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A DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS E OS DIREITOS

INDIVIDUAIS COM ÊNFASE NOS DIREITOS SOCIAIS1

Grazielly dos Anjos Fontes,


Acadêmica do 7º período do Curso de Direito- UFRN

1. INTRODUÇÃO

A Declaração Universal dos Direitos dos Homens, apesar de ser uma


simples declaração, foi adotada por unanimidade pela sociedade internacional em
1948, tendo sido o principal documento que atestou aos Direitos Humanos o caráter
de seriedade.

A plena aceitação por parte dos países signatários deu-se em virtude da


presença e acolhimento de valores que deveriam ser buscados e respeitados por
todos os povos. Assim, tem-se a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do
Cidadão como um documento inicial em que se reuniu direitos de primeira geração e
os de segunda, estes últimos também conhecidos como direitos sociais.

Assim, temos que os direitos sociais, segundo Manoel Jorge e Silva Neto,
dizem respeito aos direitos públicos subjetivos dirigidos ao Estado, a determinar a
exigibilidade de prestações no que se refere à educação, saúde, trabalho, lazer,
segurança e previdência social (JORGE, NETO, 1998).

Trata-se de direitos essenciais à sobrevivência humana, o que o torna


merecedor de estudos e debates, sendo concretizados pelo resultado prático
apresentado e não pela sua simples existência no ordenamento jurídico.

O presente trabalho enfatizará os direitos sociais, com o objetivo de


averiguar a efetividade destes nas políticas públicas da sociedade internacional.
Para isso deverá ser analisado o contexto histórico-filosófico dos Direitos Humanos,
com base na sua conceituação, na evolução dos direitos sociais, seguindo
1
Artigo submetido a análise da Revista Realidades, organizado por acadêmico junto Universidade
Federal do Rio Grande do Norte

1
conjuntamente com a análise das características dos direitos humanos, enfocando,
particularmente, algumas delas no que concerne aos direitos humanos de primeira e
segunda geração. E por fim, o trabalho em tela trará a apuração dos resultados
práticos dos direitos sociais comparados internacionalmente.

2. CONCEITUAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS

Os direitos sociais representam a segunda fase dos Direitos Humanos


Fundamentais, compreendendo os direitos econômicos, sociais e culturais. Nesse
sentido é mister tecer algumas considerações a respeito da conceituação da
expressão Direitos Humanos Fundamentais.

Tal conceituação é resultado de uma evolução de pensamentos filosóficos,


sociológicos, políticos e jurídicos. Contudo, não existe uma uniformidade quanto a
sua definição, tendo em vista as várias concepções de origem, além das várias
nomenclaturas atribuídas à expressão como: direitos naturais, direitos do homem,
direitos individuais, direitos públicos subjetivos, liberdades fundamentais, liberdades
públicas e direitos fundamentais dos homens (SILVA, 1998).

A doutrina apresenta diversos pontos de vista sobre a origem dos direitos


humanos. A autora Lúcia Barros Freitas de Alvarenga, em sua obra “Uma dimensão
hermenêutica para realização Constitucional”, apresenta os entendimentos de
alguns autores como Lions citado por Antonio Enrique Perez Luño, quando afirma
que a expressão direitos humanos presumem-se de uma constante histórica, cujas
raízes remontam às instituições e ao pensamento do mundo clássico, enquanto que
Battaglia citado por Perez Luño acredita nascer como uma afirmação cristã da
dignidade moral do homem enquanto pessoa (ALVAREGA, 1998).

Desta forma, o conceito de Direitos Humanos está intrinsecamente ligado à


origem dos mesmos, além de sua fundamentação, ganhando força somente após a
sua positivação, ou seja, a partir da Declaração de Direitos Humanos Fundamentais.

Perez Luño apresenta uma louvável definição sobre os direitos


fundamentais:
2
um conjunto de faculdades e instituições que, em cada momento
histórico, concretizam as exigências da dignidade, da liberdade e da
igualdade humana, as quais devem ser reconhecidas positivamente
pelos ordenamentos jurídicos em nível nacional e internacional
( CASTRO, LUÑO, CID, TORRES, 1979, p. 43).

