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DANIEL FARIA

) Alberta
oitava ( ABERTA
DANIEL FARIA [1971-1999]
ㅡ 50 POEMAS ㅡ

Daniel Faria, POESIA, Vila Nova de Famalicão, Quasi, 2006.


Daniel Faria, O LIVRO DO JOAQUIM, Vila Nova de Famalicão, Quasi, 2007.
ESTIO

Se eu adormecer
não me censures

Sai
e deixa-me entregue
aos sonhos

Vai
sentar-te
no campo
onde
se morre maduro

E
espera-me
para treparmos

árvores
e colhermos
ninhos
PÓRTICO SOBRE A AREIA

Com os meus amigos aprendi que o que dói às aves Sobrevoar o rosto
Não é o serem atingidas, mas que, Como uma terra alheia
Uma vez atingidas,
O caçador não repare na sua queda. Perceber que tudo se incendeia
Ao estender do corpo
BARCO SOLTO A CASA DOS CEIFEIROS

Dançar na proa Assim eles concluíam as casas:


Conquistar Incendiavam os telhados de colmo.
O mastro
1 Aos meus amigos nunca pedi mais
Ando a tirar a carta de condução (violência das violências); sinto-me um Que um copo de água
animal a ser amestrado. Ele diz: vire mais o volante; e eu viro. Ele diz: mais Sobre a mesa
para a nossa mão; e eu vou. Ele diz: não falta nada? e eu meto a mudança.
Assim também tem sido a minha vida. E é por isso que quero que acabe E tudo o que me deram foi
esta viagem. Porque de um animal tão doente e tão inútil, quem quererá ou Seus lábios cheios de sede
poderá ser companheiro?
Por isso minha vida
2 É
Não acredito que cada um tenha o seu lugar. Acredito que cada um é um E lhes sou grato
lugar para os outros.

3
O amor (venho repetir Dante) é um meio e um estado de locomoção.

4
Coitado de quem tem um melhor amigo. Quer partir e não é capaz.
PEQUENA HISTÓRIA, EM VERSÍCULOS, DO RAPAZ E DO LOBO

1 Era uma vez um rapaz que vivia no meio da floresta, onde de manhã Depois das queimadas as chuvas
cantavam os pássaros e à noite uivavam os lobos. Fazem as plantas vir à tona
2 A sua casa tinha muitas janelas, mas a paisagem era a mesma em cada Labaredas vegetais e vulcânicas
um. Verdes como o fogo
3 Cansava-se, por isso, de estar sozinho e abrindo as janelas gritava: Rapidamente descem em crateras concisas
ㅡ Socorro, que vem lobo! E seiva
4 Dos que vivam no povoado alguns subiam a encosta a socorrê-lo, mas E derramam o perfume como lava
desciam furiosos, pensando que troçava deles.
5 O rapaz não troçava de ninguém. E se quiséssemos queimar animais de grande porte
6 De se repetirem os seus gritos tornaram-se indiferentes. Já não os Eles não regressariam. Mas a morte
distinguiam. Tornaram-se comuns como o mugir do gado, o bater do sino, o Das plantas é a sua infância
tossir dos velhos. Nova. Os caules levantam-se
7 Mas um dia, estava o rapaz em casa, um lobo veio muito de mansinho Cheios de crias recentes
ㅡ o rapaz nem sabe se o viu ou se gritou ㅡ e feriu-o bem no coração.
8 O lobo deitou-se, depois, aos pés do rapaz e o rapaz, com a mão em Também os corações dos homens ardem
sangue, afagava-lhe devagar o pelo, enquanto que com a cabeça encostada ao Bebem vinho, leite e água e não apagam
seu focinho lhe ia dizendo ao ouvido: O amor
ㅡ Socorro, socorro...
Ando um pouco acima do chão Encosto-me à morte sem amparo ou sombra
Nesse lugar onde costumam ser atingidos Como o grão
Os pássaros Abeiro-me da flor que virá e venho
Um pouco acima dos pássaros À superfície do teu sonho
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo Como se acordasse a mão que semeia
No coração lavrado de quem fez a ceifa
Tenho medo do peso morto Rebento no interior da morte como o trigo
Porque é um ninho desfeito
Rebento no interior do trigo
Estou ligeiramente acima do que morre E de qualquer planta que se assemelhe a ti
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo

Ando ligeiro acima do que digo


E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema

Ando humildemente nos arredores do verbo


Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio dos incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim

