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23/06/2015 USO 

DE RECURSOS NA MATA ATLÂNTICA: O CASO DA PONTA DO ALMADA (Ubatuba, Brasil)

Copyright © 1996. Depósito legal pp. 76­0010 ISSN 0378­1844. INTERCIENCIA 21(6): 268­276

COMUNICACIONES
REPORTS
COMUNICAÇÕES

USO DE RECURSOS NA MATA ATLÂNTICA: O CASO DA
PONTA DO ALMADA (Ubatuba, Brasil)
Natalia Hanazaki,1 Hermógenes de Freitas Leitão­Filho,2 Alpina Begossi3

1 INEPAM­UNLCAMP e PG Ecologia, IB, USP: Rua do Matão, Travessa 14 no 321, São Paulo SP 05508­900
Brasil.
2 em memória
3 INEPAM­UNICAMP: CP 6166 Campinas SP 13081­970 BRASIL (autor para correspondência)

SUMMARY

The  Brazilian  Atlantic  Forest  is  considered  one  Y  the  world's  hot­spots  for  biodiversity  conservation,  in  which  caiçaras  are  a  typical  population,
maintaining a close relationship with the environment, through fishing and small­scale agriculture. The purpose of this study is to obtain information
about  natural  resource  use  (specially  on  plants  and  fish)  at  Ponta  do  Almada  community  (São  Paulo  State,  Brazil).  Data  were  collected  through
interviews  with  residents,  and  through  systematic  observation  about  food  consumption  and  fishing  activities.  About  152  folk  plant  species  were
mentioned  as  used  for  various  purposes.  Food  choices  and  fish  taboos  are  analyzed  Results  show  shifts  in  caiçaras'  original  subsistence,  yet
maintaining a close relationship with their environment, from agriculture to fishing. Other activities have been developed, such as tourism and shellfish
cultivation.

RESUMO

A  Mata  Atlântica  é  uma  das  áreas  de  alta  prioridade  para  a  conservação  da  biodiversidade,  na  qual  as  comunidades  de  caiçaras  mantêm  uma
estreita relação com o ambiente, através da pesca e da agricultura. Este estudo tem por objetivo fazer um levantamento do uso de recursos na
Ponta do Almada (Estado de São Paulo), em particular sobre o uso de plantas e peixes. Os dados foram coletados através de entrevistas com os
moradores e da observação sistemática da dieta e da pesca. Foram citadas 152 etnoespécies (nomes populares) de plantas, para diversos usos.
Preferências alimentares e tabus sobre o pescado foram analisados. Embora o modo de subsistência original tenha mudado da agricultura para a
pesca, ainda há estreita relação com o ambiente. Outras atividades como o turismo e a maricultura têm sido desenvolvidas. / PALAVRAS CHAVE /
Ecologia humana / Mata Atlântica / Uso de recursos / Pesca / Dieta /

RESUMEN

La  Selva  Atlántica  del  Brasil  está  considerada  como  uno  de  los  lugares  más  importantes  para  la  conservación  de  la  biodiversidad,  en  donde  las
comunidades  de  "caiçaras"  mantienen  una  estrecha  relación  con  el  ambiente  a  través  de  la  pesca  y  de  la  agricultura.  Este  estudio  tiene  como
objetivo hacer un levantamiento del uso de recursos de la Ponta do Almada (Estado de São Paulo), en particular sobre el uso de plantas y peces.
Los datos fueron recogidos a través de entrevistas con los residentes y la observación sistemática de la dieta y de la pesca. Cerca de 152 nombres
populares de plantas fueron mencionadas para diversos usos. Sin embargo, se encontró que la alimentación original cambió de agrícola hacia la
pesca,  conservando  una  estrecha  relación  con  su  medio  ambiente.  Otras  actividades  como  el  turismo  y  la  maricultura  también  han  sido
desarrolladas. Trad. B. Fair

Introdução

A  partir  da  década  de  80  tem  surgido  um  interesse  internacional  em  incorporar  as  populações  nativas  no  manejo  das  áreas  protegidas  (Zube  e
Busch,  1990;  Lino,  1992),  uma  vez  que  a  limitação  do  uso  tradicional  dos  recursos  naturais  pode  resultar  na  desestruturação  social  dessas
populações e na perda de conhecimento sobre os ecossistemas. Gadgil et al. (1993) destacam a importância do conhecimento nativo Ou tradicional
para a conservação da biodiversidade, principalmente de pescadores, horticultores e agricultores de subsistência. Certas comunidades humanas
são responsáveis pela manutenção e mesmo aumento da biodiversidade em florestas tropicais, onde têm habitado por longo tempo (De Miranda e
Mattos, 1992; Diegues, 1994). Plotkin (1988) ressalta que as populações tradicionais estão desaparecendo mais rápido do que as florestas tropicais
nas quais habitam. E necessário conhecer o modo de vida dessas populações, pois grande parte do conhecimento sobre os recursos naturais é
obtido através do chamado conhecimento "folk" (Marques, 1991; Berlin, 1992).

Introdução

A  Mata  Atlântica  é  uma  das  áreas  de  alta  prioridade  para  a  conservação  da  biodiversidade  (Myers,  1988),  onde  os  caiçaras  representam
populações  com  forte  relação  com  o  ambiente  (Diegues,  1994).  Caiçaras  são  populações  nativas  da  costa  sudeste  do  Brasil,  originalmente
descendentes  de  índios  e  colonizadores  portugueses  (Marcílio,  1986).  Sua  subsistência  é  baseada  em  atividades  agrícolas  de  pequeno  porte
(principalmente cultivo de mandioca) e na pesca artesanal.

