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LANA DE SOUZA CAVALCANTI

(
A GEOGRAFIA ESCOLAR EA CIDADE:
ENSAIOS SOBRE O ENSINO DE GEOGRAFIA
PARAA VIDA URBANA COTIDIANA
COLEÇÃO
MAGISTÉRIO: FORMAÇÃO E TRABALHO PEDAGÓGICO

Esta coleção que ora apresentamos visa reunir o melhor do pensamento


teórico e crítico sobre aformação do educador e sobre seu trabalho, expondo,
. por meio da diversidade de experiências dos autores que dela participam, um
leque de questões de grande relevância para o debate nacional sobre a
Educação.
Trabalhando com duas vertentes básicas - magistério/formação
profissional e magistério/trabalho pedagógico -, os vários autores enfocam
diferentes ângulos da problemática educacional, tais como: a orientação na
pré-escola, a educação básica: currículo e ensino, a escola no meio rural, a
prática pedagógica e o cotidiano escolar, o estágio supervisionado, a didática
do ensino superior etc.
Esperamos assim contribuir para a reflexão dos profissionais da área
de educação e do público leitor em geral, visto que nesse campo o questio-
namento é o primeiro passo na direção da melhoria da qualidade do ensino,
o que afeta todos nós e o país.

Ilma Passos Alencastro Veiga


Coordenadora
PAPIRUS
••••
EDITORA
1
CONCEPÇÕES DE GEOGRAFIA E DE
GEOGRAFIA ESCOLAR NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

Concepções contemporâneas de geografia

Para discutir as concepções teóricas da geografia no mundo


contemporâneo, é necessário antes levantar alguns aspectos relevantes que

-- --
caracterizam esse mundo. O primeiro deles é o fato de que o mundo hoje é
globalizado. Entende-se a globalização como um fenômeno de eliminação
de fronteiras entre os países de todo o mundo, que afeta múltiplos campos:
cultural, tecnológico, social, econômico etc., e que traz como consequência
a construção de espaços de relações integradas. Ainda que se saiba que a
globalização é um processo complexo e diverso, no qual participam
efetivamente muitos países, mas não todos, e que essa participação ocorre
de modos diferenciados, pode-se dizer que todos experimentam, de fato,
em muitos aspectos, uma aproximação de espaços e uma integração de
povo~ ainda que esta;Sejam impostaspor padrões econômicos globais
hegemônicos. É, assim, um fenômeno que obriga a considerar a
interdependência de escalas, já que nele ocorre a construção de espaços de
relações mais integradas em que estão profundamente inter-relacionados o
local, o regional e o global.
A experiência da globalização acentua dois fenômenos paradoxais: de
um lado, a homo eneiza ão dos espaços e da sociedade; de outro, a ampliação

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das desigualdades, com o agravamento de alguns problemas (que se tomaram complexidade e da diversidade da experiência humana, da história humana,'
globais), como a exclusão social, as desigualdades socioeconômicas, a Considerando-se tanto as grandes como as pequenas áreas urbanas, é preciso
violência,.a fragmentação territorial, o desemprego, a contaminação ambienta!. entendê-Ias no contexto da globalização e da informação, trazendo elementos
É verdade que alguns pilares da globalização, conforme Vlach (2005), podem distintos para o cotidiano urbano, para os modos de viver o dia a dia da
ser considerados mitos, como o mercado mundial, ou como projetos ainda cidade. Os dados estatísticos apontam, de fato, para a consolidação do fato
pouco vivenciados, como o de uma sociedade mundial. Mas, como afirma a da urbanização, pois, num futuro próximo, mais da metade da população
autora: "a mundialização, por meio da coexistência entre território e rede, do planeta estará vivendo em cidades (Davis 2006); contudo, para além
evidenciou a complexidade do mundo e expôs as suas peculiares desses números, é importante destacar que as formas de vida das sociedades
imprevisibilidade, incerteza, instantaneidade e simultaneidade" (idem, p. 34). atuais são redominantement~urbanas, o que implica a existência de
Uma outra característica importante do mundo atual é o desenvol- interações cotidianas múltiplas; a residência em áreas de população
vimento das~hamadas tecnologias da comunicação e da informação. O
---- concentrada; o acesso em tempos "urbanos" a serviços de todo tipo _
mundo de hoje é um mundo de grandes avanços tecnológicos, sobretudo educativo, recreativo, sanitário; a inserção em mercados de trabalho urbanos
nas áreas de comunicação e informação. Por um lado, esses avanços (Blanco e Gurevichi 2002, p. 68).
permitem a simultaneidade, ou seja, tomam possível "presenciar" todos os No contexto da globalização, pode-se, por um lado, constatar que
fenômenos e acontecimentos, já que a comunicação ocorre em tempo real; aspectos desse contexto estão presentes de algum modo em todas as cidades,
permitem colocar "à disposição", para todo o mundo, todo o conhecimento o que acaba por padronizar aspectos do cotidiano das pessoas que aí vivem.
acumulado. Mas, por outro lado, a comunicação de massa tem levado a um Por outro lado, constata-se também uma diversidade dos grupos que nelas
processo de homo eneiza ão cultural- como a universalização dos gostos, vivem, uma multiplicidade de redes sociais, de manifestações culturais, em
da alimentação, dos hábitos de consumo, do lazer, dos modelos de vida disputa, em conflito. Com isso, elas vão sendo produzidas, vão sendo
social - e de democratização da ideia de consumo, do ideal de consumo. configuradas de diferentes maneiras, numa dialética do local/global, do
De fato, o advento das tecnologias nas áreas apontadas leva a que as homogêneo/heterogêneo, da inclusão/exclusão, para que s~ habi1a;rtes _
pessoas vivenciem o mundo de modo mais próximo, provocando diferentes grupos, diferentes culturas, diferentes condições sociais - possam
familiaridad s antes impossíveis entre determinados lugares e suas praticar a vida em comum, compartilhando, nesses espaços, desejos,
representações pelos meios de comunicação; com essas tecnologias é necessidades, problemas cotidianos. ~xperiência com a diversidade d~
também possível impor estilos de vida internacionais, globais, por meio da culturas enriquece a vida cotidiana nas cidades, tornando-as lugares de
adesão, por cidadãos do mundo inteiro, ao consumo de alguns produtos e manifestações globais e universais, e lugares de encontros, lugares da
serviços que estão no marco de um mercado internacional; para o diferença. Por isso, destaca-se que a sociedade urbana tem-se tornado mais
funcionamento desse mercado aparecem a internet e todas as redes complexa, mais individualizada e mais multi e intercultural; nela, os
telemáticas como veículos da possibilidade de estar presente em qualquer comportamentos urbanos diversificaram-se, ao passo que algumas pautas
ponto do globo a um só tempo. Todos esses eventos fazem com que boa_ culturais globalizaram-se e homogeneizaram-se.
I parte do que sucede nas diferentes vidas cotidianas esteja influenciada por Outra característica ainda é o multiculturalismo, que pode ser destacado
acontecimentos que vão além de seu entorno imediato. como uma intensifica ão da convivência entre povos de diferentes lugares
A urbanização também é uma característica relevante do mundo ® mu!!flo e com diferentes culturas, ocasionada pela maior comunicação
contemporâneo, sobretudo no mundo ocidental. As cidades são hoje locais entre as pessoas do mundo inteiro, pelo maior deslocamento dos povos e pela
complexos, que abrigam grande parte da população; são expressão da facilitação relativa à entrada em países e à saída deles em diferentes regiões.

