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Temporada popular:
corpo, cultura e cidade para além da bilheteria1

Denise da Costa Oliveira Siqueira


Doutora em Ciências da Comunicação (ECA/USP)
Professora do programa de Pós-graduação em
Comunicação da UERJ
E-mail: dcos@uerj.br

Kath Pacheco Batista Lousada


Resumo: Este texto tem como objetivo refletir sobre o empre-
go do termo “temporada popular” e a produção de sentidos
no âmbito do jornalismo cultural. Metodologicamente, parti- Mestre em Comunicação pelo PPGCOM/UERJ
mos de um fenômeno empírico - a temporada popular de um E-mail: kathpaba@yahoo.com.br
espetáculo da Companhia de Dança Deborah Colker – para
construir uma análise sócio-hermenêutica e uma discussão
sobre o conceito de cultura popular fundamentada em refe-
rências disponíveis na literatura de sociologia, antropologia e
comunicação. Para amparar a observação, assistimos a Tatyana
em uma temporada popular e reunimos material documental
jornalístico sobre a peça
Palavras-chave: Corpo, cultura, popular, jornalismo cultural,
produção de sentidos.

Temporada popular: cuerpo, la cultura y la ciudad más allá de


la taquilla
Resumen: Este trabajo tiene como objetivo analizar el uso del
término “temporada popular” y la producción de sentidos en
el contexto del periodismo cultural. Metodologicamente, se Vivido e representado no cotidiano da
parte de un fenómeno empírico - la temporada popular de un
espectáculo de la Companía de Danza Deborah Colker - para
cidade, na mídia e na cena teatral, o corpo
construir un análisis socio-hermenéutico y un debate sobre el mostra-se um instigante sujeito-objeto de
concepto de cultura popular com base em referencias disponi-
bles em la literatura de sociología, antropología y comunica-
pesquisa no campo social. Questionador,
ción. Para apoyar la observación, hemos asistido a “Tatyana” criador, mas também reprodutor de valores
en una temporada popular y reunimos material documental e disciplinas, ele expressa toda fluidez possí-
periodístico sobre la pieza.
Palabras clave: Cuerpo, cultura, popular, periodismo cultural, pro- vel entre as esferas do midiático, do popular
ducción de sentidos. e do erudito. Esse corpo representado opera
Popular season: body, culture and city beyond the ticket office na construção de afetos, códigos e sentidos.
Abstract: This paper aims to analyze the use of the term “po- Simbolicamente, ele é cultura.
pular season” and the sense production in the context of cul-
tural journalism. Methodologically, we start from an empirical Para este texto pensamos na perspectiva
phenomenon - the popular season of a show of Deborah Colker complexa do corpo em sua dimensão simbó-
Dance Company - to build a socio-hermeneutic analysis and a
discussion of the concept of popular culture based on available lica e cultural, tendo a cidade contemporânea
literature in sociology, anthropology and communication. To
support the observation, we saw « Tatyana » in a popular season 1
Versão inicial e reduzida deste artigo foi apresentada na mesa
and gather journalistic documentary material about the piece. redonda Comunicação, arte e cidade do IV Congresso Interna-
Keywords: Body, culture, popular, cultural journalism, sense cional do Núcleo de Estudos das Américas, em 2014, na Uni-
production. versidade do Estado do Rio de Janeiro.

