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"IJHI I ItllrUlItt L cutture eu pturiet

I 01,111.' du ull. 1993


11 ,/i/\." Lllld Abr u Dobránszky

Capa. Femando Cornacchia


Antonio César de Lima Abboud
Copidesque: Margareth Silva de Oliveira
Revisão: Lúcia Helena Lahoz Morelli

Dados Inlernacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Certeau. Michel de. 1925·1986.


A cultura no pluraV Michel de Certeau ; tradução Enid Abreu
Dobránszky. - Campinas. SP: Papirus. 1995. - (Coleção Travessia
do Século)

ISBN 85·308·0330·2

1. Antropologia 2. Antropologia social 3. Cultura - História


4. História social I. Titulo. 11.Série.

95·0907 CDD·909
suMÁRIo
índice para catálogo sistemático:

1. Cultura: História 909

A INVENÇÃO DO POSSÍVEL 7
PREFÁCIO 17

PARTE I
EXOTISMOS E RUPTURAS
DA LINGUAGEM

I. AS REVOLUÇÕES DO "cRÍVEL' 23
2. O IMAGINÁRIO DA CIDADE 41
3. A BELEZA DO MORTO 55
51 Edição 4. A LINGUAGEM DA VIOLÊNCIA 87
2008
PARTE II
Proibida a reprodução total ou parcial NOVOS MARGINALISMOS
da obra de acordo com a lei 9.610/98.
Editora afiliada à Associação Brasileira
dos Direitos Reprográficos (ABDR). 5. AS UNIVERSIDADES DIANTE
101
DA CULTURA DE MASSA
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© M.R. Cornacchia Livraria e Editora lida. - Papirus Editora
7. MINORIAS 145
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PARTE III
POLÍTICAS CULTURAlS

8. A ESTRUTURA SOCIAL DO SABER 163


9. A CULTURA NA SOCIEDADE 191
10. O LUGAR ONDE SE DISCUTE
A CULTURA 221
CONCLUSÃO: ESPAÇOS E PRÁTICAS 233

A INVENÇÃO DO POSSÍVEL

Historiador da primeira modernidade da Europa, do


século XVIao XVIII,Míchel de Certeau privilegiou o estudo
do campo religioso e da experiência dos místicos, nessas
épocas tumultuadas em que a tradição cristã se fragmenta-
va em Igrejas rivais, quando os mais lúcidos viam se
obscurecerem os sinais de Deus e se encontravam obriga-
dos a buscar no segredo da aventura interior a certeza de
uma presença divina que se tornara ínapreensível ' no exte-
rior. Acerca desse processo de emancipação Certeau
investigou com respeito e uma espantosa delicadeza os
caminhos obscuros, não para julgar uns ou outros, nem
para apontar o domínio da verdade e do direito legítimo,
mas para aprender com o passado como um grupo social
supera o eclipse da sua crença e chega a obter beneficio das
condições impostas para inventar sua própria liberdade,
criar para si um espaço de movimentação.
Essa maneira de ler a história cultural e social, Cer-
teau a constituíra no entre cruzamento das disciplinas e dos

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riqueza em instrumentos de aventura: a medicina meta-
morfoseía-se em droga; o automóvel, em risco.
Essa reaplicação dos bens possuídos em bens a perder
confere, sem dúvida, seu verdadeiro alcance à economia que
liga a produção ao consumo. Pois consumir é também anular
e perder. Há, por certo, a economia que articula sua fmalidade
e seu móbil ao dizer logo: "Gastem!" Há aquela que recusa
sua própria lei e se retrai na sua mesquinhez capitalizadora,
declarando: "Enriqueçam!" A essa divisão entre gastar e guar-
dar correspondem grandes opções culturais e políticas: no
limite, é a opção da nação revolucionária que prefere a seus
bens o risco de existir, ou então a dos grupos conservadores,
cujo temor de arriscar sua herança obriga a fetichizar a
felícídade que estão justamente a ponto de perder. 3
A BELEZA DO MORTOl
Pode-se julgar paradoxal essa "ética" coletiva ou indivi-
dual. É preciso que se repita, no entanto. Quem deseja
guardar coloca-se na dependência de uma ordem, de uma
possessão ou de uma ciência, e se submete à lei (a do lucro
ou a da segurança) que elimina, com o risco, a felícídade que Ninguém consente voluntariamente em ser
ela promete. Aliena-se. Nada "obtém" da felícídade senão enterrado vivo, e a magnificência do túmulo
não toma a estada mais saudável.
representações. Porquanto não parece haver felicidade senão
onde o outro é a condição do ser, onde sefaz a.festa, onde a Charles Nisard
conservação dos bens é alterada por um dispêndio feito em
nome de outrem, de um outro lugar ou do Outro, onde se
interpõe a festa de uma generosidade comunicativa, de uma A "cultura popular" supõe uma ação não-confessada.
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aventura científica, de uma fundação política ou de uma fé. 1


I'oí preciso que ela fosse censurada para ser estuda~a.
'I ornou-se, então, um objeto de interesse porque seu peng?
foi eliminado. O nascimento dos estudos consagrados a
Nota literatura de colportaqe (o livro iniciador foi o de NiS~d,
1854) está, de fato, ligado à censura social de seu obJet_o.
1. Cf., por exemplo, as análises de G.Thill, Lafête scieniifique, co-edição Ela desenvolve um "sábio intuito" da polícia. Uma repressao
Aubíer etc., Bíblíothêque des scíences relígíeuses, 1973, pp.156-
181.
• De colporter (transportar consigo a mercadoria à venda). Designa a literatura
veiculada por meio dos livreiros ambulantes (colporteurs), .principalmente. no.s
séculos XVII e XVIII. Manteve-se a palavra francesa em VIrtude da específíct-
dade desse tipo de literatura, lida especialmente pelo povo em geral. (N.T.)

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54
I It , I
I I I. I !IIl \1'111 de uma curiosidade científica: a
11111111.11 ,til do, livros julgados "subversivos" e "imorais", Essa declaração vem após as jornadas republicanas
1.11111 ol [ul um aspecto do problema, mas ele coloca uma dI r vereiro e junho de 1848 e após 1852, data da restaura-
1111 \'t' geral. • no do Império. Daquilo que se corrigira podia-se fazer um
"objeto" científico.