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Nesse quadro da contemporaneidade, é preciso destacar a busca de ~a pers ~nomenológica, dialética e sistêmi~a, ou em algum modo' de
novos paradigmas de conhecimento, de ciência, destacando-se os avanços inter-relação entre elas) que contribuem, cada uma a seu modo, para a
no campo da microeletrônica e da revolução biológica. Buscam-se teorias compreensão da espacialidade contemporânea; a meu ver, essas perspectivas
compatíveis com o mundo atual que deem conta da tarefa de compreender da análise geográfica possuem algumas bases comuns, como, por exemplo,
a complexidade desse mundo e as possibilidades de nele intervir. É base o fato de colocarem-se como uma ciência social de relevância e de investirem
para o entendimento do mundo nesses paradigmas o princípio da incerteza na busca de um marco teórico e conceitual consistente e articulado. Nesse
no campo da ciência (cf. Morin eLe Moigne 2000). novo cenári~ das ciências, e da ciência geográfica no Brasil em particular,
Esses aspectos do mundo contemporâneo revelam transformações ocorre tambem uma preocupação com o papel dos geógrafos (cf. Moreira
que são mais que uma simples mudança de fatos e processos econômicos; 2007; Haesba~rt ~006, entre outros), com as questões que os preocupam,
o contexto atual é, na verdade, o de uma ~ cultura, de novos processos com sua especificidade, com as ferramentas que utilizam em suas análises.
de identidades1 de um novo espaço, de uma nova territorialidade ou de uma . A geografia busca, assim, estruturar-se para ter um olhar mais
"desterritorialização/reterritorialização" (Haesbaert 2006). Enfim, uma mte ador e aberto, ao mesmo tempo, às contribuições de outras áreas da
espacialidade ue é bastante com lexa e que requer análises amplas. Para ciência e às diferentes especialidades em seu interior; um olhar mais
essa análise, têm sido demandados conhecimentos integrados, compreensivo, mais sensível às explicações do senso comum, ao sentido
interdisciplinares, abertos, na perspectiva da complexidade, que consigam dado pelas pessoas para suas práticas espaciais. Como afirma Bailly (apud
abalar a tradição moderna de produção de conhecimento científico, Claval 2002), em uma análise que parte da perspectiva da geografia cultural
principalmente aquela que tem dado maior ênfase a uma racionalidade a constituição do social passou a ser apreendida de outra forma, pois se
objetiva, técnica e operacional. entende que ela se implanta no jogo das representações que as pessoas
~ A geogré!!:@,nesse contexto, tem também se reestruturado, tornando- recebem do mundo circundante. Como afirma Claval, na perspectiva
se uma ciência mais lural. Por um lado, ela reafirma seu foco de análise, cul~ral, os geógrafos "não hesitam mais em falar dos indivíduos, em contar
que é o es aço, mas, por outro, toma-se mais consciente de que esta é uma a VIda deles, em acreditar em seus depoimentos" (idem, p. 26). Ou, como
dimensão da realidade, e não a própria realidade, complexa e interdisciplinar ~am~é~, mas ~~ o~tra perspectiva, nos fala Santos (1999), o lugar é a
instãncia da re~Isten~Ia ou da possibilidade de efetivação das práticas globais

u
por si mesma. O espaç05omo objeto da análise geográfica é concebido não
'como aquele da experiência empírica, não como um objeto em si mesmo, a mais estruturais. Seja numa perspectiva ou noutra, parece que na eo rafia
00 er descrito pormenorizadamente, mas sim como uma abstra ão, uma não se adml!.e mais excluir as diferentes com reensões ex lica ões
-' construção teórica, uma categoria de análise que permite apreender a determinações da configuração do real, simbólicas, econômicas ou naturais:
dimensão da espacial idade das/nas coisas do mundo. O espaço geográfico n.te~de-se que o real é complexo, composto por elementos subjetivos e
é, desse modo, concebido e construído intelectualmente como um produto obJetIVOS, n.aturais e sociais, o que encaminha o discurso geográfico na
social e histórico, que se constitui em ferramenta que permite analisar a h~lsca d.as mter-relações entre esses elementos e da eliminação das
realidade em sua dimensão material e em sua representação. Tanto é assim dicotomias ',Como sugere Suertegaray (2002), baseando-se "iiã compreensão
que cada vez mais se reafirma o conteúdo material e simbólico na totalidade de complexidade de Morin, é preciso superar na geografia certas dualidades
<!.o espaço, tornando-o mais aberto em suas determinações e mais como: natureza/sociedade, natureza/cultura, tempo/espaço, cidadelcampo:
imprevisível em suas configurações. locat/globa', I.ugar/mundo, teoria/prática, conhecimento/ação, técnica/poesia,
ensino/pesquisa, ensino/aprendizagem, bachareVprofessor, geografia física/
Partindo dessa ferramenta intelectual, há, atualmente, !:!,madiversidade
geografia humana.
de perspectivas da análise geográfica (que estão basicamente fundamentadas
- ~

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escolares? Quais as bases teórico-metodológicas da geografia escolar? O
Compreende-se assim que, no mundo contem orâneo, as práticas
que fundamenta a construção do discurso geográfico na sala de aula?
cotidianas das pessoas (que são práticas espacializadas e por isso interessam
A

