Você está na página 1de 21

ARTIGO DE PESQUISA

O Estagirita
Marcos Cesar Danhoni Neves*

Resumo
O presente artigo de revisão de literatura discute alguns dos fundamentos da Física,
da Astronomia e da Biologia de Aristóteles.

Palavras-chave: Aristóteles. Física. Sobre o Céu. Biologia

Introdução rá nos iluminar (ou não...), apesar da ficção, a


Escrever sobre aquele que mais influenciou respeito do impacto da obra aristotélica numa
o curso da filosofia e da ciência ocidental não é época muito distante de sua origem (a ficção
tarefa das mais fáceis. Especialmente quando histórica contemporânea de Umberto Eco e a
este personagem tem mais de 2.000 anos. As época medieval retratada).
névoas do passado se adensam e os fatos vivi- Guilherme [de Baskerville] leu as primeiras
dos passam a ser interpretados de acordo com linhas, primeiro em grego, depois traduzindo
o contexto de cada época. Escrever sobre Aris- em latim e continuando em seguida nessa lín-
tóteles1, mais que uma temeridade é, pois, um gua, de modo que também eu pude apreender
desafio intelectual, histórico, epistemológico. como começava o livro fatal.
Então, para iniciar, gostaria de fazê-lo apre- No primeiro livro tratamos da tragédia e de
sentando um Aristóteles “ficcionado” por Um- como ela suscitando piedade e medo produz
berto Eco em seu O Nome da Rosa. A trama, a purificação de tais sentimentos. Como tínha-
quase todos conhecem: passa-se num mos- mos prometido, tratamos agora da comédia
teiro medieval, especialmente no interior da (ainda mais da sátira e do mimo) e de como
Biblioteca, em plena “era da tradução”, a res- suscitando o prazer do ridículo ela chegue à
peito do livro “perdido” do Filósofo sobre a Co- purificação de tal paixão; quando tal paixão
média. Nada se sabe sobre a existência desse seja digna de consideração já o dissemos no
livro, mas Eco constrói sua trama antagonizan- livro sobre a alma, enquanto – único dentre to-
do Baskerville e o monge Jorge (claramente dos os animais – o homem é capaz de rir. Defi-
inspirado no escritor argentino Jorge Luis Bor- niremos portanto de que tipo de ações é mime-
ges). Temos, de um lado, um feroz defensor sis a comédia, em seguida examinaremos os
do livre pensar, Baskerville, e um clérigo dog- modos como a comédia suscita o riso, e esses
mático, anti-aristotélico, mesmo considerando modos são os fatos e o elóquio. Mostraremos
a posterior “depuração” tomista das obras de como o ridículo dos fatos nasce da assimilação
Aristóteles. do melhor ao pior e vice-versa, do surpreender
Vamos então à parte da trama, que pode- enganando, do impossível e da violação das

* Professor-Titular do Departamento de Física da Universidade Estadual de Maringá. Coordenador do Programa de Mestrado em Educação
para a Ciência e o Ensino de Matmeática (UEM). Av. Colombo, 5790, Maringá-PR, 87020-900. E-mail: macedane@yahoo.com

Revista UNIFAMMA, Maringá, v. 5, n. 1, p. 9-29, nov. 2006 7


O Estagirita

leis da natureza, do irrelevante e do inconseqüen- repensado em termos de matéria surda e viscosa,


te, do rebaixamento das personagens, do uso de e para que o árabe Averroes quase convencesse a
pantominas bufonescas e vulgares, da desarmo- todos da eternidade do mundo. Sabíamos tudo so-
nia, da escolha das coisas menos dignas. Mostra- bre os nomes divinos, e o dominicano sepultado por
remos por conseguinte como o ridículo do elóquio Abbone – seduzido pelo Filósofo – os nomeou de
nasce dos equívocos entre palavras semelhantes novo seguindo as sendas orgulhosas da razão na-
para coisas diferentes e diferentes para coisas tural. Desse modo, o cosmos, que para o Areopagita
semelhantes, da loquacidade e da repetição, dos se manifestava a quem soubesse olhar para cima a
jogos de palavras, dos diminutivos, dos erros de cascata luminosa da causa primeira exemplar, tor-
pronúncia e dos barbarismos. nou-se uma reserva de indícios terrestres dos quais
Guilherme riu [...] porque ouviste alguém no se remonta para nomear uma abstrata eficiência.
scriptorium manifestar curiosidade ... sobre o livro Primeiro olhávamos para o céu, dignando de um
perdido [da comédia] de Aristóteles. olhar agastado a lama da matéria, agora, olhamos
A comédia nasce nas komai, ou seja, nos vila- para a terra, e acreditamos no céu pelo testemunho
rejos dos camponeses, como celebração jocosa da terra. Cada uma das palavras do Filósofo, sobre
após um banquete ou uma festa. Não narra de as quais já agora juram também os santos e os pon-
homens famosos e poderosos, mas de seres vis tífices, viraram de cabeça para baixo a imagem do
e ridículos, não malvados, e não termina com a mundo. Mas ele não chegou a virar de cabeça para
morte dos protagonistas. Atinge o efeito de ridícu- baixo a imagem de Deus. Se este livro se tornasse
lo mostrando homens comuns, defeitos e vícios. [...] tivesse se tornado matéria livre de interpretação,
Aqui Aristóteles vê a disposição ao riso como uma teríamos ultrapassado o último limite.
força boa, que pode mesmo ter um valor cognos- Mas o que te assustou nesse discurso sobre o
citivo quando, através de enigmas argutos e metá- riso? Não eliminas o riso eliminando o livro.
foras inesperadas, mesmo dizendo-nos as coisas Claro que não. O riso é a fraqueza, a corrup-
ao contrário daquilo que são, como se mentisse, ção, a inspiração de nossa carne. É o folguedo
de fato nos obriga a reparar melhor, e nos faz di- para o camponês, a licença para o embriagado,
zer: eis, as coisas estavam justamente assim, e mesmo a igreja em sua sabedoria concedeu o
eu não sabia. A verdade atingida, através da re- momento da festa, do carnaval, da feira, essa eja-
presentação dos homens e do mundo, piores do culação diurna que descarrega os humores e re-
que são ou do que acreditamos, piores em todo tém de outros desejos e de outras ambições [...].
caso do que os poemas heróicos, as tragédias, as O riso libera o aldeão do medo do diabo, porque
vidas dos santos nos mostraram [...]. na festa dos tolos também o diabo aparece pobre
Mas agora dize-me, estava dizendo Guilherme, e tolo, portanto controlável.
por quê? [...] Há muitos outros livros que falam da Mas nós nos disciplinamos. Viste, ontem, os
comédia, muitos outros ainda que contêm o elogio teus confrades. Voltaram às nossas fileiras, não
do riso. Por quê este te incutia tanto medo? falam mais como os simples. Os simples não de-
Porque era do Filósofo [responde Jorge]. Cada vem falar. Este livro teria justificado a idéia de que
livro daquele homem destruiu uma parte da sabe- a língua dos simples é portadora de alguma sa-
doria que a cristandade acumulara no correr dos bedoria. Era preciso impedir isso, foi o que fiz. Tu
séculos. Os padres disseram aquilo que era preci- dizes que eu sou o diabo: não é verdade. Eu fui a
so saber sobre a potência do Verbo, e bastou que mão de Deus.
Boécio comentasse o Filósofo para que o misté- A mão de Deus cria, não oculta.
rio divino do Verbo se transformasse na paródia Há limites além dos quais não é permitido ir.
humana das categorias e do silogismo. O livro do Deus quis que em certos papéis fosse escrito: hic
Gênese diz o que é preciso saber sobre a forma- sunt leones.
ção do cosmos, e bastou que se descobrissem os Deus criou os monstros também. Também te
livros físicos do Filósofo, para que o universo fosse criou. E quer que se fale de tudo.

8 Revista UNIFAMMA, Maringá, v. 5, n. 1, p. 9-29, nov. 2006


Marcos Cesar Danhoni Neves

Jorge esticou as mãos trêmulas e puxou o livro nasce, em 385 a.C., aquele que irá influenciar de-
para si. Mantinha-o aberto, mas de cabeça para cisivamente a filosofia e a ciência ocidental: Aris-
baixo, de modo que Guilherme continuasse a vê- tóteles.
lo pelo lado certo. “Então por que”, disse, “per- Aristóteles é filho de Nicômaco, médico pes-
mitiu que este texto ficasse perdido no curso dos soal de Amintas III, pai de Felipe da Macedônia,
séculos, e se salvasse apenas uma cópia sua, que se auto-proclamava como descendente direto
que a cópia dessa cópia, que foi parar sabe-se lá (neto) de Esculápio. Graças a esse cargo, a famí-
onde, permanecesse sepultada durante anos nas lia se transfere para Péla, capital da Macedônia.
mãos de um infiel que não conhecia o grego, e A mãe de Aristóteles chamava-se Pitías, nas-
depois continuasse fechada numa velha bibliote- cida também na Calcídia, na cidade de Eubéia,
ca onde eu, não tu, fui chamado pela providência coincidentemente a mesma cidade onde morrerá
para encontrá-la, e traze-la comigo, e esconde- o estagirita.
la por mais anos ainda? Eu sei, sei como se o Aristóteles é contemporâneo de Demóstenes
visse escrito em letras de diamante, com meus e vive num período em que a hegemonia mace-
olhos que vêem as coisas que tu não vês [Jorge dônica se estendia por toda a Grécia.
era completamente cego, n.d.a.], eu sei que essa Seus pais morrem precocemente, sendo cria-
era vontade do Senhor e interpretando-a, agi. Em do por amigos da família, especialmente Proxe-
nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo. nos de Artanea.
Passando de uma ficção histórica à outra, no Aos dezessete anos de idade, muda-se para
livro A Biblioteca desaparecida, Luciano Canfora Atenas onde começa a estudar na escola dedi-
ilustra os últimos momentos da Grande Bibliote- cada ao lendário herói Academos2, ou como era
ca de Alexandria, no sétimo século d.C., após a conhecida, a Academia, de Platão.
invasão da cidade pelas tropas do califa Omar, Os relatos que nos chegam afirmam que Aris-
lideradas por Amr Ibn Al-As. Canfora expõe os tóteles permaneceu na Academia por cerca de 20
derradeiros diálogos entre Amr e João Filopão, anos.
último grande comentador de Aristóteles. Ao final A sedução pela Academia talvez se devesse
de todo o colóquio entre os personagens, Amr re- à sua organização, muito semelhante a uma uni-
cebe a ordem da destruição de todo o acervo da versidade, com edifícios, um Museum (templo
Biblioteca: cerca de um milhão de rolos de papi- dedicado as Musas), uma biblioteca, um refeitório,
rus. Todos foram distribuídos aos ricos e confor- alojamentos de estudantes, salas de reuniões e
táveis banhos da cidade de Alexandria (existiam um bosque de oliveiras. A Academia dispunha de
cerca de 4.000 banhos públicos) para servirem de um Estatuto que a regia. Talvez tenha sido essa
combustível para as fornalhas. Segundo Canfora, organização que fez a escola platônica perdurar
só restaram as obras de Aristóteles, mas é de se por quase 900 anos, fechada pelo Imperador bi-
duvidar [...]. zantino Justiniano, em 529 d.C.
Essa quase-ficção de Canfora liga-se àquela Aristóteles chega à Academia quando Platão
de Eco, mostrando que o Aristóteles, que conhe- encontra-se ausente, em viagem à Sicília. Platão
cemos, nos chegou incompleto, interpretado, so- viajara em missão “filosófica”, tentando convencer
brevivente das poeiras e dos incêndios do tempo. o tirano Diógenes, o Jovem, acerca de suas idéias
Assim, é chegado o momento de passarmos da políticas.
ficção para o que conhecemos da vida e da obra Os colegas do estagirita nessa época são: Eu-
do Estagirita, na tentativa de entender o homem doxo de Cnido, Heráclides do Ponto e Xenócrates.
e sua obra. Muitos afirmam que Aristóteles permaneceu
na Academia até romper com o mestre Platão. Di-
Vida de Aristóteles ógenes Laércio chega a afirmar que Platão teria
Em Estágira, uma pequena cidade da penín- sido chutado por Aristóteles. Mas isso parece ser
sula Calcídica (costa setentrional do mar Egeu), uma inverdade, uma vez que sabemos que o es-

