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Universidade Independente de Angola

Faculdade de Direito

APLICAÇÃO DA LEI PENAL NO ESPAÇO

Docente: Adelino Yange

Luanda, 2020
APLICAÇÃO DA LEI PENAL NO ESPAÇO

Sala: B 2.5

Turma: A1

Grupo B

Integrantes do grupo:

Jelson Aurélio - 181115

Jeôvania Matías - 181154

Kátia Das Neves - 180104

Ricardo Cabalo - 180824

Samuel Gonga - 180954

Vanésia Lima -180455

Docente

----------------------------------------
DEDICATÓRIA
Aos nossos pais pelo apoio incondicional e aos nossos colegas com quem partilhamos
esta longa jornada académica.
AGRADECIMENTOS

Primeiramente à Deus pela vida que nos concedeu, aos nossos País pelo apoio
financeiro e ao docente Adelino Yange por nos ter dado este trabalho investigativo que nos
ajudou a enriquecer os nossos conhecimentos em direito penal.
EPÍGRAFE

“Fiz tão bem o meu curso de direito que, no dia que me formei, processei a Faculdade, ganhei a
causa e recuperei todas as mensalidades que havia pago”

(Fred Allen)
ÍNDICE

Introdução……………………………………………………………………………...8

A validade da lei penal no espaço e em relação às pessoas……………………………9

Aplicação da lei penal no espaço. Principio--------------------------------------------------9-10-11

Aplicação do princípio da territorialidade----------------------------------------------------11-12-13

Insuficiência do princípio da territorialidade. Extra-territorialidade da lei penal……..14

Extra-territorialidade por aplicação do princípio realista ou da consideração dos interesses


nacionais………………………………………………………………………………..14-15

Extra-territorialidade por aplicação do princípio da nacionalidade…………………….15-16

Extra-territorialidade por aplicação do princípio universalista…………………………16-17

Reconhecimento das sentenças penais estrangeiras…………………………………….17-18

Extradição……………………………………………………………………………..18-19

Conclusão……………………………………………………………………………20

Bibliografia………………………………………………………………………….21
RESUMO

O estudo da lei penal no espaço visa entender, além da competência para julgar,
também o conceito de território, para especificar os casos em que, mesmo fora dele, são
considerados de competência da justiça angolana. Isso porque um mesmo fato pode vir a ser
considerado crime em um ou mais países, violando os interesses de ambos. A lei penal no
espaço, cuida do lugar onde o crime é praticado, servindo como parâmetro para solucionar
situações em que um crime inicia sua execução em um determinado território e a consumação
dar-se em outro.

Palavras-chave: Aplicação da lei, lei penal, aplicação da lei penal no espaço.


INTRODUÇÃO

Este trabalho tem como objectivo desenvolver os subtemas concertentes a aplicação da


lei penal no espaço, como os seus princípios, a aplicação da lei da territorialidade, a
insuficiência do princípio da territorialidade extra-territorialidade da lei penal, o
reconhecimento das sentenças penais estrangeiras e a extradição. O trabalho de Direito Penal,
sobre a aplicação da lei penal no espaçp encontra-se didivida em 3 partes, a primeira está
exposto a introducação, e a segunda parte o desenvolvimento do trabalho, onde iremos
desenvolver todos os subtemas da aplicação da lei penal no espaço e por último a terceira
parte temos, a conclução, e as referências bibligraficas que são a base para meterialização
deste trabalho.

A lei penal de um Estado soberano vige em todo o seu território. Contudo, visando o
combate eficaz à criminalidade, a lei pode ser aplicada fora de suas fronteiras, ou até mesmo
leis de outros estados podem atuar dentro do país. Por isso são necessárias limitações, para
definir qual lei será aplicada, dependendo da hipótese, de acordo com alguns princípios.

Sabendo que um fato punível pode, eventualmente, atingir os interesses de dois ou


mais Estados igualmente soberanos, gerando, nesses casos, um conflito internacional de
jurisdição, o estudo da lei penal no espaço visa a apurar as fronteiras de atuação da lei penal
nacional.

É possível que um fato desperte o interesse punitivo de dois países, como Angola e
Portugal. É importante saber qual país vai poder aplicar a sua lei no caso concreto.
A validade da lei penal no espaço e em relação às pessoas.