De uma maneira geral, as mudanças em comunidades baseadas em recursos marinhos têm se intensificado nas últimas décadas, em função da
urbanização, modernização, desenvolvimento econômico e de mudanças tecnológicas, dentre outras (Ruddle, 1993). Recentemente, populações
caiçaras  da  costa  sudeste  do  Brasil  têm  experimentado  mudanças  em  seu  modo  de  vida  em  função  de  fatores  como  a  intensificação  da  pesca
comercial  e  do  turismo,  e  devido  à  efetivação  de  áreas  protegidas  (Begossi  et  al.,  1993;  Begossi,  1995).  Diegues  (1983)  relata  mudanças
econômicas  ao  longo  do  litoral  norte  do  estado  de  São  Paulo,  onde  as  atividades  de  subsistência  predominantemente  agrícolas  cederam  lugar  à
pesca, principalmente a partir da década de 50, em função dos baixos preços dos produtos agrícolas em relação ao pescado e da exaustão da

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agricultura regional.

A  etnobiologia  estuda  as  interações  do  homem  com  a  natureza  através  do  conhecimento  e  das  conceituações  desenvolvidas  por  determinada
comunidade a respeito da biologia, dentro do seu sistema de crenças e mitos (Posey, 1987), englobando ainda várias categorias de pesquisa como
a  etnobotânica  e  a  etnozoologia.  Amorozo  e  Gély  (1988)  atentam  para  a  necessidade  urgente  de  estudos  etnobotânicos  em  comunidades
tradicionais.  De  acordo  com  Phillips  e  Gentry  (1993),  o  conhecimento  etnobotânico  mais  ameaçado  é  aquele  sobre  plantas  medicinais,  detido
principalmente peIas pessoas mais idosas da comunidade. Com relação a populações caiçaras da costa sudeste do Brasil, trabalhos como os de
Born (1992), Begossi et al. (1993), Figueiredo et al. (1993), Rossato et al. (194) e Rossato e Begossi (1995) enfocam o uso de recursos vegetais,
principalmente como matéria prima para construção e artesanato e como recurso alimentar e medicinal. Begossi e Figueiredo (1995) fizeram um
estudo sobre etnoictiologia em comunidades caiçaras da costa sudeste do Brasil, analisando a classificação "folk" dos peixes e seus usos.

Alguns conceitos oriundos da ecologia, como nicho e diversidade, têm se mostrado muito úteis na análise e entendimento do uso de recursos por
populações humanas (Hardesty, 1975; Begossi e Richerson, 1992, 1993; Figueiredo et al, 1993). Geralmente a diversidade de espécies é definida
pelos  índices  usados  para  medi­la  (Peet,  1974),  sendo  empregados  mais  frequentemente  a  riqueza  de  espécies  e  os  índices  de  Simpson  e  de
Shannon­Wiener (Poole, 1974; Colinvaux, 1989). O conceito de nicho (Hutchinson, 1981) pode representar, também em populações humanas, um
indicador  relativo  dos  recursos  utilizados.  A  quantidade  e  variedade  de  recursos  usados  para  a  subsistência  humana  é  uma  medida  válida  da
largura do nicho, que pode ser estimada através do índice de Simpson (Levins, 1968).

A análise da dieta e das preferências alimentares são úteis para a compreensão das relações entre populações humanas e os recursos ambientais.
As aversões ou proibições alimentares são usualmente tratadas sob o termo "tabu". De acordo com Messer (1984), as escolhas alimentares podem
ser  explicadas  pelo  materialismo  cultural  de  Marvin  Harris  e  Eric  Ross,  pelo  simbolismo  ideológico­estrutural  de  Marshall  Sahlins,  ou  por  uma
combinação de perspectivas biológicas ou socioculturais.

Em comunidades caiçaras, Begossi (1992) e Begossi e Richerson (1992, 1993) estudaram tabus alimentares e dieta na ilha de Búzios (SP). O uso
de pescado, incluindo tabus e preferências alimentares também foi estudado por Seixas e Begossi (1996) nas Ilhas Grande (RJ) e de São Sebastião
(SP).

Este  trabalho  tem  como  objetivos  fazer  um  levantamento  do  uso  de  recursos  na  Ponta  do  Almada,  em  particular  do  uso  de  plantas  e  peixes
(incluindo preferências alimentares e tabus), e analisar a diversidade e largura do nicho ecológico referentes aos recursos utilizados pela população.
Este estudo é um complemento das pesquisas realizadas por nossa equipe em comunidades costeiras da Mata Atlântica desde 1986, no litoral sul
do Rio de Janeiro e norte de São Paulo.

Tabela I ATIVIDADES DOS MORADORES ENTREVISTADOS NA PONTA DO ALMADA (UBATUBA, SP, BRASIL)

Atividade número de entrevistados %

Atividades ligadas ao turismo 1 21 48

Serviços domésticos 17 39

Pescador 16 36

Funcionário público 5 11

Pedreiro 3 7

Aposentado 1 2

Estudante 1 1

1 ­ Caseiros eventuais ou fixos, vigias, trabalho em bar, venda de artesanato.