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como espaço privilegiado para sua configu- de um equipamento cultural que carrega
ração. É nesse aspecto que elegemos um fato uma história ligada, em grande parte, a uma
ou fenômeno social que nos pareceu muito plateia cativa, culturalmente formada em
interessante para ser analisado no âmbito do uma programação erudita – embora acom-
jornalismo cultural:2 a chamada tempora- panhemos o claro esforço institucional de
da popular de espetáculos de dança. Nessas atrair e formar novos públicos.
temporadas, o corpo do bailarino, formado, Assim, depois de se apresentar nesse “gran-
treinado, submetido a muitas regras e técni- de palco” carioca, a Companhia de Deborah
cas, enfim, um corpo disciplinado em mo- Colker faria sua aparição seguinte na cidade,
dos eruditos de se movimentar e questionar conforme destacava o cartaz, com um dife-
apresenta-se em “modo popular”. A consta- rencial: letras graúdas chamavam a atenção
tação do considerado “erudito” em “modo para a temporada popular do espetáculo. A
popular” nos fez refletir sobre a maneira frase nos fez pensar: afinal, o que representa
uma temporada popular? Temporada popu-
lar significa apenas ingresso a preço acessível?
O termo popular não Ou esse período significa um modo diferen-
assegura o consenso. te de observar ou levar o corpo para a cena?
Como o popular se encaixa?
O conceito de popular
Em uma primeira leitura pode-se enten-
depende de quem der a proposta da temporada popular no que
o observa e de qual diz respeito ao valor do ingresso, à esfera
posição o classifica econômica que envolve o acesso à “cultura” –
nesse momento entendida no sentido de ar-
tes e espetáculo e de capital cultural (a educa-
ção, os saberes e conhecimento reconhecidos
como diferentes linguagens recriam sentidos por diplomas e títulos, aquele conjunto de
para um espetáculo em cartaz e especial- informações e visões de mundo acumuladas
mente para um espetáculo que tem o corpo pelo indivíduo que constitui poderoso dife-
como elemento de destaque na construção renciador social (Bourdieu, 2003). Contudo,
de sua própria linguagem. refletimos que o popular ou a temporada
A observação inicial desse fato social se popular não se restringe ao preço do ingres-
deu quando encontramos, no Centro do so mais barato. Popular significa ainda um
Rio de Janeiro, um cartaz da Companhia público bem maior, a presença de uma audi-
de Dança Deborah Colker anunciando sua ência de não-especialistas, de pessoas de fora
apresentação em um dos teatros da rede mu- do mundo das artes cênicas, outros além do
nicipal da cidade. O espetáculo Tatyana3 ha- conhecido “povo da dança”.4 Esse popular
via realizado sua estreia no emblemático pal- remete ainda a um destaque jornalístico-
co do Theatro Municipal – espaço reservado -midiático. Assim, além de pensar sobre o
por décadas para a dança e a música clássicas, que representa o popular na contemporanei-
com destaque para seus importantes corpos dade, consideramos pertinente questionar
de baile, orquestra e coro. Trata-se, portanto, se há, na temporada popular, alguma outra
proposta. Afinal, para ser popular, no circui-
2
Adotamos a perspectiva acerca do jornalismo cultural de Si- to urbano e massivo, basta uma quantidade
queira, D.C.O., Siqueira, E. A cultura no jornalismo cultural,
Líbero, Ano X, nº 19, Jun 2007, p. 107-116. maior de público?
3
A estreia do espetáculo foi em 25 de maio de 2011. A primeira
temporada popular do espetáculo foi realizada no Teatro João
4
Expressão que bailarinos e coreógrafos usam para se referir a
Caetano entre 16 de março e 6 de maio de 2012. si mesmos como grupo no Rio de Janeiro.

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Assim, partindo dessas ideias, este texto subsidiário, com origem nas tradições e no re-
tem como objetivo refletir sobre o emprego gionalismo. Segundo Canclini (2006), para a
do termo “temporada popular” e seu signi- mídia o popular não é resultado de tradições,
ficado. Metodologicamente, partimos de um nem da “personalidade” coletiva, tampouco se
fenômeno empírico - a temporada popular define por seu caráter manual, artesanal, oral
do espetáculo de Colker – para construir ou pré-moderno. Já Peter Burke (2008), ao
uma análise sócio-hermenêutica e uma dis- tratar de cultura popular, questiona quem é
cussão sobre o conceito de cultura popular o povo: todos ou apenas quem não é da elite.
fundamentada em referências disponíveis na Paralelamente, uma leitura rápida de pro-
literatura de sociologia, antropologia e co- gramas de televisão, de jornais “populares”,
municação. Para amparar nossa observação, de filmes do “grande circuito” e da música
assistimos a Tatyana em uma temporada po- “popular massiva” aponta que impera entre
pular e reunimos material documental jor- grande parte dos profissionais ligados aos
nalístico5 sobre a peça. meios de comunicação de massa uma visão
da cultura popular contemporânea constitu-
ída a partir dos meios eletrônicos, da ação di-
Cultura popular, cultura de massa
fusora e integradora da “indústria cultural”.
e a cidade
A proposta de promover uma companhia
O termo popular não é garantidor de de dança por meio da venda de ingressos a
consenso. O popular depende de quem o ob- preço relativamente baixo pode levar a pen-
serva e de qual posição o classifica. Bakhtin, sar o popular como Canclini critica: “a noção
ao estudar a cultura popular na Idade Média, de popular construída pelos meios de comu-
já apontava para uma “concepção estreita nicação segue a lógica do mercado. Popular é
do caráter popular e do folclore, nascida na o que se vende maciçamente, o que agrada a
época pré-romântica” (2013) e que excluía a multidões. A rigor, não interessa ao mercado
cultura específica da praça pública e o hu- e à mídia o popular e sim a popularidade”
mor popular. Até aquele momento, o concei- (2006, p. 260). O autor discute a passagem de
to vinha sendo pouco estudado. Hoje, abarca povo para popular e mostra nela um olhar
diferentes abordagens. tanto econômico quanto político:
Néstor García Canclini aponta, em
Culturas Híbridas (2006), que o termo po- O deslocamento do substantivo povo para
pular está associado ao pré-moderno e ao o adjetivo popular e, mais ainda, para o
substantivo abstrato popularidade, é uma
5
Foi levantado um clipping on-line de pouco mais de 10 repor- operação neutralizante, útil para controlar
tagens, notas e críticas sobre o espetáculo em veículos brasilei- a “suscetibilidade política” do povo. (...) A
ros e internacionais, em seus cadernos culturais ou editorias de
cultura. Constam dele matérias como: “Em ‘Tatyana’, Deborah
definição comunicacional de popular não
Colker questiona paixões humanas”, O Globo, 03/11/2011, Dis- consiste no que o povo é ou tem, mas no
ponível em: <http://oglobo.globo.com/cultura/em-tatyana- que é acessível para ele, no que gosta, no
deborah-colker-questiona-paixoes-humanas-2701538>; “Cia que merece sua adesão ou usa com frequ-
de Dança Deborah Colker apresenta seu novo espetáculo em
Florianópolis, Tatyana”, Notícias do dia, 15/06/2012, Dispo- ência (Canclini, 2006, p. 260).
nível em: <ndonline.com.br/florianopolis/plural/29897-cia-
de-danca-deborah-colker-apresenta-seu-novo-espetaculo-e-
florianopolis-ldquo-tatyana-rdquo.html>; “Tatyana-review”, The
A abordagem de Canclini mostra o “popu-
guardian, 03/02/2013, Disponível em: <www.theguardian.com/ lar” midiático de um modo distinto daquele
stage/2013/feb/03/tatyana-deborah-colker-barbican-review>; que a antropologia vai apontar. Do ponto de
“Deborah Colker estreia espetáculo ‘Tatyana’ em São Paulo”, Es-
tadão, 08/09/2011, Disponível em: <http://www.estadao.com.br/ vista da antropologia, não há diferença en-
blogs/jt-variedades/deborah-colker-estreia-espetaculo-tatyana- tre popular e erudito. O popular é tão denso,
em-sao-paulo>. Não foi nosso objetivo analisar as matérias, mas
empregá-las como fonte de informação sobre o espetáculo e suas
simbólico, rico representacionalmente e bom
temporadas populares. para se pensar quanto o não popular.