Direito Penal internacional e direito internacional penal


Nem sempre o crime viola o interesse de um Estado apenas. Pode acontecer que dois
ou mais Estados se arroguem o direito de puni-lo. Como vimos já, o complexo de normas que
disciplinam o poder punitivo de um Estado na sua coexistência com o poder punitivo de
outros Estados costuma designar-se por direito penal internacional, à semelhança do que
sucede com o direito internacional privado.

Com a designação inicialmente atribuída a Bentham, o direito penal internacional


aproxima-se do direito internacional privado, pois um e outro são direitos nacionais,
distinguindo-se pelo seu objecto. O iter criminis das infracções penais pode realizar-se em
mais de um Estado ou ter conexão com a ordem jurídica de mais de um Estado e
consequentemente interessar a vários ordenamentos jurídicos nacionais, ocorrendo
coincidência ou conflito de tratamento. Ora, o direito penal internacional seria o direito
interno destinado â resolução desses potenciais conflitos, constituído por normas cuja função
é a de determinar a lei aplicável a factos criminosos que podem entrar em conexão com várias
ordens jurídicas. Estas normas são normas de direito interno.

A par das normas que constituem o direito penal internacional, há verdadeiras normas
de direito internacional de fonte consuetudinária ou convencional e outras que têm por fonte
entidades supranacionais. Estas constituem o objecto da disciplina denominada Direito Penal
Internacional.

Diversamente do direito penal internacional, que como referimos é um ramo do direito


interno, agora denominado direito internacional penal é o ramo do direito público
internacional que determina as infracções,.estabelece as penas e fixa as condições da
responsabilidade penal internacional dos Estados e dos indivíduos. Trata-se de uma realidade
cujas origens remontam somente à primeira Guerra, ma que tem tido muito recentemente
manifestações que a erigem como um verdadeiro direito internacional no domínio penal.

Aplicação da lei penal no espaço. Principio

A origem e a natureza do direito determinam limites especiais, à sua aplicação e isto é


particularmente válido para o direito penal, poi, é um dos ramos do direito mais ligados à
estrutura política da sociedade e à soberania dos povos. As tentativas de internacionalização
do direito penal não passaram de uma fase de incipiente colaboração entre os Estados,
sobretudo na área de certo tipo de criminalidade, como a pirataria e o tráfico de
estupefacientes e na celebração de tratados de extradição.1

É, pois, necessário determinar a que infracção se aplica o direito penal de um país, em


função do local onde foram cometidas.

Para isso, a doutrina elaborou uma série de princípios de aplicação da lei penal no
espaço.

O princípio da territorialidade é o primeiro princípio e a mais importante em relação os


outros, segundo o qual, a lei penal de um Estado se aplica a todos os crimes cometidos, no
território desse Estado, quer por nacionais, quer por estrangeiros.

O princípio retira os seus fundamentos das seguintes razões:

1. O direito penal é uma emanação da soberania de um Estado e destina-se a defender as


suas ordens econômicas, social, política e jurídica, sendo, pois, esse Estado o que mais
legitimidade tem para aplicar a reacção penal.

2. O melhor lugar para investigar a prática de um crime, determinar e julgar os seus


agentes, em suma, o lugar em que melhor se pode fazer justiça, é aquele em que o
crime foi cometido.

3. É também no lugar em que o crime foi cometido que melhor se pode fazer cumprir, a
função de intimidação e prevenção das penas.

Todavia, o princípio da territorialidade só é absoluto no sentido de que o direito penal


de um Estado se aplica a todos, os crimes cometidos no território desse Estado, mas já não o
é, no sentido de que só se aplica às infracções cometidas nesse mesmo território, e não e
factos praticados noutros territórios. Há crimes praticados fora do território de um Estado, a
que se pode aplicar o direito penal desse Estado.

É que, por um lado, existe uma criminalidade internacional que põe em perigo os
interesses e valores de mais de um Estado, por outro lado, os interesses fundamentais de um
1
Confira em ``Apontamentos de Direito Penal de Orlando Rodrigues”. Escola editora. 2014. Luanda, pag:67 e
69.

9
Estado podem ser lesados no estrangeiro e, além disso, há interesse e valores que pertencem
tanto à comunidade internacional como a cada um dos Estados que a integram.