Velho reflexo. M. Soriano mostrou que ele havia se


No início, há um morto
c,' rcido à época da Fronda, em 1647-1653, quando a
linguagem do "populacho", minuciosamente apresentado
Os estudos desde então consagrados a essa literatura pelos irmãos Perrault em seus poemas burlescos, havia se
tornaram-se possíveis pelo gesto que a retira do povo e a transformado em zombaria, ao mesmo tempo em que per-
reserva aos letrados ou aos amadores. Do mesmo modo, não mitia ridicularizar os "clássicos". De um lado, esse cavalo de
surpreende que a julgem "em Via de extínçáo" , que se Tróía lhes era útil em uma polêmica contra os "antigos":
dediquem agora a preservar as ruínas, ou que vejam a querela entre os letrados, como atualmente entre escolas
tranqüilidade de um aquém da história, o horizonte de uma lássicas e modernas. Mas, de outro, esse fundo popular,
natureza ou de um paraíso perdido. Ao buscar uma litera- um momento útil, torna-se temível à medida que se desen-
tura ou uma cultura popular, a curiosidade científica não volvem as sublevações populares da Fronda. Também os
sabe mais que repete suas origens e que procura, assim, Perrault os mantêm cada vez mais a distância, irônicos e
não reencontrar o povo. hostis, à proporção que aderem a Mazarino. O "cômico" e a
"curiosidade" desse Iínguajar vão a par, nesses grandes'
Seus resultados e seus métodos traem, no entanto, burgueses ameaçados, do triunfo da ordem graças ao car-
essa origem, da qual a censura de 1852 não constitui, como deal. O burlesco dá o alcance da derrota do povo, cuja
veremos, senão um caso particular. Um grande número de cultura é tanto mais "curiosa" quanto menos temíveis são
trabalhos recentes revela-nos detalhes acerca dessa ques-
os seus sujeitos."
tão, ainda que ignore de onde provém seu discurso. O
próprio Nísard não o ignorava. Ele até mesmo se vangloriava Esse sistema ainda funciona, embora de outros modos
dessa condição, a de "secretário adjunto" da polícia: "Quan- e nas próprias obras que inspiram hoje convicções contrá-
do, chocado com a influência desastrosa que até então rias às do passado. Outrora, elas eram conservadoras,
exercera sobre todos os espíritos essa quantidade de maus apaixonada e abertamente, como em Nisard. Sobretudo
livros que o colportage espalhava praticamente sem qual- após 1969, a erudição posta a serviço da cultura popular é
quer dificuldade pela França inteira, o sr. Charles de Maupas, de inspiração marxista, ou pelo menos "populísta". Ela se
ministro da polícia geral, concebeu e executou o sábio insere também no que se segue a uma "história social" em
intuito de estabelecer uma comissão permanente para o pleno desenvolvimento há 30 anos. Ela desenha, enfim, a
exame desses livros (30 de novembro de 1852), teve a utopia de uma outra relação política entre as massas e a
bondade de me convocar como seu membro, com o título de elite.5 Mas a operação científica obedeceria a leis diferentes
secretário adjunto. Isso me permitiu tanto reunir esses das do passado? Ela parece, ao contrário, estar ainda
livrinhos quanto estudá-los com o mais rigoroso zelo.,,3 submetida aos mecanismos de excomunhões muito anti-
gas. "A sociologia da 'cultura popular"', dizia Mühlmann,
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"começa com o laícísmo dos heréttcos.t'' O mesmo processo proximidade da natureza ligada a séculos de moral cristã
de eliminação continua. O saber permanece ligado a um produz esses "sujeitos fiéis, dóceis e labortosos'{ que pode-
poder que o autoriza. mos ver, por exemplo, em Salancy ou na Picardia,. onde,
todos os anos, em 8 de junho, coroa-se uma tostêre:
O que está, portanto, em causa, não são ideologias
nem opções, mas as relações que um objeto e os métodos Salancy, lugar favorecido por Deus, se for um dia
científicos mantêm com a sociedade que os permite. E se os escrita a história da Virtude, tua festa será célebre
procedimentos científicos não são inocentes, se seus objeti- dentre seus fastos. Lá, dír-se-á, sábios e bons cida-
vos dependem de uma organização política, o próprio dãos vivem em uma simplicidade digna da Época
discurso da ciência deve admitir uma função que lhe é antiga. Lá, longe das falsas necessidades, mãos
concedida por uma sociedade: ocultar o que ele pretende laboriosas fornecem a corpos vigorosos um alimen-
to frugal. Lá, castas esposas proporcionam horas
mostrar. Isso quer dizer que um aperfeiçoamento dos méto- felizes a esposos honrados. Lá, uma donzela leva
dos ou uma inversão das convicções não mudará o que uma como dote para seu pretendente apenas sua sabe-
operação científica faz da cultura popular. É preciso uma doria, sua doçura e a glória de haver merecido a
ação política. Rosa. Lá, enfim, sob um Pastor sábio, um povo
industrioso, sob leis brandas, cumpre em paz todos
Um pouco de história nos esclarecerá, ademais, esses os deveres do cristão e do cidadão.
recomeços atuais. Festa da Rosa, instituição consagrada pela sabe-
doria e pela honra! Augusta solenidade, onde o
prêmio mais singelo é concedido à inocência mais
pura!8
Nascimento de um exotismo (o século XVIII)
A moda das festas das rosiêre, a partir dos anos 70
Como nasce esse exotismo do interior, esse olhar que do século é o retorno a um povo ao qual se cortou a
considera oprimida a realidade a que ele visa e idealiza? palavra para melhor domesticar." A idealização do "popu-
Dois momentos privilegiados são reveladores dessa ótica: o lar" é tanto mais fácil quanto se efetua sob a forma do
fim do século XVIII, de um lado, os anos 1850-1890 de monólogo. Por outro lado, se o povo não fala, pelo menos
outro. Uma espécie de entusiasmo pelo "popular" toma pode cantar. A moda das canções populares - Dame
conta da aristocracia liberal e esclarecida do fim do século Poitrine revelou, em 1781, à corte de Luís XVI, Marlbrough
XVIII.Porém essa rusticofilia que se reencontra nos roman- s'en va-t-enguerre, que Beaumarchais deveria colocar nos
ces de Louvet e Rétif é também o avesso de um temor: a da lábios de Cherubin três anos mais tarde - é um outro
Cidade perigosa e corruptora porque as hierarquias tradicio- indício desse confisco de um tesouro perdido. O prazer
nais aí se dissolvem. De onde esse retorno a uma pureza entido no halo "popular" 10 que envolve essas melodias
original dos campos, símbolo das virtudes preservadas des- "ingênuas" funda justamente uma concepção elitista da
de os tempos mais antigos. Mas esse selvagem do interior
que é o camponês francês - a espessura da história subs-
titui aqui a distância geográfica - apresenta a vantagem de • Rosiêre: virgem premiada pela sua virtude com uma coroa de rosas e um dote.
ser ao mesmo tempo civilizado pelos costumes cristãos: a (N.T.)

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ultura. A emoção nasce da própria distância que separa o Os costumes de nossos bons avós eram singelos
ouvinte do suposto compositor. como o patoá e este parecia feito para figurarAa
singeleza e a bonornía. Sendo assim [talvez deve~-
Mas a atitude assim desprendida não constitui o único semos] deixar-lhes as virtudes singelas e naturats
fato de uma aristocracia mais ou menos masoquista. É antes que essa mudança funesta se operasse; mas
também a dos constituintes. O questionário que o abade agora a ignorância unida à corrupção seria o pior
13
Grégoire, cura do Embermesnil, lança em agosto de 1790 de todos os males.
sobre o patoá da França e que resulta no seu famoso
relatório de Prairial ano lI: Sur la nécessité et les moyens A constatação se confirma: é no momento em que uma
d'anéantir les patois et d'universaliser l'usage de la langue ultura não mais possui os meios de se defender que o
française+ revela suas preocupações. O que conta aqui são
ctnólogo ou o arqueólogo aparece. Como diz o próprio Gré-
menos os ensinamentos - que o historiador pode e deve goire, em seu relatório à Convenção: "O conhecimento dos
tirar para uma análise da cultura popular - do que a dialetos pode lançar uma luz sobre alguns monumentos da
intenção manifestada pelo investigador e seus correspon- Idade Média... Quase todos os idiomas possuem obras que
dentes. Trata-se, ao mesmo tempo, de coletar ("Tendes obras desfrutam de uma certa reputação. Já a Comissão das
em patoá, impressas ou manuscritas, antigas ou moder- Artes, em sua instrução, recomendou que se recolhessem
nas? .. Haveria possibilidade de enviá-Ias, sem muita sses monumentos impressos ou manuscritos; devemos
dificuldade?,,)12e de restringir ("Qual seria a importância procurar as pérolas até na esterqueira de Ennius.,,14
religiosa e política de destruir inteiramente esse patoá? .. O
povo do campo são muito preconceituosos e com relação a
quê? .. De 20 anos para cá, são mais esclarecidos?"). A Charles Nisard (1854)
maioria das respostas (provinda, na sua maior parte, de
burgueses - magistrados ou curas) se pronuncia a favor de O período 1850-1890 definiu uma segunda etapa
uma eliminação dos patoás. Sem dúvida a razão mais desse culto castrador votado a um povo que se constitui,
freqüentemente alegada para a uníversalízaçáo da língua a partir de então, como objeto de "ciência". Fa:ta ain~a
francesa é a da destruição da odiosa feudalidade que seria indagar acerca dos postulados subjacentes ao folclons:
mantida, à revelia, pela sobrevivência dos particularismos. mo". É exatamente no momento em que o colportage e
Mas esses citadinos esclarecidos não retomam, sem o saber, perseguido energicamente que as pessoas cultas se, de-
a tocha da campanha escolar levada pela Igreja da Reforma bruçam deleitosamente sobre os livros ou os conteudos
católica: a Unidade nacional- exatamente como no passa- populares. Em uma circular de aplicação da lei de 27 .de
do o retorno do herético - será feita pela instrução, isto é, julho de 1849 sobre a imprensa, o ministro do Intenor
pela eliminação de uma resistência devida à ignorância. escrevia aos prefeitos: "A característica mais comum dos
Inquestionavelmente, alguns temem pela "pureza" dos cos- escritos que se tenta espalhar no momento e aos quais se
tumes rústicos; porém, como observa um deles, o patoájá dá a forma mais popular é dividir a sociedade em duas
está condenado: classes, os ricos e os pobres, representar os primeiros
como tiranos, os segundos como vítimas, incitar à inveja
e ao ódio uns contra os outros e preparar, desse modo, na