Revista UNIFAMMA, Maringá, v. 5, n. 1, p. 9-29, nov. 2006 9


O Estagirita

tagirita cuidou da edição póstuma das lições de ali durante três anos, e parece que seus escritos
Platão. de biologia tenham sido feitos ali, pois uma das
O que opôs as duas figuras da tríade filosófica espécies por ele descrita só pode ser encontrada
grega3 foi o campo das doutrinas filosóficas, que naquela região da Ásia Menor.
marcaram cada um dos personagens, especial- A tranqüilidade da vida é somente quebrada
mente a teoria das idéias (platônica), e a busca com o assassinato de Hérmias, traído por Mentor,
de uma compreensão sensível da fenomenologia um general grego a serviço da Pérsia, e poste-
do mundo (aristotélica). riormente entregue a Artaxerxes III. Esse mandou
A provável falsidade do abandono brusco da estrangular o tirano, amigo do Estagirita.
Academia, e da “ofensa” de Aristóteles a Platão, Condoído pelo trágico fim, Aristóteles escreve
pode ser revelada em uma passagem da Ética a um hino à virtude homenageando o amigo Hér-
Nicômaco: mias.
A amizade foi mais além. Aristóteles casa-se
É preferível, sem dúvida, fazer incidir o nosso com a filha (ou sobrinha) de Hérmias, Pitías. O
exame sobre o estudo do bem genericamente casal parte então para Mitilene.
considerado e a questão de saber em que é que Aristóteles perde precocemente a primeira es-
ele consiste. É certo que uma tal investigação
posa e casa-se novamente com Herfilis, que lhe
se torna difícil, já que foram alguns de nossos
amigos que introduziram a doutrina das Idéias. dará um único filho, Nicômaco, que morrerá muito
De acordo com o senso comum, talvez seja me- jovem, quando ele está escrevendo sua “Ética”.
lhor e até mesmo indispensável, a fim de sal- Dedica a obra ao filho.
vaguardar a verdade, sacrificar as nossas opi-
Em 343 a.C., Felipe da Macedônia convida Aris-
niões pessoais, tanto mais que também somos
filósofos. Pode ter-se afeto pelos amigos e pela tóteles para ir a Péla e ser o tutor de seu filho, Ale-
verdade; mas, a moralidade obriga-nos a dar a xandre. A permanência de Aristóteles vai até 335
preferência à verdade. quando ele pede permissão para deixar a corte ma-
cedônica e retornar à Atenas. Deixa em seu lugar
Este trecho foi traduzido pelo adágio: amicus um sobrinho, Calístenes.
Plato, sed magis amica veritas. Lá, num lugar onde havia um bosque vizinho ao
Assim, parece realmente fantasiosa a informa- templo dedicado ao deus Apolo Liceo, o Estagirita
ção de Diógenes Laércio. constrói e organiza sua própria Escola, o Liceu.
Apesar dessa informação, não se sabe ao cer- O Liceu e a Academia diferem drasticamente,
to quais eram exatamente as relações entre os especialmente na forma como eram ministradas as
dois grandes da Filosofia. Há duas teses: lições. No Liceu4, o ensino era “dinâmico”, com um
i) a de que Aristóteles tenha sido encarregado passeio pelos bosques e pelas áreas abertas da
pelo próprio Platão para ensinar retórica e que te- Escola. Por essa razão, os discípulos aristotélicos
nha se oposto a Isócrates; ou eram chamados de “peripatéticos”5.
ii) a do próprio Diógenes, de que o estagirita A dinâmica do Liceu pode ser apreciada segun-
teria se tornado um adversário do mestre, deixan- do Cresson (1981, p. 9):
do, posteriormente, a Academia. O ensino de Aristóteles compreende duas sé-
Após a morte de Platão, Aristóteles deixa Ate- ries de lições; da parte da manhã, ocupa-se de
nas em 347 a.C. junto com Xenócrates e Teofras- questões meramente teóricas, é o ensino acro-
to, por terem se desiludido com a nomeação do mático ou esotérico, reservado aos iniciados; da
novo dirigente da Academia, Espeusipo. parte da tarde, Aristóteles dirige-se a um públi-
Aristóteles dirige-se até Atarneos, perto de co mais vasto; as questões tratadas são mais
Lesbos, na Jônia. Lá é recebido por um amigo, acessíveis desempenhando aí a retórica um im-
um escravo liberto, Hérmias. O tirano, soberano portante papel; é o ensino exotérico. Aristóteles
de Atarneos e Assos, está ocupado em defender- prossegue com suas lições durante doze anos;
se dos ataques persas. O estagirita permanece mas possui uma tal capacidade de trabalho que

10 Revista UNIFAMMA, Maringá, v. 5, n. 1, p. 9-29, nov. 2006


Marcos Cesar Danhoni Neves

ainda arranja tempo para escrever e publicar logo no filósofo por excelência. Quando se fala
inúmeras obras que abrangem quase todos os do ‘mestre’, é dele que se está a falar (CRES-
SON, 1981, p. 43).
ramos do saber humano.
Alexandre Magno morre em 323, e, por um
Teremos então um Aristóteles falseado pelo
breve, mas aterrador período (para Aristóteles,
tomismo tradicional e que será, posteriormente,
principalmente), os partidários anti-macedônicos
acusado de assassinar a reflexão humana, graças
começam a “caça às bruxas”. Aristóteles é acu-
ao uso dogmático e intolerante que o cristianismo
sado de impiedade, tendo como fonte principal de
fará da obra do Estagirita. Aristóteles, e aquele
acusação o hino que havia composto em home-
inventado pela Escolástica, fundir-se-ão numa in-
nagem a Hérmias.
terpretação equivocada. Francis Bacon tratará o
Aristóteles prevê o mesmo fim trágico que Só-
Filósofo como um pedante.
crates e, antes que fosse tarde demais, resolve
Porém, isso não durará muito. O espírito da
abandonar o Liceu e Atenas para sempre, dirigindo-
obra do Estagirita será reavivada pelos enciclope-
se à ilha de Eubéia. Morrerá um ano depois, aos 63
distas. Daí para frente, Aristóteles passa a ser es-
anos de idade.
tudado num referencial mais próximo àquele que
Os últimos desejos desse grande homem (que,
animava sua Escola, do que aquele da Escolásti-
apesar de tudo que escreveu, justificava a escravi-
ca que o substituiu por um filósofo do equívoco e
dão) podem ser depreendidos do relato de Diógenes
do dogmatismo [...].
Laércio (apud CRESSON, 1981, p.12-13):

A obra aristotélica
Proíbo que sejam vendidas as crianças que es-
É quase certo que muitas das obras de Aristó-
tavam ao meu serviço, devendo todas elas ser
antes mantidas em minha casa até alcançarem teles desapareceram para sempre. Somente frag-
a maturidade, altura em que deverão ser liber- mentos de suas obras, escritas para o grande pú-
tas a título de recompensa. A Simo, para além blico, chegaram até nós. Seguindo Bréhier (apud
do dinheiro que já lhe dei para comprar um es-
CRESSON, 1981, p. 47-48), as obras de Aristóte-
cravo, comprar-se-á outro escravo e será dado
mais algum dinheiro [...] Quanto à imagem da les podem ser classificadas da seguinte forma:
minha mãe, deverá ser colocada no templo de
Deméter, em Neméia [...]. i) obras da juventude destinadas ao grande
público, denominadas pelo próprio Aristóteles
como “discursos exotéricos”:
A escola fundada por Aristóteles foi fechada O Eudemo, diálogo sobre a imortalidade da
em 529 d.C. por Justiniano, assim como todas alma;
aquelas que floresciam em Atenas. O Protrépitico, dedicado a Thémisos, príncipe
O cristianismo tomou conta do mundo ociden- de Chipre;
O tratado de Filosofia ou DoBem, no qual Aristó-
tal. No entanto, a fé cristã necessitou orientar-se teles se distancia da escola de Platão, criticando
entre os segredos da fé e a filosofia pagã. Primei- a teoria das Idéias;
ro com Platão, mas, paulatinamente, com a obra ii) obras científicas:
aristotélica, que começa a abrir novas perspectivas O Organon, coleção lógica que compreende: as
Categorias; sobre a Interpretação (sobre os ju-
espirituais. Porém, esse caminho não foi fácil, nem ízos); Tópicos (sobre as regras da discussão);
evidente. Santo Tomás de Aquino, no século XIII, Refutação dos Sofismas; Primeiros Analíticos
consegue “depurar” da obra aristotélica aquelas (sobre o silogismo em geral); Segundos Analí-
asserções que poderiam ser interpretadas como ticos (sobre a demonstração); a Retórica; a Po-
ética.
contrárias à fé cristã. Faz, pois, uma síntese entre A Metafísica, que é uma coletânea sobre a fi-
as proposições de fé, losofia primeira (teoria do raciocínio oratório).
Esta obra divide-se em doze livros, numerados
algumas teorias platônicas e as doutrinas de segundo o alfabeto grego, havendo ainda um li-
Aristóteles sobre o mundo, a vida, o homem, e vro suplementar (α) apenso ao primeiro (o qual
até mesmo a moral. Aristóteles torna-se desde não é de Aristóteles).

