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Empirismo e John Locke

Empirismo
O empirismo é a tese segundo a qual nosso conhecimento deriva da experiência e, em
particular, da experiência dos sentidos. Ou seja, a fonte das crenças básicas é a
experiência. O conhecimento derivado da experiência é chamado de a posteriori.
Para saber se uma proposição é verdadeira, é preciso recorrer à experiência, pois a
partir de experiências e observações é possível justificar determinada proposição.

John Locke (1632 – 1704)


Locke nasceu na Inglaterra, estudou medicina, ciências naturais e filosofia em Oxford.
A partir de 1672 dedicou-se a questões políticas, quando se tornou secretário do
chanceler da Inglaterra. Em 1683 foi exilado por conta de seus ideais liberais, mas
retorna à Inglaterra em 1688 e posteriormente publica “Carta sobre a tolerância” em
1689, “Ensaio acerca do entendimento humano” em 1690 e “Dois tratados sobre o
governo civil em 1690.

O empirismo de Locke pode ser resumido em três teses:

1. Não há ideias inatas, anteriores e independentes da experiência.


2. O conhecimento depende da experiência.
3. A experiência fornece a justificação para nossas crenças.

Para defender essas teses, Locke tem como adversários: os céticos e os racionalistas.

Crítica ao ceticismo
Segundo Locke, o ceticismo presume que apenas uma capacidade ilimitada para
conhecer as coisas permite que falemos de conhecimento. É como se, para haver
conhecimento, tivéssemos de poder conhecer todas as coisas. Mas para Locke, isso é
um equívoco.

Tanto Locke, quanto os céticos, admitem que a capacidade humana de adquirir


conhecimentos tem limites, ou seja, não podemos conhecer ou compreender tudo.
Porém, o argumento de Locke contra os céticos diz que, apesar de haver um limite na
nossa capacidade de conhecer, não se segue que não podemos ter conhecimento. A
única coisa que se pode extrair dessa nossa imperfeita capacidade de conhecer, é que
ela tem limites, mas é possível.

Para ele, a falha no argumento cético é decorrente de uma confusão entre a limitada
capacidade humana de conhecer e a própria possibilidade de conhecimento. Assim,
eles chegaram à equivocada conclusão de que o conhecimento não é possível.

Crítica às ideias inatas


Locke contesta a prova que os racionalistas dão sobre a existência das ideias inatas.
Essa prova consiste no consenso universal acerca da verdade de determinadas ideias.
Segundo seus defensores, se todos os homens concordam que algumas ideias são
verdadeiras, então elas não dependem da experiência de cada um, e por isso são
inatas. Como por exemplo a ideia de Deus.

Entretanto, Locke não acredita que o consenso universal é uma condição necessária e
suficiente para a existência dessas ideias. Para demonstrar a prova disso, ele busca
uma série de contraexemplos.

Para ele, não há um consenso a respeito da verdade da ideia de Deus. Há muitas


pessoas, tribos e vertentes ateístas. Portanto a ideia de Deus não pode é uma ideia
inata.

Essa crítica das ideias inatas constitui uma parte muito importante da teoria do
conhecimento de Locke. Na qual se limita a mostrar que o argumento do consenso
universal acerca de algumas ideias não prova a existência das ideias inatas.

Porém, se o conhecimento não deriva da razão, de onde ele provém? Como o


adquirimos? Para responder essas perguntas Locke constrói uma teoria do
conhecimento que apresentam suas teses e argumentos empíricos.

Teoria da tábula rasa


Locke defende que os conteúdos da mente são ideias que têm uma origem empírica.
Todo nosso conhecimento provém da experiência. Para entender melhor pensamos na
metáfora da tábula rasa. A mente do indivíduo, ao nascer, é semelhante a uma folha
de papel que não tem nada escrito, nenhuma ideia está presente nela. Tudo que é
conhecido decorre das experiências adquiridas depois de um momento, como se uma
página começasse a se preencher.

Por exemplo, a ideia de vermelho. Só a temos depois que ver objetos vermelhos. Seria
absurdo imaginar que um bebe produz experiências de cores a partir de ideias
correspondentes, ou seja, se ela tivesse de pensar no vermelho para poder perceber a
cor vermelha.

Pegamos outro exemplo, o de um cego de nascença. Ele não pode ter nenhuma
experiência de cor, porque nunca viu nenhuma cor. Locke conclui que, sem a
experiência e a observação não podemos formar nenhuma ideia acerca das coisas do
mundo.

Mas como a experiência se define? Tanto Locke quando outros empiristas diriam que
dois aspectos as caracterizam.

Sensação e reflexão
A experiência externa, sensação, são os dados obtidos por meio dos sentidos (visão,
tato, audição, paladar e olfato). Já a experiência interna, reflexão, são os processos
internos da própria mente, como pensamentos, desejos e sentimentos.
Reflexão e sensação são modalidades de experiência e são as únicas fontes do
conhecimento. Todas as ideias derivam delas. Como são modalidades diferentes, cada
uma determina diferentes tipos de ideias.

As ideias de sensação derivam das sensações que experimentamos dos objetos físicos.
Por exemplo: ideia de vermelho e ideia de amargo.

As ideias de reflexão derivam do processo de a mente tomar consciência daquilo que


nela ocorre. Por exemplo: ideia de dúvida e de pensamento.

Ideias simples e ideias complexas


Todas as ideias de sensação e algumas de reflexão são ideias simples, segundo Locke. A
mente se limita a percebê-las sem participar da sua produção. Por exemplo: a ideia de
vermelho. Quando abrimos os olhos, não escolhemos o que ver e as ideias de visão
resultam diretamente de uma interação entre os sentidos e os objetos.

