (2002, p. 306), o conceito de conflitualidade interpessoal: “(...) aponta fortemente para a natureza inevitável do conflito
entre homens e mulheres, como de resto entre indivíduos de qualquer gênero. O conceito também permite aprofundar a idéia de que essas violências se
perpetuam porque firmam as imagens tradicionais de homem e mulher, bem como os papéis que lhes são atribuídos. (...) Desse modo, as violências do cotidiano
acontecem como formas de sociabilidade previstas, cuja perversidade causa estranhamento somente nos setores mais progressistas da sociedade.”

53
O recurso aos serviços oferecidos pela instituição policial e a possibilidade de seu encaminhamento ao sistema
judiciário, caracterizam o principal conteúdo das políticas de combate à ‘violência conjugal’. DEBERT (2006) ao estudar as
Delegacias de Polícia de Defesa da Mulher (DDMs) de São Paulo, registrou que:
“(...) os conflitos entre particularidade e universalidade oferecem também um caráter específico que tem sido chamado
de ‘judicialização das relações sociais’. Essa expressão busca contemplar a crescente invasão do direito na organização
da vida social. Nas sociedades ocidentais contemporâneas, essa invasão do direito não se limita à esfera propriamente
política, mas tem alcançado a regulação da sociabilidade e das práticas sociais em esferas tidas, tradicionalmente,
como de natureza estritamente privada, como são os casos das relações de gênero e o tratamento dado às crianças pelos
pais ou aos pais pelos filhos adultos.” 18

RIFIOTIS (Op. Cit., p.6), ao comparar a Delegacia da Mulher de João Pessoa, Paraíba, com as experiências
canadenses no campo da ‘violência conjugal’, lembra que a criminalização nos conflitos intrafamiliares é problemática e que,
“(...) a ‘judicialização’ é apresentada como conjunto de práticas e valores, pressupostos em instituições como a
Delegacia da Mulher, e que consiste fundamentalmente em interpretar a ‘violência conjugal’ a partir de uma leitura
criminalizante e estigmatizada contida na polaridade ‘vítima-agressor’ ou na figura jurídica do réu. A leitura
criminalizadora apresenta uma série de obstáculos para a compreensão e intervenção dos conflitos interpessoais.”

Finalmente, queremos sublinhar a importância dos trabalhos de Luís Roberto Cardoso de Oliveira para a
compreensão dos conflitos interpessoais e seus desdobramentos no âmbito do fenômeno ‘violência conjugal’, os quais
reafirmam a precedência da dimensão simbólico-moral na constituição da violência. Significa dizer que as formas de
interação que concorrem para a produção dos conflitos conjugais (e violências deles decorrentes) na vida privada colocam
situações que, na esfera pública, “(...) não podem ser satisfeitas através de simples obediência à norma legal.” 19
Esta questão tem sido observada em muitos estudos sobre ‘violência conjugal’ que, por caminhos diferentes, têm
mostrado as dificuldades de se absorver a regulação dos conflitos interpessoais exclusivamente pela normatização jurídica,
uma vez que estes estão profundamente arraigados à distribuição de papéis e às dimensões dos costumes. A ‘dimensão moral’
não seria aqui considerada como simples entrave à implantação de novas ordens requeridas pela modernidade e pelo
reconhecimento dos “direitos individuais”. Esta tem o mérito de mostrar que a abordagem “restrita ao exame do conflito de
interesses” ou ao “foco nos direitos individuais como princípios absolutos” não é suficiente, pois trata-se de “(...) direitos
situados na intersecção entre os universos da legalidade e da moralidade (...).”20
Ao se colocarem a tarefa de regular a esfera pessoal e privada, as instituições públicas, assim incumbidas, se tornam
espaços problematizadores de conteúdos morais e de tipos de moralidades que nelas circulam. No escopo de compreensão do
objeto, se assinala aqui que o campo das instituições públicas pesquisadas e seus agentes (profissionais e usuárias),
constituem o foco de observação dessas problematizações.

4. Políticas de combate à “violência contra a mulher” no Brasil


No Brasil, a principal política específica de combate à violência contra a mulher, ocorreu pela via da segurança
pública, através da implantação e expansão das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs). Em que pese
a grande repercussão e relevância dessa política, ao longo da atuação dessas instituições, estudos apontaram ambiguidades
nos papéis desenvolvidos pelas autoridades policiais e pelas próprias vítimas que indicavam, principalmente, as dificuldades
para se tratar essa questão no âmbito exclusivo da justiça-criminal.21 A nova legislação brasileira, ao prever um conjunto de
ações em condições de articular diversas áreas, tem o mérito de fazer avançar uma perspectiva de ação mais integrada na
política de combate à violência contra a mulher. A sua recente promulgação e fase de regulamentação, no entanto, ainda não
permite certificar se isso realmente jogará para a redução dos desafios identificados.22
O movimento internacional de constituição de uma agenda pública de combate à violência contra a mulher começa
a se organizar, com maior força, em fins da década de setenta. Na década de noventa é impulsionada uma série de ações,
através de conferências e reuniões mundiais, que objetivou a elaboração de instrumentos e a implementação de medidas para
“prevenir, sancionar e erradicar a violência contra as mulheres”.23 O protagonismo das feministas nesses movimentos de
mudanças atingiu estruturas governamentais e transpôs para o campo das políticas públicas as primeiras propostas para

18
Op. Cit., p. 16.
19
Cf., CARDOSO de OLIVEIRA (2002; 2005)
20
Cf., CARDOSO de OLIVEIRA (2004)
21
Por exemplo, os estudos de PASINATO IZUMINO (Op. Cit.) e BRANDÃO (Op. Cit.), comentados na página 03.
22
A lei 11.340, promulgada em agosto de 2006 e conhecida como Lei Maria da Penha, prevê em seu artigo 8 e inciso I: Um conjunto articulado de ações da
União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios e de ações não-governamentais, tendo por diretrizes: I - a integração operacional do Poder Judiciário,
do Ministério Público e da Defensoria Pública com as áreas de segurança pública, assistência social, saúde, educação, trabalho e habitação.
23
Dentre estes instrumentos destacam-se a recomendação de número 19 (publicada em 1992) da Convenção sobre a eliminação de todas as formas de
discriminação contra a mulher (CEDAW, convenção aprovada em 1979 pelas Nações Unidas); a II Conferência sobre direitos humanos, realizada em 1993 em
Viena e que incorporou a consideração de que “a violência contra as mulheres é uma violação dos direitos humanos”; a Convenção Interamericana para
Prevenir, sancionar e erradicar a violência contra a mulher, realizada em junho de 1994, em Belém do Pará; a Conferência Mundial sobre a mulher realizada em
Beijing, na China, em 1995; e a reunião conhecida como Beijing + 5 que integrou uma Sessão Especial da Assembléia Geral das Nações Unidas, cinco anos após
a IV Conferência Mundial. Cf; CAVIEDES (2002), VIANNA (2004).

54
enfrentar a violência de gênero, especialmente com a constituição de formas de representação governamental (Conselhos
Estaduais e Nacional dos Direitos da Mulher, assessorias, coordenadorias etc.) e, posteriormente, as Delegacias
Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs). A primeira delegacia especializada no atendimento às mulheres vítimas
de violência surgiu em 1985, na cidade de São Paulo, com a função acolher, dentro dos procedimentos legais, a queixa
trazida à polícia e de forma que a violência conjugal pudesse ser efetivamente combatida e criminalizada.24 O que os
movimentos feministas reivindicaram foi, principalmente, uma mudança na qualidade do atendimento, capaz de superar
preconceitos, rótulos e estereótipos depreciadores que recaíam sobre as mulheres que se apresentavam para fazer o registro
policial. De fato, o pioneirismo dessa experiência colocou as DEAMs na posição mais importante no ranking das instituições
que passaram a integrar o quadro das políticas de combate à violência no Brasil. As DEAMs introduziram “o mundo da lei,
da justiça e da impessoalidade no âmbito privado, no reino da intimidade conjugal”25.
Contudo, desde a sua criação, essas delegacias passaram por transformações significativas e, apesar de sua
importância como política pública, não constituem homogeneamente um campo de investigação da violência contra a mulher.
MACHADO (2002), ao analisar os dados constantes no levantamento realizado pelo Conselho Nacional dos Direitos da
Mulher (CNDM) em 2001 ressalta o caráter histórico e diferenciado na atuação das DEAMs no Brasil. De acordo com a
Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (2007)26, hoje existem cerca de 400 delegacias que estão desigualmente
distribuídas nos municípios brasileiros e quase a metade do nº total de DEAMs está na região sudeste. Além da diferença de
cobertura, chama atenção a particularidade de funcionamento das delegacias em alguns estados. No Rio de Janeiro, por
exemplo, são mulheres (delegadas) que comandam as DEAMs, mas ao contrário do que ocorre em outros locais, homens
também integram o quadro de investigadores. Em São Paulo, conforme assinala DEBERT (Op. Cit.), o decreto 40.693 de
1996 ampliou a área de atuação das DDMs (Delegacias de Defesa das Mulheres) incluindo delitos contra crianças e
adolescentes. Tal decreto implicou em mudanças de rotinas que, apesar de terem sido “validadas positivamente” pelas
agentes das delegacias de mulheres alcançadas por sua pesquisa, altera o significado da instituição, segundo a autora.
As DEAMs terminaram por se configurar em vasto campo de pesquisa e têm sido insistentemente analisadas por
cientistas sociais que apontam a relação complexa entre o Estado, o feminismo e as mulheres vítimas. A história das DEAMs
não pode ser dissociada da principal expectativa das feministas brasileiras em relação à violência conjugal: a de que esta deve
tratada no âmbito justiça-criminal, portanto, ser considerada como crime.
A mais significativa transformação experimentada pelas delegacias de mulheres ocorreu através da aprovação da
Lei Federal 9.099 que regulamentou os Juizados Especiais Criminais (JECRIMs). Estes, implantados a partir de 1995,
passaram a receber os casos de contravenção e aqueles considerados de “menor potencial ofensivo” (tipificados como de
ameaça e/ou lesão corporal leve). A principal inspiração destes Juizados no campo da criminologia foi o de promover o
acesso da população a justiça sob a ótica da conciliação. Ou seja, concebidos para promover a conciliação entre as partes
envolvidas em conflitos interpessoais, eles deveriam facilitar acordos e negociações.27 A criação dos JECRIMs alterou,
principalmente, as rotinas de delegacias como as DEAMs, na medida em que o maior número de registros destas se refere a
delitos tipificados como ameaça e lesão corporal leve.28
Durante o funcionamento dos JECRIMs, passou a chamar atenção de grupos feministas o grande número de casos
oriundos de conflitos e de violências que envolviam, principalmente, homens e mulheres em relações conjugais, e nas quais
as mulheres eram, recorrentemente, as vítimas. Esta constatação será problematizada nos estudos e nas organizações
feministas que vão requerer a incorporação de uma “criminologia feminista” na atuação destas instituições.29 A principal
crítica ao encaminhamento dos casos de ‘violência de gênero’ aos JECRIMs foi de que, na prática, esses acabaram por
despenalizar os crimes. Desta forma, a ‘violência conjugal’ foi considerada um crime de menor gravidade no qual as
punições aos agressores, em geral, se limitaram ao fornecimento de cestas básicas de alimentos, serviços prestados à
comunidade, participação em grupos terapêuticos etc.
As críticas dos movimentos feministas às atuações dos JECRIMs levaram à articulação de um “consórcio”,
formado por organizações não governamentais feministas, que investiu na elaboração de uma nova proposta de lei para o
encaminhamento dos casos de ‘violência contra a mulher’ na Justiça. Em 2004, um projeto foi enviado à Secretaria Especial
de Políticas para as Mulheres (SPM) no qual se propunha a alteração dos procedimentos instituídos pelos Juizados Especiais
Criminais (JECRIMs) no tratamento dos crimes de violência conjugal. Do conjunto dessas intensas manifestações e
articulações resultou a criação da “Lei Maria da Penha”, que prevê a criação de varas e Juizados Especiais de Violência
Doméstica e Familiar Contra a Mulher com autoridade para aplicar as medidas cabíveis nos casos de ‘violência conjugal’.
Nos debates em torno do seu percurso, tem chamado atenção o seu apelo a uma efetiva criminalização da violência contra a

24
Seção baseada em SORJ (Op. Cit) e SORJ e MORAES (Op. Cit.).
25
SORJ (Op. Cit.)
26
A Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres foi criada no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para desenvolver ações e políticas públicas
conjuntas com todos os Ministérios e outras Secretarias Especiais.
27
Essa instituição teve como princípios norteadores a oralidade, simplicidade, informalidade, celeridade, economia processual, conciliação e transação penal.
Ver, BURGOS (2001).
28
O Instituto Médico Legal (IML) tem a atribuição de definir se a lesão é leve ou grave. Por outro lado, a tipificação de outros tipos de delitos nas delegacias
suscita muita polêmica e questionamentos de organizações feministas, conforme veremos.
29
Entre outros, ver CAMPOS (2003).

55
mulher. No entanto, trata-se de projeto abrangente que inclui medidas preventivas, assistenciais, punitivas, educativas e de
proteção à mulher e aos filhos.30
Em agosto de 2007, o governo federal lançou o Pacto Nacional pelo Enfrentamento à Violência contra as Mulheres,
coordenado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM). Uma das metas do pacto é garantir a implementação da Lei
Maria da Penha, ampliando e fortalecendo a rede de serviços de atendimento às mulheres em situação de violência. Estão
previstos a criação e o reaparelhamento de Juizados Especiais de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher, Centros
de Referência de Assistência Social (CRAS), Centros de Educação e Reabilitação do Agressor, Central de Atendimento à
Mulher (Ligue 180). Ainda, segundo a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM), desde a criação da Lei Maria
da Penha até setembro de 2007 foram criados, em todo o país, 15 Juizados Especiais de Violência Doméstica e Familiar
Contra a Mulher e 32 varas adaptadas (o estado do Rio de Janeiro possui atualmente quatro Juizados).31
É desafiadora a consolidação de um modelo de política de combate à violência conjugal e de gênero. Hoje, no
Brasil, chama atenção a preocupação com um atendimento às mulheres vítimas que, pelas suas características abrangentes,
podemos chamar de multisetorial. Em tese, este deve responder, simultaneamente, às exigências de punição legal do autor da
violência e ao apoio social e assistencial à vítima, especialmente para aquele número significativo de casos de mulheres em
precária situação econômica. Uma rápida comparação com estudos internacionais sobre violência de gênero no espaço
privado mostra que os resultados nas políticas públicas muitas vezes são considerados pouco satisfatórios.32 Enquanto aqui, a
nossa trajetória obteve relevância institucional via as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs), em
outros países, programas de prevenção e atenção à violência inseridos nos regimes de monitoramento e de desenvolvimento
dos sistemas de welfare state, por exemplo, são apontados como possuidores de fragilidades que podem ser atribuídas à
distância entre as ações de assistência social e a área de segurança pública, que não dispõe de um atendimento
especializado.33 Mesmo não sendo possível aprofundar aqui tal comparação, queremos apenas ressaltar que o caminho
traçado pela via das delegacias especializadas, se por um lado mostra importantes avanços, especialmente porque muitas
mulheres já reconhecem este como um recurso para acessar direitos, por outro, tem suscitado críticas tanto de agentes
internos quanto externos a estas organizações. De fato, conforme salientado, uma característica que parece recortar um
grande número de experiências com essa política é uma forte percepção de que os seus resultados estão sempre aquém das
expectativas projetadas.34

5. Metodologia e campo de pesquisa 35


A pesquisa de campo foi realizada em três instituições da cidade do Rio de Janeiro: uma Delegacia Especializada
de Atendimento à Mulher (DEAM), entre julho de 2005 e março de 2006; o Centro Integrado de Atendimento à Mulher
(CIAM), durante o primeiro semestre de 2006; e uma Delegacia Distrital, entre julho de 2006 e janeiro de 2007. A
metodologia de coleta de dados e informações para o estudo foi baseada em técnicas de investigação qualitativa;
principalmente nos registros de observação das rotinas de atendimento das instituições e na aplicação de entrevistas semi-
estruturadas junto a diversos profissionais (policiais e atendentes do balcão das delegacias; assistentes sociais, psicólogas e
advogadas do Centro de Atendimento à Mulher) e mulheres vitimadas. Resumimos, assim, os objetivos específicos das
comparações entre essas instituições:
1. Comparar o CIAM (Centro de Atendimento) e DEAM (delegacia especializada), destacando como dois grupos
de profissionais (as técnicas do Centro de Atendimento e os/as policiais) se orientam por diferentes conjuntos de valores no
atendimento às vítimas que procuram essas instituições.
2. Comparar a Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM) e da Delegacia Distrital (comum) a fim de
verificar se existem diferenças sensíveis entre esses dois tipos de delegacias, confrontando práticas nas rotinas de
atendimento, percepções e expectativas dos policiais. Trata-se de identificar, sobretudo, se a experiência de criação da
DEAM, com o propósito de acolher de forma específica as mulheres que são vítimas de violência conjugal, se mostrou
consistente e condizente com os propósitos que as originaram.

As instituições pesquisadas (DEAM, CIAM e Delegacia Distrital)


No Rio de Janeiro as DEAMs fazem parte do “Programa Delegacia Legal”, em implantação desde 1999, o qual
integrou um processo de modernização e racionalização dos procedimentos das delegacias policiais do Estado.36 Os

30
Cf., ROMEIRO (2006).
31
Essas informações podem ser encontradas em Enfrentamento à violência contra a mulher. Balanço de ações 2006-2007, Secretaria Especial de Políticas para
as Mulheres, disponível no sítio www.spmulheres.gov.br.
32
SEITH (2001), SCOTT (2002), SOARES (1999), RIFIOTIS (2003)
33
SEITH (Op. Cit.).
34
No estudo em que compara essas políticas públicas no Brasil e Canadá, RIFIOTIS (Op. Cit., p.23, 24) identifica que apesar das grandes diferenças entre os
contextos brasileiro e canadense há, por parte dos atores das instituições responsáveis, nos dois casos, um significativo grau de insatisfação com os resultados
alcançados no desenvolvimento dos atendimentos.
35
As alunas Jenifer Tinoco e Keila Alves do IFCS/UFRJ também participaram do trabalho de campo, prestando relevante e imprescindível colaboração.

56
investigadores encarregados de proceder ao Registro de Ocorrência (R.O) são, quase todos, homens e mulheres com alguma
formação universitária. Nesta delegacia os homens só estão impedidos de atender aos casos de “violência sexual”. 37 Podemos
dizer que o modelo estereotipado de policiais “brutalizados” e “insensíveis”, tão contestado pelos movimentos feministas e
dos direitos humanos, não se encaixa nos padrões ali encontrados. No que se refere à apresentação pública de seu modelo
institucional, a DEAM aparece como instituição que cumpre metas modernizadoras que qualificaram algumas das
reivindicações do feminismo.
A delegacia distrital pesquisada fica no subúrbio carioca e atende a quase todos os tipos de ocorrência: roubos e
furtos, acidentes de trânsito, homicídios, agressões diversas. Segundo seus profissionais, costuma receber um número
significativo de casos de violência conjugal. Esta delegacia, como a DEAM, faz parte do Programa Delegacia Legal. Suas
aparências e estruturas são, portanto, bastante semelhantes. Quase todos os policiais possuem ou cursam o terceiro grau.
Diferentemente da DEAM, há apenas uma mulher realizando atendimento ao público.
O Centro Integrado de Atendimento à Mulher (CIAM), instituição pública vinculada ao governo do estado do Rio
de Janeiro, oferece às mulheres vítimas de violência serviços de atendimento, orientação e informação nas áreas jurídica e
psicológica. O processo de institucionalização do CIAM se consolidou através de intensos e permanentes diálogos com
grupos e organizações feministas.38 Orientados por um tipo de “metodologia feminista”, os seus serviços concentram-se em
três frentes: a) “Grupos de reflexão”: grupos de mulheres usuárias que se encontram para debater “sobre suas vidas e futuro.”
b) Apoio jurídico: orientação às mulheres que estão com o Registro de Ocorrência em mãos e/ou com o processo em
andamento. c) “Disque-Mulher”: serviço de atendimento à mulher em situação de violência, via telefone.
A DEAM adotou formalmente o procedimento de encaminhar suas usuárias ao CIAM, que fica a menos de
duzentos metros de distância daquela, o que facilitou a circulação de mulheres entre as duas instituições.

6. Comparando DEAM e CIAM


Para as profissionais do CIAM, o atendimento a vítimas de violência conjugal, não pode prescindir de uma rede de
apoio de serviços. Conforme mencionado por algumas ‘técnicas’, as demandas que as usuárias trazem para a instituição
agregam outros tantos pedidos de orientação e ajuda: “apoio emocional”, “apoio financeiro”, “apoio familiar” etc. A
variedade de demandas pode ser tratada via acompanhamento psicológico, apoio jurídico ou encaminhamento a outros
serviços do Estado. No entanto, a principal intervenção da instituição se dá no sentido de (re)definir, com as mulheres, o tipo
de violência sofrida.
As explicações para a produção da “violência de gênero” entre as técnicas do CIAM ressaltam a “cultura machista”
(na qual estariam incluídos não apenas os “homens”, mas também as mulheres). Assim, a permanência de mulheres na
situação violenta, estaria relacionada, principalmente, a fatores sociais e às restrições econômicas, mas conteúdos afetivos
também estariam associados. Essas condições responderiam por uma “cegueira” que impediria as mulheres de se
reconhecerem em situação de violência permanente e contínua. A intervenção se estrutura então, através de duas abordagens:
na identificação das vitimizações e na definição do tipo de violência vivenciada (a de gênero).
No primeiro caso, um valor importante na missão institucional é o de levar as mulheres a perceberem que, além das
agressões que deixam marcas no corpo, elas são vítimas de outras formas de ‘violência’: “(...) é como se abríssemos uma
cortina”. São mencionadas as dificuldades que as usuárias têm para perceber o “abuso do marido”, “as ameaças”, “os
xingamentos”, “a pressão psicológica”, a “humilhação”, a “traição” etc. Haveria um leque variado de expressões de
“violências invisíveis”, intrincadas no cotidiano, das quais as mulheres “não se dão conta”.
O segundo aspecto da intervenção privilegia a idéia de reconduzir a mulher a um “lugar de autonomia”, atuando
como “autora de sua história”. Também implica em retirá-la do lugar “passivo de vítima” ao estimulá-la a “responsabilizar o
marido ou companheiro”. “Responsabilização” é categoria da intervenção que substitui a de “criminalização”, com o objetivo
de reduzir significados e conteúdos negativos que possam criar resistências entre as vítimas. Mesmo assim, as profissionais
reconhecem que muitas usuárias têm dificuldades para lidar com a “responsabilização” do agressor e que mesmo aquelas que
chegam “decididas”, ou mesmo tomadas por “impulsos de vingança”, podem resistir no percurso: “a mulher que deixa que o
marido seja responsabilizado até o fim, está há muito tempo nos grupos do CIAM”, diz uma técnica. O principal investimento
da instituição passa a ser então o de estimular a vítima a comunicar o fato (quando ainda não o fez) e prosseguir com a
denúncia até a sua conclusão definitiva na Justiça.39
As relações do CIAM com as delegacias, especialmente com a DEAM pesquisada, são referidas como “cordiais” e
“respeitosas”. A satisfatória relação institucional presente no campo não exclui, por outro lado, a coexistência de perspectivas

36
Esse programa de modernização incluiu o desenvolvimento de software que permitiu a geração de Registros de Ocorrência (R.O) de maior complexidade, o
processamento em rede de informações nunca antes reunidas. Cf., MORAES, SOARES e CONCEIÇÃO (2005, p.2-3)
37
Estes são considerados “estupro”, “assédio sexual” e “atentado violento ao pudor.” Justifica-se que as vítimas de violência sexual ficariam “mais a vontade”
para relatar a ocorrência a uma policial.
38
A experiência de atendimento interdisciplinar a vítimas de violência, com uma metodologia “de escuta” e de “acolhimento” foi iniciada em 1988 no Conselho
Estadual de Direitos da Mulher (CEDIM)/RJ, com o apoio de feministas. Em 2000, o CEDIM formalizou um projeto piloto de atendimento que passou a
funcionar sob a sigla CIAM com a preocupação de “fortalecer” e “complementar” o atendimento nas Delegacias de Mulheres.
39
A metodologia de intervenção se desdobra em tensões internas quanto à “autonomia” das vítimas. A autonomia é enfaticamente preservada pela maioria das
técnicas: “(...) o CIAM não obriga ninguém a fazer o registro”; “(...) nós não estamos aqui para separar ninguém”.

57
bastante conflitivas no que tange às classificações dos crimes. Há um grau razoável de interferência do CIAM nos Registros
de Ocorrência (R.O.) das delegacias que chegam às técnicas através das usuárias. A possibilidade destes diálogos em torno
do R.O. foi absorvida na política de segurança da Secretaria do Estado do Rio de Janeiro, mas estas interlocuções não são
igualmente assimiladas entre delegadas e investigadores/as.
Na consulta ao R.O. trazido pela vítima, após solicitação de técnicas e/ou advogadas do CIAM, o campo “dinâmica
do fato” é o principal alvo de preocupação, uma vez que neste consta o relato que, em última instância, vai permitir a
tipificação ou classificação do crime. As técnicas do CIAM mencionaram várias situações nas quais as delegacias _ sejam
comuns ou DEAMs_, terminam por minimizar a gravidade dos casos na descrição do relato da vítima. Segundo as técnicas:
“(...) já recebemos R.O. de uma DEAM que tinha tipificado como lesão corporal uma tentativa de enforcamento (...)
era tentativa de homicídio!”.
“(...) tem mulheres que chegam aqui e dizem que sofreram ameaça de morte e o R.O. vem mencionando injúria!”

Alguns profissionais da DEAM reconhecem que os encaminhamentos de usuárias para o CIAM ajudam a reduzir a
tensão entre as “demandas diversificadas” trazidas por elas e a função estritamente policial e investigativa. Observam, no
entanto, incompatibilidades entre as expectativas do CIAM e o trabalho que a delegacia deve realizar. Há percepção de que
instituições inspiradas no feminismo _ Conselhos de Defesa dos Direitos da Mulher, tais como o CEDIM/RJ, organizações
não governamentais, e o próprio CIAM _ exercem “pressão política” que repercute no trabalho das DEAMs. Ao se referir à
proposta de criação dos novos Juizados, um inspetor, dizia: “(...) o campo jurídico hoje procura penas mais brandas e as
feministas discutem penas mais pesadas para o agressor (...)”. A estas considerações somam-se observações de que as
organizações, inspiradas no feminismo, acabariam instituindo uma “prática de confecção de registros mesmo quando não há
crime capitulado.”
Os/as agentes da DEAM estão muito mais orientados pelo ethos da profissão do que por um horizonte político de
direitos compartilhado pelas instituições feministas. Há uma percepção, nem sempre explicitada discursivamente, de que são
as organizações feministas, referências nas lutas de defesa das mulheres, que transformam a DEAM em instituição pública
representativa do combate à violência de gênero no Brasil; tornando este um atributo pré-nomeado por organizações externas
ao sistema de justiça-criminal. Muitos também se preocuparam em apontar que a visibilidade do tema _ constatada através de
campanhas de denúncia, abordagens em novelas e através de “casos concretos” apresentados pela mídia envolvendo artistas e
personalidades do mundo político_ contribuiu para trazer as vítimas às delegacias, mas também criou outros problemas nas
suas rotinas.
“Pressões externas” que podem vir de diferentes canais institucionais, aliadas às dificuldades que as vítimas
apresentam para lidar com os conflitos interpessoais e domésticos, reúnem elementos que, para policiais, potencializariam
uma utilização inadequada das DEAMs por parte das vítimas. Isto responderia também pelo aumento significativo de queixas
que chegam à delegacia e que são consideradas de difícil criminalização e de precária materialidade:
“‘Você vai ver só’! Não tem crime. Não tô discutindo se ela está se sentindo ameaçada. De repente ela está se sentindo
ameaçada mesmo. Só que não dá pra fazer o registro. (...) O juiz? Devolve rapidinho pra gente. Porque não tem
materialidade. Tem um monte ali devolvido porque não tem a materialidade do crime, porque o ‘você vai ver só’ não
quer dizer nada. (...) Como é que pode fazer um registro de ‘violência psicológica’, como é? (...) Aí, eu acho que quem
coloca na televisão devia explicar e talvez até criar um órgão de assistência à violência psicológica, como eles mesmo
dizem.”

Um policial utilizou a expressão “cifra rosa do crime”, para explicar as suas percepções sobre o aumento
significativo de registros na DEAM. Para ele, os registros incluídos na chamada “cifra rosa do crime” seriam criações_ “a
delegacia acaba criando registros” _, uma vez que estes revestem-se de demandas “pouco claras”, “confusas” e de difícil
tipificação.40 A expressão “banalização”, referindo-se às dificuldades que as mulheres apresentam para utilizar os serviços da
DEAM, é a categoria mais representativa deste conjunto de percepções que, afinal, termina por problematizar um valor que
norteou a criação desta política: o aumento do acesso das vítimas à polícia.
A preocupação com a multiplicação e variabilidade das queixas pode potencializar outros conflitos em relação aos
princípios de “objetividade” e “imparcialidade” valorizados no discurso policial.41 A (re)definição da Delegacia de Mulheres
como espaço “neutro” ou “imparcial” é classificação acionada por muitos/as agentes para organizar outros dilemas presentes
. Expressões como “os profissionais são totalmente imparciais, temos que ouvir as duas partes”, se por um lado parece ser
uma projeção idealizada da integridade a ser preservada no processo investigativo, por outro indica um conflito com o
“diferencial” que justificou a própria criação das DEAMs _ o atendimento especializado e dirigido para determinado tipo de
crime e para um segmento específico da sociedade. A menção a ideais de “isenção” e “imparcialidade”, na prática traduz
ambiguidades em torno da percepção de “vítima”. As categorizações das usuárias dos serviços da delegacia assumem
conotações diferentes daquelas correntes no CIAM. Para os/as agentes da DEAM, é importante identificar aquelas mulheres

40
O ranking da “banalização” incluiria queixas de conflitos com homens e/ou companheiros (como xingamentos mútuos), mas também aqueles que envolvem
apenas mulheres, como “brigas de trânsito”, “brigas de vizinhas”, “de irmãs”, “entre amantes e esposas” etc. Um leque bastante variado de conflitos que, segundo
um inspetor: “se é mulher, nós registramos né”.
41
Na DEAM havia um cartaz que indicava os seus “valores”. “Valorizamos: imparcialidade, cortesia, honestidade, capacitação profissional, cidadania, ética,
hierarquia, disciplina”.

58
que trazem “sofrimentos legítimos”, as “vítimas de verdade” Essa lógica classificatória indicou que uma hierarquia da
credibilidade42 é acionada para classificar as usuárias. Essas classificações pressupõem um julgamento das mulheres com
base em expectativas de comportamentos e de papéis sociais de gênero. Os investigadores/as afirmam que “todos os registros
são feitos”, porém, alguns casos são claramente colocados por eles/as nos degraus mais baixos e desacreditados desta
hierarquia. Entre as “vítimas” desacreditadas estariam aquelas que vêm “instruídas por advogados”, aquelas que fazem
registro “apenas para negociar uma separação”; “aquelas que só querem infernizar a vida do cara”; “as traídas”; “as
abandonadas pelo marido”; “as vingativas”; aquelas “que vão desistir logo em seguida”, “aquelas que logo depois estão aos
beijos com o cara” etc.
***
A compreensão dos conflitos assume ecos muito diferentes, a depender do lugar de onde os atores discursam. Para
o CIAM as delegacias continuam a minimizar a criminalização ou acabam atuando no sentido da descriminalização das
violências (“múltiplas”, “invisíveis” etc.). Para as DEAMs, as organizações feministas politizam os instrumentos
disponibilizados pelo Estado e as usuárias por vezes buscam objetivos inadequados nestes. Nas dinâmicas dos atores no
campo, tanto as visões universalistas do feminismo quanto a lógica policial, são problematizadas na intersecção das atuações
institucionais.
Ao mesmo tempo, é muito diferente das outras delegacias, a maneira como as DEAMs acabaram “personalizando”
os seus atendimentos e reduziram com isso o receio que muitas mulheres tinham de ir à polícia. Este padrão acolhedor
presente em muitas Delegacias de Mulheres, talvez explique, em parte, porque a entrada de instituições específicas de
atendimento aos casos de violência (como o CIAM), se por um lado ajuda a reduzir a tensão constante entre “social e
criminal” que é sentida nas delegacias; por outro, não transfere totalmente as atribuições vistas como “sociais”. Em muitas
situações, as atuações das instituições acabam se sobrepondo. Práticas de atendimento continuam pulverizadas na DEAM,
assim como o CIAM acaba acompanhando (ou mesmo interferindo) na prática de confecção de Registros de Ocorrência, ou
seja, monitorando para que o processo de criminalização seja efetivamente desencadeado.
Na prática, há que se reconhecer a importância de ações conjugadas que disponibilizem recursos diferenciados no
combate à violência. As diferenças ou mesmo conflitos entre estas instituições realmente parecem não constituir problema
em si. No plano das relações políticas e institucionais, o problema talvez possa ser traduzido por aquilo que GREGORI
(2006, p.80), ao estudar a relação das DEAMs do município de São Paulo com outras organizações, denominou
“paralelismos” que acabam por marcar as atuações. Nesses, diz a autora, inexiste forma institucional para atuar como força
mediadora _ “como a de rede, por exemplo”_, o que comprometeria a aglutinação das intervenções com legitimidade e
consenso.
Para finalizar as considerações no plano analítico, o campo de instituições de atendimento a vítimas de violência
vai se constituindo via “ações em paralelo”, mas também via confrontos de diferentes horizontes morais. Isso interpela
também sobre a maneira como essa institucionalidade atinge as mulheres.

7. DEAM e Delegacia não especializada (Distrital)


Ao se comparar os grupos de policiais da delegacia especializada (DEAM) e não especializada (Distrital), se
identifica um conteúdo comum: a violência conjugal é mais percebida como um problema social e familiar do que como um
crime. Há, no entanto, diferenças consideráveis na maneira como policiais constroem tal compreensão.
Para os policiais da delegacia Distrital, a idéia de que prestam um serviço para toda a população e para os “pobres”,
principalmente, vincula o fenômeno da violência conjugal a um “problema de famílias desestruturadas” e empobrecidas. Na
DEAM, por sua vez, o fato de que esta representa um equipamento de proteção a um grupo específico da população introduz
alguns planos de tensão. A principal tensão está relacionada com o próprio ethos profissional constituído na formação
policial, uma vez que este não foi preparado para atuar nos limites da particularidade dos direitos de grupos ou minorias. O
ethos profissional do policial é universalista e não particularista, questão corroborada também por outros pesquisadores.
ANDRÉA (2008), em pesquisa realizada em três delegacias especializadas da região metropolitana do Rio de Janeiro (Anti –
Sequestro, Homicídios de Niterói e São Gonçalo, e Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais),
argumenta que “a formação que [os policiais] recebem na ACADEPOL é generalista” e não os prepara para os trabalhos
especializados que precisam desempenhar nessas delegacias.43 Para os policiais é estranha a idéia de defender direitos
humanos particulares. A partir desse eixo é que espiralam conflitos subjetivos na maneira como os próprios policiais da
DEAM percebem a relação com os grupos de beneficiárias.
Tanto para os policiais da delegacia distrital, quanto das DEAMs, a polícia teria pouco poder para, efetivamente,
solucionar o problema da violência conjugal. Para os dois grupos, a violência conjugal na família é um acontecimento,
sobretudo, da “esfera social” cujas soluções estão distantes da polícia: seja porque estas só poderiam ser encontradas em
políticas públicas mais abrangentes, seja porque dependem, em última instância, de outros acontecimentos na esfera das
interações íntimas e privadas. Nessa lógica, esse tipo de violência guardaria um limite para se esgotar nos procedimentos e na

42
Cf., MORAES (2004)
43
Cf., Op. Cit., p. 80. Através do detalhamento do currículo dos cursos de formação dos profissionais da polícia civil, esse trabalho revela o teor generalista da
formação policial.

59
racionalidade pura da justiça criminal, na medida em que os seus principais conteúdos estariam sempre ligados a problemas
“pessoais” e “sociais”. No escopo mais amplo, na “pobreza”, no “desemprego”, na “falta de recursos e de instrução” etc. Nas
relações micro-sociais, no “alcoolismo”, na “falta de respeito”, na “instabilidade dos casamentos”, na “desestruturação das
famílias” etc. Assim, de magnitude inacessível no âmbito social e inscrita no campo das “questões pessoais” e dos silêncios
guardados nas fronteiras do mundo privado, o combate e prevenção à violência conjugal aparecem como um desafio
considerável para a polícia. O sucesso ao seu combate dependeria mais da atuação de outras organizações do Estado e, acima
de tudo, da vontade dos atores nela envolvidos.
Nessa perspectiva, o principal eixo argumentativo dos policiais da distrital recorre à discussão sobre o papel que a
polícia acaba desempenhando junto aos mais pobres. As “mulheres vítimas de violência conjugal” são parte de um conjunto
amplo de usuários que recorrem à polícia frente às fragilidades encontradas nos outros serviços oferecidos pelo Estado. Essas
“fragilidades” dos aparatos do Estado jogariam para colocar esses policiais, frequentemente, diante das mais diferenciadas
demandas. Assim, descrevem o chamado atendimento social como uma prática constante nos seus serviços, como fornecer
orientações e informações diversas ou mesmo “uma palavra de conforto.” Esse “trabalho social” é diferenciado pelos
profissionais daquilo que chamam de “trabalho policial”. Este segundo englobaria atividades relacionadas a crimes
considerados graves que também “batem na porta da delegacia todos os dias” e que exigiriam a ação e o conhecimento
realmente peritos, tais como: elucidação de homicídios, roubos com vítimas, detenções de pessoas envolvidas em flagrantes,
processos investigatórios sobre grupos criminosos etc. O que chama a atenção nos casos de “violência conjugal” na
Delegacia Distrital é o fato de que, salvo envolvam consequências gravíssimas que afetem a integridade física das vítimas,
como lesões graves e homicídio, esse evento é classificado como parte do “trabalho social” da polícia.
Entre os policiais homens e mulheres da DEAM, a discussão sobre o papel da instituição no combate à violência
conjugal é marcada por controvérsias significativas em relação ao ideário que inspirou a criação dessas delegacias. A
principal delas envolve a maneira como os profissionais concebem o papel da polícia na defesa dos direitos específicos das
mulheres, o que, em um bom número de situações, se choca com o “dever” de proteção e escuta a “todos” os cidadãos.
Conforme mencionamos no item 6 desse paper, entre os policiais da delegacia especializada é muito presente a preocupação
em esclarecer que o fato de trabalharem em uma delegacia da mulher não deve confundi-los com “defensores das mulheres”.
A idéia de “imparcialidade” ganha importância enquanto elemento discursivo entre muitos profissionais da DEAM. Antes de
tudo, eles afirmam a sua identidade de policiais, profissionais que devem prestar um serviço à população em geral e
“imparciais” na apuração adequada dos casos que chegam à delegacia.
O discurso da imparcialidade revela a tensão entre uma concepção universal e uma concepção “politizada” ou
específica das políticas de segurança _ aquela que institui recortes de gênero e de geração. As delegacias especializadas da
mulher, do idoso e da criança e do adolescente são concretizações desta crescente “politização” das políticas de segurança em
particular e das políticas públicas em geral. Uma das dificuldades que os policiais têm em relação a essa concepção é o fato
de que ela, de antemão, institucionaliza legal e formalmente alguns indivíduos como vítimas e outros como agressores. Isso
estaria ferindo a orientação generalista e o princípio da integridade do processo investigativo, valores repetidamente
afirmados como centrais pelos policiais da DEAM.
Os policiais entendem que o cotidiano da DEAM está repleto de conflitos que dificilmente se esgotariam neste tipo
de mediação institucional. O material bruto de trabalho dos policiais consiste em complexas relações conjugais e familiares,
em que diversos interesses e disputas estão em jogo. Alguns incorporam como prática do seu trabalho o aconselhamento às
mulheres para “mudarem de vida”, para “não se submeterem”, em vários casos encorajando-as, explicitamente, a se separar
do marido agressor. Esses conselhos são justificados como práticas que tornariam o atendimento policial mais humanizado,
pessoalizado e atencioso. A menção implícita ou explícita à separação enseja a visão de que o divórcio é a melhor solução
para a violência doméstica. Embora alguns profissionais percebam que o recurso à delegacia ocasionalmente pode modificar
o comportamento do agressor e fazer cessar, ao menos temporariamente, a violência conjugal, a maioria entende que o
registro de ocorrência, por si só, não pode resolver definitivamente o problema.
Passadas mais de duas décadas de criação das DEAMs no Brasil, o que se observa é que a violência conjugal
continua sendo considerado um fenômeno que escapa às competências propriamente policiais. É certo que mudaram certas
práticas e percepções na medida em que, por exemplo, rituais como “dar uma bronca no agressor”, e que tanto marcaram o
cotidiano dessas delegacias especializadas nos seus primeiros anos de existência, parecem ser hoje alvo de crítica entre
muitos policiais nessas delegacias especializadas. Aqueles ouvidos na nossa pesquisa declararam rejeições a essa prática, na
medida em que ela significaria uma desvalorização do trabalho policial. No entanto, através de outros arranjos que
constantemente se atualizam, essa violência de gênero que ocorre nas relações de intimidade, ainda é um problema visto
como pessoal, da mulher, cheio de impasses que dependem das dinâmicas familiares. Para os profissionais, o registro de
ocorrência não passa de um “papel” e a mediação policial teria pouco poder diante da dinâmica privada da violência
conjugal. O ator mais poderoso, nesse caso, seria a própria mulher que, através da separação, estaria garantindo a sua real
proteção.
Portanto, o Estado se propôs a agir como ator importante na solução desse problema, mas os seus agentes acreditam
que é a própria mulher quem tem a melhor solução. Consequentemente crêem que essa violência é, fundamentalmente, um
problema de “relacionamento” e “convivência” e que a separação é o que protege. Independente do sentido irônico ou mesmo
punitivo que pode fazer parte dessas idéias defendidas por alguns policiais da DEAM, o que ocorre é que se devolve às
mulheres a responsabilidade de viver de maneira não violenta.

60
Sobre os atores e fatores que responderiam pela violência conjugal
As explicações sobre os fatores que implicam em violência conjugal recorrentemente se embaralhavam com
considerações acerca do comportamento dos atores envolvidos. Nas duas delegacias, é muito recorrente a percepção que
elege o alcoolismo do homem como principal fator a precipitar a violência doméstica e conjugal. Mas sobre esses homens,
nas duas delegacias, tanto surgiram versões acusatórias e que lhes imputavam a violência, quanto justificativas que
denotavam alguma compreensão ou mesmo tolerância em relação à manifestação de algum nível de agressão, dadas
condições de adversidade e de constrangimentos sociais em que muitos se encontrariam. Os homens foram simultaneamente
descritos como portadores de uma “natureza violenta” ou reprodutores de comportamentos machistas e agressivos _ como
homens que “traem a mulher”, que “não orientam os filhos”, “não ajudam em casa”, isto é, não cumprem o papel de provedor
e chefe de família socialmente esperado_ mas também como “trabalhador”, “bom pai”, “bom marido”, mas transfigurados
pelo alcoolismo. Sob efeito do álcool, o homem tornar-se-ia “mais agressivo” e perderia “a capacidade de discernimento”. É
uma explicação que retira boa parte da responsabilidade do agressor pela violência, na medida em que este é visto antes como
alcoólatra e, portanto, como vítima de sua própria doença.44
As raízes da violência nos espaços domésticos, não estariam reduzidas, no entanto, ao alcoolismo dos homens. Essa
não seria uma causa isolada e foi frequentemente inserida em contextos de deterioração econômica, emocional etc. A pobreza
foi o fator externo apontado como a principal causa da violência entre homens e mulheres. Esta percepção é expressiva tanto
na DEAM, quanto na distrital. A equação “pobreza = violência” é amplamente difundida no senso comum e, nas delegacias,
esta é operada para reforçar também que as vítimas (mulheres) são pobres e, por isso, dependentes de homens que, apesar de
viverem igualmente em situação de restrição econômica, são os principais provedores das famílias. Segundo os profissionais,
diante da falta de emprego e/ou dinheiro, o homem se sente muito pressionado pela mulher, que “fica querendo as coisas”, e
pelos “muitos filhos famintos”. Fracassado em sua função de provedor, e diante de tantas cobranças dos dependentes, o
homem se desespera e agride a cônjuge, e muitas vezes também os filhos. É neste quadro de pobreza e degradação que o
alcoolismo em geral se insere. A pobreza é, assim, identificada como produtora de “famílias desestruturadas”, nas quais
reinariam o alcoolismo e a violência. Embora alguns profissionais concebam que a violência conjugal e doméstica está
presente em todas as classes sociais, a justificativa da pobreza implica em atribuir às classes mais baixas o lócus por
excelência das relações familiares violentas. De acordo com essa lógica, nos estratos médios e altos, a violência conjugal
estaria ausente ou se configuraria apenas como evento isolado e, em grande parte desses casos, não chegaria a ser
publicizada. Há uma visão entre os policiais de ambas as instituições de que essas classes não recorrem à polícia em caso de
conflito, mas a outras formas de resolução que não passam pela via da justiça criminal, como processos de divórcio e
separação de bens, psicoterapia, e mesmo “viagens” ou “compras”. Na percepção dos policiais, a perspectiva da família
desestruturada e violenta não se aplica às classes economicamente favorecidas, o que reforça uma visão comum bastante
estigmatizante da pobreza. Violência e pobreza são percebidas como fatores fortemente associados.
Tanto na DEAM quanto na delegacia distrital, os policiais e funcionárias do balcão de atendimento caracterizavam
as mulheres envolvidas na violência conjugal como mães, casadas, dependentes economicamente dos maridos, pobres e
pouco escolarizadas. Em ambas as delegacias, há uma forte tendência, por parte dos policiais, em definir, genericamente,
essas mulheres como pessoas que se tornam vítimas da violência porque não possuem recursos econômicos ou acesso a
benefícios sociais ou educacionais. Ao mesmo tempo, comparado com os homens, as mulheres ocupam lugar central na
discussão sobre o comportamento dos atores envolvidos na violência conjugal. Nas duas delegacias a situação de agressão e
violência é descrita como um evento que inclui muitas interações e não se encerraria na conduta exclusiva do perpetrador, ao
contrário, muitos dos seus desfechos seriam de alguma forma (pré)definidos pelos comportamentos das próprias mulheres.
Um exemplo é que as mulheres estariam no centro da produção dos conflitos, ou mesmo da eclosão de algumas situações de
violência, na medida em que as manifestações de agressão dos homens seriam muitas vezes provocadas por elas. Elas tanto
provocariam como aceitariam essas situações, o que as tornaria, em muitos casos, cúmplices. Provocariam porque “irritam”
os homens até um ponto tal que “não lhes deixam outra opção” que não bater _ a agressão dos homens seria apenas uma
reação legítima. Ainda, a imagem da mulher irritante, foi reproduzida também via a idéia de que elas “reclamam o tempo
inteiro de tudo”, “falam muito”, “não fazem a comida”, “deixam as crianças largadas” etc. Por fim, aceitariam as violências,
quando, a despeito da agressão, escolhem permanecer casadas com eles. Frases como “só fazem com a gente o que a gente
permite” e “ninguém pode impedir o homem de bater, mas a mulher pode evitar apanhar” ilustram como relações de gênero
baseadas em manifestações de violência, podem ser, nesses contextos, explicadas.
Nas rotinas das delegacias, a construção social da mulher como vítima é, no mínimo, repleta de tensões.
Acreditamos que esse aspecto já foi suficientemente abordado no item 6 desse trabalho, quando tratamos da hierarquia de
credibilidade que envolve a classificação das vítimas na DEAM. Mas vale ainda destacar que essa “vitimização”, a menos
que traga conteúdos e materialidades indiscutíveis, é construída pelos policiais por um trilho de convencimento moral que
fará alusão ao histórico e comportamento da vítima, ao contexto da agressão etc. Inequivocamente, os policiais têm uma
percepção multifacetada da condição de vítima e essas faces múltiplas são vistas através de lentes que não avaliam apenas o

44
Para uma discussão a respeito da percepção do alcoolismo como doença e das correlações entre alcoolismo e violência, ver SOARES (1999). A autora cita
algumas pesquisas que mostram que não é possível “estabelecer conexões causais diretas entre álcool e violência doméstica, já que ambos são simultaneamente
motivados por combinações de fatores socioeconômicos e culturais” (pp. 240-1).

61
relato do “fato em si”, mas também a maneira como as vítimas se conduzem, ou dizem se conduzir, em relação aos papéis de
gênero.

Sobre as famílias envolvidas na violência conjugal


A família onde se desenrola a violência conjugal é indubitavelmente classificada pelos profissionais de ambas as
delegacias como uma “família desestruturada”. Imagens muito diversas e estereotipadas são utilizadas para definir essa
representação. A primeira é a de que, no interior dessas famílias, a manifestação de alguma violência seria um evento
provável. Seriam consideráveis as probabilidades de ocorrerem conflitos e agressões nas rotinas envolvendo membros desses
grupos familiares, sejam homens, mulheres, filhos e idosos. Com exceção desses últimos e dos filhos, quando crianças, os
outros atores estariam moldados para formas agressivas de interação, uma vez que esses relacionamentos conjugais e
familiares seriam naturalmente problemáticos e conflituosos. Esta percepção engendra a de que, no espaço doméstico e no
âmbito das relações de matrimônio e parentesco, algum grau de agressão interpessoal, ou mesmo de violência, seria
previsível e de certo modo aceitável. A naturalização da violência nessas famílias foi comum tanto aos policiais da Distrital
como aos da DEAM, onde esperávamos encontrar uma percepção diferenciada.
A “desestruturação da família” também foi vista como parte de um processo mais geral de “desestruturação social”
causado, aparentemente, pela “modernidade”. Assim, é comum na fala dos policiais a idéia de que “hoje em dia”, “ninguém
respeita mais ninguém”, “os jovens estão drogados”, “os valores estão invertidos” etc. A violência conjugal e doméstica
estaria, assim, inserida nesse contexto mais geral de questionamento dos valores morais de respeito, autoridade, harmonia etc.
Da mesma forma, a relação entre os cônjuges foi vista como a “base” moral sobre a qual a família deve ser
construída. Alguns profissionais, especialmente os policiais mais velhos, atribuíram à “desestruturação familiar” e violência
ao que eles chamaram de “casamentos precipitados”. O caráter de transitoriedade cada vez mais presente nas uniões
conjugais contemporâneas foi percebido por esses profissionais como um elemento negativo, pois contraria suas
representações de família e casamento como relações harmoniosas e duradouras. Casamentos “imaturos”, que não foram
antecedidos pelas fases de “namoro” e “noivado”, tenderiam, na visão desses profissionais, a gerar famílias desestruturadas e
violentas porque não estão mais assentados sobre as sólidas bases dos direitos e deveres rigidamente distribuídos por gênero e
geração, que outrora garantiam a estabilidade conjugal e familiar. A transitoriedade das relações, na medida em que comporta
dissensões, foi, assim, identificada como fonte de conflitos violentos. Devemos salientar que essa visão é minoritária e não
deve ser atribuída ao conjunto dos profissionais. Entretanto, é útil para evidenciar a persistente construção de modelos de
famílias “desviantes” e “normais”, a despeito do expressivo número de profissionais, bem como de pesquisas, que
reconhecem a existência de violência em casamentos de longa duração.
Finalmente, visões psicologizantes referentes a uma perspectiva de proteção à infância apareceram em relação aos
riscos do ambiente familiar “violento” ou “desestruturado” quando se trata do cuidado e atenção que devem ser dispensados
aos filhos. Os filhos são uma grande fonte de preocupação para os profissionais. Eles seriam as principais vítimas da
violência conjugal, uma vitimização até mesmo anterior a das mulheres. O pior aspecto da violência de gênero não seria
exatamente o desrespeito à mulher, mas a incapacidade de ambos os cônjuges de cuidar adequadamente das crianças. Essa
“incapacidade” seria o principal obstáculo à harmonia familiar. A violência conjugal geraria crianças violentas ou sofridas. É
isso, principalmente, o que mobilizava e sensibilizava os policiais e as atendentes.
***
No Brasil, realmente as DEAMs são pensadas como parte importante do processo que SOARES (Op. Cit.) chama
“vitimização afirmativa”, pelo qual as mulheres reconhecem-se como vítimas e constroem novos discursos e subjetividades
baseados nessa experiência. Como um espaço de construção da vitimização afirmativa, a DEAM confere poder e dignidade
às mulheres. Também é muito diferente das outras delegacias, a maneira como as DEAMs acabaram “personalizando” os
seus atendimentos e reduziram com isso o receio que muitas mulheres tinham de ir à polícia.
Se por um lado é fundamental reconhecer a importância da DEAM como instrumento efetivo de combate à
violência e como recurso que aumentou o acesso das mulheres à justiça, por outro, algumas situações interpelam sobre as
especificidades que justificaram a sua criação. A rigor, muitas das percepções que circulam e muitas das categorias utilizadas
por um grande número de profissionais, não seriam diferentes daquelas que encontramos na delegacia comum. Chama
atenção também o fato de que, nas duas instituições, de alguma maneira, é dirigida à mulher uma responsabilidade moral com
a promoção ou manutenção da harmonia familiar. Na DEAM ela pode ser ainda mais enfatizada pelos policiais, em virtude
das tensões introduzidas no próprio processo de institucionalização de uma “delegacia de mulheres”.
Nesse sentido, a construção do evento “violência conjugal” como um crime, é permeada por situações e formas de
interação que terminam por manter valores fortemente associados à concepção de que na divisão dos papéis de gênero cabe
principalmente à mulher investir em condutas apaziguadoras no cotidiano do lar e no interior das famílias. A violência contra
as mulheres nas relações de intimidade e nos espaços domésticos, se por um lado ingressou definitivamente na esfera pública,
por outro se tornou um fenômeno imerso em uma complexa teia de significados que confrontam práticas e culturas
diferenciadas.
O caleidoscópio de representações dos policiais nas duas delegacias acerca da violência conjugal, ainda mostra uma
geometria entre espelhos que desenha concepções estigmatizantes sobre as famílias envolvidas e que atribui às mulheres uma
grande responsabilidade com a reprodução harmônica destas. Se nos basearmos em FRASER (Ops. Cits.), implicaria em

62
dizer que esse jogo de tensões, permanências e retraduções interpela sobre as possibilidades de as mulheres serem
reconhecidas como parceiras plenas na interação social.