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nossa sociedade, que tanto se preocupa com a união e a belle époque do folclore (a III República)
fraternidade, todos os e1ementos d e uma guerra ci'vil.,,15
Vinte e cinco anos mais tarde, a primeira onda folclo-
De onde a criação, pelo ministério da Polícia Geral, em lista é contemporânea dos inícios da III República. Ela
30 de novembro de 1852, de uma "comissão para exame dos c .plora um mundo rural que a via férrea, o serviço militar
livros do cotportaqe": não mais bastava espionar os colpor- (menos ainda os meios de comunicação de massa) ainda
teurs, era preciso controlar, por meio da concessão de selos, IlilOhaviam posto em contato com a Cidade: um mundo que
o conteúdo das obras difundidas, verificando se ele não era (' deslocará rapidamente após a Primeira Guerra Mundial.
contrário "à ordem, à moral e à religião". Ora, é a Charles () uidado folclorista, no entanto, não está isento de segun-
Nisard, secretário dessa comissão, como lembramos mais da intenções: ele deseja localizar, prender, proteger. Seu
acima, que devemos a primeira Histoire des livres populaires interesse é como que o inverso de uma censura: uma
et de la littérature de colportage. 16 No prefácio de sua primei- Iutegraçáo racionalizada. A cultura popular define-se, desse
ra edição, o autor confessa suas intenções com uma candura modo, como um patrimônio, segundo uma dupla grade
desarmante: "Eu avaliava que se, no interesse das pessoas 111 tóríca (a interpolação dos temas garante uma comunida-
facilmente ínfluencíáveís, como os operários e os habitantes de histórica) e geográfica (sua generalização no espaço
do campo, a Comissão não devia deixar de proibir três quartos ,11 sta a coesão desta). A genealogra e o comparatismo vêm,
desses livros de colportage, essa proibição não dizia respeito portanto, reforçar a existência de uma unidade do repertó-
àqueles que estavam a salvo das leituras perniciosas, isto é, 110 francês, no qual uma mentalidadejrancesa se exprime.
os eruditos, os bibliófilos, os colecionadores e até mesmo Assim arrumado, o dornínío popular cessa de ser o mundo
simples curiosos da literatura excêntrica. Julguei, portanto, ruquíetante que Nisard se esforçava por exorcisar e circuns-
ser meu dever fazer algo que seria agradável a uns e outros ao C'Iver havia menos de um quarto de século. O folclore
reunir todos esses livrinhos sob um único ponto de vista e 'ilrante a assimilação cultural de um museu desde então
salvá-los todos do naufrágio no qual estavam sujeitos a pere- 11 anqüílízador: "Ouvir nossas canções camponesas não será
cer quan do ISO. 1a dos. ,,17
c1(' pouca utilidade para os músicos e os poetas. Eles perce-
I lerão melhor, ao ouvi-Ias, que o segredo para comover e
Desse modo, portanto, o povo era uma criança cuja
cli antar não consiste na busca de sonoridades e de vocá-
pureza original convém resguardar, preservando das leitu-
lmlos bizarros, mas na exatidão do acento e na sinceridade
ras perniciosas. Mas os amadores esclarecidos podem
d,1 inspiração ...", proclama essa mesma revista que nega
reservar à seção "curiosa" das suas bibliotecas as coletâ-
lodo interesse à etnología colonial e lembra, afinal de con-
neas dos folcloristas, exatamente como no passado os
I,IS, "mas. sobretudo, permaneçamos franceses"! 18
aristocratas mandavam encadernar os almanaques com
suas armas. O interesse do colecionador é o correlato de Esse interesse é. por outro lado, ambíguo de uma
uma repressão que exorcisa o perigo revolucionário que as nutra maneira. As conotações do termo popular que reen-
jornadas de junho de 1848 haviam mostrado estar sempre C'O ntramos nas revistas folcloristas da época são
à espreita. cclarecedoras: o popular aí está associado ao natural, ao
'(rdadeiro, ao ingênuo, ao espontâneo, à infância. Muitas
'( Z s, o zelo folclorista desdobra-se em preocupações fede-

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1 ali ,t ,cujo sentido político é evidente. Não por acaso, o mente o gosto do canto; é um rio, é preciso matar a sede
P?pular é, desde então, sempre identificado com o campo- nele.23É, sem sombra de dúvida, uma mulher que precisa-
nes. A cultura das elites, as próprias elites são ameaçadas mos revelar a ela própria: "Em suma, toda criação do
em u~ outro fronte: as classes trabalhadoras e perigosas spírito humano deve, para se aperfeiçoar, percorrer três
das cidades, e antes de mais nada de Paris, constituem a stágtos: em primeiro lugar, concepção quase espontânea
partir de então uma outra ameaça presente. G. Paris não de um ideal nas imagens populares, isto é, Tradição e
procura escondê-lo quando, em um discurso solene na Inconsciência; depois, organização racional desse ideal na
Sorbonne, define a arte popular: "Tudo aquilo que se produz obra de gênio, isto é, Consciência e Artes; enfim, encarna-
ou se conserva no povo, longe da influência dos centros ção desse ideal na realidade, isto é, Progresso Social... Em
urbanos.r l'' A reivindicação de uma restauração da vida um grande homem, há sempre e deve haver um inconscien-
provinciana, sancionada por um medievalismo meritório, a te nervoso e sentimental como uma mulher; mas há e deve
exígêricía de uma renovação social que deverá reencontrar sempre haver nele, além disso, uma perspicaz e preponde-
o camponês no operário e conhecer as virtudes primitivas rante virilidade ...,,24Elogio do estupro dialético? Em todo
d a terra, w a vontade de um retorno as . fontes estéticas caso, confissão apenas travestida de uma violência antiga
contra o "refinamento preocupante e o equívoco intelec- que oscila agora entre o voyeurismo e a pedagogia. Nesse
tual": os mesmos temas que anunciam os da Revolução campo, tudo é possível. O liberalismo um tanto desdenhoso
nacional- Vichy, essa outra idade de ouro da tradição e do de alguns grupos aponta precisamente que "o espírito novo
folclorismo - e que, de imediato, manifestam a existência não despreza nin~uém; na natureza, na humanidade nada
de um populismo dos poderosos, em busca de uma nova lhe é indiferente". 5 O povo é, como um todo, o bom selva-
aliança. Encontramos seu eco nesse entusiasmo curiosa- gem: o confinamento cultural pode ser seguido da reserva
mente atual e, no entanto, fortemente acentuado de ou do museu. O olhar dos letrados pode se querer neutro e
Déroulêde: "Sim, .vamos aos operários e aos camponeses; - por que não? - simpático. A mais secreta violência do
melhor ainda, se pudermos, tornemo-nos nós mesmos cam- primeiro folclorismo foi ter camuflado sua violência. Ela nos
poneses, operários, misturemo-nos em suas festas; façamos transporta para o presente.
com que renasçam aqueles que a intolerância ou o esqueci-
mento mataram; criemos outros novos.,,21 A França
burguesa, uma imensa quermesse? Um benefício nunca se
perde. o mito da origem perdida