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O popular midiático, o chamado pop, por indivíduos. O “popular” não está contido em
sua vez, é formatado, repetitivo, usa fórmu- conjuntos de elementos a que bastaria iden-
las que deram certo como negócio até que se tificar, repertoriar e descrever. Ele qualifica,
esgotem e sejam substituídas por outros mo- antes de tudo, um tipo de relação, um modo
delos. A criatividade do artista, nesse caso, de utilizar objetos e normas que circulam na
atende ao mercado mais do que à inovação sociedade, mas que são recebidos, compre-
estética. Desse modo, pode-se dizer que a endidos e manipulados de diversas maneiras.
lógica capitalista na qual a indústria cultural Desta forma, considerar que a temporada
está inserida redimensiona a arte e o folclore, popular teria apenas a intenção de dar visibi-
o trabalho do artesão e do artista de origem lidade a uma companhia de dança, de divul-
popular ou culta (e redimensiona até mesmo gar o espetáculo e atrair um público disperso,
o saber acadêmico). “Diante desse quadro, a seria uma abordagem reducionista da ques-
arte ‘culta’ não acaba, mas de fato se modi- tão. O caráter de atração é dado, em grande
fica e ainda se utiliza dos meios oferecidos parte, pela mídia e pelo jornalismo cultural.
pela indústria cultural para ser divulgada” A aproximação dança/público e a formação
(Siqueira, 2009, p. 124). de plateia para a arte dita “culta” pode ter
No entanto, mesmo no popular-midiáti- no jornalismo cultural um ator/mediador
co há níveis de permeabilidade. Os sistemas importante, pois ele pode desempenhar a
de comunicação de massa aliados à sorte de tarefa de veicular informações especializadas
recursos tecnológicos disponíveis no mundo – uma mediação que pode contribuir para as
contemporâneo permitem trocas, processos leituras sobre o espetáculo.
de mediação cultural e a intensificação de Em uma perspectiva da antropologia,
formas de circulação da informação, relati- Gilberto Velho e Viveiros de Castro também
vizando, assim, as antigas dicotomias entre apontam interessantes problemas no olhar
erudito e popular. sobre o “popular” em relação à cultura dita
A hoje chamada “cultura da mídia” “erudita” e à cultura de massa. Conforme os
(Kellner, 2001) diz respeito à produção in- antropólogos, “no caso da cultura popular
dustrial da cultura promovida pelos meios pode-se cair numa posição inversa e passar a
de comunicação de massa que interage com valorizá-la como mais autêntica, mais pura,
diferentes padrões culturais existentes em principalmente quando tida por intocada
uma sociedade globalizada cada vez mais e não contaminada. A cultura de elite, em
complexa, heterogênea e diversificada. contraposição, seria considerada artificial,
É nesse sentido que o exercício da refle- decadente, inautêntica” (1978, p. 7). Não há
xão sobre a “temporada popular” identi- pureza no erudito e nem no popular, assim
fica uma apropriação trivial do “popular”. como não há no modo midiático: são modos
Considerando a amplitude de questões que diferentes que se entrecruzam em diferentes
a chamada de divulgação carrega, entende- níveis em distintos grupos sociais.
-se que a discussão pode ser enriquecedora, Embora a questão possa parecer ana-
abarcando aspectos que direcionam o debate crônica em uma contemporaneidade pós-
para além da bilheteria. -moderna, esses olhares sobre o erudito e
Corroboram com esta ideia os argumen- o popular ainda estão fortemente presen-
tos do historiador Roger Chartier (1995), tes no universo das políticas públicas, por
que considera ser inútil querer identificar a exemplo. Aqui, tanto o popular deve rece-
cultura popular a partir da distribuição su- ber apoio para ser valorizado e reconhecido
postamente específica de certos objetos ou quanto o erudito deve receber apoio para se
modelos culturais. Para ele, o que importa tornar “popular” no sentido do alcance e da
de fato é a sua apropriação pelos grupos ou fama. Assim, ações sistemáticas de políticas