8. As vítimas
As expectativas e motivações que orientam as vítimas de ‘violência conjugal’ a procurar as delegacias e publicizar
a situação de conflito (e/ou agressão dele decorrente), novamente remetem a uma discussão sobre os possíveis impasses
postos na criminalização. Conforme mencionado, pesquisas mostram que o uso das DEAMs pelas mulheres segue lógica
diversa do movimento feminista e da própria instituição policial, uma vez que a mais frequente motivação das mulheres em
procurar as delegacias não consiste em criminalizar o parceiro. Por exemplo, BRANDÃO (Op. Cit.) destaca que as mulheres
utilizam a DEAM como ‘recurso simbólico’ para uma negociação e PASINATO IZUMINO (Op. Cit.) considera que as
delegacias e os JECRIMs estariam se apresentando como “espaços para o empoderamento das mulheres”, uma “ampliação de
seu espaço de negociação”.
As análises, por caminhos diferenciados, ressaltam relevantes aspectos que têm marcado a experiência de
institucionalização da ‘violência conjugal’ no Brasil. Mostram que, no âmbito das respostas das vítimas, não prevalece, nem
uma prática de mediação exclusivamente consolidada pelo Estado _ as mulheres não entregam todo poder ao Estado, na
medida em que interferem, de alguma maneira, no processo _ nem se trata, unicamente, de uma reprivatização do conflito
conjugal, de um retorno ao lar e à família, com consequente esvaziamento da questão na esfera pública. Seja ressaltando a
recorrência estratégica das mulheres a uma ordem legal, como em BRANDÃO (Op. Cit.); seja pela interpretação do
empoderamento através da ampliação dos espaços institucionais de negociação das mulheres, como em PASINATO
IZUMINO (Op. Cit.); esses trabalhos sugerem significativas articulações entre dimensões individual e coletiva, assim como
pública e privada.
Na DEAM pesquisada, as referências das mulheres aos conflitos conjugais que vieram registrar corroboram
pesquisas anteriores que identificam que a categoria “violência” é pouco citada. Ao mesmo tempo, observa-se a emergência e
difusão de categorias de outros campos.45 As categorias empregadas por elas para classificar as queixas foram “agressão
verbal”, “ameaça”, “injúria”, “xingamento”, “calúnia”, “difamação”, “pressão, “pressão psicológica”, “constrangimento”, “as
agressividades” etc. Entre cinquenta mulheres entrevistadas, quinze mencionaram que as “agressões” físicas (entre estas os
“empurrões” e “solavancos” que deixam “marcas”) também estiveram presentes.
A pesquisa na DEAM deixa patente que quando as mulheres publicizam o rompimento da reciprocidade nos
conflitos conjugais (sejam estes acompanhados ou não de violência física) estão, ao mesmo tempo, orientadas para uma ação
cujo sentido é a restituição da solidariedade perdida na interação familiar e no contexto privado. Este sentido implica em
restabelecer vínculos da dimensão emocional e dos afetos, mas estes não se restringem à esfera da conjugalidade. Não se trata
sempre de uma restituição pela via da recomposição do “casal”. A estratégia de publicizar a violência para reintegrar um tipo
de solidariedade no espaço privado extrapola, em muitos casos, as fronteiras da conjugalidade. Entre as mães, a decisão de
publicizar os conflitos e violências se justifica pela preocupação com o modelo de família que estaria sendo disseminado:
“porque está atrapalhando os meus filhos”, “porque foi na frente das crianças”, “porque dessa vez pegou o ponto fraco
(filhos)”, “por amor aos meus filhos” etc. Muitas vítimas recusaram a reprodução do modelo de homem agressor e de mulher
submissa na família, entre os filhos e filhas.
A ruptura do vínculo conjugal não exclui a perspectiva de ‘recuperação’ do autor, com o objetivo de reintegrar
vínculos ou mesmo pacificar outros circuitos de relacionamento no qual estão incluídos os filhos, principalmente, mas no
qual podem estar também outros parentes. Ou seja, o rompimento do relacionamento, não as impede de dizer que não querem
que o “ex” seja preso. Desejam que ele “seja tratado”, “que mude”, que “deixe de ser estressado” etc.
Imagens tradicionais dos papéis atribuídos nas relações de gênero permitem interpretar, nos contextos dos conflitos
conjugais, a relativa fixidez destes papéis ao se tomar na análise os casos nos quais as mulheres, ao publicizarem, rompem
com o parceiro acusado. A separação, se por um lado mostra rejeição ao modelo de relação conjugal, por outro, não implica
em ruptura com outras imagens que constituem o lugar do feminino. Nas relações privadas as mulheres ainda imputam às
suas ações uma enorme responsabilidade com o bem-estar da família. Pela lógica da distribuição dos papéis tradicionais de
gênero que orienta as ações de muitas mulheres, a publicização de conflitos e de violências deles decorrentes, requerem o
esforço de conjugar outros mecanismos (re)integradores da ordem familiar.
Não se pretende reduzir a problemática à simples equação de que as mulheres se sentem responsáveis pela
manutenção e reprodução da família. Trata-se de sublinhar uma articulação particular entre a noção de um direito individual
(posto na recusa de se submeter a uma ordem de conjugalidade violenta) e a preocupação com a produção de uma
solidariedade familiar. Na decisão de publicizar o evento da violência e os conflitos, há um esforço para conjugar projetos
individuais (e de construção de uma outra conjugalidade) com preocupações referidas à ordem familiar.46 Há um reforço a
perspectivas de futuro que são descritas como incompatíveis com o grau de conflitos cotidianos e formas de violência que
experimentam(ram) na relação com o parceiro. Estas expectativas, somadas ao constatado aumento de registros e à maneira

45
BRANDÃO encontrou categorias como “as ingnorância”, “as graças”, “as gracinhas” (Op. Cit., p.65).
46
Isso se manifesta através de projetos de futuro: “quero me reestruturar”, “quero cuidar mim, a vida foi sempre cuidar dos outros”, “quero olhar um pouco para
mim”, “quero mudar”, “não escolhi sofrer na vida”, “quero cuidar de mim e dos meus filhos”, “quero investir em mim” etc.

63
crescente como as mulheres vêm buscando apoio em outras redes de serviço, mostram que seus campos de possibilidade têm
se ampliado.
A fronteira da renegociação de um pacto restrito à conjugalidade, também é ultrapassada quando a denúncia é
motivada por “pressão da família”, por “incentivo de amigos” ou “conhecidos”, “amigos do trabalho” e, principalmente, por
incentivo de “filhos/as” jovens ou adultos que questionam a submissão da mãe e/ou o modelo de relação violenta. O
feminismo e as práticas de mediação legal dos conflitos têm difundido conteúdos morais de percepção das violências que
atingem não apenas as mulheres, mas também a família (filhos e filhas, principalmente), comunidade, vizinhança etc. Novos
padrões de sociabilidade vão sendo exigidos e incentivados nas esferas circundantes. Dessa forma, a publicização dos
conflitos e da violência movimenta muitos atores, tanto no momento da ‘decisão’ de denunciar, quanto nos possíveis
processos de negociação de outras formas de sociabilidade. As “negociações” são efetivamente empreendidas pela mulher
vítima, mas destas podem fazer parte muitos outros: sejam aqueles que pertencem ao campo das políticas de combate à
‘violência de gênero’ (“delegacia”, “CIAM” etc.), sejam aqueles mais presentes na vida pessoal (filhos, parentes, vizinhança,
grupos que representam poder na comunidade, amigos etc.). Há uma circulação intensa de valores que estão postos, tanto no
horizonte moral de instituições públicas, quanto no horizonte das experiências das mulheres.
É certo que muitos conflitos conjugais e situações violentas permanecem na privacidade dos relacionamentos.
Estamos tratando daqueles que foram inseridos na esfera pública pelos próprios atores implicados. São, portanto,
experiências de conflitos e de agressões que foram problematizadas e, de alguma maneira, rejeitadas como padrão de
sociabilidade. Porém, o fato de serem publicizados não significa adesão à idéia de que “tornar público” é entregar
estritamente para o Estado. Aqui, o “público”, não parece ser identificado, unicamente, com o universo normativo e
governamental, e nem se esgotaria nele. Este incluiria outras esferas onde a negociação pode ser, na perspectiva das vítimas,
efetivamente ampliada.
Neste sentido, as interpretações do fenômeno da ‘violência conjugal’, em seus vários desdobramentos e articulações
entre vítimas e instituições, não pode se restringir à oposição entre uma ordem moderna e individualista e a herança patriarcal
na qual o “público” terminaria submetido aos códigos pessoais ou à esfera familiar.
Os caminhos percorridos pelas mulheres ao publicizarem a ‘violência conjugal’ mostram que as suas demandas não
se reduzem ao foco dos direitos individuais como únicos. Muitas mulheres procuram, com o registro, recompor vínculos de
integração coletiva e familiar. São respostas específicas que mostram que, no Brasil, as mulheres tendem a pensar a questão
do reconhecimento dos seus direitos via práticas e situações locais que tornam esta agenda plural e complexa. Significa
também admitir que os “sujeitos de direitos”, projetados pelo feminismo, vão sendo construídos através de caminhos bastante
diversificados.47

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47
De acordo com BUTLER (2003) os sujeitos do feminismo são “pré-construídos”, o que tem implicado em versões homogêneas e lineares sobre as condutas e
identidades destes

64
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Família, protecção social e redes sociais: algumas reflexões a partir da história de


vida de uma família
Aline Ferreira
Universidade Federal Fluminense
eu.alinesilveira@hotmail.com

Viviane Moraes
Universidade Federal Fluminense
viviane_uff@hotmail.com

Lubia Badaró
Prefeitura Municipal de Natividade, Rio de Janeiro
badaro5@hotmail.com

Alessandra Franco
Universidade Federal Fluminense
alemelofranco@hotmail.com

Resumo: Este artigo, às luzes do debate sobre família e política social, apresenta a história de vida de uma família que tem como principal
característica a vulnerabildade social, através da qual discorre sobre a re-introdução da temática da Família nos Programas Sociais, o atual
conceito de Família utilizado nos programas e as novas responsabilidades que lhe são atribuídas.

APRESENTAÇÃO
No intuito de se conhecer melhor as condições de sobrevivência, a vida social das famílias em situações de
vulnerabilidade social e as representações das circunstâncias de suas vidas; recolhemos para o presente trabalho, depoimentos
e história de vidas de uma família beneficiária do Programa Cartão Alimentação de Bom Jesus do Itabapoana, no Bolsa
Família.
A ser dessa forma, teremos ao longo do trabalho, relatos das experiências de vida de uma família pobre, onde
estaremos pontuando o seu percurso de vida, suas redes sociais e sua relação com a Assistência Social.

ALGUMAS INDAGAÇÕES SOBRE FAMÍLIA E POLÍTICA SOCIAL


A partir do final do século XIX, uma série de descobertas e de progressos científicos e tecnológicos abalaram os
fundamentos tradicionais da divisão do trabalho e do poder entre os sexos, fazendo diminuir a mortalidade e
consideravelmente a parte do tempo ocupada pela gestação e amamentação no ciclo de vida das mulheres. (LEFAUCHEUR,
1991:486)
O aperfeiçoamento e comercialização dos métodos contraceptivos revolucionaram as relações entre sexos no que
diz respeito à iniciativa e ao controle da concepção e talvez ao conjunto da vida sexual.
Quando as mulheres utilizam estes métodos, os homens, pela primeira vez na história da humanidade, deixam de
poder expor contra a sua vontade ao risco de uma gravidez, e o seu próprio desejo de paternidade torna-se tributário da
vontade de maternidade das suas parceiras.
Com todas estas transformações ocorridas no final do século passado, podemos dizer que a família brasileira
também apresentou significativas mudanças em diversos segmentos da sua população, como a redução do número de filhos,
concentração da vida reprodutiva das mulheres nas idades mais jovens e aumento da concepção em idade precoce,
predomínio das famílias nucleares, mas com um aumento significativo das famílias monoparentais , sobretudo, chefiadas por
mulheres; aumento de pessoas que vivem só, da co-habitação e da união consensual e de famílias recompostas. (GOLDANI,
1994. Apud in MIOTTO, 1997:120)
Estas mudanças, tiveram profundas implicações na configuração familiar, acarretando uma fragilização dos
vínculos e uma maior vulnerabilidade da família no contexto social, onde as famílias pobres tornaram-se as mais vulneráveis
às situações de crise.
Podemos dizer que tais mudanças foram decorrentes de múltiplos aspectos, como a transformação e a liberalização
dos hábitos e costumes, o desenvolvimento científico e o modelo de desenvolvimento econômico adotado pelo Estado
brasileiro; que caracterizaram o processo de modernização da nossa sociedade, na segunda metade do século XX.

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Contudo, o modelo de desenvolvimento econômico adotado, mais os efeitos da crise econômica, a recessão e as
medidas de ajuste nas populações de países em desenvolvimento, tiveram na década de 80, como consequência o
empobrecimento acelerado de muitas famílias brasileiras.,
Nos países capitalistas em desenvolvimento, ocorre a castração da cidadania, sucedendo uma relação onde não é o
Estado o pilar fundamental da proteção social aos mais pauperizados, e sim a sociedade. É a rede de solidariedade social da
sociedade civil a protagonista principal na atenção aos despossídos e destituídos.
E o processo de retração estatal das políticas sociais na América Latina, sobretudo no Brasil, tem levado à
dualidade no acesso aos seus serviços e benefícios, criando um setor público para os pobres sem recursos e cada vez mais
desfinanciado e de forma complementar, um setor privado para quem pode pagar, devidamente incentivado pelos governos
nacionais e muitas vezes, subsidiado por recursos públicos.
Assim, os ajustes imposto no Brasil tem trazido enormes limitações para os municípios, no que diz respeito às
respectivas capacidades de intervenção e de resposta frente a enorme e complexa problemática social, face à crescente
desresponsabilização por parte do governo federal das suas atribuições e obrigações no campo das políticas sociais.
É nesse cenário que as redes de solidariedade e sociabilidade, como a família, ganham importância na política
social e, em especial, na proteção social movida neste final de século.
Há no desenho da política social contemporânea um particular acento nas sociabilidades familiares, nas redes de
solidariedades pela sua potencial condição de assegurar proteção e inclusão social.
Contudo, esta proteção dá a ilusão de um novo manancial de recursos para responder às dificuldades sociais
encontradas por uma parte cada vez maior da população. No entanto, esta forma de proteção tem fortes possibilidades de
acentuar as desigualdades, em vez de compensá-las. (Martin, 1995:71, apud in Vitale, 2002:55)
Podemos afirmar que as políticas sociais brasileiras foram se inscrevendo no campo do clientelismo político e do
assistencialismo, que além de não se aproximarem da redução, muito menos da erradicação da pobreza, muitas vezes
desempenham um papel ideológico e conservador para manter enormes contigentes populacionais submetidos ao peso da
alienação política.
E o movimento de desconstrução das políticas sociais, orientado pelo neoliberalismo, ideologia dominante no
Brasil a partir dos anos 90, que procurou transformar os programas e serviços sociais em mercadorias sujeitas às regras do
mercado, onde apenas os indigentes, os mais miseráveis dos miseráveis tornam-se o objeto de uma política centrada na
focalização.
Uma focalização que se materializa por programas precários, insuficientes, descontínuos e desvinculados entre si,
sendo muito mais fragmentadores do que focalizadores da pobreza.
Percebemos também que o princípio de descentralização, que diz orientar os programas, projetos e ações de
enfrentamento à pobreza e às políticas sociais de um modo geral, no Brasil, tem significado uma estratégia de repasse de
responsabilidades do Governo Federal para os Estados e Municípios, onde são desconsideradas suas heterogeneidades e
fragilidades.
Com essa tentativa de despolitização das políticas sociais o que se tem conseguido é fortalecer o movimento de
privatização dos programas e serviços sociais, reeditando a filantropia e a caridade, agora assumidas não só pelos indivíduos
e entidades vocacionais, mas por grandes grupos da economia privada, servindo para imprimir uma face de solidariedade aos
agentes do mercado.
Assim, essas reflexões desvelam a realidade da violência, da corrupção, da impunidade, do abismo da desigualdade
social na distribuição da riqueza socialmente produzida e da imensa pobreza que amplia e se perpetua, agravada pelo
desmonte dos direitos sociais e pela desresponsabilização social do Estado.
Essa situação nos faz reforçar a idéia da insuficiência, da fragilidade, da inconsistência e da descontinuidade das
ações desenvolvidas pelos governos, no sentido de alterar o quadro de pobreza e exclusão no Brasil.
Desse modo, podemos dizer que essa fragilização das políticas sociais tem levado a um atendimento cada vez mais
pontual, restrito, seletivo e precário, não atendendo a sua crescente demanda, que é uma grande parcela da sociedade que se
encontra submetida a situação de extrema pobreza, onde, sobretudo, mulheres e crianças emergem como uma população cada
vez mais vulnerável.
Assim, percebemos o modo como as famílias brasileiras foram sendo pressionadas por uma política econômica, que
em vez de assegurar condições mínimas de sobrevivência como renda, emprego, segurança, serviços de qualidade; foram
desencadeando situações geradoras de estresse familiar, como migrações, desemprego, ausência de serviços públicos.

VIVENCIANDO A POBREZA
Neste contexto de transformações políticas e sociais, apresentamos, como narradora de uma história de vida
marcada por um conjunto de carências, Luciana, 32 anos, casada, mãe de três filhos, nascida em Santo Amaro, distrito do
município de Campos dos Goytacazes, de onde veio para Bom Jesus do Itabapoana1.

1
O município de Bom Jesus do Itabapoana, pertence à Região Noroeste Fluminense, com área total de 599,4Km², de acordo com o censo de 2000, com uma
população de 33.632 habitantes, sendo a densidade demográfica de 56,1 habitantes por km².

67
Em sua infância conciliou estudo com trabalho na agricultura, mas parou de estudar ao se casar com Sebastião, aos
dezesseis anos de idade. Há 15 anos mudou-se para Bom Jesus, quando seu marido começou a trabalhar como “descarregador
de caminhão” em uma fábrica de doces. Trabalhou nessa empresa por cinco anos, depois passou por vários empregos e teve
períodos de desemprego, quando viveu de vários “bicos”.
Contudo, há dois anos atrás, em uma viagem para São Paulo, quando foi ajudar um primo no descarregamento de
caminhão para pagar o aluguel, sofreu um acidente, que deixou grandes sequelas em sua perna direita, que o incapacitou para
o trabalho. Como diz Luciana:
“A perna dele é uma coisa horrive, se você vê a perna dele, não pode colocar uma cueca na praia, tiraro muita carne
daquilo e ele não guenta mais trabalha, tudo que vai fazer num guenta. Se vai pegá um quintal pra capiná, de tarde
aquilo tá tudo inchado, começa a dar cãibra e ele tem que deitar logo.”

Assim, após o acidente, Luciana passou a depender de auxílios da Secretaria Municipal de Assistência Social, como
cestas básicas, auxílio construção, com o qual construiu dois cômodos, nos fundos da casa da sogra, para onde foi morar com
seu o marido e seus três filhos, o mais velho com 15 anos, outro de 9 e o mais novo de 7 anos de idade. Assim as condições
de moradia da família tornaram-se muito precárias. A família de 5 membros passou a viver em dois cômodos, sem banheiro,
em uma área de risco de desabamento, com seus poucos pertences.
“Não me importo não, do jeito que a casa tá aqui tá bom, a única coisa que eu queria era um banheirinho pra mim,
porque eu uso o da minha sogra e usar tudo junto fica chato, né? Aquela escada de pau também queria arrumar ela, tem
que vê no dia que chove! Outro dia eu tava descendo com um saco de cimento que tinha ganhado e puf! Cai no chão e
arrebentei a cara toda! Tem que arrumá aquilo ali!

Contudo, ainda passou a ter uma gratidão muito grande e uma verdadeira adoração à figura do prefeito e da
primeira dama, a secretária municipal de Assistência Social, em uma relação na qual não consegue perceber tais benefícios
como sendo seus direitos. Esses benefícios que ela pensa que são favores, são na verdade programas da Secretaria Municipal
de Assistência Social de atenção as necessidades básicas e garantia dos mínimos sociais, como o programa emergencial de
distribuição de cestas básicas, o “Ver Melhor” (distribuição de óculos) e o “Morar Bem” (auxílios em forma de mão de obra
e/ou em materiais de construção)
“Minha valença foi o Seu Prefeito e a Dona B. que me deram as téias e os tijolo pra fazer meu barraco e quando num
tenho o que cumê, ela ainda me dá uma bolsa-alimentação. (...) Outro dia meu menino do meio tava com muita dor de
cabeça, levei no médico e o doutor passou um óculos de cem reais e eu só recebo 80, fui lá e ela me deu o óculos pro
meu menino, ela é muito boa pra mim.”

A partir do acidente, Luciana passou a ser a responsável pela manutenção econômica de sua família, através de
diversas atividades, como de passadeira, lavadeira e até de servente de pedreiro. Para denominar tal fato, poderíamos utilizar
o conceito de “chefia de direito”, que é quando a sobrevivência do grupo familiar é garantido pela mulher, estando a família
com ou sem a presença do cônjuge, como propõem Youssef e Hetler. (1983. Apud in Carvalho, 1998: 78)
“Ele, num dianta, num guenta mesmo trabalhar! Eu que quando aparece quintal pra capiná que pego e capino, inclusive
tem um ali em baixo pra eu ir lá vê e capiná. A mulher do meu pastor também, de vez em quando, me dá umas trouxas
de roupa pra lavar, ela até deixa lavar lá na casa dela, na máquina. E faz uns dois meses que peguei o barranco da
mulher ali da frente pra cavucá por cem reais. Cavuquei tudo, se você ver nem acredita, cheguei ficar com o ombro
todo arrebentado por causa da lata de terra. A mulher falava que eu era muito corajosa, mas é o jeito de sobreviver, tem
que corre atrás, né?”

Sua família não possuí renda, apesar dos seus “biscates”, estes são eventuais e o benefício do Bolsa Família, no
valor de 80 reais, sendo R$50,00 do PCA e R$30,00 do Bolsa-Escola, que a família recebe mensalmente do Governo Federal,
não lhe garante, de fato, condições dignas de sobrevivência.
“A gente passa uma vida tremenda, porque os 80 reais não dá nem pra cumê! Tiro 30 pro gás, tenho que pagá a luz,
mais 20 e o que sobra, eu vou lá e compro um macarrão, um arroz. Tem vez que recebo e o gás num cabô ainda, vou lá
compro tudim em comida e depois até aparecer dinheiro, vou cozinhando lá fora na lenha.”

Desse modo, notamos que nem os “biscates” de Luciana, nem o benefício de transferência de renda do Bolsa-
Família, são suficientes para garantir a subsistência da família
“Tem dia que meus menino falam que quer um leite, que quer pão e não tem. É muito triste você vê seus filhos
pedindo as coisas e não poder dar... Os filhos de papaizinho senta na mesa com aquela comida gostosa e fala que não
quer comer, quando tenho as coisas pra fazer um arroz com feijão e frito um ovo, os menino ficam tudo bobo e come
duas, três vezes, falando mãe que comida boa!. É muito triste, outro dia passei em frente uma casa e vi na lata de lixo,
uma sacola com uns cinco pão, cheguei a chorar... Em pensar que tem dia que nem tem pão pros meus menino cumê...”

Reconhecemos a importância de muitas iniciativas de transferência de renda, contudo, muitas deixam claro a marca
“mínima dos mínimos” que vem permeando essas experiências de transferência monetárias para as famílias pobres.
“Aproveita-se da fragilidade extrema da população mais pobre, que, aturdida por exclusão lancinante, se dispõe a lutar
por e sobretudo a bastar-se com somas absolutamente irrisórias. Com efeito, para quem vive na maior miséria, alguma

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coisa é muito. A sobrevivência fala mais alto que a cidadania, porque aquela se impõe de imediato, enquanto esta é
gestada no longo prazo.” (DEMO, 2000:153, apud in BADARÓ, 2004:9)

E nas situações de crise, quando o dinheiro do seu benefício já se esgotou e não encontra biscates, a família recebe
apoio de amigos e parentes, que apesar de compartilharem a experiência de pobreza, se solidarizam uns com outros.
“Quando a situação tá feia vem um e me dá um mucado de macarrão, vem outro me dá um quilo de feijão, um arroz.
Ontem mesmo eu tava sem nada pra cumê, minha sogra foi lá comprou 5 quilos de arroz e me deu, a filha dela tem o
chitadão (Cheque-Cidadão) e quando recebe vem cá e me ajuda também”.

Contudo, esta rede de proteção oferecida pelas pessoas envolvidas em seu cotidiano, é frágil e tem suas limitações,
como ela mesma reconhece:
“As coisas tão difícil pra todo mundo, minha sogra ficou quatro meses cortada e agora conseguiu só dois meses do
benefício, o meu sogro só tem um salarinho da aposentadoria dele, eles num tavam nem guentando pagá a àgua e a luz
que foi cortada a dois meses. Então eles até mudaram pra roça, pra viver como campeiro, porque na rua não tava dando
mais.”

Estas redes de solidariedades que ajudam na sobrevivência da família de Luciana, devem ser refletidas, como
enfatiza Vitale, na relação com o encolhimento da responsabilidade do Estado e com a ausência de políticas públicas
consistentes ante questões sociais que se expressam no âmbito familiar. (2002:55)
A família de Luciana é também cadastrada no Programa de Atenção Integral à Família (PAIF), no Núcleo de
Atenção à Família (NAF), participando de ações de geração de trabalho e renda, onde fez um curso de culinária.
“Aprendi a fazer salgadinho no NAF, tenho a lista dos material, tudo direitinho! Tô querendo fazer pra poder vender,
mas só que tem que ter dinheiro pra compra o material que fica caro. Uma vez eu até fiz porque a Dona B. me deu um
isopor e algumas coisas, mas você vai e vende e faz uns 15 real e tem lá que comprá o material de novo, sem vê o
lucro. Tem que já ter o material antes, é difícil comprar isso pra depois ter o lucro.”

A ser desse modo, notamos que algumas ações de atenção às famílias vulneráveis, como sugere Carvalho
(1998:90/91), deveriam merecer atenção especial de planejadores e executadores de políticas sociais, sobretudo, os
programas de incentivo à geração de trabalho e renda, que muitas vezes concebem as mulheres simplesmente como mães e
donas-de-casa, com disponibilidade de tempo e potenciais para contribuir na complementação da renda familiar e com isso,
elaboram cursos que além de não atenderem seus ideais, não conseguem alterar seu quadro de vulnerabilidade social e criam
condições para garantir a inserção dos sujeitos no mercado de trabalho.
Além, dos cursos geração de trabalho e renda, o NAF também apresenta ações de atenção as necessidades básicas e
garantia dos mínimos sociais, como liberação de cestas básicas, de botijas de gás e até material de construção, em situações
emergenciais.
Para estar se beneficiando dessas ações, Luciana teria que estar participando de algum curso oferecido pelo
Programa. Contudo, ela não conseguiu conciliar os horários dos curso com seus biscates.
“Eu não podia ficar lá olhando pra cima com quintal pra pegá. As coisa tão difíceis, eu tinha que aproveitá que tava
aparecendo trabalho naquela época Agora tô tentando voltar pra lá, tô esperando vaga. Fui lá uns dois meses atrás vê se
tinha, mas não tinha não.”

Percebemos em sua narrativa, o valor do trabalho tanto para garantir sua sobrevivência, quanto para manter sua
dignidade, sua identidade social.
“Se pelo menos eu tivesse um emprego de carteira assinada, um salarinho, já ajudava bastante. Nossa vida seria bem
melhor... Eu podia melhorar minha casinha, fazer um quarto bonitinho pros minino, comprar umas roupinhas, um
sapatinho... Aí sim, nossa vida ia ser melhor.”

O desemprego, como uma expressão concreta da pobreza e da exclusão, a incapacidade para o trabalho se
apresentam como uma situação vergonhosa para Sebastião, no que diz respeito ao provimento do lar, que era de sua
responsabilidade antes do acidente.
“Ele fica nervoso, porque muitos home trabalham por mês ou por semana, tem o dinheiro dele e quando recebe vai lá e
faz uma comprinha pra família, faz um agradinho pros filho... Ele não coitado, ele fica triste porque vê os filhos
querendo as coisas e não pode dar. Ele quase não sai de casa, fica com vergonha porque tem gente que olha assim e
pensa, mais aquela mulher tem um marido vagabundo, que não gosta de trabalhar, não é assim, ele num guenta. Ele
falou inclusive que se arrumasse um serviço de ficar sentado, ele podia até fazer.”

Assim, o trabalho representa o caminho para uma vida melhor e a educação, é reconhecida como um caminho de
ascensão social.
“Meus minino tudo estudam direitinho, não deixo faltar aula, tem que estudá se quiser ser alguma coisa na vida. Eu
parei de estudar quando me juntei com meu marido, não interessei mais, mas agora interessei de novo e voltei, tô na 5ª
série! Hoje estudo faz falta pra tudo! Pra consegui um emprego bom, precisa de estudo, pra melhorar de vida, precisa
pra fazer um concurso, né?”

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Contudo, a busca de melhores condições de vida e de trabalho, torna-se uma referência importante na explicitação
dos seus desejos de migração, de se mudar de cidade.
“Já falei pro meu marido que tô com vontade de sumir de Bom Jesus, não tô guentando mais! Eu queria ir pro um lugar
assim que tivesse emprego bom, pra gente melhorar de vida, igual muita gente que a gente vê que vai pro Rio de
Janeiro e se dá bem lá. Mas ele que não quer ir. Duas vezes já juntei minhas coisas, minhas roupas pra poder ir embora
e largar tudo por aí, filho, marido, tudo... Porque é muito triste...”

Podemos dizer que esta família depende quase exclusivamente dos serviços sociais em suas estratégias para
sobreviver, buscando nesses serviços o suprimento de suas necessidades materiais de consumo e para enfrentar outras
dimensões significativas do seu cotidiano.
Estes serviços não se restringem apenas aos órgãos públicos, compreendem também a ação de entidades sociais,
como as religiosas, que executam programas assistenciais.
“A minha igreja ainda não tá me ajudando muito, porque tô começando agora, a igreja é pobre, tá em construção, mais
a mulher do pastor quando pode, sempre me dá uma coisinha... Mas na Igreja Católica que você vê falando que ajuda
tanta gente, eu fui lá, contei toda minha vida, expliquei minha situação e a mulher lá achou que eu num precisava
receber cesta alimentação e falou ainda que tô gorda e num passo dificuldade nada! Foi por causa dela que num
consegui o chitadão! Aí, larguei tudo pra lá, é muito difícil você fica dependendo dessas coisas, levá portada na cara...
E você tanta gente que não precisa, com a vida bem melhor que a da gente conseguindo as coisas...”

Contudo, as ações assistenciais, muitas vezes, significam tutela, reiteração da exclusão do sujeito, num movimento
de negação dos direitos sociais, que passam a ser concebidos como favores, como benesses, ao invés de significar o
reconhecimento dos direitos e o acesso ao protagonismo. Onde o sujeito precisa sempre estar passando por situações
vexatórias para garantir o que, de fato, é um direito seu.
Percebemos em toda sua trajetória, dois anos recorrendo à serviços sociais, nunca lhe foi explicitado que
Assistência Social é uma política pública, constitutiva do tripé da Seguridade Social Brasileira, como consolida a
Constituição Federal de 1988. E que dada as circunstâncias da sua vida, sua renda per capita inferior a ¼ do salário mínimo e
a incapacidade para o trabalho de seu marido, comprovada por diversos laudos médicos, nunca lhe foi, sequer, falado sobre a
existência do Benefício de Prestação Continuada.
Sem conhecer seus direitos, Luciana segue acreditando que se conseguisse aposentar ou “encostar” seu
companheiro, seria a solução de boa parte dos seus problemas. Mesmo sem ter contribuido para a Previdência, ela pensa que
com ajuda de vereadores, principalmente em momentos de eleição, pode conseguir.
“Ele (o marido) fala pra mim corre agora atrás pra poder aposentar ele, tem tanto candidato aí, agora. Vamo supor, se
eu arrumasse um emprego de um salarinho só, mas de carteira assinada, eu tirava 50 reais e pagava o INPS dele, mas
não tenho condição... Agora falei prum vereador ver a aposentaria dele pra mim, deixei a papelada do Bastião com ele
lá. Outro dia fui atrás dele e ele me disse que tava vendo com um escritório se podia, mais té hoje nada... Bastião fica
nervoso, manda correr atrás, eu vô, mais é difícil ficar levando toda hora portada na cara!”

Assim, Luciana vai levando sua vida, entre um quintal e outro, sonhando que sua vida vai melhorar, que alguém vai
conseguir aposentar seu marido e desse modo sua vida vai mudar, eles poderão “arrumar” sua casa, comprar melhores roupas
e se alimentarem melhor, garantir uma vida digna.
Porém, levantamos algumas questões: Quem são estes profissionais que trabalham com essa família? Por qual
motivo nunca trabalharam a Assistência Social na perspectiva de diretos? Será que ao atender os objetivos das instituições em
que trabalham, estão desempenhado, de fato, o seu papel profissional? Quantas Lucianas eles não devem atender por dia...

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como configuram diversos autores, a família é uma realidade com a qual temos bastante intimidade, contudo, tal
intimidade traz confusões ao conceituarmos família, pois, muitas vezes, nos baseamos em nosso modelo familiar ao
trabalharmos com a família. Enfatizamos, muitas vezes, as relações parentais a partir da consanguinidade, naturalizamos
nossas relações e com isso trabalhamos com estereótipos do ser pai, do ser mãe e do ser filho.
Esquecemo-nos que a dinâmica relacional estabelecida em cada família não é dada, mas é construída a partir de sua
história e de negociações cotidianas que ocorrem internamente entre seus membros e com o meio social mais amplo.
Nesse sentido, a família deve ser entendida como uma instituição social historicamente condicionada e
dialeticamente articulada com a estrutura social na qual está inserida. (Miotto, 1997:120)

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A intersectorialidade nas políticas para mulheres e do meio ambiente


Marli Renate von Borstel Roesler
UNIOESTE
marliroesler@hotmail.com 1

Rosana Mirales
UNIOESTE
mirales_ro@hotmail.com 2

Resumo: Esta comunicação aborda as interfaces entre a política para mulheres e do meio ambiente. Propõe-se iniciar reflexões sobre as
particularidades regionais e as formas organizativas dos segmentos sociais no enfrentamento de questões decorrentes das desigualdades de
gênero e da adoção de desenvolvimentos que desconsideram a sustentabilidade do meio ambiente. Em médio prazo, estas reflexões poderão
ser traduzidas em ações de extensão universitária. Trata-se da região designada Bacia Hidrográfica do Paraná III, constituída por 28
municípios localizados na região Oeste do Paraná. Pretende-se situar nos marcos da legislação as conquistas realizadas nesta perspectiva,
através das quais se vislumbram formas de contribuição para a organização das mulheres e o desenvolvimento sustentável. As

1
Doutora em Serviço Social. Professora Adjunta do Colegiado do Curso de Serviço Social da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE, Campus
de Toledo. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Agronegócio e Desenvolvimento Regional – GEPEC. Representante Titular da Sociedade Civil Organizada
no Comitê da Bacia do Paraná III, 2004-2007, Coordenadora da Sala de Estudos e Informações em Políticas Ambientais e Sustentabilidade – SEIPAS –
UNIOESTE/Toledo. Coordenadora do Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em “Fundamentos do Trabalho do Assistente Social” UNIOESTE/Toledo – Turma:
2007-2008.
2
Graduada em Serviço Social, mestre em Ciências Sociais; aluna do Programa de Estudos Pós Graduados em Serviço Social na PUC-SP. Professora do
Colegiado do Curso de Serviço Social da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE. Rua Faculdade 645 CEP 85903000 Toledo PR Telefone 45
3379 7000

71
particularidades que são expressões da totalidade possibilitam, na vida social, formas organizativas dos segmentos sociais que se desdobram
em práticas de enfrentamento às questões como as aqui focadas, que são decorrentes das desigualdades de gênero e da adoção de
desenvolvimentos que desconsideram a sustentabilidade do meio ambiente. A região da Bacia Hidrográfica do Paraná III, situa-se em um
contexto especial da América Latina, na tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, onde se constituem as ações de ensino, pesquisa
e extensão da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, na qual se atua como docentes da graduação e pós-graduação em Serviço Social e
em outras iniciativas formativas, de onde rapidamente a adoção de estratégias como a aqui discutida, poderá levar a transposição de
nacionalidades para um contexto latino-americano.
Palavras-chave: mulheres, meio ambiente, intersetorialidade.

INTRODUÇÃO:
As particularidades que são expressões da totalidade possibilitam, na vida social, formas organizativas dos
segmentos sociais que se desdobram em práticas de enfrentamento às questões como as aqui focadas, que são decorrentes das
desigualdades de gênero e da adoção de desenvolvimentos que desconsideram a sustentabilidade do meio ambiente. A
comunicação proposta pretende abordar as interfaces entre as políticas para mulheres e do meio ambiente, nos aspectos
relativos às ações iniciadas na região da Bacia Hidrográfica do Paraná III, constituída por 28 municípios localizados na
região Oeste do Paraná.
Esta região situa-se em um contexto especial da América Latina, na tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e
Argentina, onde se constituem as ações de ensino, pesquisa e extensão da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, na qual
se atua como docentes da graduação e pós-graduação em Serviço Social e em outras iniciativas formativas, de onde
rapidamente a adoção de estratégias como a aqui discutida, poderá levar a transposição de nacionalidades para um contexto
latino-americano.
Este processo poderá gerar condições de defesa de saberes e cuidados, em diálogos construídos como ferramentas
diante da grave situação socioambiental do planeta. Esta perspectiva apontada formalmente no capítulo 6 do II Plano
Nacional para Mulheres versa sobre o desenvolvimento sustentável no meio rural, na cidade e na floresta, com garantia de
justiça ambiental, soberania e segurança alimentar em seus objetivos, metas, prioridades e plano de ação. O texto da Agenda
21, documento resultado da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, no Rio de janeiro em
1992, em seu capítulo 24, já se voltou para a ação mundial pela mulher.

DESENVOLVIMENTO:
A intersetorialidade das políticas sociais
Tema de absoluta necessidade e de difícil possibilidade, a intersetorialidade entre as políticas setoriais que
compõem o quadro da política social, perpassa as discussões dos agentes que estão inseridos nos processo concretos de
planejamento, execução e avaliação das políticas.
Ocorre que todas as políticas setoriais “... que possuem uma leitura integral e integradora das necessidades
sociais...” (Sposati, 2004, p. 39) não se constituem sem o pressuposto da intersetorialidade mostrando que elas se completam,
compondo o quadro da política social, que traduz ao mesmo tempo a capacidade organizativa das populações e as intenções
governamentais como respostas a estas reivindicações.
A intersetorialidade torna-se neste sentido, um princípio da política social. Há alguns temas que, pela repressão
histórica de sua demanda na incorporação da agenda pública, carregam em si maior perspectiva de incômodo, pois traduzem
conteúdos e forçam a revisão nas políticas setoriais. Geralmente são os considerados novos temas, mas que de novo nada
tem, os quais, neste momento histórico são a pobreza, o meio ambiente, as mulheres, as diversidades de opções sexuais entre
outros.
Autores que discutem a assistência social vêm destacando, que este princípio não se confunde com ausência de
particularidade. Mesmo que neste texto se enfatize a natureza da política de meio ambiente e das mulheres como intersetorial,
deve se relevar que há particularidade em cada uma das políticas, que exigem um escopo próprio de regulamentação,
planejamento, orçamento, sistema que a articule em si, controle social e gestão, serviços etc.
Na situação das políticas de meio ambiente e para as mulheres, a natureza temática, exige a articulação e a interface
com outros temas. Como pensar o ambiente, sem pensar as populações, as sociedades, as culturas, os territórios e as formas
que encontram de enfrentar e suprir as necessidades e transformá-las em outras? Como pensar política para as mulheres sem
considerar que as demandas por elas explicitadas para a formulação das políticas exigem ações da educação, da saúde, da
segurança pública, cultura, lazer, de emprego e renda, da família, da criança e do adolescente?
A questão é que a natureza dos fenômenos se apresenta de forma articulada, em totalidades e com desdobramentos
absolutamente necessários, ou particularidades, quer seja em seu entendimento ou em suas formas de enfrentamento e
desdobramentos. No que diz respeito ao conhecimento dos fenômenos sociais, sempre se encontram relações entre as suas
formas de entendimento e como a sociedade se organiza política e economicamente. A adoção de métodos adequados mostra
ser inevitável a compreensão da sociedade em sua totalidade para posteriores entendimentos setoriais e segmentados. A
setorialização possibilita o aprofundamento da particularidade, o conhecimento sobre o fenômeno e o direcionamento de
ações, e por isso se lança mão desta forma de abordagem.

72
Vale agora pensar: seria possível a organização de ações se não fossem setorializadas? Como pensar no
enfrentamento real e universalizado, com a garantia de acesso comum a tod@s, de questões como a saúde e a educação em
sociedades nacionais? Estas formas de ações sociais tornam-se absolutamente necessárias, constituindo-se em campos de
disputas de projetos de sociedade e ao mesmo tempo de construção de possibilidades consensuais provisórias possíveis,
diante das conjunturas. Neste sentido, constituem-se em áreas de conhecimentos e de ação específicos, como parte da divisão
social e técnica do trabalho.

A política do meio ambiente, a agenda 21 e a Carta da Terra


O documento Agenda 21 representou o consenso da comunidade internacional a respeito da questão ambiental em
suas diversas faces sócio-econômicas e culturais, não se restringindo às questões de preservação e conservação da natureza.
Propôs o rompimento com os pressupostos do desenvolvimento dominante, que prioriza a produção econômica; a revisão à
exclusão social na gestão das políticas públicas; a indissociabilidade dos fatores sociais, culturais, políticos, éticos e
ambientais no enfrentamento da crise de civilização e na construção do desenvolvimento sustentável e, por isso, compreende-
se que é um instrumento a ser adotado como referência na formulação de políticas locais. No mesmo capítulo 24, a Agenda
21 considerou as convenções e tratados internacionais dos direitos humanos das mulheres como as Estratégias Prospectivas,
formuladas em Nairóbi, para o Progresso da Mulher e, sobre a Eliminação de todas as formas de discriminação contra a
mulher, baseada no sexo, acesso aos recursos de terra e outros, à educação e ao emprego seguro e em condições de igualdade,
de outras conferências que tiveram por tema as mulheres. A implementação das Estratégias Prospectivas de Nairóbi para o
Progresso da Mulher, particularmente em relação à participação da mulher no manejo racional dos ecossistemas e no controle
da degradação ambiental, passaram a constituir os objetivos e atividades propostas na referida Agenda, tornando-se
estratégias para os governos nacionais. O mesmo artigo 24, da Agenda 21, se refere também:
“... às medidas para examinar políticas, estabelecer planos a fim de aumentar a proporção e participação das mulheres
como responsáveis pela tomada de decisões, planejadoras, gerentes, cientistas e assessoras técnicas na formulação, no
desenvolvimento e na implementação de políticas e programas para o desenvolvimento sustentável”. (IPARDES,
2001).

Ao mesmo tempo, como medidas comuns, as duas políticas aqui focadas: de meio ambiente e para as mulheres,
requisitam da sociedade mudanças profundas quer seja no plano econômico, social, político, cultural e espiritual. Ou seja,
levam a projetar sociedades que tenham valores pautados na relação entre as sociedades e a natureza, com bases menos
destrutivas e, ao mesmo tempo, a imaginar sociedades com maior igualdade entre homens e mulheres.
O texto da Carta da Terra elenca grandes e complexos princípios: 1. respeitar e cuidar da comunidade de vida; 2.
integridade ecológica; 3. justiça social e econômica; 4. Democracia, não-violência e paz. No 3. princípio em especial,
encontramos expresso encaminhamento integrado e includente aos desafios e cuidados da carta da terra e da
intersetorialidade das políticas de se construir sociedades democráticas que sejam justas, participativas, sustentáveis e
pacíficas, ou seja, ao
“... afirmar a igualdade e a equidade de gênero como pré-requisito para o desenvolvimento sustentável e assegurar o
acesso universal à educação, ao cuidado da saúde e às oportunidades econômicas” (Carta da Terra. Princípio 3. Inciso
11., 2000) .

A Carta da Terra ao afirmar a igualdade e a equidade de gênero no desenvolvimento sustentável, busca - dentre
outros cuidados - assegurar os direitos humanos das mulheres e das meninas e acabar com todas as formas de violência contra
elas. Também, busca estabelecer as suas participações ativas, plenas e paritárias em todos os aspectos da vida econômica,
política civil, social e cultural, como parceiras e formadoras de opinião, lideranças e beneficiárias. Por último, o cuidado em
se reforçar as famílias e garantir a seguridade e a amorosa criação de todos os membros da família.
Isso pressupõe alterações profundas, quer seja no modo de produção, na cultura, nos valores, nos padrões de
consumo, na ética e na relação com o meio ambiente. Situado neste contexto pretende-se iniciar reflexões sobre as políticas
para as mulheres e de meio ambiente. Parte-se do pressuposto intersetorial que as duas políticas remetem, com vista a um
desenvolvimento sustentável e equitativo. O artigo 4o, inciso VI dos objetivos da Política Nacional do Meio Ambiente,
introduz esse compromisso ao apresentar em seu texto os fins e mecanismos de formulação e aplicação da política, dentre
eles:
“... à preservação e restauração dos recursos ambientais com vistas à sua utilização racional e disponibilidade
permanente, concorrendo para a manutenção do equilíbrio ecológico propício à vida” (Brasil, lei n. 6.938, de 31 de
agosto de 1981).

A política para mulheres e os dois planos nacionais


A luta por serviços e pela política para mulheres vem sendo parte das reivindicações das mulheres e do movimento
feminista, com maior vigor a partir do século XX. Neste século, muitas conquistas foram feitas pelas mulheres no plano dos
direitos e da cidadania.

73
A partir da década de 1980, cresceu o debate sobre gênero o que alimentou teoricamente a luta das mulheres,
passando a ser considera a saúde e violência, pontos estratégicos em suas mobilizações. É necessário se reconhecer que este
debate, ao mesmo tempo cresce em seu interior e polemiza não só em si, mas na relação com outras áreas do conhecimento.
Este contexto de crescimento do debate teórico sobre as estratégias de conquistas dos direitos das mulheres, não se
desvincula dos debates sobre os direitos humanos. A partir da década de 1970, passaram a se realizar conferências da
Organização das Nações Unidas que incorporaram a temática das mulheres, alimentando as lutas nacionais para a conquista
dos direitos e através de sua implantação de institucionalidade.
O movimento das mulheres e feminista cresceu e no país, várias organizações não governamentais que agregam
esta perspectiva organizativa das mulheres, mantiveram suas orientações políticas com base na luta por reais conquistas em
favor das mulheres e pela mudança real da sociedade em bases mais justas, seja com pressupostos na justiça social. Isso faz
com que atualmente a Marcha Mundial de Mulheres tenha sede no país. A expressão da capacidade organizativa das
mulheres pode ser visualizada não só através das conquistas no campo dos direitos, a exemplo da Lei Maria da Penha que
pela primeira vez regulamentou o combate à violência doméstica contra mulheres, mas através das manifestações que
ocorrem no dia 8 de março, lembrando o dia internacional das mulheres e que concentra em São Paulo a grande marcha nas
ruas. Como mostra que os direitos das mulheres se situam no campo das mudanças culturais, outra grande manifestação de
rua que ocorre em vários pontos do país e que as mulheres compõem, é a Parada GLBT ou dos gays, lésbicas, bissexuais,
travestis e transexuais, que ocorre anualmente.
No campo das regulamentações, foi tardia a constituição própria de uma Secretaria Nacional de Políticas para
Mulheres, a qual se constituiu somente em 2003. Antes disto, desde o período da redemocratização da sociedade, na década
de 1980, se constituiu o Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres, que se abrigou institucionalmente no Ministério da
Justiça.
A institucionalização da Secretaria Nacional possibilitou enfim que a política ganhasse dinâmica como a proposta
nos parâmetros de formulação e execução das outras políticas setoriais. Em 2004, ano de eleições municipais, ocorreram pela
primeira vez, conferências ou plenárias municipais, estaduais e a conferência nacional. O processo de formulação do I Plano
Nacional de Políticas para Mulheres gerou o debate interior as outras políticas, concretizando formas de incorporação
temática das questões de gênero pelas mesmas. O I Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (Brasil, 2004) teve por
eixos de discussão: - Autonomia, igualdade no mundo do trabalho e cidadania; - Educação inclusiva e não sexista; - Saúde
das mulheres, direitos sexuais e direitos reprodutivos; - Enfrentamento à violência contra as mulheres.
O II Plano Nacional (Brasil, 2008) formulado em 2007, ampliou a constituição dos eixos de discussão compondo-se
da seguinte forma: - Autonomia econômica com igualdade no mundo do trabalho, com inclusão social; - Educação inclusiva,
não racista, não sexista, não homofóbica e não lesbofóbica; - Saúde das mulheres, direitos sexuais e direitos reprodutivos; -
Enfrentamento de todas as formas de violência contra as mulheres; - Participação das mulheres nos espaços de poder e
decisão; - Desenvolvimento sustentável no meio rural, na cidade e na floresta, com garantia de justiça ambiental, soberania e
segurança alimentar; - Direito a terra, moradia digna e infra-estrutura social nos meios rural e urbano, considerando as
comunidades tradicionais; - Cultura, comunicação e mídia igualitárias, democráticas e não discriminatórias; enfrentamento
do racismo, sexismo e lesbofobia; - Enfrentamento das desigualdades geracionais que atingem as mulheres, com especial
atenção às jovens e idosas.
Observou-se a ampliação das temáticas dos eixos de discussão e formulação de propostas que se explicitaram no II
Plano Nacional. Disso decorreu que houve concretamente a incorporação de temas de relevância para os desdobramentos das
buscas de compensação das desigualdades historicamente constituídas em torno da desigualdade que as mulheres vivem. Não
é finalidade deste texto, analisar o significado social de cada uma das perspectivas incorporadas. Focaremos na incorporação
do eixo “Desenvolvimento sustentável no meio rural, na cidade e na floresta, com garantia de justiça ambiental, soberania e
segurança alimentar”. Este eixo incorporou através da recuperação de conteúdos como a igualdade e equidade de gênero, já
explícitos na Carta da Terra e da Agenda 21 Global, documentos sínteses Conferência das Nações Unidas para o Meio
Ambiente e Desenvolvimento (ECO 92), realizada no Rio de Janeiro e mais adiante considerada Rio +.
Foi neste contexto de regulamentação que o II Plano Nacional de Políticas para Mulheres, com vigência estratégica
articulada ao período do Plano Plurianual estabelecido entre 2008-2011, incorporou afinal a questão ambiental.
Ocorre que a implementação das propostas, como é comum a todas as políticas setoriais, depende da capacidade
organizativa das regiões, que no Paraná, também tardiamente passaram a ser incorporadas de acordo com as bacias
hidrográficas. Este é o desafio presente na conjuntura. Capacidade organizativa, seja das administrações do estado nas
diferentes esferas do poder e da sociedade civil, afim de traduzir estas intencionalidades de planejamento estatal em ações
concretas e que repercutam no cotidiano da vida das mulheres, situadas em suas sociedade e comunidades.
Diante de tais desafios colocados às mulheres em defesa do desenvolvimento sustentável e equitativo, e da
capacidade organizativa das regiões, a II Conferência Regional de Políticas para as Mulheres, ocorrida em Foz do Iguaçu/Pr
em maio de 2007, possibilitou a emergência da proposta de se estabelecer o Movimento de Políticas para as Mulheres na
Bacia do Paraná III, constituída por 29 municípios localizados na região Oeste do Paraná, área territorial estratégica e
fronteiriça com países latino-americanos: Paraguai e Argentina. Desde então, conforme dados da coordenação do movimento,
um processo de articulação de lideranças vem ocorrendo na região, motivado pela participação na II Conferência Estadual de
Políticas para Mulheres, ocorrida em Curitiba, no mês de junho de 2007 e na II Conferência Nacional de Políticas para
Mulheres, ocorrida em Brasília, em agosto de 2007. O último evento ocorrido nessa direção pelo movimento, “Encontro de

74
Políticas para Mulheres nas Eleições 2008” ocorrido em Medianeira no mês de maio/2008, se justificou pelas eleições à
Prefeitura e Câmaras Municipais em todos os municípios e a necessária motivação da participação feminina nos espaços de
poder nas Prefeituras Municipais, Câmaras de Vereadores e outras instâncias representativas, hoje ocupadas majoritariamente
por homens (Grondim, 2008).