A definição supra citada apresenta de forma consistente o processo de


busca pelos direitos inerentes ao homem, estes que muitas vezes se encontram
adormecidos na história e que em determinados momentos eclodem, necessitando
de alguma forma serem firmados, através de sua positivação.

É neste sentido, que apesar dos Direitos Humanos Fundamentais serem


inerentes e universais aos homens, somente conseguem reconhecimento e eficácia
se adaptados aos ideais morais, econômicos, culturais e religiosos de cada Estado,
fazendo jus aos dispositivos traçados na Declaração de 1948. Logo, não há um
entendimento consistente e unificado quanto à conceituação da expressão, haja
vista as origens desses direitos terem ocorrido em cada Estado de forma diferente,
através de impulsos e necessidades diversas.

3. A EVOLUÇÃO DOS DIREITOS SOCIAIS

Os direitos sociais surgiram em face de acontecimentos que trucidavam o


homem enquanto ser humano. Tais acontecimentos atingiam tão diretamente a
dignidade humana que a própria sociedade reagiu, partindo em busca da proteção e
da assistência do Estado.

Para compreensão dessa evolução no seio societário interessante a


exposição dos primeiros passos dos direitos fundamentais. Segundo Alexandre de
Morais, esses direitos já eram previstos entre os homens desde as Civilizações
Egípcia e Mesopotâmica, quando já se pensava em proteção do indivíduo perante o
Estado.

O Código de Hamburabi foi o instrumento em que se realizou a primeira

3
codificação dos primeiros direitos fundamentais, como: a propriedade, a vida, a
honra, a dignidade, a família e a supremacia das leis (MORAIS, 2003).

Na Antiguidade Clássica, foi na Grécia onde se percebeu uma nova


organização estrutural dos direitos humanos, um pouco diferente da concepção
atual, pois havia uma necessidade de liberdade e igualdade entre os homens. Mas
foi no Direito Romano, com a formulação da Lei das Doze Tábuas, que veio a
proteção dos direitos individuais em relação ao Poder Estatal (MORAIS, 2003).

Ao seguir a história, encontra-se a tradição cristã ocidental no período da


Idade Média, em que o princípio da igualdade entre os homens, oriundos de
ensinamentos cristãos, serviu naquele momento como dogma para que a fé
conduzisse o homem. Este primeiro resquício do princípio de igualdade possibilitou
as futuras conjecturas acerca do que seria a igualdade, o princípio da isonomia, e
conseqüentemente, outros direitos humanos dos séculos XVII e XVIII, os quais se
embasaram nas teorias de Thomas Hobbes, John Locke e Jean Jacques Rousseau,
acerca da análise da natureza humana (FILHO, 1995)

Assim, predomina, até os dias de hoje, o individualismo, característica


primordial desses primeiros resquícios de direitos fundamentais. Tal individualismo
idealizou ainda a liberdade de autodeterminação dos homens, conforme
complementa Celso Lafer: "o individualismo na sua acepção mais ampla, ou seja,
todas as tendências que vêem no indivíduo, na sua subjetividade, o dado
fundamental da realidade" (LAFER, 1998, p. 120).

No início da idade Moderna a questão do individualismo se ampliou, tendo


em vista que os movimentos religiosos buscaram a manutenção da questão
espiritual, contudo, com uma essência política e econômica. Surge assim o primeiro
direito individual: "a liberdade de opção religiosa", presente na “Magna carta
Libertatum” da Inglaterra, outorgada por João Sem-Terra em 15 de junho de 1215;
além do surgimento de um jus-naturalismo moderno, elaborado durante os séculos
XVII e XVIII, que difere do tradicional direito natural de Tomaz de Aquino, no qual o
fundamento deixa de ser o divino para ser a razão, elemento comum aos homens.

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A escola do Jus-naturalismo moderno aparece como um dos primeiros
fundamentos filosóficos dos Direitos Humanos, servindo de doutrina jurídica para
embasar a Revolução Francesa e Americana (BOBBIO, 2004). Sua concepção
individualista consistiu na predominância do indivíduo.