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culturais constituem uma ferramenta para Segundo Martín-Barbero, o conceito de


que as artes e os espetáculos alcancem um massa racionaliza o primeiro grande desen-
patamar “popular” no sentido de populari- canto de uma burguesia que vê em perigo uma
dade ou fama. Aplicadas de forma objetiva, ordem social por ela e para ela organizada
favorecem o desenvolvimento da “cultura” (2006, p. 52). Massa designa, no movimento
(aqui entendida no sentido empregado por de mudança, o modo como as classes popu-
Bourdieu em A distinção, e não no seu sen- lares vivem as novas condições de existência,
tido antropológico mais largo)6 e promo- tanto no que elas têm de opressão quanto no
vem a circulação e fruição de significados que as novas relações contêm de demanda
simbólicos. e aspirações de democratização social. E de

As políticas culturais implantadas pelo


Estado situam-se entre os elementos da Os trajes, adornos,
vida social e cultural que poderiam facili-
tar ou dificultar a viabilização da criação
pinturas, tatuagens
artística: podem facilitar por dar segurança e demais recursos
econômica ao artista; dificultar por impor aplicados no âmbito
limites de tempo e exigir contrapartidas e das artes cênicas fazem
resultados (Siqueira; Snizek, 2013, p. 111).
do corpo um espaço
A ideia de uma sociedade das massas gerador de sentidos
data do século XIX e está ligada à ascensão
da burguesia como classe social, ao controle
dos movimentos populares e à decadência massa será a chamada cultura popular. Essa
da aristocracia como instância econômica e inversão vinha sendo gerada há muito tempo,
política, além de ser fundamentalmente liga- mas não podia tornar-se efetiva se não quan-
da à concentração de população nas cidades. do, ao se transformarem as massas em classe,
Junto aos novos modos de controle dos mo- a cultura se converte em espaço estratégico da
vimentos populares, colocar-se-á em marcha hegemonia, passando a mediar, isto é, enco-
um movimento intelectual que, a partir da brir as diferenças e reconciliar os gostos.
direita política, tratará de compreender e Os dispositivos da mediação de massa
dotar de sentido o que está acontecendo. A acham-se, assim, relacionados estrutural-
burguesia, até então revolucionária, passa a mente aos movimentos no âmbito da legi-
controlar e frear qualquer revolução. Se an- timidade que articula a cultura: uma socia-
tes as “massas” se situavam fora, ameaçando bilidade que realiza a abstração da forma
a “sociedade”, agora se encontram dentro: mercantil na materialidade tecnológica da
dissolvendo o tecido das relações de poder, fábrica e do jornal, e uma mediação que en-
erodindo a cultura, desintegrando a velha cobre o conflito entre as classes produzindo
ordem (Barbero, 2006, p. 52). sua resolução no imaginário, assegurando o
6
Em La distinction, Bourdieu observa duas noções distintas consentimento ativo dos dominados. Essa
para a cultura. Quando o autor se refere à cultura no sentido mediação e esse consentimento, no entan-
antropológico, isto é, como lógica subjacente aos comporta-
mentos, emprega a noção de habitus; quando se refere à cul-
to, só foram historicamente possíveis à me-
tura no sentido de distinção social, utiliza a noção de cultura dida que a cultura de massa foi constituída,
como erudição. É nesse sentido que a noção de capital cultural
é frequentemente empregada por Bourdieu quando se refere
acionando e deformando sinais de identida-
às aquisições que os membros de uma classe social e também de da antiga cultura popular e integrando
aqueles que se situam no interior de um campo, acumulam ao
longo de sucessivas gerações, possibilitando assim assegurar
ao mercado as novas demandas das massas
suas posições de hegemonia no campo. (Barbero, 2006, p. 174).