à geografia) são complexas, fragmentadas, desiguais, diferenciadas, A geografia brasileira, seja a acad seja a esco~r,
mul ticu Iturai s, in tercul tu rai s, des terri torializadas/reterri torializadas, institucionalizou-se no início do século XX, via Sociedade Brasileira de
organizadas em fluxos e redes, midiáticas e informati~adas .. P~ra Geografia (SBG), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
compreender essas práticas espaciais, espacializadas, a geografia brasileira, Universidade de São Paulo (USP), e outras instituições, e, assim como em
por exemplo, tem produzido inúmeros estudos, em diferentes linhas de outros países, essa institucionalização está vinculada ao seu ensino. Os
investigação, pautados em discursos e instrumentos metodológicos menos pesquisadores dessa história destacam que, antes de se constituir como
fechados e sectários e que podem ser vistos nas diferentes escalas de campo de formação em nível superior, essa matéria já era ensinada nas
análises. escolas; ela foi, assim, antes de tudo, geografia escolar (Oliveira 2004;
Vesentini 2004). Porém, há uma relação e certa correspondência em suas
Assim, há novas temáticas nos estudos eográficos contemporâneos;
trajetórias. Pode-se dizer que ambas têm histórias paralelas, mas que se
basta verificar os temas das pesquisas em eventos brasileiros dos últimos
encontram, que se cruzam, que se interpenetram, que se influenciam
anos. Na escala global, por exemplo, há diferentes trabalhos que procuram
mutuamente, guardando, mesmo assim, suas identidades, suas
contribuir para a compreensão de processos mais amplos, desde aqueles
especificidades.
voltados ao entendimento de sistemas complexos que envolvem natureza e
sociedade, como os grandes complexos ambientais, até os que envolvem a Em sua história recente, principalmente a partir de 1980, destaca-se
entrada do Brasil no contexto de mundialização do capital e também aqueles o denominado "movimento de renovação da geografia" (da geografia
que têm a ver com as redes e os fluxos dentro do país. Na escala d? lugar, acadêmica, do ensino de geografia). Pela literatura disponivel que trata do
há a preocupação, por um lado, com a "guerra dos lugares", ou seja, com tema (Vesentini 2004; Zanatta 2003, entre outros), verifica-se que esse
a compreensão de como o capital e as estruturas sociais mais amplas têm- período foi inicialmente marcado pela disputa de hegemonia de dois núcleos
se efetivado no lugar, com que agentes, com que mediações, com que principais, um aglutinando uma geografia dita "tradicional", que se mantinha
especificidades. Por outro, existe também a preocupação em compreender tal como se havia estruturado nas primeiras décadas do século XX, e outro
a força do lugar; em outras palavras, a preocupação com os ~lementos ~ que representava uma geografia nova, que buscava superar a tradicional,
lugar que lhe dão identidade e dão identidade aos que nele vivem; a que e proclamava "critica", com predomínio de uma orientação marxista.'
preocupação com a autonomia, ainda que relativa, desses lugares - elementos No conjunto, o movimento buscava denunciar a falsa neutralidade e a falsa
que permanecem e persistem nos interstícios do espaço banal, do espaço "inocência" do pensamento geográfico oficial, o caráter utilitário da
cotidiano. , -ografia, seu caráter ideológico vinculado ao Estado, e tinha como "bandeira

egundo Moreira (2007), para esse movimento no Brasil são importantes as


As concepções da geografia e seu ensino
contribuições de Yves Lacoste, Henri Lefebvre, Antonio Quaini e Milton Santos.
om efeito, uma busca bibliográfica permite constatar a influência marcante desses
o quadro da produção geográfica atual, rapidamente
delineado, tem
pensadores nos trabalhos dos geógrafos críticos brasileiros, que se destacaram nesse
. ? A
a ver com o ensino da geografia? De que modo ele afeta esse ensino: s primeiro momento de renovação da geografia, como o do próprio Moreira (1980,
mudanças na geografia acadêmica, na pesquisa científica de conteúdos 1(87) e os dos autores de artigos dos livros organizados por Oliveira (1989) e por
geográficos específicos, acarretam alterações diretas nos conteúdos Vcscntini (1989).