Assim, o Jus-naturalismo moderno perdurou durante dois séculos,


apregoando que os direitos humanos seriam inerentes ao homem, ou seja, “eles não
estão para serem criados, nem mesmo para receberem um valor jurídico por uma
assembléia” (MORANGE, 2003, p.15), estando acima de qualquer possibilidade de
refutação, derivando diretamente da natureza (BOBBIO, 2004). O mesmo, apesar de
permanecer com o fundamento do individualismo, perdeu a influência religiosa que
antes possuía do Direito Natural primitivo.

Quando nasce o pensamento liberal no jus-naturalismo, passa a existir uma


nova visão do mundo, constituída de crenças, valores e interesses da classe social
emergente, a burguesia. Essa nova classe social passa a pregar a expressão do
individualismo voltada para a noção de liberdade total, derrubando o poder absoluto
do rei, com o ideal de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, princípios da Revolução
Francesa.

É no período que precede a Revolução Industrial que a burguesia passa a


ter o controle político, passando o Estado somente a concretizar os aspectos da
teoria liberal, que mais lhe interessa, recusando-se exercer os ideais sociais de
igualdade quanto à distribuição social da riqueza, além de excluir o povo do acesso
ao governo. Esse pensamento liberal manteve-se durante o séc. XVII até o começo
do séc. XIX, quando termina o período das revoluções burguesas.

O novo modelo econômico, o capitalismo, ensejou o surgimento da classe


proletariada, tendo essa sido explorada desenfreadamente com as jornadas de
trabalho ilimitadas, as remunerações desiguais, trabalho de crianças, sem um
sistema de segurança, condições de moradia para as cidades industriais,
atendimento à saúde, entre outros.

É nesse momento, de absurdo tratamento humano, que se enxerga a


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proteção da dignidade da pessoa humana, através de proteções sociais,
econômicas e culturais.

Assim, a segunda geração dos direitos fundamentais começa a ser


positivada, ocorrendo durante o período da primeira metade do século XIX até a
Segunda Guerra Mundial, pois antes da Declaração de 1948, surgiram antecedentes
Declarações que trataram do assunto, como os Estados Norte-americanos,
Revolução Francesa, Revolução Russa (FILHO, 2002).

É nesse momento que nasce o Estado Moderno, tendo o legislador ganho


evidência, servindo de limites ao próprio Estado, que não mais é absoluto.

Passa a teoria a possuir norma para ser praticada, ou seja, como dizia
Bobbio “do direito pensado para o direito realizado” (BOBBIO, 2004, p. 49). Passam
assim tais direitos a serem protegidos apenas nos Estados, que os reconhecem
através das normas programáticas.

Com isso, pode-se dizer que os direitos fundamentais de segunda geração


emergiram em um panorama jurídico como uma reação aos excessos do
Capitalismo, que dominou o final do séc. XIX início do séc. XX. Tendo a
característica do individualismo, tão presente nos direitos de primeira geração,
passado a compartilhar no âmbito da sociedade a nova característica que foi o
reconhecimento dos direitos em favor dos grupos sociais.

4. CARACTERÍSTICAS DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS

Os Direitos Humanos possuem características importantes, que perfazem a


sua própria garantia na sociedade, são elas: a imprescritibilidade, na qual os direitos
humanos não se perdem pelo decurso do prazo; a inalienabilidade, que consiste na
não transferência dos direitos humanos; a irrenunciabilidade, pela qual tais direitos
não podem ser renunciados; a inviolabilidade, que é a impossibilidade de
desrespeito por ato infraconstitucional; a universalidade, que abrange todos os
direitos do indivíduo; a efetividade, na qual o poder público deve atuar no sentido de
garantir a efetivação dos direitos e garantias previstos na constituição; a
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interdependência, que consiste nas várias previsões constitucionais e
infraconstitucionais que não podem se chocar com os direitos fundamentais,
devendo antes se relacionar de modo a atingirem suas finalidades, e por último, a
complementaridade na qual os direitos humanos não devem ser interpretados
isoladamente, mas sim de forma conjunta, com o fim de plena realização (MORAIS,
2002).