Espontâneo, ingênuo, o povo, uma vez mais, é uma O que significa "popular"? Em seu estudo sobre "popu-
criança. Não mais essa criança vagamente ameaçadora e lar e povo", Marcel Maget fala da "impossibilidade de definir"
brutal que se quis mutilar: o filho pródigo retorna de longe e de "aporias lógicas". Ele adiciona e multiplica os critérios
e se adorna com os enfeites do exotismo. Com sua distância que sua crítica remete a outros, indefinidamente, até a
também. Para G. Vícaíre, "a tradição, um mundo de sensa- vertigem.26 Quanto à história, ela se sai melhor, quando se
ções inéditas" deve nos dar novamente a conhecer "a alma põe em busca da literatura popular sob o Antigo Regime?
~ão obscura, tão difícil de penetrar do camponês".22 O povo Pode-se duvidar, apesar do reforço de estudos admíráveís de
e uma porcelana japonesa: devemos despertar-lhe nova- Robert Mandrou, Genevíeve Bollême, Marc Soriano etc.27

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Nesse fluxo de livros eruditos, a literatura popular nem dade. Uma vez cumprido esse papel, em fins do século
sempre diz seu nome. XVIII, o almanaque não teve mais razão de ser; torna-se
"antiquado, obsoleto", pois o povo se põe então a falar a
Com outros, mais claramente do que outros, M. Soria- filosofia única, "conjugação do bem viver, da ciência, da
no distingue, na literatura dita popular, os "escritos para pesquisa e do gosto pela verdade, do desejo de felicidade,
uso do povo" e as "obras autenticamente populares". No do esforço em direção à virtude".31 Porém, para Bolleme.
entanto, os próprios textos - os contos escritos pelos tudo isso funciona porque há, no povo, um "gosto", o do
Perrault, sem sombra de dúvida, e também os almanaques aber ou o "de ser instruído",32 de cuja sonolência os alma-
(G. Bollême o mostra) - têm profissionais como autores?8 naques despertam. Esse "gosto", correspondente a uma
Eles revelam, portanto, a mentalidade dos intelectuais. Mas "necessidade" ou a uma natureza profunda, é trazido à luz
esses especialistas, esses letrados, não seriam eles mais pelo que há de excitante nos almanaques que inicialmente
adaptados ao gosto de seu público? Em outras palavras, o apresentaram o povo como o lugar onde habita um Deus
"popular" deveria ser procurado entre os leitores? É pouco pobre e onde uma sabedoria interior se transmite a si
provável, apesar da difusão dos almanaques durante o mesma. Mas, afinal, não se deveria concluir que o Deus
Antigo Regime (72 mil exemplares para o de Colombat, de oculto não é outro senão esse "gosto" e essa "necessidade",
150 mil a 200 mil para outros). Em uma França ainda com sol que a trombeta dos intelectuais tira da escuridão?
60% de analfabetos, por volta de 1780 (80%, em 1685), os
almanaques encontram-se antes na biblioteca das classes Em M. Soriano, o esquema parece o inverso. Para ele, é
médias - R. Chartier observou-oé'' e muitos dos arquivos o a própria literatura popular, "muito antiga", enraizada nas
confirmam. Esses livrinhos do século XVIII parecem, por- origens da história e transmitida por uma tradição oral, que
tanto, ocupar a mesma posição que a atual literatura de
II bolso: atenderiam a um número maior de leitores, mas,
emerge na literatura clássica. Ela transparece pouco a pouco
na obra dos letrados, exatamente quando, tal como os Per-
parece, sem ultrapassar a fronteira das classes favorecidas rault, deixam de sentir qualquer "simpatia especial pelas
e médias.3o massas trabalhadoras" e crêem somente utilizá-Ias. Contra-
riamente à hipótese de G. Bollêrne, M. Soriano vê o
Onde colocar, pois, "o autenticamente popular"? Uns movimento remontar às profundezas da tradição popular até
verão nele o tesouro oculto de uma tradição oral, fonte as obras clássicas, e não descender de uma literatura de elite
"primitiva" e "natural", que deságua na literatura escrita. para produzir uma vulgarização estimulante.
Outros postulam uma unidade da cultura, mas prolongada
no curso de um movimento que faria da literatura de elite Essa ascensão tira sua força de "necessidades funda-
anunciadora das evoluções globais. Há, portanto, vários mentais" e de "aspirações profundas". A expressão popular
sistemas de explicação. é sua manifestação primeira.33 A história literária encontra
aí sua "origem" natural. Segundo a perspectiva de M. Soria-
Para Bollême, a literatura de elite do Antigo Regime no, essa "origem" não é totalmente invisível nem redutível à
degradou -se em uma cultura "popular", elaborada por letra- evocação de aspirações populares. Ela possui, mais próxi-
dos especializados, mas possui, assim, a função transitória ma de si do que as obras de letrados, uma expressão
de despertar no povo uma necessidade de saber e de felící- "autêntica" na arte popular. A busca da origem se faz,

66 67
portanto, mediante uma pesquisa dos textos "primitivos". pl nas como evanescente e inapreensível? Na sua bela e
Um método textual, aliás bastante extraordinário, deve, rudíta "Introdução à canção popular francesa", como vi-
pois, pressupor que esses textos primitivos sejam caracteri- mos, Henri Marrou já dizia que, em última análise, "a
zados por um "estilo sóbrio, enérgico e eficaz". Desse modo, I o,II ão folclórica extrai de seu caráter distintivo um halo
torna-se possível hierarquizar as versões do mesmo conto e popular que a encobre aos nossos olhos". 34 Qual o sentido,
recuperar "o autenticamente popular" na literatura das pois, desse fantasma que designa a origem ao ocultá-Ia,
elites. A "sobriedade", a versão curta, o vigor: todos esses I lI s e "halo" que mostra ao "encobrir"?

traços, atribuídos a uma genialidade fundamental, permi-


tem dizer onde se encontra o "primitivo". Uma hipótese impõe-se, ainda que ela não explique
t, ido. Esses estudos sobre a cultura popular tomam por
É verdade que essa construção repousa inteiramente ob] to sua própria origem. Eles perseguem na superfície dos
naquilo que pretende provar. Ela pressupõe que o popular Ic'. tos, diante de si, aquilo que é, na realidade, sua condição
seja o começo da literatura e a infância da cultura; que a lI! opossibilidade: a eliminação de uma ameaça popular. Não

pureza de uma origem social esteja enterrada na história; urpreende menos que esse objeto de interesse tome a
que uma genialidade primitiva seja incessantemente adap- figura de uma origem perdida: a ficção de uma realidade que
tada pela literatura e deva ser incessantemente preservada I lI ve ser encontrada conserva o traço da ação política que a
e reencontrada; que, enfim, a tradição popular articule as organizou. A literatura científica faz funcionar como uma
profundezas da natureza (as "aspirações profundas" e as , ( presentação mítíca o gesto que está em seu nascimento.
perfeições da arte - sobriedade, vivacidade, eficácia da loJanão poderia, portanto, introduzir no discurso, como um
narração). Com um pouco de psicanálise, explicaremos facil- objeto ou um resultado de procedimentos rigorosos, o ato
mente o recalcamento dessa origem e o retorno do recalcado Inicial que constituiu uma curiosidade ao eliminar uma
na própria linguagem da repressão. I ealídade. E, sem sombra de dúvida, ela não solucionará

uas contradições internas enquanto esse gesto fundador


O impressionante nessas análises não são, como dizia for "esquecido" ou negado.
M. Maget, as "aporías" resultantes dos termos do problema
tal como é colocado, mas o alcance desse problema: encon-
trar a origem perdida. Seja qual for o seu tratamento
científico, essa fascinação do objeto perdido toma posse dos Leituras eruditas de temas populares
métodos na vertigem da sua contradição interna. Ela os
captura na sua impossibilidade. Reencontra-se, no nível da análise e da interpretação
Antes de criticar a abordagem - considerável, como dos temas, a ambigüidade do objeto cultura popular que já
sabemos - dos estudos apontados, nosso exame visa à deixavam transparecer as formulações contrárias e, no
I pressão quase obcecada que exerce sobre eles essa questão entanto, solidárias, ao problema da origem. O primeiro
da origem. Ela parte do próprio conceito de "cultura popular". momento é o do recenseamento. Ele é útil e necessário, o
II De onde vem, portanto, essa sombra? Como se cons-
que não quer dizer que por isso seja evidente. G. Bollême e
I . Mandrou constituíram repertórios, aliás abertos, temas
tituiu essa forma que parece se apresentar às pesquisas ( ssenciais que reencontravam nos almanaques ou nos ca-