Área de estudo

A Ponta do Almada está localizada na porção norte do município de Ubatuba, Estado de São Paulo, Brasil (Fj. 1). Fatores como a sua proximidade
do Parque Estadual da Serra do Mar (representa o limite sul do Núcleo Picinguaba), e de grandes metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro,
conferem  ao  local  caraterísticas  de  áreas  onde  a  população  tradicional  caiçara  vem  sofrendo  profundas  mudanças  na  sua  estrutura  social
(Diegues, 1983, 1994; Marcílio, 1986).

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Figura 1: Localizaçào da área de estudo e dos principais locais de pesca utilizados.

A Ponta do Almada (que compreende as Praias do Almada, do Engenho e Brava) possui 31 casas de caiçaras, e cerca de 70 terrenos pertencentes
a turistas, muitos deles com casas.

Metodologia

A coleta de dados ocorreu em duas etapas, nos meses de março e junho/julho de 1994. Foram realizadas entrevistas junto aos moradores com
idade acima de 18 anos, de ambos os sexos. Juntamente com este levantamento foram coletados dados sobre a diversidade dos recursos animais
e vegetais utilizados pela população. Foram entrevistadas 45 pessoas pertencentes a 26 famílias, o que corresponde a cerca de 84% das famílias
residentes  na  área.  Com  base  nas  entrevistas,  a  população  estimada  da  Ponta  do  Almada  é  de  cerca  de  140  pessoas,  das  quais  126  foram
incluídas no trabalho.

Foram selecionadas 12 famílias para o estudo da dieta (três na estrada de acesso ­"estrada"­ e nove na orla da praia ­ "praia"), as quais foram
visitadas  durante  doze  dias  consecutivos,  entre  os  meses  de  junho  e  julho  de  1994.  Em  cada  visita  foram  anotados  quais  os  alimentos  que
constituíram  as  últimas  duas  refeições  (almoço  e  jantar).  Neste  mesmo  período  as  pescarias  foram  observadas  sistematicamente,  para  obter
informações quanto ao local de pesca, duração da pescaria, quantidade e variedade de peixes e aparelho utilizado. Desta forma foi possível fazer
comparações quanto a variações Locais na dieta, pois nas famílias da estrada não há pescadores (são duas famílias de pedreiros e uma família
que possui um bar), além destas estarem mais distantes do ponto de desembarque da pesca. Foram registradas 252 refeições.

As plantas coletadas foram identificadas por um dos autores (H.F.L.F.), e depositadas no Herbário da Universidade Estadual de Campinas.

Os peixes coletados foram acondicionados em formol a 15% e posteriormente em álcool a 70%. A identificação foi baseada em Figueiredo (1977),
Figueiredo e Menezes (1978, 1980), e Menezes e Figueiredo (1980, 1985).

Para  a  análise  dos  dado,  foram  calculados  a  riqueza  de  espécies  e  os  índices  de  diversidade  de  Simpson  e  Shannon­Wiener  (Hardesty,  1975;
Figueiredo a aL 1993; Begossi e Richerson, 1993), baseados nas citações das entrevistas, bem como comparações estatísticas entre os índices
de Shannon­Wiener (Magurran, 1988) Foi calculada a correlação (Spearman) entre a pesca e o consumo de pescado.

Resultados

Características da população

De acordo com as entrevistas (n=45 entrevistas, que correspondem à 22 homens e 23 mulheres), em geral as famílias são relativamente pequenas,
com 5 pessoas em média, sendo 2 adultos e 3 crianças (n=26 famílias). A maioria dos moradores da Ponta do Almada são caiçaras, ou seja, são
naturais do próprio local ou de comunidades próximas (87%). Outras comunidades da região apresentaram porcentagens semelhantes (Puruba e
Picinguaba: 86%; Ilha de Búzios: 75%; Gamboa: 93%; Jaguanum: 80%) (Begossi, 1995). O tempo de residência médio entre os 17 entrevistados
procedentes de outras localidades foi de 5 anos, variando de 3 meses a 32 anos.

Apenas 32% são analfabetos, o que representa um índice de analfabetismo semelhante a outras comunidades caiçaras como Puruba e Picinguaba
(33%), Gamboa (26%) e Jaguanum (19%), com exceção da Ilha de Búzios (68%) que apresenta um nível mais elevado (Begossi, 1995).

As  atividades  dos  entrevistados  são  semelhantes  às  de  moradores  de  outras  áreas  estudadas  (Begossi,  1995).  Entre  os  homens,  foram
entrevistados 16 pescadores (76% dos homens entrevistados), nove dos quais vivem exclusivamente da pesca. O tempo médio como pescador é
de 15 anos, variando de 7 a 53 mas. A maioria dos pescadores possui apenas unia canoa a remo, apenas um dos entrevistados possui barco a
motor.  O  pai  da  maioria  dos  pescadores  também  tinha  na  pesca  a  sua  principal  fonte  de  renda.  Quatro  entrevistados  já  trabalharam  como
"embarcados" (trabalho na pesca de cação ou sardinha em traineiras ou barcos de maior porte). Em junho de 1994 um pescador possuía uma rede
para criação de mariscos; um ano depois já haviam dois pescadores com três redes para maricultura. Entre as mulheres, a principal atividade é
ligada aos serviços domésticos e trato com a roça.