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de luta" romper com esse pensamento por meio de uma reformulação teórica. Mas é preciso mencionar que esse descontentamento também não era
Com a contribuição dos pensadores, buscou-se avançar numa nova novidade, já que a história da geografia escolar no Brasil, pelo exame de
compreensão do espaço, de sua historicidade e de sua relação dialética com a textos de geógrafos preocupados com o ensino dessa matéria em períodos
sociedade. Na verdade, já nesse primeiro período do movimento de renovação anteriores à sua renovação (cf., entre outros, Vlach 2004 e Vesentini 2004),
havia uma multiplicidade de entendimentos do que seria essa geografia crítica, é marcada pelo enfrentamento dos mesmos problemas evocados: a geografia {
ou mesmo geografias críticas. Como afirma Moreira (2007, p. 29): como era ensinada não atraía os alunos; não havia uma consciência da
importância dos conteúdos ensinados por essa matéria; o saber por ela
veiculado era inútil e sem significado para os alunos, servindo, antes, aos
As temáticas do marxismo e da renovação da geografia cruzam-
se, portanto, nesse momento. proximidade de onde é tirada a idéia projetos políticos de formar um sentimento de patriotismo acrítico, estático
generalizada do marxismo como a base filosófica e político- e naturalizante; a memorização tomou-se seu principal objetivo e também
ideológica da renovação. Idéia generalizada, porém falsa: há orientou sua metodologia.
marxistas, há quem passe ao largo do marxismo e há mesmo Em contrapartida, era preciso encontrar novos caminhos. A busca
antimarxistas entre os envolvidos no processo da reformulação
por esses novos caminhos igualmente faz parte da história da geografia
da geografia. É um fato que os geógrafos "descobrem" Marx. (.~.)
escolar. Desde sempre (pelo menos desde o início do século XX), procurou-
Mas é preciso dizer que se um inédito processo de refundição
marxista ocorre por dentro da renovação da geografia, a renovação, se atribuir significado à geografia que se ensina para os alunos, tomando-a
todavia, não se confunde com o marxismo e os geógrafos de mais interessante e mais atraente e possibilitando seu aprendizado por eles.
formação marxista. Até, porque, verdadeiramente, o que há é um Nesse momento de renovação do ensino de geografia - na década de 1980,
movimento plural, convergente apenas no que toca ao descon- como já se disse, predominavam ideias de caminhos alternativos que se
tentamento a todos comum, que existe em relação ao discurso orientavam pelo marxismo, ou pelo materialismo dialético -, questionava-
geográfico vigente. se a~ura dicotômic~ mentada (composta por "partes estanques")
do discurso da geografia (de um lado, apresentavam-se os fenômenos
Destaca-se dessas considerações a pluralidade no discurso geográfico naturais; de outro, os humanos), e algumas propostas buscavam inserir
já existente desde os anos de 1980. Porém, a predominância e .a repercussão nesse discurso elementos da análise espacial. Mais do que localizar e
de certos textos e "autores com vinculação ao discurso marxista perrrutem descrever elementos da natureza, da população e da economia, de forma
falar em, pelo menos, uma predominância dessa orientação, nesse mo~ento separada e dicotomizada, propunha-se uma nova estrutura para esse conteúdo
do movimento, embora já se reivindicasse a consideração dessa pluralidade, escolar que tivesse como pressupostos o espaço e as contradições sociais,
o que foi se tomando uma conduta mais consolidada da geografia nos anos orientando-se pela explicação das "causas e decorrênciãSdãs localizações
de certas estruturas espaciais.
de 1990.
No âmbito da geografia escolar, ainda que se reconheça que aí também A partir de 1990, o contexto sociopolítico, científico e educacional
não havia, desde o i~ dessa renovação, uma unidade na geografia crítica, apontava para uma crise e ao mesmo tempo para a necessidade de uma
havia pelo menos, denúncias comuns, que expressavam um descon- ampliação dos referenciais interpretativos da realidade, como foi destacado
, • 2
tentamento quanto aos rumos que tomavam as práticas de seu ensino. na primeira parte deste capítulo, quando analisamos o contexto da
globalização na atualidade. Nesse cenário, tal qual a geografia acadêmica,
surgiram novos caminhos na investi a ão sobre o ensino de geografia, e as
2. Aqui é importantefazer menção a obras que se tomaram clássicas do período, como
Oliveira (1989), Vesentini (1989), revista Terra Livre, n. 8 (1991). orientações para o trabalho docente com essa matéria escolar foram se

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reconstruindo com base no contexto mencionado. Mais do que pro ostas Pode-se dizer, com isso, que, embora a geografia acadêmica e a geografia
de ensinar conteúdos críti s, como foi a tônica na década de 1980, escolar sejam duas estruturações de um mesmo campo científico, que
começaram a ganhar "corpo" diferentes pro ostas alternativas (não mais guardam estreita relação entre si, essa relação não é de identidade.
com a predominância das de cunho marxista) para ensinar criticamente A estruturação da geografia escolar é realizada e praticada, em última
conteúdos críticos. Algumas pesquisas interpretam os diferentes períodos instância, pelo professor dessa matéria, em seu exercício profissional
e têm dem~o que as propostas para o ensino de geografia, a partir da cotidiano. Para isso, ele tem múltiplas referências, mas as mais diretas são,
década de 1990, incorporaram mais explicitamente a fundamentação de um lado, os conhecimentos geográficos acadêmicos, tanto a geografia
peda Qgico-didáticJ., definindo, com base nessa fundamentação, diferentes acadêmica quanto a didática da geografia, e, de outro, a própria geografia
métodos para o ensino de geografia (Zanatta 2003). escolar já constituída.
Nessas duas últimas décadas do século XX ocorreram variados Na busca pela compreensão de como
---- se estruturam os conhecimentos...•
"eventos" que contribuíram para mais uma reforrnulação da geografia escolar, escolares referentes às diversas áreas do conhecimento científico (no caso,
bem como da geografia acadêmica. Destacam-se, nesse sentido, a a geografia escolar), é interessante considerar, por exemplo, o conceito de
investigação sobre ensino de geografia (seja na forma de estudos de m~strado conhecimento didático do conteúdo, elaborado por Shulman (apud Marcelo
e doutorado, seja como projeto investigativo realizado por equipe de García 2002a), e que representa a combinação adequada entre o
especialistas no âmbito das instituições de ensino superior), que se ampliou conhecimento da matéria a ensinar e o conhecimento pedagó~ didático
substancialmente nesse período, as palestras e os debates nos espaços da referido a como ensiná-Ia. Essa combinação fundamenta o professor em
Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB), a divulgação de resultados relação à forma de organização e de representação da matéria.
da investigação no ensino de geografia em livros e em artigos de periódicos Outra referência importante sobre a constituição desses
nacionais. Toda essa produção buscou analisar o ensino de geografia e conhecimentos é a tese da trans osição didáti~ de Chevallard (1997).
propor orientações com vistas a alterações em su.a prática, ~or~entações Segundo o autor, a transposição é um processo amplo, de "passagem" do
explicitadas nos livros didáticos mais recentes, em livros acaderrucos~e ~m saber acadêmico ao saber ensinado, que não se restringe ao ato de preparar
diversas diretrizes curriculares, destacando-se, aqui, pela sua abrangencla, didaticamente um curso, mas que envolve toda a reflexão pedagógico-didática
os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs 1998V e epistemológica sobre os saberes, em vários níveis, desde a que é realizada
Percebe-se, desse modo, que há caminhos paralelos na produção por aqueles que se dedicam a sistematizar teoricamente esse processo, os
teórica da geografia acadê'E.ica e da teoria sobre o ensino, que são, por sua estudiosos da didática, passando pela que é feita pelos elaboradores de
~z, duas referências importantes para a composição da geografia escolar. propostas e diretrizes curriculares e pelos autores de livros didáticos, até a
reflexão efetuada pelo professor que prepara seu curso, que faz suas opções
de conteúdo. O conceito de transposição didática, ainda que se possam
3. Não se pode, entretanto, deixar de assinalar que, apesar de já ter sido amplamente fazer adequações e/ou críticas pelo entendimento do processo que a ele se
criticada e teoricamente superada (como demonstra uma grande quantidade de pode associar, parece adequado para a compreensão dos diferentes aspectos
pesquisas a respeito), a prática desse ensino continua quase inalterada, predomin~do
que envolvem o processo de constituição dos conteúdos de geografia que
até agora o ensino tradicional, baseado na memorização de dados Isolados: e ainda
se veiculam na escola. A transposição didática, nessa compreensão,
tendo como critério de avaliação da aprendizagem dos alunos a sua capacidade de
configura a geografia escolar tendo em vista o funcionamento didático e a
reproduzir os conteúdos apresentados, sem questionarnentos, sem muito es~aço
para a reelaboração, para a construção de conhecimentos novos, para a produçao da dinâmica própria dessa disciplina em face das demandas da academia e das
autonomia de pensamento geográfico. demandas sociais.