Daí o surgimento de novos princípios para complemento do princípio da


territorialidade e até de alguns com a pretensão de resolver de forma exclusivista toda a
problemática da aplicação da lei penal no espaço.

Os mais importantes desses princípios são:2

a. O princípio da nacionalidade ou da personalidade, segundo o qual a lei penal de um


Estado se aplica a todos os crimes cometidos, mesmo no estrangeiro, pelos seus
nacionais. A justificação do princípio é que, mesmo no estrangeiro, os nacionais
mantêm vínculos com o seu país e, por outro lado, se a lei penal nacional não lhes for
aplicada, poderiam ficar impunes os crimes por eles cometidos no estrangeiro, caso
conseguissem refugiar-se no país da sua nacionalidade. Este princípio ainda se
desdobra em dois subprincípios: princípio da nacionalidade activa e princípio da
nacionalidade passiva. Pelo primeiro, aplica-se a lei do país a que pertencce o agente,
sem se atender ao bem jurídico violado pelo rime; pelo segundo, a lei do país de
origem só se aplica quando o bem jurídico ofendido pertença a pessoas da mesma
nacionalidade. Como veremos este princípio só é aplicável subsidiariamente, para
evitar a impunidade de crimes cometidos no estrangeiro por nacionais de outro Estado,
porque a generalidade dos países não admite a extradição dos seus nacionais.

b. O princípio realista ou da consideração dos interesses nacionais, segundo o qual a lei


penal de um país se aplica a todas as infracções que ofendam os interesses desse país
ou dos seus cidadãos, ainda que, tais infracções sejam cometidas em país estrangeiro e
independentemente da nacionalidade do autor da infracção.

c. O princípio universalista ou da defesa dos interesses universais, segundo o qual, a lei


penal de um país se aplica a todos os factos que ela considere criminosos, seja qual for
o lugar da infracção e a nacionalidade do criminoso ou a do ofendido, desde que o
agente seja encontrado no território do país e de que não tenha sido punido ou
suficientemente punido no estrangeiro. A aplicação deste princípio acaba por ter de

2
O princípio da nacionalidade leva em consideração a nacionalidade do agente da infracção penal para
regular a incidência da lei. A lei nacional acompanha o súdito onde quer que ele se encontre, mesmo no
estrangeiro.

10
depender da celebração de acordos e convenções internacionais e além disso é
criticado pela sua impraticabilidade e por não tomar em consideração, as dificuldades
de natureza processual e as necessidades de certeza da prova.

APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA TERRITORIALIDADE


O Código penal acolheu o princípio da territorialidade como fundamental na aplicação
da lei penal no espaço, embora sem carácter exclusivo e absoluto.

O princípio da territorialidade geralmente o predominante, cinge-se ao território do


Estado. O crime nele cometidos são regidos pelas suas leis, 3

qualquer que seja a nacionalidade do agente do crime ou da vitíma. Irmão gêmeo do princípio
da territorialidade é o princípio da bandeira ou pavilhão, segundo o qual o Estado em que está
registado navio ou aeronave pode sujeitar ao seu poder punitivo as infracções cometidas a
bordo, ainda que o facto haja sido cometido por estrangeiro em território de soberania
estrangeira ou no alto mar.

O art-53º interpretado e integrado à luz da letra e do espírito da Lei Constitucional,


dispõe que, não havendo tratado em contrário, a lei penal angolana é aplicável a todas as
infracções cometidas em território angolano, qualquer que seja a nacionalidade do infractor.
Por território angolano, entende-se a superfície terrestre, as águas territoriais, até ao limite 200
milhas da costa, e o espaço aéreo superjacente à superfície terrestre e às águas territoriais.
Também se consideram território nacional, para os efeitos do art-53º as instalações das
missões diplomáticas nacionais no estrangeiro, os navios de guerra e os navios mercantes e as
naves aéreas no espaço marítimo ou aéreo internacional.

Entretanto, para uma correcta determinação do âmbito especial de aplicação da lei


penal é, antes de mais, necessário determinar o lugar em que a infracção foi cometida, o lugar
do delito ou (locus delicti), pois, só assim se pode saber se tal lugar pertence ou não ao

3
O nº 2 do art-53º, não se refere às naves aéreas, porque não existiam no tempo em que o Código foi
publicado. Para além do problema de saber se as naves aéreas podem considerar-se território nacional
quando se encontram no espaço aéreo internacional (tema de direito internacional público), ficando então
abrangidas pelo nº 1 do art-53º, põe-se o problema das naves aéreas em território estrangeiro, nas condições
do nº 2 do mesmo artº (parte final), pois, a lei só fala em navios.