Porém,  as  atividades  mais  comuns  entre  os  moradores  da  Ponta  do  Almada  são  aquelas  ligadas  ao  turismo  (Tabela  I).  A  grande  quantidade  de
casas de temporada emprega vários moradores locais como caseiros. A construção de casas para aluguel na temporada também parece ser mais
rentável do que a pesca artesanal; 30% das famílias possuem duas casas: uma para residência e outra para aluguel.

Uso de Plantas

Foram citadas 152 etnoespécies vegetais, sendo 76 para uso medicinal, 32 para alimentação, 53 para artesanato ou construção e 9 com outras

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utilidades,  geralmente  ornamentais.  As  espécies  medicinais  mais  frequentes  foram  camomila  (Matricaria  chamomilla  L.),  boldo  (Coleus  barbatus
Benth), e hortelã (Mentha piperita L.). Cedro (Cedrela fissilis Veli.) e ingá (Inga sessilis (Vell.)Mart) foram as madeiras mais citadas para construção
e artesanato, e mandioca (Manihot esculenta Crantz), banana (Musa acuminata Colla) e laranja (Citrus sinensis (L.) Osbeck) foram as plantas para
uso  alimentar  mais  citadas  (Tabela  II).  Em  geral  as  plantas  mais  citadas  são  aquelas  sujeitas  a  algum  tipo  de  manejo,  isto  é,  predominam  as
espécies cultivadas na roça (mandioca, banaria) ou no quintal (camomila, boldo, hortelã), além das madeiras consideradas de boa qualidade para
confecção de canoas (cedro, ingá).

Tabela II PLANTAS CONHECIDAS E UTILIZADAS NA PONTA DO ALMADA, CITADAS EM PELO MENOS 10% DAS ENTREVISTAS (n=45 ENTREVISTAS).

Nome científico Família Usos Parte Modo de utilização (emprego) %


usada

MANDIOCA Manihot esculenta Crantz Euphorbiaceae A r farinha ou cozida 36

CAMOMILA Matricaria chamomilla L. Asteraceae M fo chá  (vermes/febre/dores/  gripe/doenças 31


infantis/ resfriado)

BOLDO Coleus barbatus Benth Lamiaccae M fo chá/macerado (estômago, figado, cólicas) 31

CEDRO Cedrela fissilis Vell. Meliaceae C m (casa, canoa) 29

INGÁ Inga sessilis (Vell.) Mart Mimosaceae C m (casa, canoa) 27

HORTELÃ Mentha piperita L. Lamiaceae M, A fo chá  (calmante,  vermes,  doenças  infantis, 27


febre, cólicas)

ERVA CIDREIRA Melissa officinalis L. Verbenaceae M, A fo chá  (calmante,  resfriado,  gripe,  infecções  em 24


geral, má digestão)

CAPIM CHEIROSO Cymbopogon  citratus  (DC.) Poaccae M fo chá/xarope  (calmante,  pressão  alta,  má 24


Stapf digestão, vômitos, resfriado, gripe)

BANANEIRA Musa acuminata Colla Musaccae A fr   22

LARANJA Citrus sinensis (L.) Osbeck Rutaccae M, A fo, fr chá,  gargarejo  (calmante,  gripe,  dor  de 22
cabeça, tontura)

PALMITO Euterpe edulis Mart. Arecaceae C, A, O m, fo, br m (casa), fo (artesanato) 20

CIDREIRA n.c.
  M fo chá  (resfriado,  gripe,  dor  de  cabeça,  tontura,
febre, resguardo)
20

CARQUEJA Baccharis trimera (Less.) DC. Asteraceae M fo chá,  macerado  (pressão  alta,  calmante, 18


estômago,  figado,  má  circulação,  ferida
uterina, hemorróida)

ERVA DOCE Foehiculum vulgare Gaertn. Apiaceae M fo chá  (estômago,  insônia,  cólicas  infantis, 16


intoxicação, vômitos, doenças infantis)

FIGUEIRA Ficus insipida Willd. Moraceae C m (canoa, artesanato, casa) 16

CAPIM CIDRÃO Cymbopogon  citratus  (DC.) Poaceae M fo chá (tontura, calmante, figado, má digestão) 16


Stapf

GUAPURUVU Schizolobium  parahyba Caesalpiniaceae C m (canoa) 16


(Vell.) Blake

BREJAUVA Astrocarium  aculeatissimum Arecaceae C fo (artesanato) 13


(Schott) Burret

PITANGA Eugenia uniflora L. Myrtaceae M, A fo, fr chá,  gargarejo  (dor  de  garganta,  resfriado, 13
tosse)

GOIABA Psidium guajava Raddi Myrtaceae A, M fr, fo, br chá (dor de barriga, diarréia, bronquite) 11

GUACÁ Crescencia cujete L. Bignoniaceae C m (remos) 11

EMBAUBA Cecropia glaziouii Snethl. Cecropiaceae M, A r, br chá, xarope (bronquite, gripe), (artesanato) 11

TIMBUIBA Enterolobium Mimosaceae C m (canoa, casa) 11


contortisiliquum  (Vell.)
Morong.