Porém, a mente também tem um aspecto ativo. Ela pode produzir ideias, são elas as
ideias complexas. Por exemplo: a ideia de “montanha de lixo”. A mente produz essa
ideia combinando duas ideias simples, a de montanha e a de lixo. Mas há várias
maneiras que as ideias complexas podem ser formadas.

Podem ser a partir da combinação de ideias simples, da ralação ou comparação de


duas ideias simples. Por exemplo: a paternidade (pai e filho).

Independente de qualquer ideia complexa, Locke diz que a experiência continua como
a fonte do conhecimento, pois estão relacionadas com as ideias simples derivadas de
sensação e reflexão.

Qualidades primárias e qualidades secundárias


Apesar de essas ideias estarem na nossa mente, são os objetos físicos que as causam.
Ao que tudo indica, a ideia de cor não é o mero resultado da experiência dos objetos
físicos. As condições do próprio observador parecem influenciar a aquisição das ideias
de sensação.

Locke postula que os objetos físicos contém determinadas propriedades ou


características, chamadas qualidades. São essas qualidades dos objetos que produzem
as ideias na mente. Locke distingue tais qualidades em primárias e secundárias.

As primárias incluem a figura, a extensão, o peso, o movimento, o número etc.. São


objetivas, pois produzem na mente as ideias a elas correspondentes. Já as secundárias
incluem a cor, o cheiro, o sabor, o som. Elas são, ao menos em parte, subjetivas. As
ideias correspondentes a elas não reproduzem exatamente as características dos
objetos físicos.

Pegamos o exemplo de uma laranja: duas pessoas podem ter diferentes sensações de
gosto da mesma laranja. Porém as duas aceitarão que a laranja é redonda. Ou seja, a
figura é uma qualidade primária e o sabor é uma qualidade secundária.
Ensaio acerca do entendimento humano

1. Ideia é o objeto do conhecimento. Todo homem tem consciência de que


pensa, e que quando está pensando sua mente se ocupa de ideias. Por
conseguinte, é indubitável que as mentes humanas tem várias ideias,
expressas, entre outras, pelos termos brancura, dureza, doçura, pensamento,
movimento, homem, elefante, exército, embriaguez. Disso decorre a primeira
questão a ser investigada: como elas são apreendidas?

Consiste numa doutrina aceita que o ser primordial dos homens tem ideias
inatas e caracteres originais estampados sobre sua mente. Já examinei, em
linhas gerais, essa opinião, e suponho que o que ficou dito no livro anterior será
facilmente admitido quando tiver mostrado como o entendimento obtém todas
as suas ideias, e por quais meios e graus elas podem penetrar na mente; com
este fim solicitarei a cada um recorrer à sua própria observação e experiência.

2. Todas as ideias derivam da sensação ou da reflexão. Suponhamos, pois, que


a mente é, como dissemos, um papel em branco, desprovida de todos os
caracteres, sem quaisquer ideias; como ela será suprida? De onde lhe provém
este vasto estoque, que a ativa e que a ilimitada fantasia do homem pintou
nela com uma variedade quase infinita? De onde apreende todos os materiais
da razão e do conhecimento? A isso respondo, numa palavra, da experiência.
Todo o nosso conhecimento está nela fundado, e dela deriva
fundamentalmente o próprio conhecimento. Empregada tanto nos objetos
sensíveis externos como nas operações internas de nossas mentes, que são por
nós mesmos percebidas e refletidas, nossa observação supre nossos
entendimentos com todos os materiais do pensamento. Dessas duas fontes de
conhecimento jorram todas as nossas ideias, ou as que possivelmente teremos.

3. O objeto da sensação é uma fonte de ideias. Primeiro, nossos sentidos,


familiarizados com os objetos sensíveis particulares, levam para a mente várias
e distintas percepções das coisas, segundo os vários meios pelos quais aqueles
objetos os impressionaram. Recebemos, assim, as ideias de amarelo, branco,
quente, frio, mole, duro, amargo, doce e todas as ideias que denominamos de
qualidades sensíveis. Quando digo que os sentidos levam para a mente,
entendo com isso que eles retiram dos objetos externos para a mente o que
lhes produz estas percepções. A esta grande fonte da maioria de nossas ideias,
bastante dependente de nossos sentidos, dos quais se encaminham para o
entendimento, denomino sensação.

4.As operações de nossas mentes consistem na outra fonte de ideias.


Segundo, a outra fonte pela qual a experiência supre o entendimento com
ideias é a percepção das operações de nossa própria mente, que se ocupa das
ideias que já lhe pertencem. Tais operações, quando a alma começa a refletir e
a considerar, suprem o entendimento com outra série de ideias que não
poderia ser obtida das coisas externas, tais como a percepção, o pensamento, o
duvidar, o crer, o raciocinar, o conhecer, o querer e todos os diferentes atos de
nossas próprias mentes. Tendo disso consciência, observando esses atos em
nós mesmos, nós os incorporamos em nossos entendimentos como ideias
distintas, do mesmo modo que fazemos com os corpos que impressionam
nossos sentidos. Toda gente tem essa fonte de ideias completamente em si
mesma; e, embora não a tenha sentido como relacionada com os objetos
externos, provavelmente ela está e deve propriamente ser chamada de sentido
interno. Mas, como denomino a outra de sensação, denomino esta de reflexão:
ideias que se dão ao luxo de serem tais apenas quando a mente reflete acerca
de suas próprias operações. (...)

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