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Essa chamada cultura de massa abarca- sociedades, artisticamente, a tarefa de am-


rá as várias expressões culturais oriundas pliar os discursos não-verbais por meio da
de classes populares tanto quanto de outras moda, de gestos e movimentos se traduz por
classes. As narrativas, as músicas e as danças possibilidades de organizações plásticas con-
emprestarão elementos para essa nova esfera temporâneas.
ou camada de “cultura” em constituição – Na dança, em particular, tal experiên-
mas continuarão a co-existir paralelamente. cia estética está diretamente relacionada ao
corpo. É para o corpo que convergem todos
os processos de pesquisa, de estudo, de labo-
O corpo, a dança e o sensível
ratórios de movimentos, ritmos e sons, de
No âmbito das artes cênicas, o corpo é um preparação técnica, composição de figurino,
espaço gerador de sentidos. Os trajes, ador- de acessórios e de maquiagem. Somam-se a
nos, pinturas, tatuagens e demais recursos tais processos de elaboração da arte para o
aplicados a ele mostram-se como materiali- corpo, as experiências pessoais do bailarino,
zação de um imaginário que consolida de- suas emoções e expressões que são únicas e
sejos e visões de mundo atualizando valores, pertinentes àquele corpo em cena. A carga
articulando e potencializando discursos so- dramática do ator-bailarino tem fundamen-
bre os grupos sociais. Em um contexto mais to na técnica, mas também na história parti-
amplo, extrapolando o palco, os investimen- cular do artista.
tos na imagem corporal contribuem para a Esse corpo é regido por impulsos cultu-
construção das identidades, conferindo uma rais que dão forma – ainda que provisoria-
expressão simbólica, diferenciando e ao mes- mente – ao discurso que se pretende pro-
mo tempo integrando. duzir. Pensar o corpo significa, portanto,
confrontar-se com um sujeito/objeto que
assume simultaneamente diferentes trajetó-
O corpo que dança rias, em que a multiplicidade de significações
remete a diferentes olhares. Tais reflexões
reproduz ou “faz” gênero, possibilitam compreender o corpo como um
e isso, nessa abordagem, território em que é difícil demarcar o limite
não é somente sexual, – uma vez que este se modifica literal e sim-
é também político bolicamente à medida que se tenta apreen-
enquanto modula os dê-lo. É, no entanto, essa riqueza que faz do
papéis sociais corpo sujeito e objeto privilegiados de inves-
timento simbólico. David Le Breton afirma
que um mundo imaginário se interpõe entre
as mímicas e os movimentos do corpo, dan-
A imagem que o corpo oferece ao olhar do espessura à vida social e completando a
externo constitui o primeiro e mais imedia- cena com significados próprios ao especta-
to contato com o mundo. “É o olhar que os dor (Breton, 2009, p. 43). O corpo personi-
outros têm de você que o define!”, escreveu fica e torna presente o sujeito no mundo. É
Claval (1999, p. 13). É em torno das ima- um lugar sensível que se articula com dife-
gens corporificadas que se constroem e se rentes códigos, processando continuamente
desenvolvem estratégias fundamentais de uma série de significantes, que, por sua vez,
comunicação e sentido. Se a composição de processam significações.
acessórios e objetos utilizados sobre o corpo Le Breton (2003) também afirma que
é característica da exploração de possibili- todo corpo contém inúmeros outros cor-
dades de significação desde as mais antigas pos virtuais que o indivíduo pode atualizar