Revista UNIFAMMA, Maringá, v. 5, n. 1, p. 9-29, nov. 2006 11


O Estagirita

As obras sobre a natureza: a Física; Do Céu; espécies animais, às revoluções dos orbes celes-
Da Geração e da Corrupção; os Meteoros; os tes, até à psique humana e aos regimes sociais.
Mecânicos. Para o Estagirita, a natureza pode ser compre-
As obras biológicas: Das partes dos Animais; endida como um conjunto de realidade dotada de
Da Geração dos Animais; Sobre a Marcha dos autonomia e de uma capacidade de gerar proces-
Animais; Sobre o Movimento dos Animais; Da His- sos finalizados à realização de uma ordem.
tória dos Animais; o grande tratado Sobre a Alma; O Deus de Aristóteles é fruto de uma exigência
os opúsculos Sensação e Sensível, Memória e cosmológica, e não da necessidade da salvação.
Reminiscência, Sono, Sonhos, Adivinhação pelos É a condição da salvação absoluta da vida e do
Sonhos; Duração e Brevidade da Vida, Juventude pensamento. Seu Deus garante a estabilidade e a
e Velhice, Respiração. ordem do Mundo.
As obras morais e políticas: a Ética a Eudemo; O Filósofo atribui ainda uma importância fun-
a Ética a Nicômaco; a Política; e, finalmente, a damental à psique, dedicando-lhe uma de suas
Constituição de Atenas, a única que nos ficou de obras, Anima. A alma possui a forma para o corpo
cerca de uma centena de constituições de cida- que vive; é a estrutura funcional do ser que vive.
des descritas por Aristóteles. Corpo e alma estão na mesma relação que matéria
Aristóteles concebe a filosofia mais que um sim- e forma, potência e ato, órgão e função.
ples exercício de sabedoria. Para ele, a filosofia é A concepção de um universo subdivido em
uma ciência articulada em um sistema organizado duas partes: mundo supralunar e mundo sublunar;
de disciplinas distintas com o objetivo de abraçar a concepção equivocada da dinâmica e da cinemá-
todos os aspectos da realidade. Com esse obje- tica do movimento; o mundo pleno (dos quatro ele-
tivo, a filosofia poderia compreender a ordem e o mentos sublunares: terra, água, ar e fogo), sem a
caos, concebendo o saber como um conhecimento aceitação da idéia do vazio; a centralidade da Ter-
das causas e dos princípios fundamentais. ra, e, portanto, o geocentrismo, em seu grande es-
Aristóteles nos ensinou, entre tantas coisas, quema cosmológico; os aspectos equivocadas de
que a lógica é a arte do pensar; o modo correto sua biologia, anatomia e aspectos da reprodução;
para se tentar chegar à verdade das coisas e dos não ferem a filosofia de Aristóteles. Pelo contrário,
fatos. Como descreveremos mais adiante, seja estas concepções servirão de base para toda a ci-
na física, na cosmologia ou na biologia, o sistema ência que se seguirá nos 2.000 anos vindouros.
aristotélico parece não ter sobrevivido aos dias
hodiernos, mas a potencialidade de sua lógica, de A cosmologia e o mundo físico de Aristó-
sua retórica, é o que subjaz em tudo o que ele teles
estudou, observou e escreveu. Para não nos distanciarmos do homem e sua
Grande parte da reflexão lógica de Aristóte- obra, serão apresentados abaixo alguns excertos
les consiste na descrição das formas próprias da das duas obras fundamentais de Aristóteles em fí-
língua grega. Para o Filósofo, deveria existir uma sica e astronomia, Physis e De Caelo (ARISTÓTE-
estreita relação entre a linguagem e a ordem es- LES apud MARTINS, 1986). Os excertos buscam
condida da realidade. apresentar o básico de Aristóteles sobre a consti-
O inteiro campo do saber é dividido em três tuição do Universo, da natureza das forças e dos
partes: as disciplinas poéticas, as práticas e as movimentos e da busca das causas.
teóricas. As primeira se ocupam com a produção
de objetos materiais, enquanto as segundas pre- “Sobre o Céu” (De Caelo) - excertos
ocupam-se com os comportamentos humanos. A 276b Uma coisa deve se mover ou naturalmente
terceira, enfim, caracteriza-se exclusivamente por ou de modo não-natural, e os dois movimentos são
sua finalidade cognoscitiva. Portanto, o escopo da determinados pelos lugares próprios ou impróprios.
ciência aristotélica consiste no aprofundamento Um lugar em que uma coisa só fica em repouso
das mínimas coisas que povoam o Universo: das não-naturalmente, ou para o qual se move apenas

12 Revista UNIFAMMA, Maringá, v. 5, n. 1, p. 9-29, nov. 2006


Marcos Cesar Danhoni Neves

de modo não-natural, deve ser o lugar natural de ples, [...] então deve necessariamente existir algum
algum outro corpo, como a experiência mostra. corpo simples que gira naturalmente, em virtude de
[...] sua própria natureza, com um movimento circular.
Uma coisa move naturalmente de um lugar em Por violência, é claro, ele pode ser obrigado a se
que ela permanece sem ser presa, e repousa na- mover com o movimento de algo diferente dele,
turalmente em um lugar onde ela se move sem mas ele não pode por sua natureza se mover de
ser forçada. Por outro lado, uma coisa se move modo diferente, pois só existe um movimento natu-
por violência para um lugar em que só fica em ral para cada corpo simples.
repouso presa, e fica em repouso presa em um Se o movimento forçado é o contrário do mo-
lugar para o qual só se move forçada. Além disso, vimento natural; e se cada coisa só pode ter um
se um dado movimento é devido à violência, seu contrário; segue-se que o movimento circular, que
contrário é natural [...] E o movimento natural é é movimento simples, será não-natural ao corpo
um, em cada caso. movido, se ele não fosse natural.
[...] Se o corpo que se move circularmente for o
268b Sustentamos que todos os corpos e gran- fogo ou algum outro elemento, seu movimento
dezas naturais são, como tais, capazes de loco- natural será o oposto do movimento circular. Mas
moção; pois dizemos que a natureza é o princípio cada coisa tem um único contrário; e movimento
de seu movimento. Mas todo movimento local, para cima e para baixo são os contrários um do
toda locomoção, como a chamamos, é ou retilí- outro (e portanto nenhum desses movimentos é
nea ou circular ou uma combinação desses dois, contrário do movimento circular, e o movimento
que são os únicos movimentos simples. E a razão circular não possui contrário) [...] O movimento
disto é que a linha reta e o círculo são as duas natural para cima pertence ao fogo e ao ar, e o
únicas grandezas simples. Ora, a rotação em tor- para baixo à água e à terra.
no de um centro é movimento circular, enquanto [...]
que o movimento para cima e para baixo são em 269b [...] Se o movimento dos corpos em rota-
linha reta – “para cima” indicando movimento para ção em torno do centro fosse não-natural, seria
longe de um centro, e “para baixo” movimento em espantoso e realmente inconcebível que apenas
direção a ele. Todo movimento simples, portanto, este movimento fosse contínuo e eterno apesar
deve ser movimento ou para longe de um centro, de ser contrário à natureza. Em todos os outros
ou em direção a ele, ou em torno dele. Isto parece casos, a evidência indica que aquilo que não é
estar exatamente de acordo com o que dissemos natural termina muito rapidamente..
acima: como os corpos se completam em três di- [...] A partir de tudo isto, portanto, podemos
mensões, do mesmo modo seus movimentos se inferir com confiança que existe algo além dos
completam em três tipos. corpos que estão perto de nós, aqui nesta Terra,
Os corpos ou são simples ou compostos dos diferente e separado deles; e que a glória superior
simples; e por simples quero indicar aqueles que da natureza é proporcional à sua distância deste
possuem em sua própria natureza um princípio de nosso mundo.
movimento, tal como o fogo e a terra, com seus ti- [...]
pos, e tudo o que é semelhante a eles. Necessaria- 270a É igualmente razoável supor que este
mente, portanto, os movimentos também serão ou corpo será não-gerado e indestrutível, e isento
simples ou compostos de algum modo – simples de aumento e alteração, pois tudo o que surge
no caso dos corpos simples, composto no caso dos vem de seu contrário, e em alguma substância,
compostos – e no último caso o movimento será o e desaparece igualmente em um substrato pela
do corpo simples que prevalece na composição. ação do contrário, como explicamos nas discus-
Supondo, portanto, que existe movimento simples, sões iniciais. Ora, os movimentos (naturais) de
e que o movimento circular é um exemplo dele, [...] coisas contrárias são contrários. Então este cor-
e que todo movimento simples é de um corpo sim- po não pode ter contrário, pois não há movimento