11
território nacional. O problema tem importância nos caos em que a actividade criminosa, em
termos naturalístico, se prolonga por mais do que um lugar de mais do que um país. 4

Pode acontecer que a actividade criminosa ocorra num país e o evento ou resultado se
venha a verificar noutro país.

A doutrina costuma apresentar alguns exemplos clássicos:

Um individuo dispara uma pistola em Cabinda, junto à fronteira, a vítima é atingida em


território zairense e vem a falecer num hospital de Brazzaville. O accto do agente (causa) foi
praticado em Angola, o processo letal iniciou-se no Zaire e o evento ou resultado (efeito),
consumou-se no Congo.

A identificação do local do crime (locus commissi delicti) é importante saber em que


país fixar o lugar do delito para que se possa determinar a lei penal aplicável e ao pensar que o
Código Penal nada tem a dizer a respeito, a solução tem de se encontrar na dogmática do
direito penal, na elaboração doutrinal.

Muitas soluções são possíveis. Umas radicam ma acção, outras no evento, outras no
interesse ofendido e outras ainda, na combinação da acção com o evento.

Segundo a doutrina da acção ou actividade, a infracção deve considerar-se cometida


no lugar em que se exerce a actividade criminosa.

Para a doutrina do resultado ou evento, a infracção localiza-se no lugar em que o evento


se produziu.

A doutrina do interesse, considera que o lugar do delito é aquele, em que o interesse


protegido pela lei, foi ofendido.

Finalmente, a doutrina plurilateral ou da ubiquidade, entende que a infracção deve


considerar-se praticada, quer no lugar da actividade criminosa, quer no lugar em que o evento
se produziu.

4
Art-46º do Código de Processo Penal. Se a infracção se praticou só em parte em território nacional, será
competente para conhecer dela o tribunal angolano em cuja área se praticou o último facto de consumação,
execução, preparação ou comparticipação, que seja punível pela lei angolana.

12
No exemplo dado, o lugar da infracção seria Angola para a doutrina da actividade, o
Zaire para a doutrina do interesse, e Congo para a doutrina do evento e, tanto Angola como o
Congo, para a doutrina da ubiquidade.

Como nenhuma das primeiras doutrinas se mostra capaz de responder satisfatoriamente,


nem ás necessidades de punição do criminoso nem ás de intimidação, a doutrina dominante é
a plurilateral ou ubiquidade, que, aliás, o Código de Processo Penal consagra no seu art-46.º

Apesar de exprimir uma regra de competência internacional, a doutrina que se extrai


do art-46º do Código de Processo Penal é válida para o próprio direito penal substantivo, pois,
os tribunais angolanos não aplicam direito penal estrangeiro.

Se o tribunal competente é o tribunal de Cabinda, a lei penal aplicável só pode ser


angolana, única neste domínio, que o referido tribunal pode aplicar.

A determinação do lugar do crime levanta ainda maiores dificuldades, no caso do


crimes formais que se consumam, independentemente da verificação do resultado.

Num crime de envenenamento, se o veneno for ministrado no Congo e a vítima vier a


morrer em Angola, em rigor, a lei angolana seria inaplicável, pois nos termos do único do art-
353º do C.P, o crime considera-se consumado no Congo.

No entanto, segundo o Professor Eduardo Correia, a natureza dos crimes formais


deste tipo resulta de uma ficção da sua consumação, quando o resultado não se verifica. Se
este se verificar, deverá ser tomado em conta para a aplicação da lei.

Não seria razoável outra solução. Produzindo-se o resultado, deixa de haver diferença
entre crimes formais e crimes materiais ou de evento.5

Só que, pela aplicação da doutrina da ubiquidade, pode suceder que o infractor seja
punido em mais do que um país, dando origem a uma punição dupla, contrariando, assim, o
princípio penal e de processo penal (non bis in idem). E esse resultado tem de ser enviado.