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A consciência da es ecificidade das eografias acadêmica e es~l!lf e, em cada uma dessas atividades, à forma como ele lida com a geografia e
e de suas relações contribui para que o professor não se angustie por não com os conhecimentos geográficos.
"aplicar" seus conhecimentos acadêmicos na prática docente, pois..2 A investigação a respeito dos caminhos percorridos e configurados
geografia escolar tem uma especificidade (cf., por exemplo, Goodson 1990) na geografia escolar é importante e necessita ser aprofundada. Sua
que advém em parte dos conhecimentos acadêmic~s, em parte do movimento importância está, no meu entendimento, relacionada a vários fatores. Entre
autônomo dos processos e práticas escolares e em parte das indicações eles destaco dois pontos. O primeiro é o de que essa reflexão permite
formuladas -asinstância , como as di.!!!!izes curriculares e os livros esclarecer que a geografia escolar tem um estatuto próprio e não
didáticos. Compreendendo assim o processo, o professor poderá perceber- necessariamente está subordinada ao que se prescreve para ela na Academia,
se como parte desse conjunto de "realizadores" da geografia escolar, e o segundo é o de que a geografia escolar não é uma simplificação da
assumindo nele uma posição de sujeito, com relativa autonomia e acentuado ciência, no sentido de se ter como parâmetro a referência direta dos
senso crítico. conhecimentos científicos para o cotidiano dos alunos. Sua razão de ser
A reflexão sobre essa questão está vinculada à ~oria d~rrículo, deve estar assentada na possibilidade de permitir o questionamento tanto do
especificamente na linha da história das disciplinas, e à didática das ciências, conhecimento científicoquant~ do conhecimento cotidiano. Sobre isso,
etern importantes contribuições, além das já mencionadas no texto (cf., argumenta Lopes (1997, p. 54):
entre elas, Lopes 1997, 2007). Essa linha de reflexão procura destacar as
diferenças entre a estlJ!!ura das disciplinas escol~es e a estrutura dos @!!!9s A partir do processo de problematização das relações entre essas
científicos de referência, entendendo que entre elas não há uma relação de esferas do conhecimento, podemos procurar pensar nas possíveis
hierarquia, uma transposição direta ou mecanismos de simplificação; o que contribuições do conhecimento cotidiano ao conhecimento
científico. No mínimo, o conhecimento cotidiano é capaz de conferir
há são mediações didáticas (Lopes 1997), nas quais o conteúdo é
ao conhecimento científico a noção do circunstancial e imediato,
reconstruído, alguns temas são escolhidos, enfatizados, e outros são
e de evitar sua tendência à onipotência [por outro lado] ~
desconsiderados. Essas reflexões estão articuladas a uma concepção de conhecimento escolar, que envolve a (rejconstrução do
cultura escolar múltipla, que entende que os saberes veiculados na escola conhecimento científico, não pode perder de vista a (rejconstrução
incluem as práticas sociais e não estão ligados apenas a uma cultura do conhecimento cotidiano (...) devemos conceber a escola como
sistematizada cientificamente. Nesse processo, as disciplinas escolares instituição que tem por objetivo contribuir para questionar as
sofrem influências diversas, tendo como panorama mais amplo a cultura concepções cotidianas de todos nós.
social praticada.
Com base nessas considerações, pode-se dizer que a pesquisa no
Há, assim, outras referências na composição da geografia escolar,
campo da didática e da formação de professores tem contribuído para
para além da ciência, como, por exemplo, as conce ões essoai dos
desenvolver algumas indicações sobre essa questão:
professo~ resultantes de sua experiênc~a com a geografia e com a prática
escolar (com respeito a temas como: ensinar geografia, aprender geografia,
ser bom professor de geografia e muitas outras). Outras referências são ~ 1. a geografia escolar não se identifica com a geografia acadêmica,
próprias práticas escola~s, ou seja, o modo como se .orga~iza a ~sc~la ainda que não possa dela se distanciar; ela é sua referência
quanto às orientações de currículo e de planos de ensino, as referências fundamental, é fonte básica de sua legitimidade;
oficiais (diretrizes curriculares, livros didáticos), à forma como o professor 2. a geografia escolar não é a geografia acadêmica estruturada
organiza as atividades de planejamento e avaliação do projeto pedagógico, segundo critérios didáticos e psicológicos, ainda que estes também

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sejam referenciais importantes. Com base nesses critérios, hierarquização das atividades, discriminando e desvalorizando algumas delas.
constrói-se o saber geográfico a ser ensinado, estabelecido em Nessa linha, consolidou-se a concepção de que a teoria tem a ver com uma
cursos de formação acadêmica, nas diretrizes curriculares, nos compreensão científica, mais geral, que rompe com as manifestações
livros didáticos, o que não é ainda a geografia escolar; particulares da prática e sistematiza o conhecimento.
3. a geografia escolar é o conhecimento geográfico efetivamente Esse entendimento traz a ideia de que a teoria é a dimensão própria 7
ensinado, efetivamente veiculado, trabalhado em sala de aula. Para da ciência e dos cursos de formação universitária, nas licenciaturas por
sua composição, como já foi dito, concorrem a geografia exemplo, e a prática, a dimensão das escolas e dos professores; a teoria é
acadêmica, a geografia "didatizada" e a geografia da tradição produzida pela pesquisa e veiculada pelos processos formativos, enquanto
prática. Essa composição é feita pelos professores no coletivo, a prática dos professores nas escolas é vista como desprovida de saberes
por meio do conhecimento que constroem sobre geografia escolar. ou portadora de um saber "menos confiável", porque mais próximo do
Esse conhecimento é extremamente significativo na concepção senso comum. Assim, há uma c~nça de que o mundo da teoria tem 0-Pl!Pel
de que conteúdos da matéria ensinar. Nele têm papel relevante as de contribuir ara melhorar o mundo da prática. --
crenças adquiridas no plano do vivido pelo professor como Para superar essa concepção, renunciando de vez à crença de que as
cidadão; o conjunto de concepções, crenças adquiridas na vida, teorias determinam a realidade prática, é preciso pensar na teoria e na prática 1
incluindo aí a formação profissional universitária (a inicial e a como duas dimensões da realidade, não necessariamente realizadas em
continuada); as práticas sociais, as práticas de poder e a prática lugares e p~essoas diferente;'-mas como dimensões indissociáveis. E-
instituída na própria escola. essa compreensão ajuda a encarar de outro modo os processos formativos
do professor, e no caso deste texto interessa pensar no professor de geografia,