Revista UNIFAMMA, Maringá, v. 5, n. 1, p. 9-29, nov. 2006 13


O Estagirita

contrário ao circular, e portanto a natureza parece Sobre sua posição, existe certa diferença de
ter isentado de contrários o corpo que deveria ser opinião. A maioria – e, particularmente, todos
não-gerado e indestrutível. os que consideram o céu como finito – diz que
[...] ela está no centro. Mas os filósofos italianos
270b Em todo o tempo passado, tão longe quan- conhecidos como Pitagóricos adotam a visão
to chegam os registros herdados, não parece ter contrária. No centro, dizem eles, está o fogo,
ocorrido mudança nem no esquema geral do céu e a Terra é uma das estrelas, criando a noite e
mais externo, nem de qualquer de suas partes. o dia por seu movimento circular em torno do
Também o nome comum que nos foi transmitido por centro. Além disso, eles imaginam uma outra
nossos antepassados distantes até nossos dias, Terra oposta à nossa, à qual dão o nome de
parece mostrar que ele os conceberam da mesma Anti-Terra. Nisto tudo eles não estão procuran-
forma que o estamos exprimindo [...] Indicando que do teorias e causas para satisfazer os fatos ob-
o corpo primário é algo além da terra, fogo, ar e servados, mas sim forçando suas observações,
água, eles deram ao lugar mais elevado um nome e tentando acomoda-las a certas teorias e opi-
específico, “aither”, derivado do fato de que ele niões suas. Mas há muitos outros que concor-
“sempre corre” (aithein) por um tempo infinito. dariam também que é errado dar à Terra a posi-
[...] ção central, procurando confirmação na teoria,
289a Devemos em seguida falar sobre as es- e não nos fatos da observação. Sua opinião é a
trelas, sua composição, formas e movimentos. de que o lugar mais precioso beneficia a coisa
Seria mais natural e conseqüente, a partir do que mais preciosa; mas o fogo, dizem eles, é mais
foi dito, que cada uma das estrelas fosse compos- precioso do que a terra, e o limite (é mais valio-
ta da substância em que fica sua trajetória, pois, so) do que o intermediário, e a circunferência e
como dissemos, há um elemento cujo movimento o centro são limites. Raciocinando assim eles
natural é circular [...] expõem a visão de que não é a Terra que fica
O calor e a luz que delas procedem são cau- no centro da esfera, mas o fogo.
sadas pela fricção produzida no ar pelo seu mo- [...]
vimento. O movimento tende a criar fogo na ma- 293b As opiniões sobre o repouso ou movi-
deira, na rocha e no ferro; e com maior razão ele mento são semelhantes. Pois aqui também não
deveria ter esse efeito no ar, uma substância que há acordo geral. Todos os que negam que a Ter-
está mais próxima ao fogo do que estas. Um exem- ra está no centro pensam que ela gira em torno
plo é o dos mísseis, que quando se movem são do centro, e não apenas a Terra, mas também a
aquecidos tão fortemente que as balas de chum- Anti-Terra. Alguns deles até consideram possível
bo se derretem; e se eles se aquecem, o ar em que existam vários corpos em movimento (perto
torno deve ser afetado da mesma maneira. Ora, da Terra) que são invisíveis para nós por serem
enquanto os mísseis se incendeiam por causa do ocultos pela Terra. Isto, dizem eles, explicaria o
seu movimento no ar, que é transformado em fogo fato de os eclipses da Lua serem mais numerosos
pela agitação trazida pelo movimento, os corpos do que os do Sol; pois além da Terra, cada um
superiores são transportados em uma esfera que desses corpos em movimento poderia obstruí-la.
se move, de modo que, embora eles mesmo não [...]
se incendeiem, o ar embaixo da esfera do corpo 294a Há igualmente disputas sobre a forma da
em rotação é necessariamente aquecido por seu Terra. Alguns pensam que ela é esférica, outros que
movimento e particularmente naquele ponto em ela é achatada, ou com a forma de um tambor (ci-
que o Sol está preso a ela. líndrica). Como evidência eles indicam o fato de que
[...] quando o Sol se ergue ou põe, a parte oculta pela
293a Resta falar sobre a Terra, sua posição, Terra mostra uma borda reta, e não curva, enquanto
sua forma, e sobre a questão de seu movimento se a Terra fosse esférica a linha de separação teria
ou repouso. que ser circular. Eles deixam de considerar a grande

14 Revista UNIFAMMA, Maringá, v. 5, n. 1, p. 9-29, nov. 2006


Marcos Cesar Danhoni Neves

distância entre o Sol e a Terra, e o grande tamanho sob ela, mas cobre-o como uma membrana. Isto
da circunferência que, vista de uma certa distância parece ser próprio às coisas achatadas: elas difi-
sobre estes círculos aparentemente pequenos, pa- cilmente se movem no ar, por causa de seu poder
rece reta. Tal aparência não deveria faze-los duvidar de resistência. A mesma imobilidade, dizem eles,
da forma circular da Terra. Mas eles possuem outro é produzida pela superfície achatada da Terra,
argumento. Dizem que, por estar em repouso, a Ter- com relação ao ar que está sob ela [...]
ra deve necessariamente ser achatada [...] [...]
A dificuldade deve ter ocorrido a todos. Somente 295b Há alguns, como Anaximandro, entre os
uma mentalidade muito complacente não se surpre- antigos, que dizem que a Terra fica parada por
ende quando percebe que, enquanto um pequeno causa de sua indiferença. O movimento para
pedaço de terra, solto no meio do ar, move-se e não cima, para baixo e para os lados são, segun-
fica parado, e que quanto maior, mais depressa se do eles pensam, impróprios àquilo que está no
move, no entanto a Terra inteira, livre no meio do centro e indiferentemente ligado a cada extre-
ar, não mostre movimento algum. No entanto, existe mo; e mover-se em direções opostas ao mesmo
este grande peso da Terra, e ela está parada. tempo é impossível; portanto, ela deve ficar em
[...] repouso [...]
Por estas considerações, alguns foram leva- [...] (a opinião desses autores) é análoga ao
dos a afirmar que a Terra sob nós é infinita, di- que se diz sobre um fio de cabelo, que ele não se
zendo, como Xenóphanes de Colophon, que ela quebrará, por maior que seja a tensão, se ele es-
“empurrou suas raízes até o infinito” – para não tiver homogeneamente distribuído; ou do homem
ter o trabalho de procurar a causa [...] Outros di- que, embora extremamente faminto e sedento,
zem que a Terra repousa sobre a água. Tal real- e ambos igualmente, terá de ficar parado onde
mente é a mais antiga teoria que foi preservada, está, se estiver eqüidistante da comida e da be-
e que é atribuída a Tales de Mileto. Supuseram bida [...]
que ela ficaria parada porque flutuava como ma- [...]
deira e outras substâncias semelhantes, que são Esta opinião é engenhosa, mas não verdadei-
constituídas de forma tal que repousam sobre a ra. O argumento provaria que tudo, seja de que
água mas não sobre o ar. Mas teriam que expli- tipo for, que fosse colocado no centro, deveria
car, ao invés (do repouso) da terra, como a água permanecer lá. O fogo, portanto, ficaria no centro;
que carrega a Terra (fica parada). Água, assim pois a prova não depende de qualquer proprieda-
como a terra, não tem a natureza de ficar para- de peculiar da terra. Mas isso não acontece. Os
da no meio do ar; ela deve repousar sobre outra fatos observados a respeito da terra são, não ape-
coisa. nas que ela permanece no centro, mas também
294b Além disso, assim como o ar é mais leve que ela se move para o centro. O lugar para onde
do que a água, a água é (mais leve) do que a algum fragmento da terra se move deve ser ne-
terra. Como podem eles então pensar que a subs- cessariamente o lugar para onde o todo se move;
tância naturalmente mais leve permanece sob a e o lugar para onde algo se move naturalmente é
mais pesada? Além disso, se a Terra como um o lugar onde isso fica em repouso natural. O mo-
todo é capaz de flutuar sobre a água, isso tam- tivo, portanto, não é que a Terra esteja relaciona-
bém deve ocorrer com qualquer parte dela. Mas a da indiferentemente a todos os pontos extremos;
observação mostra que este não é o caso; qual- pois isso se aplicaria a todos os corpos, enquanto
quer pedaço de terra afunda; e, quanto maior, que o movimento para o centro é peculiar à Terra.
mais depressa. Também é absurdo procurar uma razão pela qual
[...] a Terra permanece no centro, sem tentar explicar
Anaxímenes, Anaxágoras e Demócrito indi- porque o fogo permanece na extremidade. Se
cam a forma achatada da Terra como a causa de a extremidade é o lugar natural do fogo, a Terra
seu repouso. Assim, dizem eles, ela não corta o ar também deve ter um lugar natural.

Revista UNIFAMMA, Maringá, v. 5, n. 1, p. 9-29, nov. 2006 15


O Estagirita

[...] move e está no centro, e não em outro lugar.


296a Vamos primeiramente decidir se a Terra A partir do que dissemos, a imobilidade da Ter-
se move ou está em repouso. Pois, como disse- ra também é aparente. Se a natureza da terra é,
mos, alguns fazem dela uma das estrelas, e ou- como mostra a observação, mover-se de qualquer
tros, embora a coloquem no centro, supõem que ponto para o centro, como a do fogo é de mover-
ela gira com um movimento em torno de um eixo se, pelo contrário, do centro para a extremidade, é
que passa pelos pólos. Ficará claro que ambas as impossível que a Terra se movesse do centro, a não
doutrinas são insustentáveis, se tomarmos como ser por violência. Se, portanto, nenhuma parte da
ponto de partida o fato de que o movimento da Terra pode se mover do centro, obviamente menos
Terra, em ambos os casos, teria que ser um mo- ainda poderia a Terra como um todo mover-se ...
vimento forçado. Ele não pode ser um movimento [...]
da própria Terra; pois, se fosse, todas as outras 297a Sua forma deve necessariamente ser es-
porções teriam esse movimento; mas, na verda- férica. Pois cada porção da Terra tem peso até
de, todas as suas partes se movem em linha reta atingir o centro, e o empurrão das partes maiores
para o centro. Sendo, portanto, forçado e não-na- e menores não produziria uma superfície ondula-
tural, o movimento não poderia ser eterno. Mas a da, mas uma compressão convergindo de parte a
ordem do universo é eterna. parte para o centro.
[...] [...]
296b Além disso, o movimento natural da terra 297b A forma esférica, exigida por este argumen-
– seja de uma parte ou do todo – é para o centro; to, também é uma conseqüência de que o movimen-
e daí o fato de que ela esteja agora de fato, situ- to dos corpos pesados sempre faz ângulos iguais
ada no centro. Mas poder-se-ia questionar: como (ou seja: é perpendicular à superfície da Terra), e
os dois centros (da Terra e do universo) coinci- não é paralelo. Esta é a forma natural do movimento
dem, para qual dos dois centros as porções da em direção ao que é naturalmente esférico.
terra e outros corpos pesados se movem? Este [...]
(centro) é o fim (dessas coisas) por ser o centro A evidência dos sentidos proporciona outras
da Terra, ou por ser o centro de tudo? O objetivo, confirmações disso. De que outra forma (se a Ter-
certamente, deve ser o centro de tudo. Pois o fogo ra não fosse redonda) os eclipses da Lua mostra-
e outras coisas leves movem-se para a extremi- riam segmentos com as formas que observamos?
dade da área que contém o centro [...] (os corpos ... O perfil dos eclipses é sempre curvo; e como
pesados) movem-se para o centro da Terra, mas é a interposição da Terra que produz o eclipse, a
acidentalmente, em virtude de estar o centro da forma da linha será causada pela forma da super-
Terra no centro de tudo. Que o centro da Terra é fície da Terra, que é, portanto, esférica. Além dis-
o objetivo de seu movimento é indicado pelo fato so, as observações das estrelas tornam evidente
de que os corpos pesados, ao caírem, não se mo- não só que a Terra é redonda, mas também que
vem paralelamente (a uma superfície horizontal, a circunferência não é descomunal. Pois uma pe-
como o mar), mas de tal forma a formarem ângu- quena mudança de posição para o sul ou para o
los iguais (por todos os lados com a horizontal; norte produz uma alteração no horizonte.
isto é, ângulos retos; ou seja, seu movimento é 298a Eu quero dizer que mudam as estrelas que
vertical); e assim, dirigem-se para um único cen- estão acima da cabeça, e as estrelas visíveis são
tro, o da Terra. É claro, portanto, que a Terra deve diferentes, quando nos movemos para o norte e
estar no centro e imóvel, não apenas pelas razões para o sul. Realmente, há estrelas que são vistas
já indicadas, mas também porque os corpos pe- no Egito e nas proximidades de Cyprus e que não
sados forçadamente atirados bem retos para cima são vistas nas regiões do norte; e estrelas que no
retornam ao ponto de onde partiram, mesmo se norte são sempre visíveis e que nessas regiões (do
forem atirados a uma distância infinita. Dessas sul) aparecem e desaparecem [...] Portanto, não
considerações torna-se claro que a Terra não se se deve estar seguro de ser inacreditável a dou-