ABACATE Persea americana Mill Lauraccae A, M fr, fo chá (estômago, rins) 11

LIMÃO Citrus lemon L. Rutaceae M, A fo, fr sumo, chá (gripe, bronquite, tosse) 11

n.c.: não coletado

Usos: A=alimento; M=medicinal; C=construção ou artesanato (canoas, remos, esteiras, cestos); O=ornamental

Parte usada: fo=folha; r=raiz; fr=fruto; br=broto da folha; m=madeira

Os índices de diversidade calculados com base nas etnoespécies vegetais estão relacionados na Tabela III, onde constam também os mesmos
índices"  pua  as  comunidades  de  Gamboa  (RJ)  (Figueiredo  et al.,1993),  Ilha  de  Búzios  (Begossi  et  al.,  1993)  e  Puruba  (Rossato  et  al.,  1993).
Quando comparados com outras comunidades, os índices de diversidade obtidos na Ponta do Almada estão de acordo com a tendência observada
por Rossato et al. (1993) e Rossato e Begossi (1995), ou seja, os índices de diversidade no continente são maiores que os encontrados nas ilhas.
Na Ponta do Almada, a diversidade de plantas medicinais foi maior do que a encontrada em Búzios (p<0,001) e em Gamboa (p<0,001). Também foi
maior a diversidade de plantas medicinais e alimentícias, em relação à Gamboa (p<0,001) (Tabela IV). A despeito do que foi observado em outras
comunidades  (Kainer  e  Duryea,  1992;  Figueiredo  et al.,  1993)  onde  em  geral  são  as  mulheres  que  mais  detêm  o  conhecimento  sobre  o  uso  de
plantas  medicinais,  esta  tendência  não  foi  observada  na  Ponta  do  Almada.  Comparando  os  índices  de  Shannon­Wiener,  não  há  diferença
significativa entre a diversidade de plantas medicinais citadas por homens e mulheres (p>0,05). Pessoas com mais de 40 anos citaram mais plantas

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do que as mais jovens (p<0,001), tendência verificada também por Begossi et al. (1993), Figueiredo et al. (1993) e Phillips e Gentry (1993).

Tabela III ÍNDICES DE DIVERSIDADE CALCULADOS COM BASE NOS NOMES POPULARES DAS PLANTAS CITADAS NA PONTA DO ALMADA (n=45 ENTREVISTAS), E COMPARAÇÃO COM OS MESMOS
ÍNDICES CALCULADOS PARA OUTRAS COMUNIDADES CAIÇARAS.

Usos Riqueza Simpson Shannon­Wiener No. citações

Alimentícias­Almada 32 11.50 1,30 70

P/artesanato/construção­Almada 54 25.17 1.56 129

Medicinais+Alimentícias­Almada 97 44.74 1.80 293

Medicinais­Almada: 76 37.08 1.70 223

Homens 52 33.60 1.63 84

Mulheres 57 31.31 1.62 139

Idade<40 42 28.16 1.54 81

Idade >40 64 36.27 1.68 142

Total plantas ­Almada 152 70.35 2.00 433

Medicinais+Alimentícias­Gamboa 1 102 25.40 1.66 102

Medicinais­Gamboa 1 72 20.82 1.57 269

Homens1 35 16.81 1.37 99

Mulheres1 57 17.72 1.49 180

Idade <40 1 29 10.92 1.24 80

Idade >40 1 63 24.86 1.58 189

Medicinais­Ilha de Búzios2 46 20.94 1.47 148

Medicinais­Puruba: praia 3 66 28.97 1.64 175

Medicinais­Puruba: sertão 3 68 31.44 1.67 158

1 Figueiredo et al., 1993
2 Begossi et al., 1993

3 Rossato et al., 1993

Tabela IV COMPARAÇÕES DOS ÍNDICES DE SHAN­NON­WIENER, CALCULADOS PARA PLANTAS MEDICINAIS E/OU ALIMENTÍCIAS, ENTRE AS COMUNIDADES DA PONTA DO ALMADA (SP), GAMBOA (RJ) E ILHA DE BÚZIOS (SP). (BASEADO EM
MAGURRAN, 1988)

Almada: medicinais+alimentícias Almada: medicinais

Gamboa: medicinais +alimentícias p<0.001 ­

Gamboa: medicinais ­ p<0.001

Búzios: medicinais ­ p<0.001

De  acordo  com  as  entrevistas,  sete  famílias  ainda  fazem  roças  de  mandioca  (para  fabrico  de  farinha  principalmente),  e  plantam  banana,  abóbora  e  feijão.  Cerca  de  14
famílias  possuíam  roças  há  2  anos  ou  mais,  e  algumas  dessas  famílias  venderam  os  terrenos  onde  eram  cultivadas  as  roças  e  construíram  casas  para  alugar  para
turistas.

Pesca

A pesca com canoa à remo é restrita à baía de Ubatumirim (costão da marisqueira, praias do Almada, Engenho, Ubatumirim, Canto ou Justa, Ponta, Puruba, Promirim) e
ilhas próximas (Ilhas da Peça ou da Pesca, dos Porcos, do Promirim ou dos Porcos Grande, Redonda; laje Mofina, Lajinha) (Figura 1). Eventualmente a pesca se estende
até  a  baía  de  Picinguaba  e  ilha  das  Couves.  Os  barcos  maiores  a  motor  cobrem  uma  extensão  desde  a  restinga  da  Marambaia  (baía  de  Sepetiba,  RJ)  até  a  Juréia,
incluindo as ilhas de Alcatrazes e Queimada Grande (Santos).