E bebe
Mesmo no interior do quarto Não fui margem sem outra margem onde ligar os braços
És o lado de fora da casa Mas fui o tempo solto para entrançar os meus cabelos
Os inúmeros degraus da casa. A mais antiga E o movimento dos teus pés descalços
Crianças subindo-os um a um
Não fui a solidão inteira nem reclusa
Para o único repouso entre o silêncio
Nem fui a flor exausta defendendo-se
De toda a mão que a quis despetalar

Não fui a casa que a si mesma se abrigou


Nem a morada que nunca se acolheu
Mas o tempo a pedir que me deixasse

Naquilo que não fui vim encontrar-me


E sempre que te vi recomecei
Sei bem que não mereço um dia entrar no céu Estranho é o sono que não te devolve.
Mas nem por isso escrevo a minha casa sobre a terra Como é estrangeiro o sossego
De quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
De quem já só por dentro se ilumina
E surpreende
E por fora é
Apenas peso de ser tarde. Como é
Amargo não poder guardar-te
Em chão mais próximo do coração.
Guarda a manhã O meu projecto de morrer é o meu ofício
Tudo o mais se pode tresmalhar Esperar é um modo de chegares
Um modo de te amar dentro do tempo
Porque tu és o meio da manhã
O ponto mais alto da luz
Em explosão
EXPLICAÇÃO DA TARDE EXPLICAÇÃO DA NOITE

Um rapaz assobia, a luz pende a cabeça. Sobre a água estarei solto de caminhos
Os carros chiam chorando Dos que vierem nenhum barco é para ti
O ar cansado dos bois.
Morre a tarde, o rapaz assobia Não deixes a candeia acesa
Longe longe daqui Dorme: basta-me essa luz
EXPLICAÇÃO DA AUSÊNCIA

Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou Sei que o homem lavava os cabelos como se fossem longos
Não rodou mais para a festa não irrompeu Porque tinha uma mulher no pensamento
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém. Sei que os lavava como se os contasse
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta. Sei que os enxugava com a luz da mulher
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa Com os seus olhos muito claros voltados para o centro
Nem se cumpriu Do amor, na operação poderosa
E a espera é não acontecer ㅡ fosse abertura ㅡ Do amor
E a saudade é tudo ser igual.
Sei que cortava os cabelos para procurá-la
Sei que a mulher ia perdendo os vestidos cortados

Era um homem imaginado no coração da mulher que lavava


O cabelo no seu sangue

Na água corrente

Era um homem inclinado como o pescador nas margens para ouvir


E a mulher cantava para o homem respirar
Homens que são como lugares mal situados Homens que são como projectos de casas
Homens que são como casas saqueadas Em suas varandas inclinadas para o mundo
Que são como sítios fora dos mapas Homens nas varandas voltadas para a velhice
Como pedras fora do chão Muito danificados pelas intempéries
Como crianças órfãs Homens cheios de vasilhas esperando a chuva
Homens agitados sem bússola onde repousem Parados à espera
De um companheiro possível para o diálogo interior
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados Homens muito voltados para um modo de ver
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
Homens sulfatados por todos os destinos De si mesmo
Desempregados das suas vidas Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas Homens à chuva com as mãos nos olhos
Homens encarcerados abrindo-se com facas Imaginando relâmpagos
Homens abrindo lume
Homens que são como danos irreparáveis Para enxugar o rosto para fechar os olhos
Homens que são sobreviventes vivos Tão impreparados tão desprevenidos
Homens que são sítios desviados Tão confusos à espera de um sistema solar
Do lugar Onde seja possível uma sombra maior
Homens que trabalham sob a lâmpada Não levantemos os homens que se sentam à saída
Da morte Porque se movem em seus carreiros interiores
Que escavam nessa luz para ver quem ilumina Equilibram com dificuldade uma ideia
A fonte dos seus dias Qualquer coisa muito nítida, semelhante
A uma folha vazia
Homens muito dobrados pelo pensamento E põem ninhos nas árvores para se libertarem
Que vêm devagar como quem corre Da gaiola terrível, invisível muitas vezes
As persianas De tão dura
Para ver no escuro a primeira nascente Não nos aproximemos dos homens que põem as mãos nas grades
Que encostam a cabeça aos ferros
Homens que escavam dia após dia o pensamento Sem outras mãos onde agarrar as mãos
Que trabalham na sombra da copa cerebral Sem outra cabeça onde encostar o coração
Que podam a pedra da loucura quando esmagam as pupilas Não lhes toquemos senão com os materiais secretos
Homens todos brancos que abrem a cabeça Do amor.
À procura dessa pedra definida Não lhes peçamos para entrar
Porque a sua força é para fora e a sua espera
Homens de cabeça aberta exposta ao pensamento É a fé inabalável no mistério que inclina
Livre. Que vêm devagar abrir Os homens para dentro
Um lugar onde amanheça. Não os levantemos
Homens que se sentam para ver uma manhã Nem nos sentemos ao lado deles. Sentemo-nos
Que escavam um lugar No lado oposto, onde eles podem vir para erguer-nos
Para a saída. A qualquer instante
Repito que vivo enclausurado na agilidade de um animal nascido É por isso que adormeço numa luz em movimento
Correndo ao lado dele, correndo para ele ㅡ era assim E escolho um espaço para ver o espaço de frente
Que eu queria que fosse a linguagem veloz: A sua cor de silêncio nocturno e desenho
Uma casa para a infância com trepadeiras Uma maneira quieta de estar nele tranquilo
Para que as palavras ficassem como frutos no alto.
Há nesse espaço uma fonte, um animal que desperta
Repito a corrida na memória quando estou parado Uma criança que navega com as próprias mãos.
Penso velozmente que o amor, como Dante disse, é um estado Bebo com as mãos juntas.
De locomoção. É um motor. E fico a trabalhar no mecanismo secreto
Do amor. Há uma voz que bebo. Há um espaço entre as mãos mas não perco
A sede. A água multiplica-se porque a tiro do coração
Sei que estou em viagem na palavra que se move. Que escuta.