16 Revista UNIFAMMA, Maringá, v. 5, n. 1, p. 9-29, nov. 2006


Marcos Cesar Danhoni Neves

trina naqueles que concebem uma continuidade como redução de peso, purgantes, drogas, ou ins-
entre as regiões além dos pilares de Hércules e trumentos cirúrgicos são meios para a saúde [...]
as regiões da Índia, e que desta maneira o Oce- [...]
ano seja um só. Como a evidência adicional a fa- 198a Sendo as causas de quatro tipos, o papel
vor disto eles indicam o caso dos elefantes, uma do físico é conhecer todas elas, e se ele referir
espécie que ocorre em cada uma dessas regiões a todas elas seus problemas, ele indicará o “por-
estremas, sugerindo que a característica comum que” do modo próprio à sua ciência – a matéria, a
desses extremos é explicada por sua continuidade. forma, o movente, a finalidade.
Além disso, os matemáticos que tentaram calcular [...]
o tamanho da circunferência da Terra chegaram ao 198b Devemos explicar então que a Natureza
valor de 400.000 estádios (um estádio = 186 me- (physis) pertence à classe das causas que atu-
tros; 400.000 estádios correspondem a cerca de am para o bem de algo [...] Uma dificuldade se
70.000 km; o valor correto é de 40.000 km). apresenta aqui: por que não deveria a Natureza
atuar, não pelo bem de algo, nem porque é me-
“Física” (Physis) - excertos lhor assim, mas apenas por necessidade, assim
194b [...] O objetivo de nossa investigação é o como a chuva não cai para fazer o cereal cres-
conhecimento; e as pessoas não pensam conhe- cer? O (vapor) que subiu deve esfriar, e aquilo
cer uma coisa até haver captado o “porque” des- que esfria deve tornar-se água e descer, e o re-
ta – que é captar sua causa primária. Portanto, é sultado disso é que o cereal cresce [.,.] Por que
claro que também nós devemos fazer isso com então não deveria ser da mesma forma com as
relação ao surgimento e desaparecimento e todo partes da Natureza? Por exemplo: nossos den-
tipo de mudança física, para que, conhecendo tes deveriam surgir por necessidade – os dentes
seus princípios, possamos tentar referir cada um da frente agudos, próprios para cortar, os mo-
de nossos problemas a estes princípios. lares largos e úteis para moer a comida – não
Em um sentido, chama-se “causa” aquilo de para esses fins, mas a utilidade sendo apenas
que uma coisa provém, e que persiste – por exem- um resultado coincidente. Ocorreria da mesma
plo, o bronze da estátua, a prata do jarro, e os gê- forma com todas as outras partes em que supo-
neros de que o bronze e a prata são espécies. mos existir uma finalidade. Então, sempre que
Em outro sentido, chamam-se “causas” a for- surgissem todas as partes exatamente como se
ma ou o arquétipo, isto é, a afirmação da essên- elas tivessem surgido para um fim, tais coisas
cia, e seus gêneros –por exemplo, a relação 2:1 sobreviveriam, tendo-as organizado espontane-
(é a causa da) oitava, e da forma mais geral, o amente de um modo adequado; enquanto que
número – e as partes na definição. aquelas que crescessem de outra forma perece-
Além disso, a fonte primária da mudança ou riam e continuariam a perecer, como Empédo-
paralisação; por exemplo, o homem que dá um cles diz ter acontecido com seu “filho de touro
conselho é uma causa, o pai é a causa do filho, e com rosto humano.
geralmente aquilo que faz (é causa) daquilo que [...]
é feito, e aquilo que produz a mudança (é causa) No entanto, é impossível que esta possa ser a
daquilo que é mudado. doutrina correta. Pois os dentes e todas as outras
Além disso, no sentido de finalidade, ou aqui- coisas naturais aparecem de uma dada forma, ou
lo para o qual uma coisa é feita; por exemplo, a sempre ou normalmente. Mas isso nunca aconte-
saúde é a causa da caminhada. “Por que ele está ce com o que resulta do acaso ou da espontanei-
caminhando?” Dizemos: “Para ficar saudável”, dade ...
e, dizendo isso, podemos ter indicado a causa. [...]
O mesmo é verdade também de todos os passos 199b As coisas naturais são aquelas que, por
intermediários que são desenvolvidos pela ação um movimento contínuo originado em um princí-
de uma outra coisa como meios para um fim, tal pio interno, chegam ao completamento. Não se

Revista UNIFAMMA, Maringá, v. 5, n. 1, p. 9-29, nov. 2006 17


O Estagirita

alcança o mesmo término a partir de qualquer ção e expansão – não existiria. É mantido que o
princípio, nem qualquer término ao acaso, mas movimento não deveria existir se não houvesse
sempre em cada um a tendência é para o mesmo vácuo, pois aquilo que está cheio não pode conter
fim, se não há impedimento. mais. Se ele pudesse, e houvesse dois corpos no
[...] mesmo lugar, então seria verdade que qualquer
Quando um acontecimento ocorre sempre ou número de corpos poderiam estar juntos; pois é
quase sempre, ele não é acidental ou por acaso. impossível traçar uma linha divisória além da qual
Nos produtos naturais, a seqüência é invariante isso deveria deixar de ser verdade. Se isso fosse
se não há impedimento. possível, então o menor corpo poderia conter o
[...] maior.
199a Quando uma série tem um final, todos os [...] Melissus conclui dessas considerações
passos anteriores servem para aquilo. Mas certa- que o Todo é imóvel; pois se ele fosse movido, diz
mente na natureza ocorre como na ação inteligente ele, deveria haver o vazio; mas o vazio não é uma
... A ação inteligente é realizada por uma finalidade; das coisas que existe.
logo a natureza das coisas também é assim. [...] Eles raciocinam também a partir do fato
[...] de que observa-se que algumas coisas se con-
Se então é por natureza e para um fim que traem e são comprimidas ... o que implica que o
o pardal faz seu ninho, e a aranha sua teia, e a corpo comprimido se contrai nos vazios existen-
planta faz crescer suas folhas para o bem do fruto tes nele.
e envia suas raízes para baixo – não para cima Também o crescimento (de um animal ou plan-
– por causa da nutrição, é claro que este tipo de ta) é imaginado ocorrendo através de vazios, pois
causa opera em coisas que se transformam e são o alimento é corpóreo, e é impossível que dois
por natureza. corpos estejam juntos (no mesmo local, ao mes-
[...] mo tempo).
Se, portanto, concordamos que as coisas ou [...]
são resultado de uma coincidência ou para uma 214a Mas o movimento de um local para outro
finalidade, e se estas não podem ser o resulta- não exige um vácuo. Pois os corpos podem ce-
do de coincidência ou espontaneidade, segue-se der espaço um ao outro simultaneamente, mesmo
que elas devem ser para uma finalidade. não havendo um intervalo que os separe ou além
[...] dos corpos que estão em movimento. E isto torna-
213a A investigação de questões sobre o vá- se claro mesmo na rotação de corpos contínuos,
cuo – se ele existe ou não, e como ele existe, e o como na dos líquidos.
que ele é – deve também caber ao físico ... E essas coisas podem ser comprimidas sem
[...] Imagina-se que o vácuo seja um lugar onde ser por seus vazios, e sim porque eles espremem
nada existe. A razão para isto é que as pessoas con- para fora aquilo que continham – como,
sideram que o que existe é um corpo, e sustentam 214b por exemplo, quando a água é comprimi-
que enquanto todo corpo está em algum lugar, o da, o ar dentro dele é expelido. E as coisas podem
vácuo é um lugar onde não há um corpo, e assim, aumentar de tamanho não apenas pela entrada
onde não há corpo algum, deve existir o vácuo. de algo, mas também por mudança qualitativa –
[...] Devemos começar a pesquisa expondo por exemplo, se a água se transforma em ar.
aquilo que é apresentado por aqueles que dizem [...] Pode ocorrer que (no crescimento) nem to-
que ele existe, depois o daqueles que dizem que das as partes do corpo cresçam, ou os corpos po-
ele não existe, e depois a visão atual sobre essas dem crescer sem adição de um corpo, ou podem
questões. existir dois corpos no mesmo lugar [...]
[...] É evidente, portanto, que é fácil refutar os ar-
213b Eles argumentam que (se o vácuo não gumentos pelos quais eles provam a existência
existisse) a mudança espacial – isto é, locomo- do vácuo.