No  período  em  que  foram  feitas  as  observações  sobre  a  pesca  (inverno),  em  geral  a  rotina  dos  pescadores  foi  sair  de  canoa  a  remo  para  a  baía  de  Ubatumirim  por  volta
das  5  ou  6  horas,  para  visitar  ou  recolher  as  redes  de  espera  armadas  no  dia  anterior.  Estas  pescarias  se  estendiam  até  entre  9  e  13  horas,  com  uma  duração  média  de
cerca de 4 horas. No período da tarde a quantidade de canoas que deixava a praia era menor, geralmente para armar redes ou visitar as redes mais próximas (armadas "ao
largo"  da  praia).  Ocasionalmente  foram  observadas  pescadas  com  Unha,  uma  pescaria  de  camarão  branco  com  rede  de  arrasto  (malha  6  cm)  pua  barco  a  motor,  e  uma
pescaria com rede de arrasto de fundo (malha 11 cm).

Foi observado um número relativamente pequeno de pescarias (30 pescarias), que pode estar relacionado com a ocorrência de uma frente fria e consequente mau tempo,
situação  típica  de  inverno.  O  pescado  mais  frequente  foi  o  camarão  branco,  seguido  pela  corvina,  imbetara,  camarão  sete­barbas  e  robalo.  A  época  em  que  foram
observadas as pescarias coincidiu com o pico da pesca de camarão branco, que ocorre dentro da baía de Ubatumirim. Isto explica a elevada frequência de pescarias dentro
da  baía,  em  contraste  com  os  pesqueiros  mais  citados  durante  as  entrevistas  (Ilhas  da  Pesca  e  dos  Porcos:  57%;  Praias  do  Puruba  e  Ubatumirim:  43%;  Baía  de
Ubatumirim: 36%).

Os aparelhos citados nas entrevistas como mais usados no inverno são as redes de espera (malhas de 6 e 11 cm), e redes de cerco ou tróia (malhas de 11 e 12 cm). No
verão são mais usadas as redes de espera. É também comum a pesca com linha, principalmente para peixes costeiros.

De  acordo  com  as  entrevistas,  no  inverno  os  pescados  mais  frequentes  são  o  camarão  branco  (Penaeus  sp.)  (50%),  a  tainha  (Mugil  platanus)  (50%)  e  a  sororoca
(Scomberomorus  brasiliensis)  (37%);  e  no  verão,  a  corvina  (Micropogonias  furnieri)  (37%)  e  a  imbetara  (Menticirrhus  americanus)  (12%).  Comparando  os  peixes  citados
como mais pescados no período de inverno com os observados nas pescarias, a pesca da tainha e sororoca foi bastante deficiente. Segundo os próprios pescadores, isto
vem ocorrendo há alguns anos, e deve estar relacionado com a pesca predatória da tainha em regiões mais ao sul do Brasil, como em Santa Catarina.

Os peixes mais consumidos no inverno, de acordo com as entrevistas, são a tainha (61%), a sororoca (28%) e a imbetara (14%), além do camão branco (17%). No verão

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são consumidos mais frequentemente a corvina (25%), a imbetara (14%) e a garoupa (Epinephelus sp.) (11%). Existe uma correlação positiva (Spearman, rs=0,595;  p<0,05)
entre os peixes citados nas entrevistas como consumidos no inverno e ano todo e peixes pescados no período correspondente.

Preferências alimentares

Os  peixes  citados  mais  frequentemente  como  consumidos  foram  a  tainha,  a  imbetara  e  a  corvina.  A  tainha  foi  notadamente  o  peixe  mais  apreciado,  no  entanto  a  maioria
dos entrevistados declarou não haver peixe que não gosta (Tabela V). De acordo com o sexo do entrevistado (n=40 entrevistas), o número médio de peixes citados como
tabus foi de 3 no caso de homens e 2 no caso de mulheres. Foram considerados tabus os peixes não consumidos ou de consumo não recomendável em casos de doença
ou resguardo (Begossi, 1992; Begossi e Braga, 1992; Rea 1981). Corvina, bonito (Scombridae) e bagre (várias espécies, Ariidae) foram os peixes mais citados como tabus,
ou  peixes  "carregados"  ou  "bravos".  Imbetara,  pescada  (Cynoscion  sp.)  e  tainha  foram  os  peixes  más  citados  como  "mansos"  ou  permitidos  em  caso  de  doença  ou
resguardo  (Tabela  V).  Entretanto,  peixes  como  corvina,  sororoca,  carapau  (Caranx  crysos,  dentre  outras  espécies),  cação  (Rhizoprionondon  lalandei,  dentre  outras
espécies), tainha, garoupa e piragica (Kyphosus sp.) foram citados tanto como "bravos" ou como "mansos", mas em proporções diferentes.

TABELA V PREFERÊNCIAS ALIMENTARES NA PONTA DO ALMADA: PEIXES CITADOS COMO MAIS CONSUMIDOS (CO), PREFERIDOS (PR), POUCO APRECIADOS (PA), TABUS (TB) E PERMITIDOS EM CASO DE DOENÇA (PD). DADOS EM
PORCENTAGEM.