A propósito de crimes cometidos por nacionais ou estrangeiros em país estrangeiro,


os nº 3 e 5 ou 3º do art-53º do C.P, exige como condição de aplicação da lei angolana, que o
infractor não tenha, ainda, sido julgado no país em que cometeu o crime ou que, tendo sido

5
Apontamentos de Direito Penal de Orlando Rodrigues. Escola editora. 2014. Luanda
julgado, não tenha cumprido ou não tenha cumprido totalmente a pena. Tais preceitos têm de
ser alvo de um processo de interpretação extensiva para abrangerem na sua letra as hipóteses
em que o lugar do crime se situa tanto em território angolano, como em território estrangeiro,
por força do princípio da ubiquidade.

A razão de ser, em ambos os casos é a mesma: evitar a violação da regra (non bis in
idem).

/INSUFICIÊNCIA DO PRINCÍPIO DA TERRITORIALIDADE. EXTRA-


TERRITORIALIDADE DA LEI PENAL
Face à insuficiência do princípio da territorialidade para realizar o interesse da punição
e defender cabalmente os valores tutelados pelo direito penal, reconhece-se a necessidade de o
complementar com os outros princípios anteriormente expostos e, consequentemente, a
extrateritorialidade da lei penal.

a) EXTRA-TERRITORIALIDADE POR APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO


REALISTA OU DA CONSIDERAÇÃO DOS INTERESSES NACIONAIS
Está prevista nos n.3 e 4 do art-53º do CP

A lei penal angolana é aplicável aos crimes cometidos por angolanos e estrangeiros, em
país estrangeiro, contra a segurança interior ou exterior do Estado, de falsificação de selos
públicos, de moedas angolanas, de papéis de créditos públicos, de notas do Banco Nacional,
não tendo os criminosos sido julgados no país onde delinquiram. E a consideração da
importância dos valores enumerados no n.3 do art-53º que impõe a sua defesa mesmo fora dos
limites ds fronteiras do país.

O n.4 do art-53º estabelece uma difere,ça de regime, no que se refere a infractores não
nacionais. Para que se aplique a lei penal angolana a estrangeiros é necessário:

1. 1º Que compareçam em território nacional

2. 2º Que se possa obter a entrega deles.

Isso significa que não podem ser julgados à revelia, através do processo de ausentes.

Os nacionais, estejam ou não em território nacional podem ser julgados por tribunais
angolanos, aplicando-se-lhes a lei penal angolana.
Presume a lei que os nacionais, dados os vínculos que têm com o seu país, a ele
regressem, mais cedo ou mais tarde.

Pese embora a letra do m-4 do art-53º tenham sido julgados no país onde delinquiram (por
igualdade ou até por maioria de razão).

Outra diferença resulta do n.3 do art-53º que limita, aos delinquentes nacionais a sua
regulamentação, excluindo os estrangeiros. Só o infractor nacional condenado no estrangeiro,
que se subtraiu total ou parcialmente ao cumprimento da pena é que pode ser de novo julgado
em Angola, pela lei penal angolana.

Sendo estrangeiro, quando muito, poderá ser extraditado. É nesta possibilidade de


extradição que, em parte se fundamenta a diferença de tratamento de nacionais e estrangeiro
que, julgados no estrangeiro, se tenham furtado total ou parcialmente, ao cumprimento da
pena.

Com a Lei nº 4/77, de 25 de Fevereiro – Lei sobre a Prevenção e repressão dos Crime de
Mercenarismo- introduziu-se uma significativa correcção ao regime estabelecido nos nº 3 e 4
do art-53º do CP, pois,tal lei prevê a possibilidade, de ao infractor ser aplicada a lei penal
angolana por tribunal angolano, independentemente da comparência do criminoso, em
território nacional. Pode ser julgado mesmo estando ausente, à revelia, e de harmonia com as
regras especiais do processo de ausentes. Assim, a Lei nº 4/77, amplia o alcance do nº 4 do
art-53º do CP.

/b) EXTRA-TERRITOTIALIDADE POR APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO


DA 1NACIONALIDADE
Decorre do nº 5 do art-53º do CP.