18 Revista UNIFAMMA, Maringá, v. 5, n. 1, p. 9-29, nov. 2006


Marcos Cesar Danhoni Neves

[...] [t1 / t2 = d1 / d2]


Dizem que o vácuo deve existir para que exista Então, assim como o ar é mais rarefeito e mais
movimento; mas o que aparece, se estudarmos o incorpóreo do que a água, o corpo A se move-
assunto, é o oposto: que nenhuma coisa pode se rá através de B2 (o ar) mais rapidamente do que
mover se existe um vácuo ... No vácuo as coisas através de B1 (a água). Suponhamos que a velo-
devem estar paradas; pois não há um lugar para cidade tem para a velocidade a mesma razão que
onde as coisas possam se mover mais ou menos a água para o ar.
do que para outro; pois o vácuo, sendo vazio, não [v1 / v2 = d2 / d1]
possui diferenças. Então, se o ar fosse duas vezes mais rare-
[...] feito, o corpo atravessaria B, no dobro do tempo
215a As coisas lançadas movem-se mes- em que atravessa B2, e t1 seria o dobro de t2. E
mo quando aquilo que lhes deu impulso não as sempre,quanto mais um meio é incorpóreo, menos
toca mais – seja por motivo de substituição mú- resistente, e mais facilmente dividido, mais rápido
tua, como alguns mantém, ou porque o ar, que será o movimento.
foi empurrado, empurra-as com um movimento Ora, não existe uma razão em que o vazio é ex-
mais rápido do que a locomoção dos projéteis cedido por um corpo, assim como não existe uma
[...] Mas em um vácuo nenhuma dessas coisas razão entre zero e um número [...]. Da mesma for-
pode ocorrer, e nada pode se mover exceto se ma, o vazio não pode manter uma razão para com
for movida ou carregada. o pleno, e portanto também não pode (existir uma
Além disso, ninguém poderia dizer por que uma razão entre) o movimento em um para o movimen-
coisa, uma vez colocada em movimento, deveria to no outro; mas se uma coisa se desloca no meio
parar em algum lugar; pois por que ela pararia mais denso tal e tal distância em tal e tal tempo, ele
aqui e não ali? Portanto, uma coisa ou ficaria em se moverá através do vácuo com uma velocidade
repouso ou se moveria ao infinito, a menos que além de qualquer razão (e uma velocidade infinita
algo mais poderoso entrasse em seu caminho. não existe; logo, o vácuo não existe).
Além disso, pensa-se que as coisas se mo- [...]
vem no vácuo porque ele não tem resistência; 216a Vemos que corpos que possuem um maior
mas em um vácuo esta qualidade está presente impulso, seja pelo seu peso ou leveza, se forem
igualmente em todas as partes, e assim as coi- iguais em outros aspectos, movem-se mais rapi-
sas deveriam se mover em todas as direções. damente em um mesmo meio; e (suas velocidades
Por outro lado, a verdade do que afirmamos são proporcionais) à razão entre suas grandezas
torna-se clara a partir da consideração seguinte. (entre seus pesos ou levezas).
Vemos que um mesmo peso ou corpo move-se [v1 / v2 = g1 / g2]
mais rápido do que outro por duas razões: ou Portanto, eles também se moveriam através do
porque há uma diferença naquilo através do qual vácuo com esta razão entre as velocidades. Mas
eles se movem – como através da água, ar ou isto é impossível; pois por que motivo uma se mo-
terra – ou porque, sendo outras coisas iguais, os veria mais rapidamente? Em meios plenos, isso
corpos que se movem diferem uns dos outros por deve acontecer, pois o (corpo) maior os divide mais
um excesso de peso ou de leveza. rapidamente por sua força. Pois um móvel corta o
Ora, um meio causa uma diferença porque ele meio ou por sua forma, ou pelo impulso que o cor-
impede o movimento de uma coisa –p principal- po arrastado ou projetado possui. Portanto, todos
mente se ele se mover em direção oposta, mas em possuirão igual velocidade (no vácuo). Mas isto é
um grau inferior mesmo se ele estiver parado [...] impossível (portanto, o vácuo não existe).
215b (suponha que um corpo) A se mova através [...]
(do meio) B1 no tempo t1, e atravesse B2, que é mais 255b Tudo o que está em movimento ou mo-
rarefeito, no tempo t2 – sendo as distâncias iguais – ve-se a si próprio, ou é movido por alguma outra
proporcional à densidade do corpo resistente. coisa. Como pode ocorrer que algumas coisas

Revista UNIFAMMA, Maringá, v. 5, n. 1, p. 9-29, nov. 2006 19


O Estagirita

– por exemplo, coisas atiradas – continuem a se observações como naturalista, baseada, por sua
mover quando seu movente não está mais em con- vez, nas espécies e nas classes, de acordo com
tato com elas? Se dissermos que o movente em atributos gerais. Talvez, o Filósofo tenha tentado
tais casos move ao mesmo tempo alguma outra transpor na Física a visão de mundo que ele pôde
coisa – por exemplo, que o lançador move também depreender do estudo da biologia e da zoologia.
o ar – e que este, ao ser movido, torna-se também Devemos lembrar que o Estagirita vinha de uma
um movente, então também não seria possível que família de médicos.
esta segunda coisa ... ficasse em movimento quan- Na Parte dos Animais, Aristóteles afirma que
do o movente original não está em contato com ele não se deve entender os seres vivos tomados iso-
ou não está movendo-o. Todas as coisas movidas ladamente, mas é necessário um estudo geral de
estariam simultaneamente em movimento e tam- traços comuns existentes em alguns animais, além
bém teriam que cessar de estar em movimento de se recolher as informações relativas a todos as
simultaneamente quando o movente original dei- classes e discorrer sobre suas gêneses, uma vez
xasse de move-las ... Portanto, embora devamos que “a gênese é finalizada à existência e a não
aceitar esta explicação parcialmente e dizer que o existência à gênese”. Aristóteles coloca o proble-
movente original dão poder de ser um movente ao ma sobre se é possível se falar de finalismo em
ar ou à água ou a alguma coisa desse tipo, natu- termos da filogênese.
ralmente adaptada a transmitir e sofrer movimen- Em relação à anatomia, Aristóteles vive
to, devemos, além disso, dizer que esta coisa não numa época em que inexistem ainda as práticas
cessa simultaneamente de fornecer movimento e de dissecação e vivissecção. Assim, é natural
de ser movida: ela cessa seu movimento no instan- encontrarmos concepções muito equivocadas
te em que o seu movente cessa de move-la, mas comparadas ao estágio atual do conhecimento.
ela permanece um movente, e assim ela faz com Sua fonte de conhecimento estava na observação,
que uma outra coisa em contato com ela se mova, mas especialmente em suas visitas a açougueiros,
e assim por diante. O movimento começa a ces- pastores e pescadores; gente do povo, que
sar quando a força motora produzida em um dos possuía uma longa tradição na execução e no
membros da série consecutiva é em cada passo esquartejamento das mais variadas espécies
menor do que no membro anterior, e ele finalmente animais.
cessa quando um membro já não faz o membro O Filósofo tem idéias muito imprecisas sobre
seguinte ser um movente, mas apenas faz com ele o esqueleto e não sabe a função dos músculos,
se mova. Os movimentos desses dois últimos – do limitando a descrevê-los como “carne”. Faz uma
que é movente e do que é movido – devem cessar descrição errônea do útero, dos intestinos e dos
simultaneamente, e com isto cessa todo o movi- pulmões. Acredita que o cérebro é um órgão
mento. que serve para resfriar o coração. Não distingue
artérias de veias, acreditando que essas últimas
A biologia e o mundo natural de contenham tanto ar quanto sangue. Ignora quase
Aristóteles completamente as relações entre os diferentes
Aristóteles foi o primeiro a tentar classificar os órgãos, nervos e o cérebro.
seres vivos. Suas obras fundamentais no campo Porém, acerta na descrição do estômago dos
do estudo da Natureza e da Biologia, em si, são: ruminantes, do desenvolvimento placentário6 do
História dos Animais, Partes dos Animais, Geração Mustelus laevis. Descreve cerca de 400 espécies
dos Animais, Locomoção dos Animais. Algumas animais, lançando as bases de uma anatomo-
partes do Anima discutem também esses argu- fisiologia comparada. Realiza testes de percepção
mentos. O tratado As Plantas perdeu-se nas poei- sensorial em vieiras, peixes-navalhas e esponjas.
ras do tempo. Descreve colméias de abelhas, acertando sobre o
A classificação realizada por Aristóteles (Tabe- papel de zangões e operárias, fornecendo detalhes
las 1 e 2) é baseada na sistematização de suas do ferrão da abelha. Observa como uma siba pode

20 Revista UNIFAMMA, Maringá, v. 5, n. 1, p. 9-29, nov. 2006


Marcos Cesar Danhoni Neves

Tabela 1 - A classificação aristotélica dos vertebrados


Vertebrados
Animais sanguíneos, vivíparos ou ovíparos

1. Homem
2. Cetáceos
3. Quadrúpedes vivíparos
Vivíparos
a) ruminantes de cascos fixos: ovelhas, bois, etc.
b) animais de cascos inteiros: cavalos, asnos, etc.
c) outros quadrúpedes vivíparos

4. Pássaros
a) da presa com esporas
b) nadadores com patas espalmadas
c) pombos
De ovo perfeito d) bons voadores. Martim Pescador
Ovíparos e) outros pássaros
ou 5. Quadrúpedes ovíparos. Anfíbios, a maior parte
ovovíparos dos répteis
6. Serpentes

7. Peixes
a) cartilaginosos (exceto o mustelus
De ovo imperfeito laevis)
b) outros peixes

Tabela 2 - A classificação aristotélica dos invertebrados

Invertebrados

Animais não sangüíneos.


Vivíparos semelhantes aos vermes que germinam ou geram-se espontaneamente

De ovos perfeitos Cefalópodos

Insetos
De ovos especiais Aranhas
Escorpiões
Moluscos (exceto os Cefalópodes)
Germinais ou de geração espontânea
Equidermes
Esponjas
De geração espontânea
Celenterados

se prender a uma rocha durante uma tempestade. traz consigo a matéria que formará o embrião, e
Descreve detalhadamente as partes da boca do é no sêmen masculino que residirá o princípio da
ouriço-do-mar (conhecidas hoje como “lanternas- anima. A fecundação pode ser comparada ao leite
de-aristóteles”). Observa acertadamente que os coalhado: o leite é a matéria da coagulação (como
ovos do ouriço-do-mar são maiores nos períodos no caso feminino) e o coalho é o princípio da
de lua cheia (RONAN, 1986). coagulação (como no caso do sêmen masculino).
Em relação aos processos reprodutivos, Assim, para Aristóteles, é a alma o primeiro
Aristóteles acredita que podem ocorrer por grau de realidade de um corpo natural que tem
geração espontânea (moscas, vermes, ratos, vida potencialmente em si. “Alma” entendida
etc.), por reprodução assexuada (plantas e aqui como a dúvida fundamental do que faz uma
“animais imóveis”) e por reprodução sexuada. criatura viva viver. É a doutrina do “devir”, do
Sobre esta última, o Filósofo acredita que a fêmea “potencial” que se torna “real”.