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por meio da manipulação de sua aparência e aparente para que a delicadeza e a “aura” su-
de seus estados afetivos. Assim, o corpo en- blime da personagem não se desvaneçam.
quanto objeto de significação e de comuni- Enquanto o corpo do ballet lida com um
cação constrói significados na forma como código já constituído – mesmo que possa
se mostra e é mostrado em determinados ser reinterpretado - o corpo contemporâneo
contextos sociais. lida com contradições, subverte o espaço, se
Historicamente, a dança cênica no oci- reinventa à medida que novos estímulos lhes
dente endossou conceitos estabelecidos so- são apresentados. O corpo é potencializado
cialmente quanto ao uso do corpo (embora nas artes e na cidade, nos palcos, nas ruas, na
também os tenha transgredido eventualmen- publicidade, na mídia (Mons, 2013).
te). A técnica do ballet clássico, por exemplo, Villaça e Góes citam como exemplos de
participa desta dinâmica e tem em seus passos articulação arte/cultura de massa, a versão
estabelecidos um código. O gênero também de ginástica aeróbica praticada no Amazonas
ocupa um importante papel na construção com suporte da dança e da música tradicio-
de significados no ballet. Assim, o corpo, seu nais do boi folclórico, o aeroboi; o reggae
embelezamento, o esforço que faz, as distân- maranhense e o funk carioca, “expressões de
cias que respeita, o desdobrar do movimento uma identidade cotidiana estetizada através
que revela quem faz o que, como o faz e com do corpo”. (Villaça; Góes, 2000, p. 158)
quem, são elementos plenos de significação, Somam-se a esses corpos contemporâ-
de história, de cultura em um espetáculo e neos as sensações. As dimensões do sensível
não podem ser desconsiderados. e do cultural fazem parte do cotidiano do
Judith Hanna argumenta, em Dança, sexo indivíduo em suas diversas formas de par-
e gênero (1999, p. 123), que as metáforas de ticipação social e política. Roupas, cabelos,
movimento distinguem o masculino do fe- sonoridades, narrativas, sexualidade, identi-
minino, pois os padrões de papel sexual dan- dades e tecnologias formam as estruturas e
çados servem para lembrar aos integrantes os canais de inserção do sujeito nas cenas de
suas respectivas identidades e papéis. Para a discussão sobre os espaços urbanos, o consu-
autora, “essa forma expressiva é também um mo, o “empoderamento” do próprio corpo e
meio de modular a representação do papel a diversidade cultural.
sexual a fim de manter dentro dos limites Tendo em mente esse corpo contemporâ-
figuras de autoridades. Assim, a dança paro- neo, pós-moderno, pode-se pensá-lo exclusi-
dia e pacifica o poderoso e o sem poder em vamente como popular, erudito ou midiáti-
diferentes esferas da vida, sugerindo mesmo co? Se popular for entendido como dizendo
a inversão dos papéis” (Hanna, 1999, p. 18). respeito a todos, sim, o corpo poderia ser
Desse modo, o corpo que dança repro- “popular”. Contudo, em uma leitura sobre
duz ou “faz” gênero e isso, nessa abordagem, as técnicas corporais, a cultura e as experiên-
não é somente sexual, é também político. cias, os corpos são diferentes. Então, corpos
Retomando o ballet, alguns elementos da são, mesmo dizendo respeito a todos, múlti-
técnica da dança clássica são especificamente plos em suas possibilidades de representação
direcionados para o bailarino homem, como e de sentido. Podemos pensar, desse modo,
o preparo do corpo para suportar cargas – a nas produções de sentido dos corpos na cena
bailarina – e para conduzir a partner, além e na cidade, na cultura popular e na cultura
de treino específico para grandes saltos, giros de massa.
e força, em um repertório de movimentos Outro aspecto importante a ressaltar nessa
destinados ao corpo masculino. À bailarina produção de sentidos é a visão sobre a dança,
cabe, entre inúmeras qualidades, flexibili- sobre o corpo que dança como lazer, em uma
dade, leveza e uma força que não deve ser concepção equivocada do lazer como lugar

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esvaziado de sentidos. Dumazedier já nos sobre uma espécie de cadeia produtora de


apontava o equívoco de se pensar desse modo sentidos, como uma espiral, quando nos de-
uma vez que “o lazer apresenta-se como um paramos com uma obra literária que inspira
elemento central da cultura vivida por mi- uma peça coreográfica que será assistida por
lhões de trabalhadores, possui relações sutis um público em temporada popular.
e profundas com todos os grandes problemas Esse é o caso de Tatyana, de Colker, uma
oriundos do trabalho, da família e da política peça coreográfica inspirada em uma obra
que, sob sua influência, passam a ser tratados literária. Tatyana é um espetáculo que, em
em novos termos” (Dumazedier, 2000, p. 20). certa medida, busca uma proximidade com
Assim, se um espetáculo de dança for tomado o ballet clássico. É o primeiro trabalho no
como lazer, é preciso considerar que todo la- repertório da companhia que possui uma
zer é pleno de conteúdos e sentidos. história com início, meio e fim. Em Tatyana,
Colker apresenta sua leitura do roman-
ce Eugene Onegin – obra do século XIX do
Temporada popular: produção de
escritor russo Alexander Pushkin – em um
sentidos
trabalho de dança com narrativa. Em ter-
Sendo o corpo um lugar onde também mos técnicos, algumas bailarinas dançam
são produzidos sentidos em que a cultura nas pontas dos pés, como no ballet, enquan-
se revela, mostra-se interessante pensar seu to outras desenvolvem sequências de movi-
papel na temporada popular. Refletir sobre mentos no chão, usando joelheiras – como
produção de sentido leva ao menos a dois na dança contemporânea. Trata-se, então, de
caminhos: sentido, no valor de significar, e uma peça de dança contemporânea, mas que
sentido, no contexto do sentir. Sobre estes bebe na fonte de um gênero mais antigo, o
aspectos, Eric Landowski argumenta sobre o ballet.
sensível: Em seus trabalhos, a companhia de
Deborah Colker costuma recorrer à utiliza-
Ele próprio faz sentido, assim como, inver- ção de grandes estruturas cênicas que agu-
samente, o sentido articulado incorpora çam a curiosidade do público pelo caráter es-
alguma coisa que emana diretamente do tético, criativo e inusitado: uma roda gigante
plano sensível: enquanto por um lado, a e uma parede de escalada são exemplos. Um
significação está já presente naquilo que
caráter espetacular. Tatyana não foge à regra:
os sentidos permitem que seja percebido,
por outro, o contato com as qualidades a cenografia da peça conta no primeiro ato
sensíveis do mundo fica ainda presente no com uma grande árvore de madeira estili-
plano onde o sentido articulado se constrói zada, de autoria de Gringo Cardia, onde os
(2005, p. 94). bailarinos se lançam, dançam e exibem mo-
vimentos estéticos e acrobáticos característi-
Landowski (2005) trabalha com a ideia de cos da companhia. O cenário, de fato, é uma
que a concepção dualística sensação versus peça importante do espetáculo, pois os bai-
cognição deve ser ultrapassada por meio de larinos interagem com ele. Além disso, pode
uma reflexão sobre a emergência e o modo representar ou fazer alusão ao campo, onde
de existência do sentido a que a experiência se passa a primeira parte da trama literária
estética conduz. Desse modo, quando pen- que inspira a peça. Para reforçar essa ligação
samos em uma obra coreográfica, podemos livro-peça, o espetáculo conta com um per-
buscar sentidos construídos pelos corpos de sonagem inspirado em Pushkin.
bailarinos e coreógrafos. No entanto, tam- Quanto ao figurino, há em Tatyana uma
bém podemos sentir e através da obra cons- mistura de elementos contemporâneos com
truir novos sentidos. Assim, podemos pensar referências a roupas de época. Também