Assim, os direitos sociais como parcela dos direitos Humanos Fundamentais


também trazem algumas características isoladas como: a garantia da igualdade
material, uma vez que busca permitir aos indivíduos a sua inclusão no seio da
sociedade e não apenas a sobrevivência. Viver independe da vontade humana, mas
“sobreviver” dignamente, com trabalho, assistência à saúde, educação, moradia,
esses sim são oriundos de esforços humanos.

Quanto à característica de igualdade dos direitos sociais, o autor José


Eduardo Faria, faz uma critica, pois acredita que os direitos sociais configuraram um
direito de preferências e desigualdades. Trata-se de um “direito discriminatório com
propósitos compensatórios; um direito descontínuo, pragmático e por vezes até
mesmo contraditório, quase sempre dependente de sorte de determinados casos
concretos” (FARIAS, 1998, p. 105).

Apresenta, ainda, como características específicas dos direitos sociais o


caráter interventor do Estado, que tem a finalidade de promover as ações,
correspondendo ao empenho humano; e o caráter de prestação, uma vez que não
necessita de uma contraprestação de quem foi favorecido.

Assim, trabalha-se o Poder Público executor de programas para o


desenvolvimento da sociedade, que não enseja uma devolução direta “financeira”
por parte da coletividade, mais sim uma devolução indireta, posto que a sociedade
vivendo em condições dignas resulta em uma autosustentabilidade social,
econômica e cultural para o Estado.

Importante lembrar que pairam em mesas de debates discussões


acaloradas sobre esses direitos, pois não adianta um rol legalista de direitos sociais,
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econômicos e culturais, sem concretização, pois essa é a verdadeira garantia para
uma digna vida humana.

5. A INDIVISIBILIDADE DOS DIREITOS DE PRIMEIRA E SEGUNDA GERAÇÃO E


A DECLARAÇÃO UNIVERSAL

Os Direitos Humanos devem ser estudados na sua integralidade, ou seja,


como direitos Individuais e Sociais, tal raciocínio de complementação e integração
possibilitam uma melhor compreensão dos mesmos.

Ocorreu que no curso histórico, antes da declaração dos direitos


fundamentais de 1948, fazia-se presente a distinção entre as liberdades públicas e
os direitos sociais, pois acreditavam que os direitos de segunda geração negavam
os de primeira e assim vice-versa.

Noberto Bobbio afirma que os “direitos humanos fundamentais são de uma


classe heterogênea, havendo pretensões diversas entre si, até mesmo incompatível”
(BOBBIO, 2004, p. 39). Segue dizendo que as razões que servem para sustentar
uma não serve para as outras.

De acordo com o raciocínio desse autor são poucos os direitos fundamentais


que não entram em choque com outros direitos fundamentais. Nesse diapasão não
se pode afirmar um novo direito (direitos sociais), em favor de um conjunto de
pessoas, sem abolir um antigo direito fundamental pertencente a outra categoria.
Cita como exemplo “o reconhecimento do direito de não ser torturado implica a
desaparecimento do direito de torturar” (BOBBIO, 2004, p. 40).

Resta claro, portanto, que diante de uma divergência como a exemplificada


acima, o procedimento deverá ocorrer através da limitação de um direito e do outro,
confirmando que os direitos não podem ter o mesmo fundamento e sim fundamentos
diversos.

Assim, a declaração de 1948 resguardou a unificação dos direitos


fundamentais de primeira e de segunda geração, sem priorização de um em
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detrimento de outro.

Afirma Jayme Benvenuto Lima Jr. que a “indivisibilidade dos direitos


humanos se liga ao final da Segunda Guerra Mundial, quando surgem a
Organização das Nações Unidas (ONU) e os sistemas internacionais de proteção
dos direitos humanos, com a declaração de Direitos Humanos, independente da
nova situação que surgia: o novo mundo na sua forma bipolar (Guerra Fria)”.(LIMA
JÚNIOR, 2003, p. 2)

Ocorreu que apesar dos esforços, o mundo passou a dividir–se em dois


blocos “econômicos e ideológicos, respectivamente capitalista e socialista”,
separando os direitos fundamentais, posto que o bloco dos socialistas utilizou os
direitos sociais como fachada, enquanto os capitalistas pregaram o liberalismo, o
que repercutiu em seqüelas nos direitos humanos fundamentais, antes tido como
indivisíveis.