CONCLUSÃO
O acompanhamento formal ao cumprimento das conferências vem gerando condições para institucionalidade das
políticas setoriais. Em esfera municipal e regional, cada uma das políticas setoriais adquire as características da gestão
municipal, as quais, nem sempre se encontram no campo democrático e popular, o que dificulta o avanço de propostas
participativas e descentralizadas no interior dos próprios municípios.
A incorporação da perspectiva ambiental II Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, corrobora a indicação
feita na Agenda 21, desde a década de 1990. A Política Nacional de Meio Ambiente, as conferências que ocorrem em
diferentes níveis de governo, e em destaque o texto do II Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, são documentos
formais que podem se traduzir em possibilidades organizativas dos segmentos sociais, o que nesta situação, vem fortalecendo
ao mesmo tempo, a perspectiva intersetorial das duas políticas, quais sejam, a de meio ambiente e para mulheres, bem como
cada uma delas, dada sua condição de novo tema que entrou para a agenda pública.
O II Plano Nacional de Políticas para as Mulheres amplia e aprofunda o campo de atuação das políticas setoriais em
áreas estratégicas, dentre elas, a participação das mulheres nos espaços de poder e decisão; no desenvolvimento sustentável
no meio rural, na cidade e na floresta, como garantia de justiça ambiental, inclusão social, soberania e segurança alimentar.
Não resta dúvida de que há muito por avançar, como exemplo, a geração de uma política para mulheres, a exemplo da já
existente no meio ambiente e em outras áreas temáticas.
O Movimento Regional de Políticas para as Mulheres na Bacia Hidrográfica do Paraná III fortalece a articulação na
defesa destas conquistas e direitos universais de todas e de todos. Este fórum, gerado a partir da iniciativa das mulheres na
região, poderá ser o guia das ações nas políticas setoriais, alavancando espaços e possibilidades de avanços na forma de
gestão democrática, bem com nas conquistas a serem feitas, em cada uma das políticas.

REFERÊNCIAS
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1992. Re-edição IPARDES-PR.
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as Mulheres. Brasília: Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres.
Brasil, Presidência da República. Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. (2008). II Plano Nacional de Políticas
para as Mulheres. Brasília: Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres.
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Petrópolis, apoio do Ministério do Meio Ambiente e Itaipu. A Carta da Terra: valores e princípios para um futuro
sustentável. Petrópolis: Gráfica Editora Stampa Ltda, 2004.
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http://www.sof.org.br/marcha ( Disponível na Internet em 29 de Julho de 2008).
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Sposati, Aldaíza. (2004). Especificidade e intersetorialidade da política de assistência social. In Revista Serviço Social e
Sociedade. no. 77, ano XXV, mar. , p.30-53.

A masculinidade não cai do "céu", ela nasce do "chão"


Amanda Rabelo 1
Universidade de Aveiro
arabelo@ua.pt

Resumo: O género é uma construção social de idéias sobre papéis adequados a homens e mulheres. Como o género é uma construção social,
um dos objetos que ele marca é o corpo humano, marcas que são efetuadas desde o nascimento pela “imposição” da masculinidade e da
feminilidade para identificar cada sexo. A sexualidade e o género podem estar ligadas à natureza, mas não podem ser a ela reduzidos, pois a
própria natureza é uma construção histórica e social: o “natural” se dá pela linguagem, pelas representações e se modifica historicamente.
Para compreender as atitudes dos homens, a relação de género em que se encontram, as resistências ou confirmações que eles representam,
faremos uma análise de como são formadas as masculinidades no contexto das relações de gênero e quais as consequências nas acções destes

1
Doutoranda em Ciências da Educação – Departamento de Ciências da Educação de Universidade de Aveiro –Projeto de investigação financiado pela FCT.

75
homens. Enfim, “a masculinidade não cai dos céus”. Queremos complementar esta frase metafórica de Connell (1990: 90) dizendo que a
masculinidade nasce do chão, que significa o contexto social, biológico, cultural e histórico onde o homem se insere, contexto em que a
família, a escola e o trabalho têm se marcado como instituições principais na formação dos géneros.

O Conceito de Gênero
A utilização do termo gênero teve a sua inicial aparição nas análises feministas a partir de meados da década de
1970 (Almeida, 1998; Scott, 1990; Yannoulas, 2001). A definição da OIT diz que:
Gênero é um conceito que se refere ao conjunto de atributos negativos ou positivos que se aplicam diferencialmente a
homens e mulheres, inclusive desde o momento do nascimento, e determinam as funções, papéis, ocupações e as
relações que homens e mulheres desempenham na sociedade e entre eles mesmos. Esses papéis e relações não são
determinados pela biologia, mas sim, pelo contexto social, cultural, político, religioso e econômico de cada
organização humana e são passadas de uma geração a outra... Gênero são as valorizações e definições construídas pela
sociedades para moldar o perfil do que é ser homem ou ser mulher nessa sociedade. A identidade de gênero é
desenvolvida durante a infância e a vida adulta (OIT/MTb, 1998, p. 12-3 citado por Yannoulas, 2001, p. 70).

Assim, o gênero é uma construção social de atributos diferentes a homens e mulheres efetivada durante toda a vida,
que acaba por determinar as relações entre os sexos em vários aspectos. O uso deste termo visa, assim, sublimar o caráter
social das distinções fundadas sobre o sexo e a rejeição de se usar a palavra sexo, profundamente fundada no determinismo
biológico e suas associações naturalistas, assim Yannoulas (2001, p. 70) define que:
A palavra sexo provém do latim sexus e refere-se à condição orgânica (anatômico-fiosiológica) que distingue o macho
da fêmea [...] A categoria gênero provém do latim genus e refere-se ao código de conduta que rege a organização
social das relações entre homens e mulheres. Em outras palavras, o gênero é o modo como as culturas interpretam e
organizam a diferença sexual entre homens e mulheres.

Scott2 (1990, pp. 7-8) ressalta no seu artigo “Gênero: uma categoria útil de análise histórica” que quando começam
os estudos de sexualidade esta diferenciação entre sexo e gênero pareceu ainda mais necessária. Nesta diferenciação o gênero
passou a ser visto como um modo de distinguir a “prática sexual dos papéis sexuais consignados a homens e mulheres: O uso
de gênero põe a ênfase sobre todo um sistema de relações que pode incluir o sexo, mas ele não é diretamente determinado
pelo sexo. Ele age mais sobre os domínio que implicam as relações entre os sexos”.
Esta divisão também é destacada por Almeida (1998, p. 43) quando diz que “sendo o sexo determinado antes do
nascimento por processos biológicos naturais, o gênero é um produto cultural adquirido e transmitido nas estruturas sociais”.
Assim, os estudos de gênero consideram a diferença entre os sexos como uma construção social. Diferença que não pode
servir como desculpa para desigualdades, mas como motivo para analisar as peculiaridades entre os dois sexos, o que implica
um não-acatamento das diferenças assentadas simplesmente no aspecto biológico e uma rejeição aos enfoques naturalistas3.
O gênero é uma categoria social imposta sobre um corpo sexuado, uma construção social de idéias sobre papéis
adequados a homens e mulheres. Mas temos que tomar cuidado com essa visão, pois não devemos interligar, pura e
simplesmente, o gênero e a biologia (Scott, 1990). Connel (1997, p. 6) concorda com esse pensamento e diz que o gênero é
uma prática social que se refere aos corpos, mas não se reduz a eles, pois o gênero existe na medida em que a biologia não
determina o social. Louro (2000) nos lembra, ainda, que a sexualidade e o gênero podem estar ligadas à natureza, mas não
podem ser a ela reduzidos, pois a própria natureza é uma construção histórica e social: o “natural” se dá pela linguagem,
pelas representações e se modifica historicamente.
Porém, Torrão Filho (2005, p. 149) lembra-nos que isso não significa que não existam traços biológicos na
constituição das identidades sexuais (para o autor, muitas vezes isso tem refletido em uma relação de medo e ódio à
natureza), não é preciso lutar contra um determinismo biológico apagando-se as diferenças sexuais, esse pensamento
redutoramente igualitário pode ser um empecilho para o avanço do conhecimento das relações de gênero, ele defende que há
atributos biológicos na constituição dos gêneros e da sexualidade, mas eles não são únicos.
Assim como a natureza é uma construção, Butler (2003) considera que o próprio sexo não é natural, ele também
discursivo e cultural como o gênero, assim, a distinção sexo/gênero é arbitrária, pois talvez o sexo sempre tenha sido o
gênero. Por isso propõe a idéia de entender o gênero como “efeito”, no lugar de um sujeito centrado, ou seja, o “ser um
gênero é um efeito, um sentido em si do sujeito”.
Os estudos de gênero evoluíram nas suas análise, portanto, tentaremos nos distanciar das abordagens criticadas por
Scott (1990, pp. 8-12): as que fazem apenas a descrição, sem explicar ou atribuir uma causalidade; as que analisam somente
as causas, mas tendem a incluir generalizações reduzidas ou demasiado simples; algumas abordagens feministas marxistas,

2
Uma das autoras mais citadas nos trabalhos acadêmicos dos estudos de gênero.
3
Este enfoque naturalista fixado nos aspectos biológicos de cada indivíduo era utilizado pelos positivistas e higienistas do século XIX na análise das relações de
desigualdades entre os sexos, que pressupunha a subordinação da mulher ao homem (pois a mulher era considerada com inferior biológica/ intelectualmente,
assim, deveriam ser retiradas da esfera pública e o homem alicerçar-se no poder). O higienismo, ainda embasado nestes pressupostos, reservava à mulher a
responsabilidade pela higiene doméstica e os cuidados com a saúde da prole, em nome do progresso e das necessidades profiláticas dos centros urbanos. Estas
formulações naturalistas e higienistas continuam encontrando respaldo em diversos setores sociais, entre o sexo masculino e mesmo entre as próprias mulheres
(Almeida, 1998).

76
onde o conceito de gênero foi por muito tempo tratado como um sub-produto das estruturas econômicas cambiantes e que,
apesar de alguns avanços, não deu ao gênero o seu próprio estatuto de análise; as baseadas na psicanálise, que trouxeram
contribuições importantes4, mas que tendem a reificar o antagonismo do masculino/feminino, assim parece que não há
solução, havendo a falta de introdução de uma variabilidade histórica e a previsibilidade da teoria.
A definição de gênero mais importante para o nosso trabalho é a de Joan Scott (1990, pp. 14-16). Sua conceituação
divide-se em duas partes (ligadas entre si, mas distinguidas na análise):
1- “O gênero é um elemento constitutivo de relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os
sexos” – esta primeira parte da definição de gênero é composta de quatro elementos, onde nenhum deles pode operar sem os
outros nem simultaneamente (como se um fosse um simples reflexo do outro), é preciso saber quais são as relações entre
esses quatro aspectos:
 os “símbolos” culturalmente disponíveis que evocam representações simbólicas e mitos.
 os conceitos “normativos” que põem em evidência as interpretações do sentido dos símbolos e se esforçam para
limitar e conter suas possibilidades metafóricas. São as doutrinas religiosas, educativas, científicas, políticas ou
jurídicas. Estas doutrinas tomam a forma típica de oposição binária e afirmam de forma categórica o sentido do
masculino e do feminino, mas apesar de reprimir qualquer alternativa, há conflitos. Contudo, a história posterior é
depois escrita como se estas posições normativas fossem o consenso social.
 as “instituições e representações sociais”, onde o historiador/pesquisador deve estar atento para desafiar a noção de
fixidez destas e ter uma visão mais ampla, pois uma instituição não constrói sozinha o gênero.
 a “identidade subjetiva”, que não pode ser dissociada da história, examinando as maneiras pelas quais as
identidades de gênero são realmente construídas e relacionando seus achados com toda uma série de atividades,
organizações e representações sociais situadas historicamente.
2- “O gênero é um primeiro modo de dar significado às relações de poder” – a autora considera que o gênero
aparece como um meio persistente e recorrente de dar eficácia à significação do poder em quase todas as sociedades atuais,
sem ser o único campo. Os conceitos de poder não se referem literalmente ao gênero, mas as mudanças na organização das
relações sociais correspondem sempre a mudanças nas representações do poder (sem significar um único sentido de
mudança).
A teorização de gênero de Scott (1990, pp. 16-17) é apresentada nessa segunda proposição, onde a busca por
encontrar as maneiras pelas quais o conceito de gênero legitima e constrói as relações sociais possibilita compreender a
reciprocidade entre gênero/sociedade e as maneiras particulares e situadas dentro de contextos específicos, “pelas quais a
política constrói o gênero, e o gênero constrói a política”5. Por exemplo, as hierarquias fundamentam-se nas percepções
generalizadas da relação “natural” entre masculino e feminino, as definições normativas de gênero reproduzem-se na cultura
dos trabalhadores, entre outras.
Para proteger o poder e as hierarquias a referência às características masculinas e femininas deve parecer certa, fixa
e natural. “Desta maneira, a oposição binária e o processo social tornam-se ambos partes do sentido do poder ele mesmo; pôr
em questão ou mudar um aspecto ameaça o sistema inteiro” (Scott, 1990, p. 18). Como as significações de gênero e de poder
se constroem reciprocamente, só é possível que as coisas mudem de acordo com os processos políticos6 (pois os
questionamentos à ordem vigente podem mudar ou utilizar os mesmos referenciais de outra forma).
A exploração das questões de gênero de uma forma ampla pode oferecer novas perspectivas a velhas questões,
redefinindo as antigas questões em novos termos e abrindo possibilidades para a reflexão sobre as estratégias políticas
atuais/futuras, pois esta exploração sugere que redefinir e reestruturar o gênero só é possível em conjunto com uma visão de
igualdade política e social (que inclui sexo, classe e raça) (Scott, 1990, p. 19).
Diante dessa concepção, o gênero é intimamente relacionado com as questões de poder no sentido amplo dos
micropoderes foucaultianos. Louro (2000, p. 14) exalta esta relação do gênero com o poder e propõe uma análise de
“construção social e cultural do feminino e do masculino, atentando para as formas pelas quais os sujeitos se constituíam e
eram constituídos, por meio de relações sociais de poder”. Não podemos esquecer que este poder (o micropoder ou biopoder)
não age somente reprimindo, mas pelo fascínio/atração dos sujeitos produzindo-os de forma tão interpessoal e intrapessoal
que muitas vezes o indivíduo não se dá conta disso.
Almeida (1998) concorda e acentua que as configurações de poder entre os gêneros, da mesma forma que os
significados, as normatizações valorativas, as práticas e os símbolos, variam de acordo com as culturas, a religião, a
economia, as classes sociais, as raças e os momentos históricos, formando redes de significações que se edificam e se

4
Ao mostrar que a linguagem constrói a identidade sexuada e que a identificação de gênero é extremamente instável, mesmo quando aparece como sendo
coerente e fixa. Há um processo de diferenciação e distinção que tenta superar a ambiguidade para assegurar a coerência. A idéia de masculinidade precisa da
repressão de aspectos femininos, sendo que a representação de masculino e feminino não é imutável, o conflito sempre existe. O masculino e o feminino são
construções constantes.
5
A política é somente um dos domínios nos quais o gênero pode ser utilizado para a análise histórica. A autora cita vários estudos que relacionam os regimes
autoritários e o controle das mulheres, nestes os dirigentes legitimam a dominação/força/autoridade identificando-os como masculinos, e o feminino é
identificado com a fraqueza/subversão. Traduz-se essa dominação em leis que situam as mulheres onde querem. Os regimes democráticos também construíram,
diferentemente, sua ideologia política a partir de conceitos generificados, como o paternalismo protetor presente em leis dirigidas a mulheres e crianças. Na
maioria das vezes a diferença sexual foi concebida em termos de dominação e de controle das mulheres, mas essa relação particular não constitui um tema
político universal (1990, pp. 17-18).
6
Político no sentido de que diversas significações conflituam para assegurar o controle (1990, p. 19).

77
relacionam integradamente, atuando em todos os âmbitos da vida quotidiana e nas relações de poder da sociedade que
revelam os conflitos e as contradições existentes.
Para estudar o modelo de estrutura de gênero, Connel (1997) propõe a análise de três dimensões: entender as
relações de poder (a subordinação geral das mulheres e a dominação dos homens que persiste apesar das resistências), de
produção (as divisões de gênero no trabalho e as consequências econômicas destas), mas é preciso compreender também a
cathexis (o vínculo emocional, as práticas que dão forma e atualizam o desejo, a heterossexualidade como forma de segurar a
dominação social dos homens). Por isso, devemos ir além do próprio gênero para entendê-lo, pois este é somente um dos
componentes da estrutura social.
Em resumo, concordando os referenciais citados, entendemos que para estudar o arcabouço das relações de gênero
precisamos enfatizar seus vários aspectos que passam pelas interações entre homens e mulheres, mas que vai muito além,
sendo uma estrutura ampla que abrange a política (que inclui o poder, a economia e o Estado), a família, a sexualidade, as
instituições, as normas, a identidade e que tem uma dimensão local e internacional. Sua estrutura é muito mais complexa do
que as divulgadas dicotomias homem/mulher.

Estudo de gênero não é sinônimo de estudo da mulher


Quando falamos sobre estudos de gênero a primeira idéia que vem à mente é mulher, feminilidade ou feminismo.
Inicialmente as investigações de gênero estiveram relacionadas com os estudos feministas sobre a mulher – que
representaram uma experiência de transformar os paradigmas dentro das ciências e obter o reconhecimento e legitimidade
institucional de uma nova categoria científica, novas metodologias e campos de pesquisa que visam reexaminar premissas e
critérios das análises7.
Mas queremos destacar aqui que o termo gênero é comum aos dois sexos, pois este deve ser entendido como uma
construção social, histórica e cultural, elaborada sobre as diferenças sexuais, conforme afirma Almeida (1998, p. 40): “o
conceito de gênero não se refere especificamente a um ou outro sexo, mas sobre as relações que são socialmente construídas
entre eles”. Joan Scott (1990, p. 7) também ressalta esta compreensão dizendo que:
“Gênero” tanto é substituto para mulheres como é igualmente utilizado para sugerir que a informação sobre o assunto
“mulheres” é necessariamente informação sobre os homens, que um implica o estudo do outro. Esta utilização insiste
sobre o fato de que o mundo das mulheres faz parte do mundo dos homens.

Assim, considerar os estudos de gênero como sinônimo de estudo das mulheres é utilizar um sentido mais restrito e
simplista, pois sua conceituação mais geral enfoca a construção social das relações entre homens e mulheres (Almeida, 1998;
Scott, 1990).
Yannoulas, Vallejos e Lenarduzzi (2000, p. 446) salientam que é necessário “evitar a tentação ginecocêntrica dos
feminismos”, pois o foco deve estar na elaboração de teorias que mostrem com a maior clareza possível as atividades das
mulheres enquanto atividades sociais, assim como, as relações sociais de gênero como elemento de importância para a
compreensão da história humana. Enfim, os estudos de gênero entendidos de uma forma ampla podem ajudar a compreender
os conflitos, resistências, reafirmações, satisfações e sucesso também dos homens (e vice-versa)8.

A construção da feminilidade e da masculinidade


Como o gênero é uma construção social, um dos objetos marcados pelo gênero é o corpo humano, marcas que são
efetuadas desde o nascimento pela imposição da masculinidade e da feminilidade para identificar cada sexo. Assim como nos
lembra Catani (1997, p. 39):
Toda a vasta gama de elementos que constituem a nossa cultura atuam no desenvolvimento da consciência social de
meninas e de meninos. Tanto para homens, quanto para as mulheres, modos de ser e de estar no mundo são, portanto,
construções históricas e culturais [...]. Não há apenas um conceito, mas houve e há vários conceitos de gênero, ao
longo da história, em diferentes culturas e até mesmo em uma dada sociedades, no mesmo momento histórico.

Os conceitos de masculino e feminino mudam, às vezes sutilmente. Como eles são configurações de prática de
gênero, eles são categoria sócio-histórica-cultural, e não só, são também biológicas, estes conceitos moram em todas estas
categorias ao mesmo tempo e a pressão de cada domínio apaga as marcas próprias do outro (assim como nos descreve
Connell, 1990).
Nepomuce (2005, p. 7) explica que a construção do masculino e feminino é histórica: na antiguidade o masculino
era considerado o sexo único, a mulher era o masculino com imperfeições; no iluminismo o sexo passa a ser uma

7
Vasconcelos (2005), por exemplo, descreve que vários embates são feitos pela história das mulheres para conseguir respeitabilidade, pois esta era vista como
parcial, tendenciosa e não profissional. Críticas que mascaram questões de poder e o caráter político da história das mulheres e dos estudos de gênero.
8
No nosso caso específico que foi investigar os homens que são professores na 1ª a 4ª série, os estudos de gênero foram importantes, pois estes são homens que
lidam quotidianamente com atividades sociais socialmente consideradas como femininas, deste modo, as suas relações de gênero colocam-se em conflito com as
expectativas e podem mostrar exceções aos padrões de gênero ou tentativas de reafirmação (apesar do próprio fato deles estarem em um ofício tradicionalmente
feminino já os colocar socialmente como exceções às regras de gênero).

78
diferenciação radical de opostos; atualmente ser homem ou ser mulher passa por deslocamentos e desconstruções de sentidos.
Mas para desconstruir a polaridade rígida de gênero ainda é preciso compreender que cada um, masculino ou feminino,
contém em si o pólo oposto, e que os gêneros se produzem nas relações intrínsecas de poder, uma construção que, de acordo
com a autora, “não passa somente através dos mecanismos de repressão ou censura, mas através das práticas e relações que
instituem os modos de ser e de estar no mundo”.
Essa definição social do ser homem e do ser mulher e dos seus modos próprios de ser em várias sociedades não têm
se limitado a estabelecer uma diferenciação binária entre estas categorias sociais. Para Amâncio (1998, p. 87) são
estabelecidas diferenciações assimétricas entre elas, ou seja, ao homem são conferidas competências que são como referente
universal, enquanto que a mulher é referida como categoria específica (conforme acontece na linguagem).
Amâncio (1998, pp. 15, 28-29) considera que a discriminação tem a sua origem nesta “forma de pensamento social
que diferencia valorativamente os modelos de pessoa masculina e feminina e as funções sociais dos dois sexos na sociedade”.
Por isso, importa analisar não as diferenças entre homens e mulheres9, mas o “pensamento social” sobre a diferenciação do
masculino e o feminino, ou seja, a epistemologia do senso comum sobre os sexos, a ideologia e as relações intergrupos.
E destaca um argumento importante para este estudo, a necessidade de:
salientar os processos que envolvem os diferentes significados atribuídos ao trabalho consoante o sexo dos que o
desempenham e que são partilhados por ambos os sexos [...] [pois] tanto homens como mulheres participam na
reprodução do sentido dos modos de ser que os diferenciam, através de padrões de comportamento que, embora
aparentemente distintos, têm uma origem ideológica comum (Amâncio, 1998, pp. 29, 34).

Ou seja, não é o homem enquanto “sexo dominante” que impõe o seu pensamento sobre a mulher, os dois sexos
partilham determinados valores (sim, a mulher também tem a sua parcela de culpa nas discriminações), as discriminações
de gênero não são atribuídas nem só às mulheres nem só aos homens.
Para a autora é importante estudar os estereótipos10 que constroem o masculino e o feminino, pois normalmente os
estereótipos sexuais não têm assumido a mesma funcionalidade para homens e mulheres: o estereotipo feminino normatiza os
comportamentos e caracteriza as mulheres, já o estereotipo masculino além de orientar os comportamentos, distinguem os
indivíduos mais pela sua autonomia do que pela sua categoria de pertença. Assim, o estereótipo feminino serve para os
homens identificarem as mulheres, mas para as mulheres é mais pertinente universalizá-los a fim de que mantenham um
significado positivo, conforme a autora explica no trecho a seguir:
A dominância do masculino não é uma propriedade dos homens, mas é uma propriedade de concepção do seu modo de
ser na medida em que se confunde com a concepção dominante de pessoa, ao nível de um modelo de comportamento.
[...] em contextos públicos [...] os homens afirmam a sua distintividade [...], mas as mulheres fazem-no sob certas
condições: a de que estes comportamento não implique uma ruptura com o modo de ser feminino e a de que ele não
subverta a natureza da relação entre os sexos (Amâncio, 1998, p. 180).

Desta forma, os estereótipos ajudam na dominação masculina e são prejudiciais às mulheres, pois a norma é
masculina, a exceção é feminina. As mulheres para serem “dominantes” têm que assumir características que são consideradas
“masculinas”, assim sua feminilidade fica comprometida e isto tem consequências na vida destas. Como Torrão Filho (2005,
p. 145) ressalva para entender o masculino ou o feminino é preciso relacioná-lo um ao outro e para entender a ambos é
necessário entender a homossexualidade, que é parte constituinte e constitutiva, da masculinidade e da feminilidade.
Os padrões de comportamento de homens e mulheres “constituem a parte mais visível de um fenômeno que o senso
comum designa por diferenças entre os sexos, mas por detrás desta evidência observável esconde-se a determinação de uma
ideologia que é partilhada por ambos os sexos” (Amâncio, 1998, p. 177). Uma ideologia de estereótipos que tem tido
consequências mais fortes para as mulheres, pois, o seu sucesso numa tarefa masculina suscita impressões mais negativas do
que o seu fracasso, além de ser mais fácil para a mulher obter sucesso numa atividade feminina (conforme a autora conclui
com as suas investigações).
O que a autora verifica é que o senso comum procura simplesmente confirmar a hipótese da estratificação social e
justificar aquilo que é incongruente com ela. O “diferente” tem maior visibilidade: um único comportamento serve para
explicar e comprovar uma hipótese previamente existente do estereótipo. Essa é a base menos visível da discriminação das
mulheres.
Nas explicações sobre o sucesso profissional, o homem tende a diferenciar o sucesso da mulher e do homem, já a
mulher não. Ou seja, o dominante procura preservar o seu sucesso acentuando a sua diferenciação (identificando a diferença
coletiva e masculinizando a mulher que ultrapassa as fronteiras), e o dominado universalizar (tentando minimizar a
discriminação de que são objeto, moderando as suas aspirações, valorizando a sua especificidade coletiva e a invisibilidade
individual, por fim, vendo as mulheres com sucesso como não femininas). Além disso, as mulheres tinham tendência a

9
Estudos estes que costumam centrar-se nas oposições binárias: biológicas, dos papéis sociais (baseadas em estereótipos), nas posições sociais na família e na
sociedade.
10
O conceito de estereótipo para a autora une-se com o das representações sociais (sendo uma diferenciação da psicologia européia/psicologia americana que
criou dois conceitos), pois constituem ideologizações coletivas, abrangem conteúdos e processos (como as representações) e traduzem também um conhecimento
prático e as crenças sociais (Amâncio, 1998, pp. 48-49). No entanto, como citamos anteriormente, Silva (2002) diferencia a representação do estereótipo, sendo o
último uma forma de representação em que entram processos de simplificação, e centra a representação na dinâmica das relações de poder. Enfim, não há um
consenso, mas preferimos utilizar a representação como um conceito mais amplo e complexo.

79
subestimar as suas atividades, enquanto os homens a superestimar as suas (Amâncio, 1998, p. 181). Por isso, a autora conclui
que:
Homens e mulheres contribuem, embora de maneira diferente para a acentuação da diferença e do desvio das mulheres
no mundo de trabalho, do mesmo modo que assumem naturalmente modelos de comportamento que lhes são
socialmente impostos. Mas é porque a identidade masculina e feminina se constroem na identificação com modos de
ser socialmente definidos, e não simplesmente com os grupos respectivos, que a análise das suas implicações para a
discriminação da mulher no trabalho não permite apontar nem culpados nem vítimas. Isto porque a objectivação da
diferença é partilhada por ambos os sexos na representação da situação da mulher no trabalho.[...] [Assim] a afirmação
do direito à diferença pode muito bem transformar-se na negação do direito à individualidade.

Resumindo, ambos os sexos assumem modelos de comportamento que lhes são socialmente impostos como se
fossem naturais, partilhando pressupostos e contribuindo para acentuar a diferença entre homens e mulheres. A
masculinidade e a feminilidade são construídas na interação entre os sexos, não pelos seus pares nem por um só sexo (que
seria o culpado pelas diferenças), assim não há culpados pelas desigualdades nem vítimas da mesma, tanto homens quanto
mulheres podem ser vítimas nesse processo, vítimas da discriminação e da demarcação da diferença11.
Se ambos partilham os estereótipos e contribuem para a desigualdade tanto reprimindo quanto construindo modos
de ser, se cada um contém o sexo oposto, é possível questionar as regras que tentam fixar o masculino e o feminino a partir
desta construção do ser, questionar as relações de poder que os formulam e falar de um homem mais feminino e uma mulher
mais masculina.

A construção da masculinidade
Ao estudar os homens no magistério é necessário fazer uma análise de como são formadas as masculinidades para
compreender as suas atitudes, a relação de gênero em que se encontram, as resistências ou confirmações que eles
representam. Apesar de não haver um consenso entre os estudos em torno da masculinidade, estes surgem depois dos estudos
feministas, com a modificação do lugar da mulher nas sociedades ocidentais e o questionamento de padrões tradicionais de
masculinidade (Alves, 2005).
Alves (2005) cita algumas classificações dos principais estudos sobre masculinidade: “conservadora” (que
considera natural que os homens sejam dominantes, provedores e protetores de mulheres), “pró-feminista” (critica a
dominação masculina e o privilégio da masculinidade), “direitos do homem” (os homens são vítimas dos papéis masculinos),
“espiritual” (os padrões inconscientes profundos devem ser atualizados), “socialista” (relaciona masculinidade e os tipos de
trabalho), “grupos específicos” (questiona o masculino universal e enfatiza a diversidade de grupos), “aliança com o
feminismo” (reconhecendo o conceito de gênero e o valor do seu legado) ou “estudos autônomos” (que não reconhecem o
legado feminista). Alves (2005) destaca também alguns estudos que buscam as origens da masculinidade12.
Connell é um dos principais autores sobre a masculinidade, no seu livro “Masculinities”13 (2005) ele teoriza a
masculinidade interligada com a conceituação de gênero, ou seja, considerando os contributos dos estudos feministas. O
gênero é algo tão presente que parece natural, mas envolve, na realidade, um enorme esforço social (inclusive em
normatizações) para orientar o comportamento das pessoas em determinado sentido. Como destaca Areda (2006, p. 1) “não
se nasce Homem, nem se é Homem”, mas torna-se homem, investindo na busca do reconhecimento da sua masculinidade.
Para Connell (1995) há uma narrativa convencional sobre como as masculinidades são construídas, onde toda
cultura tem uma definição da conduta e dos sentimentos apropriados para os homens e pressiona (de várias formas e em
várias instâncias) os rapazes a agir/sentir dessa forma (e a se distanciar do comportamento feminino). A maior parte dos
rapazes internaliza essa norma social e adota maneiras e interesses masculinos, tendo como custo, frequentemente, a
repressão dos seus sentimentos. Mas mesmo existindo um registro cultural de gênero, o conceito de masculinidade é recente
(assim como a feminilidade). Até o século XVIII as mulheres foram vistas como seres incompletos ou inferiores, mas não
como portadoras de características qualitativamente diferentes.
Algumas definições passaram a marcar a masculinidade. Connell cita as definições: “essencialistas” (definem um
núcleo do masculino universal, geralmente arbitrário), “positivista” (quer definir ‘o que os homens realmente são’, usa
estatísticas, mas acabam por se basear nas tipificações), “normativas” (define o que os homens deveriam ser) e “semióticas”

11
Por exemplo, Lopes (2001, p. 326) aponta entre as professoras primárias que entrevistou que a maioria define a sua identidade de gênero em função das suas
relações familiares, apresentando o modelo ideal docente associado ao estereótipo de “fada do lar”: “a mulher sente orgulho em ser mais responsável pela
educação dos filhos do que os homens e em “sacrificar-se” em nome do bem-estar “dos seus” e da criação de um bom ambiente familiar. Não prescinde das
tarefas e das compensações inerentes a esse estereótipo, por razões em que o pessoal e o social se confundem. [...] O estereótipo acima referido parece dificultar-
lhes o assumir do conflito ou até a sua identificação. Entretanto, culpabilizam-se e acusam-se pelo modo passivo e pouco inovador como desempenham o seu
trabalho (sobretudo “as mais velhas”), enfatizam nesse desempenho as características positivas também enfatizadas nas relações com os filhos, ao mesmo tempo
que valorizam nos homens o modo activo e inovador como desempenham o seu trabalho. Se dos homens se espera ambição e prestígio pelo trabalho, às mulheres
recomenda-se um sucesso moderado”.
12
Estes estudam encontram explicações na socialização (enfatizando os pares e a anti-feminilidade) e na psicanálise (enfatizando a repressão de aspectos
femininos). São limitados porque, como vimos acima na conclusão de Amâncio(1998), não são só os homens que constroem a masculinidade, mas também as
mulheres.
13
Com primeira edição datada de 1987.

80
(contrasta a masculinidade e a feminilidade, a masculinidade é a autoridade simbólica, a feminilidade é definida pela
carência).
Mas para Connell (1997, p. 1) as principais correntes de investigação da masculinidade tem falhado na tentativa de
produzir uma ciência a respeito dela, isto revela a impossibilidade dessa tarefa, pois o autor considera que a masculinidade
não é um objeto coerente para produzir una ciência generalizadora, mas ampliando nosso ponto de vista podemos ver a
masculinidade não como um objeto fechado, mas como um aspecto de uma estrutura maior. Assim, o autor define:
Ninguna masculinidad surge, excepto en un sistema de relaciones de género.[...] En lugar de intentar definir la
masculinidad como un objeto (un carácter de tipo natural, una conducta promedio, una norma), necesitamos centrarnos
en los procesos y relaciones por medio de los cuales los hombres y mujeres llevan vidas imbuidas en el género. La
masculinidad, si se puede definir brevemente, es al mismo tiempo la posición en las relaciones de género, las prácticas
por las cuales los hombres y mujeres se comprometen con esa posición de género, y los efectos de estas prácticas en la
experiencia corporal, en la personalidad y en la cultura (1997, p. 6. Grifos nossos).

Não existe uma masculinidade fixa (se fosse fixa não poderíamos falar de feminilidade nos homens ou da
masculinidade nas mulheres), pois qualquer forma de masculinidade é internamente complexa e contraditória, depende da
posição nas relações de gênero, das consequentes práticas de acordo com estas posições e os efeitos dessas práticas. Portanto,
a masculinidade é uma configuração de práticas em torno da posição dos homens na estrutura das relações de gênero, mas
Connell(1997, p. 8) afirma que estas estruturas podem seguir diferentes trajetórias históricas. Por conseguinte, a
masculinidade (e a feminilidade) associa-se constantemente a contradições internas e rupturas históricas.
Ao assumir que há várias masculinidades, ele cria, então, o conceito da masculinidade hegemônica (derivado do
conceito de hegemonia Gramsciano) que representa que há uma forma de masculinidade em cada tempo-espaço que tem
destaque em lugar de outras. Na nossa sociedade ocidental, a masculinidade hegemônica apresenta-se como a configuração
da prática genérica que encarna a resposta ao problema da legitimidade do patriarcado e garante (ou tenta garantir) a posição
dominante dos homens e a subordinação das mulheres (Connell, 1997, pp. 11-12).
Algumas críticas são efetuadas à sua conceituação de masculinidade hegemônica (descritos por Alves, 2005;
Matos, 2000) de que ela seria desnecessária quando já existe um conceito de patriarcado que dá conta das masculinidades
dominantes e que o conceito de hegemonia acrescentaria muito pouco, sendo necessária uma perspectiva que dê conta das
variadas dinâmicas existentes ou que “destradicionalize” as masculinidades.
Contudo, Connell (1990) analisa a teoria do patriarcado e verifica que essa conceituação está longe de ser um
sistema lógico bem estruturado, pois apresenta-se como uma rede de argumentos a respeito de relações entre várias coisas,
que tem como escopo a extensão dessa rede de argumentos14, entretanto, esta teoria centra-se nas condições para ultrapassá-
lo. Ele advoga que não é preciso uma relação “chave” do patriarcado, “central”, que organiza todo o resto. A sua unidade
pode ser concebida como uma unidade composta, como o produto flutuante da historia de muitos processos, que sempre
mostram alguma incoerência, algumas contradições.
A unidade no patriarcado não é uma unidade lógica, de definição, é historicamente produzida e como parte de uma
luta para impor vários tipos de ordem e de unidade nas relações sociais (uma delas é a família nuclear). A dinâmica do
patriarcado deve ser entendida como uma dinâmica composta, na qual interagem a resistência ao poder, as contradições na
formação da pessoa, as transformações da produção, entre outras relações (Connell, 1990, p. 92).
Defendemos, então, que o conceito de masculinidade de Connell (tanto a hegemônica como as outras possibilidades
de masculinidade que veremos) é necessário para os estudos das masculinidades. Pois, como o autor afirma, este termo não é
fixo e visa ir além da reprodução cultural, enfatizando o dinamismo da luta social pela liderança na mudança social, pois a
masculinidade que ocupa a posição hegemônica em dado contexto, é uma posição sempre disputável. Enfim, a guerra dos
sexos (entre outras lutas sociais), é o resultado de grandes desigualdades, desta forma, estudar a masculinidade precisa
associar-se a assuntos de justiça social (1997, pp. 11, 17).
Além disso, o conceito de masculinidade hegemônica não pressupõe que os portadores mais visíveis desta
masculinidade sejam as pessoas mais poderosas, pois apesar de ser correntemente aceita na sociedade, a maioria dos homens
não cumprem/praticam na realidade os ditos modelos normativos (respeitam as mulheres, não usam violência, fazem parte
dos afazeres domésticos), mas deseja hegemonia, pois se beneficiam das consequências patriarcais (obtém com a
subordinação das mulheres vantagens em termos materiais, de honra, prestígio, direito a mandar, direito às melhores posições
sociais). Enfim, a maioria têm uma cumplicidade com o projeto hegemônico, isto é, uma masculinidade cúmplice15
(Connell, 1997, p. 14).

14
Como a origem da subordinação das mulheres, as práticas culturais que a sustentam, a divisão sexual do trabalho, as estratégias dos movimentos de
resistências, entre outras.
15
Williams (1995) conclui igualmente com a sua investigação que a maior parte dos homens em profissões de mulher têm uma cumplicidade com a
masculinidade hegemônica, as próprias estratégias para manter sua masculinidade nestas profissões (tentativas de se diferenciar das mulheres/feminilidade e
afirmar suas diferenças, além de ocuparem postos superiores) faz com que os homens possam apoiar a masculinidade; poucos homens do seu estudo não apóiam
a masculinidade hegemônica (contrariando as expectativas dominantes da sociedade de como o homem deve ser). Catani, Bueno, & Sousa (2000) também
encontram em muitas das narrativas masculinas sobre a profissão docente um reforço das representações da autoridade masculina e uma associação da
“vocação”/adequação das mulheres para o magistério, ressaltando qualidades “naturais” de homens para a liderança e de mulheres para a afetividade. Carvalho
(1998) encontra essas e outras formas de reafirmar a masculinidade, mas também depara-se com uma tentativa de formar uma masculinidade diferente que
ultrapassa a relação de feminino e mulher, que descobre que o homem também pode ser feminino.

81
Em síntese, o gênero está imbricado em relações (e lutas) por poder: “un sistema de género donde los hombres
dominan a las mujeres no puede dejar de constituir a los hombres como un grupo interesado en la conservación, y a las
mujeres como un grupo interesado en el cambio” (Connell, 1997, p. 17).
Como não é a única forma, a masculinidade hegemônica em geral recorre à autoridade (mais do que à violência
direta), mas a violência16 também sustenta a autoridade e mostra a imperfeição desse modelo. Deste modo, Connell (1997,
pp. 14, 18), concordando com Gramsci, considera que uma hierarquia completamente legítima teria menos necessidade de
intimidar.
Enfim, “a masculinidade não cai dos céus; ela é construída por práticas masculinizantes, que estão sujeitas a
provocar resistência [...] que são sempre incertas quanto a seu resultado. É por isso, afinal, que se tem que pôr tanto esforço
nelas” (Connell, 1990, p. 90. Grifos nossos).
Ou seja, a resistência não está presente somente na feminilidade. Dentro da dominação da masculinidade
hegemônica há relações de dominação e subordinação, até mesmo entre grupos de homens, como o dos homens
heterossexuais sobre a subordinação dos homossexuais17 (pela estigmatização, exclusão política e cultural, abuso cultural,
violência, discriminação econômica e boicotes pessoais), mas esta parece ser a masculinidade subordinada mais evidente e
mais “associada à feminilidade”18.
Mas alguns homens heterossexuais são expulsos do círculo de legitimidade, também denegrindo pelo vocabulário
que os compara com a feminilidade. Além disso, como a masculinidade está inserida em contextos sociais mais amplos, em
que a classe e a raça também estão presentes, outra forma de masculinidade subordinada pode estar associada à raça (que
Connell denomina de masculinidade marginalizada), onde as masculinidades negras jogam papéis simbólicos para a
construção branca de gênero. Mas nestas dinâmicas podem existir exceções. Até porque, como veremos, as dinâmicas se
modificam:
A historicidade acarreta um processo histórico, uma dinâmica social. A biologia entra na constituição das principais
categorias do patriarcado; mas elas entram numa dinâmica social. [...] temos uma dinâmica social que incorpora, usa, e
transforma a diferenciação biológica. [...] a mesma diferenciação biológica é produzida de novo em cada geração [...] o
“material” biológico encontra não um mundo natural constante, mas as situações humanas novas produzidas a partir da
rodada anterior de encontros. Assim, a mudança histórica no patriarcado é não apenas possível, mas inevitável
(Connell, 1990, p. 91).

Assim como a história interage com a biologia em uma dinâmica constante em que um modifica o outro, a
modificação do patriarcado (da hegemonia) é inevitável. Por isso Connel (1997, pp. 14, 16) esclarece que não há um caráter
fixo na sua definição, somente configurações de práticas geradas de situações particulares, em uma estrutura cambiante de
relações. Toda a teoria da masculinidade deve dar conta deste processo de transformação. Não adianta só reconhecer que há
múltiplas masculinidades, temos que examinar as relações entre elas, inclusive as de classe e raça, também temos que
reconhecer o gênero ao mesmo tempo como um produto e como um produtor da história. O que não significa que as relações
de gênero sejam débeis e triviais, mas que elas se formam e transformam no tempo inseridas na ação social. Enfim:
Enfatizo que la masculinidad hegemónica encarna una estrategia corrientemente aceptada. Cuando cambien las
condiciones de resistencia del patriarcado, estarán corroídas las bases para el dominio de una masculinidad particular.
Grupos nuevos pueden cuestionar las viejas soluciones y construir una nueva hegemonía. La dominación de cualquier
grupo de hombres puede ser desafiada por las mujeres. Entonces, la hegemonía es una relación históricamente móvil.
Su flujo y reflujo constituyen elementos importantes del cuadro sobre la masculinidad que propongo (Connell, 1997, p.
12).

Por conseguinte, as masculinidades são fluídas como as relações de gênero, a resistência pode ser exercida por
novos grupos de homens e/ou de mulheres. A hegemonia patriarcal não é eterna, é historicamente móvel, mas temos que estar
atentos, pois, como vimos nas análises de Scott, as modificações podem não significar igualdade. Amâncio (2004, p. 27)
indica que:
Romper com a masculinidade cúmplice, contestando a masculinidade, como parte integrante de uma estrutura global
de poder, e as diferenças entre sexos e sexualidades que lhe dão sentido, é uma condição indispensável para uma
sociedade mais justa, onde homens e mulheres possam viver, em liberdade, a sua diversidade.

16
Existem principalmente dois tipos de violência: alguns usam a violência para sustentar sua dominação (ataques físicos e verbais), e sentem-se autorizados por
uma ideologia de supremacia (estão exercendo um direito); outra forma é a importância da violência na política de gênero entre os homens, que pode chegar a ser
uma maneira de exigir ou afirmar a masculinidade em lutas de grupo (principalmente na juventude).
17
O homossexualimo é perigoso ao patriarcado até por causa da existência das instituições homossociais existentes.
18
Mesmo esta masculinidade subordinada é uma forma de masculinidade, muitos tentam demarcar esta masculinidade como não subordinada, Areda (2006, pp.
2-5) demonstra que “Ser gay poderia a princípio aparecer como uma maneira de fugir da heteronormatividade; poderia, mas não é isso que tem acontecido”, pois
muitos homossexuais (os “meios gays”) tentam afirmar-se constantemente como Homem, criando “discursos que façam o envolvimento erótico com outro
homem aparecer como um movimento que não prejudique a sua masculinidade, ainda na busca de ser reconhecido como Homem”. Estes não tentam desconstruir
a masculinidade e lutar contra ela e contra a homofobia, ao contrário tentam encaixar-se na moral da masculinidade (o que torna necessário um empenho em
discursos de construção simbólica que se expurgue o “feminino” de seus atos e de suas subjetividades). Continua havendo um discurso misógino que cria, até nos
relacionamentos mais íntimos, barreiras identitárias intransponíveis e inegociáveis: “afirma-se como não-outro, mostrando que se é ativamente feminino e não
um outro feminilizado”. A “busca continua a mesma – não ser o outro. Esse exemplo ajuda a mostrar como o gênero antes de uma estrutura rígida é um discurso
que se apropria de atos e relações criativamente dando uma inteligibilidade masculina a relações mais múltiplas possíveis”.

82
Connel (1997, pp. 19-20) destaca ainda que, conforme muitos autores sublimam, estamos diante a uma tendência de
crise atual, mas não diante uma crise de masculinidade19, pois só podemos falar de uma crise de gênero como um todo, onde
tanto as “relações de poder” mostram tendências de crises (com a emancipação das mulheres), como as “relações de
produção” (com uma participação maior das mulheres) e as “relações de cathexis” (o homossexualismo e a ampla demanda
das mulheres pelo prazer/controle sobre seus corpos, estas “liberdades sexuais” têm afetado tanto a prática heterossexual
como a homossexual). Então, completa:
Las profundas transformaciones ocurridas en las relaciones de género en el mundo, producen a su vez cambios
ferozmente complejos en las condiciones de la práctica a la que deben adherir tanto hombres como mujeres. Nadie es
un espectador inocente en este escenario de cambio. Estamos todos comprometidos en construir un mundo de
relaciones de género. Cómo se hace, qué estrategias adoptan grupos diferentes, y con qué efectos son asuntos políticos.
Los hombres, tanto como las mujeres, están encadenados a los modelos de género que han heredado. Además, los
hombres pueden realizar opciones políticas para un mundo nuevo de relaciones de género. No obstante, esas opciones
se realizan siempre en circunstancias sociales concretas, lo cual limita lo que se puede intentar; y los resultados no son
fácilmente controlables (1997, p. 21).

As transformações ocorridas nas relações de gênero afetam a todos, pois todos estão envolvidos na sua construção,
apesar de estarmos envolvidos nos modelos que herdamos, podemos realizar opções que levem a novas relações de gênero,
mas não podemos esquecer dos contextos a que estamos interligados. Em outro artigo Connell (1995) afirma que a posição
dominante dos homens na ordem de gênero tem um custo material, e não podemos subestimar a dimensão desse custo, pois
não é fácil para os homens (nem para as mulheres) romper seus papéis sexuais rígidos.
Louro lembra que a masculinidade é vigiada constantemente e passa por um processo de masculinização (não pode
chorar, não pode aproximar fisicamente de outros homens, não pode trocar confidencias, tem que ter uma rigidez, não pode
ter afeto), assim “pouco importa sob quais bases foi fundada esta representação; o que importa é que ela teve e ainda tem
efeitos na produção de sujeitos masculinos e femininos” (2000, p. 53).
Neste sentido, Connell (1990, p. 91) explica que “as construções sociais complexas, tais como a masculinidade
hegemônica, estão literalmente corporificadas no processo de formação pessoal [...]. As pessoas realmente sentem de forma
diferente”.
Enfim, a masculinidade não cai dos céus. Queremos complementar esta frase metafórica de Connell (1990, p. 90)
dizendo que a masculinidade nasce do chão, que significa o contexto social, biológico, cultural e histórico onde o homem se
insere, contexto em que a família, a escola e o trabalho têm se marcado como instituições principais na formação dos
gêneros.

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19
Pois crise pressupõem um sistema coerente e a masculinidade não é um sistema nesse sentido, é uma configuração de prática dentro de um sistema de relações
de gênero, falar de crise de masculinidade abrange uma tentativa de restaurar uma masculinidade dominante (Connell, 1997). Amâncio (2004) descreve alguns
estudos que assumem esta perspectiva de restaurar uma masculinidade dominante.

83
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Transexualidade e transgénero em Portugal: dois “vazios” em debate


Sandra Palma Saleiro
Centro de Investigação e Estudos de Sociologia - CIES-ISCTE
sandra.saleiro@iscte.pt

Resumo: Contrastando com um crescente interesse da comunidade científica internacional acerca das temáticas da transexualidade e do
transgénero a que se tem vindo a assistir sobretudo a partir de meadas da década de 1990, em Portugal persiste um “vazio” na investigação
sociológica, e mais genericamente no conjunto das ciências sociais, acerca desses fenómenos. Partindo do projecto de investigação
“Transexualidade e transgénero: identidades e expressões de género”, desenvolvido no CIES-ISCTE com financiamento da Fundação para a
Ciência e a Tecnologia (FCT), pretende-se, assim, com a presente comunicação, contribuir para a discussão de realidades que têm estado
ausentes das ciências sociais em Portugal.
Começaremos, pois, pela tentativa de identificação de pistas que permitam enquadrar e compreender esta ausência da transexualidade e do
transgénero enquanto fenómenos merecedores de estudo por parte da sociologia e das ciências sociais em Portugal.
Por outro lado, numa altura em que no país vizinho entrou recentemente em vigor uma Lei de Identidade de Género que é generalizadamente
reconhecida como uma das (senão a) mais avançadas leis no que se refere aos direitos e protecções das pessoas transexuais, em Portugal
constata-se um “vazio” também neste aspecto. Face a este outro “vazio”, avançaremos para a reconstituição do panorama da transexualidade
e do transgénero em Portugal, não só a nível jurídico, mas também dos cuidados médicos e do movimento associativo onde se incluem – o
LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgéneros).
Palavras-chave: Transexualidade; Transgénero; Género; Identidades; Identidades de género; Expressões de género.

Introdução
Partindo do projecto “Transexualidade e transgénero: identidades e expressões de género”, desenvolvido no CIES-
ISCTE, com financiamento da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, pretende-se com a presente comunicação
contribuir para a discussão sobre dois “vazios”, obviamente interligados, existentes na realidade portuguesa acerca dos
fenómenos da transexualidade e do transgénero: um “vazio” na investigação sociológica e, mais genericamente nas ciências
sociais em Portugal, que até agora não se têm dedicado a estas problemáticas; e um “vazio” na própria sociedade em geral,
que torna estes fenómenos e os respectivos sujeitos praticamente invisíveis.
Uma das razões para a invisibilidade é a sistemática confusão em termos de senso comum entre a
transexualidade/transgénero e a homossexualidade. Trata-se efectivamente de realidades diferentes e, como tal, de
problemáticas diferentes: enquanto a primeira se refere à orientação sexual, os fenómenos que aqui nos ocupam remetem
conceptualmente para as identidades de género. A orientação sexual põe em destaque a questão da sexualidade, respeitando
ao sentido da atracção sexual; a identidade de género ao modo como as pessoas se sentem e se expressam em termos de
género. A principal confusão é pois entre homossexualidade e transexualidade ou o transgénero. A homossexualidade refere-
se à atracção sexual por indivíduos do mesmo sexo/género, não existindo geralmente, no caso das pessoas homossexuais
descoincidência entre sexo biológico e género social. Já as pessoas transexuais/transgénero podem ser, tal como as pessoas
cissexuais (ou seja, aquelas em que há uma coincidência entre sexo e género), hetero, homo ou bissexuais.


Investigadora do CIES-ISCTE, doutoranda do Programa de Doutoramento em Sociologia do ISCTE.

84
Interessa pois, antes de prosseguirmos, definir os termos centrais desta comunicação, ou seja, o que é que
entendemos por transexualidade e por transgénero, embora as próprias definições sejam ainda provisórias, já que são um
contributo esperado da pesquisa que nos encontramos a desenvolver.
Partindo de um sentimento aparentemente comum – a descoincidência entre sexo biológico (aferido à nascença pela
verificação dos genitais exteriores) e género desejado, aquilo que se designa nas ciências médicas por “disforia de género” ou
“perturbação da identidade de género”1 – os indivíduos transexuais serão aqueles cujo género é permanentemente sentido
como o oposto ao sexo biológico que lhes foi atribuído à nascença. Isto independentemente da sua situação face à cirurgia de
reatribuição de sexo, ou seja, quer a tenham ou não realizado ou até quer seja ou não desejada.
Por seu turno, os indivíduos transgéneros (ou transgender, como é mais habitual, utilizando o termo em inglês)
serão aqueles cuja relação com o sexo biológico atribuído à nascença não é necessariamente problemática e que sentem e
expressam não o outro género, mas outros fora do exclusivamente masculino e feminino ou não mantêm uma relação estável
com nenhum dos dois. Será o caso, por exemplo, das pessoas cross-dressers, andróginas, drag queens ou drag kings,
travestis, etc.