68 69
tálogos da Biblioteca Azul: "Explorar os temas principais, as I 111; I da cultura das elites poderia justamente significar
presenças e as ausências no interior do repertório da Biblio (I domínío popular não existe ainda porque somos
teca Azul é obter, com certeza, em larga medida, os próprios 111.11. s de falar dele sem fazer com que ele não mais
temas da cultura popular francesa sob o Antigo Regime...-ss I 1.\. R. Mandrou escreve que as "incoerências fazem
Muito bem. Mas há quem suponha que esses temas s I te- d ssa visão do mundo que a Biblioteca Azul espalhou
~pr~sentem por si mesmos como pertinentes e que a 11 .111 t mais de dois séculos". 38 São , paradoxalmente, os
umdades significativas" assim inventariadas realmente o 11110 dos antigos censores. Essas incoerências são, con-
sejam. Deparamos aqui com o problema irritante e clássico Ido, o inverso da nossa impotência em reencontrar a
que se coloca aos historiadores, como a outros praticantes I( II ncía de uma totalidade cultural: eis os nossos prímítí-
das ciências humanas, a modéstia agressiva dos folcloristas fi • Disso resulta, o que é mais grave ainda, uma
- da classificação de Aarne- Thompson no Manuel de Van qualificação do objeto assim classificado, re-situado e
Gennep: solidamente encastelados em um posítívísmo pro- d então tranqüilizador.
clamado, na recusa em interpretar ou em concluir, esses
rr:ventários não serão a artimanha extrema e como que a
vmgança da interpretação? Sabe-se atualmente muito bem
que ninguém está livre disso. () popular na história social

De onde surge uma dupla interrogação: de onde falam Porém há mais ainda. Os problemas do inventário
os hist?riadores da cultura popular? E, por conseguinte, n-metem mais profundamente aos da interpretação dos
que _obJeto constituem? Não é indiferente observar que as II mas e, antes de mais nada, aos colocados pelo próprio
n?çoes que serviram para constituir sua grade de inventário estatuto da interpretação. O que dizem os textos trazidos
sao tod~s tomadas emprestadas às categorias do saber (em li sse modo à luz, o que podem dizer? A temática da litera-
G. B.olle:ne) ou, de uma maneira mais ampla, à cultura lura popular apresenta-se nas nossas obras como a
e~udita a qual R. Mandrou quis restituir o alótropo,36 "um manifestação de algo diferente que a sustentaria, o popular.
mvel cultural menosprezado, esquecido": ofeético, o mara- Nada mais esclarecedor, a esse respeito, do que o capítulo
vilhoso, o pagão, os conhecimentos cieniificos ou ocultos sumário consagrado por M. Soriano às massas camponesas
definem menos o conteúdo de uma cultura popular do que ao folclore dos fim do século XVII;39ele questiona, ao
o .olh~ que lança sobre ele o historiador. "Ainclinação em aumentar os problemas, a própria existência de uma histó-
direçao ao real, ao atual, ao humano" que G. Bollême lê nos ria social da oultura: uma evocação rápida do "sombrio
almanaques do século XVIII, a que real, a que história, a éculo XVII", algumas generalidades acerca das tensões
quem ela conduz? A recusa da duração, na qual se vê, por sociais no campesinato francês (as revoltas) e acerca de sua
outro lado, a característica desse fundo culturaí''? não será suposta derivação ideológica (a feitiçaria), alusões ao mun-
antes o reco~eCimento, pela cultura erudita de hoje, de do da crença e da superstição tomadas emprestadas aos
sua temporalldade essencial e, finalmente, uma confissão autores recentes acabam por servir de caução histórica à
espantada diante de seu outro? A reconhecida incerteza investigação. "É", diz Soriano, "nesse contexto que é preciso
quanto às fronteiras do domínio popular quanto à sua situar o folclore, isto é, o conjunto das manifestações artís-
homogeneidade diante da unidade profunda e sempre rea- ticas desse campesinato: danças, cerimônias, canções e,
I
I
70
71
naturalmente, contos.r''" Além de não ser evidente a identi- 11111 ão do pastor, marginal social por profissão, sujeito e
dade entre "artístico" e "popular", vê-se muito bem que a 0111 .to natural, cuja simplicidade se rege segundo a evidência
cultura popular define-se aqui de maneira apenas tautoló- I vangélíca, cuja inocência, ao mesmo tempo em que garante
gíca: é "popular" aquilo que reflete imediatamente a situação Ilcsta, carrega a violência, poderia justamente revelar íncí-
histórica do povo sob o Antigo Regime. O trabalho consiste, d, -ntalmente o olhar lançado pelo outro para uma sociedade
nesse caso, em reencontrar na história cultural os próprios «(11 se constrói sobre o silêncio e a exclusão do outro.
temas da história social. Entra -se em um sistema sem fim
de glosas e de retornos. A invenção fecha-se no reconheci- Em outra passagem, também, G. Bollême observa que
mento, e o corpus torna-se repertório de citações. Nem o 'o catolicismo é a religião dos pobres" e que o Deus dos
folclore nem a história encontram explicação. .ilmanaques é o "Deus dos pobres": tema evangélico, lugar-
romum ao rico passado, mais rico ainda no futuro, sem
Como funciona a expressão cultural com relação à sua dúvida; sentimo-nos tentados, contudo, a ver aí um grupo
inserção social? Se for verdade que aquilo a que chamamos , cíal ocupado em fazer ouvir sua verdade (isto é, antes de
cultura popular penetrou todos os aspectos da vida campo- mais nada a se situar na verdade) por meio da sua partící-
nesa no século XVII, em que sonhos, em que mitos ela se p ção alegórica nos sofrimentos do Evangelho. Somos tanto
organízou'P''" Respondendo a uma pergunta de E. Le Roy mais tentados ainda a fazê-lo quando o autor observa a
Ladurie, Soriano aspira a poder restituir a grade segundo a Importância aparentemente paradoxal de uma linguagem
qual Perrault teria bebido no repertório folclórico; é, com r Iígíosa (por outro lado, secularizada) nos almanaques do
efeito, uma das chaves dos Contos.42 Como é possível, por século XVIII.43 É possível ver aí, assim como o indício de
conseguinte, supor o problema resolvido por aquilo que é do uma religiosidade popular em expansão, o refluxo de uma
próprio repertório? Não é surpreendente que os temas, isto cultura popular em direção à única linguagem que ainda
é, o próprio popular, oscilem entre a descrição social posítí- lhe permite exprimir-se diante do triunfo da razão que
vista ("oconteúdo social dos contos") e a alusão ao conteúdo desejaria negá-Ia. A linguagem da religião poderia, nesse
inapreensível de um domínio falaciosamente óbvio. De ma- aso, ser o último recurso de uma cultura que não pode
neira muito sintomática, Soriano desvia-se do problema da mais se manifestar e que deve se calar ou se disfarçar para
coerência e do funcionamento da cultura popular em dire- que se faça ouvir uma ordem cultural diferente. Reencon-
ção à pesquisa genealógíca do texto primitivo. Durante todo tramos aqui a própria raiz do nosso problema: a cultura
o tempo, a cultura popular está pressuposta no desenvolvi- popular apreende-se apenas segundo o modo de desapare-
mento que ela deve garantir. Desse modo, ela está sempre cimento porque nosso saber se impõe, qualquer que seja o
em outro lugar; ao fim e ao cabo, não é nada. caso, não mais ouvir e não mais saber falar disso.