Repito o trajecto para ver o poema de novo ㅡ era assim Há um espaço no corpo que pode ser um lugar.
Que eu queria que fosse a linguagem de uma coisa amada À sombra posso olhá-lo até o ver
Correndo ao meu lado, correndo para mim no mecanismo violento Posso tocar as chagas no corpo
Do amor. Era nele que eu queria a casa com trepadeiras
Onde as palavras ficassem silenciosas e altas com um pátio interior. E posso beber dele morrendo
Nele como quem entra de tanto
O desejar.
PARA O INSTRUMENTO DIFÍCIL DO SILÊNCIO
1

Trago os instrumentos do fogo Mas tu existes.


Ponho-os na boca Os dias somam ruína à ruína
Ponho-os no coração E o a vir multiplicará
A miséria.
Trago os instrumentos da respiração Apodreço não adubando a terra
ㅡ Uma montanha, uma árvore que lhe dá abrigo ㅡ E cada dia somando a cada hora
E suspendo-os nos ramos como pinhas que dão sombra Não completa o tempo.
Um lugar fresco para os deportados de Sião nas margens Sei que existes e multiplicarás
A tua falta.
Trouxe também os instrumentos dos mineiros Somarei a tua ausência à minha escuta
Uma luz na cabeça voltada para o pensamento E tu redobrarás a minha vida.
Um olhar profundo
O modo prisioneiro de virem livremente para fora

E trago todos os instrumentos na circulação do sangue e na ocupação


permanente
Das mãos
Para o instrumento difícil
Do silêncio
2 3

Mas tu cresces abundante como um ano bom Porque a morte tem o seu tempo
És uma bênção como um ano bom A ruína soma ruína, à cabeça
Enches-nos a casa como um ano bom Equilibra a existência desmoronada e inteira.
Tu és o que edifica
Tu constróis mil vezes.
Porque o raio tem o seu tempo.
És o clarão, a lâmpada, a estrela
Somas luz à luz.
Não és a luz, és mais que a luz
Porque a noite tem o seu tempo.
Sou pedra na água
A raiz que ficou
4 Do que foi cortado, o grito

És o pé de criança sobre o meu pé Da tua boca


Sobre a parte interior da minha mão e sobre o meu peito
És o peso do que permanece
No meu ombro
És como a terra fértil

Estás à minha beira


E alcanço-te do cimo dos montes
Tenho um lugar na terra e frio
Como um arbusto de manhã
Sou o teu irmão mais novo

Tenho um lugar
Como as raízes, saudade
De dormir sobre os teus pés

És a balança, és o baloiço
Divides-me e não me perco
És o sopro, o redemoinho no barro