Transexualidade e transgénero: um “vazio” na investigação sociológica em Portugal


Tendo como objectivo realizar um projecto de investigação sobre identidades transexuais e transgéneros e
começando por uma pesquisa bibliográfica sobre o assunto, uma primeira evidência com que nos confrontamos é a ausência
de trabalhos realizados sobre essa temática na sociologia em Portugal. Já fora do âmbito das ciências sociais, no contexto
científico nacional foi possível colectar, através da análise da Revista da Faculdade de Medicina de Lisboa, oito autores das
ciências médicas que produzem sobre o tema, o que nos leva a questionar se estará a temática da transexualidade e do
transgénero numa fase em que ainda não serão legitimamente reconhecidos como fenómenos sociais, tal como aconteceu
outrora com a homossexualidade.
Se no contexto da produção sociológica internacional o tema tem merecido crescente atenção desde há duas ou três
décadas atrás, existindo já um considerável património de conhecimento respeitante a esta matéria, esse interesse não teve
eco nem paralelo no nosso país2. O défice de produção sociológica nacional é, aliás, extensível ao enfoque analítico que
assenta na problematização da tríade sexo/género/sexualidade, e consequentemente a uma temática, essa já largamente
estudada pela sociologia a nível internacional e que só recentemente emergiu na produção nacional - a identidade ou
orientação sexual. O desenvolvimento nesta última área é de tal ordem que deu até origem a um “tipo de estudos”, os gay e
lésbicos, com consideráveis contributos da sociologia. Justifica-se pois uma reflexão sobre esta ausência na investigação
sociológica em Portugal.
Se traçarmos a genealogia dos estudos que se centram na questão transexual/transgénero na produção sociológica
internacional, descobrimos a sua génese nos estudos sobre mulheres que introduziram a questão do género nas ciências
sociais, mas mais especificamente nos women´s studies sob influência da teoria feminista. Partindo do pressuposto e
consequente contestação do sistema patriarcal dominante nas sociedades onde recai a análise, a teoria feminista vai partilhar
com os autores que se centram nas minorias sexuais modelos analíticos e conceptuais sobre as identidades de género.
Avança-se depois para os “estudos gay e lésbicos” que dão visibilidade à questão das identidades homossexuais e finalmente
para a teoria queer, que trata a totalidade das categorias representadas na sigla LGBT – lésbicas, gays, bissexuais e
transgéneros (cf. Vale de Almeida, 2004 e Cascais, 2004a). Esta última é a principal responsável por trazer a
transexualidade/transgénero para o campo da análise sociológica, uma vez que parece adequar-se perfeitamente ao seu
estudo, como o demonstra a definição proposta por Annamarie Jagose no seu livro Queer Theory – An Introduction (1996),
“queer descreve os gestos ou modelos analíticos que dramatizam as incoerências nas relações supostamente estáveis entre
sexo cromossomático, género e desejo sexual” (Vale de Almeida, 2004: 91). Fazendo bandeira, a nível social, da diferença e
da multiplicidade e descentramento das identidades a nível teórico, os autores filiados na teoria queer reivindicam-se de uma
atitude pós-estruturalista e pós-modernista com influência sobretudo de Michel Foucault e as suas análises estão claramente
posicionadas epistemologicamente no pólo relativista/construtivista.
Tendo em conta a genealogia dos estudos que se centram na transexualidade e no transgénero que acabámos de
descrever, julgamos que um dos factores que contribuirão para a sua ausência a nível da sociologia em Portugal se prenderá
com a entrada tardia do conceito de género nas ciências sociais nacionais. Valerá então a pena determo-nos um pouco sobre
os tempos do género nas ciências sociais no nosso país.
A história do conceito de género nas ciências sociais surge em paralelo com a constatação das desigualdades entre
homens e mulheres e com a reivindicação de uma nova situação para a mulher na sequência do debate suscitado pela segunda
vaga do feminismo (a do activismo dos anos 60 e 70 do século XX) e portanto foram tradicionalmente as mulheres o objecto

1
Tal como consta do DSM IV.
2
A única abordagem de que temos conhecimento, no âmbito das ciências sociais, especificamente sobre transexualidade e transgénero em Portugal, é a da
antropóloga brasileira Juliana Jayme (2001) que, na sua tese de doutoramento da Universidade Estadual de Campinas, toma Lisboa como referência comparativa
em relação a Belo Horizonte. Já no plano dos movimentos sociais, a socióloga Ana Cristina Santos tem desenvolvido trabalhos sobre o movimento LGBT no
nosso país (Santos, 2003, 2004 e 2005).

85
de estudo e o referente empírico quando se falava de género, situação que só veio a ser alterada muito recentemente com a
descoberta pelas ciências sociais da “masculinidade” e das minorias sexuais.
A própria entrada do conceito de género é tardia no panorama português das ciências sociais, e também da
sociologia, por comparação sobretudo com o da produção científica de tradição anglo-americana e francesa. Tendo-se
difundido rapidamente na sociologia logo no início dos anos 1970 (com Ann Oakley em 1972), ele permaneceu nas ciências
sociais em Portugal, segundo Lígia Amâncio que traça a história do conceito no nosso país, em “estado de latência” até à
década de 1980 (2003:691). É, de facto, apenas a partir da segunda metade de 1980 que conseguimos colectar referências na
sociologia, sendo que a esmagadora maioria delas se situa já na década seguinte. Ana Nunes de Almeida num artigo de 1986,
que se debruçava sobre as mulheres como sujeito e objecto de investigação nas ciências sociais, dava conta desse défice,
considerando que o aumento de mulheres investigadoras não estava a ter correspondência, pelo menos no Instituto de
Ciências Sociais sobre o qual recaía a análise, na produção sociológica sobre o tema, retirando conclusões como a de que “a
mulher como objecto de investigação está praticamente ausente da produção científica do ICS” e constitui “um objecto que
prima pela sua invisibilidade” (1986:982).
Na procura de explicações para essa entrada tardia do género nas ciências sociais no nosso país, Lígia Amâncio
avança essencialmente três ordens de razões. A primeira terá que ver com o apagamento da memória colectiva portuguesa
dos movimentos feministas surgidos durante a I República e com as características do modelo feminino ideológico que lhe
sucedeu, o que fez com que os movimentos de mulheres que foram aparecendo durante os anos 70 não tivessem a força que
conseguiram noutros países e que impulsionaram a entrada do conceito no léxico das ciências sociais. A segunda remete para
o baixo nível de escolaridade da população portuguesa, e particularmente das mulheres, que raramente chegavam ao ensino
superior, não tendo impulsionando deste modo os debates académicos e os activismos sobre as desigualdades entre homens e
mulheres que tiveram lugar noutros países. Por último, o desenvolvimento ainda bastante recente das ciências sociais em
Portugal, já ulterior à tal vaga do feminismo activista dos anos 60 e 70 do século XX, o qual desempenhou um papel
estratégico na conceptualização do género nas ciências sociais e, não menos importante, as dificuldades financeiras crónicas
com que se confrontava a investigação científica até aos anos 19903, que “não era particularmente encorajadora de iniciativas
críticas, ao juntar a competição pelos escassos recursos disponíveis à competição pela institucionalização de territórios e
identidades profissionais” (2003:691).
Quando se dá a melhoria das condições, tanto ao nível dos recursos humanos com o aumento do número de
mulheres na investigação, quanto ao nível dos recursos financeiros, com um maior investimento na investigação nas ciências
sociais em Portugal, e neste caso particularmente da sociologia, surgem então as equipas de investigadores (quase
exclusivamente mulheres) e os projectos de investigação sobre a diferenciação de papéis entre homens e mulheres, sobretudo
na família e no trabalho. O conjunto de trabalhos produzidos tem já significativa expressão no património da sociologia
nacional.
A entrada tardia do conceito de género na sociologia em Portugal, bem como a necessidade de demarcação das
ciências sociais do campo político, dada a sua recentividade e consequente necessidade de legitimação, são factores, entre
outros, que contribuirão para explicar porque é que não se verifica na sociologia portuguesa o desenvolvimento dos estudos
sobre mulheres com influência da teoria feminista, à semelhança do que acontece noutros países. Tendo em conta a
genealogia dos estudos que se centram na transexualidade e no transgénero já descrita, podemos colocar a hipótese de que
este não desenvolvimento na génese tenha condicionado todo o percurso seguinte. Como também já foi referido, a teoria
feminista é uma forte influência nos estudos sobre minorias sexuais, partilhando tanto quadros analíticos como até projectos
políticos.
É de realçar quanto a este aspecto a excepção que constituem os trabalhos de Virgínia Ferreira. Esta autora, que
trata a questão das mulheres sobretudo na dimensão da vida profissional, está próxima da influência das autoras feministas e
de uma perspectiva epistemológica relativista e construtivista4. É também a autora que no campo da produção sociológica
mais tem desenvolvido a problematização do conceito de género, nomeadamente a sua relação com o de sexo. Quanto a este
aspecto há que referir a ausência na produção sociológica nacional de trabalhos que tomem a identidade de género como
objecto principal das pesquisas como acontece em disciplinas que lhes são próximas. Casos da antropologia, com Miguel
Vale de Almeida que tem desenvolvido estudos sobre a “masculinidade”5 e de Lígia Amâncio na psicologia social, que
investiga a “construção social do género”6.
Tendo em conta este “atraso” é preciso contudo referir que a sociologia nacional parece estar a encetar o seu
caminho no que concerne à temática da orientação e identidade sexual, como o demonstra a contabilização em 20067 de uma
tese de mestrado e em 2008 de uma tese de doutoramento8 sobre a temática.

3
Em 1986, Ana Nunes de Almeida defendia precisamente ser o financiamento a principal condição para o incremento dos estudos sobre as mulheres em Portugal
(cf. Almeida, 1986)
4
A autora propõe que se elimine o género do léxico da sociologia e que se substitua pelo sexo, uma vez que “devemos adoptar uma conceptualização em que o
sexo não é biológico mas culturalmente construído como sexo biossocial, em que o sexo aparece já como parte dos discursos sobre as identidades e os
comportamentos.” (Ferreira, 2003: 99).
5
Vale de Almeida, M. (1995), Senhores de Si. Uma Interpretação Antropológica da Masculinidade, Lisboa: Fim de Século.
6
Amâncio, L. (1993), “Género: Representações e Identidades. Análise das representações do masculino e do feminino e a sua articulação com as identidades”,
Sociologia. Problemas e Práticas, 14, 127-140 e Amâncio, L. (1998), Masculino e Feminino – A Construção Social da Diferença, Porto: Afrontamento/ICS.
7
Silva, F. V. (2006), Família, individualização e experiências da homossexualidade em Portugal, Tese de Mestrado, Lisboa, ICS.

86
Outras razões da ausência prender-se-ão precisamente com o outro “vazio”, a invisibilidade social da problemática,
remetendo para a velha questão entre problema social e problema sociológico. Acresce a isto a inexistência em Portugal de
estudos vindos “de dentro” (na tradição dos estudos de género) que foram grandes impulsionadores do desenvolvimento do
tema sobretudo nos EUA9, mas também na Europa, onde se salienta o Reino Unido10, mas incluindo, por exemplo, a nossa
vizinha Espanha11.

Transexualidade e transgénero: um “vazio” social em Portugal


A invisibilidade deste fenómeno em Portugal está bem patente no facto de não existirem dados disponíveis –
oficiais ou não – que nos permitam saber quantos indivíduos transexuais e transgéneros existem em Portugal. Se a obtenção
do número é difícil para os transexuais, será quase impossível consegui-lo para os transgéneros, dado ficarem fora dos
registos médicos.
Quanto aos transexuais, o número estimado pelo Hospital Júlio de Matos, um dos estabelecimentos de saúde que
acompanham pessoas transexuais, é de 210: 157 de mulher para homem e 53 de homem para mulher. Este rácio é curioso,
quer porque vai contra a nossa percepção - apesar de pouco visíveis quando aparecem são geralmente mulheres transexuais,
ou seja, homens biológicos que se sentem e se expressam como mulheres -, quer porque contraria o sentido do rácio (embora
considerado normal na bacia mediterrânica) - na esmagadora maioria dos países o rácio calculado é de sentido contrário.
Segundo os Standards of Care a prevalência é de 1 para 11.900 de homem para mulher e de 1 para 30.400 de mulher para
homem. Aliás, actualmente começa a surgir a hipótese na literatura sobre o tema, de que o rácio seja bem mais proporcionado
que as estimativas médicas usualmente avançadas, atribuindo-se o pender para um ou outro lado mais à visibilidade do que à
realidade. Por exemplo, em alguma literatura internacional começa a surgir a ideia de que os transexuais masculinos estão
agora a “sair do armário”.
Ouvidas num debate sobre transexualidade em 2007, a equipa do Hospital Júlio de Matos referiu contar no seu
ficheiro com 70 indivíduos e a equipa de Santa Maria avançou com cerca de cinco dezenas de pessoas seguidas na última
década12. No entanto, pode haver sobreposições, pois para completar um processo de transição os indivíduos podem ter que
passar por mais do que um estabelecimento hospitalar. Podem também existir desistências e novas inscrições noutro
estabelecimento.
Relativamente às características sociais destas pessoas, o vazio continua, como se esperaria, a ser quase total. Existe
um único inquérito realizado em Portugal, em 1998, da responsabilidade da ILGA Portugal, financiado pela Comissão
Nacional de Luta contra a Sida, com uma amostra de 50 indivíduos transexuais, mas cujos indicadores incidem quase
exclusivamente na área da saúde. Alguns dados conseguidos através das parcas caracterizações sociais realizados nos artigos
das ciências médicas estarão longe da representatividade, mesmo para o caso das pessoas transexuais.
Daí a necessidade e a utilidade de levarmos a cabo um inquérito por questionário que nos permita ter, pelo menos
uma aproximação do perfil social das pessoas transexuais e transgéneros no nosso país13.

Legislação
Não existe legislação específica referente à transexualidade e ao transgénero em Portugal, nem qualquer menção na
legislação existente à transexualidade, ao transgénero ou à identidade de género.
Esta ausência contrasta com o panorama existente num conjunto de países europeus, que começaram a legislar
sobre a matéria já desde o início da década de 1970, caso da Suécia (1972), tendo seguimento na década seguinte na
Alemanha (1980), Itália (1982), Holanda (1985) e Turquia (1988) e na década de 1990 na Áustria (1993). Já neste século
juntaram-se a este grupo de países a Finlândia (2002) e o Reino Unido (2004). Muito recentemente, mesmo aqui ao lado, na
vizinha Espanha entrou em vigor aquela que é considerada, a par do Gender Recognition Act do Reino Unido, como a mais
avançada lei no que se refere aos direitos e protecções das pessoas transexuais, a Ley de Identidad de Género (2007). Ambas
admitem a alteração de nome e de menção ao sexo na ausência de cirurgia de reatribuição de sexo, desde que exista um
diagnóstico médico que confirme a “disforia de género”. Apesar deste último aspecto ser objecto de contestação, dado que
este quadro legislativo pressupõe uma patologização das pessoas que não se identificam com o sexo que lhe foi atribuído à
nascença e não as toma como autónomas e auto-suficientes na tomada de decisão quanto à sua identidade de género, estas
leis constituem indubitavelmente uma subida de patamar no reconhecimento da identidade de género dos indivíduos.

8 Brandão, A. M. (2008), “E se tu fosses um rapaz?”: homo-erotismo feminino e construção social da identidade, Tese de Doutoramento em Sociologia, Braga,
Universidade do Minho.
9
Com nomes como Dallas Denny, Leslie Feinberg, Viviane K. Namast, entre muitos outros.
10
Com nomes como Stephen Whittle e Lewis Turner.
11
Com nomes como Norma Mejía que editou recentemente a sua tese de doutoramento: Mejía, N. (2006), Transgenderismos. Una experiencia transexual, desde
la perspectiva antropológica, Barcelona: Edicion Bellaterra.
12
Primeiro debate organizado pela associação ILGA Portugal especificamente sobre transexualidade em Janeiro de 2007.
13
Este inquérito está neste momento em curso no âmbito do projecto financiado pela FCT já referido.

87
Não obstante a situação descrita, há pessoas transexuais em Portugal que já conseguiram a alteração do sexo no
assento de nascimento. Importa pois perceber como é que, na ausência de legislação específica, se processa a alteração legal
da menção ao sexo no nosso país.
A classificação de uma pessoa como sendo homem ou mulher resulta das menções constantes no assento de
nascimento. Em Portugal não existe qualquer dispositivo legal específico que permita a alteração do sexo no assento de
nascimento, mas também não existe qualquer preceito legal que o impeça. Face à ausência de legislação, esta acção tem que
seguir a forma de processo comum de declaração ordinário, tendo a pessoa transexual que peticionar ao Tribunal que este crie
uma norma para cada caso concreto.
O processo tem pois que ter a forma judicial, e não a de mero acto administrativo como acontece nos países em que
esta situação está prevista e acautelada legalmente, com consequências em termos dos montantes financeiros e temporais
dispendidos e também de ansiedade, por parte dos requerentes que não têm à partida garantia de ver uma deliberação
favorável para o seu pedido.
Consultada a jurisprudência constata-se que as decisões têm sido constantes no sentido da autorização, desde que se
verifique um conjunto de pressupostos, que, para além da não fundamentação jurídica, são bem mais restritivos do que os
contemplados nas leis de identidade de género existentes. Alguns exemplos são: não ser casado/a, não ter filhos/as, ter
realizado cirurgia de reatribuição de sexo ou não estar em condições de procriar (ou seja, ser estéril).
Quando as pessoas não se pretendem submeter à cirurgia genital ou ainda não a concretizaram, podem pedir para
alterar o nome (não a menção ao sexo) para um dos poucos nomes neutros existentes no índice onomástico. Esta
possibilidade fazia com que as pessoas nesta situação conseguissem passar como “membros legítimos” do género desejado,
na maioria das situações, em que a identificação se faz mediante apresentação do Bilhete de Identidade. No entanto, o novo
cartão de identificação nacional contém, ao contrário do seu antecessor, a menção ao sexo, o que vem colocar em causa a
eficácia do recurso a esta “estratégia” para as pessoas transexuais.
Há países em que a identidade de género é explicitamente referida no que concerne à legislação anti-discriminação.
Em Portugal isso foi recentemente conseguido na revisão do Código Penal mas para a “orientação sexual”. O novo Código
Penal acrescentou assim a “orientação sexual” como motivação particular para a discriminação, a par da raça, do sexo e da
religião, no Artigo 240º e no Artigo 132º nos “crimes contra a vida”, os chamados “crimes de ódio”14 . Resta agora esperar
que a confusão que geralmente se faz entre estas duas problemáticas, a que nos referimos logo no início desta comunicação,
resulte aqui a favor da problemática da identidade de género. Não deixa, contudo, de ser um indicador, quer da perpetuação
da invisibilidade da temática, quer da pouca força reivindicativa dos indivíduos transexuais e transgéneros, de que falaremos
ainda mais adiante nesta comunicação.
Em Novembro passado activistas LGBT, entre os quais portugueses, reuniram em Estrasburgo com o Comissário
para os Direitos Humanos do Conselho da Europa para debater as discriminações e os direitos das pessoas transexuais na
Europa, onde foi reiterada a necessidade de em todos os países existirem leis especificamente relacionadas com a identidade
de género.

Cuidados clínicos
Até 1995, e contrariando uma recomendação de 1989 da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa que
recomendava aos Estados Membros que legislassem de modo a que se reconhecesse às pessoas transexuais o direito ao
processo de transição do sexo atribuído ao nascimento para o que corresponde à sua identidade de género15, as cirurgias de
reatribuição de sexo eram proibidas em Portugal pela Ordem dos Médicos.
A partir dessa data a proibição foi levantada. Os tratamentos médicos são acolhidos pelo Serviço Nacional de Saúde
no que respeita ao seguimento psicológico, hormonal e cirúrgico. No entanto, as pessoas transexuais consideram os serviços
demorados e burocráticos. Embora sigam os Standards of Care da World Professional Association for Transgender Health
(WPATH), documento de referência a nível internacional no que concerne às práticas clínicas das pessoas transexuais, a
realidade portuguesa tem algumas especificidades. Uma delas é a necessidade de avaliação pela Ordem dos Médicos do
pedido de realização da cirurgia de reatribuição de sexo, o que, segundo foi possível apurar, não acontece em mais nenhum
país onde a cirurgia é autorizada.
A primeira etapa do chamado “processo de transição” corresponde ao acompanhamento psicológico, no decurso do
qual irá ser produzido o diagnóstico referente à “perturbação de identidade de género”. Este pode decorrer nas consultas de
Psicoterapia Comportamental do Hospital de Santa Maria ou Hospital Júlio de Matos ou ainda nos Hospitais da Universidade
de Coimbra, por médicos e/ou psicólogos. De referir que não existe especialidade de sexologia na medicina nacional. Após a
confirmação do diagnóstico de “perturbação de identidade de género” pelos profissionais responsáveis pelo
acompanhamento, este tem que ser seguido de uma segunda opinião de um médico independente.

14
Alterações publicadas no Diário da República, 1ª Série, nº 170 de 04/09/2007, pp. 6181-6258.
15
Rcomendação n.º 1117 da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, de 29 de Julho de 1989.

88
Terminada a fase de diagnóstico interpõe-se o pedido de autorização ao Bastonário da Ordem dos Médicos para a
realização da cirurgia de reatribuição de sexo, bem como se passa à fase da endocrinologia, ou seja, ao tratamento hormonal,
que altera aspectos relativos à aparência (timbre de voz, pilosidade, etc.).
A fase das cirurgias, que apenas se realizam no Hospital de Santa Maria, no Serviço de Cirurgia Plástica e por um
único cirurgião plástico, podem incluir mamoplastia (quando necessário, uma vez que a toma de estrogéneos já tem como
efeito o crescimento do peito), a mastectomia (sempre), a extracção dos órgão reprodutores, a vaginoplastia e os vários
procedimentos cirúrgicos necessários no caso da passagem da vagina para o pénis.
Este processo não tem tempos máximos estipulados, pelo que desde os aconselháveis par de anos tem-se alargado,
no caso de algumas pessoas, até a meia dúzia de anos. Para além da morosidade, que se prenderá com vários factores, desde a
tal autorização da Ordem dos Médicos até à existência de uma única sala de cirurgia num único hospital em Portugal que está
reservada para este tipo de procedimentos apenas uma vez por semana e que conta com um único cirurgião, outra
reivindicação das pessoas incluídas no que concerne ao processo de transição é o facto de não estarem incluídas ao abrigo do
SNS procedimentos como por exemplo a depilação definitiva, no caso das mulheres transexuais.

Movimento associativo
A temática transexual e transgénero insere-se no movimento associativo LGBT – Lésbicas, Gays, Bissexuais e
Transgéneros, o que significa que a problemática da identidade de género surge num “pacote” com a orientação sexual.
Embora não se saiba ao certo quantos pessoas transexuais e transgénero existem em Portugal elas serão por certo, tal como
acontece nos restantes países, bastante minoritárias relativamente às pessoas que têm uma orientação sexual fora da
heterossexual, sendo por isso uma minoria dentro de uma minoria. Talvez por isso a sua voz dentro do movimento tem sido,
proporcionalmente ao seu número, também bastante minoritária. Arriscamo-nos até a dizer que, pelo menos até ao início de
2006, o “T” era frequentemente apenas um acessório na sigla LGBT.
Existiu de 2002 a final de 2007 uma associação especificamente dirigida à temática da transexualidade e do
transgénero – a ªt.* - Associação para o Estudo e Defesa do Direito à Identidade de Género16. No entanto, pelo menos nos
anos mais recentes, as suas tomadas de posição públicas apareciam frequentemente em parceria com outra associação LGBT
– as Panteras Rosa –, o que denota alguma fragilidade por parte desta associação. Viria a extinguir-se em Dezembro de 2007
”em virtude da sua actual inactividade”17. Esta situação terá tido a ver com a deslocação para o estrangeiro da fundadora e
presidente de sempre da associação, e da dificuldade em encontrar uma pessoa que lhe sucedesse na presidência, o que é
igualmente indiciador das dificuldades de organização colectiva das pessoas com estas expressões de género. Não nos
esqueçamos que estas pessoas são vítimas de discriminação, das mais subtis às mais brutais (como o comprova o assassínio
de Gisberta em 2006 e, mais recentemente, o de Luna em 2008) e que o “dar a cara” será um acto que pode acarretar
significativas consequências na vida dessas pessoas.
Parece-nos que o “despertar” do movimento LGBT para as questões de identidade de género terá acontecido após o
trágico acontecimento que foi a morte de Gisberta, cidadã transexual brasileira a viver há longos anos em Portugal, em
Fevereiro de 2006 e que, provavelmente pelo barbaridade do episódio, teve grande eco na comunicação social e acabaria por
motivar diversas iniciativas por parte do movimento. No entanto, a reacção do movimento associativo em geral, exceptuando
a associação especificamente dedicada às questões da identidade de género, ofereceu a possibilidade de constatar o seu
desconhecimento acerca da realidade da transexualidade. Assim, imediatamente após a notícia da morte de Gisberta,
surgiram comunicados das associações que se referiam ao crime como um crime motivado pela homofobia, sem menção à
transfobia, ou, o que será ainda mais ilustrativo, a qualificação da vítima como “travesti” ou até “homem travesti”, com o
consequente tratamento no masculino.
A partir dessa altura até ao presente momento algumas alterações têm vindo a acontecer a nível da atenção que o
movimento dedica às questões da identidade de género. De facto, sobretudo a partir de 2007 foi possível ir assistindo a uma
sucessão de iniciativas especificamente sobre transexualidade e transgénero levadas a cabo pelas diversas associações LGBT
nacionais, como por exemplo, a colaboração das Panteras Rosa com a ªt* nas múltiplas iniciativas que tiveram que ver com o
assassínio das duas pessoas transexuais; dois debates realizados em 2007 pela Ilga Portugal, especificamente sobre as
questões da transexualidade com a participação das equipas médicas envolvidas no processo de transição; a realização de um
colóquio sobre “Transexualidade em Portugal”, organizado pela Opus Gay no âmbito do encerramento do Ano Europeu da
Igualdade de Oportunidades para Tod@s; a acção anti-psiquiatrização em Lisboa: “Doença é o binarismo de género”,
convocada pelas Pantera Rosa em Junho de 2008.
Esse crescendo de atenção chegou a ter reflexos mesmo a nível organizativo interno das associações, como se pode
constatar com a criação em Abril de 2007 de um Grupo de Interesse sobre Transexualidade dentro da maior associação
LGBT portuguesa, a ILGA Portugal: o GRIT – Grupo de Reflexão e Intervenção sobre Transexualidade.

16
Cf. o sítio da associação em http://a-trans.planetaclix.pt/.

89
Tanto a Ilga Portugal, precisamente através do GRIT18, como a Opus Gay19 conceberam propostas para uma lei de
identidade de género.
Para concluir, na área política, mas que extrapola o próprio movimento associativo LGBT, é de referir que, apesar
de ténues, e ainda sem qualquer efeito efectivo, vão contudo havendo alguns indícios de preenchimento deste vazio que aqui
nos tem ocupado. Assim, em Fevereiro de 2008 assistiu-se a uma audiência parlamentar, promovida pelo Bloco de Esquerda,
sobre a realidade das pessoas transexuais em Portugal, com a participação de representantes do movimento associativo e de
pessoas transexuais. Já em Junho do mesmo ano o mesmo partido inclui uma mesa redonda sobre transexualidade e
transgenderismo no Fórum Sem Medos – Jornadas contra a homofobia. Continuando na área político-partidária, a Moção
Global de Estratégia “Agir por + Igualdade”, que têm como primeiro subscritor o actual líder da Juventude Socialista (JS),
que foi eleito em Julho de 2008, integra o compromisso de a JS promover a apresentação de um projecto de lei sobre
identidade de género, permitindo às pessoas transexuais a mudança de nome e de sexo no registo civil, “salvaguardando o
direito fundamental à identidade pessoal e ao livre desenvolvimento da personalidade”.

Bibliografia
Almeida, A. N. (1986), “As mulheres e as ciências sociais: os sujeitos e os objectos de investigação”, Análise Social, 94, Vol.
XXII, 979-985.
Almeida, A. N. (1996), “Desafios para a mudança: actores, práticas e processos sociais”, Sociologia – Problemas e Práticas,
20, 105-112.
Almeida, A. N. & outros (1998), “Relações familiares: mudança e diversidade” em J. M. Viegas & A. F. da Costa (orgs.),
Portugal, que Modernidade?, Oeiras: Celta.
Amâncio, L. (2003), “O género no discurso das ciências sociais”, Análise Social, 168, Vol. XXXVIII, 687-714.
Cascais, A. F. (2004), “Apresentação”, em A. F. Cascais (org.), Indisciplinar a Teoria. Estudos Gays, Lésbicos e Queer, s/l:
Fenda, (pp. 9-20).
Cascais, A. F. (2004a), “Um nome que seja seu: dos estudos gays e lésbicos à teoria queer”, em A. F. Cascais (org.),
Indisciplinar a Teoria. Estudos Gays, Lésbicos e Queer, s/l: Fenda, (pp. 21-89).
Ferreira, V. C. (2003), Relações Sociais de Sexo e Segregação do Emprego: Uma Análise da Feminização dos Escritórios em
Portugal, Dissertação de Doutoramento em Sociologia, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.
Jayme, J. G. (2001), Travestis, Transformistas, Drag-queens, Transexuais: Personagens e Máscaras no Cotidiano de Belo
Horizonte e Lisboa, Tese de Doutoramento, Departamento de Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da
Universidade Estadual de Campinas.
Santos, A. C. (2003), “Orientação sexual em Portugal: para uma emancipação”, em B. S. Santos (org.), Reconhecer para
Libertar: Os caminhos do Cosmopolitismo Multicultural, Colecção Reinventar a Emancipação Social, 3, Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira/Record, (pp. 335-379). Uma versão não final deste texto pode ser consultada em
htpp://www.ces.fe.uc.pt/emancipa.
Santos, A. C. (2004), “Direitos humanos e minorias sexuais em Portugal: o jurídico ao serviço de um novo movimento
social”, em A. F. Cascais (org.), Indisciplinar a Teoria. Estudos Gays, Lésbicos e Queer, s/l: Fenda, (pp. 143-182).
Santos, A. C. (2005), A Lei do Desejo. Direitos Humanos e Minorias Sexuais em Portugal, Porto: Afrontamento.
Vale de Almeida, M. (2004), “Teoria queer e a contestação da categoria ‘género’”, em A. F. Cascais (org.), Indisciplinar a
Teoria. Estudos Gays, Lésbicos e Queer, s/l: Fenda, (pp. 91-98).
http://www.pfc.org.uk/ (site oficial da associação Press For Change)

18
Pode ser consultada em www.ilga-portugal.pt/pdfs/LIG.pdf.
19
Pode ser consultada em www.opusgay.org/Transgender.html.

90
Em conversa com os amigos: a importância do grupo de pares na construção da
sexualidade
Cristina Marques
CIES/ISCTE
ana.c.marques@iscte.pt

Resumo: A comunicação sobre sexualidade é um processo dinâmico de troca e (re)construção de mensagens, feito continuamente, quer de
forma mais formal, intencionais e visíveis, como de forma mais informal, subtil e descontínua, sendo também mais difícil de captar.
Ora, actualmente o grupo de amigos ganha cada vez mais importância. Os jovens tornam-se mais autónomos, passam menos tempo com os
elementos da sua família e mais com os amigos. Actualmente, as primeiras relações amorosas e sexuais tendem a acontecer aquando da
inserção dos jovens numa rede de sociabilidade. A título de exemplo, a influência dos amigos do mesmo sexo na primeira relação sexual
genital é forte, especialmente para as raparigas.
Nesta comunicação iremos apresentar alguns resultados de uma pesquisa em curso sobre as trajectórias sexuais dos jovens adultos para a
conjugalidade e para a parentalidade. Os dados foram obtidos através de entrevistas biográficas, realizadas em Leiria, a jovens entre os 18 e
os 29 anos, pertencentes a diferentes meios sociais. Pretendemos focar a análise na comunicação que os jovens têm com o grupo de pares no
que concerne a sexualidade. Procuramos responder a algumas questões centrais: qual a importância do grupo de amigos para os jovens? Será
que estes falam sobre sexualidade? Que influência poderão ter os amigos nas práticas e representações dos jovens sobre a sexualidade?

Introdução
A comunicação sobre sexualidade é um processo dinâmico de troca e (re)construção de mensagens, feito
continuamente, quer de forma mais formal, intencionais e visíveis, como de forma mais informal, subtil e descontínua, sendo
também mais difícil de captar.
Ora, actualmente o grupo de amigos ganha cada vez mais importância. Os jovens tornam-se mais autónomos,
passam menos tempo com os elementos da sua família e mais com os amigos. Actualmente, as primeiras relações amorosas e
sexuais tendem a acontecer aquando da inserção dos jovens numa rede de sociabilidade. A título de exemplo, a influência dos
amigos do mesmo sexo na primeira relação sexual genital é forte, especialmente para as raparigas.
Nesta comunicação iremos apresentar alguns resultados de uma pesquisa em curso sobre as trajectórias sexuais dos
jovens adultos para a conjugalidade e para a parentalidade. Os dados foram obtidos através de entrevistas biográficas,
realizadas em Leiria, a 19 jovens entre os 18 e os 29 anos, pertencentes a diferentes meios sociais. Pretendemos focar a
análise na comunicação que os jovens têm com o grupo de pares no que concerne a sexualidade. Procuramos responder a
algumas questões centrais: qual a importância do grupo de amigos para os jovens? Será que estes falam sobre sexualidade?
Que influência poderão ter os amigos nas práticas e representações dos jovens sobre a sexualidade?

Os amigos
As redes de relacionamento sociais, ou seja o “conjunto de laços e relações, de diversos tipos e intensidades, que
ligam um actor social a outros actores, bem como os eventuais laços desses outros actores entre si” (Costa et al, 1990: p. 198)
são um aspecto central da vida dos indivíduos. As sociabilidades1 permeiam estas redes de relacionamento social, sendo que
as sociabilidades de juventude exprimem-se dominantemente nas relações de amizade (idem).
A amizade providencia uma rede de suporte e segurança particularmente importante em tempos de rápida mudança
(Weeks, 1997). A amizade permite desenvolver novos padrões de intimidade e de compromisso, baseados na escolha e em
algum grau na igualdade. Os amigos podem providenciar apoio emocional e material, afirmando também a identidade e a
pertença (idem).
Os grupos de pares, na adolescência e na juventude, são diferentes entre si, tanto na sua origem social como na
identidade pessoal dos seus elementos, existem diferentes subculturas locais, familiares e de classes que tornam estas
experiências heterogéneas, contudo são semelhantes no seu interior (Saraceno, 1997). O grupo de jovens tem uma função
socializante, complementar à função da escola e da família assim como um papel funcional e integrador; que “permite ao
adolescente sair do enquadramento familiar e aceder à sociedade, onde porá em prática normas e valores que interiorizou”.
(Segalen, 1998: p. 202). Na sociedade ocidental, nesta fase da vida, o grupo de amigos ganha cada vez mais importância. Os
jovens tornam-se mais autónomos, passam menos tempo com os elementos da sua família e mais com os amigos; desejam
tomar as suas próprias decisões e fazer as suas escolhas sobre diferentes aspectos da sua vida (Vilar, 2001). As culturas dos
jovens formam-se a partir das redes de sociabilidade, importantes a nível psicológico e emocional e ao nível da formação de
identidades juvenis (Machado Pais, 1996). O grupo de amigos assegura uma certa identificação entre os vários elementos que
os constituem (ex. gostos musicais ou literários comuns), funcionando como contextos coerentes de estruturação dos tempos

1
As sociabilidades são contactos “não anónimos, repetidos e duradouros, que se estabelecem no quadro de distintas referências, como as familiares, as de
amizade, as profissionais, as de vizinhança, as de associação (Costa et al, 1990: p. 198);

91
quotidianos dos jovens que os integram e das actividades que praticam de forma compartilhada. O grupo de amigos pode
servir como protector das diversas socializações a que os jovens estão sujeitos, protegendo deste modo as suas identidades
individuais (Machado Pais, 1993).
“Os tempos quotidianos dos jovens encontram-se fortemente associados a práticas de sociabilidade e lazer que se
desenvolvem no quadro de determinadas redes grupais. Estas, por sua vez, encontram-se associadas a identidades
juvenis que parecem definir-se, por contraposição, umas em relação às outras...as imagens que os grupos de jovens
formam de si mesmos e dos outros parecem orientar as relações que se estabelecem entre esses grupos.” (Machado
Pais, 1993: p. 93)

Os grupos de jovens aparecem muitas vezes associadas a fachadas grupais, designação que implica distinções
culturais identitárias; ao identificarem-se por sinais, os jovens apresentam representações rígidas e hostis contra outros grupos
de jovens. O vestuário pode, a título de exemplo, constituir-se como a afirmação, por parte dos jovens, de um estilo de vida;
como um meio de afirmação e de diferenciação de status. A construção das fachadas nos grupos de jovens assenta em
diversos elementos, como na imagem (roupas, adornos, cabelo), no comportamento (expressão corporal2, porte) ou na gíria,
no calão (idem).
É também no grupo de amigos, compostos frequentemente por rapazes e raparigas, que os jovens ensaiam as suas
primeiras práticas a nível sexual, partilham as suas experiências, desabafam sobre os seus problemas, tiram dúvidas, que de
outro modo poderiam ficar por resolver.

Individualização, mudança e sexualidade


Os resultados de diversas pesquisas apontam para as profundas transformações que têm vindo a ocorrer, desde os
anos 60, do século XX, no que diz respeito à família, ao género e à sexualidade. Tem-se vindo a assistir a uma
democratização da vida íntima, a uma pluralização da vida familiar, ao reconhecimento da diversidade sexual, à proliferação
de histórias sexuais, entre outros aspectos, embora estes movimentos não sejam iguais em todo o mundo ou acessíveis a todas
as pessoas (Weeks, 2007). Actualmente, no mundo ocidental, existe uma pluraridade de crenças e de comportamentos
relativos às práticas sexuais e padrões de relações que reflectem diferenças geraccionais, culturais, étnicas e políticas (Weeks,
2003 [1996]).
Nos dias de hoje, existe uma tendência para a democratização das relações. O reclamar de uma cidadania sexual faz
parte da combinação de várias mudanças culturais que se vão sobrepondo às relações hierárquicas tradicionais, expressas, por
exemplo, na destradicionalização, no egualitarismo e na autonomia (Weeks, 1998).
No mundo ocidental temos vindo a assistir a uma profunda mudança das formas e valores tradicionais motivadas
pelas rápidas mudanças económicas, sociais e culturais, existentes a uma escala global. Estas mudanças têm implicações nas
relações familiares e nas distinções tradicionais entre homens e mulheres, entre heterossexualidade e homossexualidade, entre
vida pública e privada. Existem então fortes mudanças nos padrões herdados da vida íntima, estando as mulheres,
geralmente, na vanguarda destas mudanças (idem).
Embora se mantenham as desigualdades entre homens e mulheres, as relações igualitárias tornaram-se os modelos
pelos quais os indivíduos medem as suas vidas pessoais. No centro desta mudança está a crença de que as relações amorosas
e o companheirismo devem fazer parte de uma escolha pessoal e não de uma combinação ou da tradição. Passa a existir uma
nova contingência nas relações, muitas vezes expressa em termos de incerteza e ansiedade na vida íntima, mesmo quando o
ideal possa continuar a ser um compromisso para toda a vida (Weeks, 1998); as pessoas apenas ficam juntas desde que as
relações satisfaçam as necessidades do parceiro. São as relações puras de Giddens, baseadas no amor confluente o que
implica uma abertura ao outro dependente da igualdade e na confiança mútua, o que implica que as relações têm que ser
baseadas na negociação entre parceiros.
Num período de modernidade, a identidade pessoal torna-se reflexivamente organizada. O projecto reflexivo do self
consiste na manutenção de narrativas biográficas coerentes, mas continuamente revistas, num contexto onde existem
múltiplas escolhas. A escolha de um estilo de vida torna-se cada vez mais importante na constituição da identidade pessoal de
cada um de nós e na nossa actividade diária (Giddens, 1991: p. 5).
Em condições de modernidade avançada, os laços sexuais duráveis, os casamentos e as relações de amizade tendem
a aproximar-se das relações puras. Estas tornam-se também um elementos essencial do projecto reflexivo do eu (idem).
A relação pura não está ancorada em condições externas da vida económica ou social como as relações pessoais dos
contextos tradicionais. A relação é procurada apenas pelo é capaz de dar aos parceiros nela envolvidos, sendo reflexivamente
organizada, de forma aberta e contínua. O compromisso tem um papel essencial na relação pura, sendo o amor uma forma de
compromisso; mas este compromisso implica que o indivíduo decida comprometer-se e que haja reciprocidade na relação. A
relação pura assenta também na existência de uma intimidade, e consequentemente, uma preocupação com a qualidade da
relação e algum grau de privacidade da parte de cada parceiro. A abertura ao outro faz parte das novas formas de confiança
que a relação pura exige. Na relação pura a identidade pessoal é (re)negociada através de processos de auto-exploração e de
desenvolvimento de uma intimidade com o outro, criando histórias partilhadas.

2
Sobre as questões do corpo ver M. V. Almeida (org.) (1996) “O corpo presente: Treze reflexões antropológicas sobre o corpo”, Celta editora, Oeiras.

92
As relações puras formam-se principalmente nos domínios da sexualidade, do casamento e da amizade. Mas o
contexto e as diferentes posições socioeconómicas influenciam a extensão das possibilidades de transformação das esferas
intimas (Giddens, 1991).
A abertura contemporânea das possibilidades em matéria de sexualidade está relacionada com dois fenómenos mais
gerais: a diversificação e a individualização de trajectórias conjugais e afectivas e o declínio da regulação da sexualidade por
princípios absolutos (Bozon, 2005 [2002]: p. 42).
As biografias conjugais e afectivas dos indivíduos diversificaram-se e fragmentaram-se.
A duração do período em que os indivíduos são sexualmente activos alongou-se, devido, por um lado, a uma maior
precocidade na juventude, e, por outro lado, a um prolongamento da actividade sexual até idades mais avançadas (idem).
As mudanças nos comportamentos transformaram as normas sociais existentes que regulam as práticas sexuais.
Estas são cada vez menos absolutas e inatingíveis, fundadas sobre as regras de uma religião ou de uma comunidade; deixando
de servir para controlar ou censurar a juventude, a vigiar o casamento ou a prescrever os actos contra-natura (idem).
As normas sexuais são cada vez menos transmitidas pela família, pelo grupo social ou pela escola e cada vez mais
elaboradas em conversas entre pares, entre confidentes e mesmo entre parceiros. Cada vez mais flexíveis e evolutivas, as
orientações normativas acompanham o processo de individualização dos comportamentos. Tudo parece indicar que os actores
interpretam cada vez mais os seus comportamentos sexuais em função de situações e de contextos relacionais, mais do que de
princípios absolutos (idem).
A nova normatividade sexual assenta em controlos internos, elaborados ao seio de uma rede de amigos e de
confidentes ou na interacção entre parceiros, postos em prática e interiorizados pelos indivíduos. Os actores adoptam uma
atitude cada vez mais reflexiva sobre as suas práticas, o que implica um aumento de exigência de significados e de
interpretações relativos à actividade sexual (Bozon, 2004).
No entanto, as transformações das relações sociais que dizem respeito à sexualidade são menos radicais do que
geralmente se acredita, constituindo mais uma ideia que foi interiorizada do que um abrandamento dos controlos sociais
(Bozon, 2005 [2002]).
Assistimos antes à passagem de uma sexualidade construída por controlos e disciplinas externas aos indivíduos a
uma sexualidade organizada por disciplinas internas (Bozon, 2004).
Assim, mais do que uma emancipação, libertação ou apagamento das normas sociais existe antes uma
individualização, mesmo interiorização, que implica um deslocamento e um aprofundamento das exigências e dos controlos
sociais. Apesar da manutenção das desigualdades de género e de classe, da proliferação das normas relativas à sexualidade e
de uma flutuação de referências pertinentes, passa a caber ao indivíduo a necessidade de estabelecer uma coerência nas suas
experiências íntimas. Os indivíduos continuam a ser submetidos a julgamentos sociais estritos, diferentes segundo a sua idade
e o seu género (idem).

Falando sobre sexualidade


A comunicação sobre sexualidade engloba expressões verbais e, de forma mais implícita, os comportamentos Os
comportamentos dos pais, mais visíveis ao olhar da família, são percebidos e avaliados pelos filhos, podendo ser
incorporados pelos jovens, à medida que estes vão formando os seus valores, atitudes e comportamentos face à sexualidade;
podem também servir de exemplos para a comunicação sobre estes assuntos. Os pais, geralmente, tentam transmitir algum
tipo de educação sexual aos filhos durante o seu crescimento. Esta comunicação é “um processo interactivo de elaboração,
troca e reelaboração de mensagens que se expressa de forma contínua, informal, muitas vezes subtil e difícil de captar, ou, de
forma mais descontínua, em práticas mais formais, intencionais e visíveis” (Vilar, 2001: p. 217). A comunicação pode
expressar-se ao nível da linguagem verbal - focando acontecimentos do quotidiano, como comentários sobre o aspecto das
pessoas, anedotas, avisos, comentários sobre notícias veiculadas pelos média, conversas sobre acontecimentos do dia a dia,
etc.; e ao nível de comportamentos não verbais – como as maneiras de vestir, de estar, de se comportar, especialmente dos
pais e das mães ou de outros parentes, os livros e revistas que são lidos, os programas de televisão que se vêm, etc.
Os contextos da comunicação sobre a sexualidade englobam as situações em que esta é abordada, os actores sociais
que intervêm na comunicação, as práticas de educação sexual, intencionais ou não, dos educadores, as dificuldades que
podem existir na comunicação e a importância atribuída por pais e pelos filhos aos papéis dos pais como agentes de
socialização, neste domínio. No seio da família, os irmãos e outros parentes podem ser actores importantes no processo de
socialização. Para os jovens outros actores e/ou instituição (escola, amigos, etc.) são também importantes nesse mesmo
processo (idem).
Um outro aspecto da educação e comunicação informais sobre a sexualidade é aquela que é realizada com os
amigos. O namoro e a experimentação sexual ocorrem, no contexto do grupo de amigos (Lhomond, 1999; Vilar e Gaspar,
1999; Vilar, 2001), que defendem valores relacionados com uma vivência da sexualidade mais liberal e mais relacionada com
o prazer (Vilar e Gaspar, 1999). A pressão do grupo de amigos é mencionada por alguns jovens como justificação para a
iniciação sexual (Heilborn e Bozon, 1999; Voydanoff e Donelly, 1990). Os amigos são então as pessoas com que os jovens
mais conversam em termos de sexualidade, mostrando assim a importância do grupo de amigos para os jovens, devido ao
tempo que passam juntos no quotidiano, à existência de preocupações comuns e de códigos de comunicação semelhantes. As
raparigas parecem conversar, mais do que os rapazes, com os amigos sobre sexualidade (Vilar, 2001). O grupo de amigos

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pode constituir modelos sexuais reais passíveis de levar a processos de identificação, devido à semelhança nas idades, nos
gostos e interesses. Esta influência dos amigos na aprendizagem da sexualidade pode ser pensada como benéfica, na medida
em que a aprendizagem é feita numa relação recíproca, onde se partilham experiências, se testam referências oferecidas pelos
adultos e se ensaiam alternativas; e como negativa, visto que a informação transmitida é muitas vezes imprecisa,
acompanhada do riso (p. ex. as anedotas), sujeita à pressão da experimentação, sem ter em conta os ritmos pessoais dos
indivíduos (Vaz et al, 1996). Para além disso, os valores transmitidos pelos amigos podem entrar em contradição com os
valores veiculados na família (Vilar e Gaspar, 1999). Esta contradição de valores (por um lado, o silêncio e avisos pouco
específicos que se encontram em casa e por outro lado à lógica do prazer incentivada pelo grupo de amigos, que pode
pressionar as jovens na entrada da sexualidade) irá ter um papel fundamental para a existência de uma gravidez na
adolescência.
“As práticas relativas á sexualidade não deixam de existir; mas, sendo vividas em função dos significados inerentes à
moral sexual das famílias, tornam-se, em si, contraditórias. É desta contradição, presente no complexo processo de
socialização relativo à sexualidade, que resulta a gravidez na adolescência: as práticas existem e são entendidas como a
norma (entre o grupo de pares...); os significados, por seu turno, impelem ao silêncio, advertindo para riscos que não se
especificam. A moral sexual familiar, em contraste com a lógica hedonista do grupo de amigos, uma ética sexual
própria que serve os interesses, simultaneamente do hedonismo moderno (que dissocia sexualidade de reprodução e de
família), e da moral sexual, para não falar do tradicionalismo dos papéis de género que...têm um peso significativo na
definição dos projectos de vida dos jovens, principalmente nos estratos sociais mais baixos.” (Vilar e Gaspar, 1999: p.
51)

Vejamos então qual a importância da amizade para os jovens, se estes comunicam sobre sexualidade ou não e que
influência esta comunicação pode ter.

Qual a importância do grupo de amigos para os jovens?


Vários estudos mostram como as sociabilidades juvenis exprimem-se dominantemente nas relações de amizade
(Costa et al., 1990; Pais, 1996). Os amigos têm uma função integradora (Pais, 1996), deste modo as amizades podem
contribuir para sentimentos de identidade e de pertença (Costa e et al., 1990). Os jovens procuram nos amigos e nas
sociabilidades quotidianas “sentidos de vida e possibilidades de afirmação identitária” (Pais, 1996, a): p. 171).
A família deixou de ser a principal instância de socialização dos jovens em domínios relacionados com os tempos
livres e o lazer (Pais, 1996, a)). É com os amigos que os jovens passam mais os seus tempos livres, mais se divertem e têm
mais opiniões em comum. As relações entre os amigos são de natureza mais igualitária, havendo uma reciprocidade de
interesses, afectos e de gostos culturais entre os amigos; deste modo o lazer assume uma função integradora nas
sociabilidades amicais (idem).
Embora possam ter um vasto grupo de pessoas conhecidas os jovens falam de um grupo restrito de amigos reais
com quem podem contar: “Tenho muitos amigos, mas depois tenho aqueles mais restritos, que só tenho… sei que são
aquelas pessoas com quem eu posso contar” (Catarina, 22 anos, 12º ano incompleto, proprietária de loja) e com quem
mantém laços fortes, isto é, “dotados de maior durabilidade, de maior intensidade emocional, de maior confiança e
intimidade, de maior frequência na troca de favores e serviços” (Costa et al, 1990: 198). Neste sentido faz-se a diferenciação
entre os conhecidos e os amigos verdadeiros, embora estes sejam em menor número. É nos momentos difíceis que se vêm os
verdadeiros amigos, aqueles com quem se pode realmente contar, não só nos bons momentos, mas também nos momentos
mais difíceis:
“A amizade? A amizade é uma palavra que é usada muitas vezes em contextos que não tem nada a ver. Ou seja, a
amizade é uma coisa que está a ser banalizada e acho que a amizade é uma coisa muito valiosa e só se vêm os
verdadeiros amigos em situações de verdadeiro aperto, quando uma pessoa precisa, quando uma pessoa precisa
mesmo, e depois vê quem é que são os verdadeiros amigos, quem é que está lá para as situações difíceis.” (João, 25
anos, estudante no ensino superior, empregado de loja)

Para estes jovens a amizade é algo de muito valioso, constituindo uma segunda base, para além da família, onde
podem assegurar um apoio para os momentos menos bons: “A amizade é muito importante, porque os amigos acabam por
ser uma segunda família que nós temos, aquele apoio que nós muitas vezes temos que recorrer e quando a família falha os
amigos substituem” (Paulo, 22 anos, 12º ano, electricista). A amizade é então encontrar um apoio no outro, ter alguém com
quem se pode desabafar, a quem contar os problemas, convergindo com aquilo a que Giddens (1991) chama de relação pura.
“Acima de tudo acho que a amizade é uma das coisas mais importantes da vida por causa disso, toda a pessoa precisa
às vezes de um bocadinho de um ombro amigo para conversar e isso assim e ter uma amizade que se possa fazer isso
acho que isso é isso é muito importante. Ajuda uma pessoa a recuperar fases más da vida.” (Bruno, 24 anos, 12º ano,
DJ)

Os amigos ajudam-se uns aos outros nos momentos de maior necessidade, sendo que esta inter-ajuda recíproca
acaba por fortalecer o sentimento de amizade: “O mais importante é saber que nós podemos contar com essa pessoa e ela
saber que pode contar connosco, acho que é o mais importante” (Patrícia, 20 anos, estudante do ensino superior). Nos
momentos de solidão são os amigos que fazem companhia, são eles também que têm um conhecimento do verdadeiro eu dos

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jovens. O inter-conhecimento é um aspecto fundamental da amizade, estando associado à confiança que se tem pelo outro e
que permite aos jovens dar a descobrir a pessoa que são. A amizade providencia um espaço de conhecimento daquilo que as
pessoas verdadeiramente são e daquilo que se querem tornar (Weeks, 2007).
“A amizade é uma coisa maravilhosa, é um dom. Há muitas maneiras de definir a amizade, é encontrar… sei lá
conhecer aquela pessoa, ir aos poucos conhecendo aquela pessoa e ver que ela completa-se comigo e encaixa
determinadas coisas em mim e eu dou-lhe total confiança para lhe contar os meus segredos, para lhe contar os meus
medos, para lhe demonstrar a pessoa que eu sou. […] Acho que a amizade é um fruto do conhecimento e é recíproco,
porque é tanto dar como receber, acho que é igual.” (Rita, 25 anos, estudante do ensino superior)

No grupo de amigos as experiências de vida são partilhadas, os mais velhos transmitem essa experiência aos mais
jovens, que por sua vez vão transmitir esses conhecimentos aos amigos mais novos que eles. Numa sociedade caracterizada
pela incerteza e pelo risco (Beck, 2000) a confiança é torna-se uma característica essencial da amizade, os amigos são aquelas
pessoas em quem se sabe que se pode confiar: “Para mim a amizade é muito importante. É uma pessoa em que eu posso
confiar, que hoje em dia não podemos confiar em quase ninguém, tem que ser mesmo uma pessoa que a gente saiba que
podemos mesmo confiar” (Ana, 26 anos, 12º ano incompleto, desempregada), de modo a que os jovens possam apresentar-se
no seu verdadeiro eu, possam rir ou chorar sem receios de repreensões sociais. A confiança que é tida no outro é algo de
essencial na amizade (Levinson, 2003). A proximidade com o outro e a intimidade partilhada asseguram a improbabilidade
de uma traição. Contudo, a confiança é sujeita a uma medição, existindo diferentes graus de confiança, tendo um valor
relativo e não absoluto (idem), podendo ser posta em causa com uma traição.
Embora não seja necessária uma identificação total com o outro, a compreensão é essencial. Mas não se pense que
os amigos estão lá só para dar festas, eles são também um factor essencial na construção das trajectórias dos jovens pelo
papel que têm no redireccioná-los para os caminhos considerados como mais adequados. Assim os amigos não são só aqueles
que concordam com tudo o que se faz, são também aqueles que chamam a atenção
“Epá, é ter alguém que te ajude e que te entenda, mesmo que não concorde com o que tu fazes, mas que também esteja
lá para te dar uma chapada quando é preciso e para te chamar à razão. Não é só para dizer o que tu queres ouvir, é para
compreender aquilo que tu dizes, mas ao mesmo tempo corrigir-te, as tuas atitudes, o que tu dizes.” (Carolina, 22 anos,
licenciada, empregada de balcão)

A composição sexual das amizades juvenis tende a ser diversificada – os jovens tendem a relacionar-se com grupos
de amigos de composição mista, pelo que se criam condições para que possam existir eventualmente envolvimentos afectivo-
sexuais (Pais, 1996, a)). Para a maioria destes jovens a amizade entre rapazes e raparigas é uma coisa que faz parte do seu
mundo, sendo algo de natural: “Os homens e as mulheres podem ser amigos, até podem ser os melhores amigos […] Eu acho
que se nos damos bem com aquela pessoa não é por ser homem ou mulher que nos vamos deixar de dar” (Maria, 20 anos,
estudante do ensino superior).
É mesmo possível que os jovens tenham um maior número de amigos do sexo oposto do que de pessoas do mesmo
sexo. Para as raparigas a amizade com os rapazes pode ser vista como mais verdadeira, os homens podem ser considerados
pessoas em quem se pode confiar, enquanto que a relação entre mulheres é representada como conflituosa, pelas críticas,
competitividade, cinismo e inveja que podem existir.
“Porque lá está a gente tem aquela maneira de pensar que sabemos perfeitamente que as raparigas têm sempre inveja
umas das outras, ah, são muito cínicas, irónicas e não sei quê. Isto estou a falar tudo no geral, não é? Sabemos
perfeitamente que uma rapariga com uma rapariga esquece, porque há sempre aqueles conflitos e não há hipótese […]
E sabemos que os rapazes não são falsos, sabemos que os rapazes são sempre sinceros, não têm esse preconceito de…
não têm essa inveja […] eu acho que são muito mais fixes para conversar.” (Ana, 26 anos, 12º ano incompleto,
desempregada)

Já os rapazes podem considerar que encontram nas mulheres uma maior amizade. Com estas é possível
confidenciar, podendo fugir ao imperativo de se conformarem com a masculinidade hegemónica (Connell, 1987) que um
grupo de amigos pode impor: “A maneira de falar delas para nós é um bocadinho diferente, já não estamos a falar em
carros, motas, falamos doutras coisas, por exemplo, da vida delas, dos namorados e tal, […]. É porreiro.” (Tiago, 23 anos,
9º ano, mecânico). Esta busca do sexo oposto para conversar pode assim ser a expressão a uma fuga da obrigatoriedade de
falar sobre as suas performances, impostas, geralmente, pelo grupo de pares nos jovens rapazes (Holland et all, 2004 [1998]).
Acresce ainda que as raparigas podem providenciar um ponto de vista considerado como diferente para os jovens e que os
ajuda a compreender melhor o sexo oposto.
“Eu digamos que tenho, hoje em dia, tenho tanto amigas como amigos e consigo separar as coisas. [....] As mulheres
têm uma maneira diferente de pensar que os homens e acabas por ouvir dois pontos de vista completamente diferentes,
o que nos dá perspectivas. […] As mulheres conseguem dar conselhos, porque elas metem-se na pele […] As mulheres
são muito complicadas, são muito complexas e às vezes para as perceber é preciso muito, então mais vale uma própria
mulher me explicar.” (Paulo, 22 anos, 12º ano, electricista)

Contudo há jovens que não acreditam tanto na amizade de entre homens e mulheres, ou pelo menos da parte do
homem pela mulher, na medida em que acreditam que pode haver uma intenção, mais ou menos explícita, de sexualizar a
relação.