Algumas observações, aqui ou lá, dão no entanto a Enfim, para além dos métodos e dos conteúdos, para
idéia daquilo que poderia ser uma análise temática. Traba- além do que ela diz, uma obra julga-se por aquilo que cala.
lhando com cotpus bastante próximos, R. Mandrou e G. Ora, é preciso reconhecer, os estudos científicos - e, sem
Bolleme, historiadores mais atentos, observam que, na repre- dúvida, também as obras que eles privilegiam - compor-
sentação inflexível e imposta do alto que dão da sociedade, tam estranhas e vastas regiões de silêncio. Esses brancos
livros e almanaques deixam transparecer uma fenda: a desenham uma geografia do esquecido. Eles traçam em

72 73
negativo a silhueta das problemáticas expostas em preto e ulultos fazem de si, no espelho de textos supostamente
branco nos livros eruditos. d stinados a crianças, a imagem de si mesmos tal como a
Imaginam. Eles se oferecemsua própria lenda, por intermédio
d s adultos apresentados às crianças. Certamente, devemos
IIOS perguntar também se não ocorre o mesmo com os
Uma geografia do eliminado membros das classes médias que se reproduzem e ideali-
zam na imagem que pretendem oferecer de si próprios ao
Para ficarmos apenas em um esboço dessa geografia, "bom povo". Seria menos surpreendente, nesse caso, o
três regiões parecem ausentes desses estudos, embora por ,~rande prazer que os nobres e os burgueses sentem em ler
diferentes motivos: a criança, a sexualidade, a violência. ( ssa literatura, quando se supõe que tenham constituído a
parte mais importante de sua clientela. O adulto agiria do
A criança mesmo modo ao comprar, "para agradar às suas crianças",
ontos concebidos para lhe dar prazer. Uma auto-satisfa-
Ausência da criança? Parece paradoxal dízê-lo, uma .ão, que é também uma tautología de adultos, faria das
vez que esses estudos têm exatamente como leitmotiv a rianças seu mero pretexto, seu instrumento e sua susten-
associação "criança e povo". Eles passam muitas vezes, tação.
além disso, da literatura infantil à literatura popular. Lite-
ratura para crianças, literatura provinda da criança e das Porém, muito mais ainda, a criança, quando aparece,
origens do homem, literatura pedagógica: todos esses temas possui exatamente o saber ou as virtudes do adulto. O
favorecem a assimilação do povo à criança e explicitam seu "bruxínho" , o 'i§equeno mágico" etc.44 ou "a criança sábia
sentido. Mas tornam apenas mais sintomático tudo aquilo aos três anos" sabe já tanto quanto os grandes, e mais
que é dito da criança, figura que serve de alegoria daquilo ainda. E por esse motivo é contestadora? Não, ela repete
que se pensa do povo. seus predecessores, ainda que os antecipe. Ela confirma,
portanto, que não há duas sabedorias nem duas morais,
M. Soriano mostrou magistralmente que o problema
mas que aquelas dos pais permanecerão sendo as das
do pai é uma das chaves da obra de Perrault. Sem dúvida é
crianças, as do futuro, as de sempre. O fundo "natural", na
preciso fazer dessa tese uma hipótese muito mais geral e
criança, reencontra o dito dos pais e mais o comprova do
'estendê-Ia a um número bastante grande de contos e len-
que ameaça. Supõe-se que a espontaneidade infantil escape
das. Porém será indubitável, como crê M. Soriano, que se
aos adultos, mas esse distanciamento é um artificio que
deva interpretar esse fato como o indício de uma "morte" ou
lhes assegura melhor seu saber.
de um apagamento do pai? Ele aí vê a prova do nascimento
de uma geração privada de pais e sem "ancestrais", desde Do mesmo modo, os autores dessa literatura infantil
então abandonada a si própria, educada apenas pelos livros os "pais" desses folhetos -, ao se referirem a uma
que lhe são apropriados. A literatura infantil substituiria a "natureza" infantil, confirmam assim suas concepções e
presença dos pais. suas aspirações, as quaís devem passar pelo outro para ser
Há muitos indícios do contrário. Em primeiro lugar, há mais bem reconhecidas. As crianças, portanto, não teriam
muito poucas crianças na literatura resgatada. Antes, os "mais pais" e não encontrariam mais diante de si a violência

74 75
do pai pela razão muito simples de que elas foram feitas umatiis, par demandes et réponses, ou
sont enseignés les
como a repetição e a imagem dele na literatura que fala pttncipoles maximes de l'amour et le devoir d'un véritable
delas. Por conseguinte, um poder exprime-se nelas, por utnatii (Tours 1838), quando aí se fala da "idade na qual se
meio delas, sem ter que se revelar como tal. Ele logo o fará, pode começar a fazer amor, que é 14 anos para os rapazes
no entanto, quando a " nova pedagogia" pretender conhecer, c'12 para as garotas".49 Ele não sabia muito acerca dos
como um objeto, a "natureza" da criança e obter assim, de costumes e camponeses.
antemão, os "instintos" ou as "necessidades" que ela dese-
jará desenvolver.46 Mas o adulto tem necessidade da "inocência"que atribui
.I riança (e que, por exemplo, os estudos de Oaígnebet acerca
"As crianças", escreve M. Maget, "são depositárias de das comptines' desmístífícaraml.Y Ele nega aquele que se
uma cultura que se transmite à margem da cultura adulta, opõe ao seu sonho. Reflexo característico do qual seria
da qual ela pode representar uma forma alterada.t'V Isso preciso fazer uma análise mais detalhada de como funciona
são as crianças tais como as remodelam os estudos etnoló- 11 eliminação da sexualidade e da violência. Contentemo-
gícos. Sua "cultura" aí se apresenta alterada para que não IIOS em apontar ainda essas duas regiões em branco.
pareça diferente daquela dos adultos. Em um outro sentido,
foi preciso "alterá-Ia" para ajustá-Ia ao sonho do adulto e De fato, nos estudos citados, choca-nos o silêncio que
i ccobre a sexualidade. M. Soriano narra-nos a estranha
colocá-Ia sob o signo dos "civilizados,,48 ou dos espelhos de
virtudes; nela se apagaram dois aspectos fundamentais: a história do conto La belle au bois dormant: ao homem
sexualidade e a violência. c asado que era seu amante, colocou-se um príncipe adoles-
c ente, e é inconsciente, num sono mágico, que ela faz amor
«om ele e dá à luZ.51
A sexualidade
Poder-se-ia ver nessa história a alegoria daquilo que
Não se fez o mesmo com o povo, para conforrná-lo à passa até em alguns dos estudos consagrados à cultura
c'
imagem de si que o exotismo etnográftco ou "popularísta", Iiopular? Os conhecimentos ou as relações amorosas neles
como todo exotismo, tem por objetivo fornecer ao adulto, ao 1";\ m num sono mágico. Entram no inconsciente da litera-
homem ou ao burguês? Não há nada mais belo "do que a I, Ira erudita. De Nisard a Bollême, praticamente não se
grosseira e rude honradez do artesão", escreve o jornal le di. cute isso, exceto para proclamar sua não-plausibilidade.
Français em agosto de 1868, a propósito de um folheto, "La
malice des grandes fílles". Também "maldito daquele que A violência
turva a limpidez dessas águas". A comissão de censura será
"o anjo da guarda" protetor da inocência do povo contra "as Das "classes perigosas", das reivindicações ameaçado-
fotografias impuras". I.is. não se vê nenhum traço nessa literatura. Para que elas
III! rvenham é preciso, por exemplo, que M. Soriano deixe o
Nisard, uma vez mais o santo Jean Bouche de ouro
dessa ciência, discorre longamente sobre o assunto. Assim,
romptine é uma fórmula infantil (cantada ou falada) que serve para designar
a propósito dos conhecimentos sexuais das crianças, ele se uquele a quem será atribuído um papel específico em um jogo (por exemplo:
extasia com as "bobagens" que encontra no Catéchisme des alamê míngüê). (N. T.)