- -
Enfim, a geografia escolar não se ensina, ela se constrói, ela se realiza.
--
Ela tem um movimento próprio, relativamente independente, realizado pelos
no campo da teoria e da geografia acadêmica, e nos processos práticos de
formação, na escola, no exercício da profissão, na formulação de teorias
professores e demais sujeitos da prática escolar que tomam decisões sobre na dimensão de sua funcionalidade imediata. Essa compreensão é
o que é ensinado efetivamente. Assim, a escola é e pode ser importante fundamental, por sua vez, para pensar nas mudanças necessárias, tanto na
espaço para promover a discussão e a avaliação desse conhecimento. No teoria quanto na rática da geografia escolar, nesse cenário analisado ao
campo da pesquisa em didática da geografia, deve-se conhecer a geografia longo do capítulo.
escolar para submetê-Ia à análise crítica, compreendendo seus fundamentos,
suas origens - análise a ser feita pelo conjunto de professores.
Destaca-se nessa discussão a reflexão sobre conhecimento e saberes A educação geográfica no contexto contemporâneo
docentes, sobre a relação teoria e prática. ~enso comum !Jl1ent~
formação é o da divulga ão, da discussão e do acesso à teoria, e o momento Considerando, então, o movimento próprio da geografia e suas inter-
da prática é o E.a aplicaçâo dessa teoria. Nessa linha, a teoria, a boa teoria, relações com a geografia acadêmica e seus desdobramentos e preocupações
traz explicações precisas da realidade, sendo, com isso, capaz de dar contemporâneas, como se pode analisar a geografia escolar atual?
orientações seguras para a prática. Trata-se de uma concepção de que há Como foi abordado, nos últimos 20 anos, o conjunto de profissionais
uma linearidade que parte da teoria para a prática e de que há superioridade ligados ao ensino - e especificamente ao ensino de geografia - no Brasil tem
da primeira em relação à segunda. A separação entre teoria e prática está procurado produzir teorias e práticas de ensino mais de acordo com as
ligada à divisão social do trabalho, que historicamente repercutiu em uma tarefas sociais que essa área profissional deve cumprir. Há uma produção na

28 Papirus Editora A geografia escolar e a cidade 29


área de geografia que procura dar conta do contexto contemporâneo em Nesses primeiros anos do século XXI, diante dessa realidade esboçada,
suas diferentes dimensões - científica, cultural, educacional, social -, e algumas preocupações teóricas têm resultado em i!!.dicações para a rática
essa produção, como foi já apresentado neste texto, aponta para a necessidade de ensino de geografia. Entre elas podem ser destacadas:
de conhecimentos mais integrados, mais abertos, para conseguir abarcar a
~n:.!P~ade inerente à realidade. Portanto, para a educação, as tarefas são
• Reafirma ão do lugar como dimensão espacial importante: o lugar
igualmente complexas. Deve-se ter como meta, nesse campo, ~ -- --- -- -
é a vida cotidiana; o cotidiano é o lugar do desejo, do sentido,
indivíduos mais abertos, mais sensíveis e, ao mesmo tempo, mais informados,
contrapondo com a necessidade, a ordem distante. O lugar passou
mais velozes, mais críticos. Com o intuito de cumprir as delicadas tarefas
a ser visto como referência necessária, como escala de análise
da formação básica de cidadãos eara o mundo contem orâneo, via educação
dos conteúdos do ensino; o ensino da geografia passou a ter
escolar e especific~e via ensino de uma das matérias escolares, investiu-
como objetivo relevante estudar o lugar para compreender o mundo
se bastante nos últimos anos em pesquisas sobre o ensino de geografia e (Callai 1999, 2001, 2003).
sobre a metodologia de ensino dessa matéria. Por meio desses estudos foi
• Articula ão local- lobal como superposição escalar poten-
possível realizar diagnósticos, colher depoimentos de professores, de alunos
cializadora do raciocínio espacial complexo. Pode-se falar em
e de outros sujeitos envolvidos no processo de ensino e aprendizagem dessa
um revigoramento da proposta de incorporação do conceito de
matéria, analisar materiais didáticos etc. Com tudo isso, várias propostas
espacialidade diferencial, de escalas diferenciadas/multiplicidade
pedagógico-didáticas puderam também ser sistematizadas.
escalar, para superar o conceito de obstáculo de região. O dado
Nas discussões entre os geógrafos (bacharéis e professores de global, visto como conjunto articulado de processos, relações e
geografia), percebe-se cada vez mais a incorporação dessa temática, assim estruturas de um dado espaço, tem um significado específico,
como nas pesquisas acadêmicas, inclusive em dissertações e teses." Pode- peculiar em cada lugar; mas esse lugar não pode ser apreendido
se dizer que no âmbito da geografia acadêmica ligada ao ensino houve completamente se não se fizer uma articulação de seu significado
significativos avanços, que podem ser pontuados da seguinte maneira: em com a totalidade da qual faz parte. Portanto, trabalha-se com
primeiro lugar, o número dos trabalhos nessa área tem aumentado bastante uma compreensão de interdependência dialética entre local e global.
nos últimos anos e eles têm-se constituído em ricos diagnósticos da geografia Busca-se entender os fenômenos na relação parte/todo,
ensinada e produzida no país, fornecendo parâmetros para a avaliação de concebendo a totalidade como dinâmica.
propostas curriculares, de políticas educacionais, de livros didáticos, de
• Formação de conceitos geográficos instrumentalizadores do
metodologias e de procedimentos empregados no ensino (cf. Pinheiro 2005);
pensam~ espac~ é meta a ser buscada no ensino de geografia.
em segundo lugar, pode-se já apostar num processo inicial de
A formação de conceitos pressupõe encontro e confronto entre
reconhecimento da legitimidade e da relevância da pesquisa no ensino de
conceitos cotidianos e conceitos científicos. A respeito dessa
geografia realizada pela comunidade acadêmica.
orientação metodológica, tenho buscado apresentar contribuições
fundamentadas no pensamento de Vygotsky (1984), destacando
a relação necessária entre cotidiano, mediação pedagógica e
4. Para apontar um indício dessa incorporação, pode-se citar a distinção de um grupo
de trabalho (GT) com a ternática do ensino no último encontro da Associação Nacional formação de conceitos no desenvolvimento do processo de ensino
de Pós-Graduação em Geografia (Anpeg). Nesse encontro, foram apresentados e e aprendizagem. Em relação ao ensino de geografia, tenho insistido
discutidos, no âmbito desse GT, diversos trabalhos, com temáticas em torno da na ideia de que encaminhar o ensino por meio dessa orientação
questão ambienta!, da cartografia e de currículo, entre outros. requer um olhar atento para os conhecimentos cotidianos dos