Com o término da Guerra Fria surgem novas perspectivas dando-se conta


de que “seres humanos têm necessidades políticas, civis, econômicas, sociais e
culturais que devem ser alcançadas mediante a definição de direitos” (LIMA
JÚNIOR, 2003, p. 3). Com isso volta-se a proceder com a indivisibilidade na
aplicação desses direitos

Corrobora com a característica da indivisibilidade dos direitos Humanos o


relatório de desenvolvimento humano de 2000:

Os direitos humanos são indivisíveis em dois sentidos. Em primeiro


lugar, não há hierarquia entre diferentes tipos de direitos. Os direitos
civis, políticos, econômicos, sociais e culturais são todos igualmente
necessários para uma vida digna. Em segundo lugar, alguns direitos
não podem ser suprimidos com o objetivo de promover outros.
Direitos civis e políticos não podem ser violados para promover
direitos econômicos, sociais e culturais. Nem podem os direitos
econômicos, sociais e culturais ser suprimidos para promover os
direitos civis e políticos. (GLOSSARIO RDH, 2000, p. 01)

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A análise supra reitera o pensamento de Bobbio quanto à questão de existir
vários fundamentos para os direitos humanos, posto que um direito de uma geração
não pode suprir o de outra, sendo os direitos de segunda geração um resguardo
para os direitos das liberdades públicas, uma vez que os direitos sociais,
econômicos e culturais trazem implicitamente a liberdade, igualdade dos seres
humanos.

6. UNIVERSALIDADE DOS DIREITOS SOCIAIS PRESENTES NA DECLARAÇÃO

A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 foi a primeira


consignação escrita realizada em nível internacional para estabelecer os direitos
inerentes ao homem, reconhecendo a dignidade e o valor da pessoa humana, além
da questão da família e respeito como fundamento da liberdade, justiça e paz no
mundo, sendo preenchida com conteúdo abstrato, geral, que assume uma finalidade
comum: a proteção dos homens.

Assim, os direitos fundamentais, conforme assinala a própria declaração,


sempre foram tidos como universais. Norberto Bobbio em seu livro “A Era dos
Direitos” afirma que “os direitos humanos nascem como direitos naturais universais,
desenvolvem-se como direitos positivos particulares, para finalmente encontrarem
sua plena realização como direitos positivos universais” (BOBBIO, 2004, p.50). O
autor explica que se inicia com uma universalização abstrata dos direitos naturais,
passando para uma fase de concretização, com a positivação, e por fim termina em
um processo de universalização não mais abstrata e sim concreta desses direitos
positivados.

O caráter universal dos direitos humanos sempre existiu, tendo se


reestruturado em um momento de positivação para somente depois reassumir a sua
forma global.

Nesse sentido, o período de reestruturação do caráter universal dos direitos


humanos, ocorrido na positivação dos mesmos, possibilitou a proliferação
principalmente dos direitos sociais, uma vez que novos direitos foram reconhecidos,
surgindo “personagens de direitos como: a mulher, o idoso, a criança, o doente, em
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paralelo ao homem abstrato e o cidadão” (BOBBIO, 2004, p.86).

Importante lembrar que quanto mais direitos sociais reconhecidos, maiores


deverão ser as participações ativas do Estado, que assume o papel de protetor e
executor de tais direitos, em específico.

Nesse contexto, se destaque universalidade, posto que a partir do momento


em que o Estado passa a proteger os direitos, presume-se que as medidas adotadas
sejam realizadas em concordância com os demais Estados, não sendo esta a
realidade, posto que os aspectos econômicos, políticos e culturais de cada Estados
proporcionam ações diferenciadas, mesmo que com o mesmo objetivo.