Etnoespécie Nome científico Família CO PR PA TB PD

ARRAIA Raja cyclophora, Myliobatis sp., Dasyatis sp. Rajidae,  Myliobatidae, ­ ­ ­ 15 ­


Dasyatidae

BAGRE Notarius  grandicassis,  Sciadeichthys Ariidae 7 ­ 10 30 ­


luniscutis,  Cathorops  spixii  dente  outras
espécies

BONITO Euthynnus alleteratus, Auxis rochei Scombridae 5 ­ ­ 32 ­

CAÇÃO Rhizoprionondon  lalandei,  dente  outras Carcharhinidae 24 7 ­ 7 18


espécies

CAMARÃO BRANCO Penaeus sp. Penaeidae 14 ­ ­ ­ 3

CARAPAU Caranx crysos, e outras espécies Carangidae 9 9 ­ 17 3

CAVALA n.c. Scombridae 5 14 ­ 7 ­

CORVINA Micropogonias  furnieri,  dente  outras Sciaenidae 48 2 12 60 ­


espécies

ENCHOVA Pomatomus saltatrix Pomatomidae 2 5 ­ ­ 15

ESPADA Trichiurus lepturus Trichiuridae 7 ­ ­ 25 ­

GAROUPA Epinephelus spp. Serranidae 33 21 7 5 18

IMBETARA Menticirrhus americanus Sciaenidae 48 9 ­ ­ 82

PARATI Mugil curema Mugilidae 24 2 ­ 2 ­

PESCADA Cynoscion spp. Sciaenidae 17 2 ­ ­ 58

PIRAGICA Kyphosus sp. Kyphosidae 12 ­ 12 2 6

ROBALO Centropomus parallelus Centropomidae 9 ­ ­ ­ 18

SARDINHA Ophistonema  oglinum,  Sardinella Clupeidae 9 5 ­ 22 ­


brasiliensis, dentre outras espécies

SARGO Anisotremus surinamensis Haernulidae 14 ­ 5 ­ ­

SOROROCA Scomberomorus brasiliensis Scombridae 29 14 ­ 22 3

TAINHA Mugil platanus Mugilidae 69 56 5 7 36

UBEBA Larimus breviceps Sciaenidae 5­ 2 ­ ­ 18

Peixes pequenos1 ­ ­ ­ ­ 12 ­ 6

Sem preferência ­ ­ ­ 5 33 ­ ­

Número de entrevistados
    42 43 40 40 33

n.c.: não coletado
1 ­ Na categoria "Peixes pequenos", ou peixes considerados como "mistura", estão incluídas as espécies Larimus breviceps (Ubeba), Paralonchurus brasiliensis (Pirico), Stellifer rastrifer (Cabeçudo), dentre outras.

Segundo Begossi (1992) e Begossi e Braga (1992), a posição do peixe na cadeia alimentar pode influenciar na sua preferência ou não como alimento. Peixes carnívoros e piscívoros podem estar sendo evitados, como
o bonito (citado como tabu em 32% das entrevistas), espada (25%), sororoca (22%) e cação (7%). Peixes de comportamento agressivo também podem estar sendo evitados, como a arraia (15%) e cação. O bagre
(30%), assim como outros bagres, como os de água doce (Pimelodidae) também são de consumo restrito em outras regiões do Brasil (Begossi, 1992; Begossi e Braga, 1992). Geralmente os peixes recomendados em
caso de doença ou resguardo são planctônicos, ou se alimentam de pequenos invertebrados, ou detritívoros (por exemplo imbetara, pescada e tainha, Tabela V).

Dieta

Como importante fonte proteica, o peixe representa 60% do alimento de origem animal consumido na Ponta do Almada. Nas famílias da "estrada", esta porcentagem foi maior do que nas famílias da "praia" (Figura 2).
Possivelmente as famílias da "estrada" compram o pescado em quantidades maiores e o armazenam, em freezers, não sendo tão afetadas por flutuações na pesca. Além disso, as famílias de pescadores da "praia"
(seis  famílias)  preferem  comer  o  pescado  fresco,  e  às  vezes  preferem  vender  o  peixe  do  que  armazená­lo.  Em  comunidades  semelhantes,  como  Ilha  de  Búzios  (Begossi  e  Richerson,  1992,  1993)  e  Gamboa  e
Jaguanum (Begossi, 1995), o peixe representa respectivamente 68% e 65% do alimento de origem animal.

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Figura 2 ­ Porcentagem de alimentos de origem anlmal consumidos. Em "outros" estão incluídos embutidos (salsicha, mortadela) e carne seca.

Foram  calculados  os  índices  de  diversidade  para  as  famílias  da  "praia"  e  da  "estrada"  (Tabela  VI),  para  todos  os  itens  alimentares  (incluindo  os  alimentos  básicos  como
arroz e feijão, e a proteína de origem animal) e separadamente para proteína animal (principalmente pescado, carne bovina, frango e ovos). Comparações entre os índices
de diversidade de Shannon­Wiener mostram que as famílias da "praia" consumiram uma maior diversidade de itens alimentares, inclusive no que se refere à proteína animal
(Tabela VII). A amplitude do nicho, medida pelo índice de Simpson, foi maior para as famílias da "praia", e mais estreita para as famílias da "estrada". Espera­se um nicho
mais amplo em ambientes incertos (Pianka, 1982), e no caso da Ponta do Almada as flutuações ambientais se refletem mais visivelmente na dieta das famílias da "praia",
uma vez que estas dependem mais fortemente da pesca.

Tabela VI ÍNDICES DE DIVERSIDADE REFERENTES AOS RECURSOS ALIMENTARES, PARA CADA GRUPO DE FAMÍLIAS ("PRAIX", "ESTRADA". E TOTAL).

