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FICHA DE COMPREENSÃO DA LEITURA 1

NOME: _____________________________________ N.º: ______ TURMA: _________ DATA: _________

Discurso político

Leia atentamente o início do texto «Causas da Decadência dos Povos Peninsulares», discurso proferido
por Antero de Quental nas Conferências do Casino, em 1871.

Meus Senhores:

A decadência dos povos da Península nos três últimos séculos é um dos factos mais incontestáveis,
mais evidentes da nossa história: pode até dizer-se que essa decadência, seguindo-se quase sem transição
a um período de força gloriosa e de rica originalidade, é o único grande facto evidente e incontestável que
5 nessa história aparece aos olhos do historiador filósofo. Como peninsular, sinto profundamente ter de afirmar,
numa assembleia de peninsulares, esta desalentadora evidência. Mas, se não reconhecermos e confessar-
mos francamente os nossos erros passados, como poderemos aspirar a uma emenda sincera e definitiva?
O pecador humilha-se diante do seu Deus, num sentido ato de contrição, e só assim é perdoado. Façamos
nós também, diante do espírito de verdade, o ato de contrição pelos nossos pecados históricos, porque só
10 assim nos poderemos emendar e regenerar.
Conheço quanto é delicado este assunto, e sei que por isso dobrados deveres se impõem à minha
crítica. Para uma assembleia de estrangeiros não passará esta duma tese histórica, curiosa sim para as inte-
ligências, mas fria e indiferente para os sentimentos pessoais de cada um. Num auditório de peninsulares
não é porém assim. A história dos últimos três séculos perpetua-se ainda hoje entre nós em opiniões, em
15 crenças, em interesses, em tradições, que a representam na nossa sociedade, e a tornam de algum modo
atual. Há em nós todos uma voz íntima que protesta em favor do passado, quando alguém o ataca: a razão
pode condená-lo: o coração tenta ainda absolvê-lo. É que nada há no homem mais delicado, mais melin-
droso, do que as ilusões: e são as nossas ilusões o que a razão crítica, discutindo o passado, ofende
sobre-tudo em nós.
20 Não posso pois apelar para a fraternidade das ideias: conheço que as minhas palavras não devem ser
bem aceites por todos. As ideias, porém, não são felizmente o único laço com que se ligam entre si os espí-
ritos dos homens. Independente delas, se não acima delas, existe para todas as consciências retas, sinceras,
leais, no meio da maior divergência de opiniões, uma fraternidade moral, fundada na mútua tolerância e no
mútuo respeito, que une todos os espíritos numa mesma comunhão — o amor e a procura desinteressada
25 da verdade. Que seria dos homens se, acima dos ímpetos da paixão e dos desvarios da inteligência, não
existisse essa região serena da concórdia na boa-fé e na tolerância recíproca! Uma região onde os pensa-
mentos mais hostis se podem encontrar, estendendo-se lealmente a mão, e dizendo uns para os outros com
um sentimento humano e pacífico: és uma consciência convicta! É para essa comunhão moral que eu apelo.
E apelo para ela confiadamente, porque, sentindo-me dominado por esse sentimento de respeito e caridade
30 universal, não posso crer que haja aqui alguém que duvide da minha boa-fé e se recuse a acompanhar-me
neste caminho de lealdade e tolerância.
Já o disse há dias, inaugurando e explicando o pensamento destas Conferências: não pretendemos
impor as nossas opiniões, mas simplesmente expô-las: não pedimos a adesão das pessoas que nos
escutam; pedimos só a discussão: essa discussão, longe de nos assustar, é o que mais desejamos, porque,
35 ainda que dela resultasse a condenação das nossas ideias, contanto que essa condenação fosse justa e
inteligente, ficaríamos contentes, tendo contribuído, posto que indiretamente, para a publicarão de algumas
verdades. São prova da sinceridade deste desejo aqueles lugares e aquelas mesas, destinadas
particularmente aos jornalistas, onde podem tomar nota das nossas palavras, tornando-lhes nós assim
franca e fácil a contra-dição.