Desta forma, o sistema de proteção internacional dos direitos humanos que


tem como “essência” a universalização, mais uma vez é atropelado pelas disputas
econômicas que se transfiguram em contendas bélicas, sociais, culturais e
religiosas, repercutindo em cada Estado ameaçado, em medidas de segurança
como: a restrição e violação de direitos fundamentais.

7. OS DIREITOS SOCIAIS NA DECLARAÇÃO

A Declaração Universal dos Direitos Humanos traz em seus dispositivos as


noções dos direitos sociais, econômicos e culturais a serem resguardados
internacionalmente. Estão eles previstos no artigo XXII até XXVII, da Declaração.

Sobre esses direitos temos, por exemplo, o direito ao trabalho, ao lazer, a


um mínimo de padrão de vida familiar, educação, saúde, cultura. Todavia, sua
realização depende do Poder Público, pois se trata de responsabilidade do
“administrador do Estado”, haja vista o fornecimento de serviços essenciais à
sociedade repercutir em uma integração conjunta com o povo na busca pela
preservação dos direitos, sem contar com a fiscalização do Estado na esfera
privada, garantindo literalmente os direitos humanos fundamentais.

Ao analisar cada direito de segunda geração, observa-se que todos têm em


comum a origem, pois surgem como resposta aos problemas sofridos pela
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sociedade na época, como, por exemplo, o direito ao trabalho, que surge em
resposta ao desemprego derivado do processo de rápida urbanização, que gerou
desconcentrações de mão de obra, no período em que se iniciava o modelo
capitalista.

Com a grande massa desempregada aos redores das cidades, surgem os


descontentamentos e explosões revolucionárias, que passam a exigir um mínimo de
condições.

Assim, a Declaração foi um marco que serviu de espelho para que as


Constituições que ainda não possuíam a essência de Direitos Humanos pudessem
albergar e as que já possuíam pudessem valorar, podendo assim, gozar de maior
efetividade.

Um exemplo, desse segundo ponto, foi a Constituição francesa de 1848 que


apesar de enunciar o direito ao trabalho, somente foi valorado e garantido cem anos
depois, com sua Declaração Universal que tratou do assunto em seu artigo XXIII:

Artigo XXIII
1.Todo o homem tem direito ao trabalho, à livre escolha de
emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção
contra o desemprego.
2. Todo o homem, sem qualquer distinção, tem direito a igual
remuneração por igual trabalho.
3. Todo o homem que trabalha tem direito a uma remuneração justa
e satisfatória, que lhe assegure, assim como a sua família, uma
existência compatível com a dignidade humana, e a que se
acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.
4. Todo o homem tem direito a organizar sindicatos e a neles
ingressar para proteção de seus interesses.

Quanto ao direito à educação, esse nasce da necessidade de se formar


cidadãos em um período de busca pela democracia, assumindo o Estado a
competência para efetivação desse. Pois a instrução educacional qualifica o
indivíduo, o faz pensar e mais, propõe a lutar pela busca e garantia de outros
direitos.

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A Declaração traz algumas noções desse direito em seu artigo XXVI, no qual
dispõe:

Artigo XXVI
1. Todo o homem tem direito à instrução. A instrução será gratuita,
pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução
elementar será obrigatória. A instrução técnica profissional será
acessível a todos, bem como a instrução superior, esta baseada no
mérito.
2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento
da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos
direitos do homem e pelas liberdades fundamentais. A instrução
promoverá a compreensão, a tolerância e amizade entre todas as
nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades
das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.
3. Os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de
instrução que será ministrada a seus filhos

Outros direito fundamentais de segunda geração presentes na Declaração


são os que concernem a um padrão mínimo de vida, que inclui uma série de
requisitos como: acesso a saneamento, alimentação, água, luz, moradia,
vestimentas, todas elas condições dignas para se viver. Está abordado no artigo
XXV:

Artigo XXV
1. Todo o homem tem direito a um padrão de vida capaz de
assegurar a si e a sua família saúde e bem-estar, inclusive
alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços
sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de
desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de
perda de meios de subsistência em circunstâncias fora de seu
controle.
2. A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência
especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do
matrimônio, gozarão da mesma proteção social.