Revista UNIFAMMA, Maringá, v. 5, n. 1, p. 9-29, nov. 2006 21


O Estagirita

A predominância de um dos dois elementos de uma aceleração central (uma força proporcional
(fêmeo, macho) na fecundação fará com que ao quadrado da velocidade).
o filhote/filho se assemelhe ao pai ou à mãe. Tomemos agora uma longa citação de Toulmin
Assim, Aristóteles também lança as bases da que procura na obra aristotélica os fundamentos
hereditariedade. em sua forma de conceber o movimento:
O Estagirita descreve ainda os híbridos,
estuda a formação do embrião no ovo de galinha É necessário fazer três observações sobre
proporções asseveradas por Aristóteles antes
e observa que o coração começa seus batimentos
de tomar em consideração as inovações da
no terceiro dia de vida, dando impulso à formação dinâmica no século XVII. A primeira observação
dos demais órgãos: vísceras, cabeça e membros é esta: Aristóteles concentrou sua atenção sobre
inferiores. o movimento dos corpos contra uma resistência
apreciável e sobre a duração de tempo requerida
O método de descrição e observação de
para uma mudança completa de posições de
Aristóteles na biologia parece ter sido a base para um lugar para outro. Por uma série de razões,
a concepção de sua física e de sua cosmologia. realmente, não dedicou-se nunca ao problema
A questão de acidentes (que aparece muito na de definir “a velocidade” como expressão de
períodos sempre mais curtos de tempo – isto
descrição do mundo sublunar), que envolve as
é, a velocidade instantânea. Nem estava em
individualidades, o aparecimento de deformações em condições de dedicar sua atenção ao problema
seres vivos remete ao não completo determinismo de como os corpos se moveriam se todas as
(teleologia). A forma, às vezes, não consegue causas de resistência viessem efetivamente
ou completamente removidas. Com os
informar completamente a matéria, privando-a de
desenvolvimentos sucessivos suas asserções
uma determinação absoluta, e contrastando com se demonstraram infelizes; todavia, as razões
as potencialidades contidas nesta. A matéria pode, de tais incertezas são compreensíveis e, a seu
pois, resistir à forma, introduzindo o contingente e modo, meritórias. Se bem que ele fosse um
filósofo e, portanto, aos olhos de certas pessoas,
o acidente. Neoplatônicos, especialmente, Plotino,
destinado a ter a cabeça entre as nuvens e os
colocará essa discussão numa perspectiva ética, pés elevados da terra – Aristóteles foi sempre
afirmando que a matéria (pode) representa(r) o mal arredio a ser atraído pelo desânimo de casos
(BRUN, 1997). impossíveis ou extremos. Deixando de lado
por um momento a queda livre, como um caso
especial, todos os movimentos que observamos
À guisa de uma conclusão ao nosso redor ocorrem, segundo Aristóteles, à
Das considerações históricas que fizemos, causa de um equilíbrio, mais ou menos completo,
podemos dizer que a física de Aristóteles está entre dois conjuntos de forças: aquelas que
tendem a conservar o movimento e aquelas que
ultrapassada, atropelada pela física galileana
tendem a opor a ele resistência. Na verdade,
e newtoniana, que acabou por percorrer um um corpo sempre emprega um tempo finito para
longo percurso em direção a uma idealização da cobrir uma dist6ancia finita. Assim, a questão da
fenomenologia do mundo terrestre. O efeito da velocidade instantânea teria representado para
Aristóteles um problema bastante abstrato; e ele
resistência do ar e do atrito foi desprezado, e, assim,
tinha a mesma opinião em relação à idéia de um
a crença de que a física de Galileu e de Newton movimento completamente privo de resistência,
tenha sido um matrimônio entre o céu e a Terra, que ele liquidou como não real. Na verdade
corresponde somente em parte à verdade, já que (suponho) ele estava no caminho certo. Mesmo
no vazio interestelar, onde os obstáculos ao
a “física terrestre” foi deixada como uma exceção
movimento de um corpo são, em prática, de todo
ao máximo sistema da idealidade do sistema de desprezíveis, sempre haverá um atrito mínimo,
mundo que se seguiu a Newton. É verdade que o mesmo se descontínuo.
mesmo Newton dedicou o segundo livro de seus Em segundo lugar: se atentarmos para os tipos
de movimento que Aristóteles considera típicos,
Principia aos fenômenos do movimento em um
encontraremos que as rudimentares razões
meio fluido. Por exemplo, nas proposições XV e de proporcionalidade fixadas por ele têm uma
XVI, Newton formulou um problema da resistência posição de todo respeitosa inclusive na física
do meio durante a queda de um corpo sob a ação do século XX. Interpretada, não como lei de

22 Revista UNIFAMMA, Maringá, v. 5, n. 1, p. 9-29, nov. 2006


Marcos Cesar Danhoni Neves

natureza rival àquela de Newton, mas como Podemos escrever, para dar um exemplo mais
generalizações da experiência cotidiana, muitas claro, a equação do movimento em um meio
das coisas que ele afirmava são verdadeiras.
fluido, utilizando as leis de Newton (não um meio
Pode-se até afirmar que ele tenha falado mais
corretamente do que ele mesmo soubesse. ideal, mas um meio dissipativo):
Porque, lá onde ele raciocinava em termos
de proporções rudimentares e qualitativas, m . a = (m . g) – (k . v) 7
associando quantidades aproximativas de
espaço e de tempo, a física contemporânea
individualizou uma exata equação matemática [onde m é a massa, a é aceleração, g é a
correspondente e bastante próxima da sua aceleração da gravidade, k é a viscosidade e v é
[de Aristóteles], uma vez que, naturalmente, a velocidade)
tal equação matemática aplique variáveis de
acelerações que Aristóteles jamais utilizou.
m . (dv/dt) = (m . g) – (k . v) (1)
Essa equação é conhecida como “lei de Stokes”.
Ela coloca em relação a velocidade ao qual o
corpo se move em um meio, por exemplo, um quando v = 0 ⇒ a = g, e quando vt é a velocidade
líquido, com a força que age sobre esse e a terminal, (m . g) – (k. v) = 0, e
densidade (viscosidade) do meio. Segundo
Stokes, a velocidade do corpo, em tais condições,
será diretamente proporcional à força que o vt = (m . g) / k (2)
move e inversamente proporcional à viscosidade
do líquido. Suponhamos que tomamos uma bola Usando (2) em (1), podemos obter,
de bilhar e a deixemos cair, de vez em vez, em
líquidos de viscosidades diferentes, como água,
mel e mercúrio; em cada caso [a bola] acelerará v = vt . [1 – e- (k / m) t] (3)
por um momento para, depois, descer com uma
velocidade limite constante, determinada pela A aceleração poderá ser escrita como,
viscosidade do líquido em questão. Se a força
impressa for duplicada, a velocidade de queda
será dupla; se um líquido é duas vezes mais a = g . e- (k / m) t (4)
viscoso que um outro, a bola de bilhar se moverá
com apenas a metade da velocidade. e a distância d percorrida,
O terceiro ponto liga os dois precedentes. O fato
é que Aristóteles baseava suas análises sobre
um conceito particular ou paradigma explicativo,
d = vt . [t – (m / k) . e- (k / m) t] (5)
que ele formulou tomando em consideração
exemplos correntes da natureza; ele usava Para grandes partículas que se movem muito
estes exemplos como objetos de confronto rapidamente (gotas de chuva que caem da atmosfera),
para procurar entender e explicar qualquer
tipo de movimento. Se se quer compreender o
a lei de Stokes deixa de ser uma boa aproximação;
movimento de um corpo (segundo o seu ponto as forças resistivas tornam-se proporcionais mais
de vista), dever-se-ia pensar nesse em termos ao quadrado da velocidade (e não à velocidade,
do movimento de um cavalo e de uma carroça: como nas equações anteriores) e são muito mais
dever-se-ia, isto é, procurar dois fatores – o fator
externo (o cavalo) que tem o corpo (a carroça)
influenciadas pela viscosidade que pela densidade
em movimento, e a resistência (a aspereza da do fluido. Uma vez que as forças resistivas crescem
estrada, o atrito da carroça) que tendem a parar com a velocidade, um corpo caindo experimentará
o movimento. Explicar o fenômeno significa um decréscimo da aceleração. Para uma força do
reconhecer que o corpo está se movendo à
velocidade adequada a um objeto de seu peso,
tipo F = c . v2, a velocidade terminal será expressa
quando está sujeito àquele particular equilíbrio por: vt = (m . g/c)1/2. Sobre esta questão, Arons
de força e de resistência. É natural, portanto, (1995, p. 230) escreve:
atentar, em condições de equilíbrio entre ação
e resistência, para o movimento constante do se não existisse este processo de atrito, um
corpo. Resultará, então, explicado qualquer fato temporal seria uma experiência muito dolorosa;
que exemplifique esse equilíbrio (TOULMIN, as gotas de chuva caindo livremente atingiriam
1982, p. 45-46).

Revista UNIFAMMA, Maringá, v. 5, n. 1, p. 9-29, nov. 2006 23


O Estagirita

velocidades que se aproximariam àquelas constante e a extensão da superfície influência