PRAIA ESTRADA TOTAL

Todos os itens Proteína animal   Todos os itens Proteína


animal
Todos os itens Proteína
animal

Número de itens nas refeições 580 169 195 60 775 229

Riqueza (número de itens) 36 26 19 9 39 28

Simpson (amplitude do nicho) 6.2 9.5 5.62 6.34 6.16 10.85

Shannon­Wiener 1.0 1.16 0.94 0.94 1.05 1.17

Total refeições observadas 192
  60
  252
 
 

Tabela VII COMPARAÇÕES DOS ÍNDICES DE SHANNON­WIENER ENTRE OS DOIS GRUPOS DE FAMÍLIAS. ("PRAIA" E "ESTRADA"), QUANTO AOS ITENS DA DIETA.

ESTRADA ESTRADA

Todos os itens Proteína animal

PRAIA ­ Todos os itens P<0.01 ­

PRAIA ­ Proteína animal ­ P<0.01

Os  índices  de  diversidade  também  permitem  identificar  flutuações  na  diversidade  de  alimentos  consumidos  entre  as  famílias  (Tabela  VIII).  Além  de  apresentarem  menor
amplitude  de  nicho  (menores  índices  de  Simpson),  as  famílias  da  "estrada"  também  apresentaram  menor  flutuação  na  diversidade  de  alimentos  consumidos.  Para  as
famílias  da  "praia",  os  índices  de  diversidade  sobre  proteína  animal  variaram  de  2.80  à  8.47.  A  média  dos  índices  de  Simpson  entre  todas  as  famílias,  calculados  para  o
consumo de proteína animal foi de 5.2, valor superior ao encontrado na comunidade da Ilha de Búzios, onde o valor Mão do índice de Simpson nos meses de Junho e Julho
foi de 3.5. Em Búzios, durante os meses de Junho, Julho e Setembro, as famílias apresentaram os nichos mais estreitos (Begossi e Richerson, 1993).

Tabela VIII ÍNDICES DE DIVERSIDADE DE SIMPSON, QUANTO AOS ITENS DA DIETA, CALCULADOS POR FAMÍLIA. OS NÚMEROS 2 A 10 DA PRIMEIRA COLUNA REFEREM­SE ÀS FAMÍLIAS DA "PRAIA". OS NÚMEROS 1, 11 E 12 CORRESPONDEM ÀS
FAMÍLIAS DA "ESTRADA".

Famílias Todos os itens Proteína animal Número de

refeições

por família

2 4.99 2.80 23

3 6.21 5.50 24

4 4.24 4.17 20

5 5.34 4.41 21

6 4.39 3.38 14

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7 6.40 5.73 23

8 7.96 6.26 21

9 4.75 4.45 22

10 6.30 8.47 24

1 4.72 4.63 24

11 5.56 5.55 18

12 5.55 4.00 18

Média 5.78 5.21 21

Como  uma  medida  geral  de  uso  de  recursos,  foram  calculados  os  índices  de  diversidade  para  os  itens  alimentares  da  dieta,  incluindo  as  plantas  citadas  (exceto  os  itens
que já haviam aparecido na dieta), num total de 188 itens com 1180 citações. O índice de Simpson foi de 13.96 e o de Shannon­Wiener foi de 1.66.

Conclusões
Apesar  da  comunidade  de  caiçaras  da  Ponta  do  Almada  ter  experimentado  muitas  mudanças  nas  suas  práticas  de  subsistência  originais,  ainda  há  forte  dependência  dos
recursos naturais. Esta dependência parece ter se concentrado na pesca à medida em que as famílias deixaram de plantar roças de subsistência.

Mesmo com estas mudanças, os altos índices de diversidade para recursos vegetais mostram que permanece o conhecimento local sobre o uso de plantas. Entretanto as
pessoas  más  jovens  citaram  uma  menor  diversidade  de  plantas  do  que  as  mais  idosas,  o  que  indica  que  as  gerações  mais  novas  podem  estar  perdendo  parte  desses
conhecimentos.

Os  altos  índices  de  diversidade  para  itens  da  dieta,  principalmente  no  que  se  refere  à  proteína  animal,  devem  ser  um  reflexo  da  amostragem  pontual  de  um  período  de
inverno, bastante incerto na pesca. Portanto, para afirmações mais conclusivas, é necessário analisar as flutuações da pesca e da dieta na Ponta do Almada, ao longo do
ano.

Recentemente,  o  turismo  (principalmente  aluguel  de  casas  para  temporada)  parece  ter  se  tornado  uma  importante  fonte  de  renda.  Outra  alternativa  que  está  sendo
procurada  por  alguns  moradores  é  a  maricultura.  A  concentração  das  atividades  dos  moradores  na  pesca  e  no  turismo  deve  ser  também  um  reflexo  da  implantação  do
Parque Estadual da Serra do Mar, em cujo limite se encontra a comunidade da Ponta do Almada.

AGRADECIMENTOS
À  FAPESP  pelas  bolsas  de  aperfeiçoamento  e  mestrado  (N.H.,  94/1469­0  e  95/1659­6),  e  auxílios  ao  campo  (92/  1390­9  e  94/6258­7);  ao  CNPq  por  auxílio  ao  campo
(400366/92.4),  e  bolsa  de  pesquisa  (A.B.).  Agradecemos  a  dois  referees  anônimos  que  contribuíram  com  importantes  sugestões;  e  sobretudo  à  população  da  Ponta  do
Almada, pela sua cordial e indispensável colaboração.

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