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Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais

Mestrado Acadêmico e Doutorado em História, Política e Bens Culturais

Disciplina: Documentos, burocracia e gestão estatal: introdução a uma abordagem


antropológica (16h)
Professor: Lucas Freire
Período: 2º semestre de 2020
Horário: Sextas-feiras, das 14h às 16h

EMENTA

Em seu estudo sobre a burocracia indiana, o antropólogo Akhil Gupta nos convida a
olhar para as práticas de Estado em seu exercício mais corriqueiro e cotidiano: o ato de escrever
e inscrever. Para o autor, o Estado não tem suas ações meramente registradas por e nos papéis,
mas, ao contrário, é em si mesmo constituído através da escrita. Seguindo as propostas de
Gupta, esse minicurso privilegia uma abordagem etnográfica e antropológica do Estado; uma
forma de entendimento que não o toma enquanto um organismo auto evidente, unificado,
autônomo e propositivo – o qual Philip Abrams conceitua precisamente como sendo a definição
do que ele chama de Estado-ideia –, mas sim enquanto administração, como pontua Carla
Costa Teixeira e Antonio Carlos de Souza Lima. Isto é, atentar para o Estado em ação implica
compreendê-lo como “feixes de relações de poder” que fazem do Estado algo que nunca estará
pronto, finalizado e delimitado, mas sim que se constitui permanente e cotidianamente através
dos seus agentes e de suas práticas, muitas das quais envolvem a fabricação de diferentes tipos
de documentos (Castilho, Souza Lima e Teixeira, 2014). Nesse sentido, o objetivo desse
minicurso é oferecer aos estudantes um instrumental teórico e metodológico mínimo e um
primeiro contato com a vasta bibliografia existente sobre a temática.

AVALIAÇÃO

1. Participação em aula (leitura e discussão dos textos, assiduidade e pontualidade): 4,0


2. Entrega de três fichamentos/resenhas de textos discutidos em aulas distintas (leitura crítica,
de 2 a 3 páginas): 2,0 cada (total = 6,0)
OU
Entrega de um texto autoral sobre pesquisa própria que dialogue consistentemente com no
mínimo 4 autoras/es discutidos no curso (entre 7 e 12 páginas): 6,0.
CONTEÚDO PROGRAMÁTICO

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Aula 1 – Apresentação do curso: o Estado em ação (14/08)

TEXEIRA, Carla Costa; SOUZA LIMA, Antonio Carlos de. “A Antropologia da Administração da
Governança no Brasil: área temática ou ponto de dispersão?”. In: MARTINS, Carlos Benedito
(coord.). Horizontes das Ciências Sociais no Brasil. São Paulo: ANPOCS, 2010, p. 51-95.

SOUZA LIMA, Antonio Carlos de. “Apresentação do Dossiê Fazendo Estado: O estudo
antropológico das ações governamentais como parte dos processos de formação estatal”.
Revista de Antropologia, São Paulo, v. 55, n. 2, p. 559-564, 2012.

Aula 2 – Alguns pressupostos teóricos para o estudo dos processos de Estado (21/08)

MITCHELL, Timothy. “Society, Economy and the State Effect”. In: SHARMA, Aradhana; GUPTA,
Akhil (eds.). The Anthropology of the State: a reader. Oxford: Blackwell Publishing, 2006, p. 169-
186.

BOURDIEU, Pierre. Sobre o Estado: cursos no Collège de France (1989-1992). São Paulo: Companhia
das Letras. 2014. [curso de 17 de janeiro. pp. 174-190; curso de 7 de fevereiro. pp.223-239.]

Aula 3 – Uma abordagem antropológica das políticas públicas (28/08)

SOUZA LIMA, Antonio Carlos de; CASTRO, João Paulo Macedo e. Notas para uma abordagem
antropológica da(s) Política(s) Pública(s). Anthropológicas, Recife, v. 26, n. 2, p. 17-54, 2015.

SHORE, Cris. La antropología y el estudio de la política pública: reflexiones sobre la


“formulación” de las políticas. Antípoda, Bogotá, n. 10, p. 21–49, 2010.

Aula 4 – Burocracia na prática cotidiana do Estado (04/09)

GUPTA, Akhil. Red Tape: bureaucracy, structural violence, and poverty in India.
Durham/London: Duke University Press, 2012. [Cap. 5 “Let the train run on paper: bureaucratic
writing as state practice”, p. 141-190].

Sugestão de filme: Eu, Daniel Blake, Ken Loach (2017, Reino Unido, 97 min).

Aula 5 – Etnografia e trabalho de campo entre agências e agentes estatais (11/09)

SOUZA LIMA, Antonio Carlos de; FACINA, Adriana. “2019, Brasil: por que (ainda) estudar elites,
instituições e processo de formação de Estado?”. In: TEIXEIRA, Carla Costa; LOBO, Andréa;
ABREU, Luiz Eduardo (orgs.) Etnografias das instituições, práticas de poder e dinâmicas estatais.
Brasília: ABA Publicações, 2019, p.433-484.

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TEIXEIRA, Carla Costa. “Pesquisando instâncias estatais: reflexões sobre o segredo e a mentira”.
In: CASTILHO, Sérgio; SOUZA LIMA, Antonio Carlos de; TEIXEIRA, Carla Costa (org.).
Antropologia das Práticas de Poder: reflexões etnográficas entre burocratas, elites e
corporações. Rio de Janeiro: ContraCapa/FAPERJ, 2014, p. 33-42.