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“Ai acho que há uma diferença entre homens e mulheres. É assim também há homens que vêm a mulher como uma
amiga, mas há muitos que não conseguem discernir e quando fazem o contacto com alguém que não conhecem eles
vão sempre à procura da sexualidade, enquanto as mulheres já pensam noutras coisas, já vão mais pela amizade.”
(Sónia, 26 anos, licenciada, desempregada)

Os momentos de lazer permeiam de forma significativa as actividades realizadas com os amigos. Os fins-de-
semana são os momentos privilegiados para se estar na sua companhia. Com estes vai-se jantar fora, frequenta-se os cafés, os
bares, as discotecas, as festas, os concertos ou quando é possível a casa uns dos outros. Ir beber um café ou ir para os copos
são actividades frequentemente realizadas com o grupo de amigos: “Sei lá, costumo sair mais eles à noite, beber o café. Sei
lá, ir ao bowling, jogar snooker. Sei lá, costumo ir ao cinema, por exemplo, jantar fora, essas coisas todas.” (Miguel, 23
anos, 12º ano, operário); “Saímos para bares, cafés, conviver, festas de amigos. Para festas, para concertos. Muitas vezes é só
juntarmo-nos todos para conversar um bocadinho. Pronto, é à base disso” (Maria, 24 ano, licenciatura, estagiária em serviço
social).
São estes momentos de lazer que servem geralmente de pano de fundo para as conversas que se têm. Entre amigos
conversa-se basicamente de tudo. Como referido anteriormente, os amigos são indivíduos com quem se pode desabafar. Mas
as conversas vão muito para além dos desabafos. Nos momentos em que se reúnem os jovens metem os amigos a par do seu
dia a dia, conversa-se sobre o trabalho, os problemas com a família, do futuro, das viagens que se quer fazer, de sexo, dos
relacionamentos. Entre os homens é também comum falar-se de mulheres e de carros
“Varia às vezes a conversa, tanto podemos falar do nosso quotidiano, trabalho-escola, como podemos falar da questão
da família, ou porque uma chateou-se com o pai ou com a mãe, e vem desabafar e não sei o quê e fala. Falamos
também do geral, tipo da sociedade, falamos às vezes também do sexo, também falamos muito, conversamos sobre
isso. Temos conversas de todo o tipo mesmo.” (Rita, 25 anos, estudante do ensino superior)

“Mulheres. O que é que costumamos falar? Às vezes coisas banais, aquelas coisas banais que se fala tipo do tipo
carros, mulheres, depois quando um está com problemas tentamos ajudarmo-nos mutuamente. Por exemplo, quando eu
estou interessado em alguém ou quando… pronto, falo disso. Ou então “olha ali aquela que está ali a passar”, coisas
assim mais…” (Paulo, 22 anos, 12º ano, electricista)

Será que os jovens falam sobre sexualidade?


As conversas sobre sexualidade no grupo de amigos são algo de comum entre os jovens. Com estes tiram-se
dúvidas, partilham-se experiências, falam-se sobre preconceitos, sobre as relações entre homens e mulheres.
Durante os anos de escola, estas conversas tornam-se comuns. As primeiras experiências são contadas aos colegas,
as jovens sem experiência ao nível das relações sexuais e amorosas ouvem as colegas mais experientes. Os rapazes tendem a
comentar as jovens raparigas. Mas estas conversas, sobretudo para os rapazes, podem ser desvalorizadas, pensadas como
sendo sem interesse, como pouco profundas, coisas que se fazem quando se é ainda novo.
“ Mais naquelas conversas de rapazes, que não eram fundamentadas, era mais bocas para o ar, um lançava uma boca, o
outro lançava outra, portanto, nunca era nada… nunca se pode chamar uma conversa, era mais bocas lançadas para o
ar. Não eram temas, por exemplo, falávamos de relacionamentos […]. Ou seja, normalmente fala-se do que é que terá
acontecido, se a rapariga é interessante senão, se já tem experiência, se não, aquelas conversas. No tempo de escola
nunca é muito profundo, não leva a lado nenhum.” (João, 25 anos, estudante no ensino superior, empregado de loja)

“Entre colegas falávamos nisso. Falava com os meus amigos da turma, comentávamos, só comentários. Nos intervalos
das aulas, se houvesse uma rapariga bonita a gente comentava: “esta é bonita e tal”, pronto tentávamos ter o número de
telefone dela, fazíamos concursos para ver quem é que ia chegar primeiro lá, pronto, era mais ou menos assim.”
(Daniel, 27 anos, 9º ano, pasteleiro)

Mas é sobretudo nesta fase, nos anos de adolescência, que os jovens vão tirando as dúvidas uns com os outros. É
ainda frequente que se comentem os relacionamentos dos colegas, as suas experiências ou a falta dela. Numa fase em que se
ensaiam as primeiras relações sexuais e amorosas, os jovens que ainda não iniciaram a sua vida sexual podem ser comentados
pelos colegas, que consideram que estes lhes estão atrás, o que pode originar pressões no sentido de ter relações sexuais,
como verificaremos mais à frente,
“A fase das dúvidas sobre a sexualidade, a fase que tínhamos 15, 16 anos que não sabíamos bem o que estávamos a
fazer, acho que essa fase já passou. Agora penso que as dúvidas já deixaram de existir. […] Era a fase da juventude, ali
as primeiras namoradas, toda a gente devia ter a sua primeira relação sexual e achavam-se… no meu grupo de amigos
as pessoas achavam-se… foi uma coisa com a qual eu nunca concordei, que uma pessoa que não tinha feito relações
sexuais até ao momento que, pronto, ficava um bocadinho atrás dos outros. Isso não é verdade obviamente. […]”
(Marco, 20 anos, 12º ano, empregado de balcão)

Já as raparigas, para além das dúvidas que se tiravam e das experiências partilhadas, podiam falar sobre as
transformações corporais: a primeira menstruação, o crescimento dos seios: “Era, tirávamos as dúvidas uns aos outros.
Fazíamos perguntas, se alguém sabia respondia. […] Nós raparigas falávamos muito era sobre o período: “ai, quando vier,
não sei quê” e “eu já tenho maminhas, eu não tenho maminhas”.” (Matilde, 25 anos, licenciada, técnica de turismo).

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As raparigas mais velhas podem ser procuradas pela sua experiência pessoal. Estas tornam-se as confidentes das
raparigas mais jovens, esclarecendo as suas dúvidas através das suas experiências pessoais ou dos conhecimentos que lhes
foram sendo transmitidos, nomeadamente, pela família.
“Sobre a sexualidade? Sei lá?! Perguntava… não sei. Prontos, havia muitas das minhas amigas também, uma vez que
eu era a mais velha, na escola, como chumbei muitos anos, eu era a mais velha e muita gente vinha ter comigo para
perguntar sobre esse tema, uma vez que eu considerava-me mais experiente que elas, podia ser que não, mas o que é
certo é que elas me vinham perguntar e eu dava a minha opinião, e o que é que achava e o que é que não achava, e o
que é que deves fazer, o que é que não deves fazer e pronto, basicamente é disso. Das perguntas se calhar que eu fiz à
minha mãe, elas fizeram-me a mim.” (Ana, 26 anos, 12º ano incompleto, desempregada)

Mesmo na actualidade, temas como a influência que a sociedade tem nas práticas sexuais dos jovens, as reputações
que ambos têm ou a homossexualidade, fazem parte das conversas que os jovens têm uns com os outros.
“Às vezes falamos, lá está, de experiências que temos, do que é que faz… tipo relativamente à sociedade como é que
encara a questão da sexualidade. Também do uso dos métodos contraceptivos, do apoio ao adolescente ou ao jovem,
neste caso. […] Mas falamos de tudo um pouco, é a nível de informação; da questão da sociedade, como é que é
encarado, como é que não é, se é tabu ainda, se não é; em questão da família também, porque eu tenho, lá está, eu
sempre tive colegas minhas, amigas, que falavam disso abertamente com os pais, e eu tipo… então e tu, eu não, nem
sonho em falar, não dá, por isso é que toda a informação que eu tenho foi do exterior.” (Rita, 25 anos, estudante do
ensino superior)

O facto de se ter amigos com uma orientação sexual diferente pode ser tema de debate. Através destas conversas o
preconceito que poderia existir inicialmente, vai-se esbatendo para se tornar numa aceitação clara da homossexualidade.
“Naturalmente, o G. é gay. A gente fala bué, muito. O facto do G. dar um beijo na boca ao namorado, à minha frente,
por exemplo, ao início fez-me confusão, nós falámos sobre isso. […] Mas hoje em dia não me faz absolutamente
confusão nenhuma, nenhuma, nenhuma.” (Cristina, 27 anos, 12º ano, administrativa)

Para alguns jovens trocam-se experiências muito íntimas. Embora estas conversas não sejam tidas com todos os
amigos, existem aqueles com quem, para além dos relacionamentos afectivos que se têm, se falam nas práticas e posições
efectuadas. Falar de sexualidade não significa falar das mesmas coisas para pessoas diferentes, assim fala-se com uns amigos,
mas não com outros ou pode falar-se de temas diferentes segundo as pessoas (Olomucki, 2004).
“As minhas experiências, as experiências deles, como é que fazem. Por exemplo, eu com a M., eu a ouvir as histórias
da M., a M. conta-me tudo, tudo […]. Com a M. conseguimos falar mesmo os pormenores: há quanto tempo, como foi,
quais foram as posições, se encaixava, se não encaixava, tudo. Com a S. não falo de nada disso, só que ontem tive com
aquele rapaz ou tive com outro, ou tenho saudades de não sei quem, mais sentimentos. Com o P. somos uns porcos,
como a M. também, falamos de tudo.” (Carolina, 22 anos, licenciada, empregada de balcão)

Neste sentido, os amigos podem servir como fontes de informação importantes, ensinando os jovens,
nomeadamente os rapazes, como dar prazer a uma rapariga ou qual a melhor maneira de fazer as coisas.
“São dúvidas para mim, mas acaba sempre por calhar em conversas de raparigas, não é?, que é mesmo assim. […]
Acaba sempre por chegar a essas conversas, como excitar uma mulher, como isto e como aquilo, como há-de ser a
melhor maneira e tal, acaba por ser muito essas conversas, estás as ver? Como eles têm mais nível…” (Pedro, 19 anos,
9º ano, impermeabilizador)

Por vezes o conhecimento que se obtém através do grupo de amigos é o único que se obtém. Se não fossem essas
conversas entre amigos, a sexualidade passaria a ser um tema tabu: “Acho muito importante, fico a pensar nisso e acho que
se elas… se eu não falasse com elas sobre isso, ainda hoje era um tabu, porque eu não falo com os meus pais sobre isso.”
(Patrícia, 20 anos, estudante do ensino superior). Neste sentido, as confidências que se fazem no grupo de amigos podem ser
entendidas como tendo um carácter informativo e de construção para cada um dos jovens (Olomucki, 2004).
Estas conversas podem ser sentidas como muito importantes. Os jovens podem considerar que têm uma abertura
total para conversar com os amigos sobre sexualidade, que falam com facilidade sobre estes assuntos. Neste sentido, os
jovens podem pensar que a partilha das experiências como algo de positivo, sendo algo que gostam de fazer.
“Por exemplo experiências, experiências que eu já tive a nível de sexualidade, se calhar falar sobre isso. Isto aqui tanto
com amigas como com amigos, não tenho qualquer problema. Falo de sexo com a maior facilidade, com pessoas que
conheço (ri-se). Falo sobre isso sem qualquer problema, nas minhas experiências. Tudo o que eu falo não falo ao
acaso, é porque já passei por isso e às vezes gosto de falar disso, gosto que as pessoas vejam um bocado o meu ponto
de vista e a minha forma de encarar a vida, a nível sexual, a nível emocional, gosto. E a nível de sexo assim é bom e
todas as pessoas gostam de falar disso, é preciso haver aquele à vontade para falarem.” (Paulo, 22 anos, 12º ano,
electricista)

No entanto há jovens que falam menos de sexualidade com os colegas. O facto de se sentirem pouco à vontade com
o assunto ou de o considerarem um assunto mais íntimo, que não se deve ter em público, leva-os a serem mais reservados
com o assunto.

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“Eu acho que nesse aspecto sou um pouco reservado, falar sobre sexualidade abertamente, acho que não… eu
pessoalmente nunca puxaria esse assunto num grupo de amigos, portanto, nunca iria… se fosse eu por vontade, por
iniciativa própria, nunca o faria. Acho que são assuntos que devem ser tratados mais recatadamente, não sei. Acho que
abertamente, mas normalmente a dois. Não expor no café, num sítio público a sexualidade, porque acho que não é sítio
para se falar disso.” (João, 25 anos, estudante no ensino superior, empregado de loja)

A existência de um(a) parceiro/a pode levar também a que os jovens se tornem mais reservados. Deste modo, se
anteriormente à relação poderia existir uma maior troca de experiências com os colegas, a existência de um(a) parceiro(a)
leva a que os jovens se tornem mais reservados, de modo a não partilharem o que se passa na sua intimidade. Afinal, o que é
de dois, não é de três!
“Não. Desde que eu estou com a minha namorada não. Dantes falava. O que é que eu falava antes? Não era falar, era
mais comentar. Porque é assim, desde que eu estou aqui em Portugal, estou com a minha namorada e conheci os meus
colegas, por exemplo com estes colegas daqui não falava disso, porque sempre estava com a minha namorada, eu não
falo nada aos outros do que se passa comigo e com ela.” (Daniel, 27 anos, 9º ano, pasteleiro)

Que influência poderão ter os amigos nas práticas e representações dos jovens sobre a sexualidade?
O grupo de amigos constitui assim uma fonte importante de conhecimento para a sexualidade. Diversas pesquisas
apontam para o facto de os amigos serem mesmo a fonte principal de educação sexual dos jovens (Holland e tal, 2004
[1998]). Através das conversas que se vai tendo, dos conselhos que os amigos trocam uns com os outros, das experiências
que se partilham, os jovem vão formando os seus conhecimentos sobre sexualidade, a par com outras fontes de informação
como a televisão, a internet, a escola, etc. Para as jovens que não têm uma comunicação aberta com os pais, as conversas
tidas com as amigas tornam-se mesmo centrais para o conhecimento que têm sobre sexualidade.
“Eu fui aprendendo através da televisão em alguns programas, através da escola, porque nas ciências também falavam
um bocadinho nos contraceptivos. Ah, fui aprendendo com as minhas amigas, porque às vezes… porque por exemplo,
no meu 8º ano, houve uma vez que uma colega minha foi comprar preservativos e nós não sabíamos para o que é que
era aquilo então agarrámos no preservativo, enchemos aquilo de água, começámos a brincar com aquilo como se fosse
uma coisa muito normal. Nós começámos a procurar, a ver, a tentar informarmo-nos com os nossos amigos, com
pessoas mais experientes, com pessoas um bocado mais crescidas. Televisão, jornais, comunicação social,
basicamente” (Patrícia, 20 anos, estudante do ensino superior)

Como referido anteriormente, o grupo de amigos é também o local onde se vive a sexualidade. A existência de um
grupo de amigos misto possibilita a existência de encontros sexuais e afectivos. Neste sentido, alguns jovens referem que
conheceram os/as seus/suas actuais ou anteriores namorado/as através da convivência com os amigos: “O meu segundo
namorado conhecemo-nos porque temos amigos em comum, eu saia com os meus amigos, ele saia com os amigos dele,
acabávamos por formar o mesmo grupo. Acabámos por nos conhecer e começámos por nos relacionar” (Patrícia, 20 anos,
estudante do ensino superior).
No entanto, a influência que o grupo de pares tem na vivência da sexualidade dos jovens pode ser negativa e os
jovens podem sentir-se pressionados a ter relações sexuais. Várias pesquisas mostram como a pressão efectuada pelo grupo
de amigos é mencionada por alguns jovens como justificação para a iniciação sexual (Heilborn e Bozon, 1999; Voydanoff e
Donelly, 1990). Os comentários, não já dos amigos, mas dos colegas, sobre as suas experiências, ou sobre o facto destes não
serem experientes podem levar os jovens a procurar essas experiências. Os comentários gozões entre os jovens podem levar a
que os indivíduos que são objecto desses mesmos comentários se possam sentir rebaixados. Ora, o facto de se ter tido a
primeira relação sexual pode ser considerado como um passo para a idade adulta, o que pode levar os jovens que ainda não
tiveram esta experiência a sentirem-se diminuídos relativamente aos outros jovens mais experientes.
“Porque às vezes: “és virgem?, mas tu ainda és virgem? Com 20 anos? Que horror” pronto e é esses comentários assim
que às vezes a pessoa fica a pensar: será que isto é um bicho?, será que eu sou uma pessoa normal por ainda não ter
perdido a virgindade?. Às vezes as pessoas pensam nisso e querem mais rapidamente perder a virgindade” (Patrícia, 20
anos, estudante do ensino superior).

“Existe aquela pressão do outro já fez, tenho que fazer. Quando nós somos novos existe: “À então, mas tu tal e coiso,
ainda não fizeste nada?”, depois acaba por ser aquele gozo, aquela forma de rebaixar uma pessoa e isto entre os jovens
existe muito, principalmente nos homens.” (Paulo, 22 anos, 12º ano, electricista)

Em jeito de síntese
Como referimos anteriormente, vários estudos mostram como as sociabilidades juvenis exprimem-se
dominantemente nas relações de amizade (Costa et al., 1990; Pais, 1996). Os amigos têm um papel importante na integração
e na afirmação da identidade dos jovens.
Para os jovens entrevistados, a amizade é uma relação de confiança, recíproca entre os amigos. Com estes desabafa-
se, fala-se dos problemas, revela-se o verdadeiro eu dos jovens. Ao reprimir ou ao aprovar comportamentos, os amigos
ajudam a construir as trajectórias dos jovens. A amizade é considerada como algo de muito importante, mesmo uma segunda

98
base de apoio, logo a seguir à família ou algo que a substitui quando esta não pode estar presente. Com os amigos sai-se, vai-
se beber um café ou uns copos, falando-se de tudo.
É neste sentido que se verifica que os jovens, geralmente, também falam sobre sexualidade. Embora não se diga a
mesma coisa a todos ou tudo a toda a gente, entre amigos fala-se das práticas sexuais, das experiências que se tem, dos
relacionamentos amorosos, dos problemas ou das dúvidas ou a nível mais geral do modo como a sociedade tende a encarar a
sexualidade.
Deste modo, falar sobre sexualidade entre amigos tem um papel essencial na construção do conhecimento sexual
dos jovens. Para algumas jovens que não falam de sexualidade em casa, o grupo de amigos é a única oportunidade de falar
destes temas, que doutro modo poderiam ser tabu. É também no grupo de amigos, tendencialmente misto, que existe a
oportunidade para os jovens iniciarem relacionamentos afectivos e sexuais, sendo este o espaço onde por vezes se conhecem
o parceiro. No entanto, da parte dos amigos, sobretudo dos conhecidos, podem existir pressões no sentido dos jovens
iniciarem a sua actividade sexual. O facto dos jovens mais experientes falarem das suas práticas ou a existência de alguns
comentários gozões podem levar a que os jovens que ainda não se tenham iniciado sexualmente sintam pressão para o fazer.

Bibliografia
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Família, juventude e conjugalidade


Acácia Batista Dias1
Universidade Estadual de Feira de Santana
acaciabatista02@gmail.com

Resumo: O texto versa sobre a parentalidade juvenil compreendendo que tal condição redefine as relações entre pais e filhos e reafirma a
família como esfera de apoio afetivo-material, esfera que acolhe conflitos, negociações, solidariedades e cumplicidades. O cotidiano familiar
exprime características contemporâneas de novas atitudes e comportamentos nas relações familiares, ao mesmo tempo em que sentimentos,
funções parentais e posturas dos jovens pais/mães apontam para uma permanência de valores assimétricos de gênero. O nascimento do filho
promove a passagem da adolescência à vida adulta, embora essa transição, para muitos desses/as jovens, possa já ter se iniciado com a
aquisição de outras responsabilidades como a inserção precoce no mercado de trabalho. Neste texto se procede à análise de determinados

1
Professora Adjunta da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Bahia, Brasil. Doutora pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ),
Brasil.

99
aspectos relacionados aos desdobramentos que ocorrem nas biografias juvenis, após o nascimento do primeiro filho. Em especial, a discussão
da união conjugal a partir de questões destacadas pelos jovens no tocante ao sentimento em relação ao parceiro/a, ao desejo de coabitação e
os (des)compassos da convivência conjugal. Ao apontarem as mudanças sofridas nas suas vidas e a forma de convivência familiar, os jovens
revelam que recorrem à família de origem em algumas situações, principalmente nos momentos de conflitos com seus pares – os quais
esboçam diferentes formas de intervenção e de posicionamento sobre as escolhas individuais. Tais inferências são resultados de um percurso
metodológico que contemplou entrevistas semi-estruturadas realizadas com jovens de ambos os sexos, de 18 a 24 anos, residentes na cidade
de Salvador, Bahia - Brasil.

A história da família é a história dos processos de transformações, dentre os quais, está a forma como a criança
aparece na família moderna inaugurando um novo conjunto de atitudes para com a infância, inclusive com a preocupação
acerca da formação psico-social dos filhos (Áries, 1981a). Destaca-se também, o surgimento do "sentimento da família" que
permite ao homem escapar a uma solidão moral, tendo em vista a dimensão dada à vida privada e à relação entre pais e
filhos, nas quais se instituem novas regras de sociabilidade e intensificação do processo de individualismo. Dessa forma, a
família moderna corresponde "a uma necessidade de intimidade e também de identidade: os membros da família se unem
pelo sentimento, o costume e o gênero de vida". (p.278).
O século XX traz como uma das suas características a projeção da família nuclear como modelo, baseada na
formação de uma “unidade sentimental” e centramento em torno de si mesma (Badinter, 1985). Assim, a presença da
afetividade nas relações familiares é fruto das mudanças sócio-culturais de condutas e sentimentos dos indivíduos (Elias,
1994). Para alguns autores, fatores como o processo de urbanização e a industrialização refletem diretamente nas novas
configurações familiares. Entretanto, como aponta Saraceno (1997), o engendramento das mudanças a partir desses processos
revela especificidades consubstanciadas aos diferentes contextos sócio-cultural e econômico de determinadas sociedades.
No âmbito das Ciências Sociais, o tema família é responsável por abordagens plurais que instituem interpretações
advindas de diferentes correntes teóricas, referidas a tempos distintos do processo histórico. Leituras e releituras sobre este
tema são elaboradas a partir de aspectos como: formação, manutenção, produção e reprodução das famílias, sempre
demarcando a relação indivíduo e sociedade.
De modo geral, as análises apontam para duas direções. De um lado, a perspectiva de crise, e por outro, a
perspectiva de como a família responde às transformações sociais. A Sociologia da Família, na França, tem priorizado a
segunda perspectiva, discordando do pressuposto de “crise”; posição esta que alicerça a perspectiva aqui trabalhada. Segalen
(1996) enfatiza a compreensão das mudanças na família a partir de uma investigação conjunta nas áreas de Ciências Sociais,
História e Demografia, visto que dados como fecundidade, divórcio, nupcialidade, entre outros, refletem diretamente no tipo
de composição e nos comportamentos familiares. Assim, a autora efetiva uma análise sobre os modelos de família extensa e
nuclear, demarcando as suas inserções em um dado processo histórico em que as relações com a parentela se estruturam em
termos de regras e valores compartilhados e socialmente demarcados. Já Singly (1993) contempla como modelo de família o
casal, considerando a existência de um processo relacional de individualização dos seus membros. Assim, a vida privada se
estrutura sobre o reconhecimento mútuo das pessoas que vivem juntas, demarcando as “regras” da conjugalidade. A relação
com a parentela é fundamental para a manutenção do grupo, especialmente no que se refere à troca dos serviços, mas
existindo certa autonomização da família (Singly, 2000), ainda que, no caso francês, exista um percurso de liberação da
parentela amparado pelo Estado Providência que assume o cuidado com crianças, jovens e pessoas mais velhas.
Entre as formas de expressão do individualismo destacam-se a questão da intimidade e a noção de espaço, ambas
atreladas ao processo de autonomia dos indivíduos. Ariés (1981) menciona que a reorganização da casa e a reforma dos
costumes subsidiam a construção dos valores da família moderna. Mas, de imediato não uniformiza os sentimentos dos
distintos segmentos sociais, embora a vida familiar tenda, lentamente, a se estender para toda a sociedade. A individualidade
que se desenvolve no sujeito depende também de um processo de individualização baseado na estrutura da sociedade em que
se encontra inserido (Elias, 1994). Nessa estrutura social, o contexto das relações familiares é considerado como uma
instância propícia e fundamental de produção da individualização - de construção e revelação de si (Singly, 1996).
No Brasil, os estudos sobre família têm, a partir da década de 70, novos horizontes de investigação, com a
emergência de discussões que criticam a prevalência de determinados modelos como expressão da sociedade brasileira2. Em
especial, ocorre a desconstrução da família patriarcal como modelo hegemônico que durante muito tempo foi utilizado como
parâmetro de classificação. Assim, ao final da década de 80 proliferam-se as recusas à sua representação como referência à
família brasileira e essa como família extensa. Alguns autores apontam que tal modelo trata-se de um tipo historicamente
situado, particularmente nordestino (advindo da estrutura da lavoura canavieira), com valores e normas relativos a um cenário
que retratava uma estrutura de poder centrada no homem (sentido de patriarca), e com relações sociais bem definidas entre:
“casa-grande e senzala”, patrão e empregado, pai e filho, marido e mulher (Freyre, 1995). Como desdobramento desse
movimento, alguns autores mantêm a premissa de que a estrutura da família patriarcal era uma forma dominante de
construção social e política que muito influenciou a organização e a manutenção de uma dada ordem social nacional
(DaMatta, 1987). Prevalece, portanto, a vertente analítica que versa a família como uma instituição essencial, cuja estrutura
se refletia nas relações de poder com centralidade na figura masculina e que se estendia à vida social, através de um forte
grau da relação exploração e subordinação tipicamente retratada na nossa sociedade.

2
Críticas às obras de Gilberto Freyre, Antônio Candido e Oliveira Vianna.

100
A compreensão da família como instituição social ainda é uma característica dos estudos no país, os quais
referenciam a sua correlação com a estrutura e a organização social; assim, figura a sua representação como instância de
produção e reprodução econômica, sócio-cultural, biológica; e, também, como espaço de socialização enfatizando a formação
dos indivíduos, através do processo de interiorização de normas, valores e regras sociais.
“A família é uma esfera social marcada pela diferença complementar, tanto na relação entre o marido e a mulher
quanto entre os pais e os filhos. O caráter relacional da família corresponde à lógica de sua própria constituição.
Embora comporte relações do tipo igualitário, a família implica autoridade, pela sua função de socialização dos
menores como instituinte da regra.” (Sarti, 1995: 43)

Entretanto, a recorrência à interdisciplinaridade para repensar o tema promove a visibilidade de outros tipos de
composição familiar, a partir da utilização de critérios que consideravam questões como: temporalidade, contextos
econômicos regionais, movimento da população, inclusive o fluxo migratório, as etnias e a expressividade de grupos sociais
distintos que compõem a história da sociedade brasileira (Samara, 2002).
A percepção dessa multiplicidade de situação no cenário social com arranjos familiares muito distintos do modelo
gilbertiano, contribuiu para tornar os conceitos de família patriarcal e extensa insuficientes e inadequados para a pluralidade
da formação familiar no Brasil. Corrêa (1994) chama a atenção para a evidência histórica da existência e da permanência de
famílias chefiadas por mulheres; ressalta, também, que a família conjugal moderna não se forma automaticamente via
processo de modernização. Nessa perspectiva, Samara (1987: 31) alude às evidências ao longo da história.
“Assim, mergulhar no passado buscando reconstituir a família é enveredar por muitos caminhos, é o encontro de uma
gama variada de composições ora simples, ora complexas, que vão da unidade conjugal à extensa, do grupo de sangue
ao núcleo doméstico, que agrega relações não formalizadas apenas pelo parentesco.”

Pensar a história da família brasileira é pensar as várias formas de coexistência, dentro de um mesmo espaço social,
de diferentes formas de organização familiar que consideram, entre outros aspectos, a convivência de valores igualitários e
hierárquicos (Machado, 2001). A compreensão da família como grupo social contempla a discussão de redes e relações
sociais que se estabelecem, pautadas em práticas de solidariedade, reciprocidade, inter-ajudas. Também em conflitos e
negociações resultantes de uma composição diferenciada por sexo e idade no interior do grupo. Destacam-se ainda questões
relativas ao sentimento familiar que remete à noção e ao sentido de pertencimento. Atualmente, são expressivos os estudos
sobre o tema no Brasil, evidenciando as mudanças propiciadas, especialmente, pelos processos de modernização e
individualização (Sorj e Goldenberg, 2001), ainda que as abordagens se direcionem para referência da família como valor,
mais do que para relações familiares e geracionais sob a ótica de suas práticas e comportamentos (Peixoto e Bozon, 2001).
Como reflexo das próprias transformações sociais, outro modelo torna-se parâmetro de análise e comparação: a
família nuclear, compreendida dentro do processo de modernização como unidade de produção que possibilita a manutenção
e a qualidade de vida do grupo, caracterizada, também, como uma “forma dominante e abrangente de organização doméstica”
(DaMatta, 1987: 131). A diversificação das pesquisas tem privilegiado enfoques específicos que tratam da divisão sexual e
social do trabalho, centralizados na dicotomia público – privado; bem como, características singulares presentes em
determinados tipos familiares como: do campo, das classes trabalhadoras e médias, de diferentes raças/etnias e religiões.
Essas perspectivas analíticas, geralmente, dialogam com questões referentes às relações de gênero. Há que se considerar a
influência da Demografia nesse campo de investigação, o que possibilitou uma ampliação dos conceitos e especificação de
novos modelos, como por exemplo, a visibilidade da família monoparental com chefia feminina e as circunstâncias históricas
e sociais a ela relacionadas.
Em termos mais teóricos, é perceptível o deslocamento de atributos da família burguesa para a de classe média,
especialmente no tocante ao debate acerca do individualismo. Nesse sentido, é comum a caracterização das relações
familiares dos estratos médios da sociedade brasileira em bases mais igualitárias, condicionadas por uma postura mais liberal,
cujos conflitos de geração e tipos de negociação se inscrevem no conjunto de valores considerados modernos. Em
contraposição, as práticas das camadas populares são caracterizadas por valores mais tradicionais, nos quais prevalecem o
domínio do grupo sobre o indivíduo, através de relações hierarquizadas, baseadas em conceitos como moral e honra. Uma
parte da literatura brasileira sobre o tema traz como marca essa dualidade, denominada por Sorj e Goldenberg (2001) de
“literatura de polarização”, tendo em vista o referencial teórico pautado na dicotomia tradição e modernidade, que é marcado
por um sistema de valores dual que classifica os comportamentos familiares como hierárquicos ou igualitários. As autoras
chamam a atenção para o fato de que a adoção dessa postura analítica tende a incorrer em uma superficialidade, uma vez que
essa abordagem não incorpora “o processo de (re)significação de práticas sociais que rompem com [tal] dualidade” (p.114).
Na dinâmica da vida cotidiana, uma ordem de mudanças impele os indivíduos para novos olhares e novos debates
sobre as relações familiares, tendo em vista questões como: aumento da participação das mulheres no mercado de trabalho,
queda da taxa de fecundidade, prolongamento dos anos de estudos - especialmente entre jovens, exercício mais autônomo da
sexualidade, reconhecimento de crianças e adolescentes como sujeitos de Direito, mudanças na legislação3; a progressiva

3
Referência à criação do Estatuto da Criança e do Adolescente; a promulgação na Constituição Federal da igualdade de direitos entre homens e mulheres na
sociedade conjugal; o Novo Código Civil (janeiro de 2003) no qual a expressão “pátrio poder” foi substituída por “poder familiar” reconhecendo o direito de
ambos os pais; a inserção de questões no Direito de Família referentes as novas tecnologias reprodutivas, relacionamentos na internet etc. Sobre o discurso legal
acerca da família no Brasil, ver Basterd (1987).

101
redistribuição de funções na socialização do cidadão (família e escola como agências sociais responsáveis). Os movimentos
feministas foram emblemáticos em todo o processo, pois a contestação da posição social designada às mulheres expandiu-se,
possibilitando a formação de identidades sexuais e de gênero. Novos personagens emergem nesse contexto social,
reivindicando seu reconhecimento através de direitos e deveres: gays, negros, índios, idosos, portadores de necessidades
especiais. O pronunciamento dessas solicitações elucida especificidades dos campos de embate, mas aponta a família como
locus de referência.
Nessa perspectiva, é comum a manifestação de alguns setores da sociedade insistindo no argumento da existência
de uma “crise ou do fim da família”. Dentre as questões apontadas destacam-se a desestruturação familiar, devido a novas
formas de sua composição, entre as quais aparece a família recomposta (ou reconstruída) e a formação de casal homossexual
com ou sem a presença de filhos; diferenças na expressão da autoridade parental, haja vista a incorporação do processo de
autonomia e construção da individualização dos membros do grupo, sobretudo de filhos jovens; a crescente inserção feminina
no mercado de trabalho juntamente com outras formas de organização doméstica. Vale ressaltar que as mudanças ocorridas
nas últimas décadas, não provocaram um enfraquecimento da instituição família, “mas o surgimento de novos modelos
familiares, construídos a partir desses fenômenos sociais, mas, principalmente, das transformações nas relações entre os
sexos, vistas de uma perspectiva mais igualitária” (Peixoto e Cicchelli, 2000: 9). Essas transformações se difundiram por
vários países e pode-se afirmar que elas compõem as “novidades” da sociedade contemporânea. Decerto que as formas de
vivenciá-las possuem condições próprias de incorporação e não se realizam ao mesmo tempo e da mesma maneira em todos
os grupos e segmentos sociais, uma vez que essas condições possuem uma intrínseca relação de dependência com fatores
como: “mercado de trabalho, possibilidades de consumo, acesso aos sistemas de saúde e educacional, à informação e à ação
da mídia” (Bilac, 1995: 35).
Em termos de perspectiva teórica, alguns autores têm adotado como referência de análise a família conjugal,
configurando-se como uma alternativa de compreensão do processo de mudança social e seus reflexos internos ao grupo
doméstico. Essa abordagem privilegia o processo de individualização na família, baseado na compreensão de que seus
componentes constituem um grupo, mas este é formado por individualidades (Singly, 1993, 1996, 2000; Giddens, 1993,
Kaufmann, 2001 etc.). Desse ponto de vista, o casamento (cerne da família conjugal) não se traduz como base para
reprodução biológica, o motor interno dessa relação é a troca sexual, fazendo com que a relação sexual ocupe lugar de
destaque (Bozon e Heilborn, 2001; Bozon, 2004). A escolha do cônjuge continua fortemente centrada no grupo de pares
(homogamia conjugal), embora a configuração do mercado matrimonial, sobretudo com o maior percentual feminino na
população e aumento das taxas de divórcio, tem favorecido a formação de novos arranjos conjugais: casais com diferenças de
capital cultural, diferenças etárias, com filhos de relações anteriores, entre outros.
A partir da noção de individualidade, as relações sociais estabelecidas entre os membros do grupo familiar
adquirem novo contexto, são, também, mediadas por uma ambiguidade em torno do sentimento de independência e
pertencimento em relação à família. A compreensão da dinâmica familiar requer interpretações acerca das interdependências
estabelecidas entre seus membros, cujo grau de autonomia depende da posição que ocupam, correlacionada com
características de gênero, geração, inserção profissional, entre outros. Cicchelli (2000: 114) defende o pressuposto de que:
“Por um lado, a produção de indivíduos autônomos não é, de maneira alguma, feita em detrimento da construção do
laço familiar e, por outro lado, estas duas dimensões devem ser tratadas conjuntamente pelo pesquisador, na medida
em que os atores sociais contemporâneos são indissociavelmente ligados às preocupações consigo mesmo e com os
outros.”

Compreender como cada grupo social trata a questão da individualidade e da reciprocidade nas relações familiares,
significa estar atento para a maneira como as concepções de família são aferidas nos distintos segmentos sociais. A noção de
autoridade presente nestas concepções implica não só uma relação hierárquica, mas, também, estratégias de barganha na
relação de poder, que devem ser entendidas como um “processo dinâmico, recíproco e interativo” (Salem, 1980: 187). Logo,
há uma fluidez do poder que é alocado de forma diferente conforme os indivíduos envolvidos na trama social, no contexto
em que ocorre a cena e no tempo histórico equivalente. Assim, a autora afirma que: “os padrões de poder não são estáveis no
curso da biografia da família, mas, antes, fluidos e específicos segundo tempo e situação” (p.187).
No momento atual, parece estar cada vez mais preeminente a posição de que a família se transforma ao longo do
tempo, se adaptando aos novos contextos e assumindo um perfil mais centrado na qualidade das relações entre os indivíduos,
inclusive no respeito às escolhas e aos desejos de cada membro do grupo. Assim, ressalta-se a prevalência de valores
igualitários que contribuem para o enfraquecimento da hierarquia e do formalismo nas relações familiares. Entretanto, é
necessário relativizar tal perspectiva a fim de evitar a construção de uma visão romântica e puramente harmoniosa destas
relações, demonstrando-a como um espaço mais democrático e isento de conflitos, sobretudo de geração. Decerto que já se
vislumbra mudanças de atitudes, sobretudo entre pais e filhos e com maior intensidade nas camadas médias, através de
posicionamentos mais flexíveis, busca de diálogo, negociação e maior expressão de afetividade entre os homens do grupo; no
entanto, os limites continuam sendo estabelecidos e outras formas de repreensão são adotadas.
No Brasil, a família é uma referência primordial para o indivíduo porque o situa na sociedade e remete a
sentimentos de identidade e de pertencimento. DaMatta (1987) atesta a importância de se ter “um nome de família”, sendo
esse um dos aspectos que reforça a sua percepção como valor. Percebe-se a incorporação de novos sentidos e novas
expectativas nas relações familiares, a exemplo da composição e manutenção do casal conjugal a partir da dimensão do afeto.

102
O momento atual solicita “diálogos” mais intimistas entre os sujeitos e as agências sociais, motivados por uma busca de
reflexividade (Giddens, 1991), demarcando reciprocidades e conflitos, instituindo situações em que prevalecem o “eu” ou o
“nós”. Sentimentos e anseios se expressam também nas demarcações de espaço da vida privada, do individualismo e de
novas formas de participação no cotidiano familiar, como por exemplo, a reivindicação masculina por uma paternidade mais
participativa e da nova maternidade, que tem por ideal a busca pela equidade na responsabilidade parental (Scavone, 2001).
Embora a consolidação de relações igualitárias entre os sexos não tenha se estabelecido de forma plena nas diferentes esferas
sociais, endosso a premissa de que "é também no cotidiano da vida familiar que surgem novas idéias, novos hábitos, novos
elementos, através dos quais os membros do grupo (...) criam condições para a lenta e gradativa transformação da sociedade"
(Bruschini, 1993: 77).
Nesse sentido, o jovem aparece como um ator social potencialmente capaz de adaptação e proposição de mudanças.
Pensar a juventude é pensar a diversidade que a circunscreve, reconhecendo que não se trata da definição de uma
determinada faixa etária, mas de um processo, uma passagem à vida adulta, que tem, também, suas marcas de gênero.
Galland (1993) aponta a vigência de um prolongamento da juventude, inclusive com maior investimento nos estudos e
postergação de saída da casa parental.
As nuances dessa transição são demarcadas por diferentes condições e posição de classe social (Bourdieu, 1992).
Para esse autor, é importante investigar a juventude a partir da sua heterogeneidade, alertando que a linguagem possibilita
reunir no mesmo conceito universos sociais distintos, mas não inviabiliza a construção de interesses coletivos de geração
(Bourdieu, 1983). Dessa forma, a heterogeneidade é, também, formada por especificidades de origens sociais, perspectivas e
aspirações, nas quais as vertentes de acesso à vida adulta mostram-se flutuantes, flexíveis e diversificadas, compondo a
complexidade do debate e revelando a existência de várias formas de transição (Pais, 1993), entre as quais se destaca a
inserção no mundo do trabalho, com importância atestada pelos autores. Nesse sentido, Sposito (1997: 39) revela a trajetória
de jovens de baixa renda, cujo trabalho precoce se constitui em uma necessidade que propicia a aquisição de autonomia e
responsabilidade.
“Para o conjunto da sociedade brasileira, a tendência maior é a de antecipação do início da vida juvenil para antes dos
15 anos, na medida em que certas características de autonomia e inserção em atitudes no mundo do trabalho - típicas
do momento definido como de transição da situação de dependência da criança para a autonomia completa do adulto –
tornam-se o horizonte imediato para grande parcela dos setores empobrecidos”.

Analisar a juventude e as relações familiares, tendo por base a experiência de parentalidade4 implica o
entendimento de situações de independência e/ou dependência financeira, de solidariedade intergeracional, bem como estar
atento para a reorganização familiar que abriga formas diferenciadas de coexistência e de coabitação entre gerações, e que
expressam valores e comportamentos diversos. A compreensão da família como grupo social contempla a discussão de redes
e relações sociais que se estabelecem, pautadas em práticas de solidariedade, reciprocidade e conflitos (Dias & Peixoto, no
prelo).
O nascimento do filho é um dos demarcadores de passagem da adolescência à vida adulta, embora essa transição,
para muito dos jovens aqui analisados, possa já ter se iniciado com a aquisição de outras responsabilidades como a inserção
precoce no mercado de trabalho. As inferências apresentadas nesse texto são oriundas da Pesquisa GRAVAD5, mas para fins
dessa análise ateve-se ao resultado de um percurso metodológico que contemplou entrevistas semi-estruturadas realizadas
com jovens de ambos os sexos, de 18 a 24 anos, residentes na cidade de Salvador, Bahia, Brasil.
A análise dos dados revela que a maioria dos jovens mora com seus familiares, ainda que vivam conjugalmente
com suas/seus parceiras/os. Segundo Pais (1993), na sociedade moderna os problemas que mais afetam a juventude são os
relacionados e derivados da inserção no mercado de trabalho. Como consequência das dificuldades de conseguir um emprego
que garanta a independência financeira, ocorre o aumento do tempo de permanência na casa dos pais, incluindo situações em
que permanecem na condição de recém-casados. Essa é uma situação presente entre os/as entrevistados/as.
A convivência de pais com seus filhos possui suas ambivalências; o laço de filiação é “considerado
simultaneamente uma ligação e uma obrigação, marcado tanto pelo desejo quanto pela rejeição” (Cicchelli, 2001: 257). A
permanência na casa parental aventa um “prolongamento da socialização” (Ciccheli, 2000, 2001), pois o jovem continua
inserido em um espaço com normas e regras que são também direcionadas para a construção da sua autonomia e ascensão à
vida adulta. Mas, se por um lado, essa situação propicia certo conforto familiar, por outro lado, é permeada por conflitos,
tensões e ressentimentos entre os membros do grupo. Assim, a convivência com a família é, em geral, marcada pela
existência de um universo cultural juvenil com novos códigos e valores que diferem do de seus pais. Isso contribui, muitas
vezes, para o acirramento dos conflitos entre pais e filhos (Pais, 1993).

4
O termo parentalidade está sendo utilizado para designar a condição de maternidade/paternidade na adolescência; é um neologismo que visa suprir a falta da
palavra em português, correspondendo ao termo inglês parenthood (Heilborn, 1993; Heilborn et. al., 2002)
5
O projeto “Gravidez na Adolescência: Estudo Multicêntrico sobre Jovens, Sexualidade e Reprodução no Brasil” foi elaborado originalmente por Maria Luiza
Heilborn (IMS/UERJ), Michel Bozon (INED, Paris), Estela Aquino (MUSA/UFBA), Daniela Knauth (NUPACS/UFRGS) e Ondina Fachel Leal
(NUPACS/UFRGS). A pesquisa foi realizada por três centros: Programa em Gênero, Sexualidade e Saúde do IMS/UERJ, Programa de Estudos em Gênero,
Mulher e Saúde do ISC/UFBA e Núcleo de Pesquisa em Antropologia do Corpo e da Saúde da UFRGS. O grupo de pesquisadores compreende Maria Luiza
Heilborn (coordenadora), Estela Aquino, Daniela Knauth, Michel Bozon, Ceres G. Victora, Fabíola Rohden, Cecília McCalum, Tania Salem e Elaine Reis
Brandão. O consultor estatístico é Antônio José Ribeiro Dias (IBGE). A pesquisa foi financiada pela Fundação Ford e contou com o apoio do CNPq.