Com isso, há na Declaração a preservação de condições mínimas de


sobrevivência, que foram recepcionadas pelo Ordenamento Jurídico de diversas
nações, sendo inadmissível no estágio tecnológico atual da sociedade internacional,
a permissão de ferimento desses direito, em decorrência da má distribuição de

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renda e legislação tendenciosa para o sistema capitalista, beneficiando a minoria.

Ademais, por mais que existam falhas na efetividade e proteção dos direitos
sociais, não se pode negar sua evolução, mesmo que de forma lenta, tendo em vista
que a presença desses na sociedade internacional ocorreu através de lutas e
conquistas, de forma a contribuir significativa para o surgimento do Estado
democrático de Direito, presente em vários países.

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante da exposição, verifica-se um avanço tanto nas afirmações desses


direitos, quanto na multiplicação e aplicação dos mesmos.

Após a Declaração Universal, muitos países se tornaram adeptos a tais


direitos, tendo esses sido ratificados em suas Constituições, passando a traçar
diretrizes sobre o assunto, como por exemplo, no Brasil com as diretrizes sobre
saúde, educação.

Nesse sentido, pode-se dizer que os direitos humanos passaram a ser


respeitados, todavia detecta-se a falta de conscientização por parte das autoridades
representantes dos Estados.

À medida que a sociedade evolui surgem novas relações sociais, novos


fatos sociais, que incidem nas relações e fatos jurídicos, portanto se faz necessário
um sistema de regramentos para proteção dessas novas relações.

A nova ordem econômica e política mundial contribuem para integração dos


países, posto que estudos e entendimentos sobre o dever de proteção do Estado
frente aos indivíduos estão se moldando. Corrobora assim a concepção de Hobbes,
atualizada, de que o Estado é formado pela concessão tácita, sendo mais fácil
garantir as liberdades e respeito à dignidade humana.

Nesse contexto, de integração de paises, deve-se lembrar a importância de


se concretizar os direitos sociais, independentemente de serem tratados como
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universais, posto que a eficácia depende de políticas publicas aplicadas por cada
Estado, não dependendo de ações internacionais, bastando respeitar os dispositivos
traçados pela Declaração Universal, bem como o que foi recepcionado pelo
ordenamento jurídico.

Têm-se exemplos de vários Estados que já adotaram medidas públicas,


como no caso da Suíça, que confere aos cidadãos o direito do trabalho, a
previdência, a educação, intervém na economia, como regulador de preços, financia
as exportações, concede crédito, enfrenta crises econômicas, coloca na sociedade
todas as classes na mais estreita dependência de seu poderio econômico, enfim,
estende suas influências a quase todos os domínios que antes pertenciam, em
grande parte, à iniciativa privada, trata-se de um Estado de Bem-Estar Social,
garantindo direitos individuais, sociais, econômicos e políticos.

Em contra-partida, existem Estados retrógrados, quanto aos direitos sociais.


Como, por exemplo, as Filipinas que no dia do trabalho, teve como comemoração a
manifestação da sociedade reivindicando melhor qualidade de vida e
reconhecimento de seus direitos sociais e civis. A Coréia do Sul, nesta mesma data,
também reivindicou melhoria das condições de trabalho; bem como a Rússia,
protestando por salários dignos para os trabalhadores. Interessante que até mesmo
a França, pioneira na luta pelos direitos sociais, recentemente cobrou por um
aumento do poder aquisitivo dos salários, criticando as transferências de empresas
e defendendo às 35 horas semanais de trabalho.

Desta forma, resta claro a necessidade em se acompanhar o assunto,


principalmente pela relevância percebida pelos indivíduos, de exercerem o dever,
através da exigência de seus direitos, bem como o empenho do Estado na
promoção de políticas públicas. Trata-se de uma nova era, em que a sociedade
internacional, pela primeira vez, passa a ser detentora de maior consciência frente
aos acontecimentos do mundo globalizado.

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