És a chuva sobre as casas


A inclinação dos telhados
O vira-vento de cascas cruzadas
De eucalipto

A tua mão é plana e funda


DO LIVRO DOS SOLILÓQUIOS
1

Se o fogo destruir a casa Ó extensão infinita na parcelinha da minha alma


E apagar a cal que caia a casa És o meu conhecedor ㅡ ó amplitude
Onde irei escrever o teu nome? Ó tu mão sobre o meu crâneo
Manhã nos meus olhos, aurora e fogueira neles
E se não escrever o teu nome Que te veja ㅡ ó incêndio
Como direi a alegria ao mundo? Ó primeiro goivo queimando o verdadeiro
Terreno onde enraizo o lume. Ó roseira
Ainda que vigie como um sistema de alarme Na minha alma, casquilho nela e rosa e lâmpada
E encha a minha boca de sirenes Que acende o aroma. Flor em fogo da sarça transformada
Como direi na minha casa em chamas Inteiramente em água. Acrescenta
Que és a única luz? Coriscos e trovões e lâmpadas e tempestades
Aos meus olhos
O chão carbonizado é a erosão do meu destino Que nasçam neles e rompam as nascentes ㅡ
Respeito o luto e não vou abrir caminhos: Tu esposo todo encharcado em sangue.
Mas se tu és também o incêndio Faz a mim que abrace a ti que és muito grande ㅡ lençol que alimpa
Como não rebento na cinza? Que repousa, cura ㅡ ó chaga nupcial de dentro
E de fora
E se o fogo destruir o homem que caia a casa E faz-me que te possua
E apagar o coração Tu que me atravessas como um exército
Como explicarei aos sem abrigo Meu acorro e meu ajudador, minha muralha comprida e palavra
O teu auxílio? Trespassadora ㅡ mais do que toda a espada talhante.
Abre os ouvidos de dentro das minhas orelhas
O relento não pode vergar-me Que eu oiça
Porque sou mais resistente do que o hissope: A tua voz desde o interior da lâmina ㅡ ó pastor
Mas se o fogo consome o sopro que me mantém de pé Que escutas o meu balir no interior do rebanho.
Que chama porei na fronte quando o teu anjo vier? Tu és fermento que engrandece o meu pão
Eu fui-te a esponja erguida de vinagre
E ardo vivo por ser-te o alimento.
DO LIVRO PRIMEIRO DA NOITE ESCURA, DE SÃO JOÃO DA CRUZ DO LIVRO PRIMEIRO DA NOITE ESCURA, DE SÃO JOÃO DA CRUZ
1 3

A princípio não se entende o amor, o sequioso vazio A princípio as trevas alumbram. Porque no escuro
E vamos anunciando de lugar em lugar o arbusto O coração pára de correr. Secando a água
Na alma onde a terra é mais seca. É um sítio Secam os caminhos, perdem-se os companheiros
De viagem, perdem-se as casas dos vizinhos.
De sacrifício ver o solestício avançar pelo obscurecer A noite a princípio é o homem sem casa, é o lugar
Da noite ㅡ o lugar sensitivo é um vestido que se descarna ao redor Em silêncio. É a humildade humedecendo
E tudo é padecer. A princípio não se sente O corpo descalço e consumido

A nudez. A união das coisas desiguais ㅡ tudo é o laço ditoso A noite activa a noite ㅡ é um motor imenso
Com mil imperfeições. A princípio não se entende a largueza De lume. O arbusto a princípio é a própria inclinação
Do lugar. O amor estreita o laço e unir Da cabeça
É sufocar o sequioso peito que amamenta Queimada nos cabelos, consumida em pensamentos

O princípio da noite é pôr o pé no chão. É pegar A princípio não se entende a sede, a inclinação, o vazio
No pão com bolor e comer E vamos cavando de lugar em lugar a expansão
O bolor ㅡ sequioso Do arbusto que transborda. De toda a terra
A alma é a mais árida ㅡ um imenso motor em chama
Nos mecanismos da viagem ardente

A princípio não se sente


O amor ㅡ a humidade amanhecendo
O coração ressequido
DO SACRIFÍCIO DE ISAAC

Queimará o monte, o filho, a lenha Abriu-se em ferida a cerca do teu sopro


A morte, as areias, a viagem E deixas vindimar-me quem quer
O deserto, a túnica, as estrelas Que passe

Nunca será bastante o incêndio Até o muro é sombra que não floresce
Enquanto me repetem a pergunta

Tu me cultivaste
Tu deixaste a geada sobrevir
DO INESGOTÁVEL
1 2

Amo-te no intenso tráfego Amo-te como um planeta em rotação difusa


Com toda a poluição no sangue. E quero parar como o servo colado ao chão.
Exponho-te a vontade Frágil cerâmica de poros soprados no teu hálito
O lugar que só respira na tua boca Vasilha que ergues em tua mão de oleiro
Ó verbo que amo como a pronúncia Cálice que não pudeste afastar de ti.
Da mãe, do amigo, do poema
Em pensamento.
Com todas as ideias da minha cabeça ponho-me no silêncio
Dos teus lábios.
Molda-me a partir do céu da tua boca
Porque pressinto que posso ouvir-te
No firmamento.
3 4