76 77
terreno literário e passe à história (sobretudo em seu artigo Não se poderia, ademais, censurar a uma literatura o
dos Annalles) para analisar e.função e o lugar sociais dessa 10 de se articular sobre uma violência (uma vez que é
literatura. A articulação dos textos com uma história políti- IIIpre esse ocaso), mas não o ter confessado.
ca é, no entanto, fundamental. Somente ela explica como se
constituiu um olhar.

O mesmo "esquecimento" no que concerne às revoltas u-ncta e política: Uma interrogação


camponesas, às reivindicações regionais, aos conflitos au-
tonomistas, em suma, à violência. Robert Mandrou apontou Para onde quer que nos voltemos, reencontram-se
como, desde o século XVIII, a literatura popular exerce o ek 'se modo os problemas que, de Tristes trópicos [de C.
papel de um álibi e funciona como uma alienação do povo l.éví-Strausal ao recente Paix blanche de R. Jautin, a etno-
que ela "distrai" ou representa. 52 Ocorre o mesmo no século 10 ria aprendeu a reencontrar em uma prática mais
XIX: do camponês, os folcloristas apagam as guerras; dele diretamente concreta e política, mais facilmente decifrável
nada resta senão uma "alma obscura". As rebeliões das do que a do historiador. De imediato, desejaríamos inicial-
províncias deixam como vestígios, na sociedade dos "tradi- 111 nte extrair a lição de alguns desses livros recentes,
cionalistas", apenas "os reservatórios profundos onde Importantes, por demasiado fácil e minuciosamente critica-
dormem o sangue e as lágrimas do povo" (1887). As suble- dos aqui. Eles têm o mérito, que não é pouco, de ter
vações populares emergem somente, nas pesquisas eruditas, Inventado um tópico em virtude de sua própria ambigüida-
sob a forma de um objeto lastimável que deve ser "preserva- de. O de, também, repousar sobre um enorme trabalho de
do": "as tradições francesas abolidas ou desfiguradas". decifração, que sugere um certo número de pistas de estu-
do; a mais clássica, a mais difícil, talvez, pela raridade de
"É possível ser bretão?", perguntava Morvan-Lebes-
documentação significativa seria a via de uma sociologia da
que. Não, responde a literatura científica, salvo a título de
ultura, da sua produção, de sua difusão, de sua circula-
objeto "abolido" e nostálgico. Porém a história mostra que a
ção: essa pode ser, se assim desejarmos, a abordagem
violência foi apagada da literatura porque o foi anteriormen-
externa de uma coerência, necessária e, no entanto, insufi-
te por uma violência. As datas são eloqüentes. O "burlesco"
ciente. A outra via se faz mediante uma crítica interna da
dos Perrault (1653) segue a repressão das frondes políticas.
própria coerência; ela pode recorrer a ferramentas tão
O interesse dos correspondentes de Grégoire pelos patoás
opostas (mas igualmente problemáticas) quanto a análise
(1790-1792) acompanha e supõe o apagamento político dos
lingüística, a formalização da narrativa reduzida a esq~e-
regionalismos diante do "patriotismo". Os estudos de Nisard
mas-típos.i''' o método textual, a análise das representaçoes
sobre o colportage (1854) tornaram-se possíveis em virtude
conceituais etc. São, contudo, apenas abordagens cujo pri-
da derrota dos movimentos republicanos e socialistas de
meiro papel é definir um objetivo e, por meio dele, um objeto
1848 e do estabelecimento do Império em 1852. Uma vio-
a ser inventado.
lência política explica a eliminação da violência no estudo
dos particularismos ou da "cultura" popular. O que propor- Para o historiador, assim como para o etnólogo, o
cionou esses paraísos perdidos aos letrados foi, uma vez objetivo é fazer funcionar um conjunto cultural, fazer com
mais, uma vitória do poder. que apareçam suas leis, ouvir seus silêncios, estruturar

78 79
uma paisagem que não poderia ser um simples reflexo, sob I I 'c 'Z não imediatamente, mas de modo tão inevitável quanto
pena de nada ser. Mas seria um erro acreditar que esses I 1" ogressismo confiante dos nossos autores, um tipo de
instrumentos sejam neutros e seu olhar, inerte: nada se II ',I<'; io política e social na qual a relação da cultura popular
oferece, tudo deve ser tomado, e a mesma violência da 1111\ a cultura erudita poderia não ser de simples híerarquí-
interpretação pode aqui criar ou suprimir. A mais ambiciosa IC mas sim uma espécie de democracia cultural cuja
.ro,
das nossas obras, a mais audaciosa é também a menos til opta é apenas o oposto da violência que exercemos. Se
histórica e aquela que certamente mais deixa escapar seu I c c'lI amos a distinção elite/povo, que nossas obras admi-
objeto quando pretende submetê-lo ao fogo convergente de I, 111 sem nenhuma dificuldade no limite de sua pesquisa,
uma série de interrogações (literária, folclorista, lingüística, uno podemos ignorar que um ato escrito (o nosso, portanto),
histórica, psicanalítica etc.). M. Soriano declara "assumir 11111 objetivo não poderiam suprimir a história de uma
voluntariamente a etiqueta de ecletísmo". 54 Porém, não será u-pressão nem pretender seriamente fundar um tipo novo
um ecletísmo de indiferença, e ilusório, aquele que pretende elc' relação: a última artimanha do saber é reservar para si
submeter o mesmo objeto a tantas indagações, como se .1 profecia política. Além disso, poderíamos pensar em uma
cada uma delas não constituísse, na sua especificidade, um organização nova no seio da cultura que não fosse solidária
novo objeto, cuja distância com relação aos outros, e não a «om uma mudança da relação entre as forças sociais?
semelhança direta, é constitutiva? O perigo não é, como se
desculpa o autor, utilizar "ao mesmo tempo métodos reco- É exatamente isso que o historiador -
é, afinal, nosso
nhecidamente incompatíveis", mas utilizá-Ios da mesma lugar - pode apontar aos analistas literários da cultura.
maneira, sem nada obter de sua diferença. Nesse sentido, o I or função, ele desaloja estes últimos de uma pretensa
mais fecundo dos ensinamentos é ainda a estrutura quase condição de puros espectadores ao lhes manifestar a pre-
autobiográfica do livro, na qual se pode tentar ler a maneira ença, por toda parte, de mecanismos sociais de seleção, de
como o questionário "conduziu" seu autor. 55 É porque, em rítíca, de repressão, mostrando-lhes que é sempre a víolên-
última análise, o estudo informa-nos menos sobre a cultura ia que funda um saber. A história está nisso, ainda que não
popular do que sobre aquilo que é, para um universitário seja senão isto: o lugar privilegiado onde o olhar se inquieta.
progressista de hoje, falar da cultura popular. Isto nos Seria inútil, no entanto, esperar de um questionamento
remete a uma questão com que deparamos repetidas vezes político uma isenção das culturas, uma manifestação súbita
e à qual é preciso responder: de onde se fala, o que se pode enfim liberada, uma espontaneidade liberada como deseja-
dizer? Mas também, enfim: de onde falamos nós? O proble- vam ambiguamente os primeiros folcloristas. A história das
ma torna-se, por conseguinte, imediatamente político, uma antigas divisões nos ensina que nenhuma delas é indiferente,
vez que coloca em causa a função social- isto é, antes de que toda organização supõe uma repressão. Simplesmente,
mais nada repressivo - da cultura erudita. não é certeza que essa repressão deva sempre se fazer
segundo uma distribuição social hierárquica das culturas.
É evidente que, por meio da crítica de Soriano, é o O que ela pode ser é a experiência política viva de nos
nosso lugar que urge definir. Onde estamos nós, a não ser ensiná-Ia, se a soubermos ler. Não é mau recordá-lo no
na cultura erudita? Ou, se desejarmos: a cultura popular momento em que se colocam as questões urgentes de uma
existe em outro lugar que não no ato que a suprime? Está política e de uma ação culturais.
claro, por outro lado, que nossa agressividade postula,