do som, e se pareceriam mais com balas [de de forma não sensível” (GLIOZZI, 1970 p. 17).
revólver] que propriamente gotas de água.
Esses tipos de estudos resultaram em uma ampla
gama de outros estudos, especialmente aquele
Um capítulo esquecido e desprezado da física de Arthur Morin (CANNATA; NEVES; ALBANESE,
é aquele que não liga os desenvolvimentos das 1996; NEVES et al., 1999), da Academia de Metz
ciências técnicas à resolução dos problemas relativos (Paris), que desenvolveu um outro aparato de
ao atrito e, em conseqüência, ao desenvolvimento medida da aceleração da gravidade baseado
da própria física como ciência experimental. Por sobre um conceito muito mais cinemático e
exemplo, sabe-se que Leonardo da Vinci, nos galileano que sobre a dinâmica de Newton.
Códigos Atlântico já havia introduzido o conceito Da história do conceito de força e da busca
de coeficiente de atrito como a razão entre a força em direção à natureza íntima das causas
e o peso (µ = F / P) mensurável seja na superfície responsáveis do movimento, podemos entrever
horizontal seja em planos inclinados (NEVES et al., um conjunto diverso de construções de
2000). Ele estudou todo um conjunto de possíveis confusas concepções e conceitos físicos que,
materiais para reduzir a resistência ao movimento das freqüentemente, atribuíam o movimento devido
máquinas. Esses estudos conduziram à pesquisa de à intervenção externa (o ar, como na física da
diversos tipos de lubrificantes durante toda a Idade antiperistasis – “substituição mútua”) ou a uma
Média, chegando, inclusive, ao uso do óleo de oliva propriedade interna (como o impetus de Hiparco,
(coeficiente entre 0,07 e 0,08 – (MUENDEL, 1995) Philoponus, Avicenna e Buridan), ou, ainda, a
pelos artesãos em seus moinhos de grãos. Outra um misto de uma propriedade inercial (mais a
importante conseqüência dos estudos relativos mudança da velocidade no momento da aplicação
ao atrito está ligada à construção dos aparatos da ação sobre o objeto) e uma noção de impetus
experimentais para medir o tempo de queda de medieval, como se pode ver ainda na física dos
um corpo e, por fim, a aceleração da gravidade. Principia. Infelizmente, nos livros didáticos e
A máquina de Atwood (de George Atwood, 1746- de divulgação, a física aristotélica e medieval
1807), desenvolvida sob a concepção newtoniana é pré-concebida como algo de profundamente
das forças, não fornecia os resultados que deviam errado, de nonsense, de absurdo. É tratada,
estar de acordo com as previsões estabelecidas por inclusive, de forma jocosa! A física de Newton é
Galileu e Newton Segundo Gliozzi (1970, p. 12): ainda o paradigma vigente. O fato de que a física
newtoniana não é aquela de Newton, mas de
o cálculo [derivado dos resultados] das
seus seguidores (Bernoulli, Euler e outros), onde
máquinas tinha caído em tal descrédito, como
nota Gugliemo Amontons (1663-1705), que o quadro geral dos objetos físicos é, de tudo,
o nome da máquina [de Atwood] é visto com uma outra coisa, não é sequer considerada na
desconfiança e de forma jocosa. Amontons bibliografia vigente. A pesquisa em ensino de física
indicava a causa do descrédito: a escassa
tem mostrado as grandes similaridades entre as
atenção prestada pelos construtores ao atrito e
rigidez das amarras, isto é, à resistência oposta concepções dos estudantes e aquelas cunhadas
das amarras ao ser enroladas em um cilindro. ao longo da história do conhecimento científico.
Porém, o panorama do ensino de ciências e de
Esse tipo de problema foi enfrentado, inclusive, física permanece inalterado, cumprindo seu papel
usando como meio um concurso para resolver a de ensino dogmatizador e “desmemoriado”, no
não correspondência entre as previsões teóricas sentido de uma absoluta falta de historicidade.
e os efeitos práticos. O concurso, promovido Assim, no universo tradicional do ensino de
em Paris em 1779, repetido em 1781, com o física, onde se desconsideram as concepções
prêmio duplicado, foi vencido por Coulomb, que dos estudantes (NEVES, 2000) nascidas na
demonstrou experimentalmente que a “razão cotidianeidade de um mundo muito distante das
da pressão ao atrito é sempre uma quantidade idealidades, o meio ideal [vácuo; superfícies sem

24 Revista UNIFAMMA, Maringá, v. 5, n. 1, p. 9-29, nov. 2006


Marcos Cesar Danhoni Neves

atrito] é a escolha absoluta, ou seja, não existe uma doutrina da Fé. Conjecturas e refutações são as
mecânica dissipativa na dinâmica do movimento. únicas coisas que nos restam, além da certeza
Parece que a quintessência aristotélica foi roubada de que há mais de dois mil anos a obra de um
dos aristotélicos e deslocada, pelos newtonianos, só homem mudou radicalmente a história da
para o mundo terrestre, igualando céu e Terra, humanidade e de seu conhecimento acerca do
numa nova e estranha idealidade, esquecendo mundo natural e de todo o Cosmos.
inexoravelmente o mundo da “violência”, da
“corrupção” e da dissipação [...]. Agradecimentos
Resta perguntar, finalmente, depois do O autor agradece aos professores do
“retrato” aqui pintado do Estagirita, qual seria seu “Laboratorio di Didattica delle Scienze”, da
“verdadeiro retrato” caso Justiniano não tivesse Università “La Sapienza” de Roma, do “Istituto
extinto seu Liceu ou se Amr Ibn Al-As não tivesse Italiano per gli Studi Filosofici”, de Nápoles, do
destruído quase todo o acervo da Grande Biblioteca “Warburg Institute”, de Londres, e aos alunos do
de Alexandria, ou ainda se os escolásticos de Programa de Educação Tutorial do Departamento
“O Nome da Rosa” não o tivessem adaptados à de Física da Universidade Estadual de Maringá

The estagirita
Abstract
This paper discusses some of the foundations of the Physics, Astronomy and Biology of Aristotle.

Keywords: Aristotle. Physics. De Caelo. Biology.

NOTA
1. Aristóteles será referido no presente texto ora como “Filósofo” ora como “Estagirita”.
2. Herói cultuado por ter auxiliado Castor e Pólux a trazer de volta para casa Helena de Esparta.
3. Sócrates, Platão, Aristóteles.
4. Segundo Ronan (1986, p.108): “Aristóteles viveu e trabalhou no Liceu durante treze anos, estabelecendo uma
escola animada e uma biblioteca, assim como um museu de objetos naturais de diversas espécies – concepção
muito diferente da de Platão, que teria rejeitado tais auxílios, já que ele acreditava que se podia visualizar uma
figura do universo apenas pelo pensamento. Aristóteles, ao contrário, pensava serem necessários todos os fatos
difíceis que era possível passar em revista antes de se poder obter uma visão do mundo natural. O museu foi
montado pelo próprio Alexandre, que também contribuiu com fundos para o Liceu.”
5. Derivado da palavra grega περιπατον
6. “O que, de fato, ele descreveu foi o nascimento do esqualo placentário, mas pareceu muito extraordinário a
zoólogos posteriores que suas observações tenham sido ignoradas: só foram confirmadas no início da década
de 1840. Também observou a hectocotilização, processo em que o cefalópode macho usa um braço para fer-
tilizar os ovos da fêmea – outra observação que teria de esperar até o século XIX para ser confirmada” (RONAN,
1986, p.113).
7. Força, F = m . a; Peso, P = m . g; Força de atrito (dissipativa) fat = - k . v

Revista UNIFAMMA, Maringá, v. 5, n. 1, p. 9-29, nov. 2006 25


O Estagirita

REFERÊNCIAS

ALBANESE, A.; NEVES, M. C. D.; VICENTINI, M. GRANT, E. Motion in the void and the principle of
Le Ricerche sulle degli studenti sui fenomeni di inertia in the Middle Ages. Isis, Chicago, v. 55, no.
movimento. Q. 8, Roma: LDS, 1997. 181, p. 265-292, 1964.

ARISTOTELES. Sobre o céu. Tradução, Roberto de GRANT, E. Physical Science in the Middle Ages.
Andrade Martins. Campinas, SP: Unicamp, 1986. New York: John Wiley, 1971.

ARISTOTELES. Física. Tradução, Roberto de JAMMER, M. Storia del Concetto di Forza. Milano:
Andrade Martins. Campinas, SP: Unicamp, 1986. Feltrinelli, 1979.

ARISTOTELES. Opere. Física del cielo. Tradução, MARTINS, R. A. Historia da Ciencia. Campinas, SP,
Roberto de Andrade Martins e Odone Longo. Roma- ed. da Unicamp, 1986.
Bari: Laterza, 1993.
MORRALL, J. B. Aristóteles. Brasília, DF: Ed. da
ARISTOTELES. Physics. Transl. Robin Waterfield. Universidade de Brasília, 1985.
New York: Oxford University Press, 1999.
MUENDEL, J. Friction and lubrication in the Medieval
ARONS, A. A guide to introductory physics Europe: the emergence of Olive Oil as a superior
teaching. New York: JohnWiley, 1995 agent. Isis, Chicago, v. 86, no. 3, p. 373-393, 1995.

BRUN, J. Aristóteles. Milano: Xenia Edizioni, 1997. NEVES, M. C. D.; SAVI, A. A.; O aparelho de Morin
Revisitado. Science & Technology Magazine:
CANFORA, L. A. A biblioteca desaparecida. São (S&TM). Campinas, SP, v. 2, n. 3, 1999. Disponível
Paulo: Companhia das Letras, 1984. em: <http://www.cotec.br/stm>. Acesso em: 22 jan.
2006.
CANNATA, I.; NEVES, M. C. D.; ALBANESE, A.
L´Apparato di Morin e L´Insegnamento della NEVES, M. C. D.; Uma história para a noção
mecanica, didatica dellascienza. Brescia: La Scuola, do cenceito de força. Roteiro de vídeo de curta-
1996. metragem, Laboratório de Criação Visual (LCV).
Maringá: Universidade Estadual de Maringá, 1999.
CLAGGETT, M. La scienza della mecânica nel
medioevo. Milano: Feltrinelli, 1981. NEVES, M. C. D. et. al. Leonardo, il genio inofficina.
Science & Technology Magazine: (S&TM),
COHEN, I. B. O nascimento de uma nova Física. Campinas, v. 2, no. 5, 2000. Disponível em: <http://
Lisboa: Gradiva, 1988. www.eptec.br/stm>. Acesso em: 22 jan. 2006.

CORNFORD, F. M. Antes e depois de Sócrates. São Neves, M. C. D.; SAVI, A. A. A sobrevivência do


Paulo: Princípio, 1994. alternativa: uma pequena digressão sobre o por quê
não ocorrem mudanças conceituais no ensino de
CRESSON, A. Aristóteles. Lisboa: Edições 70, 1981. física. In: ENCONTRO DE PESQUISADORES EM
ENSINO DE FÍSICA, 7., 2000, Florianópolis. Atas...
ECO, U. O nome da rosa. Rio de Janeiro: Record, Florianópolis: [s. n.], 2000. 1 CD ROM.
1986.
NEWTON, I. Principia: Princípios Matemáticos de
FRANKLIN, A. Principle of inertia in the Middle Ages. filosofia natural. São Paulo: Nova Stella, 1990.
Am. J. Phys., New York, v. 44, no. 6, p. 529-545,
1976. RONAN, C. Historia ilustrada da Ciência. Rio de
Janeiro: J. Zahar, 1986. v. 1.
GLIOZZI, M. Problemi di meccanica sperimentable nel
XVIII secolo. La Fisica nella Scuola, Cesena, n. 1, ROSSI, P. La nascita della Sciencia moderna in
p. 5-13, 1970. Europa. Roma-Bari: Editori Laterza, 1997.

26 Revista UNIFAMMA, Maringá, v. 5, n. 1, p. 9-29, nov. 2006


Marcos Cesar Danhoni Neves

SACHS, J. Aristotle´s Physics: a guide study. New


Brunswick: Rutgers University Press, 1995.

TAYLOR, A. E. Aristotle. New York: Dover, 1995.

TOULMIN, S. Previsione e conoscenze: un´indagine


sugli scopi della scienza. Roma: Armando, 1982.

TRUESDELL, C. Essays in the history of


mechanics. Berlin: Sprenger-Verlag, 1968.

Revista UNIFAMMA, Maringá, v. 5, n. 1, p. 9-29, nov. 2006 27