Sem outra palavra para mantimento Amo-te nesta ideia nocturna da luz nas mãos
Sem outra força onde gerar a voz E quero cair em desuso
Escada entre o poço que cavaste em mim e a sede Fundir-me completamente.
Que cavaste no meu canto, amo-te Esperar o clarão da tua vinda, a estrela, o teu anjo
Sou cítara para tocar as tuas mãos. Os focos celestes que a candeia humana não iguala
Podes dizer-me de um fôlego Que os olhos da pessoa amada não fazem esquecer.
Frase em silêncio Amo tão grandemente a ideia do teu rosto que penso ver-te
Homem que visitas Voltado para mim
Ó seiva aspergindo as partículas do fogo Inclinado como a criança que quer voltar ao chão.
O lume em toda a casa e na paisagem
Fora da casa
Pedra do edifício aonde encontro
A porta para entrar
Candelabro que me vens cegando.
Sol
Que quando és nocturno ando
Com a noite em minhas mãos para ter luz.
5 6

Amo-te na carne que tomaste do chão que aplaino Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões.
Com as mãos Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo
Com as palavras que escrevo e apago Se se recorda dos movimentos migratórios
Na areia, no cérebro. E das estações.
Amo-te com o cérebro em ferida Mas não me importo de adoecer no teu colo
Pensando-te De dormir ao relento entre as tuas mãos.
Remédio que derramas em mim a tua medicina, a morte
No meu corpo. Até que repouse como enfermo
No teu leito. Amo febrilmente amo o dia
Em que disseres: Larga
A tua enxerga! ㅡ E ande
Deixo crescer o cabelo sobre os pés divinos Apareço na fenda do muro
Deixo crescer as lágrimas. Vede como planto Pareço os rios nos mapas
A minha vida Pareço os rios no chão ㅡ um risco
(Põe a cadeira pequena ao teu lado Na orientação incerta ㅡ o rasto
Não mereço sentar-me no teu colo) De um homem que procura uma ideia
No chão onde escreve e apaga
Apareço para lançar uma ideia que alicerce
Deixa-me conhecer a caligrafia da palavra O coração ㅡ um ritmo mais tarde. Eu que nunca
Onde farei a casa. Afasta-me Aprenderei por onde
O cabelo dos olhos com o dedo indicador É que o muro ㅡ o mundo ㅡ começa a dividir
Poderia ter escrito a tremer de respirares tão longe Precisava de falar-te ao ouvido
Ter escrito com o sangue. De manter sobre a rodilha do silêncio
Também poderia ter escrito as visões A escrita.
Se os olhos divididos em partes não sobrassem Precisava dos teus joelhos. Da tua porta aberta.
No vazio de ceguez Da indigência. E da fadiga.
E luz. Da tua sombra sobre a minha sombra
Poderia ter escrito o que sei E da tua casa.
Do futuro e de ti E do chão.
E de ter visto no deserto
O silêncio, o fogo e o dilúvio.
De dormir cheio de sede e poderia
Escrever
O interior do repouso
E ser faúlha onde a morte vive
E a vida rompe.
E poderia ter escrito o meu nome no teu nome
Porque me alimento da tua boca
E na palavra me sustento em ti.
DIÁRIO

A espessura do sol Seja o que for


Cabe na boca Será bom.
É tudo.
O Verão
Está quase a terminar

Não
O diremos a ninguém
) Alberta
( ABERTA

«Poesia grega clássica ㅡ 50 fragmentos», primeira ABERTA, setembro, 2018.


«Konstandinos Kavafis ㅡ 50 poemas», segunda ABERTA, outubro, 2018.
«Walt Whitman ㅡ 50 poemas de Folhas de Erva», terceira ABERTA, novembro,
2018.
«Poesia espanhola contemporânea ㅡ 50 poemas», quarta ABERTA, dezembro,
2018.
«António Botto ㅡ 50 poemas de Canções», quinta ABERTA, janeiro, 2019.
«Eugénio de Andrade ㅡ 50 poemas», sexta ABERTA, fevereiro, 2019.
«Luís Miguel Nava ㅡ 50 poemas», sétima ABERTA, março, 2019.
«Daniel Faria ㅡ 50 poemas», oitava ABERTA, abril, 2019.