103
Quando o jovem casal consegue formar sua própria família, geralmente o domicílio se localiza próximo à casa de
seus familiares. Assim, seus vizinhos são caracterizados por relações de parentesco: mães, sogras, cunhados, tios. Não raras
são as vezes em que o novo endereço corresponde à casa de cima ou a da frente da residência dos pais. Ter a família como
vizinhança é comum nas camadas populares. A mulher busca particularmente morar próximo à mãe, em razão do predomínio
e da predisposição de tensões na relação entre nora e sogra. Esse vínculo é constitutivo de uma relação por afinidade e
representa “uma relação obrigatória, quer dizer, inevitável, inelutável, forçosa” (Lemarchant, 2000: 168), com poucas
chances de fazer prevalecer a dimensão eletiva.
A literatura aponta a tendência da relação de proximidade, apoio e afeto na díade mãe-filha e um maior
distanciamento dos filhos, pois estes tendem a conviver mais com as famílias de suas esposas (Macêdo, 2001), sem que esse
movimento implique perda do afeto e do apoio material de suas famílias de origem. No tocante as relações de troca e de
ajuda, a tendência é que se recorra às mães. Afinal, “uma mulher sempre está mais disponível para sua filha do que para sua
nora” (Lemarchant, 2000: 170). Logo, os laços filiais se intensificam, sobretudo no cuidado com os/as netos/as. Vários
estudos sobre relações familiares apontam a proximidade geográfica como um fato importante na consolidação da
solidariedade familiar, mas os laços afetivos não são comprometidos por um distanciamento espacial (Peixoto, 2000a).
Os relatos evidenciam uma tendência à união do casal com a descoberta da gravidez e/ou nascimento do filho.
Entre os 20 jovens entrevistados, 12 disseram que se uniram conjugalmente em função da experiência de
maternidade/paternidade na adolescência. Entre os jovens pais, apenas dois continuam unidos com as parceiras, outros dois
mantêm o relacionamento afetivo-sexual com as mães dos seus filhos e esboçam o desejo de se casarem com elas. Os poucos
casos de união conjugal por parte dos rapazes não são surpreendentes, levando em conta que são mais novos do que os
parceiros das jovens mães. A maior estabilidade conjugal encontra-se nos casos de uniões das moças provavelmente a qual
deriva de uma melhor inserção social dos seus companheiros. Vale ressaltar que a gravidez entre adolescentes foi mais
frequentemente descrita pelos rapazes, cujas parceiras eram quase sempre mais novas ou tinham a mesma idade deles. As
jovens tendem a manter a relação conjugal e em um dos casos a moça se casa antes da gravidez. Contudo é, geralmente, a
situação de gravidez que motiva a união conjugal, sempre assumida como uma escolha do jovem casal, sobretudo por
considerar que a vida a dois inscreve-se em um dos caminhos de autonomia juvenil. Ainda que os jovens pais e mães contem
com formas de apoio material das suas famílias de origem e/ou das famílias dos/as parceiros/as, advogam que a vida do casal
está no campo de escolhas individuais. Entre os/as entrevistados/as percebe-se que uns dependem totalmente das famílias,
pois não possuem nenhum tipo de rendimento, outros conseguem certa autonomia financeira para prover a família, mas ainda
insuficiente para garantir total independência material.
Nessa conjuntura, a família configura-se como agente mediador em variados níveis, reafirmando a condição de que
as relações familiares se apresentam como suporte imprescindível no processo dos jovens de tornarem-se adultos. Ao
apontarem as mudanças sofridas nas suas vidas, a partir das situações de parentalidade e conjugalidade, e a forma de
convivência familiar, os jovens revelam que recorrem à família de origem em algumas situações, principalmente nos
momentos de conflitos com seus pares – os quais esboçam diferentes formas de intervenção e de posicionamento sobre as
escolhas individuais.
Entre os/as entrevistados/as há um sentido implícito de que a família se constitui a partir de uma formação que
reúne o casal e filho. Quando essa configuração não se estabelece, o filho é agregado à família de origem, adquirindo o
sentido de novo membro. A reprodução do modelo nuclear figura como uma idéia definida no imaginário social (Fonseca,
2002), por isso este formato tende a ser socialmente esperado. A literatura contemporânea sobre casamento e/ou uniões
conjugais refere-se à importância das relações amorosas como impulsionadoras ou responsáveis por esse processo. Os jovens
se unem conjugalmente tendo em vista a perspectiva de acolhimento da criança e o afeto em relação ao outro, objetivando,
entre tantas, uma das modalidades da atualidade: “o ideal de juntos por amor” (Bozon, 2004). Dessa forma, a união conjugal
juvenil está associada ao desejo e ao sentimento afetivo-sexual nutridos pelo parceiro/a, mas motivado, no momento, pela
gravidez. Situação semelhante foi apontada por Pais (1993), em pesquisa realizada com jovens, ao constatar que na decisão
de casar as hierarquias sentimentais e eróticas são privilegiadas.
A formação do casal, na contemporaneidade, endossa as características da escolha por amor, desejo, paixão,
acompanhado da relação de confiança que se estabelece entre os pares (Giddens, 1993, Singly, 1993, 2000). Na literatura
sociológica acerca do processo de individualização focalizando a esfera da intimidade, as relações sociais entre os sujeitos,
especialmente no campo da afetividade, são marcadas por construção e negociação intensas. Tais relações são orientadas por
uma busca de autonomia, que se expressa de forma plural, evidenciando as diferenças subjetivas inscritas nos tipos de
inserções e posições sociais dos indivíduos. Ainda que marcadas por especificidades, figura como ícone do processo de
construção da individualidade, a escolha do par com quem se quer estar e por quem se opta regido pelo sentido do “amor
paixão” (Luhmann, 1991).
Embora se trate de jovens e a durabilidade das relações afetivo-sexuais seja demarcada pela possibilidade de
incertezas, expressas na (possível) ausência da expectativa do “para sempre” e na valorização da intensidade do
relacionamento, o significado de compromisso assumido com a parentalidade e/ou com coabitação, os remete a um outro
patamar de vida, tornando-os pais e mães de família. Tal fato revela-se como suficiente para sentirem-se adultos. Béjin
(1987) afirma que na coabitação juvenil não predomina a suposição de que o relacionamento seja definitivo, a sua duração
está submetida a uma renegociação cotidiana entre os parceiros. Jovens casais ao decidirem pela coabitação firmam um
compromisso, mas atestam que a união se realiza em função da gravidez, ainda que, em algum momento, o casamento

104
estivesse em seus planos. No entanto, em determinados casos, ocorre pressão da família da moça para uma assunção da
paternidade que contemple a união conjugal, mesmo assim todos os jovens insistem no registro de que a situação de
conjugalidade foi uma decisão do casal.
A família contemporânea ocupa lugar privilegiado tanto na reprodução biológica e social como na construção da
identidade individualizada (Singly, 2000), na qual a conjugalidade assume o estatuto de domínio autônomo da família
(Heilborn, 2004), fundamentando, assim, a esfera da produção de sentido, onde a parentalidade adiciona sentido existencial
para o indivíduo (Torres, 2000). Desse modo, a decisão de morar junto é permeada de sentimentos e significados. As
condições de parentalidade e conjugalidade aguçam o sentido de responsabilidade e promovem o redimensionamento do
novo contexto em que se inseriram. Estar e morar junto cria uma interação cotidiana (Torres, 2001), ainda que precedida da
convivência do namoro. Estar em situação de cônjuge pressupõe “encarar a esfera privada como um mundo onde há escolha e
autonomia para ‘moldar’ a realidade à nossa maneira, o que tende a traduzir-se em altas expectativas em relação ao
casamento” (p.91).
O cotidiano da vida do jovem casal revela-se como um aprendizado dinâmico e potencialmente sujeito a
“metamorfose dos sentimentos” (Kaufmann, 2001). O posicionamento frente aos conflitos, às negociações e às decisões
esboçam questões de âmbito individual, mas há também o recurso à família (Brandão, 2003), como domínio legitimado de
aconselhamento e amparo. Quando o assunto é o relacionamento do casal, a família é requerida, especialmente no tocante as
circunstâncias que envolvem indecisão e angústia, buscando aclarar sentimentos e escolhas. A experiência de vida dos pais e
em alguns casos de irmãos mais velhos é valorizada, não significando, necessariamente, acatar as propostas destes.
Os comportamentos juvenis, muitas vezes, são emblemáticos da proposta de uma vida individualizada, mas a vida
de casal (jovem), acentuada com a presença de filho, não consegue manter o distanciamento, ou a independência almejada,
dos posicionamentos, das atenções e sugestões familiares. Embora recorram à família para aconselhamentos e queixas, os
entrevistados não relatam um cotidiano da vida de casal compartilhado com os pais, fazem questão de demarcar que a
condição de casal constitui uma esfera autônoma das suas vidas, em última instância advogam que a decisão cabe a eles/as.
Afirmam que a coabitação com os parceiros/as é regida por negociações e renegociações próprias do casal, embora tenham
ciência das expectativas familiares sobre seus comportamentos e atitudes. Não decepcioná-los apresenta-se como mais uma
das tensões vividas em um momento de tantas novidades e descobertas, o que revela uma sutil forma de controle parental.
A nova conjuntura que se impõe na vida dos jovens pais provoca inquietudes, incertezas e receios sobre o devir. A
representação de risco do matrimônio é ilustrada nos depoimentos sobre as dificuldades da vida a dois, corroborando a
perspectiva de que “o casamento precisa de algum sacrifício e de algum empenho” (Torres, 2001: 61).
As narrativas dos jovens expressam dilemas presentes na vida conjugal, nos quais o indivíduo oscila entre o “eu” e
o “nós”. A família contemporânea se constitui numa esfera capital na construção de si, construção da individualidade no
espaço das relações, reafirmando o caráter relacional do indivíduo (Singly, 2000). Na literatura sócio-antropológica
brasileira, um dos campos de debate sobre família demarca uma distinção acerca da sua representação entre os diversos
segmentos sociais. Os autores advogam a preponderância de valores mais igualitários e individualistas associados às camadas
médias, em contraposição a valores mais relacionais e hierárquicos nas camadas populares. Nessa perspectiva, os jovens
baianos apresentam uma peculiar ambivalência: o ideal individualista, também predominante nas camadas médias, cede
espaço para o indivíduo relacional com a emergência da parentalidade. A forma como se manifestam as relações familiares,
com ênfase no grupo e no parentesco, possui configurações específicas de ethos, cujo código de valores é definido por
sentimentos de moralidade e responsabilidade.
Ao associarem a união conjugal à constituição de uma nova família, os jovens definem como prioridade dessa
instância as funções parentais, cuja conotação se expressa no eu e no outro. Quando refletem sobre a trajetória da
adolescência à experiência de paternidade/maternidade, avaliam que poderiam ter investido primeiramente no “eu-
individualizado”, onde se inclui a conquista de independência e maior autonomia, e, só depois na formação familiar – sempre
mencionada como um desejo. A “mudança de planos” com o nascimento da criança, e as relações sociais que passam a existir
entre pais e filhos, se apresenta envolta por um “espírito de família”, funcionando como habitus de reafirmação institucional
que, segundo Bourdieu (1996: 129): “visam produzir, por uma espécie de criação continuada, as afeições obrigatórias e as
obrigações afetivas do sentimento familiar (amor conjugal, amor paterno, amor materno, amor fraterno etc.)”. A literatura
brasileira que discute relações familiares nas camadas populares é categórica na premissa de que filho e casamento/união ao
implicar responsabilidade acentuam o significado da moralidade e da honra (Sarti, 1995, 2003, Heilborn, 1997). Tornar-se
pai/mãe (de família) significa assumir dependentes, cumprir obrigações, mesmo que matizadas em graus variados. Alguns
jovens, geralmente homens, se recusam a constituir união conjugal, mantendo a assunção paterna; outros aguardam um
momento financeiramente propício para formarem um novo domicílio e poder reunir a família; e outros se rendem à
coabitação. Há que se considerar que a parentalidade em si mesma demarca mais uma esfera de reconhecimento de
autonomia, que passa a ser conquistada cada vez mais precocemente por crianças e adolescentes.
Entre aqueles que passaram a coabitar com o/a parceiro/a, alguns desfizeram o laço conjugal, geralmente após o
nascimento do filho. Os discursos não refletem uma banalização da separação, mas é perceptível uma naturalidade da
situação, caracterizada como algo presumível e em alguns casos previsto.
Alguns jovens descrevem a interrupção ou término do relacionamento revelando que ainda sentem-se envolvidos
afetuosamente com o/a pai/mãe do seu filho, mas demonstram que o amor por si só não é suficiente para manter a vida
conjugal (Torres, 1996). Outras questões, descobertas, anseios e recomeços balizam essa decisão.

105
Nas narrativas femininas, estão presentes situações de desilusão em relação ao ex-parceiro, justificadas por
mudanças de comportamentos, sobretudo depois do nascimento da criança. A convivência marca as descobertas de si e do
outro na relação a dois. A conjugalidade dos casais jovens também é vulnerável à presença de “sinais de desconstrução em
relação ao sentimento inicial, situações conflituais de desfecho incerto” (Torres, 2000: 155). Nos momentos de conflitos
conjugais, os indivíduos buscam alguém de referência para dialogar, mas revelar acontecimentos ou situações da intimidade
requer confiança. Algumas jovens privilegiam a família, particularmente a mãe como principal interlocutora. É interessante
notar que em certos depoimentos femininos são perceptíveis determinadas mudanças de atitudes – as amigas são substituídas
pela mãe, sobretudo para conversar assuntos de família. Em última instância, é a mãe que ocupa posição privilegiada no
diálogo com os filhos. Vale lembrar que a conversa entre pais e filhos é também uma possibilidade de controle familiar
(Rezende, 1990). A construção social da mãe, para além dos estereótipos presentes no imaginário social, reúne elementos de
mito (cautela com conselhos, avisos e pressentimentos maternos) e de sabedoria. É uma relação de confiança porque se
acredita que ela deseja sempre e irrestritamente o bem dos seus filhos. Segundo Badinter (1985: 213): “a família moderna se
recentra em torno da mãe, que adquire uma importância que jamais tivera”.
Nos discursos dos jovens pais e mães de Salvador, tornar-se pai/mãe (de família), com ou sem vínculo conjugal,
remete a um reconhecimento da inserção na vida adulta. Para alguns jovens, as relações familiares modificam-se
substancialmente nesse momento e a parentalidade juvenil cria instâncias e relações próximas entre pares (pais e filhos-pais).
Entretanto, não ocorre uma perda da dimensão das hierarquias e assimetrias, os pais dos jovens não são simbólica e
efetivamente destituídos da sua autoridade. As relações entre eles apresentam nuances, compartilham um campo de maior
cumplicidade, confiança e intimidade. Pais e filhos consideram-se mais amigos.
Entre os rapazes, as relações familiares são descritas de forma breve. Brandão (2003) destaca que as questões
referentes a conflitos familiares e afetivos são narradas por eles não apenas com brevidade, mas também com uma postura de
distanciamento. A condição parental promove uma identidade social masculina, mas não revela uma intimidade com o pai,
sobretudo para debater questões afetivas. Ainda que se anuncie uma “qualidade do relacionamento, com ênfase sobre a
intimidade que substitui a relação de autoridade dos pais” (Giddens, 1993: 111), é perceptível que sua implantação encontra-
se em estágios variados. Possivelmente os jovens pais ao proporem relações de maior cumplicidade e menor distanciamento
com seus filhos, já experimentem relacionamentos mais próximos do ideal democrático anunciado no âmbito das relações
familiares, que já é atestado por alguns grupos sociais em determinados contextos culturais.
Entretanto, verifica-se nas narrativas dos rapazes aqui pesquisados que “no plano das trocas afectivas e simbólicas,
as mulheres são os principais agentes” (Segalen, 1996: 128). Assim, o comportamento familiar reafirma o domínio feminino
no tocante às funções de atenção e cuidado com os membros da família, seguindo a norma social ainda predominante. Mas é
importante para os jovens que seus pais reconheçam o processo de crescimento pessoal ao qual foram submetidos desde a
gravidez até a gestão das suas funções paternas.
Em síntese, observa-se que os jovens valorizam as escolhas feitas, consideradas expressões de uma autonomia em
construção. Assim, eles/as destacam a opção pela união conjugal, pela separação, ou, simplesmente, por não viverem
conjugalmente (atitude observada apenas entre rapazes), ainda que exista uma pressão familiar, mais expressiva nas camadas
populares (Dias e Peixoto, no prelo). Os sujeitos sentem-se capazes de decidir rumos da sua própria vida, contudo,
reconhecem que a implementação das suas escolhas está atrelada e depende efetivamente do apoio familiar. Em geral, a
família que tem melhor condição financeira e/ou material ajuda mais seus jovens. Independente da diversidade de situações
de gestão e provimento entre os entrevistados e seus filhos, o suporte familiar ocorre de forma constante e variada. Assim, as
relações familiares são marcadas pela busca juvenil em asseverar a sua autonomia e a condição de parentalidade potencializa
tal processo, especialmente quando estabelecem um novo núcleo familiar.

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Notas sobre família, hierarquia e gênero na Academia Militar das Agulhas


Negras
Cristina Silva
Universidade Federal de São Carlos
crisyellow@hotmail.com

Resumo: A comunicação apresenta um estudo etnográfico sobre as famílias de oficiais da Academia Militar das Agulhas Negras
(Resende/Rio de Janeiro/ Brasil) – instituição representativa do Exército Brasileiro. Logo, o foco deste trabalho está na compreensão da
composição da família do militar (oficiais, cônjuges e filhos/as), na sua rede de relações e os ambientes em que elas circulam, nos atentando
para questões de gênero, família e forças armadas. Os dados têm mostrado que o próprio termo “família militar” é tido como um conceito
nativo, pois significa para os militares tanto a identidade do grupo (a instituição militar como um todo) caracterizada por uma forte “união,
apoio e solidariedade”; como também evidencia um dos valores sempre lembrados na Academia: a família como suporte para a vida. Assim,
a “família militar” apresenta características que são definidas, sobretudo, pelas normas e condutas da instituição militar (regida, sobretudo,
pelos valores da hierarquia e disciplina), nos sugerindo a idéia de que a família possa ser considerada uma extensão do quartel, que se reflete
na organização da moradia e do cotidiano dessas pessoas, marcado, segundo eles, por um convívio maior com outras famílias de mesmo
circulo hierárquico do cônjuge militar e também por algumas dificuldades, como a instabilidade da vida escolar dos filhos e o problema do
cônjuge em dedicar-se a uma profissão devido às frequentes mobilidades geográficas que o oficial de carreira é submetido.

Introdução
Este paper pretende apresentar os resultados iniciais de um estudo etnográfico, ainda em andamento, acerca das
famílias de oficiais da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) – instituição localizada em Resende/Rio de Janeiro e
responsável pela formação de oficiais combatentes do Exército Brasileiro. O objetivo principal é compreender como se
estrutura a família do militar, sua rede de relações e os ambientes em que circulam, buscando mostrar aspectos e práticas da
vida cotidiana de oficiais, cônjuges e filhos/as, analisando suas formas de sociabilidade e dificuldades e facilidades em
empenhar projetos familiares e individuais.
Um dos interesses que justifica a análise da “família militar” está no fato de tentar compreender se a corporação
entende que a família é uma extensão da caserna (quartel), que se reflete na organização da moradia, circulação de filhos,
organização do cotidiano (formas de trabalho, lazer, etc.), enfim, na construção de todo um aparato simbólico que torna a
família um elemento vital para se entender a dinâmica do cotidiano militar. Cabe lembrar que a vida militar é regida por um
sistema de crenças e valores próprios da instituição militar; um grupo considerado “fechado”, tradicional e altamente
hierárquico (Castro, 1990; Leirner, 1997).
Ao pensar a “família militar”, também estamos tentando articular os assuntos da vida militar com questões de
gênero, parentesco e família. Assim, tratando as noções de parentesco e família como um universo de relações (Schneider,
1968; Strathern, 2006; Carsten, 2003), buscaremos compreender como estas são compartilhadas e vivenciadas entre as
famílias de militares e de que modo as normas e condutas da instituição são reproduzidas nesta esfera. Os estudos sobre
“família” importantes para pensar nossa pesquisa nos indicam desde a idéia de desnaturalizar e colocar no plano sociológico
a noção de família (Lévi-Strauss, 1956; Héritier, 1989), até a discussão recente sobre a pluralidade de novos arranjos
familiares (Carsten, 2003; Fonseca, 2007) que tendem a dissolver a preocupação com modelos e tipologias para pensar em
princípios de relação entre os que se dizem e sentem familiares. E, ao pensar nas relações entre homens e mulheres, sempre
será adotada a idéia de gênero como relacional, aos moldes de Strathern e Carsten, na qual o masculino e o feminino são
dependentes e constitutivos um do outro; mas sempre lembrando que também temos que levar em consideração que a
sociedade na qual vivemos naturaliza a dicotomia masculino/feminino.1

1
Nossa sociedade pensa a todo o momento por pares de oposição, havendo uma produção e reprodução contínua, um trabalho constante de diferenciação a que
homens e mulheres estão sempre submetidos e que os leva a distinguir-se masculinizando-se ou feminilizando-se. Essa dicotomização dos papéis sexuais
Esta nota continua na página seguinte

108
A pesquisa de campo, até o momento, consistiu em: a) numa observação etnográfica na AMAN e em sua respectiva
vila militar; b) na realização de entrevistas com oficiais da Academia e seus cônjuges, além de conversas informais com
outros militares e esposas; e c) na participação da pesquisadora em um dos eventos de confraternização do curso de Infantaria
da Academia. Ao todo, foram efetuadas 15 entrevistas com casais (marido e esposa) cujo cônjuge militar trabalhava na
AMAN no ano de 2007. Os oficiais entrevistados correspondiam a oficiais generais, oficiais superiores (coronéis, tenentes-
coronéis e majores) e oficiais intermediários (capitães).
Dito isto, veremos como as famílias de militares lidam com a questão das frequentes mudanças, como é a vida nas
vilas militares e como é ser esposa de militar para as entrevistadas; sempre lembrando que o próprio termo “família militar” é
entendido como um conceito nativo e que será melhor discutido ao fim deste texto.

Mobilidade geográfica
De um modo geral, os oficiais de carreira do Exército são movimentados, isto é, transferidos de organização
militar, a cada 2 ou 3 anos. O plano de carreira militar ainda inclui um período para os aperfeiçoamentos da profissão: a
EsAO (Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais – Rio de Janeiro/RJ) e, anos depois, a ECEME ( Escola Superior e Estado-
Maior do Exército – Rio de Janeiro/RJ). As transferências são de caráter nacional e, os destinos, na maioria das vezes,
dependem da classificação adquirida pelo oficial nesses cursos de aperfeiçoamento. Um general, por exemplo, chega a fazer
cerca de 15 transferências durante sua carreira. E nessas mudanças a família (cônjuge e filhos/as), quase sempre, o
acompanha.
Os casais afirmam que a constante mudança gera uma série de problemas para a adaptação do militar e sua família
ao novo lugar (desde o espaço da nova casa até os costumes de determinada região), mas também proporciona, segundo eles,
a possibilidade de conhecer novas pessoas e novos ambientes:
As dificuldades são próprias da parte prática, de você montar a casa, desmontar a casa. Então vai das coisas mais
simples, cortina que não dá numa janela até móveis que não cabem, configurações da casa que você não tem, o quarto
da criança que daqui a pouco você não tem mais. A casa você pega independente da sua estrutura familiar. Então é
uma casa padrão, ela tá lá, você não escolhe a casa pelas suas necessidades, você é escolhido. É aquela casa que ta
lá pra você. E tem a parte com o próprio envolvimento, adaptação com a nova cidade, novos costumes, a parte da
cultura. As crianças quando tão maiores envolve a parte de colégio, de amizades. A nossa própria convivência com os
companheiros também muda de uma cidade pra outra, o jeito que as pessoas são. Você se adapta muito várias vezes.
Você chega e quando você já está adaptado, você muda de novo. Essa que é a realidade. (Oficial)

No entanto, mesmo quando instalados no novo lugar, outros obstáculos surgem para o militar e, sobretudo, sua
família: como a dificuldade de emprego e/ou faculdade para a esposa e demais dependentes dos militares. As barreiras para
cursar uma faculdade vêem do fato de que, a cada nova mudança de região, o dependente de militar que estuda numa
faculdade e/ou universidade, corre o risco de atrasar a conclusão de seu curso, pois a transferência entre faculdades não
implica na validação total dos currículos do aluno, ou seja, se, por exemplo, um aluno que está no 5º semestre de algum curso
na UNB, ao se mudar para o Rio de Janeiro precisará voltar para o 1º semestre do mesmo curso na UNIRIO.
Com relação ao emprego podemos notar que a esposa de militar enfrenta maiores dificuldades para exercer uma
profissão. Nas várias entrevistas, tivemos que o ser “mulher de militar” já era uma condição para não serem admitidas em
empresas e indústrias, visto que não seriam um “bom investimento” já que o emprego para elas seria de certo modo
“provisório”, com uma duração de 2 a 3 anos (o equivalente ao período em que o marido estaria servindo numa instituição
militar na região). A falta de estabilidade num trabalho também não permite a ascensão na carreira, gerando “frustrações” em
algumas das esposas entrevistadas. No entanto, muitas dessas mulheres de militares pensam como alternativa a essa
dificuldade, prestar um concurso federal; não só porque é um emprego estável, mas porque tem como vantagem a
possibilidade de serem transferidas de lugar quando o marido militar tiver que mudar de cidade e/ou estado.
Trabalhando ou não, a esposa de militar, como disse a mulher de um capitão, “tem que estar sempre pensando na
carreira do marido”.
Quando a gente casa com eles [militares], a gente casa com a Força junto. E aonde tem missão, aonde eles são
designados, a gente tem que ir, não é uma opção. (Esposa de Oficial)

E no caso, a profissão militar, que é vista pelos militares como um “modo de vida”, um “sacerdócio”2, “em prol de
um bem maior”, acaba tendo um valor maior para a estruturação das suas famílias; poderíamos dizer até que a instituição
militar “engloba” a família dos militares, pois o modo como a esposa e os/as filhos/as vivem, sofre influência direta do
trabalho do marido militar.

comporta sempre uma hierarquia, onde o masculino se impõe como superior ao feminino, isto é, vemos em nossa sociedade uma dominância masculina e autores
como Bourdieu (2003) e Héritier (1989) buscam compreender o porquê dessa classificação.
2
Devido aos horários rígidos e dedicação quase que exclusiva a profissão militar.

109
A vila militar
A vila militar em Resende, que faz parte do complexo da AMAN, é composta por 580 moradias destinadas a
oficiais, praças (cabos e sargentos) e funcionários civis. As vagas na vila são condicionadas ao oficial que possui
dependentes. Há também na cidade um prédio exclusivo para homens militares solteiros, e um prédio para militares e seus
dependentes. A moradia militar é denominada PNR (Próprio Nacional Residencial).
De certo modo, notamos que a estrutura da vila reflete a hierarquia operada na Academia: há a divisão “vila dos
oficiais” e “vila dos sargentos”, cada uma composta de um clube próprio, indicando que a diferenciação por círculos
hierárquicos encontrada no ambiente de trabalho, estende-se para o ambiente de lazer e, como veremos depois, para o círculo
de amizades. As casas são padronizadas e também vão ficando maiores e mais espaçosas à medida que aumentam as
graduações dos militares, isto é, as moradias de oficiais subalternos são térreas e pequenas se comparadas às dos oficiais
superiores, que são sobrados. Essa diferença também se reflete em relação ao pagamento de aluguel: quanto maior o posto,
maior o valor pago.
Toda essa configuração da vila nos indica que as famílias de militares acabam convivendo e compartilhando mais
relações com outras famílias de mesmo círculo hierárquico do cônjuge militar, não só pela proximidade das casas, mas por
participarem das mesmas atividades sociais. E de certo modo, esse convívio acaba sendo um reflexo das relações
estabelecidas no quartel, pois não só aproxima as famílias de oficiais de mesmo circulo hierárquico e/ou Arma, como também
distancia a proximidade dessas com famílias de sargentos. Assim, temos que
O ambiente militar ele é formal, regido pela hierarquia e pela disciplina, então naturalmente existe todo um trato
de respeito entre tenentes e capitães, e capitães e majores, e majores e tenentes-coronéis. Até o general. E essa
formalidade, eu sempre falo pra minha esposa: “o ser humano é uno. Não existe o Luís* no trabalho e o Luís em casa,
é a mesma pessoa”. E essas duas vidas, a profissional e a familiar, elas se mesclam, então naturalmente os
militares trazem pra dentro de casa essa hierarquia. (Oficial)

*Nome fictício.

Assim, algumas das regras e condutas estabelecidas na instituição militar (local de trabalho) se mantêm no
ambiente doméstico e de lazer dessas pessoas, ressaltando-se, sobretudo, os valores da hierarquia e disciplina – os pilares da
instituição3.
Mais que isso, encontramos evidências de que algumas esposas civis de militares comportam-se de modo paralelo
ao cargo do marido militar, como meio de diferenciação e status simbólico perante o grupo4, ou seja, acabam reproduzindo a
hierarquia deles perante outras esposas.
Por um lado, essa “hierarquia das esposas” é vista como positiva e até “funcional” para os entrevistados: a esposa
de comandante de curso e/ou a esposa do general – comandante da Academia – assumem tarefas tais como: organizar eventos
para reunir as esposas, tratar de lembrar os aniversários das mulheres e presenteá-las com algum bem simbólico, verificar se
as esposas passam por dificuldades, enfim, acabam assumindo um papel de “representante” das esposas de militares. A
organização SASAMAN (Serviço de Assistência Social da Academia), localizada dentro da AMAN, é um bom exemplo
disso: é uma associação composta majoritariamente por mulheres de militares, coordenada pela esposa do comandante da
AMAN e voltada para ajudar famílias de militares de baixa renda da própria vila militar.
Mas, segundo os casais, a hierarquia também pode ser empregada de maneira “negativa” e isso, normalmente, é um
problema que as esposas de oficiais subalternos e/ou sargentos passam com mais frequência: há toda uma preocupação, vinda
principalmente dos maridos militares em como suas esposas devem tratar e respeitar as esposas de oficiais mais graduados.
Também soubemos de casos em que a hierarquia do militar era “passada” para os filhos/as que, em determinados contextos,
usavam a hierarquia do pai como pressuposto para poder se sentir mais importante que outra criança.

Conclusão
De acordo com os dados apresentados até agora observamos que a vida militar pode ser caracterizada como uma
vida de “risco”, com alta mobilidade geográfica, separação temporária da família, treinamentos intensivos, disciplina severa,
exposição a perigos, solidez moral e obediência profissional acima de qualquer direito ou dever pessoal (D’Araújo, 2003). E,
como podemos notar nas narrativas, estes aspectos influenciam diretamente as famílias dos militares, nos indicando que a
própria ideologia da instituição militar (caracterizada como “holista”, na qual se configura a preeminência da coletividade

3
Piero Leirner (1997) com seu estudo etnográfico no Exército Brasileiro, já apontava que o registro central na vida militar é operado pela hierarquia. Logo, ela
seria uma espécie de “fato social total”: ao mesmo tempo em que a hierarquia representa um princípio formador de identidade coletiva que estabelece uma
fronteira clara entre mundo “de dentro” (militares) e mundo “de fora” (civis), ela também estruturaria as relações internas aos próprios militares. Ela atuaria tanto
nos seus aspectos que poderiam ser rotulados de técnico profissionais (a divisão de trabalho, os salários, a divisão espacial nas organizações militares, etc.), como
nos seus aspectos cotidianos (refeição, moradia, lazer, etc.). Cabe destacar que sempre quando falamos em hierarquia estamos nos apoiando na noção trabalhada
por Louis Dumont (1992;1993).
4
A idéia de diferenciação e status simbólico vem dos estudos de Pierre Bourdieu (1989). Segundo o autor, o mundo social atua por meio de sua própria
objetividade (propriedades etc) pelo sistema simbólico que, por conseguinte, organiza-se segundo a lógica da diferença. Outro nome dessa distinção,é o que
Bourdieu chama de capital simbólico, ou melhor dizendo, de qualquer espécie de capital – econômico, cultural, simbólico etc – que contribuem para estabelecer
as posições dos agentes no espaço social segundo suas distribuições de poder.

110
sobre os indivíduos como fundamental para o bom desempenho das atividades do quartel5) condiciona a vida familiar do
militar.
A questão da importância e valorização da família presente nos discursos dos militares nos confirma isso, visto que
a formação de uma “família estruturada”, que dê estabilidade emocional e amparo ao militar, é considerada um fator positivo
e visto com “bons olhos” pelo Exército.
Sem contar que o próprio termo “família militar” utilizado pelos militares e sempre enfatizado nas entrevistas, nos
revela essa forte relação da vida militar com a vida familiar.
A “família militar” é todo mundo que tá aqui, tanto aqui dentro [quartel] quanto lá fora na vila. A gente chama “família
militar” porque acaba sendo uma grande família, que a nossa relação acaba extrapolando a relação de trabalho.
(Oficial)

Esse termo que a gente emprega no meio militar, o tal da “família militar”, ela é uma realidade. Você às vezes não tem
ligação nenhuma com as pessoas do local, entretanto, o cara recebe o apoio como de família, coisas que você faz pro
seu irmão e tal. A solidariedade é a materialização desse termo “família militar”, você chega num local, se identifica ali
“ah eu sou capitão”, pode não ter ninguém da sua turma ou quem você tenha servido mas as pessoas te oferecem suas
casas. Isso é costume, é tradicional. (Oficial)

Desse modo, a “família militar” abrange a instituição como um todo, coletivo (o Exército no caso) e revela a
identidade de grupo, caracterizada pela “união” e “forte solidariedade”. A idéia é que devido aos constantes deslocamentos
geográficos, os militares e suas famílias sempre estão distanciados de parentes “de sangue” e acabam reconhecendo seus
vizinhos (outras famílias de militares) como parentes circunstanciais. Pois essas famílias compartilham, de um modo geral, os
mesmos tipos de experiências e dificuldades e, por estarem próximas, acabam sendo solidárias umas com as outras em
diversos momentos. Logo, a “Família militar” evidencia um dos valores que são reforçados e sempre lembrados na
Academia: a importância da família como suporte para a vida. Esse sentido abrange não só a idéia da família – coletivo
militar – mas também a importância de se valorizar a sua unidade familiar (cônjuge e filhos/as).
Assim, vemos que a “família militar” apresenta características que são definidas, sobretudo, pelas normas e
condutas da instituição militar, nos sugerindo a idéia de que a família possa ser uma extensão do quartel, que se reflete na
organização da moradia, do cotidiano dessas pessoas e nas suas formas de sociabilidade. O universo da “família militar” é
marcado, de acordo com os entrevistados, por um convívio maior com famílias de mesmo circulo hierárquico do cônjuge
militar, pela reprodução da hierarquia militar entre as esposas em determinados contextos; e por certas dificuldades, quase
sempre relacionadas com as esposas, como o problema delas em dedicar-se a uma profissão, devido às frequentes
mobilidades geográficas que o oficial de carreira é submetido. No entanto, mediante essas dificuldades, há uma forte
valorização e importância da esposa e filho/as de militares através de discursos e homenagens que estes últimos prestam à
família como meio de se “desculpar” pela dedicação quase que exclusiva ao quartel. Com isso, percebemos que a vida
militar, a todo o momento, reflete nas condutas e práticas dessas famílias que, se consideram, diante de todas essas
particularidades, como “diferentes” das demais estruturas familiares.
Vale mencionar que esta é uma análise inicial dos dados, e que, posteriormente, pretendemos um melhor
aprofundamento reflexivo e teórico dessa etnografia.

Referências
BOURDIEU, P. (1989). O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.
_______.(1999). A Dominação Masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.
CARSTEN, J. (2003). After Kinship. London: Cambridge University Press.
CASTRO, C. (1990). O Espírito Militar: Um Estudo de Antropologia Social na Academia Militar das Agulhas Negras. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
_______.(1993). A origem social dos militares. Novos Estudos Cebrap, 37, 225-231.
D’ARAÚJO, M. C. (2003). Pós-modernidade, sexo e gênero nas Forças Armadas. Security and Defense Studies Review, 3(1).
http://www3.ndu.edu/chds/journal/index.htm (consultado na Internet em 12 de Setembro de 2006).
DA MATTA, R. (1997). Carnavais, Malandros e Heróis. Rio de Janeiro: Rocco.
DUMONT, L. (1992). Homo-Hierarchicus. São Paulo: Edusp.
_______. (1993). O Individualismo: uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Rio de Janeiro: Rocco.
FONSECA, C., (2007). Apresentação - de família, reprodução e parentesco: algumas considerações. Cadernos Pagu, 29 (2),
9-26.
Héritier, F. (1989). Masculino/Feminino. In Enciclopédia Einaudi, 20, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 11-26.
LEIRNER, P.C., (1997), Meia-Volta, Volver: um estudo antropológico sobre a hierarquia militar”, Rio de Janeiro:
FGV/Fapesp.
_______.(2003). Hierarquia e Individualismo: a antropologia de Louis Dumont. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
LÉVI-STRAUSS, C. (1956). A Família. In Shapiro, H. L., Homem, Cultura e Sociedade, Lisboa: Fundo de Cultura.

5
Sobre isso e sobre a construção da identidade militar, ver Castro (1990).

111
SCHNEIDER, D. (1968). American Kinship: a cultural account. New Jersey: Prentice-Hall. STRATHERN, M. (2006). O
Gênero da Dádiva: problemas com as mulheres e problemas com a sociedade na Melanésia. Tradução de André Villalobos.
Campinas, SP: Editora da Unicamp.

“Não há ideais de pais, falhamos sempre”: dilemas da parentalidade no início do


século XXI”
Cristina Marques
CIES/ISCTE
ana.c.marques@iscte.pt

Anália Torres
CIES/ISCTE
anália.torres@iscte.pt

Resumo: Com base nos resultados de entrevistas em profundidade realizadas em diferentes contextos sociais e regionais (Lisboa, Porto e
Leiria), a indivíduos com diferentes contextos sociais, a viver em casal em diferentes momentos do seu ciclo de vida, procura perceber-se as
transformações da parentalidade e dos cuidados com as crianças. Discute-se e analisa-se os significados da parentalidade para pais e mães e
as estratégias de educação das crianças das famílias portuguesas.
Implícitas a estes objectivos estão algumas questões de partida: qual a importância das crianças para homens e para mulheres? Quais são as
implicações de ter filhos na vida dos indivíduos? Qual o significado de ser-se pai/mãe? Quem toma conta das crianças? Será que a educação
das crianças tem implicações na relação do casal?
Identificou-se a existência de ambiguidades relativamente à parentalidade nos diferentes contextos sociais. Assim, por um lado, a
parentalidade é considerada como algo maravilhoso, por outro lado, homens e mulheres reconhecem as dificuldades da parentalidade: o
aumento das responsabilidades, do trabalho, das preocupações, os problemas financeiros ou na educação das crianças.
Esta ambiguidade está sedimentada num contexto de mudança nos modos de perceber os cuidados com as crianças. As narrativas apontam
para um desejo por parte dos pais de passarem mais tempo com os seus filhos, mas as práticas continuam a mostrar uma maior participação
das mães nos cuidados com as crianças.

Introdução
A parentalidade é considerada como algo de maravilhoso, sendo uma fonte de gratificação e de enaltecimento da
identidade tanto para os indivíduos como para o casal. Contudo, tanto os homens como as mulheres referem a existência de
dificuldades na parentalidade: o aumento das responsabilidades, do trabalho e das preocupações; os problemas financeiros; as
dificuldades que surgem com o crescimento das crianças… A parentalidade aparece, assim, como algo de ambíguo e cheio de
contradições.
São então os significados da parentalidade para homens e mulheres, a viver em casal, em diferentes momentos do
seu ciclo de vida e de diferentes contextos sociais, que se pretende analisar. Procurar-se-á aprofundar o sentido das
transformações que se têm vindo a sentir no domínio da família, e, mais especificamente, da parentalidade, assim como o
impacto que esta tem na vida dos indivíduos e do casal. Pretende-se, também, olhar um pouco para a organização da
parentalidade: saber quem interfere mais na educação das crianças e se esta provoca algum tipo de conflitos.
Para tal utilizam-se os dados retirados de entrevistas em profundidade, realizadas a casais com filhos, de diferentes
durações de casamento, com diferentes situações sociais e pertencentes a diferentes regiões: Porto, Leiria, Lisboa1. Estas
entrevistas enquadram-se num conjunto de trabalhos realizados sobre a conciliação entre trabalho e família, sob a orientação
da Professora Anália Torres. São estes os projectos de investigação intitulados: ‘Contextos conjugais e divisão do trabalho
entre homens e mulheres’ e ‘Trabalho, família, igualdade de género e políticas sociais’.
Numa primeira parte, começa por se olhar para o modo como a família, a criança e a paternidade e a maternidade
têm sido analisadas em diversas pesquisas, para depois se passar a reflectir sobre os resultados das entrevistas.

Os significados da parentalidade: a importância da família e a centralidade das crianças


Segundo Philip Ariés (1968, in Saraceno, 1997), a origem da família moderna, como âmbito privilegiado de
afectividade, encontra-se no processo de privatização da família, ou seja, na sua progressiva retirada do espaço e acções
públicos, levada a cabo devido à afirmação do estado moderno.
A partir da segunda metade do século XVII, nas famílias aristocráticas e, com maior incidência nas famílias
burguesas, os filhos passaram a ser o centro e o objecto de atenções precisas e de estratégias educativas, conduzindo a um

1
Foram realizadas entrevistas a 83 casais (os dois membros de cada casal, homens e mulheres) com pelo menos um filho, num total de 166 indivíduos, 72 na
Grande Lisboa, 54 no Grande Porto e 40 em Leiria, distribuídos pelas diferentes durações de casamento e pertenças sociais. Os dois membros do casal, homens e
mulheres, foram entrevistados em simultâneo, mas de forma isolada. A unidade de análise foi então o indivíduo no contexto do casal, de forma a captar
separadamente a perspectiva de homens e de mulheres face às várias dimensões e estratégias de adaptação (da) e (na) conjugalidade e sua relação com o trabalho.

112
prolongamento da infância – surge então uma idade, longa, de desenvolvimento, que deve ser regulada, protegida e
controlada.
A mãe é uma figura central deste projecto educativo, que faz os filhos ocupar um novo lugar na família e nas
estratégias familiares. “Também a maternidade, como modelo cultural e como centro da identidade social e familiar
feminina, é efectivamente um produto deste novo modelo de família dos sentimentos e da educação.” (Saraceno, 1997: p.
132). A família moderna, enquanto família de sentimentos e educação, nasce em torno das figuras da mãe e da criança,
assimétricas e interdependentes, em torno de um espaço que cada vez mais as circunscreve: o espaço doméstico – familiar.
A mulher é então identificada como mãe no sentido biológico e em termos afectivos e educativos, exprimindo,
assim, a nova atenção e responsabilidade familiar para com as crianças. Responsabilidade e actividade que “... por sua vez
especificam e circunscrevem cada vez mais tanto o papel familiar como social das mulheres nas classes burguesas.” (idem).
Todo este processo é acompanhado pelas mudanças existentes ao nível da contracepção. Assim, a primeira
revolução contraceptiva teve fortes implicações, ao conduzir a mudanças afectivas na família, com uma maior atenção pela
educação dos filhos e valorização do casal. Já a segunda revolução contraceptiva, acompanhando uma tendência prévia de
declínio de fecundidade, introduz novos significados em relação à procriação (Saraceno, 1997). Esta segunda revolução
contraceptiva, diferente por ser médica, mais eficaz, e feminina (atribuindo às mulheres o maior controlo da procriação),
transforma o facto de ter filhos numa opção, no fruto de uma vontade deliberada, através da separação que efectua entre
procriação e sexualidade. A par desta separação aparecem novos valores sobre a sexualidade, a conjugalidade, a procriação e
o lugar da criança na família, que concorrem para a tendência da diminuição da fecundidade, situada em vários países, na
tendência para as famílias de dois filhos, e para o aparecimento de novas formas parentais.
Nos últimos anos, ocorreram, em todos os países europeus, mudanças directa ou directamente relacionados com a
família, como a descida da taxa da natalidade e da nupcialidade, o aumento do divórcio, da coabitação, dos nascimentos fora
do casamento, do número de pessoas a viverem sós, da esperança de vida e da taxa de actividade feminina (Thery, 1998;
Almeida et all, 1998, 2002; Torres e all, 2006; Cunha, 2007), que vão no sentido de uma sentimentalização, privatização,
secularização e individualização das famílias, tornando os modos de viver em família mais plurais e diversos (Torres et all,
2006). Assiste-se assim a uma maior importância atribuída à dimensão afectiva, no sentido de uma maior realização e bem-
estar pessoal, no contexto familiar, assim como a uma maior igualdade entre os sexos, mas sem que a ideia de ter filhos seja
recusada (idem).
É neste contexto que, desde 1960, se tem vindo a assistir em Portugal a uma queda abrupta da fecundidade
feminina, (A. N. Almeida et all, 2002), sendo que, em 2005, a idade média das mulheres ao nascimento do primeiro filho se
situava nos 27,8 anos (INE, 2006), tendo sido de 25,05 anos, em 1960, de 24,70, em 1990 (Ferreira et all, 2006), e de 26,5,
em 2000 (INE, 2006). Tem-se assim verificado um adiamento contínuo, desde década de 90 e após um período de uma certa
estabilidade, da entrada na maternidade (Cunha, 2007).
Ora, a família moderna é “uma família intencionalmente restrita, afectiva e educadora” (Cunha, 2007). A família
contemporânea é representada como uma família afectiva, estruturada de forma a ajudar o indivíduo a construir-se através
das suas relações (Singly, 1996). Actualmente, a família tem a função de procurar consolidar a identidade dos adultos e das
crianças. O novo objectivo da educação dos pais passa a ser ajudar a revelar a identidade escondida da criança, com uma
atenção constante e com um meio ambiente estável, e a igualdade de tratamento entre crianças. O amor paternal deve ser
desinteressado, voluntário e incondicional, não podendo haver ameaça de retirada desse amor. As semelhanças entre pais e
filhos são um garante de amor parental, num contexto de amor conjugal cada vez mais incerto (idem).
É assim, que vemos surgir um “novo pacto de filiação” (Théry, 1998), traduzido por uma nova forma de
personalização e sentimentalização dos laços entre pais e filhos. A criança tornou-se, nos dias de hoje, “um bem raro e
durável, um capital, um investimento, e o imperativo da qualidade substitui-se ao valor da quantidade” (idem: p. 36). Ao
tornar-se pessoal e afectivo, o laço de afiliação torna-se também um laço incondicional. Passa a existir o dever de amar,
cuidar e proteger a criança em todas as circunstâncias (Théry, 1998).
Todavia, nos nossos dias, tende a existir uma desarticulação entre projecto conjugal e projecto parental. Tornar-se
pai/mãe é entendido como uma escolha pessoal, que não necessita mais de uma união conjugal estável (idem). Se até aos
nossos dias, na sociedade portuguesa, a ideia de ter filhos era o objectivo principal da vida em casal, actualmente,
conjugalidade e reprodução já não se sobrepõem de forma tão clara (Cunha, 2007). Passa então a existir uma dissociação
entre “sexualidade e casamento, sexualidade e procriação, casamento e fecundidade. Ter um filho deixa de ser um destino
biológico a cumprir; é antes uma escolha a fazer, entre outras possíveis, e condicionada à vontade individual” (Almeida et all,
2002: p. 379).
A importância da parentalidade na vida dos indivíduos é explicada por Beck e Beck-Gernsheim (1995) em face dos
processos de individualização. Assim, segundo os autores, num mundo de industrialização tardia as pessoas são treinadas
para se comportarem de forma racional, para serem eficientes, rápidas, disciplinadas e bem sucedidas. Uma criança
representa o oposto de todas estas características, o que faz com que esta se torne tão apelativa. A parentalidade ajuda a
redescobrir sentimentos como a paciência, o afecto, a calma ou a sensibilidade. Neste sentido, ter uma criança traz um novo
significado à vida dos indivíduos, podendo mesmo tornar-se no centro da sua existência. A criança é, então, numa fonte de
grande alegria, trazendo novos significados e objectivos à vida dos pais, fornecendo-lhes uma “âncora emocional” (Beck e
Beck-Gernsheim, 1995: p. 127).

113
Os filhos têm, assim, um lugar primordial na família contemporânea, representado para os pais, uma fonte de
gratificação pessoal (Cunha, 2007). A centralidade da criança na família contemporânea assenta na importância que esta
assume para os pais como fonte de “identidade socialmente valorizada e enquanto projecto de auto-realização (idem: p. 104).
Nas famílias portuguesas, o lugar dos filhos expressa, sobretudo, a importância que a maternidade e a paternidade detém na
construção de uma identidade social positiva para o indivíduo; na representação da criança enquanto agente fundador da
família; e na esperança de mobilidade ascendente, que é projectada na biografia dos filhos. A função afectiva da criança,
transposta no desejo de “estabelecer um laço sólido e gratificante” (idem: p. 106) é a principal razão para a vontade de ter
filhos. O laço entre pais e filhos é entendido como “ímpar, indissolúvel e recíproco: o amor único e incondicional dos pais
tem naturalmente como espelho o amor único e incondicional dos filhos” (idem).
Contudo, a parentalidade tornou-se numa tarefa que exige cada vez mais responsabilidade, o que torna a decisão de
ter filhos em algo cada vez mais difícil. Neste sentido, quanto mais os pais esperam poder dar às crianças as melhores
condições possíveis, mais estes pesam a decisão de ter filhos (Beck e Beck-Gernsheim, 1995). A criança tornou-se um foco
de esforço por parte dos pais, sendo importante corrigir o máximo de defeitos que esta possa ter e enaltecer as suas
capacidades. Os pais, especialmente a mãe, devem fazer um esforço constante para corresponder às novas exigências. O amor
maternal tornou-se algo ditado por peritos, escrito nas revistas científicas e nas revistas populares. Amar os filhos torna-se,
assim, num dever para os pais, e, sobretudo, da mãe (idem).
As expectativas são altas e os pais descobrem que nem sempre têm os recursos necessários: dinheiro, paciência,
tempo ou energia, de modo que, se é necessário corresponder às exigências impostas por se ter uma criança, estes têm que
cortar nas suas próprias necessidades, direitos e interesses, fazendo, frequentemente, sacrifícios consideráveis.
Consequentemente, existe uma maior pressão na rotina diária de quem cuida da criança, que na maioria dos casos
corresponde à mãe. No entanto, como ambos os pais sentem esta pressão, a sua relação tende a mudar. Começa então a surgir
um dilema: quanto maior esforço é colocado sobre a criança, menor é o empenho na relação conjugal. Ora, se a criança é algo
enriquecedor, que traz novos papéis para ambos os pais, existe também um mas: a possibilidade de aumento das tensões e a
falta de tempo para as resolver. Assim, na relação entre pais e filhos, como na relação conjugal, amor e tensão andam a par,
não podendo de deixar de ser vistas em conjunto (idem).
A par destas transformações da família, que vão no sentido de uma família mais relacional, várias pesquisas têm
sugerido, desde o início dos anos 80, a existência de uma forte mudança na paternidade, traduzida nas maiores expectativas
tidas relativamente a um maior envolvimento dos pais no cuidado das crianças (Wall e Arnold, 2007). Idealmente, os “novos
pais” são carinhosos, desenvolvem um relacionamento emocional próximo com os seus filhos, passam mais tempo com estes
e partilham os cuidados com as crianças com as mães (idem). Os “novos pais” são considerados tão capazes como as mães
nos cuidados a ter com as crianças.
Mas, apesar de existirem indícios de uma maior participação dos homens no cuidado com as crianças, o seu
envolvimento neste, especialmente com as crianças mais novas, é ainda uma pequena parte daquele que é efectuado pela
mãe. Os motivos apontados para este menor envolvimento dos pais nos cuidados com as crianças prende-se com questões
como as políticas sociais existentes, a cultura do mercado de trabalho, a diferença de salários entre homens e mulheres e a
persistência dos entendimentos culturais sobre a maternidade e a paternidade (que atribui ao pai o papel principal como
ganha-pão e à mãe o papel principal como cuidadora da família); havendo relações complexas entre estes diferentes factores.
As representações culturais, simultaneamente, reflectem e moldam os papéis da paternidade, jogando um papel central nas
fronteiras daquilo que é considerado como possível ou aceitável. As expectativas culturais esperam que as mães sejam as
principais cuidadoras; “uma realidade que tem ligações directas com as desigualdades de género na família e no local de
trabalho” (idem: p. 522).
Assim, num estudo sobre a participação de homens e mulheres no cuidado com os filhos, realizado a partir dos
dados do Australian Bureau of Statistics Time Use Survey, de 1997, Caig (2006) conclui as mulheres cuidam de forma mais
interactiva das suas crianças, deste modo são mais constrangidas pelos cuidados com as crianças do que os pais. Por seu
turno, os pais despendem mais tempo a brincar e a conversar com as crianças do que as mães. As tarefas em que os homens
participam tendem a ser mais divertidas. Assim, a autora conclui que o exercício da parentalidade é diferente para mães e
pais. O cuidado das crianças parece “pesar” mais sobre as mulheres do que sobre os homens. As mães tendem a ter mais
trabalho físico, um horário mais rígido e uma maior responsabilidade nos cuidados com os filhos do que os pais (idem).
No mesmo sentido, mas desta feita para Portugal, o inquérito à ocupação do tempo mostra-nos como, ao nível de
acompanhamento das crianças (de as ensinar, jogar, brincar com elas), os homens despendem algum tempo a mais por dia do
que as mulheres (INE, 2001). No entanto, são as mulheres que prestam, mais frequentemente, os cuidados regulares das
crianças (dar de comer, higiene diária, etc), o acompanhamento da vida escolar (ajuda nos trabalhos de casa, participação nas
reuniões da escola, etc.) e, embora, a um menor nível, o acompanhamento das crianças em actividades desportivas, de lazer e
entretenimento (idem).
Ora, como temos vindo a referir, nos dias de hoje, a maternidade é enquadrada por representações que privilegiam o
papel da mulher e suportam a supremacia da medicina. Deste modo, a exterioridade do homem, relativamente à
parentalidade, é reforçada, ao mesmo tempo que um maior envolvimento deste é desejado. As referências associadas aos
papéis mais tradicionais das mulheres mantêm-se, enquanto que são exigidas, a homens e mulheres, novas competências
(Castelain-Meunier, 2002).

114
As mulheres têm que lidar com modelos contraditórios, que lhes pedem para desempenhar o seu papel enquanto
mãe, ao mesmo tempo em que é também definida através de outros papéis. As instituições que lidam com a infância tendem a
privilegiar o contacto com a mãe e não com o pai. A sociedade tende a fazer coincidir os interesses da mãe com os interesses
da criança, impossibilitando desta forma a existência de uma maior partilha dos deveres educacionais à volta da criança. Se o
lugar da mãe é definido naturalmente, tal não acontece com o lugar do pai (idem).
Actualmente, espera-se que os pais participem mais no quotidiano das crianças, que estejam mais presentes, que
sejam mais flexíveis. A paternidade é redefinida de acordo com o tipo de ligação que o pai tem com a criança, sendo uma
função complexa e ambivalente. Assim, se por um lado a paternidade é definida pela sua exterioridade relativamente ao laço
existente entre mãe e filho, por outro é construída através da relação construída entre pais e filhos; embora as mulheres
participem cada vez mais no mercado de trabalho, é ainda frequente que o homem seja considerado como o principal
responsável pelos rendimentos da família; o papel tradicional do pai não é definido pela sua referência com a esfera privada,
mas a maior parte da interacção familiar é lá que acontece; a importância do desenvolvimento de uma consciência paterna
ganha uma nova dimensão numa sociedade que dá ainda pouca atenção aos pais (Castelain-Meunier, 2002). Contudo, tal
como acontece para a maternidade, também entre os homens existem “diferentes representações e atitudes perante a
paternidade” (Mendes, 2007: p. 9), que variam em função da posição social dos indivíduos.

Parentalidade: práticas e representações


A parentalidade é algo desejado por homens e mulheres, mas cheio de dificuldades e ambivalências. Ao longo da
análise procurar-se-á mostrar como ter filhos é, de facto, algo desejado pela maior parte dos entrevistados. A parentalidade é
considerada como algo de maravilhoso, algo com que os indivíduos sempre sonharam. No entanto, tanto os homens como as
mulheres reconhecem as “dificuldades” que a parentalidade impõe: as responsabilidades, os maiores gastos ao nível
financeiro; as preocupações, o aumento de trabalho, os problemas que podem vir do crescimento das crianças…
Pretende-se ainda salientar que, embora pareça haver realmente um incremento da participação dos pais nos
cuidados das crianças, na prática, a mãe continua a interferir mais na educação das crianças. Neste sentido, se homens e
mulheres tendem a valorizar a parentalidade de igual forma, os entrevistados continuam ainda a atribuir à mulher o papel
principal enquanto educara das crianças – “mãe é mãe”.
A partir dos dados obtidos através das entrevistas construiu-se uma tipologia, onde constam 3 modelos principais
de viver a parentalidade para os entrevistados. São eles: o modelo autoritário, o modelo maternalista e o modelo relacional.
O modelo autoritário caracteriza-se por ser o mais tradicionalista, podendo mesmo traduzir uma divisão sexual
tradicional do trabalho doméstico, ficando elas em casa a tomar conta dos filhos, enquanto eles trabalho no exterior para
prover a família. Neste contexto, os homens tendem a ser mais autoritários, são eles que impõem as regras, é a eles que os
filhos têm mais respeito. Já que elas tendem a mimar mais os seus filhos, não conseguindo impor a mesma autoridade que o
pai.
O modelo maternalista remete para a grande importância que a mãe tem no cuidado com os filhos, entre estes
casais. Neste grupo, ambos os indivíduos trabalham, mas elas tendem a estar mais disponíveis para cuidar das crianças.
Acredita-se, também, que elas têm uma maior sensibilidade para esta tarefa. Estes casais procuram transmitir valores aos seus
filhos, mas também acompanhá-los, orientá-los, ajudá-los.
Finalmente, no modelo relacional os casais tendem a partilhar a educação dos filhos e as decisões são tomadas a
dois. Procura-se acima de tudo encaminhar os filhos, dotá-los de ferramentas, para que estes se transformem em adultos
autónomos e independentes; para que sejam seres humanos com valores. Os pais tentam dar o exemplo aos filhos e
proporcionar-lhes as melhores condições, mas são eles que escolhem o seu caminho.