80 81
Ainda ficam por marcar os limites da própria indaga- 6. W. Mühlmann, Messianismes révolutionnaires, Gallimard, 1968,
ção. Toda antropologia articula cultura e natureza segundo p.218.
uma ordem que é aquela, majoritária e estática, do olhar e 7. Relation de Ia cérémonie de Ia rase qui s'est faiie dans le village de
Salancy le 8 juin. 1766, Noyon, 1766. A cerimônia é presidida pelo
do saber. A invenção política pode fazer novas articulações intendente da Pícardía, Le Pelletier de Morfontaine, que está acom-
que levam em conta uma dinâmica da repressão. Não se panhado pela condessa de Genlis, a futura educadora de Louts-Phí-
trata de prever ou de desejar essa nova ordem que é o lippe. Será por acaso que na literatura edificante destinada ao
próprio ato político e como que o avesso da história. O ato operário lílês do Segundo Império reencontramos La rostére de
Salancy, de Joseph Chantres (1867, 120 p. )? Cf. Píerre Píerrard, La
político pode reivindicar toda a cultura e colocar em causa
vie ouertére à Lille sous le Second Empire, Bloud et Gay, 1965, p. 274.
todas as divisões. Contudo, uma outra cultura suporá ainda
8. Histoire de Ia rostêre de Salancy ou recuei! de ptêces tant en prose
uma repressão, mesmo se ela funda uma nova participação
qu'en vers sur Ia rosiêre dont quelques-unes n'ont point encore paru,
política. A linguagem instala-se nessa ambigüidade, entre Paris, Mertgot, 1777, p. 83.
aquilo que ela implica e aquilo que ela revela. Do aconteci-
9. Nos numerosos relatos de festas de rostêres do fim do século XVIII,
mento político, a própria ciência recebe seus objetos e sua o povo é apenas um figurante para os olhos enternecidos dos
forma, mas não a sua condição; ela não se reduz a ele. Sem cortesãos em visita a Arcádía.
dúvida, será sempre necessário um morto para que haja 10. Cf. ainda hoje Henrí Davenson, Le livre des chansons, Club des
fala; mas ela falará da sua ausência ou da sua carência, e líbraíríes de France, 1958, p. 20.
explicá-Ia não se limita a apontar aquilo que a tornou 11. Lettres à Grégoire sur les patois de France, 1790-1794, publicado por
possível em tal ou tal momento. Apoiada no desaparecido A. Gazier, Paris, 1880 (reimpresso Genebra, Slatkine, 1969).
cujo vestígio ela carrega, visando ao inexistente que ela 12. A biblioteca da Société de Port-Royal conserva uma reunião de peças
promete sem dar, ela permanece o enigma da Esfinge. Entre impressas em patoá e enviadas a Orégoíre.
as ações que simboliza, ela mantém o espaço problemático 13. Op, cit., p. 118.
de uma interrogação.
14. Circular de 4 de janeiro de 1851. Archives nationales F (18) 555.
15. Circular de 4 de janeiro de 1851. Archives nationales F (18) 555.
16. 1ª edição 1854; reeditada Paris, Misonneuve et Larose, 1968.
Notas
17. Charles Nisard, op. cit., edição de 1854, p. IV.
18. La tradition nationale, outubro de 1896, pp. 4-5.
1. Escrito em colaboração com Domíníque Julia e Jacques Revel.
19. Discurso de 24 de março de 1895, em La tradition en Poitou et
2. Visamos ao conceito de "cultura popular", deixando provisoriamente
Charente, Paris, 1896, p. VI.
de lado todo o problema da literatura oral, tal como é atualmente
estudado pelos folclortstas. 20. [bid., p. XIV (discurso de G. Boucher).
3. Charles Nisard, Histoire des livres populaires, 2ª edição, 1864, p. 1. 21. [bid., p. XVIll.
4. Marc Soriano, "Burlesque et langage populaire de 1647 à 1653: Sur 22. G. Vícaíre, "Nos idées sur le tradttíormísme", em Revue des traditions
deux poêrnes de jeneusse des frêres Perrault", em Annales ESC, populaires, 1886, Nº 7, p. 189.
1969, pp. 949-975.
23. [bid., pp. 190-191.
5. Retomamos esses termos - "elite", "massa", "povo" etc. - tal como
24. La tradition ... , 1887, t. 1. pp. 3-4.
se empregam na literatura sobre o assunto.

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2t:. lbld., p. 8. 3. G. Bollême, em Livre et société, p. 79.
26. Em Jean Poíríer (org. ). Ethnolologie générale, Encyclopédie de Ia 1\4. Nísard, edição de 1864, t. L p. 184.
Pléíade. 1968, pp. 1279-1304.
1\5. Ibid., t. lI, p. 15.
27. Robert Mandrou, De Ia culture populaire en France auxXVIIe etXVIIIe
siéctes. La bibliotheque bleue de Troyes, Stock, 1964; Genevíeve
46. Cf. Claude Rabant, "L'tllusíon pédagogique", em L'inconscient, nº 8,
Bollême, "Littérature populaire et littérature de colportage au XVIIIe pp.89-118.
siêcle", em Livre et société dans Ia France du XVIIIe stécte, Mouton, 47. M. Maget. em Jean Poír íer (org. ), Ethnologie générale, p. 1283.
1965, pp. 61-92; G. Bollême, Les almanachs populaires auXVIIe et
XVIIIe stécíes. Essai d'histoire sociale, Mouton, 1969; Marc Soriano, 48. Nísard, op. cit., t. lI, p. 381 ss.
Les contes de Perrault. Culture savante et traditions populaires, 49. Ibid., t. L p. 294.
Gallimard, 1968 etc.
50. Claude Gaignebet, Lefolklore obscéne des enfantsfrançais, Maíson-
28. Cf., por exemplo, G. Bollême, "Littérature populaíre", pp. 66-67. neuve et Larose, 1974.
29. R. Chartier, em Revue historique, 495 (1970). pp. 193-197. 51. M. Soriano, op. cit., pp. 125-130.
30. Cf., por exemplo, Jean-Paul Sartre, "Poínts de vue: Culture de poche 52. Os livrinhos azuis de Troyes, diz ele, constituíra~ "obs~áculo .à
et culture de masse", em Temps modernes, Nº 208, maio de 1965. tomada de consciência das condições sociais e pohticas as qu:,us
31. G. Bollême, Les almanachs populaires, pp. 123-124. estavam submetidos esses meios populares" (De Ia culture populmre,
p. 163).
32. G. Bollême, em Livre et société, pp. 75 e 89.
53. Cf. as recentes traduções de V. Propp, Morjologie du conte, Le Seuil
33. Marc Soriano, Les contes de Perrault, p. 489. e Gallimard, 1970.
34. Henri Davenson, Le livre des chansons, p. 21. 54. Artigo citado, Annalles ESC, 1970, p. 638.
35. R. Mandrou, op. cit., p. 21.
55. Ibid., p. 636.
36. A afirmação implícita de uma simetria parece em si mesma revela-
dora da cultura erudita, desejosa de que se esqueça e, sem dúvida,
esquece-se de sua relação repressiva com a cultura popular.
37. G. Bollême, em Livre et société, 1965.
38. R. Mandrou, op. cit., p. 150. Diferença, no entanto, fundamental: a
"incoerência" da qual falam as censuras comporta um julgamento
moral e visa a uma desordem mental; em R. Mandrou, ela designa
"aquilo que escapa", um inapreensível.
39. M. Soríano, op. cit., 2ª parte, capítulo I. pp. 88-98.
40. Ibid., p. 95.
41. Cf. as observações de Nícole Belmont, "Les croyances populaires
comme récits mythologíques", emL'homme, abril-junho de 1970, pp.
94-108.
42. M. Soriano, "Table ronde sur les contes de Perrault", em Annalles ESC,
maio-junho de 1970, p. 65. Seria, originalmente, uma abordagem
fundamental das relações históricas entre uma cultura erudita e as
tradições populares. Cf. também Annalles ESC, 1969, pp. 949-975.

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