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compõem a cena objetos como livros, ben- todos os níveis. Enquanto na dança cênica
galas, cartolas e leques que funcionam tanto coreógrafos contemporâneos se apropriam de
como figurino quanto como objeto cênico e elementos da rua, em danças de caráter social
elementos que ampliam ou dão novas possi- há também apropriação de outras linguagens.
bilidades aos movimentos. O espetáculo tem Esse é o caso do “novo célebre” passinho.8
personagens, mas cada um é interpretado Nesse aspecto e direcionando o olhar para
por vários bailarinos simultaneamente, às fora dos palcos, identificamos na cena popu-
vezes em movimentos distintos. lar corpos que também mesclam referências
É interessante também observar a fala da de técnicas de movimento para produzir uma
coreógrafa sobre sua obra. Colker destaca dança própria e repleta de sentido. Os jovens
outros aspectos do trabalho. Em uma decla- do passinho, autodidatas na dança, conjugam
ração sobre a peça, ela afirma que esse traba- referências de movimentos diversos, sendo
lho é “a dança, é a poesia do corpo, é a emo- notória a ressignificação dos gestos e do uso
ção do movimento, é o sentimento da dança do corpo nessa nova fase do funk.
e da música e da transformação das pessoas Déborah Colker e passinho: em que medi-
que estão em cena” (Colker, 2011).7 da são bons para pensar os discursos verbais
Um olhar sobre o trabalho de Colker des- e não-verbais gerados a partir do corpo so-
de os anos 90 mostra que, em parte, a pro- bre o popular? Corpos jovens em movimen-
posta artística da coreógrafa é ter o corpo to, referências diversas na elaboração de suas
do bailarino como discurso, de forma que a danças, o uso do espaço pouco convencional
construção do trabalho e do sentido da obra – os elementos cênicos criados por Colker, as
resida fortemente no físico e em suas capaci- ruas e praças das favelas – a ousadia, a sub-
dades. O trabalho autoral de Deborah Colker versão. Entretanto, a dança cênica não é con-
produz uma dança com características espe- siderada popular, ainda que realize tempora-
taculares. Para a composição coreográfica, a das específicas neste propósito; e a dança do
artista soma à dança elementos acrobáticos, passinho não é considerada arte, mesmo se
movimentos que remetem ao esporte ou a sua prática nas comunidades de baixa renda
outras dinâmicas corporais (daí a utilização do Rio de Janeiro seja significativa.
de joelheiras pelos bailarinos). A qualidade Poderia a dança cênica ser cultura popu-
técnica dos bailarinos envolvidos em Tatyane lar ou cultura de massa? A coreógrafa carioca
é grande e possibilita que negociem com es- Esther Weitzman diz ser esta uma pergunta
tilos e técnicas diferentes. tão difícil quanto crer que a dança contem-
Em espetáculos do início da carreira como porânea possa se tornar popular. Para a artis-
Velox (1995), Rota (1997) ou Casa (1999), a ta, os trabalhos de dança contemporânea são
cenografia é de forte impacto e é possível ob- difíceis – não significando que sejam bons ou
servar a presença de um elemento pop na lin- maus – especialmente para o indivíduo que
guagem em cena. Em Tatyana (2011) obser- não está acostumado com a linguagem dos
va-se a aproximação a uma linguagem mais movimentos. “É muito difícil entrar naquele
erudita – o que já vinha acontecendo desde o universo (da dança) que é mais hermético e
início dos anos 2000 na obra de Colker. que requer mais conhecimentos” (Lousada,
Essa permeabilidade de erudito-pop- 2007, p. 35).
-popular que se dá em cena também alcança Apesar de este ser um ponto de vista par-
movimentos dançados fora dos palcos e por tilhado por demais profissionais de dança,
jovens não-profissionais da dança, na dan- 8
Passinho é um gênero de dança derivado do funk carioca mis-
ça social, aquela dos bailes, salões e festas de turado com diversas outras danças desde o frevo até o modo
Michael Jackson de dançar. Surgiu nas favelas do Rio e di-
7
Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=4H82X fundiu-se em vídeos caseiros postados no Youtube. É dançado
NBFyVw>. Acesso em 11/03/2014. sobretudo por meninos.