Parentalidades: entre o desejo e a realidade


Como foi referido anteriormente, ter filhos é algo que faz parte dos projectos de vida dos indivíduos. Na
generalidade, os entrevistados referem que já tinham a ideia de ter filhos antes de casar. Ter filhos constituía um sonho,
mesmo o objectivo do casamento; era algo pelo que ansiavam. O desejo de constituir família, e de procriar, está assim muito
patente nos discursos femininos e masculinos, não sendo um objectivo exclusivo das mulheres.
“Uma coisa que eu sempre disse é que só me realizava depois de ter um filho, era uma coisa que eu sempre sonhei em
ter. Por isso quando me casei engravidei praticamente depois de um ano de casada, porque não queria estar muito
tempo à espera, tinha aquela necessidade de ter um filho [...]”(Carolina Arroteia, 33 anos, contabilista, técnica oficial
de contas, Leiria)

Consistente com este desejo de ter filhos, é a ideia patente na maioria dos homens e mulheres quando lhes
perguntamos o que foi para eles ter filhos, visto que a maioria refere que ter filhos foi uma alegria, uma coisa maravilhosa,
uma enorme felicidade, algo de muito importante, chegando a ser referido como uma “bênção de Deus”. A centralidade da
criança na família e a ideia de realização que esta traz para os pais (Beck e Beck-Gernsheim, 1995; Théry, 1998; A. N.
Almeida, 2003; A. N. Almeida, 2003; A. N. Almeida et all, 2004; Mendes, 2007; Cunha, 2007) está assim patente no

115
discurso dos entrevistados: “O filho nasceu e foi a melhor coisa que podiam dar a mim e a ela também.” (Patrício Oliveira,
62 anos, serralheiro mecânico naval, Lisboa).
A ideia de ter filhos é, frequentemente, considerada como um prolongamento do casal, uma continuidade. Isto é,
como um processo natural da vida, associado à ideia de constituir família e deixar descendência.
É neste âmbito, e no quadro de uma perspectiva mais tradicional da parentalidade, que muitos dos entrevistados,
sobretudo os operários e os indivíduos com mais de 20 anos de duração de casamento, das diferentes regiões do país, referem
que concebem primeiro o casamento e depois o ter filhos/que não teriam filhos se não fossem casados. Ter filhos decorre,
assim, da vida conjunta; é uma consequência do desejo de constituir família. Os indivíduos mais qualificados de Lisboa e
Leiria, com mais de 20 anos de duração de casamento, referem-se ainda ao facto de ter filhos como um processo natural da
vida. Ora, se actualmente os indivíduos não necessitam estar casados para ter filhos (Beck e Beck-Gernsheim, 1995; Théry,
1998; A. N. Almeida et all, 2002, 2004; A. N. Almeida, 2003; Cunha, 2007), para uma parte significativa dos entrevistados
ter filhos apenas faz sentido dentro do quadro de uma relação conjugal, o que vai de encontro aos resultados encontrados
noutras pesquisas (Phoenix e Wollett; 1991; Marshall, 1991; Monteiro, 2005; Almeida et all, 2004).
“A ideia de ser pai e a ideia de ter filhos, eu sempre pensei que é o culminar de todo o homem e de toda a mulher que
pensa um dia constituir família.” (Pascoal Ramos, 39 anos, motorista matérias perigosas, Porto)

“Só pensei em ter filhos depois de casar. O meu curso de vida é o ideal que eu sempre pensei: casar, para ter um tempo
sem filhos, depois tive filhos, tive os 3 como queria, pronto, até ver estou realizada.” (Olga Amaro, 34 anos, doméstica,
Leiria)

Contudo, existem também entrevistados, para quem a parentalidade não surge associada à conjugalidade. São,
sobretudo, mulheres que referem que não se importariam de serem mães/pais solteiras. Para estas mulheres, que adoptam
uma visão mais moderna da parentalidade, a ideia da maternidade está muito presente. Elas queriam ter filhos mesmo não
casando, como se pode ver pelo exemplo de Raquel: "Para mim ter um filho, era uma coisa muito importante, porque eu
quer casasse, quer não, eu sempre disse que queria ter um filho, mesmo que fosse mãe solteira." (Raquel, 32 anos,
professora 1º ciclo, Lisboa).
Ora, mas se a maioria dos entrevistados deseja de facto ter filhos, existem alguns entrevistados, embora
minoritários, sobretudo entre as profissionais técnicas e de enquadramento, com menos de 20 anos de duração de casamento,
das várias regiões, que não pensavam na ideia de ter filhos ou que só começaram a pensar em ter filhos a partir de
determinado momento da vida (a partir de certa idade, após se terem casado). É o receio de ter filhos, a ideia de que não é
fácil criar uma criança nos nossos dias ou de que o mundo de hoje não é o melhor, não só para as crianças, mas para os
indivíduos no geral, que faz estas mulheres recusar, ainda que não definitivamente, a ideia da parentalidade. No discurso
destas mulheres está presente a ideia da responsabilidade, especialmente para as mulheres, que é ter filhos nos dias de hoje
(Beck e Beck-Gernsheim, 1995). Assim, como refere Monteiro (2005: p. 91), a experiência de ser mãe é, actualmente, “um
processo altamente desafiante e exigente, que nem todas as mulheres encaram com facilidade, sem receios, nem como um
“mar de rosas””.
“Até aos meus 28, 30 anos, eu tinha uma ideia assim um bocadinho negativa em relação a ter filhos. Aquelas questões
existencialistas: pôr mais gente neste mundo para quê? […] Durante quase toda a minha juventude dizia a pés juntos
que não, que não queria.” (Márcia Barbosa, 34 anos, directora técnica lar 3ª idade, Leiria)

“Eu tinha um pavor incrível de engravidar. Sempre tive medo, eu tinha mesmo receio, eu acho que ter filhos não é uma
coisa fácil. E depois eu tinha uma sensação que eu não tinha muito jeito para crianças, tinha algumas dúvidas, portanto,
nunca foi assim uma coisa que eu…” (Paula Antunes, 29 anos, advogada, Lisboa)

Alguns entrevistados, especialmente os operários e os profissionais técnicos e de enquadramento, da região de


Lisboa, com menos de 10 anos de duração de casamento, e os indivíduos mais qualificados, do Porto e de Lisboa, entre os 10
e os 20 anos de duração de casamento, pensavam também na responsabilidade que seria ter filhos ou consideram que a ideia
de ter filhos não corresponde à realidade de os ter;
“Achava giro, mas não tinha nenhuma correspondência com a realidade. Queria ter um filho para ir ao futebol, para ir
andar de bicicleta, agora penso em coisas mais palpáveis, como a educação a segurança, etc.” (Francisco Abrantes, 36
anos, professor universitário e consultor, Lisboa)

Até ao momento vimos como a parentalidade faz parte dos planos da maior parte dos nossos entrevistados. O
desejo de ter filhos é algo que está patente no seu discurso. Quando estes surgem de facto, os nossos entrevistados referem,
geralmente, a grande alegria que sentiram. Contudo, o nascimento dos filhos acarreta também, para a maioria dos indivíduos,
uma alteração da sua vida pessoal e conjugal. Neste sentido, Théry (1998) refere que com o nascimento do primeiro filho, a
mulher muda a sua identidade, o casal amoroso dissolve-se no casal parental e o seu destino funde-se no destino comum da
família. Assim, os indivíduos solteiros podem antecipar o início de uma relação conjugal, mas os indivíduos que vivem já em
conjugalidade tendem também a sentir profundas transformações.
Deste modo, é referido, especialmente entre os operários e entre os entrevistados com mais de 20 anos de duração
de casamento, das diferentes regiões do país, que os filhos unem mais o casal, que dão mais sentido ao casamento, que
trazem mais harmonia à relação, que mudam a vida do casal para melhor, ajudando-o a superar “certas zangas”; constituem,

116
assim, uma “prenda” para o casal. Neste sentido, casamento e maternidade surgem como complementares, com uma relação
de interdependência funcional (Monteiro, 2005).
“É bom. Porque é assim um filho ajuda a muita coisa num casamento, ajuda a superar certas zangas talvez que haja
dentro de um casamento. Porque é assim a gente chega a uma altura, só o homem e só a mulher parece que a vida não
tem sentido, a casa é oca, não... Agora é assim, vem uma criança há aquele barulho, há o movimento, há aquela
atenção para ela [...].”(Carina Barros, 27 anos, auxiliar enfermagem, Leiria)

Os profissionais técnicos e de enquadramento falam nas alterações da parentalidade, já não para o casal, mas a nível
individual. O nascimento dos filhos é, então, considerado como uma experiência enriquecedora, uma alavanca para a vida,
um estado de graça, alteração maravilhosa: “Opá, eu vi o nascimento e tudo dela, eu acho que caímos um bocado em estado
de graça. […] há ali quase como que um milagre, não é?” (Frederico Rodrigues, 30 anos, escriturário cartório, Leiria).
Entre as mulheres mais jovens e mais qualificadas, de Lisboa, é ainda referido que a parentalidade acarreta uma
mudança em termos de personalidade. Como dizem Beck e Beck-Gernsheim (1995), a parentalidade parece então ajudar a
redescobrir sentimentos, como a paciência ou a sensibilidade, que parecem alterar a identidade destas mulheres. Neste
sentido, elas consideram que ficam menos egoístas, mais maduras, mais responsáveis; como nos diz Paula Antunes, mais
“afectuosas”.
“Tornei-me muito mais afectuosa com as crianças, com a minha mãe, com as mães em geral, eu acho que nós nos
modificamos muito, eu acho que a partir da maternidade, aí é que eu acho que há uma mudança na nossa vida, mais do
que do casamento, eu acho que a maternidade nos dá uma perspectiva, e o tal amadurecimento, a tal experiência, o tal
evoluir e crescer.” (Paula Antunes, 29 anos, advogada, Lisboa)

Existem também entrevistados, embora em menor número, que fazem referência à maior participação do cônjuge
nas tarefas domésticas. Com o nascimento da criança e o aumento do trabalho, o homem vê-se assim na obrigação de
“ajudar” mais na realização das tarefas domésticas; existe a necessidade de uma reorganização no seio do casal.
“Na relação há menos disponibilidade, mas também não sei se é menos se é uma disponibilidade diferente, acho que é
diferente. A organização do tempo é que outra. O meu marido passou a cozinhar, ele já cozinhava de vez em quando,
mas agora é sempre ele que faz o jantar. Mudámos um bocadinho a organização, naturalmente, mas tinha que
acontecer, porque tínhamos que nos organizar.” (Teresa, 32 anos, gestora de contactos, Lisboa)

Mas se estas mudanças remetem para aspectos mais positivos das alterações provocadas pela parentalidade, outras
há que apontam as perdas que a parentalidade acarreta. Assim, é referida a falta de tempo que os filhos vêm trazer quer para o
próprio indivíduo, quer para o casal. Considera-se, na generalidade, que existe um “roubo” à relação, no sentido em que o
filho passa a ser o centro das atenções, ficando o marido em segundo plano. A relação entre os cônjuges sofre então um certo
afastamento. Deste modo, como indicam Beck e Beck-Gernsheim (1995), pode existir um aumento das tensões entre o casal
e a falta de tempo para as resolver.
“Nós não temos aquela intimidade, aquele espaço só dos dois, temos que compartilhar com os filhos, e depois durante
a noite, nos primeiros anos, temos que nos levantar muitas vezes. Claro que a relação entre marido e mulher vai-se
afastando um bocadinho, por isso é que devia haver mais tempo...” (Olga Amaro, 34 anos, doméstica, Leiria)

É também frequente existir uma mudança nas rotinas, uma alteração do ritmo de vida e/ou uma reorganização da
vida em casal. A existência da criança tende a implicar uma certa falta de liberdade de acção. Existe menos disponibilidade
para os amigos, para as saídas, para as actividades que se gosta de fazer. Fica-se com uma vida mais “presa”: “Claro que
modifica muito a nossa vida. Tanto a nível de responsabilidades, obrigações, prisões…representa isso tudo. É a maior
mudança na nossa vida é o nascimento de um filho.” (Joaquim Machado, 38 anos, profissional de seguros, Lisboa). Até
porque a existência de um filho implica maiores responsabilidades, mais preocupações, maiores cuidados, mais trabalho e
cansaço, e uma maior necessidade de pensar no futuro.
“Tivemos que lidar com responsabilidades e preocupações que nunca mais acabam e nas quais nem nunca tínhamos
pensado. […] Estamos permanentemente a olhar, a ver se podemos antecipar problemas que podem surgir… As coisas
são complicadas…” (Alberto Correia, 41anos, empresário, director e sócio de uma leiloaria automóvel, Porto)

Entre os operários, mas também entre alguns profissionais técnicos e de enquadramento, é ainda referido o aumento
das despesas que os filhos implicam e, por vezes, a dificuldade em fazer face aos problemas económicos: “Uma pessoa
aperta-se um bocadinho, não é? Porque a gente não estamos habituados, são um bocado mais de despesas” (Manuel
Carvalho, 35 anos, operário, Leiria).
O nascimento dos filhos pode também trazer alterações no modo como o casal articula o trabalho com a família. O
nascimento dos filhos, com a alteração de hábitos que, geralmente, acarreta, pode levar ao sacrifício de um ou dos dois
elementos do casal. O casal Abreu, do Porto, é um bom exemplo da dificuldade que pode existir na articulação da vida
familiar com a vida profissional. Alfredo Abreu, professor universitário, confessa que a sua vida académica ficou um pouco
prejudicada pelo nascimento da sua filha, na medida em que o levou a decidir não ir para o estrangeiro tirar o doutoramento.
Por seu turno, Lurdes Abreu, educadora de infância, fala das muitas coisas de que teve de abdicar para que o marido pudesse
seguir a sua carreira académica e para poder estar com a filha, já que esta estava pouco tempo com o pai.

117
"A nossa filha modificou completamente a nossa relação. Obrigou-nos a alterar hábitos. Estivemos durante 6 anos sem
filhos e passeávamos por tudo quanto era sítio, mesmo por fora do país, e a partir daí, com a minha filha, eu próprio me
sujeitei a não ir para o estrangeiro fazer o meu doutoramento porque a minha filha tinha 2 anos e meio, portanto, não
quis condicionar a minha família à minha vida académica. E nesse aspecto a minha vida académica foi um pouco
prejudicada pela família, sobretudo pelo nascimento da filha.” (Alfredo Abreu, 56 anos, professos universitário
(doutorado), porto)

“Claro que sim, quem teve que abdicar de fazer muitas coisas que gostava de fazer e estudar muito mais tarde para
fazer uma licenciatura fui eu, porque o Alfredo fez o curso dele, entretanto foi convidado como assistente para ir para a
faculdade, entrou no processo de doutoramento (...) por isso quem teve que.. que abdicar de muitas coisas fui eu...,
porque achava que ela não tinha pai durante o dia inteiro e à noite também não, não podia ser. (Lurdes Abreu, 52 anos,
educadora de infância, porto)

Da realização às dificuldades: os significados e as práticas da parentalidade


Como referimos anteriormente, a parentalidade é, nos dias de hoje, considerada como uma fonte de realização
pessoal (Beck e Beck-Gernsheim,1995; Cunha, 2007). Ser-se mãe e pai faz parte da identidade dos entrevistados, é algo que
se deseja profundamente; com que eles sempre sonharam. Contudo, como foi referido, a parentalidade acarreta algumas
alterações, com implicações que se podem traduzir numa perda na vida dos indivíduos, como a falta de tempo que os filhos
podem representar na relação, para os outros e para si.
Mas, o resultado de outras pesquisas mostra como ser-se mãe é considerado como algo de muito importante para as
mulheres, independentemente da sua idade, escolaridade ou profissão (Almeida et all, 2004; Monteiro; 2005; Cunha, 2007).
A maternidade começa a fazer parte do “universo feminino de representações numa etapa em que as jovens ensaiam os
primeiros namoros ou fazem escolhas escolares decisivas em matéria de futuro profissional” (Almeida et all, 2004: p. 182).
Contudo, esta é encarada como uma escolha e uma decisão, a concretizar após reunidas certas condições de vida. A
maternidade é ainda considerada como algo que transforma a mulher, tornando-a mais madura e responsável; uma
experiência de tal maneira única, que, frequentemente, não há palavras para a descrever. Esta pode implicar a existência de
um vínculo afectivo único e diferente de todos os outros; permite compreender a experiência das suas próprias mãe e dar-lhes
o valor que merecem (A. N. Almeida et all, 2004).
Também para os homens a paternidade é considerada como algo importante. Mendes (2007), no seu estudo sobre as
vivências da paternidade, refere que ser pai tende a representar um aumento de responsabilidade, com implicações na postura
perante o trabalho (traduzida em mais ou menos horas de trabalho). Ser um pai perfeito está associado à presença junto à
criança, embora alguns entrevistados indiquem o facto de não existirem pais perfeitos. A paternidade leva a um aumento os
contactos com a família de origem e o fortalecimento da relação entre o casal. Actualmente, o nascimento dos filhos implica
geralmente uma maior participação dos pais nos cuidados com os filhos, o que denota um certo esbatimento nos papéis
tradicionais de género. No entanto, as instituições públicas relacionadas com as crianças (creches, infantários, colégios,
centros de saúde, hospitais…) procuram, sobretudo, as mães como interlocutores privilegiados.
Os resultados encontrados entre os entrevistados estão em consonância com as pesquisas mencionadas. No geral,
para os indivíduos, homens e mulheres, ter filhos é considerado algo de maravilhoso, a melhor coisa da vida, uma felicidade,
algo que não tem explicação. Mas são também mencionadas as dificuldades da parentalidade, ser pai/mãe é considerado algo
difícil e que implica preocupações um aumento de responsabilidade; a percepção das dificuldades da parentalidade parece ser
maior com o aumento da duração de casamento. Ser pai e mãe é também acompanhar os filhos, apoiar, transmitir valores,
dar-lhes ferramentas para crescerem.
Veja-se mais em pormenor, voltando agora a atenção para os resultados obtidos, tendo em conta as diferentes
durações de casamento, e, no interior de cada uma, as diferenças de classe e de região.

Menos de 10 anos de casamento: quando os filhos ainda são pequenos


No caso das mulheres operárias com menos de 10 anos de conjugalidade, sobretudo, do Porto e de Leiria, a
maternidade é de tal forma valorizada, que as entrevistadas dizem que é difícil explicar o que é ser-se mãe, só quem passa
pela situação é que consegue perceber: “É uma coisa que não dá para explicar ser mãe, é uma alegria, é, é uma coisa assim
que nos preenche a nós, percebes?” (Estela Ferreira, 31 anos, operária fabril, desempregada, Porto).
Em algumas destas mulheres está presente o sentimento de não querer que os filhos passem pelas mesmas
dificuldades económicas que estas passaram: “Gostava que a minha filha não passasse por nada daquilo que eu passei, por
isso (...) tento tudo por tudo para ela não passar nem metade das dificuldades que eu passei.” (Maria Martins, 25 anos,
empregada doméstica, Porto).
No caso dos homens operários, está também patente a grande importância dos filhos que os filhos têm na sua vida.
Estes pais dizem sentir um orgulho imenso nos seus filhos, para eles o seu nascimento foi acompanhado de uma enorme
felicidade. Por eles procura fazer-se o máximo possível, ajudá-los em tudo o que se possa: “Sinto-me orgulhoso de ser pai...
e ando a mostrar a minha filha a toda a gente, mostrar que tenho uma filha. E tentar levar tudo o melhor possível. Fazer
aquilo que possa.” (João Martins, 33 anos, montador de ar condicionado, Porto)

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Embora, sejam as mulheres que, no geral, tenham a educação dos filhos a seu cargo, entre os operários do Porto,
mas também de Lisboa, salienta-se o respeito que os filhos têm à figura paterna. Enquanto que elas falam e os filhos não
ligam, quando o pai fala estes obedecem de imediato, visto que a mãe dá mais mimos. Neste contexto, a parentalidade tende a
ser exercida de forma mais tradicional, sendo a figura do pai mais autoritária: “A minha filha tem mais respeito a mim. Ela
está mais habituada a lidar com a mãe, está mais tempo com ela e quando a mãe lhe diz alguma coisa, ela leva para a
brincadeira, começa-se a rir... E se eu falo já não... já sente mais e porta-se melhor”. (João Martins, 33 anos, montador ar
condicionado, Porto).
Mas no geral, eles tendem a ajudar a cuidar dos filhos, podendo olhar por eles, ou mesmo dar-lhes banho e vesti-
los, como é referido pelos indivíduos residentes em Leiria e em Lisboa.
“Eu tento fazer a mesma coisa que a minha mulher faz. Não tenho problema nenhum, eu sempre mudei as fraldas aos
miúdos, dar banhos, os miúdos tomam banho comigo, quando estou em casa. […] Hoje em dia tanto o homem como a
mulher trabalham.” (Manuel Carvalho, 35 anos, operário, Leiria)

A educação dos filhos tende a levar à existência de alguns conflitos (mais ou menos frequentes; com maior ou
menor intensidade), devido à existência de práticas contraditórias e de desacordos. O facto de haver perspectivas diferentes
pode também gerar conflitos ou desacordo, mas os cônjuges tentam não discutir à frente dos filhos ou procuram conversar
noutra altura. Quando não existe contradição/desautorização à frente das crianças, mas um diálogo entre os cônjuges, parece
não existir conflitos: “Não, porque quando ela está a dar uma ordem, por muito que eu ache que não é correcta, eu não me
intrometo entre a mãe e o filho.” (Marco Ferreira, 34 anos, motorista, Porto).
Entre as mulheres empregadas executantes, as profissionais técnicos e de enquadramento, mas também entre as
mulheres empresárias, dirigentes e profissionais liberais, a transmissão de valores, a educação transmitida, a orientação e o
ensino dados aos filhos são aspectos centrais do seu papel como mães. As mulheres técnicas e de enquadramento, sobretudo,
as de Lisboa, fazem ainda referência a uma certa transformação da personalidade, as mulheres tornam-se mais sensíveis, mais
tolerantes, passando, em alguns casos, a valorizar mais as suas mães. Estas mulheres referem-se frequentemente a uma
inversão de prioridades, que coloca os filhos em primeiro lugar nas suas vidas.
Mas as dificuldades da maternidade são também salientadas por estas mulheres, nomeadamente pelas residentes na
região de Lisboa. Neste sentido, embora a maternidade seja descrita como algo de maravilhoso, de que se gosta muito, é
ainda percebida como sendo uma tarefa muito complexa, mesmo assustadora, que implica uma grande responsabilidade e
uma preocupação constante com os filhos. Transparece a ideia de que não é fácil educar os filhos nos dias de hoje.
Já para os homens, destes sectores socioprofissionais, ser pai é educar, transmitir valores; criar instrumentos para os
filhos conseguirem sobreviver, ser um modelo que os filhos possam seguir: “É assim, para mim ser pai é saber dar
educação, é ajudar nos momentos que um filho precise.” (Henrique Barros, 30 anos, motorista CTT expresso, Leiria); “É
transmitir-lhe os mesmos valores que o meu pai lhe transmitiu. É estar permanentemente a ser chamado” (Alexandre
Gomes, 33 anos, técnico empresarial, Porto).
Entre os profissionais técnicos e de enquadramento é ainda referido que a paternidade é uma coisa natural,
inevitável, que faz parte da vida, dando-lhe sentido, como podemos ver pelo exemplo de César Lourenço:
“Ser pai é algo de natural. Nós nascemos uns homens e outros mulheres e a natureza, o que espera de nós, é que
encontremos o par igual, formemos família, sejamos pais ou mães... e penso que só isso é que dá significado à vida. De
resto, a vida pouco mais tem para nos oferecer. Não são os carros, o dinheiro ou as casas que nos preenchem. E vê-se.
As pessoas de mais idade dizem que o melhor da vida são os filhos e os netos. É isso que nos preenche o coração.”
(César Lourenço, 40 anos, engenheiro informático, analista de sistemas, Porto)

Assim, não só a maternidade é percebida como algo natural e instintivo, como tem sido referido por vários autores
(Miller, 2007), como a parentalidade no geral. Apesar de, actualmente, serem cada vez mais do domínio da escolha, o
parentesco e a procriação, foram, até recentemente, pensados, na cultura ocidental, como pertencentes ao domínio do
biológico, da natureza, representando, por conseguinte algo de imutável ou intrínseco às pessoas (Stathern, 1991). Esta
representação da parentalidade permanece então presente no discurso de alguns entrevistados.
Os homens, sobretudo os profissionais técnicos e de enquadramento, da região de Lisboa, salientam também as
dificuldades e ambivalências da paternidade. Neste sentido, fala-se na simultaneamente em realização e na responsabilidade
que é ser-se pai; na procura de ser-se um bom pai, o que nem sempre se consegue; no espírito de protecção que se tem pelos
filhos e no medo de falhar: “Ser pai é uma carga de trabalhos, física e psicológica. Não há descanso. Preocupo-me muito
com ela.” (Daniel Fernandes, 31 anos, professor, Lisboa); “Sinto que ser pai é esse balanço imenso de sentimentos bons,
sentimentos maus, de apreensões” (Diogo Amaral, 28 anos, professor universitário e investigador, Lisboa).
Nos casais mais qualificados, especialmente entre os profissionais técnicos e de enquadramento, de Leiria e de
Lisboa, mantém-se a tendência para ser a mãe a interferir mais na educação dos filhos, no entanto, passam a existir mais
casais que partilham a educação das suas crianças, embora esta interferência possa ser feita de forma diferente ou mais numas
áreas do que noutras. Neste sentido, o casal procura conversar a dois sobre as decisões a tomar, respeitar as decisões do outro;
tendo uma representação mais relacional da parentalidade.
“Os dois igual. Tanto que nós dividimos os trabalhos de casa, ele explica umas disciplinas, eu explico outras
disciplinas. Eu ralho mais, ele ralha menos, mas quando ele levanta a voz as meninas baixam mais do que…, mas em

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termos de poder em relação, ou de elas acatarem mais um ou outro estamos iguais.” (Célia Henriques, 31 anos,
estudante, Leiria, 2 filhas)

Eles podem assumir e/ou ajudar em tarefas como o dar de comer, dar banho, mudar a fralda, deitar os filhos, levá-
los e buscá-los da escola: “relativamente à minha filha divido as tarefas, dou de comer, dou-lhe banho, deito-a, etc.”
(Francisco Abrantes, 36 anos, professor universitário e consultor).
Em Leiria e em Lisboa, faz-se também referência à importância dos avós na educação dos filhos: “a minha sogra
ficou com os meus filhos. Com a minha filha até aos dois anos e meio, depois coloquei-a num infantário; e o meu filho até
aos 3 anos e meio e foi para a pré o ano passado” (Carolina Arroteia, 33 anos, contabilista, Leiria).
Tal como acontece para os operários, nos casais executantes, nos empresários, dirigentes e profissionais liberais e
dirigentes e nos técnicos e de enquadramento as práticas contraditórias e a existência de discordâncias, no que se refere à
educação das crianças, levam à existência de alguns conflitos. Mais uma vez se verifica que o facto de haver perspectivas
diferentes pode gerar conflitos ou desacordo, mas os cônjuges procuram não discutir à frente dos filhos, conversando noutra
altura. Deste modo, o diálogo entre os cônjuges tende a impedir a existência de conflitos.
Nestes sectores sociais, alguns homens fazem também referência à existência de (pequenos) conflitos, mas estes
podem ser desvalorizados, na medida em que os indivíduos se referem a eles como coisas supérfluas, que existem de vez em
quando, que são pontuais. Estes conflitos são originados também pelas diferenças de opinião, mas podem ser pensados como
normais no casal.
É ainda de sublinhar o exemplo de Leonor Fernandes, que mostra como a sobrecarga feminina no mundo da casa
pode levar a conflitos no seio do casal. Embora ela compreenda que o esforço do cônjuge no trabalho seja para o bem da
família, acaba por ser ela a ter que abdicar dos seus projectos pessoais, neste caso da sua tese.
“Quando estamos os dois, sou eu que estou muito mais tempo com ela porque o Daniel está a fazer estágio, está
sempre muito mais embrenhado, lá está, ele está a fazer o estágio, ele tem um ano para fazer o estágio, ele tem que
acabar, é uma questão profissional, eu tenho a minha tese para fazer, mas eu é que abdico.” (Leonor Fernandes, 33
anos, professora, Lisboa)

Entre os 10 e os 20 anos: aumenta a idade, aumentam as dificuldades – a parentalidade nem sempre é fácil!
Neste grupo de duração de casamento começam a sentir-se mais “as dificuldades” da parentalidade. Mas, tal como
no grupo de duração de casamento anterior, a parentalidade é fonte de alegria e de realização pessoal. Para elas ser mãe é
algo muito bom, podendo mesmo ser considerada a melhor coisa da vida, a mais maravilhosa do mundo.
Os aspectos positivos da parentalidade são transversais aos vários sectores sociais. Assim também para os homens e
para as mulheres operárias ser pai e ser mãe é algo muito bom, a melhor coisa da vida, que implica um sentimento de grande
felicidade. Pelos filhos tem-se um imenso orgulho: “Estou sempre a pensar na minha filha. Estou sempre a pedir a Deus,
nosso Senhor que olhe por ela, pelos meninos. Gosto muito dela. Gostei muito de ser mãe” (Daniela Palmeira, 45 anos,
empregada doméstica, Lisboa).
Mas tal como aconteceu para os operários mais jovens, estes pais preocupam-se que os filhos não passem pelas
mesmas dificuldades pelas quais eles passaram, procurando educar as crianças da melhor forma. Neste sentido, apesar das
alegrias da parentalidade, esta pode também ser vista como um encargo financeiro para os pais: “É muito bom, adorei ser
mãe Quer dizer, é um encargo que a gente tem, não é? Mas de resto acho que é bom ser mãe...” (Inês Alves, 38 anos,
empregada doméstica, Porto). Com a parentalidade vêm então um ganho em termos afectivos, mas, também, maiores
despesas, mais responsabilidades e mais problemas. De tal modo que, em Leiria, existem mulheres que afirmam não existir
“escolas de mães”, cometendo-se sempre muitos erros.
“Não há escolas de mães. Nós cometemos muitos erros, nunca ninguém nos ensinou a mãe tem que ser assim, o pai
tem que ser assim, tem que fazer desta maneira, tem que fazer daquela. Como também não há um ideal de filhos, cada
qual é como é. Não sei, isto é uma coisa que é complicado ser mãe, mas não há preparação para isto. Ainda tentam às
vezes dar uns cursos ou outros, mas não se aprende mais, aprende-se com a com a vida, com a experiência da vida.”
(Júlia Jesus, 44 anos, doméstica, Leiria)

Embora a educação dos filhos esteja, na maior parte dos casos, a cargo das mães, entre os operários do Porto, as
mães tendem a intervir mais na parte emocional, são mais tolerantes. Os desabafos, as confidências dos filhos (já
adolescentes) são sempre com as mães, ao passo que os pais estão "mais em cima dos filhos", são mais rígidos, impõem o
respeito, ditam as regras. Assim, como acontece nos operários do Porto com menos de 10 anos de duração de casamento,
voltamos a encontrar uma figura paterna autoritária, entre os entrevistados residentes nesta região.
Eu, por norma, sou mais rígido na educação. As mães, por norma, têm a tendência de tolerar, tolerar, tolerar, e isso faz
com que muitas das vezes eles não respeitem tanto a mãe como o pai. Mas eu sou bastante duro na educação… duro e
responsável, no sentido de, quando há algo que está errado, eu chamar-lhes à atenção. (Diniz Gouveia, 42 anos,
corticeiro, Porto)

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Mas eles podem dar algum apoio no cuidado dos filhos, especialmente olhando por eles caso seja necessário. O
nascimento dos filhos pode também ter levado estes homens a participar mais na realização das tarefas domésticas, pelo
menos enquanto as crianças eram pequenas, como podemos ver pelo exemplo de Diniz Gouveia.
“[A realização das tarefas domésticas] Foram mudando. E eu reconheço que foram mudando devido à situação dos
filhos, devido à situação da profissão… foram mudando bastante. Por exemplo, quando casei, nos primeiros 3 anos,
não fazia nada. A partir do momento em que tive filhos, comecei a ajudar basicamente em tudo, naquilo que sei. E isso
continua. Desde que nasceu o segundo, as coisas começaram a ser insuportáveis só para uma pessoa… Há mais louça,
há mais roupa, então comecei a fazer.” (Diniz Gouveia, 42 anos, corticeiro, Porto)

No geral, entre os casais operário, deste grupo de duração de casamento, é comum fazerem-se referências aos
pequenos conflitos, às diferenças de opinião. Todavia estes aborrecimentos com a educação das crianças são entendidos
como normais, crê-se que existe um acordo nas questões fundamentais, existindo apenas algumas discordâncias no dia a dia,
em aspectos pensados como mais supérfluos. Nota-se no discurso dos entrevistados uma normalização dos conflitos, muito
presente também entre os profissionais técnicos e de enquadramento.
“Ai, isso é normal. Eu acho que é. Há sempre qualquer coisa que um não concorda e que o outro acaba por cair na
tentação de fazer. Acho que isso é normal que aconteça de vez em quando essas coisas. A menos que um se abstenha,
porque é mesmo de todo impossível as pessoas estarem sempre completamente de acordo. Aliás nem acho nada bem
que isso aconteça, isso nem é concordar, não pode ser, é só abster-se” (Júlia Jesus, 44 anos, doméstica, Leiria)

Entre as mulheres operárias do Porto fala-se mais na existência de alguns conflitos, fruto das diferenças dentro do
casal quanto aos métodos de educação. Neste sentido, é referido que o pai é mais duro, os filhos têm-lhe um maior receio; por
sua vez, este pode culpabilizar a mãe pelas acções dos filhos.
“Às vezes. É sempre aquela coisa, prontos, eles fazem uma asneira e o pai ralha, o pai diz e a mãe mete-se, portanto,
quando há qualquer coisa com os filhos aqui em casa o pai diz que a culpa que é da mãe porque a mãe dá-lhe sempre
mais mimos, portanto eles são muito mais agarrados a mim do que a ele.” (Inês Alves, 38 anos, empregada doméstica,
Porto)

Entre as mulheres empregadas executantes, empresárias dirigentes e profissionais liberais e as técnicas e de


enquadramento a transmissão de valores, a educação, a orientação que se tenta dar aos filhos fazem parte do seu papel
enquanto mães. Para estas mulheres a tarefa principal da maternidade é educar os filhos, “educá-los para a vida”, fazer com
que estes se tornam em seres humanos com valores, respeitadores e com capacidade para lutarem.
“A minha tarefa principal como mãe e a minha preocupação fundamental como mãe é educar, saber educar e saber
educá-los para a vida. Principalmente educar, transmitir-lhes valores, transmitir-lhes as ferramentas, digamos, para eles
viverem, para serem uns bons seres humanos, mais do que dar, mais do que a parte material. Essa parte normalmente
não me preocupa, preocupa-me mais transmitir-lhes os valores e prepará-los.” (Natália Cunha, 38 anos, médica
dentista, Leiria)

Para estas mulheres, especialmente para as residentes na região de Lisboa, tal como acontecia para as mulheres
mais jovens, o nascimento dos filhos pode implicar uma mudança na personalidade, que as faz sentir mais tolerantes, mais
sensíveis, e que as levas a valorizar mais as suas mães. No geral, estas mulheres dizem que há uma inversão de prioridades,
passando os filhos a estar em primeiro lugar: “Ser mãe é a principal actividade, que gosto mesmo. É deixar de pensar em si
mesma para passar a pensar noutro ser vivo. Até aí era egocêntrica e egoísta e com a maternidade deixei de ser” (Rosa
Pereira, 35 anos, técnica superior 2ª classe, Lisboa).
As profissionais técnicas e de enquadramento, de Leiria e de Lisboa, referem-se à maternidade como sendo um
sentimento de tal forma grandioso que se torna difícil de explicar. Nas palavras de Eva ser mãe é então: “deixar de pensar
nela própria, ou seja os filhos estão sempre em primeiro lugar independentemente do que aconteça...É o gostar assim sem
querer nada em troca. É um sentimento tão forte, tão forte que é difícil de explicar…” (Eva, 31 anos, psicóloga, Lisboa).
No entanto, existem algumas mães, profissionais técnicas e de enquadramento, sobretudo entre as residentes na
região do Porto e de Leiria, que, apesar de considerarem a maternidade como algo muito bom, não estão dispostas a fazer
tudo pelos filhos. Neste sentido, a maternidade pode mesmo ser sentida como uma tarefa complicada e cansativa. Em Leiria,
fala-se ainda da não existência de mães ideais: os contextos e as pessoas mudam, havendo sempre lugar para dúvidas. Como
nos diz Adriana Neves:
“Hoje acho que a gente ao longo dos anos, ao longo do crescimento deles vamos mudando as nossas atitudes todos os
dias, a toda a hora, aquilo que hoje achamos mau, amanhã já achamos bem. Consoante o contexto, a situação, o
ambiente que nos rodeia vamos mudando, isso é mesmo complicado […]. Os garotos são diferentes, o tempo passa e a
gente acaba por ir acompanhando as coisas, tem que ser assim.” (Adriana Neves, 42 anos, enfermeira, Leiria)

Estas dificuldades e ambivalências da parentalidade estão, também, muito presentes nos discursos dos homens
empresários, dirigentes e profissionais liberais, especialmente nos residentes do Porto. Para eles ser pai é, simultaneamente,
uma alegria e uma responsabilidade; uma tarefa que nem sempre é fácil! Para estes homens a paternidade corresponde a um
aumento das responsabilidades e das preocupações. Os pais devem procurar reunir condições para dar uma vida melhor aos
filhos, procurar o melhor para estes, fazê-los felizes, defendê-los.

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“Isso é uma pergunta muito complicada, nomeadamente, hoje em dia. Ser pai, eu acho que é uma coisa muito difícil.
As pessoas normalmente pensam e dizem que ser pai é uma coisa fácil, eu acho que não. Porque, nos dias de hoje, é
muito difícil conseguir conciliar toda a informação que chega aos nossos filhos vinda de todas as partes e mais
algumas, sobretudo das novas tecnologias... e eles, cada vez, parece que nascem com mais conhecimentos. E é muito
difícil conseguirmos acompanhar toda esta avalancha de informação que eles têm. […]. Porque nós cada vez mais
estamos embrenhados no nosso trabalho, chegamos a casa sem paciência, porque temos a nossa vida do dia-a-dia
extremamente complicada, e depois os filhos requerem muita atenção. Portanto, ser pai é extremamente complicado...”
(Ricardo Almeida, 43 anos, patrão pequena empresa calçado, Porto).

Entre os casais destes sectores sociais, especialmente entre os profissionais técnicos e de enquadramento, há uma
maior tendência para que a interferência na educação dos filhos seja igualitária, ou para que um dos indivíduos interfira mais
numa área do que em outra, mas de forma equilibrada: “Tanto a mãe como o pai, tentamos dar o nosso melhor para
solucionar certos e determinados problemas aos filhos.” (José Salvador, 37 anos, sócio gerente stand automóvel, Lisboa).
No entanto podem existir situações em que os filhos confidenciam mais com a mãe ou em que esta tem mais disponibilidade
para eles. A mãe pode então estar mais presente ou abdicar mais da sua actividade profissional em prole da família.
“Tentamos os dois, mas talvez eu acompanhe mais. Tenho mais tempo ou quer dizer eu procuro sacrificar um bocado a
minha vida profissional para poder acompanhar… a parte da escola, de poder acompanhá-las na parte da saúde, levá-
las ao médico, passear com elas, conhecer coisas bonitas do Porto. Eu procuro ser cumpridora no horário, fazer o meu
trabalho naquele horário e depois acho que chega porque eu prefiro ter outras coisas e ir para casa porque acho que é
importante acompanhar ou os estudos ou o que elas precisam ou procurar que elas também não estejam tanto tempo
sozinhas, portanto eu acho que nisso eu abdiquei mais em função da família do que ele e portanto interferi mais porque
no fundo acabo por ter uma certa liberdade…” (Matilde Santos, 46 anos, chefe dep. Actividades culturais museu,
Porto)

Assim, na prática, os pais tendem a participar no cuidado com os filhos, ajudando a vesti-los, preparando as suas
refeições, levando os filhos à escola, dando-lhes banho, deitando-os filhos, passando tempo com eles.
“Sou eu que acordo os miúdos, que os visto, que lhes dou o pequeno-almoço e levo à carrinha. Faço bastante. Depois a
minha mulher vai buscá-los à carrinha. Vamos com eles à natação. Depois a minha mulher faz o jantar, eu dou-lhes
banho. Damos de comer a eles. Depois deitamo-los. Acabamos por estar muito interligados nas tarefas” (Pedro Pereira,
36 anos, empresário, Lisboa)

Em Leiria, existe uma referência aos avós no cuidado dos filhos. Estes podem, por exemplo, ficar com os netos ou
ir levá-los/buscá-los à escola: “Quem os vai buscar [à escola] são sempre os meus pais e trazem-nos para casa até um de
nós chegar.” (Adriana Neves, 42 anos, enfermeira, Leiria).
Nestes sectores sociais os conflitos relativos à educação das crianças são, mais uma vez, originados,
principalmente, pela existência de perspectivas diferentes. Geralmente um dos elementos do casal é mais rígido e o outro
mais brando. Contudo, o facto de conversarem ajuda a ultrapassar a situação, a chegar a um acordo.
Tal como acontece nos casais operários, entre os indivíduos destes sectores sociais, verifica-se uma certa
normalização dos desentendimentos. Mais uma vez se afirma que existem algumas diferenças de opinião, sobretudo em
questões mais superficiais, visto que nas questões mais importantes o casal tende a estar de acordo: “Pode haver,
eventualmente. Eu também acho que isso nem sempre é negativo. Nós estamos de acordo nas questões fundamentais, agora
nas situações do dia-a-dia há sempre olhares e opiniões diferentes. É normal.” (Filipe Melo, 41 anos, sócio gerente,
empresa, Porto).
Mas os conflitos nem sem sempre são os mesmos ao longo do ciclo de vida…Exemplo das dinâmicas da
parentalidade e de como esta tem pode ter fortes influências na relação conjugal, é o caso de Susana. Embora, actualmente,
não existam conflitos com o cônjuge sobre esta matéria, a adolescência da filha gerou fortes desacordos, o que levou a um
certo afastamento entre ambos.
“A educação da Sara quando ela entrou na adolescência gerou muitos conflitos foi terrível mesmo, porque houve falhas
das 3 partes, de mim, dele e da Sara, mesmo eu com o meu marido afastamo-nos muito. … o papel dele foi um bocado
a partir de hoje tu é que és mãe, tu é que dás as ordens, e as responsabilidades são tuas[…]. Criou-se um afastamento
entre mim e ele e especialmente entre a Sara e ele. Acho que só desde que ela se casou, que faz agora 3 anos, é que
acho que talvez que as coisas melhoraram.” (Susana, 45 anos, funcionária administrativa câmara, Lisboa)

Mais de 20 anos: olhando para trás


Entre os entrevistados com mais de 20 anos de conjugalidade, o discurso remete muitas vezes para o passado. Os
filhos são agora adultos e aquilo que se diz reflecte, frequentemente, as lembranças de quando estes eram ainda crianças.
Para os casais operários do tempo da conformação ou da realização pessoal, a parentalidade é algo de muito
importante, significando, sobretudo, acompanhar, apoiar e compreender os filhos, assim como transmitir-lhes valores: “Foi
bom, foi, é diferente ser mãe, é muito diferente e depois transmitir aos filhos, também me dizem as minhas filhas que eu sou
mãe galinha (risos), eu sou mesmo” (Rita Pontes, 56 anos, empregada doméstica, Lisboa).

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As dificuldades ou responsabilidade que a paternidade implica é também sublinhada pelos operários, das mesmas
regiões: “Ora bem, ser pai... Antigamente era mais fácil! (risos) Agora é um bocado difícil, porque os jovens de hoje são
totalmente diferentes da minha descendência.” (Pascoal Ramos, 39 anos, motorista matérias perigosas, Porto). Todavia,
para a generalidade destes homens, ser-se pai é uma felicidade enorme, que influencia positivamente o relacionamento entre
o casal: “É uma coisa boa, é o segredo da nossa relação” (Augusto Lopes, 53 anos, motorista da carris, Lisboa).
Na prática, os discursos dos casais operários dão conta de uma maior assunção por parte da mãe na educação das
crianças: “Era eu. Apesar de não saber ler nem escrever, como passava mais tempo em casa do que o pai.... Era eu que dizia
como é que as coisas eram.” (Elsa Oliveira, 60 anos, empregada doméstica, Lisboa). No Porto, podia mesmo existir uma
divisão mais tradicional da parentalidade, traduzida no facto de ser o homem que traz o dinheiro para casa e a mulher quem
cuida dos filhos.
“Os filhos passavam o dia comigo porque nem que fossem para a escola, eu ia leva-los, ia busca-los e o pai saía de
manhã para o trabalho e vinha à noite, só à noite é que o pai estava ali presente mais eles, conviviam mais com a mãe.
Não sei se é essa a palavra de interferir, porque ele dava a coisa dele diferente, trazia o dinheirinho para casa, para a
educação deles, para os livros, para comer, para vestir...” (Aurora Monteiro, 56 anos, costureira, Porto)

No entanto, entre os operários, existem casais, especialmente dos residentes em Lisboa, em que a educação dos
filhos é partilhada pelos dois membros do casal, procurando haver um respeito pela decisão do outro, embora em alguns
aspectos um dos dois elementos do casal possa interferir um pouco mais: “A nível educacional é igual. A nível de contacto
mais directo é a minha mulher. A mãe, como elas são mulheres, aceita mais as possíveis coisas que elas necessitam. Mas a
nível educacional é igual.” (Afonso Pontes, 56 anos, serralheiro mecânico, Lisboa).
Mas a educação dos filhos pode gerar alguns conflitos, devido a pontos de vista diferentes: “Há sempre uma troca
de palavras mais... azeda, mas... faz parte. De resto, não. Acho que os dois conjugamos bem... a situação” (Pascoal Ramos,
39 anos, motorista de matérias perigosas, Porto). Mas também frequente é os casais referirem que não há quaisquer conflitos
neste domínio, na medida em que possíveis desacordos são resolvidos através do diálogo, em privado, entre os cônjuges e do
respeito pela posição do outro em frente dos filhos: “Não, nunca... Cada um tem a sua função aqui em casa e se nós
soubermos isso e soubermos ouvir-nos uns aos outros, penso que não...” (Leonel Monteiro, serralheiro mecânico, Porto).
Como referido anteriormente, existem alguns entrevistados, sobretudo da região do Porto, que mencionam a
existência de mudanças ao nível dos conflitos. Considera-se então que estes mudam ao longo do ciclo de vida, por motivos
diferentes, estando geralmente relacionados com as etapas do crescimento das crianças, e, neste caso, mais especificamente
com os namoros e a escola dos filhos (mostrando mais uma vez que a vida em família é dinâmica, pelo que os modos de
articulação entre trabalho e família também devem ser pensados como não sendo estáticos).
“Não, eu acho que não, mas já tivemos. Já tivemos por causa da minha filha… porque quando ela começou a namorar,
surgiu problemas, não é? e depois ela não gostava que eu lhe dissesse e ela andou aí muito tempo sem falar para mim e
tudo, depois o pai não gostava que lhe dissesse nada.” (Filomena Fontes, 47 anos, empregada doméstica, Porto)

Ora, mais uma vez fica claro que a existência de conflitos se deve, sobretudo, à existência de pontos de vista
diferentes. Contudo, é frequente considerar estas situações como normais, sendo sublinhada, por vários entrevistados, a
importância de não existir uma desautorização do outro em frente dos filhos. Podem, no entanto, existir casos de conflito
mais aberto em face das diferenças nos modos de educação.
Tal como acontece no caso dos operários, para os casais de empregados executantes, de empresários, dirigentes e
profissionais liberais e de profissionais técnicos e de enquadramento a parentalidade é algo que traz aos indivíduos ganhos
identitários significativos: “É óptimo, é uma coisa maravilhosa, acho que é uma das coisas melhores que há é ser mãe.”
(Angelina, 59 anos, assistente administrativa alfândega, Porto); “Além da felicidade que trouxeram e do bom motivo para
unir a família, foi uma boa dádiva, um bom acontecimento” (Armérnio Franquinho, 59 anos, acessor da direcção regional
de educação do Norte, Porto).
Contudo, as profissionais técnicas e de enquadramento fazem, frequentemente, referência às responsabilidades que
a maternidade impõe. Neste sentido, as mães dizem que ter filhos é algo que exige muita responsabilidade e entrega,
constituindo uma preocupação constante, que pode mesmo gerar ansiedade. As ambivalências da parentalidade estão muito
patentes no discurso destas mulheres, quando falam em simultâneo no amor incomensurável que se tem pelos filhos ou na
maternidade como um estado de graça, para logo depois se fazer referência às dificuldades e sofrimento que esta implica:
“Ser mãe, de uma forma completa, é muito difícil. Em 1º lugar há o amor incomensurável aos filhos e depois há como
que querer protegê-los ao máximo, mas é uma inquietação porque sei que não sou capaz. É toda uma entrega e é ao
mesmo tempo uma ansiedade” (Isabel Ventura, 60 anos, professora ensino básico, Lisboa).

Contudo, nem todas as mulheres empregadas executantes, empresárias, dirigentes e profissionais liberais e
profissionais técnicas e de enquadramento consideram que devem fazer tudo aos filhos, procurando antes ter algum tempo de
qualidade, como se pode ver pelo exemplo de Manuela Veríssimo.
“Eu para mim ser mãe é ter um bom relacionamento com elas, tentar perceber. Pronto, não ser uma mãe disponível
para tudo, ou seja, não ser aquela mãe criada, isso nunca. Mas ser uma mãe que partilha as coisas e que percebe o que é
que se passa, que consegue conversar, sabe quem são as filhas.” (Manuela Veríssimo, 43 anos, proprietária empresa
unipessoal área da engenharia assistida por computadores, Leiria)

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Entre as mulheres de Leiria, sobretudo entre as empregadas executantes, embora sejam casos mais isolados, existe
alguma menção às “falhas” ou aos “arrependimentos” da maternidade: é o não saber impor regras ou o não ter ensinado
determinadas coisas aos filhos que actualmente se consideram importantes.
“Olhe, eu digo-lhe uma coisa: eu sou má mãe. Sou má mãe porque faço as vontades todas aos meus filhos, todas, todas,
todas e acho que isso não é ser uma boa mãe. […] Olhe, eu acho que o ser boa mãe seria: primeiro ter feito sentir aos
meus filhos que a vida não era fácil. Eu privei-me sempre de tudo para lhes dar a eles. […] Ter-lhe-ia obrigado a
aprenderem a fazer de tudo: desde pôr a mesa, a fazer a cama, a arrumar o quarto e não sei o quê…” (Emília Freire, 54
anos, bancária, Leiria)

No caso dos homens, nomeadamente entre os profissionais técnicos e de enquadramento e os empresários,


dirigentes e profissionais liberais, residentes em Lisboa e Porto, nota-se uma forte referência aos aspectos positivos da
parentalidade. Estes homens dizem adorar os seus filhos, consideram-nos a melhor coisa do mundo, uma enorme felicidade,
algo muito importante para si. Neste sentido dar o exemplo aos filhos é algo importante da sua função enquanto pais.
“Construir… sem dúvida! É dar um exemplo da vida que eles poderão ter um dia mais tarde. Não quero que eles me
copiem, mas pretendo ser um bocadinho a reportagem para a vida deles. Da experiência da minha vida eles que retirem
o que quiserem. Acho que é importante eles descobrirem-se a si próprios e serem autónomos relativamente a mim. E
eu tento dar-lhes as noções de vida básica para que eles possam evoluir, possam escolher. É claro que eu gosto de dar a
minha opinião, se eles quiserem ouvir, se não quiserem, eu respeito as decisões deles.” (Paulo Ribeiro, 43 anos,
arquitecto paisagista e empresário, Lisboa)

Contudo, as dificuldades e as responsabilidades da parentalidade são bastante sublinhadas pelos homens destes
sectores sociais.
“É complicado... É complicadíssimo. No fundo, é uma coisa nova todos os dias, não é? Todos os dias a gente pensa
numa coisa diferente. Todos os dias a gente depara-se com uma situação diferente. […] Eu acho que ser pai é assim...,
é uma caixinha de surpresas todos os dias, para além duma responsabilidade como é óbvio. Uma pessoa pensar no dia
de hoje, no dia de amanhã... e estar a pensar já a médio e a longo prazo...” (Nuno Marques, 47 anos, gerente comercial
e sócio imobiliária, Porto)

Tal como acontece para as mulheres, os homens de Leiria sublinham que não existem pais ideais. Procura-se antes
fazer o melhor dentro dos condicionamentos socioeconómicos e culturais existentes.
“Não faço a menor ideia do que é ser o ideal de pai. Acho que, acho que cada um tenta fazer, dentro daquilo que é o
seu mundo cultural, o seu mundo cívico, cada um tenta aquilo que julga que é melhor para os filhos, para os filhos e
para o conjunto da família. Para mim ter sido ou ser um bom pai é permitir que as minhas filhas possam estudar, que
sejam pessoas, que do ponto de vista cívico sejam responsáveis e interventivas.” (Óscar Veríssimo, 47 anos, técnico
superior de economia, Leiria)

Também nos casais destes sectores sociais ficou patente que foram as mães quem mais interferiu na educação dos
filhos, na medida em que era considerado que estas tinham mais tempo disponível, como se pode ver pelo exemplo de Isabel
Ventura.
“O meu marido estava fora a semana toda, como ele trabalhava fora só vinha ao fim de semana. Por isso eu acabei por
ser mais interventiva na educação do que ele, embora nós conversássemos sobre isso. O papel dele era mais de dar
conselhos e as conversas… no dia a dia era sempre eu.” (Isabel Ventura, 60 anos, professora ensino básico, Lisboa)

Todavia, para algumas profissionais técnicas e de enquadramento, da região do Porto, o pai surge como uma figura
mais respeitada, com quem os filhos conversavam mais, de modo que estes são considerados como os principais responsáveis
pela educação dos filhos: “Acho elas lhe têm mais respeito talvez porque eu lhes facilite mais a vida, e ele não, torna-as mais
responsáveis percebe? E portanto acho que interfere um bocado mais nesses aspectos.” (Angelina, 59 anos, assistente
administrativa alfândega, Porto). Já em Leiria e em Lisboa existem referências ao grande apoio dos pais no que diz respeito
à educação escolar e às actividades dos filhos: “Em termos dos trabalhos da escola era sempre o pai que ajudava e
acompanhava, mas isso tinha a ver com o facto de ele ter mais tempo” (Teresa Caixinha, 48 anos, contabilista, Lisboa).
Contudo, sobretudo entre os profissionais técnicos e de enquadramento e os empresários, dirigentes e profissionais
liberais, residentes em Lisboa e em Leiria, parece existir uma partilha quanto à educação das crianças. Procura-se assim
educar a dois, conversar a dois sobre as decisões a tomar, respeitar as decisões do outro, embora um possa interferir mais
num aspecto e outro noutro.
Com o nascimento dos filhos, era comum que os homens destes sectores sociais (empregados executantes,
empresários, dirigentes e profissionais liberais e profissionais técnicos e de enquadramento) participassem mais na realização
das tarefas domésticas, chegando, em alguns casos, a dividir os cuidados com os filhos. Neste sentido, eles tomavam conta
das crianças, davam banho, mudavam as fraldas, davam as refeições, adormeciam as crianças…
“O meu marido foi um pai presente em tudo, porque de muito pequenino ele ajudou-me. Eu trabalhava e ele ajudava-
me, levantava-se e ia fazer o biberão, do meu filho mais velho, enquanto eu mudava a fralda e não sei quê. Depois
nasceu o outro, este tinha dois anos e nove meses, ele começou a tratar de um e eu a tratar doutro.” (Emília Freire, 54
anos, bancária, Leiria).