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alunos, especialmente seus conhecimentos a respeito ~ lugar com a preservação/conservação da natureza, com sua valorização
o~ivem e suas representações sobre os diferentes lugares do e com a definição de formas de uso. Essa indicação está bastante
globq, Esse entendimento implica ter como dimensão do consolidada nos meios educacionais, com experiências inter e
conhecimento geográfico o espaço vivido, ou a geografia transdisciplinares bastante interessantes e frutíferas, requerendo,
vivenciada cotidianamente na prática social dos alunos. Sendo no entanto, sua discussão constante, no sentido de ampliar a
assim, o professor deve captar os significados que os alunos dão criticidade de suas metas e especificando caminhos para formar
aos conceitos científicos que são trabalhados no ensino. Isso valores ambientais por meio de conteúdos escolares específicos.
significa a afirmação e a negação, ao mesmo tempo, dos dois
Incorporação de outras formas de linguagem (ou outras formas
níveis de conhecimento (o cotidiano e o científico) na construção
de leitura da realidade), como o cinema, a música, a literatura, as
do conhecimento, tendo, contudo, como referência imediata,
durante todo o processo, o saber cotidiano do aluno.
charges, a internet. É verdade que a sociedade mudou e avançou 1
em muitos aspectos, e que a escola e o ensino de geografia nã~
• Inclusão da discussão de temas emergentes para a compreensão têm acompanhado satisfatoriamente essa mudança. Por isso
da espacialidade contemporânea, como gênero, questões étnico- mesmo, a escola e o ensino de geografia precisam, de fato, mudar,
raciais, turismo, violência ur~. Esses temas, que fazem parte precisam estar mais li ados à vida social atual. Mas isso não
do cotidiano dos alunos, são veiculados de modo recorrente pela significa esperar que a escola se transforme em um "fliperama",
mídia, o que acaba acarretando o risco de que sejam tratados de \ que se organize como se fosse uma "casa de jogos eletrônicos".
modo superficial, com forte viés ideológico e preconceituoso. Tampouco o professor de geografia deve se comportar como
Na lógica que rege a sociedade contemporânea, há uma tendência um animador de TV, como um mediador de um reality show.
a que se tornem também objetos de espetacularização. Aos Nem o conteúdo geográfico tem de se tomar um tema de programa
professores cabe trazer os temas para serem debatidos, com de vídeo ou de TV. Acredito que não é assim que a escola vai
transparência, permitindo todas as "falas" possíveis, propiciando estar mais "antenada" com o mundo atual. Ela não precisa seil
a divergência e explicando sua complexidade. outra coisa para exercer sua função na sociedade, mas também_
• Desenvolvimento da linguagem cartográfica. Essa indicação não pode continuar sendo o que é. Considero, de qualquer forma,
metodológica tem como um dos eixos norteadores a alfabetização que a escola (e o ensino de geografia) mantém sua atualidade
~gráfica ~rabalho co~s representações de m':Pdos como espaço onde se desenvolve o trabalho com o saber, com a
visíveis, objetivos, e de mundos subjetivos, numa compreensão cultura, em busca do crescimento intelectual de seus alunos. Seu
de que representações cartográficas não se limitam ao mapeamento papel, nesse sentido, é a,!Epliaro uso de procedimentos de ensino 7
e à localização objetiva e fixa das coisas, mas devem dar conta de que sejam propiciadores da manifestação dos sujeitos, de s~
um espaço fluido, em rede, pleno de significações e sentidos. diversidade e do processo de significação de conteúdos, incluindo
Esse parece ser o intento das recomendações e das pesquisas a música, a literatura, o cinema, a cartografia, o estudo do meio,
que têm como foco tanto trabalhos com mapa mental como os jogos de simulação.
aqueles voltados para o geoprocessamento e a produção de
recursos didáticos.
Essas atuais preocupações e indicações práticas têm como
• Educação ambiental e preocupação com o conceito de ambiente pressuposto que a educa ão geográfic~ proposta para uma sociedade
ede ambiência, com a questão ambiental e qualidade de vida, complexa como é a sociedade contemporânea, e realizada com os