A lei penal angolana, aplica-se a qualquer outro crime dos não compreendido no nº3
do art-53º do CP, cometido por cidadão angolano, em país estrangeiro, desde que se
verifiquem os seguintes requisitos:

1. Ser criminoso encontrado em Angola


2. Ser o facto qualificado com crime ou delito pela legislação do país onde foi cometido,
além de o ser pela legislação angolana.
3. Não ter o criminoso, sido julgado no país em que cometeu o crime.
O primeiro dos requisitos explica a relação que existe entre o princípio da nacionalidade e
o instituto da extradição.

Os nacionais não são extraditados, pelo que, a tendência é refugiarem-se no seu país
de origem. Se não fossem aí julgados, o crime ficaria em impune. Entende-se, porem que é
razoável não se iniciar a perseguição penal antes do seu regresso, até porque o mais provável
é ele ser julgado e punido no lugar onde cometeu o crime.

O segundo requisito é determinado por um critério de razoabilidade. Não seria


razoável punir um nacional por um acto lícito no país em que foi praticado.

Finalmente, o terceiro requisito está ligado ao princípio (non bis in idem). Julgar de
novo um criminoso, que já tenha sido julgado no país em que cometeu o crime, seria ofender
o referido princípio. Só não é assim, se o criminoso foi julgado e condenado no país em que
cometeu o crime, mas não cumpriu a pena ou não cumpriu totalmente, pois, nesse caso, como
já vimos, é julgado de novo no seu país, apenas levando em conta a pena já sofrida.

De resto, o princípio da nacionalidade só funciona plenamente em relação aos crimes a


que forem aplicáveis penas de prisão maior. Se aos crimes forem aplicáveis penas
correcionais a lei coloca uma condição de procedibilidade, que é a queixa do ofendido ou a
participação oficial da autoridade do país, onde os factos fora, cometidos.

c) EXTRA-TERRITORIALIDADE POR APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO


UNIVERSALISTA
Face ao art-53º do CP, o princípio universalista ou da defesa dos interesses universais,
não fundamenta nenhuma apliccação extraterritorial de lei penal. Prevê, apenas, a
possibilidade dessa aplicação, mas na dependência da celebração de acordos, tratados ou
convenções internacionais.

O princípio é, no entanto, acolhido pelo art-3º da Lei 4/77, segundo o qual, comete o
crime de mercenarismo, o cidadão angolano que, visando atentar contra a soberania e a
integridade territorial de um país estrangeiro ou contra a auto-determinação de um povo,
recrutar, organizar, financiar ou empregar mercenários, ainda que o faça em território
estrangeiro.

O princípio universalista foi também acolhido pela Lei 7/78, de 26 de Maio cujo art-
15º, no ser n.4º faz referência ao crime de pirataria cometido no mar ou no ar livres o que não
deixa dúvida sobre o reconhecimento do princípio universalista, por parte da citada Lei 7/78.
A lei angolana aplica-se, pois, aos crimes de pirataria, ainda que eles não tenham sido
cometidos em território nacional.

Tratando-se de crime de pirataria cometido fora do território nacional por estrangeiro,


é também aqui, razoável exigir que o delinquente compareça em território angolano ou possa
obter-se a sua entrega, e não tenha já sido julgado noutro país pelo mesmo crime,
nomeadamente, naquele ou num daqueles em que o cometeu.

RECONHECIMENTO DAS SENTENÇAS PENAIS ESTRANGEIRAS.


Em alguns dos seus preceitos, o art-53º pressupõe o reconhecimento de sentença
penais proferidas no estrangeiro, por tribunais estrangeiros. Necessário é saber até onde vai
esse reconhecimento. P. ex: poderá uma sentença condenatória proferida por um tribunal
estrangeiro, ser executada em Angola?

A execução de uma sentença é o cumprimento de uma decisão, de uma determinação


com força obrigatória própria, portanto, executar uma sentença condenatória estrangeira seria
reconhecer o poder de determinação e soberania de uma jurisdição estrangeira no territótio
nacional. Nesse sentido, nenhuma sentença proferida por um tribunal estrangeiro, tem
exequibilidade em Angola.

O reconhecimento tem de ter, pois, outros sentidos e produzir outros efeitos.

Os efeitos que uma sentença estrangeira, reconhecida, produz em Angola, são efeitos
próprios do caso julgado.

O principal é a causa, o processo, e não pode ser renovada em Angola.

Mas mesmo assim, só no caso de os crimes não terem sido cometidos, em território
nacional.