124
Em Lisboa e em Leiria existem ainda referências ao apoio da avó materna no cuidado com as crianças, como se
pode ver pelo exemplo de Deolinda Pires.
“Enquanto elas eram pequeninas tirava-as da cama, embrulhava-as num cobertor e ia-as deitar ao pé da minha mãe, o
meu pai ia trabalhar e elas ficavam na cama com a avó, depois quando começaram a ir para a escola, eu deixava-as na
escola e à hora de almoço a minha mãe ia lá buscá-las, dava-lhes o almoço ia-lhes lá levar e depois às 3 horas ia as lá
buscar e vinha para casa, quando elas ficavam no ATL, eu ia lá buscá-las às seis horas quando vinha para casa.”
(Deolinda Pires, 45 anos, administrativa, Leiria)

Tal como acontecia para os casais operários deste grupo de duração de casamento, também entre os indivíduos
destes sectores sociais a existência de conflitos no casal relativos à educação dos filhos, deve-se sobretudo à existência de
pontos de vista diferentes: “Tivemos alguns aborrecimentos, não muitos. Porque isto é assim, na vida de casado tem sempre
alguns contratempos, não é tudo rosas, e se não houver, então é porque alguma coisa está mal” (Victor Freire, 59 anos,
bancário, Leiria). No entanto, para a maior parte dos entrevistados destes sectores sociais, as situações de desacordo ou de
existência de alguns aborrecimentos são percebidas como normais. Quando existe um respeito pelo outro, no sentido de uma
não desautorização à frente dos filhos, de uma conversa posterior em particular os conflitos tendem a desaparecer dos
discursos dos entrevistados: “Nunca houve grandes aborrecimentos sobre isso. As coisas eram bastante conversadas”
(Margarida pestana, 48 anos, professora de música, Lisboa). Verifica-se ainda que a existência de conflitos ou o que os
origina não é igual ao longo do ciclo de vida do casal, mudando com as etapas de crescimento das crianças, sendo que a
adolescência tende a ser o período mais complicado.

Ideias finais
O desejo de ter filhos está presente para homens e para mulheres, o que vai ao encontro do resultado de várias
pesquisas que mostram a centralidade da parentalidade nos dias de hoje (Beck e Beck-Gernsheim, 1995; Théry, 1998; A. N.
Almeida, 2003; Cunha, 2007). Os filhos parecem ser de extrema importância para os indivíduos. Estes são as coisas mais
importantes do mundo, o que de mais maravilhoso se tem, uma continuação do eu e/ou do casal.
Mas o nascimento dos filhos implica uma alteração de rotinas, um aumento de responsabilidades, uma diminuição
do tempo do casal um para o outro, podendo levar a tensões no casal e a que o cônjuge seja remetido para segundo plano. Ao
nível do trabalho as mulheres, menos qualificadas entre as profissionais técnicas e de enquadramento, podem ter que fazer
um desinvestimento momentâneo na carreira. Ficam em “stand-by” (Torres, 2004; Torres e Moura, 2004), com a perspectiva
de mais tarde ter disponibilidade para retomar o investimento na carreira.
A existência de dificuldades na parentalidade, como o aumento das preocupações, dos medos ou das
responsabilidades, remetem para um sentimento de ambivalência patente no discurso de vários entrevistados. Assim, se por
um lado os filhos são muito valorizados, por outro lado os entrevistados não deixam de fazer referência às dificuldades do
que é ser-se pai ou mãe nos dias de hoje.
Como nos indicam várias pesquisas (Beck e Beck-Gernsheim, 1995; Ine, 2001; Castelain-Meunier, 2002; Monteiro,
2005; Craig, 2006; Wall e Arnold 2007; Cunha, 2005, 2007), existe hoje em dia um discurso que remete para a valorização
de uma maior participação do pai nos cuidados com as crianças, que se pode traduzir em parte, entre os pais entrevistados, no
maior desejo de passar mais tempo com os seus filhos e no maior cuidado que estes lhes prestam.
No entanto, a educação dos filhos está então, de um modo geral, a cargo das mães, na medida em que se considera
que estas têm maior disponibilidade, que os filhos "precisam mais da mãe” e/ou que estas têm uma relação mais próxima com
os filhos e anterior à que estes têm com o pai. As mães tendem a ser pensadas como pessoas mais presentes, mais
preocupadas, com maior capacidade de entrega e de amor; com maior sensibilidade maior. Parece então manter-se uma
“hiper-responsabilização” (Torres, 2004) da mulher pelos filhos. A maternidade aparece como uma questão central para a
vida das mulheres, na medida em que parece implicar uma associação destas à casa. O facto de lhes ser atribuída a
responsabilidade pelo cuidado dos filhos pequenos, questão que é fortemente naturalizada, parece levar a que estas estejam
mais disponíveis para a casa.
Contudo, para alguns dos entrevistados, os filhos têm um maior respeito ao pai, a quem obedecem mais depressa do
que à mãe; sendo que esta mima mais as crianças. Existem, também, entrevistados que referem que ambos interferem na
educação dos filhos, mesmo que interfiram de formas diferentes ou em áreas diferentes. Neste sentido, o casal procura
partilha a educação dos filhos: procura de educar a dois, de conversar a dois sobre as decisões a tomar, de respeitar as
decisões do outro. Está patente uma atitude mais relacional no que diz respeito. Há ainda algumas referências há importância
dos avós na educação dos filhos.
Quanto aos conflitos que advém da educação dos filhos, verificou-se que mais do que diferentes perspectivas em
termos de valores ou princípios de educação a causa dos aborrecimentos referida por uma larga maioria dos casais prende-se
com o desacordo entre os pais em frente aos filhos - a desautorização do outro. Neste sentido, deve transparecer uma imagem
de coerência entre os pais.
Nota-se ainda uma diferença substancial nos discursos dos casais à medida que avançamos no tempo. Ou seja, se os
casais casados à menos de 10 anos referem a ocorrência de conflitos dos desacordos (são diferentes perspectivas ou formas
de agir - é ainda uma fase de acertos e convergências) e de uma forma mais empolgada, já os mais velhos e com uma história

125
conjugal mais longa, parecem desvalorizar o desacordo (é normal entre os casais), e mostram uma postura mais conciliadora,
madura e concertada sobre estas matérias.
Relativamente à parentalidade foram criados três modelos que nos dão conta das posições dos entrevistados perante
o exercício da maternidade e da paternidade e dos seus significados. Assim, temos o modelo autoritário, caracterizado por ser
o mais tradicionalista, podendo mesmo traduzir uma divisão sexual tradicional do trabalho doméstico, ficando elas em casa a
tomar conta dos filhos, enquanto eles trabalho no exterior para prover a família. Neste contexto, os homens tendem a ser mais
autoritários, são eles que impõem as regras, é a eles que os filhos têm mais respeito. Já que elas tendem a mimar mais os seus
filhos, não conseguindo impor a mesma autoridade que o pai; os indivíduos que pertencem a este modelo são uma minoria
entre os entrevistados, estando presente, sobretudo, entre os indivíduos com mais de 20 anos de duração de casamento,
operários, residentes na região do Porto, mas também em Leiria.
Por seu turno, o modelo maternalista remete para a grande importância que a mãe tem no cuidado com os filhos,
entre estes casais. Neste grupo, ambos os indivíduos trabalham, mas elas tendem a estar mais disponíveis para cuidar das
crianças. Acredita-se, também, que elas têm uma maior sensibilidade para esta tarefa. Estes casais procuram transmitir
valores aos seus filhos, mas também acompanhá-los, orientá-los, ajudá-los. Os maternalistas correspondem à maior parte dos
entrevistados, distribuindo-se pelas diferentes regiões, durações de casamento e classes sociais.
Por fim, no modelo relacional os casais tendem a partilhar a educação dos filhos e as decisões são tomadas a dois.
Procura-se acima de tudo encaminhar os filhos, dotá-los de ferramentas, para que estes se transformem em adultos
autónomos e independentes; para que sejam seres humanos com valores. Os pais tentam dar o exemplo aos filhos e
proporcionar-lhes as melhores condições, mas são eles que escolhem o seu caminho. Os relacionais são essencialmente os
indivíduos mais qualificados, embora existam entre alguns operários, residentes em Leiria e Lisboa; apesar de serem mais do
que os autoritários, não constituem, contudo, a maior parte dos indivíduos.

Bibliografia
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of fatherhood”, Gender & Society, Vol. 21, N.º 4, pp. 508-527

126
El camino hacia el empoderamiento político de las mujeres
Mª Amparo Novo Vázque
Universidad de Oviedo
anovo@uniovi.es

Resumen: Nos vamos a referir al empoderamiento político como un proceso que va más allá del número de mujeres que acceden a puestos
de toma de decisión, en el caso que nos ocupa, gobiernos y parlamentos. Empoderarse significa además, que las mujeres sean conscientes de
sus capacidades, habilidades y competencias para influir en el ámbito político. En esta comunicación se comienza presentando la situación
actual y las tendencias de la presencia de la mujer en parlamentos a nivel internacional y nacional y autonómicos (España). En concreto, se
estudia el caso del Principado de Asturias en donde además de comprobar, el considerable incremento del número de mujeres en el gobierno
y parlamento, nos detenemos en dos aspectos problemáticos para la consecución del empoderamiento femenino. Por un lado, la dificultad
tanto estructural como emocional que sobrellevan las mujeres para poder compaginar la actividad política, debido a “la triple jornada
laboral” lo que limita, la igualdad de acceso a este mundo y, por otro, la influencia negativa que los estereotipos ejercen sobre las mujeres a
la hora de participar en la vida política, lo que modera el proceso de autopercepción, autoestima y competencia en el desempeño de su rol
político.
De este modo se presume que ambos planteamientos explicarán de alguna forma el fenómeno de avance lento en el proceso de
empoderamiento de las mujeres. Y, para ello, empleamos una doble estrategia de investigación cuantitativa y cualitativa (grupos de
discusión).

I. Situación actual y tendencias de la presencia política de mujeres en puestos de toma de decisión


Si observamos los países que cuentan con mayor número de mujeres en los parlamentos nacionales, España se sitúa
en el puesto décimo del mundo con un 36,3%, por detrás de Rwanda, Suecia y Cuba, países que encabezan la lista1. Por lo
que respecta a las Cámaras Autonómicas, la importancia relativa de las mujeres, dentro del conjunto de parlamentarios
autonómicos en España, representa un porcentaje global próximo al 40%. Teniendo presentes estos datos, y los que se van a
exponer a continuación, se puede afirmar que en la actualidad las mujeres han incrementado su presencia en los parlamentos
como no se podría imaginar hace tan sólo una década.
Los datos que recoge la tabla 1 corresponden al porcentaje de mujeres en los sucesivos gobiernos españoles desde
1977 y a través de los mismos se puede observar una clara evolución positiva en cuanto a la participación de la mujer en la
esfera de poder, llegando a nuestros días a la paridad en el gobierno. Por otro lado, el gráfico 1 hace referencia a la
comparación entre dicho porcentaje y el de la representación femenina en los distintos gobiernos autonómicos asturianos a
través de las diferentes legislaturas. Así, la presencia relativa de mujeres en los gobiernos del Principado ha sido siempre
superior a la observada para los gobiernos de Madrid, con la excepción de la legislatura (2004-08), en la cual se aprecia una
paridad entre mujeres y hombres en el ejecutivo nacional presidido por Rodríguez Zapatero, mientras que en el asturiano el
porcentaje de mujeres se mantiene estabilizado en torno al 36’36%.

Tabla 1: Presencia femenina en los sucesivos gobiernos españoles desde 1977


Total de Porcentaje
Presidentes del Nº de Total de
Legislaturas mujeres de mujeres
Gobierno Gobiernos ministros
ministras sobre el total
I Legislatura Constituyente
Adolfo Suárez 2 24 0 0%
(77-79)
Adolfo Suárez/
I Legislatura (1979-82) 6 43 1 2’3%
Leopoldo Calvo Sotelo
II Legislatura (1982-86) Felipe González 2 25 0 0%
III Legislatura (1986-89) Felipe González 2 22 2 9%
IV Legislatura (1989-93) Felipe González 2 26 2 7’7%
V Legislatura (1993-96) Felipe González 3 22 3 13’6%
VI Legislatura (1996-2000) José María Aznar 2 18 4 22’2%
VII Legislatura (2000-04) José María Aznar 3 26 7 26’9%
José Luis Rodríguez
VIII Legislatura (2004-08) 2 18 9 50%
Zapatero
Fuente: Elaboración propia

1
Véase http://www.ipu.org/wmn-e/classif.htm (última actualización septiembre de 2008)

127
Gráfico 1: Evolución de la presencia de mujeres en el gobierno asturiano y español

% de Mujeres en el Gobierno Asturiano

% de Mujeres en el Gobierno Español

60

50

40

% 30

20

10

0
1983 1987 1991 1995 1999 2003 2006

Años

Fuente: Elaboración propia a partir de datos facilitados por el Gobierno Autonómico Asturiano

Desde 1983, año en el que se celebraron las primeras elecciones al Parlamento Asturiano, hasta la legislatura
iniciada en el año 2003, el número de mujeres parlamentarias ha ido creciendo paulatinamente y, tal y como refleja la Tabla
2, ese crecimiento ha sido sostenido hasta 1995, observándose un ligero retroceso entre las legislaturas 3ª y 4ª, un gran salto
cuantitativo tras las elecciones de 1999 y un posterior estancamiento según el cual la distribución por sexos en la cámara
vendría a ser aproximadamente de una mujer por cada dos hombres en la actualidad.

Tabla 2: Número de parlamentarias/os en todas las legislaturas


2ª (87-
1ª (83- 2ª (87-91) 3ª (91- 4ª (95- 5ª (99- 6ª (03- ) 6ª (03- )
LEGISLATURAS 91)
87) (COMIENZO) 95) 99) 03) (COMIENZO) (AÑO2006)
(FINAL)
PSOE, PP, PSOE,
PSOE, PSOE,
PARTIDOS CON PSOE, AP, PP, PSOE, PP, IU, PSOE, PP,
AP, AP, PSOE, PP, IU
REPRESENTACION CDS, IU IU, IU, URAS- IU
PCA CDS, IU
GPM GPM GPM
TOTAL
45 45 45 45 45 45 45 45
PARLAMENTARIOS
TOTAL 4 4 6 9 8 15 15 14

MUJERES (%) 8’8 8’8 13’3 20 17’7 33’4 33’4 31’2


TOTAL 41 41 39 36 37 30 30 31

HOMBRES (%) 91 91’1 86’6 80 82’2 66’6 66’7 68’9


Fuente: Elaboración propia a partir de datos facilitados por el Parlamento de Asturias

Por otro lado, en la tabla 3, observamos como el crecimiento de los porcentajes de la presencia femenina es más
discontinuo en Asturias y más sostenido en el conjunto del país. De este modo, el peso relativo de las mujeres en el
parlamento asturiano va por delante de la media nacional hasta 1995, cuando la tendencia se interrumpe coincidiendo con la
victoria del PP las elecciones de ese año. A partir de 1999, que registra una nueva victoria del PSOE, el peso relativo de las
mujeres en el parlamento regional se estabiliza en torno a un tercio, tendencia que contrasta con la tendencia que se observa
en el conjunto de cámaras regionales al aumento constante y sostenido. Así, en la legislatura 2003-2007, un 31’11 % de los
parlamentarios asturianos son mujeres, mientras que el porcentaje global a nivel nacional se aproxima ya al 40%.

Tabla 3: Presencia femenina en el global de los Parlamentos Autonómicos españoles


AÑOS 1983 1987 1991 1995 1999 2003
Escaños en todos los Parlamentos Autonómicos 1156 1164 1184 1180 1181 1186
(total)
Mujeres parlamentarias en todos los Parlamentos 65 79 165 231 348 455
Autonómicos
(total)

128
Mujeres parlamentarias sobre el total 5’6% 6’7% 13’9% 19’5% 29’4% 38’3%
(en porcentaje)
Fuente: Elaboración propia a partir de datos facilitados por los Parlamentos Autonómicos

Los datos anteriores se ven complementados por el hecho de que actualmente son ya cinco los gobiernos
autonómicos que superan al asturiano en lo que hace referencia a la presencia porcentual de las mujeres con respecto al total
de cargos de cada uno. Son en concreto, los de Andalucía, Baleares, País Vasco, Galicia y Castilla-La Mancha, tal como
puede observarse a través de las cifras y porcentajes que aparecen en la tabla 4:

Tabla 4: Presencia de mujeres en los gobiernos autonómicos (2006)


CCAA Total de cargos2 en cada Total de cargos ocupados Porcentaje de presencia
gobierno autonómico por mujeres en los femenina sobre el total
gobiernos autonómicos
Andalucía 15 8 53’3
Baleares 15 7 46’6
Euskadi 13 6 46’1
Galicia 14 6 42’8
Castilla-La Mancha 15 6 40
ASTURIAS 11 4 36’3
Canarias 12 4 33’3
Cantabria 12 4 33’3
Madrid 15 5 33’3
Castilla y León 13 4 30’7
Extremadura 13 4 30’7
Murcia 10 3 30
Cataluña 17 5 29’4
La Rioja 11 3 27’2
Aragón 12 3 25
Com. Valenciana 13 3 23
Navarra 13 1 7’6
Fuente: Elaboración propia a partir de datos facilitados por los Gobiernos Autonómicos

Para llegar a estos datos, ha sido imprescindible institucionalizar medidas de acción positiva como el sistema de
cuotas. La acción de los movimientos feministas en pos de la implantación de esta medida correctora de la desigualdad fue
apoyada y consensuada por los partidos políticos de izquierda como medio para eliminar el sesgo sexista de la actividad
política (García de León, 1994: 56), y esto ha sido, sin lugar a dudas, lo que ha provocado un mayor éxito de participación en
espacios de responsabilidad.
Pese a esta importante conquista, todavía no se cuenta con una presencia equivalente, ni la mujer participa en
igualdad de condiciones con los hombres en política. De ahí la persistencia de argumentos acerca del llamado “techo de
cristal” (Alberdi, 1997: 281), entendido como una estructura invisible que opera simultáneamente como “realidad cultural
opresiva y como realidad psíquica paralizante” (Burin, 2003: 51). La particularidad de esta alegoría es que favorece el avance
y proyección de interpretaciones que se saldan con el freno en la propia mujer al posible acceso a los puestos de toma de
decisiones. “El techo de cristal es apuntalado, pues, por tres consistentes pilares referidos a la identidad de género, a la
cultura organizacional dominante, caracterizada por la persistencia de creencias sociales estereotipadas sobre los géneros, y a
las responsabilidades familiares asumidas mayoritariamente por las mujeres” (Heredia et.al,. 2002: 60-61). Bajo este
concepto se encuadrarían, entre otras realidades, la propia percepción que tienen de sí mismas, los estereotipos relativos al
ejercicio del poder y las relativas a las responsabilidades domésticas o las dificultades para distribuir los tiempos. En
definitiva, que además de la sobrecarga de responsabilidades, las mujeres encuentran limitaciones de acción debido a que los
espacios y ritmos de vida políticos, organizados y consolidados a través del tiempo por los hombres, condicionan tanto el
acceso como su permanencia en este tipo de ocupaciones.
Como se puede observar a lo largo de las seis legislaturas (tabla 5), los puestos en el gobierno asturiano han estado
ocupados fundamentalmente por hombres, de tal modo que sólo trece mujeres han sido nombradas consejeras3 y entre ellas

2
Presidencias y Consejerías
3
Todos los presidentes autonómicos han sido varones, y las consejerías dirigidas por mujeres en las diferentes legislaturas han sido las siguientes: 2ª Legislatura
(1987-91): Consejería de Industria, Comercio y Turismo - María Paz Fernández Felgueroso- y la Consejería de la Juventud -Pilar Alonso Alonso-.En la 3ª
Legislatura (1991-95): Consejería de Interior y Administraciones Públicas -María Antonia Fernández Felgueroso-, Consejería de Medio Ambiente y Urbanismo -
María Luisa Carcedo Roces- y Consejería de Educación, Cultura, Deportes. y Juventud -María Antonia Fernández Felgueroso, sustituida por Amelia Valcárcel
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129
únicamente dos han ocupado el cargo durante dos legislaturas diferentes. En el ejecutivo asturiano se evidencia una vez más,
por lo tanto, la preeminencia masculina. Además de ser significativa la limitada representación de las mujeres, no es menos
revelante su escasa permanencia en el cargo si la comparamos con la de los hombres. Distintos estudios sobre elites políticas
(Martínez y Elizondo, 2007) han presentado datos que refrendan la mayor permanencia y estabilidad de los hombres en
puestos de toma de decisión, mientras que entre las mujeres la consolidación en los altos cargos es mucho más exigua, y en
muchos casos suelen ser prontamente sustituidas, a veces abandonan ese desempeño y en ocasiones llegan a causar baja en la
vida política activa. Las trayectorias políticas de hombres y mujeres presentan, por tanto, notables diferencias, no sólo en
cuanto a la mera presencia cuantitativa de unos y otras en los puestos de responsabilidad dentro de los partidos, sino también
respecto a los contrastes significativos –en términos de permanencia, ascenso, movilidad, abandono, etc- entre los distintos
cursos que suelen seguir las carreras políticas masculinas y femeninas (Durán, 2000).

Tabla 5: Presencia de mujeres en los diferentes gobiernos de Asturias


Gobiernos autonómicos
Nº de miembros del Nº de Mujeres en el % de mujeres en el
asturianos correspondientes a
gobierno autonómico gobierno autonómico gobierno autonómico
cada legislatura

Legislatura Provisional (83) 11 0 0

I legislatura (83-87) 11 0 0

II legislatura (87-91) 11 2 18’1

III legislatura
9 3 33’3
(91-95)
IV legislatura
7 1 14’2
(95-99)

V legislatura (99-03) 12 3 25

VI legislatura (03-07) 11 4 36’3

Fuente: Elaboración propia a partir de datos facilitados por el Gobierno del Principado de Asturias

En los grupos de discusión las mujeres expresaron sus opiniones al respecto que son interesantes revelar para poder
afrontar los siguientes puntos que se van a analizar:
(m) “el nivel de exigencia… la dedicación y los horarios... yo creo que hay muchísimas barreras que siguen
dificultando el acceso… y luego está el sistema de valores” (PSOE, GD 2)
(m) “Las mujeres, para participar activamente en política al mismo nivel que los hombres, para ejercer ese nivel
de liderazgo, o bien son solteras, o viudas, o no tienen hijos, o ya sus hijos son mayores…” (PSOE, GD 3)

I. Condicionantes culturales de acceso a puestos de toma de decisión: la difícil conciliación de las responsabilidades
familiares y la actividad política
Esta comunicación parte de la evidente dificultad de las mujeres para compaginar la actividad política con la
jornada laboral y las responsabilidades familiares que ellas continúan ejerciendo de forma generalizada, lo que implica tener
no una “doble” sino una “triple jornada laboral” (Norris y Franklin, 1997: 201). La irrupción de las mujeres en la esfera
pública, la educación y el trabajo remunerado no ha venido acompañada por la correspondiente corresponsabilización de los
hombres en las tareas no remuneradas. Hay hombres que no sienten la obligación de conciliar su vida profesional con su vida
familiar, ni la tienen atribuida socialmente (Torns, 2005: 23). Esta situación provoca que las mujeres tengan que buscar
estrategias de conciliación de la vida familiar y laboral consistentes fundamentalmente en: abandonar o reducir el trabajo
remunerado; reducir el número de hijos o incluso desistir de tenerlos; buscar sustitutas remuneradas -servicio doméstico- o no
remuneradas –familiares- para las tareas del hogar y los cuidados a familiares dependientes (Jurado, 2005: 77).
Es oportuno significar algunos datos de interés reflejados en la tabla 6 como cuál es el estado civil de los
parlamentarios autonómicos asturianos que ocupaban escaño en la Cámara del Principado durante la VI Legislatura.

Bernardo de Quirós-.En la 4ª Legislatura (1995-99): Consejería de Cultura -María Victoria Rodríguez Escudero-.En la 5ª Legislatura (1999-03): Consejería de
Presidencia -María José Ramos Rubiera-, Consejería de Trabajo y Promoción de Empleo, Consejería de Administraciones Públicas y Asuntos Europeos -
dirigidas ambas en distintas etapas por Angelina Álvarez González- y Consejería de Hacienda -Elena Carantoña Álvarez-.Finalmente, en la 6ª Legislatura (2003-
07): Consejería de la Presidencia -María José Ramos Rubiera-, Consejería de Medio Rural y Pesca -Servanda García Fernández-, Consejería de Cultura,
Comunicación Social y Turismo -Ana Rosa Migoya Diego- y Consejería de Vivienda y Bienestar Social -Laura González Álvarez-

130
Tabla 6: Estado civil de los Diputados autonómicos del Parlamento de Asturias (VI Legislatura)

Estado
Civil Porcentaje de
Porcentaje de Casados/as Porcentaje de Viudos/as
Grupos Solteros/as
Políticos
Mujeres 28’6 71’4 0
PSOE Hombres 7’7 92’3 0
Total 15 85 0
Mujeres 50 50 0
PP Hombres 6’7 86’6 6’7
Total 15’8 78’9 5’3
Mujeres 66’7 33’3 0
IU Hombres 100 0 0
Total 75 25 0
Mujeres 42’9 57’1 0
Totales Hombres 10’3 86’2 3’5
Total 20’9 76’8 2’3
Fuente: Elaboración propia a partir de datos facilitados por los partidos políticos

Se puede apreciar que más de ¾ partes del total de diputados están casados, y sólo uno de cada cinco está soltero.
Aunque al introducir la variable sexo en el análisis esos porcentajes sufren variaciones considerables, y, de este modo, se
puede apreciar claramente como los diputados varones que se han casado alcanzan un elevadísimo peso porcentual entre los
hombres –más del 85%- mientras que en el caso de las mujeres parlamentarias la diferencia relativa entre el número de
solteras y casadas está mucho más atenuada y no llega siquiera a los 15 puntos. Es significativo reseñar que más del 42% de
las diputadas están solteras, cuando entre ellos este porcentaje se sitúa en apenas un 10%.
Cuando se observan los datos para cada una de las tres agrupaciones políticas, es posible apreciar interesantes
divergencias y matices distintivos. Tanto en el PSOE como en el PP, los porcentajes de casados son abrumadores. Por contra,
en IU predominan los solteros, ya que de los cuatro diputados de este grupo político, tres lo son.
Entre los cargos parlamentarios autonómicos electos en la VI legislatura pertenecientes a los dos partidos con
mayor representación se aprecia un reducidísimo porcentaje de varones solteros. Sin embargo, entre las diputadas del PSOE
sigue habiendo un claro predominio de las casadas –más del 70%- mientras que en el PP el número de parlamentarias solteras
es el mismo que de casadas.
La tabla 6 parece, pues, confirmar, la existencia de unos costes diferenciales que deben afrontar las mujeres para
poder responder a las exigencias de la vida política. Entre ellos aparecen los llamados costes de aculturación, referidos a la
necesidad de prescindir en mayor o menor medida de la realidad tradicional femenina, basada en el matrimonio y los hijos.
Costes que para nada repercuten en sus homólogos masculinos, antes al contrario, para el hombre político la esposa e hijos
son signos de estatus y respetabilidad (García de León, 1994: 40 y 118).
Por su parte, la tabla 7 hace referencia al número medio de hijos que tienen los diputados y diputadas del
Parlamento Autonómico de Asturias durante la VI Legislatura.

Tabla 7: Número medio de hijos de los Diputados autonómicos del Parlamento de Asturias (datos VI Legislatura)
Grupos
Polit. PSOE PP IU Total del Parlamento
Sexo
Mujeres 1’1 1’0 1’0 1’0
Hombres 1’6 1’86 0 1’7
Totales por Partidos 1’5 1’6 0’7 1’5
Fuente: Elaboración propia a partir de datos facilitados por el Parlamento de Asturias

El número medio global de hijos es de 1’5, y son los varones los que claramente tienen una mayor descendencia, ya
que ellos tienen un promedio de 1’7 hijos por tan solo 1’07 de las mujeres.
Los parlamentarios del PP son los que tienen un mayor número de hijos, aunque no existen diferencias demasiado
significativas entre el dato global de este partido y el del PSOE. Sí las hay, por contra, entre estos dos partidos e IU, ya que
en este grupo político el número medio de hijos se reduce de un modo apreciable -0’7 hijos de media-. Los diputados varones

131
del PP tienen casi dos hijos de promedio, y sin embargo entre las mujeres esa cifra se reduce a uno, dato inferior al obtenido
entre las parlamentarias del PSOE y similar al de las de IU.
El problema de conciliar la vida laboral y familiar fue ampliamente tratado y valorado por los representantes
políticos que han participado en esta investigación (ver Metodología), y tanto las mujeres como los hombres que
intervinieron en los grupos de discusión, se refirieron al estigma femenino mujer/madre y la vigencia de una identidad
masculina construida en base a patrones culturales, que pese a ser cuestionados, siguen definiendo el poco protagonismo del
hombre en el espacio familiar. De un modo u otro plantearon la urgencia de que el hombre comparta responsabilidades, en el
ámbito privado y doméstico, para que la mujer pueda incorporarse plenamente a la vida política:
(v) “en cuanto al tema familiar, cuando uno se casa, los niños pues son un problema muy serio para la mujer,
probablemente porque los hombres no asumimos los papeles que tendríamos que asumir, por comodidad, porque nos
dedicamos a otras cosas, porque nosotros somos los que tenemos la mentalidad de que somos los punteros en la familia y
tenemos también esa conciencia de que la familia la hay que sacar adelante” (PP, GD 1)
Las dificultades de la mujer para acceder a los círculos de poder no sólo radican en el contexto social dominante,
sino también en su propia identidad de género transmitida a lo largo de siglos, según la cual “a las mujeres no les corresponde
ese lugar”, de tal suerte que ante la oportunidad de acceder a un puesto de responsabilidad, entran en conflicto los
sentimientos y la ansiada meta de conseguir un papel protagonista en política, conflicto que aflora, por ejemplo, en la relación
de pareja:
(m) “el tema de la conciliación, yo es que eso lo tengo clarísimo. Cantidad de veces que ibas a buscar a mujeres
para ir en tus listas y la primera cosa que te decía: “es que voy a quitarle tiempo a mi familia”.Cosa que nunca la oirás a
un hombre, jamás de la vida”. (PSOE, GD 3)
Pero sin duda el problema se acrecienta en el mundo político, ya que no estamos hablando de una doble jornada,
sino de “la triple carga” mencionada anteriormente. Si una mujer ocupa su tiempo en un trabajo profesional y lo dedica
asimismo al trabajo doméstico con su familia, al convertirse en políticamente activa y desempeñar una función pública,
asumirá un tercer trabajo a tiempo completo (Matland, 2004:20-1).
Esta situación la han vivido algunas de las mujeres representantes de instituciones políticas presentes en nuestros
grupos y, como veremos a continuación, dejaron constancia de la falta de referentes masculinos en su larga trayectoria
profesional a los que poder significar como partícipes de una situación homónima a la de ellas:
(m) “Yo recuerdo en un momento determinado que yo trabajaba en el Hospital San Agustín de 8 a 3, iba por la
tarde al Ayuntamiento de Avilés y llegaba a casa y hacía las cosas de casa, es decir, tenía tres jornadas. No puede ser que,
para que una mujer se dedique a una actividad política necesite tener tres jornadas, no es posible.…” (IU, GD 1)
(m) “el trabajo, la familia y la participación política, son tres trabajos. Yo no conozco a ninguno, casi ninguno, de
los dirigentes políticos de esta región y de este municipio, que tengan compartidas sus responsabilidades familiares, a un
nivel que se pueda considerar aceptable… (PSOE, GD 2)
A nivel político, parece claro que con frecuencia la mujer renuncia a sus aspiraciones debido a las dificultades que
entraña armonizar la ocupación con su vida privada. La disponibilidad horaria que requieren los puestos más elevados en la
mayoría de los espacios laborales, tanto públicos como privados, están planteados, por lo general, dentro de un universo de
trabajo masculino e incluye horarios, vespertinos o nocturnos, que habitualmente no están disponibles para las mujeres
(Burin, 2003: 45). La construcción del tiempo es análoga a la construcción del espacio parece que “sólo masculinizándose de
manera notable es posible que una mujer se pierda en el descontrol horario que exige la política” (Instituto de la Mujer, 1999:
114). Estas dificultades fueron planteadas por las mujeres en los grupos:
(m) “yo cuando fui Consejera de Gobierno Regional…lo que veía era es que los hombres no tenían límite de
horario en la política, incluso cuando se decía” no mire yo acabo de tener un niño, y a las 7 de la tarde me voy para mi
casa porque yo he rendido desde las 9 de la mañana hasta las 7”... entonces había una porción de horario, a partir de las 7
de la tarde, en la cual los hombres tomaban decisiones y nosotras no estábamos” (PSOE, GD 2)
De ahí que la falta de disponibilidad permanente y continua de la mujer, originada por la necesidad de atender otras
ocupaciones, “la desplaza de los grupos de influencia que controlan el poder” (García-Mercadal, 2005, 56).

II. La formación y su implicación en el acceso a los puestos de toma de decisión


Como señalan Requena y Bernardi (2005: 246) “el avance educativo de las mujeres ha alcanzado tal punto que se
ha conseguido invertir la tendencia histórica, muy arraigada en nuestra sociedad, que situaba a las mujeres en condiciones de
inferioridad educativa y desventaja cultural en relación con los hombres, es decir, en los últimos treinta años se ha acabado en
España con uno de los factores tradicionales de discriminación femenina como era el caso de la educación reglada”.
Tal como ocurre en otros campos de actividad, las mujeres intentan contrarrestar la influencia negativa de los
estereotipos con un mayor esfuerzo formativo, que les da una relativa ventaja comparativa en materia de educación (tal como
veremos más adelante, al comparar el nivel educativo de los parlamentarios asturianos por sexo), pero que no les protege de
la influencia del currículo oculto que interiorizan los jóvenes de ambos sexos en el proceso de socialización secundaria
transmitida en la escuela (Subirats, 1994; Novo, 2008).
La tabla 8 muestra el nivel de estudios de los diputados y diputadas que forman parte del Parlamento de Asturias en
la VI Legislatura.

132
Tabla 8: Nivel de estudios de los diputados autonómicos del Parlamento de Asturias (VI Legislatura)
Nivel de estudios de los diputados autonómicos del Parlamento de Asturias (VI Legislatura)
Nivel
Estudios Estudios Estudios
Licenciatura Diplomatura Totales
Grupos Medios Primarios
Políticos
Mujeres 4 (57’1%) 1 (14’3%) 2 (28’6%) 0 (0’0%) 7 (100%)
PSOE Hombres 6 (40’0%) 2 (13’3%) 4 (26’7%) 3 (20’0%) 15 (100%)
Total 10 (45’5%) 3 (13’6%) 6 (27’3%) 3 (13’6%) 22 (100%)
Mujeres 3 (75’0%) 1 (25’0%) 0 (0’0%) 0 (0’0%) 4 (100%)
PP Hombres 11 (73’3%) 1 (6’7%) 3 (20’0%) 0 (0’0%) 15 (100%)
Total 14 (73’7%) 2 (10’5%) 3 (15’8%) 0 (0’0%) 19 (100%)
Mujeres 1 (33’3%) 2 (66’7%) 0 (0’0%) 0 (0’0%) 3 (100%)
IU Hombres 0 (0’0%) 0 (0’0%) 1 (100%) 0 (0’0%) 1 (100%)
Total 1 (25’0%) 2 (50’0%) 1 (25’0%) 0 (0’0%) 4 (100%)
Mujeres 8 (57’1%) 4 (28’6%) 2 (14’3%) 0 (0’0%) 14 (100%)
Total Hombres 17 (54’8%) 3 (9’7%) 8 (25’8%) 3 (9’7%) 31 (100%)
Total 25 (55’5%) 7 (15’6%) 10 (22’2%) 3 (6’7%) 45 (100%)
Fuente: Elaboración propia a partir de datos facilitados por los partidos políticos

El primer dato que llama la atención es el hecho de que más de la mitad de todos ellos tienen estudios universitarios
superiores. En concreto, un 55% son licenciados y otro 15% son diplomados. Menos de la cuarta parte han terminado
estudios de grado medio y apenas un 6% tienen estudios primarios.
El nivel de estudios de las mujeres parlamentarias es ligeramente superior al de los hombres, ya que los porcentajes
femeninos son mayores en los dos grados formativos superiores, y menores en los dos inferiores.
Por partidos, se observa como es en el PP donde se encuentran los mayores porcentajes de licenciados, casi el 75%,
mientras que en el PSOE esas cifras se reducen al 45% y en IU al 25%. En esta última agrupación política ese dato se atenúa
al considerar que un 50% de diputados son diplomados universitarios. En el PSOE, por su parte, es en donde se constatan los
porcentajes más altos correspondientes a los niveles de estudios medios y primarios.
Al introducir la variable sexo, se puede apreciar como para cada uno de los tres partidos el nivel de estudios de las
mujeres parlamentarias es mayor que el de los hombres, siendo la diferencia entre ambos sexos más notable en el caso del
PSOE e IU y algo más atenuada en el PP.
Pese a contar con un nivel de estudios más alto que los hombres, las mujeres se ven “obligadas” a demostrar que
son competentes como concejalas o como diputadas. A este respecto resulta significativo lo que comentaba una mujer
asturiana, alto cargo del PSOE, en uno de los grupos de discusión:
(m) “creo que las mujeres que están en política tienen mayor cualificación… y además… se mira el
currículum…Mira el Parlamento regional, que yo lo he analizado… yo sé el nivel de exigencia que se plantea cuando se
hacen las listas y sigo diciendo que el nivel de exigencia para ellas es mayor, porque hay cosas que los hombres no tienen
que demostrar, más que responder a su cuota, a su cuota … y a su círculo, y las mujeres tienen que demostrarlo y entonces a
nivel de concejalas, y de diputadas, y de mujeres que están en órganos de dirección, yo creo que el nivel de exigencia es más
alto”. (PSOE, GD 1)
Pero como se significaba más arriba, pese al mayor nivel de cualificación de las mujeres, los efectos del currículo
oculto transmitido en las escuelas hace mella en las mismas. Las derivaciones de esto no repercute en sus resultados
académicos, aunque sí afecta a su autoconfianza (Subirats y Brullet, 1988). Es por esto, que pese al incremento importante de
mujeres en puestos de toma de decisión como se ha visto anteriormente, de momento, y como se verá en las páginas que
siguen, algunas mujeres de esta generación dedicadas a la política, expresan que muchas compañeras no manifiestan
autoreconocimiento de su valía, si bien, demuestran una falta de asertividad en el desempeño de su rol político. Y, así, en
relación con lo expuesto, resultan sumamente reveladoras las intervenciones de algunas de las participantes en los grupos de
discusión:
(m) “Cantidad de veces que vas a buscar a mujeres para ir en tus listas y…cosa que nunca la verás en un hombre,
jamás de la vida te decían como disculpa “es que…no estoy suficientemente formado” ni “no soy capaz” y la mujer te dice..
“¿tú crees que estoy formada?”, “es que soy incapaz de estar en ese puesto de responsabilidad” (PSOE, GD 3).
(m) “… el hecho de hablar en público, de que las mujeres se atrevan a hablar en público, eso es fundamental,
porque la historia nos ha enseñado, como me decía mi abuela y oía yo en el pueblo toda la vida,” no hay mejor palabra que
la de por decir”, sobre todo en una mujer…la sociedad nos enseñó a callar. Hay que conseguir que las mujeres hablen…”
(PSOE, GD 2)

133
(m) “no la mitad, pero casi la mitad somos mujeres… aunque tengas mucho que decir... ¿que le pasa al grupo?...
que sean, bueno, mitad y mitad, hombres y mujeres... se empiezan a pedir las palabras y los hombres continuamente van a
hablar y para que una mujer hable……” (PSOE, GD 2)
(m)“una mujer que viene de una formación no muy elevada y que nunca pudo desarrollar... o, bueno, nunca
quiso... pero bueno, en muchas ocasiones nunca pudo desarrollar ninguna actividad fuera del hogar, encuentra más
dificultades a la hora de expresarse… también es psicológico ¿no?, pero teniendo titulación universitaria pues encontramos
una dificultad también muy importante “…(IU, GD 2)
Aunque esas mismas mujeres también consideran que probablemente dicha capacidad está siendo en la actualidad
sobrevalorada y hay otras características que poseen de importante valor social:
(m) “a lo mejor yo no tengo una capacidad de expresión pública que es muy necesaria para la política, pero tengo
otras habilidades muy difíciles de demostrar en un primer contacto, o en la elaboración de unas listas, o en el trabajo
cotidiano, que son igual de válidas y no son tan fácilmente medibles en un primer contacto o con el contacto que pueda tener
con el resto de militantes a la hora de elaborar unas listas” (IU, GD 2)
(m) “en la política actual se está, yo creo que incluso sobrevalorando... claro, ya aparte de la posibilidad de
comunicar un mensaje... pero sobrevalorando la capacidad de expresión” (IU, GD 2)
Ciertamente, las mujeres parten de una falta de experiencia en la vida pública que es necesario tener en cuenta. Y se
evidencia para el caso que aquí se está exponiendo lo que expresa San José (2003): las mujeres que han alcanzado un puesto
de alta responsabilidad política cuentan con una amplia experiencia en el ámbito social antes que partidista. Si nos remitimos
al caso asturiano buena parte de las mujeres asturianas fueron promocionadas a partir del prestigio adquirido en el ejercicio
de su labor dentro de la vida política local o municipal, por la militancia y participación en organizaciones sociales
(sindicatos, asociaciones vecinales y feministas):
(m) “es la primera vez que estoy en el parlamento, pero empecé en la política con 17 años… ¿cómo? Pues primero
en el movimiento estudiantil contra el franquismo, luego en el movimiento feminista, después en movimientos culturales,
después en el movimiento asturianista… y eso... está lleno de mujeres... y también una asociación de padres también de
alguna manera contribuye a mejorar la situación social, y entonces yo creo que las mujeres participamos siempre mucho en
todo” (IU, GD 3)
Es verdad que algunos de estos espacios públicos, como las asociaciones de padres de alumnos o las asociaciones
vecinales, pueden proporcionar a las mujeres una mayor experiencia de participación y ayudarles a adquirir confianza en sí
mismas, tal como han puesto de manifiesto algunos de nuestros políticos/as, pero estos mismos grupos alertan de que dichas
asociaciones son, con frecuencia, una forma de tener a las mujeres “entretenidas”, sin estar realmente presentes en la vida
pública, además de considerar poco o nada positivo su paso por ellas como peaje para demostrar destrezas útiles que
consoliden su papel como buenas concejalas o diputadas. Además, no deja de responder a la asignación de roles sexuales
tradicionales realizando actividades a favor de su comunidad (Bernal, 2006).
(v) “la mujer, está participando mucho más que antes, digamos que… en asociaciones de vecinos. Y ahora son las
mujeres las protagonistas, luego la mujer está asumiendo ese rol de abajo hacia arriba y yo eso no lo veo nada negativo, lo
veo muy positivo, el tiempo les dará la razón a esa mayor participación, a ese asumir mayor responsabilidad, a esa toma de
decisiones en los temas más inmediatos, los más cercanos y que seguramente le abren todas las puertas en el futuro, yo lo
que sí sé es que me parece positivo...” (PP, GD 3)
(m) “dejemos poco a poco que la mujer se vaya incorporando, pues se va incorporando y llegará el momento en
que esté en situación de igualdad. Si no presionas, si no se presiona desde ese otro modelo yo estoy segura de que los
hombres seguirán diciendo: “si antes las mujeres estaban en la cocina y era más donde mandaba, ahora dejémoslas en
asociaciones de vecinos o en las asociaciones de padres y ¡hala!” (PSOE, GD 3)
(m) “A mi no me parece correcto eso, es decir, la mujer que vaya poquito a poquito, en asociaciones de vecinos…
(IU, GD 3)
Tampoco se debe descuidar a la hora de entender las dificultades del desarrollo de la actividad política de las
mujeres la limitación que ejercen los estereotipos de género relativos a intereses, conductas o cualidades. Así “virtudes como
la eficacia, competitividad o liderazgo son atribuidas en mayor medida a los hombres” (Vergé, 2008: 126). No está
completamente asumido que una mujer tenga la aspiración de alcanzar y conseguir un puesto de liderazgo, esto se enfrenta al
orden tradicionalmente instituido. Para poder adentrarse en ese mundo vinculado a los hombres tiene que articular distintos
procedimientos viables para superar las directrices exclusivistas propias de esos puestos. Además, si al sexo femenino se le
adjudica una característica positiva para el hombre, por ejemplo, la ambición, esa actitud en la mujer se convierte en algo
cuestionado.
(m)” los estereotipos están ahí todavía y al final nos encontramos muchas veces con que si un hombre es muy
ambicioso pues fantástico, si la mujer es muy ambiciosa es una bruja” (PP, GD 1)
(m) “yo creo que ahí se da la situación de la pescadilla que se muerde la cola: una mujer se ve obligada a ser
más ambiciosa en un proceso de selección dentro de una organización política, o en una empresa, pero cuanto más
ambiciosa es, más cuestionada será su ambición ¿no? porque a una mujer no se le permite eh que tenga esas expectativa(…)
(IU, GD 1)
“Una mujer tiene que llegar a verse a sí misma como una persona y una figura política que resuelve, dirige o
reprime las tensiones entre su imagen emergente de persona capaz de funcionar eficazmente en los niveles políticos más

134
elevados y la visión social generalizada de que ni ella ni ninguna otra mujer tienen esa capacidad” (Genovese y Thompson,
1997: 24). Con el aumento de mujeres en puestos de responsabilidad en política deja de ser característica de las mujeres la
desmotivación a la hora de expresar interés o querer adquirir un grado de compromiso con esta actividad. O como señala
Burin (2003: 46), “la falta de modelos femeninos con lo que identificarse lleva a este grupo generacional a sentir inseguridad
y temor por su eficacia cuando acceden a trabajos tradicionalmente ocupados por hombres”. Así las cosas, no cabe duda de
que la presencia de mujeres en las instancias de toma de decisión favorecerá el cambio estructural, a nivel organizativo y
cultural y serán modelo y fuente de motivación para el resto de mujeres.
Una Consejera del Gobierno del Principado de Asturias, apoyó con argumentos la idea de la conveniencia de que
las mujeres ocupen cargos de responsabilidad política, tanto a nivel regional como local, con el fin de que la sociedad asuma
esa presencia con normalidad:
(m) “es importante la presencia de mujeres en cargos de responsabilidad pública tanto a niveles locales como
niveles regionales, creo más en los locales, porque el trabajo desde el ámbito municipal… la gente, al ver a las alcaldesas o
a las concejalas… con esa normalidad … de lo que significa luego el que la representación política, a nivel de concejalas o
alcaldesas, luego esté relacionado con el ámbito familiar, con el ámbito laboral… yo creo que hay que hacer de la política
también esa otra normalidad que se necesita para que la sociedad y sobre todo las mujeres asuman la posibilidad de poder
estar en puestos de responsabilidad” (PSOE, GD 1).

Conclusiones
En las páginas anteriores se ha demostrado el gran avance que la mujer ha obtenido en el ámbito político, y, en
concreto en puestos de alta responsabilidad a lo largo de los últimos años. El efecto de las garantías formales ha supuesto un
considerable incremento numérico sin embargo, queda dar salida a problemas sociales y culturales que provocan sesgos y
prejuicios contra las mujeres que limitan, de momento, el empoderamiento político de la mujer. En las páginas anteriores se
ha visto como señala García de León (1994: 41) como aún en nuestros días las mujeres en la actividad política debe reunir
características, no sólo en cantidad sino también en calidad, en relación con las que deben aportar los hombres, lo que
provoca discriminación.
Junto a esto, hay que señalar que la transmisión social y cultural de estos estereotipos de género consolidados a
través del proceso de socialización diferencial según sexos, dificulta en gran medida su ruptura, favoreciendo, en el caso de
las mujeres, actitudes que tienden a condicionar subjetivamente sus capacidades de respuesta y actuación ante la
probabilidad de promoción profesional.
Como señala una mujer del grupo de discusión y que resume plenamente lo que se ha querido transmitir a través de
este artículo:
(m) la mujer renuncia no sólo por cuestiones relacionadas con la conciliación…sino también muchas veces
renuncia porque se siente cuestionada en su ambición, en las expectativas que pueda tener. Todavía hay una especie de …
no sé como decirlo de…¿autolimitación?… esa autolimitación todavía existe y se debe a una educación que arrastramos y
que todavía nos limita, una educación y una situación estructural…de la sociedad en general que todavía nos limita” (IU,
GD 1)

METODOLOGIA
Se realizaron tres grupos de discusión4 para obtener un material empírico donde queden reflejadas y representadas
las distintas voces –con la suficiente profundidad– que componen los altos niveles políticos y técnicos en Asturias. Como
tratábamos de indagar en los contrastes entre sexos –de objetivos, de estrategias, de métodos, de afrontamiento de la
competitividad–, los grupos fueron mixtos, aunque con mayor presencia femenina. Esto permitió, con un margen de
seguridad razonable, que se cumplieran los criterios buscados de profundidad y pluralidad en las voces y en las opiniones
expresadas y representadas en los discursos resultantes (Arenas, 2006).
- Estructuraciones principales en la selección de los participantes:
Sexo: Tres grupos mixtos, cada uno de los cuales tuvo una composición aproximada de 2/3 de mujeres y 1/3 de
hombres.
Sector: Representantes y ex representantes políticos de Asturias (parlamentarios, consejeros) y altos cargos de la
administración tanto masculinos como femeninos.
Pertenencia a formaciones políticas y asociativas: Se buscó una representación equilibrada de participantes
pertenecientes a las tres agrupaciones políticas de referencia: PSOE, PP e IU, que abarcan la práctica totalidad del arco
político.
Número de participantes por grupo: entre 7 y 10 participantes. A partir de una selección lo más adecuada y rigurosa
posible se buscará un número alto de componentes en cada uno de los grupos (cercano a las 10 Personas).

4
1º grupo realizado el 13 de marzo de 2006 a las 17 horas en la Sala de prensa del Rectorado de la Universidad de Oviedo; 2º grupo realizado el 16 de marzo de
2006 a las 18:30 en idéntico escenario; y 3º grupo realizado el 21 de marzo de 2006 a las 18:30 en la Sala Schumpeter de la Facultad de Ciencias Económicas y
Empresariales de la Universidad de Oviedo.

135
Edad: Pluralidad de edades tanto en hombres como en mujeres, con preferencia de las que aglutinan a los puestos
de mayor responsabilidad y poder (35–55 años).
Zona: Distribución de participantes procedentes de toda Asturias, aunque con preferencia de la zona central que es
donde se concentran los puestos políticos y técnicos que se investigan.
Clase social: Se buscó una representación plural de los diferentes estratos sociales con preferencia de las clases
medias altas que son las que tienen mayor afluencia en estos puestos.

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Women in Nacional Parliaments, http://www.ipu.org/wmn-e/classif.htm

Famílias imigrantes portuguesas na cidade do Rio de Janeiro: rupturas e


reconstrução de identidades
Maria Manuela Maia
Faculdade M. J. Mackenzie-Rio
mariamanuelaa@gmail.com

Resumo: Estudo sobre famílias de imigrantes portugueses provenientes da região norte de Portugal que se deslocaram para a cidade do Rio
de Janeiro durante o período compreendido entre o pós 2ª guerra e 1974. A primeira ruptura ocorreu antes da saída de Portugal com o
próprio desmantelamento da sociedade camponesa dentro do contexto do desenvolvimento industrial no século XX. Um segundo momento
de ruptura é percebido durante a viagem e no início da estada em terra estranha. A terceira, através dos embates e conflitos produzidos no
encontro com a cidade, Isto é, na passagem de um mundo rural para o urbano. No Rio de Janeiro desenvolvem e concretizam complexos

136
processos ou estratégias para se estabelecer e se fixar. Estas estratégias configuram-se em tentativas de integração à sociedade de acolhida
por meio de negociação entre conjuntos de valores culturais. Obrigados a se adaptar a novas formas de ver o mundo, os imigrantes tentam re-
significar os seus valores. De um lado consideram a unidade familiar, portadora de recursos (materiais, culturais e simbólicos) e de
necessidades e objetivos. Do outro, o contexto envolvente (físico, econômico, social e político) com seus constrangimentos e oportunidades.
Enfatizam, assim, o papel da família, do trabalho e da religião como estratégias de afirmação de identidade em terra estranha na tentativa de
garantir a coesão familiar e, ao mesmo tempo, integrar-se à cidade.

A análise das práticas e representações geradas nas h