ANTERO DE QUENTAL, «Causas da Decadência dos Povos Peninsulares»,


http://www.arqnet.pt/portal/discursos/maio_julho01.html.

ENTRE NÓS E AS PALAVRAS • Português • 11.º ano • Material fotocopiável • © Santillana


1. Para responder a cada um dos itens, de 1.1 a 1.10, selecione a opção correta. Escreva, na folha de
respostas, o número de cada item e a letra que identifica a opção escolhida.

1.1. A repetição do vocábulo «facto» nas linhas iniciais do discurso


(A) confere às afirmações do autor um tom de incerteza.
(B) confere às afirmações do autor um tom de veracidade.
(C) serve o propósito de evidenciar os conhecimentos históricos do autor.
(D) mostra a intenção de apresentar um ponto de vista subjetivo.
1.2. Relativamente ao grupo dos povos peninsulares, o orador
(A) inclui-se nesse grupo e elogia os progressos da sua história recente.
(B) inclui-se nesse grupo e constata a ausência de progressos na sua história recente.
(C) mostra grande interesse pela história desse grupo, do qual não faz parte.
(D) considera que toda a sua história é marcada pela glória.
1.3. Com a expressão «dobrados deveres» (linha 11), o orador
(A) destaca a facilidade da tarefa a que se propôs.
(B) antecipa críticas e acusações do auditório.
(C) sublinha a pertinência do tema que irá tratar.
(D) sublinha a dificuldade da tarefa a que se propôs.
1.4. Apresentando uma oposição entre a «razão» e o «coração» (linhas 16-17), o orador transmite a
ideia de que os peninsulares
(A) têm uma visão meramente crítica do seu passado.
(B) são extremamente objetivos quando discutem o seu passado.
(C) condenam o seu passado mas esta condenação é atenuada pela presença da emoção.
(D) são incapazes de condenar o seu passado, pois interpretam-no emocionalmente.
1.5. A frase «e são as nossas ilusões o que a razão crítica, discutindo o passado, ofende sobretudo em
nós» (linhas 18-19) significa que
(A) a razão, ao discutir o nosso passado, põe em causa as nossas ilusões.
(B) a razão não tem poder sobre as nossas ilusões.
(C) as nossas ilusões são imunes à análise da razão.
(D) as ilusões são o mais importante numa discussão sobre o passado.
1.6. Com a expressão «fraternidade das ideias» (linha 20), o orador sublinha que
(A) as ideias podem promover a fraternidade entre os homens.
(B) a união entre os homens só pode ser promovida pelas ideias.
(C) as ideias são as mais belas criações do espírito humano.
(D) as ideias originam revoluções.
1.7. A «comunhão moral» (linha 28) a que se refere o orador supõe que
(A) os homens podem viver em harmonia, desde que as suas inteligências concordem.
(B) os homens podem viver em harmonia, mesmo que as suas opiniões divirjam.
(C) a concórdia é impossível quando os homens defendem opiniões diferentes.
(D) a tolerância pressupõe a concordância do pensamento.
1.8. Com a sua conferência, o orador deseja que
(A) o auditório seja persuadido.
(B) o auditório pense e debata as ideias apresentadas.
(C) as suas ideias sejam criticadas.
(D) as suas ideias sejam aceites por todos.
1.9. Segundo o último período do texto, a presença dos jornalistas evidencia
(A) a vontade de divulgar ideias tidas como verdadeiras.
(B) a intenção de impor opiniões.
(C) a vontade de lançar a discussão acerca de determinadas ideias.
(D) o desejo de publicitar as Conferências do Casino.
1.10. O pronome «ela» (linha 29) refere-se a
(A) «consciência». (C) «essa região».
(B) «uma consciência convicta». (D) «essa comunhão moral».

ENTRE NÓS E AS PALAVRAS • Português • 11.º ano • Material fotocopiável • © Santillana

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