Se as sentenças penais estrangeiras, têm por objecto crimes cometidos em território


nacional, nem os efeitos do caso julgado lhe são reconhecidos. A lei atribui aos seus órgãos
jurisdicionais, competência exclusiva para julgar esses crimes. O contrário seria ceder o seu
direito de punir e o seu poder soberano de julgar, em benefício de uma jurisdição estrangeira.

Por outro lado, essa eficácia de caso julgado, quanto a delinquentes nacionais, fica
ainda dependente do cumprimento da pena, doe acordo com o n.3 do art-53º. Se a pena não
for cumprida ou não o for totalmente, opera-se a resolução do caso julgado e o processo pode
ser renovado.

/4.5 EXTRADIÇÃO

Extradição é o acto através do qual um Estado entrega um condenado ou um arguido


que se encontra no seu território a outros Estado, para ele cumprir uma pena em que foi
condenado ou para ser julgado pelos respectivos tribunais.

A extradição é activa do lado do Estado que a pode e é passiva do lado do Estado que
a concede.

O Estado que tem interesse em fazer cumprir a pena aplicada pelos seus tribunais a um
nacional que se refugiou noutro Estado ou que o quer julgar, formula o pedido de extradição
por via diplomática.

Na concessão de extradição, que é facto da soberania do Estado requisitado, entram


razões de fundo e de forma, mas sobretudo, considerações de oportunidade política.

Em Angola não há lei que regula a extradição, mas isso não significa que não possa
ser concedida.

O nosso País também ainda não celebrou tratados ou acordos de extradição.

Normalmente, os princípios a que obedecem esses tratados são os seguintes:

a. O crime praticado no estrangeiro, fundamento de extradição, deve ser também


crime, face à lei do país que concede;
b. Deve tratar-se de crime de alta gravidade.
c. Não deve ser aplicável ao crime, a lei penal do Estado extradiante;
d. O Estado a quem extraditado for entregue só deve julgá-lo e puni-lo pelo crime
que fundamentou o pedido da extradição e não por qualquer outro;
e. O crime não deve ter natureza política
f. O extraditando não deve ser nacional do Estado, a quem a extradição é pedida.

O processo de extradição pode ser judicial ou administrativo consoante quem julga os


pressupostos da extradição e quem a concede são os tribunais ou a administração do Estado.

Na falta de lei, a extradição fica na dependência da vontade administrativa e da


convivência do Governo
Extradição ou não extradição é, então, um acto de simples manifestação da soberania
de um Estado.
CONCLUSÃO

A lei penal no espaço, cuida do lugar onde o crime é praticado, servindo como
parâmetro para solucionar situações em que um crime inicia sua execução em um
determinado território e a consumação dar-se em outro.

A lei penal e sua aplicação no espaço também engloba a soberania nacional e sua
imposição em relação aos atos praticados em detrimento de sua autoridade, razão pela qual
adota tanto a territorialidade, como a extraterritorialidade em casos específicos.

Considera-se praticado o crime no lugar em que ocorreu a ação ou omissão, no


todo ou em parte, bem como onde se produziu ou deveria produzir-se o resultado, ou
seja, os crimes que ocorrem em território nacional estarão sujeitos à lei nacional.

O novo Código Penal Angolano, faz menção da aplicação da lei penal no espaço no
seu art-4º “A Lei Penal Angolana é aplicável a factos total ou parcialmente praticados em
território angolano ou a bordo de navios ou aeronaves de matrícula ou sob pavilhão
angolanos, independentemente da nacionalidade do agente, salvo convenção ou trabalho
internacional em contrário.”

A passo que o novo Código de Processo Penal Angolano, faz menção da aplicação da lei
penal no espaço no ser art-5º. nº1 “A Lei Processual Penal é aplicável em todo o território
nacional.” nº2 “Fora do território nacional, a Lei Processual Penal só é aplicável nos limites
definidos pelo direito internacional e pelos acordos, tratados e convenções internacionais de
que Angola é parte.”

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BIBLIOGRÁFIA
1. Código Penal Angolano

2. Apontamentos de Direito Penal de Orlando Rodrigues. Escola editora. 2014. Luanda

3. https://ambitojurídico.com.br/

4. Direito Penal Português de Germano Marques da Silva. 2º Edição. Editora verbo.


2001.

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