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experiências da coreógrafa mostram o “ou- Neste texto partimos de uma reflexão


tro lado da moeda”, que é a fruição estética sobre corpos em um espetáculo de dança
da cena. Essa relação com a arte encenada é contemporânea porque constituem corpos
estabelecida por meio da percepção, da ex- intensamente treinados em uma linguagem
periência sensível na apreciação do bailari- complexa que exige, para sua melhor frui-
no em atividade por parte do público não ção, tanto informação quanto sensibilidade.
especializado. Isso se observa no relato de Esse contraste do erudito com o “popular” –
Weitzman: aquele que remete ao conhecido, que é aceito
porque é coletivo, ao mesmo tempo em que
Eu fui para o norte do país com Sonoridades, seria mais sensível, porque menos “racional”
espetáculo com música clássica, inspirado – nos levou a refletir sobre o estranhamento,
em Água-Viva (Clarice Lispector). Havia
pessoas que nunca tinham entrado no te-
ao menos em termos de linguagem, de uma
atro e elas choravam. Estavam vendo pela temporada popular de uma arte codificada.
segunda vez dança contemporânea e eu Como conciliar o popular com o codificado?
fico me perguntado “será que não passa Para responder à questão temos que
por um sujeito sensível?” Eu acho que a pensar se estamos tratando de um “corpo
arte é para todo mundo. As pessoas mais popular contemporâneo”, uma construção
abertas, mais informadas talvez tenham ainda mais complexa. Na realidade, o corpo
mais acesso, mas tem gente que também
parece sempre ter sido “popular” no sentido
não tem tanta informação e consegue ver
um trabalho de dança e captar muito, mui- de que materializa épocas, valores, culturas,
to bem. (in Lousada, 2007, relato oral). costumes, sentidos – conteúdo não verbal,
repleto de significado. O corpo se apresenta
Esse “ser sensível” ao qual Weitzman como estratégia de distinção social e de (re)
se refere talvez diga respeito a uma capaci- definição de identidade. Assim, quando reve-
dade de fazer uma leitura sensível antes de lado em uma temporada popular, o corpo da
qualquer leitura racional diante de uma cena não necessariamente se mostra em uma
obra. Na leitura técnica, do entendedor de maneira diferente de quando está em tempo-
arte talvez não haja uma relação emocional, rada regular. Mas certamente promove uma
na qual o indivíduo frui a obra em um ato de abertura em termos de olhares: ele pode ge-
desprendimento à lógica. rar novos sentidos em outros públicos me-
Entretanto, a prática de fruição da dan- nos habituados ao contato com aqueles cor-
ça pode ampliar o seu saber apreciativo. O pos que fazem uso de linguagens codificadas
conhecimento da matéria favorece, em certa e recorrem a outras simbólicas. Essa nova
medida, a experiência diante da cena. Alargar interação é o que pode haver de mais rico
o alcance da arte, o acesso ao conhecimento nesse tipo de temporada: rico para quem se
sensível e criativo resulta em formação de apresenta assim como para quem assiste.
público em sensibilidade estética. Assim, a temporada popular vai muito
além do preço reduzido dos ingressos. Não
Considerações Finais julgamos a utilização do termo popular
como ferramenta para atrair o público. Essa
Falar sobre a temporada popular de um é uma dinâmica do mercado, chama a aten-
espetáculo de dança contemporânea é uma ção de um indivíduo suscetível às investidas
ocasião para pensar sobre o conceito de po- da mídia. Mas a ideia de uma temporada po-
pular, sobre a construção do corpo e sobre a pular remete a muito mais: a atrair o públi-
produção de sentidos na cidade. Uma tarefa co com uma “promoção” de ingressos tanto
que nos leva a diferentes “lugares” e a muitas quanto a atrair o espetáculo para outro pú-
possibilidades. blico. Temporada popular é, assim, uma via

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de mão dupla: busca seduzir o público para a o preconceito contra o popular ou o discurso
arte e ao mesmo tempo encantar a arte para sobre o popular – tanto da parte do público
o público. Pode implicar fila fazendo curva quanto da parte da produção.
na porta do teatro, fila de espera porque os Assim, na temporada popular, o “popular”
ingressos já estão esgotados, grupos escola- não é somente aquele da cultura de massa, nem
res e de senhoras de mais idade chegando em o da distinção. É um popular ampliado em seus
vans. Enfim, pode ser uma ótima estratégia sentidos: vai muito além da bilheteria.
para formação de plateia se for ultrapassado (artigo recebido mar.2015/aprovado set.2015)

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