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conhecimentos da geografia escolar, deve levar em conta que ~resse~, • uma compreensão de que os fenômenos, os processos e a própria
as atitudes e as necessidades individuais e sociais dos alunos mudaram em
decorrência dessa nova realidade espacial. Sendo assim, não pode ficar
--
geografia são históricos;
• uma convicção de que ~ender sobre o espaço é relevante, na
alheia às mudanças da geografia acadêmica. Para que os alunos entendam medida em que é uma dimensão constitutiva da realidade.
os espaços de sua vida cotidiana, que se tomaram extremamente complexos,
í é necessário que aprendam a olhar, ao mesmo tempo, para u...!!!..S0ntexto
A consideração da geografia escolar como uma maneira específica
( mais amplo e global, do qual todos fazem parte, e ~ar~ os el~m.entos ue
de raciocinar e de interpretar a realidade e as relações espaciais, mais do
cara~am e distinguem seu context~ Para atingir os objetivos dessa
que uma disciplina que apresenta dados e informações sobre lugares para
•..educação, deve::Se levar em consideração, portanto, o local, o lugar do
que sejam memorizados, aproxima a disciplina dos princípios construtivistas.
aluno, sempre visando propiciar a construção, ,p.or ele: ?e um quadro de
Ou seja, pautar o ensino no desenvolvimento de determinadas capacidades,
referências mais geral que lhe permita fazer análises críticas desse lugar.
a serem desenvolvidas por meio do trabalho com os conteúdos, requer a
No contexto esboçado neste capítulo, então, ue geografia ensinar? escolha de caminhos adequados para levar a cabo o próprio ensino. Dessa
Em outras palavras, como se deve constituir hoje a geografia escolar? forma, ~ r~fle~sobre os conteúdos l~a também à reflexão sobre métodos
Antes de qualquer coisa, ensi nar aos alunos os conteúdos
considerados relevantes para compreender a espacialidade atual, tal c~~o -
de ensino, pois são elementos integrados no contexto didático.
Para pensar sobre aspectos metodológicos do ensino de geografia,
foi aqui caracterizado. No entanto, mais do que conteúdo~, é neces~ano,
também, ensinar-Ihes modos de pensamento e a !9, ou seja, por mel,o de
atividades proporcionadas nas aulas, por meio do trabalho com os co~teudos,
() aluno como centro e sujeito do processo de ensino para, a partir daí,
--''----- -
refletir sobre o a el do rofessor e da geografia, que são elementos
-
lendo em vista o que já foi exposto, entendo que o primeiro passo é colocar

os professores devem propiciar o desenvolvimento de certas capacidades e igualmente fundamentais no contexto didático. Trata-se de um processo

-
habilidad


como:

uma atitude indag~ diante da realidade que se observa e se


dinâmico em que todos esses elementos são ativos. O aluno, com sua
'xperiência cotidiana a ser considerada em sua aprendizagem, é sujeito
ruivo de seu processo de formação e de desenvolvimento intelectual, afetivo
. social; é sujeito que tem ideias em construção, que têm a ver com seu
vive cotidianamente;
.ontexto social mais imediato; o professor, com o papel de mediador do
uma capacidade de análise da realidade, de fatos e fenômenos,
processo de formação do aluno, tem o trabalho de favorecer/propiciar a
em um contexto socioespacial;
mter-relação entre os sujeitos (alunos) e os objetos de conhecimento; a
• a consideração de que os objetos estudados têm diferentes escalas,
ou seja, levar em conta suas inserções locais e globais; --
, iografia escolar, que representa um conjunto de instrumentos simbólicos,
------
conceitos, categorias, teorias, dados, informações,
- - rocedimentos,
--
a consideração de que há uma multiplicidade de ers e~s e constituído em sua história, é uma mediação importante da relação dos
tipos de conhecimento; ulunos com o mundo, contribuindo assim para sua formação geral.
uma compreensão de que conhecer é construir subjetivamente a Nesse ponto, cabe reafmnar a importância da geografia escolar para
realidade; 11 formação dos alunos. Na relação cognitiva de crianças, jovens e adultos

• uma percepção de que há cada vez mais temas polêrni~ (que as


coisas não são simples; que sempre há um lado e outro na
-
com o mundo, o raciocínio espacial é necessário, pois as práticas sociais
---
cotidianas têm uma dimensão espacial; os alunos que estudam geogra ia já
construção de explicações sobre uma dada realidade);

A geografia escolar e a cidade 35


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possuem conhecimentos geográficos oriundos de sua relação direta e professores tratam os temas em si mesmos, sem permitir que sua abordagem
cotidiana com o espaço vivido. O trabalho de educa ão eo~a ajUdajo sirva para transitar na escala global-local, tendo como foco o local. Assim,
alunos a desenvolver modos do ensamento geográfico, a intemalizar métodos continua a ser um desafio trabalhar com situaçõ~s-problema, buscando a
e procedimentos de captar a realidade tendo consciência de sua espacialidade. forma ão de um pensamento conceitual para servir de instrumento da vida
fEsse modo de ensar geográfico é importante para a realização de práticas cotidiana, tendo em mente ao mesmo tempo a com lexidade do mundo
~ociais variadas, já que essas práticas são sempre práticas socioespaciais. A contemporâneo e o contexto local em que se encontra. Na prática, enfim,
materialização dessas práticas que se realizam num movimento entre as continua sendo um desafio Cüii1piiro objetivo básico da geografia na escola,
pessoas e os espaços vai-se tornando cada vez mais complexa, e sua que é o de formar um ensamento geográfico, pensamento espacial
compreensão cada vez mais difícil, o que requer referências conceituais genericamente estruturado para compreender e atuar na vida cotidiana pessoal
sistematizadas, para além de suas referências espaciais cotidianas, carregadas c coletiva.
de sentidos, de histórias, de imagens, de representações.
Portanto, para que o aluno aprenda geografia não apenas para assimilar
e compreender as informações geográficas disponíveis (que são importantes
em si mesmas), mas para f~mar um pensamento esp~l, é necessário
que forme conceitos geográficos abrangentes. AI eiaqúe tenho trabalhado
é a d~ que esses conceitos são ferramentas fundamentais para a compreensão
dos diversos espaços, para a localização e a análise dos significados dos
distintos lugares e de sua relação com a vida cotidiana. O desenvolvimento
'do pensamento conceitual, que permite uma mudança na relação do sujeito
com-o mundo, que proporciona ao sujeito generalizar suas experiêi1C1ãS,é
Papel da escola e das aulas de geografia. No entanto, sabe-se que os conceitos
não se formam na mente do indivíduo por transferência direta ou por
reprodução de conteúdos. Nesse processo é preciso considerar os conceitos
cotidianos dos sujeitos envolvidos. Os conceitos geográficos mais
abrangentes com que tenho trabalhado são: paisagem, lugar, região, natureza,
sociedade e território.
A reflexão sobre princípios epistemológicos da geografia, que inclui
a análise do processo de construção do conhecimento da geografia escolar,
ajuda a compreender as dificuldades de "fazer chegar" os avanços da
geografia acadêmica na prática escolar, a entender por que na prática escolar
há resistências referentes às orientações acadêmicas.
Na prática, a geografia ensinada não consegue, muitas vezes,
ultrapassar ou superar as descri ões e as enumera ões de dados e fenôme~os,
como é tradição dessa disciplina. Nessas condições, o livro didátic.2, muitas
vezes trazendo um conteúdo padronizado, define o que se vai ensinar, e os

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