Aula 6 – Etnografias dos/com documentos (18/09)

LOWENKRON, Laura; FERREIRA, Leticia. “Perspectivas antropológicas sobre documentos:


diálogos etnográficos na trilha dos papéis policiais”. In: FERREIRA, Leticia; LOWENKRON, Laura
(org.). Etnografia de documentos: pesquisas antropológicas entre papéis, carimbos e
burocracias. Rio de Janeiro: E-papers, 2020, p. 17-52.

VIANNA, Adriana. “Etnografando Documentos: uma antropóloga em meio a processos


judicias”. In: CASTILHO, Sérgio; SOUZA LIMA, Antonio Carlos de; TEIXEIRA, Carla Costa (org.).
Antropologia das Práticas de Poder: reflexões etnográficas entre burocratas, elites e
corporações. Rio de Janeiro: Contra Capa/FAPERJ, 2014. p. 43-70.

Aula 7 – Estado, documentação, regulação e gênero (25/09)


(Sessão com participação da autora Barbara Pires)

FREIRE, Lucas. “Sujeitos de papel: sobre a materialização de pessoas transexuais e a regulação


do acesso a direitos”. Cadernos Pagu, Campinas, n.48, 2016, p. e164813.

PIRES, Barbara Gomes. A gestão da integridade: corpo, sujeição e regulação das variações
intersexuais no esporte de alto rendimento. (Tese). Doutorado em Antropologia Social,
Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2020. [Cap. 5 “O lugar da proteção”].

Aula 8 – Legibilidade e assinaturas do Estado na gestão de populações (02/10)


(Sessão com participação da autora Anelise Gutterres)

GUTTERRES, Anelise. “As múltiplas assinaturas do Estado: práticas do município-réu nos


processos de (des)habitação no Rio de Janeiro”. Anuário Antropológico, Brasília, v. 42, n. 2,
2017, p. 207-238.

SCHUCH, Patrice. “A legibilidade como gestão e inscrição política de populações: notas


etnográficas sobre a política para pessoas em situação de rua no Brasil”. In: FONSECA, Cláudia;
MACHADO, Helena (org). Ciência, Identificação e tecnologias de governo. Porto Alegre: Ed. da
UFRGS/CEGOV, 2015, p. 121-145.

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

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ABRAMS, Phillip. Notes on the Difficulty of Studying the State. In: SHARMA, Aradhana; GUPTA,
Akhil (eds.). The Anthropology of the State: a reader. Oxford: Blackwell Publishing, 2006, p. 112-
130.

BEVILAQUA, Ciméa; LEIRNER, Piero. “Notas sobre a análise antropológica de setores do Estado
brasileiro”. Revista de Antropologia, São Paulo, v.43, n.2, 2000.

BEZERRA, Marcos Otavio. Corrupção: um estudo sobre poder público e relações pessoais no
Brasil. 2ª ed. Rio de Janeiro: Papéis Selvagens, 2018.

BOURDIEU, Pierre. Razões Práticas: sobre a teoria da ação. São Paulo: Papirus, 1996.

BRONZ, Deborah. Nos bastidores do licenciamento ambiental: uma etnografia das práticas
empresariais em grandes empreendimentos. Rio de Janeiro: ContraCapa, 2016.

BROWN, Wendy. “Finding the man in the state”. In: In: SHARMA, Aradhana; GUPTA, Akhil (eds.).
The Anthropology of the State: a reader. Malden: Blackwell, 2006, p.187-210.

CUNHA, Olívia Maria Gomes da. “Tempo imperfeito: uma etnografia do arquivo”. Mana, Rio de
Janeiro, v.10, n.2, 2004, p. 287-322.

DAS, Veena; POOLE, Deborah (eds.). Anthropology in the Margins of the State. Santa Fe: School
of American Research Press, 2004.

FASSIN, Didier et al. At the Heart of the State: the moral world of institutions. London: Pluto
Press, 2015.

FERREIRA, Letícia. “‘Apenas preencher papel’: reflexões sobre registros policiais de


desaparecimento de pessoa e outros documentos”. Mana, vol. 19, n. 1, 2013, p. 39-68.

FERREIRA, Leticia de Carvalho Mesquita. Pessoas Desaparecidas: uma etnografia para muitas
ausências. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2015.

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FOUCAULT, Michel. Em Defesa da Sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

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2005.

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4
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LUGONES, María Gabriela. Obrando en autos, obrando en vidas: formas y fórmulas de


protección judicial en los Tribunales Prevencionales de Menores de Córdoba, Argentina, a
comienzos del siglo XXI. Rio de Janeiro: E-papers, 2012.

NUGENT, David; VICENT, Joan (org.). A companion to the anthropology of politics. Malden:
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SCOTT, James. Seeing Like a State: how certain schemes to improve the human condition have
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SOUZA LIMA, Antonio Carlos. Um Grande Cerco de Paz: Poder tutelar, indianidade e formação
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SOUZA LIMA, Antonio Carlos de (org.). Gestar e Gerir: estudos para uma antropologia da
administração pública no Brasil. Rio de Janeiro: Relume Dumará/NUAP/UFRJ, 2002.

SOUZA LIMA, Antonio Carlos de (org.). Tutela: formação de Estado e tradição de gestão no
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VIANNA, Adriana (org.). O Fazer e o Desfazer dos Direitos: experiências etnográficas sobre
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VIANNA, Adriana; LOWENKRON, Laura. “O duplo fazer do gênero e do Estado: interconexões,


materialidades e linguagens”. Cadernos Pagu, v. 51, 2017, p. e175101.

WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro: LTC, 1982.

ZENOBI, Diego. Políticas para la tragedia: Estado y expertos en situaciones de crisis.


Iberoamericana, Estocolmo, v. 46, n. 1, 2017, p. 30-41.

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